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<p>Jardim das Utopias</p><p>Jardim das Utopias</p><p>A saga de Michel Derrion e dos falansterianos franceses</p><p>na Colônia Palmital (1840-1850), Garuva (SC)</p><p>Gleison Vieira</p><p>Copyright © dos autores</p><p>Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida,</p><p>transmitida ou arquivada, desde que levados em conta os direitos dos autores.</p><p>Projeto Gráfico e Capa</p><p>Vanessa Dias — A partir da Tela para Quadro Ceifeiros (1887) de Julien Dupré</p><p>Conselho Editorial</p><p>Prof. Dr. Fábio Marques de Souza (UEPB, Brasil)</p><p>Prof. Dr. Maged Talaat Mohamed Ahmed Elgebaly (Aswan University, Egito)</p><p>Profa. Dra. María Isabel Pozzo (IRICE-Conicet-UNR, Argentina)</p><p>Comitê Científico</p><p>Profa. Dra. Anne Carolline Dias Rocha Prado (UESB, Brasil)</p><p>Prof. Dr. Christian Fernando dos Santos Moura (IFSP, Brasil)</p><p>Profa. Dra. Eva Paulino Bueno (St. Mary´s University, Estados Unidos)</p><p>Profa. Dra. Maria Beatriz Marques (Universidade de Coimbra, Portugal)</p><p>Profa. Dra. Mona Mohamad Hawi (USP, Brasil)</p><p>Profa. Dra. Robéria Nádia Araújo Nascimento (UEPB, Brasil)</p><p>Jardim das Utopias - A saga de Michel Derrion e dos falansteria-</p><p>nos franceses na Colônia Palmital (1840-1850), Garuva (SC).</p><p>Gleison Vieira. São Paulo: Mentes Abertas, 2024. 174 p.</p><p>ISBN: 978-65-982457-6-4</p><p>1. Falansterianos. 2. Michel Derrion. 3. Santa Catarina.</p><p>I. Título. II. Autor.</p><p>CDD: 981</p><p>Dedico essa obra à minha esposa, Melize Zanoni</p><p>... aos meus filhos, Julia e Lucas</p><p>... aos meus familiares</p><p>Que o leitor sinta o cheiro do sol nas águas...</p><p>Índice</p><p>Prefácio</p><p>Das Utopias Urbanas no Brasil moderno</p><p>ao projeto de Derrion ............................................................. 9</p><p>Laurent Vidal</p><p>Introdução</p><p>Jardim das Utopias nas águas do Saí e Palmital .................... 15</p><p>1. Entre os rios Rhône e Saône: a vida de Derrion na França .. 22</p><p>2. O Jardim do Éden na Península do Saí .............................. 26</p><p>3. Desencantos à beira da Baía da Babitonga ........................ 32</p><p>4. Entre capitães e caboclos: O Sertão do Palmital</p><p>no século XIX .................................................................. 36</p><p>5. Sonho e utopia nas veredas do Palmital ............................. 60</p><p>6. Um novo mundo nas águas do Baraharas .......................... 65</p><p>7. Na vazante da maré: fim do sonho no Palmital? ................ 74</p><p>8. Lucie Domanget: a companheira de Derrion .................... 81</p><p>9. Antoine Jamain (1802-1858): uma liderança no Palmital .. 88</p><p>10. Jardim em ruínas: o último francês no Saí ....................... 99</p><p>11. Do Palmital à Guanabara: adieu, Orphéon! .................. 102</p><p>12. A ressurreição de Michel Derrion .................................. 112</p><p>Épilogo</p><p>O chiffonier de la mémoire: costurando utopias .................. 123</p><p>Melize Zanoni</p><p>Anexo 01</p><p>França ................................................................................ 135</p><p>Anexo 02</p><p>Brasil ................................................................................. 151</p><p>Referências bibliográficas ....................................... 169</p><p>9Jardim das Utopias</p><p>Prefácio</p><p>Das Utopias Urbanas no Brasil moderno ao projeto de Derrion</p><p>Laurent Vidal1</p><p>Utopia é o nome de uma ilha. Um nome inventado por Tomas</p><p>More em 1516 – lugar de lugar nenhum. Neste « lugar » vive uma</p><p>sociedade ideal. Com este neologismo, More convidava os leitores</p><p>para um mergulho no imaginário dos homens e das formas. E aqui</p><p>podemos ampliar o leque histórico: voltam à memória as descrições</p><p>da Atlântida e da Arcadia na Antiguidade, da Cidade do Sol de Cam-</p><p>panella ou do Eldorado de Walter Raleigh no Século XVII, da cidade</p><p>de Genebra de Jean-Jacques Rousseau no Século XVIII… A utopia é</p><p>assim a tentativa de dar uma forma espacial ao velho sonho humano</p><p>da harmonia social. Este espaço, claramente delimitado, tem a forma</p><p>de uma ilha escondida no mar ou na floresta, um lugar fechado e de</p><p>difícil acesso. Na literatura européia se impõem as visões de Francis</p><p>Bacon (La nouvelle Atlantide) ou Daniel Defoe (Robinson Crusoe);</p><p>na América Latina, as tentativas de Alejo Carpentier (Os passos perdi-</p><p>dos) ou Gabriel Garcia Marquez (Cem anos de solidão): com muitos</p><p>outros tentaram dar uma tradução literária a este desejo social.</p><p>Articulado a este projeto de nova ordem social, a utopia é tam-</p><p>bém o nome dado a uma corrente da arquitetura que nasce no Século</p><p>XVI, se desenvolve no final do Século XVIII (nas trilhas de Revolução</p><p>francesa) e, sobretudo, na segunda metade do Século XIX. Alguns</p><p>arquitetos tentam dar forma ao espaço da harmonia social: Fourier e</p><p>o falanstério, de Guise e o familistério, mais tarde a cidade jardim de</p><p>Hebenezer Howard, as propostas dos arquitetos russos dos primeiros</p><p>anos da revolução, ou as propostas dos Congressos Internacionais de</p><p>Arte Moderna…</p><p>1 Historiador, docente da Université de La Rochelle e Université Paris III Sorbonne (França),</p><p>especialista em história de cidades e sociedades urbanas do Brasil e do Novo Mundo.</p><p>10 Gleison Vieira</p><p>Mas o nome «  utopia  » traduz também, ao nível individual,</p><p>uma esperança: o desejo de outra coisa, de alhures, de grandes espa-</p><p>ços. O filósofo marxista Ernst Bloch definia a utopia como uma pro-</p><p>jeção para « o ainda-não-vivido »,« o ainda-não-acontecido », « o</p><p>ainda-não-consciente », estas esperanças que ocupam o espírito dos</p><p>homens e o horizonte da sua existência, mas que ainda não foram for-</p><p>muladas, nem traduzidas num conceito.2 A utopia é a transformação</p><p>desta « consciência antecipadora » em esperança, mas esta esperança</p><p>não tem necessariamente uma tradução espacial.</p><p>Passando de uma reflexão a partir do nome a uma reflexão a par-</p><p>tir do adjetivo (« utópico »), uma outra realidade surge. Se for verda-</p><p>de que nosso conhecimento do mundo tem mais a ver com o adjetivo</p><p>do que com o substantivo (Gaston Bachelard), é importante renco-</p><p>nhecer que o uso do adjetivo « utópico » é essencialmente pejorati-</p><p>vo. Quando Engels tentou distinguir o socialismo novo – organiza-</p><p>do em torno das idéias de Marx – das outras versões do socialismo,</p><p>nasceu a distinção entre socialismo científico e socialismo utópico.3 A</p><p>partir deste momento, para muitos marxistas como para a burguesia</p><p>industrial, as propostas utópicas passaram a serem consideradas como</p><p>simples frutos da imaginação fértil de alguns sonhadores. As falhas</p><p>das comunidades utópicas na Europa como nas Américas reforçam</p><p>este sentimento de descrédito da utopia. Mais tarde, a utopia vai se</p><p>transformar em ideologia e a ideologia em terror, a exemplo do stali-</p><p>nismo. O adjetivo, então, leva com ele o descrédito – o pensamento</p><p>utópico desde os meados do Século XIX sofreu deste descrédito.</p><p>Já neste rápido levantamento da genealogia da utopia,4 podemos</p><p>perceber uma distância entre a intencionalidade dos planejadores</p><p>de sociedades ideais e o que mobiliza concretamente os indivíduos,</p><p>2 BLOCH, Ernst. Le principe espérance, Paris, Gallimard, 1959 (ed. original : 1938-1947).</p><p>3 ENGELS, Friedrich. Socialisme Utopique et Socialisme Scientifique. Paris : Éditions So-</p><p>ciales. 1973.</p><p>4 Ver por exemplo o catálogo da exposição : Utopie, la quête de la société idéale en Occident,</p><p>Paris, BNF/Fayard, 2000 ; e o artigo de Alain Touraine, « La société comme utopie », pp.</p><p>28-38</p><p>11Jardim das Utopias</p><p>abertos à possibilidade de uma nova vida. Além disso, as formas pla-</p><p>nificadas, tanto espaciais como sociais, por serem tão perfeitas, não se</p><p>concebem dentro do curso normal da história e por isso não admitem</p><p>mudanças. Ora é exatamente o desejo (às vezes confuso) de mudança</p><p>que mobiliza os homens em torno da utopia. Esta distância cria assim</p><p>uma tensão, e essa tensão faz história, introduzindo as experiências</p><p>utópicas na realidade concreta das sociedades. O que foi chamado de</p><p>falha das utopias, esconde geralmente a entrada na história destas co-</p><p>munidades utópicas.</p><p>*</p><p>Este livro nos apresenta justamente a gênese do pensamento e</p><p>da ação de um destes planejadores</p><p>Urubuquara</p><p>e as Três Barras, onde se localiza o Monte Crista – elevado da Serra</p><p>do Mar por onde, através de uma antiga trilha aberta em meados do</p><p>século XVIII, passavam aqueles que desejavam rumar para a Villa de</p><p>Corityba, seja por tanger rebanho vacum, seja por andança.</p><p>Talvez a maior descrição do século XIX sobre os topônimos do</p><p>aquífero da região do Palmital e Três Barras (bem como uma análise</p><p>etimológica de rios e igarapés) tenha sido feita pelo naturalista fran-</p><p>cês, Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853). Na sua obra Voyage dans</p><p>les Provinces de Saint-Paul et de Sainte-Catherine (1851), ele dedicou</p><p>uma parte do capítulo XXIV a uma descrição minuciosamente dos</p><p>arredores do rio Palmital. Esse capítulo, intitulado La ville, l’île et le</p><p>district de S. Francisco, trazia uma importante descrição do Palmital:</p><p>“Eu li com o oficial [de S. Francisco] todo o artigo de Cazal</p><p>relativo ao Rio de S. Francisco; ele me indica os erros que esca-</p><p>param ao autor, e eu construí minha lista nas suas retificações.</p><p>Assim a gente vê ali que entre o Rio do Barbosa e o dos Fer-</p><p>nandes é necessário colocar o Rio do Pinto; que se deve escre-</p><p>ver Rio dos Tornos e não dos Fornos (...) – Eu creio ter deixado</p><p>esta nota incompleta, se eu não indiquei as diferenças que se</p><p>encontram entre minha lista e as indicações dos senhores Tor-</p><p>rezão e Aubé (Annales maritimes, III, de 1847), e que, talvez,</p><p>tenham dado a este ou aquele ribeirão dois nomes diferentes;</p><p>42 Gleison Vieira</p><p>que alguns pequenos riachos não me foram indicados como</p><p>muito significativos; que certos nomes terão com o tempo</p><p>provado alterações; que fracos cursos de água terão desapa-</p><p>recido e que outros terão tomado seu lugar, talvez enfim ao</p><p>o que o litógrafo parisiense não terá jamais copiado de modo</p><p>exato, como o é evidente, isso me parece, para o nome Bar-</p><p>rancas substituindo o Barrancos. Entre o Rio do Pinto e a dos</p><p>Barrancos, encontra-se, sobre o precioso mapa do Sr. Torre-</p><p>zão, os Rios Ronco, Batuy, Lamir, Comprido, Bacury, Gigua-</p><p>çu: os Lamir foi indicado em Cazal, onde ele é escrito Lamês;</p><p>o Batuy certamente é apenas o Batuby, e o Bacury o Bacuhy;</p><p>mas os etimólogos indigenistas indicam com frequência que</p><p>é Bacuby o Bacuhy que é necessário preferir. Ao norte dos</p><p>Barrancos se vê, sobre o mesmo mapa, um Rio Baraara; Ca-</p><p>zal indica o Rio Maria-Barrara como um dos principais que</p><p>desembocam no Trez Barras, e a existência deste ribeirão me</p><p>foi confirmada. Mas ao mesmo tempo me foi dito que seria</p><p>necessário escrever, como o fez M. Torrezão, Maria Baraara</p><p>(a palavra mbaraara, que é guarani, significa a aurora, Maria</p><p>Aurora). Do lado de cima do Trez Barras indicam um Rio</p><p>Urubarana que eu não tenho em minha lista.62</p><p>O grupo de Saint-Hilaire pernoitou no Pontal de Itabuan para</p><p>prosseguir à Vila de São Francisco do Sul no dia seguinte. Não sabe-</p><p>mos qual casa bicuíra o acolheu, cabendo-nos especular hipóteses.</p><p>Naquela época o Pontal do Saí já era povoado, o que nos é confirma-</p><p>do por certificados de óbitos. Vivera ali, por exemplo, o casal Salva-</p><p>dor Rebelo e Anna Maria Rodrigues (1760-1810), sendo que ambos</p><p>já eram falecidos no momento da passagem de Saint-Hilaire. Em</p><p>1809, um jovem de 28 anos, habitante do Pontal, Manoel Francisco</p><p>62 SAINT-HILAIRE, M. Auguste de. Voyage dans les Provinces de Saint-Paul et de</p><p>Sainte-Catherine. Tome Second. Paris : Arthus Bertrand. 1851. p.265-266). Há uma tra-</p><p>dução desse livro (Viagem à Província de Santa Catharina (1820). [Trad. de Carlos Pereira</p><p>da Costa]. Companhia Editora Nacional. 1936), porém, se optou por transcrever direto</p><p>do original em francês de 1851.</p><p>43Jardim das Utopias</p><p>(1781-1809), havia falecido, deixando viúva sua esposa, Apolônia</p><p>da Silva.63 O naturalista francês poderia ter pernoitado na casa de</p><p>Apolônia. Ele descreveu sua estada na singela casinha do Pontal, a</p><p>morada de uma mulher com suas filhas:</p><p>“O habitáculo em que pernoitei no Pontal pertencia a ex-</p><p>cellentes pessoas que me dispensaram as maiores attenções.</p><p>Longe de fugirem com a minha presença, como o teriam feito</p><p>as mulheres do norte da provincia de Minas, a dona da casa</p><p>e suas filhas receberam-me muito amavelmente. No dia se-</p><p>guinte, pela manhã, enviaram-me um prato de peixe, única</p><p>refeição que nessas paragens offerecem aos viandantes”.64</p><p>Esses ribeirinhos que viviam às margens dos arroios e igarapés</p><p>do Saí e do Palmital eram tipicamente as mesmas pessoas simples</p><p>que habitavam o interior do Brasil: caboclos caiçaras de índole ta-</p><p>puia, dados às águas e às pirogas, embarcações semelhante às canoas,</p><p>feitas também pelo escavar de troncos, porém, mais compridas que</p><p>as canoas comuns. Podemos ter uma noção de como era o caiçara do</p><p>Saí e do Palmital na descrição que Saint-Hilaire faz dos habitantes</p><p>de Guaratuba, em seu caminho para Itapoá. Os caboclos daquelas</p><p>paragens do Saí eram pescadores, cristãos humildes, habitando ca-</p><p>sebres de taquara, que, isolados em suas choças de palha, fugiam do</p><p>mundo, quase em um estado natural:</p><p>“A espaços, um caminho que vinha terminar na praia, uma</p><p>canoa e varais para secar rêdes de pesca, anunciavam a vizi-</p><p>nhança de um sítio que, quase sempre oculto pelos arbustos,</p><p>63 Atestado de óbitos: 15/08/1809 – Manoel Francisco, 28 anos, residente no Pontal do</p><p>Norte. Apolônia da Silva [esposa]. Sepultado no Adro da Matriz SFS; 23/02/1810 – Anna</p><p>Maria Rodrigues, 40 anos, viúva, residente do Pontal do Norte. Salvador Rebelo [esposo</p><p>falecido]. Sepultado no Adro da Matriz SFS. (ver Mutirão 21 planilha de óbitos da vila</p><p>de São Francisco do Sul entre 1783-1831). Segundo Nascimento (1995, p.107), Apolônia</p><p>havia casado com Antônio de Oliveira Borges. Por ser ainda muito jovem, ela poderia ter</p><p>casado novamente.</p><p>64 SAINT-HILAIRE, M. Auguste de. Viagem á Província de Santa Catarina. São Paulo:</p><p>Companhia Editora Nacional/BPB. 1936, p.266.</p><p>44 Gleison Vieira</p><p>não se avistava da beira do mar. Fui até um deles e apenas</p><p>encontrei uma choça simplesmente cercada de varas jun-</p><p>tas umas às outras, por entre as quais passavam o vento e a</p><p>chuva. Algumas vasilhas de barro e algumas esteiras consti-</p><p>tuiam o seu mobiliário, e os que habitavam achavam-se mal</p><p>vestidos. É muito possível que os outros sítios das vizinhanças</p><p>não estejam em melhores condições. Não creio, entretanto,</p><p>que os pobres moradores desses miseráveis casebres sejam tão</p><p>infelizes como poderíamos supor. Sem dúvida, descendentes</p><p>dos antigos mamelucos, devem êles ser imprevidentes; pen-</p><p>sam mais na hora presente que no dia de amanhã. O clima é</p><p>quente; o mar fornece-lhes abundante alimentação. O mun-</p><p>do lhes é tão estranho como êles o são ao mundo, e cairiam no</p><p>estado vizinho ao do animal selvagem se, de quando em vez,</p><p>não fôssem à igreja, não se ligassem pela fé cristã, e, antes de</p><p>embarcarem em suas canoas, não invocassem a Virgem, a</p><p>fim de obterem, por sua intercessão, uma pesca abundante”.65</p><p>Os bicuíras do Saí, que rogavam à Virgem Maria por boa pes-</p><p>caria, eram embrutecidos pelas condições duras de seu habitat; eram</p><p>“... muito pobres” e viviam “quase unicamente de peixe sêco e farinha</p><p>de mandioca”.66 Com relação ao vestuário daquelas pessoas, segun-</p><p>do Saint-Hilaire, consistia, “... comumente, em umas calças de tecido</p><p>de algodão, camisa usada à maneira de blusa, por cima das calças, e</p><p>chapéu de copa arredondada e aba muito estreita”.67</p><p>Originalmente, a região era território dos carijó, os quais foram</p><p>todos dizimados já no início do século XVII. Posteriormente, cabo-</p><p>clos descendentes dos tupi ocuparam as margens do arroios aquele</p><p>sertão. Com a descoberta de veios de ouro de Paranaguá até o Saí,</p><p>iniciaram-se as primeiras incursões de garimpo de ouro do Brasil,</p><p>em 1640. Daí vem o nome da localidade garuvense de Minas Velhas.</p><p>65 SAINT-HILAIRE, Op.Cit., p.185-186.</p><p>66 SAINT-HILAIRE, Op.Cit., p.182.</p><p>67 SAINT-HILAIRE, Op.Cit., p.182-183.</p><p>45Jardim das Utopias</p><p>O ouro era transportado de canoa, pelo rio Saí Guaçu, e passava pela</p><p>Guarda do Registro, um posto fiscal que ficava na barra do Saí, para</p><p>evitar o descaminho do quinto real, que após ser beneficiado na Casa</p><p>de Fundição de Paranaguá, seguia para a sede da Capitania de São</p><p>Paulo e Itanhaém. Como ressalta Costa Pereira, formaram-se por ali</p><p>alguns arraiais, vilas formadas por cabanas e tendas, nos qual viviem</p><p>os “faiscadores”, que transformavam aluviões em lavras, retirando</p><p>custosamente uma quantidade baixa de ouro em pó:</p><p>“81 1/4 oitavas de ouro extraídas das lavras das minas ve-</p><p>lhas desta vila (...) a publicação de editais obrigando os que</p><p>tirassem ouro a levá-lo a Paranaguá, a fim de se evitar o seu</p><p>descaminho. (...) ... por dizer-se que a esta vila vinha parar o</p><p>ouro que se tirava em alguns arraiais deste distrito, presumi-</p><p>velmente nos rios Baraara, Itapocu, Itajaí, etc”.68</p><p>Há uma série de documentos e mapas antigos que mencionam</p><p>uma personagem enigmática: Maria Baraharas. Ela possivelmente era</p><p>uma cabocla ou mesmo indígena tapuia que faiscava ouro de aluvião</p><p>nos idos do século XVIII, décadas antes de Derrion. Seu nome gua-</p><p>rani, como se viu, significa Aurora (Mbaraara). Como foi descoberto</p><p>ouro em grande quantidade nas Minas Gerais, por volta de 1690, e</p><p>nos arredores de Cuiabá e também em Goiás por volta de 1725, as “la-</p><p>vras do sul paulista” foram gradativamente sendo menos exploradas.</p><p>Depois desse rápido panorama, lancemo-nos novamente àque-</p><p>le sertão sombreado pela Serra do Mar. O Palmital e as cercanias</p><p>foram testemunhas da sublevação dos indígenas contra os colonos</p><p>litorâneos – e tendo em vista os mecanismos de colonização, a vio-</p><p>lência indígena foi uma resposta. O elemento nativo predominante</p><p>nesta região da Serra do Mar era os denominados botocudos:69 eram</p><p>68 PEREIRA, Carlos da Costa. História de São Francisco do Sul. Florianópolis: UFSC,</p><p>2004, p.96.</p><p>69 Botocudos: Etnôn. Indivíduo dos botocudos, povo indígena extinto que habitava a região</p><p>da divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, e o Estado de Santa Catarina, na região dos</p><p>rios Itajaí, Canoas, Pelotas e Iguaçu. (Novo Aurélio. Op.,cit.).</p><p>46 Gleison Vieira</p><p>os xokleng, os últimos índios litorâneos do Brasil muito semelhan-</p><p>temente aos índios da época de Cabral. Entre os enfeites e adornos</p><p>deste povo havia um que se destacava: no lábio inferior usavam “um</p><p>pedaço de madeira, característico da tribo dos botocudos”.70</p><p>Nos primeiros tempos da década de 1840, na região do Rio Três</p><p>Barras (há uma légua do Palmital), iniciaram-se as aberturas da Linha</p><p>da Defesa: Uma estrada que ligaria o litoral norte ao literal sul. Além de</p><p>ter como objetivo estabelecer, por logística, pontos militarmente es-</p><p>tratégicos, tinha também como meta uma forma de combater o povo</p><p>botocudo – que há muito não mostrava passividade diante das ações</p><p>colonizatórias. Essa linha se iniciava ao pé do Monte Crista, onde não</p><p>constava sublevação dos botocudos desde 1820, aproximadamente.71</p><p>O Pesquisador Lucas Boiteux fez menção à relevância da Linha</p><p>da Defesa percebida pelo próprio Dr. Mure em suas correspondências.72</p><p>Foi construído um pequeno forte de vigilância nas várzeas das</p><p>Três Barras. A Linha da Defesa reflete a ênfase dada pelos coloniza-</p><p>dores à defesa contra os bugres. Além do mais, esses arredores litorâ-</p><p>neos da divisa entre aquelas províncias era um ponto estratégico, e a</p><p>ação indígena ali poderia converter o local num sertão inexpugnável,</p><p>indo de encontro aos interesses políticos da colonização. Uma frase</p><p>do Sr. Antero José Ferreira, na época então Presidente da Assem-</p><p>bléia Legislativa, em sua “Falla” de 1841, fez uma referência daquele</p><p>“perigo eminente” no extremo norte catarinense: “O maior inimigo,</p><p>70 Carta escrita pelo Professor Ostermann, endereçada ao Dr.Blumenau, 1852. (cf. Blume-</p><p>nau em Cadernos, tomo IX, nº.9. 1970).</p><p>71 “... 1848 (...) Na fazenda das Três Barras, onde ‘há trinta annos não consta da apparição</p><p>alguma de Gentio.” (FICKER, Carlos, História de Joinville. Joinville: PMJ,1965; p.140).</p><p>72 “Hei achado alli um vasto e fértil terreno, caxoeiras abundantes, um vasto e seguro porto</p><p>que talvez não há igual no mundo; a que se junta a vantagem da Linha de Defeza já aberta,</p><p>que offerecerá uma fácil e breve communicação com o interior do império pelo caminho de</p><p>Coritiba.” Benoît Mure. (Obs. de Lucas Boiteux): “Trata-se com referência à ‘Linha de</p><p>Defeza’ da picada aberta pela presidência da província de Sta Catarina em 1840, conforme</p><p>a ‘Falla’ de março de 1841. Corria esta linha de defesa do lugar ‘Três Barras’, no Rio de São</p><p>Francisco, com destino ao extremo sul da província, sempre ao mar da serra, guarnecida de</p><p>postos militares de duas em duas léguas, para cobrir tôdas as plantações das incursões dos</p><p>índios selvagens”.</p><p>47Jardim das Utopias</p><p>o gentil Bugre, que há perturbado em alguns lugares a tranqüilida-</p><p>de da Província, tem-se mostrado em differentes logares do Norte”.73</p><p>Nos últimos meses de 1848, na vila que pertencia a Fazenda das Três</p><p>Barras, os moradores sentiram na pele a erupção da fúria acumulada</p><p>dos nativos, fúria esta resultado da brutal política de colonização.</p><p>Trata-se do ataque botocudo às Três Barras e ao Palmital:</p><p>Em 1848, na fazenda das Três Barras, onde ‘há trinta annos</p><p>não consta da apparição alguma de Gentio e nem era de presu-</p><p>mir apparecesse, tanto pelo grande numero de moradores, tanto</p><p>pela não interrompida passagem viandantes, que transitão para</p><p>a Curityba, appareceu em pleno dia um grupo d’esses selvagens,</p><p>cercarão trez casas, matarão uma preta, que cahindo, abafou</p><p>uma pequena cria que conduzia, feriram uma moça branca e</p><p>saquearam dez casas, cuja família, que só continha mulheres,</p><p>refugiou-se no matto.74 [...] Em janeiro (1849) tornarão a appa-</p><p>recer na Fazenda de Luiz Nunes da Silveira no lugar Palmitar,</p><p>em que accommetteram a casa de D. Joaquim de Jezus [Dona</p><p>Joaquina de Jesus], roubaram quanta roupa estava pelos pastos</p><p>e assassinaram um mulatinho de dois annos, e só fugirão, dei-</p><p>xando um arco e umas flechas, quando apparecendo o visinho</p><p>Manoel Nunes lhes fez fogo com a sua espingarda.75</p><p>Esse incidente na vila da Fazenda das Três Barras ocorreu no dia 9</p><p>de fevereiro de 1848, entre 10 e 11 horas da manhã. Em número consi-</p><p>derável, os bugres atacaram ao mesmo tempo todas as casas do pequeno</p><p>povoado da Fazenda das Três Barras. Foram vítimas as propriedades de</p><p>D. Joaquina de Jesus, Manoel Gomes de Freitas, Manoel Joaquim de Sou-</p><p>za, Florindo José da Cunha, José Manoel, Joaquim Padilha, José Gomes de</p><p>73 FICKER, Op.cit, p.140.</p><p>74 Op.cit; p.140-141.</p><p>75 Falla que o Exm. 3º Vice-Presidente da Província de Santa Catarina, o Dr. Severo Amorim</p><p>do Valle dirigido à Assembleia Legislativa Provincial no acto d’abertura de sua sessão ordiná-</p><p>ria, 1º de março de 1849. Desterro: Typ. Provincial, 1849. p.03-04.</p><p>48 Gleison Vieira</p><p>Freitas e André Nunes da Silveira.76 O ataque relâmpago dos botocudos</p><p>resultou “na morte de uma negra e de um filho da mesma, escrava de An-</p><p>dre Nunes da Silveira”77 e nos ferimentos da “mulher de Florindo José</p><p>da Cunha, que foi conduzida para São Francisco, para curativo com uma</p><p>criança de três meses de idade também ferida no pescoço”.78</p><p>As famílias ficaram assustadas, sem poder cuidar de seus tra-</p><p>balhos rurais, pelos quais garantiam sua subsistência. Alguns anos</p><p>mais tarde, uma das testemunhas do ataque, um antigo proprietário</p><p>de um sítio no Palmital e que sofreu com a ofensiva botocuda, rela-</p><p>tara os motivos que o levaram abandonar aquele sertão:</p><p>“Os indígenas tem assaltado neste município por muitas vezes dei-</p><p>xando por sinais de seus aparecimentos lagos de sangue e até in-</p><p>cêndios de casas, eu fui um deles pois fazendo um estabelecimento</p><p>no lugar Palmital contígua as Três Barras na estrema com a Pro-</p><p>víncia do Paraná onde se tornaria um vantajoso estabelecimento,</p><p>queimaram-me a casa, roubaram quanto acharam e perdi uns</p><p>poucos de contos de réis e assaltado me vi forçado a abandonar a</p><p>cultura de uma fazenda com uma légua de terras em quadro”.79</p><p>Logo após o “ataque do gentio” à vila da Fazenda das Três Barras,</p><p>a autoridades formaram uma força de treze</p><p>praças que seguiu ime-</p><p>76 “... Josefina Nunes da Silveira, filha de André Nunes da Silveira e do Maria Genoveva</p><p>da Silva [1828-1880], naturais da Ilha de Santa Catarina, descendentes de colonos açoritas</p><p>que foram reforçar o povoamento das Três Barras de Santa Catarina, na segunda metade do</p><p>séc. XIX”. (NASCIMENTO, Antonio Roberto. A família Arriola em Santa Catarina. In</p><p>Blumenau em Cadernos. Tomo XXXVI, nº01, janeiro de 1995, p.108). Manoel Gomes de</p><p>Freitas (?-1878) era cunhado de Manoel Nunes da Silveira.</p><p>77 São Francisco, 1848. 2) [Doc.34] - Fl. 55-56. Of. DELP para PRESP 1842/1850. In</p><p>WOLLF, Juçara Nair. Dossiê Transcrição Paleográfica a Presença Indígena na Província/</p><p>Estado de Santa Catarina entre os anos de 1842 a 1907, caixa 30. Florianópolis: Arquivo</p><p>Público do Estado, 2018, p.13.</p><p>78 Ibidem.</p><p>79 Relato do então delegado Antonio Vieira de Araújo, senhor de terras no Palmital: São</p><p>Francisco, 1866. 70) [Doc.134] – fl. 190-193v. Of. DELP para PRESP 1865/1866. In</p><p>WOLLF, Juçara Nair. Dossiê Transcrição Paleográfica a Presença Indígena na Província/</p><p>Estado de Santa Catarina entre os anos de 1842 a 1907, caixa 30. Florianópolis: Arquivo</p><p>Público do Estado, 2018, p.63-64.</p><p>49Jardim das Utopias</p><p>diatamente no alcance dos bugres; e sem encontrá-los, entrando pelo</p><p>mesmo lugar da invasão, teve que regressar pelo Rio Cubatão em cujo</p><p>trânsito descobriu muitos vestígios que não eram muito recentes. Um</p><p>dos moradores das Três Barras relatou a necessidade de criar um desta-</p><p>camento para solucionar o problema relativo aos ataques dos xokleng:</p><p>“A gente é pobre, e tem por isso tantas vezes de procurar em</p><p>lugares diversos os meios de sua subsistência, além do que resi-</p><p>dem a distâncias um tanto notáveis; do que tudo resultou fa-</p><p>zer-se o que em casos tais só podia fazer-se: É necessário perse-</p><p>guir o gentio, evitando quanto se possa a repetição de cinas tão</p><p>prejudiciais quanto desagradáveis: o meio único de o conseguir</p><p>segundo penso, é o de uma forte expedição bem comandada,</p><p>porém sobre a direção de vaqueanos que só da Coretiba se po-</p><p>dem conseguir, porque aqui os não há. Não falta gente de que</p><p>se possa compor uma boa expedição, a ir fazer o que o gentio</p><p>em suas próprias habitações: sendo porém falta de meios seria</p><p>necessário fazer-se-lhe o necessário provimento não só do que</p><p>tem de alimentá-la como igualmente. Da necessária munição</p><p>de pólvora e bala; Esta expedição se torna urgente, pois que</p><p>ultimamente se afirma achar-se o gentio estacionado atrás do</p><p>morro denominado Atromba distante da barra do Cubatão</p><p>cerca de quatro léguas mais ou menos”.80</p><p>Anos depois, em março de 1854, durante as conclusões do cal-</p><p>çamento de pedra no Monte Crista, no caminho que levava à vila de</p><p>Curitiba, o tenente João Ricardo Pinto informara “de ter mandado</p><p>percorrer os matos do Cubatão até a Serra e não haver encontrado o me-</p><p>nor vestígio de gentio e mandando colocar nas Três Barras outra vez a</p><p>guarda de Pedestre que ali existia”.81 Assim, o tenente deliberou por</p><p>liberar a pequena guarnição de praças, uma vez que “durante os traba-</p><p>lhos do Caminho nada havia a recear”. Outro fator que levou a essa de-</p><p>80 São Francisco, 1848. 1) [Doc.33] - Fl. 53-54. In Op.cit, 2018, p.12.</p><p>81 Ibidem.</p><p>50 Gleison Vieira</p><p>liberação por parte do tenente era “por que na Fazenda das Três Barras</p><p>existem cinco casais reunidos todos moradores da mesma fazenda, além</p><p>da viúva Dona Joaquina que também reside com seus Escravos”.82</p><p>A revolta botocuda se imprimia mais ao norte, à margem es-</p><p>querda do rio São João, já em solo paranaense. Quase trinta anos</p><p>após o incidente no Palmital, um contingente botocudo ocupou</p><p>uma fazenda no sertão do Taquaruvu, no lugar chamado Pae Paulo</p><p>(Pai Paulo). Era 1875, quando 125 moradores fizeram um abaixo</p><p>assinado exigindo a retirada dos “botocudos” pelas autoridades da</p><p>Vila de Guaratuba.83 Naquelas várzeas sombreadas pela imponência</p><p>do Araraquara, no sítio Pai Paulo, houve sublevações de índios boto-</p><p>cudos no início de 1875. Em carta enviada ao presidente da Provín-</p><p>cia do Paraná, o chefe de polícia provincial noticiava por telegrama:</p><p>“Informa que o subdelegado de polícia de Guaratuba (PR)</p><p>comunicou-lhe, por telegrama, que os ‘bugres’ sitiaram um</p><p>engenho no lugar denominado Pai-Paulo, levaram algumas</p><p>ferramentas dos trabalhadores, atiraram 14 flechas, feriram</p><p>pessoas e assassinaram Joaquim Jerônimo Leite. Em vista dis-</p><p>so, algumas praças de Paranaguá (PR) foram enviadas para</p><p>o local, porém, mesmo assim, os índios continuaram rondan-</p><p>do a região, sendo então enviadas praças de Curitiba. Autor:</p><p>Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque Júnior – chefe de</p><p>polícia da província do Paraná. Curitiba, 01/02/1875”.84</p><p>Dois meses depois, um destacamento de praças foi enviado à</p><p>Guaratuba para conversar com os indígenas, para orientar “o subde-</p><p>legado da mesma a presentear os índios com ferramentas, no intuito de</p><p>amansá-los”.85</p><p>82 São Francisco, 1854. 36) [Doc.109] – fl.169. Of. DELP para PRESP 1854 – jan./dez.</p><p>In Op.cit, p.42. Obs.: Dona Ana Joaquina de Jesus era viúva de Luiz Nunes da Silveira.</p><p>83 MAFRA, Joaquim. História de Guaratuba. Guaratuba: PMG, 1952. p.206.</p><p>84 Catálogo seletivo de documentos referentes aos indígenas no Paraná provincial (1871-</p><p>1892). Curitiba: Governo do Estado do Paraná. 2009, p.111.</p><p>85 Op.cit, p.114.</p><p>51Jardim das Utopias</p><p>É nesse novo fato que vaza aquele “afã cruzado” protagonizado</p><p>pelos europeus aqui e em todas as colônias americanas desde o “des-</p><p>cobrimento”, na sua auto-afirmação de “civilizado” que quer “civili-</p><p>zar”. Cabe citar quando Enrique Dussell diz que “... a modernidade</p><p>(...) ‘nasceu’ quando a Europa pôde se confrontar com o seu ‘Outro’</p><p>e controlá-lo, vencê-lo, violentá-lo”.86 Essa afirmação sobre o secular</p><p>ideal europeu do qual falava Dussell está latente nas palavras do Sr.</p><p>Adolpho Lins, na época, Presidente da Província do Paraná, que fala</p><p>não somente do enfrentamento de 1875, na localidade Pai Paulo,</p><p>mas mostra, de maneira explícita, a cosmovisão eurocêntrica do na-</p><p>tivo americano (esse outro) enquanto “Ser Periférico”:</p><p>“A transformação, pois, d’estes selvagens em homens civiliza-</p><p>dos, é o problema todo de ensino humano complicado (...) É</p><p>preciso pois muita paciência para conseguir algum resultado</p><p>na espinhosa missão de chamar a civilização estes habitantes</p><p>das selvas; foi uma idéa proveitosa a creação de aldealmentos</p><p>dirigidos por catechistas dedicados, que, se não podem vencer a</p><p>índole errante dos índios ainda mesmo os mansos, conseguem</p><p>modificá-la grandemente, e incutir nos adolescentes e nos que</p><p>nascem ali, a instrucção religiosa e os princípios da educação.</p><p>Entretanto se alguns índios como os Coroados, Cayoás e Gua-</p><p>ranys são domáveis, posto que não aceitam todos os hábitos da</p><p>vida social, não repellem inteiramente o contacto com os ho-</p><p>mens civilizados, outros, como os botocudos são ferozes e indo-</p><p>máveis, e em suas correrias commettem as maiores atrocidades.</p><p>(...) Felizmente durante o tempo de minha administração ne-</p><p>nhuma d’estas scenas sanguinárias se deu; nas proximidades</p><p>de Guaratuba e Rio Negro tem apparecido alguns d’estes selva-</p><p>gens, mas não têm se animado ao assalto”.87</p><p>86 DUSSEL, Enrique. 1492 - O Encobrimento do Outro. Rio de Janeiro : Vozes, 1992.p.08.</p><p>87 Relatório apresentado á Assembléia Legislativa do Paraná, no dia 15 de fevereiro de</p><p>1876, pelo presidente da província, Adolpho Lamenha Lins. Província do Paraná, Typ. da</p><p>Viúva Lopes, 1876, p.98. Obs.: O espaço entre o Rio Negro e a cidade Guaratuba é justa-</p><p>mente a região de divisa entre os Estados do Paraná e Santa Catarina. O Rio Negro – que</p><p>52 Gleison Vieira</p><p>Ainda por volta de 1875, tem-se o caso emblemático do rapto</p><p>do argelino pelos botocudos. Essa anedota nos mostra o qual conser-</p><p>vardo era a cultura tapuia dos xokleng, praticamente intacta à che-</p><p>gada dos europeus à América, e por isso, irredutíveis à colonização.</p><p>Todavia, esse caso nos foi relatado por um cronista somente em</p><p>1906, quando da ocasião do desaparecimento do polonês</p><p>97 “Acaba de ser pronunciado o capitão Antônio Vieira de Araújo [...] inculcando-se ter redu-</p><p>zido à escravidão livre e contra a expressa letra da Lei. Indivíduo algum pode perder aquillo</p><p>que não tem adquirido. Uma escrava foi inventariada, como escrava; havia quem allegasse ser</p><p>sua propriedade e não o provou, e a Lei diz”. (jornal A Regeneração: jornal da Provincia de</p><p>Santa Catharina, 14 de Abril de 1870).</p><p>56 Gleison Vieira</p><p>margens direitas do rio São João nos domínios da Província de San-</p><p>ta Catarina. Trata-se de sesmarias ambas limítrofes uma em relação</p><p>à outra e concedidas em 1822: as sesmarias dos irmãos o Visconde de</p><p>Jerumirim e o Capitão Miguel Alvim. Assim, a fusão dessas duas ses-</p><p>marias formou a “Sesmaria do Palmitar”, cujo acesso era feito pelo rio</p><p>Palmital, junto ao ribeirão da Onça, tocando boa parte da porção oci-</p><p>dental da planície até atingir o rio São João. Esse capitão já tinha essa</p><p>concessão de terras cedida em 13 de agosto de 1846, e reconfirmada</p><p>25 anos depois, em 1872.98</p><p>Em meados de 1849, seis meses após aquele ataque no Palmi-</p><p>tal ao sítio de Luiz Nunes da Silveira, houve outra incursão indígena</p><p>àquele sertão, dessa vez, na propriedade de Antônio Vieira de Arau-</p><p>jo. Em uma nota, na qual se fala da prisão do seu escravo Venâncio,</p><p>o capitão solicitou, em 20 de junho, providências policiais junto ao</p><p>delegado de São Francisco, João Vicente Dutra, relativo ao roubo de</p><p>objetos pelos botocudos em seu sítio no Palmital:</p><p>“Da participação dada pelo delegado de São Francisco a 28</p><p>de Julho, consta ter sahido o numero de 12 bugres no Pal-</p><p>mitar, e feito alguns extravios em casa de Antonio Vieira de</p><p>Araujo. [...] Foi preso Venancio, escravo de Antonio Vieira de</p><p>Araujo, a requisição de seu Snr. Secretaria de Polícia, 5 de</p><p>julho de 1849”.99</p><p>Uma semana depois, outra nota relata o despacho do juiz de</p><p>paz de São Francisco, na qual se propõe a formação de uma expedi-</p><p>ção policial para incursionar nos sertões incultos para desbaratar as</p><p>ofencivas dos botocudos xokleng:</p><p>98 63. Ofício de Pedro José de Sousa Lobo, Juiz Comissário, para o Presidente da Província,</p><p>informando que em seu juízo só foi revalidada a concessão de Antonio Vieira de Araújo no</p><p>lugar denominado [Palmitar], do município de São Francisco Xavier do Sul. São Francisco,</p><p>20 de setembro de 1872. p.111/111v. (Inventário analítico dos ofícios expedidos dos juízos</p><p>comissariados para a presidência da província (1856/1879), Vol. 1, Acervo do Arquivo</p><p>Público de Santa Catarina).</p><p>99 Jornal O Conciliador Catharinense, 07 de julho de 1849.</p><p>57Jardim das Utopias</p><p>“A’o Juiz de Paz de S. Francisco, em resposta ao seu officio de</p><p>20 do mez findo, em que communica os estragos feitos pelo</p><p>gentil na casa de Antonio Vieira de Araujo no lugar do Pal-</p><p>mitar sobre o que S.Ex. determina ao mesmo juiz que re-</p><p>commende toda a vigilância nos destacamentos que ronda</p><p>os matos, ordenando-lhes que estendam as suas explorações</p><p>bem para o interior; máxime nas occasiões em que persegui-</p><p>rem hum tal inimigo”.100</p><p>Para finalizar esta breve imersão às veredas do sertão do Palmi-</p><p>tal, é oportuno reproduzir aqui parte de uma petição de concessão</p><p>de terras ao Sr. Frédéric Brüstlein. Esse engenheiro francês era admi-</p><p>nistrador de bens e procurador de François Ferdinand, príncipe de</p><p>Joinville. Frederico Brüstlein era administrador da Colônia Dona</p><p>Francisca e proprietário da Fazenda Pirabeiraba, cujo latifúndio, na</p><p>ponta norte, se conectava ao Sertão das Três Barras101 e Palmital. O</p><p>teor da petição foi publicado em 1901, e nos oferece, em seu me-</p><p>morial descritivo, um histórico dos antigos proprietários e habitan-</p><p>tes daquele ermo tão profundo no qual Derrion, Jamain e os demais</p><p>franceses estavam prestes a adentrar. A petição apresenta a vizinhan-</p><p>ça cabocla à Colônia do Palmital, cujos vizinhos, certamente, esta-</p><p>beleceram interlocuções com os falansterianos:</p><p>“Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito. Diz o doutor Frederico Brus-</p><p>tlein, por seu advogado, que sendo proprietario das terras</p><p>denominadas “Cavallinhas”, “Palmitar”. “Urubuquára” o</p><p>“Trez-Barras”, nesta Comarca, que foram antigas posses e</p><p>sesmarias, devidamente legitimadas o revalidadas; sendo</p><p>que as das Cavallinhas foram compradas à André Nunes da</p><p>Silveira, e sua mulher Maria Genoveva da Silva; as do Pal-</p><p>mitar à Antonio Vieira de Araujo; as do Urubuquára, pelo</p><p>100 Jornal O Conciliador Catharinense, 14 de julho de 1849.