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 2  
 
Francesco Alberoni 
 
 
 
 
O Erotismo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CÍRCULO DO LIVRO 
 
 
 3  
Círculo do Livro S.A. 
Caixa postal 7413 
01051 São Paulo, Brasil 
 
Edição integral 
Título do original: “L’erotismo” 
Copyright © 1986 Garzanti Editore s.p.a. 
Tradução: Élia Edel 
Capa: detalhe do óleo “Vênus, Cupido, Loucura e Tempo”, de 
Bronzino — National Gallery, Londres. 
Licença editorial para o Círculo do Livro 
por cortesia da Editora Rocco Ltda. 
Venda permitida apenas aos sócios do Círculo 
Composto pela Linoart Ltda. 
Impresso e encadernado pelo Círculo do Livro S.A. 
2 4 6 8 10 9 7 53 
89 91 92 90 88 
 
 
 
 
 
 
 
 PDF original (jpg): Wilker 
 Ocerização: The Flash 
 Formatação e Correção: LAVRo 
 
 4  
 
Sumário 
 
As diferenças ................................ 5 
O sonho da mulher ..................... 17 
O sonho do homem ...................... 47 
Promiscuidade ............................ 89 
Objetos de amor ........................ 118 
Contradições ............................. 166 
Convergências ........................... 189 
 
 
 5  
 
 
 
As diferenças 
 
 
 6  
1 
 
 
O erotismo se apresenta sob o signo da diferença. Uma 
diferença dramática, violenta, exagerada e misteriosa. Essa 
ideia emerge quando observamos com atenção uma banca de 
jornais
1
. Em um canto, um pouco isolada e meio escondida, 
encontramos a pornografia hard-core. Ao lado, um pouco mais 
visíveis, os livros pornográficos da Olympia Press. Ainda mais 
à vista, as revistas eróticas como Playboy e Penthouse. É o 
canto dedicado ao erotismo masculino. São publicações que as 
mulheres não compram, não olham e com relação às quais 
experimentam um certo sentimento de desconforto, desprezo e 
até de irritação. 
Do lado oposto da banca encontramos as publicações 
compradas e lidas exclusivamente por mulheres
2
. A literatura 
água-com-açúcar, os romances da editora Harlequin, os livros 
dos Dellys da vida, de Liala ou de Cartland. O imaginário 
feminino cria outros mitos, alimenta-se de outras imagens e de 
outros acontecimentos fantásticos. O setor do erotismo 
feminino se estende também às revistas que trazem o “Correio 
sentimental”, as histórias amorosas dos artistas, seções de 
moda, de beleza, de ginástica, de decoração, colunas sociais O 
interesse das mulheres pelos cremes de beleza, pelos 
perfumes, sedas, peles, tem um significado mais erótico que 
social. Já no século passado, um primo de Darwin, Sir Francis 
Galton, havia demonstrado que as mulheres possuem uma 
sensibilidade tátil muito mais apurada que a dos homens
3
. 
Havelock Ellis, em seus estudos
4
, afirmava que as mulheres 
possuem um extraordinário erotismo cutâneo. Retomando 
 
1
 O exemplo foi tirado da experiência italiana. Nas ruas das cidades da Itália existem bancas onde 
se vendem jornais, revistas e livros. Não são difundidas, entretanto, as sex shops. 
2
 Helen Hazel, autora de Endless rapture, Rape romance e Female imagination, Nova York, 
Charles Scribner’s Sons, 1983. Antes dela, John Money defendera a tese de que as revistas True 
Confessions e True Love constituem a verdadeira pornografia feminina; ver “Pornography in the 
home” in Zubin J., e Money J., Contemporary sexual behaviour: critical issues in 1970’s. 
Baltimore, The John Hopkins University Press, 1973. 
3
 Francis Galton: “The relative sensibility of men and women at the nape of the neck ’’, Nature, 
1894. 
4
 Havelock Ellis: Sex and the marriage, Londres, Greentvood Press, 1977. 
 7  
essas observações, Beatrice Faust defende a tese de que os 
perfumes, as roupas íntimas delicadas, os corpetes, os saltos 
altos constituem, em seu conjunto, um complexo de estímulos 
de altíssima carga auto-erótica
5
. E os moralistas, que são 
homens, sempre se ocuparam com as zonas erógenas 
enfocadas pela óptica masculina: os seios, as nádegas, o púbis. 
Mas nunca se ocuparam com a pele, porque jamais lhes passou 
pela cabeça que fosse exatamente a pele a zona erógena 
feminina por excelência. As indústrias cosméticas, com suas 
loções, massagens, perfumes, bálsamos, espumas para banho, 
voltam-se para esse erotismo, fornecem-lhe os produtos; 
parece também que as mulheres, eroticamente, são muito mais 
sensíveis ao ritmo, à música, aos sons. Resumindo, o erotismo 
masculino é mais visual, mais genital. O feminino, mais tátil, 
muscular, auditivo, mais ligado aos odores, à nele, ao contato
6
. 
Hoje, com muita frequência essas diferenças vêm sendo 
minimizadas como consequência da milenar divisão das tarefas 
entre os sexos e, em particular, do domínio masculino. A 
diversidade entre os dois sexos — segundo essa tese — 
expressa as mutilações que cada um deles sofreu por causa 
desse domínio. O homem, empenhado em seu trabalho, na vida 
social é ativo, quer saber dos resultados finais e se imagina 
independente, livre de sentimentos, dotado de uma infinita e 
insatisfeita potência sexual. A mulher, fechada em casa, 
imagina-se frágil, fraca, necessitada de apoio emocional por 
parte do homem. Por isso se ocupa com o corpo, a pele, a 
beleza. Mas esses seriam resíduos do passado, destinados ao 
desaparecimento. Quase todos os autores que escrevem sobre o 
assunto, portanto, propõem receitas sobre como superar esse 
provisório estado de coisas e como eliminar as diferenças que 
ainda persistem. Não as estudam, não as levam a sério. 
Esforçam-se, apenas, em demonstrar seu absurdo. 
Mas é correto proceder dessa maneira? Certamente as 
diferenças entre homens e mulheres são o sedimento de 
milênios de história e de opressão. Faz apenas algumas 
décadas que o relacionamento entre os dois sexos começou a 
mudar. O que hoje nos parece natural e perene um dia não 
 
5
 Beatrice Faust: Woman sex and pornography, Nova York, Penguin Books, 1981. 
6
 Ibidem. Ver também Susan Brownmiller: Feminity, Nova York, Fawcett Comumbine, 1987. 
HELIO
Realce
HELIO
Realce
 8  
existirá mais. Estudando o erotismo não descrevemos um 
estado, mas um processo. E a primeira vez, na história da 
humanidade, que mulheres e homens se observam a fundo para 
se compreenderem. Para isso devem identificar-se, assumir o 
papel um do outro. Nota-se isso perfeitamente na maneira de 
vestir, com o aparecimento da moda unissex, as mulheres 
usando os modelos masculinos (jaquetas, calças) e os homens, 
os femininos (roupões, cosméticos). 
A própria possibilidade do erotismo, seu aparecimento no 
Ocidente, é o resultado dessa descoberta, do jogo da troca de 
papéis, por meio do qual cada um penetra nas fantasias 
eróticas do outro, cedendo-lhe as suas. Justamente por isso, 
porém, é importante deter-se sobre as diferenças, sobre o que 
cada um dos sexos possui de específico, de peculiar. 
Entretanto, nada desaparece sem deixar vestígios. A vida 
sexual, amorosa e erótica das mulheres e dos homens dos 
próximos anos certamente será diversa, mas não totalmente 
diferente, comparada com a de hoje. O vir-a-ser é sempre uma 
síntese entre o antigo e o novo. Os arquétipos depositados na 
nossa cultura
7
, as figuras que determinam a aprendizagem, 
serão reelaborados, não destruídos. Não é possível livrar-se 
das diferenças entre homem e mulher como se fossem apenas 
ilusões. O ponto de partida não pode ser um exorcismo. 
No momento atual, mulheres e homens buscam o que os 
iguala, superando as diferenças. Possuem, entretanto, 
sensibilidades, desejos e fantasias diferentes. 
Ambos, com frequência, imaginam o outro como na 
realidade ele não é, e esperam dele coisas que não pode dar. O 
erotismo se apresenta, então, sob o signo do equívoco e da 
contradição. Apesar disso, os encontros acontecem, existe a 
atração recíproca, existe o enamoramento. Como é possível? 
Qual é o caminho que conduz dasdiferenças ao entendimento, 
à compreensão, ao encanto do amor? 
É disso que trata este livro. 
 
 
7
 Na psicologia junguiana, a parte feminina do homem é chamada anima e a parte masculina da 
mulher, animus. Ver Carl Gustav Jung: O eu e o inconsciente (L’io e l’inconscio), in Opere, vol. VII, 
Turim, Boringhieri, 1983. 
HELIO
Realce
HELIO
Realce
 9  
2 
 
1. A pornografia é uma figura do imaginário masculino. É a 
satisfação alucinatória de desejos, necessidades, aspirações, 
medos próprios deste século. Exigências e medos históricos, 
antigos, mas que persistem até hoje e que ainda são ativos. 
As mulheres não se interessam particularmente em olhar a 
fotografia de um homem nu. De um modo geral, isso não as 
excita sexualmente. A um entrevistador de televisão que lhe 
perguntou qual a imagem de homem que considerava mais 
excitante, Barbara Cartland respondeu: “Completamente 
vestido e, de preferência, de uniforme”. Os homens, ao 
contrário, ficam excitados com a nudez da mulher e fantasiam 
um relacionamento sexual com ela. Há alguns anos, antes da 
legitimação da pornografia, havia fotos e desenhos que os 
homens passavam de mão em mão, secretamente. Os barbeiros 
tinham o hábito de presentear os clientes com pequenos 
calendários perfumados, com figuras de mulheres em roupas 
sumárias. Era pouquíssimo, quase nada comparado ao furacão 
de estímulos de hoje, mas suficiente para provocar excitação. 
Também as estátuas, ou a reprodução das estátuas nuas da 
Antiguidade, sempre serviram aos rapazes como material 
pornográfico, para se masturbarem. 
À excitação também pode ser provocada pela literatura e, 
mais recentemente, pelo cinema. O que caracteriza o conto 
erótico masculino foi muito bem descrito por Pascal Bruckner e 
Alain Finkielkraut
8
. A pornografia, observam eles, é um suceder 
contínuo de atos sexuais, sem que necessariamente haja uma 
história. Os protagonistas masculinos não precisam fazer nada. 
Caminham por uma rua, e uma mulher gostosa os leva para a 
cama. No escritório, uma secretária se despe e, sem uma única 
palavra, inicia uma felação. A pornografia ostenta um universo 
fabuloso “onde não se precisa mais seduzir para obter, onde a 
concupiscência não se arrisca jamais nem a ser reprimida nem 
a ser rechaçada, onde o momento do desejo se confunde com o 
da satisfação, ignorando com soberba a figura do Opositor... O 
 
8
 Pascal Bruckner, Alain Finkielkraut: II nuovo disordine amoroso, trad., ital., Milão, Garzanti, 
1979. 
 10  
relacionamento sexual não se situa ao término de uma 
maturação, de uma espera, de um trabalho. É um presente, não 
um salário. Os heróis pornográficos estão milagrosamente 
isentos do dever de conquistar e de perder-se em prelúdios 
amorosos: basta um olhar e as mulheres ficam nuas e 
disponíveis; nada de apresentações, trocas de cumprimentos, 
nenhum preâmbulo...
9
” As mulheres despertam o desejo antes 
mesmo que o homem tenha pensado em se aproximar delas. 
Na pornografia (masculina), as mulheres são imaginadas 
como seres fabulosamente sensuais, arrastadas por um 
impulso irresistível de atirar-se sobre o pênis, isto é, do 
mesmo modo que os homens fantasiam comportar-se com elas. 
A pornografia imagina as mulheres dotadas dos mesmos 
impulsos masculinos, atribuindo-lhes os mesmos desejos e as 
mesmas fantasias. Imagina, além disso, que os dois desejos se 
encontram sempre. Duas pessoas quaisquer, a qualquer 
momento, desejam a mesma coisa, uma da outra. Não existe 
procura nem oferta. Não há troca. Todos dão tudo e recebem 
tudo. O desejo é sempre ardente e sempre satisfeito. É o 
equivalente erótico do Paese del Bengodi, a fantasia em que o 
faminto via correr rios de leite, vinho e mel. Árvores que, no 
lugar dos frutos, exibiam frangos assados, salames e salsichas. 
Ele sonhava a satisfação instantânea de sua fome sem 
necessidade de canseiras, de trabalho, sem o pesadelo da 
carestia. E, apesar da abundância ilimitada, imaginava uma 
fome sempre viva, devoradora, a fome da miséria. 
Nesse universo imaginário não há lugar para nenhum outro 
sentimento, para nenhuma outra relação. A imaginação erótica 
masculina pura livra-se de tudo o que lhe pode servir de 
obstáculo. Percebe-se isso claramente, mesmo nos grandes 
escritores. Tomemos Henry Miller, como exemplo
10
. Também 
para Miller o erotismo é sempre um relacionamento sexual 
repentino, fácil, desenfreado, com uma mulher jamais vista 
antes, ou conhecida há alguns instantes. É perfeito, a primeira 
é a última vez. Da mulher nada mais interessa além do sexo. Se 
Miller acrescenta alguma particularidade — intelectual, voraz, 
tímida, reservada —, é sempre referente ao sexo. Não há nem 
 
9
 Ibidem, pp. 57-38. 
10
 Ver especialmente Opus pistorum, trad. ital., Milão, Feltrinelli, 1984. 
 11  
ao menos a descrição do corpo. Não diz se é morena, loura ou 
ruiva. A única coisa que diz é a raça: em geral, judia ou negra, 
e depois seu comportamento no ato sexual: ávido, desenfreado. 
Também para Miller todas as mulheres “topam”. Todas, 
absolutamente todas, e de um modo simplíssimo e repentino. 
Nunca um obstáculo, jamais uma recusa. E topam, não porque 
estejam fascinadas por uma qualidade qualquer do homem, 
mas porque estão tremendamente desejosas de sexo. Ele as 
toca, e elas soltam todos os freios. É um gesto mágico que não 
admite exceções, uma potência irresistível. Todas ficam 
excitadas, cheias de desejo, molhadas, insaciáveis. É o 
encontro do macho com a cadela no cio. A razão, a civilidade, a 
educação, são frágeis barreiras que um simples toque faz 
desaparecer num instante. 
Há uma ligação entre essas fantasias e a prostituição. A 
prostituta é, com seu corpo real, a encarnação da mulher 
famélica de sexo, representada pela pornografia. A prostituta 
“agarra” o cliente. Não espera que ele a procure, a convide, a 
seduza. É ela que toma a iniciativa. Dá-lhe uma piscadela, um 
sorriso convidativo, faz-lhe um sinal de entendimento com a 
cabeça. Passando a seu lado, chama-o de gostoso, de bonitão, 
convida-o a acompanhá-la. Faz o que, na realidade, nenhuma 
mulher faz. A mulher espera a iniciativa masculina. Mesmo que 
sua intenção seja a de seduzir, não convida abertamente o 
homem. Espera que o outro decifre o gesto que é um convite, 
que compreenda. A prostituta, ao contrário, seduz o homem 
como ele gostaria de poder seduzir a mulher. Pela simples 
exibição do corpo, convidando-o, prometendo prazeres 
extraordinários. A prostituta age como a protagonista dos 
romances pornográficos masculinos. Comporta-se, na verdade, 
como se comportam as atrizes dos filmes hard-core. Realiza a 
fantasia masculina de ter seduzido uma mulher alucinada pelo 
seu pênis. Ele não terá de fazer nada. Permanecerá 
completamente passivo. Será suficiente que expresse seus 
desejos, para vê-los satisfeitos. E tudo isso acontecerá, não na 
fantasia, mas na vida real. 
Também o relacionamento com a prostituta, no entanto, 
continua a ser uma viagem pelo fictício. Porque a prostituta 
não sente o interesse erótico que demonstra. Finge. Finge para 
 12  
ganhar dinheiro. É uma atriz e quer ser paga pela sua 
representação. Corresponde às fantasias sexuais masculinas, 
aceita seus ritmos, seus desejos eróticos, mesmo que não os 
aprecie, já que nada têm a ver com estes. Mas isso por um 
período limitado e por um preço previamente combinado. 
Pornografia e prostituição nos mostram que há uma região 
do erotismo masculino totalmente estranha à mulher. Que não 
a interessa. Que ela aceita apenas por dinheiro, isto é, como 
atividade explicitamente não-erótica, profissional. 
 
2. Passemos agora ao outro lado da banca, onde 
encontramos os romances água-com-açúcar. Estes são uma 
manifestação típica do erotismo feminino, como a pornografia 
é uma manifestação típica do erotismo masculino.O gênero água-com-açúcar, ou cor-de-rosa, que 
corresponde ao inglês romance, desenvolveu-se 
independentemente em todos os países ocidentais. Pensemos 
no incrível sucesso de venda da italiana Liala, dos franceses 
Dellys e da anglo-americana Barbara Cartland. Somente esta 
última já vendeu mais de quatrocentos milhões de exemplares. 
Por outro lado, a editora Harlequin vendeu, somente em 1980, 
188 milhões de exemplares nos Estados Unidos, 23 milhões na 
Franca e cerca de vinte milhões na Itália. Essa literatura é 
dirigida exclusivamente às mulheres e não desperta o menor 
interesse no público masculino. A estrutura do romance rosa 
foi amplamente estudada
11
, e todas as pesquisas revelam que 
ela tem poucas variantes. A história principal pode ser assim 
esquematizada: há uma heroína que se parece com uma mulher 
comum. Nunca é belíssima. Ou então, se é bonita, tem algum 
pequeno defeito, a boca grande demais, os olhos distanciados, 
o rosto ligeiramente ossudo. É inteligente, trabalhadora, 
honesta. É virgem ou não teve outras experiências amorosas. Se 
as teve, foram infelizes, águas passadas. Nos últimos 
 
11
 Em italiano temos a análise de Maria Pia Pozzato: II romanzo rosa, "Espresso Strumenti”, 
Milão, Editori Europei Associati, 1982. Ver também Susan Koppelman Cornillon: Image of women 
in fiction, Bowling Green, Ohio, Bowling Green Popular Press, 1976; Nina Baym: Women’s fiction, 
Ithaca, Cornell University Press, 1978; Marilyn French: The women’s room, Nova York, Summit 
Books, 1975; Jeanne Cressanges: Tutto quello che le donne non hanno detto , trad. ital., Milão, 
Rizzoli, 1983, pp. 71-95. 
 13  
romances, é divorciada. Em geral, não é rica. Está inserida em 
seu ambiente, não sofre de solidão. Se tem possibilidades, ela 
mesma as desconhece. Não se valoriza. Mas o livro 
demonstrará, com os fatos, que é capaz de suscitar um grande, 
apaixonado amor. Essa mulher, em determinado ponto da 
história, encontra um homem extraordinário. Que seja ele o 
predestinado, o eleito, compreende-se imediatamente, quanto a 
isso não há a menor dúvida. É alto, forte, seguro de si. Na 
maior parte das vezes possui olhos de aço, cinzentos, frios, 
distantes. A mulher sente-se perturbada porque ele lhe parece, 
a um só tempo, fascinante e inatingível. É bonito demais, rico 
demais, admirado demais, adorado demais pelas outras 
mulheres, para que ela possa esperar ser notada. 
Mas, contrariando todas as expectativas, realiza-se o 
milagre. Essa criatura distante, selvagem, pérfida, indomável, 
superior, olha para ela, interessa-se por ela. Já estamos no 
centro do acontecimento erótico. Acontece o improvável, o 
inaudito. A mulher é percorrida por um frêmito de excitação, 
fica transtornada. Gostaria de poder acreditar que ele se 
interessa verdadeiramente por ela, mas teme entregar-se a esse 
pensamento. Aquele homem é um sedutor, um dom-juan dono 
de um poder perigoso. 
Por esse motivo desconfia, resiste. A essa altura aparece, 
em geral, uma rival. Uma mulher sem preconceitos, de hábitos 
livres, mestra na arte da sedução. A história, aqui, pode ter 
numerosas variantes. Pode acontecer, por exemplo, que a rival 
parta com o homem e depois lhe envie, de Acapulco, a 
participação de casamento. A presença da rival, seu sucesso e a 
incrível distância do herói fazem com que a heroína se 
convença de tê-lo perdido; desespera-se, perde o controle, 
foge. 
O homem, porém, antes de ir embora, insiste, torna a 
convidá-la. É terno, atencioso, interessado. Agora a heroína já 
está apaixonada por esse homem forte e gentil, por esse 
aventureiro delicado, por esse dom-juan que se interessa 
unicamente por ela. Não sabe, porém, se ele a ama de verdade. 
Muito pelo contrário, está convencida de que não a ama, que se 
trata apenas de simpatia, amizade, ou então de uma aventura. 
Por isso retrai-se novamente, protege-se, faz uma cena, vai 
 14  
embora. Isso cria problemas para o homem, que — como se 
compreenderá somente no final — está verdadeira e 
profundamente apaixonado. 
Há, portanto, um duplo mal-entendido. Ambos estão 
apaixonados, mas ambos pensam não ter o amor retribuído. A 
história se desenvolve como num romance policial. O problema 
da mulher é saber se, apesar das aparências, o homem a ama 
ou não. Eu disse “apesar das aparências”, porque estas são 
incrivelmente contrárias. Ele se comporta cruelmente com ela. 
Protege-a, mas a seguir insulta-a e manda-a embora. Ela vem a 
saber que ele é casado com uma mulher lindíssima e 
inescrupulosa. Ou então ele a abandona em plena floresta. 
Pode até acontecer de ela encontrá-lo na cama com a rival. Ou 
que descubra os vestidos da outra em seu armário. No código 
do romance policial, tudo depõe contra ele. 
No final, a solução: não era culpado. Jamais se interessara 
pela rival e nunca fora casado. Abandonara-a na selva, mas 
somente para poder salvá-la. Sim, de fato estava na cama com 
uma mulher, mas porque fora ferido e a mulher simplesmente 
estava inclinada sobre ele. Quanto aos vestidos no armário, 
estavam ali havia anos. Tudo o que na vida real não passaria de 
mentira descarada mostra-se verdadeiro. O homem, na 
realidade, apesar das aparências em contrário, jamais cometeu 
nada de culpável. Tudo foi apenas obstáculo externo, acaso, ou 
então equívoco, mal-entendido, ilusão. 
Esta é uma história típica, talvez a mais frequente. Helen 
Hazel demonstrou, porém, que também os romances em que a 
heroína é estuprada, vendida como escrava, obrigada à 
prostituição, entram no esquema geral da conquista do 
verdadeiro amor
12
. No romance rosa, as peripécias são 
representadas pelos mal-entendidos e pelas dúvidas. Nos 
outros, são adversidades reais, físicas, que a heroína deve 
superar. 
Esse erotismo não tem quase nada a ver com o sexo. 
Podem existir relacionamentos sexuais. Sobretudo na literatura 
mais recente, a heroína faz amor de maneira alucinada. Mas as 
emoções profundas que são o que há de especificamente 
 
12
 Helen Hazel: Endless rapture. 
 15  
erótico nessas histórias não derivam do relacionamento sexual, 
e sim da languidez, do arrepio causado pela emoção. Da 
inquietação do ciúme. Da paixão que vem sem ser chamada e 
que aperta o coração, que faz sofrer, esperar. O erotismo aflora 
quando essa mulher comum, que nada tem a oferecer, sente o 
olhar e o interesse do herói pousados nela ou quando acontece 
o inacreditável, como no mito de Cinderela ou de todos os 
fracos a quem tudo é dado, por graça. O erotismo é também 
ansiedade, medo de não ser amada. É necessidade de ser 
procurada, procurada e mais procurada. É recusa, é dizer “não” 
com a ansiosa esperança de que o amado volte apesar daquele 
“não”. O erotismo atinge seu ponto alto nesta tensão, nesta 
indagação contínua, sempre desiludida e sempre renascente: 
“Ele gosta de mim? me deseja? me ama?” 
Sujeitam-se também a essa regra inexorável obras que 
estão muito longe da literatura rosa, como, por exemplo, os 
livros de Jackie Collins ou de Erica Jong. 
 
3. A pornografia masculina e os romances cor-de-rosa têm 
algo em comum. No primeiro caso há uma mulher belíssima, 
que, na vida real, não lhe daria a menor confiança, recusaria 
seus assédios, ou então gostaria de ser convidada para um 
cruzeiro ao Taiti, hospedar-se em hotéis de luxo e frequentar 
restaurantes refinados. Depois lhe pediria que se casasse com 
ela. Ao contrário, na pornografia, ela é cheia de desejo, pronta, 
disponível. Do outro lado há um homem bonito, famoso, 
milionário, que, na vida real, não lhe daria a menor confiança, 
mas que, ao contrário, manda-lhe cem cartas de amor, buquês 
de rosas, comete loucuras e pede que se case com ele. 
Recusado, insiste; rechaçado, espera. Renuncia aos seus 
hábitos, torna-se delicado, doméstico, marido. Duas coisas 
inacreditáveis e impossíveis, mas, para os dois sexos, 
igualmenteexcitantes e igualmente incompreensíveis ao outro. 
Há uma outra correspondência sutil entre os dois gêneros. 
No erotismo rosa, a heroína que se apaixona não possui 
vínculos, liames. Ou não é casada, ou é divorciada ou, de modo 
definitivo, é casada com o homem que ama. Não tem dilemas, 
portanto. Não encontra obstáculos interiores à realização de 
seu amor. Os obstáculos são sempre e exclusivamente 
 16  
externos. Ele não compreende, a amiga-inimiga o rouba. 
Também ele ou é livre, ou é divorciado, ou não tem ninguém 
que lhe importe verdadeiramente. Se retribui o amor, não tem 
dúvidas, não tem arrependimentos. A única questão, para ela, é 
a seguinte: “Ele me ama e me amará?” E para ele: “Eu a amo e a 
amarei?” Não se admite nenhum dilema. Não se admite o 
compromisso. Ou é tudo sim, ou tudo não. 
Ambos os gêneros representam a satisfação imediata de 
um desejo, eliminando a realidade embaraçosa. A pornografia 
masculina elimina a resistência feminina, a necessidade de 
galanteios, a exigência de amor. Os romances cor-de-rosa, por 
seu lado, eliminam os impedimentos, as dúvidas, as 
responsabilidades. A heroína jamais rouba o marido de uma 
mulher fiel, jamais abandona um noivo ou um marido que a 
ama, não tem problemas com os filhos, jamais precisa 
enfrentar a delicada situação de amante. Os dois são sempre 
livres, desiludidos de um amor anterior, em busca de uma nova 
vida, não fazem mal a ninguém. As dificuldades verdadeiras 
não existem, são eliminadas. 
 
 
 17  
 
 
O sonho da mulher 
 
 
 18  
3 
 
1. Nos homens, após o ato sexual, há em geral um 
decréscimo desinteresse pela mulher É um fenômeno que tem 
muitas gradações, muitas nuances. Está apenas esboçado no 
homem apaixonado que abraça com força a amada, como se 
não quisesse mais separar-se dela. Atinge seu ponto máximo no 
relacionamento com a prostituta porque, neste caso, o desejo 
desaparece imediatamente, e o homem gostaria de já se ver 
vestido, fora do quarto, fora do hotel, bem longe. Existem 
ainda as situações intermediárias, em que o homem perde o 
interesse momentaneamente. Depois, aos poucos, reacende-se 
nele o desejo sexual e com este, a ternura, a vontade de ficar 
ao lado da mulher, de acariciá-la, olhá-la, fazer novamente 
amor. Num encontro amoroso o homem prefere falar, ler, 
brincar antes do ato sexual, e concluir o encontro com o êxtase 
amoroso. Depois do que, parte contente, realizado, 
enriquecido. Para ele, esse é o momento mais oportuno, mais 
bonito por causa da separação. É como largar um livro policial 
quando se revela o nome do criminoso. O que vem depois pode 
até ser útil, interessante, mas não é mais essencial. Ou como 
quando, depois de um longo esforço, resolve-se um difícil 
problema. A demonstração mais acurada, o teor da relação 
podem vir mais tarde. O grito de Arquimedes, “Heureka”, 
exprime esse estado de realização feliz, que é também vontade 
de mexer-se, de sair, de correr. 
A mulher interpreta esse comportamento como rejeição, 
desinteresse. Sente-se tratada como um alimento delicioso que 
provoca grande desejo antes de ser saboreado, mas que depois, 
quando já se está saciado, torna-se enjoativo. Só que ela não é 
um alimento, é uma pessoa. O homem, antes, a cortejava, 
mimava, desejava. Não queria apenas seu corpo, suas pernas, 
seus seios, seu sexo. Queria sentir seu desejo, admirava sua 
inteligência. Queria conversar com ela, conhecer sua história, 
participar de sua vida, fazer projetos. Depois do orgasmo — ou 
de um certo número de orgasmos —, é como se ela 
desaparecesse como pessoa, restando apenas um corpo 
rejeitado. 
 19  
Essa experiência de ser tratada como um corpo (rejeitado) 
é pré-datada. A mulher é levada a pensar que na verdade o 
homem queria apenas descarregar sua tensão, que seu 
interesse por ela como um ser total não existia, nem ao menos 
antes. Era apenas para satisfazer seu desejo sexual que ele 
falava, que ouvia. O encontro intelectual e emotivo, a 
intimidade, eram apenas um meio para atingir um fim. Porque, 
se ele a tivesse verdadeiramente desejado como pessoa, teria 
continuado a desejá-la. Ficaria junto dela, ternamente 
abraçado. Satisfeito o impulso sexual, permaneceria feliz a seu 
lado, acariciando-a, aspirando seu perfume. Não se teria 
levantado. Pelo menos, antes que ela estivesse cansada. 
O desejo da mulher de permanecer ao lado do homem 
depois do orgasmo (ou orgasmos) é muito mais forte quando 
ela está apaixonada. Porém, existe sempre, desde que aquele 
homem lhe agrade. Isso porque o orgasmo da mulher é mais 
prolongado, mas, acima de tudo, porque ela sente a 
necessidade de ser desejada, de agradar de modo contínuo, 
duradouro. A separação do homem lacera, interrompe essa 
continuidade. Uma vez que o prazer na mulher se manifesta 
como necessidade de continuidade, a interrupção não pode 
significar outra coisa a não ser desinteresse, rejeição. 
Estamos diante de uma estrutura temporal, diversa nos 
dois sexos. Há uma preferência profunda do feminino pelo 
contínuo e uma preferência profunda do masculino pelo 
descontínuo
13
. Quando as mulheres dizem que apreciam a 
ternura, os carinhos, e que por isso mesmo os preferem ao ato 
sexual, não se referem apenas ao aspecto tátil, sensível da 
experiência. Indicam a necessidade de atenção amorosa 
prolongada, de interesse contínuo com relação à sua pessoa. A 
prevalência do tátil é somente uma manifestação dessa mais 
profunda prevalência do contínuo. 
 
13
 A explicação mais racional do fenômeno é a apresentada por Lillian B. Rubin: Intimate 
strangers, Nova York, Harper Colophon, 1983. 
Rubin lembra que a mulher, de modo diferente do homem, não se deve diferenciar do seu 
objetivo primário de amor e de identificação, que ê a mãe. Essa experiência leva -a a 
experimentar um senso de continuidade com as pessoas que ama. Ela tende à fusão e, às vezes, 
à confusão com o amado. De modo menos claro veja também, sobre este assunto, E. New- 
mann: La psicologia dei femminile, trad. ital., Roma, Astrolabio, 1975, e Silvia di Lorenzo: La 
donna e la sua ombra, Milão, Emme Edizioni, 1980. 
 20  
A contraposição contínuo-descontínuo é ponto 
fundamental da diferença feminino-masculino. No decorrer 
deste livro tornaremos a encontrá-la várias vezes em todos os 
relatos, inclusive nos modos de pensar ou de descrever a 
experiência subjetiva. Para a mulher, os vários estados 
emotivos são menos diferenciados que no homem. Para a 
mulher, a ternura e a doçura combinam com o erotismo, 
inserem-se nele harmoniosamente. Para o homem, isso 
acontece com muito menor frequência. A mulher sente como 
erótica tanto a emoção provocada pelo contato do corpo do 
filho como aquela provocada pelo contato com o corpo do 
amante. As vezes, gostaria de tê-los a seu lado juntos, juntos 
na mesma cama. Para o homem são experiências 
completamente diversas. Também a diferença entre amizade e 
amor é mais tênue na mulher. Dorothy Tennov observou que as 
mulheres confundem mais facilmente a enfatuação erótica e a 
paixão
14
. O homem, ao contrário, tende a acentuar as 
diferenças, a separar as diversas emoções
15
. 
Daí decorre uma curiosa consequência. Como o homem 
experimenta emoções diversas, não comparáveis, não tem 
necessidade de mudar rapidamente a sua orientação emocional. 
Não passa do amor à rejeição, do não ao sim, e vice-versa. A 
mulher, ao contrário, exatamente porque se move entre 
emoções semelhantes, quando precisa estabelecer uma 
diferença, o faz em termos de aceitação ou de recusa, de sim 
ou de não. Tende a fazer um julgamento de valor, não de 
qualidade. Por isso, às vezes, ela parece mais descontínua que 
o homem. Porque antes amava, sentia ternura, erotismo, 
amizade, admiração, e depois, quando acontece a rejeição, não 
 
14
 Dorothy Tennov: Love and limerence, Nova York, Stein andDay, 1979. 
15
 A confusão feminina, em contraste com a ordem, o logos masculino, é um mito antiqüíssimo. 
Na mitologia babilônia, “Ti Amat é o ventre primordial eternamente jovem e fecundo... é a 
confusão do pântano onde vapores infectos, águas doces e águas salgadas se misturam e se 
confundem. Não possui nenhuma estabilidade, no próprio seio gera toda sorte de criaturas 
monstruosas, anormais, inferiores, recalcitrantes. Daí a necessidade de uma severa atuação para 
pôr as coisas em ordem, da parte das forças masculinas”. Ti Amat será então aprisionada por 
Marduk, deus dos ventos e da chuva. Gabriella Buzzatti: L’immagine intollerabile, i labirinti 
dell’Eros, Atas da Convenção de Florença, 27-28 de outubro, 1984, Milão, Libreria delle donne. A 
psicologia junguiana identificou melhor que a freudiana a tensão intrínseca do erotismo 
feminino. Neste, uma imagem é Afrodite, que tende à fusão, à participação mística com o 
homem. A outra é Ártemis, a virgem, que o rejeita e vive para si mesma. Ver Silvia di Lorenzo: La 
donna e la sua ombra. 
 21  
sente mais nada. Todas as emoções, enquanto indiferenciadas, 
desabam juntas. A descontinuidade se apresenta como tudo ou 
nada. 
 
2. Essa natureza contínua, no tempo e no espaço, aparece 
claramente na excitação sexual feminina e na natureza diversa 
de seu orgasmo. Porque se é verdade que a mulher pode ter 
orgasmos semelhantes aos masculinos
16
, sua experiência global 
é totalmente diferente. Não está localizada num ponto, não 
persegue uma meta e não se exaure num ato. 
A continuidade do erotismo feminino cria, no homem, uma 
forte atração e, ao mesmo tempo, inquietude. De fato, o 
homem entende a continuidade como intensidade, o desejo de 
proximidade como desejo de orgasmo, o erotismo difuso, 
cutâneo, muscular, como paixão transbordante, impossível de 
ser contida. Pascal Bruckner e Alain Finkielkraut deram voz a 
essa emoção masculina escrevendo: “Os espasmos da amada 
não possuem a certeza rudimentar da ejaculação viril; são o 
rosto contraído que, sob o efeito de uma insustentável 
devastação, não me vê mais, o rosto que não posso conter num 
olhar como durante o sono, a pele incandescente que adere à 
minha ou de mim se afasta, o vertiginoso balé de pernas, 
braços, beijos, que me aperta, me repele, se exaspera ao meu 
contato, aumenta se afastada de mim, me fala de mil coisas 
que não entendo e me repete somente isto: ‘Não estou onde 
você está, perco o senso onde você não se altera, de mim você 
não terá nem visão clara nem percepção exata, porque não sou 
nada nos termos em que você pode compreender...’
17
” E 
continuam: “Pelo que sabemos, uma única música se aproxima 
ou equivale ao gozo feminino, a música oriental, geralmente 
mal tolerada no Ocidente por causa de sua estrutura repetitiva, 
obsessiva...
18
” E mais adiante: “Orgasmos, portanto, no plural, 
que jamais se repetem da mesma maneira, como um conto que 
justapõe num mosaico barroco muitos começos, muitos fins, 
muitas intrigas e linearidades, princípio de desorganização 
 
16
 William H. Masters e Virgínia E. Johnson: L’atto sessuale nell’uomo e nella donna, trad. ital., 
Milão, Feltrinelli, 1967. 
17
 Pascal Bruckner e Alain Finkielkraut, já citado. 
18
 Ibidem. 
 22  
permanente no que se refere a uma carne que espera sempre 
apenas espasmos idênticos... Ela jamais goza no sentido em 
que sua excitação terminou, goza e é um gozo que circula 
sempre sem extinguir-se, reabsorver- se... A sua única 
exigência é: tributem honra a todas as partes, à boca e ao sexo, 
ao útero e à vulva, à orelha e ao ânus, ao joelho e à delicada 
pele das pálpebras... Estejam em todos os lugares, contanto 
que esse gozo... não esteja mais em lugar nenhum”
19
. 
Bruckner e Finkielkraut, após terem intuído a natureza 
contínua da excitação sexual feminina, sentem quase vergonha 
da simplicidade masculina. Como se fosse uma modalidade 
empobrecida, grosseira da outra. Em vez disso, a organização 
sexual masculina tem estrutura diversa. Exatamente porque ela 
tem crescendos e finais, produz a escansão da feminina. Excita-
a e, ao mesmo tempo, a frustra. Mas a frustração, por sua vez, 
produz desejo. Sim, é verdade, a mulher perde o senso onde o 
homem não o encontra, reage onde nem ele nem ela esperam 
uma resposta. Mas é também verdade que a separação 
masculina, que se afasta para olhar e ver, obriga a mulher a 
focalizar o homem como objeto, e a colocar-se na mesma 
situação. O erotismo não é anulação total, perda de identidade, 
fragmentação sem fim. É um processo dialético entre contínuo 
e descontínuo. 
 
3. Simone de Beauvoir escreveu páginas cáusticas sobre a 
necessidade da mulher de ter a seu lado, fisicamente, o homem 
amado. “A essência”, escreve ela, “é sempre uma tortura... 
mesmo sentado a seu lado, enquanto lê ou escreve, ele a 
abandona, a trai. Ela odeia seu sono.”
20
 Simone de Beauvoir e as 
feministas explicam esse comportamento com o fato de que a 
mulher é obrigada, pela sua condição social, à passividade. 
Somente o homem é ativo. Ela procura, então, através do amor, 
englobar a atividade do homem para poder estar em seu 
mundo. Procura a fusão com ele para sair de sua maneira de 
ser incompleta. Quando ele parte, quando a deixa, sente-se 
perdida, porque sem ele não é nada. Mas esse estado de coisas 
— segundo Beauvoir — está destinado a desaparecer, quando 
 
19
 Ibidem. 
20
 Simone de Beauvoir: O segundo sexo, já publicado no Brasil. 
 23  
também a mulher tiver conquistado sua autonomia e sua 
atividade. Então, mesmo que o homem esteja longe, não se 
sentirá mais vazia. 
Naturalmente, a condição histórica da mulher tem um peso 
relevante na sua reação excessiva ao desinteresse do homem. 
Uma mulher com atividade própria, vontade própria, com 
profissão definida, não se sente arrasada se seu amado dorme 
ou viaja. Mas a necessidade de aproximação, de intimidade, de 
continuidade prossegue. Depois de ter feito amor, a mulher 
olha com ternura o seu amado adormecido. Sente-o terno, 
indefeso. Os traços de seu rosto já não estão mais tensos, 
tornaram- se serenos como os de um adolescente ou de um 
menino. Tudo isso é muito bonito para a mulher que ama. O 
sono lhe dá um sentimento de aproximação, de intimidade, 
como se o tivesse nos braços ou dentro de si. O sono é uma 
consequência comovente de seu amor. A mulher somente sente 
o sono como uma rejeição quando não ama o seu homem, 
quando não o suporta. La Beauvoir, neste ponto, não tem razão 
em sua descrição. Por outro lado, também a mulher ativa, 
também a mulher que tem sucesso, que não teme o mundo, 
experimenta um sentimento de desapontamento quando 
percebe seu homem distraído, longe. Não é o sono que separa, 
é o desinteresse, o pensamento distante, o ir embora, mesmo 
que seja apenas com a mente. Porque também ela deseja, 
também ela necessita de sua presença amorosa contínua, da 
continuidade de seu interesse. 
Existe uma estreita ligação entre o erotismo tátil, 
muscular, entre a capacidade de sentir os odores, os perfumes, 
os sons e o prazer de ser desejada e amada de modo contínuo. 
A mulher quer sentir a presença física de seu homem, sentir as 
mãos dele sobre sua pele, a força doce e acolhedora de seu 
abraço, seu cheiro, a mistura dos cheiros que se torna perfume. 
Quer ouvir sua voz profunda a chamá-la. Quer sentir a 
aspereza de seus pêlos, o peso de seu corpo, a força delicada 
de sua mão, o leve contato de entendimento entre seus dedos, 
o furtivo tocar-se que renova a declaração de amor de maneira 
infinitamente melhor que quaisquer palavras. Quer perceber 
sobre si seu olhar apaixonado e cheio de admiração quando usa 
um vestido novo e, ao mesmo tempo, sentir o roçar do tecido 
 24  
leve no bico dos seios. Sentir-se desejada quando caminha, e 
que aquele desejo é provocado pelo meneio sensual de seus 
quadris.Quer sentir o cheiro das roupas dele, de seu corpo 
viril, a onda excitante do perfume de mulher que se mistura ao 
dele, que é também mistura de emoções. 
Tudo isso acontece sob o registro da continuidade. 
Continuidade de ternura, carícias, palavras, penetração, 
sussurro. Imenso mar em que as sensações se sucedem como 
ondas, transformando-se umas nas outras. Continuidade nas 
metamorfoses. Continuidade dos corpos, das peles, dos 
músculos, dos odores, dos passos, das sombras ao crepúsculo, 
dos rostos. Continuidade do desejo, da atenção, da excitação, 
da ternura, da paixão, do cuidado. E, a seguir, desejo de estar 
junto, de conviver, de participar das mesmas experiências, de 
ver as mesmas coisas, a mesma lua, as mesmas nuvens, o 
mesmo mar, de respirar o mesmo ar, de ter a mesma vida. 
 
4 
 
1. O erotismo feminino tem uma segunda raiz, de que se 
fala menos, ou de má vontade. Uma raiz que não é pessoal, 
individual, mas coletiva. Nas publicações lidas principalmente 
pelas mulheres, ao lado dos romances cor-de-rosa e das seções 
de moda e beleza, estão as histórias dos artistas. Os homens 
não se interessam pela vida privada dos astros, não participam 
de seus casos de amor. A eles interessa o ator, o cantor, o seu 
desempenho como tal, mas não o que ele é na vida particular, 
terminado o espetáculo, em casa com a mulher ou com suas 
amantes. À mulher, ao contrário, é exatamente isso o que 
interessa. O fanatismo ou o culto pelos artistas é, portanto, um 
fenômeno feminino. Ele é o produto, por um lado, do 
espetáculo, por outro, dos jornais que falam da vida particular 
do ator ou do cantor. O astro é o objeto escolhido da fofoca, da 
intriga coletiva
21
. 
As mulheres chegam a identificar-se com as personagens 
do espetáculo como se fossem seus conhecidos, seus vizinhos. 
 
21
 Francesco Alberoni: L’élite senza potere, Milão, Bompiani, 1973. 
 25  
Experimentam por elas sentimentos de amor, desejo, antipatias 
reais. Quando as adolescentes começam a interessar-se pela 
música e nelas explode o fanatismo por um cantor, trata-se de 
um verdadeiro amor, de uma verdadeira paixão. O fenômeno já 
aconteceu no passado, com o melodrama, o teatro. Tornou-se 
fenômeno de massa com Rodolfo Valentino e repetiu-se na 
nossa época por ocasião do sucesso de cantores como Elvis 
Presley
22
. Milhares de adolescentes urravam, choravam, 
desmaiavam, imploravam para beijá-lo, queriam tocá-lo, ser 
tocadas, queriam ser possuídas por ele. A situação de 
entusiasmo coletivo orgiástico, sonoro, não esconde o fato de 
que cada uma das adolescentes desejava o cantor para si e de 
que, se tivesse podido, teria ido para a cama com ele, teria 
feito qualquer coisa por ele. Mas um comportamento análogo 
existe também fora da situação do espetáculo, longe da 
excitação coletiva. As fãs do astro continuam a amar e a 
desejar seu ídolo por anos e anos
23
. 
Não há nada semelhante no mundo masculino. O rapaz 
pode adorar uma cantora, pode até se sentir excitado 
eroticamente por ela, desejá-la. Mas dificilmente perde a 
cabeça a ponto de desvalorizar todas as outras mulheres. A 
mulher fanatizada pelo artista, ao contrário, vê na sua frente 
apenas ele, e os homens comuns parecem-lhe totalmente sem 
qualidades, insignificantes. O mesmo acontece com relação a 
personagens dotadas de poder, particularmente os líderes 
carismáticos. O homem adora o líder, mas seu amor é 
totalmente deserotizado. Na mulher, ao contrário, o 
relacionamento com o líder torna-se facilmente erótico. Em 
todos os movimentos coletivos, antigos e modernos, ao redor 
do líder sempre existiu uma corte de mulheres sexualmente 
disponíveis. As italianas desejavam Mussolini, as alemães, 
Hitler, as russas, Stálin e as americanas, Roosevelt ou John 
Kennedy. Em todos os cultos, em todas as seitas, em todas as 
religiões, o asceta, o sacerdote, o guru, o pregador, o profeta 
está sempre cercado por um grupo de mulheres desejosas de 
contato, de amor, de sexualidade. É de notar, por outro lado, 
que os homens da seita, neste caso, não são ciumentos, não 
 
22
 Albert Goldman: Elvis Presley, trad. ital., Milão, Mondadori, 1981. 
23
 Sobre a atração amoroso-erótica dos artistas, ver Edgar Morin: I divi, trad. ital., Milão, 
Garzanti, 1977. 
 26  
se sentem diminuídos com a preferência das mulheres pelo 
eleito. 
Estamos diante de uma diferença fundamental entre o 
erotismo masculino e o feminino. O erotismo masculino é 
ativado pela forma do corpo, pela beleza física, pelo fascínio, 
pela capacidade de sedução. Não pela posição social, pelo 
reconhecimento social, pelo poder. Se um homem pendura na 
parede de seu quarto uma fotografia de Marilyn Monroe nua é 
porque ela é uma belíssima mulher nua, ou melhor, a mais bela 
do mundo. Não é a sua celebridade que o atrai, mas a sua 
beleza. Ao lado dela, por isso, pode pendurar fotografias de 
outras lindas mulheres nuas e, em certos casos, ficar ainda 
mais excitado com elas. Se um homem tem de escolher entre 
fazer amor com uma atriz famosa mas feia, e com uma 
deliciosa garota desconhecida, não terá dúvidas em escolher a 
segunda. Porque a sua escolha é baseada em critérios eróticos 
pessoais. Na mulher, é diferente. Escreve Milan Kundera: “As 
mulheres não procuram os homens bonitos. As mulheres 
procuram os homens que tiveram mulheres bonitas”
24
. O 
erotismo feminino é profundamente influenciado pelo sucesso, 
pelo reconhecimento social, pelo aplauso, pela classificação no 
elenco da vida. O homem quer fazer amor com uma mulher 
bonita e sensual. A mulher, com um artista famoso, com um 
líder, com quem é amado pelas outras mulheres, com quem é 
respeitado pela sociedade. 
Essa diferença se transfere também para os 
comportamentos cotidianos. Nas revistas masculinas como 
Penthouse ou Playboy, as lindas mulheres apresentadas não são 
interessantes pelo seu status social, aliás isso nem ao menos é 
mencionado. Que aquele seio pertença à presidente da General 
Motors ou à sua secretária é um fato completamente 
irrelevante. Ao contrário, nas revistas femininas vem sempre 
mencionado o status da personagem apresentada. Em Vogue 
Homem, a mulher quer encontrar homens célebres, 
importantes, não homens comuns. 
Esse aspecto do erotismo feminino encaixa-se na tendência 
da mulher à contiguidade-continuidade. No homem há 
 
24
 Milan Kundera: O livro do riso e do esquecimento, já traduzido no Brasil. 
 27  
separação entre Eros e política, entre sexualidade e poder. Na 
mulher, continuidade. A proximidade física, o relacionamento 
tátil, sensorial, erótico são uma maneira de participar da 
sociedade, do grupo, de estar em seu centro. 
As feministas explicam o fenômeno com o fato de que 
sempre foi o homem que mobilizou o poder. A mulher, dizem 
elas, no decorrer de milênios, aprendeu a erotizar a proteção 
do poderoso. Essa situação, entretanto, está fadada a 
desaparecer com a igualdade entre os sexos. É provável, mas 
não será um processo rápido. Porque estamos diante de algo 
tão antigo quanto a própria humanidade. Entre os mamíferos 
superiores, a fêmea se acopla com o macho, que se livra dos 
rivais e domina o território. Dessa forma, assegura-se o 
patrimônio cromossômico desejado. Na espécie humana, a 
fêmea, além disso, deve conservar a vida para si e para os 
filhos pequenos, enfrentando a fome, inimigos e dificuldades 
imprevisíveis. Por isso, após ter atraído o guerreiro, o chefe, 
para ter dele o sêmen, precisa conservá-lo, domesticá-lo. O 
guerreiro não deve partir, deve permanecer em defesa da casa 
e da comunidade. Deve, por conseguinte, ser capaz de amar, 
deve ter uma natureza social, comunitária. A síntese dessas 
diversas exigências é o herói: forte e apaixonado, aventureiro e 
leal, responsável diante dos compromissos assumidos, dos 
deveres da comunidade e carinhoso coma amada. 
Nessa situação primordial, conseguia-se o máximo de 
probabilidade de receber um patrimônio genético valioso e de 
poder conservá-lo, estando ao lado do chefe, no centro da 
comunidade. É somente quando a comunidade se reduz a um 
casal, como na família monogâmica moderna, que a mulher 
sente a necessidade exasperada de conservar ligado a si um 
homem comum. 
 
