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AULA 1 BIOENERGÉTICA Prof. Leonardo Augusto Becker 2 CONVERSA INICIAL Querido(a) aluno(a), seja muito bem-vindo(a)! Ao longo de nossas aulas, estudaremos as diferentes estruturas e funções das células eucarióticas; os aspectos relacionados ao treinamento físico e às principais alterações fisiológicas que ele provoca. Além disso, faremos uma breve introdução sobre genética celular e engenharia genética. Ademais, verificaremos a influência, no desempenho físico do atleta, de diferentes condições climáticas e fisiológicas e tipos de treinamento. Nesta aula, analisaremos as diversas estruturas e funções das células eucarióticas, distribuídas em cinco tópicos: fisiologia celular, principais características das células eucarióticas, diferença entre células procariontes e eucariontes, estrutura da célula eucariótica e função das células eucarióticas. TEMA 1 – INTRODUÇÃO À FISIOLOGIA CELULAR A fisiologia celular é algo complexo de ser estudado e alguns assuntos são muito desafiadores. Assim, pode-se dizer que as células fazem a ligação entre os compostos químicos e os organismos vivos. Desse modo, resumidamente, as funções corporais de um organismo vivo dependem, de certa forma, das estruturas e funções coletivas das células (Sherwood, 2018). A fisiologia celular é tão fantástica e complexa que pode ser discutida e estudada por diferentes perspectivas. Todo nascimento de uma célula parte da divisão de uma célula preexistente. Com isso, toda nova célula apresenta função e estruturas semelhantes àquela que lhe deu origem. As células são organismos vivos minúsculos, que não podem ser vistos a olho nu. As células são os menores compostos vivos do corpo humano capazes de realizar processos vitais. Assim qualquer estudo, desde o básico ao avançado, na área celular só pode ser realizado por meio de microscópio, no qual são utilizadas técnicas que envolvem bioquímica, cultura celular, fluidos, compressão, entre outras técnicas. Atualmente, a ciência conhece trilhões de células, de mais de 200 diferentes tipos. Apesar disso, as células apresentam estruturas e funções semelhantes entre si (Sherwood, 2018). 1.1 Estrutura celular As células possuem três subdivisões: a primeira delas é a membrana plasmática, que envolve as células; na sequência, há o núcleo, que contém o 3 material genético; e, posteriormente, o citoplasma, que é a parte interior da célula (Sherwood, 2018). Figura 1 – Estrutura celular Crédito: Vecton/Shutterstock. • A membrana plasmática é um material fino que envolve toda a célula, composto por lipídeos (gordura). Além de envolver a célula, a membrana plasmática impede que o fluido intracelular se misture com o fluido extracelular (Sherwood, 2018). • O núcleo é uma estrutura oval localizada no interior da célula e envolta por duas camadas. O envoltório nuclear separa o núcleo do interior da célula e apresenta alguns poros, permitindo o transporte de materiais entre o núcleo e o citoplasma. O núcleo abriga o material genético, o ácido desoxirribonucleico (DNA) da célula, que orienta a síntese proteica e o mapa genético durante a replicação celular. Para realizar a síntese proteica, são necessários os três tipos de ácido ribonucleico (RNA). Inicialmente, o material genético é transferido para o RNA mensageiro, que sai do núcleo por meio dos poros descritos anteriormente. Na sequência, no citoplasma, o RNA mensageiro entrega o código genético para os ribossomos, que fazem a leitura da informação e a traduzem em uma 4 sequência adaptada para os aminoácidos, para que a proteína seja sintetizada. Posteriormente, o RNA de transferência entrega os aminoácidos dentro do citoplasma, para a construção da proteína (Sherwood, 2018). • O citoplasma é o local que contém as organelas, que possuem funções especializadas. As organelas são divididas em duas: as organelas membranosas, que formam um local separado, envolto por uma membrana plasmática com um líquido chamado citosol (a maioria das células possuem cinco organelas membranosas, sendo elas: retículo endoplasmático, complexo de Golgi, lisossomos, peroxissomas e mitocôndrias, conjunto que no todo possui atividades específicas no interior das células); e as organelas não membranosas, que estão em contato direto com o citosol e também