</p><p>101 CERCAL, Eduardo de Oliveira, “Sertão das Três Barras/Sahy (São Francisco)”, p.36-37</p><p>in Índice Onomástico dos Requerimentos de Concessões de Terras, da Diretoria de Terras e</p><p>Colonização (1867/1926), Vol 03, Caixa 15. (Acervo do arquivo Público de SC)</p><p>58 Gleison Vieira</p><p>titulo do Governo; as das Trez-Barras à Manuel Nunes da</p><p>Silveira e sua mulher Luiza Antonia de Jesus, Basilio Gon-</p><p>çalves de Araujo e sua mulher Joaquina Maria de Assump-</p><p>ção, João Laurindo Gomes de Freitas e sua mulher Anna</p><p>Maria da Conceição Freitas, Antonio Gonçalves de Araujo e</p><p>sua mulher Maria Gomes de Oliveira, Maria Benedicta do</p><p>Carmo Bacellar, viuva de Antonio José de Miranda, Manoel</p><p>Gomes de Freitas e sua mulher Rita Clara de Jesus, Joaquim</p><p>José da Nova,102 e uma parte permutada com o supracita-</p><p>do Antonio Gonçalves - o que tudo se evidencia pelo mappa</p><p>e Instrumentos públicos de compra e venda, transcriptos no</p><p>Registro Geral da Transcripção de Immoveis, e titulo da pre-</p><p>sidencia da ex-provincia e actual Estado de Santa Cathari-</p><p>na, a esta juntos, cujas terras, com a área de oito mil duzentos</p><p>o oitenta hectares, e o valor de seis contos seis centos e trinta e</p><p>tres mil réis (6:639.000) conforme os citados instrumentos,</p><p>se limitam: ao Norte pelo rio São João; ao Sul com o Duque</p><p>de Chartres e Duque de Penthiew, herdeiros dos Principes</p><p>de Joinville; ao Este com os herdeiros de Manoel Gomes de</p><p>Freitas, até encontrar um dos braços do rio Tres-Barras, des-</p><p>cendo por este até a ligação com o rio Urubuquára, seguindo</p><p>este até se encontrar o dito Urubuquára e descendo este rio</p><p>até sua barra junto a do rio Palmitar, e subindo o mesmo rio</p><p>Palmitar até as terras de Barrara e outros, que, em figura</p><p>quasi rectangular, se encravam nas terras do requerente até</p><p>o ribeirão da Onça, e pelo mesmo ribeirão abaixo até sua foz,</p><p>onde por linha aberta para o Norte se divide, com Martinho</p><p>Nunes da Silveira, herdeiro de André Nunes da Silveira, Fe-</p><p>licio Alves, e terras devolutas, fazendo, então angulo recto,</p><p>até o mencionado rio São João; ao Oeste com os herdeiros de</p><p>102 Segundo registro de 1861, Joaquim José da Nova tinha posse “sobre umas terras com</p><p>engenho de serrar no Rio dos Cavallinhos (...) e que foram hipotecadas por Florencio José da</p><p>Cunha ao mesmo Nova” ( Jornal O Argos da Província de Santa Catharina (SC), 18 de</p><p>junho de 1861).</p><p>59Jardim das Utopias</p><p>André Nunes da Silveira, rio Trez-Barras até o marco da</p><p>linha que divide com as terras de Bernardina Nunes da Sil-</p><p>veira, e, depois, por uma outra linha quebrada em seu come-</p><p>ço até o rio São João; que separa as terras do requerente, das</p><p>devolutas, ficando assim, por linhas abertas e demarcadas e</p><p>rios, fechado o perímetro”.103</p><p>Dessa maneira, tem-se uma exposição das veredas verdejan-</p><p>tes que enovelavam o caudaloso rio Palmital em meados do século</p><p>XIX. Aquele jardim e suas sertanias constituíam um espaço repleto</p><p>de arroios e igarapés singrados por canoas; remanso que era ma-</p><p>culado por uma congregação sertaneja, e cuja lembrança não era</p><p>senão as taperas cirandadas por vezes pela fúria tapuia dos boto-</p><p>cudos. Sociologicamente, aquela várzea profunda sombreada pelos</p><p>contrafortes da Serra do Mar após o crepúsculo arauto das noites</p><p>sertanejas, suscitava fantasmas de um Brasil Colonial, quase qui-</p><p>nhantista da época de Cabral: um domínio vasto, à mercê de capi-</p><p>tães que usurpavam o latifúndio em contraposição a caboclos livres</p><p>que ocupavam rincões à própria sorte; e entre um e outro, indígenas</p><p>enfurecidos por um processo colonial em contraposição ao silencia-</p><p>mento de escravos. Um ambiente tão fértil à utopia</p><p>quanto o Velho</p><p>Continente o havia sido. Derrion e seus dissidentes estavam aden-</p><p>trando as porteiras mamelucas de um “Éden hostil”...</p><p>Essa exposição foi importante para comprender os incidentes</p><p>que, a partir de abril de 1842, tornariam a chegada da falange às pla-</p><p>nícies orientais do rio Palmital um fenômeno peculiar. Um pedaço</p><p>dos Sertões Incultos germinaria o jardim utópico para o sonho fou-</p><p>rierista? As flores de jacatirão forneceriam o néctar para a colmeia</p><p>falansteriana? Os franceses conseguiriam, nos sítios do Palmital,</p><p>borboletear104 em sua missão humana?</p><p>103 Jornal O Dia : Orgão do Partido Republicano Catharinense (SC), 05 de outubro de 1901.</p><p>104 A “paixão de borboleta”, na expressão de Fourier, era o eterno desejo de variedade (de</p><p>passar de uma para outra flor) que seria um aspecto ontológico do Homem.</p><p>60 Gleison Vieira</p><p>5. Sonho e utopia nas veredas do Palmital</p><p>A Paris se constitue une coopérative pour la fondation à Palmetar</p><p>(Brésil) d’une colonie sociétaire, suivant les idées de Charles Fou-</p><p>rier. Deux phalanstères s’instalallent à l’Olivera (Etat de Santa</p><p>Catalina) et au Palmetar, mais ils échouent rapidement.105</p><p>A reconciliação entre os dois grupos parecia impossível enquanto</p><p>Mure liderasse a Colônia do Saí. A 2ª. Union Industrielle buscava outros</p><p>meios para obter uma data de terras. Como ressalta Raquel S. Thiago,</p><p>“A Câmara Municipal de São Francisco acabara de conce-</p><p>der-lhes um terreno em São Francisco, onde pudesse cons-</p><p>truir uma casa de comércio, que certamente seria o entre-</p><p>posto que estavam planejando instalar para vender seus</p><p>produtos cultivados no Palmital”.106</p><p>Naquela audiência de 21 de fevereiro na vila de Desterro, Ja-</p><p>main já havia mostrado o interesse dos dissidentes pelas terras de</p><p>um sertão chamado “Palmitar”. Embora a câmara francisquense te-</p><p>nha encontrado um local para os dissidentes se instalarem, cabia a eles</p><p>mesmos a aquisição pecuniária da referida concessão – por meio de</p><p>arrendamento ou aluguel. E assim procederam.</p><p>Nos idos de abril de 1842, enquanto Derrion retornara ao Rio</p><p>de Janeiro (por motivos desconhecidos), os dissidentes, encabeçados</p><p>por Antoine Jamain, tendo à sua sombra mais quarenta franceses, sul-</p><p>caram a maré até atingir as planícies orientais do Palmital; singraram</p><p>o Estreito do Gibraltar,107 a Ilha Grande,108 a Ilha do Inferno.109 Dei-</p><p>105 DOLLÉANS, Édouard. CROZIER, Michel. Mouvements ouvrier et socialiste: chrono-</p><p>logie et bibliographie. Vol.I [sine loco]:1950. p.91.</p><p>106 S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.104.</p><p>107 VIEIRA, Gleison. Porto Barrancos, Berço de Garuva. Decorrências históricas no pro-</p><p>cesso de colonização na Península do Sahy, e nas localidades das Três Barras, Palmital e</p><p>Barrancos. Joinville: Letradagua. 2007. p.166-179.</p><p>108 A respeita da Ilha Grande e arredores, ver VIEIRA, Op.cit.; p.166-179.</p><p>109 Sobre a Ilha do Inferno, ver VIEIRA, Gleison. Op.cit.; p.75-78.</p><p>61Jardim das Utopias</p><p>xaram para trás, à direita, as margens dos Barrancos;110 à esquerda, as</p><p>Três Barras.111 Atingiram a confluência dos rios Três Barras, Urubu-</p><p>quara112 e Palmital; seguindo pelo último (à direita) encontraram a</p><p>porção de um sítio destinado a eles.</p><p>Os colonos fourieristas leais a Jules Mure estabeleceram uma pe-</p><p>quena aldeia rudimentar no centro da península, perto do rio Saí-Mi-</p><p>rim. Segundo um cronista da época, o jornalista Joaquim Gomes e</p><p>Paiva (1821-1869), “a colônia foi fundada pelo doutor Mure num sítio</p><p>chamado Muturati (...) e os demais foram morar perto do rio Palmi-</p><p>tar”.113 Ao analisar a carta do inspetor José da Silva Mafra que, substi-</p><p>tuindo Jerônimo Coelho como inspetor da Colônia do Saí, embarcou</p><p>na tentativa de apaziguar os dois grupos, é possível posicionar geogra-</p><p>ficamente a falange. A localização da margem onde estaria localizada</p><p>a comunidade liderada por Derrion e Jamain é hesitante:</p><p>Compraram um pequeno sítio às margens do rio Palmital, a</p><p>sete léguas114 da Vila de S. Francisco, e à margem esquerda</p><p>do rio de mesmo nome, cujas terras estavam ligadas do inte-</p><p>rior à Península do Sahy.115</p><p>Frente a uma área vasta e isolada, cuja mata quase intocável era in-</p><p>terrompida por alguns quintais, esmiucemos essa citação do Inspetor</p><p>Mafra. A partir dessa menção, parte por parte, entendamos onde exa-</p><p>tamente os colonos dissidentes de Derrion e Jamain se estabeleceram:</p><p>a) “Compraram um pequeno sítio às margens do rio Palmital”</p><p>A Fazenda do Palmitar era uma propriedade que, no século</p><p>XIX, localizava-se às margens do rio Palmital. Essa fazenda não fica-</p><p>110 VIEIRA, Op.cit.</p><p>111 Sobre a localidade das Três Barras, ver VIEIRA, Gleison. Op.cit.; p.40-74.</p><p>112 Sobre o Rio Urubuquara ver, VIEIRA, Gleison. Op.cit.; p.40-74.</p><p>113 PAIVA, Joaquim Gomes de Oliveira e. Dicionário topográfico, histórico e estatístico da província</p><p>de Santa Catarina. Florianópolis: Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, 2003, p.96.</p><p>114 Uma légua corresponde a 5,5 km.</p><p>115 GÜTTLER. Op. cit.; p.16.</p><p>62 Gleison Vieira</p><p>va longe da divisa entre as províncias de Santa Catarina e São Paulo.</p><p>O proprietário da fazenda Palmital era Luiz Nunes da Silveira (cujos</p><p>descendentes ainda hoje residem em Garuva).</p><p>O latifúndio da Fazenda do Palmitar tem origem em um do-</p><p>cumento de sesmaria, assinado em 1804. A sesmaria no Palmital à</p><p>qual a fazenda estava vinculada era, outrora, do senhor de engenho</p><p>e proprietário de escravos chamado Francisco de Paula dos Reis. Foi</p><p>um importante político da vila de São Francisco do Sul.116 Segundo</p><p>essa carta de concessão sesmarial, concedida àquele proprietário de</p><p>escravos, tal domínio era formado por um retângulo: tinha 6 km de</p><p>frente para a margem oriental do rio Palmital; bem como uma linha</p><p>traçada no fundo do terreno cuja extensão também é de 6 km; as</p><p>linhas laterais, tanto a sul como a norte, estendem-se por 3 km. Ou</p><p>seja, a superfície da fazenda Palmital era de 18 km2.</p><p>O trecho escrito pelo Inspetor Mafra diz “compraram uma pe-</p><p>quo sítio”. Isso significa que adquiriram terras privadas, ou seja, pro-</p><p>priedades que já haviam passado pelo processo de sesmaria, único</p><p>processo fundiário viável até 1822. No Brasil, antes de 1850, as ter-</p><p>ras não podiam ser adquiridas senão por posse (depois de 50 anos)</p><p>ou por compra de terrenos com título de sesmarias. Antes da Lei de</p><p>Terras, assinada em 1850, as terras não adquiridas por um indivíduo</p><p>(por um sesmeiro) eram chamadas de terras devolutas, que não po-</p><p>deriam ser vendidas, pois ainda eram de porção realenga.</p><p>Assim, o arrendamento do terreno administrado por Michel e</p><p>Jamain referir-se-ia, muito possivelmente, a uma fração do patrimô-</p><p>nio da Fazenda do Palmital.</p><p>b) “... à margem esquerda do rio de mesmo nome”</p><p>O lado direito ou esquerdo de um rio é determinado com o rosto</p><p>do observador voltado para a foz, ou seja, de costas para a nascente</p><p>– como se estivesse descendo o rio em um barco. Os únicos terrenos</p><p>116 VIEIRA, Gleison. Porto Barrancos: berço de Garuva. Joinville: Letradágua, 2007. p.50</p><p>63Jardim das Utopias</p><p>privados disponíveis na margem oriental do rio Palmital eram os que</p><p>estavam dentro dos domínios da sesmaria do Sr. Francisco dos Reis</p><p>(Sesmaria Nunes) – isto é, da Fazenda do Palmital (ver Anexo 02). Ao</p><p>sul dessa gleba, sendo banhada pelas águas salobras do canal caudalo-</p><p>so, existia outra sesmaria, a Sesmaria dos Barrancos.117 Essa outra área</p><p>não era banhada pelo rio Palmital, mas pela confluência de três rios</p><p>(Urubuquara, Três Barras e Palmital), no início da formação do canal,</p><p>antigamente chamado de Rio São Francisco. A Colônia Palmital fica-</p><p>va muito próxima desse outro grande pedaço de terra.</p><p>Em 1920, ou seja, 80 anos depois da aventura fourierista de Der-</p><p>rion, Jamain e os dissidentes, uma empresa petrolífera francesa de Cour-</p><p>chelettes (Douai, no Norte da França), adquiriu as terras de Palmital e</p><p>parte do Saí para um projeto colonial industrial-florestal. Esse empre-</p><p>endimento capitalista era organizado pela Paix et Cia, do industrial e</p><p>filantropo Edmond-Marie Charles Paix (1877-1947). Existem mapas</p><p>da</p><p>Paix et Cia que especificam os limites das sesmarias antigas. Esses</p><p>mapas apoiam a tese de que os dissidentes franceses se estabeleceram</p><p>nas terras da sesmaria de Francisco dos Reis (ver mapas do Anexo 02).118</p><p>c) “... cujas terras estavam ligadas do interior à Península do Sahy.”</p><p>Na verdade, apenas a margem oriental do rio Palmital, a mar-</p><p>gem esquerda (o Cispalmital), liga-se ao interior do Saí; à margem</p><p>ocidental se liga à planície Palmital e à Serra do Mar. Por tudo isto,</p><p>podemos dizer que as terras sesmariais de Francisco de Paula dos Reis</p><p>foram o local que restou para abrigar a colônia dissidente.</p><p>117 A sesmaria de Barrancos (também chamada Sesmaria Portella) pertencia à proprietá-</p><p>ria de escravos Valentina Rita de Araújo, cujo patrimônio sesmarial lhe foi concedido em</p><p>1806. Ainda em meados do século XIX, parte das terras dessa região pertencerm a Francis-</p><p>co Gonçalves de Assunção (ver NASCIMENTO, Antônio Roberto. A família Arriola em</p><p>Santa Catarina. in Blumenau em Cadernos, tomo XXXVI, Abril de 1995, nº4, p.104-112).</p><p>Atualmente, a região corresponde aos distritos rurais de Barrancos e Baraharas, em Garuva</p><p>(VIEIRA, Gleison. Porto Barrancos: Berço de Garuva. Joinville: Letradágua, 2007).</p><p>118 Para entender melhor a Paix & Cie e sua relação com a cidade de Garuva, recomenda-se</p><p>a leitura do trabalho de VIEIRA, Op.cit. 2007.</p><p>64 Gleison Vieira</p><p>Quanto às características das terras banhadas pelo rio Palmital,</p><p>uma margem e outra são formadas principalmente por manguezais.</p><p>Todos aqueles que navegavam pelo canal norte, em direção à fazenda</p><p>Três Barras, ao chegarem às águas do rio Palmital, tinham dificuldade</p><p>para chegar à margem esquerda, devido ao manguezal. Não havia ou-</p><p>tra forma de atravessar o manguezal senão entrando no único rio com</p><p>acesso àquela margem, que era o rio Maria Barahara.</p><p>No século XVIII, 100 anos antes da chegada de Derrion àquela</p><p>vereda, alguns mineiros chegaram às antigas jazidas de ouro fazendo</p><p>essa incursão ao longo do pequeno rio Maria Baraharas. Na verdade,</p><p>uma cabocla se destacava na extração de ouro: seu nome era justamen-</p><p>te Maria Barahara. Como veremos mais adiante, os franceses do Pal-</p><p>mital primaram pela construção naval, sendo o rio Maria Baraharas a</p><p>ligação entre as águas do rio Palmital e a planície que une o interior da</p><p>península, vencendo a barreira dos manguezais.</p><p>Os colonos franceses, liderados por Michel Derrion e Jamain,</p><p>para chegarem à “Terra Prometida de Fourier”, dirigiram-se para o limi-</p><p>te norte da Província de Santa Catarina. Listamos três rotas possíveis:</p><p>1) poderiam ter chegado às terras da Fazenda Palmital por águas,</p><p>pelo canal;</p><p>2) percorrer o antigo Caminho Mangin, caminho que passaria pela</p><p>cidadela da Colônia do Saí, dos que ainda eram fiéis ao Doutor Mure;</p><p>3) outro caminho adjacente pode ter sido frequentado pelos</p><p>franceses e Derrion, que é o Caminho dos Bois. Essa trilha era usado</p><p>pelos criadores de gado para conduzir os animais até o centro históri-</p><p>co de São Francisco, no morro chamado Pico da Pedra Branca. Assim,</p><p>percorria-se o entorno isolado dos Barrancos às várzeas do Saí-Mirim.</p><p>Tudo isso é corroborado em um mapa confeccionado 10 anos</p><p>depois da chegada dos franceses ao Palmital. Trata-se do detalhe da</p><p>Carta topographica e administrativa da província de Santa Catharina,</p><p>de 1852, elaborada pelo Visconde J. de Villiers de L’Ile-Adam. Esse</p><p>mapa teve seus detalhes editados a partir das mais recentes informa-</p><p>ções, particularmente, as fornecidas pelos mapas de Van Lede (1842),</p><p>65Jardim das Utopias</p><p>de Jose Victoria Soares de Andrea (1842) e da Aubef Annales maríti-</p><p>mos (abril de 1847). No detalhe desse mapa, ao centro, vê-se a Colô-</p><p>nia do Palmital, sinalizado por um retângulo negro – bem como a vila</p><p>da Fazenda Três Barras e a Colônia do Saí, justamente no lado oriental</p><p>da planície do rio Palmital.119</p><p>Para além de qualquer duvida, ter-se-ia a possibilidade da outra</p><p>margem. A margem direita do rio Palmital tocava a porção ociden-</p><p>tal da planície. Como frisado na sessão anterior, toda aquela várzea, a</p><p>partir de 1878, fora adquirida, por concessão, a Sr. Frédéric Brüstlein.</p><p>Conforme teor da petição publicado em 1901, as terras do Urubu-</p><p>quara, margem direita, foram concedidas a ele por título do Governo:</p><p>“Diz o doutor Frederico Brustlein (...), que sendo proprietário das terras</p><p>denominadas (...) as do Urubuquára, pelo titulo do Governo”.120 Assim,</p><p>presume-se que, na época de Derrion, as terras da outra margem do</p><p>rio Palmital fossem devolutas.</p><p>6. Um novo mundo nas águas do Baraharas</p><p>“Je saisis aussi cette occasion, pour dire en mon nom parti-</p><p>culier, aux travailleurs lyonnais, dont un grand nombre</p><p>déjà me connaissent, que tous les instans de ma vie seront</p><p>employés à réclamer ou établir un ordre social nouveau, qui</p><p>garantisse au producteur de toute richesse une part plus équi-</p><p>table dans le bénéfice social,...”. Michel Derrion.121</p><p>Na sessão anterior, apresentamos historicamente as veredas da-</p><p>quele vasto e profundo grotão que constituía o sertão mameluco do</p><p>119 Ver Anexo 02.</p><p>120 Jornal O Dia : Orgão do Partido Republicano Catharinense (SC), 05 de outubro de 1901.</p><p>121 “Aproveito também o ensejo desta ocasião, para dizer particularmente em meu nome, aos</p><p>trabalhadores lioneses, dos quais grande número já me conhece, que todos os instantes da mi-</p><p>nha vida serão empregados a exigir ou estabelecer uma ordem social nova, que garanta ao</p><p>produtor de toda riqueza uma parte mais eqüitativa no benefício social,...”. (L’Écho de la Fa-</p><p>brique – Journal Industrielle et Littéraire de Lyon, 23 de fevereiro de 1834, no. 60).</p><p>66 Gleison Vieira</p><p>Palmital. Assim, retornemos à incursão exótica da falange na planí-</p><p>cie oriental daquele canal caudaloso de águas salobras. Devido aos</p><p>conflitos entre as duas facções falansterianas, é de se presumir que</p><p>os dissidentes optaram por não incursionar primeiramente pelo in-</p><p>terior do Saí, passando pelas terras cedidas pelo Coronel Camacho</p><p>à Mure. Com isso, poderia-se concluir que o grupo separatista de</p><p>Derrion e Jamain expedicionou para o norte por meio de canoas,</p><p>subindo o canal, até alcançar o rio Maria Baraharas.</p><p>Naquele momento, Michel Derrion não estava presente, pois</p><p>por motivos desconhecidos, ele se encontrava no Rio de Janeiro. En-</p><p>tre os mais de 40 franceses presentes, sob a liderança de Jamain, esta-</p><p>vam: o químico Monsier Pomatelli; Auguste Teysseire e esposa Louise</p><p>Flatan, bem como seus dois filhos; o casal lionês Monsieur Colliat</p><p>e Francine Colliat, que haviam participado da Commerce Véridique</p><p>et Social, em Croix-Rousse;122 Lucienne Domarget, companheira de</p><p>Derrion, e os dois meninos que tivera com ele; entre outros.</p><p>O falansteriano Auguste Teysseire foi um dos primeiros colo-</p><p>nos que partiram para estabelecer um falanstério no Brasil. Ele fora</p><p>acompanhado de sua esposa Louise Flatan e pelo menos dois fi-</p><p>lhos.123 Seu nome aparece pela primeira vez na disputa entre Benoît</p><p>Mure e a Union Industrielle. Teysseire participou, em fevereiro de</p><p>1842, das negociações que Derrion e Antoine Jamain conduziram</p><p>para fazer valer os direitos dos colonos a uma concessão. Teysseire</p><p>acompanhou Jamain e Pomatelli perante o presidente da província</p><p>de Santa Catarina para defender os interesses da Union Industrielle.</p><p>A experiência da família Teysseire rapidamente se transformou em</p><p>pesadelo. Em 10 de março de 1842, a jovem Marie-Françoise Teys-</p><p>122 Monsieur Colliat e Mademoiselle Francine são mencionados na formação da Union In-</p><p>dustrielle, associação responsável pela seleção dos franceses que se estabeleceriam na Penín-</p><p>sula do Saí e, posteriormente, no rio Palmital, em REYNIER, Joseph. Mémoires-Ancien</p><p>Tisseur. Lyon. 1898, p.43.</p><p>123 SOSNOWSKI, Jean-Claude. Teysseire, Auguste Adolphe. In Charles Fourier.Fr: Le Site</p><p>de l’Association d’Études Fouriéristes et des Cahiers Charles Fourier. 2020. Acessado em</p><p>27 de dezembro de 2021 em https://www.charlesfourier.fr/spip.php?article2282</p><p>67Jardim das Utopias</p><p>seire faleceu em São Francisco do Sul;</p><p>no dia 16 de março foi a vez</p><p>de seu irmão Alphonse, de 07 anos.124 O nome de Auguste Teysseire</p><p>não seria mencionado entre os membros da Sociedade Industrial do</p><p>Sahy, fundada em 15 de agosto de 1844 em torno de Michel Der-</p><p>rion. No entanto, em 28 de abril de 1844, Auguste Teysseire fez com</p><p>que o cônsul francês no Rio de Janeiro registrasse o nascimento e</p><p>batismo em São Francisco do Sul de um filho, Joseph, nascido 09</p><p>meses antes, ou seja, aproximadamente em julho de 1843.125 Porém,</p><p>foi anunciado que retornaria ao Rio de Janeiro em 11 de maio de</p><p>1846, poucos meses após a chegada de Michel Derrion que coloca-</p><p>ria fim aos intentos no Saí e no Palmital.126</p><p>Outro falansteriano era Monsier Pomatelli, fabricante de produ-</p><p>tos químicos. Era membro da diretoria da Union Industrielle de Paris</p><p>em abril de 1841. Enquanto os colonos descobriram que o contrato</p><p>assinado com as autoridades brasileiras fora redigido em nome de Be-</p><p>noît Mure e não da Union Industrielle, ele participou, em fevereiro de</p><p>1842, das negociações que Derrion e Jamain conduziram para fazer</p><p>valer os direitos dos colonos naquela concessão. Pomatelli seguiu Ja-</p><p>main e Teysseire perante o presidente da província de Santa Catari-</p><p>na para defender os interesses dos “dissidentes”. Pomatelli contribuiu</p><p>com a Colônia do Palmital que acolheu os colonos que seguiram Der-</p><p>rion? Poder-se-ia presumir que sim, assim como Teysseire. Segundo o</p><p>arquivista de Semur-en-Auxois, Jean-Claude Sosnowski, poderia ser</p><p>talvez esse falansteriano o mesmo F. Pomatelli, que se instalou como</p><p>impressor em Porto Alegre, na Rua da Praia, e imprimiu, entre outros</p><p>títulos, os jornais O Imparcial, folha política e comercial em 1845 e o</p><p>Correio de Porto Alegre, em 1849? Dificil precisar, pois a Litografia do</p><p>124 Archives du ministère des Affaires étrangères (La Courneuve) état civil, P 04210, Livre</p><p>6.1 (1844), actes de décès n° 2436 de Marie Françoise Teysseire le 10 mars 1842 et n°</p><p>2437 d’Alphonse Teysseire le 16 mars 1842 ; Laurent Vidal. Op.cit., p.244. Apud SOS-</p><p>NOWSKI, Jean-Claude. Op.cit., 2020.</p><p>125 Ibidem.</p><p>126 Laurent Vidal, Op.cit., p. 277. « Movimento do porto », Diário do Rio de Janeiro, 12</p><p>de maio de 1846, p.04. Ali, ele estava inscrito sob o nome de “Augusto Feysseipre”. Apud</p><p>Ibidem.</p><p>68 Gleison Vieira</p><p>Comércio, de Pomatelli & Cia., foi pioneira em se estabelecer em Por-</p><p>to Alegre, tendo como principal gravador o alemão Guilherme Grote</p><p>Tex. Uma conclusão necessitaria de maiores pesquisas.</p><p>Mas, voltemo-nos para os conflitos entre Michel Derrion e Benoît</p><p>Mure em 1842. Antoine Jamain começou a escrever cartas ao Presiden-</p><p>te da Província relatando as atividades dos franceses no Palmital, na ten-</p><p>tativa de convencê-lo a lhes dar uma concessão. Dizia ele que</p><p>“havia ‘comprado’ um terreno no Palmital e estavam em plena</p><p>atividade para cultivá-lo. Os seus companheiros derrubavam</p><p>as matas e a semeadura já cobria uma parte do terreno. Tinha</p><p>o propósito de recuperar o tempo perdido e haviam pedido à</p><p>Câmara de São Francisco um local para a construção de uma</p><p>casa a qual lhes serviria de entreposto para os seus produtos e</p><p>que deve ser a casa de comércio citada por Mure. Todos, sem</p><p>exceção, trabalhavam. Finalmente, Jamain pedia a concessão</p><p>de duas léguas de terras devolutas no Palmital. A concessão</p><p>seria feita em nome de Arnaud, Jamain e Derrion. Prometia</p><p>que enviaria a Paris cópia do titulo de concessão”.127</p><p>Benoît Jules Mure declarou a respeito da Colônia do Palmital</p><p>que ali estavam fixados os colonos que não quiseram ficar com ele.</p><p>Mure dissera que ali trabalhavam franceses sob a direção de mes-</p><p>sieurs Derrion e Jamain, e que se deram às construções navais: “Estão</p><p>construindo um lindo escaler, e preparavam madeiras para a constru-</p><p>ção de um iate, e projetam outros estabelecimentos”.128</p><p>Naquele mês de Abril de 1842, diante das querelas entre “mu-</p><p>rerianos” e “derrionianos”, alguns franceses resolveram seguir suas</p><p>vidas em outras freguesias. Porém,</p><p>“Com Jamain e Derrion ficaram cerca de quarenta colo-</p><p>nos, que com seus próprios recursos, compraram terras</p><p>ao norte da Península do Saí e estabeleceram com a falta</p><p>127 S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.102.</p><p>128 GÜTTLER, Antônio Carlos. Op. cit.; p.16.</p><p>69Jardim das Utopias</p><p>de braços pois, perceber-se que já na primeira leva de cem</p><p>imigrantes franceses, quase metade não foi aproveitada</p><p>por nenhum dos dois núcleos”.129</p><p>O Inspetor Mafra e o Juiz de Paz Joaquim Gonçalves da Luz</p><p>tentaram apaziguar as relações entre os dois núcleos fourieristas. No</p><p>Saí, os fourieristas de Mure abriram uma estrada considerável em</p><p>direção ao interior da península, além de projetarem, sem sucesso,</p><p>uma represa no rio Saí-Mirim, a fim de torná-lo navegável.</p><p>Mas o grupo do Palmital parecia estar mais sintonizado com</p><p>a filosofia falansteriana de Fourier, como o próprio inspetor Mafra</p><p>alegou em alguns relatórios:</p><p>“Mafra deixa claro que a Colônia do Palmital possuía</p><p>maiores comprometimentos ao seu desenvolvimento do</p><p>que a do Saí. Anotou a existência de ‘uma casa de viven-</p><p>da pertencente ao sítio, algum arvoredo e pastagens que já</p><p>existiam’. O número de colonos contava inicialmente qua-</p><p>renta e dois, ou seja, exatamente o dobro dos habitantes do</p><p>Saí naquele momento, que possuem ‘de toda idade e sexo;</p><p>mas quatro continuam a residir na vila, e provavelmente,</p><p>nunca se reunirão aos do Palmital”.130</p><p>A região onde Derrion e Jamain estabeleceram a phalange ficava</p><p>espremida entre as margens do rio Palmital e uma pequena cadeia de</p><p>morros. As margens fluviais eram tomadas (e ainda são) por destacáveis</p><p>bosques de mangues. Os morros eram cobertos da mais nobre madei-</p><p>ra de lei da Mata Atlântica: além do palmito, havia o jacatirão, peroba</p><p>e tapinhoã.131 Uma das madeiras abundantes da região, e de excelente</p><p>qualidade, é a madeira garuva, cujo caule produz tábuas excelentes para</p><p>129 GÜTTLER, Op. cit.; p.14.</p><p>130 Op. cit.; p.16.</p><p>131 A madeira nobre daquela região pode ser constatada na carta sesmarial da concessão</p><p>vizinha às terras dos franceses fourieristas. Esta carta, de 1806, descreve a mata realenga</p><p>(VIEIRA, Gleison. Op.cit.; p.24).</p><p>70 Gleison Vieira</p><p>a construção naval.132 A abundância de madeira qualificada chamou a</p><p>atenção dos associacionistas para a atividade de confecção de barcos.</p><p>A historiadora Raquel San Thiago lembra que o argentino May</p><p>Lorenzo Alcala133 citou uma carta escrita em 1845 por tal Sarmiento</p><p>e endereçada a outro, Carlos Tejedor. Nela, Sarmiento fala de um en-</p><p>contro com monsieur Tandonnet, francês, introdutor do fourierismo</p><p>no Rio da Prata, que lhe relatara a experiência do Saí e do Palmital:</p><p>“May levanta a hipótese de que os senhores Mure, Jamain e Der-</p><p>rion se correspondessem com o senhor Tandonnet e até teriam</p><p>obtido informações a cerca das necessidades locais, particular-</p><p>mente em relação a falta de madeira no rio da Prata, especifica-</p><p>mente Montevidéu. Num dos seus relatórios, o Inspetor da Co-</p><p>lônia afirma que tanto Mure como Jamain e Derrion estavam</p><p>bastante impressionados com a quantidade de árvores que havia</p><p>no Saí e planejavam exportar madeira para Montevidéu”.134</p><p>Quanto aos trabalhos que haviam começado há apenas dois me-</p><p>ses no Palmital, os fourieristas estavam dando preferência à constru-</p><p>ção naval ainda em pequena escala: “... um lindo escaler de dezoito pés</p><p>de quilha’ encontrava-se quase concluído; com o estaleiro pronto pre-</p><p>paravam as madeiras para a execução de ‘um iate de cinquenta pés”.135</p><p>Há uma citação sobre a colônia falansteriana do Palmital no Diccio-</p><p>nário Geográphico, Histórico e descritivo do Império do Brazil, contem-</p><p>porânea aos acontecimentos, e que é, ipso facto, oportuno transcrever:</p><p>“Palmitar. Sítio da Província de Santa Catharina, nas</p><p>margens do rio Sahi, a 6 legoas de sua foz, onde alguns co-</p><p>lonos falansterianos, debaixo da direcção de MM. Jamain e</p><p>132 Canela Garuva (Nectandra rigida) é uma árvore silvestre de madeira amarela usada para</p><p>se fazer canoas. O nome Garuva, de origem tupi-guarani, vem do prefixo gara ou</p><p>igara</p><p>(canoa), mais o sufixo uba (árvore), ou seja, “árvore da canoa”. (CHIARADIA, Clóvis.</p><p>Dicionário de palavras brasileiras de origem indígena. São Paulo: Limiar, 2008).</p><p>133 ALCALA, May Lorenzo. El Utopismo no Brasil. Revista Tudo es História, Argentina</p><p>[sine loco], 1993.</p><p>134 S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.114.</p><p>135 GÜTTLER, Op. cit.; p.16.</p><p>71Jardim das Utopias</p><p>Derrion, separando-se dos do rio Sahi, formaram uma pe-</p><p>quena povoação, entregando-se ao cultivo da terra, á cons-</p><p>trução de barcos e á fabricação dos instrumentos para este</p><p>mister necessários. Em junho de 1842 haviam já os colonos</p><p>deitado ao mar um escaler, e tinham no estaleiro um iate”.136</p><p>O inspetor Mafra defendia que este tipo de atividade poderia</p><p>“ser muito produtivo aos colonos e profícuo ao país, porque entre eles há</p><p>artistas hábeis, e não negam a admitir discípulos brasileiros”.137 Ape-</p><p>sar da agricultura se restringir à mínima subsistência, “tratavam de</p><p>construir uma olaria, de montar uma forja e fabricavam carvão”.138</p><p>Mafra comparou as duas comunas dizendo que embora no Palmital</p><p>se encontrasse um “maior número de obreiros, e mais perfeitos que no</p><p>Sahy”, aqueles “não estão unidos e submissos como os deste”.139</p><p>Como estavam as relações entre Derrion e Mure? Nada bem. A</p><p>situação se agravou com a chegada do segundo navio, chamado Virginie,</p><p>trazendo abordo 117 colonos franceses. Cada qual dos líderes argumen-</p><p>tava a respeito dos direitos sobre os imigrantes. Raquel San Thiago afir-</p><p>ma que Jamain e Derrion no Palmital e o Dr. Mure no Saí...</p><p>“passaram a disputar os franceses recém chegados, alegan-</p><p>do, cada qual, terem sido essas pessoas recrutadas por seus</p><p>respectivos agentes na França. Muitos deles, decepciona-</p><p>dos, reembarcaram e, dos que ficaram, quatro foram para</p><p>o Palmital e vinte e oito ficaram no Sahy”.140</p><p>Após o lamentável episódio do navio Virginie, gradativamente</p><p>a paz foi sendo estabelecida entre os dois grupos. No verão do ano de</p><p>1843, a situação se mostrava completamente adversa. O ânimo dos</p><p>136 SAINT-ADOLPHE, J. Milliet de. Diccionário Geographico, Histórico e descritivo, do</p><p>Império do Brazil. Transladada em português do manuscrito francês pelo Dr. Caetano Lo-</p><p>pes de Souza. Paris: J.P. Aillaud Editeur. 1845. p.194.</p><p>137 GÜTTLER, Op. cit.; p.16.</p><p>138 Ibidem.</p><p>139 Ibidem.</p><p>140 S.THIAGO, Op. cit.; p.120.</p><p>72 Gleison Vieira</p><p>fourieristas se arrefecia. Muitos já haviam abandonado a empreitada</p><p>utópica (como monsieur Frontin, que abandonou a Colônia do Saí</p><p>e se estabeleceu à margem esquerda do rio Cachoeira, em Joinville).</p><p>Naquele momento, o presidente Ferreira Brito enviara uma mensa-</p><p>gem da Província comentando sobre as condições da colônia:</p><p>“restavam apenas 28 pessoas definitivamente fixadas na</p><p>região; 14 indecisos, à espera das decisões do Governo</p><p>Geral, 14 que iriam embora assim que pagassem ao go-</p><p>verno os adiantamentos que haviam recebido, além de 4</p><p>que permaneciam no Palmital”.141</p><p>Na primavera de 1843 ocorreu algo inesperado... Mure entre-</p><p>gou a direção da Colônia do Saí a Derrion! Isso se deu porque Be-</p><p>noît Mure resolveu concretizar um sonho particular: criar no Rio</p><p>de Janeiro o primeiro instituto de homeopatia do Brasil. Mure até</p><p>tentara fazer isso nas terras saienses, mas sem êxito. De fato, isso é</p><p>impressionante e até romântico, depois de todo aquele théâtre bouf-</p><p>fon repleto de brigas, desavenças e mal-entendidos, principalmente</p><p>por parte de Mure. O fato de o homeopata francês ter passado o</p><p>cargo de areópago142 da Colônia do Saí ao ex-negociante de seda era</p><p>um plot-twist digno de roteiro hollwoodiano.</p><p>Sendo assim, havia a possibilidade de se unificar as colônias,</p><p>muito embora a essa altura o Império já fizesse vistas grossas sobre</p><p>os empreendimentos fourieristas no Saí e Palmital, o que ameaçava</p><p>a continuidade do projeto. Em 15 de setembro de 1843, o Secretário</p><p>dos Negócios do Império enviou um ofício ao Sr. Ferreira Brito, presi-</p><p>dente da província de Santa Catarina; desse modo se abria uma sindi-</p><p>141 Op. cit.; p.123.</p><p>142 Segundo Leandro Konder, dentro da administração falasteriana pensada por Fourier,</p><p>“um ‘areópago’ ou conselheiro superior, integrado por representantes de cada ‘série’, zelaria</p><p>pelo bom funcionamento das atividades necessárias, indicando as tarefas que estivessem</p><p>por ser realizadas, sem jamais dar ordens ou fazer imposições” (KONDER, Leandro.“Fou-</p><p>rier: O Socialismo do Prazer”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1998. p.37). Não cabe-</p><p>ria ao areópago impor ordens, “já que a harmonia não admite nenhuma medida coercitiva”</p><p>(FOURIER, Charles. Théorie de l’Unité Universelle. Paris: Anthropos. 1965. p.447).</p><p>73Jardim das Utopias</p><p>cância sobre as atividades daquele “sonho utópico”. Em novembro, as</p><p>autoridades da Vila de São Francisco do Sul responderam ao pedido.</p><p>Na ocasião, o Inspetor Mafra qualificava Mure de mentiroso.143</p><p>No mês seguinte, entretanto, os ânimos exaltados dos fourieris-</p><p>tas, de ambos os lados, já havia diminuído consideravelmente, e a hos-</p><p>tilidade dava lugar à cordialidade: “Os que perseverárão se ajuntárão</p><p>em 10 d’Outubro de 1843, para celebrarem o anniversario da morte de</p><p>Carlos Fourier, e erão ao todo setenta”.144 A partir de um questionário</p><p>respondido por um dos societários do Saí, monsieur Leclerc, que a res-</p><p>posta ao Império foi baseada. Neste questionário, Leclerc responde</p><p>sobre os associacionistas do Palmital nas perguntas 3, 4 e 14:</p><p>“(...)</p><p>3º. Quantas há estabelecidos no Palmital, suas idades, sexo e es-</p><p>tados.</p><p>R- 11 homens, 5 mulheres e 6 crianças. Nada mais sei.</p><p>4º. Os colonos estabelecidos no Palmital estão sob a administra-</p><p>ção do Dr. Mure ou têm administradores à parte?</p><p>R- Os societários do Palmital estão ainda hoje sob a direção por</p><p>eles eleita na França [Derrion e Jamain] e são administrados</p><p>de um modo diferente e independente inteiramente do Sahy.</p><p>(...)</p><p>14º. Se há no Palmital mecânicos e utensílios para a construção</p><p>de diversas máquinas; para que espécie de máquinas?</p><p>R- Eu sei que há no Palmital, mecânicos e um material consi-</p><p>derável.</p><p>(...) Assinado: Charles Leclerc”.145</p><p>Neste momento os colonos passaram a apresentar um espírito</p><p>mais próximo da proposta de Fourier, muito embora as condições</p><p>financeiras e morais já fossem bem adversas. Sobre isso, sublinha</p><p>143 S.THIAGO, Op. cit.; p.125.</p><p>144 SAINT-ADOLPHE, Op. cit.; p.454-455.</p><p>145 Relatório de Leclerc, solicitado pelo inspetor da Colônia Jose da Silva Mafra, em 07 de</p><p>novembro de 1843 (S.THIAGO, Op. cit.; p.126-127).</p><p>74 Gleison Vieira</p><p>San Thiago que “... os societários, tanto do Saí como do Palmital, con-</p><p>viviam em harmonia, tratando da sobrevivência através da ajuda</p><p>mútua, cumprindo-se, desta forma, a proposta associacionista”.146 O</p><p>Inspetor Mafra percebera que a colônia do Palmital se destacou em</p><p>relação à do Saí, embora apenas um veleiro houvesse sido construí-</p><p>do. A partir deste ponto, Michel-Marie Derrion passaria a ser sujei-</p><p>to na história da Colônia do Saí.