2. O fato de o homem sonhar relacionar-se com muitas 
mulheres e a mulher ter um amor verdadeiro e definitivo, 
sendo absolutamente fiel a esse único homem, não torna o 
homem polígamo e a mulher monógama. 
Na realidade, as inumeráveis fantasias amorosas da mulher 
nos mostram claramente que ela está sempre em busca do 
 28  
eleito. Se fantasia, é porque o que possui não a satisfaz 
plenamente. As histórias amorosas que vive por procuração 
nos romances água-com-açúcar são outros tantos adultérios, 
como as masturbações solitárias do homem diante de 
fotografias pornográficas. O homem sonha com mulheres 
diversas, a mulher vive paixões com um homem absolutamente 
extraordinário. 
Se o homem ama a variedade e a mulher, ao contrário, 
pensa num amor eterno, a verdade é que naquele momento 
ambos buscam algo eroticamente excitante. O primeiro, num 
corpo sensual, a segunda, numa relação amorosa com o herói. 
Certamente a mulher é mais possessiva, persistente, fiel que o 
homem, e persegue uma relação mais duradoura. Mas também 
ele, de vez em quando, olha para seu interlocutor e se 
pergunta: “Este homem não é melhor do que eu?” Não apenas 
como corpo físico, peito, braços, quadris, pernas, mas como 
fascínio, como possuidor de qualidades masculinas. Às vezes, 
a mulher fala de masculinidade. Essa é uma sensação complexa 
em que entram a maneira de mover-se, os odores. Considera-se 
também um gesto, uma divisa, um par de botas. É uma 
sensação que a mulher pode ter até mesmo estendendo uma 
camisa. A masculinidade também é apreendida no fator 
riqueza, poder, supremacia sobre os outros e pelo fato de o 
homem ser desejado pelas outras mulheres. A masculinidade é 
um atributo físico e social, é um olhar e um gesto de comando, 
é um modo de falar e um carro esporte, é um odor e uma 
superioridade. 
Em sua forma benévola, suave, a masculinidade se 
apresenta no arquétipo do príncipe encantado. Em sua forma 
terrificante, é representada pela fera. Já vimos que nos 
romances cor-de-rosa o herói é frio, distante, tem um aspecto 
temível, o rosto duro. Enfim, é um guerreiro, um pirata, um 
aventureiro. São imagens e símbolos de uma masculinidade 
selvagem, terrível com os inimigos, mas que também significa 
proteção da comunidade, segurança, defesa. Na célebre fábula 
A bela e a fera escrita por Mme Le Prince de Beaumont
25
, a fera 
é o homem, que possui apetites viciosos e desenfreados, que é 
 
25
 Ver também a análise feita por Bruno Bettelheim, II mondo incantato, trad. ital., Milão, 
Feltrinelli, 1977. 
 29  
violento e cruel. Que é terrível e perigoso, mas que pode, 
porém, ser amansado, transformado pelo amor. Então a fera 
deixa de ser ameaçadora e se torna doce, protetora. A literatura 
cor-de-rosa satisfaz também essa necessidade profunda, dá 
uma resposta ao medo suscitado pelo herói. Como exemplo 
tomarei um romance de Rebecca Flanders, Suddenly love. Nele a 
heroína é uma mulher já não muito jovem, uma farmacêutica. 
Não tem amigos, vive isolada. Não é bonita. Certo dia encontra 
um homem extraordinário. É um ator célebre, mas também um 
campeão do automobilismo. É milionário, solteiro, inteligente, 
gentil. É sincero e leal. Corteja-a, sem cessar, durante anos. 
Mas ela está assustada, diz “não”, defende-se. Quando, em 
Indianapolis, numa terrível corrida, ele se acidenta 
gravemente, com risco de perder a vida, ela foge, porque 
aquele tipo de vida a apavora. Porém, ele sobrevive, por 
milagre. Durante meses a fio escreve-lhe cartas apaixonadas. 
Manda-lhe todos os dias ramos de rosas vermelhas e implora-
lhe que se case com ele. Ela somente aceitará quando ele 
abandonar o cinema, as corridas, sua vida faustosa, para 
dedicar-se apenas a ela. Nesse livro aparece acentuado, 
deformado, levado ao seu limite máximo o medo da fera. A 
mulher quer ser adorada, mesmo que diga “não” 
continuamente, mesmo que nada conceda e pretenda tudo em 
troca. Permanece imóvel, passiva, e não descansa enquanto o 
herói não se tenha transformado, ele também, num homem 
comum. A fera deve tornar-se domesticada, o rei deve ser 
humilhado, o guerreiro transformado em manso cordeiro, para 
então, finalmente, ser aceito. 
 
3. O que a mocinha sente pelo cantor, o que a mulher sente 
pelo ator famoso é enamoramento? É certamente uma paixão 
erótica que se assemelha às suas fases iniciais. É seguramente 
uma forma de amor, de adoração, de dedicação, que se 
assemelha àquela que encontramos no enamoramento. No 
entanto, existe uma profunda diferença que, em geral, passa 
despercebida. No enamoramento o valor da pessoa se revela 
independentemente dos valores sociais, do sucesso, da glória. 
É a revelação de que aquela pessoa comum, que não tem nada 
de excepcional, é para nós uma individualidade única e 
 30  
insubstituível, dotada de valor absoluto. Se o enamoramento 
dependesse das qualidades reconhecidamente sociais das 
pessoas, todos os homens se apaixonariam unicamente pelas 
mulheres belíssimas, e as mulheres unicamente pelos homens 
poderosos e famosos. Mas isso não acontece. Há portanto, 
aqui, uma oposição entre a atração erótica pelo líder e pelo 
artista famoso, que se dirige a um objeto coletivamente 
reconhecido, e o enamoramento, que escolhe a individualidade 
por si mesma. O enamoramento subverte os valores sociais, as 
hierarquias reconhecidas. Quando está apaixonada, a mulher 
ama até a pequenez, as dores, as fraquezas, os defeitos, a 
fragilidade do amado. Ama sua pobreza, sua falta de sorte. 
Ama-o como ele é, não levando em consideração a opinião do 
resto do mundo. Ao contrário, o amor pelo líder ou pelo artista 
famoso inclina-se diante da opinião coletiva. 
E, no entanto, coexistem na mulher esse dois tipos de 
amor e de erotismo. Toda mulher procura também encontrar o 
herói no homem amado. 
 
4. Nos casos em que a mulher consegue penetrar na 
intimidade do astro famoso, chegando a viver com ele, em 
geral experimenta uma profunda desilusão. Porque julgava 
conhecê-lo e, em vez disso, conhecia apenas o seu 
comportamento em público, as fantasias coletivas orquestradas 
pelos seus agentes. Por outro lado, o homem famoso, o político 
poderoso, o artista adorado por milhões de mulheres torna-se 
desconfiado com esse tipo de amor. Na realidade, quem essa 
mulher ama? Seu sucesso, sua glória ou sua pessoa? Esse caso 
lembra um pouco o da rica herdeira ou do milionário que 
jamais sabem se são amados por si mesmos ou pelo seu 
dinheiro. Existe, portanto, nessas relações um elemento de 
ambiguidade. Nos romances cor-de-rosa, onde está em jogo o 
componente coletivo do erotismo feminino, a mulher se 
pergunta se o interesse do herói por ela é anônimo ou perso- 
nalizado. Se ela é apenas mais uma mulher ou se é a eleita. 
Muitos dos comportamentos cruéis, cínicos, dos grandes 
astros podem ser interpretados como o resultado da frustração 
de uma necessidade individual de amor sincero e profundo. 
Porque as mulheres que o circundam e que brigam 
 31  
desesperadamente para tocá-los, apenas admitidas na 
intimidade do amor, passam a reprová-los por serem como são 
e iniciam uma luta selvagem contra as rivais. 
 
5. O correspondente feminino do poder é a grande beleza. 
Também nela se oculta uma carga competitiva terrível. As 
mulheres já notaram, com estupor e inquietude, que 
frequentemente os homens parecem ter medo da beleza 
feminina. A mulher muito bonita desperta desejo, mas também 
desconfiança e temor. Muitos homens inteligentes, 
competentes,bonitos e, por todas essas qualidades, atraentes, 
com muita frequência se casam com mulheres feias ou apenas 
agradáveis. Em sua vida, muitas vezes depararam com a beleza, 
mas mantiveram-se à distância. Como se tivessem 
compreendido que não eram merecedores dela. Por fim o 
próprio gosto não mudou, mas aprenderam a desejar algo mais 
modesto, mais ao seu alcance. 
A observação objetiva e sem preconceitos da realidade nos 
mostra que existem apenas algumas categorias de homens que 
possuem mulheres belíssimas: os líderes carismáticos, os 
milionários, os astros famosos, os grandes atores, os grandes 
diretores e os gângsteres. 
A Beleza, a grande beleza é atraída inexoravelmente pelo 
poder, e o poder tende, inexoravelmente, a monopolizá-la. É 
esse liame profundo, ancestral, mas sempre vivo e renovado, 
que torna os homens comuns prudentes. No poema de Goethe, 
quando Fausto encontra a Beleza, Helena, é obrigado a 
conquistar Esparta e a derrotar Menelau numa guerra. E o coro 
o adverte dizendo-lhe que quem pretende a mais bela deve 
estar sempre disposto a defendê-la pelas armas. 
 
5 
 
1. A sedução feminina tende a produzir uma emoção 
erótica indelével. Mesmo quando sabe que se trata apenas de 
um encontro, de uma aventura, mesmo quando sabe que o 
homem é inatingível. 
 32  
A sedução feminina faz funcionar a excitação erótica no 
homem, provoca nele o desejo, acende-o como se acende uma 
Tocha. Porém, sua meta última não é o ato sexual. Quer 
produzir o enamoramento do homem, suscitar nele um desejo 
que se renova, como espasmo, nostalgia, para sempre. A 
sedução é um encantamento, deve despertar o desejo e fixá-lo 
sobre si. 
Eis por que o estímulo sexual deve ser, ao mesmo tempo, 
recusa, obstáculo. O estímulo apressado em consumar a 
satisfação sexual não é um encantamento. Porque aceita o fim, 
o esquecimento, o desinteresse. E obscena a proposta que diz 
“façamos amor e depois eu te esquecerei”. 
O encantamento, isto é, o erótico, é o contrário do 
obsceno. Para provocar o desejo sexual, é necessário bem 
pouco. Basta levantar a saia, deixar que se entreveja o seio, 
basta apertar-se contra o corpo do homem, tocar seu sexo, 
sussurrar-lhe que o deseja, e o homem se acende, está pronto 
para fazer amor. 
A sedução feminina não é tão simples, exige algo mais. 
Quer ser lembrada, fazer-se desejada. Age toda no presente, 
mas tem os olhos no futuro. 
Diz-se que a mulher, todas as mulheres, espera que o 
príncipe encantado venha despertá-la. É uma verdade e uma 
falsidade ao mesmo tempo. Seu verdadeiro propósito é que o 
príncipe encantado a veja e a deseje. É a sua estupenda beleza 
adormecida que o fascina, que o faz parar, que o distrai de seu 
caminho. A história conta que a bela desperta com o beijo do 
príncipe. Mas também o príncipe só começa a ver e a sentir na 
presença da bela. É ela que o espera para mostrar-lhe uma 
beleza que ele desconhecia e fazer com que ele experimente 
desejo e paixão. 
 
2. O macho, quando pensa na conquista, tem em mente a 
relação sexual. A mulher, a emoção erótica que a faça recordar 
e desejar para sempre. Principalmente nas mulheres mais 
jovens, o desejo de deixar marcas no espírito do homem é 
acompanhado, depois, de um temor de serem envolvidas num 
relacionamento por demais comprometedor e não desejado. A 
 33  
mulher tende ao erotismo contínuo, mas não no sentido de 
querer transformar em relação contínua cada encontro. Quer 
deixar uma marca permanente, mas, ao mesmo tempo, 
subtrair-se. Algumas mulheres, então, fazem de tudo para 
seduzir o homem e, mal percebem tê-lo conseguido, dão meia-
volta, chegando muitas vezes a fugir definitivamente. Porque 
não desejam uma relação amorosa concreta, mas suscitar um 
desejo, um amor. Saber que esse amor dura, não se acaba, 
saber que o homem pensa nelas e continuará a pensar por 
muitos anos. O excelente romance que melhor exprime esse 
desejo feminino de ser amada e recordada é A princesa de 
Clèves. de Mme de La Fayette, uma obra francesa do século 
XVIII. A jovem princesa, de apenas dezesseis anos, conhece o 
duque de Nemours. É um homem muito bonito, fascinante, o 
maior dom-juan da França, nenhuma mulher jamais lhe 
resistiu. Mas a princesa resiste, e exatamente por causa dessa 
resistência, ele acaba por apaixonar-se por ela. A essa altura, a 
jovem tem diante de si uma escolha dramática. Está 
apaixonada, deseja-o desesperadamente, mas sabe que se 
ceder, entregando-se a ele, será apenas a última de suas 
conquistas. Essa é a lei da sociedade da corte onde vive. Se 
quer continuar a ser amada por ele, amada para sempre, deve 
afastar-se definitivamente, para que ele jamais possa tê-la. E é 
isso o que a princesa faz, retirando-se para um convento. 
 
3. O desejo de continuidade da mulher se manifesta de 
vários modos. A mulher aprecia os atos que significam a 
continuidade do interesse. Um telefonema, um elogio, flores. 
Em geral, a mulher ama também as palavras amorosas, as 
carícias, os abraços, o interromper e o recomeçar. Está sempre 
à procura da compreensão amorosa, íntima, tranquila, suave, 
do idílio. Não apenas esporadicamente, nos intervalos de 
tempo roubados a outras atividades, mas por longuíssimos 
períodos, como numa eterna lua-de-mel. 
Naturalmente a mulher envolvida numa atividade 
profissional, que se realiza no trabalho, que tem sempre 
pouquíssimo tempo livre e muitas coisas a fazer, acaba por 
assumir, com o correr do tempo, uma postura masculina. 
Porém, no mais profundo de seu íntimo, também ela deseja 
 34  
poder abandonar-se a uma doçura prolongada, em que não 
existam tempo nem horário. 
Como quando se deixa beijar pelo sol, estendida na praia. 
Porque lhe agrada ficar bronzeada e desejável, mas também 
porque o sol é como um amante que lhe dá prazer e ternura. 
Provavelmente, é por esse motivo que a maior parte das 
mulheres deseja, no homem, uma ereção prolongada. Porque 
significa que ele ficou excitado pela sua beleza, que a deseja 
de modo contínuo, duradouro. Porque o abraço amoroso e o 
êxtase da fusão dos corpos duram por um longo tempo, horas e 
horas, e não são lacerados imediatamente pela interrupção, 
pela descontinuidade. O homem acha que a mulher adora seu 
pênis ereto, o deus Priapo. Na verdade, o que ela deseja é a 
permanência do interesse amoroso, da ternura, do abandono, 
da paixão. São esses os alimentos que nutrem seu erotismo, 
seu prazer. A ejaculação precoce é irritante, não por si mesma, 
mas por representar um desinteresse masculino e pelo estado 
de agitação, de frustração e de apatia que esse distúrbio 
provoca no homem. 
Se a mulher não se sente amada, desejada, seu renovado 
esforço de sedução fica frustrado, e ela então experimenta 
uma sensação de vazio, de inutilidade, de desespero. Como se 
não existisse mais. E reage com raiva. Isso se verifica 
constantemente no casamento ou na convivência. A mulher 
imagina que vivendo junto com o homem amado realizará a 
continuidade do erotismo. Julga que a descontinuidade do 
comportamento masculino depende de fatores externos, de 
dificuldades materiais, de compromissos profissionais. Não 
consegue acreditar que seja um fator natural, próprio da 
masculinidade. Enfim, que seja a característica de seu desejo. 
Vivendo sempre juntos, pensa ela, esses impedimentos 
poderão ser removidos. Dormindo na mesma cama, fazendo 
juntos a primeira refeição matinal, comendo à mesma mesa, 
batendo papo à noite, haverá todo o tempo necessário para 
realizar a continuidade erótica. O tempo passado juntos é 
imaginado como um tempo erótico completo, compacto, um 
tempo amoroso. A realização, que no homem acontece através 
do esplendor do encontro, aqui é procurada no prolongamento 
do encontro, no preenchimento erótico de toda a duração. Na 
erotização da continuidade temporal. 
 35  
4. Na vertente masculina do erotismo, ao contrário, oque 
conta é a intensidade do encontro sexual. O encontro erótico é, 
para ele, um tempo luminoso, subtraído da vida comum. Tem, 
portanto, um princípio e um fim. Ele sabe que voltará à vida 
rotineira. O encontro luminoso é como uma área liberada e 
liberante, uma experiência regeneradora de que sai 
enriquecido, reforçado, feliz, realizado. Reingressa no mundo 
do dia-a-dia mais seguro, mais forte. Até mesmo no 
enamoramento a relação amorosa é uma sequência de 
encontros luminosos. 
Além disso, o homem experimenta com mais frequência 
que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo 
temporal. E um estado particularíssimo, exterior ao tempo. 
Quando o instante de eternidade desaparece, reaparece o 
tempo. Mas o valor desse instante é superior ao tempo. A sua 
lembrança (saudade) faz com que o tempo pareça apenas um 
obstáculo, uma falha, uma distração de nossa verdadeira 
natureza, que é viver no eterno. Exatamente como na 
experiência do místico, para o qual Deus se revela somente em 
gotas de eternidade. 
O homem enamorado experimenta, às vezes, um 
sentimento de profunda tristeza pensando que o divino 
momento que vive está destinado a desaparecer, a perder-se no 
tempo. Olha então para o céu azul, para as plantas ou pedras, 
sabendo que aquela perfeição representa o eterno. No máximo, 
lhe será concedido recordar aquela experiência divina. Mas 
será como uma imagem desbotada. 
Ao contrário do instante de eternidade, o encontro 
luminoso é um fragmento de tempo, uma ilha de experiência 
que pode ser recordada como um acontecimento, modificável 
pela fantasia. 
 
5. Também o homem enamorado continuará, durante a 
separação, a pensar em sua amada. Às vezes, sentirá mesmo 
um desejo lancinante. Se imagina tê-la perdido, sentirá uma 
saudade dolorida. Em geral, porém, quando a cumprimenta, 
mesmo que esteja emocionado, sente-se cheio de vida. O 
encontro luminoso o torna mais audaz. Partindo, está certo de 
 36  
tornar a encontrá-la e procura somente merecer seu amor. A 
lembrança dela mora em seu coração, despertando-lhe arrojo, 
coragem. Enquanto trabalha, pensa nela. Se a sente sua, ela lhe 
faz companhia, lhe dá forças, alegra-o. No homem, a memória 
preenche a descontinuidade da presença. 
Se o homem não está enamorado, o desejo de rever aquela 
mulher dependerá da beleza do encontro. Se este foi luminoso, 
desejará encontrá-la outra vez. E, se o milagre se repete, 
desejará encontrá-la ainda mais uma vez. Se o encontro não 
acontece, se nele se insinuam problemas, rancores, a amargura 
do cotidiano, diminui seu desejo de rever a mulher. Porque, 
por mais profunda, luminosa e extasiante que tenha sido a 
experiência erótica, não é suficiente para construir uma relação 
permanente. Somente o toque maravilhoso do enamoramento 
cria o irreversível. A sedução feminina tende a isso, mas o 
enamoramento profundo é um acontecimento raro, improvável. 
Além do mais, a mulher custa a reconhecê-lo com segurança. 
Tende a confundir o apaixonamento com a continuidade 
temporal física, coisa válida para ela, mas não para o homem. 
Procura obtê-la então com súplicas, ou duplicando a sedução 
erótica. Mas, assim fazendo, é obrigada a repetir seu esforço e 
torna-se cada vez mais insegura. A sedução feminina deve 
renovar-se para exorcizar o descontínuo que existe no homem. 
 
6. O encantamento tem sobre o homem, em geral, duração 
limitada, o que constitui, para as mulheres, perene fonte de 
desilusão e reprovação. Os homens que não ficam prisioneiros 
do amor, que não mergulham apaixonadamente na aventura, 
parecem-lhes frios, desumanos, cruéis. No mito masculino, 
entretanto, o herói resiste ao encantamento. Ulisses não 
obedece às sereias, abandona Circe, deixa tanto Calipso quanto 
Nausica. Rogério foge do castelo de Alcina. O encantamento, 
por isso mesmo, deve ser repetido. 
O homem se afasta. Afasta-se imediatamente após o ato 
sexual. Adormece, vai embora. Em seu vagar pode estar ao lado 
de outra mulher, cair em outro encantamento. Em Orlando 
furioso, isso acontece até ao mais apaixonado dos amantes, ao 
mais puro dos heróis. Existe sempre, em algum lugar, uma 
fonte do esquecimento ou do amor. A mulher, por isso, vigia o 
 37  
amado, seja ele marido ou amante. Não há nada de materno 
nisso. É uma reação primária, que pertence inteiramente à 
sedução e ao erotismo da sedução. Cada mulher cuida e 
procura manter vivo o amor, nela ou no próprio homem. 
Procura jamais romper aquele fio tênue que é a atração erótica. 
A mulher é artífice de uma contínua transfiguração de si 
mesma e da casa. Que haja sempre algo de novo, de agradável 
para si e para o amado. Algo que o faça exclamar: “Que lindo, 
muito bem, que maravilha!” Suscitar sempre novas emoções. 
Cada dia, cada dia do ano uma nova emoção. Revitalizar o 
desejo no mesmo homem. Aquele homem que gostaria de 
esquecer-se dela, ou se esquece. 
Quando a mulher inicia uma relação amorosa que lhe 
agrada muito, despende uma energia incrível preparando a 
casa, tornando-a atraente, confortável, acolhedora, de modo 
que seu homem ali encontre alegria e vida. Se não possui uma 
casa própria, pedirá uma a alguém emprestada, inventará 
outros recursos. A casa, o ninho, é, de qualquer maneira, uma 
de suas preocupações fundamentais. É verdadeiramente uma 
extensão de si mesma, de seu corpo. Como seus móveis, como 
o lençol florido da cama, como as cortinas e as janelas, as 
cores das paredes, as plantas e flores de que se cerca. O 
arranjo da casa faz parte integrante do ato de atração e 
sedução. As revistas de decoração possuem um conteúdo 
erótico tão grande quanto as de moda ou as dedicadas à beleza 
e à maquiagem. 
Do ponto de vista erótico, o ambiente apropriado 
(feminino) tem uma grande importância para o homem. Não 
devemos confundir as fantasias masculinas com seu 
comportamento real. Mesmo quando fantasia ou quando 
relembra, ele pensa principalmente no corpo; na realidade, fica 
excitado e fascinado pela maneira de vestir, pelo perfume, pela 
atmosfera da casa feminina. Diz-se que o homem pensa 
somente em tirar a roupa. Mas para tirá-la é preciso que ela 
exista, Até mesmo o strip-tease pressupõe as roupas e seu 
erotismo. Existem, enfim, certas vestimentas que não se podem 
tirar. O ninho, a casa ficam ali, em volta, e fazem parte do 
total. O corpo feminino nu é sempre colocado dentro de uma 
corola florida, sedutora, perfumada. 
 38  
O ninho não é feito apenas de objetos, tecidos, cores, 
atmosfera, luzes. É feito também de acolhimento. E também o 
saber acolher é uma revelação. As gueixas japonesas baseiam 
seu treinamento sobretudo na sensibilidade masculina ao 
acolhimento. O máximo de prazer e proporcionado sob esse 
aspecto, acolhendo, valorizando, interessando o homem, 
tornando-o parte essencial de uma estrutura poética. Também 
a cortesã ocidental possui uma bela casa e é mestra na arte de 
acolher. A prostituta de rua não possui absolutamente essa 
qualidade. Mas, por outro lado, seu objetivo não é segurar o 
homem: o da cortesã, sim. A cortesã quer renovar o 
encantamento que seduz o homem, mantê-lo ligado. 
 
7. A fase negativa da sedução feminina é o temor de não 
possuir fascínio suficiente, de não poder causar a emoção 
profunda, indelével, de que já falamos. Sob esse aspecto, as 
mulheres são extremamente diversas. Algumas, desde muito 
jovens, estão certas da própria capacidade de seduzir, 
orgulhosas de seu poder erótico sobre o homem. Outras, ao 
contrário, são inseguras. Talvez porque se recusam a assumir o 
papel feminino, não querem tornar-se mulheres fatais. Não 
posso, aqui, entrar no problema da construção do papel 
feminino. Limito-me a observar que quando a mulher se sente 
insegura de si mesma, de sua capacidade sedutora, tende a 
acentuar ainda mais sua necessidade de continuidade. Ela 
permanecerá ligada a seu homem de modo quase obsessivoe 
temerá ainda mais perdê-lo. Por ele estará disposta a renunciar 
a todas as oportunidades da vida, à sua carreira, até mesmo a 
ter um filho. Existem mulheres de grande valor que, por esse 
motivo, permaneceram ligadas a homens medíocres, 
sacrificando-se por eles. E isso, apesar de suas convicções 
políticas e ideológicas. Aconteceu até a feministas convictas. 
 
6 
 
1. A mulher é atraída pelo homem capaz de proporcionar 
emoções violentas, amor apaixonado. É atraída pelo homem 
capaz de sentir e de querer, pelo homem que se atira numa 
 39  
aventura amorosa com decisão, com coragem. Esse desejo é o 
correspondente exato da fantasia de sedução. A mulher deseja 
causar uma emoção erótica indelével em cada homem, mesmo 
que se entregue somente a quem merecer, somente a quem for 
capaz de corresponder de modo adequado. 
Com muita frequência as mulheres têm a impressão de que 
os homens são incapazes de amar de modo apaixonado, de 
abandonar-se impulsivamente aos próprios desejos. 
Preocupados, absorvidos pela própria profissão, pelo fator 
econômico, assustados com a nova igualdade da mulher, 
atemorizados pela própria beleza feminina, estão pouco 
disponíveis para o que de heróico e arriscado existe no amor e 
no erotismo. Nos países de tradição hispânica há uma 
expressão, machismo, para indicar o homem que se vangloria 
das conquistas, despreza a mulher, gaba-se de uma incrível e 
imaginária potência sexual, mas que se preocupa 
principalmente com os outros homens, dos quais teme a 
concorrência, com os quais se confronta continuamente
26
. Esse 
tipo de homem pratica atos perigosos a fim de demonstrar sua 
coragem física. Para ser admirado por todos. Na realidade, 
porém, não está interessado na mulher e, por isso, não é capaz 
de enfrentar com coragem a aventura do amor erótico e seus 
riscos. Envergonha-se de admitir que também tem necessidade 
de afeto, que teme a solidão, que a mulher lhe é necessária. 
No mais profundo de seu íntimo, tanto os homens como as 
mulheres têm uma necessidade desesperada do que é 
extraordinário. De tudo o que é superior à vida cotidiana, com 
sua banalidade, monotonia e falta de sentido. Os homens, no 
curso da história, buscaram contato com o Absoluto de várias 
maneiras. Na religião, na
-
 guerra, no rito, na aventura. Por 
milênios e milênios, a mulher teve de viver no ambiente 
sagrado da família e da casa. E é nesse campo que se 
desenvolveu sua necessidade de transcendência e de utopia. 
Certo, ela participou apaixonadamente de novos cultos, fundou 
seitas religiosas. Em época mais recente, sua energia criativa 
transbordou no terreno artístico, científico, literário. Porém, a 
marca das relações familiares permaneceu. Daí a necessidade 
 
26
 Ver Joseph-Vincent Marquês: No és natural, Valência, Editorial Prometeo, 1980; ¿Que hace el 
poder en tu cama?, Barcelona, El Viejo Topo, 1981. 
 40  
desesperada de redimir o cotidiano, de abrir nele a porta que 
conduz a uma região diversa do ser, onde todas as coisas 
gritam sua alegria de viver. Onde tudo o que é vivo realiza 
integralmente sua natureza. Onde as emoções são luzes 
fulgurantes e o erotismo, um canto altíssimo, um contato 
duradouro com o ideal e a essência ultima das coisas. 
É por isso que a mulher deseja encontrar o homem que 
saiba corresponder à sua demanda de grandes emoções e 
sente-se atraída por personalidades fortes, magnéticas. Mesmo 
que depois venha a se desiludir, porque esses homens em geral 
são fascinados apenas pelo sucesso e pelo poder. Eles possuem 
inegavelmente uma enorme energia interior, mas muito pouco 
dela pode ser convertido em erotismo e em amor. A sedução 
feminina procura então evocar, liberar quanto for possível essa 
força aprisionada, sufocada, comprimida. O esforço que a 
mulher realiza para conseguir essa liberação é imenso para 
com o homem que escolheu, o eleito, aquele que ama. 
Ainda hoje, quando finalmente está livre do peso do 
cotidiano doméstico, da condição servil, o empenho da mulher 
para refazer tudo, para transfigurar o existente, volta-se acima 
de tudo para o seu homem. Antes de mudar, antes de procurar 
em outro lugar, antes de se render, ela procura fazer explodir a 
riqueza que sente estar aprisionada em quem ama. O protesto 
feminino dos anos 70 foi também uma tentativa de sacudir os 
homens, de revelar a eles a riqueza dos sentimentos amorosos. 
 
2. As mulheres sabem, como os homens, e até melhor que 
eles, que o enamoramento possui qualquer coisa de inelutável 
em seu decurso. Quando existe, são poucas as forças que 
conseguem extingui-lo. Quando termina, nada é capaz de fazê-
lo ressurgir. Se um homem não está mais enamorado, nem 
mesmo as artimanhas mais sofisticadas da sedução podem 
reconquistar seu amor, fazê-lo germinar como no primeiro dia. 
E isso as mulheres sabem muito bem. Porém, embora sabendo, 
custam a admiti-lo e se comportam, ou falam, como se isso 
fosse possível. Isso depende também do fato de, habituadas a 
procurar em todas as coisas a continuidade, a negar as 
diferenças, serem levadas a confundir a enfatuação erótica, o 
grande desejo, com o enamoramento. O homem sabe distinguir 
 41  
perfeitamente se o que sente é um desejo sexual ou amor. Na 
mulher as duas experiências são mais difusas. Por isso, se 
consegue acender ainda uma vez em seu homem a paixão 
erótica, se consegue fazê-lo com interesse, se consegue mantê-
lo ao lado, procura convencer-se de que ele a ama. A 
necessidade de ser cortejada, amada, desejada, leva-a a aceitar 
como boa uma forma de amor que não é enamoramento. Ela 
sabe que não é enamoramento, mas prefere não pensar nisso, 
não analisar o fato, aceitá-lo assim. 
Não é também infrequente que as mulheres, entre o 
homem que amam e o homem que as ama, acabem por escolher 
aquele que as ama. Ao risco de amar preferem a certeza de ser 
amadas. Porém, também chamam a isso amor. Em uma 
conversa dirão que amam seu homem, que estão enamoradas 
dele e que o outro (o verdadeiro amor) era uma “ilusão”. Ou 
então se convencerão de que ele não as amava realmente, que 
não havia nada a fazer. 
 
3. É difícil para uma mulher aceitar a ideia de não 
conseguir conquistar o homem que deseja, ou conservar o que 
tem. Porque a face da sedução feminina é dupla. Na mulher há 
também o aspecto coletivo do erotismo e este se apresenta 
como conquista, manipulação, domínio. Existem mesmo duas 
imagens arquetípicas da sedução feminina. A de Bela 
Adormecida, Branca de Neve, Cinderela, onde o homem é 
atraído pela beleza. Apaixona-se, e a mulher parte com ele. A 
segunda é a de feiticeira (Circe, Alcina) que prende o homem 
com um encanto. O mito nos diz que Branca de Neve ou a Bela 
Adormecida estão enamoradas do príncipe. Circe não está 
enamorada de Ulisses. Ela o quer, isso é certo, mas está 
disposta a mantê-lo prisioneiro contra a sua vontade. Alcina 
encanta Rogério para impedi-lo de combater contra os 
sarracenos, de quem é aliada
27
. 
Esse tipo de sedução é relacionado ao filtro mágico, ao 
engano, à manipulação, ao poder. Seu objetivo não é o amor, 
mas o domínio. Quer manter o homem preso, fazer com ele o 
que quer. Para consegui-lo, usa indiferentemente todos os 
 
27
 Ludovico Ariosto: Orlando furioso, Milão, Garzanti, 1974, canto X. 
 42  
sentimentos: a excitação erótica, a adulação, a mentira, a 
chantagem. Para ter sucesso, esse tipo de sedução exige uma 
indiferença emotiva e uma frieza incompatíveis com um amor 
apaixonado. A mulher que age dessa maneira vencerá se o seu 
objetivo for o casamento, o dinheiro, o sucesso ou o prestígio 
social. Mas se seu objetivo é o amor, quando tiver vencido a 
batalha se dará conta de não saber se o homem a ama 
verdadeiramente. Tornar-se-á insegura. A psicóloga norueguesa 
Ellen Hartmann observa que as mulheres muito empreen- 
dedoras, ativas, que tomarama iniciativa da conquista, sentem-
se, depois, incertas da relação. E o homem, por sua vez, sente-
se perturbado, inquieto. Se a manipulação continua e se torna 
chantagem emocional, então há definitivamente a impressão de 
aprisionamento. No mito, a feiticeira nunca está certa do amor 
do herói. E tem razão, pois o herói se rebela contra a prisão e 
consegue sempre fugir dela. Ulisses obriga Circe a libertar seus 
companheiros, a frota de Alcina acaba destruída. 
Essas duas faces da sedução feminina, tão diversas do 
ponto de vista emocional e lógico, na vida real se colocam lado 
a lado, se sobrepõem, se alternam, pelo menos em certos 
momentos. Uma relação começada como encantamento positivo 
pode prosseguir depois, no decorrer dos anos, por meio de um 
sutil jogo de manipulações e a sábia instrumentação das 
fraquezas e dos sentimentos de culpa do outro
28
. 
Ao contrário das mulheres, os homens não confiam muito 
em sua capacidade de sedução. Pensemos, por exemplo, na 
Carmen de Mérimée. Dom José, apaixonado, pede a Carmen que 
volte para ele. Na realidade, não faz nada, limita-se a pedir-lhe, 
a suplicar-lhe. Expõe-lhe seu amor, lembra-lhe o passado. Mas 
não se veste de outra maneira, não se maquia, não se 
transforma, não cria um quadro de representação, não a 
“seduz”. Existem também histórias em que o herói, não amado, 
afasta-se, torna-se rico, poderoso e volta, transfigurado, para 
conquistar e humilhar a mulher. É o exemplo de O grande 
Gatsby
29
. Mas são colocadas totalmente no descontínuo. O 
homem sofre uma metamorfose. Torna-se outro, e é por esse 
 
28
 Na literatura amorosa italiana, a personagem que vive o drama da feiticeira enamorada é 
Armida, inimiga dos cristãos e apaixonada por Rinaldo. Torquato Tasso; Jerusalém libertada. 
29
 Francis Scott Fitzgerald: O grande Gatsby, já publicado no Brasil. O mesmo tema aparece no 
livro de Emily Bronté: O morro dos ventos uivantes. 
 43  
outro que a mulher se enamora. Esse tipo de fantasia é 
masculina. A mulher comporta-se assim apenas por vingança. 
 
4. A sedução não é apenas convite, é também recusa. 
Porque a mulher diz “não” ao pedido impessoal do homem. 
Quer que a sexualidade seja dirigida à sua pessoa. O não tende 
a excluir o aspecto anônimo do erotismo masculino, para 
conduzi-lo em outra direção. Também nesse caso, seduzir, 
desencaminhar. 
O não, o limite, tem, porém, um outro significado. A 
mulher acendeu o desejo no homem, mas para isso teve de 
envolver-se, tornar-se presa, convidar o outro a ser caçador. Se 
consegue despertar sua paixão, se a sedução deu certo, então 
ela mesma fica excitada, ela mesma, muitas vezes, se deixa 
envolver no jogo da sedução. Nesse caso ela tem absoluta 
necessidade de saber se a paixão foi realmente despertada, a 
emoção, realmente provocada. Se o homem não insiste, se 
renuncia, então significa que a emoção não era forte. Ou então 
que o homem não sabe aceitá-la, não sabe querê-la, não é um 
corajoso. 
Tem o mesmo significado o comportamento feminino 
disposto a causar embaraço ao homem com perguntas 
impertinentes ou com olhares de compaixão. Ou então as 
frases ingênuas e ofensivas ao mesmo tempo: “Precisa de 
permissão para sair à noite?”, que colocam o homem numa 
posição infantil. Ou de desprezo: “Nunca imaginei que fosse 
tão fraco”. Ou então uma recusa brusca, total, logo seguida de 
um gesto conciliador de convite, o tom argentino da voz que 
renova a disponibilidade e acaricia. Convidar e retrair-se, 
elogiar e desdenhar, colocar em dificuldades, fazê-lo sentir-se 
infantil, como quando várias mulheres riem entre si. Os 
homens que comentam entre si sobre uma mulher que passa 
também a estão desvalorizando. Mas porque estão longe, 
porque não existe uma interação real. Frente a frente, durante a 
sedução, jamais o fariam. A mulher, sim. Mas o faz porque vê 
na inércia do homem qualquer coisa de estúpido, irrita-se com 
sua passividade, porque ele não corre para ela, não se oferece, 
entusiasmado, apaixonado, livre, totalmente disponível. 
 44  
A mulher tem necessidade de ser procurada pelo homem. A 
zombaria tem o intuito de fazer sobressair a dignidade do 
homem, seu orgulho. Impulsiona-o a agir sob o estímulo do 
desafio, para demonstrar que é corajoso. A zombaria é também 
uma prova. Porque se o homem não reage, ou então se retrai, 
ou se humilha, significa que não possui energia ou coragem, e 
a mulher sente desprezo por ele. Esse desprezo anula o 
interesse erótico pelo homem. A sedução fracassou porque o 
objetivo não merecia ser seduzido. Não valia a pena. 
 
5. Existe na mulher uma estranha contradição. Quer um 
homem forte, fisicamente, e teme sua força no relacionamento 
erótico. Essa é uma das razões que leva a mulher a preferir, 
enquanto não possuiu seu corpo na totalidade, o homem 
vestido (o fascínio pelos uniformes). A roupa esconde a crueza 
física, mas deixa transparecer a força e, dessa forma, o 
sentimento de segurança que tal força suscita. 
O primeiro passo da mulher na direção do homem é o 
desejo irresistível de refugiar-se em seus braços. A queda das 
barreiras psicológicas e físicas levantadas pela mulher depende 
da maneira como o homem a abraça. Pelo abraço ela percebe se 
aceitará seu corpo nu a qualquer momento, não apenas durante 
o relacionamento sexual. Durante o relacionamento sexual é 
mais fácil aceitá-lo. O corpo do homem torna-se mais macio, 
torna-se forte e flexível, leve, modificado favoravelmente com 
as sensações, com as emoções. E possível comunicar-se com a 
psique através da pele. É penetrável pelo corpo feminino. É um 
paradoxo, porque a mulher tem medo dele e, ao mesmo tempo, 
quer penetrá-lo intensamente com as emoções. Como se ele se 
tivesse tornado um corpo fluido. Talvez a mulher, não podendo 
fazê-lo fisicamente, o faça mentalmente, com o calor da pele, 
com a vibração do corpo. 
Se o homem, porém, a agarra de modo possessivo, brutal, 
como se agarrasse um objeto, a mulher considera o fato como 
uma violência física e psíquica. Sente-se impotente. Tem medo. 
É a mesma sensação que chega ao limite máximo na violência 
sexual, no estupro. Um sentimento de sufocação, de 
afogamento. É essa sensação de aniquilamento, de destruição- 
sufocação, que leva à morte algumas mulheres violentadas por 
muitos homens. 
 45  
A força física do homem atrai e aterroriza a mulher. Seu 
aspecto agressivo e imponente pode ser maravilhoso, mas 
também assustador. Por isso algumas mulheres preferem 
homens delicados, fisicamente frágeis. Para não ter medo de 
sua força, para poder tratá-lo como um menino no plano físico 
e psíquico. De modo geral, são aquelas mulheres que querem 
enganar o marido também em outros planos da existência. 
A aceitação do corpo do homem, a idealização também de 
seus aspectos rudes, é o primeiro sinal de amor. Como o 
desamor ou o não-amor a leva a rejeitá-lo, primeiramente de 
modo velado, sutil, ambíguo. Depois, abertamente. De fato, 
quando uma mulher já não ama um homem, põe em evidência 
todos os seus aspectos grosseiros, animalescos. Reclama do 
seu ronco quando dorme, do seu modo de andar quando se 
agita pela casa, quebra tudo, desarruma tudo. Irrita-a o seu 
ambiente-corpo. Seu cheiro torna-se acre, insuportável. Os 
lençóis já não ficam impregnados do perfume dos dois, mas do 
odor acre, animalesco, do homem-intruso. 
É difícil para uma mulher eliminar o aspecto animal. Tanto 
é verdade, que muitas mulheres, na praia, vêem os homens 
como se fossem macacos. Em geral, entre mulheres, ouve-se 
falar com expressão decepcionada: “Os homens nus não são 
bonitos, realmente não são uma paisagem das melhores”. Em 
parte é objetivamente verdade, mas em grande parte é a rudeza 
física que os faz parecer feios aos olhos de uma mulher. 
Acontece o contrário do que a mulher faz com os próprios 
filhos. Para as mães, os filhos são sempre bonitos,mesmo que 
sejam gordos e sem graça. Jamais admitirá que são feios e até 
mesmo se aborrecerá se alguém disser qualquer coisa nesse 
sentido. Geralmente se confunde esse comportamento com o 
“amor materno”. Na realidade, a mulher não admite ter parido 
uma criatura feia. Admitindo a feiúra do filho, teria de 
confessar que uma parte de si mesma é aberrante. Sabe disso, 
mas não o admite. Por isso faz o contrário do que faria com o 
próprio homem. Sufoca-o de cuidados, atenções possessivas, 
“excesso de afeto”, como se diz. Na verdade, gostaria de fazê-
lo voltar ao útero, escondê-lo. De alguma forma, matá-lo. 
A mulher supera esse aspecto inquietante do corpo do 
homem, transformando-o em positivo, quando ama 
 46  
profundamente. Porque, se ama o homem, ama também o corpo 
do homem como ama o seu próprio corpo, que jamais é 
repulsivo. Para qualquer mulher, o próprio corpo, mesmo 
quando a velhice já fez seus estragos, é agradável, quente, 
suave, sinuosamente acolhedor. Está dentro dele e nele se 
sente bem. 
A mulher, portanto, aceita o corpo do homem pouco a 
pouco, gradualmente, através do amor. O homem amado, 
então, não é mais o animal predador que penetrou em seu 
corpo, que se satisfez, que dorme saciado. É como um menino 
que se entregou ao sono como se entregou ao amor, por efeito 
do seu amor. Não é mais a vítima, mas a caçadora. Sente o 
orgulho de Diana que lançou sua flecha e agora olha sua vítima 
inerte, e sente-se recompensada. Então adormece ao lado 
daquele corpo relaxado, inocente, que deve proteger. O corpo 
do homem amado não está mais separado. Ela está deitada, 
reclinada em seus braços e aspira seu hálito. Seu hálito é como 
o ar, indispensável. Seus odores se fundem, constituem um 
único odor, um único perfume. Sente o perfume penetrar pelas 
narinas certa de estar em paz com a vida. Tocá-lo é, então, o 
mesmo que tocar uma zona maravilhosa, quieta. É a certeza do 
contínuo, do permanente. Da eternidade. 
 
 
 47  
 
 
O sonho do homem 
 
 
 48  
7 
 
1. O grande sonho da sedução feminina é a continuidade 
do amor. No centro do erotismo masculino, ao contrário, 
vamos encontrar a descontinuidade do prazer sexual. 
Obviamente, também no erotismo feminino existe o prazer. 
Mas ele é o resultado do relacionamento amoroso. Encontra sua 
nobreza na generosidade do amor. O prazer do amor é 
intrinsecamente moral. O amor é doação, dedicação, altruísmo. 
Tende a produzir a fusão dos dois indivíduos. Cada um deles, 
portanto, transcende o seu eu empírico, a sua mesquinhez 
egoísta. Até mesmo o amor insensato possui sua própria 
dignidade social. 
O indivíduo loucamente apaixonado é como o convertido 
que deixa casa, filhos, tudo pela fé. Ou como o terrorista que 
mata, mas por razões idealistas
30
. O prazer não possui essa 
dignidade ética. O erotismo masculino, assim como se 
apresenta nas fantasias que examinamos, é absolutamente o 
inverso da ética. Esta impõe que se considere o outro ser 
humano como fim e jamais como meio. O objeto do desejo 
erótico masculino, ao contrário, é meio, como o alimento, como 
a água, como a cama para quem tem sono. Tudo o que serve 
para satisfazer uma necessidade é meio. Até mesmo a 
reciprocidade, no erotismo masculino, é egoísta. O prazer da 
mulher é desejado em vista do próprio prazer. 
Somente o prazer do outro enquanto prazer dele próprio, 
antes de ser um meio para o meu prazer, entra no registro do 
amor e da virtude. O erotismo masculino não possui essa 
dignidade. Ela não lhe é concedida. O erotismo masculino é 
anseio egoístico de gozo. Se um homem casado sente atração 
erótica por uma mulher e faz amor com ela, não para construir 
um futuro, uma nova família, não para realizar um grande 
amor, mas única e exclusivamente porque lhe agrada fazer 
amor, não há atenuantes. O prazer é tolerado em quem não 
possui vínculos, compromissos, em quem não fez acordos. É 
sempre vivido fora das instituições, além da permanência e do 
 
30
 Nitlas Luhman mostrou que a aceitação social do amor-paixão somente aconteceu no século 
XIX. Ver Amore come passione, trad. ital. Bari, Laterza, 1985. 
 49  
contrato, como uma fraqueza, uma degradação, uma 
dissolução. É acompanhar a linha de menor resistência, a que 
ilude a escolha, que pega o que puder, sem refletir. 
E cair à mercê da atração, da sedução, do objeto
31
. O 
sujeito se perde no objeto. É, portanto, loucura, dissociação, 
perda do centro que resiste ao objeto e a ele se impõe. O 
homem erótico é possuído por desejos, corre atrás de todas as 
coisas, como o macaco que não sabe propor-se um fim e 
ordenar os meios para atingir esse fim. Em linguagem popular, 
diz-se que cedeu às “fraquezas da carne”, que “se deixou 
levar”. É como a vertigem do jogo. De fato, esse erotismo é 
perigoso como o jogo de azar, como a corrida automobilística, 
tanto é verdade que mais cedo ou mais tarde, mas 
inevitavelmente, acontece a catástrofe. O jogador só pára de 
jogar quando perdeu tudo, quando está arruinado. A 
inconsistência moral do erotismo emerge violentamente das 
páginas de Henry Miller e do escritor italiano Vitaliano 
Brancati. 
Essa característica do erotismo não é exclusiva da tradição 
judeu-cristã. As recentes pesquisas de Michel Foucault 
mostraram que, na concepção grega, os afrodisíacos possuem 
na sua base uma energia que tende ao excesso. É preciso, 
porém, fazer dessas forças uso moderado, e isso somente é 
possível quando se é capaz de resistir-lhes. “O que constitui 
aos olhos dos gregos a negatividade por excelência... é o ser 
passivo diante dos prazeres.
32
” 
É, porém, impressionante encontrar estreita 
correspondência entre as fantasias eróticas masculinas 
ocidentais e as de alguns textos orientais, como por exemplo, 
no famoso livro do chinês Li Yu, II tappeto da preghiera di 
carne
33
. Também neste livro aparece o tema da irresistibilidade 
sexual do macho. As mulheres ficam fascinadas, subjugadas 
pela sua potência viril, tornam-se escravas de seu membro 
extraordinário, não podem passar sem ele. Isso acontece tanto 
no caso do jovem Sacerdote da Primeira Vigília como no do 
 
31
 Jean BaudriUard: Della seduzione, trad. ital., Bolonha, Capelli, 1980; Le strategie fatali, trad. 
ital., Milão, Feltrinelli, 1984. 
32
 Michel Foucault: L’uso dei piaceri, trad. ital., Milão, Feltrinelli, 1984. 
33
 Li Yu, trad. ital., Milão, Bompiani, 1973. 
 50  
virtuoso Ch’uan. Aquele com respeito à primeira mulher, 
consegue tornar-se irresistível porque é perito na arte erótica. 
Mas depois, quando quer competir com o virtuoso Ch’uan pela 
posse de Aroma, descobre ser inferior do ponto de vista físico. 
Manda então fazer para si um enorme membro. E é com ele que 
seduz Aroma e torna inofensivas todas as outras mulheres 
ciumentas e invejosas. Quando está em perigo, seduz aquela 
que o ameaça. As mulheres não conseguem absolutamente 
resistir ao prazer que esses homens superdotados lhes 
proporcionam. Elas enlouquecem de desejo, tornam-se como 
que drogadas. A dependência à droga acontece imediatamente, 
à primeira experiência. Uma vez experimentado o 
extraordinário pênis masculino, não podem passar sem ele. 
A diferença da pornografia ocidental é que, nesta última, 
não é necessária nenhuma habilidade, nenhum dote. Não é 
necessário possuir um supermembro, nem um sofisticado 
conhecimento sexual. Qualquer um está em condições de 
excitar uma mulher ávida de sexo, em qualquer momento, 
porque ela já está drogada. Em ambos os casos, todavia, tudo 
se reduz ao sexo ou ao corpo. As pessoas não fazem outra 
coisa, não falam de outra coisa. É um longo discurso sobre o 
erotismo, sem interferências. Não existem nunca dores de 
amor; no máximo, sofrimentos de abstinência. 
O erotismo tem um aspecto imoral também nas 
publicações chinesas. No livro II tappeto da preghiera di carne,o protagonista descuida de seus deveres, leva à ruína e à morte 
as mulheres que o amam. Em Chin P’ing Mei é, definitivamente, 
um assassino. Os dois amantes, Hsi-Mei e Lótus de Ouro, 
buscam o prazer acima de tudo e sem olhar os meios. A mulher 
é má com todos, assassina de maneira cruel o marido. O 
desenfreamento do erotismo (não aparece nunca a palavra 
“enamoramento”) transborda, faz mal, até mesmo a Hsi-Mei, a 
quem, no final, quando já está doente, a mulher dá cantárida 
para excitá-lo sexualmente enquanto agoniza. Outra 
característica constante é o perigo. Quem cede aos prazeres 
sempre o faz correndo altos riscos. No livro de Li Yu, o perigo 
consiste em ser descoberto por qualquer marido e por qualquer 
outra mulher. No livro Chin P’ing Mei, de ser descoberto como 
homicida. 
 51  
 
2. Quanto a esse aspecto, a fantasia erótica masculina é 
oposta à feminina. Se esta procura a continuidade, a intimidade 
e a vida em comum, a outra esforça-se por excluir o amor, o 
compromisso, os deveres, a própria vida social. Também no 
livro antes citado de Li Yu, os filhos, os pais, os negócios, as 
cerimônias, todas as preocupações são mantidas afastadas da 
aventura erótica. As mulheres procuram manter preso seu 
homem, mas ele faz tudo para conservar sua caprichosa 
liberdade. 
Há algo nas fantasias eróticas masculinas, que é 
antagônico ao compromisso, à responsabilidade. As mulheres 
que representaram, nestes últimos anos, o ideal erótico 
masculino possuíam, como característica comum, o fato de não 
criar laços e responsabilidades. Marilyn Monroe não é uma 
heroína romântica. Parece dizer: “Eis-me aqui, simples, 
ingênua, frágil, excitável. Faça o que quiser. Não lhe peço nada, 
nem casamento, nem continuidade, nem compromisso, nem 
dinheiro. Nem percebo suas intenções, seu significado sexual”. 
No filme O pecado mora ao lado, Marilyn oferece-se 
continuamente, mas não se dá conta disso. 
A mulher que encarna a fantasia erótica desresponsabiliza 
o homem de seu desejo. Não pede ao prazer compensações 
éticas. “Se lhe agrado”, esta é a sua mensagem, “aqui estou, 
tome-me. Se quiser ir embora, de mim não terá nem 
aborrecimentos, nem queixas, nem súplicas, nem chantagens, 
nem lamentações. Não o terei preso a mim por causa de filhos, 
mãe, parentes, irmãos. Não preciso do seu dinheiro. Não sou 
ciumenta, não guardo rancor. E, finalmente, se quiser voltar, 
aqui estou às suas ordens.” 
Sophia Loren e Gina Lollobrigida não se inseriram nesse 
esquema. Por isso mesmo, embora sendo belíssimas, não se 
tornaram símbolos sexuais. O que não aconteceu com La 
Bardot. Nesse caso a imagem é a de uma adolescente sem 
inibições, sem freios. Nela o sinal da não periculosidade é um 
certo grau de desordem, de desleixo. Veste-se com 
displicência, e seus cabelos são apenas parcialmente pintados. 
Tudo isso indica uma categoria social inferior. É uma mocinha 
fácil, pode-se deixá-la sem maiores consequências. 
 52  
Falta de consequências, interrupção do relacionamento 
causa-efeito. O tempo como justaposição de instantes 
separados, sem ligações um com o outro, é o oposto do tempo 
da moral e da lei que recorda e não esquece. É a negação de um 
componente extremamente importante na mentalidade 
masculina: a responsabilidade. É a negação do impulso 
biológico que leva o macho a parar para cuidar da fêmea e dos 
filhos. No erotismo masculino existe um componente 
anárquico, anti-social, um anseio inquieto de liberdade que os 
próprios homens custam a admitir. O homem com frequência 
trai a esposa, amante, não porque esteja interessado em outra 
mulher, tampouco pelo gosto da conquista ou de aventura. Ele 
a trai para ser livre, para poder iludir sua vigilância, para 
sentir-se fora de sua possessividade amorosa, de seu controle. 
Também a mentira, a dissimulação devem ser vistas sob essa 
perspectiva, como proteção de uma área secreta e pessoal em 
que nem mesmo o maior amor tem o direito de entrar e de 
inquirir. O erotismo, nessa área protegida por amores e 
deveres, tem o sabor da liberdade caprichosa e desenfreada. Da 
irresponsabilidade. 
 