possuem funções específicas no interior da célula (Sherwood, 2018). • O citoesqueleto conecta as fibras de proteínas e tubos ao longo do citosol. Possui função específica de dar o formato da célula, organizar e realizar movimentos (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). TEMA 2 – PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DAS CÉLULAS EUCARIÓTICAS As células eucariontes possuem membranas as quais permitem a realização de funções mais complexas nas organelas, favorecendo as atividades da célula. A principal característica da célula eucarionte é o seu complexo sistema de organelas e a presença da membrana celular cercando o material genético. Além disso, elas conferem maior proteção ao meio extracelular. Esse revestimento é formado por uma dupla camada de fosfolipídios, associada a moléculas de proteínas. Esse revestimento ou até mesmo envoltório costuma também ser chamado, na literatura, de membrana plasmática, membrana citoplasmática ou até mesmo membrana celular. Essa membrana é formada por hidratos de carbono, moléculas de lipídeos e também proteínas. Vale ressaltar que essa membrana ou envoltório difere de acordo com as funções celulares desempenhadas (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). A membrana citoplasmática é formada por uma camada bilipídica (de forma assimétrica, devido a haver duas porções, uma hidrofóbica, voltada para o interior da célula, e outra, hidrofílica, voltada para o meio externo), com inserção de moléculas de proteínas, glicolipídeos e glicoproteínas. Essa terminologia é 5 utilizada quando lipídeos, proteínas, hidratos de carbono estão associados. A membrana citoplasmática ainda possui a função de delimitar o conteúdo celular. Também se verifica a presença de receptores específicos, que permitem o reconhecimento de outras moléculas. Assim, esses receptores são identificados por produzirem anticorpos, secreções e contrações musculares (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 2.1 Transporte de substâncias através da membrana plasmática A membrana citoplasmática confere estabilidade ao interior da célula, permitindo ou não a entrada de substâncias. Esse processo é denominado permeabilidade seletiva ou semipermeabilidade. Isso ocorre por difusão, quando o meio interno da célula é menor que o ambiente externo e vice-versa. O processo de difusão pode acontecer de forma facilitada (com participação das proteínas, que transportam moléculas específicas), por exemplo, via entrada de oxigênio e saída de gás carbônico. Já a difusão não facilitada é quando a glicose e alguns aminoácidos penetram na célula. Ademais, verificam-se outros tipos de transporte de substâncias, por exemplo endocitose (ingresso) e exocitose (eliminação). A fagocitose permite o ingresso de partículas sólidas, pela eliminação de pseudópodos, isso ocasionando o aumento do citoplasma e envolvendo alguns receptores específicos (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 2.2 Matriz extracelular A membrana citoplasmática possui na sua parte externa alguns locais, nos quais lipídeos e proteínas se ligam a hidratos de carbono, fazendo uma espécie de extensão da membrana, formada por glicolipídios e glicoproteínas. As principais proteínas que formam a matriz extracelular são proteínas fibrosas, colágeno e elastina. Outro componente que forma a matriz extracelular é a lâmina basal, especialmente nos tecidos epitelial, muscular, sanguíneo e conjuntivo. De modo geral, a lâmina basal protege órgãos e está muito relacionada à filtração do plasma sanguíneo. A união entre a célula e a matriz extracelular é realizadapor duas glicoproteínas (fibronectina e lâmina) que se ligam à matriz, estabelecendo a conexão do citoesqueleto com a matriz extracelular (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 6 2.3 Citoesqueleto O citoesqueleto é formado por finos tubos proteicos de proteína tubulina, filamentos de actina e miosina. Também na sua formação se encontram proteínas fibrosas como a queratina. O citoesqueleto é exclusivo da célula eucarionte e possui a função de organização interna da célula e movimentação de materiais, contração de músculos e batimentos dos cílios e flagelos. Os filamentos fibrosos possuem a função de fornecer estabilidade e sustentação celular, devido ao fato de seu diâmetro ser um pouco maior do que os outros, em face da concentração de actina e miosina. De modo geral, verifica-se a maior concentração desses elementos em células da epiderme e músculos (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 7 Crédito: VectorMine/Shutterstock. 