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<p>Tania Alexandre Martinelli Procura-se um planeta sustentável</p><p>INTRODUÇÃO mais. Milhões de pessoas vivem em condições de pobreza, enquan- to outras consomem, desperdiçam e degradam meio ambiente. acontecimento de 13 de novembro de 2002 serviu-me para abrir o primeiro capítulo deste livro: petroleiro Prestige, da compa- 1992, acontecia no Rio de Janeiro a Conferência das nhia grega Mare Shipping, sofreu um rombo no casco, na costa Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92, noroeste da Espanha, partindo-se em dois. Havia nele setenta mil que reuniu 108 chefes de Estado para discutir e encontrar soluções toneladas de petróleo. Um grupo ambientalista avisou que era para a crise ambiental do planeta. maior acidente ambiental já registrado. Em um jornal, a fotografia de Havia, entre os líderes desses países, uma série de acordos uma gaivota completamente envolta no óleo preto me comoveu. ambientais combater as mudanças climáticas provocadas pelo Depois, outras coisas foram acontecendo: vazamento de homem, proteger a biodiversidade da Terra e livrar mundo das ácido de uma empresa química em Rio Claro (SP) substâncias tóxicas perigosas além de um plano de ação global, provocou pânico na população; outro vazamento de material tóxico conhecido como Agenda 21, que objetivava promover desenvolvi- num terminal de importação, em Campinas (SP), levou quinze pes- mento sustentável do planeta, isto é, garantir a prosperidade soas ao hospital; vários tambores vazios de produtos químicos de mica sem deixar de lado a igualdade social e a proteção ao meio uma de Paulínia (SP) foram parar no rio; resíduos químicos ambiente. de uma de papel em Minas vazaram de seus tanques e segui- Nessa resolvi escrever uma história. Eu estava preocu- ram com o fluxo do rio até desembocar no mar, no Rio de Janeiro. pada com a emissão dos CFCs (clorofluorcarbonetos), um dos prin- Acidentes que poderiam ser evitados continuam ocorrendo, e cipais vilões da destruição da camada de ozônio, pela sua larga uti- são os seres vivos do planeta que padecem com tudo isso. Só no lização em isopores, refrigeradores e aparelhos de ar-con- Brasil, mais de seiscentas espécies de animais correm risco de dicionado. Muitos países em desenvolvimento concordaram em extinção. reduzir seu uso, buscando novas alternativas e tecnologias. No Para encerrar, reproduzo algumas palavras do editor Marcos Brasil, por exemplo, uso do CFC em aerossol está proibido, que Brogna, do mesmo jornal que estampou a fotografia da gaivota e de não acontece em alguns outros seu sofrimento: são os homens que impedem os passaros de Meu texto acabou ficando guardado e agora transformei-o voar? Quem são os homens que pensam ter no globo terrestre neste livro. Por coincidência, ou coisas que a gente nem sempre exclusivo da sua ambição, do seu poder e dos seus erros irre- sabe, retomei a idéia pouco antes de acontecer a Cupula da Terra paráveis? Quem são os homens que mancham as inocentes criaturas 2002, também chamada de com denso óleo que movimenta motores e guerras? (...) Quem A história ganhou corpo, pois havia muito a ser discutido. somos nós para nos acharmos no direito de destruir tudo?" Nesses anos todos, os problemas ambientais não ao vezes, nos sentimos tão pequenos diante de todas essas contrário, alguns países ainda não se deram conta de que planeta agressões contra a natureza. Mas os nossos atos, por menores que é um só para todos. Pouco foi realmente investido nesses acordos, e sejam, podem ser grandiosos quando se trata de salvar vidas e lutar muitos governantes continuaram com as mesmas práticas comer- para que, um dia, consigamos viver em paz com planeta. ciais, buscando crescimento econômico a qualquer preço, sem res- peitar o meio ambiente. A autora A distância entre os ricos e os pobres aumenta cada vez</p><p>SUMÁRIO A tragédia 8 Um crime! 11 escritório da ONG 78 E-mail 1 14 E-mail 4 81 Papo chato 17 E-mail 5 83 Ainda sem notícias 20 A ISO 14000 85 Surpresa, à noite 23 A reportagem 88 Outro telefonema 26 o choque 91 vizinho 29 catalisador 95 Correria 31 E-mail 6 98 E-mail 2 34 E-mail 3 35 E-mail 7 101 Convite 102 Na mesma 36 Amaral 105 A caminho de casa 39 Esperanças 107 Confuso 42 E-mail 54 109 Reencontro 45 Pânico 50 Tumulto 53 Mais uma vítima 56 Notícias 58 É preciso fechar! 60 De volta para a escola 63 Emoção 66 Mundo da lua 69 Conflitos 74 A multa 76</p><p>A tragédia garoto enfiou a mão em um dos bolsos da bermu- da, tirou uma moeda e a depositou no chapéu deixado no J chão. homem agradeceu sem parar sua música, apenas nem se lembrava mais de como era centro da fazendo um gesto com a cabeça. cidade. Lotado. Fazia um bom tempo que não andava por Rafael continuou andando e passou em frente a uma da lá. Só tinha ido mesmo por causa de uma camiseta estam- banca de revistas. Enquanto caminhava, ouviu alguém or pada com nome de uma de suas bandas preferidas. E dizer ao jornaleiro: ainda bem que tinha achado. Fora das lojas, o atropelo de E - É disso que nós precisamos. Emprego para as pes- pessoas era mesmo. Em todos os lugares por onde passa- de soas da cidade. senhor veja só como anda a situação... va era assim. Um sufoco. E a sumiu, conforme menino se distanciava. Nos cruzamentos do havia de tudo. Rafael "Na certa, falavam sobre a multinacional", Rafael ten- observou um vendedor de loteria e um homem discursando tou adivinhar. Desde que ela se instalara na cidade, havia com a Bíblia nas mãos. Poucos passos separavam um do do pouco mais de um mês, esse era um dos assuntos preferidos outro. o primeiro oferecia sonho de ganhar milhões e resol- da população. "Será que esse assunto não vai acabar ver de vez a vida; o segundo, a palavra de Cristo e a salvação. nunca?" Deixou de lado os senhores da banca de revista quan- Pouco mais à frente, uma mulher e uma criança esta- O. vam sentadas debaixo de uma marquise e interpelavam a do, de repente, percebeu uma concentração de pessoas em a- frente à vitrine de uma grande loja de eletrodomésticos. todos que por ali passavam. Do outro lado, um tocador de a sanfonas. Sua música contrastava com som alto de pago- le Toda a atenção estava voltada para os vários televisores de que saía de uma das lojas. Rafael olhou para sanfonei- ligados e sintonizados num mesmo canal. Rafael ficou ro. Um senhor que aparentava uns sessenta ou setenta curioso para saber que tanta gente estaria assistindo. anos, era difícil definir. vezes, as pessoas parecem mais ta Imagens maiores, menores, gigantescas. garoto velhas do que realmente são. is imaginou uma tevê grande como aquela em seu quarto. Será que haveria espaço para mais alguma coisa? Foi quando realmente deixou de divagar para prestar atenção. Seus olhos engoliam vorazmente cada cena proje- tada. Sentimentos de espanto e terror se misturavam cada vez mais rápido dentro de sua cabeça. As pessoas também se mostravam assustadas e apreensivas. Coitadinhos! Rafael ouviu alguém dizer. Num impulso, procurou com os olhos aquela voz de mulher, sem conseguir identificar. Segundos depois, voltou a atenção para a tevê. garoto franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça 9</p><p>de um lado para o Não era possível que tudo estives- se acontecendo outra vez. Mais uma vez. Não era possível! Mas infelizmente era isso mesmo. Tudo se repetia sem que ninguém tivesse tomado qualquer providência. Nenhuma providência. noticiário informava que voluntários de uma ONG internacional, funcionários do governo e moradores locais estavam fazendo de tudo para tentar salvar o que fosse pos- Aquilo era uma tragédia! Acho que eles não vão conseguir... Rafael escutou outra voz, mas agora pôde identificar. Era de uma senhora que estava ao seu lado: Que pena! Isso é um crime! Depois falam que humanos, somos seres racionais. Tanto para Um crime! fazer isso? - a mulher esticou braço, apontando as ima- gens. Rafael acompanhou o movimento com os olhos. Na tela da tevê, homens com ferramentas tentavam bloquear impossível. Cavavam a areia, faziam barreiras, - C rime. Isso é um crime! agiam como podiam. Mas era tudo muito Outros Ângela escutou quando filho bateu a porta da sala. voluntários usavam as próprias mãos como pás e, delicada- Saiu rapidamente do quarto para ver O que estava aconte- mente, tomavam nos braços aqueles seres frageis e indefe- cendo, tamanho susto que levou. quase inertes. Que foi, Rafael? a mãe perguntou, preocupada. Rafael teve a sensação de que as pobres aves, na Eu escutei bem? Você falou em crime? impossibilidade de falar ou reclamar, tentavam expressar Claro que eu falei! ele confirmou no mesmo ins- sua dor dirigindo olhar às pessoas em volta, como se dis- tante. - Um crime! É isso que é! sessem: "eu quero A mulher mostrava-se aflita. As gaivotas, mais uma vez, eram impedidas de voar. Está me deixando assustada, Rafa. que aconteceu? Você viu algum.. crime?! Meu Deus do céu! garoto nem ligou para o que a mãe poderia estar pensando. Sentia-se longe, lá no centro da cidade, com todas aquelas imagens dos televisores à sua frente. Em vez de esclarecer, deixou-a mais preocupada ainda. Vi um crime, sim, mãe. Ah, meu Deus! levou as mãos ao rosto, incrédula. Onde? Quando? Como? - foi dizendo tudo de uma vez. 11</p><p>Rafael continuou a reclamar, muito bravo: Um crime igual aos que já aconteceram e que vão continuar acontecendo! E sabe por quê? Porque ninguém - Como é que pode, mãe? que essa gente não tem faz nada! Absolutamente nada! o Amaral é que está certo. coração? o mundo está cheio de pessoas gananciosas, - Coração eles têm, filho - Ângela respondeu sem des- balançava a cabeça, concordando consigo mesmo. viar os olhos da tevê, toda a sua concentração voltada para a Ângela ficou mais aliviada. Soltou os braços e olhou tela, passando de canal em canal. - Mas acidentes acontecem. para o filho como se estudasse. Se Rafael tinha falado no Só que eles poderiam ser evitados! - disse Rafael, nome do tio era porque estava havendo algum mal-enten- ainda nervoso. - o Amaral é que está certo. Ele, sim! dido naquela conversa. Resolveu esclarecer. A mãe encarou o filho: Rafa - começou com calma do que exatamente o Amaral tem razão em muita coisa. Mas não leve você está falando? tão a sério tudo o que o seu tio diz, porque... - Das gaivotas, mãe! - respondeu na mesma hora, - Por que o quê, mãe? o seu irmão é cara mais inte- dando alguns passos num semicírculo. Em seguida, parou, ligente que eu conheço! voltando-se para ela. - não só das pobres gaivotas - E o mais radical também. Por ele, a gente ainda esta- como também dos milhares de peixes e passaros mortos. ria vivendo na idade da pedra - Ângela riu. Mas Rafael não Mortos, não! Assassinados! gostou nem um pouco. A mulher continuou com os olhos fixos no garoto. - Quem disse isso? Que bobagem! Ele nunca falou Não disse nada, simplesmente ficou aguardando mais algu- uma coisa dessas! ma explicação. Não podia negar que sentira um certo