3. A ética, como o amor, é vínculo, compromisso, 
continuidade. A liberdade do erotismo masculino pretende, ao 
contrário, recusar aquilo que é desagradável, que ofende, que 
irrita. Quer sempre ter o direito de poder escolher, elogiar, 
recompensar quem lhe dá prazer e de poder descartar, deixar 
de lado quem não lhe dá. Porém, se há alguma coisa naquela 
pessoa que lhe agrada, conserva-a. Mas isolada do resto. Daí a 
tentativa de separar o conjunto concreto da pessoa, com toda a 
sua complexidade e unidade, em tantas partes. Porque também 
uma pessoa má, perigosa, ignóbil pode ser sexualmente 
atraente. E então o homem deseja separar esse aspecto dos 
outros. Ficar apenas com a sexualidade. Colocar entre 
parêntesis, tanto quanto possível, seus aspectos odiosos e 
valorizar, elevar a primeiro plano, os positivos. 
Obviamente, a mulher age de maneira semelhante. Porém, 
mais no terreno do interesse social e econômico. Uma mulher 
pode resolver jantar com um homem porque ele é importante, 
pode também casar-se por dinheiro. Nesse caso, coloca entre 
 53  
parêntesis as qualidades negativas em troca de uma vantagem 
social. Mas quase nunca por uma vantagem erótica. É raro que 
procure num homem o desempenho sexual e deseje apenas isso. 
Erica Jong, no livro Pára-quedas e beijos, tenta comportar-se 
assim com seus amantes ocasionais, mas não consegue, e o que 
sente é raiva, ódio. Em geral, a mulher apenas fica excitada 
eroticamente se a pessoa lhe agrada de modo global. Mas, claro, 
às vezes pode sentir-se atraída por qualquer qualidade erótica 
extraordinária. Um célebre estadista francês tinha grande 
sucesso entre as senhoras de Paris por possuir um pênis 
superdotado. Mas o que atraía aquelas senhoras era muito mais 
a curiosidade, a competição com as outras mulheres, o fato de 
ele ser o presidente. Era, assim, uma apreciação ditada pelo 
social, não algo que a mulher escolhesse por conta própria. Por 
mais belo, musculoso ou viril que seja o corpo do homem, para 
a mulher são igualmente eróticos os gritos do público, o delírio 
do teatro e até mesmo um belíssimo iate. 
 
4. Outra manifestação do erotismo descontínuo 
(masculino) é o refúgio, o castelo, a gruta de carne, por 
analogia com II tappeto da preghiera di carne, de Li Yu. Nos 
braços de sua amada O homem está longe de todos os tumultos 
do mundo. Consola-se das culpas esquecendo-as, cura suas 
feridas. O erotismo transforma-se na ilha que torna suportável 
uma vida que, de outra forma, não valeria a pena viver. Do 
ponto de vista masculino, a coisa é simplíssima. Basta que 
duas pessoas desejem fazê-lo. Não é preciso que haja nenhuma 
atração especial, somente boa disposição. Se estão de acordo, 
então pelo menos por poucas horas são capazes de criar um 
encantamento entre eles, sozinhos, e construir um jardim de 
rosas longe do mundo. Podem depois retornar a ele, ou não. 
Que nome dar a isso? Chamei de “encontro” aquele entre dois 
amigos
34
. Mas é preciso ter uma expressão particular para 
indicar essa interrupção temporal erótica, esse encantamento 
limitado, essas férias do mundo, essa fusão momentânea que 
se realiza no abraço, no ato sexual. Ato é muito pouco, relação 
é muito. A unidade elementar desse erotismo é um intervalo, 
um intermezzo luminoso. 
 
34
 Francesco Alberoni: L’amicizia, Milão, Garzanti, 1983. 
 54  
O erotismo pressupõe a ausência de preocupações com a 
pessoa com quem se está tendo relações. Se existem 
problemas, envolvimentos externos desagradáveis, é preciso 
que haja um ato positivo de alheamento, de liberação. A área 
liberada e iluminada pode então ser preenchida pelo erotismo. 
Não é um espaço vazio, é um espaço esvaziado. Nele é possível 
concentrar-se exclusivamente no prazer eróticoe sua 
perfeição. Como na meditação. 
A concentração meditativa, o erotismo como meditação (II 
tappeto da preghiera di carne) é tanto mais agradável quanto 
mais nos libera de uma frustração, de uma aridez e de uma 
tristeza que pode apossar-se de nós. É a essa dimensão que 
pertence o amante. 
O tempo passado com o amante deve ser um tempo livre 
de toda e qualquer preocupação, extraordinário. O tempo da 
felicidade, o tempo da paz. Um tempo separado, recortado do 
cotidiano. Com um princípio e um fim. Tudo o que é diferente 
deve ter um princípio e um fim. (Salvo o estado nascente, que é 
o princípio do totalmente novo e não tem fim. O enamoramento 
não quer ter fim.) A amante existe paralelamente a uma relação 
institucional. Constitui uma outra dimensão em que a pessoa 
se refugia e de onde se retorna ao cotidiano. A dimensão do 
cotidiano é aquilo de que se fala e que é notório. É o lugar dos 
deveres institucionais, onde se podem enumerar os detalhes, 
analisar as tarefas. A dimensão do amante é a separação, o 
duplo, o paralelo. Essa dimensão é mais serena, exatamente 
porque o seu tempo é limitado, a relação com o mundo é 
parcial. Tudo vai bem com o amante porque naquele tempo não 
há interferências, apenas perfeição erótica. O tempo limitado e 
separado é governável como uma festa, um espetáculo teatral, 
férias, um baile. É o único tempo em que é possível o idílio. 
Muita gente imagina o enamoramento como idílio. Mas não é 
verdade. O enamoramento é também inquietação, tormento. O 
idílio é possível somente por períodos limitados. No início, 
quando ainda não houve a revelação da paixão e o dilema. Ou 
então, em seguida, quando já se estabeleceu uma regra, um 
código para os relacionamentos internos e com o mundo. O 
idílio não é o produto natural da atração, mas o resultado de 
uma realização. 
 55  
Às vezes a figura do amante é escolhida por ambas as 
pessoas; outras apenas por uma. Às vezes os dois estão 
apaixonados, mas um quer conservar o papel de amante para 
evitar que o amor invada toda a existência e crie um novo 
cotidiano. Ou então para evitar ter de escolher. O rei Eduardo, 
da Inglaterra, inicialmente teria preferido manter escondido, 
ou parcialmente escondido, o seu romance com Wally Simpson. 
Da mesma opinião era certamente a corte inglesa. Estavam 
satisfeitos que a Simpson fosse casada, porque isso significava 
que não aspirava casar-se com o rei. Em vez disso, Wally 
Simpson pede o divórcio e quer ser hóspede do Castelo de 
Balmoral. Não aceitava ser relegada à posição de amante. 
Queria o casamento. Isso significava tornar-se rainha da 
Inglaterra. O mundo político e a opinião pública, porém, não 
admitiam essa hipótese. Colocado diante do dilema de casar 
com a mulher amada ou renunciar ao trono, Eduardo decide 
abdicar. 
Existem, porém, relações entre amantes, que podem durar 
anos e anos, até mesmo toda a vida. Principalmente quando 
ambos são casados. Os dois não se encontram com muita 
frequência, e durante o encontro não permitem a interferência 
de nenhum elemento cotidiano perturbador. São carinhosos, 
gentis, interessados apenas em dar-se prazer. Agem como dois 
cúmplices e cada um dá o melhor de si mesmo. O fato de essa 
relação estar confinada com o erotismo dá-lhe um caráter fútil, 
não compromissado. Mesmo que, com o tempo, se desenvolva 
um afeto sincero e profundo, talvez mesmo o amor. 
Não existe amante sem que haja limite. Limite de tempo, 
na oficialidade, na apresentação. Não existe amante sem que 
haja segredo. Quando uma relação é manifesta, pública, muda 
de natureza, torna-se casamento, mesmo que não tenha esse 
nome. 
O amante pertence à busca da relação não ambivalente, 
obtida por subtração, com recolhimento. 
Esse evitar, iludir, enganar o mundo, assemelha-se ao 
modo com que a seita hebraica Dönhmeh resistia e se 
contrapunha ao mundo muçulmano: dissimulando. 
Comportavam-se como muçulmanos, mas, em segredo, 
praticavam o culto hebraico. 
 56  
Possuíam os textos do Talmude escritos em livrinhos do 
tamanho de um dedal. Os Dönhmeh não faziam prosélitos, não 
queriam expandir-se. Apenas sobreviver
35
. 
O erotismo de que falamos não se propõe ser um modelo, 
não se erige em norma moral. A sua liberdade é negativa, 
defendida de uma intrusão. Nessa situação, dissimular é mais 
apropriado que combater. O conflito é um esclarecimento. A 
escolha tende ao tudo, ao único. Esse erotismo, ao contrário, é 
sempre parte, delimitação. Sabe que é vulnerabilíssimo. É como 
o círculo mágico do exorcismo e do sacrifício. Uma simples 
linha no chão e que deve proteger do contato com tudo o que é 
impuro, contaminador, invasor, profano. Milan Kundera 
exprime muito bem esse sentimento atribuindo-o a uma 
personagem feminina, Sabina, no livro A insustentável leveza 
do ser. Seu amante Franz é obcecado pela necessidade de viver 
na verdade. Por esse motivo, certo dia, confessa à mulher 
Marie-Claude a sua relação com Sabina. “Para Sabina foi como 
se Franz tivesse forçado a porta de sua intimidade. Era como 
ver no vão da porta a cabeça de Marie-Claude, a cabeça de 
Marie-Anne, a cabeça de Alan, o pintor, a cabeça de todas as 
pessoas que ela conhecia em Genebra. Ela ia tornar-se, sem 
querer, a rival de uma mulher que lhe era totalmente 
indiferente. Franz ia se divorciar, e ele tomaria lugar a seu 
lado, num grande leito conjugal. De perto ou de longe, todo 
mundo estaria olhando; era preciso, de uma maneira ou de 
outra, representar uma comédia diante de todo mundo... O 
amor tornado público ganhava peso e tornava-se um fardo. Só 
de pensar nisso, curvava-se, por antecipação, sob o seu peso.”
36
 
 
5. O milagre da relação erótica masculina é o de uma total 
confiança e abandono endereçados somente ao prazer, sem 
qualquer dever, compromisso ou coerção. Nesse ponto, é 
exatamente como a amizade. Porém, a maneira de obter a paz 
erótica não é o aprofundamento intelectual, a confiança, a 
revelação, típicos da amizade. É, isso sim, o recolhimento, o 
silêncio, a moderação, a discrição. Só uma enorme discrição em 
 
35
 Ver Gershom Scholem: “The crypto-jewisb sect of the Dönhmeh”, in Messianic idea in Judaism, 
Nova York, Schcken Books, 1971, pp. 142-166. 
36
 Milan Kundera: A insustentável leveza do ser, publicado no Brasil. 
 57  
todos os outros campos consente o desenfreamento erótico, 
porque ali não há nada que possa corromper. 
É um erro pensar no erotismo masculino como revolta
37
. 
Isso é próprio dos movimentos e, por isso, do 
enamoramento. O amor se sente perfeito, exemplar. Por isso 
tende a tornar-se manifesto, a gritar sua beleza, a exprimir-se 
em atos públicos, em relações sociais. Os namorados não se 
separam, não se escondem, mostram-se, dão-se as mãos. 
Também o homem, quando está enamorado, age dessa maneira. 
Mas em seu íntimo, tem plena consciência de que a 
sociabilidade, a exemplaridade, a mundanidade leva os 
indivíduos para fora de si mesmos. Coloca-os sobre o palco 
onde representam. E a representação é sempre serviço. É 
sempre feita para os outros, não para si mesmos. 
O erotismo feminino tende a abrir-se para o mundo, a 
caminhar sob o sol, entre as pessoas. A mulher sonha fazer 
amor sob o céu estrelado, à beira do mar, na floresta, onde a 
natureza é mais bela. Fica eroticamente excitada quando 
caminha de mãos dadas com o seu homem por uma praça, ou 
quando entra numa festa de braços dados com ele. Também o 
homem fica excitado se a mulher é bonita, ou quando está 
enamorado. Também o homem é orgulhoso. Pode gabar-se mais 
da mulher do que de uma conquista. Entretanto, em seu íntimo, 
seu erotismo se exprime mais completamente nos ambientes 
fechados. Há no homem um componente erótico muito forte 
que desdenha o externo e valoriza o interno. Nesse erotismo 
não se espera reconhecimento, triunfo social, glória, mas, ao 
contrário, autonomia,independência, autarquia: abro mão. A 
vitória está no abrir mão, no criar o microcosmo. Triunfei 
sobre o mundo porque a ele contrapus o meu mundo, de igual 
para igual, de soberano a soberano. Conquistei minha liberdade 
sobre a opressão, defendi minhas fronteiras. Ninguém pôde 
entrar, por isso venci. Não devo esperar reconhecimento 
algum, porque não dependo deles. Repeli todos os ataques, 
salvei a minha pátria e o meu reino. 
 
 
 
37
 Como afirma Georges Bataille: L'erotismo, trad. ital., Milão, Mondadori, 1969. 
 58  
6. Entretanto, também o livro de Li Yu termina com o 
arrependimento, com o abandono do erotismo. A vida erótica 
acaba sendo considerada um período de erro. E sem qualquer 
influência judeu-cristã. Porque o erotismo masculino é 
apresentado, sempre, como exemplo de vida depravada que não 
deve ser imitada. É essa uma percepção hipócrita para enganar a 
censura ou existe algo de mais profundo? O significado é mais 
profundo. Sim, esse erotismo é parte importantíssima da vida, 
porém não a exaure, não pode ser tomado como essência da 
vida. O erotismo consente em fugir à contingência, em refugiar-
se na felicidade, em anular o tempo. Mas não em resgatar a 
contingência, dominar o tempo. O erotismo é um refúgio com 
relação ao mundo externo. É absolutamente perfeito 
esquecendo-o. Não tende a impor o seu projeto sobre a vida, 
dominando-a: a decidir o que foi, o que é, e o que será. Por isso, 
no fim da vida, o erotismo deve ceder lugar a quem domina o 
tempo: à sociedade, ao amor, a Deus, a Buda. 
 
8 
 
1. Seduzir, para o homem, não significa provocar uma 
emoção erótica indelével, significa ir para a cama, “fazer amor. 
Isso não quer dizer, porém, que ao homem não agrade o jogo 
da sedução por si mesmo, da sedução sem objetivo, como puro 
desejo de agradar e de despertar prazer. Aliás, é fortíssima no 
homem essa necessidade de cortejar e, se for inibido, cai, em 
geral, a sua capacidade de excitação erótica, desenvolvendo-se 
um penoso sentimento de frustração e depressão. Pode-se 
observar isso nos grupos de adolescentes masculinos: quando 
um deles faz a corte a uma moça, é ridicularizado pelos outros. 
Depois de algum tempo o rapaz torna-se inibido, tímido, até 
mesmo temeroso. Observa-se também, às vezes, nos 
relacionamentos matrimoniais, quando a mulher proíbe o 
marido de olhar para outras mulheres, agredindo-o se ele o faz. 
O homem sente-se completamente mutilado em sua liberdade, 
experimenta uma sensação de constrangimento, de 
aprisionamento. Algo parecido ao sentimento experimentado 
pela mulher quando lhe proíbem cuidar do próprio corpo, 
 59  
fazer-se bela para agradar. Como já dissemos, todo homem 
sente irresistivelmente dentro de si o direito de procurar a 
mulher, e a mulher, de ser procurada e de escolher; isso fora 
de uma finalidade sexual explícita. 
Porém, a finalidade última da corte masculina, a fantasia 
que se esconde atrás do jogo, é fazer amor. E quando a corte 
produz um encontro erótico, essa fantasia torna-se desejo. 
Conseguir fazer amor é para o homem o ponto de chegada, a 
conclusão. Se uma mulher aceita a relação erótica, mas lhe 
recusa a sexualidade, recusa-lhe o essencial. O afeto, a 
intimidade, as carícias não lhe bastam, não podem bastar-lhe. 
No mais profundo da alma masculina, em sua mentalidade está 
radicada a ideia de que se uma mulher lhe concede a sua 
sexualidade está lhe concedendo ela própria, inteiramente. Por 
isso o homem que fez amor com uma mulher diz que a 
conquistou. Por isso, nas gabolices entre rapazes destacam-se 
as conquistas realizadas. O número de mulheres que tiveram 
são como a quantidade de aviões abatidos, vitórias 
conquistadas. 
O mesmo não acontece para a mulher. Ela pode decidir 
entregar-se sexualmente, envolvendo-se com intensidades 
diversas. Pode envolver-se muito pouco, depois um pouco 
mais, às vezes muito ou então completamente. O caso limite á 
a prostituta que se entrega não dando nada e que simboliza o 
seu fechamento total jamais beijando o homem na boca. Aquilo 
que para o homem é um ato descontínuo: ou sim ou não, ou ato 
sexual ou nada, para a mulher é uma gradação de aberturas, 
como uma sequência de portas que ela abre somente ao homem 
que, aos seus olhos, o merece. Por isso a mulher sente-se 
profundamente ofendida quando o homem com quem se 
relaciona sexualmente a considera uma conquista, tratando-a 
como se ela se tivesse tornado propriedade sua. 
 
2. Aos olhos masculinos, a mulher vestida está distante, 
protegida. A roupa e a maquiagem têm sempre um duplo 
significado: de convite e de obstáculo. Duas forças que podem 
ser diversamente dosadas. Em certos casos a mulher acentuará 
o convite, se aquele homem lhe agrada, se quer atraí-lo. Mas o 
homem sente grande dificuldade em decifrá-lo. Vimos que, bem 
 60  
no íntimo, a maior parte dos homens tem medo da beleza 
feminina. São atraídos por ela, mas ao mesmo tempo a temem. 
A mulher que se faz ainda mais bonita para agradar pode, por 
isso mesmo, dar ao homem a impressão de ser ainda mais 
inacessível. Além disso, na fantasia erótica masculina, as 
roupas, quanto mais elegantes, refinadas, finas e femininas, 
mais simbolizam uma diferença, uma distância, um obstáculo, 
um teste. 
Seduzir significa inverter essa situação. Seduzir significa 
que essa linda desconhecida, a secretária impecável atrás da 
escrivaninha, a grande senhora envolta em peles ou num 
vestido de noite, de um momento para outro torna-se uma 
amante apaixonada. No íntimo, o homem não acredita em sua 
capacidade de seduzir. A sedução, para ele, é sempre um 
milagre. Quando acontece, quando a mulher vestida se despe, é 
porque ela assim o decidiu e ele só pode sentir-se estupefato e 
feliz. Mesmo o dom-juan mais cínico fica emocionado quando 
uma mulher desconhecida entrega-se a uma intimidade 
inimaginável poucos minutos antes. Para o homem, a sedução 
nunca é motivo de triunfo, mas de encantamento. Jamais causa 
uma sensação de superioridade, mas de reconhecimento. 
Nada causa maior admiração e espanto a um homem do 
que a transformação da mulher que se entrega
38
. De repente, 
quando menos espera, a desconhecida se comporta com ele 
como se tivesse amadurecido um longo relacionamento, uma 
profunda confiança íntima. Como se fosse sua amante há longo 
tempo, como se estivesse apaixonada. É esse o motivo pelo 
qual, principalmente no passado, os homens se julgavam 
verdadeiros “rouba-corações”. O homem não sabe que a mulher 
já o estudou, o pôs à prova, abriu lentamente sua guarda e 
mesmo agora, enquanto se entrega sexualmente, não se dá 
inteiramente. O homem, que ignora essa gradação silenciosa 
tipicamente feminina, é levado a acreditar numa grande paixão 
ao ver uma disponibilidade sem reservas, tamanha avidez pelo 
seu corpo, seu esperma, seus odores, um tal desenfreamento 
impudico. 
 
38
 Maria Pia Pozzato já havia observado isso estudando o romance cor-de-rosa, mas sem 
compreender que esse não é um ponto de vista feminino, mas masculino. A mulher quer 
provocar essa emoção e essa perturbação. Maria Pia Pozzato: II romanzo rosa. 
 61  
A experiência de transformações inesperadas e 
maravilhosas deixa no homem uma impressão intensa, uma 
lembrança indelével. Afinal, o dom-juan procura mesmo é essa 
emoção. Quer renová-la indefinidamente, sentir a cada vez o 
êxtase do inacreditável. Para conseguir isso, porém, tem de 
colocar-se em antagonismo com a paixão que suscitou. Tem de 
impedir que a onda erótica da mulher o envolva, o prenda, 
torne-se continuidade. Porque se se tornar continuidade o 
espanto maravilhoso da sedução se esvai. 
Mas também o homem deseja, no íntimo, suscitar uma 
emoção irresistível, ser amado, ser desejado totalmente. 
Também ele busca na mulher uma paixão erótica sem freios. Os 
símbolos da sedução feminina prometem essedelírio emotivo e 
sensual. O homem deseja a onda emocional da mulher, mas, ao 
mesmo tempo, existe nele uma necessidade de 
descontinuidade. A mulher deve então afastar-se para que 
possa novamente encontrá-la. Deve tornar a ser elegante, 
“vestida”, distante, para que ele possa reencontrar a 
desconhecida. A mulher sabe dessas coisas. Aliás, já vimos, 
falando da sedução feminina, que a mulher procura “fazer-se” 
continuamente diferente para conservar o interesse erótico de 
seu homem. Também dissemos, na ocasião, que a emoção 
provocada pela beleza feminina nunca é duradoura, que o 
homem se afasta, motivo pelo qual a mulher deve renovar seu 
encanto. De qualquer forma, portanto, a mulher é obrigada a 
usar sempre a arte da sedução, mesmo quando gostaria de ser 
apenas “ela mesma”, ser apenas a “bela adormecida”. E, muitas 
vezes, isso lhe pesa. 
 
3. É muito difícil para o homem saber se a metamorfose 
amorosa da mulher é sincera ou simulada, se é produto do 
amor ou artifício da sedução. Também a prostituta, uma vez 
combinado o preço, simula interesse, admiração, excitação 
erótica. O fato de ela não beijá-lo na boca nada significa para o 
homem. Para ele a mulher está eroticamente excitada se elogia 
seu corpo, se grita de prazer, se dá a entender que nunca viu 
um membro tão excitante, se lhe beija o sexo. E isso, a grande 
prostituta, a cortesã de classe, sabe fazer muitíssimo bem. 
Como, então, distinguir essas atitudes do amor, da paixão? 
 62  
Por outro lado, o homem também deseja interromper o 
fluxo emocional, a continuidade erótica, e a cortesã consegue 
isso com perfeição. Porque conhece seus desejos. Sabe que ele 
não quer ser sufocado por afeto, atenções, que não quer ser 
“amarrado”. Daí resulta um paradoxo; o homem é sensível 
sobretudo ao fascínio da mulher que usa racionalmente as 
artes da sedução. A Bela Adormecida tem motivos para temer o 
poder da feiticeira. Os perigos e as angústias de que falam os 
romances cor-de-rosa são perfeitamente justificados. 
Outro fato paradoxal é que o homem, quando uma mulher 
se entrega a ele com muita facilidade e de modo desabrido, tem 
a impressão de que ela o faz por cálculo, ou por um motivo, 
isto é, que age como uma prostituta. A expressão pejorativa “é 
uma puta” quer dizer, afinal, que ela finge, que engana, que 
usa sua sexualidade com objetivos não eróticos. Não nos 
esqueçamos de que, para o macho, o prazer sexual é um fim 
por si mesmo. A ideia de que é usado com outra finalidade o 
perturba. A ideia de que a excitação erótica possa ser simulada 
o inquieta. Porque ele não pode fazer isso, porque nele a 
ereção é uma prova que não se pode falsificar. 
O homem também pode equivocar-se a respeito do desejo 
feminino de continuidade. A mulher deseja estar com o homem 
que ama ou que lhe agrada. Deseja viajar com ele, ver as 
mesmas coisas que ele vê. Deseja ser admirada ao lado dele 
nas festas, mostrar-se em público. Tudo isso faz parte de seu 
erotismo espontâneo. Enquanto o homem, quando a mulher lhe 
pede essas coisas, tem a impressão de que a ela não interessa o 
erotismo, mas o mundanismo. Também aqui volta-se à imagem 
da cortesã que dá o seu sexo porque quer algo em troca. Sua 
verdadeira intenção está em outro ponto. Essa dificuldade que 
o homem tem de compreender se a mulher age por amor ou por 
interesse suscita nele uma sensação de desconforto. 
4. Em suas fantasias, o homem deseja todas as mulheres, 
gostaria de fazer amor com todas. Sente dentro de si um desejo 
sexual inexaurível, renascente. Deseja, como na pornografia e 
na prostituição, mulheres que se oferecem a ele 
continuamente. Em vez disso, na situação real, quando a 
mulher se oferece a ele com insistência, quando ela quer fazer 
amor com ele intensamente, continuamente, seu interesse 
 63  
decai e ele se retrai, sente-se impotente. Se a mulher, então, 
toma a iniciativa, se ela deseja mesmo uma sexualidade 
extraordinária, se ela se comporta verdadeiramente como ele a 
imagina na pornografia, então é ele que se fecha, que fica com 
medo. Habituado a pedir, o homem que construiu sua vida 
fantasiosa sobre o pedir não sabe dizer não quando o papel se 
inverte. Então é o seu organismo que se recusa. Não consegue 
mais ter ereção, ou então não consegue mais ejacular. Por Isso 
as mulheres dizem que o homem, na verdade, tem medo da 
sexualidade feminina e que tem necessidade de contínuas, 
patéticas reafirmações de sua virilidade. 
Com a sexualidade descontínua, a tendência a identificar o 
erotismo com o orgasmo ou pelo menos com a penetração, o 
homem não pode aderir pontualmente a um erotismo difuso, 
amoroso, cutâneo, olfativo, tátil, onde os orgasmos se sucedem 
de modo contínuo e o abraço erótico parece durar 
indefinidamente. O homem sonha em fazer amor, não em estar 
num contínuo estado orgástico. Mesmo que depois, na 
realidade, passe dias inteiros abraçado à sua amada, mesmo 
que passe a noite fazendo amor com ela, para ele o tempo será 
constituído de vários inícios. Cada vez será como se 
encontrasse a sua mulher pela primeira vez, como se a 
despisse pela primeira vez, como se a visse nua pela primeira 
vez, maravilhado com o milagre da sedução como da primeira 
vez. O descontínuo masculino vive dessa ilusão do início, da 
surpresa, do diferente, da descoberta. Por isso tem horror do 
que lhe aparece como repetição, hábito, gesto esperado. A 
exigência sexual feminina o assusta e destrói seu erotismo, 
porque lhe lembra o cotidiano, a repetição, o dever. 
A sedução feminina, como já vimos, é contínua criação do 
encantamento do novo. E é por isso que acende o desejo 
masculino. Se a mulher pede o sexo como continuidade e 
repetição, produz no homem um movimento inconsciente de 
desinteresse e de recusa, que se transforma em impotência. 
Como a frigidez feminina aparece quando falta sedução por 
parte do homem, assim também a impotência masculina é 
sintoma da falta de sedução por parte da mulher. 
 64  
9 
 
1. Às vezes, de uma relação amorosa, o homem consegue 
recordar-se com grande nitidez de apenas alguns momentos 
eróticos. Para isso, anula, coloca entre parêntesis a história da 
relação, as emoções complexas, isola a parte erótica, elabora-a, 
faz dela um caso onde se insere fantasticamente. É como se de 
um filme de amor, em que existem algumas fortes cenas 
erótico-amorosas, tivessem sido cortadas apenas estas, e 
montadas depois fora do contexto. O isolamento permite 
colocar em evidência e relembrar somente a parte mais bela 
para ele, mais agradável, mais triunfal da experiência. Ele 
tende a esquecer completamente as etapas emotivas mais 
importantes do desenvolvimento da relação, para lembrar com 
intensidade impressionante alguns momentos, algumas 
particularidades eróticas, como se fossem o símbolo, o 
essencial da própria relação. O fenômeno é semelhante às 
“lembranças superficiais” descobertas pela psicanálise 
freudiana. A recordação erótica, porém, ao contrário destas, 
não é uma reelaboração imaginária. É perfeitamente real, mas 
é, ao mesmo tempo, supradeterminada no nível simbólico, 
possuindo uma extraordinária força evocativa. Quase sempre 
essas lembranças masculinas são visuais e, na maior parte das 
vezes, têm a ver com o início da relação erótica, o momento de 
entrega da mulher, o extraordinário momento da 
“metamorfose”. As lembranças da mulher, ao contrário, não se 
limitam apenas ao ato sexual, não são constituídas somente 
por um visual particular. Elas evocam, antes de tudo, uma 
emoção completa, um evento. 
No filme de Fellini, Cidade das mulheres, o sr. Cazzoni 
possui uma galeria de retratos de mulheres onde estão 
registrados seus gritos, estertores, suspiros, as frases 
entrecortadas de seus orgasmos amorosos. É uma galeria de 
troféus, onde a mulher é obrigada a se reconhecer, mesmo que 
não queira. Ele a constrange a admitir que ela é exatamenteaquela que gritava “Meu amor, mete, mete”. Mesmo que agora 
queira esquecer tudo o que aconteceu, por sentir que foi uma 
fraqueza, uma rendição. Essa galeria faz com que a mulher 
recorde — através das frases durante o orgasmo — toda a sua 
 65  
história amorosa, o que não existe mais e que ela quer 
esquecer, se já não esqueceu. Por isso gostaria de recuperar 
aquele fragmento, como desejaria ter de volta suas fotografias, 
quando o amor já acabou. O sr. Cazzoni, ao contrário, só quer 
recordar aquilo e lhe impõe sua lei. Na cidade feminista a 
fantasia masculina tornou-se um pesadelo. 
Dissemos anteriormente que a personagem feminina mais 
erótica é aquela que não cria problemas, responsabilidades, a 
mulher burra que nem ao menos reconhece sua força sedutora 
e que tem memória fraca. Agora sabemos que o homem, 
exatamente quando faz essa fantasia, conhece o peso 
emocional do real. Assim como conhece a história real de sua 
vida, também dela se recorda com prazer somente de uma 
parte. Sabe que havia o obstáculo, a resistência e também o 
amor. Mas na elaboração fantasiosa trata-os como forças 
domadas sobre as quais triunfa a liberdade soberana do 
vencedor. É como o saque após a conquista de uma cidade. O 
guerreiro vitorioso profana tudo, invade todos os lugares sem 
encontrar mais qualquer resistência, nem interna, nem externa. 
 
2. Essa experiência tem algo a ver com Sade e o sadismo? 
Georges Bataille, em seu livro O erotismo, deu muita 
importância a Sade, definindo o erotismo como a presença da 
vida dentro da morte e a presença da morte dentro da vida. 
Para Bataille, existem na natureza duas forças. Uma que tende 
ao individualismo, e o indivíduo quer sobreviver. Outra que 
tende à fusão e, dessa maneira, à decomposição do indivíduo, à 
sua morte. Esta segunda força é a violência. No erotismo as 
duas operam. O indivíduo quer permanecer ele mesmo e, 
todavia, fundir-se com outro. Mas no mais profundo do ser a 
fusão permanece como destruição, violência, morte. Sade não 
fez outra coisa — na opinião de Bataille — que exasperar esse 
pólo dialético do erotismo. O erotismo é sempre, portanto, 
transgressão, violência, profanação, vontade de anular-se e de 
anular. 
Essa posição de Bataille teve muita aceitação, mas não é 
sustentável. Não por ser truculenta, ou por ser expressão de 
uma concepção da sexualidade como pecado. Mas porque junta 
coisas heterogêneas, como, por exemplo, a excitação coletiva 
 66  
da multidão, da orgia, o orgasmo sexual, o transe hipnótico e, 
finalmente, o êxtase dos enamorados. Coisas demais. A fusão 
amorosa do enamoramento, por exemplo, não é uma anulação 
dos indivíduos do indistinto. É mais a aparição de algo 
completamente novo em que os dois indivíduos se 
transfiguraram. É um mutante que entra no mundo e procura 
realizar-se nele. O casal enamorado é uma formação social 
dotada de uma imensa energia que diz respeito criticamente a 
seu passado e projeta seu futuro. Gera valores últimos, fins 
últimos. Potencializa, não enfraquece a vontade. O estado 
nascente nada tem a ver com a decomposição da morte. É um 
renascimento. É o surgimento de uma nova forma de vida 
capaz de esperar e de querer. 
A embriaguez estática da orgia é algo completamente 
diverso. Durante a excitação coletiva, os indivíduos não se 
reconhecem mais, não conservam sua inconfundível unicidade. 
É o contrário do enamoramento. Por outro lado, terminada a 
orgia, cada um volta a ser como antes, um indivíduo isolado. 
Na excitação coletiva da multidão, os indivíduos são ainda 
mais anulados. Na orgia, procuram-se, encontram-se, procuram 
dar-se prazer. Na multidão estão apenas juntos, espremidos, 
gritando. Suas mentes estão alteradas, perderam a capacidade 
de julgamento e, na realidade, não pensam mais. São 
arrastados por emoções, por slogans. As criaturas assim 
regredidas marcham juntas, ritmicamente, e se transformam 
numa massa. Por que confundir esse estado idiota com a lúcida 
tensão do amor? 
Ainda mais diversa é a situação do transe hipnótico
39
. Aqui 
as características da multidão tornam-se exaltadas. Dentro de 
um espaço definido e por um tempo determinado, os 
indivíduos perdem sua individualidade e se sentem possuídos 
por uma força ao mesmo tempo profundamente pessoal e 
transcendente, uma força divina. Porém, o grupo não possui a 
estupidez da multidão. A experiência extática tem um princípio 
e um fim, e cada um, ao final do culto, reencontra a sua 
personalidade, revigorada e enriquecida. 
 
 
39
 
1
 Georges Lapassade: Saggio sulla trance, trad. ital., Milão, Feltrinelli, 1980. 
 67  
3. Sem a formação de uma coletividade e, portanto, sem os 
deveres, responsabilidades e vínculos que o amor comporta, o 
erotismo se dissolve completamente no ato porque é puro 
prazer. Inútil como o jogo, não leva a nada. Quem não está 
disposto a tomá-lo como fim em si mesmo enlouquece, pois 
jamais poderá justificá-lo. É como atirar pedras num lago e 
observar as ondas. Não é profundo, nem sublime. Não é 
heróico, não provém das coisas e não as domina. Justapõe-se a 
elas, coloca-se a seu lado. Pode ser um sorriso ou uma careta. 
A sua imoralidade deriva do choque com os deveres 
sociais, com as responsabilidades do trabalho. Sob esse 
aspecto Bataille tem razão, como também tem razão quando 
diz que esse erotismo profana, violenta a beleza. Mas não por 
maldade. Faz isso por indiferença, porque quer o seu prazer. 
Assim, choca-se frontalmente com a outra fonte do erotismo. 
Aquele que descrevemos como sendo mais típico da mulher. O 
erotismo que brota do amor, que tende ao contínuo, que se 
quer eterno, que produz um projeto de vida. 
 
Não existe apenas uma raiz do erotismo, mas duas. Uma é 
mais profundamente presente nas mulheres e a outra, nos 
homens. A primeira tende a produzir uma comunidade de vida, 
unida pelo amor. A segunda, ao contrário, não tem projetos, 
vive de fragmentos. Não é justo estabelecer se uma é superior 
à outra ou se, no futuro, uma prevalecerá definitivamente 
sobre a outra. Ninguém pode sabê-lo. Muito importante, isso 
sim, é mantê-las logicamente distintas. 
O erotismo a que se refere Bataille pertence ao filão 
masculino. Sade leva ao extremo, até a loucura, a tendência à 
fragmentação, às irresponsabilidades típicas do pólo masculino 
do erotismo. Sade usa imagens cruéis de tortura, de morte, de 
profanação, de esquartejamento, como símbolos de um 
processo emotivo e mental de separação. Assim, tem-se a 
impressão de que as vítimas não sofrem realmente. Devemos 
ter presente que a agressividade causa prazer somente quando 
se dirige a um objeto odiado. Se fazemos mal a quem amamos, 
sofremos com isso. O princípio do prazer funciona somente 
com a premissa de que a descarga de amor ou de ódio deve 
 68  
atingir o objeto apropriado, não pode errar o alvo
40
. Sade não é 
um guerreiro que exulta sobre o corpo do inimigo assassinado. 
Em seus livros não encontramos inimigos, não há tampouco 
ódio. O que existe é pura violência gratuita, física e moral, 
satisfeita consigo mesma e que não provoca sofrimento. Isso 
significa que o ato é puramente simbólico. Que o que é 
lacerado, violentado, não é na realidade um corpo, mas algo 
diferente. Tendo como base a análise feita, esse algo diferente 
é uma relação estruturada. É a relação amorosa e, em 
particular, a forma específica do erotismo feminino. 
 
4. Quase todo mundo teve a impressão de que A história de 
O, de Pauline Réage, foi escrita por um homem. Porque é uma 
fantasia (o mito) tipicamente masculina, precipitação histórica 
de uma sociedade em que existe um abismo entre homens e 
mulheres. Até muito recentemente, os dois sexos mantiveram-
se separados. Cada um tinha suas próprias tarefas, problemas, 
dramas, fantasias diversas. Nessa sociedade os homens 
imaginavam e desejavam uma mulher que não tinha desejossexuais, que não possuía seu próprio erotismo. Uma mulher 
que era psiquicamente assexuada, pudica, frágil e passiva. 
Somente o homem desejava o sexo. Desejava-o contínua e 
obsessivamente. A mulher dizia não, sempre e somente não. 
Para realizar seu desejo, o homem precisava obrigá-la a fazer 
algo que ela, por si mesma, jamais teria imaginado. 
Para chegar até aí, tinha dois caminhos a seguir. O 
primeiro era a sedução. Seduzir significa dobrar sua vontade 
reticente, forçando-a a dizer sim, a querer seu desejo. A força 
sedutora mais poderosa é o amor. A mulher ama com amor 
espiritual e, por amor, está disposta a fazer qualquer coisa. 
Como O, que aceita ir a Roissy, despir-se, ficar de quatro, abrir 
as pernas e depois deixar-se possuir por todos, seguidamente. 
O outro caminho é a violência, o estupro. Em A história de 
O aparecem ambas as coerções, passam-se continuamente de 
uma para outra. 
 
 
40
 A exposição desse modelo teórico está no livro de Francesco Alberoni, Movimento e 
istituzione, Bolonha, II Mulino, 1981, cap. IV. 
 69  
Nesse tipo de fantasia, os homens são nobres, aristocratas, 
guerreiros, e as mulheres, presas de guerra, cujo orgulho e 
vontade própria foram totalmente pisoteados e apenas graças a 
isso podem tornar-se objetos eróticos. 
Antes de ser violentada, psíquica e fisicamente, a mulher 
não é, na realidade, um objeto erótico. É uma mãe, uma irmã, 
uma ama, uma noiva. Sempre vestida, sempre austera, sempre 
pudica, sempre casta. A liberação do desregramento erótico 
acontece profanando essas imagens, cancelando-as, fazendo 
emergir a animalidade. O erotismo somente aparece com a 
destruição dos outros papéis, outros liames sociais de que a 
mulher é portadora e símbolo. 
A violência do sadismo não é, portanto, dirigida contra as 
pessoas, contra os corpos, mas contra os símbolos, os papéis 
desempenhados. É por esse motivo que as mulheres, após 
terem sido chicoteadas, acorrentadas, humilhadas de todas as 
formas, continuam belas, bem dispostas, com a pele suave e 
intacta. O erotismo sádico não toca os corpos. Estes são apenas 
o símbolo de outra coisa: as instituições matrimoniais, 
familiares, os laços amorosos contínuos do erotismo feminino 
que o erotismo masculino devasta. 
O fato de esse livro agradar até os dias de hoje mostra que 
o erotismo ainda tem necessidade de rebelar-se para encontrar 
sua expressão, isto é, que ainda estamos numa época bárbara. 
Seria porém um erro imaginar que tudo isso esteja a ponto de 
desaparecer. Aquém e além dos símbolos institucionais e 
dessexualizados, continua intacto o choque do erotismo 
masculino e feminino, do erotismo como fragmento e do 
erotismo como continuidade amorosa. O componente sádico do 
erotismo nasce da violência de sua luta interna, da dialética 
entre suas duas polaridades. 
 
10 
 
1. Por que o estupro é tão traumatizante? Porque é nele 
que a sexualidade masculina, como desejo impessoal, 
descontínuo, irresponsável, se choca frontalmente com o 
 70  
desejo feminino. O homem não compreende a natureza do 
trauma. Em suas fantasias ele imagina que, se dez mulheres o 
possuíssem, o derrubassem no chão, o obrigassem a fazer o 
que quisessem, ele não se perturbaria nem um pouco. Na 
realidade, isso não seria verdadeiro, mas o é na imaginação. 
Para o homem, o estupro é uma fantasia erótica positiva; para a 
mulher, negativa. Acima de tudo, ele não compreende por que 
o estupro possa ser traumatizante para uma prostituta. Mas a 
verdade é que as prostitutas sentem-se igualmente ofendidas, 
lesadas pelo estupro. Também para elas é intolerável serem 
agarradas à força, contra sua vontade. A prostituta se entrega, 
faz qualquer coisa com qualquer um, mas é ela quem decide. 
Faz isso por necessidade econômica, pois cupidez, mas o ato 
de abrir as pernas é decisão sua. É um ato motivado, 
objetivando uma vantagem. No estupro, ao contrário, não há 
troca, não há vantagem. É realmente “a bolsa ou a vida”. 
Entregar-se sexualmente é, por- tanto, como entregar todo o 
seu dinheiro. Entregar-se é tão precioso como entregar a bolsa. 
É o mesmo que entregar uma riqueza. Entretanto, fisicamente, 
nada é perdido. O que é perdido então? O que é roubado da 
estuprada? Sua liberdade de decidir, de escolher. Se a obrigam 
a entregar-se é porque não quer fazê-lo. 
Em suas fantasias o homem se imagina passivo. Está 
sempre pronto a dar-se. A mulher, ao contrário, tem 
necessidade absoluta de escolher entre o sim e o não. O direito 
de não se entregar, de dizer sim ou não é a sua força. Esse 
direito tornou-se constitutivo de sua identidade social. É ela 
que, entregando-se (ou não), decide sobre si mesma, tem um 
poder de autodeterminação, é uma pessoa humana. 
A vagina é fechada, não se vê, deve abrir-se. Somente um 
ato de vontade é capaz de fazê-la abrir-se. O pênis, ao 
contrário, não exige vontade. A ereção é involuntária. Dar-se 
significa querer. Para o homem, ter uma ereção, desejar, não 
significa querer. Em linguagem popular e vulgar diz-se que a 
mulher “dá”. No entanto é a vagina que toma, do ponto de vista 
físico
41
. Por que então diz-se que a mulher “dá”? É que esse 
“dá” significa a liberdade de dar ou não, de acordo com sua 
vontade, assim como se dá dinheiro, um beijo, algo nosso que 
 
41
 Elisabetta Leslie Leonelli: Al di la delle labbre, Milão. Rizolli, 1984. 
 71  
tem valor. Pode-se dar em troca, para obter qualquer coisa, ou 
como um presente. 
No estupro a mulher não é mais livre para dar ou não dar, 
é tomada à força. Somente a mulher pode dizer “Tome-me”. Se 
não o diz, se não se abre, pode somente ser dilacerada. O 
estupro é uma dilaceração da vontade. No homem, essa 
violação da vontade não pode acontecer com respeito ao sexo. 
Claro que se pode obrigar o homem a fazer também algo 
sexualmente desagradável. Por exemplo, obrigá-lo a deixar-se 
sodomizar. Mas também, nesse caso, ele sente apenas 
repugnância, nojo, dor, humilhação. 
A ereção no homem é involuntária. Não é possível obrigar 
um homem a ter uma ereção e um relacionamento sexual ativo 
com alguém (homem ou mulher) que não lhe agrade, que ele 
rejeita. A única situação equivalente à do estupro, no homem, é 
encontrada fora do campo erótico. Por exemplo, quando está 
em jogo uma crença, uma ideologia. Como obrigar um cristão a 
cuspir em uma cruz. Nesse caso, a pessoa é obrigada a recusar, 
desprezar, abjurar tudo aquilo que para ela é o valor máximo, a 
fonte de todo o valor. A querer aquilo que a vontade não 
deveria querer, sob pena da perdição de si mesmo, da danação. 
No ato sexual não existe nada de semelhante. 
A correspondência existe somente se examinamos, não o 
ato, mas a relação. Também no homem a vontade pode ser 
violentada. Mantendo-o sempre perto, aprisionando-o, não o 
deixando partir. Retendo-o, como se fosse um prisioneiro ou 
um menino. No homem, o desejo de poder andar com as 
mulheres que quer é o equivalente feminino da possibilidade 
de entregar-se somente ao homem que quer. O exercício da 
vontade é o mesmo. Apenas o ponto de partida é diferente: o 
homem deve pedir, à mulher é pedido. O homem deve ser livre 
para pedir; a mulher, para escolher. 
 
2. Mas há um segundo motivo. O homem é fisicamente 
mais forte que a mulher. Possui músculos mais fortes, uma 
estrutura óssea mais robusta, em geral é mais alto. Durante 
milênios foi caçador e guerreiro. Por isso mesmo é mais 
agressivo. Ama a competição, a luta, os esportes violentos. Sem 
 72  
dúvida, a mulher é atraída pelo corpo do homem, pela sua 
força, mas, ao mesmo tempo, sente medo. 
Quando o homem a agarra com forca, com brutalidade, 
sente-se em seu poder. A mão é como uma garra que a machuca 
e à qual não se pode subtrair. O abraço lhe tira a respiração, a 
sufoca. A violência do homem evoca um temor antigo, 
primordial, radicado na parte maisprofunda da alma feminina. 
Desencadeia um pânico biológico capaz de conduzir até a 
morte. 
Mas algo desse medo com relação à força e à violência do 
homem continua a existir em todos os momentos. É por isso 
que a gentileza tem tanta importância para a mulher. A 
gentileza dos gestos indica a da alma, significa que não tem 
nada a temer. Que aquela força, aquela violência não podem se 
voltar contra ela. Por isso a mulher precisa tanto de amor, 
porque somente o amor, principalmente aquele feito de 
ternura, afasta para sempre o espectro da violência. O grande e 
forte corpo viril não mais é perigoso e nele a mulher pode 
refugiar-se com segurança. A mulher deseja ser abraçada pelo 
homem, mas o abraço deve ser acolhedor, protetor, amoroso. 
 