8 TEMA 3 – ESTRUTURA DA CÉLULA EUCARIÓTICA Como vimos anteriormente, as células possuem núcleo, citoesqueleto, citoplasma e membrana celular. A partir deste momento, nós iremos aprofundar um pouco mais o conhecimento sobre suas principais organizações e funções (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 3.1 Retículos endoplasmáticos liso e granuloso A principal função do retículo endoplasmático granuloso é a síntese de proteínas para formar a membrana plasmática, além de ele atuar na participação da digestão intracelular. Já no retículo endoplasmático liso ocorre a inativação de substâncias tóxicas, por exemplo o álcool. Isso ocorre, pois não há ribossomos junto às suas membranas (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 3.2 Complexo de Golgi O complexo de Golgi é uma estrutura em forma de bolhas achatadas que possuem várias proteínas formadas do retículo endoplasmático granuloso, que serão modificadas posteriormente e enviadas para atuar em locais específicos. Além disso, o complexo de Golgi atua na formação de lisossomos (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 9 Crédito: VectorMine/Shutterstock. 3.3 Lisossomos Os lisossomos, após entrarem em contato com um fagossomo ou pinossomo, recebem o nome de vacúolo digestório, uma bolsa membranosa contendo várias enzimas digestivas, que reduzem de tamanho para atravessarem a membrana do vacúolo digestório e entrarem no citoplasma (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 3.4 Peroxissomos Os peroxissomos oxidam substâncias orgânicas num processo em que o uso de oxigênio gera peróxido de hidrogênio, substância tóxica para as células. Na sequência, a enzima catalase faz a degradação do peróxido de hidrogênio, transformando-o em água e gás oxigênio. Posteriormente, ocorre a oxidação de 10 ácidos graxos, a principal matéria-prima para a síntese de colesterol (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 3.5 Mitocôndrias As mitocôndrias são delimitadas por duas membranas lipoproteicas. A sua parte externa é semelhante às membranas celulares e a sua membrana interna tem algumas dobras voltadas para o interior da organela, onde se observam moléculas de DNA e RNA. Na membrana interna ocorre o processo de respiração celular, executado pelas moléculas orgânicas, inicialmente, no citoplasma, sem a presença de oxigênio (glicólise), com 2 mols de adenosina trifosfato – ATP. Em seguida, na parte interna das mitocôndrias há fosforilação oxidativa, com a presença de oxigênio (36 mols de ATP) (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). Crédito: Akor86/Shutterstock. 3.6 Ribossomos Os ribossomos são constituídos por RNA e proteínas. Nas células eucariontes, podem estar ou não associados com o retículo endoplasmático. Quando associados, formam o retículo endoplasmático granular. A principal função dos ribossomos é a síntese de proteínas, o que envolve três principais etapas: 1. Iniciação: posicionamento das partes para o início da síntese de proteínas. 11 2. Elongação: formação da cadeia polipeptídica. 3. Terminação: quando a cadeia polipeptídica está totalmente formada e é liberada. TEMA 4 – MOVIMENTO DAS CÉLULAS EUCARIONTES As movimentações celulares ocorrem a todo momento, por meio de microtúbulos, filamentos, citoplasma, divisão celular, dentre outros elementos. Nas células eucariontes, a movimentação celular pode ocorrer de diversas formas. Por exemplo, nos microtúbulos, os movimentos ocorrem por meio da proteína tubulina, através de uma espécie de cilindros estáticos longos. Na sua extremidade, há polimerização das moléculas, promovendo o alongamento dos microtúbulos. Na outra extremidade, ocorre a despolimerização das moléculas. Uma característica presente é que ocorre a todo instante a reorganização de microtúbulos, que também podem ser encontrados no citoplasma (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 4.1 Centríolos Os centríolos são cilindros ocos (microtúbulos), formados por três pontes proteicas. Os centríolos têm capacidade de autoduplicação e apresentam um par de centríolos, localizados no seu entorno (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). 