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1 C M Y CM MY CY CMY K portada crop marks título corrigido.pdf 1 8/11/2023 4:29:00 PM Novos modelos de compostagem nas cidades: integrando reciclagem, agricultura e moradia Diretoria Do instituto Pólis Henrique Botelho Frota, Margareth Matiko Uemura, Danielle Klintowitz [in memoriam] CoorDenaDora Da Área De resíDuos sóliDos e agroeCologia Maria Elisabeth Grimberg CoorD. exeCutivo Da Área De resíDuos sóliDos e agroeCologia Victor Hugo Argentino de Morais Vieira assessores André Ruoppolo Biazoti Clauber Barão Leite assistente Laís Ferreira dos Santos autores Victor Hugo Argentino de Morais Vieira Laís Ferreira dos Santos CoorDenação eDitorial Victor Hugo Argentino de Morais Vieira revisão téCniCa André Ruoppolo Biazoti Maria Elisabeth Grimberg revisão ortogrÁfiCa Natália Pinheiro Soares CaPa e ilustrações Fabián Pérez Tencio Projeto grÁfiCo Renata Alves de Souza Tipo Gráfico Comunicação Este estudo só foi possível graças a uma ampla rede que contribuiu direta ou indiretamente a quem agradecemos imensamente. Algu- mas contribuições, ainda na fase de concepção do estudo e ideias, foram de Carlos Henrique Andrade de Oliveira, Kellen Pasqualeto e Joice Pinho Maciel (Apoena Socioambiental), Lara Oberdá e Dione Manetti (Pragma), Tiago Villavoid, Alejandro Gómez (Asociación de Recicladores los Goleros aliada a la Asociación de Recicladores de Bogotá – ARB), Valquiria Candido da Silva e Davi Amorim (MNCR). PartiCiPantes Das entrevistas Wiviane Bueno da Maia (ACAMARTI); Luiz Vaz da Silva (COOMPAG); Osmar Vidal (CoperCicla); Edilene Luiza Oliveira Alves, Paulo Alves Trentin, Paulo Jorge e George Euzébio (CooperCicli); Mateus Rocha (SEAGRI/Põe no Balde); Cíntia Aldaci da Cruz (Revolução dos Baldinhos); Edinéa Rodrigues e Adelaide Silva (VerdeCoop); Andriele de Medeiros Martins (Pila Verde). PartiCiPantes Das ofiCinas Luiza Maria Honorato (Cooper Viva Bem), Maria Divina de Freitas (Mulheres Assim Assim), Fernanda de Carvalho Tavares (Casa do Catador), Renato dos Prazeres e Maria Auxiliadora dos Prazeres (Cooper Cral), Elizabete Maria Rocha (Base Futura), Maria Dul- cineia Silva Santos (MNCR), Maria Aparecida Rodrigues (COOP Rosas de Saron), Angiscleide Ferreira, Valquiria Candido da Silva (COOPERPAC/MNCR), Helena da Silva Novais (COOPERPAC), Marcelo Nogueiro da Silva (ASCARTI), Geralda Quirina dos Santos Silva, Gabriela de Aquino e Lucineia (COOPERPOBA). Esta publicação pode ser reproduzida por completo ou em parte e, de qualquer forma, para serviços educacionais ou sem fins lucrativos sem permissão especial do detentor dos direitos autorais, desde que seja feita referência à fonte. O Instituto Pólis gos- taria de receber uma cópia de qualquer publicação que usar esta publicação como fonte. Nenhum uso desta publicação pode ser feito para revenda ou qualquer outro propósito comercial sem a permissão prévia do detentor dos direitos autorais. Os pedidos de permissão, com uma declaração do propósito e extensão da reprodução, devem ser endereçados a contato@polis.org.br. Este estudo também possui um Resumo Executivo como apêndice. São Paulo, setembro de 2023 Apoio: Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Vieira, Victor Hugo Argentino de Morais Novos modelos de compostagem nas cidades [livro eletrônico] : integrando reciclagem, agricultura e moradia / Victor Hugo Argentino de Morais Vieira, Laís Ferreira dos Santos. -- 1. ed. -- São Paulo : Instituto Pólis, 2023. PDF Bibliografia. ISBN 978-85-7561-099-2 1. Agricultura 2. Compostagem 3. Reciclagem (Resíduos etc.) 4. Reciclagem do lixo I. Santos, Laís Ferreira dos. II. Título. 23-166126 CDD-631.875 Índices para catálogo sistemático: 1. Compostagem : Agricultura 631.875 Aline Graziele Benitez – Bibliotecária – CRB-1/3129 Sumário Um breve cenário da gestão de resíduos orgânicos compostáveis no Brasil e a emergência necessária de novos modelos de gestão 6 Metodologia 12 Estudos de caso 16 CoperCicla (Santa Cecília do Sul/RS) 18 VerdeCoop (Entre Rios/BA) 20 Revolução dos Baldinhos (Florianópolis/SC) 22 ACAMARTI (Tibagi/PR) 24 CooperCicli (Caetité/BA) 26 COOMPAG (Paragominas/PA) 28 Põe no Balde (Marabá/PA) 30 Pila Verde (Santiago/RS) 32 Mesmo problema, diferentes soluções: como funcionam os modelos inovadores de gestão de resíduos orgânicos compostáveis nas cidades? 34 Sistema de governança na gestão dos RSU orgânicos e compostagem 35 Perfil de gênero e raça 41 Escalas de operação das organizações e da compostagem 43 Sistemas de separação e coleta dos resíduos orgânicos compostáveis 45 Caracterização da operação da unidade de compostagem 49 Equipes 52 Impacto econômico: geração de emprego e renda nos sistemas de compostagem com catadores/as 53 Uso e manejo do composto orgânico produzido 57 Desafios e potenciais para o fortalecimento e ampliação de novos modelos de gestão de resíduos orgânicos e compostagem 62 Desafios e oportunidades na fase de implantação para organizações de catadores e catadoras 63 Desafios na fase de operação dos novos modelos de gestão de resíduos orgânicos e compostagem 67 Conclusões e recomendações 70 Lista de siglas e abreviaturas 72 Glossário 73 Referências bibliográficas 75 6 Um breve cenário da gestão de resíduos orgânicos no Brasil e a emergência necessária de novos modelos de gestão Os resíduos sólidos urbanos (RSU) são definidos como a soma dos resíduos domésticos e os resíduos de limpeza pública, conforme definido na Política Nacional de Resíduos Sólidos (BRASIL, 2010). Uma das principais responsabilidades dos municípios é fornecer os serviços públicos de limpeza urbana e gerenciamento de RSU, incluindo a compostagem (BRASIL, 2020a). É responsabilidade do titular dos serviços implantar sistemas de compostagem e articular com os agentes econômicos e sociais formas de utilização do composto produzido (BRASIL, 2010). Mas por que é tão importante falar sobre compostagem? A reciclagem dos resíduos orgânicos ocorre principalmente por meio de duas tecnologias: a compostagem e a digestão anaeróbica. Os resíduos orgânicos compostáveis representam quase 50% da massa total de RSU no Brasil (Figura 1), ou seja, a compostagem é uma das principais soluções para metade do problema dos RSU (Quadro 1). Figura 1: Estimativa da composição dos resíduos sólidos urbanos no Brasil. Matéria orgânica Têxteis, couros e borracha Metais Vidro Plástico Papel e papelão Embalagens multicamadas Rejeitos Outros 45,3% 5,6% 2,3%2,7% 16,8% 10,4% 14,1 % 1,4% 1,4% Fonte: ABRELPE (2020). Vale ressaltar que a principal diferença entre essas tecnologias é que a compostagem ocorre na pre- sença de oxigênio, resultando na produção de composto orgânico, enquanto a digestão anaeróbica acontece na ausência de oxigênio e gera biogás e digestato (Figura 2). Neste estudo, vamos nos con- centrar na compostagem, uma vez que a digestão anaeróbica é mais complexa e ainda não há expe- riências de grande escala envolvendo catadores(as), agricultores(as) e outros grupos. 7 QUADRO 1 O QUE É A COMPOSTAGEM E COMO SURGIU? A compostagem é um processo controlado de decomposição biológica dos resíduos or- gânicos por meio de microrganismos que ocorre em condições aeróbias e termofílicas (na presença de oxigênio e em temperaturas elevadas), cujo resultado é um material estabilizado com propriedades de fertilizante orgânico composto (BRASIL, 2017b, Art. 2º, inciso III). A compostagem pode ser dividida em duas fases: (1) compostagem ativa ou fase de oxidação/estabilização e (2) maturação ou fase de humificação. O processo completo da compostagem pode variar de 45 dias a alguns meses, dependendo do mé- todo de compostagem escolhido (BRASIL, 2017a). A compostagem possui diversas metodologias, desde sistemas domésticos até reatores automatizados capazes de processar centenas de toneladas por dia. A prática da com- postagem provavelmentesurgiu tão cedo quanto a da agricultura, tendo referências escritas de sistemas de compostagem próximos a 2.300 anos a.C. (RODALE, 1960 apud FITZPACK; WORDEN; VENDRAME, 2005). Os primeiros métodos científicos para em- basar o processo de compostagem foram sistematizados por Howard e Ward (1931) e Howard (1943), após estudos realizados na Índia entre 1905-1924. Figura 2: A compostagem no ciclo biológico dos resíduos orgânicos compostáveis. Beneficiamento e processamento Agricultura Áreas verdes Ciclo biológico dos resíduos orgânicos urbanos Armazenamento e transporte Mercados, feiras e restaurantes Aproveitamento de alimentos Perdas e desperdício alimentar Solo Biogás Digestão anaeróbica Compostagem Alimentação Fonte: Instituto Pólis (2021). 8 Apesar de todos os seus benefícios, as taxas de reciclagem e compostagem no Brasil ainda são muito baixas. De acordo com dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – Resíduos Sólidos (SNIS-RS), a coleta seletiva de materiais recicláveis foi responsável por 1,7 milhão de tone- ladas de resíduos em 2021 (MDR, 2022). No entanto, apenas 64% do que foi coletado seletivamen- te foram recuperados, resultando em apenas 1,7% do total coletado (65,6 milhões de toneladas) sendo destinado à reciclagem. Quanto aos resíduos orgânicos compostáveis, apenas 0,4 milhão de toneladas foi compostado, o que representa cerca de 0,6% da massa total coletada. Isso significa que, somando a reciclagem e a compostagem, apenas 2,3% de todos os resíduos coletados foram efetivamente reciclados, enquanto cerca de 97,7% foram enviados para disposição final em aterros sanitários e lixões no Brasil. Esses números, quando comparados às taxas de reciclagem e compos- tagem somadas dos países de referência na Europa, como Alemanha (69,6%), Áustria (62,3%), Eslo- vênia (59,3%) e Itália (51,4%) (EEA, 2022), são inexpressivos. Mesmo se comparado a outros países da América Latina e do Caribe, como Peru e Colômbia, próximos de 15%, e Cuba e Chile, próximos de 10%, o Brasil ainda se encontra muito abaixo da média, que hoje está em torno de 10% (UNEP, 2018; KAZA et al., 2018). Além da importância da mudança no padrão linear da economia e também da gestão de resíduos, com o aumento da reciclagem, a atenção para os resíduos orgânicos compostáveis tem aumentado, sobre- tudo devido à maior preocupação com as mudanças climáticas. Atualmente, o setor de resíduos é a terceira maior fonte de metano no mundo (UNEP; CCAC, 2021), e no Brasil é responsável por 16% do metano gerado, colocando a disposição final de resíduos sólidos em aterros e lixões como a segunda maior fonte (SEEG, 2022). A emissão do gás metano para atmosfera é uma consequência da decompo- sição de resíduos orgânicos compostáveis na ausência de oxigênio, em um ambiente anaeróbio criado quando enterramos os resíduos em aterros sanitários, por exemplo. A compostagem é indicada como a principal solução para a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) no setor de resíduos e é considerada uma prioridade na ação climática (GAIA, 2022), especialmente no âmbito municipal, dadas a relevância das emissões desse setor nas cidades brasileiras e a responsabilidade municipal na gestão dos resíduos sólidos. De maneira complementar, tão importante quanto o aumento da reciclagem e combate à mudança climática é o encerramento dos quase 2.500 lixões ainda existentes no País1. Esse é um problema que se arrasta há décadas sem solução no cenário nacional, mesmo com a promulgação de diversas leis que revisam o prazo para encerramento e tentam proibir e responsabilizar os gestores públicos (BRA- SIL, 2010; BRASIL, 2020a). O descarte inadequado de lixo é proibido no Brasil desde 1954, pela Lei nº 2.312 de 3 de setembro, pelo Código Nacional da Saúde, proibição esta que foi reforçada em 1981 pela Política Nacional de Meio Ambiente e em 2010 pela Política Nacional de Resíduos Sólidos. Em parte, o problema não é resolvido por falta de financiamento adequado para o setor e pela tentativa de apenas substituir os lixões e/ou aterros sanitários, o que acaba sendo economicamente inviável para pequenos municípios onde os lixões permanecem operando. Nesse contexto, a compostagem se apresenta como a solução técnica e economicamente mais viável, por sua flexibilidade, escalabilidade e baixo custo de implantação. A compostagem pode ser replicada desde a escala doméstica até sistemas automatizados em escalas metropolitanas, o que a torna uma opção mais acessível em termos de implantação e operação e, em muitos casos, mais barata que os próprios aterros sanitários (KAZA et al., 2018). Além do barateamento do serviço, é importante des- tacar que a compostagem e outras formas de tratamento de resíduos, como a reparação, a remanu- fatura e a própria reciclagem (manual e semimecanizada), também oferecem vantagens significativas em termos de geração de empregos, quando comparadas aos aterros sanitários. Segundo dados le- vantados por Ribeiro-Broomhead e Tangri (2021), a cada 10.000 toneladas de resíduos, essas formas de tratamento são capazes de gerar 404 (reparação), 321 (reciclagem manual), 51 (remanufatura), 17 (reciclagem semimecanizada) e 6,6 (compostagem) empregos, em média. Portanto, além de oferecer 1 O levantamento da ABETRE (https://atlas.abetre.org.br/public/atla) estima 2.448 lixões e aterros controlados em operação, número próximo aos 2.162 levantados pelo SNIS (https://www.gov.br/mdr/pt-br/assuntos/saneamento/snis/produtos-do-snis/diagnosticos/residuos-solidos) que abrangeu 82,4% dos 5.570 municípios brasileiros, com ano-base 2020. 9 uma alternativa viável e econômica em relação aos aterros sanitários, essas formas de tratamento de resíduos também desempenham um papel fundamental no desenvolvimento socioeconômico e na geração de empregos para as comunidades envolvidas. Esse fator é extremamente importante no con- texto brasileiro, visto que 69% dos municípios possuem menos de 20 mil habitantes, e 88% menos de 50 mil (IBGE, 2022), o que inviabiliza economicamente o uso de tecnologias que dependam de um grande fluxo de resíduos para ter sustentabilidade operacional-econômica. É importante destacar que a compostagem é a terceira opção dentro da hierarquia na gestão de resíduos orgânicos compostáveis (Figura 3); sendo assim, antes da compostagem devemos priorizar a redução de desperdício alimentar, o aproveitamento integral e o resgate de alimentos próprios para consumo, que não devem ir para a compostagem. Essa hierarquia é adotada na legislação brasi- leira como prioridade, descrita no nono artigo da PNRS, Lei Federal nº 12.305/2010 (BRASIL, 2010), e que deve ser seguida pelos municípios e gestores na elaboração de políticas públicas de resíduos sólidos no País. Figura 3: Hierarquia na gestão de resíduos orgânicos compostáveis. M ais preferível M enos preferível COMPOSTAGEM OU DIGESTÃO ANAERÓBICA CENTRALIZADA X ATERRO SANITÁRIO E INCINERADOR TRATAMENTO MECÂNICO- BIOLÓGICO DE RESÍDUOS MISTURADOS E REJEI TOS COMPOSTAGEM DOMÉSTICA RESGATE DE ALIMENTOS COMESTÍVEIS REDUÇÃO NA FONTE PEQUENA ESCALA - COMPOSTAGEM OU DIGESTÃO ANAERÓBICA DESCENTRALIZADA MÉDIA ESCALA - COMPOSTAGEM OU DIGESTÃO ANAERÓBICA DE BASE LOCAL DOAÇÃO Fonte: GAIA (2022) com base em Institute for Local Self Reliance. 10 Apesar da baixa taxa de compostagem atual no Brasil, no passado, a massa compostada era superior, devido à ampla presença de unidades centralizadas, como as Unidades de Triagem e Compostagem (UTCs). A maior parte dessas unidades, no entanto, foram encerradas ao longo do tempo por inúmeros problemas, como alto custo de manutenção, odores e contaminação do composto produzido. Como exemplo, é possível citar o Estado de São Paulo: entre 1997 e 2013, 82% das unidades foram fechadas, principalmente pelo alto custo de operação e baixíssima qualidade do composto orgânico, resultante de uma operação sem coleta seletiva, ou seja, os resíduos orgânicos compostáveisvinham misturados com recicláveis e rejeitos (SIQUEIRA; ASSAD, 2015). Essa mesma situação foi identificada em estudos anteriores (BARREIRA; PHILIPPI JUNIOR; RODRIGUES, 2006). A baixa qualidade de operação desses modelos antigos que operam em coleta misturada e composta- gem ultra-centralizada e a questão com os odores levaram a uma resistência generalizada dos órgãos ambientais brasileiros e dos municípios em implantar novos projetos de compostagem. Somente na última década esse cenário começou a mudar, com o surgimento e disseminação de modelos de com- postagem municipal descentralizada, com separação na fonte e coleta seletiva de resíduos orgânicos (Quadro 2). QUADRO 2 AS EXPERIÊNCIAS DE FLORIANÓPOLIS E SÃO PAULO NA COMPOSTAGEM QUE REVOLUCIONARAM O BRASIL. É possível destacar as experiências em Florianópolis/SC, com a Revolução dos Baldinhos, e São Paulo/SP, com o Programa Feiras e Jardins Sustentáveis (BRASIL, 2018), que alteraram essa visão sobre a compostagem e catalisaram uma série de mu- danças e revisões no quadro legal brasileiro associado à compostagem. Atualmente, São Paulo possui capacidade para compostar cerca de 50 toneladas por dia, o que, apesar de expressivo em termos de escala de operação, atende apenas 0,3% dos resíduos orgânicos gerados no município (INSTITUTO PÓLIS, 2021). Florianópolis, reconhecida nacionalmente pelos avanços na gestão de resíduos orgânicos, também é responsável por uma das primeiras leis de Resíduo Zero do Brasil, a Lei Municipal nº 10.501/2019 (FLORIANÓPOLIS, 2019), que busca desviar todos os resíduos orgânicos compostáveis do aterro sanitário até 2030. Apesar do avanço no arcabouço legal do País (Quadro 3), ainda é necessário avançar nas políticas pú- blicas do setor, a fim de atender às mais variadas características e cenários municipais, bem como aos diferentes arranjos de atores no sistema de manejo de RSU. É importante destacar os sistemas que funcionam de maneira descentralizada e integram grupos sociais ainda vulnerabilizados e marginali- zados, visto que os RSU, inclusive os orgânicos compostáveis, são bens econômicos e de valor social, geradores de trabalho, renda e promotores de cidadania (Art. 6º, inciso III da PNRS). Um exemplo dessa relevância é a inclusão da compostagem dentro do programa Pró-Catador como prática, quando realizada pelas catadoras e catadores, na tecnologia social da reciclagem popular (BRASIL, 2023a). 