3. Quando procuramos entrar em contato com outra 
pessoa, isso constituiu sempre uma ruptura, uma perturbação. 
Escrevem Bruckner e Finkielkrault: “É preciso justificar e, se 
possível, cancelar a ilegalidade. Sou o vendedor de mim 
mesmo, e como um vendedor deve evitar que lhe batam com a 
porta na cara antes que tenha tido tempo de oferecer a 
mercadoria, assim também precisa usar filigranas de astúcia 
para transformar instantaneamente a careta do outro em 
sorriso, e o seu retraimento em curiosidade”
42
. 
Isso acontece quando partimos do nosso desejo, queremos 
satisfazer uma necessidade nossa. Se, ao contrário, partimos 
do desejo do outro, se lhe apontamos, por exemplo, um perigo, 
não precisamos desculpar-nos. E nem mesmo se nos chama a 
atenção algo que, instintivamente, sentimos que deve 
interessar a ele, e lhe dizemos. Suponhamos que vemos um 
meteorito cair ou um deslumbrante disco luminoso cruzar o 
 
42
 Pascal Bruckner, Alain Finkielkrault: II nuovo disordine amoroso. 
 73  
céu. Não pedimos desculpas, nós o mostramos e basta. A 
desculpa serve porque, na realidade, temos um objetivo 
próprio, uma necessidade nossa. Porque queremos levar 
(seduzir) o outro a aceitar essa nossa necessidade, obrigá-lo a 
fazer aquilo que não é um desejo seu. 
Daí a desculpa. Desculpo-me porque introduzo o meu 
desejo e este não tem qualquer direito de ser introduzido se 
não consigo suscitar o desejo do outro. Quem inicia uma 
conversação deve, após desculpar-se, dizer imediatamente algo 
que a torne desejável, que torne interessante o que se segue. 
Algo que atinja ou evoque, imediatamente, o interesse do 
outro: uma curiosidade sua, uma necessidade sua. Que divirta 
o outro. Se não consegue fazê-lo, não pode continuar o 
relacionamento. Torna-se simplesmente um importuno. 
Isso vale em todas as relações, mesmo quando não está em 
jogo o erotismo. Mas se ele está em jogo, particularmente 
quando o homem aborda uma mulher, então ambos sabem o 
que este realmente quer. Entre ele e ela está o desejo sexual. 
Em todos os outros casos, uma necessidade, após as desculpas 
apropriadas, pode ser mostrada. Podemos pedir “por favor” 
para satisfazer um desejo nosso. Mas se um homem pede a 
uma mulher que “por favor” faça amor com ele, recebe um não. 
Para entregar-se, uma mulher deve ser atraída, sentir excitação. 
Pode também fazer isso por amizade, para tranquilizar o 
marido, o noivo. Pode fazê-lo também por dinheiro. Entregar-
se, porém, é sempre um ato de vontade e necessita uma 
justificação. A necessidade ou o desejo de um homem não são 
uma justificação. Até pelo contrário, um homem que pede “por 
favor” para fazer amor porque está com vontade, porque lhe 
agrada, causa apenas repugnância. A mulher se dá conta de que 
aquele homem poderia fazer o mesmo pedido a qualquer outra. 
Que ela foi escolhida como meio de detumescência, não como 
um fim. 
Repugna à mulher ser meio de detumescência. O homem se 
sentiria orgulhoso. Seu sonho é encontrar uma mulher que lhe 
diga “Por favor, faça amor comigo, estou cheia de vontade, uma 
vontade louca. Faz um mês que não faço amor”. O homem 
ficaria satisfeito, mesmo que a mulher não se dirigisse a ele 
pessoalmente, como indivíduo único, mas como aquele que lhe 
 74  
pode dar prazer, aliviar sua tensão. A mulher, ao contrário, 
sente repugnância. Se não é dirigido a ela individualmente, 
com amor, com admiração, e se não a excita com o mistério e o 
fascínio, o desejo do homem lhe causa nojo. Isso explica o 
exibicionismo masculino. O homem mostra o pênis 
intumescido para excitar, e a mulher grita. 
O grito não é somente repugnância, é também medo. Medo 
da violência. Se o homem insiste na necessidade, a repugnância 
se transforma em medo. Porque a necessidade justifica a 
violência. Preciso; portanto, dê-me! Preciso, estou necessitado; 
portanto a obrigo! No decorrer de milênios a mulher aprendeu 
a temer a necessidade masculina. Por esse motivo obriga o 
marido a controlar seu desejo, a preocupar-se com aquilo que 
interessa e agrada a ela, mulher. 
Se quer despertar interesse, o homem deve dissimular seu 
desejo sexual. Não pode exibi-lo. A mulher não o quer. Todos 
os homens sentem desejo sexual em relação a ela. Ela se 
preparou para estimulá-lo, para agradar. Tem isso como certo. 
O que espera é que o outro consiga disfarçá-lo, e seja capaz de 
tornar-se agradável, de fazer-se desejar. Aliás, já sabe que é 
isso que ele quer. Todos querem tornar-se agradáveis, parecem 
indivíduos únicos, inconfundíveis, desejáveis por suas 
qualidades individuais, pelas suas absolutas especificidades, 
as suas diferenças. Ela, como mulher, já o fez completamente. 
Fez-se interessante, desejável por meio de cuidados com o 
corpo, a maquiagem, as roupas, a maneira de cruzar as pernas, 
o olhar. Ao homem que a aborda está, portanto, reservada a 
tarefa de agradar naquele momento, de fazer a representação 
apropriada. A mulher já está em cena. Já despertou o desejo do 
homem. Agora é a vez dele. 
Um tipo de relação desse gênero também se estabelece 
entre a mulher e o homem quando este é uma personagem 
famosa, um artista de cinema ou teatro, um político, um 
cantor célebre. Nesse caso ele já está em cena, já se tornou 
desejável. Consequentemente, agora é a sua interlocutora que 
tem o encargo de parecer interessante, despertar seu 
interesse, tornar-se, aos seus olhos, uma pessoa diferente das 
outras. 
 75  
4. O erotismo feminino tem necessidade de momentos 
suaves, de mudanças graduais, quase invisíveis. O homem quer 
tudo e depressa. A mulher espera que as coisas se passem 
gradualmente. O desejo do homem, assim como se apresenta 
de "modo espontâneo, é sempre uma invasão, uma intrusão 
apressada, violenta. Após dez, vinte anos, a mulher enamorada 
continua a desejar de seu homem aquelas atenções, aqueles 
cuidados, aquela ternura que desejava no primeiro dia. A 
necessidade de gentileza, de graduação, o ritual de admissão, 
não pode, por essa razão, ser explicado somente com o medo. É 
uma exigência mais profunda, diretamente arraigada no 
erotismo feminino, em sua natureza contínua. O ritual de 
admissão, as carícias, o abraço carinhoso e forte, são maneiras 
de reduzir ao mínimo a descontinuidade. 
As regras do namoro que a mulher impôs ao homem pedem-
lhe que esconda, disfarce seu desejo. Que se desculpe pela 
intrusão. Que seja atencioso, divertido. Durante o namoro o 
homem demonstra não ser rude, mas cortês e emocionalmente 
disponível. Demonstra estar disposto a aceitar a opinião livre e 
expressa da mulher. A respeitar sua vontade. A utilizar apenas 
meios que seduzam a mulher, não a estuprem. Ela quer ser 
seduzida, excitada, mas segundo seu tempo, seu ritmo, de 
forma harmoniosa. Quer ser envolvida pelas emoções. E isso o 
que faz o grande sedutor. Instala-se no âmago do espírito 
feminino, adere a ele, funde-se com ele até desaparecer. 
O grande sedutor, aquele que “encanta” as mulheres e 
libera seu erotismo, fala com elas como se fosse uma mulher. 
Digo “fala” porque a chave consiste exatamente nas palavras e 
na maneira como são ditas.A mulher teme a violência do homem. O grande sedutor 
pode ter um aspecto forte, viril, mas age de maneira 
tranquilizante, persuasiva, segura. Possui a segurança do pai e 
a compreensão da mãe. Diz somente o que uma mulher diria. 
Fala do corpo feminino com a delicadeza da mulher
43
. Evoca e 
 
43
 A exposição mais convincente é de Lillian B. Rubin. Como o primeiro objeto de amor da mulher 
é a mãe, ela experimenta sempre com relação ao macho um sentimento de estranheza que deve 
ser superado. Na mulher, diz Lillian Rubin, a negociação interna deve ser sempre triangular: ela 
mesma — uma mulher — o homem. Dessa forma o sedutor se comporta como uma mulher e 
estabelece uma ponte entre a feminilidade e a masculinidade. Ver Lillian B. Rubin: Intimate 
strangers. 
 76  
fala de sensações de que somente uma mulher é capaz de falar. 
O grande sedutor tem paciência, dá-lhe tempo de preparar-se, 
de fantasiar-se, de encantar-se, de excitar-se, de entregar-se. 
Jamais mostra desejo ou urgência. O grande sedutor sabe 
sempre bater em retirada, dar um passo atrás, sabe sempre 
adiar sua urgência. A cada instante faz à mulher a promessa 
que todas elas esperam: “Não lhe peço para mudar, não uso de 
violência para com você, não quero nada para mim”. 
Ele é, ao mesmo tempo, tranquilizador como os pais, 
alegre e impaciente como a amiga adolescente, cúmplice como 
o espelho. O grande sedutor faz com que a mulher se sinta 
como quando está diante do espelho, admirando-se, 
descobrindo-se, fantasiando. Faz com que ela caia de joelhos 
diante da própria beleza e do próprio fascínio. Dá voz às suas 
fantasias mais secretas e a ajuda a criar outras. O sedutor 
conhece e interiorizou as fantasias femininas (como a cortesã 
interiorizou as fantasias masculinas). Toca-a como a tocaria 
uma amiga. Faz-lhe carícias e a excita com a naturalidade com 
que ela própria o faria. Sua voz é persuasiva, hipnótica, 
regular. Pede-lhe que se relaxe e ouça. Que se abra aos elogios, 
às carícias, às palavras sussurradas. Sugere-lhe o que ela 
mesma gostaria de pensar para excitar-se. Faz com que sinta 
desejos impudicos contra os quais não se rebela por achar que 
partem exclusivamente dela. Quando se entrega nem mesmo 
sabe por que o fez, tal a naturalidade com que tudo aconteceu. 
O inexperiente, ao contrário, é tímido, desastrado, sem 
graça. A mulher o sente diferente, sente sua necessidade como 
uma ameaça e tem medo. A mulher tem medo do tímido. 
Porque o tímido é portador de uma urgência sem palavras, uma 
urgência explosiva, incapaz de tornar-se urgência do outro. A 
urgência do tímido é nua, violenta. No tímido, a mulher 
percebe também a violência que ele exerce contra si mesmo, 
contra o seu desejo, a violência da repressão. Percebe, dessa 
maneira, uma violência dupla, a do desejo e a da repressão. O 
gaguejar do tímido o revela. O grande sedutor situa-se no 
extremo oposto. Torna sua a necessidade da mulher, identifica-
se com ela. Sua voz hipnótica dá voz a seu desejo, às suas 
fantasias, dissolve seus medos e a leva a realizar o que a fez 
fantasiar. 
 77  
O erotismo é uma fantasia de identificação com as partes 
eróticas do corpo. Precisa falar delas, ilustrá-las, desnudar o 
que está encoberto. A pornografia é obscena porque faz isso de 
maneira errada e no momento errado, como o mal-educado e o 
inábil. Também o galanteio erótico ocasional é geralmente 
obsceno. Mas o que então é considerado obscenidade, em outra 
situação é galanteio, elogio. A confidência erótica — 
estabelecida tão depressa quanto um ato de hipnotismo ou uma 
língua comum — consente que se transforme a obscenidade em 
convite. A obscenidade é um convite recusado. Se é aceito, o 
mesmo discurso consiste em representar a si mesmo e ao outro 
da maneira mais excitante. O erótico é, portanto, uma 
pornografia pessoal. É um texto cujos protagonistas somos nós 
mesmos e em que ambos nos reconhecemos. Pode-se 
considerar como grande sedutor somente aquele que sabe 
conduzir o jogo até o final. Mesmo abandonando a mulher, 
deve deixar sempre uma boa recordação de si mesmo. Mas 
muito poucos conseguem isso. Satisfeito seu desejo, a maior 
parte dos homens quebra o encanto, e a mulher desperta 
sozinha. E então tomada de cólera contra si mesma, porque se 
deixou levar, entregou-se a quem não a merecia. A mulher 
perdoa somente a quem não se comporta como um assaltante. 
De outra forma, sente-se espoliada. Consequentemente, a maior 
parte das vezes, enquanto o homem experimenta um 
sentimento de liberdade e de sucesso, a mulher vive uma 
experiência de perda, uma desilusão. Como se algo lhe fosse 
tirado, como se tivesse se deixado enganar. E experimenta, 
então, um sentimento de rancor para com ele e para consigo 
mesma. Os homens não compreendem, em geral, por que as 
mulheres se sentem tão atraídas pelos salafrários. Por que são 
tão intolerantes com eles e tão indulgentes com o grande 
sedutor. 
 
11 
 
1. Para o homem o relacionamento sexual é uma coisa 
importante, ele tem necessidade absoluta dele. Nenhuma forma 
de erotismo cutâneo, muscular, cinestésico, nenhum tipo de 
 78  
intimidade amorosa, nenhum carinho tipo maternal é capaz de 
substituí-lo e diminuir-lhe a urgência. Para o homem, renunciar 
ao sexo é tão difícil quanto renunciar a comer ou a beber. As 
dificuldades encontradas pelos ascetas e anacoretas cristãos 
não provinham da fome ou da sede, mas das fantasias eróticas 
contínuas, obsessivas. A castidade, mesmo temporária, é muito 
difícil para o homem, e por esse motivo foi imposta pelo 
bárbaro meio da castração. A mulher não tem esse tipo de 
necessidade. Se não encontra o homem que lhe agrada, prefere 
não ter relações sexuais, até mesmo por meses e anos. Como 
observou Kinsey
44
, as mulheres se casam porque desejam uma 
relação afetiva duradoura e estável com uma única pessoa, 
porque querem uma casa, filhos, bens materiais e segurança. 
Também aos homens essas coisas interessam, mas poucos 
estariam dispostos a casar-se se não estivessem certos de 
poder fazer amor. Para o homem, o relacionamento sexual é 
uma necessidade cotidiana no casamento, na convivência, na 
vida. 
No homem a experiência sexual é importante, mesmo que 
se trate de um relacionamento ocasional; até mesmo com uma 
prostituta. Já vimos, no início, que a prostituta satisfaz certas 
fantasias eróticas masculinas. Não nos devemos admirar, 
portanto, que a experiência com ela possa ter um significado. 
Quase todas as pesquisas mostram que, mesmo nos países em 
que houve a revolução sexual, os homens casados continuam a 
procurar as prostitutas. Quase sempre o fato é justificado por 
alguma incapacidade ou defeito da mulher ou da amante. Na 
realidade, o encontro erótico puro, livre de responsabilidades, 
consequências, julgado por si mesmo, com uma mulher 
diferente, continua a ter um significado para o imaginário 
masculino. Ao dar-se, a mulher provoca nele uma forte emoção. 
Não é verdade que o sentimento dominante seja o orgulho por 
ter conseguido seduzi-la ou por ter conseguido humilhá-la, 
pagando-a. Claro, esses sentimentos existem, mas não têm a 
importância da emoção erótica de que estou falando. Com o 
tempo, na verdade, não se lembrará mais da corte. Não se 
lembrará mais do pagamento. Nem da história. Ele se lembrará 
somente do ato erótico. E incrível a capacidade de memória 
 
44
 . C. A. Kinsey: II comportamento sessuale dell’uomo, Milão, Bompiani, 1950. 
 79  
erótica do homem. Mas é certamente comparável à da mulher 
quando se trata de relações sentimentais. Com o passar de 
anos ou decênios, a lembrança erótica masculina se apresenta 
tão nítida como da primeira vez. Exatamente como se estivesse 
tendo a experiência naquele momento. O homem se masturba 
evocando e elaborando fragmentos de experiências eróticas do 
passado. 
Algumas feministascriticaram esse comportamento 
considerando-o negativo, depreciativo, agressivo
45
. Ao 
contrário, essas fantasias masculinas não têm absolutamente 
nada de agressivo. É a mulher que as vive dessa maneira 
porque tem a impressão de que a mutilam, colocando entre 
parênteses uma parte dela. Porque são feitas sem a 
participação de sua vontade. Principalmente porque isolam um 
fragmento do tempo contínuo. Revivem um momento 
descontínuo, roubado à trama contínua do acontecimento. Para 
o homem, ao contrário, a fantasia é agra-, dável, amigável, 
serena. 
O encontro amoroso, quando alegre, emocionante, 
acompanhado da revelação da beleza feminina, produz nele um 
sentimento de simpatia, de reconhecimento. E é isso que é 
recordado, que realça na fantasia. A intimidade, a fusão, o 
alheamento, o momento em que ele viu nela a beleza, a fonte 
de sua alegria. Não a beleza do vestido em si, mas a beleza do 
corpo que o veste, o perfume, o gesto convidativo, o abraço, o 
estremecimento, o sorriso, a mão que busca. Tudo o que a 
mulher colocou em sua sedução se encontra intacto na 
lembrança masculina. Se não conseguiu produzir a emoção 
contínua do amor, certamente conseguiu produzir algo de 
indelével no descontínuo. A imaginação visual reativa cada 
detalhe do encontro em todo o seu esplendor, e o homem o 
reviverá até o orgasmo, mesmo dez anos depois. 
Mas, para emergirem, essas fantasias necessitam de um 
liame com a realidade, por mais tênue que seja. A fantasia é 
também, sempre, fantasia de cumplicidade. Por isso, se a 
mulher o rejeitou, o homem fica perturbado. Porque a rejeição 
aparece na fantasia e a interrompe. A mulher sabe disso, e se 
 
45
 Susan Griffin: Pornography and silence, Nova York, Harper Cólophon Books, 1982. 
 80  
quer ferir o homem, imprime-lhe sua rejeição na mente, diz-lhe 
o seu não com todo o desprezo. 
 
2. O fim de uma paixão é expresso pelo homem como puro 
desinteresse. Na mulher expressa-se como rejeição. A mulher 
que se cansou de um homem não quer mais vê-lo em casa, não 
suporta sequer ouvir sua voz. O homem que se cansou de uma 
mulher limita-se a ignorá-la. Se ela não se intromete em sua 
vida, mantém com ela um relacionamento amigável. 
Se a mulher se apaixona por outro homem, não suporta 
mais o primeiro. Manda-o embora e, se fica com ele, é para 
fazê-lo sofrer, torturá-lo, porque, aos seus olhos, é culpado por 
tê-la desiludido. A mulher reprova o homem que não lhe agrada 
e quer anular sua presença. Procura destruir qualquer traço do 
passado, porque para ela é importante a continuidade da 
relação. Se, ao contrário, como acontece com o homem, o 
importante é o instante de prazer, a lembrança é conservada. O 
homem sabe que, mais dia menos dia, poderá renascer nele o 
desejo. Por isso as mulheres sentem ciúmes das ex-amantes ou 
das ex-mulheres do homem. Porque, ainda que somente na 
fantasia, estes ainda podem desejá-las. 
As mulheres se enganam, porém, ao imaginar que o homem 
se lembre da relação amorosa, do sofrimento do 
enamoramento. Nesse ponto o homem é exatamente como elas. 
Se recorda as emoções do namoro quer dizer que ainda está 
enamorado. Quem não está enamorado não se lembra mais da 
experiência amorosa, não consegue revivê-la. A memória 
masculina é a do encontro erótico e daquilo que, naquele 
momento, tinha a ver com o erotismo. Tudo mais é anulado. 
Sobretudo os sentimentos. 
Justamente porque se lembra do que é fragmento 
descontínuo, separado do tempo, o homem aceita seu passado 
erótico e mantém bons relacionamentos com as mulheres de 
sua vida. No filme Oito e meio, Fellini imagina que todas as 
mulheres que o atraíram eroticamente, ou que ele amou, se 
reúnem numa grande festa. Desde a ex-mulher até a prostituta 
que, em menino, vira dançar na praia; a mulher encontrada 
uma única vez e aquela com quem passou toda a vida. 
Dificilmente uma mulher poderia ter um sonho semelhante. 
 81  
Essa particularidade está ligada ao descontínuo. Da pessoa 
amada o homem tende a esquecer tudo o que foi sofrimento, 
conflito, vexame. Conserva apenas a lembrança de certos 
momentos eróticos. 
A mulher, quando não ama mais, ofende-se com essa 
fragmentação de sua pessoa. Repugna-lhe ser lembrada na 
maneira como fazia amor, como gritava de prazer, como se 
esfregava no sexo do homem, visto que agora aquele homem 
não lhe agrada mais, não a interessa e que não se deitaria com 
ele por nada deste mundo. Não quer lembrar-se dele e não se 
lembra. 
Encontramo-nos, pois, diante de um paradoxo. O homem 
se afasta mais facilmente, não deseja prolongar o abraço 
erótico, às vezes se cansa, quer ir embora. Entretanto, lembra-
se de forma indelével daquela experiência que parecia tão 
superficial. Poderá voltar-lhe à mente inúmeras vezes, fazendo-
o revivê-la com a mesma intensidade. A mulher, que tivera a 
impressão de ter sido largada como um simples objeto 
impessoal, não sabe que será lembrada nos menores detalhes e 
que por toda a vida aquele homem pensará nela com prazer, 
porque pode evocá-la no esplendor do momento erótico. Não 
são os seus sonhos, sentimentos, paixões, ânsias que são 
relembrados. Dela o homem se recorda do erotismo. Porém 
nele estão as suas perplexidades, o arrebatamento, o frêmito, a 
ingenuidade, a doçura, o pudor ou a impudicícia. É sempre ela 
que vive na recordação do homem, uma parte inconfundível e 
autêntica de sua personalidade. 
A mulher, ao contrário, deseja a continuidade. Não suporta 
bem a separação. Gostaria de um encontro sem fim, uma 
perenidade. Para obtê-lo pede uma convivência que imagina 
saturada de erotismo amoroso. Quando, porém, essa 
convivência se torna vida cotidiana, desilude-se. É então 
tomada de irritação, de cólera. Evade-se nas fantasias. Ao 
mesmo tempo, vinga-se com gestos rotineiros que irritam o 
homem, deixam-no exasperado. Conhecendo seus gostos e 
desejos, atinge-o de modo contínuo, obsessivo. É um ritual de 
ódio, a que se dedica com o mesmo afinco que dedicava ao do 
amor. 
 82  
Quando chega a romper o relacionamento, a ruptura é 
total. Assim como antes queria a continuidade absoluta, agora 
quer a descontinuidade absoluta. Antes era a perenidade do 
positivo. Agora, a perenidade do negativo. O que antes era 
desejado é brutalmente apagado de sua vida, de sua memória. 
A partir daquele momento a mulher não mais será capaz de 
evocar os encontros eróticos em todo o seu esplendor, como 
faz o homem. Se o faz é porque ainda se sente atraída por 
aquele homem ou porque ainda está lutando para separar-se 
completamente. A recordação pode aparecer somente sob a 
forma de um desejo atormentado de recomeçar. Ou então como 
recusa, nojo, vingança. 
A mulher deseja um tempo erótico contínuo. Se o 
interrompe, cria uma descontinuidade radical. Não podendo 
realizar o tempo erótico contínuo, renuncia a ele, precipita-se 
no descontínuo, mas isso não tem mais nada de erótico. E se 
começa uma nova relação erótica, esta será caracterizada por 
um recomeço do tempo. É uma nova era. 
Um fenômeno semelhante acontece também com o homem, 
quando ele se enamora. Então, também para ele, o passado 
perde o valor e seu erotismo tende a tornar-se contínuo. Mas, na 
mulher, a ruptura com o passado ocorre também sem o 
enamoramento. Seu erotismo exige sempre a compacidade 
temporal. Paradoxalmente, essa compacidade pode ser realizada 
somente ao preço de uma descontinuidade mais radical. 
O esquema temporal da vida erótica, constituída de uma 
sucessão de relações monogâmicas intercaladas de fases 
promíscuas de procura, foi imposto sobretudo pela mulher. É o 
produto de sua emancipação. Nos Estados Unidos esse modelo 
foi antecipado pelo cinema hollywoodiano. Há decênios que as 
estrelas de Hollywood levam uma vida caracterizada pela 
sequência casamento-divórcio-novo casamento-novo divórcio, 
etc. O star system adotou-o para tornarmoralmente aceitável 
ao público — particularmente ao público feminino — a 
anarquia erótica do mundo do espetáculo. É a capa sob a qual 
se esconde o que seria realmente uma situação de 
promiscuidade. 
Com a liberação sexual e a emancipação feminina, o 
mesmo esquema foi de grande valia para dominar as 
 83  
tendências promíscuas dos anos 60, e afirmou-se como modelo 
dominante após o feminismo. 
 
12 
 
1. O verdadeiro erotismo somente é possível quando cada 
sexo procura compreender o outro, consegue colocar-se em seu 
lugar, tornar suas as fantasias do outro. Por isso, no Ocidente, 
o erotismo somente agora está despontando. Salvo raras 
exceções, até os anos 60 os dois sexos desempenhavam papéis 
diversos e rígidos. A mudança ocorreu, antes, no plano 
econômico, material. Quando, com o desenvolvimento 
econômico, aumentou a conscientização feminina, diminuiu a 
natalidade, cresceu a automação doméstica. A revolta explodiu 
inicialmente entre os adolescentes, que derrubaram as divisões 
tradicionais dos papéis desempenhados pelo homem e pela 
mulher e as separações até mesmo físicas entre os dois sexos. 
Os adolescentes se reuniram em grandes movimentos e festas 
coletivas, encontrando ídolos e mitos comuns. Depois, com a 
evolução da transformação, apareceu o feminismo, colocando 
em discussão radical a ordem dos papéis masculinos e 
femininos em seu conjunto. A partir daquele momento, ambos 
os sexos começaram a estudar-se e a conhecer-se. Antes cada 
um procurava impor o seu modelo ao outro. As feministas, por 
exemplo, convidaram o homem a tornar-se como a mulher. Ao 
mesmo tempo, porém, elas próprias adotavam modelos 
masculinos. Essa é uma história longa e fascinante, da qual 
recordarei apenas alguns momentos literários. 
Um dos temas recorrentes da literatura feminina é o desejo 
de ter as mesmas reações eróticas do homem, separando 
sexualidade e amor. Em seu belíssimo livro Uma espiã na casa 
do amor, Anais Nin escreve: “Ela abriu os olhos para 
contemplar a alegria penetrante de sua liberação: era livre, 
livre como um homem, para gozar sem amor. Sem palpitações 
do coração, conseguira gozar com um estranho, como um 
homem. Então, veio-lhe à mente o que ouvira dos homens: 
‘Depois eu quero ir embora’. Olhou para o estranho estendido a 
seu lado, nu, e viu-o como a uma estátua que não quisesse 
 84  
tocar de novo... e cresceu nela algo semelhante à raiva, ao 
arrependimento, quase o desejo de retomar a doação que havia 
feito de si, de apagar o mínimo traço do acontecido. De bani-lo 
de seu corpo. Queria afastar-se dele de forma clara e rápida, 
desembaraçar e separar aquilo que por um átimo estivera 
fundido, seus hálitos, peles, humores e perfumes do corpo”
46
. 
Exatamente no momento em que Anais Nin nos diz que 
desfrutou a liberdade masculina do prazer sem amor, dá-nos 
uma descrição exclusiva, profunda e radicalmente feminina. A 
separação realizada pelo homem, como já vimos, é alegre, sem 
complicações. A mulher que teve um relacionamento sexual 
sem amor sente-se, ao contrário, fraudada, roubada, enganada, 
quer tomar de volta o que deu, experimenta o desejo de 
dissolver o que estivera unido de modo tão impróprio, tão 
ofensivo. 
Também Erica Jong em seus dois livros Medo de voar e 
Como salvar sua vida, fantasiou continuamente a “trepada 
inconsequente”, o ato sexual como o homem o realiza. No 
último, Pára-quedas e beijos, essa busca torna-se obsessiva. A 
protagonista do romance, Isadora, abandonada por seu jovem 
marido, lança-se numa série de aventuras sexuais, como 
convém a uma divorciada da Nova York de 1984. Mas, embora 
diga estar excitada, tem-se a impressão de que experimenta 
apenas raiva e cólera. “Corpos desconhecidos, caralhos 
estranhos. Isadora não consegue passar a noite toda com eles. 
Gostaria que o homem de plantão fosse removido da sua cama 
como por magia, lá pelas três da madrugada — e assim não 
permite que ninguém, absolutamente ninguém, permaneça com 
ela até a manhã. Chegou mesmo a pôr homens para fora da 
porta de casa em plena madrugada”...
47
 “E o que aprendeu 
Isadora sobre os fusos mágicos, nesse período de sua vida? 
Aprendeu que pouquíssimos conseguem dar magia ou até 
mesmo esquecimento, a não ser por poucos segundos. 
Aprendeu que não apenas o príncipe muitas vezes não chega, 
mas que muitas vezes quando o faz não consegue ter ereção. 
Aprendeu que os passarinhos variam enormemente... Alguns 
são rosados, outros arroxeados, outros ainda amarelos, 
 
46
 Anais Nin: Uma espiã na casa do amor, já traduzido no Brasil. 
47
 Erica Jong: Pára-quedas e beijos. 
 85  
marrons ou negros. Alguns são cheios de veias como mapas 
lunares, outros lisos como porquinhos rosados de marzipã; 
alguns gotejam antes de esguichar, outros se recusam 
definitivamente a esguichar. Mas, apesar de todas essas 
diversidades, uma coisa permanece invariável: não se pode 
amar um passarinho se não se ama também seu proprietário.”
48
 
 O livro de Erica Jong transcorre todo nesse tom, como 
uma contínua orgia de sexo repugnante, de machos que causam 
nojo. Não há um único instante de verdadeiro erotismo. O livro 
é um grito constante de raiva na busca do homem ideal, jovem. 
belo, digno de amar e ser amado apaixonadamente. No final do 
livro a autora diz que Isadora o encontra. Mas não é 
absolutamente verdade. Nos livros de Erica Tong, 
enamoramento é uma coisa que não existe. 
Anais Nin brincava com o amor. Identificava-se em cada 
novo amante. No primeiro, um alemão belíssimo, revivia o 
fascínio de Wagner e de Siegfried. Em John, o guerreiro, a 
atração da guerra e da morte. Em Mambo, as ilhas tropicais, a 
música afro-americana. A cada vez uma nova encarnação, até 
viver uma miríade de vidas. Mas no final, após inúmeras 
identificações eróticas, percebe que está se desintegrando. 
Compreende isso olhando os quadros de Jai: “Duas figuras 
explodiam e se fragmentavam em constelações, como um 
quebra-cabeça espalhado, do qual cada peça tivesse caído tão 
longe que parecesse irrecuperável”
49
. Na tentativa de ser como 
um homem, de conquistar a liberdade do homem, avança tanto 
que o seu eu se dissolve. Mas isso porque Anais Nin a cada vez 
deve identificar-se a fundo, deve pôr em jogo uma parte 
essencial de si mesma. E isso é feminino, não masculino. E, no 
entanto, Anais Nin compreende profundamente o homem, 
estudou-o intencionalmente para escrever suas histórias 
pornográficas. Foi amiga íntima de Henry Miller e de Lawrence 
Durrell e vizinha dos maiores escritores de sua época. 
 
2. A única que conseguiu realmente descrever um erotismo 
ao mesmo tempo masculino e feminino foi Emmanuelle Arsan. 
 
48
 Ibidem. 
49
 Anais Nin: Uma espiã na casa do amor. 
 86  
Nos trechos mais felizes de seus livros, em geral algumas 
dezenas de páginas, consegue realizar, do ponto de vista 
feminino, a obra-prima que Lawrence
50
 realizou do ponto de 
vista masculino: sentir o mundo com a sensibilidade do outro 
sexo e, ao mesmo tempo, torná-lo compreensível ao seu 
mundo. 
No livro Emmanuelle, de Emmanuelle Arsan, a autora nos 
oferece uma série de emoções eróticas tipicamente femininas. 
Desde o início, ao entrar na luxuosa cabine de primeira classe, 
a mulher “sente um prazer quase físico ao simples pensamento 
de que todos os olhares se voltam para ela”. Quando seu 
companheiro de viagem entra, avalia-o detalhadamente, aprecia 
sua elegância e o cheiro agradável de sua pasta de couro. Como 
num clássico romance cor-de-rosa, Emmanuelle sente depois 
uma ponta de ciúmes quando vê a aeromoça roçar 
propositalmente num passageiro. Tudo nela é sedução. Os 
joelhos de Emmanuelle estão à mostra sob o foco dourado de 
luz que se projeta sobre eles. A saia os deixou descobertos, e 
os olhos do homem não os abandonam... sabe que perturbação 
são capazes de provocar...Logo as pálpebras se fecham, e 
Emmanuelle pode ver-se, não mais em parte, mas inteiramente 
nua, abandonada à tentação dessa contemplação diante da qual 
sabe que estará, mais uma vez, completamente indefesa
51
. 
Emmanuelle oferece-se ao homem a seu lado sem que ele a 
corteje, sem uma única palavra. Não existe jamais um 
sentimento, uma emoção que vá além do imediato prazer 
presente. E no entanto aquele encontro casual é fonte de 
extraordinário prazer, e as experiências descritas em detalhes 
são de uma mulher. Agrada-lhe sentir na mão o pênis do 
homem. “Os dedos apertados de Emmanuelle subiam e desciam 
menos tímidos à medida que a carícia se prolongava ao longo 
do grosso pau intumescido... a glande, duplicando de volume, 
inflamava-se e a cada instante parecia prestes a explodir.”
52
 O 
ritmo do homem é o seu ritmo. O prazer do homem, o seu 
prazer. “Emmanuelle recebeu com uma estranha exaltação ao 
longo dos braços, no ventre nu, nos seios, na boca, nos 
cabelos, os longos esguichos brancos e tipicamente odorosos 
 
50
 D. H. Lawrence: Filhos e amantes. Mulheres apaixonadas. O amante de Lady Chatterley. 
51
 Emmanuelle Arsan: Emmanuelle. 
52
 Idem. 
 87  
que o membro enfim satisfeito jorrava.”
53
 Ou então em seguida: 
“O homem se manteve o mais fundo possível em sua vagina, 
unido a ela, ao colo de seu útero, no centro de seu espasmo. 
Emmanuelle tinha imaginação suficiente para gozar ao 
pensamento do líquido cremoso aspirado pela abertura oblonga 
de seu útero, ativa e gulosa como uma boca.”
54
 Fantasias 
indubitavelmente femininas, mas construídas sobre o corpo, 
sobre o sexo masculino, compassadas sob seu ritmo. 
Emmanuelle tem um erotismo promíscuo. Com o homem 
do avião, com Marie-Anne, com o marido. Está sempre total e 
incondicionalmente pronta a dar e receber prazer. Está sempre 
fascinada pela beleza dos homens, das mulheres, das crianças. 
Onde quer que descubra a beleza dos corpos, dos gestos, dos 
olhares. Isso faz lembrar o erotismo masculino, em que as 
mulheres são sempre imaginadas belíssimas, perfeitas. 
Masculina também é a sua total indiferença erótica ao status 
social, classe, prestígio, à fama dos homens que encontra. 
No mundo de Emmanuelle não existe a mínima hesitação 
em se tomar a iniciativa. Ninguém tem medo, timidez, ninguém 
se protege do contato com uma outra pessoa. E é sempre 
prontamente retribuído. Também isso é masculino. No entanto, 
Emmanuelle possui uma sensibilidade lésbica. Está enamorada 
de Marie-Anne, assim como está enamorada do marido. Quando 
surge a belíssima Bee, apaixona-se: “Parecia-lhe ter vindo 
àquela região, no fim do mundo, somente para encontrá-la. E a 
reconhecera imediatamente, ao primeiro olhar, como aquela 
que esperara desde sempre... Pela primeira vez, desde que era 
muito pequena, lágrimas verdadeiras, copiosas lágrimas 
escorrem pelo seu rosto
55
. 
Em seu mundo também há espaço para os amores 
profundos, duradouros, para o marido e para aqueles que ela 
chama de maridos, para os amores superficiais, os amantes. 
Mas também para os amigos, os filhos, as crianças
56
. 
Ninguém jamais tende ao exclusivismo sexual, nem à 
dominação. Não existe sentimento de culpa, não existem 
 
53
 Idem. 
54
 Emmanuelle Arsan: Emmanuelle. 
55
 Idem. 
56
 Emmanuelle Arsan: I figli di Emmanuelle, trad. ital., Milão, Bompiani, 1980. 
 88  
inimigos. O erotismo corre em todas as veias, de jovens e 
velhos, homens e mulheres, adultos e crianças. Não existe nojo 
ou rejeição. Não existe cansaço. Não existe proximidade ou 
distância exageradas. No total, Arsan nos oferece uma fantasia 
bissexual em que o erotismo se entrelaça com qualquer outra 
forma de amor, e a promiscuidade convive, sem problemas, 
com os sentimentos profundos. Isto é, uma utopia. 
 
 
 
 89  
 
 
Promiscuidade 
 
 
 
 90  
13 
 
1. No curso da história, muitas e muitas vezes foi 
discutido o tema da promiscuidade. Como promiscuidade 
original, anterior à organização social e familiar. Ou então 
como promiscuidade utópica, superação definitiva da 
exclusividade e da possessividade de cada pessoa. Nos anos 
60, a promiscuidade foi o ideal mais ou menos manifesto da 
revolução sexual. Já vimos que, em suas fantasias, os homens 
desejam fazer amor com muitas mulheres e sem muitas 
complicações sentimentais. Segundo ideia corrente, a 
promiscuidade é um desenvolvimento, um excesso, um 
transbordamento desse tipo de desejo masculino. Na realidade, 
a promiscuidade é sempre um produto coletivo, a manifestação 
de uma prevalência da comunidade sobre o indivíduo e o casal. 
Percebe-se isso abertamente na orgia. Na orgia as ligações de 
amor e de exclusividade são temporariamente abolidas. Todos 
estão à disposição de todos. Cessa a possibilidade de exprimir 
uma preferência erótica, uma recusa. Se cada um pode obter o 
sim de todos, por outro lado deve também dizer sempre sim. 
Somente dessa maneira pode realizar-se o comunismo erótico: 
“Cada um dá de acordo com suas possibilidades e recebe de 
acordo com suas necessidades”. A orgia somente é possível 
porque todas as nossas idiossincrasias, as nossas preferências, 
os nossos afetos, os nossos ciúmes, as nossas repugnâncias 
são temporariamente suprimidos. 
No mundo do erotismo há também o negativo, a 
repugnância. A repugnância para com uma pessoa que vemos 
pela primeira vez, na rua, ou para com alguém que já 
conhecemos. O fim da atração erótica se apresenta como 
repugnância. Por outro lado, a repugnância é próxima da 
atração e se amplifica como ela. Não é absolutamente 
comparável à amizade-inimizade. Pode-se escrever um livro 
sobre a amizade sem falar na inimizade. Mas não se pode 
escrever um livro sobre o erotismo, sem falar, descrever a 
repugnância. Na orgia essa repugnância deve ser esquecida. A 
situação orgiástica não é um estado originário que a seguir é 
interrompido pelo processo de individualização e de escolha. É 
uma instituição estanque, uma forma específica de sociedade 
 91  
em que se realiza — em prazo determinado — o comunismo 
erótico. 
A orgia está estreitamente ligada à festa
57
. Uma instituição 
em que se suprimem as regras da vida cotidiana e onde se 
realiza um estado de excitação coletiva. O todo, porém, com 
um início e um fim pré-organizados. Com um ritual de entrada 
e outro de saída. Também a orgia, de modo geral, se 
desenvolve dentro de uma festa. No passado, nas grandes 
festas rituais, das quais sobreviveram o carnaval do Rio de 
Janeiro e a Oktober Fest de Munique. Mas também nas festas 
particulares a orgia é, na maioria das vezes, prevista 
antecipadamente e tem um início e um fim. 
Porém, sempre houve na história movimentos religiosos ou 
políticos que conferiram um significado especial ao estado 
orgiástico. Nos movimentos e nos cultos dionisíacos
58
 a orgia 
assumia o significado de fusão dos crentes com o deus. 
Situações de promiscuidade exaltada e orgiástica surgiram em 
muitos outros movimentos
59
. Isso provavelmente pode explicar 
o fato de que todos os movimentos, em sua fase inicial, no 
estado nascente, geram um forte impulso para a fusão, a 
fraternidade, o comunismo. Quase sempre, nessa fase ocorre a 
comunhão dos bens materiais, essa anulação do indivíduo, com 
os seus limites e os seus egoísmos. Consequentemente, está 
presente, no início, uma tendência à promiscuidade em quase 
todos os movimentos, talvez de forma negativa, como a 
proibição de ter sentimentos eróticos privados, de apartar-se 
da comunidade sob forma de casal. 
 
57
 Quem teve o mérito de esclarecer esse ponto foi sobretudo a escola sociológica francesa, de 
René Bastide, Sogno, trance, follia, trad. ital., Milão, Jaca Book, 1974, a Georges Bataille, 
L'erotismo, Georges Lapassade, Saggio sulla trance, trad. ital., Milão, Feltrinelli, 1980. 
ParticularmenteMichel Maffesoli, em À sombra de Dioniso, Paris, Méridien Anthropos, 1982, 
procurou encontrar no estado de excitação orgiástico-dionisíaco a origem da criatividade social. 
O erro de todos esses autores é o de confundir um estado de exaltação e de fusão efêmera com 
o estado nascente do qual falaremos no capítulo 22 deste livro. 
58
 Ver H. Jeanmaire: Histoire du culte de Bacchus, Paris, Payot, 1951. Segundo a nossa 
interpretação, o movimento dionisíaco foi um verdadeiro novo culto religioso, de que 
participavam também as mulheres, e que conferiu certa importância à orgia sacra. Para ele 
confluíram, porém, fenômenos religioso-culturais mais antigos que explicam o caráter violento 
do sacrifício. 
59
 Ver os inúmeros exemplos dados por Norman Cohn: I fanatici dell’apocalipse, trad. ital., Milão, 
Comunità. Ver também Ronald A. Knox: Illuminati e carismatici, trad. ital., Bolonha, II Mulino, 
1970. Sobre fenômenos de promiscuidade orgiástica no franquismo, ver Gershom Scholem: 
Sabbatai sevi the mystical Messiah, Princeton, Princeton University Press, 1975. 
 92  
 
2. O tema do amor livre era amplamente difundido nos 
círculos anárquicos europeus do século XIX. É principalmente 
Fourier, em sua Harmonia, que dá grande importância ao amor 
livre, sem impedimentos
60
. Também a Harmonia de Fourier é 
uma hipóstase do estado nascente, a fantasia de perpetuar, sob 
forma de instituição, o amor extraordinário dos primórdios. Ele 
imagina coletividades de entusiastas, onde todos os 
sentimentos e todas as percepções são exaltados e não perdem 
o vigor com o passar do tempo. Na Harmonia será encorajada a 
prática do amor coletivo. Tara Fourier a relação entre um casal 
parece egoísta. O casamento, embora não seja proibido, se 
tornará, por isso, uma instituição secundária. Os filhos serão 
educados pela comunidade. Os casais poderão reunir-se de 
dois em dois, formando um quadrângulo erótico. Ou então de 
três em três, quatro em quatro, formando sextetos, octetos, 
aquilo que ele chama de orquestras passionais. A reunião de 
um número maior "dê homens e mulheres produzirá a orgia, 
forma própria e verdadeira de comunhão coletiva, de fusão 
amorosa. Fourier preocupa-se com que todos possam 
beneficiar-se da riqueza amorosa. As pessoas mais bonitas 
deverão dar seu amor às mais feias, as jovens, às mais velhas. 
Todos deveriam ser educados de. modo a desenvolver seu 
erotismo desde a infância. Harmonia é portanto, uma sociedade 
da voluptuosidade ilimitada para todos. 
Foram muitos os movimentos que pretendiam realizar o 
comunismo erótico, principalmente nos Estados Unidos. Em 
1826, Francês Wright fundou Nashoba, uma comunidade 
agrícola nas cercanias de Memphis. Por volta de 1840 chegaram 
aos Estados Unidos forasteiros que deram origem a uma dezena 
de comunidades eróticas. A experiência mais duradoura foi a 
iniciada por John Humphrey Noyes, em Oneida, perto de Nova 
York, em 1849, e que durou cerca de trinta anos. 
Uma segunda onda de movimentos utópicos aconteceu 
neste século, nos anos 60, no âmbito de um processo mais 
geral de liberação sexual. Gay Talese ilustrou-o muito bem 
descrevendo o nascimento da revista Playboy, da pornografia 
 
60
 Ver Charles Fourier: Vers la liberte en amour, Paris, Gallimard, 1973. 
 93  
hard-core e das numerosas comunidades utópicas que 
praticavam a promiscuidade. Como exemplos temos as 
fundadas na Califórnia por Victor Branco, a comunidade 
agrícola de Lama, no Novo México, a comuna hippy, de Oz, a de 
Twin Oaks, a comuna anarquista de Red Clover e a reichiana de 
Bryn Athin. Também na Europa, no mesmo período, surgiram 
muitíssimas comunidades com diversos graus de 
promiscuidade erótica. 
Graças a Talese conseguimos uma documentação mais 
detalhada da ideologia e da prática da comunidade de 
Sandstone, fundada por John Williamson
61
. Iniciada como 
promiscuidade entre casais de conhecidos, desenvolveu-se 
como comunidade terapêutica e utópica graças à chegada de 
intelectuais e sexólogos como Alex Comfort. Em Sandstone, 
todas as noites era praticada uma orgia com função 
liberalizante. Eis uma descrição: “Descendo a escada coberta 
por uma passadeira vermelha, os visitantes entravam num 
amplo local semi-escuro onde, sobre almofadas espalhadas 
pelo chão, iluminados pelo reflexo das chamas da lareira, 
distinguiam-se vultos na sombra, pernas e braços entrelaçados, 
seios generosos, mãos que agarravam, nádegas em movimento, 
costas suadas e ombros, mamilos, umbigos, longos cabelos 
louros esparramados sobre as almofadas, fortes braços negros 
que seguravam quadris macios e brancos, a cabeça de uma 
mulher que se movia para cima e para baixo sobre um falo 
ereto. Suspiros, gritos de êxtase, redemoinhos de carne unidos 
na cópula, risos, murmúrios, música transmitida por um 
aparelho estereofônico”
62
. Quem frequentava Sandstone? Casais 
desejosos de escapar ao tédio do leito conjugal, mulheres 
divorciadas ainda não preparadas para um novo casamento, 
mulheres cheias de energia erótica e que não tinham coragem 
de abordar um homem na rua, feministas como Sally Binford e 
sexólogos como Alex Comfort. 
 
3. A promiscuidade orgiástica deve ser considerada como 
uma manifestação das fantasias eróticas masculinas, a 
tentativa de realizar um excesso de sexo sem amor? Não. A 
 
61
 Gay Talese: A mulher do próximo, já traduzido no Brasil. 
62
 Ibidem. 
 94  
tendência a entrar em estado nascente dos movimentos não 
tem nada a ver com masculinidade ou feminilidade. Mesmo os 
fenômenos coletivos mais superficiais, como o transe e a 
tendência à fusão de grupo são propriedades gerais do sistema 
nervoso central humano e não de um único sexo. A situação 
orgiástica é uma forma bastante particular de erotismo, comum 
a ambos os sexos, e que se realiza somente quando o grupo 
anula a separação dos indivíduos. 
É muito importante distinguir o estado nascente dos 
movimentos de fenômenos mais superficiais como a multidão, 
a festa e o transe. De modo geral, os sociólogos e psicólogos 
sociais os confundem
63
. Isso porque nos movimentos históricos 
concretos eles aparecem misturados. 
O estado nascente é (como veremos num próximo capítulo) 
consequência de uma profunda mutação interior dos 
indivíduos. Estes sofrem uma conversão e confluem para um 
grupo social dotado de altíssima solidariedade. Todos os seus 
membros vivem uma experiência de fraternidade, de igualdade, 
de unanimidade. Eles se amam verdadeiramente. E é por isso 
que, em determinadas circunstâncias, dão pouca importância 
às ligações privilegiadas entre amigos ou amantes. Não que as 
desprezem; até, em geral, o estado nascente tem muito 
respeito pelas preferências e afetos de seus membros. Mas 
tende a dar mais importância aos objetivos do grupo. Existe no 
estado nascente uma expectativa ansiosa de acontecimentos 
extraordinários e, por isso, as paixões individuais são 
reabsorvi- das pela coletiva. Dois enamorados, absorvidos pelo 
estado nascente de grupo são vistos como uma unidade, agem 
como um indivíduo único. Quem, ao contrário, entra separado 
é dominado pelo erotismo difuso do grupo, por seu 
entusiasmo. Essa experiência de solidariedade, de amor, de 
fraternidade não se traduz, por si só, em atos eróticos. Mas 
eles podem acontecer sob certo impulso ideológico. As 
comunidades utópicas fourieristas, anarquistas, como muitas 
“comunas” saídas de 1968
64
, são quase uma elaboração 
 
63
 Já declarei que essa confusão é comum aos sociólogos da escola francesa, como Roger Bastide, 
Georges Bataille, Georges Lapassade, Michel Maffesoli. Eles se deram conta de que há uma 
diferença entre a fase inicial dos movimentos, a grande mutação da mente e do coração, e o 
culto ritualizado, mas não identificam um processo especial como o estado nascente. 
64
 Ver Donata e Grazia Francescato: Famigliaaperta: le comune, Milão, Feltrinelli, 1974. 
 95  
ideológica do estado nascente no sentido pan-erótico. O 
comunismo, sempre presente, é impulsionado até o comunismo 
erótico, até a fusão físico-erótica. 
Com respeito ao estado nascente, a multidão, a festa, a 
orgia e o transe são muito mais superficiais
65
. Para desencadeá- 
las não é necessária uma mutação interior, uma escolha 
irreparável. Basta um grupo acolhedor, um ambiente propício, 
uma atmosfera social excitada e o exemplo. Qualquer pessoa, 
se inserida apropriadamente no grupo, tem uma probabilidade 
elevada de se deixar envolver pela excitação erótica coletiva. 
Exatamente como acontece nos fenômenos de contágio da 
multidão, numa manifestação esportiva. Muitos dos fenômenos 
descritos por Talese são dessa espécie. As pessoas entram para 
uma organização pelos motivos mais disparatados e depois 
deixam-se arrastar pela embriaguez coletiva erótica. Na maior 
parte das vezes, a orgia constitui uma experiência à parte, algo 
que se justapõe às outras experiências eróticas, mas que não 
pretende substituí-las. 
Entre os dois tipos de fenômeno, de um lado o estado 
nascente e, do outro, a multidão, a festa, a orgia e o transe, há 
uma relação sociológica precisa. É somente o primeiro que 
funda o movimento, põe-no a funcionar, cria a energia para 
constituir a comunidade utópica. O estado nascente, porém, é 
um fenômeno temporário. O movimento não permanece por 
muito tempo no estado fluido. A um certo ponto torna-se 
instituição, define suas regras, seus rituais. E eis que então são 
favorecidos os estados de excitação coletiva artificiais, as 
festas, os rituais, as danças, os estados de transe. Eles servem 
para atrair um público novo e conservar nos antigos fiéis a 
impressão de uma continuação do estado nascente, de uma 
perene revitalização do tempo divino das origens. Pouco a 
pouco, a chama revolucionaria e utópica do estado nascente se 
apaga, restando a prática do encontro erótico desprovido de 
 
65
 Também sobre a multidão e a psicologia da multidão, muito escreveu a escola francesa, 
colocando em evidência os comportamentos fanáticos e irracionais. Desde Gustave Le Bon: La 
psicologia delle folie, trad. ital., Milão, Longanesi, 1970, até o recente livro de Serge Moscovici, 
L’âge des foules, Paris, Fayard, 1984, que repete mais ou menos as observações de Le Bon. 
Angela Mucchi Faina publicou uma resenha desse filão sociológico, L’abraccio delia folia, 
Bolonha, II Mulino, 1984, sem compreender, porém, o problema proposto por Bastide, Bataille, 
Lapassade, Maffesoli e ignorando totalmente o aspecto criativo dos movimentos. 
 96  
qualquer energia criativa, reduzido a espetáculo ou, mais 
acertadamente, a prostituição. 
 