alí- desfez o riso dos lábios e disse, séria: vio, e seu coração já voltava ao ritmo normal. Estou brincando, Rafa - e, depois de uma pausa, Por causa do mãe - Rafael continuou. continuou: - Não é bem assim, mas... Um navio petroleiro sofreu um rombo no casco e derramou Rafael nem deixou a mãe terminar: não sei quantas mil toneladas de petróleo no mar. E não é - porque ele quer que a gente aprenda a viver em a primeira vez que isso acontece, você sabe. que agora paz com planeta? Só porque ele é contra essa exploração parece que o desastre é muito, mas muito pior! desenfreada que homem vem fazendo? Só porque ele se as palavras do menino conseguiram dei- preocupa com as gerações futuras? por isso? xar sensibilizada com a situação. - E quando foi bem, filho. Está bem. - Ângela teve a sensação isso, Rafa? de que Rafael queria deixá-la tonta de tanto falar. - Não - Hoje, agora há pouco. Vi por acaso porque passei vamos discutir por causa disso. em frente a uma loja com um monte de aparelhos de tevê No mesmo instante, voltou a passar de canal em ligados. Estavam dando uma notícia canal. - Então, acho que vão falar mais alguma coisa... a Que coisa! - ela reclamou. - Não estão mais dando mulher pegou o controle remoto no sofa e ligou a televisão. notícia alguma... - Vai ver, estão esperando jornal da noite. Na certa vão mostrar toda aquela crueldade outra vez. 12 13</p><p>Tentou se acalmar. Enquanto esperava uma resposta do tio, várias coisas passaram pela sua cabeça. Inclusive uma, que ele chamava de "projeto para mais tarde". Estava ansioso para completar dezoito anos. Não via a hora. Seu sonho era sair do Brasil para trabalhar na França, na mesma ONG do Amaral, e ter uma vida cheia de aven- tura e emoção. Ah! Que bom se isso acontecesse logo, se os anos pas- sassem num Por que as melhores coisas custa- E-mail 1 vam tanto a chegar? Era isso que ele sempre se perguntava. Tinha a sensação de que tudo estava tão longe de ser alcan- çado... Rafael não via outra alternativa senão se conformar, Rafae foi para seu Largou a sacola com a dizendo para si mesmo que isso era um projeto para depois. camiseta que comprara em cima da cama e ligou compu- "É diferente de um sonho, que a gente nunca sabe se vai tador para acessar a Internet. Fazia tudo numa impa- conseguir realizar", ele pensava. ciência. Entrou em seu e-mail, finalmente. Nenhuma men- Amaral não tinha moradia fixa. Às vezes, passava dias sagem nova. no mar, meses em terra... la aonde precisasse, sem se impor- Com um dos punhos cerrados, deu um SOCO na mesa. tar com mais nada. Tinha trinta e três anos e já levava essa Droga! vida havia cinco, desde que entrara para a ONG francesa. Já que era assim, resolveu ele mesmo Naquela época, Rafael era apenas um garotinho de nove Colocou o endereço do destinatário e começou: anos. Agora, aos quatorze, estudando na oitava série de Amaral, uma escola pública, garoto ainda sustentava a mesma Onde você está? Viu o que aconteceu, cara? E agora? admiração pelo tio e lembrava-se de tudo como se tivesse que é que a gente faz? Eu queria ajudar mas não sei acontecido poucos dias E mantinha mesmo desejo como. o que é que eu faço? de quando era pequeno: trabalhar com Amaral. Não demora pra responder, tá bom? Rafael não escondia essa intenção de Para Rafa. ele, isso já era uma coisa certa, decidida, muito bem pensa- Rafael desligou computador e sentou na cama. da e planejada. não ia agora porque não podia. Mas, aos Sentia-se aflito, de mãos atadas. Não gostava de ficar assim, dezoito anos, ah! Aí, sim! Não ia ter mãe ou pai que o segu- querendo fazer uma coisa e sem saber por onde rasse. la ser dono da sua vida, ajudando tio na luta con- tra a destruição do Tinha coisa mais importante que essa? Não era futuro de todos que estava em jogo? 14 15</p><p>Achava que ninguém tinha o direito de fazê-lo mudar seus planos. Ao contrário, deveriam até incentivá-lo a lutar o menino pensou durante alguns segundos. Ela esta- por uma causa tão nobre, ainda que fosse necessário deixar va certa. Com tanta coisa para fazer, tanto para ajudar, era família, amigos, tudo. Não que ele vivesse querendo confe- óbvio que Amaral nem ia se lembrar de ligar o computador. te. Mas... pensando bem, que teria de mais se a imprensa Mas ele devia saber que sobrinho estaria aflito por noti- quisesse divulgar para mundo inteiro todas as suas con- cias aqui no Brasil. Afinal, com toda a rede mundial de tele- quistas? visão fazendo a cobertura da notícia, era evidente que a his- vezes, Rafael sentia que sua mãe não gostava da tória logo chegaria aos seus ouvidos. Custava ter mandan- idéia. Contudo, de uns tempos para cá, havia concluído do um aviso, um bilhetinho que fosse? Custava? que a reprovação de era apenas nada mais. Logo depois de pensar em todas essas coisas, garoto Um dia ela entenderia. Todos entenderiam, estava certo respondeu suas próprias perguntas, tentando assim dimi- disso. Mas... e Carina, entenderia também? Achou melhor nuir a ansiedade: "Não seja bobo, Rafael. Amaral tem coi- não pensar nisso. Pelo menos, não naquele momento. sas muito mais sérias para resolver". Rafael ainda estava sentado na cama, olhar vago, Em seguida, deu outro suspiro e disse: pensativo. De repente, deu um pulo e foi até a mesa do Tudo bem, mãe. Vamos jantar. computador. Ligou. Acessou a Internet e procurou. Nada ainda. Nenhuma mensagem. Fez uma cara de Ouviu a mãe dar uma batidinha na porta e olhou. Não precisa nem me dizer o que está fazendo - ela foi falando. Ângela estava só com metade do corpo para dentro do quarto, uma das mãos ainda agarrada à maçane- ta da porta. Papo chato o garoto balançou a cabeça de um lado para outro, chateado. Acho que ele não vai me responder agora. A gente acredita que um maior incen- Claro que não, filho sua demonstrava com- tivo às indústrias seja ponto-chave para a resolução de preensão. Ele já deve ter pego o barco da ONG e ido para muitos problemas. local do acidente. Pode ser até que já estivesse lá junto Também penso assim, Marcos. com aquelas pessoas que você viu na televisão, vai saber... pai de Rafael pegou a jarra de suco e se serviu. Você acha que ele vai mexer com computador numa hora Pois é, Ângela. Se país crescer economicamente, a como essa? Pensa bem. situação melhora para muita gente. Tudo bem, os progra- Rafael deu um longo suspiro. Ângela aproveitou mas sociais são importantes. Mas, para que todos vivam silêncio do filho e disse: com dignidade, é preciso que tenham as mínimas condi- Venha jantar agora. Seu pai já chegou. ções necessárias. Todo mundo quer poder se sustentar com seu próprio trabalho, com seu próprio esforço... 16 17</p><p>- É verdade. Milhões de pessoas no mundo ainda não têm acesso a energia elétrica, saneamento básico... vê se pode uma coisa dessas! o garoto permanecia cabisbaixo. Um cotovelo sobre a - Era exatamente sobre isso que eu estava conversan- mesa, a mão segurando o queixo. Continuava com a mesma do com pessoal da empresa. atitude automática, mexendo o garfo de um lado para outro. - Como assim? sem fome, mãe. Marcos deixou garfo no prato e apoiou os cotovelos não disse nada, só deu uma olhadela para na mesa, juntando as mãos. Seu rosto tomou ar sério de marido com o canto dos olhos, franzindo as sobrancelhas e quem ia fazer um apertando os lábios. Veja bem, Ângela, uma coisa está ligada à outra. - Que foi, Rafa? - o pai perguntou. Sendo menos injusta a distribuição de renda, não só aqui, Ele está assim por causa do acidente com o petróleo. mas no mundo inteiro, a qualidade de vida das pessoas Rafael olhou com pouco-caso para a mãe. E disse pau- também muda. Eis ai mais um motivo para a empresa rees- sadamente: truturar seu programa de qualidade de produção e fazer jus - Obrigado por responder na minha frente. ao certificado da ISO 14000. Ângela espantou-se. Ele tomou um gole de suco e depois continuou: Ué. Você está tão desanimado que eu pensei que no meu trabalho, todos estão animados com essa não queria nem responder para seu pai. Por acaso falei reestruturação. Muita coisa pode mudar para melhor, tanto alguma mentira? para a empresa como para as pessoas. garoto largou o garfo e foi se levantando. fez um sinal com a cabeça concordando com Não, mãe. Esquece. Vou para o meu quarto. marido, ao mesmo tempo que terminava de mastigar. Em Antes de Rafael sumir da sala de jantar, Marcos falou: seguida, desviou por um instante os olhos de Marcos e pres- Não fica assim, filho. Foi um acidente e... tou atenção em Rafael. - Não vai falar que acidentes acontecem. Ele estava cabisbaixo, mexendo com garfo para cá e Marcos deu um suspiro antes de responder. para lá no prato de comida, que mal havia sido tocada. Eu ia falar, sim, mas... tudo bem, Rafa. Se isso não Rafael estava tão longe... Não queria nem saber de consola.. prestar atenção na conversa dos pais. Crescimento - Consola nada, pai - Rafael balançou a cabeça e andou mico, crise social, ISO não sei das quantas. Para que saber mais um pouco. - Vou ver se Amaral já me respondeu. dessas coisas que eles falavam? homem com os olhos a do Seres indefesos morrendo. o próprio planeta, por que filho. Depois disse: não dizer, adoecendo. E ele sem poder fazer nada. Isso, Acho que ter dado um irmão para sim, preocupava. que só ele pensava nisso? Será que Rafael. ninguém mais se importava? Ora, Marcos! - Você não comeu nada, filho - Ângela observou. É, sim, ele ia ter com quem brincar, se distrair, pensar em outras coisas. o menino cresceu vendo no tio um ídolo! 18 19</p><p>Eles sempre foram muito ligados. Acho até que por causa daquela época em que o Amaral fez biologia e morou um tempo com a gente. Você não pode negar, Marcos, que Era por isso que garoto andava meio chateado. a amizade deles sempre foi muito bonita. Inclusive na escola. De vez em quando esquecia, procurava Tá, eu sei. Mas me fala uma coisa. Ele parou com prestar atenção às aulas, conversava com os amigos, ria, aquela história de querer trabalhar na ONG... brincava, discutia. coisas que normalmente aconteciam aos dezoito anos? na sua rotina. Mas, outras ficava um tempão com o Marcos ficou em silêncio durante alguns segundos. pensamento voando, sem conseguir se concentrar em Pela fala da esposa, já tinha compreendido tudo. nada. Quer dizer, em quase nada. Pelo jeito, não parou ele concluiu. Num desses dias, uma pessoa muito especial procu- apenas confirmou com a cabeça. depois rou no final das aulas, quando praticamente todos já resolveu completar: tinham saído da sala. Alguém suficientemente sensível Ele vai perceber que as coisas podem ser diferentes, para perceber que ele não estava muito legal. Marcos, de um outro jeito. Você vai ver só. Você está tão esquisito, Rafa! Rafael achava Carina linda. Morena como ele, olhos castanhos bem escuros, cabelos lisos e compridos, meio desiguais nas pontas. ? garoto também tinha cabelos castanhos e lisos, mas ? seus olhos eram mais claros, quase verdes. Uma tão bonita, como a menina já lhe dissera uma vez. Não sabia ao certo que estava acontecendo entre eles. Namoro não era. Também não era só amizade. Estavam sempre juntos, viviam conversando, davam-se Ainda sem notícias superbem... que ele ficava se perguntando era: o que estaria fal- tando, então, para virar namoro de uma vez? Talvez um D beijo, uma declaração, um pedido... urante os cinco dias seguintes, Rafael ainda não Rafael andava pensando em tudo isso, tinha conseguido qualquer notícia do Amaral. Tinha a cer- Quer dizer, antes do acidente com o petroleiro. Reconheceu teza de que o tio estava lá na costa espanhola, ajudando a que sua cabeça estava mesmo meio embaralhada. Vai ver salvar a vida animal e também tentando conter óleo que era por isso que Carina o tinha achado esquisito. "Mas por rapidamente se espalhava por todo o oceano. Estava con- quê?", pensou. "Por que a cabeça da gente fica assim às victo disso, mas Queria tanto falar com ele! Às vezes, vezes, tão estranha, tão confusa, parece que tanta coisa sentia como se fosse caso de vida ou morte. Sabia que era perde a graça, perde a vontade..." um exagero seu, mas não tinha culpa de ser assim. Não vai falar, Rafa? Carina insistiu, tirando o garo- to de seus devaneios. 