11 QUADRO 3 BREVE QUADRO LEGAL DA COMPOSTAGEM DE RSU ORGÂNICOS E USO DO COMPOSTO NO BRASIL. As experiências dos municípios brasileiros estimularam e subsidiaram a revisão do ar- cabouço legal associado à compostagem de RSU orgânicos compostáveis. Alguns exem- plos de normativas recém-revisadas são: 1. A Resolução Conama nº 481 de 03 de outubro de 2017, que estabeleceu critérios e procedimentos para garantir o controle e a qualidade ambiental do processo de compos- tagem de resíduos orgânicos (BRASIL, 2017b); 2. A Instrução Normativa nº 61 de 08 de julho de 2020 do Ministério da Agricultura, Pe- cuária e Abastecimento, que estabeleceu as regras sobre fertilizantes orgânicos e pas- sou a diferenciá-los a partir da compostagem de resíduos orgânicos urbanos oriundos de coleta seletiva em no mínimo três frações, daqueles que vêm da coleta convencional misturada (BRASIL, 2020b). A IN SDA 27/2006 alterada pela IN SDA nº 07/2016 estabe- lece limites de contaminantes no composto orgânico; 3. A Portaria nº 52 de 15 de março de 2021 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que estabeleceu o Regulamento Técnico para os Sistemas Orgânicos de Produção e passou a permitir o uso de composto orgânico oriundo de resíduos orgânicos urbanos provenientes de coleta seletiva. Nesse cenário, o objetivo deste estudo é identificar e analisar sistemas de compostagem nas cidades, para além dos modelos convencionalmente estatais e/ou privados, e dar visibilidade às experiências para que elas sejam replicadas por outras cidades. Com essas informações, será possível pensar em novas políticas públicas que promovam modelos inovadores de contratação e operação de sistemas de compostagem nas cidades brasileiras, ampliando o leque de soluções para viabilizar a reciclagem e o desvio de resíduos orgânicos de aterros sanitários, promovendo uma transição justa com geração de renda aos grupos sociais que mais necessitam. “A COMPOSTAGEM TRABALHA RELAÇÕES, não só com o morador que faz a separação correta, MAS COM O PRÓPRIO MEIO AMBIENTE”. Cíntia Aldaci da Cruz (Revolução dos Baldinhos) 12 Metodologia O presente estudo teve como objetivo realizar uma pesquisa de caráter exploratório e não exaustivo para identificar sistemas de compostagem nas cidades brasileiras que operem fora da lógica conven- cional pública e/ou privada. Especificamente, o foco do estudo está nos sistemas de compostagem onde o RSU orgânico é um bem gerador de valor social para grupos marginalizados, como catadoras e catadores, agricultores e agricultoras e outras formas de organização da sociedade civil. Os projetos identificados foram submetidos a entrevistas semiestruturadas para coleta de dados, se- guidas por uma análise. Após essa etapa, os resultados preliminares foram apresentados a um grupo de lideranças de catadores na cidade de São Paulo/SP para avaliação e discussão, com o objetivo de co- construir o conhecimento a partir das informações coletadas. Essa etapa foi fundamental para formatar o conteúdo presente. O detalhamento metodológico e a totalidade das informações coletadas podem ser acessados de for- ma digital na página do estudo no site (https://polis.org.br/estudos/novos-modelos-compostagem/). A Figura 4 ilustra o fluxo metodológico adotado neste estudo e, a seguir, apresentamos com mais deta- lhes os procedimentos metodológicos realizados em cada etapa. Figura 4: Fluxo esquemático da metodologia. Levantamento1 Triagem2 Entrevistas3 2ĆFLQD4 Análise5 compostagem resíduos orgânicos recicladores agricultores 13 1. Levantamento dos sistemas de gestão de resíduos orgânicos e compostagem no Brasil O levantamento e o mapeamento dos projetos foram realizados por meio de pesquisas diretas na in- ternet, utilizando a ferramenta de busca do Google e empregando palavras-chaves relevantes, como “compostagem”, “catadores”, “agricultores” e “resíduos orgânicos”. Além disso, a equipe também entrou em contato e entrevistou redes e instituições parceiras, como a Aliança Resíduo Zero Brasil (ARZB) e o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), a fim de mapear iniciativas que não foram encontradas durante a pesquisa on-line. É importante destacar que essa pesquisa não é exaustiva, portanto, inevitavelmente algumas experiências não foram contempladas na análise. 2. Triagem das experiências para fase de análise detalhada: contato e seleção das experiências Após a etapa de levantamento e prospecção, foram feitos contatos com as instituições identifica- das por e-mail e/ou telefone, quando tais informações estavam disponíveis nas redes de parceiros ou plataformas digitais das experiências, como sites, páginas do Facebook e Instagram. Entre 19 ex- periências identificadas na primeira fase, apenas oito projetos avançaram para a fase de entrevistas semiestruturadas e coleta de dados. A redução do número de projetos entrevistados deveu-se princi- palmente à falta de retorno dos contatos, à descontinuidade do projeto mapeado e/ou à característica experimental (piloto) do projeto. 3. Entrevistas semiestruturadas e coleta de dados As experiências que demonstraram disponibilidade e interesse em participar da pesquisa avançaram para a fase de entrevista semiestruturada e coleta de dados, por meio de um questionário com infor- mações a serem coletadas antes das entrevistas. O questionário pode ser acessado em formato digital aqui junto com as notas metodológicas. As conversas foram conduzidas de acordo com a disponibili- dade e estrutura de cada instituição,por telefone, vídeo-chamada, mensagens de áudio, entre outros, e foram gravadas com autorização. Os dados fornecidos foram totalmente auto declaratórios e poste- riormente utilizados para uma análise mais aprofundada do tema. Considerando o comprometimento de horas dos colaboradores, cooperados e/ou associados para a participação no estudo, foi fornecido um auxílio a cada organização no valor de R$ 300,00. Levantamento1 Triagem2 Entrevistas3 2ĆFLQD4 Análise5 compostagem resíduos orgânicos recicladores agricultores Levantamento1 Triagem2 Entrevistas3 2ĆFLQD4 Análise5 compostagem resíduos orgânicos recicladores agricultores Levantamento1 Triagem2 Entrevistas3 2ĆFLQD4 Análise5 compostagem resíduos orgânicos recicladores agricultores 14 ���2ĆFLQD�SUHVHQFLDO�FRP�JUXSR�GH�FDWDGRUHV Como a maior parte das experiências mapeadas tinha o envolvimento de organizações de catadores e catadoras, em dezembro de 2022 foi organizada uma oficina presencial de compostagem com lide- ranças de cooperativas de catadores da cidade de São Paulo/SP que durou dois dias. O objetivo era apresentar os resultados parciais do estudo, promover discussões e levantar quais seriam os desafios e oportunidades de sistemas de compostagem com organizações de catadores e catadoras. Na primeira atividade, os projetos mapeados que eram gerenciados por organizações de catadores e catadoras ou similares (CooperCicli, VerdeCoop, CoperCicla e Revolução dos Baldinhos) compar- tilharam suas experiências em um evento on-line. Após essa etapa, uma oficina de compostagem foi promovida com objetivo de exemplificar o que seria o passo a passo da implantação de uma unidade de compostagem e um sistema de coleta seletiva de resíduos orgânicos. Durante todas as atividades, a mediação fomentou o debate para o levantamento de oportunidades e desafios enfrentados pelas cooperativas, assim como o compartilhamento de informações e co- nhecimentos. Todos os desafios identificados pelas lideranças, bem como as oportunidades, foram registrados e sistematizados ao longo dos dois dias para, no final do encontro, serem organizados pelos presentes por ordem de importância. Para tanto, cada participante tinha direito de escolher três desafios e três oportunidades que julgavam mais relevantes para o seu contexto, gerando assim uma escala de importância. ofiCina Com CataDores e CataDoras em sP. Crédito da imagem: Instituto Pólis Levantamento1 Triagem2 Entrevistas3 2ĆFLQD4 Análise5 compostagem resíduos orgânicos recicladores agricultores 15 Levantamento1 Triagem2 Entrevistas3 2ĆFLQD4 Análise5 compostagem resíduos orgânicos recicladores agricultores 5. Análise e tratamento de dados Os dados auto declaratórios fornecidos nos questionários e entrevistas foram compilados em tabe- las para melhor visualização e estão dispostos ao longo do texto. Os dados ausentes nas entrevistas foram complementados por pesquisa bibliográfica, e os cálculos para produção dos indicadores apre- sentados podem ser acessados no anexo metodológico. Os desafios e oportunidades identificados e ranqueados pelos participantes da oficina são apresentados no capítulo 5. visita à uniDaDe De ComPostagem, realizaDa Com CataDores e CataDoras em sP. Crédito da imagem: Thaiane Barbosa/Instituto Pólis 16 Estudos de caso Em busca de soluções mais eficientes para a gestão de resíduos orgânicos, diversos municípios e orga- nizações sociais têm adotado modelos inovadores de compostagem que se adequam à realidade local (Figura 5). Isso vem ocorrendo principalmente porque os modelos convencionais, como a coleta com caminhões compactadores e a compostagem centralizada, têm tido pouco sucesso e viabilidade, como já discutido. Nesse contexto, Prefeituras Municipais, muitas vezes com apoio do Governo Federal, juntamente com cooperativas, associações e organizações de catadores(as), de agricultores(as) e de bairros, têm se destacado ao implementar modelos inovadores de compostagem nas cidades. Esses modelos vão muito além do simples gerenciamento dos RSU, promovendo também a inclusão social, o desenvolvimento local e a adoção de práticas agroecológicas. Neste capítulo, serão apresentados alguns estudos de caso que exemplificam esses modelos, desta- cando suas práticas inovadoras, os resultados positivos e o impacto gerado em seus respectivos mu- nicípios. Ao analisar essas experiências, será possível compreender a integração existente entre os diferentes atores sociais envolvidos na gestão adequada de resíduos orgânicos, que viabilizam a sus- tentabilidade ambiental, inclusão social e fortalecimento das economias locais. “NÓS MUDAMOS A LÓGICA. Vimos a necessidade de colocar o ser humano na frente, PORQUE É ELE QUE GERA O RESÍDUO”. Cíntia Aldaci da Cruz (Revolução dos Baldinhos) É importante ressaltar que este estudo não é exaustivo, portanto, algumas experiências não foram contempladas e/ou analisadas, por não terem sido identificadas e/ou pela inviabilidade de seguimento do projeto à fase de entrevista e coleta de dados por formulário. Destacam-se, entre elas, a Recicla Jacobina (Jacobina/BA) e a ACLIMAR (Marialva/PR): ambas são organizações de catadoras e catado- res atuando com compostagem em suas cidades, mas não foram analisadas por não ter sido viável a realização da entrevista e o preenchimento do questionário em tempo. A Recicla Jacobina é pioneira na coleta seletiva de resíduos orgânicos realizada pelos próprios cata- dores. O município tem recuperado resíduos secos e orgânicos compostáveis, economizando recursos públicos com o aterramento. Essa experiência é muito similar à CooperCicli, que foi estudada aqui. A ACLIMAR, por meio de contratação da Prefeitura, realiza a gestão integral do RSU no município, utilizando um sistema de compostagem inovador em baias com revolvimento semiautomatizado por lâminas helicoidais. O composto produzido é vendido à Prefeitura de Marialva. Estima-se que a coo- perativa seja responsável pelo manejo mensal de 270 toneladas de resíduos, sendo quase 50% resí- duos orgânicos (PGP, 2016). 17 Por meio dos estudos de caso mostrados na sequência, espera-se identificar os padrões, potenciais desafios e oportunidades para o futuro. Os modelos de compostagem apresentados indicam que o Brasil possui um imenso potencial para transformar a gestão de resíduos orgânicos compostáveis, desde que sejam superados os desafios apresentados ao longo do estudo. Figura 5: Localização dos estudos de caso no território brasileiro. COOMPAG Paragominas PÕE NO BALDE Marabá VERDECOOP Entre Rios COORPERCICLI Caetité REVOLUÇÃO DOS BALDINHOS Florianópolis COOPERCICLA Santa Cecília do Sul PILA VERDE Santiago AM MT AC RO RR PA AP MA TO DFGO PI CE RN PB PE AL SE BA MG ES RJ SP PR SC RS MS ACAMARTI Tibagi 18 A CoperCicla é uma cooperativa fundada em 2003 que desempenha um importante papel na gestão de resíduos de sua região. Atualmente, a coopera- tiva presta serviços de coleta, transporte, triagem, venda de recicláveis, compostagem de orgânicos e disposição de rejeitos em aterro próprio. Com duas unidades, a matriz é responsável por atender 14 municípios e a filial atende mais 7. A compostagem é realizada apenas na matriz, a par- tir dos resíduos provenientes da coleta misturada, que passam por processo de separação mecânica para triagem dos recicláveis secos. Utilizando um sistema automatizado de revolvimento em formato de leiras/trincheiras, alimentado por uma pá-carre- gadeira, a cooperativa transforma esses resíduos em composto orgânico. O investimento foi viabili- zado a partir de recursos a fundo perdido do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Após o período de compostagem ativa, o material passa por um peneiramento para remover partículas grosseiras e contaminantes. Além disso, semestralmente é realizada uma avaliação labora- torial do composto orgânico. Nos dias atuais, a cooperativa ainda não possui registro do fertilizanteorgânico, e o composto produzido é doado para agricultores locais utili- zarem na recuperação de áreas degradadas. Parte do composto também é devolvido às Prefeituras, para ser aplicado na jardinagem do município, con- tribuindo para o reaproveitamento de resíduos e a promoção da sustentabilidade ambiental. COPERCICLA Cooperativa de Trabalho dos Recicladores de Resíduos Orgânicos e Inorgânicos de Santa Cecília do Sul Ltda. Natureza jurídica: Cooperativa Localização: Unidade matriz está em Santa Cecília do Sul, Rio Grande do Sul/RS Público atendido: 21 municípios com população entre 120 e 130 mil habitantes, pela matriz e filial. A compostagem está na matriz, que atende apenas 14 municípios com 60 a 70 mil pessoas. Tamanho da organização: 160 pessoas Quantidade de resíduos enviados para compostagem: 250 toneladas por mês Pessoas exclusivamente dedicadas para compostagem: 4 pessoas Crédito da imagem: Facebook da Cooperativa 19 A compostagem realizada pela CoperCicla é res- ponsável por desviar 28% de toda a massa de RSU que chega à unidade matriz, enquanto a re- ciclagem dos resíduos recicláveis “secos” repre- senta 24% – juntas, compostagem e reciclagem, desviam 52% de todos os resíduos recebidos do aterramento. Devido à ausência de coleta seleti- va de resíduos orgânicos compostáveis, o com- posto produzido ainda contém contaminantes, como vidro e plásticos, resultando em um envio de aproximadamente 48% da massa total recebi- da para o aterro. Além do importante papel na gestão de resí- duos, a CoperCicla é uma importante gera- dora de empregos. Em 2021, a cooperativa se destacou como a maior geradora de postos de trabalho do município e, ainda, como a maior responsável pela geração de ISS no município (SUPTITZ, 2021). triagem Dos resíDuos sóliDos que Chegam à CooPerativa. Crédito da imagem: Facebook da Cooperativa 20 VERDECOOP Natureza jurídica: Cooperativa Localização: Entre Rios, Bahia/BA Público atendido: Setor privado, majoritariamente hoteleiro e industrial em quatro municípios da região. Quantidade de resíduos enviados para compostagem: 180 toneladas por mês. Tamanho da organização: 26 pessoas Pessoas exclusivamente dedicadas para compostagem: 6 pessoas A VerdeCoop é uma cooperativa de catadores que se destaca como pioneira na compostagem de resíduos orgânicos. Desde a implantação de sua unidade de compostagem em 2003, com recursos a fundo perdido do Banco do Brasil, a cooperativa tem trabalhado arduamente para promover a re- ciclagem e a valorização dos resíduos orgânicos compostáveis e secos, mesmo diante de alguns desafios. Atualmente, a VerdeCoop direciona sua atuação principalmente para atender a clientes privados, uma vez que não possui parcerias ou apoio de prefeituras locais, as quais permanecem encaminhando resíduos para os lixões. Os principais clientes da cooperativa estão con- centrados na região do complexo hoteleiro e industrial da Costa do Sauípe, distribuídos nos municípios de Entre Rios, Alagoinhas, Camaçari, Mata do São João, Ipojuca e Algo Magra. A Ver- deCoop tem como principal foco a reciclagem dos resíduos orgânicos compostáveis e secos, portanto não recebe resíduos oriundos de cole- ta misturada e também não realiza o serviço de coleta e transporte, que em geral é terceirizado. Dessa maneira, o índice de rejeito na coopera- tiva é de aproximadamente 10%, sendo esses resíduos destinados ao aterro sanitário de Ca- maçari/BA. Além dos resíduos de alimentos, a cooperativa ainda recebe podas de árvores e re- síduos das atividades de jardinagem. O processo de compostagem na VerdeCoop é mecanizado e ocorre por meio de uma minicar- regadeira em pilhas, que são revolvidas a cada cinco dias em um pátio de 1.200 m². A coopera- tiva conta ainda com um triturador de galhos e Crédito da imagem: VerdeCoop 21 A maior parte do composto é embalado em sa- cos de ráfia de 25 kg para venda em comércios, por um preço médio de R$ 27,00, no entanto, também há vendas diretas em maiores volumes. Além de seu importante papel na prestação de serviços ambientais, a VerdeCoop busca pro- mover a inserção social de pessoas em situação de vulnerabilidade, gerando renda para idosos e indivíduos que enfrentam problemas com de- pendência química. Hoje, os cooperadores com- preendem cada vez mais a importância de seu trabalho e têm se dedicado a conscientizar e sensibilizar a população e os grandes geradores de resíduos. montagem De Pilha no PÁtio De ComPostagem. Crédito da imagem: VerdeCoop resíduos vegetais, além de uma peneira para o composto orgânico, que é estocado em um gal- pão de 720 m² destinado à produção de adubo. Atualmente, a média mensal de compostagem varia entre 6 e 8 toneladas, com alta sazonali- dade devido à flutuação do setor de turismo. No entanto, vale ressaltar que a unidade de com- postagem possui capacidade para receber uma massa de até 12 toneladas por dia, número que chegou a receber no passado. O composto orgânico produzido pela coopera- tiva é totalmente comercializado em diversos setores, como casas de ração (alimentação ani- mal), jardinagem, campos de golfe e futebol, pe- quenos agricultores, entre outros. 