14 
 
1. Também as mulheres participam desses processos 
coletivos e em geral o fazem com um componente erótico mais 
acentuado. Já vimos que o erotismo feminino é do tipo 
contínuo e que tende a evitar as diferenciações qualitativas. 
Pouco importa que o movimento seja político, religioso ou 
cultural. Participar, para a mulher, significa também sentir, 
entrar em contato, amar, viver eroticamente. É por esse motivo 
que ainda hoje, nos movimentos coletivos, encontramos líderes 
carismáticos — políticos, beatos, gurus, intelectuais — 
cercados por um harém potencial de mulheres fascinadas e 
eroticamente disponíveis. Em alguns casos, o líder e seus 
sequazes diretos monopolizam todas as mulheres da 
comunidade. O fenômeno não se modificou no decorrer dos 
séculos. Existia no movimento do espírito livre na Boêmia
66
, 
entre os franquistas
67
, na comunidade de Oneida, e existe na 
empresa Playboy de Hugh Hefner, na seita de Ron Hubbard e na 
de Bhagwan Shree Rajneesh. 
No terceiro capítulo vimos que existem dois tipos de 
erotismo feminino. Um individual e outro coletivo. No primeiro 
caso, a mulher procura o amor de um único homem, é monó- 
gama e, em geral, possessiva e ciumenta. No outro caso, ela se 
abandona ao grupo que a arrasta para o seu centro e, dessa 
forma, para a união física e mística com o líder. Nesse caso 
dispõe-se a fazer parte de um harém, a dividir o amor do líder 
com outras mulheres, contanto que possa estar próxima dele, 
que possa unir-se a ele. 
Nas situações coletivas, o homem continua a desejar 
muitas mulheres; a mulher, um único homem. Mesmo 
aceitando as outras mulheres do líder, sua tendência é a de 
aproximar-se dele o mais possível, até excluir as outras e 
 
66
 Sylvia L. Thrupp: Millenial dream in action, Nova York, Schocken Books, 1970. 
67
 Gershom Scholem: “Redemption through sin”, in The Messianic idea in Judaism. 
 97  
tornar-se a única. Em qualquer harém há sempre uma forte 
competição entre as mulheres para monopolizar os favores do 
marido. Nada diferente do que ocorria nas cortes com relação 
ao rei. 
2. O aspecto individual e o coletivo do erotismo feminino 
são tão diversos que dão a impressão de confusão. Falando do 
exclusivismo feminino, Simone de Beauvoir observa: “O homem 
apaixonado é autoritário, mas quando obtém o que deseja fica 
satisfeito, enquanto não existem limites à devoção cheia de 
exigências da mulher... Para ela, a ausência do amor é sempre 
uma tortura... no momento em que ele pousa os olhos em outra 
coisa que não seja ela, desilude-a; tudo o que ele olha o afasta 
dela. Sua tirania é insaciável... é o guarda do cárcere”. E 
continua: “Sente-se sempre em perigo. Não há grande distância 
entre a traição, a ausência e a infidelidade. No momento em 
que se sente mal-amada, torna-se ciumenta... Irrita-se se os 
olhos do amado se voltam, por um instante que seja, para uma 
estranha... O ciúme é para a mulher uma tortura insuportável 
porque é uma contestação radical do amor: se a traição é certa, 
é preciso ou renunciar a fazer do amor uma religião ou 
renunciar àquele amor”
68
. 
É a mulher que tem a tendência a sempre pôr as coisas em 
termos de tudo ou nada. Na tradição americana, mesmo a mais 
leve infidelidade era razão suficiente para um divórcio. No 
livro Mariti e no
69
, Jackie Collins nos apresenta uma mulher 
belíssima que surpreende o marido fazendo amor com outra. 
Fica indignada pelo fato em si, porém mais ainda porque o 
marido mentiu. A mentira significa que apesar das promessas 
ele continuará a ser mulherengo. Decide, portanto, divorciar-se 
e procura um outro homem. Encontra um famoso astro de 
televisão e vai viver com ele em Los Angeles. Mas também ele 
tem o vício do ex-marido. Abandona-o e é atraída por um 
escritor célebre e fascinante. Infelizmente, este só gosta de 
moças muito jovens. Pára então de acreditar no amor e se 
dedica ao feminismo militante. Em muitíssimos livros de 
autoras contemporâneas, homens e mulheres não se podem 
amar porque as mulheres buscam um ideal que nenhum homem 
 
68
 Simone de Beauvoir: O segundo sexo. 
69
 Jackie Collins: Mariti e no, trad. ital., Milão, Sonzogno, 1984. 
 98  
consegue realizar. Aliás, é o mesmo tema dos filmes de Von 
Trotta ou de Fassbinder. Os homens não estão à altura dos 
valores femininos. A mulher é capaz de um amor sublime, 
nobilíssimo, total. O homem, não. Por isso a mulher é obrigada 
a ir deixando, um após outro, todos os homens que lhe 
agradam, porque não sabem amá-la da maneira que ela 
desejaria. 
Por que, num casal, a mulher é de tal forma possessiva? 
Por que, se seu amante ou marido faz amor com outra, ela 
perde a cabeça, se divorcia? Por que não o divide com a outra 
numa tranquila bigamia? Por que, finalmente, essa mesma 
mulher ciumentíssima aceita depois fazer parte de um harém e 
não sente mais nenhum ciúme, nada? 
A explicação pode ser encontrada somente tendo presente 
que a plena satisfação emotiva e erótica pode ser realizada 
tanto no nível do casal, quanto no nível coletivo. Casal e 
comunidade são duas comunidades auto-suficientes.O casal 
somente é completo se dele participam ambos os componentes. 
Se um se retira, desaparece. No casal nenhum indivíduo é 
substituível, ambos são indispensáveis. Essa é a razão da 
monogamia, da exclusividade. 
Nos grupos mais flexíveis e, em particular, nas 
comunidades utópicas, a identidade coletiva, ao contrário, não 
se perde com a saída de um membro ou de qualquer membro. 
O grupo, a comunidade, possui uma existência além do 
indivíduo. Quem conseguir identificar-se com ele não necessita 
mais de nenhum indivíduo em particular. Com uma única 
exceção: o líder. Porque o líder é um símbolo da comunidade, 
de sua unidade e de sua permanência. O líder é, ao mesmo 
tempo, individual e coletivo. Na união com ele qualquer outra 
relação se torna destituída de essência. 
No casal não há centro, não há líder. Os dois indivíduos 
estão totalmente submetidos à vontade um do outro. Se a 
mulher quer a unio mistica com a coletividade, quando faz 
parte do casal deve querê-la com aquele único homem e tem 
necessidade de sua presença contínua. A mulher quer ser parte 
de um todo e o todo; no casal, isso é feito com o outro 
indivíduo. Ponham em funcionamento, porém, um movimento, 
uma seita, uma crença, uma experiência coletiva qualquer, 
 99  
artística, teatral, religiosa, política, e logo a mulher quererá 
fundir-se com o centro, no caso o chefe, até mesmo 
fisicamente. E se no centro estiver uma mulher, sentirá atração 
erótica por ela, pelo seu corpo, genitais, seios e pele. Dioniso 
não é apenas macho. 
A mulher aceita a poligamia e a promiscuidade, contanto 
que isso aconteça numa comunidade onde haja elevado grau de 
fusão, de entusiasmo, de participação. A fusão com o centro 
fascina-a irresistivelmente. O líder é o centro, o herói é o 
centro, o ator é o centro. Todos os romances cor-de-rosa, 
quando se trata de um herói, apelam para essa dimensão 
coletiva do erotismo feminino. 
Se a coletividade se dissolve, se o centro desaparece, torna 
a emergir a dimensão rigorosamente individual. Na 
comunidade de Oneida, quando as coisas começaram a andar 
mal, por volta de 1870, as mulheres que antes pertenciam a 
todos e faziam filhos com todos (mas principalmente com o 
líder), começaram a querer se casar individualmente. O grupo 
já não lhes dava o abraço, o amor, a segurança econômica, a 
certeza do futuro, coisas que àquela altura já podiam ser 
conseguidas no casamento individual. Então, aquelas mesmas 
mulheres que tinham sido felizes no harém do guru tornaram-
se monógamas. No lugar da fusão com a totalidade social 
através de seu líder, procuraram a fusão com um único 
companheiro. Mas também o casal devia ser uma totalidade. 
Por isso devia excluir completamente aquela promiscuidade 
que antes era obrigatória. Fora do harém, longe do homem-
deus, a mulher tornava-se exclusivista, ciumenta, não 
suportava a infidelidade. Dedicava-se inteiramente ao marido e 
exigia dele uma dedicação total. 
Não há portanto um esquema único, mas dois esquemas 
intercambiáveis: um individual, o outro coletivo. A mesma jo- 
venzinha que, se pudesse, se atiraria na cama de seu artista 
preferido não suporta que seu namorado olhe para outra 
mulher. 
A história de Hugh Hefner com Barbi Benton em Los 
Angeles e Karen Christy em Chicago, como aparece no livro de 
Talese, A mulher do próximo, mostra-nos um caso em que a 
poligamia não é mais aceita quando foi prometido um 
 100  
relacionamento privilegiado de casal. Hefner teria podido 
deixar as duas mulheres junto com as outras no harém de 
Chicago. Ambas teriam aceitado e considerado uma honra 
serem chamadas a dividir o leito do grande chefe, o divino 
Hugh Hefner, de vez em quando. Mas este, antes com uma e 
depois com a outra, comportara-se como monógamo. Dissera a 
cada uma: “Você é a melhor, amo somente a você”. Esse estado, 
uma vez adquirido, foi considerado irrenunciável. Cada uma 
delas sentiu-se rainha, travando uma luta mortal contra a outra 
para ser a única mulher. A posição de concubina, de favorita, 
de esposa, dá status. Alguns desses status são partilháveis, 
outros, ao contrário, exclusivos. A essa categoria pertencem os 
papéis de rei, de rainha, de primeira mulher na poligamia e de 
mulher monogâmica no casal. Hefner havia criado um papel 
exclusivo. As duas mulheres não quiseram mais abandoná-lo. 
Ele só encontrou a paz deixando ambas e retornando ao antigo 
esquema poligâmico, sem fazer mais exceções. 
 
3. E no âmbito dos fenômenos coletivos que podemos 
encontrar explicação para o fascínio de dom Juan, um homem a 
quem as mulheres não conseguem resistir. Não devemos porém 
confundir dom Juan com o Grande Sedutor. Este conhece a arte 
de conquistar as mulheres, sabe como seduzi-las. Dom Juan, ao 
contrário, conquista todas mesmo não fazendo nada, atraindo-
as somente com a sua presença. O mecanismo é tão elementar 
que resulta incompreensível, dando a impressão de magia. 
Colette nos comunica essa impressão: “(As mulheres) o 
apontavam: é tudo o que posso dizer. Quando se tratava dele, 
logo tomavam um ar de sonâmbulas e se teriam ferido contra 
ele como contra um móvel, a ponto de dar a impressão de que 
não o viam. Foram aquelas mulheres que o indicaram a mim e 
sem elas não lhe teria dado seu verdadeiro nome, ‘dom 
Juan’
70
... Entre Damien e as mulheres não havia o menor traço 
de diplomacia. Era quando muito uma questão de ‘palavra 
mágica’”
71
. Começamos a compreender o que seja esta “palavra 
mágica” se recordamos que o mito e a figura de dom Juan 
pertencem aos séculos XVII e XVIII. São épocas aristocráticas, 
 
70
 Colette: II puro e l’impuro, trad. ital., Milão, Adelphi, 1980. 
71
 Colette: II puro e l’impuro, trad. ital., Milão, Adelphi, 1980. 
 101  
dominadas pela vida da corte, pelas bisbilhotices e pela fama. 
A palavra mágica é a fama, que, naquele tempo, tanto podia ser 
militar quanto erótica. 
No mundo moderno o equivalente de dom Juan é o 
playboy, o homem rico, famoso, atraente, que passa seu tempo 
conquistando mulheres. E as mulheres são atraídas para ele 
como as mariposas para a luz. Hugh Hefner captou o segredo. 
Fez de si mesmo o perfeito playboy, o dom Juan absoluto. Na 
sua revista mostrou nuas, todos os meses, as mulheres que 
faziam amor com ele. Por isso milhões de americanos o 
invejaram, por isso milhões de mulheres se prontificaram a 
partilhar sua cama e aparecer em sua revista. Mas seria um erro 
pensar que tenham sido atraídas apenas por um possível 
sucesso cinematográfico. O segredo é o mesmo que funcionava 
no tempo da princesa de Clèves, do duque de Nemours
72
, ou do 
visconde de Valmont
73
: a fama, a irresistível atração do 
primeiro, do melhor, do vencedor que gera o vórtice coletivo. A 
fama é a “palavra mágica” que Colette procura. A fama que 
anuncia, que chama, que dá valor, que torna irresistível seu 
portador e que se transmite à mulher que se une a ele. Não em 
segredo, porém, mas em público, mesmo que isso seja 
perigoso. Mesmo que o risco, o escândalo possam ser mortais. 
 
15 
 
1. Existe um tipo de promiscuidade que não se realiza na 
orgia, na indistinção dos corpos, mas que consiste na recusa de 
um único objeto de amor, na facilidade de passar de um para 
outro, em ter relacionamentos sexuais com muitas pessoas. 
Esse tipo de promiscuidade sexual, ao contrário do primeiro, é 
mais ligado ao sexo masculino. De fato vamos encontrá-lo com 
muito mais frequência nos homossexuais masculinos. Nas 
lésbicas, ao contrário, os afetos são muito mais estáveis 
havendo possessividade e exclusividade muito maiores
74
. 
 
72
 Mme de La Fayette, A princesa de Clèves, cit. 
73
 Pierre de A. F. Choderlos de Laclos: As relações perigosas. 
74
 O fenômeno já fora constatado por Havelock Ellis e confirmado por pesquisas mais recentes. 
Jean Cavailhes, Pierre Dutey: Rapporto gay, Paris, Ed.Persona, 1984. 
 102  
Em uma recente entrevista Michel Foucault disse que a 
promiscuidade no homossexualismo masculino é o resultado 
da repressão do homossexualismo e, em particular, do 
namoro
75
. Não foi possível desenvolver uma cultura do namoro 
— observa — porque havia a necessidade de esconder e a 
urgência de concluir. No entanto, entre as lésbicas, não existe 
essa promiscuidade. Elas não têm cinco ou seis relações 
sexuais com parceiras diversas por dia, com centenas de 
parceiras diferentes em um ano. Larry David Nachman observa, 
a propósito disso: “Há um bom motivo para se acreditar que o 
legendário número de conquistas de dom Juan, segundo o 
preciso catálogo de Leporello, tenha sido de fato conseguido 
junto a jovens rapazes homossexuais”
76
. 
Tem-se a impressão de que, no homossexualismo, cada 
sexo leva ao extremo algumas das próprias fantasias eróticas 
mais específicas. Nos homens, o erotismo imediato, sem 
namoro, como na pornografia, como com a prostituta. Na 
mulher, o afeto persistente, a exclusividade monogâmica. 
No entanto, se a explicação dada por Foucault sobre a 
promiscuidade é inconsistente, a sua entrevista nos indica 
também um caminho mais promissor. A consciência 
homossexual — observa ele — inclui o conhecimento de saber-
se membro de um grupo social particular. Este assumiu a forma 
“de filiação a uma espécie de sociedade secreta, ou de 
participação de uma raça maldita, ou ainda de pertencer a um 
bloco da humanidade ao mesmo tempo privilegiado e 
perseguido”. Por outro lado, devemo-nos lembrar da célebre 
definição da homossexualidade dada por Roland Barthes: “Uma 
deusa, uma figura digna de ser invocada, um caminho de 
intercessão”. É uma imagem do mundo religioso e, em termos 
sociológicos, do coletivo. Talvez aqui deva ser buscado o 
significado da promiscuidade: como uma forma de fraternidade 
erótica dentro de uma comunidade dotada de valor. 
Talvez no passado não fosse assim. Mas nos tempos 
modernos os homossexuais masculinos constituem uma 
 
75
 "Scelta sessuale, atto sessuale”, entrevista de Michel Foucault a James 0’Higgins, em AA. W. 
Omosessualità, trad. ital., Milao, Peltrinelli, 1984. 
76
 L. D. Nachman: Genet: dandy di piü profondi abissi, em AA. W., Omosessualità. 
 103  
comunidade em que se entra por revelação e iniciação. No 
ensaio “Caro Paul”, de Paul Robinson
77
, um professor leva um 
aluno a reconhecer a própria homossexualidade. O aluno lhe 
diz que se apaixonara pelo companheiro de quarto e sofrerá 
uma grave desilusão. O professor lhe explica que errou ao 
procurar imediatamente o amor. De fato, no mundo gay, o sexo 
vem antes do amor. A estrutura da vida gay exige que se ponha 
de lado o romantismo, que se frequentem determinados bares, 
que se façam experiências eróticas quase impessoais. O aluno, 
portanto, deve antes de mais nada reconhecer em si a vocação, 
o “chamado” homossexual. Depois, quando já estiver certo, 
deve ingressar na vida gay aceitando suas regras de 
promiscuidade. Somente depois de muito tempo poderá 
realizar também uma experiência de amor individual, 
romântico. 
Essas observações nos trazem à mente de forma 
preponderante os processos coletivos. O chamado, a acolhida, 
a distribuição dos bens em comum caracterizam qualquer 
comunidade utópica. Talvez a promiscuidade gay seja apenas 
uma das formas do comunismo utópico. Um comunismo 
requerido por uma comunidade sem hierarquias e sem 
qualquer outro objetivo além de dar e receber erotismo. É claro 
que nessa comunidade podem formar-se amizades exclusivas. 
Mas depois, e sem ferir demais as regras de fraternidade. E é 
também obviamente possível o enamoramento exclusivo, 
monogâmico. Mas nesse caso o casal deve defender-se do 
comunismo de grupo. 
George Steiner observa que os grandes matemáticos, os 
grandes metafísicos, os artífices do contraponto não foram, em 
geral, homossexuais. E lhe vem à mente a expressão “práticas 
solitárias”, para indicar suas atividades de pesquisa solitária. 
Ao contrário, os gays se encontram com frequência no mundo 
literário, intelectual
78
. E este é também um mundo agitado por 
movimentos sociais, onde surgem comunidades culturais, 
grupos que se contrapõem à sociedade existente, julgada 
prosaica, banal. No seu ensaio sobre Whitman, Calvin Bedient 
sublinha a dimensão erótica difusa, coletiva, de sua poesia, e o 
 
77
 Paul Robinson: “Caro Paul”, em AA. W., Omosessualità. 
78
 George Steiner: “Al posto de una prefazione”, em AA. W., Omosessualità. 
 104  
chamado para o amor, para uma vida passada inteiramente 
entre camaradas
79
. 
Se a promiscuidade homossexual masculina é uma 
manifestação do erotismo coletivo, do comunismo utópico do 
movimento, compreende-se sua presença na koinè grega e nos 
exércitos. Diferentemente do que acontece nos 
relacionamentos heterossexuais, em primeiro lugar está a 
solidariedade coletiva com seus direitos e deveres, com seu 
comunismo erótico e então, somente então, delineiam-se as 
individualidades, as amizades profundas, até chegar ao 
exclusivismo amoroso do enamoramento. 
Quanto ao lesbianismo, sua natureza de movimento é tão 
forte como o que tratamos. Uma parte do feminismo tornou-se 
movimento lésbico tout court. Aqui, porém, o comunismo 
utópico não se realizou na promiscuidade sexual orgástica, de 
tipo masculino, porque o erotismo feminino é basicamente 
diferente e não põe à disposição de todos o que não deseja. A 
irmandade lésbica desenvolveu-se mais sob forma de 
intimidade amorosa de pequenos grupos e de valorização do 
seu próprio caráter extraordinário e exemplaridade. Falando de 
uma comunidade de Berlim, uma mulher observa: “A ternura, a 
atenção que cada uma dedica às outras pode perfeitamente 
substituir um relacionamento amoroso. Tem-se a impressão de 
que nossos sentimentos e sensações se fundem uns nos outros. 
Por isso é difícil traçar uma fronteira entre o que pertence à 
amizade e o que pertence ao sexo. Ou, mais exatamente, ao 
corpo. Temos, entre nós, uma ternura corporal... Essa ternura 
permitiu-me viver durante quatro anos sem ter uma relação de 
amor com uma mulher. E eu não sofria com isso. Era uma 
doçura continuamente presente”
80
. 
No movimento lésbico, quando há uma figura dominante, 
uma líder indiscutível, não se consolida uma estrutura de 
harém, mas apenas um primado afetivo, materno, do chefe 
sobre as outras mulheres. O líder masculino sente prazer em 
ser o único a ter relações amorosas com muitas mulheres, mas, 
com a líder feminina, isso não acontece. O movimento se 
 
79
 Calvin Bedient: “Walt Whitman: sorvechiato”, em AA. W. Omosessualità. 
80
 Evelyne Le Garrec: Des femmes qui s’aiment, Paris, Seuil, 1984. 
 105  
estrutura na forma de pequenas comunidades do tipo descrito 
ou de casais monogâmicos. 
Mas também no homossexualismo masculino a 
promiscuidade não produz o modelo harém. Não existe a 
tendência a procurar eroticamente o único, o líder, o centro. O 
desejo de variedade erótica conduz ao comunismo erótico, ao 
compromisso de oferecer-se a todos porque todos se oferecem 
a nós. 
O comunismo erótico, como vimos no capítulo precedente, 
foi tentado por numerosas formações coletivas. A revolução 
sexual dos anos 60-70 realizou-se através de um certo número 
de movimentos. A própria pornografia, a partir da Playboy, 
espalhou-se em nome da liberação sexual como promessa de 
uma humanidade mais tranquila, mais feliz. Muitíssimas 
comunidades, seitas ou escolas psicoterapêuticas 
contemporâneas são formações coletivas com grande 
permissividade erótica. Porém, quase todas essas comunidades 
ou escolas, tanto no passado como em época recente, tiveram 
vida breve. Duravam até que um líder masculino lhes dava uma 
estrutura de harém, depois se desintegravam. 
O que não deu certo nas comunidades utópicasheterossexuais funcionou nos movimentos homossexuais, sem 
necessidade nem mesmo de um grande aparato ideológico. Nos 
anos 60-70, nasceu um modo de vida gay, bairros gay, uma 
solidariedade gay como prática de vida, utopia operante. Essa 
forma de vida pareceu aos seus adeptos um ideal a ser 
proposto também aos outros. 
Hoje a comunidade gay está sofrendo uma ameaça. Esta 
não podia brotar de nenhum fator social. A nossa sociedade 
tende a reduzir a natalidade, as responsabilidades familiares, a 
facilitar todos os relacionamentos, torná-los mais velozes, a 
misturar erotismo e trabalho, erotismo e inteligência. Valores 
que são comuns aos que pertencem às comunidades gay. A 
ameaça surgiu com a difusão da AIDS, que se torna mais 
virulenta exatamente por intermédio dos relacionamentos 
promíscuos e que, dessa forma, põe em discussão o valor 
utópico-salvífico da promiscuidade. Enquanto não se encontrar 
um medicamento capaz de debelar a AIDS, ela será uma ameaça 
ao próprio cerne do comunismo erótico, ameaça que poderá 
 106  
fazer desmoronar todo o alicerce social sobre o qual ele foi 
construído. 
 
2. Nas grandes cidades, principalmente americanas, 
formou-se nesses últimos anos uma outra modalidade de 
promiscuidade heterossexual constituída de “sozinhos” 
(singles), homens e mulheres que vivem sós, em geral, 
profissionais liberais, alguns com mais de um divórcio nas 
costas. Ele têm seus próprios locais de encontro, bares, 
discotecas, onde, como os gays, estão certos de encontrar 
outras pessoas livres como eles. 
Esse exemplo parece contradizer frontalmente nossa tese 
segundo a qual a promiscuidade só pode ocorrer dentro de 
uma comunidade onde haja uma forte ligação de solidariedade. 
Entre os gays esse liame formou-se na época em que eram 
discriminados e até mesmo perseguidos. Também como 
comunidade utópica, sempre tiveram de proteger-se de uma 
sociedade hostil. À primeira vista, o caso dos singles é 
totalmente diferente, mas não é assim. Até vinte anos atrás, a 
sociedade americana era uma sociedade de casais. O solteiro, o 
divorciado, a solteira, a desquitada eram indesejáveis. Aliás, 
eram até temidos, malvistos, não eram convidados para 
jantares ou festas. Sua própria existência constituía uma 
ameaça aos casais oficiais. Assim, a sociedade praticamente os 
obrigava a casar-se ou tornar a casar-se no menor prazo 
possível. Mas onde encontrar um novo cônjuge numa sociedade 
formada exclusivamente de casais? Só havia duas alternativas: 
tirar o marido ou a mulher de outra pessoa ou casar-se entre si. 
A sociedade americana sempre controlou suas tensões 
internas mediante o mecanismo do isolamento, isto é, 
classificando as pessoas por grupo étnico, profissão, status 
social e pedindo-lhes que se associassem. A cidade americana é 
dividida em áreas sociais segregadas: os bairros negros, porto-
riquenhos, italianos, a cidade universitária, os bairros gay, e 
assim por diante. Até os singles foram levados a juntar-se para 
se casarem entre si sem perturbar o sacrossanto lar dos outros. 
Com a revolução 
-
 sexual e a crise da família, cresceu o número 
de separados, divorciados, os que preferiam viver sozinhos 
para serem mais livres, sem obrigações. Com isso, hoje os 
 107  
“sozinhos” não são mais temidos como no passado. Há mesmo 
quem preveja que no futuro a sociedade será formada 
essencialmente de pessoas que, vivem sozinhas. Porém, a 
forma de sua organização traz ainda a marca da época em que 
eram discriminadas e obrigadas a formar um grupo entre si. 
Nas grandes cidades, elas constituem uma comunidade com 
códigos de comportamento próprios. Têm locais de encontro 
determinados onde sabem que serão abordados para um 
relacionamento erótico e sabem que devem comportar- se 
segundo determinadas regras de etiqueta. Nessa comunidade, 
as regras sexuais foram profundamente influenciadas pelo 
modelo da promiscuidade homossexual masculina. 
Nas cidades européias, e em particular na Itália, o 
mecanismo social da segregação jamais funcionou. Existem 
comunidades gay, mas não bairros gay, negros ou porto-
riquenhos. No passado, o número de separados e divorciados 
era irrelevante, enquanto os solteiros e solteiras jamais foram 
considerados um perigo para os casados e jamais foram 
discriminados. Tanto uns como outros sempre conviveram 
normalmente com as outras pessoas. Por esse motivo não 
desenvolveram um forte espírito de grupo. Também a ética 
erótico-sexual dos singles não se tornou tão permissiva como 
aconteceu nos Estados Unidos. Isso não significa que a moral 
européia seja mais rígida. Ela é certamente menos uniforme. 
Nos Estados Unidos, um solteiro é obrigado a adequar-se às 
normas permissivas do grupo a que pertence, deve aceitar o 
nível de promiscuidade. Na Europa, não. Ele pode decidir trocar 
de cama a cada noite ou ficar só até encontrar a pessoa que 
ama. Entre esses dois extremos existem todos os graus 
intermediários. Além disso, uma pessoa não casada, divorciada 
ou solteira pode mudar seu comportamento, agir um pouco de 
um modo e depois de outro. Não há pressão social alguma que 
a constranja a adaptar-se a um padrão. 
Também nas comunidades dos “sozinhos” a difusão da AIDS 
está provocando um pânico difuso e uma confusão cultural. 
Principalmente nos Estados Unidos. Sobretudo onde ser uma 
pessoa só, livre sexualmente em uma sociedade promíscua 
significa pertencer à elite que prefigura o amanhã. Significa 
mostrar o caminho aos outros, o caminho da felicidade e da 
 108  
liberação. A doença que se propaga justamente através da 
promiscuidade mina nas próprias raízes essa crença ideológica, 
transforma num perigo o instrumento fundamental da 
redenção, destrói a solidariedade da comunidade. Cada novo 
recém-chegado não é mais um irmão a se conhecer 
sexualmente, a se iniciar nas alegrias da liberdade, é um perigo 
em potencial, um inimigo. E os lideres do grupo, o centro 
intelectual e erótico do movimento, correm o risco de aparecer 
como a fonte máxima de contágio, os empestados, aqueles a 
quem se deve evitar com horror. 
 
16 
 
A sociedade americana, com o passar dos anos, tornou-se 
cada vez mais voluntarista. O voluntarismo não é uma filosofia
,
 
é um modo de pensar, um princípio lógico que encontramos em 
quase todos os produtos da cultura americana. Ele parte do 
pressuposto de que as pessoas podem sempre definir 
claramente o que desejam, motivo pelo qual o problema se 
resume apenas à forma de obtenção de tal coisa. No 
voluntarismo, o fim não é um problema, somente o meio o é. 
A ideia central do voluntarismo provém da economia 
capitalista. No universo econômico o fim é claro: maximizar o 
lucro. Qualquer outro fim não pode nem ao menos ser levado 
em consideração, é irracional. Numa transação econômica 
todos devem procurar ganhar. Em qualquer lugar domina a 
regra do custo- benefício. Isso é possível porque existe uma 
medida comum do valor, o dinheiro. É o dinheiro que torna 
comparáveis objetos, serviços prestados, prazeres 
heterogêneos. Ao se pretender aplicar o princípio da 
maximização, o primeiro passo consiste em estabelecer o fim. 
Em economia o fim é determinado. 
A sociedade americana aplicou esse tipo de categorias 
econômicas a todos os âmbitos vitais. Até às relações 
interpessoais, ao erotismo, aos sentimentos. Por isso o 
imperativo categórico da sociedade americana, o que está por 
trás de cada ação, cada pensamento, cada opção, é: fixe o fim, 
estabeleça o que quer! Uma vez estabelecido o fim, 
 109  
predispõem-se os meios organizadores, técnicos e financeiros 
mais idôneos para atingi-lo. 
Apliquemos esse princípio aos homossexuais. O que 
desejam eles? Fazer amor com outros homossexuais. Muito 
bem. Então que se reúnam entre si! Que vivam no mesmo 
bairro, assim poderão fazer amor até cansar. O que desejam, 
em vez disso, os pares casados? Nãoser ameaçados pelos 
solteiros, pelos divorciados. Então deixem-nos fora do seu 
ambiente, não os convidem para suas festas. O que desejam, 
finalmente, os não casados? Encontrar-se, procurar a alma 
gêmea ou então fazer amor. Então que se unam aos outros 
solteiros e façam todas essas coisas. Deve haver bares onde 
procurar companheira por uma noite, outros onde encontrar a 
alma gêmea. Como num grande, imenso supermercado. Basta 
saber o que se quer, vai-se à seção adequada e se procura a 
melhor marca ao preço mais conveniente. 
 
Isso é voluntarismo: determinar sempre, desde o início, o 
que se quer. Quer ser gay, casado ou solteiro? Quer ter um 
romance ou uma experiência orgiástica? Quer ser monógamo 
ou polígamo? Uma vez determinado o que realmente quer, 
deverá procurar seu grupo, ler alguns livros apropriados
81
 e 
esperar "pelo resultado. 
No oposto do voluntarismo americano está a concepção 
européia, segundo a qual nós jamais sabemos direito quais são 
os nossos fins. Porque temos desejos conflitantes, paixões 
divergentes. O verdadeiro problema surge, portanto, no início. 
Quer ser homossexual? Então vá viver numa comunidade gay, 
diz o voluntarismo. Mas uma pessoa pode sentir-se 
homossexual e, não obstante, não aceitar o modo de vida gay. 
Pode gostar do bairro em que vive, o ambiente humano e social 
tradicional, comportado e rico de sua cidade. Pode desejar a 
companhia de amigos casados, de mulheres, o estímulo da 
diferença, pode detestar a promiscuidade. Por que deve fechar-
se num gueto e aceitar as regras gay? Sim, ele se sente 
homossexual, mas viver como gay, estar obcecado pelo 
 
81
 Um típico manual desse gênero é o escrito por Marie Edwards e Eleonor Hoover: The challenge 
of being single. Nova York, New American Library, 1975. 
 110  
erotismo não é a única finalidade de sua vida. Existem outras, 
às quais não quer renunciar. O fim não é algo de pacífico, de 
óbvio. O fim é um problema
82
. 
Não existem fins pré-moldados antes das ações. Eles se 
revelam durante as ações. Não são um a piori com respeito ao 
qual todo o resto é meio. Aparecem. Podemos partir em busca 
de uma aventura erótica sem nenhum envolvimento emocional, 
podemos até resolver, em determinado momento de nossa 
vida, que não queremos mais saber do amor. Mas depois 
percebermos, espantados, que a simples sexualidade, a 
repetição de encontros novos e superficiais nos desilude, 
deixando no coração um sentimento de vazio. E que temos 
necessidade de liames profundos, de sonho e de amor. Ou 
então, o contrário. Somos casados, amamos nosso marido ou 
nossa mulher, mas sentimos, no íntimo, uma inquietação que 
nos faz procurar em cada pessoa que encontramos aquele ou 
aquela que mudará a nossa vida. Ai de nós, porém, se 
procurarmos definir com um teste essa pessoa ideal. Ai de nós 
se nos decidirmos a encontrá-la dentro de um ano e desposá-la 
imediatamente/Ai de nós se aplicarmos toda a nossa vontade 
para realizar esse sonho extraordinário com um método 
racional. Porque aquilo era um sonho. A nossa razão não 
conhece as raízes dele, os misteriosos anseios do nosso 
coração. O teste não nos pode adiantar nada sobre quem 
procuramos. Seguindo-o, a vontade se condena a não encontrar 
nada. 
Segundo essa concepção da existência, os seres humanos 
não se conhecem, não sabem exatamente o que querem. Se 
decidem maximizar algo, devem fazer uma escolha arbitrária 
entre muitas coisas equivalentes. No mundo dos afetos, não se 
pode aplicar o cálculo dos custos-benefícios. Porque os 
benefícios não são mensuráveis e não podem ser confrontados. 
Não existe, portanto, uma técnica de relações afetivas. Não 
existe nem ao menos uma arte, mas no máximo um 
conhecimento, um saber que ajuda a compreender e a nos 
compreendermos, que ajuda a ouvir e a ouvir-nos. 
 
82
 Salvatore Veca escreve: “Os seres humanos parecem ser, no plano positivo, atores 
caracterizados sobretudo por poderem ter fins em geral, não por terem um fim determinado". 
Questione di giustizia, Parma Pratiche, 1985. 
 111  
A reflexão européia sobre o amor
83
 tem por isso encontrado 
expressão através de paradoxos. O paradoxo explode quando se 
quer aplicar ao mundo das qualidades uma ordem lógica que 
lhe é estranha. Assim, dizemos que o amor é cego porque não 
enxergamos mais os defeitos da pessoa amada. Mas, ao mesmo 
tempo, vê mais que os outros, porque nota as qualidades e as 
belezas que eles não percebem. Assim, o amor é conquista, 
porém, ao mesmo tempo, submissão. É egoísmo, egoísmo 
desenfreado; no entanto, é também dedicação total. É respeito, 
mas não recusa diante do amado. É temor, mas também 
coragem, prisão e liberdade, doença e saúde, felicidade, mas 
também martírio. O amor é um contínuo pedir, mas é também 
ansiosa espera. 
 
17 
 
1. Todo o eu é dividido, é o resultado de muitas 
promessas, cada uma delas incompatível, em suas 
consequências, com as outras. Permanecer fiel a uma promessa 
com toda a intensidade do momento em que foi feita implica 
uma mutilação da existência, um consumo enorme de energias, 
uma vigilância contínua. Prometer é empenhar o futuro, 
subordiná-lo a uma exigência que deve ser reconstruída 
continuamente. Exige que se limite o futuro dentro do que foi 
decidido. Ter um filho é uma promessa. Toda a cadeira de 
consequências, de compromissos só se revela em seu 
crescimento. Também viver juntos é uma promessa porque leva 
a assumir as relações da outra pessoa como deveres. Eles se 
revelam aos poucos, assim como se revelam suas necessidades, 
seus desejos, tudo o que ela pouco a pouco vai se tornar e vai 
desejar. 
Os deveres de hoje são a sedimentação do que foi querido 
no passado, mas isso também acontece com boa parte dos pra- 
zeres. Acabamos por extrair prazeres daquilo que fazemos. 
Como não é possível que tudo o que nos agradou continue a 
agradar-nos agora, significa que aprendemos a extrair prazer 
 
83
 A obra mais completa sobre esse tema é a já citada L’amore come passive, de Nitlas Luhmann. 
 112  
do que temos. Significa que aprendemos a dizer sim à 
sociedade que nos pergunta continuamente: “Por que não sente 
prazer se o desejou?” 
O homem contemporâneo procurou de todas as maneiras 
subtrair-se a esse controle. Mas a sociedade não esquece. 
Somente o anonimato consente no esquecimento, consente que 
o eu permaneça dividido. O eu reconhece sua laceração interna 
somente quando esta lhe é lembrada por outra pessoa. Todos 
nós poderíamos levar existências paralelas, não fosse esse 
contínuo recordar dos outros. A norma não existe para o 
indivíduo isolado
84
, é produzida exclusivamente pela pressão 
social. É o recordar dos outros que nos impõe a síntese do 
nosso eu. É diante da lembrança dos outros que temos de 
exibir a nossa coerência. Sozinhos, esqueceremos as promessas 
como esquecemos nossas dívidas. 
Há no erotismo um elemento de revolta contra esse estado 
de coisas. Vimos isso mais amplamente no erotismo masculino, 
que tende a recusar os deveres, os compromissos e as próprias 
implicações, a longo termo, do amor. Mas também na mulher, 
também no desejo feminino de amor, está oculta a necessidade 
de que este amor seja continuamente livre, continuamente 
recriado e jamais se reduza a um dever de amar, lembrança de 
um compromisso de amar que existiu no passado e que não é 
mais sentido hoje. O amor é ligação e dependência recíproca, 
mas na liberdade. A promessa, a pura ética da promessa, ao 
contrário, não admite a liberdade de mudar. O que foi 
prometido deve continuar a valer para sempre. Se você se 
comprometeu a amar, tem de amar. 
Também o erotismo feminino, o erotismo do amor, não 
pode, por essa razão, aceitar a promessa como força 
vinculadora e tende a rebelar-se à memória social. O erotismo, 
mesmo o erotismo feminino, é novidade, revelação e mistério.Nada do que é observado, lembrado, exigido, pode ter 
qualquer mistério. O mistério é um possível incomensurável, é 
um avançar além de tudo o que é conhecido, tudo quanto é 
lembrado pelos outros. O cotidiano é social. É um pensamento 
 
84
 Salvatore Veca recorda a solução de Saul Kripka ao paradoxo de Wittgenstein: “Quando 
dizemos que alguém segue uma regra, referimo- nos a esse alguém como membro de uma 
comunidade em uma prática”. Do livro Ragioni e pratiche, a ser publicado. 
 113  
alheio que nos impomos dizendo-o nosso, porque foi desejado 
por nós ou é consequência do que foi desejado por nós. É a 
alienação de nós mesmos que nos vem restituída como 
naturalidade. Mas é sempre um comportamento alheio que nos 
penetra, monta nas nossas costas e nos faz caminhar com ele. 
O erotismo tem horror do cotidiano social. Tende a rebelar-se 
ou esquivar-se a ele. 
O erotismo possui dentro de si, em seu âmago, uma 
aspiração ao “aqui e agora”, mesmo se o pensamos como 
contínuo, como eterno. A liberdade é o direito de querer o 
eterno na hora. 
Quando é seguro de si, como no enamoramento rebelde e 
exemplar, desafia o cotidiano, recusa o passado, afasta as 
perguntas, proclama-se acima do bem e do mal. Quando não 
possui o vigor do enamoramento, busca a solidão, retrai-se, 
subtrai algo de si, como defesa. Procura os locais isolados 
como as celas dos monges. Afinal, por que os monges teriam 
necessidade de celas, senão para defender-se dos outros 
monges? Procura acima de tudo o silêncio, o segredo interior, a 
intimidade. Procura o esquecimento. O mundo moderno 
necessita desses silêncios, desses esquecimentos, dessas 
alusões. Necessita estar ausente para poder continuar vivo. 
Mas o que se subtrai? O que é necessário subtrair? A nossa 
necessidade de ser mais do que somos, daquilo que nos foi 
destinado. Isso não pode ser somente passado, promessa, 
porque é sempre também chegada, epifania, abertura, 
novidade, liberdade, revelação. O cotidiano é a chama dos 
homens, mas nós esperamos também a chamada dos deuses. 
 
2. O que levava, em tempos passados, uma pessoa com 
marido, mulher ou filhos, a buscar uma relação fora de casa, 
quando o fato comportava um risco gravíssimo? O adultério era 
um pecado mortal, punido, sem atenuantes, com a morte. 
Antes do advento das sulfas e dos antibióticos, a sífilis e a 
gonorréia eram doenças terríveis. Hoje, com a AIDS, voltou o 
medo do contágio sexual. Por que, então, apesar de perigos tão 
graves, as pessoas, homens e mulheres, procuram encontros 
eróticos? O que as impele a correr um risco tão grande? 
Imaginamos que na base disso haja um motivo grave, uma 
 114  
profunda insatisfação no casamento, ou um grande amor 
apaixonado. Não é isso. Não é o amor louco ou heróico que 
provoca o desejo do encontro, o desespero, é um motivo mais 
fútil, um prazer mais leve, alguma coisa que poderia ser 
chamada de insignificante. É essa tenacidade irracional, esse 
princípio obscuro, esse impulso misterioso que tanto fascinou 
Freud, a ponto de fazê-lo colocar a sexualidade na base de 
todas as coisas. Porque lhe parecia a forma mais dificilmente 
disciplinável, canalizável, dominável de uma vez por todas. 
Não porque possua motivações elevadas, mas porque não tem 
motivações. É a sua esquivança que a torna indomável. 
E no entanto Freud não acertou no alvo. A sexualidade, no 
animal, é uma força previsível, cotidiana. Somente no ser 
humano, tomada erotismo, transforma-se em potência 
inquietante que desafia o risco. Só no ser humano torna-se 
desmedida, porque é alimentada por uma inexaurível fantasia. 
Todos nós desejamos uma vida intensa com grandes 
alegrias e grandes desejos. Todos nós desejamos novos 
encontros, ver novos países; enfim, esperamos sempre algo 
glorioso e maravilhoso. Queremos desejar mais intensamente e 
satisfazer os desejos mais intensos. O que nos caracteriza 
como seres humanos é a contínua tendência a transcender-nos. 
Os nossos fins não são determinados como os dos animais, 
eles vão se revelando. Conhecer é conhecer os nossos fins. A 
procura dos fins é a nossa mais profunda natureza. 
Não é a sexualidade a causa da inquietação da natureza 
humana. A sexualidade é apenas o terreno onde se manifesta 
essa inquietação transcendente. Irrompendo na sexualidade, o 
divino ou o demoníaco transformam-na em erotismo porque 
deixam entrever o maravilhoso, o extraordinário, o 
emocionante, o sublime. Ou então também o diferente, o 
desconhecido, o desafio. 
 
3. A inquietude do erotismo é a inquietude do conhecer. A 
verdade é sempre o que não se sabe, o que não se havia 
notado, o não dito, o pouco usual, o insólito e, portanto, o 
mais altamente pessoal, nosso, unicamente nosso. É sempre 
uma personalíssima descoberta nossa. 
 115  
A verdade é pessoal. Eis por que não podemos aceitar o 
que os outros dizem por franqueza. Para chegarmos à verdade 
temos de resistir. Para se chegar à verdade há sempre um 
momento em que devemos rejeitar o que está sendo dito. 
Mesmo quando aprendemos e dizemos: “É isso, ele tinha razão, 
é verdade”, é a verdade somente porque fomos nós que a 
descobrimos, nós que a assimilamos, nós que a reconhecemos. 
O resto é o óbvio, o já dito, o já sabido, o repetido, o que não 
acrescenta nada e que subtrai. Isso é verdade principalmente 
no terreno dos sentimentos, do erotismo, do amor, da vontade. 
Se a verdade é pessoal, a vontade deve reconhecer sua meta. A 
meta é como um perfume. Deve ser sentido entre muitos. É 
como uma cor. Deve ser notada entre as mil cores do mundo. 
 
4. Mas se a verdade é pessoal, se a revelação é como 
reconhecer um perfume entre mil outros, também o erotismo 
mais intenso deve ter uma ligação estreita com a pessoa. 
Muitos afirmam que o máximo do erotismo é a promiscuidade 
orgiástica. É uma ilusão. Claro, o erotismo é possível mesmo no 
relacionamento com diversas pessoas. Mas cem pessoas são 
menos concretas, menos vivas, menos intensas do que as 
diversas aparições de uma mesma pessoa. 
Há na vida dos indivíduos longas fases de busca conste- 
lada de encontros com pessoas diversas. Também os filmes a 
que assistimos, os livros que lemos são contatos eróticos 
múltiplos. Depois, em outra fase da vida, esse múltiplo procura 
sua unidade e só pode encontrá-la em uma pessoa. Então esta 
se torna todas as outras, sua síntese e sua transcendência. No 
enamoramento, isso acontece em seu grau máximo. Ele se 
alimenta do múltiplo. Porém, a própria experiência do múltiplo 
precisa de unidade. Na promiscuidade não poderia haver 
erotismo se não se tivesse tido, ao menos uma vez na vida, 
uma relação extraordinária individual. 
Somente a relação individual é capaz de produzir a 
identificação dos outros indivíduos, consegue fazer deles 
objetos eróticos. Só os vemos se nossos olhos tiverem 
aprendido a enxergar através da experiência, extraordinária e 
glorificante, alcançada com um indivíduo particular. Se nos 
falta essa experiência, falta- nos a capacidade de enxergar o 
 116  
individual, o extraordinário individual que existe em tudo. O 
objeto do interesse erótico é o indivíduo e somente o 
indivíduo. Também na promiscuidade somos atraídos por 
particularidades individuais, os olhos, os seios, as mãos, as 
costas. Desejamos tocar, ver, abraçar aquela pessoa e depois 
aquela outra, mas as duas não se confundem de modo algum. 
Queremos as duas justamente porque são diferentes. Nesse 
interesse erótico difuso apreendemos as particularidades, e são 
exatamente essas particularidades daquele indivíduo novo e 
inconfundível que nos agradam. Cada indivíduo é diferente do 
outro, e queremos essa diversidade. 
Se não há essa revelação da profundidade individual, os 
outros não passam de corpos amorfos, amontoados. Seus olhos 
não brilham, e as bocas não sorriem. Tudo se dissolve na 
multiplicidade indiferenciada.5. Há e haverá sempre, no erotismo, uma dialética 
profunda entre pluralidade e unidade, entre promiscuidade e 
unicidade. Esta exige o múltiplo, tem necessidade do múltiplo 
para enriquecer-se. Se se torna repetição, hábito, dever, 
disciplina, o erotismo morre, transforma-se em tédio, nojo. 
Sem o múltiplo, sem o possível, sem a sedução, sem o 
extravasamento, não pode haver erotismo. Por isso as mulheres 
desejam agradar a todos os homens, têm necessidade de ser 
desejadas por todos, para poderem escolher o eleito. Por isso 
os homens se sentem fascinados pela beleza que descobrem 
em cada mulher e gostariam de ter todas as mulheres do 
mundo. Porém, essa mesma beleza se revela a eles somente 
com o tempo, no aprofundamento da relação com aquela única 
pessoa. O múltiplo é alimento, linfa, sangue do erotismo. Para 
ambos os sexos. Mas o triunfo do erotismo, sua expansão 
soberana, a erotização do mundo acontece somente quando 
essa infinidade de múltiplos se concentra numa só pessoa, 
como os mil estímulos visíveis no foco da retina. 
A pessoa torna-se então o uno e o múltiplo ao mesmo 
tempo. Esse é o milagre do amor erótico. No amor erótico, todo 
o universo se reduz a uma única pessoa e a transcende. Então, 
cada particularidade dessa pessoa nos comove e exalta. Tudo 
da pessoa amada é estupendo, o que foi e o que é. Tudo, um 
 117  
olhar, uma palavra, o movimento dos lábios, a curva das 
sobrancelhas, o olhar pensativo. Tudo se torna precioso para 
nós. Até mesmo a ausência, o lugar onde nosso amado esteve. 
Todas as qualidades de uma pessoa, todas as particularidades 
de seu corpo, todos os gestos, todas as palavras que possa 
dizer, todas as posições que possa assumir, todos os lugares 
onde possa estar, todas as recordações que possa evocar são 
tantas outras sequências infinitas que convergem. O amor é um 
perene viajar nessa infinitude, passando de maravilhamento a 
maravilhamento. 
Na pessoa amada estão concentradas todas as outras 
pessoas do mundo. Todas as lembranças, todas as impressões, 
mesmo as mais fugazes, do que desejamos no passado. O 
nosso amado é a síntese de todos os encontros, de todos os 
artistas famosos, de todas as fotografias, de todos os sonhos, 
de todos os amantes, de todos os desejos, de todas as 
mulheres e de todos os homens com que podemos nos 
identificar, com que podemos sonhar. Nada poderá jamais 
exaurir essa riqueza. Nenhuma multiplicidade concreta jamais 
poderá ser comparável a essa infinidade de possíveis, à 
plenitude dos amores. 
 
 
 118  
 
 
Objetos de amor 
 
 
 119  
18 
 
Nas mulheres o erotismo funde-se com o amor. Desde a 
intenção da sedução até os movimentos coletivos, como o amor 
pelo artista ou pelo líder. No homem, ao contrário, pode haver 
excitação erótica sem que haja a necessidade de um 
envolvimento amoroso. O que significa tudo isso? Que é apenas 
a mulher que ama? Que somente ela se enamora e mantém o 
homem ligado sexualmente? Que na relação homem-mulher há 
sempre e unicamente uma troca de sexualidade por amor? Não. 
Sabemos que também os homens sabem amar. Sabemos, com 
certeza absoluta, que também os homens se enamoram. Nesse 
caso, eles desejam aquela proximidade, aquela ternura, aquela 
continuidade que descrevemos como tipicamente femininas. 
Também o homem tem necessidade de amor, de estabilidade 
afetiva. No homem, o desejo sexual consegue separar-se do 
amor somente com a condição de ter, nas outras esferas, uma 
grande segurança emocional. A imagem do homem duro, frio, 
absorvido pelo trabalho e insaciável sexualmente é uma 
simples fantasia, sem nenhum respaldo na realidade. 
Devemos então chegar à conclusão de que o homem se 
comporta ocasionalmente como as mulheres se comportam 
sempre? A mulher — segundo essa interpretação — seria capaz 
de um estado contínuo de enamoramento. O homem, ao contrá-
rio, poderia viver essa experiência apenas ocasionalmente, de 
vez em quando. Mas essa tese, ainda que sugestiva, tampouco 
é sustentável. A experiência demonstra que também a mulher 
se enamora somente de vez em quando. Não vive continua-
mente enamorada. Existem longos períodos em que isso não 
acontece
85
. Pode viver com um homem a quem queira, mas que 
não a faz vibrar de paixão. A diferença entre o erotismo 
feminino e o masculino reside no fato de que a mulher somente 
sente prazer sexual se gosta do homem em sua totalidade e, 
sobretudo, se o ama com paixão. O que não significa que sinta 
 
85
 Dorothy Tennov escreve: "Os homens, já que são capazes de atingir o orgasmo sexual (fora de 
uma relação emocional), conseguem distinguir melhor o enamoramento da (simples) atração 
sexual. As mulheres, ao contrário, porém estar mais inclinadas a interpretar suas excitações 
eróticas como aspecto do enamoramento”, Love and limerence, já citado. A mesma Tennov, 
porém, afirma explicitamente que a experiência do enamoramento é idêntica para ambos os 
sexos. Ver o capítulo “Sex differences and sex roles”, no livro Love and limerence. 
 120  
verdadeiramente essa paixão. Por outro lado, também o homem 
se enamora e permanece enamorado por longos períodos. 
Nesse estado, sua maneira de sentir e sua experiência são 
muito semelhantes às da mulher enamorada. Mas não porque 
tomou a mulher como modelo, ou imitou e adquiriu sua 
capacidade de amar. Ambos, ao enamorar-se, tornam-se 
diferentes do que eram antes, e mais semelhantes entre si. 
Para sair desse labirinto de perguntas sem resposta, 
devemos deixar provisoriamente de lado o erotismo no seu 
senso estrito e colocar-nos um outro problema. Quais são os 
mecanismos pelos quais nos ligamos de maneira estável a 
outra pessoa? O que nos leva a sentir afeto, amor, a querer bem 
de modo duradouro a uma outra pessoa? Colocada a pergunta 
nesses termos, vê-se imediatamente que o enamoramento não é 
o único caminho que conduz ao amor. Se quisermos respeitar o 
significado das palavras, não podemos dizer que “estamos 
enamorados” de nosso pai ou de nossa mãe. Podemos dizer que 
“estamos enamorados” para sublinhar o aspecto passional do 
nosso amor. Mas é incorreto dizer que estamos enamorados 
deles. Não, o nosso amor já existia quando éramos bebês, 
quando éramos crianças, quando éramos adolescentes. Todas 
as vezes diferente, incrivelmente diferente. E, no entanto, 
também distinto do amor doloroso e resplandecente que 
sentimos, já adultos, quando nos enamoramos de alguém. Nós 
queremos bem, amamos os irmãos ou irmãs, mas jamais 
estamos enamorados deles. Mesmo a mãe jamais se enamorou 
do filho. Porque é como se o seu amor existisse antes de tudo e 
esperasse apenas uma voz que lhe dissesse: “Seu filho é 
aquele”, para dedicar-se toda a ele. Ao contrário, o 
enamoramento abre caminho a duras penas na nossa mente e 
no coração. Aparece e desaparece. É incerto. Pergunta contínua, 
obsessivamente: “Eu o amo? Ele me ama?” 
Também o amor da amizade é diferente. Vai se formando 
pouco a pouco, através de encontros durante os quais sentimos 
que o outro, com sua experiência vital, nos enriquece. Ajuda- 
nos a nos tornar nós mesmos. O amigo nos dá confiança. 
Porém, não temos necessidade de estar sempre com ele. 
Sabemos que existe, que está ao nosso lado, sempre pronto a 
ajudar-nos. O tempo e a distância não contam. 
 121  
Pai, mãe, irmãos, irmãs, filhos, marido, mulher, amante, 
todos estes são objetos estáveis de amor. Em termos psicana- 
líticos, são aqueles sobre os quais fizemos grandes 
investimentos afetivos. Mas os mecanismos que provocaram 
esse investimento não são os mesmos. Quais são eles, então? 
Nos próximos capítulos falaremos de três deles. O 
primeiro é fundamentado sobre a satisfação das nossas 
necessidades e desejos, sobre o prazer e o desprazer que o 
relacionamento com outra pessoa provoca em nós. Se alguém 
nos proporciona prazer, particularmente prazer erótico, a 
nossatendência será a de voltar para ele, permanecer mais 
longamente com ele e retornar mais uma vez. O prazer reforça 
a ligação, a frustração a enfraquece. Esse mecanismo funciona 
na base dos reflexos condicionados da aprendizagem e 
corresponde à lei do efeito de Thorndike. Os psicólogos 
behavioristas e os utilitaristas recorrem a ele para explicar 
todos os relacionamentos emotivos. 
O segundo mecanismo foi muito menos estudado e é 
certamente menos conhecido. Consiste no fato de a 
importância das pessoas somente nos aparecer de quando em 
quando. Principalmente quando há uma ameaça externa, ou 
quando temos de escolher entre duas alternativas. Quando 
corremos o risco de uma perda. Para dar um exemplo simples e 
intuitivo, nós nos apercebemos da importância da saúde 
quando estamos doentes, da importância da nossa cidade, dos 
nossos amigos, quando temos de emigrar. Os nossos objetos de 
amor mais estáveis surgiram dessa maneira para nós e foram 
escolhidos, desejados e protegidos contra uma ameaça. 
O último mecanismo, aquele específico do enamoramento, 
é, ao contrário, o estado nascente. Não deve ser confundido 
com os dois primeiros, pois possui uma estrutura 
completamente diferente. 
Esses mecanismos estão presentes tanto nos homens como 
nas mulheres. Não existe uma modalidade feminina e outra 
masculina de aprendizagem, de perda ou de enamoramento. 
Esses mecanismos, porém, agem diversamente nos dois sexos, 
e veremos como isso acontece. 
 