</p><p>7. A vazante da maré: fim do sonho no Palmital?</p><p>La societé representée par son administration se proposé pour</p><p>but d’etablir progressivement l’association integrale selon la</p><p>theorie de Charles Fourier”. Michel Derrion.147</p><p>Eis acima o Art. 3º do contrato da nova Sociedade Industrial do</p><p>Saí, assinado por Derrion em 15 de agosto de 1844. Esse artigo do</p><p>contrato mostra o compromisso de Derrion e do restante da falan-</p><p>ge com o propósito fourierista – contrapondo-se àquela versão de</p><p>Mure de que os dissidentes eram seguidores da doutrina saint-simo-</p><p>niana. Todavia, após dois anos e meio de desavenças nada associa-</p><p>cionistas, os princípios do fourierismo não passavam de um esforço</p><p>vão em um cenário insustentável. O Poder Imperial, após todo esse</p><p>contexto, criou uma série de entraves contratuais. Era evidente o de-</p><p>sânimo do Império do Brasil, corte essa que fora a única no mundo</p><p>a financiar oficialmente a criação de um falanstério. Naquele ano de</p><p>1844, a Falla de Antero Ferreira de Brito, Presidente da Província de</p><p>Santa Catarina, deixava transparecer o desânimo das</p><p>autoridades:</p><p>“Prosperam as Colônias estabelecidas na Província, menos a</p><p>do Sahy, que hoje, com nove homens, e sem estabelecimento</p><p>146 S.THIAGO, Op. cit.; p.125.</p><p>147 Artigo 3o. do contrato da Sociedade Industrial do Sahy, de 15 de agosto de 1844 (Copie</p><p>du contrat de la Societé Industrielle du Sahy fondée par M. Derrion). Coleção “Carlos Fi-</p><p>cker”, Arquivo Histórico de Joinville - SC.</p><p>75Jardim das Utopias</p><p>algum, quer agrícola, quer industrial, toca a sua completa</p><p>aniquilação, e sempre foi isto para temer a respeito de uma</p><p>empresa colonial em que se saltou por cima de todas as regras</p><p>a experiência tem ensinado, para se ir fundar em um logar</p><p>deserto do Brasil uma Colônia em que as paixões boas ou más</p><p>de seus membros e todas as aptidões deviam achar emprego le-</p><p>gítimo, e concorrem ao proveito geral, sendo um recreio para</p><p>todos, e não um dever penoso, trabalhar pelo bem estar uni-</p><p>versal, segundo as chimeras que apregoam como realizáveis</p><p>projetistas filantropos, que sempre seduzem alguns amadores</p><p>de novidades, e que a nós nos custam não poucos contos de reis,</p><p>e o azedume que sempre deixam esperanças malogradas”.148</p><p>Dos que estavam observando “do lado de fora”, uns, como vi-</p><p>mos, eram pessimistas; outros, otimistas... Do lado dos otimistas</p><p>pode-se mencionar o estudioso francês Milliet de Saint-Adolphe.</p><p>Naquele momento em que a Colônia do Saí/Palmital encontrava</p><p>seu crepúsculo, Milliet estava concluindo a sua obra Diccionário</p><p>Geográphico, publicada em Paris em 1845, após vinte e seis anos de</p><p>residência no Brasil. Na conclusão do mencionado trabalho, ele es-</p><p>creveu o seguinte sobre aquela atual situação da colônia:</p><p>“É provavel que a constância e a intelligencia dos homens</p><p>que lhe restão, com ajuda dos que se lhes devem ajudar, farão</p><p>que esta colônia se divida em duas, uma de meros artífices,</p><p>e outra de agricultores, o que será mais economico para as</p><p>finanças do Brazil”.149</p><p>Obviamente, a citação de 1845 não traduzia à exatidão o cená-</p><p>rio meandroso que desaguaria nas mãos de Derrion. Embora publi-</p><p>cada em 1845, a citação de Saint-Adolphe refletia aspectos de dois</p><p>148 Falla que o presidente da província de Santa Catharina, o marechal de campo Antero</p><p>José Ferreira de Brito, dirigiu à Assembléia Legislativa da mesma província na abertura</p><p>da sua sessão ordinária, em o 1.o de março de 1844. Cidade do Desterro, Typ. Provincial,</p><p>1844. p.25-26.</p><p>149 SAINT-ADOLPHE, Op. cit.; p. 455.</p><p>76 Gleison Vieira</p><p>anos antes, no momento em que os colonos estavam se dividindo</p><p>em dois núcleos coloniais.</p><p>Por ordens expressas do Governo de Sua Majestade, Derrion</p><p>teve que fazer um relatório detalhado sobre a situação da colônia</p><p>falansteriana naquele momento (final do ano de 1844). A primei-</p><p>ra coisa a ser descrita por Michel Derrion era um “pequeno núcleo</p><p>colonial, a partir de um terreno, à beira da baía, onde fora constru-</p><p>ída a casa Lymber, coberta de telhas”,150 que abrigava uma forja, a</p><p>principal oficina da colônia, dirigida por Clement Labbé. Havia em</p><p>uma colina a casa Picot, uma das casas centrais do “Falanstério do</p><p>Saí”. Próximo a essa última casa havia uma fundição, mas que, se-</p><p>gundo Derrion, não havia sido usada por problemas em sua confec-</p><p>ção. A poucos metros da casa Picot havia uma serraria tocada à água,</p><p>cuja construção Derrion atribuiu aos associados Leclerc e Nenevé:</p><p>“com duas lâminas, podia serrar de uma dúzia e meia a duas dúzias</p><p>de tábuas por dia”.151 Derrion também citou a saída então recente</p><p>do agricultor sociantista Monsieur Sion, que havia se desencantado</p><p>completamente após sua casa, coberta de palha, ser incendiada, na</p><p>opinião de Derrion, “por imprudência ou ‘malvadeza de caçadores</p><p>brasileiros desconhecidos”.152 As condições de moradia dos falanste-</p><p>rianos eram precárias. Isso pode ser constatado ao se falar de um dos</p><p>mais importantes societários da colônia, Nicolas Mangin:</p><p>“de acordo com o relato de Derrion, podemos imaginá-lo</p><p>instalado com sua família, numa casa coberta de palha, em</p><p>meio a ranchos que serviam de estrebaria para dois pares</p><p>de bois, um cavalo, dez cabras e quatro porcos”.153</p><p>Derrion descreve a presença de uma roça de cana, de feijão, man-</p><p>dioca, beterraba, milho e mais três alqueires154 de arroz, além de uma</p><p>150 S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.136.</p><p>151 Op.cit.; p.138.</p><p>152 Op.cit.; p.136.</p><p>153 Op.cit.; p.137.</p><p>154 Alqueire: antiga medida agrária, cujo quadrado tem a medida 100 m x 100 m.</p><p>77Jardim das Utopias</p><p>horta e um pasto cercado. Cultivaram colza155 em pequena escala. A</p><p>colza era muito comum na Europa, e mostrava que o clima da região</p><p>propiciava esse tipo de cultura. A pessoa encarregada da lavoura de colza</p><p>era um tal Sr. Meyer.156 O linho também foi experimentado no Saí.</p><p>Existia na colônia, próximo a um rio, um engenho formado</p><p>por oito pilões. Todavia, este engenho de arroz se encontrava em</p><p>condições precárias. Também foi falado sobre a obra de criação de</p><p>uma represa no rio Saí-Mirim, iniciada por Mure. O objetivo desta</p><p>represa era tornar navegável o citado rio. Com relação às estradas</p><p>abertas e pontilhões construídos por ordem de Mure, houve um</p><p>grande movimento para restaurá-las. Neste sentido, o esforço em-</p><p>preendido pelos fourieristas era, dentro daquele contexto, hercúleo,</p><p>como relatara Michel Derrion:</p><p>“Tem sido um trabalho acima de nossas forças. Tudo o que</p><p>nos foi possível fazer foi tratar de melhorar o caminho que</p><p>serve de comunicação da casa Picot para a baía”.157</p><p>Uma coisa que fica clara neste relatório é que havia competência</p><p>por parte dos franceses na realização das obras, bem como vontade;</p><p>porém, o que faltava era mão-de-obra. Aquele relatório da Nova So-</p><p>ciedade Industrial do Sahy escrito por Derrion evocava a importância</p><p>de Mure para que as benfeitorias na Colônia do Saí pudessem ter sido</p><p>feitas até aquele momento. Isso retratava o grau de reconciliação entre</p><p>os dois principais personagens dessa história. Outro fato importante</p><p>é que os últimos fourieristas residentes no Saí empregaram uma força</p><p>descomunal, praticamente a partir do zero, motivados por algum âni-</p><p>mo humanista que ainda permanecia. Além do mais, todos haviam</p><p>abdicado completamente de suas vidas na França em detrimento de</p><p>uma utopia – ou seja, era um caminho sem retorno.</p><p>155 A colza (Brassica napus) é uma planta cujas sementes é a fonte do azeite de colza. Suas</p><p>folhas servem de forragem para o gado por sua alta concentração em lipídios e proteínas.</p><p>156 S.THIAGO, Op. cit.; p.138. Obs.: nenhuma informação sobre este homem foi locali-</p><p>zada.</p><p>157 Op. cit.; p.139.</p><p>78 Gleison Vieira</p><p>Conforme o relatório organizado no final de 1844 solicitado</p><p>pelo Império do Brasil,158 Derrion fez uma relação das vinte e quatro</p><p>pessoas que formavam La Phalange:</p><p>•	 Michel-Marie Derrion – 43 anos – ex-tecelão de tecidos de</p><p>seda de Lyon – casado, dois filhos;</p><p>•	 Charles Leclerc – 39 anos – casado, 1 filho de dois anos, tornei-</p><p>ro mecânico;</p><p>•	 Nicolas Mangin – 39 anos – casado, 3 filhos (um menino de 7</p><p>anos e duas meninas de 1 e 3 anos);</p><p>•	 Clement-Marie Labbé – 38 anos – solteiro, ferreiro e serralheiro;</p><p>•	 Néneve Remond – 38 anos – casado, 2 filhos (1 menino de 3</p><p>anos e 1 menina de 2 anos);</p><p>•	 Remond – 28 anos – solteiro, marinheiro;</p><p>•	 Marechal – 44 anos – casado, (sua mulher e um filho ficaram na</p><p>França);</p><p>•	 Michel Rousselle – 36 anos – solteiro, lavrador;</p><p>•	 François Rousselle – 32 anos – solteiro, lavrador;</p><p>•	 François Michel Lauray – 33 anos – solteiro, lavrador;</p><p>•	 Etienne Felix Miger – 42 anos – solteiro, carpinteiro e lavrador;</p><p>•	 Rita – 32 anos – solteira, portuguesa da Europa, a serviço de</p><p>Labbé;</p><p>Não é necessário fazer grandes divagações para perceber que a</p><p>situação era periclitante. As grandiosas obras a fazer não tinham a</p><p>mão-de-obra necessária: o socialismo proposto por Fourier exigia</p><p>1600 homens, e o pequeno contingente fourierista que restava no</p><p>Saí e no Palmital contavam apenas vinte e quatro, dos quais qua-</p><p>tro se diziam agricultores. Ou seja, ao invés do socialismo do prazer</p><p>(como diria Leandro Konder),</p><p>de comunidades utópicas: Michel</p><p>Derrion, diretor do falanstério de Saí e do Falanstério do Palmital,</p><p>na antiga província de Santa Catarina. Se a história destas colônias</p><p>começa a ser bem estudada,5 se a obra do seu fundador Benoit Mure</p><p>esta também bastante conhecida, pouco se sabe, no Brasil, da vida</p><p>do Michel Derrion.</p><p>A tradução deste pequeno estudo oferece justamente ao leitor</p><p>brasileiro a possibilidade de reintegrar esta experiência numa pers-</p><p>pectiva mais ampla. E o exemplo do Michel Derrion é bastante re-</p><p>velador desta busca, desta tentativa de alguns europeus de dar forma</p><p>concreta, em plena revolução industrial, ao sonho de uma sociedade</p><p>mais igualitária. Nascido em Lyon em 1804, este filho de negociante</p><p>de seda, vai compartilhar a esperança nascida da revolta dos canuts</p><p>(os tecelões de seda) em 1831, assistindo as conferências dos pre-</p><p>gadores saint-simonianos. Ele procura mesmo intervir no conflito</p><p>5 Ver a este respeito: Ivone Gallo, A aurora do socialismo. Fourierismo e falanstério do Saí (1839</p><p>– 1850), Campinas, 2002 (dirigida por Edgar Dedecca) ; Antonio Carlos GUTTLER “A</p><p>colonização do Saí (1842-1844). Esperança de falansterianos, expectativa de um governo”</p><p>dissertação de mestrado Santa Catarina: UFSC; 1994 ; Raquel S. THIAGO, Fourier: espe-</p><p>rança e utopia na península do Saí, Blumenau: FURB/Florianópolis:UFSC, 1995.</p><p>12 Gleison Vieira</p><p>com a publicação de uma brochura com um tom pacifista.6 Alguns</p><p>anos depois (1835), ele vai fundar uma cooperativa (O Comércio</p><p>Verdadeiro e Social), a primeira associação francesa de consumo, vi-</p><p>sando « uma conquista pacífica da Indústria e uma modificação da</p><p>propriedade ». Depois desses episódios, perseguido pelas autorida-</p><p>des, ingressa no movimento fourierista. Arruinado nos negócios,</p><p>ruma para Paris onde mantém uma militância fourierista ativa.</p><p>No entanto, é justamente em Lyon, neste « caldeirão onde ferve</p><p>a utopia  », que vai nascer a Société Union Industrielle (1833), gru-</p><p>po de operários treinados em diferentes ofícios, dispostos a migrar,</p><p>vindos, na maior parte dos casos, da cidade de Lyon, onde nascera o</p><p>próprio Benoit Mure, e também de Paris. Quando o Benoit Mure vai</p><p>conseguir a autorização do imperador brasileira de instalar uma colô-</p><p>nia industrial no sul do Brasil, o Derrion vai integrar o grupo. Se deste</p><p>lado do Atlântico a recepção das idéias socialistas é difícil, talvez, pen-</p><p>sa Derrion, do outro lado do oceano, deve ser mais fácil. E atravessa as-</p><p>sim o Atlântico com 100 falansterianos no final de 1841. A instalação</p><p>vai ser complicada pelas brigas entre Derrion e Benoit Mure, e com</p><p>os desentendimentos com as autoridades locais. A comunidade vai se</p><p>dividir, mas Derrion não abandona: ele vai fundar outra comunidade</p><p>(Palmital). O fracasso dos falanstérios (Saí, Palmital), como também</p><p>da revolução de 1848, não modificam sua esperança: ele leva a mili-</p><p>tância fourierista para a cidade do Rio de Janeiro, onde se estabelece</p><p>até a sua morte por febre amarela, em 1851.</p><p>Assim, de um lado ao outro do Atlântico, durante 15 anos,</p><p>Derrion foi um grande propagandista das idéias utopistas – saint-si-</p><p>monianas, fourieristas… E esta tradução, oportunamente, nos ajuda</p><p>a restabelecer os grandes momentos deste sonhador.</p><p>A cisão provocada no Saí resultou na formação de um segun-</p><p>do falanstério no Palmital (atual município de Garuva), a partir de</p><p>6 DERRION, Michel M. Constitution de l’industrie et organization pacifique du commerce</p><p>et du travail ou tentative d’un fabricant de Lyon pour terminer d’une maniére definitive la</p><p>tourmente sociale, Lyon: Mme Durval, 1834.</p><p>13Jardim das Utopias</p><p>abril de 1842, gerido com o aval do governo pelo grupo dissidente.7</p><p>Sobre o Palmital não são muitos os registros documentais descober-</p><p>tos até o momento, mas acreditamos que sua duração foi curta, pois</p><p>quando Mure decidiu finalmente abandonar o falanstério do Saí em</p><p>1843, logo depois, Derrion viria a assumir, também por pouco tem-</p><p>po, a direção do mesmo. Vivendo no meio da selva, sem recursos e</p><p>sem apoio, sofrendo inclusive a perda de associados que vencidos</p><p>pelo cansaço debandavam do falanstério, Derrion desiste finalmen-</p><p>te entre 1845 e 1846 e dirige-se para o Rio de Janeiro, cidade em que</p><p>se estabelece e segue a militância no fourierismo.</p><p>Mas, será que as inquietações, os trabalhos e os sonhos de Der-</p><p>rion morreram junto com ele, no Rio de Janeiro, em 1850?</p><p>Abre-se um diálogo com o leitor ao longo de todo esse trabalho,</p><p>convidando-o a conversar com Derrion... a debater amorosamente</p><p>sobre uma utopia, um “sim-lugar”, em prol da mudança do mundo.</p><p>Laurent Olivier Vidal.</p><p>Viçosa (MG), Julho de 2008.</p><p>7 Aqui existe certa confusão que atribuo à excessiva dispersão das fontes, pois Jean Gau-</p><p>mont (op. cit.) frequentemente se refere ao falanstério Oliveira, este formado por Mure em</p><p>terras do coronel Camacho e, por outro lado, o falanstério do Palmital, como experiência</p><p>original que congregava Mure, Derrion, Jamain e Arnaud, antes da dissidência. Isto se deve</p><p>principalmente ao fato de que Gaumont não conhecia a documentação brasileira, hoje dis-</p><p>ponibilizada para consulta no Arquivo Histórico de Joinville. Acreditamos que informa-</p><p>ções acerca do Palmital possam ser encontradas na França. Infelizmente, em nossa pesquisa</p><p>não foi possível localizar tais documentos. (nota de Laurent Vital, 2008).</p><p>15Jardim das Utopias</p><p>Introdução</p><p>Jardim das Utopias nas águas do Saí e Palmital</p><p>Em 1840, o Brasil se consolidava enquanto Império; em 1840,</p><p>começavam os debates parlamentares para formar a Lei de Terras;</p><p>ocorria a coroação de D. Pedro II; as tensões sociais eram reminis-</p><p>cências do período regencial (um intervalo entre o fim do reinado</p><p>de D. Pedro I e a ascensão de D. Pedro II ao trono do Império do</p><p>Brasil); na província do Rio Grande do Sul, ainda perdurava a Revo-</p><p>lução Farroupilha. Naquele ano de 1840, registrou-se uma descrição</p><p>detalhada sobre as terras do Saí e das Três Barras, que é mencionada</p><p>no trabalho de Lucas Boiteux, de 1920, referindo-se a uma carta de</p><p>um certo monsieur, o médico francês Benoit Jules Mure:</p><p>“Hei achado alli um vasto e fértil terreno, caxoeiras abun-</p><p>dantes, um vasto e seguro porto que talvez não há igual no</p><p>mundo; a que se junta a vantagem da Linha de Defeza já</p><p>aberta, que offerecerá uma fácil e breve communicação com</p><p>o interior do império pelo caminho de Coritiba; trata-se com</p><p>referência à ‘Linha de Defeza’ da picada aberta pela presi-</p><p>dência da província de Sta Catarina em 1840, conforme a</p><p>‘Falla’ de março de 1841. Corria esta linha de defesa do lu-</p><p>gar ‘Três Barras’, no Rio de São Francisco, com destino ao ex-</p><p>tremo sul da província, sempre ao mar da serra, guarnecida</p><p>de postos militares de duas em duas léguas, para cobrir tô-</p><p>das as plantações das incursões dos índios selvagens. Docteur</p><p>Bento Jules Mure. 1841”.8</p><p>Devemos notar algumas coisas nesse trecho. Primeiramente,</p><p>aquilo que hoje se denomina Canal do Palmital (ou Ria das Três</p><p>Barras) era o antigo Rio São Francisco. Aqui vemos a referência à</p><p>Estrada das Três Barras, cujos fragmentos existem até hoje, na zona</p><p>8 Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Vol.3; p.13.</p><p>16 Gleison Vieira</p><p>rural da localidade Trê Barras, em Garuva, na atual Estrada Palmei-</p><p>ras. Também há um referimento sobre os indígenas na região. O</p><p>nomadismo milenar dos botocudos xokleng deixou sua topomínia:</p><p>nas sertanias da Serra do Mar temos um Morro do Bugre em Três</p><p>Barras e outro Morro do Bugre tangente à planície do Taquaruvu.</p><p>A partir de 1842, a Estrada Três Barras estava interditada, de-</p><p>vido a pontes quebradas e árvores derrubadas em seu leito. A Linha</p><p>da Defesa foi uma estrada cuja idealização objetivava proporcionar</p><p>aos habitantes do litoral catarinense alguma proteção contra os in-</p><p>dígenas que há muito se mostravam hostis: “O susto em que vivem</p><p>de novos attaques dos Gentíos faz-lhe grande estorvo, e torna cada vez</p><p>mais valiozas as ordens dadas sobre a Linha de deffeza”.9 Essa linha</p><p>militar se aproveitaria</p><p>tinha-se um trabalho para além de</p><p>suas forças. Mesmo com as subvenções do Império consideravel-</p><p>mente reduzidas, Derrion e os outros falansterianos extraíam de</p><p>158 Documentos da Colônia do Sahy. Coleção “Carlos Ficker”, Arquivo Histórico de Join-</p><p>ville - SC.</p><p>79Jardim das Utopias</p><p>seus espíritos os últimos impulsos associacionistas, como se pode</p><p>perceber nas palavras do próprio Derrion:</p><p>“Eu não negligenciei nada, para que o ano que começa não</p><p>passe sem colocar em prática as medidas que nos permitam tes-</p><p>temunhar toda nossa gratidão pelo Brasil (...) pedimos a bene-</p><p>volência do governo e especialmente de Vossa Excelência: nós a</p><p>reclamamos com insistência, porque nós nos identificamos com</p><p>o Brasil que nós amamos como uma nova pátria (...)”.159</p><p>O diretor da Colônia do Saí e do Palmital dizia que um novo</p><p>movimento migratório poderia recomeçar devido às relações de seus</p><p>companheiros na Europa. Derrion solicitava ao Presidente da Provín-</p><p>cia, Antero José Ferreira de Brito, um pouco mais de tempo para fazer</p><p>contato com amigos na França (talvez Joseph Reynier), e formar um</p><p>novo contingente de trabalhadores que seguiria sem pestanejar as terras</p><p>da colônia. Mas, seu pedido não foi atendido. Há um trecho da obra da</p><p>Profª. Raquel S.Thiago que é importante reproduzir nesse momento:</p><p>“Assim como o Dr. Mure e Jamain haviam apresentado</p><p>planos industrializantes – contrários às teorias de Fourier</p><p>– Derrion igualmente usou deste recurso junto ao Gover-</p><p>no Provincial. Declarava que nunca fora sua intenção, as-</p><p>sim como a de vários companheiros seus, fundar uma co-</p><p>lônia comum, composta somente de agricultores que, ao</p><p>chegarem, seriam obrigados a adotar a agricultura do país.</p><p>Estes, no entender de Derrion, nada tinham a ensinar, pois</p><p>o modo de cultura europeia, apesar de superiores, seria im-</p><p>praticável no Brasil, nos primeiros cinco e seis anos. Era de</p><p>opinião que deveria importar para o Brasil aquilo que lhe</p><p>faltava, isto é, a tecnologia industrial”.160</p><p>Lembremo-nos que depositando ainda algum crédito nos pro-</p><p>gressos do Saí, o governo, em 14 de novembro de 1844, deu a ordem</p><p>159 DERRION apud S.THIAGO, Op. cit.; p.141.</p><p>160 S.THIAGO, Op. cit.; p.141.</p><p>80 Gleison Vieira</p><p>para que os bens sequestrados pela guarda pública, no incidentes</p><p>entre Mure e os dissidentes na casa de monsieur Join, fossem devol-</p><p>vidos permanecessem na posse da administração da colônia e que os</p><p>indivíduos que a compunham continuassem “a obedecer à referida</p><p>administração, na forma dos regulamentos da sua associação”.161</p><p>Além disso, nada mais foi concedido à colônia administrada por</p><p>Derrion. A acadêmica Ivone Gallo, em sua tese doutoral, sublinha que</p><p>“Na verdade, o governo, por razões já apontadas, não esta-</p><p>va preocupado com o insucesso da colonização francesa.</p><p>Em maio de 1844, quando o navio Curenne aportou em</p><p>São Francisco trazendo 100 colonos para o Sahy, nada fez</p><p>para mantê-los ali e, em junho do mesmo ano outros 99</p><p>franceses chegaram ao Rio de Janeiro objetivando dirigir-</p><p>-se ao Palmital, mas foram impedidos pelo governo que os</p><p>empregou em obras públicas”.162</p><p>Ao redigir aquela que seria a última carta ao presidente da Pro-</p><p>víncia, em 30 de agosto de 1945, Derrion reportou sua viagem à</p><p>capital do Império para o final do mês de setembro. Entre a carta e a</p><p>viagem, passou-se quase meio ano. Não se tem nenhum registro de</p><p>sua atuação nas terras do Saí nesse momento. Segundo Sartori,</p><p>“pode-se supor que o atraso de sua viagem esteve direta-</p><p>mente ligado ao seu trabalho de diretor da Colônia do</p><p>Sahy. Michel Derrion, muito provavelmente, passou o seu</p><p>tempo a contabilizar os aluguéis dos terrenos, a venda das</p><p>madeiras cortadas e, acima de tudo, viabilizar a compra</p><p>dos grãos para iniciar as novas plantações”.163</p><p>161 Registro de Correspondência, IJJ9-28, p.129-130, Palácio do Rio de Janeiro em 9 de se-</p><p>tembro de 1844, José Carlos Pereira de Albuquerque Torres ao Snr. Presidente da Província</p><p>de Santa Catharina (Arquivo Nacional do Rio de Janeiro).</p><p>162 GALLO, Ivone. A aurora do socialismo. Fourierismo e falanstério de saí (1839 – 1850).</p><p>Campinas, 2002. p.219.</p><p>163 SARTORI, Carina. Entre a França e o Brasil: o itinerário atlântico de Michel-Marie Der-</p><p>rion (1803-1850). Thèse de doctorat à l’Université de La Rochelle-UNESP, 2019. p.88.</p><p>81Jardim das Utopias</p><p>Já havia começado a primavera e se deveria iniciar o plantio</p><p>de mandioca, milho e feijão. Sobre isso, podia-se ler no Jornal do</p><p>Commércio: “No lugar da casa da farinha há sete homens que traba-</p><p>lham em derrubadas, e dizem que debaixo da inspeção do Mr. Der-</p><p>rion, algumas vezes trabalham no Sahy (...)”.164 Mas, esse trabalho</p><p>nas terras do Saí foi finalizado por Derrion? Não sabemo-lo.</p><p>Todavia, no mês de janeiro de 1846, Derrion embarcou no</p><p>porto de São Francisco do Sul rumo à capital do Império, a cidade</p><p>do Rio de Janeiro. Muito provavelmente, o seu embarque foi solitá-</p><p>rio, com poucas malas. No dia 27 de janeiro de 1846, após oito dias</p><p>de viagem, a sumaca Nova Telles atracou no Rio de Janeiro trazendo</p><p>a bordo o “francês Miguel Derreon”.165</p><p>No Rio, Derrion devia se dirigir até a praça do Morro do Caste-</p><p>lo, encontrar o número 17, e reencontrar seus dois filhos e sua mu-</p><p>lher, Lucie.</p><p>8. Lucie Domanget: a esposa de Derrion</p><p>“Idealizando, cautelosamente, todos nós caminhávamos incer-</p><p>tos e tanto quanto perdidos em meio a um mundo que não</p><p>sabia mais para onde iria... (...), e agora, (...), queremos um</p><p>futuro sem mendicância, sem prostituição, e sem homens que</p><p>falam em moral, mas praticam devassidão; (...), viemos decla-</p><p>rar ímpia, toda exploração, quer seja de uma classe por outra</p><p>classe, quer seja de um sexo por outro sexo”. Michel Derrion166</p><p>Na história de Michel Derrion no Brasil, particularmente nas</p><p>terras peninsulares do Saí e nas margens do rio Palmital (atual cida-</p><p>de de Garuva), é justo que discorramos algumas páginas sobre aque-</p><p>la mulher que o acompanhou, tanto nos momentos de felicidade</p><p>164 Colônia do Sahy até o Rio de São Francisco, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 8 de</p><p>agosto de 1844.</p><p>165 Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 1846.</p><p>166 DERRION, jornal L’Écho de la Fabrique (Lyon, 26 de agosto de 1832 – nº. 44).</p><p>82 Gleison Vieira</p><p>quanto nos instantes de desespero e tristeza. Essa humilde francesa</p><p>se chamava Lucie. Porém, retornemos alguns anos antes para com-</p><p>preender como Derrion e Lucie vieram a se encontrar.</p><p>No ano de 1835, nascia a primeira filha de Derrion, cuja mãe</p><p>era uma trabalhadora em ateliês de seda lionesa, ocupando o car-</p><p>go de dévideuse.167 Essa mãe se chamava Honorée Michel. Segundo</p><p>Sartori, a filha de Derrion e Honorée não era o resultado de uma</p><p>paixão militante advinda das reuniões saint-simonianas, “mais sim,</p><p>fruto de um acaso ocorrido durante as jornadas de trabalho na Maison</p><p>de Jacques”.168 Honorée Michel tinha 24 anos e habitava na mesma</p><p>rua da família Derrion, rue de la Vielle-Monnaie. Ao que tudo indi-</p><p>ca, Honorée mantinha um quarto alugado no último andar de um</p><p>dos prédios. Na hierarquia da seda, a ocupação desse espaço em um</p><p>prédio era destinada aos menos afortunados.169</p><p>Em 22 de maio de 1835, nascia a filha de Honorée e Derrion,</p><p>chamada Silvie Derrion. Apenas quatro meses depois, Honorée veio</p><p>a falecer. Em seu atestado de óbito, redigito pelas freiras do hospital</p><p>e assinada por estas, Honorée foi descrita como “devideuse à Lyon,</p><p>rue de Vielle-Monnaie n. 9, celibataire,...”.170 A pequena Silvie faleceu</p><p>aos 3 anos de idade, em 1838.</p><p>Em 1836, a vida de Derrion tinha como palco social a atmos-</p><p>fera de Croix-Rousse. Engajou-se no movimento saint-simoniano e</p><p>posteriormente, concentrou suas atenções ao Commerce Véridique</p><p>e à leitura de textos fourieristas. Naquele ano seu pai, Jacques Der-</p><p>rion, faleceu. Em meio a tudo isso, Derrion conheceu uma jovem</p><p>de 18 anos chamada Césarine Gavinet. O casal Derrion e Gavinet,</p><p>mesmo sem casamento, conviveu por dois anos, em uma união que</p><p>gerou duas meninas: Lucie e Léonine.171</p><p>167 Dévideuse: mulher que desenrola fios,</p><p>sedas, lãs, ou em novelos, em tecelagens.</p><p>168 SARTORI, Carina. Entre a França e o Brasil: o itinerário atlântico de Michel-Marie Der-</p><p>rion (1803-1850). Thèse de doctorat à l’Université de La Rochelle-UNESP, 2019. p.83.</p><p>169 Ibidem.</p><p>170 Acte de décès n° 3531 du 9 septembre 1835 de Honorée Michel, (SARTORI, Ibidem).</p><p>171 Lucie Derrion nasceu em 14 de janeiro de 1837. Pouco mais de um depois, nascia a irmã,</p><p>83Jardim das Utopias</p><p>Segundo Carina Sartori:</p><p>“A primeira pequena nasceu no dia 14 de janeiro de 1837.</p><p>Na certidão de nascimento, o pai foi o declarante e regis-</p><p>trou que o casal morava no n°26, da Place Sathonay. No</p><p>ano seguinte, no mês de abril, a família, que se encontrava</p><p>no n°11 da Place Croix-Paquet, perdeu Lucie de causa des-</p><p>conhecida”.172</p><p>Quando a pequena Lucie faleceu, Gavinet estava grávida de</p><p>oito meses, e Derrion ficou ao lado de sua companheira durante esse</p><p>período final de gravidez. Um indicativo disso é que na certidão de</p><p>óbito consta o nome de seu sócio e amigo, Joseph Reynier, que se en-</p><p>carregou desse fardo ao invés de Derrion. No dia 21 de maio, alguns</p><p>dias depois da morte de Lucie, Césarine deu a luz a Léonie. Sobre o</p><p>que viria a acontecer com o futuro de Léonie e sua jovem mãe, nada</p><p>se sabe. O fato é que o final melancólico do Commerce Véridique</p><p>coincidiu com o fim do relacionamento entre Derrion e Gavinet.</p><p>No segundo semestre de 1838, Derrion rumou para Paris. Na</p><p>capital, ele entrou em contato com os círculos de debates fourieristas.</p><p>Já em 1840, em meio a greves que eclodiam em Paris, Michel Derrion</p><p>fazia atividades as mais variadas, como a de ser “professor de mimeo-</p><p>grafia”,173 morando a poucos quarteirões da Catedral de Notre Dame,</p><p>“à la rue de la Vannerie”,174 em um apartamento apertado destinado a</p><p>operários. Ali, dividia o espaço com uma nova companheira. Era Lucie.</p><p>Lucie Domanget (1810-?) era uma costureira parisiense. Ela</p><p>participou das reuniões da École sociétaire.175 Provavelmente, foi em</p><p>desses encontros fourieristas, nos idos de 1838, que os dois se en-</p><p>contraram.</p><p>Léonie Derrion, em 21 maio de 1838 (SARTORI, Op.cit. p.85)</p><p>172 SARTORI, Op.cit. p.85.</p><p>173 Almanach Social pour l’année 1841, Paris: Librarie Sociale. p.157-175 apud SARTORI,</p><p>Op.cit, p.88.</p><p>174 Ibidem apud Ibidem.</p><p>175 Almanach Social pour l’année 1841, Op.cit,. p. 169.</p><p>84 Gleison Vieira</p><p>Nessa época em que Derrion iniciou seu relacionamento com</p><p>Lucie, ele conheceu os diretores do jornal fourierista Le Nouveau</p><p>Monde e partilhou preceitos societários com o grupo L’Union har-</p><p>monienne. Nesses espaços revolucionários era possível encontrar po-</p><p>líticos, intelectuais e trabalhadores. Derrion se filiou aos “unionis-</p><p>tas”, facção na qual ele estudou a organização da união falansteriana.</p><p>A rigidez da facção, com o objetivo de por em prática as ideias do</p><p>falanstério, organizou o Congresso de Cluny, em 1840. Ali, Derrion</p><p>conheceu Antoine Jamain, tornando-se seu grande amigo. Ambos</p><p>se aproximaram de Roufinel, um dos societários engajados em atra-</p><p>vessar o Atlântico, em 1841. Em uma publicação da L’Union harmo-</p><p>nienne, na sessão “adresse des correspondants membres de l’union</p><p>harmonienne”, temos o endereço de Derrion, “Rue du Faubourg</p><p>Montmartre, 75, Paris (Seine)”, de Jamain, “boulevard St-Denis, 16,</p><p>Paris (Seine)” e do Dr. Mure, “rue de la Harpe, 93, Paris (Seine)”.176</p><p>O jornal Le Nouveau Monde organizou reuniões nas quais a</p><p>L’Union harmonienne formaria o estatuto do primeiro falanstério</p><p>do mundo, a ser feito em algum lugar da América. Foi em uma des-</p><p>sas reuniões de Derrion e Jamain conheceram Benoît Jules Mure.</p><p>Poucos detalhes sobre Lucienne são conhecidos. Ao contrário</p><p>das outras duas mulheres de Derrion, que eram muito jovens, a dife-</p><p>rença de idade entre ele e Lucie era de apenas sete anos. Nos idos de</p><p>1840, o casal já era acompanhado de um menino.177</p><p>No final de setembro de 1841, Jamain acompanhado de seu</p><p>filho, bem como Derrion, o menino e Lucie levando em seu colo o</p><p>recém-nascido Gustave, pegaram um trem na companhia de outros</p><p>fourieristas, fazendo um trajeto de 19 km até o porto na comuna</p><p>176 Almanach Social pour l’année 1840, Op.cit, p.180-182. Obs.: ao que parece, por meio</p><p>de urbanizações em Paris, esses endereços passaram por alterações, embora os nomes das</p><p>ruas ainda existam.</p><p>177 Em registro de 1943, arquivado na Câmara Municipal de São Francisco, Derrion decla-</p><p>rava estar no Palmital, acompanhado de Lucie e dois meninos, um de 6 anos e outro de 1</p><p>ano. Assim, o menino mais velho teria nascido em 1837, meses antes de Derrion chegar a</p><p>Paris. Assim, é bem possível que Lucie tivera esse filho com outro cônjuge. O outro filho, o</p><p>mais novo, sabe-se o nome: Gustave Derrion.</p><p>85Jardim das Utopias</p><p>parisiense de Le Pecq. De lá, 93 falansterianos deveriam embarcar</p><p>no barco a vapor chamado Diavolo, que navegaria pelo rio Sena por</p><p>um dia até chegar ao porto do Havre. O Diavolo ancorou no porto</p><p>do Havre na área destinada aos barcos a vapor, em 25 de setembro de</p><p>1841, como detalha um jornal da época: “93 [emigrantes], incluindo</p><p>mulheres e 13 crianças, chegaram hoje ao Havre, vindos de Paris, no</p><p>navio a vapor Diavolo”.178 Somente um mês depois o grupo embarcou</p><p>no transatlântico Le Caroline, em 22 de outubro.</p><p>As desventuras da família Derrion e dos fourieristas no Saí, nós</p><p>já sabemos.</p><p>Voltemos ao rio Palmital e à Península do Saí. No ano de 1843,</p><p>Lucienne Dormaget teve seu nome subscrito na lista dos colonos</p><p>franceses que haviam se estabelecido no Palmital, conforme constata-</p><p>do no acervo da Câmara Municipal de São Francisco do Sul. Sob a de-</p><p>signação de “esposa” de Derrion, descrito na ocasião como agricultor,</p><p>e tendo dois filhos de 6 e 1 anos.179 A profissão de Lucie não é citada.</p><p>O relatório menciona sua idade naquele tempo: 33 anos. Como se</p><p>sabe, no ano em que o documento foi elaborado, o grupo estava esta-</p><p>belecido nas terras do Palmital em ranchos rudimentares, não muito</p><p>diferentes das que havia no Saí e nos sertões que o cirandavam. Possi-</p><p>velmente, havia uma casa coletiva na Colônia do Palmital.</p><p>O relatório indica que havia quatro mulheres que habitavam na</p><p>Colônia do Palmital, e dentre elas, Lucie. Essas mulheres deveriam, su-</p><p>põe-se, dividir as obrigações mais domésticas, como organizar o rancho</p><p>ou os ranchos; tutelar as seis crianças; reformar as roupas; cuidar das</p><p>plantações. Acerca das crianças, elas devem ter sido educadas em fran-</p><p>cês. Os homens, por sua vez, respondiam pela contabilidade, construção</p><p>das oficinas, corte de madeira, plantações e construção de estradas. O</p><p>trabalho no Palmital era exaustivo para todos os colonos. Mesmo com</p><p>todo o esforço despendido pelos franceses, a vida parecia não evoluir.</p><p>178 Journal du Havre, 25 septembre 1841 in VIDAL, Laurent; LUCA, Tania R. de (dir.).</p><p>Les Français au Brésil (XIXe - XXe siècles). Paris: Rivages des Xantons. 2011. p.136-144.</p><p>179 Relatório da Câmara Municipal de São Francisco do Sul, 07 de dezembro de 1843.</p><p>APESC.</p><p>86 Gleison Vieira</p><p>Entre os meses de agosto e setembro de 1844, Michel Derrion se</p><p>tornou o diretor da Colônia do Saí, redigindo um novo estatuto. Assim,</p><p>a família Derrion deixou o Palmital e foi se estabelecer na casa Picot, um</p><p>casarão com paredes de pedra, que ficava próximo à ilha do Alvarenga,</p><p>na Babitonga. O espaço da casa Picot era coletivo. Diante de uma verda-</p><p>deira Eneida, Lucie acompanhou o marido em todas as decisões.</p><p>Entretanto, no final de 1844, Lucie optou por deixar o Saí, le-</p><p>vando os seus dois filhos consigo. Assim, em janeiro de 1845, eles</p><p>partem para o Rio de Janeiro, sem a companhia de Derrion. Durante</p><p>a viagem, Lucie conta com o apoio do francês Jean Baptiste Mare-</p><p>chal.180 Segundo Carina Sartori,</p><p>“O motivo exato de sua partida é desconhecido. Todavia,</p><p>tudo leva a crer que a decisão tomada pela Câmara Muni-</p><p>cipal de São Francisco do Sul, de dissolver a Colônia do</p><p>Sahy e ceder uma porção de terras somente aos franceses</p><p>que comprovassem viver do plantio, tenha pesado na deci-</p><p>são de Lucie. Como se sabe, ela e Michel não eram agricul-</p><p>tores, mesmo se este último tenha afirmado viver da terra</p><p>no relatório de 1843. Sem muito futuro naquelas terras e</p><p>sabendo que uma parte dos seus conterrâneos estava ins-</p><p>talada na capital do Império, a decisão não deve ter sido</p><p>difícil de ser tomada”.181</p><p>Em 26 de janeiro de 1845, Lucie e seus filhos tocavam o por-</p><p>to do Rio de Janeiro. Talvez tenha sido ajudada pelo Dr. Mure. De</p><p>qualquer maneira, ela precisava encontrar uma moradia para viver e</p><p>um trabalho. Lucie e os meninos foram instalados na Praça do Cas-</p><p>telo, número 17, não muito distante do escritório de Benoît Mure,</p><p>que se situava na rua São José. Aquela situação desconfortável e di-</p><p>fícil de Lucie perdurou até a chegada de seu marido em janeiro de</p><p>1846, quando Derrion assumiu o posto de “directeur de la Maison</p><p>180 VIDAL, Op. cit., p. 271.</p><p>181 SARTORI, Op. cit., p. 271.</p><p>87Jardim das Utopias</p><p>de Sante Homeopathique”.182 Em seguida, os três foram se instalar em</p><p>outra residência, no Morro do Castelo.</p><p>Mas, e os filhos de Derrion e Lucie? Nascidos em Paris, Gus-</p><p>tave Derrion e seu irmão mais velho vieram muito cedo para o Saí</p><p>e o Palmital. Seus respectivos sistemas imunológicos se adaptaram</p><p>às doenças tropicais. No Palmital e no Saí, possivelmente tiveram a</p><p>dieta caiçara na base de sua alimentação: farinha de mandioca, ar-</p><p>roz, feijão, milho, palmito e algumas frutas. Enquanto na Colônia</p><p>do Palmital e Saí eles tinham algumas plantações que forneciam um</p><p>pouco de alimento, no Rio de Janeiro a vida era mais dura. Morando</p><p>no Morro do Castelo, provavelmente numa casa coletiva, os rendi-</p><p>mentos de Lucie não deviam ser suficientes para suprir as necessida-</p><p>des da casa e de sua família.</p><p>Com relação à saúde, a cidade do Rio de Janeiro, tanto mais</p><p>quanto no Saí, oferecia riscos. As doenças que existiam no Rio, na-</p><p>quele momento, estavam sempre ligadas à salubridade. As enfermi-</p><p>dades proliferavam, sobretudo, no verão. O Morro do Castelo e seus</p><p>moradores lidavam com essas dificuldades. Além de tudo isso, ainda</p><p>havia a falta de água. No tempo que Lucie viveu com seus filhos no</p><p>Morro do Castelo, todos esses problemas devem tê-la preocupado</p><p>muito. Com a chegada de Derrion ao Rio, a família, em quatro, con-</p><p>tinuou morando no mesmo lugar, porém nada mudou.