22 REVOLUÇÃO DOS BALDINHOS Natureza jurídica: Associação Localização: Florianópolis, Santa Catarina/SC Público atendido: 2.400 pessoas Quantidade de resíduos enviados para compostagem: 15 toneladas por mês Tamanho da organização: 8 pessoas Pessoas exclusivamente dedicadas para compostagem: 4 pessoas A Revolução dos Baldinhos é um projeto so- cioambiental de agricultura urbana que se dedi- ca ao gerenciamento de resíduos orgânicos em duas comunidades do Complexo do Monte Cris- to, localizado na parte continental de Florianó- polis, e teve início em 2008. O projeto, de inicia- tiva comunitária, foi criado em resposta a uma infestação de ratos nas comunidades, decorren- te da deficiente coleta de lixo, o que levou à mor- te de duas pessoas por leptospirose (PEIXOTO, 2018). Com o objetivo de resolver essa ausência de serviço público, a população local, com as- sistência técnica da ONG Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO), desenvolveu um sistema de coleta seletiva de re- síduos orgânicos e compostagem. Crédito da imagem: Fernando Angeoletto/CEPAGRO/ Acervo Revolução dos Baldinhos 23 A coleta seletiva se iniciou com a distribuição de baldinhos para as residências e a instala- ção de bombonas plásticas nas ruas do bairro, junto a um forte trabalho de conscientização e monitoramento porta a porta sobre sepa- ração correta dos resíduos. Em um primeiro momento, a coleta das bombonas era feita por carroças, porém, atualmente, a Prefeitura faz a coleta duas vezes por semana nos 22 pon- tos de entrega voluntária (PEVs) instalados. Além disso, o projeto ainda recebe resíduos orgânicos de dois condomínios fora da área da comunidade Chico Mendes, e realiza coleta in- dependente de resíduos em três creches, um colégio e um projeto. A Revolução dos Baldi- nhos atende 2.400 pessoas, cerca de 39% das duas comunidades do Complexo Monte Cristo, mutirão De ComPostagem e Plantio De muDas em hortas De esCola Crédito da imagem: Fernando Angeoletto/CEPAGRO/Acervo Revolução dos Baldinhos e o composto orgânico produzido é comerciali- zado em sacos reutilizáveis, com um valor apro- ximado de R$ 350,00 por cada m³ (1.000 L). Em 2019, a organização World Future Council (WFC), da Alemanha, reconheceu a associação como uma das “15 práticas agroecológicas de ex- celência no mundo” por utilizar uma “tecnologia social replicável”. A experiência também integra o banco de tecnologias sociais da Fundação Ban- co do Brasil (CEPAGRO, 2011) e tem servido de inspiração para diversos projetos no País, como a COOMPAG e a Põe no Balde, que foram ma- peados no presente estudo. 24 ACAMARTI Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Tibagi Natureza jurídica: Associação Localização: Tibagi, Paraná/PR Público atendido:18.612 pessoas Quantidade de resíduos enviados para compostagem: 12 toneladas por mês Tamanho da organização: 80 pessoas Pessoas exclusivamente dedicadas para compostagem: 2 pessoas (no mínimo) A ACAMARTI, em parceria com a Prefeitura de Tibagi, desde 2009 desempenha um papel fun- damental na conscientização dos cidadãos do município sobre a importância da separação ade- quada dos resíduos recicláveis “secos”, resíduos orgânicos compostáveis e/ou rejeitos. Apesar dos esforços, a cidade ainda não conta com ser- viços de coleta seletiva de resíduos orgânicos, portanto, os orgânicos que chegam à associação advém majoritariamente de grandes geradores e/ou foram separados manualmente do fluxo de coleta seletiva de recicláveis “secos”, coleta convencional e poda municipal. Esses resíduos são submetidos ao processo de compostagem e transformados em composto orgânico. Crédito da imagem: Prefeitura Municipal de Tibagi 25 A associação também presta serviços para o próprio município, ampliando assim a utiliza- ção e benefícios do composto orgânico, que é o principal produto da compostagem. O composto é usado no plantio de mudas e na produção de flores ornamentais em estufas. Atualmente, a ACAMARTI é capaz de aproveitar cerca de 30% de todos os resíduos que chegam à associação, sendo este um valor bastante significativo, con- siderando que o processo de separação é total- mente manual e conta apenas com o auxílio de peneiras e trituradores. monitoramento Da temPeratura e umiDaDe Da leira De ComPostagem. Crédito da imagem: Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Tibagi 26 COOPERCICLI Cooperativa de Trabalho de Coleta Seletiva dos Catadores de Caetité Natureza jurídica: Cooperativa Localização: Caetité, Bahia/BA Público atendido: Sem dados disponíveis Tamanho da organização: 30 pessoas Quantidade de resíduos enviados para compostagem: 6,7 toneladas por mês Pessoas exclusivamente dedicadas para compostagem: 4 pessoas A coleta seletiva dos resíduos orgânicos é rea- lizada três vezes por semana, com o auxílio de uma motocicleta com carreta e bombonas plás- ticas, em cerca de 30 estabelecimentos comer- ciais de Caetité como restaurantes, hospitais, supermercados e hortifrutis. O projeto de cole- ta seletiva de resíduos orgânicos compostáveis em domicílios ainda está em fase piloto, devido à falta de apoio da prefeitura, que permanece en- viando todos os resíduos orgânicos para dispo- sição inadequada em aterro controlado. Atual- mente, a cooperativa consegue aproveitar 95% de todos os materiais coletados, entre orgânicos compostáveis e recicláveis “secos”, restando as- sim apenas 5% de rejeitos. A CooperCicli já atuava com o trabalho de coleta seletiva e comercialização de materiais reciclá- veis, mas em 2009, inspirada pela experiência da VerdeCoop, iniciou também a compostagem de resíduos orgânicos. A construção da unida- de de compostagem contou com apoio do setor privado, por meio da Bahia Mineração (BaMin), como parte do projeto Circuito do Lixo. Crédito da imagem: Coopercicli 27 montagem Da leira. Crédito da imagem: Facebook da Cooperativa O composto orgânico produzido é comerciali- zado de diversas formas, tanto para o público doméstico, como em feiras da cidade, onde o adubo é ensacado em tamanhos menores (1 a 5 kg), quanto para indústrias e empresas em lotes maiores (6 toneladas), para reflorestamento. Além da venda, os cooperados ainda desempe- nham um papel importante como agentes am- bientais e sensibilizadores, prestando serviços de educação ambiental em escolas, eventos te- máticos e redes sociais. Dessa maneira, a coo- perativa contribui para a conscientização da população sobre a importância da separação dos resíduos e cuidado com o meio ambiente. Hoje em dia, a cooperativa também possui um minhocário em suas instalações, cujo húmus produzido é um ótimo fertilizante. A CooperCi- cli ainda mantém uma horta orgânica adubada com seu próprio composto, demonstrando o ci- clo sustentável e completo proporcionado pela compostagem. 28 COOMPAG Cooperativa de Trabalho de Compostagem de Paragominas Natureza jurídica: Cooperativa Localização: Paragominas, Pará/PA Público atendido: 256 pessoas Tamanho da organização: 16 pessoas Quantidade de resíduos enviados para compostagem: 4,5 toneladas por mês Pessoas exclusivamente dedicadas para compostagem: 16 pessoas A COOMPAG, localizada no residencial Morada dos Ventos, nasceu em 2016 como uma ferra- menta de empreendedorismo social e segurança alimentar para os moradores da própria comu- nidade. Inspirada pela bem-sucedida experiên- cia Revolução dos Baldinhos, a cooperativa foi viabilizada com o apoio do Fundo Socioambien- tal da Caixa Econômica Federal (FSA), por meio da Secretaria de Assistência Social, visando a geração de renda às mulheres do condomínio recém-construído. Inicialmente, a cooperativa tinha o objetivo de atender dois conjuntos habitacionais, Mora- da dos Ventos e Morada do Sol, que somados abrigavam mais de 2.000 domicílios. No entan- to, devido à capacidade- limite das máquinas, a COOMPAG atende hoje cerca de 256 pessoas. No passado, a coleta dos resíduos orgânicos ocorria por meio de um carrinho de mão, porém, pelo aumento do volume e o crescimento da coo- perativa, os cooperados sentiram a necessidade de investir em uma motocicleta com carreta en- gatada, capaz de transportar até quatro bombo- nas para auxiliar na coleta semanal. Crédito da imagem: Coompag 29 horta ComunitÁria abasteCiDa Com o aDubo orgâniCo geraDo Pela CoomPag. Crédito da imagem: Facebook da Cooperativa A compostagem dos resíduos orgânicos é reali- zada com o auxílio de uma máquina da Topema, que acelera o processo de compostagem clássi- ca. A qualidade da separação é extremamente alta, contendo menos de 1% de rejeitos em mas- sa. Apesar disso, a cooperativa não tem conse- guido se sustentar apenas com a venda desse produto, dados os altos custos da manutenção e consumo de energia elétrica da máquina pro- cessadora de resíduos orgânicos (cerca de R$ 2.800 por mês). Para se manter em funciona- mento, o projeto tem buscado apoio em editais de financiamento, como o Itaú EcoMudanças, e tem buscado reinventar seu modelo de negócio, uma vez que o adubo orgânico gerado ainda não é comercializado. Atualmente, o composto orgânico produzido é utilizado em hortas comunitárias, no próprio re- sidencial e em escolas, estimulando a gestão co- munitária de resíduos, a educação ambiental e a prática da agricultura urbana familiar. 30 PÕE NO BALDE Natureza jurídica: Associação Localização: Marabá, Pará/PA Público atendido: 1.200 domicílios Quantidade de resíduos enviados para compostagem: 20 toneladas por mês Tamanho da organização: 120 pessoas Agricultores envolvidos no projeto (operação compostagem e uso do composto): 60 pessoas O projeto Põe no Balde, parceria desenvolvi- da entre a Secretaria Municipal de Agricultu- ra (Seagri) e pequenos produtores agrícolas de hortas urbanas dos Residenciais Tiradentes e Jardim do Éden em Marabá/PA, apresentou uma nova perspectiva para resolução de um proble- ma socioambiental enfrentado pelo município: o gerenciamento de resíduos orgânicos. O projeto nasceu em 2019 com o objetivo de aliar dois pro- gramas, a agricultura urbana e a compostagem, para que os horticultores estivessem envolvidos em todo o ciclo dos resíduos orgânicos compos- táveis, desde a sua geração e coleta até a reuti- lização como adubo orgânico nas hortas. Além de promover a conscientização ambiental, esse processo cíclico também gera renda aos associa- dos por meio da comercialização do adubo. Crédito da imagem: Aline Nascimento/Seagri 31 PÁtio De ComPostagem Da assoCiação. Crédito da imagem: Aline Nascimento/Seagri A coleta dos resíduos orgânicos e recicláveis secos é realizada nas residências usando baldes de 5 L, que são entregues aos moradores e re- colhidos três vezes na semana por um triciclo. Ambas asunidades de compostagem possuem 600 m² e estão localizadas no espaço contíguo à horta. Cada pátio conta com dois funcionários da prefeitura responsáveis pela gestão do local e coleta dos resíduos, enquanto a composta- gem em si é realizada pelos próprios agriculto- res, que se revezam em três equipes, uma para cada dia da semana. Em média, no primeiro ano do projeto, o pátio do Jardim do Éden recebeu cerca de 7 toneladas por mês, e o Tiradentes recebeu 13 toneladas. No final do processo, o composto orgânico é dividido entre os agricul- tores proporcionalmente aos dias trabalhados na compostagem. Todo o composto orgânico é utilizado pelos agri- cultores, que contam com o apoio do SEBRAE para, futuramente, explorar a comercialização como alternativa adicional. Atualmente, o proje- to estabeleceu uma parceria com as feiras mu- nicipais para coleta de material orgânico, o que tende a ampliar ainda mais o impacto positivo no município, uma vez que, em geral, há um exce- dente significativo de frutas e hortaliças. 32 PILA VERDE Localização: Santiago, Rio Grande do Sul/RS População/público atendido: 200 munícipes Agricultores e agricultoras envolvidos no projeto: 70 Quantidade de resíduos enviados para compostagem: 38 toneladas por mês Pessoas exclusivamente dedicadas para compostagem: 1 motorista, 4 aprendizes ambientais, 1 operador da compostagem (pessoas em situação de privação de liberdade) e 1 operador de máquina. O Projeto Pila Verde implementou o uso de uma moeda socioambiental no município de Santia- go/RS, em 2020, visando estimular a separação dos resíduos orgânicos compostáveis pelos ci- dadãos e a prática da compostagem municipal. A população é recompensada por separar cor- retamente os resíduos orgânicos e entregá-los Pila verDe utilizaDo nas feiras, Para ComPra De ProDutos e aDubo. Crédito da imagem: Site da Prefeitura de Santiago em um dos 15 pontos de PEVs espalhados pela cidade, geralmente um a cada dois bairros. To- dos os resíduos coletados são encaminhados a uma unidade de compostagem municipal, que também recebe os resíduos de poda (galhos e folhas de árvores) do município. 33 Figura 6: Infográfico esquemático do sistema Pila Verde Produtos orgânicos > PILA 5 Kg = 1 PILA Sementes e mudas > PILA 1 tonelada > 30 PILAS Agricultores Adubo Aterro Transporte Populaçao Feira Municipal PEVs Centro de compostagem O funcionamento do sistema é simples: a cada 5 quilos de resíduo orgânico, os moradores rece- bem uma moeda chamada “pila” (equivalente a R$ 1,00). Os “pilas” acumulados podem ser utilizados como uma moeda de troca nas feiras municipais, junto aos agricultores feirantes cadastrados no projeto. Os agricultores também são beneficiados nesse sistema, visto que podem trocar as “pilas” arrecadadas com a venda de alimentos nas feiras por mudas, sementes e pelo composto orgânico produzido pelo projeto, a um preço inferior ao do mercado, trazendo economia para o agricultor na compra de insumos. Por exemplo, cada tonelada de composto orgânico pode ser adquirida por “30 pilas” (Figura 6). Atualmente, mais de 200 pes- soas participam do projeto e mais de 70 agricul- tores estão cadastrados. O Pila Verde é regulamentado pela Lei Municipal nº 241/2020 (SANTIAGO, 2020), o que garante a sua continuidade ao longo dos anos. A viabilida- de do projeto se deve principalmente aos altos gastos existentes com o transporte e pagamento dos aterros sanitários, que custam cerca de R$ 500,00 por tonelada. Portanto, todo o resíduo compostado na cidade evita esses custos e gera uma economia com os custos de transbordo, transporte e aterramento. O sucesso alcançado no município foi tão significativo que, recente- mente, a prefeitura instituiu o “pila azul”, a moe- da social que incentiva a coleta e separação de resíduos recicláveis “secos” (BRASIL, 2023b). 34 Mesmo problema, diferentes soluções: como funcionam os modelos inovadores de gestão de resíduos orgânicos compostáveis nas cidades? Os modelos inovadores de gestão dos resíduos orgânicos compostáveis representam uma abordagem complexa para lidar com o desafio de gerir os resíduos orgânicos, frente ao insucesso de modelos convencionais ultrapassados ou inadequados à realidade de algumas cidades brasileiras. Conforme apresentado anteriormente, esses modelos se mostram inovadores por não operarem exclusivamente na lógica convencional e linear de manejo de resíduos sólidos e limpeza pública, em que as atividades são executadas exclusivamente pelo poder público municipal e/ou setor privado sem envolvimento efetivo de outros atores. Os modelos inovadores estudados entendem que é necessário integrar ato- res sociais importantes no modelo de gestão para também garantir a sua efetividade e viabilidade. No capítulo anterior, foram apresentados alguns estudos de caso, nos quais determinadas organiza- ções implantaram novos sistemas de gestão de resíduos sólidos orgânicos compostáveis em seus mu- nicípios integrando três diferentes grupos sociais: catadores(as), pequenos agricultores(as) e/ou orga- nizações de moradores. Por meio da colaboração entre os poderes públicos e as organizações sociais, esses novos modelos foram capazes de promover a participação ativa da população para solucionar os problemas de gestão dos resíduos orgânicos, diferentemente de outras cidades que ainda seguem estagnadas, sem avançar na reciclagem dos resíduos orgânicos urbanos. Com soluções adaptadas às necessidades locais, os estudos de caso demonstraram ser possível avançar rumo à reciclagem dos resíduos orgânicos compostáveis com geração de emprego, renda e mobilização social adequada à realidade local. Nesse cenário, a análise dos dados a seguir busca aprimorar essa discussão através da avaliação dos modelos levantados, seus impactos e as formas de funcionamento do sistema de governança e operação, considerando escala, eficiência e modelos de coleta e compostagem adotados pelas experiências. 