 122  
19 
 
1. Comecemos a nos ocupar do mecanismo baseado no 
prazer. É o intuitivamente mais fácil, mais lógico, mais 
racional. Resumindo, ele nos diz que — definitivamente — nós 
nos afeiçoamos a quem nos trata bem, a quem nos dá alegria, 
enquanto evitamos, ou mesmo odiamos, quem nos trata mal. O 
relacionamento primordial do bebê com sua mãe é desse tipo. 
Isso já antes do nascimento, porque recebe alimento e vida da 
placenta. Depois, porque é a mãe que interpreta suas 
necessidades e as satisfaz. 
A psicanálise, no seu complexo, tende a colocar a fixação 
da libido como um produto de sua satisfação. As grandes 
satisfações, os prazeres intensos nos ligam às pessoas que no-
los proporcionaram. Dessa maneira ocorre a transformação da 
libido narcisística em libido objetual. O eu é como uma ameba 
que expulsa seus pseudópodes e vai para onde encontra 
alimento e prazer. 
O prazer sexual, observa Freud, é o maior dos prazeres. 
Por isso está em condições de criar as mais fortes ligações. Se 
alguém nos proporciona um grande prazer erótico, 
procuraremos encontrá-lo de novo, depois mais e mais vezes. 
Cada experiência positiva, cada êxtase alcançado, reforça a 
nossa necessidade do outros. Se a experiência de prazer 
renovado é bilateral, entre as duas pessoas se estabelecerá uma 
ligação duradoura, capaz de resistir até mesmo a graves 
frustrações. 
Acrescentemos o fato de que o ser humano é racional. Por 
esse motivo é capaz de procurar ativamente alguém que lhe 
proporcione prazer e comportar-se de modo apropriado com 
ele. Se eu experimentei, ao lado de uma pessoa, um grande 
prazer, procurarei ser-lhe agradável, fazê-la feliz. Se essa 
pessoa, além disso, me agrada, tentarei evitar todas as 
situações desagradáveis, procurando, a cada vez, um encontro 
perfeito. Perfeito não somente para mim, mas também para ela, 
pois desejo que ela me deseje e queira voltar para mim. Desse 
modo, duas pessoas que tiveram encontros agradáveis podem 
estabelecer entre si uma ligação cada vez mais forte. 
 123  
O relacionamento amoroso é visto nesse modelo como um 
desdobramento do relacionamento erótico, a sedimentação de 
todas as suas experiências positivas, o resíduo sólido do 
prazer que a pessoa experimentou. Graças à inteligência e à 
aprendizagem, o amor bilateral pode ser obtido através do 
erotismo e da satisfação recíproca. Dessa forma, a arte erótica 
coloca-se a serviço da arte de amar, constituindo um capítulo e 
um instrumento. O leitor reconhecerá facilmente, nesse modelo 
explicativo, o mínimo denominador comum da psicoterapia 
contemporânea que se propõe a melhorar nossas relações 
afetivas. Nele reconhecerá, além disso, o pressuposto implícito 
nos manuais americanos sobre “como fazer”, visto que essa é a 
vulgarização e a popularização da psicoterapia. O sujeito é 
convidado a aplicar, por si mesmo, as regras de ouro 
descobertas pelos psicólogos. Que afinal se reduzem a uma: 
realizar o prazer recíproco e, dessa forma, um amor estável. 
Não obstante a sua lógica, não obstante o crédito universal 
de que goza, essa teoria do amor é falsa. Não explica nada. Se 
aplicada a fundo, leva a conclusões absurdas. Por exemplo, 
leva à conclusão de que as pessoas mais inteligentes e cultas 
deveriam ter uma vida amorosa mais feliz do que as mais 
simples. Em vez disso, não há nenhuma relação entre cultura e 
felicidade amorosa, entre conhecimento psicológico e 
estabilidade do casal. Não há também relação entre grau de 
instrução e capacidade de amar. Não é somente entre os pobres 
e ignorantes que as famílias se esfacelam, os casais se 
separam, os relacionamentos entre os sexos são difíceis. Isso 
significa que as regras e receitas psicológicas não possuem 
nenhum poder sobre a situação. Elas fazem parte da situação. 
 
2. Voltemos à afirmação de Freud segundo a qual o prazer 
erótico é o maior dos prazeres. É verdade. Vejamos agora a 
seguinte afirmação: a pessoa que encontra em outra um grande 
prazer erótico procurará encontrá-la de novo, depois mais e 
mais vezes. Cada experiência positiva, cada êxtase alcançado, 
reforça o relacionamento. Isso não é verdade. A pessoa pode se 
cansar. Isso acontece em ambos os sexos, mas nos homens o 
fenômeno é muitíssimo mais frequente. A vida cotidiana, a 
erotização do tempo que tanto agrada à mulher, exerce sobre o 
 124  
homem, geralmente, um efeito que deprime o erotismo. Todos 
os encontros eróticos foram felizes, belíssimos, mas, em vez 
de reforçar o relacionamento, produziram o hábito. 
Além disso, devemos ter presente que no homem há disso- 
ciação entre avaliação erótica e avaliação global da pessoa. Um 
homem pode desejar uma mulher desesperadamente, adorar 
seu corpo, e no entanto não querer viver com ela, ao passo que 
se sente bem com outra que, eroticamente, não lhe diz nada. 
Pode também sentir uma fortíssima atração erótica por uma 
mulher em que não confia, de quem se envergonha. No livro O 
complexo de Portnoy
86
, de Philip Roth, o protagonista sente-se 
atraído por uma mulher belíssima, La Langur, que no entanto 
ele despreza. Essa mulher tem uma sexualidade transbordante, 
um corpo extraordinário, todos a olham, todos a desejam, 
todos o invejam. Porém, é ignorante, veste-se vulgarmente, e é 
provocante demais. Ela lhe é dedicada, gosta dele, mas ele não 
consegue de forma alguma afeiçoar-se a ela. 
Um homem pode ter um caso plenamente satisfatório do 
ponto de vista erótico, mas que acaba terminando diante do 
primeiro obstáculo, quase por descuido. Quando duas pessoas 
dizem que só se dão bem na cama, fazendo amor, é sinal de 
que possuem muito pouco em comum, ou que o seu 
relacionamento está para terminar. 
É impressionante observar, sob esse ponto de vista, a 
diferença que existe entre o erotismo (masculino) e a amizade. 
Também a amizade, como o erotismo, se estabelece através dos 
encontros, tem uma estrutura granular. Na amizade o encontro 
é sempre uma revelação, a descoberta de algo de si mesmo e 
do mundo através do outro. Cada encontro deixa um lastro de 
simpatia, de confiança, de afeto. No encontro seguinte temos a 
impressão de ter deixado o amigo pouco antes, de continuar a 
conversa interrompida. Cada grânulo de tempo se acrescenta 
aos outros, e quanto mais frequentes forem os encontros, mais 
a amizade é reforçada, os laços tornam-se mais sólidos, a 
confiança, mais profunda
87
.86
 Philip Roth: O complexo de Portnoy, publicado no Brasil. 
87
 Francesco Alberoni: L’amicizia, já citado. 
 125  
No erotismo (masculino) não acontece esse milagre. Cada 
novo encontro não é vivido como a continuação do precedente, 
mas como algo totalmente novo, uma nova experiência, uma 
nova tentativa. Cada encontro erótico pode ser ótimo ou 
péssimo, está sempre sob julgamento. 
Na amizade, não julgamos o encontro. Se nele alguma 
coisa não andou bem, houve alguma incompreensão, não 
damos a isso muita atenção, esquecemos. Haverá uma próxima 
vez. A amizade não quer julgar. É paciente. A intensidade da 
amizade não é o resultado da soma aritmética do julgamento 
de todas as vezes que os dois amigos se encontraram. É a soma 
dos encontros positivos. No erotismo (masculino), ao contrário, 
os encontros são julgados independentemente e avaliados sem 
levar em consideração o passado. Se já existe o amor, acontece 
como na amizade: as desilusões não contam. Mas se não existe 
amor, se ele deve nascer exatamente dos encontros eróticos, 
então tudo está sempre em discussão, porque algumas 
desilusões são suficientes para criar irritação e desagrado, o 
suficiente para interromper o relacionamento. Na amizade a 
alegria do passado conta de uma forma mais que proporcional, 
no erotismo (masculino), menos que proporcional. 
 
3. Não há então nenhuma possibilidade de que, no homem, 
de uma relação erótica bem-sucedida nasça uma relação 
duradoura, uma ligação mais forte? A possibilidade existe, mas 
depende de que se realize um tipo de experiência particular. O 
homem se ligará à mulher somente se na relação entre ambos 
ele tiver a experiência de um erotismo crescente. 
O cão reage ao mesmo estímulo, à mesma carne. O homem, 
não. O mesmo estímulo, em determinado momento, leva ao 
hábito. Na espécie humana todos os estímulos funcionam como 
estímulos condicionados, necessitam de um reforço. O prazer 
não pode ser uma repetição do prazer passado. A repetição do 
passado é somente tédio. A vida tem horror à repetição. 
A ligação amorosa é impossível se não existir uma forma 
qualquer de futuro. O futuro mais simples, aquele que pode ser 
experimentado diretamente no presente, é o algo mais. Algo 
mais que ontem, algo mais do que imaginamos uma hora atrás. 
 126  
Algo mais que dizer avanço, movimento, crescimento. Então o 
encontro torna-se revelação de que aconteceu algo de 
inesperado e de melhor. À experiência vital toma uma direção. 
Vai do pior para o melhor, cresce, se enriquece, enriquece o 
outro. Também no erotismo masculino desaparece essa 
diferença positiva, desaparece a espera do melhor, desaparece 
qualquer possibilidade de futuro. A ligação erótica não 
permanece nem ao menos no presente, escorrega no “gostei 
muito”, como coisa acabada, morta. 
Os homens, então, para manter vivo o encontro, recorrem 
a fantasias eróticas. Imaginam estar fazendo amor com outra 
mulher, uma mulher do seu passado, da qual recordam um 
gesto, uma palavra, uma imagem. Ou então que seja a sua 
mulher a fazer amor com um homem do seu passado com o 
qual se identificam. A última etapa dessa prótese erótica é o 
filme pornográfico onde o homem busca excitação no que os 
outros fazem, os diferentes dele. 
 
4. A mulher, ao contrário, dificilmente precisa ter 
numerosos encontros eróticos felizes com um homem para 
perceber, com clareza, que ele não lhe agrada mais. Na mulher, 
todo encontro está ligado ao passado. Ela leva em consideração 
a experiência passada. Se o relacionamento continua é porque 
cada encontro conseguiu integrar-se aos encontros passados, 
constituindo um crescimento harmônico. 
O homem concebe a experiência sexual como o salto do 
trampolim para mergulhar na piscina. Se a mulher se entrega a 
ele sexualmente, tem a impressão de que também ela 
“mergulhou”, abandonou-se totalmente a ele. Mas isso não é 
verdade. Á mulher jamais se entrega eroticamente de uma só 
vez. Sua entrega é sempre gradual. Já de longe examina o 
homem. Desde o primeiro olhar experimenta sensações 
favoráveis ou negativas. Deixa-se abordar somente quando o 
desconhecido lhe causou boa impressão, quando seu cheiro lhe 
agrada, enfim, quando a interessa. Mas não passa da primeira 
etapa. Mesmo no encontro sexual a mulher dá somente uma 
pequena parte de si, a parte mais exterior. O acesso ao seu 
íntimo, à sua alma, é sempre gradual. 
 127  
Se para o homem usamos a alegoria do mergulho, no caso 
da mulher será mais certo imaginar uma casa. A mulher está 
dentro, e o homem, fora. O homem se aproxima e, só pelo 
modo como o faz, seus gestos, a maneira como bate à porta, a 
mulher forma impressões, tem sensações, faz julgamentos 
sobre ele. E é a partir daqueles gestos, daquelas emoções que 
ela decidirá se abrirá ou não a porta. Mas mesmo que a abra, 
deixa-o na sala de espera. Observa então como pendura o 
casaco, observa suas mãos, os cabelos, sente-lhe o cheiro. São 
emoções corporais, mas também avaliações, julgamentos. 
Somente se passar nessas provas, se estiver à altura desses 
novos exames, a mulher abrirá para ele uma porta mais interna, 
admitindo-o na parte mais pessoal, mais íntima da sua casa. Ela 
se abrirá, se dará mais, para usar a expressão empregada 
anteriormente. Mas, no novo cômodo, continuará sua 
observação atenta, sua avaliação do que ele é, do que lhe pode 
oferecer, do que ambos são e podem ser juntos. O 
relacionamento da mulher com o homem é uma sucessão de 
impressões, emoções, avaliações e de contínuas aberturas de si 
mesma. Essa gradação está presente até mesmo na mulher 
enamorada. 
Gia Wilhelm Stekel havia demonstrado amplamente que 
quando uma mulher não se sente estimada, admirada, amada, 
fecha-se, torna-se frígida. Pesquisas mais recentes confirmaram 
totalmente esse ponto de vista. Para abrir-se, para abandonar-
se, para liberar seu erotismo mais profundo, a mulher precisa 
confiar
88
. 
Em O amante de Lady Chatterley, a primeira vez que a 
mulher faz amor com o guarda-caça é quase em sonho, sem 
sentir nada. Ele está feliz, realizado; ela, não. Somente na 
segunda vez começa a abrir-se: “No seu íntimo sentiu palpitar 
algo de novo. Emergir como uma nova nudez. E quase sentiu 
medo. Teria preferido que ele não a tivesse acariciado assim ao 
penetrá-la... esperou ainda... queria manter-se isolada... Para 
uma mulher que se mantivesse estranha ao ato, aquele impulso 
das nádegas do homem era certamente uma coisa muito 
ridícula”
89
. E é somente aos poucos, encontro após encontro, 
 
88
 Lillian B. Rubin: Intimate strangers. 
89
 D. H. Lawrence: O amante de Lady Chatterley, já citado. 
 128  
que chega ao prazer total, à fusão amorosa com o homem que 
então já admira, estima e com quem quer viver. 
O que para o homem constituem apenas encontros eróticos 
descontínuos, que não têm nenhuma relação um com o outro, 
para a mulher são etapas, em cada uma das quais exigiu do 
homem a superação de uma prova. No homem o algo mais é 
aquilo que no encontro erótico lhe causa surpresa, um fato 
inesperado. Mas para a mulher aquele algo mais significa 
somente que ela entregou um pouco mais de si mesma. É uma 
outra porta aberta à sua interioridade, à sua intimidade. O que 
para ele é surpresa, para ela é escolha, é decisão. O algo mais 
que ele percebe hoje, nesse encontro, é o resultado do 
julgamento por que passou na vez precedente, do fragmento de 
amor surgido então e que se transformou em deliciosa 
acolhida. 
Quando o homem percebe que o encontro erótico não o 
satisfez, isso se deve ao fato de a mulher ter se fechado. Deve 
ter sentido uma insegurança, uma hesitação, a impressão — 
certa ou errada, não importa — de que o homem não tinha 
classe, era grosseiro. Ou egoísta, estúpido ou arrogante. Então 
ela parou para refletir, para estudar, por medo, por 
desinteresse. Dificilmente o homem consegue compreendere 
reconstruir o processo emocional da mulher. O que capta 
instantaneamente é a queda do nível erótico. Com frequência, 
após duas ou três dessas experiências decepcionantes, ele as 
esquece. Para ele não aconteceu o algo mais. Mas, se 
refletirmos bem, isso aconteceu também com a mulher. 
Antecipadamente. É como se, em vez de deixá-lo seguir 
adiante, o tivesse deixado na sala de espera uma, duas, três 
vezes. Porque não se sentia pronta, porque não o sentia 
pronto, porque não o julgava à altura, não o julgava digno. Foi 
ela que não o admitiu ao algo mais, e foi por isso que ele não a 
encontrou. 
Mulher e homem são, portanto, completamente diversos, 
mas a estrutura de suas experiências é complementar. O algo 
mais que o homem procura todas as vezes, e sem o qual a 
relação não se solidifica, geralmente é um abrir-se ulterior da 
mulher, uma ulterior revelação de si, uma etapa de seu 
erotismo. 
 129  
5. Essa lei vale também quando, de repente, da maneira 
mais inesperada, duas pessoas se dão conta — e se espantam 
com isso — de que se gostam, se sentem atraídas uma pela 
outra e se querem. As mãos se tocam, as pernas se roçam. Às 
vezes é suficiente um olhar, um intenso olhar retribuído, e os 
dois compreendem. É importante, porém, que não haja 
intenção de sedução. Se existem a intenção, o trabalho, a 
vontade de seduzir, apresentam-se também a manipulação, a 
maldade, e então a situação muda. Refiro-me à descoberta 
inesperada da desnecessidade de defesas, da repentina 
emergência de um entendimento, o nascer espontâneo de uma 
cumplicidade. E é preciso que haja também um obstáculo, 
qualquer coisa que impeça que essa atração se torne 
imediatamente um abraço sexual febril. A tensão deve 
permanecer elevada para que se tenha uma dilatação da mente 
e do coração, uma abertura para o extraordinário. O obstáculo 
pode ser interno ou externo, talvez uma timidez, uma 
hesitação, uma compreensão tardia. Isso permite manter 
suspenso tudo entre o possível e o existente. Pelo que se 
determina uma vibração, um arrepio. A alquimia usava essa 
expressão, “arrepio”, para indicar a atração dos elementos, o 
estado de excitação de um na presença do outro, de que se 
originava a reação. 
É o instante milagroso da revelação do desejo recíproco, 
quando não há necessidade de etiqueta, rituais, desculpas 
(ninguém deve desculpar-se por existir, ser, falar, desejar). 
Todo o aparato social que separa os dois sexos, na sua 
inteireza, é abolido, e os dois desejos recíprocos se 
manifestam um ao outro. Fora do mundo das proibições e do 
existente, de sua opacidade. Criam uma área liberada que os 
separa dos outros, torna-os cúmplices, do mesmo time. Nesse 
momento a mulher compartilha a imoralidade do erotismo 
masculino, porque seu desejo está fora do tempo, da 
continuidade. Deseja aquele homem, e ponto final. Não 
amanhã, não no futuro, mas agora, imediatamente, e nada mais 
lhe importa. Portanto, o tempo de encontro também é 
separado, desinserido da trama do que acontecia antes e 
acontecerá amanhã, é um instante, uma bolha de tempo. Depois 
será engolido, mas não poderá ser destruído. 
 130  
O que existe de específico nesse tipo de experiência é sua 
altíssima energia interna, que lhe permite permanecer na 
memória e pôr em movimento a ação. Por outro lado, embora 
sendo perfeito, é ao mesmo tempo incompleto. Porque é 
sempre um entrever, jamais um alcançar. Mesmo se os dois têm 
possibilidade de separar-se, mesmo se têm um relacionamento 
sexual, em ambos a tendência é de encontrar-se novamente. 
Dessa forma, ao encontro pode seguir-se um novo encontro, 
podendo até mesmo nascer uma relação erótica ou, em certos 
casos, um enamoramento. Ou também poderá não haver mais 
nenhum encontro. Ou, na vez seguinte, pode não acontecer 
mais nada. A complexa situação de desejo e de obstáculo — 
com aquelas emoções, a espera, a revelação — não se reproduz 
totalmente. 
Basta que falte um elemento e todo o conjunto se torna 
diferente. A pessoa que nos parecia fascinante parece-nos 
agora desajeitada e banal. Ela própria não é mais aquela de 
antes, falta-lhe a segurança de então. Sua mente foi 
atravessada por outros pensamentos. Sabe muito ou muito 
pouco. Estruturou desejos ou impôs-lhes limites grandes 
demais. O algo mais não se realizou. 
 
6. A ligação amorosa nasce, portanto, em ambos os sexos, 
somente de um erotismo feito de revelação, desvendamento, 
descoberta, ativação de potencialidades latentes, adormecidas, 
não utilizadas. No homem, maravilha. O erotismo masculino 
grita que é belíssimo, grita que a experiência é extraordinária, 
grita de prazer. Louva, exalta a outra e a si mesmo. O feminino 
é mais impregnado de avaliações, de esperas, de preparação, 
de julgamento, de lenta aproximação, de conhecimento, de 
abertura, de descoberta. 
O algo mais pertence a essa dimensão da experiência e nos 
revela a profunda ligação do erotismo com o conhecer. O algo 
mais é conhecer aspectos e dimensões de nós mesmos e do 
outro que ignorávamos, é gnose. Cada encontro sucessivo com 
a mesma pessoa é, dessa forma, um avançar no caminho do 
conhecimento, é um aprofundamento. De nós mesmos, da 
nossa natureza, do que somos e podemos ser. Não é uma 
 131  
revelação feita logo no início, mas um percurso epifânico
90
. O 
segundo encontro produz uma nova emoção, um novo 
maravilhamento. E assim o terceiro, o quarto, o centésimo. 
Somente o conhecimento, o conhecer tem essa possibilidade de 
crescer continuamente, sem repetir-se, sem exaurir-se. 
 
20 
 
1. O segundo mecanismo capaz de criar laços sólidos é o 
da perda
91
. O primeiro mecanismo era fundamentado em nume- 
rosos encontros eróticos emocionantes, onde ocorre o arrepio e 
nos é revelado algo de nós mesmos e da outra pessoa, aquilo 
que chamamos de algo mais. 
Ao contrário do primeiro, o segundo mecanismo não nasce 
de uma experiência erótica e não é, por si mesmo, de modo 
algum erótico. Intervém no erotismo por ser um fator 
fundamental na edificação e na escolha dos nossos objetos de 
amor. 
Com muita frequência queremos coisas opostas, ou então 
nem ao menos sabemos bem o que queremos. Não sabemos o 
que nos interessa realmente, o que tem valor, o que é 
essencial. Há uma diferença entre desejar e sentir necessidade 
de alguma coisa. Entre ter necessidade e não poder passar sem 
ela. Existem momentos, porém, em que compreendemos — 
somos obrigados a compreender — que uma certa pessoa é 
essencial para nós. Porque sem ela, todas as outras coisas 
perdem o valor. Essencial é aquilo que dá valor às outras 
coisas. Essencial é o fim último, aquele a que todo o resto deve 
ser subordinado, deve tornar-se meio. 
Não podemos conhecer os nossos fins últimos, os objetos 
finais do nosso desejo e do nosso amor, fazendo uma soma 
aritmética do prazer e do desprazer que nos causaram. 
Fazemos esses balanços para justificar a nós mesmos o nosso 
apego a uma pessoa, ou para justificar a nossa decisão de 
 
90
 Rosa Giannetta Trevico: Tempo mitico e tempo cotidiano. IULM, pro manuscripto, 1985. 
91
 Expus o mecanismo da perda no quadro da teoria geral dos movimentos e das instituições no 
livro Le ragioni dei bene e dei male, Milão, Gananti, 1981. 
 132  
deixá-la. A soma dos prazeres e dos sofrimentos nos diz o que 
é melhor ou o que é pior, comparativamente. O fim último, 
pelo contrário, é algo absoluto. Não se apresenta a nós como 
um descarte, mas como diferença abissal. Não é o resultado de 
uma reflexão intelectual. Revela-se a nós brutal e 
inesperadamente. Vamos dar um exemplo. A certa altura, 
durante um passeio pela montanha, percebemos ter perdido 
um menino. Onde estará ele? O que lhe aconteceu? De repente 
aquele menino torna-se mais importante que qualquer outro. 
Todo o resto será subordinado à sua busca. O menino, que 
antes existia ao lado de outras coisas,adquire um estatuto 
ontológico superior. E com ele, o mundo, que antes era algo 
previsto, um cenário para nossas ações, agora se torna algo 
que o esconde, um espaço desconhecido em que buscá-lo. Mas 
não sabemos onde. O mundo tornou-se ameaçador e está lá, 
terrível e real. A nossa busca tem um caráter desesperado, 
porque temos de arrancar o menino da potência do negativo. E 
é desesperada também porque a nossa vida já se tornou um 
meio. O objeto que procuramos tornou-se mais importante que 
nós. 
O que se desvenda na situação da perda é vivido como 
preexistente. É naquele momento que me dou conta de que o 
menino já me era essencial antes, que já o amava antes. E, 
portanto, revelação de algo que já era essencial em 
precedência, mas não estava presente ou consciente. Revela-
nos o que já deveríamos saber e que tínhamos esquecido. 
Nesse ponto é preciso fazer um esforço de imaginação. 
Pensemos na mãe antes que ela dê à luz o seu filho. Já o 
espera, já o deseja. Porém, ainda não o tem. Poderia não 
nascer, não ser. Se nascer, será porque ela o quis, arrebatou-o 
das forças negativas. Antes mesmo de seu nascimento, a mãe já 
salvou o filho inúmeras vezes do nada, querendo-o. Depois de 
nascido, o processo se repete à noite, quando olha para ele, 
ansiosa, e teme que não esteja respirando. Ou quando está com 
febre, passa mal e chora. Também nesses momentos ela luta 
contra a potência do negativo, colocando o filho como fim 
último, objeto estável e total de amor. Em outras palavras, o 
objeto que é reconhecido na perda como objeto de amor 
constituiu-se exatamente através do processo de perda. 
 133  
Amamos de maneira estável aquilo que subtraímos da perda 
colocando-o como fim último. 
Esse mecanismo é extremamente importante, embora não 
seja, em geral, reconhecido. A psicologia behaviorista acredita 
apenas no reforço provocado pelo prazer-desprazer. A 
psicanálise mantém uma atitude de desconfiança em relação ao 
mecanismo da perda porque vê nela um estado patológico. Na 
nossa perspectiva, pelo contrário, a ânsia não é patológica. É a 
reação vital de um organismo inteligente. É a modalidade com 
que nos colocamos fins últimos e, dessa forma, conhecemos o 
que realmente tem valor para nós. Somente aquilo que foi 
desejado desesperadamente, inúmeras vezes, torna-se um 
objeto de amor estável. Ele não é apenas o resultado de sua 
capacidade de nos dar prazer, mas da nossa vontade e da nossa 
paixão. 
 
2. Tendo bem claro esse conceito em mente, voltemos 
agora às duas formas, feminina e masculina, do erotismo. De 
um lado, o desejo de continuidade, de proximidade, de 
intimidade, a necessidade de sentir-se continuamente 
procurada, amada, desejada. O prazer de estar abraçados, de 
viver juntos, de respirar o mesmo ar. Do outro, o descontínuo, 
que necessita de intervalos de tempo, de variedade. Que 
prefere imaginar-se não vinculado ao amor, livre para escolher 
os laços apenas feitos. O que acontece se uma pessoa do 
primeiro tipo encontra uma do segundo? Viverá a interrupção, 
a separação como perda, como ameaça de perda. Não é preciso 
imaginar que a pessoa esteja enamorada. Basta sua forma 
específica de desejo. Após o longo abraço sensual, após o 
delírio e o êxtase, o outro se levanta, se afasta. Isso já é o 
suficiente para provocar um sentimento de perda e a 
subsequente pergunta: “Devo retê-lo? Merece que eu o 
prenda?” Não há nenhum elemento para decidir. A mulher pode 
fazer o que quer. Mas, se decide pelo sim, por prendê-lo, então, 
ainda que por um instante, deve colocá-lo diante de si mesma 
como absolutamente desejável. 
Não se trata de enamoramento; o tipo de ligação criado 
com o mecanismo da perda é extremamente mais frágil. Isso 
todas as mulheres o sabem por intuição. Como a sua vida 
 134  
erótica está mais fundamentada nos mecanismos de perda 
(reagir por ciúme, provocar ciúme, etc.), desconfiam de sua 
eficácia no tempo. Porém, geralmente não conseguem subtrair-
se. Quando querem possuir um homem, estão dispostas a 
arriscar, a levar em conta a alternativa. Ou me ama ou não me 
ama; ou eu ou a outra. Produzindo a crise da perda, colocam-se 
na condição de desejar desesperadamente o homem, olham 
para ele como se fosse a última vez. Sentem um amor que se 
alimenta exatamente da gravidade e irreparabilidade da 
escolha. Mas, principalmente, desencadeiam no homem um 
idêntico processo, que, colocado diante da catástrofe da perda, 
descobre o valor do que está escapando e sente renascer um 
amor que acreditava terminado. Assim, atira-se nos braços da 
mulher, julga-se enamorado, decide viver com ela. Mas isso não 
é verdade. É o caso do marido cansado do casamento, que 
sonha com sua liberdade ou tem uma amante. Fantasia que sua 
mulher vá embora, aliás, sente que não a suporta mais. No 
entanto, no dia em que ela decide deixá-lo, percebe que na 
realidade era somente ela que lhe interessava, que a amava, 
que “ainda estava enamorado”. 
O mecanismo da perda age também espontaneamente 
quando o outro parte de fato. O exemplo mais típico é o da 
mulher que descobre amar o marido somente quando este lhe 
diz estar apaixonado por outra. Então, de repente, ele volta a 
ser a coisa mais importante, o centro de sua vida. E ela luta 
desesperadamente para não perdê-lo. É esse mecanismo que na 
maior parte das vezes mantém unidos marido e mulher pelo 
resto da vida. O enamoramento não tem nada a ver com isso. 
Esse cimento emocional é muitas vezes confundido com o 
hábito. Na realidade, na espécie humana, o hábito, isto é, o 
puro condicionamento, não é uma força que une. Além do 
condicionamento, há o temor da perda, o esforço para segurar 
o objeto que se torna dessa forma objeto de desejo. 
O mecanismo da perda está na base de muitos divórcios 
seguidos de um novo casamento. Diante da perspectiva de 
perder a amante, o sujeito tem a impressão de estar 
irremediavelmente apaixonado. Então rompe com o passado, 
divorcia-se e casa com a pessoa pela qual se “enamorou”. Mas é 
uma ilusão, não se trata de enamoramento. Após alguns meses 
 135  
de vida em comum, ambos descobrem, com horror, que nada 
têm em comum. A fusão do enamoramento não aconteceu, 
jamais acontecerá. Unidos, verão aumentar dia a dia a 
estranheza que sentem um pelo outro. 
 
3. O temor da perda, ao contrário do que se pensa comu- 
mente, não revela um sentimento preexistente, mas faz surgir 
um sentimento novo. Seu aparecimento, pode ser tão repentino 
e tão intenso, que é capaz de dar a impressão de um 
verdadeiro enamoramento. Há, como no enamoramento, a 
experiência de ver as coisas com olhos totalmente novos, de 
saber com certeza o que vale a pena sem o perigo de confundi-
lo com o que não vale. Porém, se observarmos atentamente, 
poderemos perceber que na perda o investimento da libido é 
sempre constituído pouco a pouco, através de crises 
sucessivas, atos sucessivos de desapropriação. A mulher 
percebe que o homem lhe interessa somente quando ele se 
afasta, quando olha para outra, quando o espera e ele se atrasa. 
O desejo aparece sob forma de ciúme, uma mordida de ciúme 
que depois desaparece, mas que deixa marcas. 
Também os homens sentem ciúme, mas acreditam não 
senti-lo. Em suas fantasias eróticas não necessitam dele, ao 
contrário das fantasias eróticas femininas em que ele está 
quase sempre presente. No romance cor-de-rosa, desde o início 
aparece a rival sedutora, sem preconceitos, temível. E o 
relacionamento entre as duas mulheres é de ciúme recíproco. 
Nessas fantasias femininas o ciúme desempenha o papel de 
estratagema crucial da sedução. A rival o usa, a mocinha 
também, com relação ao homem desejado. E o homem utiliza-o 
com as duas, O ciúme é um dispositivo essencial do desejo. 
Nesses romances, junto com o ciúme existe o mecanismo 
do abandono. Às vezes a mulher o faz premeditadamente “para 
enciumar”, mas na maior partedas vezes é um ato impulsivo, 
uma explosão de ira, uma crise em que as ideias ficam 
confusas e as palavras faltam. O resultado é uma ruptura que 
ela julga definitiva, irreparável, mas que possui — 
profundamente — o poder de aumentar o desejo. A descoberta 
do amor acontece assim, de crise em crise, com uniões e 
separações seguidas de novas aproximações, cada vez mais 
 136  
intensas, até a apoteose final, em que as dúvidas deixam de 
existir, substituídas pela certeza e a continuidade. 
Examinadas superficialmente, essas vicissitudes podem ser 
tomadas como típicas do enamoramento. Na verdade, no 
romance cor-de-rosa o amor nunca é revelado de improviso, 
não existe o amor recíproco à primeira vista. Nem ela nem ele 
são impelidos, contra a vontade, a olhar-se, a procurar-se. Não 
cometem loucuras. Não correm a noite inteira num carro para 
estarem, na manhã seguinte, diante da casa do amado. Não se 
embriagam, não gritam, não choram. Não escrevem poesias, 
não falam a linguagem dos mitos, não desejam que o tempo se 
acabe e o instante se torne eterno, como acontece com os 
enamorados na vida real. A revelação do enamoramento é como 
um clarão ofuscante que dobra a vontade e enche o coração de 
uma alegria infinita. Mesmo que não saiba como seu amor irá 
terminar, o enamorado é feliz. Não quer renunciar a esse 
estado extraordinário e divino. Mesmo chorando, mesmo não 
sabendo mais quem é e onde está. 
 
21 
 
1. A simples ausência não produz ciúme
92
. Aliás, em ambos 
os sexos é extremamente importante o antegozo do encontro. 
Não a incerteza, a dúvida, mas o antegozo de tudo o que 
acontecerá com relativa certeza. É uma excitação feita de 
fantasias. É mesmo o caso de perguntar-se se estas não são, 
definitivamente, mais agradáveis que o próprio encontro. A 
vida erótica pode ser constituída amplamente de fantasias 
agradáveis. Antes do encontro. Às vezes, até por dias, semanas, 
meses. E após o encontro. Em certos casos, até logo depois 
dele, a noite ou a manhã seguinte. Revivê-lo e sentir prazer. 
Não há nenhuma outra experiência que sirva tanto a um 
antegozo desse tipo. Nem o sucesso ou o triunfo. Porque aqui a 
espera não pode ter o mesmo grau de certeza do encontro 
erótico. E principalmente depois que o sucesso é saboreado, 
enquanto o erotismo é saboreado com igual intensidade, 
mesmo antes. 
 
92
 Sobre esse assunto consulte Gordon Clanton, Lynn G. Smith: Gelosia, trad. ital., Roma, Savelli, 
1978. 
 137  
No homem, o antegozo pode produzir um estado de 
excitação sonhadora contínua, que só termina com o orgasmo. 
Na mulher, o encontro erótico tende a inserir-se numa tensão 
contínua, da qual a espera é um laço, um momento. O erótico é 
inseparável de sua preparação e do que se segue. 
A existência do antegozo explica o prazer da espera e da 
preparação. Já foi frisado várias vezes que as mulheres 
esperam. É, diz-se, uma consequência de sua posição inferior, 
subalterna. São obrigadas a esperar o marido, o amante infiel, 
o homem que marca a hora do encontro, de acordo com suas 
conveniências. Por outro lado, a mulher se prepara. E uma 
preparação incrivelmente mais longa que a do homem, na 
escolha do vestido, da maquiagem. Às vezes, essa longa 
preparação é inútil, o homem não compreende. Daí o 
sentimento de frustração, de desapontamento. Mas quando se 
sente desejada, quando imagina que também ele esteja ansioso 
pela espera, preparar-se é excitante, emocionante. É um ato 
erótico, faz parte integrante do encontro erótico, e a mulher 
sabe extrair dele todo o prazer. 
 
2. Se uma pessoa amada parte, emigra ou morre, sentimos 
dolorosamente a sua falta, pensamos o tempo todo nela, deses- 
peramo-nos, choramos, mas isso não é ciúme. Para que o ciúme 
exista é necessária a presença de uma terceira pessoa, é 
preciso que haja a preferência, ainda que momentânea, do 
nosso amado por essa pessoa. 
O amor erótico é sempre uma eleição. É a escolha de nós 
como indivíduos, como criaturas únicas em meio à massa 
anônima dos outros. Também nos animais, o “namoro” é uma 
escolha, uma preferência, embora momentânea. A própria 
prostituta, ainda que se dê a todos, quando se dedica a um 
cliente lhe dá a impressão de estar interessada apenas nele. A 
necessidade de sermos escolhidos, preferidos, de sermos 
objetos de toda a atenção, ainda que seja por pouco tempo, não 
é típica do amor erótico. Nós a exigimos do médico, do 
advogado, do empregado que está atrás do balcão ou do 
guichê, do massagista ou do professor de ginástica. No amor 
erótico, além disso, queremos que esse interesse não seja 
profissional, não seja consequência de um dever. Mas nasça de 
 138  
uma escolha pessoal feita livremente, sem levar em 
consideração obrigações pessoais com relação a nós mesmos. 
Existe no mais profundo do ser humano, talvez em todos 
os seres, a necessidade de ser preferido. Percebe-se isso no 
ciúme tanto entre animais quanto em crianças. O filho mais 
velho aceita, revoltado, que a mãe cuide dos irmãozinhos 
menores, que os encha de mimos. Por isso é sempre preciso 
que de quando em quanto a mãe lhe dê atenção 
exclusivamente, tratando-o, por um momento, “como se” fosse 
filho único, dando-lhe a impressão de que ele é tão essencial a 
ela como ela o é para ele. Cada filho, no mais profundo do 
coração, acredita ou espera ser o predileto. Por outro lado, 
cada mãe ama de forma total cada filho, e cada um deles é 
igualmente importante para ela. Em cada um ama uma entidade 
individual específica, absolutamente única, inconfundível. Não 
existe, porém, simetria, porque a mãe necessita de todos os 
filhos, enquanto cada um deles necessita dela e poderia 
dispensar os outros. O ciúme infantil apresenta-se como 
agressividade contra os irmãos para expulsá-los, destruí-los. É 
um comportamento semelhante ao do animal que defende seu 
território. Dizemos, nesses casos, que o filho é “ciumento”, 
mas o ciúme não se dirige ao objeto de amor, e sim ao rival. O 
filho sente ciúmes dos irmãos, do pai. Não sente ciúmes da 
mãe. 
O ciúme faz seu aparecimento na vida como uma 
competição com outro para apossar-se do amor de alguém de 
modo exclusivo ou para não perder sua exclusividade. Estamos, 
portanto, no âmbito da situação de perda. O objeto de amor é 
subtraído de uma forma ameaçadora, que, no entanto, não é 
anônima, impessoal, mas pessoal. Por outro lado, o amor, o 
interesse não são coisas que se possam obter sem o consenso. 
O rival constitui uma ameaça somente se o nosso amado o 
aceita. A ameaça vem do exterior, sim, mas também da pessoa 
amada. No ciúme tememos que ela prefira o outro a nós. Não 
devemos apenas defender o nosso objeto de amor da força do 
negativo, porque ele próprio é cúmplice dessa força, é ele 
próprio essa força no momento em que escolhe o outro e não 
nos quer, subtrai-se ao nosso amor. No ciúme, portanto, a 
agressividade se dirige também contra a pessoa amada. Por 
isso dizemos que sentimos ciúme de quem amamos. 
 139  
O ciúme do rival (isto é, a agressividade com o rival) é a 
forma mais simples, mais primordial de ciúme. O ciúme da 
pessoa amada aparece mais tarde, quando queremos ser 
amados livremente, preferidos livremente. O ciúme, então, se 
torna ambivalência. O sofrimento do ciúme é o sofrimento 
típico da ambivalência. 
 
3. No enamoramento bilateral e profundo há pouco espaço 
para o ciúme, porque há pouco espaço para a ambivalência. O 
enamoramento está baseado numa espécie de cisão da 
experiência. De um lado, o existente, as coisas como elas são, 
banais ou mesquinhas; do outro, o nosso amor, claro, perfeito. 
O ciúme não pode infiltrar-se nessa perfeição
93
. Se aparece, é 
como um pesadelo, porque nos empurra para o mundo 
cotidiano, frio e sem esperança. 
Quando estamos profundamente enamorados, estamos 
convencidos também de que a outra pessoa é levada a nos 
amarporque assim é a sua natureza. Mesmo que negue, 
continuamos a acreditar que, se ela se conhecesse 
verdadeiramente, se seguisse sua profunda vocação, então não 
poderia deixar de nos amar. Se olha para outro, se nos diz que 
não nos ama, na realidade engana a si mesma e, mesmo sem o 
saber, condena-se. 
Necessitamos continuamente de reconhecimentos para 
alimentar a nossa auto-estima. Por isso necessitamos 
absolutamente do reconhecimento de quem amamos, de quem 
tem valor. O ciúme é uma desvalorização de si próprio. No 
enamoramento, porém, embora tendo absoluta necessidade do 
amado, estamos convencidos de ter intuído sua afinidade 
conosco. Por isso, se ele não nos quer ficamos desesperados, 
mas não destruídos moralmente. Porque sabemos que está 
enganado, que não sabe o que faz. Deixando-nos, condena a si 
mesmo, cava a própria ruína. 
 
93
 As pesquisas empíricas nesse campo não são convincentes, pois identificam enamoramento e 
amor romântico, enamoramento e dependência. De qualquer modo, Ellen Berscheid e Jack Frei 
observaram empiricamente que “aqueles que vivem com plenitude um tempo de amor parecem 
experimentar um forte sentimento de dependência sem necessariamente sofrerem forte 
insegurança. Ver “L’amore romântico e la gelosia sessuale”, em Gordon Clanton, Lynn G. Smith: 
Gelosia. 
 140  
O ciúme, no enamoramento, só aparece quando essa 
certeza entra em crise, isto é, quando perdemos a confiança de 
compreender o outro e nós mesmos, quando despencamos da 
região dourada do amor radiante para o inferno da 
contingência, regido por outras leis e onde não existe mais 
uma ordem de justiça. 
No livro Lolita, de Nabokov, o protagonista ama Lolita 
desesperadamente, um amor sem retribuição porque ela é uma 
menina, gosta de revistinhas, de filmes, de outros rapazinhos. 
Nesse amor desesperado sente um ciúme louco, teme que todos 
possam levá-la. Até que acontece justamente o que temia, na 
pessoa de um comediante hollywoodiano, sujeito dissoluto, 
cercado por um verdadeiro harém. Contudo, também nesse 
caso, ele continua a pensar que Lolita tenha sido levada por um 
engano, por não saber o que estava fazendo. Matando o artista, 
o protagonista julga estar cometendo um ato de justiça, afirma 
as razões do amor autêntico contra a paixão e a cegueira 
despertadas por uma personalidade famosa. 
 
4. Comumente o ciúme é confundido com a inveja. No 
entanto, a estrutura elementar da inveja é bem diferente. O 
autor que talvez melhor tenha compreendido a inveja foi René 
Girard
94
. Girard observa que o ser humano é mimético, isto é, 
coloca-se no lugar do outro e deseja o que o outro deseja. As 
crianças, segundo esse autor, aprendem o que é desejável 
através da identificação com os pais e com as outras crianças 
de sua idade. O desejo somente aparece quando há uma outra 
pessoa que deseja alguma coisa. No célebre livro de Mark 
Twain, Tom Sawyer tem de pintar uma paliçada. Um 
companheiro passa por ali e põe-se a zombar dele. Mas Tom 
reage fingindo que o trabalho é divertidíssimo. Imediatamente 
o outro deseja pintar também. Tom concorda, mas faz com que 
o amigo lhe pague por isso. Um a um, todos os rapazes da 
cidade o enchem de presentes para que possam também 
experimentar o trabalho. 
 
 
94
 René Girard, Mensonge romantique et verité romanesque, Paris, Grasset, 1962. La violenza e il 
sacro, trad. ital., Milão, Adelphi, 1972. 
 141  
Aplicando esse mecanismo à situação erótica, Girard 
explica o complexo de Édipo da seguinte maneira: o filho 
identifica-se com o pai, mas como este quer ter a mãe para si, 
ele quer a mesma coisa. Não é preciso nenhuma frustração para 
explicar o conflito. O pai mais terno e carinhoso gera fora de si 
um outro si mesmo que quer exatamente as mesmas coisas que 
ele, sendo assim condenado a entrar em contato consigo 
próprio. 
A inveja mimética é tanto mais forte quanto maior for a 
identificação. O ciúme, segundo Girard, nada mais é que uma 
forma de inveja. Temos ciúme da pessoa que amamos porque 
para amá-la necessitamos que seja possuída por outra. 
Necessitamos que exista outra que a queira, que a possua. 
Somente assim se põe em movimento o nosso desejo, 
invejando o outro. Como consequência, temos de lutar contra 
ele, procurar destruí-lo. Porém, no exato momento em que o 
adversário desaparece ou desaparece o seu desejo, o nosso 
também se esvai, porque era apenas um reflexo do outro. 
Os mecanismos da inveja mimética não têm a importância 
que Girard lhes dá, mas desempenham um papel considerável 
nos relacionamentos eróticos. Certamente não podem explicar 
o enamoramento, mas elucidam algumas paixões eróticas 
violentas em situações competitivas. Explica por que nos 
agarramos e desejamos loucamente uma pessoa quando esta 
nos troca por outra. Nesse caso, não é somente a perda que 
intensifica o nosso desejo, mas a identificação com o outro, o 
desejo do outro que age em nós. 
 
5. Nem sempre os mecanismos miméticos provocam o 
aparecimento do ciúme, às vezes fazem com que ele 
desapareça. Com certeza existem homens que se excitam 
somente à ideia de sua mulher ser possuída por outro. No livro 
Um amor, de Dino Buzzati, o protagonista se enamora de uma 
prostituta, e seu desejo por ela aumenta desvairadamente à 
medida que ela se relaciona com outros homens. Quando afinal 
a mulher espera um filho e fica somente com ele, seu amor 
acaba. Existe um número enorme de casos de homens que 
praticam a troca de casais, não tanto para ter relações com uma 
outra mulher, mas porque ficam excitados quando sua mulher 
 142  
se relaciona com um terceiro
95
. Com muita frequência, durante 
o ato sexual o homem cria fantasias em que se identifica com 
outro qualquer. Muitas vezes com um ex-amante da mulher ou 
outro de quem ela lhe tenha falado. Ele imagina vê-los 
enquanto fazem amor e depois, insensivelmente, toma o lugar 
do homem. Isso acontece tanto com mulheres indiferentes 
como com a mulher por quem está enamorado. 
Pode-se com certeza adiantar a hipótese de que o ciúme 
aparece somente quando essa substituição não pode acontecer, 
isto é, quando na realidade o rival não pode ser expulso, mas é 
ele que prevalece. 
Esses comportamentos e fantasias são mais frequentes nos 
homens que nas mulheres. Provavelmente porque para eles o 
relacionamento sexual tenha uma carga menor de significado 
amoroso. A mulher não se excita imaginando seu homem a 
fazer amor com outra mulher, porque atribui ao sexo um 
interesse amoroso que faz detonar o alarme do ciúme. “Se faz 
amor assim”, pensa ela, “é porque não me ama, mas a ela. Não 
me quer, mas a ela.” Também a troca de casais geralmente é 
feita por iniciativa masculina
96
. As mulheres adaptam-se a ela, 
mas têm de ser convencidas, pois, na maioria das vezes, não 
sentem prazer vendo seu homem fazer amor com outra mulher, 
mesmo que depois venham a ser desejadas intensamente. 
 
6. Existem pessoas cujo erotismo se alimenta do ciúme. O 
fato de imaginar o amante ou a amante nos braços de outra ou 
outro os faz sofrer, mas, ao mesmo tempo, aumenta seu desejo 
e prazer. Existe um segundo tipo de pessoas que, ao contrário, 
coexistem com seu ciúme. São ciumentas, sofrem, mas 
conseguem suportar o sofrimento. Lamentam-se, brigam, 
porém o interesse pelo seu objeto de amor permanece. 
Existem, finalmente, as que não suportam o ciúme de maneira 
alguma e que, quando são atingidas por ele, pensam logo em 
abandonar quem as faz sofrer, e o fazem com a mais absoluta 
determinação. 
 
95
 Renata Pisù: Maschio è brutto, Milão, Bompiani, 1976. 
96
 Ver Brian G. Gilmartin: "La gelosia fra gli swingers”; em Gordon Clanton, Lynn G. Smith: 
Gelosia, já citado. 
 143  
As pessoas consideradas ciumentas não pertencem jamais 
a esse último tipo (na realidade, ciumentíssimo), mas ao 
segundo. Abandonam-seao ciúme, lutam com ele, desesperam-
se, porém, de uma forma ou outra, o suportam. Os outros, ao 
contrário, não parecem ciumentos porque cortam pela raiz 
qualquer relacionamento que possa fazer nascer neles esse 
sentimento. Ao conhecerem uma nova pessoa, avaliam em 
primeiro lugar, com extrema precisão, a sua credibilidade, 
baseando-se na história de sua vida, nos detalhes de 
comportamento, mesmo insignificantes, confrontando as 
versões do mesmo fato ocorridas em momentos diversos. Essa 
avaliação é, em geral, definitiva. Está armazenada em seu 
inconsciente e reaparece sob a forma de certeza absoluta 
quando acontece algo. Então, sem hesitar, cortam as relações 
porque, na verdade, jamais haviam acreditado em sua 
possibilidade de continuar. No caso de ser um amor à primeira 
vista, são ciumentíssimos no princípio, até terem elaborado a 
sua avaliação, após o que ou interrompem o relacionamento ou 
o continuam, confiantes, sem a menor sombra de ciúme, 
porque sabem que não precisam temer nada. 
 
7. Na mulher o ciúme está ligado ao desejo do homem. 
Enquanto percebe que o desejo dele é intenso, exclusivo, não é 
ciumenta, pode ter apenas suspeitas. Pode pensar que o 
homem tenha até uma aventura sem maiores consequências. 
Mas quando intui, pelos gestos, pelo calor do abraço, pela 
intensidade do ato erótico, que o desejo não é o mesmo, então 
começa, em silêncio, a ser ciumenta. No íntimo, a mulher 
imagina que o homem tenha um desejo erótico constante, 
imutável. Ao sentir que esse desejo diminui, então, 
instintivamente, pensa que ele se dirigiu para outro objeto, que 
outra mulher entrou em cena. 
No imaginário feminino, o desejo do homem é como uma 
corda estendida sobre a qual caminham juntos. Basta que a 
tensão da corda afrouxe, mesmo que por breves instantes, e ela 
se sente em perigo, é tomada pelo pânico. Instintivamente 
reage, faz-se mais bonita, volta a ser gentil, sedutora. Se o 
perigo real aumenta, se o homem se afasta, seu ciúme, que é 
capaz de precipitar ambos no abismo, torna-se uma força, uma 
 144  
energia terrível. Nessa situação a mulher é capaz de lutar com 
selvageria. Está disposta a tudo, solta os freios de seu 
erotismo, sem pudor, renuncia até mesmo à sua dignidade. 
Tudo a fim de manter unida aquela corda tensa, agora já 
reduzida a um fio. Depois, ultrapassado determinado ponto, 
põem-se a funcionar dentro de si mecanismos mais profundos, 
destrutivos e autodes- trutivos, o desejo de vingança, até o 
cansaço, a renúncia. Então, em silêncio, bate em retirada, 
procura pôr-se a salvo e, lentamente, deixa escorregar a corda 
no abismo. 
 