20 21</p><p>Ele encarou aqueles olhinhos pretos que observa- vam. Deu uma olhada para a porta. Gustavo ainda estava lá, sorrindo e fazendo uns gestos que Rafael podia bem ima- seu tio tiver um tempinho, ele vai escrever. ginar que queriam dizer. Ainda bem que a garota estava Por um momento, Rafael esqueceu-se de Amaral. de costas e nada percebeu. Aquela mão macia... Que tio quê! - Depois eu te ligo, Gustavo! - ele gritou. - Você vai pra sua casa agora? - ele perguntou. Carina olhou para trás. Agora, os dois pareciam Vou. Por quê? aguardar uma resposta do amigo de Rafael. Era claro que ele A gente podia ficar em frente à escola conversando tinha entendido o recado e, sendo assim, não lhe restava um pouco mais. quem sabe, a gente se acerte... um beijo outra alternativa a não ser concordar: nessa sua boca tão linda, tão delicada...", Rafael pensou. Tá legal - e foi embora. Mas Carina balançou a cabeça, pondo fim a Rafael aproveitou para responder a pergunta da garo- todas as suas expectativas: ta. Foi sincero: Não dá, Rafa. Também tenho os meus pro- Sabe, Carina, eu to meio chateado. blemas. Vou embora, minha mãe precisa de mim. Rafael fez uma cara desanimada e não Vai me dizer que ainda está assim por causa do petroleiro? escondeu sua decepção. o garoto ficou em Carina Que pena, Carina... No outro dia, você chegou na classe bravo pra Outra hora a gente conversa mais, tá bom? - ela deu caramba, mas achei que depois ia passar, que já estivesse um sorriso amoroso. - Agora eu tenho mesmo de ir. mais calmo. Foi então que ele explicou: Não. Não é por causa do petroleiro. Quer dizer, mais ou menos. É com o meu tio. Aquele biólogo da ONG? Ele mesmo. Você acredita que eu já mandei uma Surpresa, à noite porção de e-mails e ele não responde? Talvez esteja ocupado. Ah, eu sei, mas será que não dava pra me dar um R estava usando o computador quando a mãe alô? Puxa vida! Ele sabe que estou aflito, querendo ajudar chamou. e nem imagino por onde começar! Se ele pelo menos me escrevesse... Telefone para Carina se aproximou um pouco mais. Tocou no braço Quem é? de Rafael e fez um carinho. Ele sentiu um arrepio gostoso. deu um sorriso, aguçando ainda mais a curio- sidade do Não fica assim, Rafa. Tenho certeza de que, quando - Seu super-herói. Amaral? - Rafael arregalou os olhos, sorrindo. 22 23</p><p>- E quem mais? Ele deixou computador e passou voando pela mãe. Mas, antes, ainda deu tempo de deixar um recado: ajudando para que óleo não se espalhe ainda mais. Ele não é meu super-herói, mãe! De onde tirou uma E eu, que faço aqui, Amaral? Quero ajudar tam- bobagem dessas? Se a minha mãe me deixasse ir até ai com você... Tire essa maluquice da cabeça, garoto! Você não pre- Rafael foi correndo para a sala e pegou telefone, todo animado. Ângela sabia muito bem de onde tinha tira- cisa estar aqui para ajudar. do uma "bobagem dessas". Como, não? Olha, eu aposto que a minha mãe ficou - Amaral? falando um monte de coisas pra você antes de eu pegar nesse telefone. Oi, Rafa! - Puxa vida, Amaral! Eu te mandei uma tonelada de Perdeu. A Ângela não me falou nada. e-mails, e você nem pra me responder, né? Então é você quem tá querendo me enrolar, tá pas- De que jeito? Estava superocupado, sem condições sando pro lado dela. Enrolar você? Como se isso fosse possível! de ficar parando. Liguei porque achei que era melhor a Não vem puxando meu saco, não. Aposto que é gente conversar. Você me pareceu bastante aflito. isso mesmo que você tá querendo fazer. Mas te falar Pareci? Rá! E não era pra ficar? Me fala como estão uma coisa, presta bem atenção. Quando eu fizer dezoito as coisas, me conta tudo! anos, trabalhar na ONG com você. tio deu um suspiro antes de responder. o garoto Ah, é? E vai largar seus estudos.. pôde ouvir do outro lado da linha. Eu posso estudar Por acaso na França não tem Olha, Rafa, não tenho boas notícias, não. faculdade, não? É, eu sei... - ânimo antes demonstrado na voz de - Rafael... Rafael já não era mesmo. - Tenho acompanhado pela - Olha aqui, Amaral, já que não vai me dizer como televisão. Todo dia eles falam alguma coisa. Mas aposto que daqui a alguns dias ninguém vai nem tocar no assunto. É posso ajudar, então eu desligar. De sermão, eu já estou sempre assim. É tanto pouco-caso, Amaral! por aqui! Mas era justamente isso o que eu ia fazer, seu apres- Você está certo, Rafa. Mas a gente vai sadinho! Você não quer ajudar a nossa ONG, lutar pela fazendo o que pode... - Amaral deu um tempo e continuou: É uma tristeza! mar todo coberto de óleo preto. nossa causa em defesa do planeta? Rafael ficou mais animado. Aves e peixes estão morrendo. E o pior é que a população Claro que quero, Amaral! É que eu quero! Fala dali, que vive da pesca, vai enfrentar uma situação muito difícil, sabe-se lá por quanto tempo. logo, então! Olhe à sua volta. Me dá uma raiva disso, Amaral! No fim, os pobres é menino achou que não tinha entendido direito. o que pagam pela irresponsabilidade desses mercenários! tio devia ter dito mais alguma coisa, só que a frase prova- Mas pode ficar Tem muita gente velmente foi cortada. Problemas com ligação internacional. Só podia ser. 24 25</p><p>Fala de novo, Amaral. Repete, não deu pra entender. - Eu disse pra você olhar à sua volta. isso. - indo. Ah, é? - desdenhou Rafael. Segundos depois, já conversava com o amigo. É. - Fala, Gustavo. - Você achando que eu sou criança? Tenha dó! Se - Você disse que ligava e não ligou. não quer minha ajuda, nem você nem toda aquela gente da - Não tinha por que ligar - Rafael foi bem curto em ONG, é melhor falar logo! sua resposta. Rafa! É claro que eu e todos os ecologistas do - Então, por que falou? mundo queremos a sua ajuda. Você é que não está enten- - Você sabe muito bem por que eu falei. você dendo... precisa se tocar e largar do meu pé em determinados Amaral! Você me cansou por hoje, bom? Cara momentos, né, Gustavo? chato! Tchau! até parece que sou eu que atrapalho você e E bateu com o telefone na cara do tio. a Carina.. - Tem hora que Pô, Rafa, dá licença! Vai querer agora arrumar des- culpas pra esse seu... - Gustavo falou pausadamente - namoro "esquisito"? Quem disse que é namoro? - Então é frescura. Vocês dois vivem grudados! Outro telefonema - Gustavo, pode deixar que eu me viro com as minhas coisas, tá? achei que ia querer uns conselhos... Q - Não preciso de conselhos. Ainda mais de quem... a mãe de Rafael veio, meia hora depois, Rafael não dava braço a torcer. Mas, às vezes, bem chamá-lo em seu quarto para atender o telefone, menino que queria uns conselhos. Não sabia se Carina estava ou tinha certeza absoluta de que era Amaral. Por isso, já foi não a fim dele. Não tinha cabimento perguntar. Será que logo avisando: devia lascar um beijo na garota logo de uma vez? Ai, pelo - Fala pro Amaral que eu não quero falar com ele. menos, ele descobriria. Mais essa, agora. Já não bastava - Que Amaral, Rafa! É o Gustavo! tudo O que estava acontecendo na sua vida? que fazer? Rafael encarou a mãe. Você quer dizer mais alguma coisa, cara? Eu já esta- - Não é o Amaral? - era nítida a decepção do menino. va indo dormir - Rafael mentiu. Não tinha sono ainda, mas - Claro que não! - Ângela confirmou. - É Gustavo, também não queria ficar jogando conversa fora. Muito já disse. Vai atender ou não? menos falar sobre a Carina. Gustavo era seu melhor amigo, garoto torceu o nariz. mas, nesses assuntos, o melhor era resolver tudo sozinho. Gustavo estendeu um pouco a conversa: 26 27</p><p>pra te contar uma coisa. Fala. Depois de desaparecer, você teria de aparecer em Meu irmão finalmente comprou aquela moto que algum lugar, né? tanto queria. Que papo doido, Gustavo! Desaparecer é desapare- Rafael se mostrou mais entusiasmado: cer, ora essa! Aquela estradeira superbacana? Doido anda você, cara! se fala logo com a Carina, Essa tá? Acho que é esse seu mal. Que legal! irmão mais velho de Gustavo era louco por motos. Desde muito antes de completar dezoito anos. Também tinha inúmeras revistas sobre assunto. Lia, ficava por dentro de tudo, sabia inclusive fazer pequenos consertos. Assim que tirou a carteira de habilitação, comprou uma. Ainda não era a que ele queria e, como essa, teve vizinho depois. Na verdade, o seu sonho era poder comprar uma moto estradeira. Acordar num domingo de manhã, bem cedinho, junto com o sol, e pegar a estrada, voltando N a hora de dormir, Rafael ainda estava bravo com para casa só no finalzinho do dia. Ele vivia falando nisso, Amaral. Onde já se viu! Ele querendo ajudar, e tio tratan- Rafael se lembrava bem. do-o como se fosse uma criancinha! Meu pai deu uma força pro meu irmão poder com- Ficou muito magoado. Não estava brincando quando prar - Gustavo falou. - Você sabe, Rafa, depois que velho lhe ofereceu ajuda. Sempre ouvira o tio dizer que todos pre- mudou de emprego e começou a trabalhar na Chemistry... cisavam colaborar para a preservação do planeta. Todos. salário lá é muito melhor - esse era o nome da multina- Que de nada adiantaria criar um monte de leis se as pessoas cional que se instalara na cidade havia pouco tempo. realmente não se conscientizassem da necessidade de pro- Rafael pôde avaliar o quanto o irmão de Gustavo teger ambiente. devia estar feliz. Era muito bom poder realizar um sonho. Então, como é que ele poderia ajudar? Nunca nin- Achou que também se sentiria assim quando o seu se con- deixava! Nada do que era preciso ser feito estava ao cretizasse. seu alcance. Toda vez que acontecia algum desastre - A moto é linda, Rafa - Gustavo continuou. - Precisa ambiental era sempre tão longe. Queimadas na Amazônia, vir aqui pra dar uma olhada. silvestres caçados no Pantanal... e, agora, óleo der- Seu irmão tem muita sorte. Eu é que queria ter uma ramado no mar da Espanha... Puxa! Assim ficava difícil. máquina dessas