35 Sistema de governança na gestão dos RSU orgânicos e compostagem Atores-chave envolvidos no funcionamento do sistema Em todas as experiências estudadas, os atores estatais se destacaram como peças fundamentais para o desenvolvimento dos sistemas, principalmente nas etapas de implantação. A única exceção foi a CooperCicli, cujo projeto se desenvolveu majoritariamente por meio de investimentos do setor pri- vado, porém recebeu apoios estatais pontuais durante a operação. Em geral, entre os atores, figu- ram sobretudo as Prefeituras, que atuam diretamente com apoio, financiamento, contratação e/ou gerenciamento da operação, e o Governo Federal, por bancos públicos e pelos editais que financiam as experiências, em especial durante a compra de equipamentos e com investimento em infraestrutura. A atuação desses atores estatais da esfera nacional ocorreu exclusivamente por meio de fomento e financiamento e está descrita em maior detalhe na próxima seção. “Os catadores FAZEM ACONTECER!” Edinéia Rodrigues dos Santos (VerdeCoop) Não obstante, para garantir a sustentabilidade operacional e a eficiência dos sistemas, mais atores fo- ram necessários. Cada sistema se desenvolveu com base em suas especificidades e realidade local, com a participação central de um ou mais atores além dos estatais que, na fase de operação, foram exclusi- vamente as Prefeituras. Entre os sistemas mapeados, os principais atores envolvidos nos sistemas de gestão dos resíduos orgânicos urbanos e na compostagem foram as organizações de agricultores e cata- dores, bem como as associações/organizações de moradores em diferentes papéis (Figura 7). A popula- ção sempre funciona como um ator-chave em qualquer sistema de gestão de RSU, sendo essencial o seu engajamento. Por essa premissa básica, ela não está destacada no conjunto de atores. Figura 7: Atores sociais envolvidos na gestão de resíduos orgânicos compostáveis nos modelos estudados. Agricultores(as) Catadores(as) Associação de Moradores(as)Poder Público 36 Apesar de sua centralidade como atores sociais no sistema para garantir o funcionamento, é importante ressaltar que agricultores(as), catadores(as) e associações de moradores sempre estão envolvidos na gestão de resíduos por seus papéis intrínsecos nas relações entre seres humanos e natureza, seja pro- duzindo alimentos (no caso de agricultores), reinserindo materiais na cadeia da reciclagem (no caso de catadores) ou ainda consumindo alimentos e fazendo a separação dos resíduos (no caso de associações de moradores). Além disso, esses mesmos atores podem desempenhar papéis diferentes no sistema, de- pendendo do contexto local e sistema de governança desenvolvido junto à Prefeitura. Suas atuações vão desde a operação da coleta de RSU, passando pela compostagem, até chegar à posição de beneficiários diretos do sistema (Tabela 1). Além dos outros tipos de apoio oferecidos pelas Prefeituras, mencionados na Tabela 1, todas as organizações operam em áreas públicas por meio de cessão de uso, com exceção da VerdeCoop, que está localizada exclusivamente em área própria. Tabela 1: Atores envolvidos e seus papéis no sistema de gestão dos RSU orgânicos e compostagem. organização Prefeitura(s) CataDores(as) agriCultores(as) organizações De moraDores(as) outros atores ACAMARTI Financiamento, contratação para operação, infraes- trutura e gerencia- mento Operação de todo o sistema de gestão de RSU orgânico: coleta, triagem, compostagem, uso do composto orgâ- nico na produção de flores e manutenção de áreas verdes Não identificado Não identificado Não identificado COOMPAG Teve papel de gerenciamento no início, hoje apoia com gastos básicos (energia, água etc,) Não identificado Não identificado Operação de todo o sistema de gestão de RSU orgânico: gerenciamento, coleta, triagem, compostagem e uso do composto orgânico em horta própria Financiamento do FNMA viabilizou a implantação (infraestrutura e equipamentos) CoperCicla Contratação para prestação dos ser- viços Operação de todo o sistema de gestão de RSU orgânico: coleta, transporte, triagem, composta- gem, disposição e destinação Recebem doação do composto Não identificado Financiamento do BNDES viabilizou a implantação (infraestrutura e equipamentos) CooperCicli Fornecimento de poda Operação de todo o sistema de gestão de RSU orgânico: coleta, transporte, triagem, composta- gem, disposição e destinação Não identificado Não identificado Investimento do se- tor privado (BaMin) por meio de proje- tos socioambientais que implantaram e estruturaram o sistema 37 organização Prefeitura(s) CataDores(as) agriCultores(as) organizações De moraDores(as) outros atores Pila Verde Gerenciamento, operação da coleta e compostagem e logística de entre- ga do composto orgânico, além de financiamento por meio da moeda socioambiental Não identificado Como beneficiá- rios do projeto, os agricultores cadastrados podem comercializar seus produtos orgânicos nas feiras muni- cipais e trocar a moeda social arre- cadada por mudas, sementes e compos- to orgânico Como beneficiá- rios do programa, trocam os resíduos orgânicos devida- mente separados pela moeda social Não identificado Põe no Balde Gerenciamento, operação da coleta dos resíduos orgâ- nicos, manutenção do espaço e cessão das áreas para os agricultores. Não identificado Operação de parte do sistema de gestão de RSU orgânico: triagem, compostagem e uso do composto orgânico em horta própria. Não identificado Financiamento do FNMA viabilizou a implantação (infraestrutura e equipamentos) junto a recursos da Prefeitura Revolução dos Baldi- nhos No início do projeto não houve apoio algum, hoje são responsáveis pela coleta dos resíduos orgânicos nos PEVs e pelo pagamento pela compostagem Não identificado Não identificado Operação de todo o sistema de gestão de RSU orgânico: triagem, compos- tagem, uso do composto orgânico em plantio e mudas próprias. Ainda fo- mentam a educação ambiental (comu- nicação, formações e prevenção de geração de resíduos na cozinha) e entre- gam alimentos três vezes na semana Financiamento do FNMA apoiou a continuidade e es- truturação do siste- ma junto a recursos da Prefeitura VerdeCoop Não identificado Operação de todo o sistema de gestão de RSU orgânico: gerenciamento, coleta, triagem, compostagem e comercialização do composto orgânico produzido Não identificado Não identificado Financiamento do Banco do Brasil via- bilizou a implanta- ção (infraestrutura e equipamentos) 38 0RGHORV�GH�ĆQDQFLDPHQWR�H�RSHUD©¥R�GR�VLVWHPD�GH�JHVW¥R�GH� resíduos orgânicos e compostagem O financiamento é um ponto fundamental para viabilizar os sistemas de coleta seletiva de resíduos orgânicos e compostagem, uma vez que a fração orgânica do RSU é de responsabilidade do titular dos serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos do município. No entanto, o arranjo econômico para garantir esses sistemas é por vezes complexo e envolve múltiplos atores. Isso pode estar relacionado ao fato de que o titular dos serviços de limpeza urbana e gestão de RSU é majoritariamente a Prefeitura ou autarquia municipal (administração pública direta), realidade de 96,6% dos municípios no Brasil. Esses municípios concentram 74% da população urbana e se encon- tram em uma situação de insustentabilidade financeira para realizar investimentos na gestão ade- quada de resíduos sólidos. De acordo com os dados do SNIS, 42% dos municípios (de 4.900 amostra- dos) realizam cobrança pelo serviço de manejo de RSU e limpeza urbana, sendo que, dentro deles, a arrecadação cobre 55% das despesas com o órgão gestor de RSU, em média. Essa situação é ainda mais crítica em municípios de pequeno porte (até 30 mil habitantes) e nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com apenas 30% de autossuficiência financeira. Apenas 6,3% dos órgãos gestores de RSU arrecadam o suficiente para pagar as despesas totais com o gerenciamento, e quase metade dos municípios arrecada menos de 25% das despesas (MDR, 2023). Ou seja, o órgão depende de recursos de outras fontes e áreas das Prefeituras para manter o funcionamento dos sistemas de gerenciamento de RSU, inviabilizando investimentos em melhorias, como a compostagem e a coleta seletiva dos resí- duos orgânicos compostáveis. “Vale muito mais a pena INVESTIR EM PROJETOS QUE BENEFICIEM A POPULAÇÃO do que enterrar dinheiro no aterro.” Andriele de Medeiros Martins (Pila Verde) Portanto, faz-se necessário estabelecer um arranjo econômico que envolva atores para além da Pre- feitura, a fim de viabilizar tais sistemas, especialmente no investimento inicial necessário para a sua implantação. A operação, em alguns casos, consegue ser mantida pela própria administração (Tabela 2). 39 Tabela 2: Arranjos de financiamento para implantação e operação das organizações em cada estudo de caso. organização reCursos Para imPlantação reCursos Para oPeração/forma De Pagamento ACAMARTI Prefeitura (recurso próprio) A Prefeitura realiza pagamento por tonelada de resíduos recebida. COOMPAG Edital do Governo Federal Editais privados Prefeitura Não há pagamento pela operação. CoperCicla Recursos próprios da cooperativa Governo Federal (BNDES) Pagamento pelos serviços prestados aos municípios, por meio de repasse mensal e/ou por tonelada de resíduos manejados, depen- dendo do contrato com cada Prefeitura. CooperCicli Recursos próprios da cooperativa Empresa privada Repasse mensal fixo pela Prefeitura, apenas pela coleta seletiva de recicláveis “secos”. Pila Verde Prefeitura (recurso próprio) Os recursos economizados com transporte e aterramento são revertidos em uma moeda social. Os cidadãos trocam os resíduos orgânicos pela moeda e a utilizam nas feiras da cidade para com- prar hortaliças, enquanto os agricultores utilizam-na para trocar por composto orgânico, mudas e sementes com a Prefeitura.Põe no Balde Governo Federal (FNMA) Prefeitura (recursos próprios) A Prefeitura arca diretamente com custos e equipe para coleta dos resíduos orgânicos e horticultores fazem a compostagem, tendo cotas do composto orgânico produzido como forma de pagamento. Revolução dos Baldinhos Edital FAPESC Bolsa para as atividades do projeto. Repasse mensal fixo pela Prefeitura. VerdeCoop Recurso do Banco do Brasil – OBS: As informações apresentadas não são exclusivas da compostagem. Algumas organizações ainda possuem esse serviço em fase piloto, portanto, o investimento veio para a organização como um todo, considerando todos os serviços prestados, conforme descrito na seção a seguir. 40 Serviços prestados pelas organizações e diversidade da renda para sustentabilidade Com o objetivo de aumentar e diversificar as suas fontes de renda, fortalecendo a sustentabilida- de econômico-financeira dos sistemas, todas as organizações mapeadas prestam diferentes serviços além do manejo dos resíduos orgânicos compostáveis. É importante diferenciar que no manejo estão inclusas todas as atividades de coleta, transbordo, transporte, triagem, compostagem e destinação final adequada dos resíduos, atividades para além da compostagem. A Tabela 3 apresenta os serviços oferecidos pelas organizações excluindo-se o manejo dos resíduos orgânicos e compostagem. Tabela 3: Serviços prestados pelas organizações mapeadas além da compostagem. organização atenDimento a estabeleCimentos PrivaDos? serviços PrestaDos além Da ComPostagem ACAMARTI Não Coleta misturada de RSU; Coleta seletiva de recicláveis “secos”; Transporte; Triagem e venda de materiais recicláveis; Produção de flores; Plantio/manutenção de áreas verdes. COOMPAG Não Coleta seletiva de resíduos orgânicos. CoperCicla Sim Coleta misturada de RSU; Coleta seletiva de recicláveis “secos”; Transporte; Triagem e venda de materiais recicláveis; Operação de aterro sanitário de pequeno porte e disposição de RSU. CooperCicli Sim Coleta seletiva de resíduos orgânicos e recicláveis “secos”; Triagem e venda de materiais recicláveis. Põe no Balde Não, ainda estão avaliando a possibilidade Coleta seletiva de resíduos orgânicos e recicláveis “secos”. Revolução dos Baldinhos Sim, coleta de resíduos em dois condomínios Coleta seletiva de resíduos orgânicos; Comunicação e educação ambiental; Cursos e formações; Consultoria externa para compostagem; Preparo de alimentação saudável. VerdeCoop Sim Triagem e venda de materiais recicláveis; Venda de composto orgânico. O oferecimento dessa diversidade de serviços salvo a compostagem é de extrema importância, uma vez que indica o potencial de harmonização e integração desse subsistema de gestão de resíduos or- gânicos dentro do sistema de gestão de RSU como um todo, visando aumentar a eficiência operacional e econômica e os impactos positivos. Especialmente em municípios onde já existem organizações de catadores e catadoras com áreas disponíveis e/ou capacidade operacional ociosa, é possível promover benefícios mútuos ao apoiá-las para o desenvolvimento da compostagem. Aproveitar essas potencia- lidades permitiria maximizar o uso dos recursos e contribuir para a melhoria do sistema, por meio do desenvolvimento socioeconômico local, fortalecimento da inclusão social e valorização da categoria de catadores(as) de materiais recicláveis e agricultores(as). 41 3HUĆO�GH�J¬QHUR�H�UD©D As organizações atuantes nos sistemas estudados possuem tamanhos variados, desde equipes enxu- tas até grandes organizações com filiais presentes em mais de um município (Figura 8). As equipes nem sempre são exclusivas para o manejo de resíduos orgânicos e compostagem e às vezes atuam em revezamento, como no projeto Põe no Balde, por exemplo, no qual cerca de 60 agricultores se reve- zam na operação da compostagem por duas hortas, três vezes na semana. Os dados apresentados ba- seiam-se apenas nas organizações respondentes, visto que alguns projetos não possuíam informações sobre raça e gênero de seus associados, cooperados e trabalhadores. Figura 8: Tamanho das organizações e distribuição de gênero, em número de associa- dos/cooperados. Tamanho da organização e distribuição de gênero ACAMARTI 80 COOMPAG 12 4 CoperCicla 100 CooperCicli 10 20 Pila Verde 10 Põe no Balde 45 25 Revolução dos Baldinhos 5 5 VerdeCoop 10 16 Mulheres Homens Total Outro dado relevante é a representatividade de gênero nas organizações estudadas (Figura 9). Com base nos dados obtidos, observa-se que as organizações possuem uma distribuição bastante equili- brada entre homens (50,3%) e mulheres (49,7%). Essa paridade de gênero é bastante significativa, porque demonstra que as organizações de compostagem, de alguma maneira, se apresentam como oportunidades de emancipação e fortalecimento das mulheres em ambientes de trabalho, fomentan- do sua autonomia financeira e ampliando as possibilidades de perspectiva sobre a gestão de resíduos orgânicos compostáveis. 42 Figura 9: Composição média de gênero dos trabalhadores e trabalhadoras nos siste- mas analisados. Gênero declarado FEMININO 49,7% MASCULINO 50,3% Quando fazemos o recorte da composição de gênero, considerando apenas as organizações de ca- tadores(as) deste estudo (CooperCicli e VerdeCoop), os homens são maioria, com quase 64%, cor- roborando os dados encontrados no estudo Cataki (2022), no qual 70% dos catadores de avulsos/ individuais também são homens. Apesar disso, de acordo com o levantamento da Pragma (2022), que analisou cerca de 306 organizações, a reciclagem no Brasil é realizada predominantemente por mulheres, com cerca de 56% do total de catadores e catadoras. Embora haja uma presença signifi- cativa de mulheres nesses ambientes de trabalho, é fundamental reconhecer que a distribuição de tarefas ainda reflete determinados estereótipos de gênero, visto que as mulheres tendem a ocupar as atividades menos “braçais”, como a triagem e/ou esteira de separação. Conforme dados coletados por Martins et al. (2016), o trabalho dos homens dentro de determinadas cooperativas também con- sistia em funções categoricamente rotuladas como individualistas e masculinas, como a de carregar peso, sustentando a lógica hegemônica. Em futuros estudos, seria interessante explorar os possíveis paralelos entre os gêneros predominantes nas organizações e a divisão de trabalho dentro delas. Na análise racial das organizações (Figura 10), é possível observar que 41% dos trabalhadores se au- todeclararam pardos, 37% pretos e 22% brancos. Vale destacar que em nenhuma das organizações estudadas a proporção de pessoas negras foi inferior a 2⁄3 (66%), o que corrobora a alta presença de pessoas negras nas organizações atuantes no sistema de gestão de RSU, especialmente nas atividades relacionadas a resíduos orgânicos compostáveis. Essa proporção é superior à média nacional da popu- lação brasileira de 56% (IBGE, 2023) e está mais próxima da média nacional dos catadores(as) avulsos/ individuais, que é de 69,4% de pessoas pardas e pretas (CEMPRE, 2023). É importante destacar que esse dado pode ser enviesado por uma maior amostragem de organizações do Norte e Nordeste (4 de 5), regiões onde a população residente tem maior percentual de pessoas negras. Na região Sul, com a menor presença de pessoas negras, as três organizações estudadas não possuíam informações sobre raça e gênero das pessoas. Figura 10: Composição média racial dos trabalhadores e trabalhadoras nos sistemas analisados. Raça declarada PARDOS 41% PRETOS 37% BRANCOS 22% 43 Escalas de operação das organizações e da compostagem As escalas de operação das organizações podem variar muito com base em diferentes fatores, como o espaço físico disponível, a demanda local, a capacidade operacional da equipee dos equipamentos e os recursos disponíveis. A amplitude da operação é um grande indicador da versatilidade das orga- nizações e dos sistemas de compostagem utilizados que permitem a operação em diferentes escalas, manuais, mecanizadas e até automatizadas. Isso permite às organizações complexificar sua operação gradativamente ao aumento de escala. As organizações estudadas variam sua escala de operação de 5 toneladas até 900 toneladas por mês de RSU e de 5 toneladas a 250 toneladas por mês de resíduos orgânicos compostáveis (Figura 11). Figura 11: Massa de resíduos total e resíduos orgânicos manejada por organização [toneladas por mês]. ACAMARTI 80% COOMPAG 12% 4% CoperCicla 100% CooperCicli 10% 20% Pila Verde 10% Põe no Balde 45% 25% Revolução dos Baldinhos 5% 5% VerdeCoop 10% 16% RSU total Resíduos orgânicos compostáveis 260 15 5 5 900 250 30 7 38 38 20 20 15 15 300 180 44 A análise dos dados compilados revela também que, na maioria das organizações estudadas, a massa total de resíduos manejada costuma ser diretamente proporcional à massa de orgânicos. É importan- te esclarecer, no entanto, que essa correlação se dá sobretudo porque a maioria das organizações pesquisadas trabalha exclusivamente na gestão dos resíduos orgânicos e processo de compostagem deles, com exceção da CooperCicli, Põe no Balde e VerdeCoop, as quais também realizam coleta e separação dos resíduos secos. Considerando ainda as diferentes escalas ado- tadas, a troca de informações e colaboração en- tre essas organizações pode ser um importante aliado para o fortalecimento do setor de com- postagem no Brasil, uma vez que cada uma delas passou por diferentes experiências ao longo do es- tabelecimento do projeto, possibilitando a construção de estratégias e redes de apoio que vão desde oferecer orientações técnicas sobre a prestação do serviço até a inspiração para melhoria/ampliação da escala de operação. Duas experiências estudadas, a CoperCicla e a VerdeCoop, demonstraram que é totalmente possível que as organizações de catadores e catadoras sejam prestadoras de serviços em escala para os muni- cípios brasileiros. Inclusive, no caso da VerdeCoop, a operação hoje não atende às Prefeituras, tendo como foco do negócio o setor privado, industrial e hoteleiro. Ambas as organizações realizam a com- postagem de 250 e 180 toneladas por mês de resíduos orgânicos compostáveis, escala suficiente para atender à ampla maioria de municípios brasileiros em sua totalidade de resíduos orgânicos compostá- veis gerados. Nacionalmente, cerca de 79% dos municípios brasileiros têm até 30 mil habitantes e não geram mais que 250 toneladas por mês de resíduos orgânicos compostáveis2. No caso de municípios maiores, também seriam possíveis arranjos com estruturação de mais de uma cooperativa e arranjos com outros sistemas, dividindo por regiões e reduzindo a necessidade de transporte, por exemplo. Vale ressaltar ainda que a escala não é o único indicador de eficiência de uma organização de compos- tagem; a qualidade do processo, a valorização do produto final e a gestão adequada dos resíduos são outros aspectos fundamentais a serem considerados para essa análise, e serão discutidos nas seções a seguir. 