22 
 
1. Para compreender o que é o enamoramento, temos de 
pensar nos processos criativos. Arthur Koestler em seu livro O 
ato da criação, escreve: “Quando a vida nos propõe um 
problema, nós o atacamos de acordo com um código de regras 
que no passado nos tornou possível resolver problemas 
análogos... Mas a novidade pode chegar a tal ponto, a tal nível 
de complexidade, que torna impossível a solução com as regras 
do jogo aplicadas às situações passadas. Quando isso acontece, 
dizemos que a situação está bloqueada... A situação bloqueada 
aumenta a tensão de um desejo frustrado... Uma vez exauridas 
todas as tentativas de resolver o problema com os métodos 
tradicionais, o pensamento gira em vão na matriz bloqueada 
como um ratinho na gaiola. Após o que a matriz parece 
romper-se em “pedaços, aparecendo então provas feitas ao 
acaso, acompanhadas de momentos de nervosismo e ataques 
de desespero... Até que o acaso, ou a intuição, fornecem uma 
ligação com uma matriz completamente diversa, e as duas 
matrizes se fundem numa só... O ato criativo... mistura, 
combina, sintetiza fatos, ideias, capacidades, técnicas já 
existentes”
97
. 
O enamoramento é algo que acontece no indivíduo, é uma 
mudança de estado do indivíduo. O objeto amado pode não 
entrar em nada, não saber absolutamente nada do que está 
 
97
 Arthur Koestler: L’atto della creazione, trad. ital., Roma, Ebaldini, 1975. 
 145  
acontecendo. No enamoramento, a reciprocidade, no início, não 
existe e pode continuar a não existir depois. Podemos 
permanecer enamorados de uma pessoa que jamais nos 
dedicou um olhar. 
O enamoramento é a solução individual de um problema 
vital insolúvel. É a resposta criativa do indivíduo quando já 
faliu qualquer outra solução costumeira, tradicional. Devemos, 
portanto, duvidar daqueles que seguem uma ordem imutável. 
Primeiro briga, depois divorcia-se e depois, logo depois, 
enamora-se. Esse é um esquema social, uma regra. O 
enamoramento não é um fato criativo; uma vez subvertidas as 
regras, encontra a solução onde não teria jamais procurado. É 
sempre inesperado, aparece por revelação. Exatamente como a 
solução de um problema insolúvel e obsediante
98
. 
Mas qual é o problema cuja solução é o enamoramento? Ele 
pode ser definido da seguinte maneira: nós, seres humanos, 
desde a infância temos necessidade de objetos absolutos e 
totais de amor. A mãe, Deus, a pátria, são entidades desse 
gênero. Existe em nós a tendência de unir-nos a algo que nos 
transcende totalmente. Dizem os psicanalistas que esse algo é 
a lembrança da experiência da vida no líquido amniótico. Os 
religiosos dizem que é o desejo de Deus. Os biólogos, que é o 
impulso da evolução. Não importa. É a tendência a transcender 
o existente e a buscar o paraíso, a terra prometida, Deus, o 
estado de graça beatificante. 
Todos os objetos concretos de amor, ao contrário, são 
limitados e com frequência tornam-se opressivos e frustrantes. 
Aliás, quanto mais importantes para nós, tanto maior a sua 
possibilidade de decepcionar-nos. Se algo pouco nos interessa, 
pouco mal pode nos causar. Se, ao contrário, é essencial para 
nós, até mesmo sua mínima desatenção nos magoa. Daí a 
ambivalência. Inevitavelmente acabamos por experimentar 
sentimentos agressivos para com a pessoa que mais amamos. A 
ambivalência é confusão, desordem. Procuramos diminuí-la 
idealizando nossos objetos de amor, tomando sobre nós a 
culpa do que acontece ou atribuindo-a a causas externas. O 
marido sente-se culpado se a mulher está triste. A mulher 
 
98
 Ver Francesco Alberoni: Enamoramento e amor, e o interessante livro de Dorotby Tennov: 
Love and limerence, já citado. 
 146  
procura justificar o mau humor do marido com o cansaço, o 
trabalho, as preocupações. Na psicanálise todos os mecanismos 
que nos fazem assumir a culpa do que não está bem no nosso 
objeto de amor são chamados depressivos. Todos aqueles por 
meio dos quais descarregamos a responsabilidade sobre 
qualquer causa externa são chamados persecutórios. 
Por isso mesmo, os nossos objetos de amor (marido, 
mulher, amante, filhos, partido, Igreja, enfim qualquer coisa 
com a qual nos identificamos e que amamos) são sempre uma 
construção ideal, o resultado de uma elaboração. São colocados 
num mito pessoal, continuamente reelaborado, remanejado 
para reduzir as tensões, para abaixar o nível de ambivalência. 
Mas esse trabalho contínuo de reparação, de ajustamento, de 
compromissos práticos e de revisões ideais em certos casos 
pode fracassar. Durante a vida nós mudamos, e então o que era 
bom passa a não ser mais. Novas experiências provocam o 
surgimento de novas necessidades. Após termos atingido uma 
meta, apresentam-se a nós todos os desejos a que tivemos de 
renunciar. E, num mundo em contínua transformação, 
modificam-se também as pessoas que amamos, tornam-se 
diferentes, querem outras coisas. Por esse motivo, as relações 
entre os casais se deterioram. Por isso as pessoas rompem com 
velhos amigos, divorciam-se, brigam com os filhos. Ou então 
continuam a fingir que tudo está como antes, enquanto na 
verdade tudo está profundamente mudado. Continuam a 
representar uma comédia onde não sabem mais o que é 
verdadeiroou o que é falso. Nem ao menos sabem o que 
querem. 
É essa a situação de desordem, de entropia, onde tanto os 
mecanismos depressivos como os persecutórios falham, não 
conseguem mais idealizar os objetos de amor. Com os 
mecanismos tradicionais, o problema é insolúvel. Estes estão 
com sobrecarga. Surge então um sentimento de desespero, de 
fracasso. Os impulsos vitais não sabem para onde endereçar-
se. Vagam ao acaso, procuram novos caminhos. O indivíduo 
sofre a experiência de uma grande potencialidade vital 
desperdiçada. Tem a impressão de que somente os outros são 
felizes. Ele os vê rir, divertir-se, e sente uma inveja que o 
consome. Como se seus desejos mais profundos não pudessem 
 147  
mais revelar-se diretamente a si mesmo. Percebe-os nos outros. 
No deserto da ambivalência e da desordem, sente no mundo 
desejos e paixões desmesurados, felicidades que lhe são 
proibidas. É assim que, geralmente, se encontram os 
adolescentes. Cheios de vida, mas incapazes de dar a essa vida 
seus objetos e objetivos. 
A solução desse problema é sempre uma redefinição de si 
mesmo e do mundo. Pode ser uma conversão religiosa. De 
repente dá-se conta de que todas as coisas que o faziam sofrer 
não valem nada, que os caminhos que seguia eram errados. Na 
nova seita, na nova Igreja, tudo se torna simples e claro. Ou 
então pode acontecer uma conversão política. 
Também aqui ele encontra o que é essencial e subordina o 
resto ao que realmente vale mais. Pode ser, enfim, o 
enamoramento. Então a sua meta última torna-se uma pessoa 
porque é através dela que entrevê tudo o que é desejável e a 
perfeição do seu ser. 
O momento em que o velho mundo desordenado e 
ambivalente perde o valor e aparece a nova solução é o 
momento do estado nascente. 
 
2. Para ilustrar em que consiste o estado nascente 
usaremos três figuras. Na primeira (na página seguinte) 
representamos o campo psíquico em condições de equilíbrio. S 
é o sujeito. Os sinais + indicam as cargas positivas (de amor) 
de que é investido, e os sinais —, as cargas negativas, isto é, a 
agressividade. Existe pois um importante objeto de amor A 
positivo. Do outro lado da figura, há um objeto persecutório B, 
completamente saturado de investimentos agressivos. Esta é a 
situação de equilíbrio porque continuamos a ter estima por nós 
mesmos, consideramos perfeitos os nossos objetos de amor e 
odiosos os nossos inimigos. 
Passemos agora à segunda figura. Nela está representada a 
situação de desordem, ou entropia. Há duas setas que indicam 
os mecanismos. A seta depressão mostra o mecanismo que pega 
a agressividade voltada para o objeto de amor e a traz para 
nós, transformando-a em sentimento de culpa. O outro 
mecanismo, que corresponde à seta projeção, projeta a 
 148  
agressividade no objeto persecutório. Os dois mecanismos já 
não conseguem controlar a ambivalência. Os objetos de amor 
são invadidos pela agressividade, e os persecutórios pelo 
erotismo. 
É isso a sobrecarga depressiva, a situação que precede o 
estado nascente. Este a elimina graças a uma solução criativa e 
extraordinária que consiste em recombinar os elementos do 
campo de uma maneira nova. Através dessa reestruturação 
surge um novo objeto de amor não ambivalente e com o qual o 
sujeito se sente fundido. O processo pode ser representado 
desta maneira: 
 
 
 149  
 
 
 
Como se vê, o novo objeto não ambivalente de amor des- 
taca-se como uma figura sobre o fundo dos outros objetos de 
amor do passado. Não os apaga, tira o seu valor, torna-os 
contingentes. 
A experiência específica do estado nascente é 
caracterizada por um desdobramento entre dois planos, dois 
níveis. Um é o da realidade, do dever ser, do prazer, do amor, 
da fusão. O outro é o da existência, pobre, contraditória, 
infeliz, da divisão. 
No estado nascente, o objeto absoluto de amor não é um 
objeto entre outros. A pessoa amada, portanto, não é uma 
pessoa qualquer investida de qualidades extraordinárias, 
sublimes. Ela é uma pessoa empírica, mas também, e 
contemporaneamente, o caminho para a perfeição, o absoluto. 
 
3. Até agora descrevemos o estado nascente como algo que 
acontece somente a uma pessoa. Essas três figuras representam 
o campo psíquico de um único indivíduo, daquele que se 
enamora. O outro, a pessoa amada, o objeto de amor, é amado 
independentemente de seu desejo, de sua resposta. Podemos 
agora compreender realmente o abismo que separa o processo 
de enamoramento daqueles descritos anteriormente e, 
principalmente, do primeiro. 
 150  
Como é possível, então, que, por sua vez, a pessoa amada 
nos ame? É preciso que um processo análogo ao descrito se 
realize também no outro e que os dois se reconheçam. O 
enamoramento recíproco ê o reconhecimento de duas pessoas 
que entram em estado nascente e que reestruturam o próprio 
campo a partir do outro. É preciso, portanto, que também o 
outro esteja numa condição de sobrecarga, de entropia, e possa 
entrar em estado nascente. Em geral, o processo de estado 
nascente se inicia num dos dois e o desencadeia no segundo, 
rompendo seu estado de equilíbrio instável. O estado nascente 
tem uma capacidade formidável de comunicar-se. É uma força 
de sedução extraordinária, que ataca seu objeto e o arrasta 
consigo. Escrevia Dante: “Amor ch’a nullo amato amar 
perdona”. 
O enamoramento recíproco, portanto, não é o 
reconhecimento de duas pessoas em condições normais, com 
suas qualidades definidas. Mas o reconhecimento de duas 
pessoas num estado extraordinário, o estado nascente. Duas 
pessoas que entrevêm, isto é, o fim da separação do sujeito do 
objeto, o êxtase absoluto, a perfeição. Elas são feitas, portanto, 
uma para a outra, de um lado criaturas de carne e osso, com 
nome, sobrenome, endereço, necessidades, fraquezas. Do 
outro, forças transcendentes através das quais passa a vida na 
sua inteireza. Pelo mesmo motivo são, ao mesmo tempo, 
vizinhas e infinitamente afastadas. Fundidas e separadas. 
Porque o amor existe em cada uma delas independente da 
existência empírica do outro. Cada um teve a revelação por 
conta própria. Cada um tem a pretensão de conhecer a essência 
do outro melhor do que ele próprio a conhece. Como diz Lou 
Salomè: “No fundo o amante não se interessa pela maneira 
como é amado... basta saber que o outro o faz milagrosamente 
feliz. De que modo, não o sabe. Os dois permanecem um 
mistério, um para o outro”
99
. Mas porque no estado nascente 
eles são, ao mesmo tempo, seres empíricos e transcendentes, 
algo que existe e algo que se torna, fragmentos da força 
criativa da vida. 
 
99
 Lou Andreas Salomè: La materia erotica, trad. ital., Roma, Editor i Riuniti, 1985. Sobre o não 
conhecimento da pessoa amada, ver Roland Barthes: Fragmentos de um discurso amoroso. Alain 
Finkielkraut: La sagesse de 1’amour, Paris, Gallimard, 1984. 
 151  
4. O enamoramento constitui um poderoso impulso para a 
fusão dos dois indivíduos, mas não é pura fusão. As 
personalidades empíricas, como já vimos, não desaparecem. 
Além do mais, os dois enamorados não se conhecem, nem ao 
menos sabem se estão verdadeiramente enamorados. Cada um 
deles não sabe, sobretudo, se o outro o ama. No enamoramento 
a reciprocidade deve ser averiguada. 
O enamoramento é um processo no qual cada um é 
obrigado a mudar e em que cada um resiste à mudança. Não se 
deve absolutamente confundir o enamoramento com o idílio. O 
idílio é um momento de harmonia, de paz, que se verifica no 
enamoramento, mas que jamais dura por longo tempo. Pelo 
mesmo motivo, o enamoramento não é um estado permanente 
de êxtase. Ele é também dúvida, busca e tormento. 
 
Neste livro não posso expor novamente, com detalhes, a 
passagem do estado nascente do amor, o enamoramento, ao 
amor estável entre duas pessoas que aprenderam a conhecer-
se, a respeitar-se, a viver juntas. Isto é, à instituição.Peço ao 
leitor que leia o que escrevi em Enamoramento e amor. Posso 
apenas colocá-lo em guarda contra a identificação do 
enamoramento com o mito do amor romântico
100
 propagado 
pela cultura americana contemporânea. O amor romântico é 
descrito como um estado de contínua felicidade sem conflitos, 
uma espécie de fusão místico-amorosa monogâmica. A cultura 
de massa, e particularmente o cinema de Hollywood, satisfez 
com esse mito as fantasias femininas de fusão total e contínua 
com o amado. A mulher deseja o tempo erótico contínuo, 
difuso. Na realidade, porém, também ela apresenta uma 
fortíssima resistência a tornar-se como o homem a quer. 
Também a mulher, no enamoramento, luta para afirmar os 
desejos, as fantasias, as esperanças que alimentou no decurso 
de sua vida. E não há motivo algum para estas coincidirem com 
as do homem amado. As duas vontades podem não coincidir no 
 
100
 A literatura psicológica sobre o amor romântico nos Estados Unidos está exterminada. Para 
uma atualização até 1969, ver Rubin Isaac Michael: The social psychology of romantic love, 
University Microfilm International, Ann Arbor, Michigan, EUA. Recentemente algumas feministas 
atacaram violentamente o estado amoroso justamente como reação à idealização que dele havia 
sido feita. Ver, por exemplo, Penelope Russianoff: Why do I think I am nothing without a man?, 
Nova York, Bantam Books, 1982. Sonya Friedman: O homem é a sobremesa, já editado no Brasil. 
 152  
que chamei de pontos de não-retorno
101
. A imagem de uma 
mulher que ama totalmente, incondicionalmente, que é toda 
sensualidade, maravilha amorosa total, faz parte da 
idealização. 
 
23 
 
1. Como perceber que aquilo que sentimos é um 
enamoramento verdadeiro ou uma paixão passageira? Como 
perceber que o nosso desejo não é devido ao temor da perda? 
Que características possui, enfim, o erotismo do 
enamoramento, com relação às muitas outras formas de 
erotismo que descrevemos? 
No capítulo precedente dissemos que o enamoramento 
constitui a solução de uma solução bloqueada, a sobrecarga 
depressiva. Esta palavra pode suscitar ambiguidades. A 
expressão “depressiva” dá uma ideia de tristeza, depressão. 
Mas não é assim. Sobrecarga depressiva significa que os 
mecanismos depressivos não funcionam mais, estão, por isso 
mesmo, em sobrecarga. O enamoramento nasce de um grande 
impulso vital que não consegue realizar-se na situação dada e 
recusa a depressão. A recusa quando nós estamos mudados, 
enquanto o nosso ambiente permaneceu o mesmo. Então as 
nossas potencialidades vitais tendem a rebelar-se. 
Conscientemente procuramos conservar os nossos velhos 
relacionamentos, os nossos velhos objetos de amor, atribuímo-
nos a responsabilidade do mal- estar que sentimos e que 
provocamos nos outros, até que não encontramos uma nova 
solução global. O enamoramento é uma dessas soluções. É 
portanto mais fácil nos enamorar quando estamos tendo 
sucesso, porque se abrem diante de nós novos caminhos. Mas 
podemos nos enamorar também quando sentimos possuir uma 
energia criativa que os outros não reconhecem. Ou então 
quando vamos trabalhar no exterior. Nesse caso, enamorando-
nos de uma pessoa no novo país, conseguimos integrar-nos 
nele com mais facilidade, desligando-nos do nosso passado. 
 
101
 Francesco Alberoni: Enamoramento e amor, já citado. 
 153  
Tudo isso, porém, não é um ato voluntário. Ninguém se 
enamora voluntariamente. É um processo inconsciente. Quando 
estamos para nos enamorar, não o percebemos. Sentimos uma 
grande energia vital dentro de nós, mas, ao mesmo tempo, um 
sentimento de desconforto, de impotência. Não percebemos o 
desejo em nós mesmos, vemo-lo nos outros. Damo-nos conta 
de que o mundo está cheio de gente viva, feliz, e sentimos 
inveja. Queremos ser como essa gente e não o somos, 
queremos ser felizes e não o somos. Tudo isso acontece porque 
estamos lutando contra os nossos desejos profundos e estamos 
à procura do que possa satisfazê-los. Ao contrário do que é 
sustentado por Proust e por Girard, a inveja não é a causa do 
enamoramento, mas um sintoma
102
. 
Um outro sintoma é o aparecimento angustiante do desejo 
não sabemos de quê, ou a esperança de encontrar alguém por 
quem sempre esperamos e não sabemos quem é. As vezes 
entrando num trem, outras vezes caminhando pela rua, 
entrando num local cheio de gente, por uma infinitésima fração 
de tempo temos a impressão ou a esperança de que ali há 
alguém para nós. Geralmente nas fases que precedem o 
enamoramento, os sonhos são carregados de evocações e de 
presságios. E mesmo na vida cotidiana temos a impressão de 
que estão acontecendo coincidências insólitas, misteriosas. Por 
vezes, as nossas crenças mais sólidas parecem-nos sem sentido 
e nos sentimos próximos à rebeldia. Experimentamos uma 
súbita atração por quem arriscou a vida por um ideal ou por 
um valor. Às vezes, basta uma música para nos comover, nos 
fazer chorar. O choro, no homem, ê quase sempre o sintoma 
seguro de um amor que nasce. 
 
2. Antes de nos enamorar da pessoa definitiva, fazemos 
muitas tentativas de enamoramento, muitas explorações. O 
estado nascente se inflama por um átimo, inicia uma 
reestruturação do campo. Mas a hora não é essa, a pessoa não é 
a adequada. Essas explorações se apresentam como paixões 
repentinas, até mesmo muito intensas. Algumas pessoas 
permanecem nesse estado por muito tempo, e então dizem que 
 
102
 René Girard: Mensonge romantique et verité romanesque , já citado. 
 154  
se enamoraram como uma continuação. Ou então têm a 
impressão de estar enamoradas, ao mesmo tempo, de diversas 
pessoas. Na verdade, o enamoramento ainda não existe. 
Quando aparece, o relacionamento com a pessoa torna-se 
exclusivo, total. A imagem amada, se for expulsa, retorna, 
impõe-se. E, ao mesmo tempo, manifestam-se todas as outras 
características inconfundíveis do estado nascente. 
Acima de tudo, um espanto, porque o mundo habitual se 
torna estranho. Às vezes, é uma experiência de alegria, de. 
liberação, um grito de revolta. Outras vezes, é quase um 
sentimento de tristeza, porque as coisas a que estávamos tão 
ligados nos parecem sem nenhum valor, frágeis, contingentes. 
O estado nascente é uma morte-renascimento, deixando-nos, 
assim, terrivelmente próximos da morte. O fato de a literatura 
amorosa falar com tanta frequência de morte não é uma 
brincadeira macabra ou um sinal de neurose, mas o sintoma de 
que no enamoramento o significado da vida é posto em 
discussão. Nós nos fazemos verdadeiramente a pergunta 
metafísica: quem somos? por que estamos aqui? que valor tem 
a nossa vida? Nossa existência não nos aparece mais como algo 
natural, que é assim porque assim é o mundo. Mas como uma 
aventura em que fomos envolvidos e que podemos escolher ou 
recusar. O nosso passado volta-nos à mente e de tudo fazemos 
um julgamento. O estado nascente é também o dia do juízo e 
de sua condenação; na maioria das vezes, é inapelável. 
Enquanto se desenvolve o nosso amor, sentimo-nos livres, 
mas ao mesmo tempo, é como se a nossa liberdade somente se 
pudesse realizar fazendo aquilo para o que fomos chamados, 
realizando o nosso destino. O estado nascente do amor 
aproxima com naturalidade categorias que a lógica abstrata 
considera incompatíveis. Como a liberdade e o destino, a 
plenitude de vida e a proximidade da morte, o total altruísmo e 
o total egoísmo, a força e a fraqueza, a alegria e a angústia, o 
tormento e o êxtase. 
Lentamente se estabelece na nossa consciência uma 
divisão entre o que é verdadeiramente importante e o que é 
supérfluo. Na vida cotidiana tudo nos parece essencial, mesmo 
as coisas mais tolas. Mas no estado nascente percebemos quão 
inúteis elas são e como são vãs muitas das nossas 
 155  
preocupações. Pelo menos se confrontadas com o que seestá 
tornando para nós o máximo bem, o próprio sentido da vida. 
Do outro lado de uma porta, de uma barreira, a vida nos 
aparece intensa e extraordinária. Mesmo na pessoa mais 
cansada o amor é como um despertar. O mundo se revela 
maravilhoso. Quem experimentou esse estado não consegue 
mais voltar a viver na nebulosidade inerte do passado. 
A pessoa que descobrimos amar não é então somente bela 
e desejável. É a porta, a única porta para penetrar nesse mundo 
novo, para ter acesso a essa vida mais intensa. E através dela, 
na presença dela, graças a ela, que encontramos o ponto de 
contato com a fonte última das coisas, com a natureza, com o 
cosmos, com o absoluto. Então a nossa linguagem habitual 
torna-se inadequada para exprimir essa realidade interior. 
Espontaneamente descobrimos a linguagem do presságio, da 
poesia, do mito. 
O estado nascente não é jamais um chegar, é um entrever. 
Como no caso de Moisés, um dos maiores profetas, mas a quem 
foi concedido apenas ver a Terra Prometida, não alcançá-la. 
Também a pessoa amada nos está, por isso, infinitamente 
próxima, mas infinitamente distante. É a mais querida entre 
todas as pessoas. Ao mesmo tempo, porém, sua proximidade 
tem o poder de nos transtornar. Não apenas a nossa mente. A 
emoção do enamoramento toma conta do corpo, do estômago, 
dos músculos, da pele, de todo o organismo, até a última 
célula. Essa mesma pessoa é portadora de uma força 
extraordinária, que nos deixa maravilhados e que nos parece 
inacreditável. Como um sonho que se pode desvanecer. 
Uma vez que aconteça o enamoramento, o sistema se toma 
estabilíssimo. A única alternativa que nos é concedida é a de 
retornar, chorando, ao velho mundo. O enamoramento não 
pode ser acabado, não pode ser modificado, não pode ser 
transferido para outra pessoa. Dura muito tempo, mesmo que 
os dois enamorados não se queiram, não se compreendam, 
mesmo que se desencontrem, que se deixem. 
A força do estado nascente é uma força redentora que tudo 
transfigura. Da pessoa amada amamos até os defeitos, os erros, 
os órgãos internos, os rins, o fígado, o baço. A pessoa 
 156  
verdadeiramente enamorada gostaria de acariciá-los, beijá-los 
como o faz com os lábios, os seios, o sexo. É um erro falar de 
idealização. É uma transubstanciação, uma redenção do que 
habitualmente é considerado inferior. O que está escondido é 
levado à luz, no mesmo plano do que é nobre, socialmente 
desejado. Essa força redentora só se apaga com o tempo. 
Apaga-se somente quando algo resiste a ela de todas as 
maneiras, cotidianamente, continuamente. Não basta um ato 
pontual, é o tempo que leva, o cansaço da inutilidade, o 
desespero da indiferença, da inércia. O amor acaba através de 
uma desilusão prolongada, repetida, cotidiana, incessante. 
Precisa desse cotidiano para consumar-se. 
 
3. Podemos agora esclarecer por que a paixão erótica por 
um artista não é enamoramento. Este, como vimos, é uma 
revelação, é a descoberta do valor daquele indivíduo único e 
inconfundível. Um valor que antes ninguém via e que se revela 
aos olhos enamorados. O artista famoso, ao contrário, já é 
admirado, já tem os olhos de todos voltados para ele. O milagre 
do enamoramento está exatamente nisso, em descobrir o valor 
de uma pessoa contra os valores socialmente reconhecidos. 
Por isso é uma força revolucionária. No livro Orlando 
furioso, Angélica ignora o rei e os príncipes que estão 
enamorados dela. Até mesmo Orlando, o mais famoso, o 
invencível. Angélica se enamora de Medoro, um simples 
soldado, sem valor algum. Do ponto de vista social, é um 
escândalo. Ao descobrir esse amor, Orlando não resiste à 
revelação e enlouquece. Mas há um motivo ainda mais sutil. 
Falando do aspecto coletivo do erotismo feminino, dissemos 
que a mulher é atraída pelo centro. O que a fascina 
eroticamente não é uma única pessoa concreta, mas a sua 
centralidade. A pessoa que amamos no enamoramento é única e 
inconfundível, não pode ser substituída por nenhuma outra. Ao 
contrário, na paixão erótica, a pessoa que nos agrada pode ser 
substituída por outra do mesmo tipo. Um homem pode estar 
eroticamente apaixonado por uma mulher. Não pode passar 
sem ela. Porém, se a experiência se restringe ao plano erótico, 
quando encontra outra tão bonita, atraente e desejável quanto 
aquela, abandonará a primeira e ficará com a segunda. 
 157  
Pessoas com o mesmo tipo erótico são intercambiáveis. Os 
artistas famosos também são intercambiáveis. A mulher que se 
apaixona por um artista famoso está sempre disposta a 
substituí-lo por outro do mesmo tipo ou de tipo erótico mais 
forte. No filme de Woody Allen, A rosa púrpura do Cairo, a 
dona-de-casa se “enamora” do explorador que aparece na tela 
do cinema. Quando, depois, chega o ator em carne e osso, 
“enamora-se” também dele. No momento em que tanto um 
como o outro se vão, a pobre mulher, desiludida, volta à sala 
de projeção onde aconteceu o milagre. No novo filme está Fred 
Astaire dançando com Ginger Rogers. A mulher fica logo 
fascinada e esquece os amores precedentes, em troca do novo. 
Esse exemplo nos mostra claramente que não se trata de 
enamoramento, mas de paixão erótica. A mulher acredita estar 
enamorada de uma pessoa única e inconfundível, mas não, 
seus objetos eróticos são todos instantaneamente substituíveis 
por outro do mesmo tipo. Sob as aparências do amor, o 
erotismo feminino nos apresenta assim sua face frívola, 
inconstante, comparável à sexualidade masculina. 
Em seu livro Love and limerence, Dorothy Tennov 
confunde esse tipo de experiência com o verdadeiro 
enamoramento. Desde as primeiras páginas, falando do caso de 
Terry, escreve: “Terry estava sempre enamorada de alguém. No 
sexto ano teve uma paixonite aguda por Smith Adam, o rapaz 
mais popular da escola... A seguir vieram outros em rápida 
sucessão, tanto que a dor de um amor desaparecia com a 
chegada do novo”
103
. Sublinhei a expressão “o rapaz mais 
popular da escola” porque significa que Smith Adam era o 
“gostosão” local, adorado por todas as moças. Mais típico ainda 
é o caso de Cynthia, enamorada de Paul McCartney, um ídolo 
do rock que jamais havia visto
104
. 
Diferente é o caso de uma mulher que se converte a uma 
religião e graças a essa conversão se enamora do chefe (o guru, 
o profeta). Nesse caso, estamos diante de um estado nascente. 
O amor apaixonado, total, que a mulher dedica ao guru 
constitui um entrelaçamento com a sua conversão. Maria 
Madalena estava enamorada de Jesus Cristo? A definição dada 
 
103
 Dorothy Tettttov, Love and limerence. 
104
 Ibidem. 
 158  
do enamoramento permite que se responda sim. 
Acrescentando, porém, que se trata de enamoramento 
unilateral. 
Nesse tipo de enamoramento há algo de desesperado e de 
heróico. Desesperado porque o enamoramento aspira à 
reciprocidade, quer tornar-se movimento coletivo a dois. No 
movimento, na seita, ao contrário, existem muitíssimos fiéis, 
muitíssimas mulheres. O líder tem um relacionamento 
assimétrico com os seguidores. Todos são substituíveis, 
intercambiáveis, menos ele. Porém, é também um amor 
heróico, porque o movimento exige uma dedicação total e 
sacrifícios que o simples indivíduo enamorado jamais teria a 
coragem de pedir. Por isso, com muita frequência as 
solicitações do grupo e do líder vão além dos pontos de não-
retorno, pedem que pratiquem ações que contrastam 
totalmente com as regras morais, os valores da pessoa. Nesse 
caso, o seguidor obedece, mas seu senso moral, sua capacidade 
de escolher entre o bem e o mal são destruídos. E a 
escravização moral
105
, que transforma o seguidor num escravo 
e, potencialmente, num sicário. Nas pequenas seitas, em torno 
do guru verificam-se os mesmos fenômenos que, em escala 
incomparavelmente mais extensa, caracterizaram o stalinismo 
e o nazismo. As mulheres são as vítimas mais frequentesdessa 
fascinação amorosa e dessa escravidão. 
 
4. No enamoramento, o erotismo é acompanhado de uma 
sensação inconfundível de ansiedade. O enamoramento 
consente o máximo do erotismo, mas, ao mesmo tempo, deixa 
entrever sua superação. O corpo, a beleza, o prazer sexual, os 
beijos, o contato da pele, o abraço, tudo o que no erotismo é 
realização, finalidade, prazer, no enamoramento são meios 
para se chegar a algo mais, para seguir mais adiante, para a 
essência da pessoa amada, para um valor indizível. Constituem 
um percurso, um caminho, um meio. 
Às vezes, uma relação começa como uma aventura, como 
uma experiência erótica intensa, excitante. Pode continuar 
 
105
 O fenômeno da escravização moral é baseado no uso de certos mecanismos que aparecem 
com freqüência notável nos movimentos sociais e que são usados sistematicamente na 
edificação do totalitarismo. Ver, com detalhes, Francesco Alberoni: Movimento e istituzione. 
 159  
assim até por muito tempo, porque os dois amantes encontram 
um no outro aquele algo mais que os atrai. Porém, se a certa 
altura um dos dois, ou ambos, se enamoram, ocorre uma 
mudança profunda. O gesto erótico seguro, triunfal, torna-se 
hesitante. O desejo sexual dá lugar a uma emoção total, ao 
estremecimento do corpo, à vontade de chorar, à comoção. A 
outra pessoa, que agora nos está mais próxima, tornou-se mais 
desejável e distante para nós. Olhamos para ela e parece que a 
vemos pela primeira vez. Cada vez como se fosse a primeira. 
Parece-nos ter conhecido dela somente o aspecto superficial. 
Acreditávamos ter visto tudo e em vez disso não tínhamos 
visto nada. Seu corpo, suas mãos, seus olhos nos falam de uma 
infinidade desconhecida. Enquanto estamos com ela, enquanto 
a mantemos apertada nos braços, enquanto fazemos amor 
juntos, superamos esse abismo. Mas apenas nos afastamos ou 
ela vai embora, apenas estamos longe um do outro, sentimos 
como se pudéssemos perder o caminho para reencontrá-la. 
Então temos necessidade de vê-la, de tocá-la, de lhe falar, de 
ouvi-la dizer-nos “te amo”. 
Tudo isso não é ciúme. É medo de perder a nós mesmos, o 
sentido da nossa vida, da vida em geral. O amor nos revela a 
infinita complexidade, a infinita riqueza da outra pessoa. 
Porque percebemos dela tudo o que era, nos menores detalhes, 
tudo o que é agora e tudo o que teria podido ser todas as 
vezes, o que poderá ser. O amor nos revela os infinitos 
possíveis de que é constituído o indivíduo, sua total 
improbabilidade e, desse modo, o milagre do nosso encontro. 
O espanto maravilhado no amor é consciência da total 
precariedade do ser, mas, ao mesmo tempo, consciência de que 
o ser é real e que o queremos. Daí o nosso desejo de segurá-lo, 
de agarrar-nos a ele, de permanecermos unidos, fundidos um 
no outro. 
Esse desejo espasmódico geralmente assume a forma de 
desejo de estar sempre juntos, de viver juntos, de casar, de 
morar na mesma casa. É a modalidade mais simples, 
institucional, social de tornar estável o improvável. Mas muitas 
vezes é também uma forma ilusória. Porque aquilo de que 
estamos enamorados não é na realidade uma pessoa empírica, 
mas uma força transcendente, uma porta para o absoluto. O 
 160  
desejo da pessoa amada é o desejo desse absoluto entrevisto, 
mas também inatingível. Fazendo amor procuramos preencher 
a distância, atingir e fundir-nos permanentemente com a 
totalidade. 
Os enamorados têm a claríssima impressão de que fazer 
amor é algo de sagrado, um gesto religioso
106
, como se fosse a 
união do céu com a terra. A ideia do casamento como 
sacramento nada mais é que a transcrição ideológica, 
institucional dessa experiência profunda, primordial, dos 
amantes enamorados. No estado nascente do amor o indivíduo 
se sente fundido com o cosmos, com a natureza. E o 
microcosmos que realiza em si o macrocosmos. 
No enamoramento profundo, também os locais do amor e 
os dias da revelação do amor ficam carregados de um 
significado divino e os dois enamorados constroem por si 
mesmos uma geografia sacra do mundo, um calendário 
litúrgico que faz com que sejam lembrados e impõe a eles a 
lembrança dos momentos em que foram abençoados por 
entreverem a essência última, infinitamente precária, 
improvável e espantosa da vida. 
 
24 
 
1. Existe também uma forma de amor que brota pouco a 
pouco do erotismo e da amizade. Um amor que não se 
apresenta como explosão inicial única entre dois 
desconhecidos, mas no qual as pessoas se encontram, 
primeiro, no terreno delicado da estima e da confiança 
recíproca. Depois aparece o desejo erótico, como quase sempre 
acontece num encontro entre homens e mulheres. A princípio, 
o erotismo é apenas um acréscimo, ou um desejo de conhecer 
melhor o outro. Na verdade, somente a intimidade erótica é 
 
106
 A relação entre enamoramento, ou amor-paixão, e mística foi evidenciada por Denis de 
Rougemont em seu famoso L’amore e l’accidente, trad. ital., Milão, Rozzoli, 1973. O autor 
observou que a poesia de amor ocidental foi influenciada pela mística árabe. O verdadeiro 
objeto de amor então é Deus, inatingível para uma criatura terrena. O enamoramento é, 
portanto, uma ilusão e, ao mesmo tempo, algo de blasfemo. O católico De Rougemont sugere 
em seu lugar o ágape, amor comunitário. Na realidade, o amor místico por Deus é somente uma 
das formas em que se manifesta o estado nascente. Existem outras, e entre elas também o 
enamoramento. 
 161  
capaz de revelar aspectos desconhecidos e profundos da 
pessoa. A confiança gerada pela amizade permite um abandono 
tranquilo. Não há nenhuma encenação, nenhuma necessidade 
de seduzir, de aparecer. 
Estamos diante de um novo tipo de relacionamento, até 
agora excepcional. Homens e mulheres viviam separados. Seu 
encontro devia superar inumeráveis barreiras e por isso, na 
melhor das hipóteses, assumia a forma explosiva do 
enamoramento. A liberação das mulheres, sua independência 
econômica, elevou-as àquele nível de igualdade que torna 
possível a amizade. O erotismo que aparece através de uma 
relação de amizade é, por definição, bilateral. Cada um se 
esforça espontaneamente para dar ao outro o que julga poder 
dar-lhe prazer, respeitando sua liberdade. 
O erotismo, na amizade, se desenvolve com o tempo e é, 
no mesmo momento, revelação e inteligência. Não é simples 
impulso, simples sexualidade, nem simples fantasia. É atenção, 
preparação, aprendizagem. Os valores da amizade limpam a 
nossa alma de tudo o que é exclusivista, egoístico e 
mesquinho. Esse tipo de erotismo requer propriedade de 
sentimentos, atenção, saber, respeito. Requer o desejo de 
agradar e de dar prazer ao outro. É uma troca em que cada um 
compreende e torna suas as fantasias eróticas do outro, 
adequando-se a elas espontaneamente. Desse modo, ambos 
crescem em seu relacionamento, conhecem cada vez mais a si 
mesmos e ao outro. 
No enamoramento inicial, fulgurante, explosivo os 
enamorados não se conhecem. Suas realidades empíricas vão 
sendo reveladas aos poucos, como uma resistência da matéria, 
do existente, aos desejos do estado nascente. Apresentam-se 
sob a forma dramática dos pontos de não-retorno. Algo que não 
se deve pedir sob pena de ruína total. Ao contrário, no 
relacionamento amoroso que nasce da amizade, já existe uma 
afinidade eletiva e também aquele respeito pela liberdade do 
outro, o reconhecimento do limite que no amor explosivo se 
descobre com dor e tormento. A amizade deixa ao homem suas 
fantasias de liberdade, isto é, de poder interromper a relação a 
qualquer momento. Dá à mulher a segurança de uma 
continuidade de afetos, defende-a do medo da perda. 
 162  
O amor que nasce dessa forma não é, portanto, algo que 
irrompe com força no início para depois, ainda que lentamente, 
se degradar. É o processo inverso: a edificação, lenta ou rápida, 
sempre difícil, frequentementeprecária, do que é melhor. Seu 
resultado é uma construção. É errado pensar num projeto e sua 
gradual realização. No mundo das relações, a relação boa 
(perfeita, melhor) vai se delineando durante o próprio 
processo. É reconhecida ao ser vivida. Pronto, é boa, estou 
satisfeito, estamos ambos contentes. Nem é necessário desejar 
uma perfeição. Basta distinguir o melhor do pior, saber o que 
agrada, valorizar, saber valorizar e dizer: “Pronto, eu quero 
isto, quero assim e não de outro modo”. A Gestalt, por isso 
mesmo, não aparece perfeita no início e nem é imaginada, 
como no projeto-meta do voluntarismo. É reconhecida em seu 
fazer-se. A perfeição é descoberta em seu realizar-se. É o 
percurso epifânico de que fala Rosa Giannetta Trevico
107
. Não há 
uma situação perfeita, nem no início, nem no fim, mas o 
reconhecimento de uma temporalidade que cresce e é 
adquirida através da temperança (limite) e da prudência, isto é, 
a virtude. 
A amizade erótica é difícil. Porque a amizade possui uma 
estrutura granular. Não é necessário que o amigo esteja 
próximo, em contato com a pele. Não é exclusiva, e se 
preocupa essencialmente com o prazer do amigo, não importa 
quem ele procure. Inserir o erotismo na amizade é, por isso, 
mais fácil para o homem, pois o erotismo masculino é 
descontínuo e não quer ouvir falar do depois. A mulher deve 
tornar própria essa fantasia amorosa, aceitar a autonomia do 
erótico masculino. 
O resultado é que na amizade amorosa a mulher 
geralmente representa um papel diferente do homem. Ela 
representa o pólo estável, permanente, exclusivo, e o homem, o 
pólo descontínuo, aventureiro. Naturalmente os dois papéis 
podem ser invertidos, mas a primeira situação é a mais 
frequente. 
 
 
 
107
 Rosa Giannetta Trevico: Tempo mitico e tempo cotidiano, já citado. 
 163  
2. A amizade amorosa é possível também quando um dos 
dois está enamorado e o outro não. O primeiro, então, ama 
apaixonadamente, possui um erotismo sacro. O outro, ao 
contrário, sente-se, acima de tudo, amado, adorado. Num 
sistema voluntarístico onde ambos devem dizer “a verdade”, 
essa situação não poderia persistir. Posto o dilema “ou me ama 
ou não me ama”, a relação deveria terminar. O terreno da 
amizade, ao contrário, permite seu desenvolvimento. Ser amigo 
significa admitir a diversidade, tolerar uma separação entre os 
desejos recíprocos. Significa, acima de tudo, não colocar 
alternativas, dilemas, coações. 
A pessoa que não está enamorada, mas que se sente amada 
desse modo, não faz perguntas. Aceita o prazer do amor do 
outro, bem como sua adoração. O enamorado por sua vez não 
se sente constrangido a decidir. Sente a amizade do outro 
como um refugio seguro. Não está abandonado sem uma 
palavra. Sabe que o outro sente por ele um afeto sincero. Sabe 
que é leal. Abandona-se à própria paixão e fica feliz ao sentir 
que o outro experimenta prazer erótico, que enlouquece de 
desejo por ele. 
Esse tipo de amor assimétrico produz, em geral, um 
fortíssimo erotismo recíproco. Desde que a pessoa enamorada 
não coloque imposição, mas contente-se com o amor que lhe é 
dado e tome o erotismo como prova suficiente de amor. 
Se, ao contrário, quem ama quer a certeza do 
enamoramento do outro e a procura através de provas de amor, 
se quer o monopólio do tempo, quer transformar em cotidiano 
o que para o outro é erotismo extraordinário, inevitavelmente o 
equilíbrio se rompe. A palavra faz explodir o dilema e a 
laceração. Ao rompimento, em geral, não sobrevive nem mesmo 
a amizade que existia antes. 
A amizade erótica é, portanto, governada pelo registro da 
amizade, descontínua, extraordinária, livre. Só pode existir se 
o enamoramento se explica, ainda que resistindo-lhe 
docemente. Fornece a ele somente um quadro descontínuo de 
expressão, porém lhe assegura também algo de precioso: a 
duração. Porque mesmo a amizade é concedida para sempre. O 
desenfreamento erótico, a “bolha de tempo”, o “arrepio” podem 
encontrar nela seu nicho. Através desse tipo de erotismo, uma 
 164  
pessoa enamorada pode viver as emoções eróticas mais 
intensas ao lado do objeto de seu amor, mesmo que o outro 
não esteja tão enamorado como ela. O erotismo possui uma 
regra de perfeição que une os seres humanos através do desejo 
de encontrar uma felicidade ainda maior. À filigrana de 
encontros de amizade acrescenta-se a dos períodos 
esplendorosos, das revelações eróticas, e isso, por si só, tende 
a criar um relacionamento duradouro. 
 
3. Pode-se facilmente intuir, porém, que num 
relacionamento como esse, o enamoramento de um se 
comunica quase seguramente com o outro. O estado nascente 
não surge do erotismo, nem da amizade. Mas, com o passar dos 
meses ou dos anos, cada homem e cada mulher é obrigado a 
renovar-se interiormente, a reestruturar seu campo vital e 
assim produzir um estado nascente. Numa relação desse 
gênero, em que um dos dois já está enamorado e o 
relacionamento erótico é feliz, reconhece-se o novo estado 
nascente no da pessoa que já está enamorada. O enamoramento 
permanece um fato imprevisto e imprevisível. Brota 
espontaneamente de necessidades interiores profundas. 
Ninguém seduziu ninguém. Mas uma relação de amizade 
amorosa, em que se busca o erotismo como uma perfeição, 
constitui o terreno propício para o reconhecimento. No dia do 
despertar, a pessoa que está para enamorar-se verá, antes de 
mais nada, os olhos da pessoa enamorada. 
O enamoramento que floresce de uma situação de 
profunda amizade é sempre revelação, e o amigo ou amiga 
aparecem, subitamente, envolvidos por aquele mistério que 
apenas o enamoramento é capaz de descobrir nos seres 
humanos. Esse enamoramento é absolutamente idêntico, em 
sua estrutura e nas propriedades da experiência, ao que 
aparece entre dois desconhecidos. E, no entanto, a amizade, a 
longa e tranquila amizade, lhe confere algo de precioso, tão 
precioso quanto o próprio estado nascente. Porque o 
enamoramento não é um ato, é um processo. É um suceder de 
revelações e de perguntas, um suceder de angústia e de provas. 
Para tornar- se amor, o enamoramento deve conhecer também o 
que outra pessoa é empiricamente. Nós podemos nos enamorar 
 165  
de alguém que depois não corresponde àquilo com que 
sonhávamos, que nos engana e nos desilude. Tudo isso se 
descobre com o tempo, através de experiências, através de 
provas. Como saber se o outro nos ama? Que o outro não 
mente? Fazemos perguntas, submetemo-lo a provas, e o outro 
age da mesma forma conosco. Somente assim o amor se torna 
verdadeira consciência e não sonho. Para durar, deve também 
se tornar confiança, estima, isto é, adquirir algumas das 
propriedades da amizade. 
O amor que nasce da amizade já percorreu uma etapa 
desse caminho. Nós conhecemos o amigo, seus limites, mas 
também suas virtudes. Acima de tudo, temos confiança nele, 
em sua lealdade. Se não fosse assim, não se teria tornado 
nosso amigo. A amizade possui uma essência moral. É com 
esses conhecimentos, com essas silenciosas seguranças morais 
que o amor nascente pode contar. O amor continua sendo 
inquietação, temor, emoção, choro, desejo incrível de ter o 
nosso amado em nós. Mas ao lado desses sentimentos, 
entrelaçada a eles, a amizade insere a confiança recíproca e o 
respeito à liberdade. O enamoramento que nasce através da 
amizade é, portanto, mais límpido e mais sereno. 
 
 
 166  
 
 
Contradições 
 
 
 167  
25 
 
1. Recomenda-se a todo mundo: “Seduza, seja desejável 
eroticamente, seduza mais que todos, Seduza todos”. Ao 
mesmo tempo, também se ensina: “Seja fiel, deseje apenas 
aquele homem, somente aquela mulher”. Também o marido, 
assim como o amante, deseja que sua mulher seja sedutora, 
bonita, desejada por todos. Cada mulher quer que seu marido, 
seu amante, seja o mais bonito, o mais atraente. Quer que as 
mulhereso desejem. O desejo dos outros faz parte do nosso 
erotismo, alimenta-o. Mas depois, tanto o homem como a 
mulher querem ter o objeto amado somente para si. Assim 
agindo, são obrigados a lutar contra todos, porque todos foram 
convidados a desejar o que eles desejam. 
Para ser desejável é preciso desejar. A mulher não pode 
tornar-se sedutora se não quer seduzir, se não comunica seu 
desejo ao homem, mesmo em tom de brincadeira. O homem, 
convidado a ser sedutor, olhará e desejará outras mulheres. Por 
prazer ele deve realmente trair, pelo menos em fantasia. Um 
homem que não deseja outras mulheres, que não olha para 
elas, que não toma conhecimento de sua existência, não pode 
ser sedutor. As outras mulheres percebem imediatamente sua 
falta de disponibilidade erótica. Pode estar vestido da maneira 
mais refinada, ser rico e educado, mas não irradiará a menor 
centelha de verdadeiro erotismo. Porque suas palavras serão 
mortas, sem vibração alguma. Se a mulher quer o monopólio 
absoluto de um homem que agrada loucamente às outras 
mulheres, quer uma contradição. Consequentemente, poderá 
ter apenas ou um homem que agrada às outras mulheres, mas 
nesse caso ele olhará para elas, ou um homem obrigado a 
pensar obsessivamente somente nela, mas bem pouco 
interessante para as outras. 
A mulher permanecerá indefinidamente indecisa entre 
esses dois pólos, oscilando de um para outro. Ora incentivará 
seu homem a ser desejável, ora o prenderá, ciumenta, junto a 
si. O homem, por seu lado, incentivado a ser desejável e assim 
desejar outras mulheres, logo aprenderá que ou não deve fazê-
lo, ou então deve olhar para elas e mentir. Existem somente 
duas soluções: a renúncia ou a mentira. 
 168  
Por outro lado, também a mulher deve ser ao mesmo 
tempo desejável e fiel. Mas para ser desejável precisa evocar 
fantasias masculinas, deve dar aos outros homens a impressão 
de poder ser uma presa. Também ela, por isso, tem de 
enfrentar duas alternativas. Ou trai seu homem, ainda que em 
fantasia, ou acaba por se entorpecer, embrutecer. Sua 
alternativa não é, pois, radicalmente diferente. 
A contradição intrínseca do erotismo abre somente dois 
caminhos: o da renúncia e o da dissimulação. E de fato existem 
no mundo duas culturas eróticas totalmente diversas. A 
primeira é construída sobre a égide da verdade e da renúncia. 
A segunda, da imaginação e da dissimulação. 
Nas centenas de livros americanos sobre o amor, o 
enamoramento, o sexo, o erotismo, não há uma única página 
dedicada à mentira, à discrição, ao não-dizer, ao silêncio, à 
dissimulação. Em todos eles, sugere-se, recomenda-se, impõe-
se que se diga a verdade, toda a verdade, sem nada esconder. A 
religião da verdade certamente não é nova. Nos países 
católicos o confessor tinha o dever de extrair da alma do 
penitente todos os pensamentos, mesmo os mais recônditos. 
Os exercícios espirituais ensinavam a tomar nota dos menores 
desejos sexuais para discuti-los com o orientador espiritual. 
Não havia um recanto da alma, por menor que fosse, que 
pudesse ser considerado privado, ao abrigo dos olhos 
indiscretos. Porque o olho do sacerdote era equiparado ao do 
próprio Deus. A psicanálise gerou uma outra religião da 
verdade fazendo coincidir a mentira com a doença. Como se 
forma, na verdade, o sintoma? Calando, não dizendo a si 
mesmo, aos outros, o que se pensa e quer. De tal forma, esse 
desejo se tornará inconsciente, e do inconsciente (como do 
inferno da religião) se insinuará na vida consciente, 
perturbando-a, destruindo-a. Não há então outro remédio senão 
recordar o que foi esquecido, dizer o que não foi dito, 
confessar o que não foi confessado. 
Como na religião, também na psicanálise a confissão deve 
ser feita a um indivíduo específico, o psicanalista. Dessa forma 
a confissão permanece particular, secreta. Nos países onde 
existe o sacramento da confissão, os sacerdotes são obrigados 
 169  
a manter um rigorosíssimo segredo confessional. Os 
psicanalistas, um segredo profissional. 
Porém, com a popularização da psicanálise, a força 
terapêutica da verdade foi generalizada, estendida a todas as 
outras relações sociais. Os americanos, principalmente, 
fizeram dela uma arte de relação interpessoal. Convenceram-se 
de que as relações interpessoais serão tanto mais harmônicas 
quanto mais verdadeiras forem. 
Obviamente, esse postulado não foi estendido a todos os 
campos. Não ocorreu, por exemplo, aplicá-lo às transações 
econômicas e à política externa. A economia continua a ser um 
setor onde cada um tem o direito de manter reservados os 
próprios negócios. Uma empresa não deve espalhar seus 
projetos a torto e a direito, não pode distribuir suas patentes 
aos concorrentes. Está autorizada a manter o segredo em todos 
os níveis que julgar oportunos. 
Fora da esfera econômica, ao contrário, e particularmente 
nas relações eróticas e amorosas, introduziu-se a regra da 
verdade total. Pode-se mesmo falar de uma religião da verdade, 
que encontrou seu momento culminante na teoria da 
intimidade. Na formulação de Lillian B. Rubin, a intimidade é o 
desejo de conhecer cada fato particular da vida interior do 
outro e a capacidade de comunicar-lhe os seus
108
. Essa 
capacidade, segundo a autora, seria muito difundida entre as 
mulheres e escassa entre os homens. 
A religião da intimidade e da verdade total é inconcebível 
sem uma concepção voluntarista da vida. Se todos revelam 
tudo, até mesmo os pensamentos mais fugazes, devem 
comunicar também as coisas mais desagradáveis, como o ódio, 
o desprezo, o desejo de matar. 
Isso é possível porque, numa cultura voluntarista, a cólera, 
a irritação, a agressividade, o mau humor, são considerados 
distúrbios passíveis de ser eliminados, sintomas perfeitamente 
corrigíveis. Quem os experimenta irá a um psicanalista, e este 
o convidará imediatamente a discuti-los para remover a causa. 
Para a cultura voluntarista, dado um sentimento qualquer, 
existe sempre uma técnica capaz de modificá-lo no sentido 
 
108
 Lillian B. Rubin: Intimate strangers, já citado. 
 170  
desejado. Existe sempre uma técnica capaz de transformar o 
desprazer em prazer, o ódio em amor, a aversão em atração. 
Num sistema cultural voluntarista os sentimentos são objeto 
da vontade. Devem ser transformados em fins a serem 
alcançados com técnicas adequadas. Até mesmo a 
autenticidade do desejo é apresentada como fim. Numa cultura 
voluntarista vale o imperativo: “Aprenda a ser autêntico, a ser 
espontâneo”
109
. 
Nesse tipo de cultura em que domina a religião da verdade, 
a contradição do erotismo encontra soluções somente através 
da renúncia. Se alguém quer continuar a seduzir deve 
divorciar-se, viver sozinho, e então a moral lhe permitirá ter 
relações sexuais com quem quiser. Aliás, por fazer parte da 
comunidade dos solteiros, será obrigado a fazê-lo continuada- 
mente. Mas deve renunciar a uma ligação estável. Se quer, ao 
contrário, uma ligação estável, deve renunciar à vida de 
solteiro e, consequentemente, renunciar também à sedução. 
Uma sociedade voluntarista não pode ser uma sociedade 
com forte carga erótica. Porque é uma sociedade do tudo ou 
nada. Se o erotismo possui em si, estruturalmente, uma 
contradição, a sociedade que procura anulá-la, negá-la, fazê-la 
desaparecer é obrigada a criar duas morais, redobrando a 
repressão. A antiga sociedade puritana era coerente. Não dizia: 
“Seduza o maior número possível de homens e de mulheres”. 
Não precisava, portanto, impor a fidelidade a alguns e a 
promiscuidade a outros. Muito menos preocupar-se com a 
mentira. 
 