4.2 Cílios e flagelos Os flagelos e cílios são oriundos dos centríolos e possuem como sua principal função a locomoção celular. Os flagelos são alongados e menos numerosos. Já os cílios são mais frequentes e mais curtos. A principal função dos cílios é atuar na remoção de resíduos. Por exemplo, na traqueia, eles atuam na remoção do muco presente nas vias aéreas (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). Um flagelo muito conhecido é o da doença de chagas (Trypanosoma cruzi). Esse protozoário aparece em diversos ciclos e a sua disseminação ocorre no interior das células hospedeiras. Outros flagelos muito conhecidos são os do bicho barbeiro e o tripomastigota. Este último se insere na membrana plasmática e vai ao interior de todo o corpo celular, porém mantém sua extremidade livre. Outro flagelo, o amastigota, é bem menor e não atinge a extremidade da célula (Pires 12 2014 e Sherwood, 2018). No caso de Trypanosoma cruzi, uma fêmea infectada procura um mamífero para se alimentar. Ao picá-lo, lhe gera uma coceira. Dado que o inseto, quando pica o mamífero, defeca sobre a sua pele, a ação de coçar facilita a penetração do protozoário (tripomastigota). Quando se insere no meio, o parasita perde o flagelo e se transforma em amastigota, fazendo uma reprodução celular binária, facilitando a disseminação das células através da corrente sanguínea (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). Crédito: Sappasit/Shutterstock. TEMA 5 – CÉLULAS PROCARIONTES As células procariontes possuem um tamanho bem menor e um formato mais simples, sem a presença de um sistema de membranas, permitindo assim o maior fluxo de íons e moléculas na parte interna da célula. Observa-se grande presença de células procariontes em bactérias. Apesar de as células procariontes 13 serem relativamente mais simples do que as eucariontes, as células procariontes, especialmente em bactérias, são mais estudadas devido à grande resistência antimicrobiana que oferecem (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). As células procariontes também possuem uma membrana citoplasmática para delimitar o conteúdo celular, provendo também geração de energia. Nas células bacterinas, observa-se ainda a presença de citocromo e enzima. O transporte de elétrons por fotossíntese também ocorre na membrana celular, de modo semelhante a como se efetiva em plantas e em algas. Na parte externa da membrana citoplasmática há uma estrutura denominada peptidoglicano, referente à parede celular formada por N-acetilglicosamina e N-acetilmurânico. A sintetização ocorre por meio de proteínas localizadas na membrana e também por enzimas específicas. A parede celular é bem rígida, por isso controla a pressão osmótica, atuando principalmente na resistência da célula, tanto interna, quantoexterna. Para auxiliar nesse controle, há a presença de cargas elétricas oriundas dos glicopolímeros inseridos na parede (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). Além da membrana externa, algumas bactérias apresentam uma espécie de cápsula, com a função de reserva de nutrientes e água, facilitando assim a infestação de bactérias patogênicas. Não há um consenso, na literatura, a esse respeito, mas a presença da cápsula parece que aumenta a patogenicidade de algumas cepas, tendo mais capacidade de se desprender do sistema imune (Pires; Almeida, 2014; Sherwood, 2018). Outra característica é a presença de esporos, sendo esse exclusivo de bactérias gram-positivas. A esporulação ocorre devido à falta de água, nutrientes e ao aumento da densidade celular e da temperatura. A esporulação acontece da seguinte forma: • duplicação do cromossomo da célula vegetativa; • formação de um septo na membrana citoplasmática; • septação assimétrica; • formação de camadas de peptidoglicano; • síntese de uma capa proteica; • lise da célula vegetativa. 14 Crédito: Aldona Griskeviciene/Shutterstock. 15 REFERÊNCIAS PIRES, C. E. de B. M.; ALMEIDA, L. M. de. Biologia celular: estrutura e organização molecular. São Paulo: Érica, 2014. SHERWOOD, L. Fisiologia humana: das células aos sistemas. São Paulo: Cengage Learning Brasil, 2018. CONVERSA INICIAL