2 Estimando que cada habitante gera no máximo 0,320 gramas de resíduos orgânicos compostáveis por dia, que a taxa de coleta per capita na faixa populacional de até 30 mil habitantes é de 0,7 kg por habitante por dia (MDR, 2022) e que cerca de 45% são orgânicos (ABRELPE, 2020). Além disso, no curto-médio prazo a coleta seletiva dos orgânicos compostáveis deve atingir 80% da massa total gerada de resíduos orgânicos compostáveis. 45 Sistemas de separação e coleta dos resíduos orgânicos compostáveis A caracterização dos sistemas de separação, armazenamento e coleta dos resíduos orgânicos compos- táveis revela diferentes abordagens e práticas adotadas por cada organização. No geral, foi possível observar que existe um esforço por parte das organizações de implementar sistemas mais eficientes de separação e coleta dos resíduos, de acordo com a realidade do município e engajamento populacio- nal, visando maximizar a eficiência operacional reduzindo o índice de rejeitos (Tabela 4). Tabela 4: Caracterização dos sistemas de coleta dos resíduos orgânicos compostáveis nas experiências estudadas. organização origem e tiPo De resíDuos reCebiDos segregação Dos resíDuos orgâniCos na origem armazenamento/ aConDiCionamento Para transPorte forma De Coleta equiPamento De Coleta e transPorte Dos resíDuos orgâniCos ACAMARTI Domicílios (30%) Comércios (70%) Não há Sacos plásticos convencionais Porta a porta Caminhão compactador, baú e/ou caçamba COOMPAG Domicílios Baldes domiciliares e sacos convencionais Bombona plástica Porta a porta Triciclo CoperCicla Resíduos orgânicos domiciliares, com coleta misturada Não há Sacos plásticos convencionais Porta a porta Caminhão compactador e/ou baú CooperCicli Comércio e indústria Baldes e bombonas plásticas (depende do volume do gerador) Bombona plástica Porta a porta Motocicleta com reboque Pila Verde Domicílios e resíduos públicos (poda e maravalha) Saco plástico convencional em contentor com rodas Sacos plásticos convencionais PEVs Caminhonete/carro comum Põe no Balde Domicílios (23%) Resíduo de poda e capina municipal (76%) Baldes domiciliares Bombona plástica Porta a porta Triciclo e caminhão Revolução dos Baldinhos Domicílios Resíduos de poda A granel ou em saco compostável em bombonas plásticas Bombona plástica Porta a porta e PEVs Caminhonete (VUC Kia com carroceria) VerdeCoop Domicílios (4%) Comércio privado (85%) Indústria privada (11%) Sacos plásticos convencionais Sacos plásticos convencionais Porta a porta (comercial e industrial) Não informado Grande parte das organizações promove a separação dos resíduos orgânicos na fonte a granel com o auxílio de baldes/bombonas domiciliares, que são disponibilizados previamente à popula- ção. Muitas dessas experiências foram inspiradas pelo sucesso do serviço realizado pela Revolu- ção dos Baldinhos em Florianópolis (SC). Outra metodologia de armazenamento para coleta foi a utilização dos sacos plásticos convencionais (não compostáveis), justificados pelo baixo custo em comparação aos compostáveis. Nesses sistemas, os sacos convencionais são rasgados na chegada à unidade de compostagem para não se tornarem rejeitos e contaminantes no composto orgânico. Os sacos compostáveis são utilizados apenas na Revolução dos Baldinhos, porém não ocorre em todos os PEVs. 46 A maioria dos sistemas realiza a coleta seletiva dos resíduos orgânicos com o sistema porta a porta. Apenas duas experiências implantaram PEVs ao longo do município, sistema no qual a população pode depositar seus resíduos orgânicos em locais específicos. No entanto, com as entrevistas, foi possível identificar que o uso dos PEVs não tem permitido aumentar a massa coletada tão rapidamente, visto que a coleta porta a porta gera um impacto muito mais positivo e significativo, dada a comodidade e o contato e sensibilização direta com o(a) morador(a), aumentando o número de pessoas engajadas. Isso também é corroborado por estudo realizado nas capitais europeias, onde os sistemas de coleta seletiva de resíduos porta a porta apresentaram maior taxa de captura de resíduos com menor índice de rejeitos contaminantes (BIPRO; CRI, 2015). Osequipamentos de coleta dos resíduos orgânicos compostáveis variam de acordo com a escala de ope- ração: em geral são usados caminhões-baú ou compactadores para grandes volumes, e sistemas não mo- torizados e de uso descentralizado, como triciclos e motocicletas com reboque, em experiências de menor escala. Dado o custo de aquisição, sistemas como triciclos e motocicletas permitiram a operação em escala piloto, porém, com o desenvolvimento do projeto, se tornaram um gargalo para escalar a um número maior de domicílios, e fez-se necessário investimento em um veículo maior (Figura 12). Figura 12: Equipamentos para coleta seletiva dos resíduos orgânicos compostáveis. Moto com reboque Veículo Urbano de Carga (VUC) Caminhão baú ou caçamba Caminhão compactador Caminhonete Triciclo 47 Índice de rejeito nos sistemas de coleta de resíduos orgânicos compostáveis O índice de rejeitos nos sistemas de coleta, mesmo na coleta seletiva, é sempre um dos principais desafios a serem enfrentados nos sistemas de reciclagem. Esse índice indica a massa de RSU que en- tra na organização e não é reciclada, tendo como destino o aterramento sanitário e também gerando contaminação, aumento de custos com triagem e queda de qualidade e preço do produto final. Para enfrentar esse desafio, as organizações desenvolveram diversas alternativas e sistemas para o apro- veitamento máximo dos RSU, tanto orgânicos quanto recicláveis “secos”, conforme exposto na seção anterior. O índice de rejeitos nas organizações estudadas varia de 0 a 70% (Figura 13). Categorizando-o pela forma de coleta dos resíduos orgânicos, temos que, nas organizações que realizam a coleta misturada, o índice varia entre 48% e 70%, enquanto nas organizações com coleta seletiva dos resíduos orgâni- cos ele varia entre 0 e 12%. É evidente a discrepância entre os resultados alcançados pelas experiên- cias até hoje, principalmente pelo papel importante da coleta seletiva de orgânicos para a redução dos rejeitos no sistema de gestão de RSU. Figura 13: Índice de rejeitos. OBS: O índice de rejeitos é referente à massa total de resíduos sólidos que a organização recebe, não apenas de resíduos orgânicos, ou seja, ela representa a fração de resíduos sólidos que são recebidos na organização e não são reciclados, tendo como destino o aterro sanitário. 48 Além da existência dos sistemas de coleta seletiva, existem outros motivos que podem influenciar os índices de rejeitos de cada organização. Um deles é a falta de engajamento e sensibilização da popu- lação e dos geradores em relação à separação adequada dos resíduos, que pode acabar resultando no descarte incorreto de materiais não compostáveis. Isso ocorre, principalmente, em sistemas que ampliam a escala e envolvem a coleta seletiva de um número maior de habitantes, como no caso da VerdeCoop, que recebe entre 20 e 30 vezes mais RSU que as outras organizações com coleta seletiva e apresenta um índice de rejeitos de 12%, enquanto nas iniciativas com menor escala de operação o índice varia entre 0 e 5%. Mesmo assim, esses índices estão dentro da boa prática de sistemas de coleta seletiva de resíduos orgânicos em escala, avaliadas em cidades europeias entre 4% e 13%, de- pendendo da forma de coleta (ZWE, 2022). A sensibilização da população é uma tarefa que exige esforços contínuos de diferentes atores sociais, incluindo o poder público, as organizações e a sociedade, e não apenas campanhas pontuais. O inves- timento em educação ambiental, para conscientizar a população sobre a importância da separação correta, deve ser contínuo e acompanhado por infraestrutura de coleta e triagem, para remoção de materiais não compostáveis e não recicláveis, e a adoção de políticas públicas que fiscalizem e incen- tivem a redução da geração de resíduos na fonte e o banimento da produção e uso de materiais não recicláveis. Recicláveis Orgânicos Rejeitos 49 Caracterização da operação da unidade de compostagem As operações das unidades de compostagem em cada organização tendem a variar de acordo com o espaço disponível, a massa de resíduos orgânicos recebida, os equipamentos e outras variáveis. Ideal- mente, o dimensionamento das áreas deve ser feito com base nas estimativas de geração de resíduos orgânicos compostáveis da localidade a ser atendida pelo sistema, levando em consideração também o volume dos materiais que serão utilizados no processo de compostagem, como serragem, folhas, podas e palha (BRASIL, 2017a). Esse processo de estudo de viabilidade e implantação do projeto é importantíssimo no planejamento de longo prazo da cidade e da organização. A Tabela 5 descreve o funcionamento e as características técnicas das unidades de compostagem mapeadas, que podem servir de referência para outros pro- jetos. Conforme pode ser observado, os maiores volumes de resíduos orgânicos por mês demandam as maiores áreas para compostagem, como é o caso da CoperCicla, com 1.120 m² de área de pátio de compostagem, e a VerdeCoop, com 1.200 m² mais 720 m² de estoque de composto. Portanto, é impres- cindível que a demanda de longo prazo seja considerada, caso a organização vá receber a totalidade dos resíduos orgânicos compostáveis gerados na localidade. No caso da COOMPAG, por exemplo, o método e sistema de compostagem adotado hoje é o principal limitante para o crescimento da quanti- dade de resíduos orgânicos compostados. “A compostagem não é difícil e nem cara, o maior desafio é o espaço.” Andriele de Medeiros Martins (Pila Verde) A demanda de área para compostagem, além da quantidade de resíduos a serem manejados, varia com o método de compostagem escolhido (ver Quadro 4 para melhor explicação sobre os métodos de compostagem). Nas organizações analisadas, considerando apenas aquelas que operam perto da capacidade máxima, a demanda de área por tonelada por dia variou entre 135 m² para sistema de compostagem com revolvimento automatizado, 200 m² para revolvimento mecanizado e 500 m² para o método UFSC em pequena escala, sem considerar as áreas de estoque de composto. Assim, a or- ganização adota o método de compostagem mais adequado para a sua realidade; os mais utilizados nas organizações mapeadas são os métodos de pilhas e leiras com revolvimento e leiras estáticas de aeração passiva (método UFSC), pela praticidade e simplicidade de aplicação com custo reduzido de implantação. 50 Tabela 5: Caracterização da unidade de compostagem e sua operação. organização Área Da uniDaDe De ComPostagem (m²) métoDo De ComPostagem forma De manejo Das Pilhas/leiras maquinÁrio utilizaDo ACAMARTI Não informado Pilhas com revolvimento Manual Peneira manual; triturador de resíduos orgânicos COOMPAG 361 Compostagem mecanizada com auxílio de máquina de processamento de resíduos orgânicos Manual e mecanizado Máquina de processamento de resíduos orgânicos (trituradora e desidratadora) CoperCicla 1.120 Leiras com revolvimento 100% mecanizado com revolvimento automatizado Peneira; carregadeira; reator da compostagem CooperCicli 480 Pilhas com revolvimento Manual Peneira; triturador; triturador de adubo Pila Verde Não informado Leiras com revolvimento Semimecanizado Retroescavadeira; caminhão para adubo; caminhonete para mudas Põe no Balde 600 cada pátio, total de 1.200 Leiras estáticas de aeração passiva (UFSC) Manual Triciclo; caminhão; mini-pá carregadeira (limpeza) Revolução dos Baldinhos 250 Leiras estáticas de aeração passiva (UFSC) Manual Peneiras; bombonas; seladora; roçadeira etc. VerdeCoop 1.920 Pilhas com revolvimento Mecanizado Peneira; triturador; carregadeira (mini ou pá) Considerar as características da unidade de compostagem e sua operação é fundamental para plane- jar a expansão das operações de compostagem, buscando garantir que as unidades tenham a infraes- trutura necessária para atender às demandas e oferecer boas condições de trabalho aos envolvidos. A mecanização e o uso de equipamentos de qualidade, como trituradores de resíduose carregadeiras, são essenciais para maior produtividade das organizações, visto que esse tipo de investimento bene- ficia diretamente o trabalhador e, consequentemente, o serviço prestado, fundamental para operação em maiores escalas a partir de uma tonelada/dia. utilização De trituraDor De galhos/resíDuos no manejo Dos resíDuos orgâniCos, na CooPerCiCli. Crédito da imagem: Facebook da cooperativa 51 QUADRO 4 QUAL A DIFERENÇA ENTRE OS MÉTODOS DE COMPOSTAGEM E O QUE ISSO SIGNIFICA NA PRÁTICA? Os sistemas de compostagem podem se desenvolver de maneira tão flexível que os mé- todos são quase infinitos, sendo aprimorados e desenvolvidos constantemente para solução e adequação a diferentes características locais. Desde que seguidos os princí- pios da compostagem (ambiente aeróbio de decomposição microbiológica controlada com produto final estável), existem métodos que executam a compostagem com qua- lidade nas mais variadas escalas e contextos. Em geral, os métodos de compostagem são divididos pela forma como o ar é inserido no sistema e como a massa de resíduos é manejada: DIVISÃO PELO FORMATO: Pilhas ou leiras de compostagem: Os termos “pilha” e “leira” diferenciam o formato como os resíduos orgânicos são “amontoados”. As pilhas, como o próprio nome indica, são montes de resíduos orgânicos com formatos próximos a um cone. Já as leiras de compostagem se referem a grandes fileiras compridas em que a seção transversal varia entre um triângulo, trapézio ou retângulo. DIVISÃO PELO MANEJO DO AR NO PROCESSO: Leiras estáticas de aeração passiva (método UFSC): sistema de compostagem termo- fílica no qual o ar entra de forma passiva, ou seja, sem a necessidade de revolvimentos ou tombamentos durante a operação. A principal característica é a arquitetura utiliza- da na montagem das leiras: são empregados materiais estruturantes (como galhos, pa- lha e serragem) em conjunto com camadas de resíduos orgânicos (restos de alimentos), possibilitando a aeração de toda a leira por convecção natural. No método, a arquitetu- ra da leira e a mistura adequada de materiais estruturantes são de extrema importân- cia para garantir a aeração adequada do processo (INÁCIO; MILLER, 2009). Leiras ou pilhas com revolvimento: leiras piramidais, que devem ser revolvidas perio- dicamente de modo a possibilitar uma estrutura porosa para entrada de ar e oxigena- ção. O revolvimento pode ser feito manualmente com o auxílio de garfos agrícolas, pás e enxadas ou, a depender da dimensão da leira, de forma mecanizada com uso de má- quinas carregadeiras, tratores adaptados, implementos agrícolas para trator ou mes- mo compostadores agrícolas profissionais. Leiras ou pilhas estáticas com aeração forçada: sistema de compostagem sem revol- vimento ou tombamento, com o ar entrando de forma forçada por meio de sopradores. Em geral, a leira/pilha de compostagem é montada sobre uma base porosa acima de tu- bos ou pisos com trincheiras por onde o ar é injetado e se desloca para dentro da pilha, renovando o oxigênio internamente. 52 Equipes A Tabela 6 apresenta uma descrição das equipes envolvidas nos modelos de gestão e compostagem em operação. Como se pode notar, é comum que as pessoas envolvidas na operação da compostagem não tenham dedicação exclusiva, sobretudo em organizações cuja escala de operação é menor. Essa estrutura é empregada para dar viabilidade econômica aos sistemas de compostagem, principalmente durante a fase piloto ou de inicialização para futura expansão. A otimização e o compartilhamento da mão de obra são vantagens significativas da implantação da compostagem em organizações de cata- dores e catadoras, permitindo aproveitar possível mão de obra ociosa na triagem e beneficiamento dos recicláveis, além de aumentar a renda gerada aos associados e cooperados. Da mesma forma, as equipes variam amplamente de acordo com o sistema de gestão dos resíduos orgânicos adotado, uma vez que nem todas as organizações realizam a coleta seletiva dos resíduos or- gânicos compostáveis por conta própria, como é o caso da VerdeCoop e Revolução dos Baldinhos. Por outro lado, outras organizações ainda funcionam no modelo de coleta misturada de orgânicos com- postáveis e rejeitos, sem equipe exclusiva para coleta seletiva dos resíduos orgânicos compostáveis, como ocorre na ACAMARTI e CoperCicla. Existem ainda outras organizações que possuem equipes mais complexas, visto que as atividades vão além da coleta seletiva dos resíduos orgânicos ou com- postagem, envolvendo também atividades de educação ambiental, como engajamento, comunicação e sensibilização. Tabela 6: Equipes envolvidas nos sistemas de gestão de resíduos orgânicos e compostagem. organização equiPe ACAMARTI Duas pessoas trabalham na compostagem, por vezes em revezamento, e também se dividem em outras ati- vidades da cooperativa ao longo do mês. Em geral, metade do tempo dessas pessoas é dedicado às ativida- des do pátio de compostagem. Essa equipe não realiza coleta de resíduos orgânicos. COOMPAG A cooperativa possui de quatro a cinco trabalhadores ativos que realizam a coleta seletiva nos apartamen- tos e compostagem uma vez na semana. No passado, a operação ocorria a cada dois dias. CoperCicla Três pessoas, com dedicação exclusiva, são responsáveis pelos serviços associados à compostagem, penei- ramento e outras atividades internas à unidade de compostagem. Essa equipe não realiza coleta de resí- duos orgânicos. CooperCicli A equipe de gestão dos resíduos orgânicos é composta por quatro pessoas com dedicação exclusiva, traba- lhando em compostagem, coleta seletiva dos resíduos orgânicos, ensacamento e atividades relacionadas. Pila Verde O projeto envolve equipes em diversas frentes de trabalho, dada a sua complexidade: um motorista exclu- sivo (coleta de resíduos, transporte de equipe etc.); quatro aprendizes ambientais; uma pessoa na operação da compostagem; um operador de máquina; três pessoas para a logística da coleta em feiras e PEVs. Põe no Balde O corpo técnico-operacional faz parte do departamento de hortaliças (DEHORT) da Secretaria Municipal de Agricultura, com um total de dez funcionários: quatro motoristas; um engenheiro ambiental e sanitarista; um en- genheiro-agrônomo; duas administradoras; dois técnicos; um estagiário. Na operação de compostagem, coleta do composto, peneiramento e atividades associadas há um grupo de 60 agricultores e agricultoras no total, sendo 30 em cada horta, que realizam revezamento para operação do pátio de compostagem três vezes na semana. Revolução dos Baldinhos A equipe conta com quatro pessoas, que dedicam metade do tempo ao trabalho dentro da comunidade, com sensibilização e comunicação, e a outra metade nas atividades dentro do pátio de compostagem. VerdeCoop Seis pessoas, com dedicação exclusiva, trabalham nos serviços associados à compostagem, peneiramento e outras atividades internas à unidade de compostagem. Essa equipe não realiza coleta de resíduos orgânicos. 