</p><p>Diante do caos interminável, no final daquele ano, o pequeno</p><p>Gustave, o segundo filho do casal e que havia chegado ainda bebê ao</p><p>Palmital, faleceu no dia 19 de dezembro de 1846. Segundo Carina</p><p>Sartori, “o motivo do falecimento não consta na certidão de óbito, que</p><p>foi declarado no dia 22 de dezembro pelo pai”.183</p><p>O que levou Gustave Derrion a morrer com apenas 6 anos de</p><p>idade? Nos períodos de verão, a falta de água constante e as condi-</p><p>ções insalubres da cidade agiam sinergicamente para a proliferação</p><p>de epidemias. Males como cólera, malária, varíola e a temível febre</p><p>182 Journal le Democratie Pacifique, Paris, 24 mai 1846.</p><p>183 SARTORI, Op. cit., p. 272.</p><p>88 Gleison Vieira</p><p>amarela assombravam não apenas a população carioca, mas de todo</p><p>o Brasil. A causa da morte do menino é desconhecida: talvez por</p><p>doença, talvez infecção ou, quem sabe ainda, por acidente. Um mês</p><p>após a morte de Gustave, em janeiro de 1847, a família de Michel</p><p>Derrion se mudou para o n°17 da rua São José.</p><p>Era tempo de recomeçar...</p><p>9. Antoine Jamain (1802-1858): uma liderança no Palmital</p><p>“... não é de forma alguma a minha vontade essa condição,</p><p>mas sim a triste situação em que me encontrei, mas agora, gra-</p><p>ças a Deus, começo a me reconhecer”. (Antoine Jamain) 184</p><p>Embora tenhamos personagens muito bem delimitados nessa</p><p>trama, particularmente dois lioneses – um ex-comerciante de seda e</p><p>outro homeopata –, é importante, por justiça histórica, tratarmos de</p><p>um terceiro personagem, que dividiu com Derrion os méritos das ações</p><p>da Colônia do Palmital. Trata-se do militante Antoine Jamain, um ator</p><p>eclipsado nessa epopeia utópica nos sertões do norte cataninense.</p><p>De origem modesta, Antoine Joseph Jamain nasceu em Paris,</p><p>em 09 de fevereiro de 1802. Segundo Sosnowski, em 1837, Jamain</p><p>se apresentava como um mecânico industrial ex-saint-simoniano</p><p>que residia na 16 boulevard Saint-Denis.185 Naquele momento, ele</p><p>uniu forças com outras oito pessoas para fundar a sociedade em co-</p><p>mandita “Le Sociantisme. Union des agents producteurs: capital, tra-</p><p>vail et talent”, cujo objetivo era “a aplicação parcial do princípio da</p><p>associação capital, trabalho e talento”.186 Ele não está listado no Alma-</p><p>184 Lettre de Rio de Janeiro à Victor Considerant, 30 de dezembro de 1847. Arquivos nacio-</p><p>nais da França, Fonds Fourier et Considerant, Archives sociétaires, 10AS39 (681Mi65, vues</p><p>358-359), lettre de Rio de Janeiro à Victor Considerant, 30 de dezembro de 1847.</p><p>185 SOSNOWSKI, Jean-Claude. Jamain, Antoine Joseph. In Charles Fourier.Fr: Le Site de</p><p>l’Association d’Études Fouriéristes et des Cahiers Charles Fourier. 2020. Acessado em 11</p><p>de dezembro de 2023 em https://www.charlesfourier.fr/spip.php?article1702&var_re-</p><p>cherche=paris</p><p>186 La Phalange, maio de 1837, col. 904-905, Victor Considerant, « Union des agents de</p><p>89Jardim das Utopias</p><p>nach du commerce de Paris pour l’année 1837,187 o que indica que ele</p><p>provavelmente estava empregado naquele momento. Em dezembro</p><p>de 1839, ele se relacionava com o François Augiay (um ex-saint-simo-</p><p>niano de Lyon) e membros da Union Harmoninne. No ano de 1840,</p><p>participou da fundação do jornal La Ruche populaire.188 É citado en-</p><p>tre os “principais artistas e trabalhadores pertencentes à École sociétai-</p><p>re, residente em Paris”.189 Ele contribuiu com 5 francos na efetivação</p><p>do Plano para o estabelecimento como semente de harmonia social de</p><p>uma casa de aprendizagem industrial rural para 200 alunos de to-</p><p>das as classes, meninos e meninas, de 5 a 13 anos.190 Foi signatário do</p><p>Appel aux disciples de Fourier, iniciado pelo grupo Nouveau Monde e</p><p>publicado no jornal de 21 de janeiro de 1840. Pode-se ler uma pro-</p><p>clamação a favor da realização do Falanstério: “Vamos, mãos à obra e</p><p>o primeiro falanstério surgirá”. Jamain tornou-se membro do comitê</p><p>de subscrição do Falanstério responsável pela arrecadação de fundos</p><p>para esse fim. Ele contribuiu modestamente (2,30 francos) de acor-</p><p>do com uma lista publicada em janeiro de 1841 no Le Premier Pha-</p><p>lanstère administrado por Simon Blanc.191 O objetivo anunciado da</p><p>revista era “convergir toda a boa vontade para a realização de um jul-</p><p>gamento social. […], o ensaio sobre as crianças deve atrair os votos dos</p><p>verdadeiros discípulos de Charles Fourier. Esta é a última palavra que</p><p>nosso mestre legou ao mundo em sua última obra”.192</p><p>production, capital, travail et talent, société André et Cie ». Ver sobre esse assunto a nota</p><p>de François-Victor-Stanislas André et Jean-Claude Sosnowski, « Le Sociantisme. Union des</p><p>agents producteurs : capital, travail et talent », Cahiers Charles Fourier, n° 26, 2015, pp.20-</p><p>34.</p><p>187 BOTTIN, Sébastien, Almanach du commerce de Paris, des départements de la France et</p><p>des principales villes du monde…, année 1837. Paris: Bureau de l’Almanach, 1836. p.187.</p><p>188Henri Desroche, La Société festive. Du fouriérisme écrit aux fouriérismes pratiqués, Paris,</p><p>Le Seuil, 1975, p.269.</p><p>189 Almanach social pour l’année 1841, Paris: Librairie sociale (1840), p.172.</p><p>190 GUILBAUD, Pierre-Alexandre. Plan pour l’établissement comme germe d’harmonie</p><p>sociétaire d’une maison rurale industrielle d’apprentissage pour 200 élèves de toutes classes,</p><p>garçons et filles, de 5 à 13 ans..., Paris: Lacour, 1840. p.27.</p><p>191Le Premier Phalanstère, 15 de janeiro de 1841, p.04.</p><p>192 « Science sociale. Réalisation. Notre but », Le Premier phalanstère, 15 de janeiro de</p><p>1841, p.01.</p><p>90 Gleison Vieira</p><p>Contudo, em Janeiro de 1841, Jamain já não pertencia ao co-</p><p>mitê de subscrição falansteriano, cujos nomes de membros foram</p><p>publicados no mesmo jornal.193 A partir de 1840, ele investiu na</p><p>propaganda popular. Jamain propôs uma contribuição para fornecer</p><p>fundos para a “propaganda social”194 a partir de uma quantia de 100</p><p>francos que</p><p>ele pagava à caixa econômica.195 A primeira “brochura</p><p>popular” anunciada para 05 de junho de 1840 resultante deste pro-</p><p>cesso é um breve resumo da teoria falansteriana. Seria, portanto, o</p><p>texto Fourier et son système, de Hubert Carlet, publicado inicialmen-</p><p>te em Paris por Huzard em 1838. Os assinantes que lhe permitiram</p><p>arrecadar a soma inicial eram: “Czynski, Leray, Peiffer, S. Blanc, Bé-</p><p>nistant, Sully de Leiris, Harmant, Künzli, Mure, Confais, Lahaye,</p><p>Rouffinel, Derrion, Meunier, Stourm, Fugère, Diégo de Sainte-Ursu-</p><p>le”.196 Jamain é, no entanto, mais “movido para a realização prática</p><p>do que para a teoria”.197</p><p>É um dos diretores e fundadores da Union Industrielle [du Brésil],</p><p>ao lado do Dr Arnaud, presidente, e Michel Derrion, vice-presiden-</p><p>te como ele, Jamain. A empresa foi fundada em assembleia geral em</p><p>18 de abril de 1841 pelos primeiros cem signatários do ato fundador</p><p>destinado a organizar a vida e o trabalho na colônia. A empresa, cuja</p><p>escritura foi protocolada em Paris em 21 de maio de 1841, foi cons-</p><p>tituída provisoriamente com o Dr Arnaud e seu título era “Arnaud,</p><p>Jamain, Derrion e Cie”.198 O contrato segue um precedente protocola-</p><p>do em setembro de 1840 por Benoît Mure junto ao cônsul brasileiro,</p><p>contrato que lhe conferia “poderes para obter uma concessão e negociar</p><p>um empréstimo do governo brasileiro”.199 Surpreendentemente, é a An-</p><p>193 Op.cit, p.02.</p><p>194 Faits divers , Le Nouveau Monde, 1 de fevereiro de 1840. p.04.</p><p>195 Ibidem.</p><p>196 Ibidem.</p><p>197 GAUMONT, Jean. Le Commerce véridique et social (1835-1838) et son fondateur Mi-</p><p>chel Derrion (1803-1850). Amiens : imprimerie Nouvelle, 1935. p. 112.</p><p>198 Manifeste et statuts de l’Union industrielle, Paris, au siège la Société, 1841, p.10, apud</p><p>VIDAL, Laurent. Ils ont rêvé d’un autre monde. Paris :Flammarion, 2014, p.100.</p><p>199 VIDAL, Op.cit. p.100.</p><p>91Jardim das Utopias</p><p>toine-Joseph Jamain, antigo militante saint-simoniano,200 que Mure</p><p>se queixava da influência saint-simoniana na sociedade que recém ha-</p><p>via se formado em Paris sob a presidência do Dr Arnaud:</p><p>“Meu caro Sr. Jamain, […] Uma das minhas cartas anteriores</p><p>falava-lhe do perigo que via no Saint-Simonismo. Eu estava er-</p><p>rado sobre o nome do indivíduo [provavelmente Derrion], mas</p><p>senti o cheiro de sua influência deletéria daqui. Portanto, você</p><p>deve pensar com que dor eu vi o nome do Sr. Arnaud aparecer</p><p>como Presidente. Os homens, você pensa, não podem ser odiosos</p><p>para mim pessoalmente [...] mas estou acostumado a dar gran-</p><p>de valor às ideias, porque vejo nelas o motivo de ações futuras. A</p><p>este respeito, existe uma dissidência irreconciliável entre mim e</p><p>os saint-simonianos. Os saint-simonianos são uma pálida repro-</p><p>dução dos Jesuítas. Vejo-os surgindo onde quer que haja homens</p><p>para explorar, ou uma grande ideia para abortar [...]. Não posso</p><p>reconhecer nenhuma sociedade onde apareçam os saint-simo-</p><p>nianos, especialmente como líderes, e reservo-me o direito de não</p><p>admitir na terra do Sahy homens contaminados por esta lepra</p><p>incurável. Vocês, meus amigos, não me culpem, acreditem na mi-</p><p>nha experiência, só há uma maneira de salvar a colonização dos</p><p>saint-simonianos, e é derrubar esse poder pois vocês não têm o di-</p><p>reito de nomear sem mim e é contra o isso que protesto”.201</p><p>Em 10 de setembro de 1841, Jamain solicitou o reembolso</p><p>de sua conta poupança aberta em Paris em 1834. Ele retirou 29,97</p><p>frs. No início de outubro, ele enviou a Vinçard, editor de La Ruche</p><p>populaire, uma carta do Le Havre, onde os colonos esperavam para</p><p>embarcar no navio de três mastros La Caroline. Jamain anunciara</p><p>que “um grande número de residentes, tocados pela grandeza do seu</p><p>trabalho e pela dedicação que todos lhe diligenciam, também se apega-</p><p>200 GAUMONT, Jean. Les fouriéristes et le mouvement précoopératif : les associations pour la</p><p>vie à bon marché. Revue d’économie politique, vol. 40. Paris : Sirey, 1926, p.1018.</p><p>201 Arquives histórico de Joinville, Coleção Carlos Ficker, « Lettre de Mure à Jamain, 27 de</p><p>maio de 1841 », in VIDAL, Op.Cit, p.121.</p><p>92 Gleison Vieira</p><p>ram a ele de todo o coração e formaram um centro em Le Havre, para</p><p>organizarem uma expedição que partiria em dois meses”.202</p><p>Em 21 de outubro de 1841, Jamain embarcou com Derrion e ou-</p><p>tros imigrantes para o Brasil. No dia 14 de dezembro, o navio entrou</p><p>na baía do Rio de Janeiro. Mas assim que os colonos desembarcaram e</p><p>foram recebidos pelo imperador do Brasil, a desunião começou a cres-</p><p>cer. Já sabemos os acontecimentos nefastos que se seguiram. No dia 29</p><p>de dezembro, quando La Caroline zarpou, no dia anterior e seu capitão</p><p>validou a mudança de rota que o levou a transportar os colonos para a</p><p>península do Saí, Mure presidiu um banquete de despedida. Mas, Mure</p><p>não podia aceitar o contrato da Union Industrielle, sendo feita a conces-</p><p>são contratual em nome de Mure pela Câmara dos Deputados em 11</p><p>de dezembro e criando oficialmente a Colônia Industrial na província</p><p>de Santa Catarina – e isso não poderia ser mais contrário às ideias de</p><p>Derrion, Jamain e Cia. Vinte e nove falansterianos “alegando que não</p><p>sabiam, quando deixaram a França, que seriam destinados a trabalhar</p><p>em benefício de camaradas preguiçosos”,203 dissociaram-se do grupo. Um</p><p>membro do conselho de administração da Union industrielle, o pintor</p><p>Jolly e o médico Deyrolles, ficaram do lado de Mure. Derrion e Jamain</p><p>pressionam Mure a ir ao Consulado Francês para assinar o contrato da</p><p>Union industrielle, na manhã do dia 30. Fingindo um encontro urgen-</p><p>te com o imperador, Mure escapuliu e fez La Caroline zarpar, abando-</p><p>nando cinquenta e quatro falansterianos, incluindo Derrion e Jamain,</p><p>“tendo apenas suas roupas pessoais como posses”;204 “ele levou consigo nossas</p><p>esposas, nossos filhos e nossa fortuna”,205 declararam. Derrion, Jamain e</p><p>cerca de vinte outros falansterianos que permaneceram no cais obtive-</p><p>ram passagem do governo no barco a vapor que chegou a São Francisco</p><p>no dia 23 de janeiro. No dia seguinte, Derrion e Jamain foram para a</p><p>202 La Ruche populaire, outubro de 1841, p.31, in VIDAL, Op.cit, p.146.</p><p>203 Oficio de Henri Jules Wallenstein a M. le Comte , 09 a 21 de dezembro de 1841, Bibliote-</p><p>ca national do Rio de Janeiro, Mss. I-28-17, 14, n° 5, in VIDAL, Op.cit, p.185.</p><p>204 Arquivos Públicos do Estado de Santa Catarina, Oficios Presidente Provincia, 30 de ja-</p><p>neiro de 1842, in VIDAL, Op.Cit, p.191.</p><p>205 Ibidem .</p><p>93Jardim das Utopias</p><p>Península do Saí com um grupo de colonos para fazer valer os seus di-</p><p>reitos. Inicialmente recuperaram “os equipamentos, ferramentas, pólvora</p><p>e sementes transportados da França, bem como alguns bens adquiridos no</p><p>Rio”,206 Mure e seus seguidores os obrigaram a retornar a São Francisco,</p><p>onde fizeram apelo por justiça.</p><p>Eles ficaram na vila com dinheiro da Union Industrielle; a desu-</p><p>nião era total entre os dois clãs. Além disso, no dia 26 de janeiro foi</p><p>encontrado um corpo boiando na baia do porto de Santos, no local</p><p>chamado Villa Nova. É o de “Marthe Florence Payen, mulher Jamain,</p><p>passageira do vapor Campista, com parada neste porto de Santos, indo</p><p>até o rio São Francisco”.207 O mistério permanece sobre essa morte.</p><p>Laurent Vidal imagina uma discussão entre cônjuges; Derrion e Ja-</p><p>main alegaram que Mure os abandonou no Rio e levou suas esposas.</p><p>O corpo em putrefação foi examinado por dois médicos juramenta-</p><p>dos, incluindo o médico francês Joseph Stéphane. Segundo a autóp-</p><p>sia, o corpo permaneceu submerso na água por quatro a cinco dias,</p><p>bem antes de o navio chegar à baía. O osso do crânio dessa mulher</p><p>de 30 a 40 anos estava “fraturado em dois locais, na parte frontal e</p><p>na parte superior”. Os médicos não conseguiram determinar a causa</p><p>mortis, se era em virtude de uma pancada na cabeça ou afogamento.</p><p>Nenhum outro documento de arquivo menciona o evento.</p><p>Em 21 de fevereiro, Derrion e Jamain enviaram uma petição</p><p>ao presidente da província. Eles reivindicavam a sua liberdade e a</p><p>sua independência face ao dirigismo de Mure: “Não saímos da nossa</p><p>pátria […] para abdicar da nossa independência</p><p>e tornarmo-nos ins-</p><p>trumentos à disposição do Doutor Mure”.208 Até o final de fevereiro, as</p><p>autoridades locais adiaram uma solução. Os protagonistas são con-</p><p>vocados perante o presidente da província. Jamain, acompanhado</p><p>de Pomatelli e Teysseire, defendeu os interesses da Union Industriel-</p><p>206 VIDAL, Op.Cit, p.206.</p><p>207 Archives du ministère des Affaires étrangères (La Courneuve), Correspondance commer-</p><p>ciale des consuls, P 04210 (État civil de Rio, registre n° 5), in VIDAL, Op.Cit, p.207.</p><p>208 Arquivo Histórico de Joinville, Coleção Carlos Ficker, Pétition de Derrion, Jamain…</p><p>adressée au président de la province », 21 de fevereiro de 1842, in VIDAL, Op.Cit, p.214.</p><p>94 Gleison Vieira</p><p>le. Mas, o governo pediu ao presidente da província que ficasse do</p><p>lado de Mure, com quem estava envolvido financeiramente. No en-</p><p>tanto, os colonos ainda presentes permaneceram principalmente le-</p><p>ais a Derrion e Jamain. No final de janeiro, uma comissão nomeada</p><p>reconheceu os terrenos circundantes e optou por um local “localiza-</p><p>do de forma mais favorável do que no projeto do Doutor Mure, numa</p><p>vasta planície na margem esquerda do Palmitar”,209 rio a noroeste da</p><p>Península do Saí. Jamain e Derrion contaram com o fato de os co-</p><p>lonos terem sido recrutados pelo Union Industrielle e não pelo Dr.</p><p>Mure. Por motivos desconhecidos, Derrion rumou para o Rio de</p><p>Janeiro nesse momento. Enquanto isso, Jamain desenvolveu um ar-</p><p>gumento de fraternidade para obter “dois terços das terras para o lado</p><p>do Palmital e os fundos necessários para [um] estabelecimento”210 sem</p><p>colocar em questão o contrato entre o governo brasileiro e Mure: “...</p><p>nossa tarefa é mais bela que a de um colono, e por isso não queremos ser</p><p>colonos [...], queremos ser irmãos de seus concidadãos”.211</p><p>Derrion e Jamain precisavam obter, politicamente, a conces-</p><p>são de terras e um financiamento. Jamain desejava mostrar o quan-</p><p>to aquele grupo era capaz de se organizar.212 Para tal, ele disse ao</p><p>presidente da Província, Antero de Brito, que eles estavam sendo</p><p>injustiçados, afirmando que “por outro lado, veremos homens traba-</p><p>lhando incansavelmente em suas terras que compraram de Leon Dé-</p><p>nien, no Palmital”.213 Assim, Jamain anunciava que eles compraram</p><p>uma porção de terras através do próprio suor. Sobre isso, escreveria</p><p>o lionês Joseph Reynier, em um artigo que ele publicou em 1843, no</p><p>209 Arquivo Histórico de Joinville, Coleção Carlos Ficker, Lettre de Derrion et Jamain au</p><p>juge de paix, 7 de fevereiro de 1842, in VIDAL, Op.Cit, p.221.</p><p>210 Arquivos históricos de Joinville, Coleção Carlos Ficker, « Pétition des colons (Jamain,</p><p>Pomatelli, Teysseire…) contre Mure, in Ibidem.</p><p>211 Arquivos históricos de Joinville, Coleção Carlos Ficker, «Lettre de Jamain au président</p><p>de la province», 12 de abril de 1842., in Ibidem.</p><p>212 Segundo entrevista com Carina Sartori, em 01 de agosto de 2023, Antoine Jamain foi</p><p>um dos únicos falansterianos que tentou aprender a língua portuguesa.</p><p>213 Arquivo Histórico de Joinville, Coleção Carlos Ficker, Lettre de Jamain au Président de</p><p>la Province, São Francisco do Sul, 12 de abril de 1842.</p><p>95Jardim das Utopias</p><p>qual apoiava Jamain e Derrion, além de narrar a trajetória da Union</p><p>Indutrielle: “(...) a Union Indutrielle obteve parte da concessão feita</p><p>ao Sr. Mure, com parte dos recursos que lhe foram destinados”.214 Ou</p><p>seja, o grupo societário comprou um terreno a partir dos socorros</p><p>pagos pelo Dr. Mure, oriundos do Império. Estas terras pertenciam</p><p>a um tal Leon Dénien e se encontravam na divisa da Colônia do Saí,</p><p>mais precisamente, “a sete léguas da vila de São Francisco do Sul”.215</p><p>Infelizmente, nenhuma informação foi encontrada sobre o senhor</p><p>“Leon Dénien”, nem tão pouco se sabe se este era realmente o seu</p><p>nome.216 Mas, como já vimos, essas terras estavam ligadas à Fazenda</p><p>do Palmital, pertencente à família Nunes da Silveira.</p><p>Os franceses dissidentes se estabeleceram num “sítio do Palmital,</p><p>a sete léguas da vila de São Francisco e a margem esquerda do rio deste</p><p>nome” que se encontrava “intermédio, quase se toca com o do Sahy sendo</p><p>praticável abrir-se entre os dois uma comunicação que está projetada e é a</p><p>de que se trata o artigo 10 do contrato de 15 de junho deste ano”.217 Era nes-</p><p>se estabelecimento do Palmital que havia um “maior número de obreiros</p><p>e mais perfeitos que no Sahy”,218 totalizando 44 integrantes. Todos esses</p><p>colonos trabalhavam sob a direção de Jamain e consagravam seus dias à</p><p>construção de “uma olaria, de montar uma forja e fabricavam carvão”.219</p><p>No dito domínio, ainda havia uma “casa de vivenda pertencente ao sítio,</p><p>214 Union Industrielle, Joseph Reynier, Journal Le Nouveau Monde, Paris, 1 de julho de</p><p>1843.</p><p>215 Em medidas atuais, cerca de 30 kilomêtros. Cf. Relatório de José da Silva Mafra, Colo-</p><p>nia Industrial do Sahy, Jornal O Comércio, Rio de Janeiro, 17 de julho de 1842.</p><p>216 Segundo entrevista com Carina Sartori, entre os falansterianos, Jamain foi um dos poucos</p><p>que buscou aprender a língua portuguesa. É possível que Jamain, ao registrar o nome Léon Dé-</p><p>nien, estivesse transliterando foneticamente um nome brasileiro de forma afrancesada. Minha</p><p>hipótese é a de que Léon pudesse ser uma referência a “Luiz”; Dénien, por sua vez, poderia ser</p><p>a aglutinação da preposição “De” mais o nome “Nunes”. Assim, Léon Dénien seria “Luiz de</p><p>Nunes”, o que se aproximaria de Luiz Nunes da Silveira, casado com Ana Joaquina de Jesus,</p><p>proprietário da Fazenda do Palmital em meados do século XIX, e que resistiu aos ataques dos</p><p>índios botocudos àquela fazenda em 1849. (nota do autor)</p><p>217 Ministério do Império, Colônia Industrial do Sahy. Jornal do Commercio, Rio de Janei-</p><p>ro, 17 de julho de 1842.</p><p>218 Ibidem.</p><p>219 Ibidem.</p><p>96 Gleison Vieira</p><p>algum arvoredo e pastagens”, 220 já existentes no terreno adquirido, e a</p><p>produção agrícola era bastante precária ou quase inexistente.</p><p>Havia, na tentativa de instalar no Palmital uma colônia que seria</p><p>o germe do Falanstério, portanto, duas lideranças: Derrion e Jamain.</p><p>Porém, seria Jamain quem teria uma ação prática nas terras da planície</p><p>do Baraharas. Como frisa Sartori, foi Jamain que esteve à frente da ne-</p><p>gociação com o governo da Província;221 às margens do rio Palmital, sob</p><p>a voz de Jamain, podemos imaginar a falange trabalhando duramente</p><p>no cio da terra, tal como nas telas holandesas de Julien Dupré.</p><p>Em abril de 1843, a tensão diminuiu e as duas colônias coexis-</p><p>tiram na penúria. No entanto, em julho daquele ano, na colônia do</p><p>Palmital, “acabava de ser estabelecida uma serraria mecânica sob a</p><p>direção do Sr. Jamain”,222 escreveria Joseph Reynier.</p><p>Como já vimos, todos os imbróglios geraram debandadas nas duas</p><p>“colmeias”. Naquele ano de 1843, o número de franceses no Saí era de</p><p>16 e no Palmital, 22. Neste último, os franceses ainda eram administra-</p><p>dos pela direção que eles elegeram em Paris, ou seja, Jamain e Derrion.</p><p>O mês de outubro de 1843 reservou um evento de reconciliação entre</p><p>os dois grupos falansterianos, conforme relatou o Jornal do Commercio:</p><p>“A 10 de outubro, dia do aniversário da morte de Fourier, o Dr.</p><p>Mure reuniu na capela de N. S. da Gloria aqueles de seus discí-</p><p>pulos presentes no Rio (...). No mesmo dia os colonos societários</p><p>se reuniram na pequena vila do Rio de S. Francisco do Sul, para</p><p>celebrar essa solenidade fúnebre. Do centro das florestas do Sahy</p><p>e das ribeiras longínquas que conduziam ao Palmital todos cor-</p><p>riam a esta justa religião. Uma missa era então celebrada, e o</p><p>órgão da paróquia, que mudo há tantos anos, foi concertado por</p><p>um falansteriano (...). O resto do dia era consagrado a diverti-</p><p>mentos, e a noite um baile reunia os principais habitantes do</p><p>país aos discípulos de Fourier (...). A conveniência que presidiu</p><p>220 Ibidem.</p><p>221 SARTORI, Op.cit. p.170.</p><p>222 « Union industrielle », Le Nouveau Monde, 1 de julho de 1843.</p><p>97Jardim das Utopias</p><p>a reunião de 10 de outubro, os cânticos graves dos falansterianos,</p><p>a perfeita harmonia que reina entre eles”.223</p><p>Em dezembro de 1843, de fato, as coisas</p><p>não caminhavam bem:</p><p>a Câmara Municipal de São Francisco emitiu, em 07 de dezembro,</p><p>um relatório no qual mencionava o estado dos franceses nos dois es-</p><p>tabelecimentos. O texto mencionava a obra hercúlea realizada pelos</p><p>falansterianos em seu pequeno grupo e o quão custoso era persistir</p><p>em uma natureza tão hostil. No relatório, é latente a ideia de que a</p><p>possível dissolução da Colônia do Saí ocorreria “por falta de gente e</p><p>boa direção”.224 Por outro lado, a Colônia do Palmital, que estava sob a</p><p>direção de Jamain, foi descrita como a imagem da “miséria espalhada</p><p>pelos indivíduos que o compunham”,225 devido a ausência dos recursos</p><p>outrora apalavrados. Naquela reaproximação efetiva das duas colô-</p><p>nias, datada de agosto de 1844,226 Mure cedera seus direitos sobre a</p><p>Colônia de Saí a Derrion, que fundou a nova “Sociedade Industrial</p><p>do Sahy”. Todavia, Jamain não está na “lista dos últimos fiéis” 227 que</p><p>acompanham Derrion naquela tentativa final de criar o falanstério.</p><p>Antoine Jamain já estava no Rio de Janeiro em 05 de março de</p><p>1846. Ele se casou novamente, mas o nome de sua nova esposa não</p><p>foi localizado. Morava na rua Santo Antonio. Ele testemunhou a</p><p>declaração de nascimento do filho de um tal Jean Durand,228 casado</p><p>com Marie Echevarria, uma basca espanhola originária de San Se-</p><p>bastian. Provavelmente Jamain trabalhava como empregado ou pelo</p><p>menos sem ser proprietário, em uma oficina mecânica. Ele parece</p><p>ter embarcado em um projeto individual que não teve sucesso. Isto</p><p>pode ser deduzido da carta que ele enviou a Victor Considerant em</p><p>223 Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 08 de novembro de 1843.</p><p>224 Relatório da Câmara Municipal de São Francisco do Sul, São Francisco do Sul, 07 de</p><p>dezembro de 1843 in SARTORI, Op.cit. p.176.</p><p>225 Ibidem.</p><p>226 Arquivos históricos de Joinville, Coleção Carlos Ficker, « Copie du contrat de la société</p><p>industrielle du Sahy », 15 de agosto de 1844, in VIDAL, Op.Cit, p.262.</p><p>227 VIDAL, Op.Cit, p.262.</p><p>228 Archives du ministère des affaires étrangères, État civil de Rio de Janeiro (livre 7, partie</p><p>1, 1846, p. 22), « Acte de naissance de Jean Durand » in VIDAL, Op.Cit, p.282. »</p><p>98 Gleison Vieira</p><p>30 de dezembro de 1847.229 O apaziguamento entre os colonos mar-</p><p>ca efetivamente uma reaproximação com o centro parisiense da Éco-</p><p>le sociétaire que relatou pela primeira vez um banquete no Rio de</p><p>Janeiro em abril de 1846.230 Se Jamain não participou da subscrição</p><p>da medalha em homenagem a Eugène Sue, nem da tumba de Flora</p><p>Tristan,231 como muitos membros do grupo do Rio de Janeiro, por</p><p>outro lado, ele foi assinante da abordagem falansteriana de anuida-</p><p>de iniciada pelo centro parisiense da École sociétaire. Ele esteve em</p><p>contato com Considerant, que fora reembolsado tardiamente pelas</p><p>“lâminas de serra”232 que lhe haviam sido enviadas para o Brasil.</p><p>Nessa ocasião, Jamain lhe declarou as condições desfavoráveis:</p><p>“Peço desculpas por ter demorado tanto em vos pagar; de for-</p><p>ma alguma o motivo é a minha vontade, mas, sim, a triste</p><p>situação em que me encontrei, mas agora, graças a Deus, co-</p><p>meço a me reconhecer; embora eu sempre lamente que a en-</p><p>comenda que você me enviou não tenha servido ao propósito</p><p>que eu esperava alcançar”.233</p><p>Ele ainda estava próximo de Derrion, Nicolas Gilbert (um falanste-</p><p>riano do Saí) e Leclerc, para quem escrevia sobre o tema da anuidade fa-</p><p>lansteriana nos órgãos fourieristas. Ele sonhava colocar seu filho em um</p><p>asilo falansteriano quando ela nascesse, criança que ele deixou na França</p><p>aos cuidados de Baudet-Dulary. Juntamente com outros falansterianos</p><p>(Jacques Piel, Charles Leclerc, Eugène-Félix Huger e Derrion), Jamain</p><p>era “guardião das listas em circulação” destinadas à “assinatura francesa a</p><p>favor das viúvas, órfãos e feridos durante os dias de fevereiro 1848”.234</p><p>229 Archives nationales, Fonds Fourier et Considerant, Archives sociétaires, 10AS39</p><p>(681Mi65, vues 358-359), lettre de Rio de Janeiro à Victor Considerant, 30 de dezembro</p><p>de 1847.</p><p>230 « Banquet de Rio-Janeiro (Brésil) », La Démocratie pacifique, 19 de julho de 1846.</p><p>231 « Médaille à offrir à Eugène Sue », La Démocratie pacifique, 24 de maio de 1846.</p><p>232 Lettre de Rio de Janeiro à Victor Considerant, 30 de dezembro de 1847. Arquivos nacio-</p><p>nais da França, Fonds Fourier et Considerant, Archives sociétaires, 10AS39 (681Mi65, vues</p><p>358-359), lettre de Rio de Janeiro à Victor Considerant, 30 décembre 1847.</p><p>233 Ibidem.</p><p>234 Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 28 de junho de 1848, p.04.</p><p>99Jardim das Utopias</p><p>Em 1850, o aniversário do nascimento de Fourier foi excepcional-</p><p>mente comemorado em 14 de julho devido à epidemia de febre ama-</p><p>rela que matou Michel Derrion e à de cólera que assolou a cidade na</p><p>primavera. O dramaturgo francês Jacques Piel presidiu o banquete que</p><p>reuniu “cento e dez pessoas [que] participaram nesta celebração, incluindo</p><p>dezesseis mulheres e seis crianças”.235 Na ocasião, “Jamain expôs, segundo a</p><p>teoria, as diversas fases pelas quais a humanidade passou e apontou aos ne-</p><p>ófitos onde deveria terminar esta grande obra”.236 Em dezembro de 1858,</p><p>Jamain morreu de abscesso em sua casa na rua D’Ajuda.237</p><p>10. Jardim em ruínas: o último francês no Saí</p><p>«(...) paciência, você tem que semear antes de colher».238</p><p>O Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, na década de 1840,</p><p>havia atuado como divulgador das ideias societárias e humanistas dos</p><p>fourieristas, bem como noticiador dos episódios que compõe a mal-</p><p>fadada história da colônia falansteriana de São Francisco. Atuou na</p><p>criação de uma expectativa pública sobre aquela colonização indus-</p><p>trial. Porém, a tragédia no Saí reverberou desfavoravelmente. Mesmo</p><p>após o fim da experiência societária nas veredas profundas do Saí e do</p><p>Palmital, o jornal ainda postava acontecimentos embaraçosos em re-</p><p>lação àquela colônia. E, outra vez, rumores odiosos se enovelavam em</p><p>Benoît Mure. A figura do médico homeopata oscilava entre um “Dr.</p><p>Jekyll” e um “Mr. Hyde”, entre o médico e o monstro. Isso se constata</p><p>em uma nota do Jornal do Commercio, publicada em 10 de Outubro</p><p>de 1848. Sobre os ombros do homeopata recaiam suspeitas misterio-</p><p>235 Assembleia geral dos acionistas das sociedades de 15 de junho de 1840, 10 de junho de</p><p>1843e 15 de setembro de 1850, p.11, « Lettre de Huger. On nous écrit de Rio de Janeiro à</p><p>la date du 24 juillet 1850».</p><p>236 Ibidem.</p><p>237 Correio Mercantil, 22 de dezembro de 1858 e Archives du ministère des affaires étrangères,</p><p>état civil de Rio de Janeiro (livre 17, partie 2, 1858, p.291), « Acte de décès de Jamain » apud</p><p>VIDAL, Op.cit., p. 282.</p><p>238 Carta de Michel Derrion a Victor Considerant, Rio de Janeiro, 31 de novembre de 1847.</p><p>100 Gleison Vieira</p><p>sas relativas à morte de uma moça francesa chamada Camilla:</p><p>... redigido e publicado pelo Sr. Dr. Ludgero da Rocha Ferreira</p><p>Lapa diz: ‘... a homeopathia, essa sciencia divina, que foi pro-</p><p>fessada... pelo Mure, negociante de Lyon, que deixou o Rio de</p><p>Janeiro no momento em que a polícia se achava de posse das pe-</p><p>ças justificativas de um processo criminal por occasião de morte</p><p>violenta da filha de sua concubina’. (Vide T.IV, n.10, pag.225 e</p><p>226, distribuido a 5 de outubro.).239</p><p>A elite carioca resolveu responder àquele documento, para tentar</p><p>por termo às acusações ventiladas contra o Dr. Mure, homeopata tão</p><p>afeiçoado pela nata cortesã da Realeza Brasileira. Por intermédio de ou-</p><p>tro homeopata, o português João Vicente Martins, o funcionário pú-</p><p>blico e tradutor João Henrique Kagel recebeu duas cartas de Raymond</p><p>Nenévé dirigidas a Derrion, cujas linhas foram publicadas no Jornal do</p><p>Commercio. O engenheiro francês Raymond Nénevé (1806-1877),240</p><p>era casado com a francesa Josephine Maquinham Nénevé, tendo com ela</p><p>até aquele momento dois filhos, Alexandre Lucien e Louise; após 1854,</p><p>nasceria ainda Marie e Robert Louis, quando a família parece ter vivi-</p><p>do na Colônia Dona Francisca, em Joinville. A família Nénevé foi uma</p><p>das últimas famílias falansterianas a permanecer no Saí, a exemplo da</p><p>família Ledoux. A tradução</p><p>da carta endereçada a Derrion por Nenevé</p><p>tratava dos rumores da morte provocada por Mure:</p><p>“ ‘S. Francisco, em 8 de julho de 1848. Senhor. - Quanto ao</p><p>Sr. Mure eu sei que em lugar de vir tomar os ares deo Sahy,</p><p>partio para a França, e penso que não é a satisfação de todo</p><p>mundo: quanto a mim, pouco me importa. Vós perguntais-</p><p>-me noticias da Sra. Camilla, ninguém melhor do que eu vos</p><p>póde dar estas noticias - ella se acha em nossa casa: tanto eu</p><p>com minha senhora julgamos que tendo Mure partido não</p><p>239 Nota do Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, de 10 de outubro de 1848.</p><p>240 NASCIMENTO, Antônio Roberto. Os franceses em Santa Catarina in Blumenau em</p><p>cadernos, Tomo XXXIII, nº1, janeiro de 1992, p.06.</p><p>101Jardim das Utopias</p><p>nos podião accusar que isto fosse por interesse. Tudo quanto</p><p>eu vos posso dizer sobre sua conduta é que depois que ella</p><p>está no Sahy eu a considero unicamente innocente e sempre</p><p>criança. Quanto a respeito do que se diz sobre a sua con-</p><p>ducta do Rio, eu não poderei nem escrevê-lo nem acreditá-</p><p>-lo, e tudo quanto eu poderei crêr é que é uma criança que</p><p>quizerão perder e que empregarão todos os meios de malicia.</p><p>(Assignado.) - R.d Nenévé’. A assignatura aqui acima do Sr.</p><p>Nenévé, francez, morador no Sahy, certifico ser verdadeira,</p><p>reconhecida por nós. Rio de Janeiro, 6 de outubro de 1848. –</p><p>O chanceller da legação franceza (assignado) Th. Taunay”.241</p><p>Explica-se: em novembro de 1840, Benoît Mure desembarcou</p><p>no Rio de Janeiro, vindo no navio Eole, que zarpara um mês e meio</p><p>antes do porto francês do Havre. Mure viera na companhia de uma</p><p>mulher francesa chamada Anabelle Cretiat, que ele alegava ser sua</p><p>esposa, e de outra moça de nome Camille Lallement – apresentada</p><p>como sendo sua sobrinha. Na segunda carta a Derrion, datada dia</p><p>24 de agosto de 1848, Nenéve confirmava: “A Sra. Camilla acha-se</p><p>em nossa casa, como vos participei na minha última carta, que julgo</p><p>vós tereis recebida. – (Assignado) R.d Nenévé”.242</p><p>A vida seguiu para os franceses após a morte dos dois líderes</p><p>utópicos: o “Bento Alquimista” (Mure) e o “Orfeu tecelão” (Der-</p><p>rion). Treze anos depois daquelas cartas sobre Camille Lallement,</p><p>já em 1861, uma nota no Jornal do Commercio revela-nos que R.d</p><p>Nenévé ainda estava no Saí, aos 55 anos de idade. A nota imperial</p><p>tratava da possibilidade de novas incursões de colonizadores euro-</p><p>peus às margens dos pequenos igarapés em todo o Saí:</p><p>“Ao mesmo presidente da província de Santa Catarina que,</p><p>para essa província seguem cinco emigrantes prussianos e um</p><p>menor de 11 mezes, os quaes serão estabelecidos na colônia de</p><p>241 Nota do Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, de 10 de outubro de 1848.</p><p>242 Ibidem.</p><p>102 Gleison Vieira</p><p>Itajahy (...) – Ao mesmo, para que informe com o que se lhe</p><p>offerecer àcerva das terras que R. Neneve diz possuir nessa</p><p>província no lugar denominado Sahy”.243</p><p>Outro francês que acabou ficando pela região após o malogro do</p><p>Falanstério do Saí foi Venance Jean de Laurié (1843-1888), falecido</p><p>em Joinville, acometido por paralisia, “francês, já viúvo de Alexandrina</p><p>Maria Pereira, na casa de Antônio Dias, no Cubatão Grande”.244 Quatro</p><p>anos antes, aos 26 de abril de 1884, falecia em Joinville a lavradora Jo-</p><p>sephine Maquinhain Nénevé (1811-1884), viúva de Raymond.</p><p>Quinze anos depois, Raymond Nénevé falecera, em 01 de</p><p>Abril de 1877, conforme registros da paróquia da Catedral de Join-</p><p>ville.245 E assim, a saga utópica no Saí se findava melancolicamen-</p><p>te. Entretanto, novas incursões pelas veredas da Cordilheira do Saí</p><p>iriam acontecer sem os seguidores de Fourier. Cabildas sertanejas,</p><p>rústicos clãs de mamelucos, floresceriam em casebres às margens dos</p><p>regatos, renascidos por entre taperas de ranchos fundos nos grotões</p><p>das serras. O tempo nas ruínas do jardim utópico seguia um fluxo</p><p>tão lento quanto o ritmo das marés no Canal do Palmital.</p><p>11. Do Palmital à Guanabara: adieu, Orphéon!</p><p>“... car la théorie c’est l’espoir, mais la pratique c’est la réalité,</p><p>et c’est de réalité qu’il faut au peuple” . (Michel Derrion).246</p><p>A família Derrion vivia momentos difíceis no Rio de Janeiro em</p><p>abril de 1846. Porém, aos poucos as coisas pareciam melhorar, mes-</p><p>mo após a morte prematura do pequeno Gustave. Por sua vez, Michel</p><p>243 Nota do Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, de 18 de outubro de 1861.</p><p>244 NASCIMENTO, Antônio Roberto. Os franceses em Santa Catarina. In Blumenau em</p><p>Cadernos, tomo XXXIII, 1º de janeiro de 1992, p.07.</p><p>245 NASCIMENTO, Op. cit. p.06.</p><p>246 “... pois a teoria é a esperança, mas a prática é a realidade, e é de realidade que é necessário</p><p>ao povo.” (DERRION, Michel-Marie. Constitution de l’Industrie et Organisation Pacifique</p><p>du Commerce et du Travail. Lyon: Libraire Mme Durval. 1834. p.53).</p><p>103Jardim das Utopias</p><p>continuava militante junto às fileiras de Fourier, o que é conferido por</p><p>suas atividades com os falansterianos cariocas que se ligavam àqueles</p><p>da França. Como sublinha Luis Amaral em sua obra:</p><p>“A 07 de abril, Derrion, então no Rio de Janeiro, onde lec-</p><p>ciona para viver, pronuncia vibrante discurso no banquete</p><p>anniversario do nascimento de Charles Fourier”.247</p><p>Como ressalta Jean Gaumont, havia no banquete de 1846 um</p><p>importante grupo de fourieristas.248 O discurso pronunciado por</p><p>Derrion relatava as dificuldades enfrentadas na Colônia do Saí e do</p><p>Palmital, mas não deixou de dar mostras de entusiasmos ao cogitar a</p><p>possibilidade de se retomar as atividades naquelas cercanias:</p><p>“A Colônia do Sahy existe e que constitui um vasto domínio</p><p>de duas léguas quadradas perfeitamente situadas e prontas</p><p>para dar cabo a todas as tentativas mais ou menos integrais</p><p>que homens ávidos de prática queiram realizar”.249</p><p>Foi nessa ocasião que Derrion se reconciliou definitivamente</p><p>com Mure, pondo fim às desavenças iniciadas em 1841.250 Confor-</p><p>me relatou Jean Gaumont em Histoire Générale de la Coopération en</p><p>France (Tomo I, Paris, 1924), tal ocasião foi mencionada no perió-</p><p>dico fourierista Le Democratie Pacifique.251</p><p>Mas, e quanto à Colônia do Saí? E quanto às terras da Colônia</p><p>do rio Palmital? Voltemos alguns anos antes...