agora pra desaparecer... - sonhou. Enfim, a mágoa passou. No outro dia, menino acor- E depois? dou cedo, tomou o e arrumou suas coisas Depois do quê? para ir à escola. Quando saía de casa, deu de cara com vizinho. Seu 28 29</p><p>estava abaixado do lado do carro, olhando não se sabe o quê. Uma fortuna! Daqui a pouco, nem carro se pode ter Rafael ia passar discretamente, sem nem dizer bom- mais! Como eles gostam de explorar a gente, Rafael! E a dia, já que o homem não o estava vendo. Não era de muita toda hora! Ainda bem que o mecânico, meu amigo, me deu conversa com os vizinhos. Claro que era educado. Mas, se a idéia de trocar o catalisador furado por um abafador. o mandassem puxar algum papo, ai estaria perdido. "Abafador? Que será isso?", pensou Rafael. De repente, seu saiu da posição em que estava e Mas não deu tempo de perguntar nada. Seu viu o garoto. emendou: Oi, Rafael! Como é que vai? perguntou, passando Pronto! Resolvido o problema. Economizei um bom uma mão na outra para se livrar da poeira. dinheiro. Assim não dá, onde é que a gente vai parar? Tudo bem, e o senhor? É mesmo... Rafael cumprimentou vizinho sem parar de andar. Foi a última coisa que Rafael disse. Disse por dizer, Era sempre assim que fazia. achava que todas as pes- porque não tinha outra frase. Achou que era a melhor saída soas do planeta agiam da mesma forma. Umas encontra- para a situação. Em seguida foi para a escola, sem sequer vam as outras e, numa mágica sincronia, diziam: "Oi, tudo imaginar que raio de catalisador era esse. bem?" E respondiam ao mesmo tempo: "Tudo bem, e você?" Tinha a impressão de que ninguém ouvia ninguém. Mas, desta vez, parecia que o seu estava com von- tade de conversar um pouco, e não apenas de perguntar: "Tudo bem?" Estava dando uma olhada no meu carro. Vendo serviço. Correria Rafael parou de andar. Achou que devia perguntar alguma coisa, assim não ficaria muito chato. Tá com problema? A lice chegou em casa a mil por hora e já foi cha- Não, agora não. Estava. Quer dizer, não era exata- mando pela filha. Ainda tinha de levar uma encomenda mente um problema... ou era, não sei bem. para uma cliente, um creme que prometia combater as "Será que o seu é meio maluco?", era o que Rafael indesejáveis rugas. começava a imaginar, em virtude daquelas frases sem pé nem Carina sempre ficava se perguntando onde é que a cabeça. Foi que ele veio com essa conversa, saída do nada: mãe arranjava tanta disposição. Ela tinha um emprego em Você sabe quanto custa um catalisador, menino? que trabalhava dia todo e ainda era revendedora de pro- Rafael nem sabia que era um catalisador, muito dutos de beleza e moda. menos quanto custava. Mas, antes que o garoto abrisse a To aqui, mãe - ela respondeu. - Já boca para dizer qualquer coisa, o próprio vizinho A menina apareceu de mãos dadas com sua irmäzinha de três anos. Era Carina quem buscava a criança 30 31</p><p>na creche todos os dias. Passei no supermercado Alice pôs rapidamente as sacolinhas em cima da mesa da cozinha. Guarda pra deixar na bolsa pra não esquecer de pagar, senão eles cor- mim, filha? Vou ter de sair outra vez. Prometi pra Júlia que tam. Lembra aquela vez que o seu pai jurou que tinha levaria creme dela ainda hoje. pago? Sei... era assim que ele fazia. Pegava as contas, - Mas você acabou de chegar, mãe! Não dá pra deixar dinheiro e gastava por Depois, eu é que tinha de correr pra amanhã? Pega telefone, liga pra ela e... atras de tudo! Ai, meu Deus! Carina fez cara de desânimo. Sem mais nem menos, a Carina assustou-se: mãe contava a história tudo de novo. Uma vez cortaram a - Que foi? energia elétrica. Foi um deus-nos-acuda. telefone! Esqueci de pagar a bendita conta. Alice fechou a porta, mas abriu em seguida: com tanta coisa que eu tinha pra fazer hoje! Eu falei pra você guardar as compras pra mim? De repente, Alice mudou de assunto: Carina concordou com a cabeça. Tem hora que eu tenho vontade de pegar seu pai Veja o que a Bárbara quer comer, tá bom? disse a e torcer o pescoço dele. Assim, - ela imitou gesto. mãe. E, dirigindo-se à filha mais nova: Tá com fome, meu Ai, mãe! amorzinho? Ele tem aprontado comigo. Ainda bem que foi Bárbara só balançou a cabeça em sentido negativo. embora. E, mesmo assim, continua aprontando. Não demora, mãe Carina pediu. Carina franziu as sobrancelhas antes de perguntar: Tá, tá, não demorar. E não o que foi que ele fez desta vez? esqueça de guardar as compras! Você já disse isso! - o que ele fez? o de sempre. Deixou mais uma conta Mas Alice já havia fechado para eu pagar. o belezinha tem tanta dívida por que eu acho que nunca vai parar de aparecer conta. a porta. E, muito provavelmente, nem ouvira o protesto da filha. - Então, não paga. E meu nome também acaba sujo - a mulher fez cara de - Esqueceu que ainda sou casada com ele? Por que não pede E eu lá tenho condições de pagar um advogado, Carina? Quer saber? Vou lá na casa da Júlia entregar creme. Pelo menos, já recebo um dinheirinho. Estou mesmo precisando. A mulher sorriu ao se despedir das duas filhas. Ela já ia saindo, quando deu meia-volta rapidamente. - Ah! E me dá aqui a conta do telefone. É melhor eu 3 32</p><p>E-mail 2 E-mail 3 A maral, Desculpa ter batido telefone na sua cara. Fiquei meio Rafa nervoso, só isso. Você vai me desculpar? afa: Rafa. Que bom que você me escreveu! Por sorte, acabei de ver a sua mensagem. Não estamos mais no mar. Agora lutamos para que os Agora era esperar. Rafael já tinha tentado ligar para a casa de Amaral, mas não havia ninguém. Ainda devia estar responsáveis por essa tragédia não fiquem impunes e ocupado. Se não fosse com essa questão do na para que esse acidente não caia no esquecimento, como tan- tos outros. certa seria com outra. É Rafa. Precisamos de todo mundo ajudando. o menino tinha um jeito bastante precipitado de Especialmente governo. É necessário maior rigor nas leis e resolver as coisas. Ou, pelo menos, de querer resolver. no cumprimento delas. Depois se arrependia. Estava certo de que Amaral ficar Mas a gente sabe que quem manda mesmo são os um tempão de novo sem responder seu e-mail. Antes, era interesses. E que sempre será muito mais porque estava realmente muito ocupado. Agora, fazer de propósito, só para dar uma lição. do que qualquer tentativa de defesa do ambiente. o que fazer, então? Como mudar? Parece impossível, já "Tá certo", pensou Rafael. "Não condená-lo por isso. Fui grosso, mal-educado. Ele tem razão." que há sempre milhões de dólares em jogo, não mesmo? que nós não podemos deixar de lutar para que isso Pensou em Carina. Nunca ia querer brigar com ela. mude. Nunca! Jamais. Só esperava que esse seu gênio impulsivo não vies- o governo pode muito bem investir em outras fontes de se à tona quando estivesse ao seu lado. Além do mais, isso energia, as chamadas fontes renováveis ou fontes limpas, parecia impossível de acontecer. Era uma menina tão doce, para que o seja menos utilizado consequentemen- sempre faziam trabalhos em grupo juntos, ela sempre su- te, polua menos. Além de evitar que desastres esses perprestativa, amiga, carinhosa. não com tanta é claro. teriam nenhum motivo para brigar. que esse, Rafa, é um dos muitos problemas que exis- Rafael ia desligar o computador tem. fato é que há diversas outras agressões. Com a nossa para tomar um banho quando notou água, com nosso ar... com as nossas florestas, com os nos- que havia chegado uma mensagem. animais... com as pessoas! Todos os dias, em todas as Deu um grito de alegria e foi abri-la imediatamente. E lá estava ela. Era partes! Foi por isso que en falei pra você olhar à sua volta. E mesmo de Amaral. você ficou tão bravo... Mas que eu quis dizer era que você deve prestar atenção em tudo, em todas as agressões, sejam 34 35</p><p>Eu não disse isso. Posso acabar de falar? Tá. Amaral já estudou e escolheu sua profissão. Sorte dele, porque nem todo mundo consegue trabalhar no que gosta e acredita. E você ainda tem tudo isso pela frente. parou de falar. Rafael ficou quieto, por isso ela resolveu continuar: Acho que eu entendo que o Amaral quer dizer. Ele pensa que você pode ajudar, e muito. Mas com as outras coisas que estão aqui, do seu lado e precisando de você. Sei não... Ora, Rafael. Siga o conselho do seu tio e comece real- mente a olhar à sua volta. Faça isso. De repente, até mesmo sem perceber, pode estar prejudicando planeta. Eu? - garoto deu um grito. "Pronto. Era só que A caminho de casa faltava. Ser culpado também por tudo que acontece na Terra", pensou. Não estou dizendo que você faça isso, filho. E, se manhã. fizer, não é de propósito. Quem sabe até eu... Sei lá. arina chegou chateada à escola naquela A conversa parou por Rafael acabou de tomar sua Viera com pensamento fixo numa coisa: queria encontrar água, pôs o copo na pia e saiu sem dizer mais nada, deixan- um jeito de ajudar a mãe. Não achava justo tudo o que ela passava. Tinha de ter não sei quantos empregos para dar do a mãe sozinha. conta de sustentar a família. guardou as últimas sacolas de compra. Em cima da mesa só ficou jornal que ela não tivera tempo de Durante as aulas, sempre ouvia dos professores que ler. Faria isso mais tarde, pois agora queria mesmo era todas as pessoas tinham os mesmos direitos. Dos políticos tomar um bom banho. Estava realmente cansada. na tevê, então, nem se fala! termo "igualdade social" Fechou a porta do armário, deu uma última olhada ao parecia não sair da boca de nenhum deles. Isso, claro, em redor para ver se estava tudo em ordem e saiu. época de campanha eleitoral. Quem fosse à cozinha para fazer qualquer coisa pode- Mas, no fundo, a menina tinha consciência de que ria facilmente notar jornal. E ler a manchete escancarada fazia que estava ao seu alcance. De nada adiantaria aban- em cima da mesa: donar os estudos, sair procurando só que queria "VAZAMENTO DE PRODUTOS QUÍMICOS ATINGE encontrar um jeito de ajudar de verdade. o RIO QUE CORTA A CIDADE" Ficava pensando: "Como mudar essa situação? Quanta gente passava por isso também? Milhares de pes- soas, sem as mínimas Sabia que não era só sua família que enfrentava esse problema. 