53 Impacto econômico: geração de emprego e renda nos sistemas de compostagem com catadores(as) Os sistemas de compostagem operados por catadores e catadoras desempenham um papel significa- tivo na geração de empregos e no desenvolvimento local. De acordo com os dados coletados, anali- sando apenas as organizações que possuem equipes de atuação exclusivas à operação da unidade de compostagem e já atuam em escala (CooperCicli e VerdeCoop), sem considerar sistemas de composta- gem manuais, a cada 10.000 toneladas de resíduos orgânicos compostados por ano, 19 empregos são gerados por meio de sistemas de compostagem com catadores(as). Essa taxa pode variar de 10 a 56 empregos, a depender do nível de mecanização e automatização do sistema adotado, sendo o nível de mecanização inversamente proporcional à quantidade de empregos gerados. É importante ressaltar que as organizações que realizam coleta seletiva, atividades de educação ambiental e outros serviços não foram incluídas nessaanálise, devido à grande diferença entre os serviços ofertados, o que impos- sibilita uma comparação adequada. As organizações que utilizam sistemas de compostagem com mais trabalho manual, apesar da menor escala de operação, em geral promovem uma taxa maior de geração de empregos por tonelada de re- síduos orgânicos compostados. Entretanto, é importante considerar que esses dados foram baseados apenas em uma única amostra por método e nível de mecanização, em organizações de catadores e catadoras. Para uma avaliação mais abrangente do impacto da mecanização na quantidade de empre- gos gerados na compostagem, seria necessário expandir significativamente o universo amostral em cada grupo. Além disso, a geração de empregos não deve ser o único critério para a escolha do método de ope- ração. Embora muitas vezes os métodos de compostagem totalmente manuais estejam associados a escalas de operação menores com maior geração de empregos por tonelada de compostagem, em es- calas maiores, a exemplo de operações a partir de 8 toneladas por dia, a manutenção desses métodos pode ser muito exaustiva para os(as) trabalhadores(as) envolvidos(as) e até mesmo inviável economi- camente. É importante que a abordagem escolhida não promova situações degradantes e/ou preca- rizantes de trabalho. Afinal, o grande objetivo é utilizar a mecanização para humanizar o trabalho e aumentar a geração de renda. Com o objetivo de compreender o potencial impacto econômico da implantação da compostagem com catadores e catadoras nacionalmente, os dados de geração de empregos dos estudos de caso são com- parados com a média de geração de empregos de sistemas de compostagem sem catadores, aterra- mento sanitário e incineração. Para tanto, os dados dos pátios de compostagem da Prefeitura de São Paulo foram utilizados como referência. Hoje, os pátios de compostagem recebem até 10 toneladas de resíduos orgânicos compostáveis oriundos de feiras livres e poda urbana, com operação durante seis dias da semana. A operação é mecanizada com minicarregadeira e envolve três pessoas em dedicação exclusiva e um operador de minicarregadeira por meia diária. Nessa comparação, além da variação de acordo com o nível de mecanização, é possível notar que mes- mo sistemas mecanizados com catadores e catadoras geram cerca de duas vezes mais empregos que sistemas de compostagem privados e/ou públicos (Figura 14). No Brasil, os resíduos orgânicos com- postáveis nem sequer são enviados para a compostagem, e sim para o aterramento sanitário e/ou lixões, como já discutido. Como pode ser visto na Figura 15, os sistemas de compostagem manejados por catadores(as), descon- siderando operação manual, geram em média dez vezes mais empregos que o aterro sanitário por to- nelada. Mesmo o sistema de compostagem com revolvimento automatizado, caso da CoperCicla, gera seis vezes mais empregos que a média de aterros sanitários (1,8) e incineradores (1,7). Comparados os 54 dados encontrados neste estudo com uma amostra maior de sistemas de compostagem sem catadores mapeados fora do Brasil, que geram em média 6,6 empregos a cada 10 mil toneladas no ano (variando entre 4,1 e 8,5) (RIBEIRO-BROOMHEAD; TANGRI, 2021), os sistemas de compostagem operados por organizações de catadores e catadoras geram de três a cinco vezes mais empregos, com 31 empregos gerados (variando entre 10 e 56) considerando a média com sistemas de operação manual, e 19 em- pregos gerados (variando entre 10 e 28) considerando apenas sistemas com operação mecanizada. Figura 14: Empregos gerados na operação da compostagem com catadores e sem ca- tadores, por nível de mecanização [empregos a cada 10.000 toneladas no ano compos- tadas]. Fonte: Elaborada pelos autores. Os dados representam apenas empregos gerados na etapa de compostagem e não incluem empregos na coleta se- letiva, uso do composto orgânico e educação ambiental. As informações para compostagem com catadores foram produzidas neste estudo, a partir de dados da ACAMARTI, VerdeCoop e CoperCicla para compostagem manual, mecanizada e com revolvimento automatizado, respectivamente. A compostagem mecanizada sem catadores é referente à operação do pátio de compostagem da Prefeitura de São Paulo e as experiências internacio- nais de Ribeiro-Broomhead e Tangri (2021), desconsiderando os trabalhos na coleta. Isso ressalta o enorme potencial que existe na expansão das operações dos sistemas de compostagem junto a organizações de catadores e catadoras, bem como de novos modelos que promovam uma tran- sição justa, valorizando os principais atores no sistema de gestão de RSU e a população mais vulnerá- vel. Assim, além de desviar resíduos orgânicos compostáveis do aterramento, mitigando as emissões de gases de efeito estufa e reciclando matéria orgânica, a ampliação de sistemas de compostagem em organizações de catadores e catadoras tem um papel essencial na geração de renda e empregos nas cidades. COMPOSTAGEM COM CATADORES/AS COMPOSTAGEM SEM CATADORES/AS (Prefeitura de São Paulo) MANUAL MECANIZADA MECANIZADA MECANIZADA COM REVOLVIMENTO AUTOMATIZADO 56 28 10 11,1 55 Figura 15: Comparação entre a quantidade de empregos gerados na operação da com- postagem, com catadores e sem catadores, no aterro sanitário e na incineração [em- pregos a cada 10.000 toneladas no ano compostadas]. Compostagem em escala 19,0 com catadores/as Compostagem sem catadores/as 11,1 (Prefeitura de São Paulo) Compostagem sem catadores/as 5,8 (Média de experiências internacionais) Aterramento sanitário 1,8 Incineração 1,7 Fonte: Elaborada pelos autores. Os dados de compostagem com catadores foram produzidos neste estudo, os dados da compostagem sem cata- dores em São Paulo foram retirados dos pátios da Prefeitura de São Paulo, e dados de compostagem sem catadores (internacional), aterramento e incineração foram coletados em Ribeiro-Broomhead e Tangri (2021) com base em estudos internacionais. Com relação à renda média dos trabalhadores nas organizações estudadas (Figura 16), é possível ob- servar que 57% deles recebem entre meio e um salário mínimo, o que se alinha com os dados nacionais sobre a renda média dos catadores organizados, nos quais 37,2% recebem esse valor (CEMPRE, 2023). Todavia, neste estudo, apenas metade das organizações é de catadores, e a outra metade é composta por agricultores(as) e/ou associações de moradores, cuja fonte de renda e trabalho associado são di- ferentes e incluem experiências sem geração de renda envolvida, como no caso da COOMPAG. Dada a singularidade dessa operação com agricultores(as) e associações de moradores, não há dados corre- latos para efetuar a comparação. Por isso, restringimos a análise da renda à categoria organizada de catadores e catadoras. Figura 16: Renda média dos trabalhadores em cada organização por categoria. OBS: Os valores são referentes ao ano de 2022, com o salário mínimo de referência em R$ 1.212,00. ACAMARTI R$ 1.410,84 VerdeCoop R$ 1.212,00 CoperCicla R$ 1.545,20 CooperCicli R$ 1.200,00 Põe no Balde R$ 650,00 Revolução dos Baldinhos R$ 1.250,00 COOMPAG 1 R$ 0,00 CATADORES/AS AGRICULTORES/AS ASSOCIAÇÃO DE MORADORES/AS 56 O Atlas da Reciclagem estima uma remuneração média de R$ 1.392,91 aos catadores associados/ cooperados. Os catadores(as) vinculados a organizações que possuem contrato com o poder público têm renda média de cerca de R$ 1.200,00, enquanto nas que não o possuem a remuneração é de R$ 941,28 (ANCAT, 2022). A maior renda entre as organizações com contratação pela Prefeitura em re- lação às sem contrato também é corroborada neste estudo, porém, nasorganizações de catadores(as) com compostagem, a renda média é superior, indicando que a presença do serviço de compostagem e manejo de orgânicos pode ser um vetor de aumento de renda da organização. Entre as organizações mapeadas, a renda média é de R$ 1.212,00 sem contrato com poder público (apenas a VerdeCoop) e de R$ 1.718,68 com contrato, 29% e 43% acima da média nacional, indicando que a compostagem nas organizações de catadores e catadoras pode não só gerar emprego digno como também aumentar a renda média dos trabalhadores cooperados. “A COMPOSTAGEM É UMA FONTE DE RENDA, uma forma de enxergar que o resíduo que você gera também traz coisas positivas PARA OS CATADORES E O MEIO AMBIENTE.” Edinéia Rodrigues dos Santos (VerdeCoop) Esses dados exemplificam a importância do apoio do poder público para a melhoria das condições de tra- balho e geração de renda, e da diversificação dos serviços prestados pelas organizações. A remuneração dos trabalhadores envolvidos com esse tipo de serviço ainda é uma questão complexa e que enfrenta diversos desafios para garantir uma renda justa e adequada a esses profissionais. A busca por fomento público-privado e o fortalecimento das políticas públicas relacionadas à contratação municipal desses profissionais são medidas importantes que podem contribuir para melhorar as condições econômicas dos trabalhadores, principalmente com o devido pagamento pelos serviços prestados. Apesar da necessidade de ampliar a amostragem e o número de experiências para corroborar as con- clusões, os dados indicam o potencial impacto positivo da compostagem dentro do sistema de produ- ção e da economia local, entendendo o resíduo sólido orgânico como bem econômico e de valor social, gerador de trabalho e renda e promotor de cidadania (Art. 6º, inciso VIII da PNRS). A análise apre- sentada comprova o papel fundamental dos catadores e catadoras, não só como prioridade legal na gestão de RSU (Art. 36º, § 1º da PNRS) e na compostagem (Art. 11 da Resolução Conama nº 481/2017), mas também como responsáveis por tecnologias sociais que, além de aumentar a reciclagem, poten- cializam a geração de emprego, renda, dignidade e desenvolvimento local onde atuam. 57 Uso e manejo do composto orgânico produzido Os destinos e usos do composto orgânico de cada organização são muito diversos e variam de acor- do com as demandas existentes em cada localidade, como a presença de horticultores e agricultores locais, manutenção de áreas verdes e/ou programas de hortas escolares. Outros fatores que também determinam o uso do composto são a qualidade e a quantidade produzida. Há casos em que a quanti- dade produzida é muito maior que a demanda para usos internos, escolares e/ou doação para popula- ção, usos esses que não seriam suficientes para absorver a totalidade do composto orgânico gerado. Nesses cenários, é necessário buscar mercados de maior escala, como a agricultura ou a jardinagem e manutenção de áreas verdes da cidade. “O ADUBO É BEM ACEITO e bem pedido.” Edinéia Rodrigues dos Santos (VerdeCoop) É importante ressaltar que o composto orgânico possui diversos usos agrícolas, dada sua ampla gama de propriedades benéficas. A principal forma de aplicação do composto orgânico é como fertilizante orgânico e/ou condicionador de solos, desde que atendidas as diferentes especificidades técnicas e legais determinadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA)3. O objetivo deste estudo, no entanto, é ir além da análise estritamente técnica sobre a utilização, finalidade e des- tino do composto orgânico produzido pela compostagem; busca-se também qualificar a compostagem e o uso do composto dentro de políticas públicas federais de outras esferas para além da gestão de RSU. Dentro desse contexto, a Tabela 7 apresenta os destinos do composto orgânico produzido em cada um dos sistemas e organizações estudadas. 3 As especificações técnicas e legais determinadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento estão dispostas na Instrução Nor- mativa nº 61, de 08 de julho de 2020 (BRASIL, 2020b). entrega De ComPosto orgâniCo Para agriCultor, através Do sistema Pila verDe. Crédito da imagem: Site da Prefeitura de Santiago 58 Tabela 7: Destinos do composto orgânico produzido em cada organização. organização Destino Do ComPosto orgâniCo ProDuziDo ACAMARTI Produção de mudas | Produção de flores COOMPAG Horta própria (interna da organização) | Hortas escolares CoperCicla Jardinagem e manutenção de áreas verdes | Agricultores locais CooperCicli Comercialização | Horta própria (interna da organização) Pila Verde Produção de mudas | Produção de flores | Agricultores locais Põe no Balde Agricultores locais Revolução dos Baldinhos Produção de mudas | Hortas escolares | Comercialização | Doação para uso caseiro VerdeCoop Comercialização A maioria das organizações não possui uma fonte de renda significativa a partir da comercialização do composto orgânico produzido, com exceção da VerdeCoop, que opera em maior escala. Entre as organizações que realizam venda, as estratégias adotadas são variadas: desde venda no varejo com sacos de composto de 1 a 5 kg, como na CooperCicli e Revolução dos Baldinhos, até vendas a granel com caminhões e caçambas, como a VerdeCoop, que comercializa uma tonelada de composto orgâni- co por R$ 350,00, ou a Revolução dos Baldinhos, que cobra R$ 350,00 pelo m³ (1.000 litros). Em geral, a venda a varejo e em porções menores possui um valor mais elevado por unidade de massa (R$/kg) e tem como principais clientes o setor de jardinagem, paisagismo e uso doméstico. Essas vendas são frequentemente intermediadas por casas de jardinagem, onde o produto é exposto e comercializa- do. As organizações, no entanto, apontam que nem sempre essa alternativa é viável, uma vez que a demanda da aquisição de embalagens e ensacamento encarecem o processo, inviabilizando-o. Esse é o caso da Revolução dos Baldinhos, por exemplo, que tem buscado não utilizar plástico nas embalagens do composto orgânico. Apesar dessa dificuldade na comercialização do produto, nenhuma organização possui problemas na destinação do composto orgânico, visto que a maioria dos modelos econômicos analisados não depen- de da renda gerada pela venda do composto orgânico, permitindo seu uso de diversas formas, inclusi- ve por doações. O Quadro 5 apresenta dados que desmistificam uma dúvida comum sobre a existência de áreas suficientes para aplicar todo o composto orgânico que poderia ser gerado no País, caso todos os resíduos orgânicos gerados fossem destinados à compostagem. 59 QUADRO 5 TEM ÁREA SUFICIENTE PARA UTILIZAR TODO O COMPOSTO ORGÂNICO QUE PODE SER PRODUZIDO? Uma dúvida muito comum se refere à existência de área suficiente para aplicar a totalida- de do composto orgânico que pode ser produzido com a reciclagem dos resíduos orgânicos gerados no Brasil. Afinal, a quantidade gerada é gigante, não é mesmo? A resposta para essa pergunta é um contundente “SIM!”, corroborado por diversas pesquisas. De acordo com o MapBiomas (2022), a área agropecuária no Brasil é de 263,4 milhões de hectares: 149,6 de pastagens, 60,4 de agricultura, 8,6 de silvicultura e 44,8 de mosaico. Considerando uma aplicação básica de 10 toneladas de composto orgânico por ano para reposição da matéria orgânica degradada no manejo, isso geraria uma demanda de 2,63 bilhões de toneladas de composto orgânico por ano. É importante ressaltar que essa é uma estimativa conservadora, visto que existem culturas hortícolas com recomendação de adubação chegando a 60 toneladas por ano, como alface, couve-flor, repolho e brócolis (TRANI et al., 2013). Portanto, se transformarmos todos os resíduos orgânicos urbanos co- letados no País e enviarmos para compostagem, serão produzidos cerca de 12 milhões de toneladas por ano de composto orgânico4, o que não atenderia nem 0,5% da demanda para solo agropecuário total ou 1,7% do solo agrícola e silvícola.Outros levantamentos também corroboram a existência de áreas suficientes para aplica- ção da totalidade do composto orgânico potencialmente gerado no Brasil (ISWA, 2020). Inclusive, os produtores rurais também vêm absorvendo o composto orgânico produzido, uma vez que as vendas de fertilizantes orgânicos triplicaram entre 2019 e 2022, principal- mente devido à pandemia e à guerra da Rússia e Ucrânia, que dificultaram a importação de fertilizantes (85% da demanda nacional). A expectativa ainda é que as vendas de fertilizan- tes orgânicos sólidos aumentem 80% em 2023 (ABISOLO, 2023). Obviamente existem barreiras logísticas para viabilizar a aplicação desse composto no território nacional, visto que o composto orgânico gerado em Manaus, por exemplo, não tem viabilidade econômica para uso no Rio Grande do Sul. Ainda assim, quando utilizamos o recorte local e/ou regional de uma das áreas mais críticas do País, a Re- gião Metropolitana de São Paulo (RMSP), nós vemos que isso não seria um problema. A RMSP é uma região densamente urbanizada e com a maior geração de RSU, com ex- pressiva distância de áreas verdes e agrícolas para uso do composto orgânico. Mesmo na RMSP, 70% do composto orgânico potencialmente gerado teria aplicação em áreas agrícolas e silvícolas já existentes dentro da RMSP. Considerando as áreas do entorno, o composto orgânico produzido com RSU atenderia somente 43% da demanda de adu- bação nas regiões de Sorocaba, São Paulo e Mogi das Cruzes (VIEIRA, 2018). 