</p><p>Entre outubro de 1844, Derrion recebeu um decreto impe-</p><p>rial, encaminhado pela província, cujo teor solicitava o envio de um</p><p>relatório minucioso sobre a Colônia. O documento, elaborado no</p><p>247 AMARAL, Luis. História Geral da Agricultura Brasileira. [sine loco] : Companhia Edi-</p><p>tora Nacional. 1932. p.422.</p><p>248 “Existia um grupo importante de fourieristas no Rio de Janeiro. Jules Duval: Progres de</p><p>la Cause Societaire. [In: GAUMONT, Jean. Histoire Générale de la Coopération en France.</p><p>Tomo I, Paris. 1924]. ” (S.THIAGO, Op. cit.; p.158).</p><p>249 Ibidem.</p><p>250 S.THIAGO, Op. cit.; p.142.</p><p>251 Le Democratie Pacifique, Tomo VII, 10 de julho de 1846 apud S.THIAGO, Op. cit.;</p><p>p.158.</p><p>104 Gleison Vieira</p><p>mês de dezembro, contém nove páginas e foi escrito em francês. O</p><p>documento redigido por Derrion, ao retratar aquele espaço de exu-</p><p>berância natural, parecendo-se com as ilustrações prospectivas do</p><p>falanstério durante o século XIX, mostra-nos um cenário de des-</p><p>venturas. Para redigir o relatório com detalhes a contento, Derrion</p><p>dedicou alguns dos seus dias para caminhar pelos domínios do Saí e</p><p>do Palmital. Eis um trecho da descrição escrita por Derrion:</p><p>“um terreno acidentado entrecortado por precipícios no decorrer</p><p>de um espaço de cerca de uma légua a esta distância é o vale do</p><p>petit Sahy [Saí-Mirim] apto para cultivo e onde o Sr. Mure esco-</p><p>lheu os dois locais de concessão elevada pelo governo e por onde</p><p>se estende o caminho por mais meia légua no rio ainda podemos</p><p>ver os restos dos materiais para a construção de uma represa que</p><p>não foi concluída, vemos também à beira as ruínas de numerosos</p><p>barracões grandes cobertos de palha que a vegetação invade e su-</p><p>foca, e cuja umidade apodreceu quase todos os telhados (…). De</p><p>momento o terreno da concessão não é habitado, e alguns colonos</p><p>vão até lá de vez em quando para colher o que ali plantaram</p><p>mas</p><p>afastam-se da baía e a dificuldade de transporte faz com que to-</p><p>dos os que lá estiveram tenham sucessivamente desertado”.252</p><p>Derrion retrata o palco dos reveses de uma colônia em ruínas.</p><p>Entretanto, ao final de seu relatório ele tentou convencer as autori-</p><p>dades imperiais de que era possível reconstruir a colônia naquelas</p><p>terras – tal como ele reafirmaria meses depois no banquete em me-</p><p>mória de Fourier, no Rio de Janeiro. Nas últimas palavras do relató-</p><p>rio, Michel Derrion insistiu em afirmar que haveria a possibilidade</p><p>de um grande projeto colonial francês na Colônia do Saí:</p><p>“Cabe a mim falar desta forma, atrevo-me a dizer que aqui</p><p>a fragilidade dos números é compensada pelo valor dos indi-</p><p>víduos! E de facto há entre nós três ou quatro pessoas dadas a</p><p>252 Rapport de Michel Derrion sur la Colonie du Sahy, São Francisco do Sul, 30 de dezembro</p><p>de 1844 (Arquivo Histórico de Joinville), apud Sartori Op.Cit, p.180.</p><p>105Jardim das Utopias</p><p>uma perseverança inabalável, possuidoras não só de grandes</p><p>conhecimentos científicos e industriais, mas também capazes,</p><p>através das suas numerosas ligações na França, de estabelecer</p><p>um movimento de emigração entre as classes trabalhadoras”.253</p><p>O fracasso da experiência repercutiu no cenário cultural e po-</p><p>lítico. Com efeito, o Governo Imperial não mais se interessou por</p><p>aquela atividade. Aquilo que na visão comprometida de Derrion era</p><p>a possibilidade de realização do sonho de Fourier, para as autoridades</p><p>imperiais, não era senão um projeto industrial-colonial inviável. Essas</p><p>marcas estão presentes na Falla de Antero José Ferreira de Brito:</p><p>“A assembléia Geral Legislativa (...) Lei sobre colonisação,</p><p>tão reclamada, quanto hé reconhecida a necessidade de a</p><p>regular pela experiência que já temos do pouco que as nos-</p><p>sas Colônias prosperam, havendo para isto muitas causas.</p><p>Fallando das Colônias por empreza; em continua luta vi-</p><p>vem os emprehendedores com os Colonos; (...). Assim Desa-</p><p>ppareceu a colônia do Sahy, e oxalá o mesmo não aconteça a</p><p>denominada Belga em Itajahi”.254</p><p>Nos anos em que Derrion se manteve no Rio de Janeiro, com</p><p>o mesmo espírito fourierista, fazia continuamente propaganda e co-</p><p>letando assinaturas para o “Le Democratie pacifique, jornal cotidiano</p><p>do qual Considerant era o redator e chefe”.255 Como relatou o Jornal</p><p>do Commercio, em 16 de junho de 1848, que “por 3$000 trimestral-</p><p>mente, podemos oferecer à leitura da Democratie Pacifique, jornal diá-</p><p>rio de Paris. Endereçar à M. Derrion, rua do S. José n.17”.</p><p>Derrion mantinha correspondências com o mais importan-</p><p>253 Ibidem.</p><p>254 Falla que o Presidente da Província de Santa Catharina, o marechal de campo Ante-</p><p>ro José Ferreira de Brito, dirigiu à Assembléia Legislativa da mesma província no ato da</p><p>abertura de sua sessão ordinária em o 1.o de março de 1846. Cidade do Desterro, Typ.</p><p>Provincial, 1846. p.09.</p><p>255 LEVASSEUR, Emile. Histoire des classes ouvrières et de l’industrie en France de 1789 à</p><p>1870. 2ª. Edição. Paris: A.Rousseaum, 1904. p.33</p><p>106 Gleison Vieira</p><p>te fourierista francês, Victor Prosper Considerant (1808-1893). Os</p><p>custos para manter tais anúncios no Jornal do Comércio não de-</p><p>viam ser baratos, os quais Derrion financiava por sua própria conta.</p><p>Segundo o próprio Michel Derrion, numa carta enviada a Victor</p><p>Considerant:</p><p>“De vez em quando faço anúncios no jornal porque é muito</p><p>caro e até agora raramente foram divulgados”.256</p><p>No Diário do Rio de Janeiro, de 07 de janeiro de 1848, uma</p><p>nota promovia as aulas de técnica de canto ministradas por Derrion,</p><p>na capital do Império do Brasil. Ele ensinava o Método de Wilhem,</p><p>criado por Louis Bocquillon-Wilhem (1781-1842), restaurador dos</p><p>corais nas escolas primárias de Paris, outrora abolido pela Revolução</p><p>Francesa. Bocquillon-Wilhem iniciou o movimento coral popular</p><p>Orphéon (do mito grego de Orfeu, o heroi que se valia da música en-</p><p>quanto qualidade divina). O Orphéon se caracterizava pelo método</p><p>de ensino recíproco. Derrion ensinava canto orphéon nos domingos</p><p>de manhã e quartas à tarde, dando preferência a franceses em função</p><p>da língua materna, porém, aceitando ministrar também em portu-</p><p>guês. Cobrava a módica mensalidade de 1$ réu por estudante.257</p><p>Para poder viver, ele também dava aulas de matemática e, por</p><p>um tempo, parece que havia sido secretário do Doutor Mure.258 Sua</p><p>situação, contudo, deveria ser aceitável, pois nada o fez optar pelo</p><p>retorno à França, nem mesmo a revolução de fevereiro de 1848 que</p><p>viu um número de seus amigos fourieristas lioneses acender ao po-</p><p>der municipal, tendo a categoria daqueles homens dado o aval a uma</p><p>comissão sobre a organização de cooperativas, etc.</p><p>No início de agosto de 1849, a barca vinda do Havre aportava</p><p>na Alfândega do Rio de Janeiro. O nome do navio era Industriel. Em</p><p>256 Carta de Michel Derrion a Victor Considerant, Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1847,</p><p>apud SARTORI, Op.cit. p.237.</p><p>257 Ver anexo 02.</p><p>258 BAYON Denis, Le commerce véridique et social de Michel-Marie Derrion : Lyon 1835-</p><p>1838. Lyon: Atelier de création libertaire, 2002. p.54.</p><p>107Jardim das Utopias</p><p>meio à carga, o navio trazia uma caixa destinada a Derrion;259 no</p><p>final daquele ano, a galera francesa Amelie aportava com mais uma</p><p>caixa.260 Isso pode evidenciar a interação entre Derrion – professor,</p><p>contabilista e militante – com os fourieristas de Paris. Justamente</p><p>nessa época, as autoridades imperiais haviam anunciado a existência</p><p>de uma epidemia de febre amarela na cidade do Rio de Janeiro.</p><p>Em janeiro de 1850, Derrion recebeu a visita do cirurgião lio-</p><p>nês Maximilien Lallour. Isso aconteceu um pouco antes de Derrion</p><p>adoecer. Foi um amigo francês, M. Dore, a bordo do navio Gasserdi,</p><p>que havia enviado o cirurgião da marinha francesa para conversar com</p><p>Michel. A conversa deve ter acontecido na casa da família Derrion ou</p><p>mesmo na sede da Escola Francesa, na rua São José, onde Michel dava</p><p>aulas de Aritmética. Essa escola era de propriedade do francês fourie-</p><p>rista Christophe Huger, amigo de Derrion. A reunião entre Lallour e</p><p>Derrion, possivelmente foi movida pelo “sentiment phalansterien”.261</p><p>Na ocasião do encontro, o Dr. Lallour pediu que Michel Derrion es-</p><p>crevesse uma carta aos fourieristas de Paris. A carta foi endereçada ao</p><p>segundo responsável do jornal La Démocratie Pacifique, que era Victor</p><p>Hennequin.262 Sobre o teor da carta, segundo Carina Sartori,</p><p>“as poucas linhas escritas por Michel Derrion são quase</p><p>sem vida e não abordam em nenhum momento as ativi-</p><p>dades do grupo na capital carioca. O único momento que</p><p>se pode ver um pouco do homem militante, mas muito</p><p>vagamente, é quando ele termina a correspondência com</p><p>as palavras ‘Acredite que fecundamo-nos aqui tanto quanto</p><p>possível e que nossos esforços não serão em vão’”.263</p><p>259 Alfandega, Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 9 de agosto de 1849. Apud SARTORI,</p><p>Op.cit., p.231.</p><p>260 Importações, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 25 de dezembro de 1849. Apud Ibi-</p><p>dem.</p><p>261 Carta de Michel Derrion a Hennequin, Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 1850. Apud</p><p>SARTORI, Op.cit., p.232.</p><p>262 Victor Hennequin (1816-1854) foi um político socialista francês e médium espírita.</p><p>263 Ibidem.</p><p>108 Gleison Vieira</p><p>Sabe-se que ensinou por correspondência a florescência das</p><p>associações que ele sempre defendeu e onde tomaram acento e tra-</p><p>balharam muitos de seus velhos amigos. Sua fé fourierista parecia</p><p>intacta. Ocupou-se de bibliotecas societárias, recebia viajantes fa-</p><p>lansterianos, mas parecia, por volta do final de sua vida, consentir</p><p>com as ideias republicanas na direção das quais tendiam cada vez</p><p>mais alguns grupos fourieristas. O ano de 1850 era o epílogo vital</p><p>de Derrion. Ele estava fadigado. Apesar disso, Derrion disse a Huger</p><p>em seu leito de morte que ainda acreditava no futuro e em Fourier.</p><p>Naquele ano de 1850, a capital do Império, repleta de escra-</p><p>vos africanos, encontrava-se no mais profundo caos. A epidemia</p><p>de febre amarela assolava tanto o Rio de Janeiro que se formou um</p><p>comitê da Société Française</p><p>de Bienfaisance, que devia discutir, após</p><p>o pedido de auxílio do Império, ações para acompanhar os compa-</p><p>triotas atingidos pela epidemia. O calor e a ausência de chuvas po-</p><p>tencializaram o caos. No final de fevereiro, Derrion e Lucie foram</p><p>acometidos pela febre amarela.</p><p>A esposa de Derrion, Lucie, resistiu à febre, o mesmo não acon-</p><p>tecendo com Michel, que sucumbiu à doença em 12 de março de</p><p>1850, falecendo com a idade de 47 anos. Christophe Huger foi o últi-</p><p>mo a ver Michel Derrion com vida. Ele acompanhou o amigo nas suas</p><p>horas derradeiras. As palavras que Derrion pronunciou, “em meio aos</p><p>delírios causados pela doença, foram para evocar a importância de Vic-</p><p>tor Considerant, Cognat e a cidade de Lyon em sua vida”.264</p><p>Com a morte de Michel Derrion, sete meses depois, Lucie e o</p><p>filho deixaram o Rio de Janeiro, em 22 de outubro de 1850.265 Lucie</p><p>carregava os livros e os quadros que Derrion utilizou para ensinar</p><p>música e canto para as crianças e adolescentes na Escola, todos os</p><p>domingos de manhã. O jornal Diario do Rio de Janeiro, de 23 de</p><p>outubro de 1850, registrou a nota de saída pelo Porto do Rio de</p><p>Janeiro de “Luzia Derrion e um filho, franceza”.</p><p>264 SARTORI, Op.cit, p.233.</p><p>265 Pessoas despachadas, Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1850.</p><p>109Jardim das Utopias</p><p>Segundo Raquel S. Thiago, o sentimento pela morte de Der-</p><p>rion foi assim descrita de Paris pelo amigo Huger:</p><p>“O Sr. Derrion deixa aos verdadeiros discípulos de Fourier</p><p>um trabalho quase além de suas forças, em razões das suas</p><p>relações verdadeiramente apostólicas. Todo o tempo que o</p><p>permitiam as aulas, empregava-o para vender livros da Es-</p><p>cola Falansteriana ou assinaturas para os periódicos (...). À</p><p>véspera, mesmo, da sua morte, fez um esboço do discurso que</p><p>pretendia pronunciar em 07 de abril no banquete de aniver-</p><p>sário de Fourier”.266</p><p>Em 1850, aos 40 anos de idade, a viúva Lucie voltava para a</p><p>Paris. As poucas cartas escritas pela “Vve. Derrion”267 (como Lucie</p><p>passou a se identificar quando retornou para a França), no final de</p><p>1850, foram endereçadas aos militantes fourieristas de Paris. As</p><p>cartas expõem a gratidão pelo cuidado em relação a ela e ao filho.</p><p>Porém, nas cartas ela demonstra insistência para que o jornal La</p><p>Democratie Pacifique viesse a noticiar a morte de seu marido. Ela</p><p>ressaltou a fidelidade incondicional de Derrion para com o grupo</p><p>durante os anos em que viveu no Brasil. Se o jornal que Michel Der-</p><p>rion tanto se esforçou para vender e distribuir nas terras cariocas</p><p>não mencionou a sua morte, mesmo com a insistência de Lucie, o</p><p>Almanach Phalansterien, por sua vez, publicou um pequeno texto</p><p>em 1852, no qual assinalava a importância de Derrion:</p><p>“No dia 12 de maio de 1850, nosso excelente amigo Derrion</p><p>faleceu no Rio de Janeiro (Brasil), levado pela epidemia que</p><p>assolava aquela cidade. Nasceu em Lyon em 1802. Dedi-</p><p>cou-se à propagação do princípio da associação nesta cidade</p><p>e ali formou estabelecimentos para esse fim. Escolhido pelos</p><p>amigos para dirigir no Brasil, dedicou-se a esse trabalho com</p><p>ardor religioso e tenacidade incansável. Sua perda deixou</p><p>266 S.THIAGO. Op. cit.; p.142.</p><p>267 “Vve.” É a abreviação da palavra veuve (viúva, em francês).</p><p>110 Gleison Vieira</p><p>profundos pêsames na cidade que ele deu a si mesmo como</p><p>segunda casa”.268</p><p>Sobre a indiferença dos fourieristas do Le Democracie Pacifique,</p><p>Lucie escreveu de forma triste tal destrato com seu marido que tanto</p><p>atuou pela causa de Fourier: Em uma carta de 19 de fevereiro de 1851,</p><p>Lucie “demonstra sua surpresa e sua mágoa pelo fato de o ‘Democratie</p><p>Pacifique’ não ter assinalado a morte de seu marido”.269 E se acrescenta:</p><p>“É lamentável que, quando o Journal La Démocratie reapa-</p><p>receu, não tenha mencionado a morte do Sr. Derrion! Vários</p><p>amigos falanstérios dele e que também são seus assinantes</p><p>desconheciam completamente isso; Caso ache oportuno dizer</p><p>uma palavra sobre o assunto, o triste aniversário é no próxi-</p><p>mo dia 12 de março...”.270</p><p>Segundo a pesquisadora Carina Sartori, no Journal Le Nou-</p><p>velliste (1846-1848), há notas de Michel Derrion sobre educação;</p><p>no Jornal Sciencia (1847-1848), há um requerimento em apoio à</p><p>implementação da Escola Homeopática no Rio de Janeiro; e no Alma-</p><p>nak Administrativo Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro (1845-</p><p>1849), dados referentes à moradia e trabalho do, então, professor de</p><p>música Michel Derrion e de sua participação na Société de Bienfai-</p><p>sance française. No Jornal O Socialista, da Província do Rio de Janei-</p><p>ro contém artigos escritos por Michel Derrion.271</p><p>Christophe Huger enviou uma carta, em 24 de março de 1850,</p><p>na qual comunicava os redatores daquele jornal a morte de Der-</p><p>268 Almanach phalanstérien pour 1851. p.175. Disponível: <http://premierssocialismes.</p><p>edel.univ-poitiers.fr/document/fd4533-1851/viewer> p.175 Acesso: julho de 2018.</p><p>269 Carta de Cásarine Gavinet do dia 19 de fevereiro de 1851, Rue de Sévres, 49, en Vaugi-</p><p>rard. Citado em GAUMONT, Op.cit.; In: S.THIAGO, Raquel, Op. cit.; p.158. Observa-</p><p>ção: Nota-se que Jean Gaumont se equivoca ao mencionar Cásarine Gavinet ao invés de</p><p>Lucienne Dominget ao tratar da “Vve Derrion”.</p><p>270 Carta da Vve. Derrion a Monsieur Allyre Bueau, Paris, 19 de fevereiro de 1851 in Alma-</p><p>nach Phalansterien,1852.</p><p>271 SARTORI, Op.cit.; p.27.</p><p>111Jardim das Utopias</p><p>rion.272 Como salienta Sartori, uma resposta foi enviada de Paris,</p><p>pois existe uma anotação no lado esquerdo do documento de Huger</p><p>em que se lê “répondu le 30 mai 1850”.273 Entretanto, é importante</p><p>frisar que, naquele momento, o jornal Le Démocratie Pacifique fora</p><p>alvo de retaliações:</p><p>“Os fourieristas, que participaram da journée du 13 juin</p><p>1849, foram caçados e seu líder, Victor Considerant, elei-</p><p>to deputado, foi obrigado a se exilar na Bélgica. Em meio a</p><p>tais repressões, os editores foram obrigados a manter uma</p><p>circulação mínima do periódico até abril de 1850. No mês</p><p>de maio, as repressões se tornaram mais intensas e o jornal</p><p>deixou de circular até os primeiros meses do ano de 1851.</p><p>Todo este impasse político foi, muito provavelmente, o mo-</p><p>tivo pelo qual não houve uma única menção ao falecimento</p><p>de Derrion nas páginas do La Démocratie. Infelizmente, a</p><p>sua morte ocorreu no momento em que o movimento fou-</p><p>rierista encontrava-se em plena dispersão na Europa”.274</p><p>Assim, a merecida homenagem a Derrion pode não ter sido</p><p>publicada nas páginas dos veículos falansterianos por questões cir-</p><p>cunstanciais, isto é, devido ao contexto político daquele momento.</p><p>Lucie foi quem buscou glorificar a memória de Michel, seu marido.</p><p>Embora ela não tivesse seu nome escrito nas listas de subscrições dos</p><p>societários fourieristas, ela se engajou ao lado de Derrion, em tudo.</p><p>Não sabemos quase nenhum dado biográfico de Lucie. A vida de</p><p>Lucie, em seu silêncio, diz-nos muito, pois evidencia uma mulher</p><p>272 Lettre de M. Huger aux editeurs du Démocratie Pacifique, Rio de Janeiro, 24 mars</p><p>1850, Apud SARTORI, Op.cit.; p.208.</p><p>273 Ibidem.</p><p>274 No mesmo ano em que foi eleito deputado, Victor Considerant se envolve na rebelião</p><p>contra Napoleão III. Nas páginas do Jornal La Démocratie Pacifique, o responsável dos</p><p>fourieristas públicas notas dizendo que o rei havia violado a Constituição francesa e a re-</p><p>solução que impedia o corpo de expedicionários de atacar Roma e se envolver nas questões</p><p>acerca da Igreja Católica. Cf. CORDILLOT, Miche. Utopistas et exilés du Nouveau Mon-</p><p>de. Paris: Vendémiaire. 2013. p.87-102.; DESANTI, Dominique. Les socialistes de l’utopie.</p><p>Paris: Petite bibliothèque Payot. 1970. p.201-208. apud Ibidem.</p><p>112 Gleison Vieira</p><p>de espírito estóico que perseguia a obstinação utopista de Derrion.</p><p>Em seu silêncio, vê-se uma força que a equipararia à notoriedade</p><p>de feministas contemporâneas a ela, como Flora Tristan (feminista</p><p>conhecida de Joseph Reynier), Jeanne Deroin ou Désirée Gay.275 Se-</p><p>gundo Christophe Huger, o único que falou de Lucie, ela foi uma</p><p>“femme toute phalansterienne!”.276</p><p>12. A ressurreição de Michel Derrion</p><p>No início do século XX, no exato momento do centenário</p><p>de nascimento de Michel Derrion, Justin Godart (1871-1956),277</p><p>pesquisador do movimento operário em Lyon, foi convidado para</p><p>ministrar uma conferência na École des hautes études cujo tema es-</p><p>tava vinculado ao “Etude géographique, historique et critique des faits</p><p>sociaux”.278 Sendo um lionês de origem, ele consagrou a sua apre-</p><p>sentação à “Les origines de la coopération lyonnaise”, cujo texto seria</p><p>publicado um ano depois na Revue d’histoire de Lyon. Segundo Go-</p><p>dart, a pesquisa começou nos arquivos da cidade e com a leitura do</p><p>livro de Eugene Flotard.279</p><p>Com efeito, Godart analisou os motivos que levaram o meio</p><p>operário lionês, sobretudo aquele dos tecelões de Croix-Rousse, a se</p><p>275 Flora Tristan (1803-1844), famosa operária peruana, feminista saint-simoniana e fou-</p><p>rierista; Jeanne Deroin (1805-1894), costureira de Paris, famosa feminista saint-simoniana</p><p>e fourierista; Désirée Gay (1810-1891), costureira feminista francesa, conhecida pelos pró-</p><p>prios Fourier e Victor Considerant.</p><p>276 Lettre de Huger aux Rédacteurs du Journal La Démocratie Pacifique, Rio de Janeiro, 24</p><p>mars 1850.</p><p>277 Justin Godart nasceu em Lyon. Ingressou na Faculdade de Direito em 1891, onde ob-</p><p>teve o seu doutorado com a tese sobre L’ouvrier en Soie. Monographie du Tisseur Lyonnais</p><p>– Etude Historique, Economique et Sociale L’ouvrier en Soie. Nos anos seguintes, Godart foi</p><p>eleito prefeito de Lyon, deputado e senador do Rhône, com base no movimento radical-so-</p><p>cialista. Em 1918, fundou a Ligue contre le cancer, e l’Union internationale contre le cancer</p><p>. Ele faleceu em 1956 à Paris.</p><p>278 GODART, Justin. Les origines de la coopération lyonnaise. In.: Revue d’histoire de</p><p>Lyon. Lyon, 1904. pp.334-348 ; 409-426.</p><p>279 FLOTARD, Eugene. Le Mouvement coopératif à Lyon et dans le Midi de la France. Paris:</p><p>Librairie des sciences sociales. 1867.</p><p>113Jardim das Utopias</p><p>tornar sensível às ideias de reformas sociais durante os séculos XVIII</p><p>e XIX. A concentração de trabalhadores e os abusos por parte da polí-</p><p>tica despótica da seda potencializaram a circulação de ideias reformis-</p><p>tas. Ali, as filosofias revolucionárias de Saint-Simon, Bazard, Enfantin</p><p>e Fourier encontraram eco. Em Croix-Rousse, constituíram-se asso-</p><p>ciações que buscavam melhorar a vida dos inúmeros trabalhadores da</p><p>seda, focadas nas relações de força com os poderes locais. Em meio</p><p>às leituras acerca de Fourier, les Mutuelistes, Les Travailleurs Unis, o</p><p>pesquisador teve acesso ao livro de memória de Joseph Reynier.280 Ao</p><p>realizar a leitura dessa autobiografia é que Godart conheceu a Société</p><p>du Devoir Mutuel, que atuou em Lyon entre os anos de 1828 e 1832,</p><p>e descobriu que Reynier havia fundado, em 1835,</p><p>“com um homem chamado Michel, uma mercearia coopera-</p><p>tiva, na Grand-Côte (...) seguindo a teoria de Charles Fou-</p><p>rier, o grande economista: Trabalho, Capital, Talento”.281</p><p>A pesquisa inicial de Godart buscava entender as origens do coo-</p><p>perativismo operário em Lyon e suas ideias reformistas, porém, os dados</p><p>referentes à existência de uma épicerie coopérative e o seu fundador o</p><p>levaram a fazer algumas alterações no texto inicial da sua conferência.</p><p>Assim, um resumo foi anexado com o título “Note sur le Commerce Vé-</p><p>ridique et Social”,282 assim como, uma nota de rodapé na qual se lê:</p><p>“Num estudo que estamos preparando sobre a participação</p><p>dos lioneses na criação e desenvolvimento de colônias corpo-</p><p>rativas na América, teremos a oportunidade de falar nova-</p><p>mente sobre Derrion, que foi um dos fundadores da Union</p><p>Industrielle em 1841”.283</p><p>Desde que o texto foi publicado na Revue d’histoire de Lyon, ele</p><p>despertou a curiosidade de um grupo de estudiosos do cooperativis-</p><p>280 REYNIER, Joseph. Mémoires-Ancien Tisseur. Lyon. 1898.</p><p>281 Ibidem apud SARTORI, Op.cit. p.41.</p><p>282 GODART, Op.cit., p.422-426.</p><p>283 Ibidem. p.424.’</p><p>114 Gleison Vieira</p><p>mo. Seria desse mesmo meio que apareceria, durante as décadas de</p><p>1920 e 1950, alguns artigos e uma biografia sobre Michel Derrion e</p><p>sua relação com o movimento cooperativista em Lyon entre os anos</p><p>de 1835 e 1837.284 Justin Godart, com o auxílio do historiador Jean</p><p>Gaumont (1876-1972), passou a “utilizar a história de Michel Derrion</p><p>para conceber uma memória histórica do cooperativismo lionês a nível</p><p>nacional”.285 Em 1935, Jean Gaumont escreveu a biografia cronoló-</p><p>gica de Derrion, na qual destacou a importância de Croix-Rousse, da</p><p>indústria da seda e do movimento fourierista na vida do personagem.</p><p>Como ressalta Sartori, “a frequente repetição do conceito de comércio</p><p>social com Derrion, inevitavelmente, limitaram a vida do personagem</p><p>ao círculo de estudos cooperativistas”, o que, consequentemente, “levou</p><p>o lionês a cair no esquecimento após o falecimento de Jean Gaumont em</p><p>1972”.286 Na história do cooperativismo, Derrion ficou no limiar en-</p><p>tre a memória e o esquecimento. No entanto, em Croix-Rousse ficou</p><p>os rastros deixados pelo grupo de Gaumont e Godart.</p><p>Nas décadas que se sucederam, destacou-se o trabalho do pes-</p><p>quisador italiano Mimmo Pucciarelli, que analisou todos os mode-</p><p>los alternativos que nasceram no quarteirão da Croix-Rousse entre</p><p>1975 e 1995, inscrevendo-os na descendência das primeiras utopias</p><p>trabalhistas.287 Seu número e seus campos de intervenção são im-</p><p>pressionantes: alojamento, creches, restaurantes, criação artística,</p><p>imprensa, ecologia, etc, sendo que a inovação social continua em</p><p>Lyon e noutros lugares, mesmo hoje. Em 2000, Mimmo Pucciarelli</p><p>284 Mencionam-se dois trabalhos nesse período que exemplificam as pesquisas que se fa-</p><p>ziam sobre a vida de Derrion: GAUMONT, Jean. Les Origines de la Coopération françai-</p><p>se: La première coopérative de consommation et les premiers coopérateurs. BONCOUR</p><p>Paul (dir.). Floréal : l’hebdomadaire illustré du monde du travail. 23 de Abril de 1921, 2e</p><p>Année - nº17. pp.382-388. BOUDOT, François. Michel Derrion et le Saint-Simonisme in</p><p>GIDE, Charles. LAVERGNET, Bernard (org). Revue des études coopératives. Nº99, Paris.</p><p>Janvier – mars 1955. pp.44-47.</p><p>285 SARTORI, Op.cit., p.69.</p><p>286 Ibidem.</p><p>287 PUCCIARELLI, Mimmo. Le rêve au quotidien. De la ruche ouvrière à la ruche alter-</p><p>native. Les experiences collectives de la Croix-Rousse 1975-1995. Lyon: Atelier de Creation</p><p>Libertaire, 1996.</p><p>115Jardim das Utopias</p><p>conheceu a história de Michel Derrion a partir dos escritos de Jean</p><p>Gaumont. Por sua vez, Pucciarelli reeditou uma parte dos escritos</p><p>de Derrion por vias do Atelier de Création Libertaire. Ao mesmo</p><p>tempo, ele organizou um Colóquio em Lyon que levou o nome de</p><p>“Michel-Marie Derrion, pionnier coopératif”.288 Além destas ativida-</p><p>des acadêmicas e editoriais, em Croix-Rousse um grupo criou a bi-</p><p>blioteca CEDRATS (Centre de Documentation et de Recherche sur</p><p>les Alternatives Sociales) que tem como imagem Derrion.289</p><p>Em meio às pesquisas de estudiosos e ação de militantes huma-</p><p>nistas que edificaram a biografia de Derrion, no final dos anos 2000, o</p><p>próprio quarteirão da Croix-Rousse também tomou para si a imagem</p><p>de Derrion enquanto um ícone. Entretanto, como ressalta Sartori,</p><p>“enquanto Mimmo tinha o objetivo de abordar o socialis-</p><p>mo a partir da experiência de vida de Michel Derrion, o</p><p>bairro, por sua vez, tomou as vias capitalistas. Redesenhan-</p><p>do o seu espaço urbano, com pequenos tijolos comemora-</p><p>tivos que indicam personalidades e eventos importantes, a</p><p>Croix-Rousse vai se valer do seu passado revolucionário e</p><p>da fábrica da seda para vender certa imagem aos turistas”.290</p><p>A ressurreição de Michel Derrion também foi tomada, em par-</p><p>te, por essa dinâmica. Em folders turísticos, nos quais se apontam os</p><p>rumos para os viajantes, Derrion aparece em meio ao “mini guide de</p><p>la soie”. Ali, indicava-se o local onde fora instalada a primeira épice-</p><p>rie sociale, no qual, atualmente, funciona um bar teatro, chamado</p><p>Le Shalala. Esse bistrô artístico se situa no térreo do prédio 95 da</p><p>Montée de la Grande Côte, onde se vê uma pequena placa cinza,</p><p>instalada bem no alto do primeiro</p><p>de picadões litorâneos, conectando o extre-</p><p>mo norte (Três Barras e o Saí, Sahy na grafia antiga) ao sul, em La-</p><p>guna. Todo o trabalho na Linha entre Três Barras e o rio Cubatão</p><p>ficou sobre a supervisão do Coronel Francisco d’Oliveira Camacho,</p><p>um homem influente em de São Francisco do Sul. Aquela Falla nos</p><p>fornece detalhes sobre a obra:</p><p>“INSTRUÇOES PARA A ABERTURA DA ESTRADA</p><p>A CORITIBA. (§) A Estrada da Coritiba deve principiar-</p><p>-se alargando a picada que já existe e principia na margem</p><p>direita do Rio das Três Barras, e se dirige dahi á Serra Ge-</p><p>ral ao Sul do morro chamado – Crista de Gallo (...). O ad-</p><p>ministrador desta estrada terá a seu cargo, não só a direção</p><p>immediata constante do trabalho, mas o sustento de todos os</p><p>trabalhadores, tirando dos seus salários, huma parte razoá-</p><p>vel para ella lhe fazer hum rancho farto em que possão comer</p><p>tres vezes ao dia; esta quantia será regulada de commum ac-</p><p>cordo com o Sr. Commandante Militar do Distrito”.10</p><p>9 Discurso pronunciado pelo presidente da província de Santa Catarina, o Marechal de</p><p>Campo Francisco José de Souza Soares d’Andréa, na sessão ordinária do ano de 1840,</p><p>aberta no primeiro dia do mês de março. Cidade do Desterro, Tip. Provincial, 1840; p.34</p><p>(Arquivo Nacional do Rio de Janeiro).</p><p>10 Idem ref. 11; p.67 (Arquivo Nacional do Rio de Janeiro).</p><p>17Jardim das Utopias</p><p>Existem lendas estravagantes a respeito do Caminho do Monte</p><p>Crista, as quais buscam explicar a origem da escadaria de pedra que</p><p>serpenteia aquele elevado: uma delas afirma que o caminho faz parte</p><p>do antigo Peabiru; outra alega, sem factualidade, que o calçamento foi</p><p>construído no século XVIII a mando dos jesuítas; outra ainda, mais</p><p>absurda, defende que os próprios incas seriam os construtores da es-</p><p>cadaria. Obviamente, é um despautério repleto de anacronismos e ilo-</p><p>gismos... Fato é que na véspera de natal de 1757, “o ajudante Antônio</p><p>Pereira da Silva (...) dissera à Câmara que a ocasião não era favorável</p><p>aos trabalhos da ABERTURA DO CAMINHO DA SERRA”; porém,</p><p>brevemente, em “06 de maio de 1758, a mesma Câmara incumbiu</p><p>a João Mor Vieira de abrir a picada de Curitiba”.11 Ainda sobre isso,</p><p>como lembra Julio Moreira, “até 1850, não existem informações his-</p><p>tóricas sobre o calçamento da estrada de Três Barras, no trecho da Ser-</p><p>ra, cuja escadaria conduz quase ao cume do Monte Christa”.12 Com isso,</p><p>afirma-se que “esses degraus e o calçamento foram feitos no período da</p><p>administração de João José Coutinho, em 1852, conforme suas ‘falas’”.13</p><p>A partir d’A Falla daquele relatório citado, percebemos que foi</p><p>repassado um orçamento para o pagamento de salários – e salários, no</p><p>Brasil Império, só eram pagos a homens livres ou aforados, ou então,</p><p>por uma “terceirização” de mão escrava (escravo de ganho), de um ou</p><p>outro responsável pelas obras, no caso, do fazendeiro Coronel Francis-</p><p>co de Oliveira Camacho (1784-1862), político relevante na província</p><p>e que possuía uma escravaria de quase 40 cativos. O trabalho na es-</p><p>cadaria do Monte Crista só poderia ser utilizado de mão assalariada</p><p>em uma empreitada – há não ser que houvesse alguma improbidade</p><p>administrativa, o que não se descarta. Ora, não há registros da referida</p><p>escadaria antes de 1852, quando da administração de João Coutinho.14</p><p>11 NASCIMENTO, Antônio R. A filha do Presidente Tovar e Albuquerque. In Blumenau</p><p>em cadernos. Tomo XXIX, nº10, outubre de 1988, p.289-295.</p><p>12 MOREIRA, Julio Estrela. Caminhos das Comarcas de Curitiba e Paranaguá: até a eman-</p><p>cipação da. Província do Paraná. Curitiba: Imprensa Oficial, 1975. 3 v. p.128.</p><p>13 Ibidem.</p><p>14 FICKER.. Carlos. História de Joinville. Joinville: PMJ, 1965; p.141.</p><p>18 Gleison Vieira</p><p>O caminho das Três Barras foi escolhido para iniciar a Linha</p><p>da Defesa devido a sua importância: a comunicação com a Vila de</p><p>Curitiba, por onde descia o gado até São Francisco. As obras de</p><p>construção da Estrada da Serra, pelo caminho da Dona Francisca,</p><p>iniciaram-se em 1856, fazendo com que o caminho das Três Barras</p><p>perdesse sua função principal. Em um segundo momento se avaliou</p><p>a questão indígena no Crista, onde não constavam aparição indígena</p><p>hostil relevante desde 1818: “Na fazenda das Três Barras, onde ‘há</p><p>trinta annos não consta da apparição alguma de Gentio.15</p><p>O texto que se segue mostra como era o posto militar da Estra-</p><p>da Três Barras (e as outras ao longo da Linha da Defesa):</p><p>“Huma estrada nesta natureza deve principiar-se por huma</p><p>simples picada, limpando o mato, e seguindo os accidentes do</p><p>terreno, costeando sempre a Serra Geral, desde hum extremo</p><p>até ao outro da Provincia - na margem direita do rio das Tres</p><p>Barras junto à fralda da Serra, (...). Neste logar será o primeiro</p><p>Posto, hum reducto quadrado, formado com fortes estacas unidas</p><p>de quatorze palmos de altura, terminadas em pontas agudas, e</p><p>acompanhadas por dentro de huma banqueta a que possão subir</p><p>os deffensores e atiradores para fora; este reduto deve ter huma</p><p>oa porta, quanto a grossura e ferragem, e tão estreita que só possa</p><p>entrar hum Cavallo - Dentro deste reducto deve ellevar-se hum</p><p>Quartel sobre quatro esteios de dois palmos de diametro ou pelo</p><p>menos de palmo e meio e bem lizo até a altura de vinte palmos,</p><p>de cuja altura para cima se formará a caza com hum alçapão e</p><p>huma escada de mão, que devem recolher todas as noites para</p><p>nella morarem os Soldados que guarnecerem o Posto - Esta caza</p><p>deve ter vinte palmos em quadro e nesgamentos ou seteiras, em</p><p>todos os sentidos com corrediças por dentro para que os deffensores</p><p>[sem poderem ser vistos nem offecidos pelos Bugres] os possa ferir</p><p>a seu salvo, e sustentar attaque por muitas horas ou dias, para</p><p>o que terão sempre mantimentos e agoa de sobrecelente. - estas</p><p>15 Op.,cit; p.140.</p><p>19Jardim das Utopias</p><p>Cazas,ou Quarteis alternados devem ser cobertos de Taboas,ou</p><p>Telhas, sendo isto possivel, e de modo nenhum de palha. (...)</p><p>Quartel General na Villa da Graça em 7 de fevereiro de 1840. -</p><p>Francisco José de Souza d’Andréa”.16</p><p>Naquela carta do Dr. Mure, datada de 27 de fevereiro de 1841,</p><p>há mais um referimento interessante sobre a região:</p><p>“Enfim, e voltando ao objecto principal desta carta: o terreno</p><p>que aparece mais conveniente para a minha colônia é a penín-</p><p>sula situada defronte a Ilha de S. Francisco, no triangulo, cujos</p><p>três lados são banhados pelo Rio S. Francisco, Pelo Palmitar até</p><p>o Sahy Grande, e pelo mar grosso. Doucteur Benoit Mure”.17</p><p>Vale lembrar que o citado rio Saí Grande (rio Saí Guaçu) era um</p><p>rio navegável para canoas, com as quais se oportunizaram transportes de</p><p>mercadorias do litoral, adentrando até o interior do continente, alcan-</p><p>çando a região de Minas Velhas, onde brota sua nascente, no interior da</p><p>península; o canal do Palmital é um prolongamento da Baía da Babiton-</p><p>ga, sendo que durantes séculos viesse a ser confundido por nautas como</p><p>um rio; e o rio Palmitar é, claro, o rio Palmital (Rio Palma).</p><p>A citação do nome deste rio como sendo “Palmitar” aparece em</p><p>no mapa do “Excellentíssimo Conselheiro e Tenente Coronel d’Enge-</p><p>nharia Jerônimo Francisco Coelho”. Esse foi designado pelo aviso da</p><p>secretaria do Estado dos Negócios do Império, em 22 de setembro</p><p>de 1845, para fazer uma medição e demarcação das 25 léguas qua-</p><p>dradas da Colônia Dona Francisca. Nisso, Jerônimo Coelho realizou</p><p>medições não somente da Colônia que corresponde à atual região de</p><p>Joinville, mas também, incluindo a Ilha da Vila de São Francisco e o</p><p>Districto do Sahy, ao qual chegou a ser nomeado intendente, mas não</p><p>pôde assumir por se tornar deputado, passando a incumbência ao Ins-</p><p>16 Discurso pronunciado pelo presidente da província de Santa Catarina, o Marechal de</p><p>Campo Francisco José de Souza Soares d’Andréa, na sessão ordinária do ano de 1840, aber-</p><p>ta no primeiro dia do mês de março. Cidade do Desterro, Provincial, 1840; p.49. (Arquivo</p><p>Nacional do Rio de Janeiro).</p><p>17 Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Vol. 3; p.13.</p><p>20 Gleison Vieira</p><p>petor Mafra. Sem dúvida o que chama a</p><p>andar do prédio. Nessa placa</p><p>podemos ler: “Ici fut fondé en 1835/ Par Michel Derrion et Joseph</p><p>288 Colloque Michel-Marie Derrion (1803-1850), ou l’utopie de l’économie sociale: quelle</p><p>histoire pour quel avenir (Lyon, 8 a 10 de junho de 2000).</p><p>289 Ver Anexo 01.</p><p>290 SARTORI, Op.cit., p.70.</p><p>116 Gleison Vieira</p><p>Reynier/ La Première Coopérative Française de Consommation”.291</p><p>Seguindo os pontos turísticos da Croix-Rousse, chega-se ao</p><p>Jardin de Plante de Lyon, uma praça onde está instalado um monu-</p><p>mento, uma tulipa de pedra, em homenagem ao cooperativismo. O</p><p>vaso, que está no topo do monólito e adornado por uma cornucópia</p><p>(símbolo greco-romano de fertilidade e abundância), vemos a face</p><p>em perfil do canut Joseph Reynier (1811-1892) e o perfil de Derrion.