38 39</p><p>Fazia um ano que seu pai tinha ido embora, deixan- do a mãe com muitas Por isso, Alice teve de se virar. Além do seu trabalho numa loja de calçados, come- - Você só pensa nisso, Rafael? a vender cosméticos, jóias, roupas. Só que ela, apesar Agora foi a sua vez de fazer um jeito de quem não de tudo, não reclamava. Dizia sempre a Carina que jeito estava entendendo. era levantar a cabeça e tocar a vida adiante. - Como assim? No intervalo das aulas, a garota saiu com as amigas e - Vou perguntar de novo: você so pensa nisso, Rafael? quase nem olhou para Rafael. Ele percebeu. Bem que ten- Não existe mais nada importante na vida pra você? tou puxar um papo, mas não deu certo. Ela dava respostas Rafael ficou sem palavras, não sabia que dizer. evasivas e não lhe perguntava nada. Parecia até que não Carina parecia tão indignada! que ele teria dito de tão errado? estava querendo conversar. Por isso, menino começou a - Carina... pensar que talvez ela estivesse assim por sua causa. Achou melhor procurá-la depois, para saber se realmente era esse - Você é um sabia? - disse, mudando comple- o problema. E isso aconteceu na saída, quando ela estava tamente tom de voz do começo da conversa. Também virou-se para a frente e acelerou o passo. Rafael deu uma indo para casa. - Claro que não é nada com você - ela tratou de tirar corrida. Quando a alcançou, segurou o seu braço. esse pensamento da cabeça de Rafael. - Que é isso, Carina? que é que eu falei de mais? Eles andavam devagar, quase contando os passos. Ela, Ai ela resolveu parar. A mesma cara de indignação. Olhou bem nos olhos do garoto e disse: abraçada ao seu material. - Então, que você tem, Carina? Enquanto você fica pensando em salvar plane- tô meio deprimida - a menina falou com uma ta com esses seus discursos de sempre, milhares de pessoas voz tão baixa que Rafael quase nem ouviu. Depois mudou passam fome, ficam doentes, morrem até... tudo porque o tom: - Tem tanta coisa errada neste mundo... não têm o mínimo pra sua sobrevivência! Você sabia disso, Rafael? - Ah, isso eu também acho. Pode reparar: as pessoas Carina.. - falou com carinho, procurando atenuar não estão nem ai umas com as outras. Não mesmo... - ela concordou. aquele clima de briga que, mesmo contra a sua vontade, Fazem tudo errado, agem como se fossem as donas parecia estar surgindo sem ele ao menos saber motivo. - do planeta! Destroem que demorou bilhões de anos para Por que é que você tá tão bra... ser formado! Isso me revolta, sabia? cansada de escutar sempre a mesma coisa de Carina parou de caminhar. Franziu as sobrancelhas e você! - ela gritou. - Cansada! Rafael também mudou tom: encarou Rafael. Ele achou muito esquisita aquela cara. - Espera aí, Carina! Não to entendendo você. que é que tinha falado alguma besteira? - Que foi? - ele resolveu perguntar, a cara mais ino- que eu fiz de errado? Nada. Não fez nada. E não precisa me acompanhar cente do mundo. até em casa, não. Eu vou sozinha. Tchau! Carina virou as costas e foi embora. 40 41</p><p>Confuso Ele está bastante ocupado com seu trabalho. Foi U marcada mais uma reunião para hoje, logo após almoço, ma sensação estranha acompanhou Rafael de e ele ainda ia ter de ver umas coisas. Seu pai está todo ani- volta para casa. Não entendia mais nada. Começou a achar mado com processo de reestruturação da empresa. Ele que a mãe tinha mesmo Não conseguia fazer nada de está tão contente! Ele acredita... concreto a respeito das coisas em que pensava e acreditava. Ah, é... - Rafael nem deixou a mãe terminar de falar. Era um tremendo que estava enjoando a todos. Ângela parou de pegar a comida da travessa. Olhou para Até mesmo Carina. o filho, que não se animava com nada do que ela falava. Chegou em casa e sua mãe foi logo falando: - Rafa! Que é que você tem, menino? Pensa que eu Demorou, hein, Ra- não notei? Faz um tempo que está assim, chateado... Fala fa? o que foi que aconte- pra mim! ceu? Estou esperando você Rafael deixou garfo no prato e olhou para a mãe. para almoçar já faz tempo. Ficou sério. Ah... Desculpa. Es- - Você me acha muito chato? tava conversando e não vi - Hein? Ângela estranhou. E quase chegou a rir. a hora. Que pergunta é essa? Ângela olhou para garoto estava sério. Não era brincadeira. filho meio desconfiada. Uma pergunta como outra qualquer. Só me respon- - E pelo jeito essa de. Acha? conversa não foi lá essas - É claro que não! coisas... Tá com uma cara, Rafael balançou a cabeça de um lado para outro. Rafa! Pegou o garfo de volta e, antes de pôr comida na boca, disse: - Deixa pra - Só eu mesmo pra fazer uma pergunta dessas pra pró- ? Dizendo isso, Rafael pria mãe... sou um tonto mesmo... foi até o quarto guardar ficou séria. suas coisas. Voltou logo de- Não estou dizendo isso porque você é meu filho. pois e se sentou à mesa. Sei... - Seu pai não vem - Verdade! - a mãe segurou braço do menino. - Que almoçar hoje avi- você está chateado com alguma coisa, eu estou vendo. Mas sou, já acomodada em seu isso não significa que a culpa seja sua. lugar. Ah, mãe... - Rafael deu um longo suspiro. - Minha - Percebi. vida tá muito sem graça! Acabo sempre brigando com pes- soas de que gosto. 42 Brigou com quem? 43</p><p>Rafael não respondeu de imediato. Não sabia se que- ria falar. Mas a mãe não parava de olhar para ele. Nem comendo estava. Sentiu nesse olhar que ela queria uma res- posta. Não só Que ela queria ajudá-lo. Então falou: Desta vez foi com a Carina garoto fez uma pausa. Depois, respondeu o que imaginava que os olhos da estariam perguntando. É uma amiga da minha classe. E brigaram por quê? Rafael não respondeu. Afinal, por que é que tinham brigado? Ele falara alguma coisa de errado? Que a magoas- se? Não sabia e nem se lembrava. que deu nela, então? Será que a culpa era mesmo sua? Com todas essas perguntas na cabeça, a respos- Reencontro ta que ele conseguiu dar para a mãe foi: Eu não sei. Ângela demonstrou surpresa. Rafa? Como, não sabe? Oi. Não sabendo, ora! Ela ficou brava comigo tão de que você tá fazendo aqui? repente que não deu nem tempo de entender por quê. Vim conversar. Não podia? Então, converse com ela e pergunte. - Bom... Você acha mesmo que devia? Carina estava na janela da sala. Quando escutou E por que não? Pra que ficar todo magoado por Rafael chamar, levou um susto. É que ela já havia pensado causa de uma coisa que você nem sabe? Não é melhor per- em lhe pedir desculpas no dia seguinte, na escola. Sabia guntar, resolver e pronto? E então você esclarece, pede des- que não tinha sido legal com ele. Era ela que estava mal por culpas, se for caso... Sabe, Rafa, eu, particularmente, causa de uma série de coisas e, no final, acabara descontan- detesto mal-entendidos. Às vezes, as pessoas brigam, as do nele. Tinha sido injusta, reconhecia isso. ela, amizades esfriam ou até mesmo acabam por causa deles. que vivia falando em justiça. Ficou chateada, até mesmo Não seria mais fácil conversar e se entender com ela? Eu, com vergonha de encarar o menino. pelo menos, penso assim. Você tá muito ocupada? ele perguntou. Rafael fez um esforço e deu um sorriso. A mãe não Até que não. Já toda a louça, dei uma geral na fazia idéia do quanto tinha sido bom para o garoto ouvir casa, a Bárbara dormiu.. Ela estava com febre hoje, sabe? Por tudo isso. Ele sabia muito bem o que tinha de fazer. E isso a minha mãe achou melhor levá-la ao posto de saúde. principal: que queria fazer. quando eu cheguei da escola é que ela foi trabalhar. E a sua irmäzinha está melhor agora? 44 45</p><p>Ah! Está, sim. É uma infecção na garganta. Estou dando remédio que a minha mãe mandou. Quer dizer, - Desculpa, Rafa - falou com a mansa. - mor- que o médico receitou. Pelo menos, já não tem mais febre. rendo de vergonha de ter brigado daquele jeito com - Ah - depois de um tempo, perguntou: - Então? A o que aconteceu, Carina? o que eu disse pra você... gente pode conversar um pouco? Você não disse nada - Carina balançou a cabeça e, Carina deu um sorriso antes de falar: em seguida, desviou olhar. - Eu é que não estava bem. Às - Eu ia fazer a lição de agora. - Já fiz ontem. Quer ajuda? vezes, eu fico assim, mas depois passa. Eu ia mesmo falar com você amanhã cedo, na escola. A menina sorriu outra vez. Pelo jeito, não ia ter saída. E, também, quem disse que ela queria? Rafael era um ótimo Alguma coisa em que eu possa ajudar? Em vez de responder à pergunta de Rafael, ela olhou amigo. Amigo... De uns tempos para cá, já começava a pen- para ele e disse: Acho tanta coisa injusta! É difícil você crescer sar se era somente isso mesmo. De sua parte... da parte ouvindo sobre direitos, igualdade social para todos e, na dele... ela tudo não passar de frases vazias, sem sentido. Ninguém nem ai para ninguém. É por isso que tem - Acho que sim. Rafael entrou. A televisão estava ligada, os livros e hora que eu fico assim. Inconformada. cadernos abertos em cima da mesa da cozinha. Carina, você também não pode pensar desse modo. Como assim, está nem ai para ninguém? Tá certo Assim que atravessaram a sala, Carina pegou o con- trole remoto de cima da estante e apertou o botão. que eu até disse isso naquela hora em que a gente estava conversando, mas eu me referia a outra coisa. Você - Eu já ia desligar mesmo. É que eu não suporto ficar sendo muito radical. sem ouvir alguma coisa enquanto estou trabalhando. Às Ela balançou a cabeça. vezes eu ouço música, às vezes ligo a televisão e venho dar Não, Rafa. É só você ver a minha vida como é. uma espiadinha de vez em quando... Minha mãe tem emprego, mas precisa fazer outros bicos Rafael deu um sorriso discreto. Foi entrando sem dizer nada. Quando chegou até a mesa da cozinha, ela para sobreviver. Não temos ainda uma casa, de falou: aluguel... Senta. Você sempre disse que sua mãe... que têm Ele obedeceu. uma vida Eu sei. Mas não pense você que ela fica se lamentan- Era uma casa pequena, mas tudo muito organizado. Em frente à mesa onde eles estavam tinha um corredor e do. Minha mãe é tão forte que às vezes eu nem acredito. Trabalha muito, ganha pouco, mas vive de bom humor. duas portas. Provavelmente, um quarto e um banheiro. Acho que ela é feliz, Rafa. Apesar de tudo. Ficaram em silêncio por alguns instantes. Ela é que Rafael olhou Carina nos olhos. Sentiu uma vontade tomou a iniciativa: tão grande de se aproximar, fazer um carinho em seu rosto, tocar sua boca, 46 47</p><p>Chegou a pensar que aquele era mesmo o momento, o melhor momento. Não tinha escola, nem Gustavo, nem Que foi? ninguém. Parecia tudo tão perfeito, ela tão amorosa, since- Eu ainda tenho a lição de pra fazer. E ra, amiga.. agora a Bárbara acordou e... Mas ele teve de deixar tudo isso para depois, porque a Já falei que eu te ajudo ele a interrompeu. Achou garota parecia realmente muito concentrada e disposta a que não tinha motivo para tanta A tarefa não é falar sobre as coisas em que pensava: Eu sei que você vai dizer que existem pessoas numa Carina sorriu. Um sorriso que revelava um certo ar de situação mil vezes pior que a minha. Que a minha mãe, maturidade. Muito além do que se esperaria de uma garota pelo menos, tem um emprego. Eu sei. E é por isso mesmo de sua idade. que eu fico assim. Não é só por causa da minha família, A menininha no seu colo dava a impressão de ser sua não. Você já pensou, Rafa, nessas pessoas que não têm filha. Uma garota cuidando de outra para a mãe poder tra- nada, absolutamente nada? Como é que fazem, se do jeito balhar. Era assim que acontecia com milhares de famílias. que aqui vivemos já é tão difícil? Passam fome, ficam Meninas assumindo papéis de grande responsabilidade. doentes por falta de melhores condições de vida... Não Carina estava certa, pensava Rafael. A questão da desi- acho justo. Não acho mesmo! gualdade social deveria ser tratada com mais seriedade acha, Carina. Mas eu não sei o que fazer. pelas pessoas que governam. Por isso a revolta de