4 O Brasil coleta cerca de 65,6 milhões de toneladas de RSU (MDR, 2022), e estima-se que cerca de 45,3% desse valor sejam resíduos orgânicos (ABRELPE, 2020). A taxa de conversão de resíduo orgânico em composto orgânico foi de 40% (1 tonelada de resíduos orgânicos vira 400 quilos de composto). 60 Com a disponibilidade do composto orgânico, também é possível observar que as organizações que no passado focavam no manejo de resíduos recicláveis “secos” passaram a realizar novas atividades ou serviços que fortalecem e aumentam a valorização da organização na sociedade local (Figura 17). Figura 17: Principais destinos do composto orgânico produzido pelas organizações analisadas. 3URGX©¥R�GH�PXGDV�H�ćRUHV Comercialização Hortas escolares e hortas das próprias organizações Agricultores Locais Jardinagem e manutenção de áreas verdes Doação para uso caseiro substrato Para Para Pro- Dução De muDas e flores Pela organização, PoDenDo gerar uma fonte De renDa aDiCional. o ComPosto orgâniCo é Co- merCializaDo, geranDo nova fonte De renDa Para a orga- nização. normalmente, é en- saCaDo (saCos De 1 a 20 quilos) e/ou venDiDo a granel Para usos em esCala (lotes De até 5 tonelaDas, em Caçambas). insumo Para fomento a hortas esColares e/ou manter uma horta PróPria interna à organização. DestinaDo, Por Doação ou troCas, Para agriCultores loCais utilizarem em sua ProDução, majoritariamen- te em hortiCultura, mas também em reCuPeração De Áreas DegraDaDas. a Prefeitura utiliza na jarDinagem, Paisagismo e manutenção De Áreas verDes Da CiDaDe. a organização, também Como forma De engajamento Da PoPulação na Coleta se- letiva, retorna o ComPosto orgâniCo Para a PoPulação utilizar DomestiCamente. 61 A ACAMARTI, por exemplo, passou a produzir flores para embelezamento da cidade com o composto orgânico disponível e foi posteriormente contratada para a manutenção de áreas verdes e canteiros de flores da cidade. estufa Para ProDução De flores Da aCamarti Com o ComPosto orgâniCo ProDuziDo. Crédito da imagem: Prefeitura Municipal de Tibagi A CooperCicli, por sua vez, com a produção de compostos orgânicos e mudas, iniciou uma barraca na feira da cidade onde, além de comercializar os produtos para a população local, passou a promover a sensibili- zação sobre a importância da coleta seletiva e separação adequada dos resíduos nas residências. venDa De ComPosto orgâniCo Pela CooPerCiCli na feira Da CiDaDe. Crédito da imagem: CooperCicli 62 Desafios e potenciais para o fortalecimento e ampliação de novos modelos de gestão de resíduos orgânicos e compostagem Os desafios da compostagem e gestão de resíduos orgânicos compostáveis para implantação e desen- volvimento de novos modelos na cidade invariavelmente dependem do ponto de observação e do pa- pel desempenhado dentro do sistema de gestão de RSU. Nesse contexto, os desafios e oportunidades aqui mapeados e sistematizados representam duas perspectivas diferentes: Projetos no campo das ideias: Envolvem atores que possuem a ideia ou intenção de implantar proje- tos de compostagem, porém ainda não chegaram à fase de concepção detalhada e/ou implantação. No estudo realizado, o mapeamento dos desafios e oportunidades visualizados se baseia na pré- -concepção do projeto, a partir da perspectiva de organizações de catadores e catadoras da gran- de São Paulo, conforme descrito na metodologia. É importante ressaltar que os resultados podem variar de acordo com as particularidades de cada oficina replicada, seja pela participação de outros atores (gestores públicos e agricultores) ou por estarem em diferentes regiões do País e com dife- rentes recursos disponíveis. Projetos em operação: Abrangem sistemas que estão em pleno funcionamento, ainda que em dife- rentes escalas, e enfrentam desafios para a sua manutenção, melhoria da qualidade e/ou ampliação da escala. Esses desafios e oportunidades são resultado das respostas obtidas durante as entrevis- tas semiestruturadas realizadas com os oito (8) estudos de caso. A seguir, apresentamos os desafios e oportunidades mapeados para os dois diferentes recortes de análise descritos, focando nas organizações que buscam implantar projetos de compostagem e gestão de resíduos sólidos. 63 'HVDĆRV� H� RSRUWXQLGDGHV� QD� IDVH� GH� LPSODQWD©¥R� SDUD� organizações de catadores e catadoras Durante a oficina de compostagem, as catadoras e catadores participantes levantaram inúmeros de- safios para o desenvolvimento de sistemas de coleta seletiva de resíduos orgânicos e compostagem integrada. A Tabela 8 apresenta todos os desafios identificados, juntamente com suas descrições e relevância. Tabela 8: Desafios para a gestão de resíduos orgânicos e compostagem com catadoras e catadores. Desafio DesCrição relevânCia Formação interna e convencimento de cooperados/ associados para trabalho com os resíduos orgânicos É importante enfrentar a rejeição existente quanto ao trabalho com esse tipo de resíduo, geralmente tido como um resíduo “mais sujo”. Essa desvalorização simbólica do trabalho com o resíduo orgânico também está associada a uma imagem de “trabalho rural” que, além de ser considerada antiquada, muitas vezes fez parte de um passado do qual os próprios cooperados desejam se distanciar. Dessa maneira, é crucial sensibilizá-los sobre como esse tipo de trabalho é inovador e possui grande valor para o engajamento interno. M u it o a lt a Construção da unidade de compostagem Financiamento e/ou recurso para construir uma unidade de compostagem, o que em geral é um passo anterior ao início dos serviços de coleta seletiva e comunicação, dada a necessidade de garantir que o resíduo separado e coletado seja efetivamente compostado. Em geral, a ordem de investimento inicial para construção está acima da capacidade de investimento que a organização possui, gerando uma dependência de uma fonte de financiamento externa. A lt a Reconhecimento e credibilidade ao trabalho dos catadores e catadoras Promoção do diálogo e convencimento da importância do trabalho e priorização dos catadores e catadoras no sistema de gestão de RSU junto aos diferentes atores envolvidos, como órgãos públicos, sociedade civil organizada, autoridades ambientais, entre outros. Em geral, na construção de políticas públicas não há abertura para a participação da categoria de catadores e catadoras, o que favorece outros setores (empresas e start-ups), marginaliza e perpetua a discriminaçãocontra os catadores. Todo esse cenário fragiliza a relação entre as cooperativas e o poder público. Assistência técnica e capacitação Apoio técnico para o desenvolvimento dos projetos, tanto na estruturação e captação de recursos como na operação e monitoramento da qualidade do processo. Área/terreno disponível para compostagem O acesso a áreas suficientes e adequadas é um grande desafio para a execução dos projetos de compostagem, visto que a disputa por terrenos nas cidades, principalmente em áreas metropolitanas, é desleal para os catadores e catadoras, normalmente marginalizados frente a outras categorias, grupos políticos e demandas que são privilegiadas. Além da dificuldade em obter as áreas, o aceite da vizinhança ainda pode ser um complicador, considerando as reclamações e objeções à implantação da compostagem e de barracões para a separação de recicláveis “secos”. Outra limitação que também pode ocorrer é quanto àqueles terrenos disponíveis, mas que apresentam restrições de uso e ocupação do solo pelo zoneamento, áreas de preservação permanente (APPs), áreas de mananciais, entre outras razões. Infraestrutura básica e serviços públicos para as instalações Necessidade de regularização de serviços públicos essenciais para o funcionamento das organizações (eletricidade, água e esgoto, transporte e outros). M é d ia 64 Desafio DesCrição relevânCia Articulação e comunicação em diferentes setores do poder público Necessidade de articulação e comunicação com os diferentes setores e secretarias dos órgãos governamentais nas diferentes esferas (municipal, estadual e federal). Muitas vezes, as demandas dos setores são diferentes e não dialogam entre si, o que reduz a viabilidade do projeto, dado o excesso de burocracia e morosidade. B ai xa Acesso a material estruturante/insumos para compostagem adequada (resíduos de poda e jardinagem) A compostagem adequada de resíduos alimentares e outros ricos em nitrogênio depende da mistura com resíduos ricos em carbono para evitar a geração de odores. Muitas vezes, a estrutura administrativa da gestão desses resíduos fica fora do departamento de resíduos sólidos. Portanto, é importante articular secretarias e serviços para garantir uma fonte de resíduos de jardinagem para mistura na compostagem, como aparas de grama e poda triturada. Contaminação dos resíduos orgânicos e demanda de separação Separação dos resíduos orgânicos de outros resíduos para evitar contaminação. Com base em todos os pontos levantados pelos(as) catadores(as), é possível notar que os principais desafios enfrentados pelas organizações para viabilizar os sistemas são de caráter estrutural, como investimento inicial na construção da unidade de compostagem, aquisição de equipamentos e viabili- zação de áreas adequadas e infraestrutura. Este último ponto é a chave que evidencia a importância da atuação das Prefeituras e outros entes federativos na estruturação dessas iniciativas, uma vez que a responsabilidade por viabilizar os sistemas de gestão dos resíduos orgânicos e compostagem é do titular dos serviços públicos de manejo de resíduos sólidos e limpeza urbana (Art, 36º, inciso V da PNRS). Isso é confirmado nas experiências mapeadas pelo presente estudo, uma vez que a Prefeitura se destaca por ser um ator-chave na viabilização da estrutura, contratação e aplicação de mecanismos financeiros para gestão de resíduos orgânicos nas cidades. Com relação à origem do financiamento, nota-se que essa equação não possui uma única solução. A maior parte das experiências aqui estudadas foi viabilizada a partir de recursos federais, seja por editais diretos ou repasses de bancos nacionais (como BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal). Complementarmente, alguns sistemas também foram viabilizados por recursos próprios das Prefeituras e fundos municipais, e em menor representatividade houve apoio do setor privado. Ape- sar disso, as medidas estruturantes relacionadas à formação interna e valorização dos catadores e catadoras no desenvolvimento dessa atividade ainda são os principais desafios, visto que o trabalho com os resíduos orgânicos compostáveis, diferente dos recicláveis (papel, papelão, metal, vidro, plás- tico etc.), é geralmente associado a algo mais degradante e “sujo”. 65 Dentro desse contexto, um programa de valorização do trabalho dos catadores e catadoras, por meio da contratação e remuneração associadas à assistência técnica e formação, pode promover a supe- ração gradativa desses principais desafios elencados. Em partes, eles também podem ser contempla- dos pela retomada das políticas públicas de apoio aos catadores e catadoras do governo federal. De acordo com o grupo, esse item é a maior oportunidade para a integração deles na gestão de resíduos orgânicos e compostagem. Com a superação de tais desafios, uma série de oportunidades e potenciais (reunidas na Tabela 9) poderá ser alcançada, promovendo vários benefícios positivos em cascata, não só para os catadores e catadoras, como também para o município e toda a sociedade em diferentes dimensões sociais, eco- nômicas e ambientais. Tabela 9: Oportunidades para a gestão de resíduos orgânicos e compostagem com ca- tadoras e catadores. item DesCrição relevânCia Retomada das políticas públicas de apoio à categoria e diálogo com o governo federal As catadoras e catadores já possuem prioridade, prevista na PNRS, dentro da gestão de resíduos sólidos e esta seria uma oportunidade para inseri-los também na gestão dos resíduos orgânicos e compostagem. A retomada de políticas públicas federais em apoio a categoria são essenciais para o fortalecimento das organizações, como a recriação do Programa Diogo de Sant’Ana Pró-Catadoras e Pró-Catadores e de seu comitê interministerial (CIISC), a reestru- turação do sistema de créditos para logística reversa, (Decreto n° 11.413/2023); fomento a projetos de reciclagem por meio da regulamentação da Lei de Incentivo à Reciclagem (LIR), Lei nº 14.260/2021; e estabelecimento de pagamento por serviço ambiental (PSA) aos catadores pela educação ambiental popular, coleta, triagem e compostagem, no âmbito da regulamenta- ção da Lei n° 14.119/2021 (Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais). M u it o a lt a Maior eficiência na comunicação com os munícipes A comunicação catador-munícipe é a ferramenta mais eficiente para promover sensibiliza- ção e engajamento na coleta seletiva, dada a proximidade e conhecimento da sua realida- de. Quando comparada a outras estratégias de modelos centralizados e sem catadores, é possível identificar que, quando há uma comunicação efetiva, existe também uma melhora na coleta seletiva, redução dos contaminantes e desvio de grande parcela dos resíduos de aterros sanitários. A lt a Melhoria da relação entre governos e sociedade Com a gestão de resíduos sólidos sendo realizada junto aos catadores e catadoras, o diálogo com a sociedade é facilitado e a estrutura de controle social e gestão democrática reforçada. Geração de empregos e novas fontes de renda para catadores e catadoras Considerando que os resíduos orgânicos representam metade do RSU, a massa recebida pelas organizações aumentaria significativamente, tal como a renda. Além disso, a compostagem permitiria parcerias com novos atores e clientes para além dos resíduos domésticos. Principalmente por meio do necessário avanço de atuação do poder público municipal na regulamentação de seus grandes geradores, o que criaria condições para alavancar as parcerias das organizações de catadores com novos atores e clientes para além dos resíduos domésticos (restaurantes, hotéis, mercados, etc.). A existência do espaço, com compostagem e horta associada, também permite a abertura para visita de escolas e atividades de educação ambiental, o que pode ser uma fonte de ren- da adicional para a organização. 66 item DesCrição relevânCia Existência de orçamento alto já existente no setorde RSU para manejo dos resíduos orgânicos com os contratos municipais Diferentemente da verba e equipamentos para a coleta seletiva, hoje já existe orçamento nas Prefeituras focado no manejo dos resíduos domésticos, que são em maioria orgânicos. Dessa forma, seria necessário apenas realocar parte dos recursos para que organizações de catadores(as) também realizem o serviço. M é d ia Fortalecimento da categoria e ampliação das organizações já existentes Com a inclusão da coleta seletiva de resíduos orgânicos e/ou compostagem, a organização poderia apresentar uma proposta completa para a gestão de todos os resíduos dos clientes hoje atendidos, não apenas para os recicláveis “secos”. Inclusive, alguns clientes das catado- ras e catadores já demonstram interesse por esse tipo de serviço. Com objetivo de aumentar a escala, a compostagem tem potencial de estimular a integração e organização de arranjos em rede entre organizações de catadoras e catadores. As orga- nizações já existentes poderiam ampliar a área e o número de cooperados, com os novos postos de trabalho promovidos pela compostagem. Deve-se ressaltar ainda que novos serviços podem promover maior reconhecimento da cate- goria de catadores e catadoras como agentes ambientais importantes na sociedade. Uso de áreas subutilizadas e garantia da função social de áreas ociosas Atualmente, as áreas geotecnicamente estáveis e aptas para uso, que incluem áreas com linhas de transmissão elétrica e dutos, estão sendo subutilizadas como aterros desativados ou estão ociosas, e poderiam ser bem melhor aproveitadas com a implantação de pátios de compostagem de catadores e catadoras. Promoção de soluções des- centralizadas A compostagem com catadores tende a ser descentralizada, reduzindo os impactos ambien- tais com transporte em ciclos curtos e também os impactos de vizinhança de unidades de compostagem de maior porte. Implantação de hortas e produ- ção de alimen- tos saudáveis A disponibilidade de composto orgânico, produzido dentro das organizações, possibilita a implantação e manutenção de hortas para a produção de alimentos saudáveis destina-dos aos catadores(as) e à comunidade. Diminuição dos rejeitos gerados nas organiza- ções de catado- res e catadoras As organizações já existentes, infelizmente, lidam com um índice de rejeitos significativo, composto em parte por resíduos orgânicos compostáveis que apenas geram custos à estru- tura atual. A implantação da compostagem nessas organizações permitiria a redução da mas- sa rejeitada e encaminhada para aterro sanitário, aumentando a eficiência das operações já existentes. B ai xa Crescente valorização dos resíduos orgâ- nicos dentro da agenda de manejo do RSU A médio e longo prazo, os resíduos orgânicos ganhariam muita relevância, tanto pela dis- cussão climática quanto pela histórica ausência de políticas públicas específicas, sendo uma oportunidade para que os catadores(as) sejam pioneiros na solução desse problema, como foram para os recicláveis “secos”. A Tabela 9 exemplifica como a promoção de sistemas de compostagem integrados a catadores e ca- tadoras traz inúmeros benefícios e uma melhor gestão de RSU. A implantação de compostagem com esses atores pode ter inúmeras vantagens, como a utilização de áreas ociosas para geração de renda às camadas socialmente vulneráveis, além da otimização de sistemas de gestão de RSU já existentes que possuem capacidade ociosa. Com o aprimoramento e investimento nas organizações já existen- tes, que recebem quantidade significativa de resíduos orgânicos compostáveis que contaminam os recicláveis “secos”, a compostagem poderia reduzir a quantidade de rejeitos encaminhada a aterros e aumentar a geração de novos empregos e renda. 