</p><p>Graças aos movimentos de Godart, Gaumont e Mimmo Pucia-</p><p>relli, em Croix-Rousse, a vida de Michel Derrion pôde novamente</p><p>ascender. Essa vida, contemplada enquanto estudo de caso, como</p><p>lembra Bayon, serve-nos como “pretexto para apresentar, para ques-</p><p>tionar as utopias econômicas, as de ontem, de hoje e de amanhã”.292 A</p><p>aventura derrioniana entre dois mundos o tornou uma espécie de</p><p>“Fausto Lionês” – prodigioso, lutando para além da força humana;</p><p>um portal no qual vemos o arquétipo do revolucionário, ser audaz</p><p>tomado pelo desejo incontrolável de mudar o mundo para algo me-</p><p>lhor. Metaforicamente, ao se ressuscitar a vida de Derrion, temos</p><p>um cobertor tecido pelas mãos de Godart, Gaumont e Mimmo Pu-</p><p>ciarelli, no qual foi engendrado “pedaços de tecidos costurados pela</p><p>mão de cada grupo e de cada pessoa que contou a sua vida em Lyon, no</p><p>interior da Croix-Rousse do século XIX”.293</p><p>A biografia de Derrion não recebeu um sopro vital apenas na</p><p>França; ela ganhou páginas novas também no Brasil, sobretudo no</p><p>meio acadêmico e artístico. Em 1992, no Brasil, a comunidade da</p><p>Vila da Glória, região do Saí,294 consagrou diversas ações com o</p><p>objetivo de festejar os 150 anos da Colônia do Saí, chamada comu-</p><p>mente pelos moradores locais de “falanstério”. O responsável pela</p><p>291 Ver Anexo 01.</p><p>292 BAYON, Denis, Le Commerce Véridique et Social, de Michel-Marie Derrion. Lyon,</p><p>1835-1838; Petites visites chez les utopies coopératives de nos grand-parents. Lyon; Atelier de</p><p>Creation Libertaire, 2002.</p><p>293 SARTORI, Op.cit., p.71.</p><p>294 Vila da Glória é a região do Saí na qual os falansterianos aportaram e criaram a Casa</p><p>Picot (Ver mapa do Saí e do Palmital no início do livro).</p><p>117Jardim das Utopias</p><p>organização dessas homenagens foi o saudoso Aurélio Alves Ledoux</p><p>(1929-2006), bisneto do casal falansteriano Rose e Leon Ledoux.295</p><p>Dentre as famílias falansterianas, a Ledoux é aquela que mais deixou</p><p>descendentes na região do extremo norte de Santa Catarina, onde se</p><p>situa o Saí e o Palmital. Naquele mesmo ano, o grupo teatral TEU</p><p>organizou o espetáculo “Sahy dos Sonhos”, no qual Derrion pôde ga-</p><p>nhar corpo novamente.296</p><p>Entre os anos de 1994 e 1995, novas pesquisas acadêmicas re-</p><p>tomaram a história da colonização falansteriana do Saí e do Palmi-</p><p>tal.297 Nessas pesquisas, como afirma Sartori, “o duo Jamain-Derrion</p><p>não aparece mais como o único culpado pelo insucesso societário”; uma</p><p>vez que “a causa do infortúnio estava baseada numa disputa ideológi-</p><p>ca entre os ex-saint-simonianos convertidos ao fourierismo”.298</p><p>Nos últimos anos, no Brasil, as investigações históricas sobre</p><p>os rastros de Derrion tiveram acréscimos no meio acadêmico. Des-</p><p>taca-se as produções coordenadas pelo professor de história con-</p><p>temporânea na Universidade de La Rochelle, Laurent Olivier Vidal.</p><p>Interessado pelo estudo da circulação de pessoas e ideias no espaço</p><p>atlântico, Vidal investiga, atualmente, a presença francesa no Brasil</p><p>durante o século XIX, o que incluiu o Falanstério do Saí.299 Dentre</p><p>295 FLORES, Maria Bernardete R., SARTORI, Carina, CAMPOS, Emerson C. Les traces</p><p>de la présence française dans le terres du Sahy: les cas de la famille Ledoux. In.: VIDAL, Lau-</p><p>rent; LUCA, Tania R. de (dir.). Les Français au Brésil (XIXe - XXe siècles). Paris: Rivages</p><p>des Xantons. 2011. p. 481-497.</p><p>296 O grupo de teatro TEU - Teatro de Expressão Universitária – representou a história</p><p>dos franceses em “Sahy dos Sonhos”. Dirigido por Silvestre Ferreira, o elenco contou com a</p><p>presença de Borges de Garuva, Marta Heinzelmann e Laércio Amaral.</p><p>297 GÜNTLER, Antônio Carlos. A Colonização do Saí (1842-1844). Esperança de Falans-</p><p>terianos expectativa de um governo. Florianópolis: Dissertação de Mestrado em História,</p><p>UFSC. 1994.; GÜNTLER. Derrion no Brasil: As colônias do Saí e do Palmital, 2002.;</p><p>THIAGO, Raquel S., Fourier: esperança e utopia na península do Saí. Blumenau: ed. Furb,</p><p>ed. UFSC, 1995.</p><p>298 SARTORI, Op.cit., p.42.</p><p>299 Laurente Vidal e diretor de pesquisa em história do Brasil no Institut des Hautes Études</p><p>de l’Amérique Latine (Université de Paris III Sorbonne Nouvelle). É diretor-adjunto do</p><p>Centre de Recherche en Histoire Internationale et Atlantique, que reúne 50 pesquisadores</p><p>das universidades de Nantes e La Rochelle e 100 doutorandos. Foi professor convidado da</p><p>118 Gleison Vieira</p><p>os orientandos dele, um destaque para Carina Sartori, que desenvol-</p><p>veu sua pesquisa de doutorado em História a partir da reconstrução</p><p>biográfica da vida de Michel Derrion.300 Sua tese, que em grande</p><p>parte dá base a este trabalho, tem o título Entre a França e o Brasil:</p><p>o Itinerário Atlântico de Michel-Marie Derrion (1803-1850), defen-</p><p>dida em 2019. O trabalho de Sartori, tese robusta, recria a vida de</p><p>Derrion por meio de uma vasta reunião documental, desde seu nas-</p><p>cimento em Lyon até seu falecimento no Rio de Janeiro.</p><p>Todavia, ficou uma lacuna: onde se estabeleceu, precisamen-</p><p>te, a Colônia do Palmital, cujos falansterianos eram liderados por</p><p>Derrion? E, atualmente, o que nos revelam as águas do rio Palmi-</p><p>tal, cujas margens testemunharam os esforços de Michel Derrion?</p><p>Como a região do município de Garuva, em Santa Catarina, Brasil,</p><p>pensa esse personagem histórico?</p><p>Somente no início dos anos 2000 é que Michel Derrion passa-</p><p>ria a ser mencionado em Garuva, extremo norte do Estado brasilei-</p><p>ro de Santa Catarina, onde Derrion fundou a Colônia do Palmital.</p><p>Aqui, permito-me usar a primeira pessoa do singular para continuar</p><p>o texto, uma vez que sou residente justamente em Garuva...</p><p>No ano de 2000, na faculdade de História da UNIVILLE</p><p>( Joinville, Santa Catarina), fui aluno da Profa. Dra. Raquel San</p><p>Thiago, autora da obra Fourier: Sonho e Utopia na Península do Saí.</p><p>Alí, em suas aulas, o nome de Michel Derrion me chamou a atenção,</p><p>por estar ligado ao rio Palmital, região distante 8 km de minha resi-</p><p>dência. Em 2003, eu iniciei uma pesquisa histórica em toda a região</p><p>de Garuva, justamente pela carência de referenciais historiográficos.</p><p>Tomei a decisão de revisitar a história dos franceses falansterianos</p><p>do Saí e do Palmital; reli a obra de Raquel San Thiago; centenas de</p><p>Universidade Federal de Goiás (2000), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008) e</p><p>da UNESP-Assis (2011), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2017). Foi vice-pre-</p><p>sidente do Institut des Amériques (2007 - 2010). É sócio correspondente estrangeiro do</p><p>Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB) desde 2012.</p><p>300 Carina Sartori é historiadora formada pela UFSC (2008), doutora pela Unesp-Assis,</p><p>(Brasil) e Universidades de La Rochelle, França, onde trabalha atualmente.</p><p>119Jardim das Utopias</p><p>horas de consulta no Arquivo Histórico de Joinville, onde se locali-</p><p>za a documentação referente à Colônia do Saí e do Palmital. Juntan-</p><p>do fontes históricas diversas e referências bibliográficas, publiquei a</p><p>obra Porto Barrancos (2007), na qual, entre outras temáticas, reto-</p><p>mei a história da Colônia do Palmital.</p><p>A minha compreensão sobre a biografia de Derrion e a impor-</p><p>tância de sua história somente foi possível graças à obra de Denis</p><p>Bayon, Le Commerce Véridique et Social, de 2002. Em 2008, apre-</p><p>sentei o artigo Derrion e a Educação da Superação no I POIETHOS</p><p>- Simpósio Nacional sobre</p><p>Política, Ética e Educação, na Faculdade</p><p>de Educação da UNICAMP. O texto se referendava na leitura da</p><p>Constituição da Indústria e Organização Pacífica do Comércio e do</p><p>Trabalho (1834). Desenvolveram-se reflexões a partir das ideias co-</p><p>operativistas de Derrion em correlação com a filosofia pedagógica</p><p>de Paulo Freire, fomentando “a proposta de uma educação que vise a</p><p>sustentabilidade e o pleno desenvolvimento humano”.301</p><p>As informações sobre Derrion que estavam especificadas em</p><p>meu livro chamaram a atenção do espanhol Adrià Julià, artista</p><p>formado na Universidad de Barcelona, residente em Los Angeles</p><p>(USA). Adrià Julià ingressou no California Institute of the Arts, em</p><p>Valencia (Califórnia), e seus trabalhos incluem instalações multi-</p><p>mídia e performances. Em 2008, ele veio ao Brasil estudar as ex-</p><p>periências falansterianas no Saí e no Palmital, ocasião na qual nos</p><p>encontramos. Eu e Adrià fizemos uma expedição, navegando pelas</p><p>águas nas quais Derrion e Lucienne depositaram suor e lágrimas.</p><p>Desse movimento, foi editado um dos filmes do projeto Ruínas da</p><p>Fala (“Ruins of Speech”, 2009), apresentado na 7ª Bienal do Mer-</p><p>cosul, em Porto Alegre (Brasil). Nesse trabalho, reuniam-se diver-</p><p>sos personagens brasileiros ligados à história do falanstério do Saí</p><p>e do Palmital. No ano seguinte, por ocasião da 29ª Bienal de São</p><p>301 VIEIRA, Gleison. Derrion e a Educação da Superação. In: NUNES, César. BOLLI-</p><p>GER, Gustavo. MARQUES, Fabiana, BOLOGNESI, Roselaine (orgs). Anais do Iº.</p><p>POIETHOS - Simpósio Nacional sobre Política, Ética e Educação. FE/UNICAMP: Cam-</p><p>pinas. 2008. p.78.</p><p>120 Gleison Vieira</p><p>Paulo, Adrià Julià organizou o espetáculo performático A cantora,</p><p>o fourierista e a política aplicada ao apetite. Sob sua direção, o espe-</p><p>táculo foi apresentado na noite de 22 de julho de 2010, no Teatro</p><p>Arena, em São Paulo, contando com a participação da cantora líri-</p><p>ca Madalena Bernardes (São Paulo), o artista performático Carlos</p><p>Alberto Franzoi ( Joinville) e eu, Gleison Vieira (Garuva).302</p><p>Ainda naquele ano, eu participei do curta-metragem As Bor-</p><p>boletas do Imperador (Set.Com, 2010), um documentário dirigi-</p><p>do por Bhig Villas Boas. Nesse drama documental, Dom Pedro</p><p>II (interpretado pelo ator Frank Graff ), exilado em Paris após o</p><p>golpe republicano de 1889, ao adormecer lendo a obra Le Pha-</p><p>lanstère, encontra-se em sonho com Charles Fourier (interpretado</p><p>pelo ator Roberto Morauer). Em meio ao diálogo dos dois per-</p><p>sonagens, o filme apresenta reflexões de estudiosos da história da</p><p>Colônia do Saí e do Palmital. No exato momento em que escrevo</p><p>essas linhas, eu estou concluindo a tradução do livro Constituição</p><p>da Indústria, de Derrion, além de me preparar para minha primei-</p><p>ra visita à Croix-Rousse, em Lyon ( Julho de 2024).</p><p>Em reconhecimento a memória de Derrion, a Prefeitura Mu-</p><p>nicipal de Garuva conferiu seu nome a uma rua, por meio da lei nº</p><p>2.152, de 16 de Agosto de 2019.</p><p>Quem foi e quem é Derrion? Melize Zanoni o percebe como um</p><p>tecelão chiffonier, um trapeiro que teceu trapos diversos que o trans-</p><p>formaram em um ser complexo e arquetípico; como ressalta Carina</p><p>Sartori, “se todos estes retalhos buscavam encaixar Michel Derrion num</p><p>tecido único, o que ele diria de si mesmo? De toda maneira, Michel Der-</p><p>rion foi acordado de seu silêncio”.303</p><p>Nesse esforço, é oportuna as próprias palavras de Derrion,</p><p>302 Esse espetáculo foi uma leitura performática de fragmentos de textos de Fourier e da</p><p>pesquisa de Adrià Julià. Os leitores ocuparam tanto os camarins e os bastidores quanto o</p><p>palco principal do Teatro Arena. O evento foi uma continuação de Ruins of Speech, uma</p><p>instalação de cinema e vídeo composta de fragmentos de relatos acerca de um projeto de</p><p>colonização do século XIX.</p><p>303 SARTORI, Op.cit., p.71.</p><p>121Jardim das Utopias</p><p>sobre si mesmo, publicadas em seu livro Constituição da Indústria,</p><p>de 1834:</p><p>“... Não sou de nenhum partido político, tenho amigos em</p><p>todos os lugares, afetos em todos os lugares, mas não estou li-</p><p>gado a nenhuma sociedade exclusiva, não tenho juramento a</p><p>cumprir, sou EU... inteiramente devotado à grande família</p><p>humana”.304</p><p>304 DERRION, Michel-Marie. Constitution de l’Industrie et Organisation Pacifique du</p><p>Commerce et du Travail,. Lyon: Libraire Mme Durval, Imprimerie de L. Boitel, 1834. p.09.</p><p>122 Gleison Vieira</p><p>123Jardim das Utopias</p><p>ÉPILOGO</p><p>O “chiffonier de la mémoire”305 – costurando utopias</p><p>Melize Zanoni306</p><p>Em meados do século XVIII, a história, até então tratada de</p><p>forma desarticulada, como um emaranhado de acontecimentos atri-</p><p>buídos ao comando divino e que não se conectavam entre si, passa</p><p>a ser vista como um movimento global, coletivo e fluído. A história</p><p>passa a ser a História da Humanidade, com acontecimentos inseridos</p><p>em um contexto, que afetam e são afetados continuamente. A par-</p><p>tir da Revolução Francesa, um conceito moderno de história emerge,</p><p>concebido como um organismo vivo, transformável e transformador,</p><p>contextualizado e compatível com os anseios de classes sociais, de gru-</p><p>pos específicos ou do próprio Estado, no qual o homem passou a res-</p><p>ponsabilizar-se por seu destino, passado e futuro.</p><p>Essas mudanças de perspectiva da história, que aconteceram ain-</p><p>da no século XVIII, intensificaram-se no século posterior com a “filo-</p><p>sofia da história”, nomeada dessa forma por Voltaire, o que posicionou</p><p>a disciplina enquanto científica. Filósofos como  Hegel  ressignifica-</p><p>ram o conceito de história e, entre seus herdeiros, o alemão Karl Marx,</p><p>foi o principal estruturador do conceito moderno de História, con-</p><p>ceito esse que abarcou outros dois conceitos importantes: o conceito</p><p>de revolução e o conceito de luta de classes. No século XIX, Marx e</p><p>Engels, em seu Manifesto Comunista, escrevem que a “sociedade civil é</p><p>o verdadeiro foco e cenário de toda a história, e o quão absurda é a con-</p><p>305 Esse termo foi utilizado por Georges Didi-Huberman em Devant le temps: histoire de</p><p>l’art et anachronisme des images, 1ª ed., 2005, para caracterizar o papel do historiador.</p><p>306 Atriz e doutora em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Santa Catarina</p><p>(UDESC, Brasil). Estudiosa da filosofia da estética pelo viés benjaminiado, tem experiên-</p><p>cia como atriz, dramaturga, diretora e preparadora de atores. É autora do livro De monstros</p><p>e fantasmas: A imagem do corpo grotesco no teatro e a sobrevivência da imagem. São Paulo:</p><p>Annablume, 2022.</p><p>124 Gleison Vieira</p><p>cepção histórica anterior que descuidava das relações reais, limitando-se</p><p>às pomposas ações dos príncipes e dos Estados”.307</p><p>A pesquisa de Gleison Vieira relaciona-se diretamente com os tex-</p><p>tos e pesquisas desse novo conceito de História, que por sua vez, abarca</p><p>o estudo das organizações sociais. Vieira investigou os falanstérios, um</p><p>tipo de sociedade anarco-socialista, que também teve suas incursões no</p><p>Brasil do século XIX. Nesse exótico incidente histórico, o homeopata</p><p>Jules Mure (cuja biografia está detalhada pelo autor), veio ao Brasil com</p><p>o objetivo de convencer o Imperador do país a contribuir e a apoiar a</p><p>implantação de um Phalanstère, o qual foi estabelecido Santa Catarina,</p><p>mais especificamente, na Península do Saí. No local, Mure, juntamente</p><p>com Michel Derrion, iniciaram uma das primeiras experiências falans-</p><p>terianas do mundo e a única do Brasil como descrevem as páginas ante-</p><p>riores, remetendo ao texto de Denis Bayon.308</p><p>A implantação de uma colônia francesa, onde se localizaria o fu-</p><p>turo centro homeopático do Dr. Mure, marca uma linha de ligação</p><p>direta entre o Brasil e a França, sendo esse um dos vieses que ligam os</p><p>dois países na história da região, já que Vieira estuda outros pontos de</p><p>ligação com as terras francesas. Na França, em 1830, após a Revolução</p><p>de Julho, foi restaurada a monarquia constitucional. A corte de Luís</p><p>Filipe de Orléans, que reinou até 1848, é retratada por Marx como a</p><p>“monarquia de julho”. Porém as classes verdadeiramente dominantes</p><p>na França nesse período era a aristocracia financeira e outra subclasse</p><p>da</p><p>burguesia, a burguesia industrial. Como afirmou Marx, “ela ocupou</p><p>o trono, ditou as leis nas câmaras, distribuiu cargos políticos desde o mi-</p><p>nistério até as agências de tabaco”.309</p><p>Nesse contexto, influenciado pelos ideais proletários da Revolta</p><p>dos tecelões de Lyon, ocorrida na década de 30 do século XIX, o ne-</p><p>gociante de seda e militante social Michel Derrion, protestou contra o</p><p>307 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2007,</p><p>p.39.</p><p>308BAYON, Denis. Le Commerce Véridique et Social de Michel-Marie Derrion, Lyon, 1835-</p><p>1838. Lyon: Atelier de Creation Libertaire, 2002.</p><p>309 MARX, Karl. As lutas de classes na França. São Paulo: Boitempo, 2012. p.29.</p><p>125Jardim das Utopias</p><p>massacre promovido pela armada francesa contra os rebeldes e aderiu</p><p>à filosofia socialista-industrial de Saint-Simon, tornando-se adepto da</p><p>religião saint-simoniana, teologia de transformação moral e social.</p><p>Ainda na década de 1830, Derrion concluiu a ideia do que seria a</p><p>primeira cooperativa de consumo francesa; criou um jornal e escreveu</p><p>artigos que falavam sobre o cooperativismo que almejava, demons-</p><p>trando uma mistura entre a filosofia de Saint-Simon (um socialismo</p><p>a partir da Indústria) e o cooperativismo de Charles Fourier (coope-</p><p>rativismo de livre adesão). Inaugurou a cooperativa Commerce Véridi-</p><p>que et Social, com foco em comercializar produtos sem intermediários</p><p>(atravessadores), aumentando os ganhos dos produtores, diminuindo</p><p>os custos para os consumidores e facilitando o rastreamento da ori-</p><p>gem e da qualidade dos produtos, o que aspirou fazer posteriormente</p><p>dentro das falanges ou falanstérios.310 Isso fica latente na citação de</p><p>Fourier em sua Teoria dos Quatro Movimentos, em uma citação frisa-</p><p>da por Walter Benjamin:</p><p>“Uma falange não vende mil quintais de trigo de qualidade</p><p>indefinida; ela vende mil quintais de trigo classificados em</p><p>escalas de cinco, seis ou sete variações de sabor, que ela experi-</p><p>mentou nas padarias e que ela diferencia segundo os terrenos</p><p>de colheita e os métodos de cultura... Um mecanismo desses</p><p>será o contrário do nosso mundo às avessas, de nossa civiliza-</p><p>ção que precisa se aperfeiçoar... Assim, vemos em nossa terra</p><p>alimentos de má qualidade, vinte vezes mais abundantes e</p><p>mais fáceis de vender que os bons..., que não sabemos nem</p><p>mesmo distinguir dos maus; a moral habitua os civilizados a</p><p>comer do bom e do ruim indiferentemente. Essa brutalidade</p><p>do gosto é a base de todas as trapaças dos comerciantes”.311</p><p>310 Espaço ou edifício que agrega democraticamente por volta de 1500 moradores de várias</p><p>classes, com diversas funções e diferentes comportamentos, que viveriam harmoniosamen-</p><p>te e, os quais, Fourier classificou em grupos.</p><p>311 FOURIER, Charles. Théorie des Quatre Mouvements, 1828, cit. em E. Poisson, Fourier,</p><p>Paris, 32, pp.134-135 apud BENJAMIN, W. 5.31, 2009 apud BENJAMIN, Walter, 1892-</p><p>1940. Passagens. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do</p><p>126 Gleison Vieira</p><p>Derrion denotou os problemas da compra e venda no capita-</p><p>lismo, temática desenvolvida futuramente por Marx, e experimen-</p><p>ta, na prática, as problemáticas decorrentes do sistema comercial,</p><p>quando se consolida a extinção de sua cooperativa, por incomodar</p><p>os interesses da sociedade lionesa daquele momento.</p><p>Ainda na primeira metade do século XIX, em 1840, Michel</p><p>Derrion e o médico Benoît Jules Mure (juntamente com os senho-</p><p>res Arnaud e Jamain) fundam a Union Industrielle, em Lyon, asso-</p><p>ciação que elaborou o estatuto do falanstério brasileiro e que selecio-</p><p>nou os imigrantes fourieristas que constituiriam a comunidade no</p><p>Brasil. Mure era um médico que estudou sobre a filosofia socialista</p><p>de Charles Fourier e sua comunidade se estabeleceria à frente da Ilha</p><p>do Alvarenga. Ambos, Mure e Derrion, viajaram para o Brasil com</p><p>a intenção de estabelecerem juntos uma colônia, mas após desen-</p><p>tendimentos diversos, Mure se fixou no Saí, São Francisco do Sul,</p><p>e Derrion levou seu grupo com 44 franceses a se fixar no Palmital.</p><p>Dessa forma, Mure e Derrion levaram mais de 200 imigrantes fran-</p><p>ceses a se estabelecerem no Brasil, entre os anos de 1842 e 1845,</p><p>divididos em dois núcleos coloniais.</p><p>Como assinala Vieira, a filosofia fourierista não pretendia excluir</p><p>as classes dominantes, pois tanto Saint-Simon como Fourier não visa-</p><p>vam um governo constituído pelo proletariado, como queriam Marx</p><p>e Engels, mas sim, um governo dos trabalhadores de todas as classes.</p><p>Por esse motivo, a elite brasileira não via ameaças no sucesso dos fa-</p><p>lanstérios, mas os desentendimentos entre Mure e Derrion causaram</p><p>uma cisão estrutural na implantação dessa sociedade utópica.</p><p>A princípio, utopia foi um termo utilizado para nomear socieda-</p><p>des imaginárias e perfeitas, relacionadas aos princípios filosóficos de</p><p>seus idealizadores. Quando Thomas More cunhou o termo utopia, o</p><p>fez claramente em um sentido negativo, para designar uma forma de</p><p>nomear uma sociedade impossível de se concretizar, algo que parece</p><p>positivo, mas que possui um caráter fantástico. More escreve:</p><p>Estado de São Paulo, 2009.</p><p>127Jardim das Utopias</p><p>“se repetisse as teorias que Platão expressa na sua República</p><p>e que os utopianos põem em prática, embora sejam efetiva-</p><p>mente superiores às que nos regem, admito que poderiam</p><p>parecer estranhas e absurdas”.312</p><p>A partir do século XIX, a utopia passa a ser entendida como</p><p>uma possibilidade real para valorizar e rever o que há de positivo ou</p><p>negativo em toda a sociedade. O imaginário utópico passa por uma</p><p>ação baseada no cientificismo, configurando um projeto de ciência</p><p>aplicada com possibilidades de auxiliar no pensamento de novas “es-</p><p>truturas sociais”. Como ressalta Ricoeur,</p><p>“É preciso resistir à sedução de expectativas puramente utó-</p><p>picas; elas só podem desesperar a ação; pois, na falta de uma</p><p>ancoragem na experiência em curso, elas são incapazes de</p><p>formular um caminho praticável dirigido para os ideais que</p><p>elas situam ‘alhures’ [...] Por outro lado, é preciso resistir ao</p><p>encolhimento do espaço de experiência. Para tanto, é preci-</p><p>so lutar contra a tendência a só se considerar o passado do</p><p>ponto de vista do acabado, do imutável, do irrevocável. É</p><p>preciso reabrir o passado, nele reviver potencialidades não</p><p>realizadas, contrariadas ou até massacradas”.313</p><p>O século XIX, berço de grandes revoluções e mudanças histó-</p><p>ricas conceituais, berço de pensadores e idealizadores de sociedades</p><p>utópicas, fomentou tanta necessidade de mudança posteriormente</p><p>que, nesse mesmo tempo, foi tomado pelo reativismo do mito do</p><p>progresso e seu conformismo, temática abordada por Walter Benja-</p><p>min314 em sua obra Passagens de Paris.315</p><p>312 MORE, Thomas. Utopia, 3ª ed. Mem Martins: Europa-América. Portugal, 1995, p.54.</p><p>313 RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa. (Tomo III). São Paulo: Editora WWF Martins</p><p>Fontes, 2010, p.367</p><p>314 Walter Benedix Schönflies Benjamin (1892-1940) foi crítico literário, escritor, tradutor,</p><p>filósofo e sociólogo judeu alemão. Alinhado à Escola de Frankfurt e à Teoria Crítica, foi</p><p>influenciado por autores marxistas.</p><p>315Textos fragmentados que oferecem uma leitura histórico-filosófica do século XIX, a par-</p><p>tir das mudanças históricas e civilizacionais de Paris, tomando como paradigma estético,</p><p>128 Gleison Vieira</p><p>As expectativas puramente utópicas e o passado como momen-</p><p>to finito, já encerrado, são a fonte do conformismo e o adversário</p><p>de uma história crítica, como assinala Walter Benjamin. Para ele, é</p><p>necessário colocar em questão o dogma da neutralidade na escrita da</p><p>História. Na década de 30 do século XX, cem anos depois, Benja-</p><p>min se debruça sobre o século XIX para suscitar reflexões sobre His-</p><p>tória e Memória, influenciado pelo pós-marxismo. O conceito de</p><p>História para Benjamin vai na contramão do discurso oficial sobre</p><p>si mesma, gerador, igualmente, do conformismo social e político. O</p><p>viés materialista da História, para Benjamin, empurra o passado a</p><p>colocar-se criticamente no presente.</p><p>Em suas reflexões sobre</p><p>o conceito de História, Benjamin nos</p><p>mostra de que forma o mito exercia, no século XIX, um poder terrível</p><p>sobre o proletariado: “Daí era um só passo até a ilusão de que o trabalho</p><p>fabril, que se inserisse no sulco do progresso técnico, representasse um feito</p><p>político”.316 Por essa razão, Benjamin apontou a necessidade de contar</p><p>a história de uma nova forma, para que os pontos negativos deixassem</p><p>de ser concretizados repetidamente. Deve-se posicioná-la a partir de</p><p>um ângulo diferente, como a do ponto de vista dos perdedores, daqueles</p><p>que estão à margem, recontando-a como ato político para represen-</p><p>tar e produzir feitos políticos. Benjamin situa a Modernidade como</p><p>“tempo do Inferno”, tomada pela necessidade constante de inovação e</p><p>de produção. Tal necessidade encobre o retrocesso social, na qual se</p><p>manifesta a dominação de uma classe sobre a outra e as relações de</p><p>produção que exploram a classe proletária e que se retroalimentam</p><p>contínua e incessantemente. Isso ocorreria, pois, o desenvolvimento</p><p>tecnológico, perceptivelmente, não é acompanhado por um desenvol-</p><p>vimento político, social e humano.317</p><p>a obra de Charles Pierre Baudelaire (1821-1867), um poeta boêmio francês, fundador da</p><p>poesia moderna e um dos precursores do simbolismo.</p><p>316BENJAMIN apud LÖWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das</p><p>teses sobre o conceito de História. São Paulo, Boitempo, 2005. p.100.</p><p>317 Isso foi constatado também por Saint-Simon na obra Mémoire sur la science de l’homme,</p><p>em 1813.</p><p>129Jardim das Utopias</p><p>Na via contrária do tempo acelerado da modernidade e do</p><p>“progresso”, estão dois personagens muito presentes nas Passagens</p><p>de Paris, de Walter Benjamin: o flaneur318 e o falansteriano. Ambos</p><p>renegariam a impossibilidade da experiência autêntica, inevitável</p><p>condição para o homem moderno do século XIX, atingido pelo fe-</p><p>tiche da mercadoria e pela ordem burguesa, elementos presentes nas</p><p>passagens de Paris, cujas lojas repletas de mercadorias de luxo, cha-</p><p>mavam a atenção da burguesia, ao mesmo tempo em que se tornava</p><p>caminho e abrigo para andarilhos, artistas com suas galerias e pas-</p><p>santes de todas as classes. As passagens, com sua arquitetura e fluxo</p><p>democrático, podem ter inspirado Fourier, teórico dos falanstérios</p><p>que influenciou Derrion, a desenvolver sua ideia arquitetônica do</p><p>prédio falansteriano, uma espécie de condomínio com estrutura so-</p><p>cial diferenciada. Como menciona Benjamin,</p><p>“Nas passagens, Fourier viu o cânone arquitetônico do fa-</p><p>lanstério. Sua interpretação em chave reacionária por Fou-</p><p>rier é significativa: enquanto originalmente serviam a fins</p><p>comerciais, em Fourier elas se transformam em residências.</p><p>O falanstério torna-se uma cidade feita de passagens”.319</p><p>O falansteriano, aquele que se reúne em colônias com o objeti-</p><p>vo de estabelecer em grupo uma nova dinâmica social, está na con-</p><p>tramão do tempo, do progresso, da corrida moderna e da ampliação</p><p>do capital. A própria arquitetura de sua morada, de sua falange, con-</p><p>vida para a contemplação, a convivência, a alternância de funções.</p><p>Por sua vez, o flaneur, um personagem recorrente em grandes</p><p>cidades como a Paris do século XIX e suas passagens, está em seu</p><p>habitat vagando pelas ruas, contemplando o mundo, costurando ge-</p><p>318 Um explorador urbano, vagante, que conhece a cidade e a contempla. Foi Walter Benja-</p><p>min, inspirado na poesia de Charles Baudelaire, que descreve esse personagem da Paris do</p><p>século XIX, e o posiciona como um arquétipo moderno da experiência, tornando-o figura</p><p>de interesse para pesquisadores e artistas do século XX.</p><p>319 BENJAMIN, Walter, 1892-1940. Passagens. (Paris, a capital do século XIX - Exposé de</p><p>1935). Belo Horizonte, MG: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de</p><p>São Paulo, 2009. p.41.</p><p>130 Gleison Vieira</p><p>ografias, rabiscando sem pressa suas anotações, assim como os bur-</p><p>gueses em suas belas casas.</p><p>Tanto o flaneur quanto o falansteriano vagam de formas di-</p><p>ferentes. O primeiro, sem pressa, atravessa a cidade e integra-se ao</p><p>meio urbano em deslocamento. O falansteriano se desloca a procura</p><p>de um espaço propício para se estabelecer com o grupo e, igualmen-</p><p>te, agarram um ritmo “a contrapelo”. Ensaiam dinâmicas contrárias</p><p>do resto dos cidadãos automatizados pelo relógio e pelo dinheiro.</p><p>O próprio Fourier sintetiza os dois em si mesmo. Após a morte do</p><p>pai, Fourier conquistou um crescimento financeiro que o permitiu</p><p>vagar, pensar, ler e dedicar-se as teorias sobre diversos temas urbanos</p><p>e sociais. Inclusive, um de seus temas de grande interesse foi a arqui-</p><p>tetura, criando e desenvolvendo suas ideias sobre o cooperativismo</p><p>e sobre os falanstérios. E entre passagens urbanas reais e falanstérios</p><p>utópicos estão aqueles errantes. Sobre isso, ressalta Jacques que</p><p>A experiência errática, assim pensada como ferramenta, é</p><p>um exercício de afastamento do lugar mais familiar e coti-</p><p>diano, em busca de uma condição de estranhamento, em</p><p>busca de uma alteridade radical. O errante vai de encon-</p><p>tro à alteridade na cidade, ao Outro, aos vários outros, à</p><p>diferença, aos vários diferentes; ele vê a cidade como um</p><p>terreno de jogos e de experiências. Além de propor expe-</p><p>rimentar e jogar, os errantes buscam também transmitir</p><p>essas experiências através de suas narrativas errantes.320</p><p>O errante busca outra lógica, o estranhamento do cotidiano,</p><p>o choque contínuo entre o familiar e o novo. Além de se colocarem</p><p>como pensadores urbanos, tanto o flaneur quanto o falansteriano</p><p>transmitem suas experiências por meio de suas narrativas e de sua</p><p>Erfahrung (experiência coletiva). Como assinalou Benjamin,</p><p>“Para Poe, o flâneur é acima de tudo alguém que não se sente</p><p>seguro em sua própria sociedade. Por isso busca a multidão;</p><p>320 JACQUES, Paola Berenstein. Elogio aos errantes. Salvador, BA: EDUFBA, 2012, p.23.</p><p>131Jardim das Utopias</p><p>e não é preciso ir muito longe para achar a razão por que se</p><p>esconde nela. A diferença entre o antissocial e o flâneur é de-</p><p>liberadamente apagada em Poe. Um homem se torna tanto</p><p>mais suspeito na massa quanto mais difícil é encontrá-lo”.321</p><p>Ambos, flaneur e falansterianos, foram personagens transfor-</p><p>mados em arquétipos da modernidade por Benjamin, assim como</p><p>o trapeiro e o colecionador, que igualmente representam a lógica in-</p><p>versa: a luta pela experiência, o anti-autômato. O trapeiro, aquele</p><p>que resgata o material regurgitado pelo “monstro da industrializa-</p><p>ção”, une os trapos da miséria humana, os coleciona, os ressignifica,</p><p>assim como o historiador, que costura descartes, caminhos e histó-</p><p>rias. Benjamin sempre manteve forte interesse nas resistências, nas</p><p>sobrevivências, na experiência coletiva e nos caminhos que subver-</p><p>tem a lógica automatizada. Por isso não surpreende o seu interesse</p><p>pelos falanstérios, presente nas suas anotações nas Passagens de Pa-</p><p>ris e pelo conceito de História. Suas reflexões sobre isso perpassam</p><p>toda a sua obra.</p><p>O historiador e o conceito de historicidade, para Benjamin, são</p><p>igualmente anárquicos, críticos e dialéticos. O historiador é aquele</p><p>que trabalha para que nada se perca, aquele que traz à tona outros</p><p>vieses que até então não haviam sido pensados, para dar voz, por</p><p>meio da imaginação, a um passado desconsiderado, seja ele berço de</p><p>grandes ou pequenos feitos. Para Benjamin é necessário ver o pre-</p><p>sente como ressignificação do passado e preparação para o futuro,</p><p>um passado repleto de um tempo do agora (Jetztzeit). Não se trata</p><p>somente de inserir no presente a visão do passado, mas inserir no</p><p>passado o olhar para o futuro, uma via de mão dupla.</p><p>Nas perspectivas de Aby Warburg322, Walter Benjamin e Di-</p><p>di-Huberman,323 este último mais voltado às sobrevivências ima-</p><p>321 BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas III: Charles Baudelaire um lírico no auge do</p><p>capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.45.</p><p>322 Abraham Moritz Warburg (1866 -1929), mais conhecido como AbyWarburg foi um</p><p>historiador de arte alemão, cujas obras foram analisadas por Didi-Huberman.</p><p>323 Georges Didi-Huberman, filósofo</p><p>e historiador da arte, é professor e pesquisador na Eco-</p><p>132 Gleison Vieira</p><p>géticas, o historiador quando estuda um determinado período ou</p><p>acontecimento histórico, não produz apenas um corte no passado,</p><p>mas analisa uma impressão, uma ruína,324 um traço do tempo que</p><p>ele toca. Dessa forma, o historiador toca outros tempos e espaços</p><p>complementares, disruptivos, anacrônicos, sobreviventes e hetero-</p><p>gêneos, e se utiliza, acima de tudo, da imaginação, que é elemento</p><p>essencial para aqueles pensadores.</p><p>A visão da história como revitalização de um tempo perdido ou</p><p>como reconstrução do passado, terminou de ser aniquilada no século</p><p>XX. Os pensadores da História que perpassaram os séculos XIX e</p><p>XX consideraram uma história útil a humanidade, com a definição da</p><p>possibilidade de uma história/arqueologia crítica. Por conseguinte, o</p><p>historiador deixa de ser um mero recontador da história e passa a ser</p><p>um ressignificador. Ao remontar a história, o historiador considera</p><p>as complexidades temporais, culturais, geográficas, suas contradições,</p><p>intervalos, desvios e utiliza o exercício da imaginação para ressigni-</p><p>ficar os encontros de temporalidades e geografias contraditórias que</p><p>afetam cada objeto, cada acontecimento, cada pessoa, cada gesto. O</p><p>historiador desvela aquela memória sob o véu do tempo, a que se deixa</p><p>menos evidente, a que se mostra como sintoma, a que somente um</p><p>olhar crítico e dialético poderia inserir profundidade.</p><p>O que o passado vê no futuro? De que forma um ilumina o</p><p>outro?</p><p>le des hautes études em sciences sociales. Publicou vários livros sobre a história e a teoria das</p><p>imagens, e seus estudos vão do Renascimento até a arte contemporânea. Didi-Huberman</p><p>também se debruça sobre os estudos das imagens científicas do século XIX e sua influência</p><p>na Arte.</p><p>324 Georg Simmel (1858-1918) foi um filósofo e um sociólogo alemão, considerado o fun-</p><p>dador da Sociologia das Formas Sociais. Em seu ensaio “A Ruína”, descreveu as caracterís-</p><p>ticas que configuram uma estética da obra em ruínas e, segundo Fortuna, 2013, Simmel</p><p>atribuiu características a estas, como sublime e pitoresca, elementos que surgiram com o</p><p>Romantismo a partir do século XVIII. Fortuna (2013) assinala que para Simmel, a ruí-</p><p>na é configurada não somente pela cultura, mas também pela natureza, as quais agregam</p><p>valores à ruína, em um conflito no qual a obra da natureza vence a obra humana, mas em</p><p>harmonia. FORTUNA, C. Georg Simmel: as cidades, a ruína e as novíssimas metrópoles.</p><p>Philosophica, n.42, p.107-123, 2013.</p><p>133Jardim das Utopias</p><p>Após 150 anos da morte de Derrion, em 2000, um colóquio</p><p>foi organizado em Lyon: o Colóquio Michel-Marie Derrion (1803-</p><p>1850), ou A Utopia da Economia Social: Qual História para Qual</p><p>Futuro? O colóquio, organizado por Mimmo Picciarelli, teve um</p><p>direcionamento para as dimensões social, ética e econômica das uto-</p><p>pias, voltadas para a possibilidade de um futuro sustentável e frater-</p><p>no. Essa é a visão crítica da utopia e da construção histórica direcio-</p><p>nada para a transformação do futuro.</p><p>O historiador é esse “trapeiro da memória”, o chiffonier de la</p><p>mémoire, que ressignifica o presente a partir da costura das ruínas</p><p>das falas que percorrem o tempo, com suas permanências, como sa-</p><p>lienta Georges Didi-Huberman em Devant le temps: histoire de l’art</p><p>et anachronisme des images, 1ª ed., 2005. É isso que caracteriza essen-</p><p>cialmente o ofício e o papel do historiador.</p><p>Esta obra, portanto, é a ação de um trapeiro da memória sobre</p><p>as ruínas de um ex-negociante de seda de Lyon, costurando dois lu-</p><p>gares em dois países, remendando em dois tempos desruptiveis, su-</p><p>turando passagens de Paris e traboules de Lyon às veredas profundas</p><p>do Sertão do Palmital. Assim, abrem-se diante do presente as porta</p><p>da ressignificância, sob o aroma das flores de jacatirão que laureiam</p><p>as colinas do Saí.</p><p>Anexos 01</p><p>FRANÇA</p><p>137Jardim das Utopias</p><p>O Jardim das Utopias: representações do Falanstério (“falange sólida”, em grego)</p><p>a partir da idealização de Charles Fourier. Elas nos mostram que as terras do Saí e</p><p>do Palmital eram propícias para a instalação falansteriana. (fonte: https://la-co-</p><p>lonie.org).</p><p>138 Gleison Vieira</p><p>Planta do Falanstério e das edificações rurais.</p><p>(A): Grande praça de parada no centro do Falanstério; (B): Jardim de inverno, com</p><p>árvores e rodeado de estufas, etc; (C e D): saguões interiores de serviço, com ar-</p><p>bustos, chafarizes, espelhos d'água; (E): Grande entrada, grande escada e torre da</p><p>ordem; (F): Teatro; (G): Igreja; (H e I): Grandes ateliers, lojas, quiosques, etc; (J):</p><p>Estábulos e edificações rurais; (K): Pátio de serviço ligado ao curral e ao galinheiro.