Carina. Eu também não. Tanta luta para ter simplesmente o mínimo, quando muito. Bárbara apareceu na cozinha. Tinha uma cara ensona- Quantas pessoas no mundo todo nem isso tinham? da. Carina levantou-se e foi puxando-a pela mão. Amaral sempre dizia isso em suas conversas. Rafael às vezes Voltou a se sentar ao lado de Rafael, só que agora com a até ficava com medo de suas previsões. irmäzinha no colo. Não são previsões, Rafa - ele dizia. - São constata- Este aqui é o Rafael, meu amigo - Carina falou. Logo ções. A distância entre os países ricos e pobres só aumenta em seguida, pôs a mão na testa de e suspirou alivia- a cada Milhões de pessoas ainda não têm acesso ao da. o menino deduziu que a febre tinha passado. básico para melhorar suas vidas. Mas dinheiro suficien- Oil ele cumprimentou a garotinha, sorrindo. Ela, te no mundo para esse tipo de investimento. É parar de não. Apenas olhou com canto dos olhos. Rafael não desperdiçá-lo com armas, por exemplo. o povo de um país soube definir se aquilo era timidez ou desconfiança. deveria ser a coisa mais importante de tudo. Ela se parece com você - observou o garoto. Às vezes, Rafael não entendia tio. Começavam a Carina virou-se para encarar a falar sobre os problemas ambientais que atingem planeta Todo mundo fala. e depois a conversa acabava desse jeito, falando da miséria, Ficaram alguns segundos em silêncio, quando Carina da fome... se lembrou: No curto espaço de tempo entre Carina abrir seu Ai, Rafael! livro, procurar os exercícios no caderno e Rafael começar a ajudá-la na tarefa, ele ficou pensando em tudo isso. 48 49</p><p>Será que Carina, apesar de ter pedido desculpas e tudo, estava certa quando disse que Rafael só pensava em salvar o planeta? Estaria ele sendo infantil com essa idéia absorver aquelas informações pela segunda vez. Acabou fixa, enquanto tanta gente passava fome? o que era, então, desviando olhar e pensamento, soltou a caneta na car- mais importante? o planeta das pessoas ou as pessoas do teira e deu uma leve espreguiçada. planeta? Que sono! Tinha dia que era difícil acordar tão cedo. E aí, Rafa? Vai me ajudar ou não? Mas, assim mesmo, preferia estudar de manhã. Desde a pri- Rafael achou melhor parar de pensar nessas coisas. meira série. À tarde, com todo calor que fazia, e a tempe- Ou parava ou sua cabeça mesmo fundir. ratura do planeta se elevando a cada ano... não, realmente - Claro que - ele respondeu, enfim. - Além disso, não dava. Preferia reservar outras atividades para depois do eu já disse pra você que não é tão difícil. almoço. Rafael ficou calado durante alguns instantes. Mas, Começou a olhar ao redor. Do seu lado esquerdo, as com tudo isso fervilhando na cabeça, não resistiu e disse: janelas da sala de aula e, alguns metros adiante, o muro que - Tem coisa muito mais difícil, Carina. separava a escola da rua. céu estava claro e fazia muito calor. Nenhuma nuvem. Dali para fim do ano, sol ficaria cada vez mais forte, dificultando até mesmo os estudos. Principalmente depois do intervalo, quando a temperatura se elevava mais, dentro e fora das classes. Rafael voltou a prestar atenção no professor. Ele ainda Pânico discorria sobre tal assunto. Explicava de outra forma, mas falava a mesma coisa. "Outra vez?", pensou. "Será que esse cara ainda não conseguiu entender?" ram sete e vinte e cinco da manhã. Todos já esta- vam na classe havia algum tempo, concentrados nas ativi- Mas menino tinha consciência de que devia respei- dades escolares. tar colega. Afinal, nem todos raciocinam no o professor de geografia explicava a matéria enquan- ritmo. Alguns têm mais facilidade de entender, to fazia anotações na lousa e ressaltava a importância de demoram mais. Ninguém é igual, ele sabia disso. alguns pontos. O jeito era ter paciência e deixar a mente viajar mais Rafael estava atento às explicações e anotava tudo em um pouco, até que o professor prosseguisse com a matéria. seu caderno. Ele havia entendido a matéria perfeitamente, Olhou Carina primeiro. Naquele dia ela estava com os mas não achou ruim quando um colega pediu ao professor cabelos presos, alguns pequenos fios delicadamente soltos que retomasse um dos tópicos de que falara pouco antes. no rosto. Era linda de qualquer maneira. Porém, sua mente parecia estar com preguiça de Virou seu pescoço novamente para a janela. Estranhou. No céu, antes azul, brilhante e agora tinha uma nuvem escura. Mas não era uma nuvem 50 51</p><p>comum, de tempo escuro, de chuva. Rafael achou que era Seria só uma impressão? Ficou algum tempo acompanhando, os olhos vidra- Vizinhos da escola vieram falar. Estão todos em pânico. dos no céu. A nuvem parecia estar maior e mais baixa. Precisamos nos organizar lá fora até diretor resolver para Fixou ainda mais o olhar, tentando decifrar se era isso onde devemos ir. mesmo. Que gás é esse, Dorival? professor perguntou, Não demorou muito para perceber que não era imagi- também bastante preocupado, enquanto levava seus alu- nação. A nuvem, agora, chegava a ultrapassar o muro, nos para fora da sala. adentrando a escola. Algo muito estranho estava aconte- - Ainda não temos informações precisas, Lauro. cendo, Rafael não teve mais dúvida. sabemos que veio da Chemistry - disse o inspetor. E, em Levantou-se rapidamente e fez um barulhão ao arras- seguida, apressou toda a turma: - Vamos, pessoal! tar a carteira, comparado ao silêncio em que a classe estava. Que é isso, Rafael? - repreendeu professor. - Estou no meio de uma explicação! garoto não deu ouvidos e caminhou até a janela. E, antes que professor o repreendesse novamente, ele disse, sem desviar os olhos da estranha nuvem preta: o que é aquilo, professor? Tumulto professor olhou e também viu. Aproximou-se mais. Por fim, toda a classe se levantou e, num instantinho, havia um desconexo aglomerado de alunos próximo à foi saindo com Gustavo. Por que janela. Uma cabeça por cima da outra, um esticando mais mais o o pescoço que o outro. diretor e os inspetores tentassem acalmar os alunos, A espessa nuvem negra parecia estar muito mais perto desespero foi inevitável. As turmas não podiam ficar no agora. Coisa de dois ou três metros da janela. patio, pois a espessa nuvem negra invadia a escola. Todos Alguém abriu a porta com tudo, gritando: ficaram acuados como presas à espera do bote. Peguem suas coisas e saiam todos! - era a ordem do diretor não sabia mais que fazer. As ruas nos arre- inspetor de alunos. - Você também, professor. A ordem do dores também estavam em alvoroço. Talvez toda a cidade diretor é para todos irem para estivesse assim. Os moradores, desesperados, diziam que o Que nuvem é essa? - perguntou Rafael, na expecta- gás entrava pelas janelas das casas e até mesmo dos carros tiva de que inspetor lhe desse mais alguma explicação. que passavam por ali. E ele deu: Temos de sair daqui e voltar para casa! - disse Rafael. Não é nuvem. É um gás que vazou da multinacio- Ele não conseguia imaginar outra saída. achava que nal.. pélo menos é isso que todo mundo está comentando. já deviam ter feito isso, antes que a situação piorasse e se tornasse insustentável. que o diretor não percebia? Por que demorava tanto para tomar essa decisão? 52 53</p><p>E meu pai, Rafa? - falou Gustavo. - Será que ele está bem? Eu queria ir Carina mordeu os lábios. No portão da escola, um Calma, Gustavo. tumulto de pais procurando seus filhos, alunos saindo.. Rafa! - era Carina que chamava. Chegara correndo, nunca tinham visto uma situação parecida. Tinha gente visivelmente cansada, ofegante. - Acho que a Cris respirou que nem conseguia compreender o que estaria realmente o gás. Está passando mal! Você viu o diretor? acontecendo. Ali - ele apontou rapidamente para a secretaria. - Rafael reparou bem no jeito de Gustavo. E resolveu Pediu que a gente fique aqui até decidir o que fazer. reforçar conselho ao amigo, sendo firme nas palavras: A gente tem de ir embora! - disse Gustavo, transtor- Você vai pra casa, Gustavo. Nem invente de apare- nado. Rafael pôde imaginar em que estaria pensando seu cer na amigo. Preciso saber notícias do meu pai. - ele não queria Você não vai lá, Gustavo! - Rafael foi categórico. saber de ouvir. Tinha essa idéia fixa desde o momento em - Preciso saber do meu pai! que foram para Carina deixou os dois. Foi correndo até a secretaria. o Rafael está certo, Gustavo - disse Carina. - Não Voltou em seguida com o diretor, que foi buscar Cris e, em tem cabimento você ir até lá. A gente nem sabe direito o poucos minutos, já retornava com ela amparada em seus que aconteceu! Pode ser perigoso demais! ombros. Ao passar por um dos inspetores, deu a ordem: Gustavo ia protestar, quando teve a impressão de que Dispense todos os alunos. Os pais das crianças sua mãe estava na de outras mulheres. Logo menores já foram avisados. Alguns até já estão ai no portão. depois, alguns pais se espalharam, abrindo um pouco de Está bem - respondeu prontamente inspetor espaço. Então o menino pôde ver melhor. Dorival. É minha mãe! - deu um grito. diretor conduziu Cris até carro, para ao Ele correu para Rafael e Carina foram hospital imediatamente. Não dava nem para esperar os pais. Achou melhor encontrá-los direto no pronto-socorro. E pai, mãe? foi logo perguntando, no maior Dera ordem aos professores ou inspetores que tivessem desespero. carro para fazer mesmo com quem aspirasse o gás. E sem Por isso vim aqui. Ele já ligou e disse pra ninguém demora. Ninguém tinha noção dos efeitos que isso poderia se preocupar com ele. Está tudo bem. causar. Gustavo soltou o ar dos Rafael e Carina sen- Carina acompanhou, apreensiva, a partida dos dois. tiram mesmo alívio, pois também estavam preocupados. Logo dela, surgiu um monte de gente querendo saber Vamos embora daqui, filho. Lá em casa eu conto notícias. tudo. Rafael e Gustavo apareceram. Gustavo se despediu dos amigos e foi embora, com - Eles mandaram a gente ir para casa - disse Rafael. coração um pouco mais leve. É melhor obedecer. 