67 'HVDĆRV�QD�IDVH�GH�RSHUD©¥R�GRV�QRYRV�PRGHORV�GH� gestão de resíduos orgânicos e compostagem Diferente das organizações que ainda buscam implantar a sua unidade de compostagem e/ou o sis- tema de coleta seletiva de resíduos orgânicos compostáveis, as experiências analisadas neste es- tudo já superaram em parte esses desafios, sobretudo aqueles associados ao investimento inicial e estrutural para iniciar o projeto. No entanto, uma série de novos desafios apareceu, especialmente com a tentativa de escalar o projeto para aumentar a massa de resíduos orgânicos coletada e com- postada. A partir das entrevistas realizadas nos estudos de caso, os principais desafios identificados nos projetos envolvem: Educação ambiental e sensibilização da população Atualmente, as organizações em funcionamen- to enfrentam uma grande dificuldade com rela- ção à separação do resíduo orgânico na fonte, uma vez que a qualidade e a quantidade do resí- duo coletado poderiam ser muito maiores caso houvesse programas de conscientização e in- centivo à criação desse hábito pela população. Muitas vezes, o processo de triagem manual e mecânica dos resíduos orgânicos presente nas organizações é ineficiente, considerando o tem- po e a disponibilidade das pessoas envolvidas nessa etapa. Portanto, se houvesse recursos destinados diretamente à divulgação e comu- nicação do trabalho realizado pelas organiza- ções, focando em estratégias de sensibilização, haveria um aumento significativo do índice de resíduos compostados e, consequentemente, uma redução no índice de rejeitos encaminha- dos aos aterros. De maneira similar, as organi- zações que trabalham contratadas pelas prefeituras também enfrentam a limitação dos contratos vigentes por não demandarem a coleta seletiva dos orgânicos, inviabilizando a operação por parte da cooperativa. “A COMPOSTAGEM TRAZ SENSIBILIZAÇÃO. Trouxe para mim, muito no sentido de fazer pela minha comunidade, pelo meu entorno.” Cíntia Aldaci da Cruz (Revolução dos Baldinhos) Crédito da imagem: Thaiane Barbosa/Instituto Pólis 68 Atuação do poder público municipal Como comentado em capítulos anteriores, o poder público municipal é um ator essencial para a conti- nuidade e aumento da qualidade do serviço prestado pelas organizações. O apoio e envolvimento das prefeituras devem ir muito além da criação e inclusão das organizações de compostagem nas políticas públicas municipais voltadas à gestão adequada de RSU e promoção da compostagem. Um desafio importante registrado nas entrevistas é a descontinuidade de programas e políticas públicas, bem como a ausência de discussões e planejamentos de médio e longo prazo, sempre gerando incertezas às organizações. A falta de pagamento e formalização contratual pela prestação do serviços é hoje uma das maiores lacunas das organizações, visto que os cooperados e/ou associados nem sempre possuem uma renda mensal garantida e equivalente ao trabalho realizado. Portanto, a coleta seletiva e a compostagem dos resíduos orgânicos urbanos, juntamente com a dos recicláveis “secos”, devem ser reconhecidas como serviço público, devidamente remunerado às organizações. Ressalte-se ainda o que diz a PNRS, no Art. 33, parágrafo 7º: Se o titular do serviço público de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos, por acordo setorial ou termo de compromisso firmado com o setor empresarial, encarregar-se de atividades de responsa- bilidade dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes nos sistemas de logística rever- sa dos produtos e embalagens a que se refere este artigo, as ações do poder público serão devidamen- te remuneradas, na forma previamente acordada entre as partes. Finalmente, os exemplos entrevistados indicam que é fundamental que o poder público municipal adote uma abordagem integrada de fiscalização e engajamento, que combine fiscalização adequada, principalmente dos grandes geradores, divulgação de informações claras sobre a necessidade e re- levância da separação correta dos resíduos orgânicos, e promoção de atividades educacionais com orientações práticas que fortaleçam a participação efetiva da população. Ao unir essas frentes, é pos- sível criar uma cultura e engajamento popularforte. Deve-se ressaltar que a fiscalização não deve ser conduzida separadamente das campanhas de sensibilização, uma vez que foi enfatizada a ineficiência dessas ações punitivas isoladas. Crédito da imagem: Prefeitura Municipal de Tibagi 69 Assistência técnica A assistência técnica, em especial durante a implantação dos sistemas, é de suma importância para o seu sucesso. A assistência pode ser realizada por equipe da Prefeitura ou outra instituição competen- te. Idealmente, o apoio do poder público pode vir até antes da formação das cooperativas e/ou asso- ciações, através de planejamento e estudos detalhados sobre a viabilidade do projeto, considerando aspectos técnicos, econômicos e ambientais. As demandas de apoio técnico abrangem tantos aspectos técnicos da compostagem como os relacionados à contratação de pessoal, licenças ambientais e regis- tro de fertilizantes. Além desses pontos, também é importante estabelecer parcerias entre as organizações existentes, criando redes de apoio para discutir e identificar os desafios em comum que elas enfrentam. O for- talecimento desses espaços suscita o oferecimento de cursos e oficinas de capacitação aos atores envolvidos e, consequentemente, uma melhora nos serviços prestados e na valorização do trabalho. Infraestrutura e logística Outros desafios significativos enfrentados possuem relação direta com a infraestrutura e logística dos serviços prestados, por exemplo, a dificuldade na ampliação dos espaços de compostagem. Duran- te as entrevistas realizadas, ficou evidente que a baixa disponibilidade de terrenos suficientemente adequados para a compostagem dos resíduos orgânicos é um dos maiores problemas que limitam o crescimento das organizações, juntamente com a ausência de separação correta dos resíduos orgâni- cos na fonte e coleta seletiva. Para superar essas dificuldades, é necessário planejar estratégias que facilitem o processo de coleta seletiva e a participação da população, como a comunicação clara dos dias de coleta, otimização de rotas e até mesmo inovação dos sistemas e equipamentos de coleta para aumentar sua eficiência. Crédito da imagem: Prefeitura de Marabá 70 Conclusões e recomendações 1. É necessário repensar os sistemas de gestão de RSU para além da lógica convencionalmente pri- vada e/ou estatal. Os modelos analisados mostram que a integração de diversos atores, como or- ganizações de reciclagem, agricultura e moradia, traz resultados mais positivos do que os sistemas convencionais. 2. Os sistemas de compostagem e gestão de resíduos orgânicos de sucesso contrariaram a lógica de alto investimento em infraestrutura, iniciando em pequena escala com os resíduos orgânicos com- postáveis de fácil separação (poda municipal, restaurantes, mercados e estabelecimentos comer- ciais) e expandindo aos poucos, até o atendimento dos resíduos domésticos. 3. A fase de implantação dos sistemas é a que apresenta mais desafios para os municípios e orga- nizações, sobretudo devido à ausência de assistência técnica e fontes de financiamento. O apoio de instituições federais, principalmente em municípios com baixa autossuficiência financeira, foi o responsável por garantir que os sistemas se desenvolvessem. 4. A contratação das organizações e o pagamento pelos serviços prestados no manejo dos resíduos orgânicos compostáveis, seja na coleta seletiva ou na compostagem, são essenciais para a susten- tabilidade dos sistemas. 5. A coleta seletiva de resíduos orgânicos compostáveis é indispensável para garantir a qualidade do composto orgânico, visto que aumenta a taxa de reciclagem geral do sistema de RSU, reduz o índice de rejeitos e, por consequência, o aterramento. Portanto, a implantação de futuros sistemas de compostagem deve priorizar a estruturação da coleta seletiva dos resíduos orgânicos compos- táveis, realizando a coleta em, no mínimo, três frações (resíduos orgânicos, recicláveis e rejeitos). 6. A produção de composto orgânico pode ser conectada a programas de incentivo à agricultura fami- liar, urbana e agroecológica, trazendo benefícios para o sistema alimentar do município, reduzindo custos com insumos para os agricultores e conectando políticas públicas. 7. As organizações de catadores e catadoras podem desempenhar nacionalmente um papel funda- mental na expansão da reciclagem de RSU orgânicos compostáveis, tendo como exemplo as expe- riências bem-sucedidas já em funcionamento em algumas cidades, como apresentado neste estudo. A inclusão dessa atividade socioprodutiva nas organizações traz mais segurança econômica, visto que reduz a dependência do mercado de materiais recicláveis e diversifica sua fonte de renda, in- clusive otimizando mão de obra ociosa. Programas federais de apoio e investimento devem prio- rizar a implantação de sistemas de compostagem em municípios onde a massa gerada de resíduos recicláveis não garante a sustentabilidade econômica do sistema, integrando e otimizando ambos os sistemas. 71 72 ABNT: Associação Brasileira de Normas Técnicas ANCAT: Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis Art: Artigo BNDES: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CEPAGRO: Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo CONAMA: Conselho Nacional do Meio Ambiente EPI: Equipamento de Proteção Individual FAPESC: Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina FNMA: Fundo Nacional do Meio Ambiente FSA: Fundo Socioambiental GEE: Gases de Efeito Estufa IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística PEV: Pontos de Entrega Voluntária PMGIRS: Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos PNRS: Política Nacional de Resíduos Sólidos NBR: Norma Técnica Brasileira RMSP: Região Metropolitana de São Paulo RSU: Resíduos Sólidos Urbanos SEAGRI: Secretaria Municipal de Agricultura SEBRAE: Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SNIS-RS: Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – Resíduos Sólidos UNEP: United Nations Environment Programme UTC: Unidade de Triagem e Compostagem WFC: World Future Council Lista de siglas e abreviaturas 73 Glossário Coleta misturada ou indiferenciada: Coleta de resíduos sólidos realizada sem a prévia segre- gação na fonte, ou seja, sem a coleta seletiva. É utilizada em geral, neste estudo, para se referir a coleta dos orgânicos compostáveis junto com rejeitos. Coleta seletiva: “Coleta de resíduos sólidos pre- viamente segregados conforme sua constituição ou composição” (BRASIL, 2010, Art. 3º, V). Ou seja, é a coleta de resíduos sólidos que foram se- parados diretamente na fonte geradora. Coleta seletiva em duas frações: Sistema de coleta seletiva dividido em apenas dois fluxos: os recicláveis “secos” em um e outro misturan- do os resíduos orgânicos compostáveis com os rejeitos, popularmente chamados de “não-reci- cláveis” ou “úmidos”, de forma errônea. Em geral, esse sistema não permite o adequado reaprovei- tamento dos resíduos orgânicos compostáveis, também recicláveis, dada a contaminação pelos rejeitos. Coleta seletiva em três frações: Sistema de co- leta seletiva separado em três fluxos: os reciclá- veis “secos”, os resíduos orgânicos compostáveis e os rejeitos, no mínimo. Compostagem: “Processo de decomposição biológica controlada dos resíduos orgânicos, efetuado por uma população diversificada de or- ganismos, em condições aeróbias e termofílicas, resultando em material estabilizado, com pro- priedades e características completamente dife- rentes daqueles que lhe deram origem” (BRASIL, 2017b, Art. 2º, III). Composto orgânico: “Produto estabilizado, oriundo do processo de compostagem, poden- do ser caracterizado como fertilizante orgânico, condicionador de solo e outros produtos de uso agrícola” (BRASIL, 2017b, Art. 2º, IV). Condicionador de solos: “Produto que promove a melhoria das propriedades físicas, físico-quí- micas ou atividade biológica do solo” (BRASIL, 2004, Art. 2º, IV, d). Digestão anaeróbia:“Processo de decompo- sição biológica controlada da matéria orgânica na ausência de oxigênio (condições anaeróbias), efetuada por um consórcio microbiano. Como subprodutos, tem-se composto orgânico e bio- gás, composto principalmente por metano (CH 4 ) e dióxido de carbono (CO 2 )” (BRASIL, 2008). Digestato: Material que passou por processo de digestão anaeróbica e possui características fer- tilizantes muito semelhantes às do dejeto matu- rado. Fertilizante orgânico: “Produto de natureza fundamentalmente orgânica, obtido por proces- so físico, químico físico-químico ou bioquímico, natural ou controlado, a partir de matérias-pri- mas de origem industrial, urbana ou rural, vege- tal ou animal, enriquecido ou não de nutrientes minerais” (BRASIL, 2004, Art. 2º, b). Fertilizante orgânico composto: “Produto ob- tido por processo físico, químico, físico-químico ou bioquímico, natural ou controlado, a partir de matéria-prima de origem industrial, urbana ou rural, animal ou vegetal, isoladas ou misturadas, podendo ser enriquecido de nutrientes minerais, princípio ativo ou agente capaz de melhorar suas características físicas, químicas ou biológicas” (BRASIL, 2004, Art. 2º, III, n). Índice de rejeitos: Porcentagem da massa total gerada, coletada e/ou manejada pela organiza- ção que não é reinserida nos ciclos produtivos, inclusive orgânicos, pela reciclagem e composta- gem, por exemplo, tendo como destino a disposi- ção final em aterros sanitários e, por vezes, em lixões de forma inadequada. Leira de compostagem: As leiras são sistemas abertos de compostagem, no geral em formato retan- gular ou com seção transversal triangular. As dimen- sões variam de acordo com a disponibilidade de espa- ço, forma de manejo da leira de compostagem e tipo de resíduos, podendo as larguras variarem de 1,20 metro a 4 metros e alturas de 1 metro a 2,5 metros, idealmente, para permitir a entrada de ar no interior da leira. 74 Pilha de compostagem: A diferença primordial da pilha de compostagem em relação à leira está no for- mato piramidal. Reciclagem: “Processo de transformação dos resí- duos sólidos que envolve a alteração de suas proprie- dades físicas, físico-químicas ou biológicas, com vis- tas à transformação em insumos ou novos produtos, observadas as condições e os padrões estabelecidos pelos órgãos competentes do Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA) e, se couber, do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS) e do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (SUA- SA)” (BRASIL, 2010, Art. 3º, XIV). Rejeito: “Resíduos sólidos que, depois de esgotadas todas as possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos disponíveis e economica- mente viáveis, não apresentem outra possibilidade que não a disposição final ambientalmente adequa- da” (BRASIL, 2010, Art. 3º, XV). Resíduo sólido urbano (RSU): Resíduos sólidos englobados nos resíduos domiciliares e resíduos de limpeza urbana, sendo respectivamente os originá- rios de atividades domésticas em residências urbanas e os originários da limpeza de logradouros e vias pú- blicas e outros serviços de limpeza urbana (BRASIL, 2010, Art. 13º, I, a, b e c). Resíduos orgânicos compostáveis: “São aqueles representados pela fração orgânica dos resíduos só- lidos, passível de compostagem, sejam eles de origem urbana, industrial, agrossilvipastoril ou outra” (BRA- SIL, 2017b, Art. 2º, XI). Resíduos recicláveis “secos”: Resíduos incluídos na definição anterior, porém, com o objetivo de di- ferenciá-los dos resíduos recicláveis orgânicos com- postáveis, este estudo usa o termo para se referir à fração reciclável convencionalmente conhecida como “seca” (apesar das limitações do termo), como papel e papelão, plástico, vidro, metais, têxteis e similares, excluídos resíduos alimentares e de vegetação/jardi- nagem. Resíduos (ou materiais) reutilizáveis e reciclá- veis: “Resíduos sólidos que podem ser reinseridos no ciclo produtivo, inclusive orgânicos, considerados bens de interesse público, de valor econômico e so- cial, com potencial para gerar trabalho e renda e pro- mover a cidadania de catadoras e catadores” (BRA- SIL, 2023a, Art. 2º, III). Substrato para plantas: “Produto usado para meio de crescimento de plantas” (BRASIL, 2014, Art. 2º, XXXVI). 75 ABISOLO – Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal. 9º Anuá- rio Brasileiro de Tecnologia em Nutrição Vegetal: 2023. Campinas, SP, 2023. Dispo- nível em: https://www.abisolo.com.br/anua- rio/. ABRELPE – Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2020. 2020. Disponível em: https://abrelpe. org.br/panorama/. Acesso em: 27 jun. 2022. ANCAT – Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis. ATLAS Brasileiro da Reciclagem. 2022. Disponível em: https://atlasbrasileirodareciclagem.an- cat.org.br/. BARREIRA, L. P.; PHILIPPI JUNIOR, A.; RODRI- GUES, M. S. Usinas de compostagem do Es- tado de São Paulo: qualidade dos compostos e processos de produção. Engenharia Sa- nitária e Ambiental, v. 11, n. 4, p. 385–393, out. 2006. 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