</p><p>139Jardim das Utopias</p><p>Retrato de Michel-Marie Derrion (1803-1850), elaborado por inteligência arti-</p><p>ficial. Essa elaboração se baseou naquele que seria o único registro iconográfico</p><p>de Derrion: a litogravura publicada no jornal L’Indicateur, na edição de 03 de</p><p>maio de 1835, nº 33 (ver detalhe), desenhada pelo artista Horace Antoine Brunet</p><p>(1781-?). (fonte: playgroundai.com).</p><p>140 Gleison Vieira</p><p>Capa da brochura Constituição da Indústria, publicada logo após a semana san-</p><p>grenta de abril de 1834, quando houve a forte repressão à Revolta dos tecelões</p><p>Canuts. Os exemplares dessa obra de Derrion era vendidos ao preço de 1 franco,</p><p>na livraria de Madame Durval. (Google.books)</p><p>141Jardim das Utopias</p><p>Fac símile do modelo das fichas de subscrição presente no final da Constituição da In-</p><p>dústria. Ali, expondo já a subscrição de Derrion, vê-se o endereço em que morava,</p><p>“... na casa de seu pai, rua des Capucins, n.º10”. Abaixo, detalhe de documento do</p><p>Commerce Véridique com a assinatura de Derrion. (Google.com e Gallica.bnf.fr).</p><p>142 Gleison Vieira</p><p>Retrato do tecelão canuts Joseph Reynier (1811-1897), partidário saint-simoniano,</p><p>fourierista e amigo próximo de Michel Derrion. Esse outro tecelão foi um intusiasta</p><p>e co-fundador do Le Commerce Véridique et Social. Por um triz, Reynier não acom-</p><p>panhou Derrion e outro lionês, Colliat e sua esposa, para a Colônia falansteriana do</p><p>Saí e do Palmital. Por motivos de saúde, Reynier permaneceu em Lyon. Dois anos</p><p>depois, Joseph Reynier viria a conhecer a grande feminista franco-peruana Flora</p><p>Tristan (1803-1844). (Fonte da imagem: Floreal Magasine: L’Hebdomadaire illus-</p><p>tré du monde du travail. 23 de abril de 1921, 2º. Ano - nº17. p.382).</p><p>143Jardim das Utopias</p><p>Foto do início do século XX, mostrando o prédio onde, em sua sala térrea, funcio-</p><p>nou a mercearia cooperativa Le Commerce Véridique et Social, em Croix-Rousse.</p><p>Essa mercearia de distribuição associativa foi fundada por Michel Derrion, com</p><p>a ajuda do tecelão, Joseph Reynier. Essa mercearia cooperativa manteve as portas</p><p>abertas entre 1835 e 1838, e foi, possivelmente, a primeira cooperativa registrada</p><p>no mundo. Ali, Derrion aplicou as bases da Constituição da Indústria, publicada</p><p>em 1834. (foto publicada na revista Floreal Magasine: L’Hendomadaire illustré du</p><p>monde du travail. 23 Avril 1921, 2e. Année - nº17. p.382).</p><p>144 Gleison Vieira</p><p>Foto do início da década de 1920, mostrando o prédio nº 95 da ladeira (montée)</p><p>de la Grande-Côte (ou Grand’ Côte), onde, entre 1835 e 1837, funcionou a mer-</p><p>cearia Commerce Véridique et Social – a primeira das sete mercearias cooperativas</p><p>que se espalharam no bairro lionês de Croix Rousse. (GAUMONT, op.cit. p.70).</p><p>145Jardim das Utopias</p><p>Foto do prédio nº 95 da ladeira (montée) de la Grande-Côte onde Derrion fundou</p><p>a mercearia Commerce Véridique et Social, no bairro de Croix Rousse, Lyon. Ali,</p><p>atualmente, funciona o Le Shalala - Bar à Spectacles, espaço artístico gastronô-</p><p>mico que encarna a esfera artística e boêmia de Croix Rousse. Acima da entrada,</p><p>vê-se a inscrição: “Aqui foi fundada, em 1835, por Michel Derrion e Joseph Reynier,</p><p>la primeira cooperativa francesa de consumo, Le Commerce Véridique et Social”. (fa-</p><p>cebook/leshalala. / https://www.rue89lyon.fr).</p><p>146 Gleison Vieira</p><p>Fac-simile de um dos engajamentos de Michel Derrion em nome</p><p>do Commerce</p><p>et Véridique et Social, de 09 de novembro de 1836, com a assinatura de Derrion.</p><p>Nesse documento histórico, já nas primeiras linhas, lemos o epíteto da prospec-</p><p>ção cooperativista de Derrion: “O commerce véridique et social, fundado e gerido</p><p>por M. Michel Derrion, é instituído na denúncia gradativa dos efeitos nefastos da</p><p>concorrência...”. (GAUMONT, op.cit. p.57)</p><p>147Jardim das Utopias</p><p>Capa do jornal L’Indicateur, de 03 de maio de 1835 (edição nº 33), na qual ve-</p><p>mos a única imagem conhecida de Derrion. Ali, ele segura um pergaminho escri-</p><p>to “economia industrial”; sobre a mesa, os papeis trazem escrito “ciências morais”</p><p>e “reforma geral”. A litogravura traz a assinatura do artista e impressor Sastre,</p><p>nomeadamente Horace Antoine Brunet (1781-?), proprietário da H. Brunet et</p><p>Cie, de Lyon. (GAUMONT, Op.cit. p.57).</p><p>148 Gleison Vieira</p><p>Monumento À LA COOPÉRATION, na praça Jardin des Plantes, em Croix</p><p>Rousse, Lyon. Essa obra foi inaugurada em 1923, pela escultora Jeanne Bardey</p><p>(1872-1954). No alto da escultura de pedra, ornado por símbolos relacionados à</p><p>cornucópia, vê-se as faces artísticas de Derrion e Reynier. Na coluna, lêem-se os</p><p>dizeres “À Cooperação – Em 1835, Michel Derrion e Joseph Reynier fundaram o</p><p>Commerce Véridique et Social e abriram a primeira loja cooperativa de venda de</p><p>Montée de la Grande Côte em Lyon”. (fotografia: René Dejean, 2002).</p><p>149Jardim das Utopias</p><p>Desde 2007, o Festival Novembre des Canuts, mostra ao público a história da</p><p>sublevação dos tecelões canuts, confrontando-a com questões atuais. Na foto,</p><p>performance músico-teatral do grupo Compagnie du Chien Jaune, lendo textos</p><p>industriais do século XIX ao pé do monumento a Derrion; é a arte criando cone-</p><p>xões espaço-temporais. (foto: Compagnie du Chien Jaune).</p><p>O sociólogo italiano Mimmo Pucciarelli é um dos responsáveis pela revitaliza-</p><p>ção de Derrion em Croix-Rousse. Ele vive em Lyon desde 1975. Em 1979, junto</p><p>com companheiros, fundou a editora Atelier de Création Libertaire, cujo foco é a</p><p>divulgação do ideário anarquista. Em 2006, passou a coordenar as iniciativas do</p><p>CEDRATS (Centro de documentação e reflexão sobre as alternativas sociais –</p><p>Michel-Marie Derrion). (fonte: www.rue89lyon.fr/ Eva Thiébaud).</p><p>Anexos 02</p><p>BRASIL</p><p>153Jardim das Utopias</p><p>O “primeiro mapa de Garuva”, no detalhe da Carta 6.ª da Costa do Brasil (1737), do</p><p>jesuíta Diogo Soares. Veem-se povoados e os nomes dos rios das Três Barras, rio Bar-</p><p>ranquinhos, rio das Minas, rio de São João, os dois rios Saí, a Ilha do Saí e Itapema, além</p><p>de uma trilha à beira mar, que se estende do Pontal até a Baía de Guaratuba. Ou seja,</p><p>quando Derrion e os demais franceses chegaram ás terras da região, aqueles topônimos</p><p>já eram usuais havia mais de um século. Outro detalhe é a antiga comunicação entre</p><p>os rios Saí-Guaçu e Saí-Mirim, extinto por volta de 1780. (Fonte: domínio público).</p><p>154 Gleison Vieira</p><p>Detalhe do mapa O rio d’S. Frco. Xavier na América Austral e portuguesa aos 26, 12’</p><p>e 58” de latitude, também de 1737, também de autoria do jesuíta Diogo Soares. No</p><p>detalhe ampliado (virado em 90° à esquerda), veem-se os atuais R. das Tres Barras,</p><p>R. Barranquinhos, R. Piraberá, R. das Minaz, além de detalhar ilhas do canal do</p><p>Palmital, que ainda mantém os mesmos nomes. (Fonte: domínio público).</p><p>155Jardim das Utopias</p><p>Detalhe da Carta Geográfica e Hidrográfica de Toda a Costa do Mar da Capitania</p><p>de São Paulo (1867), do major Umbelino Alberto de Campo Limpo (1824-1885).</p><p>Indicações referente à Carta Geográfica ... da Capitania de São Paulo (1867).</p><p>156 Gleison Vieira</p><p>Detalhe do mapa de Antônio Xavier de Noronha Torrezão, feito em 1840. São</p><p>mencionados os rios Palmital, “Urubúára”, “Das 3 Barras”, “Dos Barrancos”, “Dos</p><p>Cavalinhos”, “Peruveraba” e “Baraára”. Anterior a Torrezão, há um registro de Ai-</p><p>res de Cazal, tratando do mesmo rio, porém, com o nome Maria Bara-ara. O</p><p>mapa nos mostra a profundidado canal em braças (fonte: Arquivo Histórico da</p><p>Biblioteca Nacional - domínio público).</p><p>157Jardim das Utopias</p><p>Detalhe da Carta da província de Santa Catharina. Escala [ca.1:57.391], de 1842.</p><p>Esse mapa foi feito pelo engenheiro José Joaquim Machado de Oliveira (1790-1867).</p><p>Nele, detalhes da Colônia do Saí e a Fazenda do Palmital (Biblioteca do Arquivo Na-</p><p>cional – domínio público).</p><p>158 Gleison Vieira</p><p>Detalhe da Carta da província de Santa Catharina, de 1842. Trata-se de um mapa</p><p>contemporâneo à colônia falansteriana do Saí. Nele, detalhes da Colônia indus-</p><p>trial: o núcleo colonial próximo ao rio Saí-Mirim, onde fizeram um dique. Vê-se</p><p>o Caminho Mangin e a picada para as Minas Velhas e para a Fazenda do Palmital</p><p>(Biblioteca do Arquivo Nacional).</p><p>Um dos primeiros mapas detalhados de Garuva: Mapa Chorographica da provincia</p><p>de Stª. Catarina, parte da Pa. de São Paulo e da Pa. de Rio Grande do Sul e parte da</p><p>república do Paraguay, 1842. Lede, Charles van, 1842. Ali, diversas referências a</p><p>cachoeiras, inclusive próximo ao rio Saí Guaçu, como no mapa do pelo engenheiro</p><p>José Joaquim Machado de Oliveira (Acervo da Fundação Biblioteca Nacional).</p><p>159Jardim das Utopias</p><p>Detalhe da Carta do Estado de Santa Catharina [Cartográfico]: carta chorographica (1917), do</p><p>engenheiro militar José Vieira da Rosa, mostrando a legenda Antiga Colonia do Sahy, fundada</p><p>em 1842. Vemos a demarcação da área correspondente ao falanstério do Saí, que se iniciava nas</p><p>praias do Saí à frente da Ilha do Alvarenga, margeando o atual Porto Itapoá. As medidas exatas</p><p>da Colonia do Sahy foram possíveis graças à comissão de descriminação dos terrenos devolutos do</p><p>Sahy, ocorridos entre 1889 e 1895. Observando o mapa, percebe-se que a área da colônia cos-</p><p>teava a parte interna da Cordilheira do Saí. Aquelas terras coloniais tomavam as cabeceiras dos</p><p>rios Batovi, Saí-Mirim e Braço do Norte, alcançando, a noroeste, as fraldas orientais do morro</p><p>Maria Baraharas (cujo cume atinge a altitude de 650m). Ao norte, as terras do “falanstério”</p><p>adentravam a atual localidade de Bom Futuro, em Garuva. Cruzando o morro Maria Baraharas</p><p>(final da Cordilheira) ou seguindo pelo Pico da Pedra Branca (Barrancos), chegava-se às terras</p><p>dos 44 franceses liderados por Michel Derrion e Antoine Jamain, no Palmital, distante apenas</p><p>7 km. Lá, havia terras privadas que poderiam ser arrendadas pelo grupo dissidente, já que eles</p><p>não poderiam contar com a concessão excepcional de terras devolutas. Trata-se das terras da</p><p>Fazenda do Palmital, uma sesmaria de 1804, do senhor de engenho Francisco de Paula dos Reis.</p><p>(fonte: Acervo da Biblioteca Nacional, domínio público).</p><p>160 Gleison Vieira</p><p>Detalhe do mapa de Jerônimo Coelho, de 1846, contemporâneo ao fim da Colônia falans-</p><p>teriana do Palmital. Vê-se a foz do Rio Três Barras e a Fazenda das Três Barras. Ali estava</p><p>estabelecido o início da Estrada Três Barras, que seguia em direção a Vila de Curitiba. Edifi-</p><p>cações junto à foz são facilmente percebidas no detalhe deste mapa, além de numerações na</p><p>água, que são braças náuticas, (profundidade), auxiliando navegação de barcaças no Canal do</p><p>Palmital. Do outro lado, vê-se a barra do rio Palmital, próximo à Ilha Barbada. Por meio do</p><p>rio das Barbadas (Baraharas), os franceses tinham acesso à planície da Fazenda do Palmital</p><p>(onde se situava a Colônia Falansteriana). É possível que a casa desenhada junto à foz do rio</p><p>Palmital fosse a casa da Colônia francesa. (Fonte: Arquivo Histórico de Joinville).</p><p>Detalhe da Carta topographica e administrativa da província de Santa Catharina, de 1852,</p><p>elaborada pelo Visconde J. de Villiers de L’Ile-Adam. Esse mapa foi erigido sobre as mais re-</p><p>centes notícias particularmente sobre os mapas de Van Lede (1842) Jose Victoria Soares de</p><p>Andrea (1842) e Aubef annales marítimos (abril de 1847). No detalhe desse mapa, ao centro,</p><p>vê-se a Colônia do Palmital, sinalizado por um retângulo negro – bem como a vila da Fazenda</p><p>Três Barras e a Colônia do Saí (fonte: Acervo da Biblioteca Nacional, domínio público).</p><p>161Jardim das Utopias</p><p>Quadro fundiário do entorno do Rio Palmital na primeira metade do séc.XIX,</p><p>com base nos mapas do testamento de Frederico Brüstlein (1912) e da Paix & Cia.</p><p>(1954): (A) sesmaria do Visconde de Jerumirim - 1822; (B) sesmaria do Capitão</p><p>Miguel de Mello e Alvim - 1822; (C) sesmaria do Tenente Francisco de Freitas -</p><p>1787; (D) posse do Urubuquara, de F. Brüstlein - ?; (E) sesmaria de Valentina</p><p>Angélica Rita de Araújo - 1806; (F) sesmaria de Senhor de engenho Francisco Paula</p><p>dos Reis - 1804. (G) sesmaria do Vigário Bento G. Cordeiro - 1802;</p><p>162 Gleison Vieira</p><p>Detalhe aéreo da planície ocidental do Palmital, na qual vemos as pastagens de</p><p>fazendas na localidade de Baraharas, em Garuva. Ali foi o espaço escolhido por</p><p>Jamain e Derrion para acolher os falansterianos da Colônia do Palmital. Ao fun-</p><p>do, rivalizando com as nuvens dos céus, a Serra do Mar; logo a baixo, a margem</p><p>direita do Palmital, cujas terras, naquela época, eram devolutas (e não poderiam</p><p>ser negociadas ou adquiridas). Vê-se o caudaloso rio Palmital e as várias barras que</p><p>nele deságuam. A pastagem – ligada à antiga Fazenda do Palmital – tem um braço</p><p>de mar que dá acesso ao ribeirão Maria Baraharas, na foto, serpenteado pela mata</p><p>ripária (ciliar) que o resguarda de assoreamento. Esse ribeirão, fundido ao braço</p><p>de mar, era a porta de entrada para a porção oriental da planície do Palmital, uma</p><p>região pertencente à antiga sesmaria do Senhor de engenho Francisco de Paula</p><p>dos Reis, depois Fazenda do Palmital, de posse de Manoel Nunes da Silveira. (daí</p><p>vindo o nome da gleba: Sesmaria Nunes). (fonte: Ricardo Wegrzynovski).</p><p>Detalhe da pastagem da antiga Fazenda do Palmital visto a partir da Estrada Ge-</p><p>ral do Palmital-Barrancos, na localidade de Baraharas. Na linha do horizonte, ao</p><p>fundo, as margens do braço de mar Maria Barahara, por onde se tinha acesso à</p><p>planície oriental do Palmital, transpondo a linha de manguezais. A relação entre</p><p>essas pastagens e os episódios de quase dois séculos atrás ainda não é difundido na</p><p>região. (fonte: imagem retirada livremente do Google Maps).</p><p>163Jardim das Utopias</p><p>Nota do Diário do Rio de Janeiro, de 07 de janeiro de 1848, divulgando a ativi-</p><p>dade de professor de canto exercida por Derrion, no Rio de Janeiro, capital do</p><p>Império do Brasil. (fonte: dapress@dabr.com.br).</p><p>Nota do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, de 27 de fevereiro de 1948, no</p><p>qual se vê as atividades de Derrion, na capital do Império do Brasil, voltadas às</p><p>teorias societárias. (fonte: dapress@dabr.com.br).</p><p>164 Gleison Vieira</p><p>165Jardim das Utopias</p><p>166 Gleison Vieira</p><p>Páginas fotografadas do contrato da Colônia Industrial do Sahy, redigido</p><p>por Michel Derrion em 1844, conforme se contata na assinatura acima, a</p><p>mesma assinatura que encontramos nos documentos da Mercearia Coo-</p><p>perativa Le Commerce Véridique et Social, de Lyon – ver anexo 01. (Fonte:</p><p>Arquivo Histórico de Joinville – Coleção Carlos Ficker).</p><p>Trecho da carta de Michel Derrion, publicada por Benoît Mure no artigo</p><p>“Colonização industrial”, no Jornal do Commércio. Rio de Janeiro, 24 de</p><p>dézembro de 1841. (Arquivo Nacional do Rio de Janeiro).</p><p>167Jardim das Utopias</p><p>Agradecimentos à Associação Mémoire</p><p>de Courchelettes (França), 2024.</p><p>“Que a parceria entre nós e os membros da Association Mémoire de</p><p>Courchelettes possa estreitar os laços culturais entre Garuva (Brasil)</p><p>e Courchelettes (França)”.</p><p>Gleison Vieira</p><p>Gestão 2024</p><p>Presidente: Marie Claude Payage; Vice Presidente: André Dubuc;</p><p>Secretário: Jean Pierre Caudroit; Secretário Adjunto: Madeleine</p><p>Deliessche; Tesoureira: Edita Masala; Tesoureiro Adjunto: Yves</p><p>Robillard.</p><p>Na foto: Evelyne Caudroit, Jeanne Robillard, Freddy Kazmierczak,</p><p>Edita Masala, Patrick Coeugnet, Yves Robillard, Bernard Rosereau,</p><p>Yves Marie Blocquet, Marie Claude Payage, Annie Dhenin, Lucien</p><p>Vernagut, Stéphanie Giorgetti, Roger Chantreau, Jean Pierre Cau-</p><p>droit, André Barbet, Jean Pierre Bremard, Bruno Stienne, Chantalle</p><p>Delafaite, Eugène Kaminski e Henri Robak.</p><p>168 Gleison Vieira</p><p>169Jardim das Utopias</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>ALCALA, May Lorenzo. El Utopismo no Brasil. Revista Tudo es</p><p>História, Argentina [sine loco], 1993.</p><p>AMARAL, Luis. História Geral da Agricultura Brasileira. [sine</p><p>loco] : Companhia Editora Nacional. 1932.</p><p>BAJOT, M. Poirré, M. Annales Maritimes et Coloniales. 32º. Année,</p><p>3ª. Série, IIª. Section, Revue Coloniale. Paris: Imprimerie Royale.</p><p>1847.</p><p>BAKUNIN. Mikhael. Textos Anarquistas/Michael Alexandrovich</p><p>Bakunin. Seleção e notas Daniel Guérin; tradução de Zilá Bernd.</p><p>Porto Alegre: L&PM Pocket. 2002.</p><p>BAYON, Denis. Le Commerce Véridique et Social, de Michel-Marie</p><p>Derrion. Lyon, 1835-1838; Petites visites chez les utopies coopératives</p><p>de nos grand-parents. Lyon; Atelier de Creation Libertaire, 2002.</p><p>BLANC, Louis, Histoire de dix ans, Paris, tomo IV. [sine data].</p><p>BLANHFILD, Willian C. OSER, Jacob. História do Pensamento</p><p>Econômico. São Paulo: Atlas. [sine data].</p><p>BLOCH, Ernst. Le principe espérance, Paris, Gallimard, 1959 (ed.</p><p>original : 1938-1947).</p><p>BOITEUX, Henrique. O falanstério do Saí, in revista do Instituto</p><p>Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Florianópolis, 12, 1 sem.</p><p>1944.</p><p>BRUHAT, Jean. L’Histoire générale du socialisme, tomo I, originais</p><p>de 1875; Paris: PUF, 1972 (10ª edição de 1979).</p><p>DERRION, Michel-Marie. Constitution de l’industrie et organiza-</p><p>tion pacifique du commerce et du travail ou tentative d’un fabricant</p><p>de Lyon pour terminer d’une maniére definitive la tourmente sociale.</p><p>Lyon: Mme Durval, 1834.</p><p>Dictionnaire Le Petit Larousse Illustré. Paris: Larousse. 2007.</p><p>170 Gleison Vieira</p><p>Doctrine de Saint-Simon. Exposition: Première Année (1828-1829).</p><p>Paris: Bureau de l’Organisateur. 1829.</p><p>DOLLÉANS, Édouard. CROZIER, Michel. Mouvements ouvrier</p><p>et socialiste: chronologie et bibliographie. Vol.I [sine loco]. 1950.</p><p>ENGELS, Friedrich. Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico.</p><p>Trad. Roberto Goldkorn. São Paulo: Global. 1973.</p><p>ENGELS, Friedrich. Socialisme Utopique et Socialisme Scientifique.</p><p>Paris : Éditions Sociales. 1973.</p><p>FICKER. Carlos. História de Joinville. Joinville: PMJ. 1965</p><p>FLOTARD, Eugene. Le Mouvement coopératif à Lyon et dans le</p><p>Midi de la France. Paris: Librairie des sciences sociales.1867.</p><p>FORSTER, Germano de Rezende. A privatização das Terras Ru-</p><p>rais. Barueri: Manole. 2003.</p><p>FOURIER, Charles. El nuevo mundo amoroso. Manuscrito inédito:</p><p>texto íntegro. Paleografia, notas e introducción de Simone Debout-</p><p>-Oleszkiewicz. Madrid: Siglo Veintiuno. 1972.</p><p>FOURIER, Charles. Théorie de l’Unité Universelle. Paris: Anthro-</p><p>pos. 1965.</p><p>FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. 34ª ed. São Paulo: Paz e</p><p>Terra. 2006.</p><p>GALLO, Ivone. A aurora do socialismo. Fourierismo e falanstério de</p><p>saí (1839 – 1850), Campinas, 2002.</p><p>GAUMONT, Jean. Histoire Générale de la Coopération en France.</p><p>Tomo I, Paris. 1924.</p><p>GAUMONT, Jean. Le Commerce Véridique et Social (1835-1838),</p><p>et son fondateur Michel Derrion (1803-1850). Amiens, Imprimerie</p><p>Nouvelle, 1935.</p><p>GIDE, Charles. Principes d’économie politique. Paris: Sirey. 1906</p><p>GODART, Justin. Les origines de la coopération lyonnaise. In.:</p><p>Revue d’histoire de Lyon. Lyon, 1904.</p><p>171Jardim das Utopias</p><p>GODART, Justin, Travailleurs et métiers lyonnais, Lyon: Camin &</p><p>Masson, 1909.</p><p>GONNARD, René. Historia de las Doctrinas Econômicas. Traduc-</p><p>ción de J. Campo Moreno. Madri: Aguilar. 1975.</p><p>GUARESCHI, Pedrinho. A Máquina Capitalista. 4ª.ed. Rio de Ja-</p><p>neiro: Vozes. 1988.</p><p>GÜTTLER, Antonio Carlos. “A colonização do Saí (1842-1844).</p><p>Esperança de falansterianos, expectativa de um governo”. Dissertação</p><p>de mestrado Santa Catarina: UFSC; 1994.</p><p>HAMPDEN, Jackson. J. Marx, Proudhon e o Socialismo Europeu.</p><p>Rio de Janeiro: Zahar. 1963.</p><p>HEIMANN, Eduard. História das doutrinas econômicas: uma in-</p><p>trodução à teoria econômica. Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro:</p><p>Zahar. 1965.</p><p>HUBBARD, Nicolas Gustave. Saint-Simon, sa vie et ses travaux.</p><p>Paris : Guillaumin et Compagnie. 1857.</p><p>KONDER, Leandro.“Fourier:</p><p>O Socialismo do Prazer”. Rio de Ja-</p><p>neiro: Civilização Brasileira. 1998.</p><p>L’Écho de la Fabrique. Paris: Edhis. 1973</p><p>LEVASSEUR, Emile. Histoire des classes ouvrières et de l’industrie</p><p>en France de 1789 à 1870. 2ª. Edição. Paris: A. Rousseaum. 1904.</p><p>LIMA, Alceu Amoroso. Introdução à Economia Moderna. 3ª.ed.</p><p>Rio de Janeiro: Agir. 1961.</p><p>MAITRON, Jean. PENNETIER, Claude. Dictionnaire biographi-</p><p>que du mouvement ouvrier français. Paris: Éditions Ouvrières.1964.</p><p>MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comu-</p><p>nista. Tradução de Maria Lucia Como. São Paulo: Paz e Terra. 2000.</p><p>Mémoires de L’Académie Royale du Gard (1835-1836-1837). Nis-</p><p>mes : C. Durand-Belle, Imprimeur de L’Académie Royale du Gard.</p><p>1838. p.03-04.</p><p>MEUSY, Jean Jacques. DEMEULENAERE-DOUYERE, Chris-</p><p>tiane. La Bellevilloise (1877-1939). Paris : Creaphys. 2001.</p><p>NASCIMENTO, Antonio Roberto. A família Arriola em Sant Ca-</p><p>tarina. In Blumenau em cadernos.Tomo XXXVI, nº01, janeiro de</p><p>1995, p.107</p><p>Oeuvres de Saint-Simon & d’Enfantin. Vol.II. (Publicado pelos</p><p>membros do conselho instituído por Enfantin, pela execução de</p><p>seus últimos voluntários). Paris: Libraire de la Société des Gens de</p><p>Lettres. 1865.</p><p>PESSIN, Alain. L’imaginaire utopique aujourd’hui, Paris, PUF.</p><p>2001.</p><p>PINHO, Diva Benevides. O Cooperativismo no Brasil: da vertente</p><p>pioneira à vertente solidária. 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Saint-Simon e Educação. Curitiba : CRV. 2011.</p><p>VIEIRA, Gleison. Epistemologia das ciências sociais em Saint-Si-</p><p>mon como matriz de políticas públicas em Educação. Tese de douto-</p><p>rado. Curitiba: PUCPR, 2017.</p><p>WEILL, G. L’Ecole saint-simonienne, son histoire, son influence jus-</p><p>qu’à nos jours. Paris. 1896.</p><p>ZANONI, Melize. De monstros e fantasmas: A imagem do corpo</p><p>grotesco no teatro e a sobrevivência da imagem. São Paulo: Annablu-</p><p>me, 2022.</p><p>Apoio</p><p>Realização</p><p>Edição e publicação</p><p>Prefácio: Das Utopias Urbanas no Brasil moderno ao projeto de Derrion</p><p>Introdução: Jardim das Utopias nas águas do Saí e Palmital</p><p>1. Entre os rios Ródano e Saône: a vida de Derrion</p><p>2. O Jardim do Éden na Península do Saí</p><p>3. Desencantos à beira da Baía da Babitonga</p><p>4. Entre capitães e caboclos: O Sertão do Palmital no século XIX</p><p>5. Sonho e utopia nas veredas do Palmital</p><p>6. Um novo mundo nas águas do Baraharas</p><p>7. A vazante da maré: fim do sonho no Palmital?</p><p>8. Lucie Domanget: a esposa de Derrion</p><p>9. Antoine Jamain (1802-1858): uma liderança no Palmital</p><p>10. Jardim em ruínas: o último francês no Saí</p><p>11. Do Palmital à Guanabara: adieu, Orphéon!</p><p>12. A ressurreição de Michel Derrion</p><p>Épilogo: O “chiffonier de la mémoire” - costurando utopias</p><p>Anexos 01 FRANÇA</p><p>Anexos 02 BRASIL</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>atenção neste mapa – con-</p><p>cluído às medições e desenhado em 1846, editado em versões plurais</p><p>– é a utilização de pontos de referência geográfica. Ele privilegiou o</p><p>nome de relevos rios, morros, ilhas, bem como estruturas humanas,</p><p>tais como vilas, fazendas e edificações. Além disto, no mapa há coor-</p><p>denadas navais indicando a profundidade das águas.</p><p>Mas, quem era o Monsieur Docteur Jules Mure, citado no início</p><p>do capítulo? Quem era esse homem cuja carta de 27 de fevereiro de</p><p>1841 descreve tão bem a região do Saí e das Três Barras? Ele se tor-</p><p>naria o patrono da medicina homeopática no Brasil. Benoit Mure</p><p>chegou a nosso país em novembro de 1840, estabelecendo-se no Rio</p><p>de Janeiro. Seu objetivo foi convencer o Império do Brasil a contri-</p><p>buir para a implantação de uma sociedade utópico-socialista denomi-</p><p>nada Falanstério. Através de muitas negociações com o Império, o</p><p>Dr. Mure ganhou uma concessão de terras em Santa Catarina. Após</p><p>pesquisar o litoral desta província, optou por escolher a Península do</p><p>Saí. Essas terras pertenciam ao Coronel d’Oliveira Camacho (o mesmo</p><p>que tomou conta da filha de Tovar Albuquerque, ex-governador da</p><p>Província e que se tornara dono do sítio do Vigário Bento Gonçalves</p><p>Cordeiro, nas Três Barras).</p><p>O Falanstério do Saí foi uma das primeiras experiências falans-</p><p>terianas do mundo e a única do Brasil. O projeto do Dr. Mure visava</p><p>implantar uma colônia francesa, e com isso, um futuro centro home-</p><p>opático (que seria o primeiro do Brasil). Além de se dedicar à homeo-</p><p>patia, Mure também se debruçou sobre a filosofia socialista do pensa-</p><p>dor francês que teorizou o Falanstério, Charles Fourier.18</p><p>Em dezembro de 1841, chegava o primeiro contingente de colo-</p><p>18 François Marie Charles Fourier (1772-1837) fez publicações de suas ideias sociais no</p><p>jornal Le Phalanstère, mais tarde denominado La Phalange. O esquema inventado por ele</p><p>baseava-se em uma sociedade igualitária, com leis alicerçadas na solidariedade e na perspec-</p><p>tiva humanista. Esta sociedade (Fourier propôs uma comunidade, a Falange, composta por</p><p>1600 habitantes) chamava-se falanstério. Fourier foi anterior, em sua filosofia, a Karl Marx</p><p>(socialismo) e Michael Bakunin (anarquismo), embora suas ideias tenham muito do livro</p><p>Utopia, do britânico Thomas Morus, publicado no século XVI.</p><p>21Jardim das Utopias</p><p>nos franceses ao Rio de Janeiro, trazidos pelo navio Caroline. A sede</p><p>da colônia gaulesa – que no futuro aproveitaria boa parte das terras</p><p>do Saí – ficou estabelecida à frente da Vila de São Francisco, do outro</p><p>lado da Baía da Babitonga. Para ser mais preciso a vila falansteriana se</p><p>estabeleceu defronte à Ilha do Alvarenga. Na chegada dos imigrantes</p><p>franceses ao Rio de Janeiro, houve um grande festejo. Essa imigração</p><p>se diferencia das demais que se incursionariam no Brasil Imperial e</p><p>República, o que nos reporta a uma compreensão do contexto da</p><p>época que possibilita antevermos os motivos daquele projeto utópi-</p><p>co: a Europa vivia uma crise social grave, com desemprego e pobreza</p><p>acentuada, obrigando milhares de pessoas a imigrar, e a ideia de uma</p><p>comunidade próspera e harmônica entusiasmou muita gente.</p><p>A partir dessa linha, surge em cena o francês que entrou em con-</p><p>flito com Mure, fundando outra colônia falansteriana, na localidade</p><p>Palmital; era Michel Derrion. Sua biografia será detalhada aqui tanto</p><p>quanto possível. As principais obras que tratam sobre a vida desse per-</p><p>sonagem e empregadas nessa pesquisa são: “Le Commerce Vèridique</p><p>Et Social”, de Denis Bayon (2002); o artigo “Derrion no Brasil: As</p><p>colônias do Saí e do Palmital”, de Antônio Carlos Güttler (1994); e a</p><p>tese “Entre a França e o Brasil” (2019), de Carina Sartori, professora</p><p>na Universidade de La Rochelle (Franca).</p><p>Doravante, vamos à mise en scene dos incidentes relacionados aos</p><p>falansterianos nas terras do Saí e do Palmital. Como a “colmeia har-</p><p>mônica” se comportaria naquele “Éden Comunal”? Os remansos dos</p><p>arroios e igarapés do Saí e do Palmital conduziriam a phalange ao jar-</p><p>dim das utopias? Aqueles Sertões Incultos, densos em recursos naturais,</p><p>constituiriam a “Terra Prometida” da Harmonia de Fourier? Por entre</p><p>pétalas de manacás e flores de jacatirão, por entre veredas sinuosas de</p><p>um grotão profundo, o Phalanstère daria aos seus partidários o “bor-</p><p>boletear” das paixões?</p><p>22 Gleison Vieira</p><p>1. Entre os rios Ródano e Saône: a vida de Derrion</p><p>Sonho e utopia levaram os 217 imigrantes franceses a fixar,</p><p>entre os anos de 1842 e 1845, dois núcleos coloniais: um no Saí,</p><p>São Francisco do Sul, liderado pelo homeopata Benoît Jules Mure;19</p><p>outro, de 44 franceses, se assentou nos Sertões do Norte. A falange</p><p>dissidente estanciou-se há poucos quilômetros do atual centro ur-</p><p>bano de Garuva (SC), e suas investidas às margens do rio Palmi-</p><p>tal irão cirandar as páginas a seguir. O líder da “colmeia dissidente”</p><p>tem uma passagem discreta pela historiografia regional, apesar de</p><p>sua biografia ser tema na França. Trata-se do negociante de seda e</p><p>militante social Michel Derrion (1803-1850).</p><p>Michel-Marie Derrion nasceu em 29 de março de 1803. Seus</p><p>pais, Jacques Derrion e Marguerite Merlin, moravam na Rua Bât-</p><p>-d’Argent, quartier des Terreaux, conhecido pela importante pre-</p><p>sença dos negociantes de seda e apenas a alguns minutos da Croi-</p><p>x-Rousse. Vivia no bairro de Croix-Rousse, quarteirão encravado</p><p>entre os meandros dos rios Ródano e Saône. O pai, um “fabricant</p><p>d’étoffes de soie” e a mãe, “son épouse”, decidiram homenagear o</p><p>parente militar dando ao primogênito o seu nome, Michel. Da sua</p><p>infância até os seus 28 anos, momento o qual Michel-Marie Derrion</p><p>se reconhece enquanto um “réformiste pratique du commerce et du</p><p>travail”.20 Em 1806, nascia a pequena Louise-Françoise, sua única</p><p>irmã; nos idos de 1830, a família era locatária de dois imóveis21 na</p><p>rue de la Vielle-Monnaie, “sur la pente de la colline de la Croix-Rou-</p><p>sse”.22 Aos 27 anos de idade, ali mesmo, foi influenciado pelos ideais</p><p>19 Benoît Jules MURE (1809-1858) foi um homeopata lionês. Em 1840, convenceu as au-</p><p>toridades do império do Brasil a patrocinarem o projeto falansteriano no Brasil. Em 1844,</p><p>ele fundou a Escola de Homeopatia do Rio de Janeiro, e por isso, ele é apontado como o</p><p>“pai” da Homeopatia no Brasil.</p><p>20 Lettre de Michel Derrion à Enfantin, Lyon, 27 juin 1834. Bibliothèque de l’Arsenal, Paris.</p><p>21 Recensements annuels, Jardins de Plantes, Capucins – René Leynaud (rue), Lyon, 1831-</p><p>1832. Archives Municipales de Lyon.</p><p>22 GAUMONT, Jean. Le Commerce Véridique et Social (1835-1838), et son fondateur Mi-</p><p>chel Derrion (1803-1850). Amiens, Imprimerie Nouvelle, 1935, p.08-09.</p><p>23Jardim das Utopias</p><p>sociais da Revolta dos tecelões de Lyon (Canuts), ocorrida no final de</p><p>1831 e reprisada em 1834. Protestou ferozmente contra o massacre</p><p>promovido pela armada francesa sobre os rebeldes. Já nessa época</p><p>ele fazia incursões no movimento dos mutualistas.23 Em paralelo,</p><p>Derrion aderiu à filosofia socialista-industrial de Saint-Simon e</p><p>tornou-se um dos mais importantes “irmãos” lioneses da Religião</p><p>Saint-simoniana, uma teologia da transformação moral que objetiva-</p><p>va uma mudança social.24</p><p>A militância humanista de Derrion se evidenciaria nas notas</p><p>que ele publicou no jornal operário Écho de la Fabrique, de Lyon,</p><p>entre 1831 e 1834. São notas que mostram as atividades saint-simo-</p><p>nianas de Derrion e os primeiros esboços do que seria o prospec-</p><p>to do Commerce Véridique et Sociale. Também encontramos a im-</p><p>portância de Derrion em correspondências do famoso economista</p><p>saint-simoniano Michel Chevalier (1806-1879), que mencionam as</p><p>atividades de Derrion na Igreja Saint-simoniana de Lyon.25</p><p>Em 1834, mais amadurecido e distanciando-se gradativamente</p><p>dos saint-simonianos, publicou uma brochura de 54 páginas, intitu-</p><p>lada Constitution de l’Industrie et Organisation Pacifique du Commer-</p><p>ce et du Travail, ou Tentative d’une Fabricant de Lyon pour Terminer</p><p>d’une Manière Definitive la Tourmente Sociale. Nela, retrata-se um</p><p>reformista social, imantado</p><p>por um espírito de sua época, voltado ao</p><p>cooperativismo. Mesmo na companhia de saint-simonianos, Derrion</p><p>já tendia a aderir às ideias cooperativistas de Charles Fourier.</p><p>Ainda em 1834, Derrion terminou de redigir o prospecto da-</p><p>23 O movimento dos Mutualistas era caracterizado como uma associação de trabalhadores</p><p>independentes, que trabalhavam sem prestar contas a nenhum patrão lionês, numa espécie</p><p>de modelo cooperativo. Sobre isso ler BAYON, Denis. “Le Commerce Véridique et Social,</p><p>de Michel-Marie Derrion. Lyon, 1835-1838; Petites visites chez les utopies coopératives de nos</p><p>grand-parents”. Lyon; Atelier de Creation Libertaire, 2002. p.14.</p><p>24 Essa religião, liderada pelo “Pai” Enfantin, tinha o objetivo de moralizar os capitalistas a</p><p>fim de melhor do destino das classes mais numerosas e miseráveis, conforme a elaboração</p><p>de Saint-Simon na obra “Novo Cristianismo” (1825).</p><p>25 Sobre esse aspecto da vida de Derrion na França, bem com sua relação com os seguidores</p><p>de Saint-Simon, abordei particularmente em minha tese de doutorado, de 2016.</p><p>24 Gleison Vieira</p><p>quilo que viria a ser a primeira cooperativa de consumo da França.</p><p>Ajudou a fundar um jornal semanal chamado L’Indicateur, no qual</p><p>seria o editor. Ali, publicou artigos que resumiam o prospecto coo-</p><p>perativista. Esses artigos constituíram um conjunto textual que Der-</p><p>rion intitulou de Melhoramento Industrial. Eles nos mostram uma</p><p>mescla entre a filosofia de Saint-Simon (um socialismo a partir da</p><p>Indústria, uma vez que seus ideais se voltavam para o desenvolvi-</p><p>mento industrial) com o cooperativismo de Fourier (com a proposta</p><p>de livre adesão cooperativa e micro-economia). Um ano depois, ele</p><p>fundou a cooperativa que consistia em uma mercearia social de livre</p><p>adesão. Ela foi chamada de Commerce Véridique et Social. A coope-</p><p>rativa tinha como foco comercializar produtos sem intermediários,</p><p>e por meio da eliminação dos atravessadores, aumentar os ganhos</p><p>econômicos dos produtores e diminuir os custos dos produtos para</p><p>os consumidores, produtos esses com mais qualidade. Assim, ven-</p><p>do-se as vantagens da cooperatividade (Fourier), desencadear-se-ia</p><p>uma mudança progressiva e pacífica (Saint-Simon) em toda a socie-</p><p>dade. Mostrando as relações concomitantes entre essas três classes</p><p>socioeconômicas (produtor, atravessador e consumidor), Derrion</p><p>denunciou, com sua linguagem simples e direta, uma série de con-</p><p>tradições e perversidades dessa dinâmica econômica. É interessante</p><p>destacar que, mesclando saint-simonismo e fourierismo, e mesmo</p><p>tangenciando aspectos que seriam mais tarde evidenciados exausti-</p><p>vamente por Marx em O Capital, Michel Derrion já denunciava as</p><p>características nefastas do mercado que engendram a miséria mate-</p><p>rial e espiritual das classes trabalhadoras.</p><p>Entre 1835 e 1838, em Lyon, precedendo em cinco anos àque-</p><p>la experiência socialista no Palmital, Derrion fundou a Le commerce</p><p>véridique et social, associação mantenedora de uma mercearia coo-</p><p>perativa a qual, como frisa Bayon (2002, p.07) “foi a primeira co-</p><p>operativa de consumo de que se tem registro na contemporaneidade”.</p><p>Sobre esse mérito, afirmou Gide (1906. p.648) que Derrion fundou</p><p>a “primeira associação de consumo que foi criada na França – e uma</p><p>25Jardim das Utopias</p><p>das mais velhas do mundo – em 1835, em Lyon, trazendo consigo esta</p><p>insígnia significativa: ao verdadeiro Comércio”.26</p><p>Destacamos aqui com um pesquisador que estudou a biografia</p><p>de Derrion, o economista francês e ex-professor pela Université de</p><p>Lyon, Denis Bayon.27 Ele participou, em 2000, do Colóquio Michel-</p><p>-Marie Derrion (1803-1850) ou l’utopie de l’économie sociale : quelle</p><p>histoire pour quel avenir.28 Em 2002, publicou a brochura Le Com-</p><p>merce véridique et social de Michel-Marie Derrion, Lyon, 1835-1838,</p><p>sobre a vida e a obra de Michel Derrion na França.</p><p>Após o fracasso da experiência de sua cooperativa, uma das pri-</p><p>meiras do mundo, em 1838 (segundo Bayon, por ter incomodado</p><p>interesses da burguesia lionesa e outros fatores), Derrion deixava</p><p>o saint-simonismo para ingressar definitivamente no fourierismo.</p><p>Essa cisma entre os seguidores das duas doutrinas sociais, na qual,</p><p>como lembra Konder (1994, p.51), “os fourieristas eram rivais dos</p><p>saint-simonianos”, chegou às terras do Saí e do Palmital, unindo-se</p><p>aos fatores que malfadaram a experiência utópica. A atuação notória</p><p>de Derrion frente ao saint-simonismo em Lyon fez com que houves-</p><p>se desconfiança em relação à sua lealdade frente aos fourieristas, so-</p><p>bretudo a Mure. Incluiremos a transcrição de uma carta de Derrion,</p><p>na qual ele reafirmava a Mure sua conversão à doutrina de Fourier:</p><p>26 Sobre vida de Derrion na França, bem com sua relação com os seguidores de Saint-Si-</p><p>mon, abordei particularmente em minha tese de doutorado, de 2016.</p><p>27 Economista, docente na Universidade de Lyon (França). Ele é membro integrante Cen-</p><p>tre Walras - Université Lumière, Lyon, no qual são realizados estudos sobre economia sus-</p><p>tentável. É autor de livros como Les S.E.L.: pour un vrai débat. Ed. Yves Michel. 1999.</p><p>129p; e Le Commerce Véridique et Social, de Michel-Marie Derrion. Lyon, 1835-1838;</p><p>Petites visites chez les utopies coopératives de nos grand-parents”.Lyon : Atelier de Creation</p><p>Libertaire, 2002. 68p.</p><p>28 «Colloque Michel-Marie Derrion (1803-1850) ou l’utopie de l’économie sociale : quelle</p><p>histoire pour quel avenir» (Lyon, 08, 09 e 10 de junho de 2000). Esse evento, reunindo</p><p>protagonistas da economia social e solidária, universitários e políticos, no Centre Social</p><p>de la Condition des Soies, não distante do primeiro estabelecimento montado por Der-</p><p>rion. Trechos desses debates foram reunidos na revista Économie et Humanisme, “L’utopie</p><p>d’une économie de chargement social” (outubro de 2000, no. 354).