54 55</p><p>- Que gás é esse, mãe? Não sei. Ninguém aqui da vizinhança conseguiu descobrir ainda. mesmo entender toda essa situação. Nunca tinha acontecido nada igual antes. Claro que um Chemistr y S.A. tempo atras teve vazamento de produtos químicos... - Vazamento? - Rafael estranhou. - Resíduos dessa mesma multinacional despejados no rio da cidade. Parece que ela começou bem. Rafael ouvia quase sem acreditar. Mais uma vítima - Como é que eu nem fiquei sabendo, mãe? Saiu no jornal. Você não viu, não? Rafael balançou a cabeça, dando uma resposta Q negativa. A princípio, ficou desconcertado com a notícia. bom que você chegou, filho! - Ângela Abobalhado, sem querer acreditar. Em seguida, começ ou a foi 1 ogo abraçando menino, que mal abrira a porta. Eu sentir raiva. Primeiro, da multinacional; depois, dele também acabei de chegar. Você nem sabe, Rafael! mesmo. A expressão no rosto da mulher denunciava que algo É melhor telefonar para o seu pai avisando que você de g tinha acontecido. chegou - Ângela interrompeu seus pensamentos. Éle já Que foi, mãe? ele perguntou, preocupado. ligou para duas vezes. A dona Adriana, esposa do seu José, nossos vizi- Rafael foi para o quarto guardar material, enquanto nhos... Ela teve contato com a nuvem de gás e eu a levei a mãe telefonava. devagar, sem pressa alguma. Era como para pronto-socorro. marido estava no trabalho, coita- se, contando os passos e caminhando lentamente, fizesse do. Foi um desespero, um corre-corre! Tinha mais três pes- sua cabeça entrar nos eixos. soas sendo atendidas com sintomas de intoxicação. Como é que a Chemistry tinha feito um estrago des- A Cris, mãe! - lembrou Rafael. ses no rio e ele nem ficara sabendo? Distração? Falta de Cris? pelos fatos da sua cidade? que andara com a - Uma colega da minha classe. Foi o seu Antunes que cabeça tão longe, a milhares de pensando em levou menina pro hospital, mas que aconteceu lá navios petroleiros, gaivotas, em outro país, que deixa de depois, sabe. Viemos todos pra casa. enxergar que estava acontecendo bem ali, diante de seus Que horror... o pior é que ninguém fala coisa com olhos? coisa. O que se comenta é que um gás vazou da multinacio- Essas eram as perguntas que torturavam Rafael. E a nal, mas ninguém sabe explicar mais nada. plor delas era a que surgia nesse momento, sem que ele tivesse qualquer resposta: "O que fazer 56 57</p><p>tório agudo dos brônquios, provocado por produto quími- CO. A preocupação da saúde pública local é que as pessoas apresentem problemas futuros. Um acompanhamento médico se faz necessário." o homem deixou jornal cair na mesa, onde toma- vam Era e todos acorda- do mais tarde. Na verdade, dormira muito bem por causa dessa história. Marcos deixou escapar uma espécie de Puxa vida... Notícias - Isso é muito grave, pai! protestou Rafael. Coitada da dona Adriana... - lamentou A gente precisa fazer alguma coisa! Isso não pode "O ficar assim, pela manhã, uma nuvem de gás Uma agonia, um desespero, uma sensação ruim de ácido causou pânico em onze bairros da estar outra vez de mãos atadas tomava conta de Rafael. Até vazamento, que durou cerca de cinco minutos, mais do que quando ficara sabendo do acidente com o ( a nova indústria no município, a mul- navio petroleiro. tinacional Chemistry do Brasil, que produz cloreto férrico." Bom - Marcos começou com certeza, as orida- Cloreto pai? Rafael perguntou. des vão fazer alguma coisa. Ainda mais depois de a indús- Marcos levantou os olhos e encarou filho por cima tria, em tão pouco tempo, ter causado duas agressões ao do jo nal que estava lendo. Respondeu em seguida: ambiente. o cloreto férrico é usado no tratamento da água. Rafael se levantou da mesa e foi para o quarto. Abriu Rafael fez uma cara Ângela pediu: a janela e deu uma olhada para fora. Céu azul, claríssimo e Acaba logo de ler, Marcos! limpo. Suspirou aliviado e ligou computador, acessando Vamos ver onde eu estava... Ah, aqui: "O gás deixou a Internet em seguida. os radores apavorados, pois invadia as casas e até mesmo Cloreto férrico disse Rafael em alta. - Vamos os ca TOS nas ruas. Dezenas de pessoas foram levadas ao ver... vamos ver... achei! "Cloreto férrico: usado nos trata- pronto-socorro e atendidas com sintomas de intoxicação". mentos de águas." Isso meu pai já tinha falado! "O cloreto A dona Adriana.. disse tem grande eficácia no tratamento das águas Cris - completou Rafael. das e traz melhor solução para o tratamento dos esgotos "Dependendo da quantidade inalada, gás pode urbanos e industriais. É utilizado como mata por asfixia ou causar pneumonite, processo inflama- para eliminar as impurezas dificilmente fil- e que decantam facilmente". Ah, sim! Deve ser para 58 59</p><p>as sujeiras em flocos, dai floculante... o menino afastou-se um pouco da tela do computa- Oi, Amaral! dor jeitando-se melhor na cadeira. Depois ficou pensati- Oi, Rafa! Fiquei horrorizado com as notícias! vo, a página de pesquisa ainda aberta na sua frente. Não E eu estou abismado até agora! Temos de essa saber a dizer por quanto tempo esteve assim, as idéias fer- Amaral! Andei pesquisando que ela produz, tal vilha na cabeça, olhar não vendo coisa alguma.. cloreto férrico, sei que é importante, que é usado para lim- Quando acordou dessa espécie de transe, entrou no par a água que nós consumimos, mas não dá. Ela já fez um seu e mail e digitou endereço de Amaral, contando-lhe monte de coisas erradas em pouco tempo, arriscando a vida assim toda a história, inclusive do derramamento de produ- das pessoas, matando peixes, poluindo água, ar. que mais tos químicos no rio. Pediu que lhe escrevesse ou telefonas- é preciso? É melhor a gente fechar. Acho que você e pes- se, pr muito da sua ajuda. Bom mesmo seria se pró- soal da ONG deveriam vir para e... pric e os companheiros da ONG estivessem na cidade. Rafael! Você está me deixando atordoado, cara! Calma! Não vem você me dizer para ter calma. Eu vi, Amaral, eu vi toda aquela fumaça preta. Acho que deve ter feito mais um monte de buracos na camada de ozônio, isso sim! É preciso fechar! estou pedindo calma pra gente conversar direito. Eu sei que a situação é gravissima. Eu queria mesmo estar para ter certeza de que essa indústria realmente vai ser punida e garantir que ela não faça mais.. Amaral só se pronunciou no domingo, por telefo- quê? - Rafael nem deixou tio terminar. Você ne. A hou melhor assim. Internet era bom, facilitava tanta fala em uma segunda chance para aquela multinacional coisa, mas nada como a do sobrinho e da para cretina? É isso o que eu estou entendendo? matar um pouco a saudade. Ele se sentia mais perto, cora- Você pensa que é fácil fechar uma Rafa? ção ais aquecido. Que uma multinacional! oi quem atendeu, mas não conseguiu falar Amaral... direito com irmão. Rafael estava ao seu lado fazendo mil Rafa, escute uma coisa. temos de lutar, sim. Mas e um gestos, cutucando aqui, puxando ali, até que ela aca- vamos pôr O pé no chão e agir de acordo com a realidade bou dendo. Passou-lhe telefone, mas não sem antes dar do Brasil. Estou superfeliz de você estar se envolvendo com uma ronca no filho: isso, até pesquisas fez para saber mais a respeito da Que falta de educação, menino! Não posso nem tria, do que ela produz Ótimo. É por ai mesmo. Acho que conve sar mais? você poderia ainda procurar saber mais coisas. Depois, mãe, depois... e foi agarrando aparelho. Rafael fez cara de pouco-caso. Por exemplo? 60 61</p><p>Se tem algum grupo ambientalista na cidade envol- vido com essa questão. De repente até já esteja se mobili- Bom, Rafa, você pensa o que achar correto. zand e você nem saiba. - Eu queria tanto que você estivesse aqui, Amaral! Rafael não disse nada. Se mais coisas estivessem acon- Não tem um jeito, não? tecer do bem debaixo do seu nariz e ele não soubesse, ia - Agora, não. Impossível. realn ente ficar louco da vida. Tentou se acalmar. Nem de - Puxa. queria brigar com tio igual outra vez. Por Amaral notou quanto sobrinho ficara decepcionado. issc começou com a mansa: Mas me mantenha informado, Rafa. E faça que eu Mas, Amaral, você não concorda que uma indústria falei. Procure saber mais e o que dá para ser feito. que entrou aqui na nossa cidade, prometendo não sei Rafael sentiu que não havia outra alternativa senão quantas centenas de empregos, deixando todo mundo concordar. durante meses só falando nisso... você não acha que ela - Tá legal. É isso o que eu fazer. tinha direito de fazer uma coisa dessas? - É claro que eu acho! Acho, não! Tenho certeza abso- luta! Então, Amaral! A gente tem de se mobilizar e man- dar essa indústria de volta para o lugar de onde veio. Ela que poluir o país dela, caramba! E não seria a mesma coisa? De volta para a escola Como, a mesma coisa? Que diferença faz se ela polui o Brasil ou os Estados Unid ou a França ou a Itália... qualquer lugar? o planeta A conversa da segunda-feira de manhã ia, voltava, nãc o mesmo para todo mundo? mas acabava em todas as rodinhas no mesmo assunto: Rafael se sentiu um bobo de repente. Claro que ele que vazou. Além, claro, de todos quererem saber como tinha falado uma tremenda bobagem. Já conversara muito estava a Cris. A escola inteira queria. com eu tio a respeito disso. Amaral já dissera que mui- Eu estou bem - ela disse. Rafael, Gustavo, Carina e tas ultinacionais abriam novas sedes em outros lugares Cris conversavam no durante o intervalo das aulas. achando que o seu país de origem estaria livre da poluição. Acho que foi mais um susto. Que desespero me deu naque- Que não havia o menor problema em degradar o ambiente la hora! Estava supernervosa. Mas médico falou para eu dos Como se essa degradação não fosse atingir a não ficar preocupada. no futuro, indistintamente.. Rafael pensou no que o pai lera no jornal sobre "pro- Mancada minha, Amaral. Esquece. Mas você me blemas futuros". Ficou torcendo para que a amiga não descu lpa, que desta vez eu ainda acho que eu estou certo. tivesse nenhum. Aqui na nossa cidade, ela não pode ficar. pior já passou mesmo - ela continuou. - E eu não quero nem me lembrar mais disso. 62 63</p><p>Ah, mas a gente não pode esquecer, não! Rafael incisivo. - Essa indústria tem de pagar pelo que As duas saíram. Rafael ficou por alguns momentos E ter 1 de sumir daqui da cidade. De preferência, não reabrir acompanhando-as com olhar. Depois, virou-se para em I enhum outro lugar, porque na certa vai acabar amigo. A conversa ainda não estava encerrada: do do de novo. Nada justifica que a indústria fez. E ainda fará, se Você fala em fechar a Chemistry? ninguém tomar uma providência. Rafael olhou para Gustavo. Era ele quem perguntava, Gustavo fez cara de desprezo. e sua cara denotava uma estranheza muito grande. Rá! Queria ver se fosse com seu pai, se você ficar Mas é claro! A "Chemistry" Rafael fez uma voz posando de ecologista! da ao pronunciar esse nome tem de ser fechada. Não estou posando de ecologista! Você é louco, Rafa? Tá esquecendo que meu pai Está, sim! - aumentou tom de voz. trabalha lá? Gustavo, até parece que você não quer entender! Por um momento, Rafael tinha esquecido, sim. Mas... Você é que não quer! É o emprego do meu pal! Um e dai? Ele que arrumasse outro emprego, ora essa! bom emprego! E eu não you mais falar com você, porque não disse isso ao amigo do modo como pensa- não quero brigar. Se quiser continuar meu amigo, tire essas ra. Deu uma maneirada nas palavras: coisas da cabeça! o seu pai consegue outro emprego, Pela firmeza de Gustavo, Rafael não teve dúvidas de Pra ganhar que ele ganha? Rafa, acho que você que ele estava falando sério. que amigo não enxerga- noção das coisas. A gente passava uma baita difi- va mesmo que ele, poxa! Como deixar uma indústria culda de, com um salário misero, contadinho... agora ele poluir ambiente bem debaixo do nosso nariz e não fazer ganh o dobro do que ganhava no seu último emprego. Eu nada? Como? te CO que ele até ajudou meu irmão a comprar uma Gustavo bravo e Rafael ficou mal com isso. Não se falaram nas aulas nem foram embora juntos para As meninas resolveram interromper a discussão dos casa, que normalmente acontecia. Cris deu um cutução em Carina e fez um sinal para Na saída da escola, garoto estava sozinho e triste. De que fossem à cantina. Não estava em condições de ficar dis- novo, uma sensação de mãos atadas, de não saber como cutin ou mesmo ouvindo uma conversa que a fazia se ajudar. De querer tanta coisa e não ter a mínima idéia do ar do que não queria. Aquele desespero, aquela sensa- que fazer. ção tudo isso ainda lhe fazia muito mal. Carina entendeu o recado. Depois a gente se fala, Rafa. A Cris não está muito bem. Você não está bem, Cris? preocupou-se. Não, Rafa, não é nada... quero ir até a cantina. 