2. Há um caso apenas, em meio a inumeráveis outros, em 
que o imperativo da sedução não é contraditório: o 
enamoramento. Nesse estado, a mulher enamorada vai querer 
ser bela, a mais bela do mundo, para agradar àquele que, aos 
seus olhos, é o mais belo do mundo. E o homemenamorado vai 
querer agradar a todos, a todas as outras mulheres para com 
isso homenagear a sua. Como um rei, que é amado por todas as 
mulheres de seu reino, que pode ter todas, mas renuncia a 
 
109
 Paul Waltzlawick, em Istruzioni per rendersi infelici, trad. ital., Milão, Feltrinelli, 1983, zomba 
cortesmente da mentalidade voluntarista sem dar-se conta, porém, de que ela forma a base de 
toda a cultura psiquiátrica e psicológica americana contemporânea. 
 171  
esse poder como presente à única que em si resume todas: a 
eleita. 
No estado nascente do amor, tanto os homens como as 
mulheres estão animados por uma energia extraordinária. O 
mundo lhes parece luminoso, cheio de vida. Sentem estar em 
contato com uma energia imensa, transbordante, uma fonte 
que os transcende. O amado ou a amada alcançam essa fonte, 
são essa fonte. Por isso não são comparáveis a nenhuma 
criatura existente. Eles incorporam a transcendência. Por isso a 
contradição é superada. Porque, quanto mais o homem deseja 
as outras mulheres, mais, na realidade, se aproxima somente 
da sua. E mesmo que olhe para as outras, mesmo que seus 
olhos brilhem de prazer e de desejo, é através delas que ele a 
vê. O homem, no estado nascente do amor, é sedutor. Dá às 
outras mulheres a impressão de estar fascinado. É vibrante, 
apaixonado, lânguido, passional. Nenhuma delas percebe que 
tudo isso não é para ela, mas que também é. O homem 
enamorado tem um olhar ardente. Detém-se realmente sobre o 
rosto, os seios; de fato, a mulher lhe causa um 
estremecimento. Porém, após tê-la tocado, vai em frente. 
Deteve-se nela por aquilo que em sua feminilidade lhe fazia 
lembrar a amada, encarnava algo dela. E toda mulher, enquanto 
mulher, tem algo da amada. Por isso o homem enamorado ama 
a todas. Quer todas porque quer somente ela. Como o poeta 
que canta e desperta os sentimentos de todos, mesmo que o 
seu canto seja dirigido a uma só pessoa, que talvez nem o 
ouça. 
Isso acontece também com a mulher no estado nascente do 
amor. Ela entra no mundo por prazer, esplendorosa. É como se 
quisesse seduzir o ar, a água, as plantas, o sol. Seduzir 
significa despertar todas as coisas para a alegria, fazê-las 
exultar pelo seu amor, torná-las acolhedoras para seu amado. 
Não há mais engano, fingimento, pois o canto é livre, solar. 
Então entre os dois não há segredo. Não há áreas 
protegidas para serem guardadas pelo ciúme. Ambos são 
tomados da necessidade de se dizerem tudo para entrelaçar 
sua vida passada, para fundir seus desejos. Para descobrir 
onde são diferentes e amar essa diferença, torná-la própria. No 
estado nascente as dificuldades insolúveis desaparecem. Quem 
 172  
ama está ao mesmo tempo livre e aprisionado. Quem ama é 
totalmente altruísta e egoísta porque quer o objeto de amor 
todo para si. Por isso seduz todos para seduzir somente o 
amado. No estado nascente do amor, o enamorado se identifica 
com o cosmos e, cantando sua beleza, canta a beleza do 
amado. Agradando ao cosmos, agrada ao outro. 
Mas a contradição somente desaparece no estado nascente. 
Quando este acaba, quando há a infiltração da escolha, isto é, a 
instituição, então só se pode ser de um modo ou de outro. E 
quanto mais nos afastamos do ardor do estado nascente, mais 
a relação se torna normal, cotidiana, regulada pelo útil, pela 
conveniência pessoal, pelos deveres sociais, mais as 
contradições se tornam incompatíveis. 
No regime voluntarista, as contradições explodem 
totalmente e não admitem mediações porque os sentimentos 
desejados são unicamente instituição. No regime voluntarista 
uma pessoa só é totalmente livre se puder amar o que decidiu 
amar. Mas isso é o contrário absoluto do enamoramento, em 
que quem ama se sente livre somente seguindo sua vocação, 
seu chamado, seu destino. Por isso, num sistema voluntarista, 
a ordem “vá e seduza” entra em contradição com outra ordem, 
“ame só a mim”. Porque são ordens dadas à vontade. 
E, no entanto, é exatamente a experiência exaltante do 
enamoramento que é chamada para justificar a religião da 
verdade. De fato — dizem os sacerdotes dessa religião —, 
aqueles que se amam verdadeiramente, as pessoas enamoradas, 
dizem- se a verdade. Se não o fazem, isso quer dizer que seu 
amor não é completo. Quem se ama, portanto, caso queira uma 
relação perfeita, verdadeira, deve dizer a verdade. 
Esse silogismo é um exemplo típico de transformação 
voluntarista dos sentimentos. A revelação da verdade, a 
confissão recíproca, é vivida como uma necessidade interior e 
um ato de liberdade soberano no estado nascente. Este não 
reconhece nenhum dever para com seu interior. Ou melhor, 
tudo é dever, porque tudo é prazer. Porque o dever coincide 
com o impulso, com a paixão. As pessoas dizem a verdade 
porque lhes agrada, porque se realizam com ela. Não porque 
seja um dever e um fim. O estado nascente não obedece a 
ninguém. Por essa razão, paradoxalmente, no estado nascente 
 173  
os enamorados poderiam muito bem mentir e nada mudaria. De 
fato, algumas vezes se mentem, mas depois confessam a 
mentira. Ou então se calam. E é a mesma coisa. 
O sistema voluntarista toma o enamoramento, identifica 
sua qualidade, torna-a rígida, faz dela uma virtude, e se a 
encontra em outra relação conclui então que nesta há 
enamoramento. Dois cônjuges, pelo simples fato de se dizerem 
a verdade, deveriam ser mais enamorados” do que dois que não 
a dizem. 
 
3. Ao tentar realizar um perfeito estado de enamoramento, 
o sistema voluntarista acaba sempre por destruí-lo. Com o 
propósito de obter a verdade contínua, o sistema voluntarista 
produz constantemente mentira. Porque somente pode ensinar 
a fingir que existe o enamoramento, colocá-lo em cena. O 
enamoramento é um estado que, por sua natureza instável, 
tende a tornar-se instituição ou hábito. O momento entusiasta 
e criativo é limitado no tempo. O voluntarista se encontra 
agora diante deste dilema: o que fazer quando a paixão se 
extingue, quando o encantamento se toma cotidiano? Confessá-
lo e divorciar-se porque percebeu que já não ama totalmente, 
apaixonadamente, loucamente? Ou ir a um psicanalista para 
curar- se, para reencontrar a paixão perdida? 
No primeiro caso os casais se desintegrariam 
imediatamente. E como o enamoramento é um acontecimento, a 
soma de tudo, excepcional, a sociedade acabaria por ser 
formada quase que exclusivamente de gente divorciada, por 
não ter conseguido realizar a felicidade do amor. 
Resta então o outro caminho: aprender a estar 
continuamente enamorado, obrigar-se a isso, fingir que se está. 
Percebendo que não se amam, ou que não se amam 
suficientemente, os casais aplicarão as técnicas adequadas 
para realizarem o enamoramento padrão, prescrito. Existem 
milhares de manuais terapêuticos que ensinam a amar de 
forma madura, profunda ou romântica. As pessoas os lêem e os 
aplicam até o momento em que não aguentam mais, até que 
sentem ganas de gritar de cansaço, de náusea. E então se 
divorciam. Porém, tendo bem claro na mente o fim: iniciar uma 
 174  
nova experiência amorosa perene e feliz. Mas como em geral 
esta também não dá certo, voltam de novo ao trabalho, ao 
árduo trabalho de estarem enamoradas. 
Admitindo que no início esses casais estiveram 
enamorados (coisa que realmente não aconteceu), o que é 
chamado de felicidade, ou amor, ou “estar enamorado”, numa 
sociedade voluntarista é o resultado do esforço voluntário. É 
encenação. A sociedade voluntarista quer toda a verdade, mas 
depois é obrigada a representar um estado de enamoramento 
que de fato não sente. Só tem sucesso quando consegue auto-
enganar-se completamente, isto é, quando consegue mentir a 
ponto de não saber mais que mente, até a cegueira total. A arte 
de amar é um curso de arte dramática em cujo término a 
pessoa não sabe mais o que está representando. 
O erotismo somenteé possível quando se engana o 
imperativo totalitário. E deve fazê-lo até mesmo no estado 
extraordinário do enamoramento, recusando as regras, as 
imposições, os critérios, os testes, os julgamentos que vêm do 
exterior. O erotismo é feito de palavras e silêncios, de abertura 
e reserva, de energia e prostração. Como todo ser vivente tem 
seus ritmos próprios, como a respiração, e fenece sob o 
domínio frio do pensamento e o látego da vontade. 
 
26 
 
1. No erotismo há conflito entre espontaneidade e artifício, 
entre amor e sedução. Tanto as mulheres como os homens 
aprendem muito cedo, muitas vezes no fim da infância, que o 
amor puro, desinteressado, sincero não basta para despertar o 
interesse do amado. Os adolescentes descobrem que a mocinha 
pela qual estão apaixonados se aborrece completamente com 
seu amor, seus suspiros, suas hesitações. O enamoramento 
torna as pessoas tímidas, recatadas. Adoramos a pessoa amada, 
não temos nem aos menos coragem de tocá-la com a mão. Se 
nos diz não, ficamos paralisados, não conseguimos superar a 
resistência, transformar o não em sim. Por isso o rapaz 
enamorado verá com muita frequência sua namorada preferir 
outro mais brilhante, mais popular, capaz de fazê-la rir, de 
 175  
diverti-la. Alguém que tenha um carro do ano ou que seja um 
ídolo do esporte. Geralmente alguém que não a ama, mas 
conhece as técnicas da sedução. Depois desse tipo de 
experiência, o rapaz procurará aprender a tratar as mulheres 
apropriadamente. Não as irritará com sua timidez e seus 
pudores, não ficará hesitante diante de uma recusa. Aprenderá 
a decifrar a linguagem do convite feminino. Porém ficará com a 
impressão de que as mulheres não sabem apreciar o verdadeiro 
amor, enquanto são altamente sensíveis, desarmadas, diante do 
fascínio da riqueza e o cinismo do sedutor. 
As mulheres têm uma experiência do mesmo gênero, mas 
extremamente mais intensa. Para elas o amor, o amor sincero, 
puro, total, é muito mais importante. Faz parte integrante de 
suas fantasias eróticas. Não têm um desejo sexual que possam 
satisfazer com um homem qualquer, com um orgasmo 
qualquer. Mais ainda do que os homens, percebem quanto é 
importante a aparência, o fascínio, a capacidade de fazer-se 
notar, admirar, desejar. Percebem que os homens mais 
inteligentes, mais fortes, ficam na realidade desarmados diante 
de dengos, provocações, galanteios de mulheres medíocres e 
sem preconceitos. A moça enamorada descobre, estarrecida, 
que o homem que ama deseja uma prostituta vestida 
escandalosamente, ou se deixa iludir, enredar, manipular por 
uma mulher que não o ama nem um pouco, mas que o quer 
somente para divertir-se. E ele não se dá conta de como são 
elementares, infantis, os truques empregados pela mulher. São 
jogos que ela sabe fazer, que qualquer menina conhece, mas o 
homem, não. Por isso parece-lhe que ele é ao mesmo tempo 
forte e idiota, desprevenido, fraco, mas também ávido como 
um animal selvagem. 
No mais profundo da alma feminina está o temor lacerante 
de que o amor verdadeiro, sincero, simples, não valha a pena, 
já que o homem é sensível somente ao artifício, à manipulação 
feminina. Várias vezes, durante a sua vida, a mulher se 
encontrará diante do dilema: que caminho seguir? O caminho 
ingênuo, dos sentimentos sinceros, ou o outro, da 
manipulação? 
Esse dilema constitui o tema constante dos romances cor- 
de-rosa. A heroína está enamorada, ama, é sincera. A rival, não. 
 176  
A rival quer o seu homem por orgulho, por capricho, para 
casar-se, e usa todas as artes da sedução. Disso o homem não 
se dá conta. Ele toma o artifício por ação sincera, o resultado 
de um perfeito cálculo por espontaneidade improvisada. O 
problema colocado desde o inicio pelo romance cor-de-rosa é 
dramático. Quem sabe seduzir vence sempre, pois o homem 
não sabe distinguir entre sinceridade e engano. Não sabe 
escapar das manobras de uma mulher inteligente e sem 
escrúpulos. 
Tenhamos presente que o significado do encontro erótico é 
diferente nos dois sexos. A mulher custa a entender que o 
homem é atraído para o encontro sexual sem implicações 
emocionais. Na realidade, a rival que o rouba dela o leva 
somente para a cama. Mas ela vive essa experiência como uma 
perda total porque, no íntimo, ir para a cama e amar são a 
mesma coisa. Sabe que há uma diferença, mas percebe esse 
fato com a reflexão, com a inteligência, não com o instinto, 
com o sentimento. O sucesso erótico da rival é vivido como 
sucesso amoroso tout court. O romance cor-de-rosa respeita 
essa fantasia. O amado. O amado jamais fará amor com a rival. 
Jamais, nem ao menos uma vez. 
 
2. A pessoa enamorada fica paralisada pelo seu próprio 
amor. É tímida, incapaz até de usar sua arte de sedução. O 
amor verdadeiro desarma. Por outro lado, naquele momento 
quer seduzir desesperadamente a pessoa amada. A mulher, em 
particular, sabe que uma rival esperta pode roubar-lhe o 
amado. Então age também com inteligência. Estuda seus 
gostos, os lugares que frequenta, dá um jeito de encontrar-se 
“casualmente” em seu caminho, vestida “casualmente” como 
acha que ele gostaria. Mas apesar desses cálculos, dessa 
encenação, se estiver de fato enamorada, estará altamente 
vulnerável. Se o vir falar com outra mulher, se o surpreender 
distraído, será tomada de uma crise de desconforto. 
Uma mulher enamorada usa de modo canhesto a arte da 
sedução. Se há alguma coisa que ela consegue fazer bem é ficar 
bonita, agradável, doce. Por outro lado, não se empenhará em 
fazer mais que isso, porque o amor verdadeiro exige que o 
outro escolha livremente. Das duas figuras arquetípicas, a Bela 
 177  
Adormecida e a Feiticeira, a mulher enamorada identifica-se 
com a primeira. Gostaria de esperar de olhos fechados, imóvel, 
que o amado a beijasse e a levasse com ele. Esse desejo de 
passividade, essa hesitação faz com que a mulher enamorada 
assista outras vezes, como já lhe aconteceu quando era 
mocinha, à perigosa aproximação da rival. Sem poder fazer 
nada, sem nem ao menos poder prevenir seu amado. Aliás, o 
que lhe dizer? “Cuidado com ela, com suas intrigas.” O homem 
não acreditaria, iria acusá-la de estar com ciúme. Uma antiga 
lenda, que inspirou o filme Sortilégio de amor, com James 
Stewart e Kim Novak, diz que a bruxa não pode se apaixonar. Se 
isso acontece, ela perde seus poderes. A feiticeira Circe e a 
feiticeira Alcina criam um encantamento infalível que 
aprisionará o herói. Mas podem fazer isso justamente porque 
não estão enamoradas. 
 
3. Na mulher, o conflito entre o desejo de ser amada pelo 
que é e a necessidade de manipulação é muito violento por um 
segundo motivo. Vimos que seu erotismo se move ao longo de 
duas polaridades, uma individual e outra coletiva. Na 
polaridade coletiva a mulher é atraída pelo homem que se 
encontra no centro da coletividade. Sobretudo daquelas onde 
há interação direta, concreta: o ator de teatro, o cantor de rock, 
o guru, o líder carismático em qualquer de suas formas. Em 
todos esses casos ela não faz uma escolha pessoal, mas é 
arrastada pela tendência coletiva, deseja eroticamente o que é 
admirado, amado, adorado por todos, sobretudo pelas outras 
mulheres. 
Passividade e atividade correspondem em parte a essa 
polaridade individual-coletiva. O astro famoso, o líder, o herói 
é desejado por muitas. Para tê-lo é necessário emergir da 
multidão anônima, fazer-se notar, é preciso aproximar-se dele, 
atrair sua atenção. A Bela Adormecida, na situação coletiva, 
não tem a menor possibilidade de ser vista. O príncipe não 
passa a cavalo, está sentado em seu trono, tendo diante de si a 
massa de súditos que o acalmam./Quem quiser fazer-se notar, 
ser apreciado como indivíduo tem de criar uma diferença entre 
si e os outros. Deve fazer com que sua diferença se destaque 
como um valor. 
 178  
A situação é análoga à de homens diantede uma mulher de 
extraordinária beleza. Na disputa por sua atenção vence 
somente aquele que é capaz de afirmar sua diferença. Porque 
consegue falar-lhe, interessá-la, diverti-la, deixá-la curiosa, 
porque consegue comunicar-lhe seu status e seu poder. Quem 
fica pairado, sonhador, encantado, por mais virtudes que 
tenha, não tem a menor probabilidade de sucesso. A mulher 
bela o ignorará. Em ambos os casos é necessário inteligência, 
vivacidade, artifício. 
Existe uma estreita ligação entre a raiz coletiva do 
erotismo feminino e a sedução como manipulação e intriga. 
Tudo o que é coletivo é inextricavelmente ligado ao poder e à 
luta pelo poder. Nas cortes, nas sociedades aristocráticas como 
a França do século XVIII, a sedução era um meio poderoso de 
afirmação social, de prestígio, até de revolta. Uma das obras 
mais fascinantes sobre a sedução foi escrita nesse período por 
Pierre A. F. Choderlos de Laclos: As ligações perigosas. Os 
protagonistas são dois “libertinos”, uma mulher, a marquesa de 
Merteuil, e um homem, o visconde de Valmont. Eles dedicam 
todo o seu tempo manipulando os sentimentos dos outros para 
torná-los escravos ou levá-los à ruína. Sabem usar os mais 
sofisticados jogos psicológicos para que outros se enamorem 
deles, e desfrutam o poder do amor. Usam-nos para objetivos 
torpes, como vingar-se de alguém ou simplesmente porque 
fizeram uma aposta, e a corte poderá então rir nas costas do 
ingênuo, que se deixou cair na armadilha. 
Para atingir seus objetivos, o sedutor não pode ter 
sentimentos sinceros, precisa sempre fingir. Esse tipo de jogo 
é particularmente difícil para a mulher que tem de seduzir, 
mas ao mesmo tempo deve conservar sua reputação de senhora 
irrepreensível e virtuosa. Numa carta ao visconde de Valmont, 
a marquesa de Merteuil escreve: “Meu primeiro cuidado foi 
conquistar somente as atenções dos homens que não me 
agradavam. Serviam-me para obter as honras da resistência. 
Enquanto isso, abandonava-me sem medo ao amante preferido. 
Mas como a este, sob pretexto da minha fingida timidez, jamais 
permiti que me acompanhasse em sociedade, os olhos de todos 
estavam sempre fixos no infeliz amante”. Dos amantes 
afortunados, para que não se tornassem perigosos, procurava 
obter sempre algum segredo, para poder ameaçá-los e 
 179  
chantageá-los. A todos dava a impressão de ter sido seu único 
amor, e se mostrava escandalizada somente ao pensamento de 
que alguém pudesse duvidar dela. Tudo isso exigiu uma férrea 
disciplina interior: “Se sentia qualquer desagrado”, acrescenta, 
“procurava assumir uma atitude serena e alegre; levei meu zelo 
ao ponto de sentir dores voluntárias, para poder assumir nesse 
meio tempo a expressão do prazer. Empreguei os mesmos 
cuidados para reprimir os sintomas de uma alegria inesperada. 
Assim consegui ter absoluto domínio da minha expressão 
fisionômica, coisa que tanto vos surpreendeu...” E conclui 
orgulhosamente: “Se consegui, segundo meus gostos, de vez 
em quando prender ou afastar de mim esses tiranos 
desentronizados, tornados meus escravos... devereis 
forçosamente concluir que, nascida para vingar meu sexo e 
dominar o vosso, devo ter sabido inventar métodos antes 
desconhecidos!” 
 
4. O mundo, aristocrático do século XVIII desapareceu. 
Nenhum homem perde a reputação se uma mulher o rejeita, 
nenhuma mulher se arruína socialmente se se entrega a um 
libertino. Porém, os mecanismos da sedução e da manipulação, 
o estudo frio dos sentimentos alheios para compreender suas 
ações e tirar partido deles ainda subsiste. Menos cínico, menos 
cruel, e até mais escondido. Mas um olho atento sabe 
reconhecê-lo no mexerico confidencial. Este, não obstante o 
feminismo e uma igualdade maior, continua a ser um 
instrumento de luta e de defesa feminina. Os homens ficam 
aturdidos quando ouvem as mulheres falar da vida particular 
de amigos e conhecidos comuns. Destes, em geral, eles 
conhecem apenas o comportamento profissional, enquanto as 
mulheres conhecem com detalhes o comportamento íntimo. 
Sabem que fulano tem uma amante, quando se encontraram, 
onde se encontraram, como lhe fez a corte, que vestido ela 
usava quando se viram pela primeira vez, onde costumavam 
comer, que gafes ele ou ela cometeram. Para o homem, esse é 
um conhecimento que o deixa espantado. Mas o que o deixa 
realmente estupefato é a descrição de todas essas relações em 
termos de artifícios: as intenções dele, as intenções dela, as 
manobras, os cálculos, os erros cometidos, correções. 
 180  
Há mulheres capazes de descrever dessa forma a vida 
amorosa de uma cidade. Algumas dessas especialistas em 
mexericos, como Elza Maxwell, tornaram-se famosas no 
mundo inteiro. Porém, são muitas as escritoras que em seus 
romances reconstroem os ambientes sociais de modo análogo. 
Como exemplo temos o romance de Jacke Collins, Luz! 
Câmera! Ação! Diante dessa análise implacável, todos os 
sentimentos mais nobres parecem ingênuos, todos os homens 
mais famosos se revelam miseráveis, inaptos e impotentes, 
sempre, entretanto, vítimas de mulheres espertas que 
calculadamente haviam preparado as armadilhas. No mexerico 
confidencial, todos são manipuladores ou manipulados. A vida 
erótica e sentimental desses seres humanos torna-se um 
museu dos horrores. 
O mexerico confidencial dá sempre a impressão de 
promiscuidade. Na verdade as mulheres que conhecem os 
amores e atividades sexuais de todos, que ouvem as 
confidências de todos, vivem definitivamente no interior de 
uma grande comunidade erótica promíscua. De uma 
promiscuidade velada e hipócrita que condenam, mas de que 
são, inexoravelmente, cúmplices. 
 
5. O romance cor-de-rosa situa-se do lado oposto do 
mexerico confidencial. Nele a manipulação não recompensa. A 
rival — que seduz e manipula sem escrúpulos — pode vencer 
cem batalhas, mas no final perde a guerra. Como vimos, o 
romance cor-de-rosa não descreve um processo de 
enamoramento, mas as ânsias, os medos da mulher diante do 
amor. Seu desdobramento demonstra que esses medos são 
inexistentes, que podem ser vencidos. 
Num universo onde tudo é manipulação, a pessoa 
sinceramente enamorada, que quer a felicidade da pessoa 
amada, que não aceita mentir e não sabe fazê-lo, perde sempre. 
No romance cor-de-rosa, não. Aqui a mulher pode se identificar 
com a enamorada que não seduz, que não sabe seduzir, que 
não quer seduzir e que, por isso, está em poder da rival e da 
incompreensão do homem. Uma situação extremamente 
angustiante, paralisante. No romance cor-de-rosa, essa angústia 
aparece nas crises em que a mulher gostaria de falar, explicar-
 181  
se, prevenir o homem, mas perde o controle, fica sem palavras, 
foge. Não luta, renuncia à competição. 
Dessa forma, o romance cor-de-rosa descreve uma situação 
amorosa competitiva em que a mulher renuncia à competição e 
mesmo assim vence. O amor consegue prevalecer por si 
mesmo, sem palavras, sem artifícios e pela sua força interior, 
derrotando a sedução e a intriga. 
O romance cor-de-rosa põe em cena o dilema da mulher, o 
dúplice e contraditório imperativo que a lacera: usar o artifício 
ou não usá-lo. No final, é o não-artifício que vence. Vence a boa 
fé, a simplicidade, o silêncio, o bem. Mas não é uma vitória 
fácil. Durante todo o livro o artifício leva vantagem 
continuamente. A situação nunca deixa de ser perigosa. 
Escolhendo o caminho do não-artifício, a mulher se defronta 
continuamente com o abismo da perda. 
O romance cor-de-rosa dá, dessa forma, uma indicação 
moral. É preciso ser muito corajoso para ser sincero, resistir à 
tentação da manipulação, da chantagem, do poder. Mas para 
encontrar o verdadeiro amor é preciso possuir um coração 
puro. O perigo é gravíssimo, mas o prêmio, sublime. 
 
27 
 
1. No homem não existe o dilema da sedução que 
caracteriza a mulher. No homem há uma tensão entre amor e 
sexualidade,entre fidelidade e promiscuidade, entre 
responsabilidade e jogo. 
O homem sente uma profunda necessidade de amor, 
precisa de segurança emocional. Sem ela, é tomado de 
angústia, e seu desejo erótico desaparece. Apesar disso, é 
sempre muito difícil para ele canalizar todo o seu erotismo 
para uma única pessoa, mesmo quando gosta dela, quando 
precisa dela, até mesmo quando está profundamente 
apaixonado. A separação, sempre possível, entre sexualidade e 
amor, coloca-o frequentemente num beco sem saída. 
Darei um exemplo. A presença dos filhos em casa 
frequentemente mata, no homem, um certo tipo de erotismo 
 182  
louco, típico dos enamorados e dos amantes. Mata-o porque 
deve controlar-se, esconder-se, estabelecer horários, porque 
deve calar-se. Porque não pode explodir, não pode realizar no 
espaço doméstico o excesso dionisíaco, o paraíso de êxtases, a 
fusão total e exclusiva com a mulher, sem que haja nada nem 
ninguém entre eles. O erotismo masculino é descontínuo, mas 
no intervalo luminoso é total, não admite contaminações. A 
convivência cotidiana, a educação, a etiqueta, os olhos 
indiscretos, tudo isso destrói a área separada, o frenesi e o 
mistério. Destrói sobretudo a distância, a diferença, o que 
torna o erotismo para o homem erotismo, e não outra coisa. 
Na mulher essa exigência de separação, de especificidade, 
é muito menor. Afeto, ternura, emotividade e erotismo 
caminham juntos. 
Para muitas mulheres a gravidez é um enriquecimento do 
amor em relação ao marido. Esperam que ele admire sua nova 
beleza de gestante e sofrem se isso não acontece. Para muitas 
mulheres o nascimento do filho completa o amor dos dois. 
Algumas se sentem plenamente enamoradas somente quando 
se tornam mães
110
. Tudo se desenvolve no nível do contínuo, do 
crescimento. Para demonstrar ao marido um amor maior, a mãe 
acha natural levar o filho para a cama, acariciá-lo, apertá-lo 
contra o peito. Depois espera que, ao acordar, o marido seja 
cavalheiresco, lembre-se de lhe enviar flores. Nem se dá conta 
de que o marido teria desejado um outro tipo de erotismo, 
dirigido exclusivamente a ele. Também o homem fica 
emocionado ao contato com o corpo macio do filho, mas essa 
emoção não tem nenhuma relação, nenhuma semelhança com o 
desejo que sente pelo corpo excitado da fêmea, pelos espasmos 
do ventre, da pelve. O relacionamento com a mulher, com o 
filho, aumenta-lhe uma outra forma de amor. É um amor 
compenetrado de dever, de responsabilidade. Algo que o 
macho da espécie humana aprendeu nos milhões de anos de 
sua humanização, quando, como caçador e guerreiro, tinha que 
defender o território e, com este, a mulher e os pequenos 
desarmados e fracos. 
 
110
 Há um conto divertido de Patricia Highsmith, "La fattrice”, no livro Piccole storie di misoginia, 
trad. ital., Milão, La Tartaruga, 1984, em que a mulher exprime toda a sua feminilidade fazendo 
filhos, até que o marido enlouquece. 
 183  
É um amor que se assemelha ao amor materno, mas não 
possui suas virtudes sensoriais, táteis, cinestésicas, e, 
sobretudo, não tem nada de erótico. É um amor vigilante, feito 
de cuidados, de atenções, mas dissimulado. É um amor que se 
manifesta em ações, não em carícias. É um amor que se 
exprime na defesa contra os perigos externos, cujo símbolo 
mais adequado é a sentinela que vigia, fora do campo, na 
noite. É um amor que não se importa com a distância, que não 
tem necessidade da proximidade física, do contato. Esse tipo 
de amor cresce continuamente com o passar dos anos do 
casamento, cresce com o nascimento dos filhos, cresce com a 
vida em comum. É um amor cimentado por recordações 
compartilhadas, pelo fato de terem lutado juntos contra as 
adversidades. É entrelaçado de intimidade intelectual e 
espiritual, do hábito do diálogo. Desse modo, a mulher se 
torna para o homem a outra “metade”, como se dizia antiga-
mente. 
No entanto, esse amor tão verdadeiro, tão profundo, pode 
não ter absolutamente nada de erótico. Assim, o homem pode 
encontrar-se amando profundamente uma pessoa, alguém que 
lhe é indispensável, mas com relação a quem não sente 
nenhuma atração erótica e, em muitos casos, sente até certa 
repugnância. Então pode fazer amor com todas as outras 
mulheres do mundo, menos com ela, ou então o faz por dever, 
por obrigação. Quando frequenta a sociedade, ou viaja, não 
pode evitar confrontos entre ela e as outras, e quanto mais 
olha para as outras, mais a sua lhe parece feia. Envergonha-se 
dela. Mas isso ocorre sem que estejam em jogo a estima, o 
reconhecimento, o afeto que sente por ela. Pode continuar a 
apreciar suas extraordinárias qualidades intelectuais e morais, 
a generosidade, o espírito de sacrifício, a coragem. Pode 
considerar preciosos seus conselhos, viajar de boa vontade 
com ela. Não gostaria, sobretudo, de lhe fazer qualquer mal, e 
sofre pela própria indiferença, sente-se culpado. 
Esse conjunto de sentimentos certamente pertence à área 
do amor. Aquele homem pode dizer que ama aquela mulher. 
Porém, ela lhe é eroticamente estranha, não pode mais 
satisfazer sua necessidade de erotismo. Uma necessidade que 
permanece intacta como a fome, a sede, e que o lacera. 
 184  
As mulheres não experimentam esse tipo de laceração. 
Para elas, erotismo e amor são gêmeos. Se perdem todo o 
interesse erótico pelo marido é porque não o amam mais. Então 
nem querem vê-lo. Se ao contrário, o amam, então continuam a 
esperar dele um gesto romântico, uma carícia, um abraço, uma 
atenção amorosa, que, para elas, é erotismo. O cavalheirismo 
não é erotismo, as flores não são erotismo, a gentileza não é 
erotismo, a carícia não é erotismo. O erotismo, para o homem, 
é uma região distinta, por si mesma, esplendorosa e 
atormentada, sempre desejada e sempre fugidia, que aparece e 
desaparece continuamente como uma miragem. 
O drama específico do homem é, portanto, o de amar uma 
pessoa desejando outra, e encarar esse sentimento como culpa. 
Culpa não expiável, pecado original que ele procura remediar 
aumentando suas responsabilidades, seus cuidados e deveres. 
Mas em vão, pois não é isso que lhe é pedido, mas a união de 
duas coisas que nele se dividem caprichosamente. É esse 
conflito a causa da autodisciplina que os homens sempre se 
impuseram desde a Antiguidade. Do governo de si mesmos, da 
repressão sexual que sempre consideraram meritória. Já 
tínhamos visto e tornamos a ver agora: na mulher, erotismo e 
moral concordam, no homem, não. 
 
2. Wilhelm Steckel
111
 demonstrou, desde o início do século, 
que a mulher se torna frígida quando não se sente amada, 
apreciada, objeto de atenção. Quando sente que não agrada ou 
é rejeitada. Também o homem tem necessidade de ser 
estimulado eroticamente, necessita do desejo, do apreço sexual 
da mulher. Porém, seu desejo diminui com a repetição e requer 
um alimento de diversidade. Essa é uma regra geral que todos 
os homens estão prontos a negar para agradar à mulher amada, 
mas que é verdadeira. Mesmo com a mulher de quem está 
enamorado, loucamente enamorado, o homem, uma vez ou 
outra, tem necessidade de ter fantasias eróticas em que 
comparecem outras mulheres ou a sua fazendo amor com 
outro. No enamoramento essas fantasias têm o significado de 
fazer convergir sobre a amada recordações, emoções 
 
111
 Wilhelm Steckel: La donna frigida, já citado. 
 185  
separadas, de concentrar nela uma energia erótica fixada 
noutro lugar. Desse modo, ela se torna todas as mulheres do 
mundo, e ao mesmo tempo, ele se torna todos os homens que 
ela já teve. 
Daí decorre uma consequência não indiferente. Se a 
mulher, no casamento ou na convivência amorosa, se sente 
amada de modo terno e gentil, se se sente cercada de atenções, 
está eroticamente satisfeita. Seu erotismo até aumenta. Mas 
esses mesmos estímulos não excitam o homem. Ao contrário,um mundo feito de ternura, de cuidados, de amorosa 
exclusividade, de tranquilidade habitual pode tornar-se para 
ele uma verdadeira prisão que liquida todo o seu erotismo, até 
a náusea, até a impotência. Se a causa mais frequente da 
frigidez feminina é a insensibilidade e a brutalidade do 
homem, uma causa frequente da impotência masculina é a 
possesividade amorosa da mulher. 
 
3. O drama específico do homem se manifesta sob a forma 
de sentimento de culpa. Quando uma mulher resolve ter uma 
relação erótica com outro homem, de modo geral não 
experimenta remorsos. Pois se isso acontece, significa que se 
sente atraída emocionalmente, que sente ou começa a sentir 
um pouco de amor. Se a relação se transforma numa ligação 
erótico-amorosa mais profunda, então quer ter aquele homem 
todo para si, e não suporta mais as ligações precedentes. Se é 
casada, deseja divorciar-se, e após a separação procura reduzir 
ao mínimo os contatos com o ex-marido. Contudo, não 
experimenta remorsos. 
O homem, ao contrário, experimenta sentimento de culpa 
do começo ao fim. No começo porque, mesmo que para ele o 
encontro erótico seja confinado ao campo sexual e não tenha 
implicações emocionais, sabe que para a mulher não é assim. 
Sabe que para ela seu comportamento é uma traição amorosa. 
Mesmo que sua mulher não dê grande importância ao 
relacionamento sexual, tem necessidade principalmente de 
ternura, afeto, galanteria, carícias, abraços, e não quer que ele 
tenha relações sexuais com outras. Mesmo que o sexo não a 
interesse, quer ter dele exclusividade, monopólio. Por isso ele 
tem sempre a impressão de enganá-la, de fazê-la sofrer. Isso 
 186  
está em contraste total com sua vocação moral, que o leva a 
assumir a responsabilidade do bem-estar das pessoas que ama. 
Só que, nesse caso, o único modo de tranquilizar a mulher é 
não agir, não fazer nada, renunciar aos seus desejos. Se os 
satisfaz, experimenta sentimento de culpa. 
Ainda mais forte é o sentimento de culpa se sua relação se 
torna amorosa. Na mulher, o amor se autolegitima. Sua moral 
lhe diz: “Se ama alguém, vá com ele”. No homem, ao contrário, 
o erotismo pertence ao domínio do prazer. Sua moral lhe diz: 
“Seja fiel aos pactos, cuide daqueles que dependem de você, 
não faça sofrer os que o amam e que você ama”. Somente o 
enamoramento, no homem, produz parcial legitimação do 
amor. É como uma explosão que subverte as regras morais 
correntes. Interiormente ele sente ter o direito de seguir seu 
amor. Mas, mesmo nesse caso, a outra moral, a moral da 
responsabilidade, continua a agir. Portanto o homem, mesmo 
enamorado, não deixará de se preocupar com a pessoa que 
deixa, sente-se responsável pelo seu sofrimento. É sempre a 
mulher que o força a deixar a outra. É sempre ela que lhe 
explica que tem o direito de fazê-lo, que aliás tem o dever de 
fazê-lo, porque ficando com a outra sem amá-la só lhe poderá 
fazer mal. 
É errado ver nesse comportamento uma particular 
competitividade feminina com relação ao próprio sexo. A 
mulher simplesmente acha que quando se ama alguém deve-se 
amar somente a ele e que não existem outros compromissos 
éticos a respeitar. Partindo com quem ama, a mulher respeitou 
todos os seus compromissos morais. Em vez disso, o homem, 
por milhares e milhares de anos, aprendeu que seu primeiro 
dever é para com a comunidade, a família, a mulher, os filhos, 
e que o erotismo é algo a mais. Algo que pode obter com a 
mulher ou com as concubinas ou as escravas; que pode obter 
até com a guerra e o saque. Mas tudo isso não deve interferir 
em seus deveres primários, que não são eróticos. 
Quando as mulheres afirmam que os homens são mais 
hesitantes, incertos nas coisas do amor, dizem a verdade. Elas, 
pelo sim ou pelo não, não têm posições intermediárias. Mas, 
para o homem, esse modo de pensar foi por milênios 
profundamente imoral, irresponsável. Só recentemente, com o 
 187  
desaparecimento do patriarcado, com a independência 
feminina, com o controle da natalidade, com a assistência 
social, os pesos tradicionais da responsabilidade masculina 
foram se atenuando. O que resta é um hábito mental, uma 
espécie de sensibilidade moral que não tem mais uma 
justificação objetiva. Por isso mesmo o modelo feminino tende 
sempre a prevalecer, e o homem já está sentindo sua incerteza, 
sua indecisão, não como virtude, mas como uma fraqueza 
culpável. Ainda uma vez e, paradoxalmente, como sentimento 
de culpa. Por outro lado, também na mulher há uma inércia dos 
velhos comportamentos. A mulher é atraída eroticamente pelo 
homem forte, fidedigno, em cujos braços pode se refugiar. O 
herói é capaz de vencer os obstáculos interiores e exteriores, é 
senhor de suas emoções. Se ama, ama profundamente, toma 
sobre si a responsabilidade até o sacrifício, até o heroísmo. O 
“verdadeiro homem” não se enamora da primeira ninfeta que 
encontra, não foge com a primeira bailarina de pernas 
irresistíveis. A mulher espera que o homem, depois de tê-la 
escolhido, saiba resistir às paixões suscitadas pelas outras. Se 
cede, é fraco, irresponsável, imoral. 
Somente uma personagem não se enquadra nessa obsessão 
moral feminina: o astro famoso, o cantor, o ator célebre, 
idolatrado pela multidão, adorado por todas as mulheres que 
se aproximam dele. Porque, nesse caso, põe-se em ação o outro 
componente do erotismo feminino, o coletivo, que renuncia à 
exclusividade. O mundo do espetáculo é o grande templo desse 
tipo de erotismo e um modelo de referência para os homens 
das últimas gerações. Enquanto até os anos 50 os grandes 
astros de Hollywood se atinham, pelo menos formalmente, a 
um tipo de moralidade sexual convencional, hoje todos os 
nossos astros se apresentam como transgressores. Primeiro os 
Beatles, depois os Rolling Stones e depois, pouco a pouco, até o 
último cantor de rock, o novo ídolo, não se casa mais, vive 
cercado por um harém geralmente bissexual, usa drogas, 
recusa todos os deveres e responsabilidades do homem casado 
comum. Os novos ídolos representam uma fantasia de 
liberação das responsabilidades para todos os homens com 
eles identificados. Sobre as mulheres, eles exercem uma 
atração erótica direta. Sobre os homens, produzem um efeito 
euforizante, pois exibem uma modalidade erótica totalmente 
 188  
indiferente ao sentimento de culpa e, apesar disso, apreciada 
pelo outro sexo. Desse modo, um modelo ideal que muitos 
sonham poder realizar um dia. Poder chegar, graças ao 
sucesso, além do bem e do mal, à região do arbítrio absoluto. 
 
 
 189  
 
 
Convergências 
 
 
 190  
28 
 
1. Existem pessoas dotadas de forte carga erótica. Pessoas 
em que o erotismo é um elemento essencial da vida, sem o que 
se extinguem, como se lhes faltasse o ar ou o alimento. Outras, 
ao contrário, parecem quase não possuí-lo. O que não significa 
que não tenham interesses; é como se não possuíssem esse 
tipo particular de sensibilidade vital. Na maior parte dos casos, 
entretanto, o erotismo não é constante, mas se apresenta com 
grandes variações. Não estou me referindo àquele interesse
-
 
erótico que sempre pode ser despertado com estímulo 
suficiente. Refiro-me ao grande erotismo, ao erotismo como 
fato central da existência, que lhe dá sentido. Nessas pessoas, 
a riqueza erótica se manifesta somente em alguns momentos 
da vida. Em determinado período da adolescência, por 
exemplo, mas sobretudo quando se enamoram. São esses os 
tempos do erotismo extraordinário, as estações do amor. 
Depois, passado o grande amor, a paixão, toma seu lugar a vida 
cotidiana e o erotismo passa em surdina comparado a outros 
interesses e preocupações. 
Os resultados de todas as pesquisas sobre a sexualidade 
humana, a partir do famoso Relatório Kinsey, mostram que o 
tempo dedicado à atividade amorosa é extremamente curto. 
Todos os sexólogos confirmam que são bem poucasas pessoas 
que têm vontade, tempo, desejo de fazer amor por horas e 
horas com a pessoa que amam. São poucas aquelas que, após o 
ato sexual, não se sentem cansadas, aborrecidas ou tristes, mas 
ao contrário se sentem felizes, renovadas, serenas. A maioria 
das pessoas está, em última análise, de acordo com o provérbio 
latino que diz 
((
Post coitum animo triste”. Michel Foucault 
demonstrou em suas últimas pesquisas que essa concepção 
deriva da medicina grega e romana, segundo as quais no 
relacionamento sexual ocorre uma perda de forças vitais. Uma 
ideia depois retomada pelo cristianismo e que sobreviveu até 
alguns decênios passados, quando, aos rapazes que se 
masturbavam, prognosticava-se as mais horríveis doenças. 
Essa concepção não existe na medicina oriental. Aliás, no 
taoísmo pensa-se que os relacionamentos sexuais longos e 
 191  
frequentes (melhor ainda se com parceiros diversos) aumentam 
as forças vitais e prolongam a vida. Isso porque o homem se 
enriquece com o princípio feminino yin e a mulher, com o 
princípio masculino yang. Porém, mesmo no taoísmo 
permanece o medo do empobrecimento. Cada um dos dois 
sexos deve procurar extrair do outro o mais possível do 
princípio complementar, dando o mínimo de si. Na prática 
taoísta o homem é instado a reduzir a ejaculação, e chegando a 
uma certa idade, suspendê-la definitivamente. 
A reviravolta completa dessa impostação conservadora, 
predatória, voraz só acontece quando aparece o enamoramento 
individual. Quando aquela pessoa se torna única e 
insubstituível. Então ambos se desejam, sentem necessidade de 
ver-se, tocar-se, abraçar-se, beijar-se, fazer amor, dar-se 
completamente. As pessoas enamoradas, homem ou mulher, 
não importa, quando estão longe um do outro, sentem diminuir 
em si a energia vital. É como se seu organismo, suas células, 
tivessem necessidade do contato físico com o outro. Aparecem 
os sintomas da depressão. Perdem o apetite, o sono. Acordam 
pela manhã, e a primeira coisa que sentem é a dolorosa falta do 
corpo amado. E não conseguem adormecer de novo se não 
imaginam vê-lo, abraçá-lo, segurar-lhe a mão. Quando 
finalmente o encontram de novo, quando finalmente se 
apertam contra ele, é como se seu organismo se recarregasse 
de energia vital. Como se do outro emanasse um fluido 
vivificador que lhes renovasse as forças. 
Fazendo amor longamente, desesperadamente, o corpo se 
carrega como uma bateria elétrica, torna-se cada vez mais vivo, 
mais forte. O que a pessoa amada nos dá, seus beijos, sua pele, 
seus humores, são nutrientes que nos robustecem a ponto de nos 
sentirmos de novo fortes, capazes de nos levantar, trabalhar, 
partir. Até de enfrentar uma separação. Depois, após um certo 
período, é como se a energia acumulada se descarregasse. 
Sentimos então um cansaço, uma sensação de peso, uma 
fraqueza dolorosa. Temos novamente necessidade daquela boca, 
daquela pele, daquele corpo, o único que nos pode transmitir a 
energia que se esvai, o único no mundo que a possui. 
Nessa situação, a ideia de que fazer amor enfraquece é um 
absurdo. É somente fazendo amor, dando-nos totalmente que 
 192  
encontramos de novo a nossa força. Nosso amado é nosso 
alimento, nossa bebida, nosso ar. E nós somos o mesmo para 
eles. O ato amoroso, a maneira pela qual, nutrindo-o, nos 
nutrimos. 
As pessoas dotadas de forte carga erótica vivem a 
sexualidade dessa maneira. Quanto mais dão, mais recebem. Se 
bem que, em geral, estreitamente ligado ao enamoramento e à 
paixão, esse erotismo generoso pode apresentar-se em certos 
casos também de forma leve, alegre, sensual. Não tem 
necessidade de fixar-se num objeto, excita-se sempre com 
novas formas, novos corpos, com a novidade. Está baseado 
numa grande excitabilidade de todos os sentidos: a visão, a 
audição, o olfato, mas também o tato, a sensibilidade 
muscular, cutânea. Responde aos mais leves estímulos, aos 
sinais mais fracos. Adivinha o mais tênue convite de sedução, 
individualiza-o, mesmo se é velado, e a ele responde 
prontamente. Por isso faz desabrochar o erotismo à sua volta 
porque o reconhece, dá-lhe seu sorriso, seu entusiasmo, sua 
segurança, sua energia. As pessoas desse tipo amam a vida, 
amam o prazer em todas as suas manifestações. Se é homem, 
encontra algo de belo e excitante em todas as mulheres. Se é 
mulher, identifica imediatamente o homem que lhe agrada e 
fica feliz se consegue ser notada prontamente. O primeiro 
envolve a mulher com seu desejo até fazê-la vibrar. A mulher 
se abandona ao prazer da sedução e de ser seduzida. 
Porém, em geral, para revelar-se completamente, o 
erotismo tem necessidade de um objeto único onde descobrir 
todas as potencialidades. Não é necessário que no início exista 
enamoramento. Esse tipo de erotismo nem é necessariamente 
muito fiel. Porém, não está disponível para todos os estímulos. 
Não tem os sentidos sempre alerta e prontos a captar o mais 
leve sinal de sedução. Aliás, em geral, reage muito pouco, 
chegando mesmo a parecer obtuso. Sua força reside na 
concentração. Quando escolhe um objeto, quando o vê, quando 
o separa da massa dos outros, concentra-se nele. Somente 
então seus sentidos despertam. As sensações que o primeiro 
tipo de erotismo recolhia do mundo, esse erotismo encontra 
numa única pessoa, de quem descobre todos os aspectos, todas 
as nuances, os odores, os sabores, as infinitas formas 
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possíveis, os brilhantismos, num turbilhão de fantasias que se 
concentram todas no mesmo ponto. Como os raios de sol 
através de uma lente, antes que a temperatura fique altíssima e 
as vibrações, os sentimentos, atinjam o calor branco da 
sensualidade e da fusão. 
 
2. O erotismo é uma forma de interesse por outras 
pessoas. É generosidade intelectual e emocional, capacidade de 
dar- se, de dedicar-se, de abandonar-se. O grande erotismo é o 
oposto da avareza, da mesquinhez, da prudência. 
Naturalmente pode haver generosidade sem erotismo. 
Pensemos nas mulheres com forte componente maternal, 
capazes de dedicação total a uma outra pessoa, esquecendo-se 
de si mesmas. Entretanto, essa dedicação pode ter pouca ou 
mesmo nada de erótico. Encarrega-se de todas as necessidades 
do amado: da alimentação, roupas, divertimentos. Vela por seu 
sono, cuida dele e o guia como faria uma mãe. Chega mesmo a 
simular excitação erótica como no conto de Colette em que 
uma mulher enamorada — mas totalmente frígida — finge um 
orgasmo que não sente, e seu grito é como um canto 
agudíssimo que faz feliz seu jovem amante
112
. Mas o verdadeiro 
erotismo implica também um envolvimento real de si mesmo, 
do próprio prazer. É, a um só tempo, altruísmo e egoísmo, 
síntese dos dois. 
Ainda mais afastado do erotismo é aquele amor pelos 
outros, todos os outros, que o cristianismo chama “caridade”. 
Na caridade o amor não se restringe ao filho ou ao amado, 
transborda. Os que são capazes desse altruísmo não sentem 
mais as próprias dores, as próprias preocupações, ou então as 
consideram de pouca importância. Participam das dores dos 
outros, sofrem com eles e se dedicam totalmente a eliminá-las. 
Nunca pensam no próprio prazer, e, assim, o erotismo está 
infinitamente longe de seus pensamentos. Entretanto, são mais 
semelhantes às pessoas capazes de forte erotismo do que as 
pessoas avaras, cobiçosas, frias, fechadas, egoístas. 
Existe uma ampla relação entre a grande mística ocidental, 
cristã e islâmica, e o amor apaixonado. A poesia de Ibn al-Dja- 
 
112
 Colette: Il puro e l’impuro, já citado. 
 194  
bari
113
 é ao mesmo tempo religiosa e erótica. O grande poema 
de Rumi
114
 é um edulcorado canto de amor e de esperança, de 
nostalgia e de fé. Também na poesia italiana de Dante e 
Petrarca há arrebatamento amoroso pela mulher e pela 
divindade. Nas origens da mística alemã está o movimento 
erótico-religioso das beguinas
115
,

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