</p><p>26 Gleison Vieira</p><p>Admira-me o que me dizeis das lutas que tendes tido que sus-</p><p>tentar por nosso respeito; e isto prova até que ponto a descon-</p><p>fiança é capaz de cegar os homens sobre os seus verdadeiros in-</p><p>teresses. Receiam que nós sejamos Saint-simonianos! Oh meu</p><p>deus! Pois pode haver a menor relação entre a nossa associação,</p><p>toda social, toda positiva, composta de homens de ordem e de</p><p>trabalho, fundada sobre a justiça e a equidade, e os projetos va-</p><p>gos, incoerentes, contraditórios à natureza, e por consequências</p><p>impraticáveis daqueles absurdos sectários? A maior injúria</p><p>que se pode fazer era certamente comparar-nos com semelhan-</p><p>tes traquinos, que, desde que apareceram no mundo, nunca fi-</p><p>zeram outra coisa senão extravagâncias... 29 (Michel Derrion)</p><p>2. O Jardim do Éden na Península do Saí</p><p>“Et je fais cette démarche avec d’autant plus de plaisir, que,</p><p>aujourd’hui que nulle agitation n’existe, je me sens dans tou-</p><p>te ma liberté, et qu’une question d’amour-propre ne me re-</p><p>tiendra jamais”. Michel Derrion 30</p><p>No ano de 1840, Michel Derrion e o médico Benoît Jules</p><p>Mure31 (juntamente com monsieur Arnaud e monsieur Jamain)</p><p>29 Carta de Derrion à Mure, Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 1841.</p><p>30 Palavras de Michel Derrion : “E dou esse passo com mais prazer ainda pois hoje, quando</p><p>não há mais agitação (da opressão contra os Canuts), sinto-me em toda a minha liberdade,</p><p>e que uma questão de amor-próprio não poderia me deter jamais.” (L’Écho de la Fabrique –</p><p>Journal Industrielle et Littéraire de Lyon, 23 de fevereiro de 1834, no. 60).</p><p>31 O também lionês Benoît Jules Mure (1809-1858) foi considerado um dos introdutores e</p><p>grande incentivador da homeopatia no Brasil. Durante toda a sua vida, sua saúde se mos-</p><p>trou delicada. Uma precoce asma o levou a concluir seus estudos em medicina pela Facul-</p><p>dade de Montpellier. Praticou a homeopatia pela Europa e veio para o Brasil em 1840. No</p><p>ano seguinte tentou implantar um projeto de colonização de orientação socialista francesa,</p><p>o Falanstério do Saí (Santa Catarina), onde chegou a organizar a Escola Suplementar de</p><p>Medicina e Instituto Homeopático de Saí (1842). Fracassado seu projeto, em 1843, trans-</p><p>feriu-se para o Rio de Janeiro, fundando aí o</p><p>Instituto Homeopático do Brasil, do qual foi</p><p>presidente até 1848, quando regressou à Europa. Morreu no Cairo, em 1858.</p><p>27Jardim das Utopias</p><p>fundam a Union Industrielle, em Paris. Essa associação estaria en-</p><p>carregada de elaborar o estatuto do falanstério (a colônia sonhada</p><p>por Fourier) em outro continente, na América do Sul, bem como de</p><p>fazer a triagem dos fourieristas que seguiriam para o Brasil.</p><p>Em novembro de 1840, o homeopata Benoît Mure desembar-</p><p>cou na cidade do Rio de Janeiro e ali se estabeleceu a fim de, como</p><p>representante dos fourieristas franceses da Union Harmonniene e a</p><p>Union Industrielle, contrair legalmente uma concessão de terras e</p><p>um subsídio através do Império do Brasil. Isso era essencial para se</p><p>estabelecer o falanstério. Mure criou um grande laço de amizade com</p><p>Francisco Antônio Picot, um dos redatores do Jornal do Commércio,</p><p>importante meio de comunicação do Império: “Foi através desse pe-</p><p>riódico que Dr. Mure teve a oportunidade de expor suas ideias sobre a</p><p>União Industrial e suas intenções de colonização”.32 Os argumentos de</p><p>Mure convencia as autoridades brasileiras, a ponto de conseguir até</p><p>mesmo um aliado na Câmara Constituinte, o deputado Andrada</p><p>Machado.33 Membros da roda próximo ao próprio imperador sim-</p><p>patizaram com o entusiasmado homeopata, dando-lhe uma conces-</p><p>são de duas léguas de terras devolutas, incumbindo ao próprio Mure</p><p>a tarefa de escolher o lugar para concretizar o projeto fourierista.</p><p>Mure viajou para a província de Santa Catarina, e escolheu, por uma</p><p>série de fatores geográficos e econômicos,34 a Península do Saí – re-</p><p>gião pertencente a São Francisco do Sul, limítrofe a Guaratuba (en-</p><p>tão pertencente à província de São Paulo).</p><p>É oportuno lembrar que a filosofia fourierista não pretendia</p><p>expropriar as classes dominantes, muito mesmo oportunizar uma</p><p>revolução de massas populares: tanto Saint-Simon como Fourier</p><p>não cogitaram um governo proletariado (como idealizou Marx e</p><p>32 S. THIAGO Raquel. Fourier: esperança e utopia na Península do Saí. Blumenau: FURB/</p><p>Florianópolis: UFSC, 1995, p.52.</p><p>33 S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.59.</p><p>34 ler trechos das cartas de Mure falando sobre a escolha das terras do Saí (Revista Trimes-</p><p>tral do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Vol. III; p. 13), presentes na</p><p>Introdução, primeira nota de rodapé (n.8)</p><p>28 Gleison Vieira</p><p>Engels), mas sim, um governo dos trabalhadores (e isso incluiria</p><p>banqueiros, grandes proprietários rurais e industriais,...). Tanto</p><p>saint-simonianos quanto fourieristas prospectavam uma fusão de</p><p>classes.35 Por isso, a elite brasileira não via ameaças nesse projeto. To-</p><p>davia, havia, sim, algum receio mais temerário em relação aos sain-</p><p>t-simonianos, pois Saint-Simon, no final de sua vida, militou em</p><p>pensar quase que exclusivamente na melhoria da classe trabalhadora</p><p>operária e na formação de um partido que a defendesse. Além disso,</p><p>os saint-simoniano subverteram o pensamento de Saint-Simon em</p><p>uma espécie de “seita social”, uma “igreja revolucionária”, que pro-</p><p>moveu radicalizações insultuosas à teologia tradicional católica – o</p><p>que não seria bem vindo em uma nação como o Brasil.</p><p>A ideia de livre associação era interessante em um país que já se</p><p>encontrava às avessas com um futuro fim do tráfico negreiro e com</p><p>o regime escravista num todo, fosse por um fim eminente de um</p><p>tipo de regime, fosse por interesses ligados a ampliação de mercados</p><p>internacionais, consolidando o capitalismo.</p><p>Enquanto isso, em Paris, Derrion, Jamain e Arnaud faziam a</p><p>triagem daqueles que iriam viajar para o Brasil, tal como se pode</p><p>constatar em uma carta de Derrion a Benoît, em agosto daquele ano:</p><p>“Não tenho palavras com que vos possa exprimir o interes-</p><p>se com que aqui vamos acompanhando nas vossas cartas os</p><p>esforços que ides empregando para fazerdes prevalecer no Es-</p><p>pírito do imperador do Brasil e do seu governo a ideia de</p><p>riqueza e poder que adquiriria esse vasto Império pela aqui-</p><p>sição de uma população laboriosa e inteligente, escolhida da</p><p>primeira nação do mundo e natural quase toda dessa cidade</p><p>de Paris, centro da industrial e das artes. Já sabeis que gran-</p><p>de cuidado nós pomos na escolha dos trabalhadores da nossa</p><p>35 Para Saint-Simon, a Revolução Francesa provara que nem os políticos e nem o povo</p><p>tinham condições de governar de maneira mais condizente com as condições epistemoló-</p><p>gicas (spiritueles) da modernidade. Caberia isso aos cientistas e industriais. Esse discurso</p><p>está inerente e toda a obra Cartas de um habitante de Genebra aos seus contemporâneos, a</p><p>primeira obra de Saint-Simon, publicada em 1802.</p><p>29Jardim das Utopias</p><p>colônia. Muitas comissões de admissão se acham encarrega-</p><p>das de tomar as informações necessárias para julgar do valor</p><p>moral e profissional de cada um deles. Cada um depois passa</p><p>por um exame particular; e só depois que provar de manei-</p><p>ra satisfatória que é um homem de bom porte, laborioso e</p><p>capaz, é que é admitido com sua família. E, eis porque de</p><p>700 indivíduos que se apresentam, somente foram admitidos</p><p>345, que devem partir com as suas mulheres e filhos, e alguns</p><p>com suas mães e irmãs, fazendo por tudo o número de 1.150</p><p>pessoas. Já fiz o inventário de todas as profissões e conheci-</p><p>mentos possuídos pelos membros da nossa sociedade, e aqui</p><p>vou dar-vos dela uma ideia. Advirto, porém, que além da</p><p>lista que vou apresentar, falta ainda tudo quanto é relativo</p><p>às profissões de mulheres de que, por hora, não pude fazer</p><p>cálculo; e que além de 326 operários apontados na lista, há</p><p>muitas outras pessoas que só vem assistir aos nossos trabalhos</p><p>como curiosos e sem tomar parte neles, mas que outra parte</p><p>têm meios de subsistência segura. Temos, pois, agricultores,</p><p>105; arquitetos, 2; aparelhadores, 1; etc...36 Já organizamos</p><p>coros que executam com muita harmonia diversos cantos, dos</p><p>quais compusemos poesia e a musica. Domingo, p.p., 8 de</p><p>agosto, estávamos reunidos 300 dentre nós e assistimos a um</p><p>jantar no grande salão Hermitage, na barreira dos Martyrs.</p><p>Assim, como todas as reuniões mensais, passou-se esta na</p><p>melhor ordem. Nossos societários dão, em todas as ocasiões,</p><p>provas de que sabem juntar ao amor do trabalho o uso da</p><p>educação, que não exclui nem a fraqueza nem a civilidade.</p><p>Por conseguinte, Senhor, aprontai para os nossos precursores</p><p>bom acolhimento; são eles os batedores nosso exercito pacífico.</p><p>Trilhando a suas pisadas, estamos prontos a arrastar a Euro-</p><p>pa para uma nova cruzada do Oriente para o Ocidente, que</p><p>36 O inventário completo das profissões dos membros fourierista pode ser visto em S.</p><p>THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.177-178.</p><p>30 Gleison Vieira</p><p>criará em vez de destruir, que firmará os impérios em vez</p><p>de tombá-los e que merecerá as simpatias dos dois mundos”.</p><p>Michel-Marie Derrion.37</p><p>Segundo declarações de Mure, parte desses fourieristas eram</p><p>homens que pretendiam se instalar em um possível falanstério no</p><p>continente africano, migrando para a Argélia. No inverno de 1841,</p><p>a Câmara Constituinte aprovava um subsídio de 64.000$000 para a</p><p>colônia fourierista do Saí. Tudo estava engatilhado. Com efeito, um</p><p>contrato foi assinado em 11 de dezembro de 1841, destinado à vin-</p><p>da de 500 imigrantes, cujos chefes de família deveriam apresentar</p><p>um certificado de idoneidade moral, emitido pela polícia francesa.</p><p>Em 14 de dezembro, 100 franceses chegavam ao porto do</p><p>Rio de Janeiro, desembarcando do navio Caroline. Entre eles estava</p><p>companheira de Derrion, além do filho deles. Os outros diretores</p><p>da Union Industrialle também desembarcaram nessa viagem (com</p><p>exceção de Arnaud, que ficou na França).38 Derrion e Jamain fica-</p><p>ram surpresos ao verem que o contrato estabelecido com o Império</p><p>do Brasil tinha como único beneficiário o Dr. Mure – e não a Union</p><p>Industrielle, como outrora acordado, cavalheiramente, na França.</p><p>Porém, Mure teria concordado em reiterar o contrato vigente junto</p><p>ao Cônsul, no penúltimo dia daquele ano.</p><p>Mas, naquele momento, parecia haver mais espaço às cerimô-</p><p>nias. Armou-se uma grande</p><p>festividade aos franceses: os fourieristas</p><p>foram apresentados ao imperador D. Pedro II. Deixando o palácio</p><p>imperial, os nossos colonos subiram a Rua do Ouvidor (rua carioca</p><p>onde poderiam ser encontrados diversos comerciantes franceses),</p><p>desfilando e entoando em coro numerosos cantos e odes, dos quais</p><p>37 Carta de Michel-Marie Derrion, de 13 de Agosto de 1841. Esse trecho da carta de Der-</p><p>rion está no Artigo “Derrion no Brasil: As Colônias do Saí e do Palmital” (1994) do Prof.</p><p>Dr. Antônio Carlos Güttler, docente da Universidade Federal de Santa Catarina. Esta nota</p><p>foi citada no livro de VIEIRA, Gleison. Porto Barrancos, Berço de Garuva. Joinville: Letra-</p><p>dágua. p.49-50.</p><p>38 “Acredita-se que Arnaud ou não veio para o Brasil, ou, se veio, voltou ou dispersou-se.”</p><p>(S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.153).</p><p>31Jardim das Utopias</p><p>um deles tinha por refrão... “Adieu terre de France, Salut terre de</p><p>l’avenir!” 39 Durante quinze dias os franceses utopistas estiveram na</p><p>Vila de São Sebastião do Rio de Janeiro. Houve um grande jantar</p><p>de confraternização, com a presença do imperador D. Pedro II (um</p><p>monarca com apenas 16 anos!). Mure fez um eloquente discurso.</p><p>Mas, os ânimos já não eram dos mais fraternos.</p><p>Em 30 de dezembro de 1841, como combinado, Derrion e Ja-</p><p>main ficam a esperar Mure no consulado. Enquanto isso, na mesma</p><p>hora marcada, mais da metade dos fourieristas, sob a liderança de</p><p>Mure, embarca no Caroline e zarpam rumo ao Saí, levando todo o</p><p>material que trouxeram da França, avaliado em mais de 60.000 fran-</p><p>cos.40 Derrion e Jamain, mais as mulheres e filhos de vinte societários</p><p>ficaram entregues à própria sorte, sem recurso algum, no Rio de Janei-</p><p>ro. Mure arrebatou inclusive as mulheres e filhos dos dois diretores.</p><p>Assim, não sobrara outra coisa a não ser pedir ajuda as autorida-</p><p>des brasileiras. Recorreram ao Ministério do Império. Foi neste mo-</p><p>mento que Derrion lê na integra o contrato que gerou toda a cizânia,</p><p>descobrindo que em suas conversas com o homeopata, esse último</p><p>havia omitido algumas cláusulas importantes do referido documento.</p><p>Como assinala Güttler, “o Ministério também providenciou o embar-</p><p>que dos colonos para Santa Catarina, que só aconteceu em meados de</p><p>janeiro de 1842, quando para lá se dirigia o vapor Campista”.41</p><p>E foi assim: Em janeiro de 1842, com o auxílio do chanceler e</p><p>cônsul francês Theodore Taunay (1797-1881), Derrion e Jamain,</p><p>pegando carona a bordo do Campista, partiam ao encalço do “com-</p><p>panheiro” Dr. Benoît Jules Mure.</p><p>39 “Adeus terra da França. Olá terra do futuro!”. BOITEUX, Henrique. O Falanstério do</p><p>Saí. p.68.</p><p>40 GÜTTLER, Antônio Carlos. Op. cit.; p.10.</p><p>41 Ididem.</p><p>32 Gleison Vieira</p><p>3. Desencantos à beira da Baía da Babitonga</p><p>“Partons, partons pour la terre promise.</p><p>Il faut un nouveau monde à des destins nouveaux”.42</p><p>A cizânia entre o homeopata e o ex-negociante de seda, na re-</p><p>alidade, havia começado antes da chegada ao porto carioca. Havia</p><p>uma desconfiança por parte de Benoît Mure de que Derrion e a</p><p>Union Industrielle (a qual o homeopata chamava ironicamente de</p><p>Derrion, Jamain et Arnaud Cia.) fossem saint-simonianos.</p><p>No Brasil, a recusa pelo saint-simonismo se dava pelo fato des-</p><p>ta doutrina reinterpretar o cristianismo, em função de uma “religião</p><p>positiva”. Mesmo assim, Mure não se convencia da “fourierbilidade”</p><p>de Derrion. Em 07 de janeiro de 1842, o navio Caroline chegava à</p><p>baía da Babitonga. O episódio deplorável e negligente protagoni-</p><p>zado por Mure no Rio de Janeiro com certeza causou desconforto</p><p>entre os associacionistas. Passaram pela Ilha do Alvarenga, que fica-</p><p>va defronte à paragem do Saí, donde se podia avistar não somente</p><p>o local que comportaria o falanstério, mas também, do outro lado</p><p>da baía, a Vila de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco</p><p>Xavier do Sul.43</p><p>O barco Caroline apontou posteriormente para a tal vila, para</p><p>somente depois rumar, em definitivo, às terras do Saí – no lote</p><p>de duas léguas quadradas que o Coronel Oliveira Camacho havia</p><p>concedido para a criação do estabelecimento falansteriano. Neste</p><p>momento, os fourieristas, insatisfeitos, foram buscar apoio em um</p><p>ferreiro francês que haviam se estabelecido, anos antes, naquela vila.</p><p>Seu nome era Henri Doin. Os imigrantes levaram boa parte da car-</p><p>ga que estava a bordo do Caroline para a casa de Doin. A esta altura,</p><p>42 “Partamos, partamos/ Para a terra prometida/ É preciso um mundo novo/ de novos</p><p>destinos”. Trecho do hino fourierista entoado no Sahy pelos franceses associacionistas no</p><p>dia 25 de julho de 1842, quando ali chegou para se juntar aos utopistas a Mme. Louise</p><p>Bachelet (S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.111).</p><p>43 Antiga denominação do atual município de São Francisco do Sul.</p><p>33Jardim das Utopias</p><p>Mure mostrava não ter mais controle da situação. Tanto que em 13</p><p>de janeiro, Mure requereu, junto às autoridades, um mandado de</p><p>busca e apreensão na casa de Doin. Foi outro episódio vexatório.44</p><p>Em 23 de janeiro de 1842, Derrion e Jamain desembarcam no</p><p>porto de São Francisco do Sul, dispostos a “conversar” com Mure por</p><p>tê-los abandonado no Rio de Janeiro. Sabendo da chegada dos dois</p><p>sociantistas, o homeopata solicitou a presença de guardas para a vi-</p><p>gilância de sua casa, temendo uma tomada à força por parte dos des-</p><p>contentes. Também solicitou a presença daqueles que lhe eram fiéis:</p><p>“Mesmo Assim, segundo relatou, os dissidentes o ‘guardaram</p><p>à vista’ por 12 horas ‘naquele dia terrível’ e destituíram-no dos</p><p>seus direitos de empreendedor, em uma assembléia pública. De-</p><p>pois da Assembléia – relatou – os dissidentes ocuparam por 12 a</p><p>15 dias, militarmente, a sede da colônia. Aí colocaram sentine-</p><p>las, em virtude de o Dr. Mure ter resolvido transferir a sede para</p><p>o interior da península, no limite da concessão, onde já existiam</p><p>ranchos para receber os que não o haviam abandonado”.45</p><p>Entretanto, em meio a esta atmosfera de guerra, as trinta fa-</p><p>mílias fourieristas se fixavam no descampado do Saí. Neste período</p><p>44 “... quando o médico francês requereu, (...) mandado de busca e apreensão dos obje-</p><p>tos, o qual sendo executado, causou grande reboliço na pacata Vila de São Francisco, em</p><p>virtude de entrevero ocorrido entre o oficial de justiça e os franceses (três mulheres e um</p><p>moço) protegidos de Doin. A resistência foi tal, que o oficial de justiça teve que apelar</p><p>para a Guarda Nacional. O Dr. Mure, que acompanhava a diligência, apontou como de</p><p>propriedade da colônia um baú com roupas de uso, um barril de pólvora, uma peça de brim</p><p>fino, adornos para chapéus de senhoras, deixando, por um questão de ‘humanidade’, uma</p><p>barrica de farinha de trigo, galinhas, dois sacos de batatas, outros mantimentos e vinho</p><p>para alimentos deles. (...) enquanto ao ritmo dos impropérios das francesas, o oficial de</p><p>justiça procedia à apreensão das bugigangas do falanstério, Henry Doin, na rua, à vista dos</p><p>curiosos embasbacados da vila, vituperava a ação da justiça e dirigia aos guardas nacionais</p><p>apalermados um discurso sedicioso para os extraviar, até que o alferes Manoel Joaquim de</p><p>Albuquerque chegasse a cortar-lhe a palavra e tornasse a organizar a escolta. Entre outras</p><p>coisas, dissera Doin que a justiça desta vila protegia ladrões, e os guardas nacionais ajuda-</p><p>vam o roubo de pobres inocentes.” (PEREIRA, Carlos da Costa. “O Dr. Mure”. p.12. Apud</p><p>S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.85).</p><p>45 Sobre a carta de Mure ao Juiz de Paz de São Francisco do Sul, redigida em 24 de janeiro</p><p>de 1842. (S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.87).</p><p>34 Gleison Vieira</p><p>de confusão, houve até o casamento de uma jovem brasileira com</p><p>francês Narcyso Deyrolles.46</p><p>Derrion e Jamain escreveram cartas às autoridades, relatando</p><p>as desavenças com o ferreiro Henri Doin47 e com os colonos, de-</p><p>monstrando que Mure não tinha condições morais para administrar</p><p>o falanstério. A essa altura, até mesmo o engenheiro e tenente Jerô-</p><p>nimo Coelho, Inspetor da Colônia do Saí, já desconfiava da índole</p><p>de Benoît Mure, principalmente pelo fato de o homeopata não acei-</p><p>tar dividir a direção</p><p>com Derrion e Jamain. Com efeito, iniciou-se</p><p>um conjunto de estudos sobre o estatuto da colônia.</p><p>Já estamos em fevereiro de 1842, e neste momento, até mesmo</p><p>as forças políticas de São Francisco davam os seus pareceres. É que o</p><p>Coronel Camacho, amigo de Mure (que havia doado – por interesse</p><p>– o lote de terras no Saí à colônia) era do Partido Conservador; logo, o</p><p>Partido Liberal consentiu com os dissidentes, liderados por Derrion.</p><p>O que começou de forma ruim tinha a tendência a continuar e</p><p>terminar de forma ruim... O juiz de paz de São Francisco, Joaquim</p><p>Gonçalves da Luz, tentou apaziguar os espíritos, mas os laços fra-</p><p>ternos entre os dois grupos de imigrantes franceses, abruptamente</p><p>rompidos, pareciam irreconciliáveis.</p><p>Para piorar toda a situação, Mure expulsou das terras do Saí os</p><p>“rebeldes” – esses já não estavam mais integrados à colônia. Com seus</p><p>próprios recursos, Michel Derrion e os dissidentes foram forçados a</p><p>se alojarem em casas alugadas na vila catarinense, quase em estado de</p><p>miséria. As autoridades da província convocaram Mure e os represen-</p><p>46 Narcyso Deyrolles era irmão do Dr. Eduardo Deyrolles, cirurgião da colônia falansteria-</p><p>na do Sahy. (S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.117).</p><p>47 Henri Marins Nicolau Just Doin, o primeiro francês radicado em São Francisco do Sul</p><p>(COSTA, 1972, p.60). Natural de Paris, ele chegou à vila de São Francisco em 1827. Foi-</p><p>-lhe incumbido na confecção de novos sinos para a Matriz de N. S. da Graça, uma vez “que</p><p>se atrevia a fundir de novo os dois sinos” (PEREIRA, p. 119). Ele era filho de Guillaume</p><p>Doin e Louise Polar. Foi casado, em segundo leito, com Anne Marie Wanner, também</p><p>francesa, irmã de Antoine Louis Wanner, um dos franceses egressos do Falanstério do Saí e</p><p>empregado na serraria do Coronel Camacho no Itapocu (PIAZZA, Fourierismo em Santa</p><p>Catarina, Blumenau em Cadernos, Tomo XIII, p.66).</p><p>35Jardim das Utopias</p><p>tantes dos dissidentes a prestarem contas dos problemas em uma au-</p><p>diência, marcada para o dia 21 de fevereiro de 1842, em Desterro48.</p><p>Jamain, em companhia de Monsieurs Pomatelly e Teysseire (membro</p><p>do Conselho da antiga Union Industrielle) explicaram os motivos de</p><p>suas desavenças com Mure. Mas o homeopata, por sua vez, não com-</p><p>pareceu, apenas se explicando por cartas. Michel Derrion teria ido,</p><p>por motivos desconhecidos, ao Rio de Janeiro, no “sumaca Conceição</p><p>Maria”.49 Os dissidentes sugeriam duas soluções: 1) Ou a revisão de</p><p>algumas das cláusulas do contrato; 2) Ou a concessão de um novo</p><p>lote de terras aos dissidentes, bem como de uma subvenção financeira.</p><p>Por volta do mês de março, um escândalo recaiu sobre Mure.</p><p>Uma carta assinada por várias famílias, todas francesas, acusavam</p><p>o homeopata de ter seduzido uma moça de 12 anos ( Josephine, fi-</p><p>lha de Mme Croissonier), forçando-a a ter relações amorosas com</p><p>o Coronel Oliveira Camacho.50 Joaquim G. da Luz informou ao</p><p>Presidente da Província que “sempre procurou conciliar os colonos</p><p>como juiz de paz que era. Este, no entanto, seria mais incisivo e dizia</p><p>que a raiz de todos os problemas encontrava-se na pessoa de Mure,</p><p>adjetivado pelo oficial como pertinaz, imprudente, injusto e sofre-</p><p>dor de alienação mental”.51</p><p>Assim, Michel Derrion, Jamain, Pomatelly e Teysseire formam a</p><p>2ª. Union Industrielle, com o objetivo de se fortalecerem legalmente.</p><p>Parecia que os ventos sopravam a favor dos fourieristas dissidentes.</p><p>Mas, quando tudo parecia se caminhar para um “final feliz” à aventura</p><p>de Derrion e seus homens, um golpe atinge o coração dos dissidentes:</p><p>“A 3 de março o Presidente da Província ratificava seu apoio</p><p>ao Dr. Mure, recomendando ao Juiz de Paz de São Francisco</p><p>48 Ilha de Desterro era o nome da atual ilha de Florianópolis.</p><p>49 S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.96. Obs.: Sumaca é um antigo navio à vela, muito usado</p><p>na costa do Brasil, semelhante ao patacho, porém menor, de mastreação constituída de</p><p>gurupés e dois mastros inteiriços: o de vante, que cruza duas vergas, e o de ré, que enverga</p><p>vela latina (Novo Aurélio. Op. cit.).</p><p>50 S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.98-99.</p><p>51 GÜTTLER, Antônio Carlos. Op. cit.; p.12.</p><p>36 Gleison Vieira</p><p>que sustentasse o direito do Dr. Mure nas questões entre ele</p><p>e os denominados diretores da Sociedade União Industrial,</p><p>visto que o contrato foi estabelecido com o Dr. Mure e não</p><p>com aquela sociedade”.52</p><p>Não havia mais volta... Para continuar o sonho fourierista, a</p><p>Derrion só restava fundar uma outra colônia. E como conseguir</p><p>subsídios? Onde fundá-la?</p><p>4. Entre capitães e caboclos: O Sertão do Palmital no século XIX</p><p>“Palmitar. Sítio da Província de Santa Catharina, nas</p><p>margens do rio Sahi, a 6 legoas de sua foz...”.53</p><p>O horto germinal sonhado por Fourier e cujas similitudes</p><p>Mure vislumbrou nos grotões do Saí, um germinal que acomodaria</p><p>a falange, já não era mais uma opção para os dissidentes. Porém, nas</p><p>vastidões dos Sertões Incultos,54 situadas há poucas léguas do Saí, ha-</p><p>via um quintal mais ao norte, um vasto jardim em profusão, à som-</p><p>bra da Serra do Mar. Era uma planície próxima aos limites com a</p><p>província de São Paulo; um rincão aquarelado no verão pelas flores</p><p>de jacatirão, irrigado por inúmeros arroios e igarapés. Ainda conec-</p><p>tado à península, esse jardim não era senão a extensão daquele Éden</p><p>germinal: era o Palmital.</p><p>O Palmital é uma das sertanias do Saí. Em seus primeiros re-</p><p>gistros históricos, o termo notado em referência a esse lugar era a</p><p>corruptela Palmitar ou Parmitar. Essa particularidade nos revela</p><p>52 S.THIAGO, Raquel. Op. cit.; p.101.</p><p>53 SAINT-ADOLPHE, J. Milliet de. Diccionário Geográphico, Histórico e descritivo, do Im-</p><p>pério do Brazil. Transladada em português do manuscrito francês pelo Dr. Caetano Lopes</p><p>de Souza. Paris: J.P. Aillaud Editeur. 1845. p.194. (Obs.: O exemplar pesquisado se en-</p><p>contra na Stanford University Libraries – nº. de registro: 325800; nº. de periódico: 918.1,</p><p>M654).</p><p>54 Expressão que está no Mapa Chorographica da provincia de Stª. Catarina, parte da Pa. de</p><p>São Paulo e da Pa. de Rio Grande do Sul e parte da república do Paraguay, 1842, de Lede,</p><p>Charles van Lede. (Acervo da Fundação Biblioteca Nacional) – Ver Anexo 02.</p><p>37Jardim das Utopias</p><p>muito sobre o Brasil Sertanejo. Durante os séculos XVII e XVIII,</p><p>a língua corrente no Brasil não era o português, mas, o nheengatu</p><p>(o tupi), a língua geral, e é por ela que a vida cotidiana na colônia</p><p>se manifestava, na interação entre portugueses e indígenas, entre os</p><p>mestiços caboclos e cafusos, entre caipiras e caiçaras. Não à toa, as</p><p>topomínias dos rios, morros e outros relevos passaram a ser quase</p><p>todos em tupi.55 Por isso, encontramos nomes em tupi na região:</p><p>Saí, Saí-Guaçu, Saí-Mirim, Jaguaruna, Urubuquara, Baraharas,</p><p>Araraquara, etc. Todavia, a herança do nheengatu não está no termo</p><p>português Palmital em si, mas, no “r” de “Parmitar”. Esse tipo cultu-</p><p>ralmente é um tipo caracterizado por um traço muito interessante</p><p>que é a fusão da cultura portuguesa com as culturas indígenas locais.</p><p>O caipira é muito mais português do que se pensa. Como ressalta</p><p>Antônio Candido em Intérpretes do Brasil, houve um tempo, talvez</p><p>por ativismo brasileiro, que se tendia a acentuar muitos componen-</p><p>tes indígenas. Por exemplo, o R retroflexo, como no caso de “Par-</p><p>mitar”, típico da área caipira. Nesse caso, o “l” é substituído pelo “r”</p><p>quando em separações silábicas, sendo esse “r” pronunciado com a</p><p>ponta da língua tomando o céu da boca: armoço; artura; arvorada;</p><p>etc. Ipso facto, o r retroflexo é encontrado na língua tupi – na dificul-</p><p>dade que o tapuia tinha em pronunciar o “l”.56</p><p>O “Palmitar” recebia esse termo topomíneo, obviamente, por</p><p>55 Isso se deu até o édito de 1750, quando o Marquês de Pombal proibiu o uso da língua ge-</p><p>ral em detrimento da língua portuguesa. Isso tudo é personificado na figura do bandeirante</p><p>Domingo Jorge Velho. Em uma audiência entre o bandeirante e o bispo de Pernambuco,</p><p>Dom Francisco de Lima, o clérigo descreveu assim o mercenário Jorge Velho: “Este homem</p><p>é um dos maiores selvagens</p><p>com que tenho topado: quando se avistou comigo, trouxe consigo</p><p>um intérprete porque não sabe falar português nem se diferencia do mais bárbaro Tapuia”</p><p>(RIBEIRO, Darcy; MOREIRA NETO, Carlos Araújo (Orgs.). A fundação do Brasil: tes-</p><p>temunhos - 1500/1700. Petrópolis: Vozes. 1992, p.299).</p><p>56 Contudo, esse r retroflexo também era utilizado na região do Minho, norte de Portugal.</p><p>Assim, é difícil discriminar o que é indígena e o que é lusitano. Essa similaridade presentes</p><p>na língua aparece nos costumes. Por exemplo, o Jogo do Pau ( Jogo do Cajado), que é um</p><p>jogo português típico – a luta de cada um com seu cajado (bastão) em mãos, um elemen-</p><p>to fundamental da cultura portuguesa; e há uma similaridade com o uso do tacape e os</p><p>bastões de combate dos tupis. É provável que sobrenadassem na cultura caipira o que era</p><p>comum aos dois lados, promovendo uma fusão de elementos culturais.</p><p>38 Gleison Vieira</p><p>seu recurso natural mais abundante: o palmito. Assim como em</p><p>todo o sul, o palmito era muito comum na região do Saí e nas ime-</p><p>diações dos contrafortes da Serra do Mar, como nos relata um cro-</p><p>nista alemão de passagem pela região em 1867:</p><p>“Não se pode depender das frutas silvestres, apesar de haver</p><p>muitas delas, mas a maioria tem, antes de tudo, fortes quali-</p><p>dades medicinais, o que faz com que não se prestem como ali-</p><p>mentos. Só aquela palmeira de caule que aparece por toda par-</p><p>te no litoral oferece ao mercado os seus escopos de folhas e flores</p><p>um legume agradável, semelhante ao aspargo, mas a contínua</p><p>ou exclusiva ingestão deste provoca, já em poucos dias, a tenaz</p><p>obstrução do baixo ventre.” (Auguste Wunderwal).57</p><p>No final do século XVIII, o Palmital não passava de um re-</p><p>côndito sertão da Vila de São Francisco, sombreado pela opulência</p><p>da Serra do Mar, quase um “pé de serra”, na divisa litorânea entre as</p><p>Províncias de São Paulo e Santa Catarina.58</p><p>O rio Palmital corta uma planície fértil, que é composta de um</p><p>aquífero notável, crivado por uma miríade de arroios... Encontra-se</p><p>na margem direita (a margem ocidental) uma numerosa quantidade</p><p>de rios e igarapés – “filhos” da Serra do Mar que desembocam no</p><p>canal, tais como o rio da Onça, rio Urubuquara, rio Pirabeiraba e o</p><p>rio Três Barras. Na realidade, o Urubuquara, o Três Barras e o Pal-</p><p>mital formam uma confluência belíssima, caminhando suas águas,</p><p>juntas, até se reunirem ao estuário da Babitonga. Esse ponto no qual</p><p>há uma encruzilhada majestosa de barras dos mencionados rios, ga-</p><p>nha o nome de Barrancos, que em português arcaico quer dizer algo</p><p>como: “um lugar cheio de barras; embarrancado; barrancos”. Essa</p><p>confluência dá início àquilo que atualmente é chamado de Canal do</p><p>Palmital, o que outrora era denominado Rio de São Francisco. O po-</p><p>57 Wunderwal, Auguste, Der Pfadfinder des Urwaldes in Brasilien (o “Escoteiro da mata</p><p>virgem no Brasil”) in “Kolonie Zeitung”, Globus – Jlluftrirte, Beitjchrift für Lander, Brauns-</p><p>chweig, (impressão e edição de Friedrich Beiweng e Filho), 1867.</p><p>58 VIEIRA, Gleison. Op.cit.; p.78-80.</p><p>39Jardim das Utopias</p><p>tencial natural daquela vereda encravada nos limites das capitanias</p><p>de São Paulo e Santa Catarina já era notado no registro mais antigo</p><p>no qual se menciona o Palmital. Trata-se do trecho de uma carta de</p><p>1796, expedida pela Câmara da Vila de São Francisco do Sul ao 2º</p><p>Conde de Resende, José Luís de Castro:</p><p>“Ilmo e Exmo. Senhor Conde Vice-Rey deste Estado. [...]</p><p>os meios que descobrimos para nosso melhoramento patro-</p><p>cinando-nos o socorro e poderoso auxílio de V. Excia. são</p><p>os seguinte: sem cazais de Ilheos para povoarem os Rios de</p><p>Cubatão grande e pequeno, Piraverada (?) [Pirabeiraba],</p><p>São João, rio das Pedras, Rio dos Cavalinhos, Palmital, parte</p><p>das Três Barras, e outros lugares sem moradores, sendo alias</p><p>terras boas e de qualidade para darem todas as plantações,</p><p>como a experiência tem mostrado que estes homens são muito</p><p>trabalhadores. [...] Rio de São Francisco em Câmara de 30</p><p>de Abril de 1796”.59</p><p>Tratando sobre o rio São Francisco, podemos elencar trechos da</p><p>revista francesa intitulada Annales Maritimes et Coloniales escrita por</p><p>M. Bajot (comissário francês da Marinha e inspetor das bibliotecas do</p><p>departamento da Marinha e das Colônias) e M. Poirré (então ex-Sub-</p><p>-Chefe da Secretaria do Ministério da França), publicado em 1847.</p><p>Menciona-se, ali, a navegabilidade daquele canal e de seus afluentes:</p><p>“San Francisco. - Assim que nós o dissemos, o San Francisco é</p><p>mais um braço de mar que um rio propriamente dito. Ele se</p><p>compõe de um braço que vem do N.N.O., e é formado pela reu-</p><p>nião do ribeirão de Três Barras e do Palmital. Após um curso</p><p>de aproximadamente 4 léguas, esse braço se divide em dois,</p><p>do qual um se dirige a N.E. e o outro a S.E. compreendendo</p><p>entre eles a Ilha de San Francisco. (...) a subida pelo braço que</p><p>59 Copiado do documento da Secção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, com a indi-</p><p>cação topográfica I-28.24.11. nº 45. Apud Revista do Instituto Histórico e Geographico do</p><p>Brazil (RJ), Vol 245. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, out-dez de</p><p>1959, p.118.</p><p>40 Gleison Vieira</p><p>vai reunir-se as Três Barras pode ser feita por navios de mé-</p><p>dio porte traçando 13 à 14 pés náuticos, com a ajuda de um</p><p>piloto para evitar qualquer escolho e os fundos mais rasos. A</p><p>margem esquerda do San Francisco é muito elevada, e desse</p><p>lado nenhum ribeirão não vem se desembocar ao rio. Pela di-</p><p>reita, ao contrário, ele recebe um grande número de ribeirões,</p><p>dos quais quaisquer um são navegáveis até uma certa distân-</p><p>cia e irrigam uma região pouco acidentada. E também o San</p><p>Francisco, a maior parte dos afluentes dos quais falamos são</p><p>antes canais brocados pelo mar do que ribeirões propriamente</p><p>ditos, e são em parte o próprio mar, que os origina, que os torna</p><p>navegáveis. Com efeito, a água ali é completamente salgada</p><p>bem além de suas barras, e, desde que se penetrem-nas a al-</p><p>gumas milhas no interior, elas não são mais navegáveis senão</p><p>na maré alta, e quase a seco no baixo mar, sejam então real-</p><p>mente apenas pequenos filetes de água formados pela nascente.</p><p>O Cubatão e os dois ribeirões das Três Barras e do Palmital</p><p>fazem as únicas exceções. Adimos enfim que cada um desses</p><p>afluentes se divide em uma grande quantidade de braços que</p><p>cortam a região em todos os sentidos”.60</p><p>Ainda hoje o rio Palmital se mantêm navegável, comportando</p><p>barcos maiores até a sua confluência com os rios Urubuquara e Três</p><p>Barras, tal como pode ser encontrado descrito na revista Annales</p><p>Maritimes et Coloniales: “Palmital. – enfim, pode-se subir o Palmital</p><p>com pequenos iates a uma certa distância de sua embocadura, e ainda</p><p>algumas léguas mais adiante com pirogas”.61 Ao norte, próximo dali,</p><p>depara-se com o limite paranaense – na época, o Paraná ainda era</p><p>território da Província de São Paulo. Essa linha divisória, traçada</p><p>desde 1771, é rompida duas vezes pelas rápidas corredeiras do rio</p><p>60 BAJOT, M. POIRRÉ, M. Annales Maritimes et Coloniales. 32º. Année, 3ª. Série, IIª.</p><p>Section, Revue Coloniale. Paris: Imprimerie Royale. 1847. p.356-357.</p><p>61 “Palmitar. – Enfin, le Palmitar peut être remonte par de petits hiates à une certaine dis-</p><p>tance de son embouchure, et qualques lieues plus loin au moyen de pirogue”. (BAJOT, M.</p><p>POIRRÉ, M. Op.cit.; p.358).</p><p>41Jardim das Utopias</p><p>São João, que desemboca na Baía de Guaratuba, serra a baixo.</p><p>Na margem esquerda do rio Palmital (a margem oriental, onde</p><p>os societários dissidentes residiram), serravam-se limites com as ter-</p><p>ras da Península do Saí. Há pouco mais de uma légua da nascente do</p><p>rio Palmital encontra-se a cabeceira de outro rio importantíssimo:</p><p>o rio Sahy-Guaçu, cuja barra serve de baliza divisória entre Paraná</p><p>e Santa Catarina, desaguando no Oceano Atlântico e desenhando</p><p>os contornos peninsulares da planície saiense. Nesta margem são</p><p>relevantes dois rios: da Caçada e da Maria Baraharas. Paragens</p><p>cercavam o Palmital, tais como a paragem Barrancos, Morro Maria</p><p>Baraharas, os Morros de São João, o serro granítico do</p>O Socialismo do Prazer”. Rio de Ja-
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	Prefácio: Das Utopias Urbanas no Brasil moderno ao projeto de Derrion
	Introdução: Jardim das Utopias nas águas do Saí e Palmital
	1. Entre os rios Ródano e Saône: a vida de Derrion 
	2. O Jardim do Éden na Península do Saí 
	3. Desencantos à beira da Baía da Babitonga 
	4. Entre capitães e caboclos: O Sertão do Palmital no século XIX 
	5. Sonho e utopia nas veredas do Palmital 
	6. Um novo mundo nas águas do Baraharas 
	7. A vazante da maré: fim do sonho no Palmital? 
	8. Lucie Domanget: a esposa de Derrion 
	9. Antoine Jamain (1802-1858): uma liderança no Palmital 
	10. Jardim em ruínas: o último francês no Saí 
	11. Do Palmital à Guanabara: adieu, Orphéon! 
	12. A ressurreição de Michel Derrion 
	Épilogo: O “chiffonier de la mémoire” - costurando utopias
	Anexos 01 FRANÇA
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	REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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