64</p><p>Rafael encostou-se no muro. Dobrou um dos joelhos, colocando solado do pé também contra muro. Cruzou os braços e respondeu, olhando para a frente: - Gustavo não entende que a multinacional tem de fechar. Mas pai dele trabalha Você queria que ele entendesse e achasse bom? Rafael virou-se para Carina, posicionando-se de fren- te para ela. Não estou dizendo que seja bom para pai dele. Mas ele consegue outro emprego num lugar que não com- Emoção prometa a vida das pessoas e do planeta. Rafa, sempre achei você meio exagerado nesses assuntos. R Não é exagero, Carina! Aafael arriscou e foi até a casa de Carina, logo mais Rafael falava muito sério. Não estava entendendo por à Quem sabe ela pudesse ajudá-lo, tirar esse peso que as pessoas tinham resolvido não acreditar em tudo o todo lo seu peito. que já estava constatado: se ninguém cuidar, se ninguém Assim que a menina ouviu chamar seu nome, espiou mudar comportamento, planeta Terra corre risco de pela janela da sala, como da outra vez. ficar insuportável para se viver. Preciso conversar com alguém ele disse, lá fora, no Carina tentou explicar: Rafa, emprego não se arranja assim, do nada. Você Com alguém ou comigo? nunca passou por essa situação, então não sabe quanto é Rafael tentou sorrir. Carina percebeu que a cara do garo- Eu sei. Meu pai, quando morava aqui, vivia to es ava péssima. da janela e foi recebê-lo no portão. pregado. Em parte, por culpa dele próprio, não posso negar Nossa, Rafa! Que cara é essa? foi logo perguntando. isso. Mas não a minha mãe! Ela sempre foi uma mulher Você nem imagina, Carina... batalhadora e também já sofreu com desemprego. Se ela Bom... imaginar, acho que eu imagino. Você brigou arrumasse um trabalho em que ganhasse mais, duvido que com Gustavo. querer perdê-lo. Você viu, né? Até você, Carina? Rafael não pôde esconder a sua Ela fez um sinal positivo com a cabeça. decepção. Pelo menos até momento em que a Cris e eu - Mas é verdade! for os para a cantina. o que aconteceu? Rafael não disse nada. Voltou a ficar pensativo, olhan- do para a frente, vendo as pessoas, os carros passando. 66 67</p><p>Será que ninguém no mundo concordava com ele? sentindo que nem mesmo a Carina Você está triste, Rafa? Com uma das mãos, Carina trouxe delicadamente o rosto do menino de volta. Rafael sentiu aquela mão macia que tocava parte de seu rosto, de seus cabelos, de seu pes- Seria tão bom se a Carina O entendesse! Tão bom! Mas, olhando para ela, dentro de seus olhos, parecia que a garota entendia, sim. De um jeito diferente, talvez, mas a sentia perto. Como a gente sabe, a gente sente, sobre uma pessoa com quem se pode contar. era assim com Carina. Mas não era só amizade. E era esse a go mais que ele queria e que esperava dela também. Mundo da lua Carina percebeu que Rafael mudara seu jeito. Ficou um ma diferente entre os dois. Tanto ele quanto Carina sentir essa mudança. Não era preciso dizer nada. E stou morta! Sabe quantos clientes aparece- oi por isso que Carina, sem graça, tentou puxar a ram hoje na loja? Também não sei, mas foi uma mão. tentou, mas não conseguiu porque Rafael a segu- E pega caixa de sapato, e desce caixa de sapato, e leva de rou. A menina não fez qualquer tentativa contrária. Deixou volta caixa de sapato... que segurasse a sua mão e a levasse de volta para Alice falava sem parar, enquanto ia sentando no sofá perto dele, deslizando-a pelo rosto, pelos lábios, até sentir e dobrando os joelhos para ficar na posição de "pernas de seu Era uma sensação tão boa que a fazia arrepiar. Um pouco falava, um pouco massageava os pró- Os dois estavam tão perto agora! Rafael soltou a mão prios mas Carina nem prestava atenção. de Carina para colocar a dele no Alice podia ser tudo, menos distraída com relação às rosto dela. Sabia que a hora era suas Tanto que planejara falar ou Que aconteceu, Carina? pedir. Não, não era preciso nada Hein? disso. Nem falar, nem pedir. Sabia que você nem estava prestando atenção. Contava somente que ambos As duas assistiam tevê. Bárbara já tinha dormido, logo estavam pensando. Não só pen- após O jantar. Mas ainda era cedo. Alice sentiu que era hora sando mas, principalmente, sen- de dar um pulinho na biblioteca municipal e pegar um tindo e desejando. novo livro para Aquela novelinha das oito a estava E foi assim que aconteceu Por tagarelava sem prestar muita atenção. primeiro beijo. Mantinha aparelho ligado mais para ouvir algum barulho do que para se aos diálogos dos atores. 68 69</p><p>Pelo jeito, você também não estava nem para a A mãe escutou tudo, prestando muita atenção. nove a, né, Carina? Tá com a cabeça onde, então? - Então, mãe? o que você acha? - Carina quis saber. Em vez de responder, ela veio com outra pergunta: - Se arrumasse um emprego para ganhar mais, você Alice não respondeu de imediato. De repente, agora, saía ca loja? aquele barulho de tevê ligada para ninguém começou a - No mesmo instante! incomodá-la. Pegou o controle remoto e mirou o aparelho, - Foi o que eu pensei.. desligando-o. Que papo é esse, Carina? Vai me dizer que arrumou Depois, virou-se para a filha: um melhor pra sua aqui? - É uma questão difícil, Carina. Por um lado há Não, né, mãe! emprego, que é uma das maiores preocupações dos brasilei- ros hoje. Você sabe bem como anda a situação do país. Tem Então, não entendi. É que o Rafa, um amigo meu... um exemplo aqui em casa, acompanha de perto. Carina pensou no que acabara de dizer. Rafael já não Eu sei. E sei também que há muita gente numa era nas um amigo. Não depois daquele beijo, de tudo o situação pior. que seram um ao outro, revelando o que antes estava tão - E pior nisso! - concordou a mãe. - Para algumas bem ardado, confessando desejos. pessoas, simplesmente falta tudo. Emprego, educação, ali- mentação e saúde. Claro que não são coisas separadas. Uma Eu e o Rafael nos beijamos. quê? - Alice parou com a massagem e esticou as coisa puxa a outra. Como ter saúde se não se tem uma ali- mentação decente? Ou saneamento por exemplo? pernas. gosto dele. E ele de mim. Acho que nós estamos Como ter educação se ainda há quem não ponha os filhos namorando. Quer dizer, estamos namorando. na escola porque precisa que trabalhem para ajudar no sus- tento da família? Como viver sem um emprego? meu Deus... e o que é que isso tem a ver com essa Carina deu um longo suspiro. Sabia de tudo isso. Era história de emprego? motivo pelo qual se revoltava às vezes, querendo que as É que eu comecei falando: "O Rafa, um amigo coisas mudassem, que todos tivessem os mesmos direitos. meu... Agora não é mais só um amigo. Por isso. Carina, eu não estou entendendo nada. São dois Todos, de todo planeta. - Por outro lado, o nosso ambiente, a nossa casa, a então? Seu namoro e meu emprego? Vamos nossa a nossa vida - Alice fez uma pausa. - É real- falar de im de cada vez, está bem? mente muito difícil. Ca ina sorriu. A cara toda confusa da mãe estava - Às vezes eu acho que Rafael exagera um pouco. Já muito en graçada. - Não é seu emprego, mãe. Eu explicar. falei isso pra ele, que é meio radical. E Carina contou que estava acontecendo, sobre Alice fez uma cara preocupada. - Não sei se é exagero, Carina. A gente sabe que a qua- as angústias de Rafael e o que ela dissera a ele. Queria saber lidade de vida no mundo piorou muito nos últimos anos. Se o que a achava. Precisava de uma opinião. hoje está do jeito que está é porque lá atrás não houve míni- 70 71</p><p>mo de cuidado na preservação do ambiente. Ontem mesmo contribuindo para que sejam extintos? Claro que sabem, eu uma rápida notícia no rádio que me causou medo. mas continuam fazendo. Sabe, Carina, eu vejo o trabalho Medo, mãe? Carina franziu as sobrancelhas. desses ecologistas que aparecem na televisão, tudo o que Alice explicou: eles fazem, e também dos professores. São tantas pessoas Era uma espécie de campanha para cuidar da água. procurando conscientizar o povo! Eu tenho que tirar meu Não de sperdiçar, não poluir... Você sabe que a água do pla- chapéu para elas. É um trabalho de formiguinha! neta nbém está em crise. Formiguinha, mãe? - Carina achou engraçada a Eu sei. Os professores da escola falam direto sobre expressão. isso. Mas o que a notícia dizia de tão grave, mãe? É. Um pouquinho aqui, um pouquinho ali... até Dizia que vinte e cinco por cento da população levar a conscientização para as pessoas do mundo todo. mundi adoecem por causa de doenças relativas à conta- É verdade concordou a menina. o da água e que sessenta e cinco por cento precisam Carina de repente se lembrou. Deu um pulo no de int ernação. Fora as crianças que morrem por esse E a multinacional, mãe? mesnic motivo. É um número muito elevado. Também vai ser preciso um trabalho de Nossa... nha nesse caso. Fiquei chocada também. E tudo por quê? Ações pra- Carina mordeu os lábios. Será que Rafael ia ter ânimo ticadas pelos homens, minha filha. Agora, vamos pensar, mesmo para fazer esse trabalho de formiguinha, do qual por EX emplo, no que aconteceu aos animais e às plantas. falava a mãe? Ele sempre fora maluco por essas que stões Muitos foram extintos. Nós nem conhecemos algumas ecológicas, mas seu maior sonho era ir trabalhar com o tio que existiram e que sumiram da Terra! E corremos na França. Será que mudaria de idéia algum dia? o risco de não deixar que as futuras gerações conheçam Alice interrompeu os pensamentos da filha. Carina outras tantas. Olha quanta coisa os seres humanos e a pró- estava tão séria, o tão preocupado! A mãe resolveu que- pria ci perderam. brar a tensão: ( arina ouvia a mãe atentamente. Era como se estives- Muda essa se aula, o professor explicando, falando tudo o que achava importante. Achou a mãe tão inteligente! Sentiu-se que agora chegou a vez mais uma vez muito orgulhosa e imensamente feliz de ser do segundo assunto. sua Segundo assunto? Carina não tinha com- Eu sei, mãe, de tudo isso. Aliás, todo mundo sabe. A toda hora tem alguém falando. preendido, não fazia nem Você está certa. Todo mundo sabe, mas continua idéia do que a mãe estava tudo errado Alice realmente tinha se entusiasma- do o Quantas pessoas ainda caçam animais Pode ir me con- silvest Quantos os compram, mesmo sabendo que estão tando direitinho essa his- tória de 72 73</p><p>trário, tudo que sempre ponderava sobre defender a vida no planeta levava as pessoas em consideração. Sempre as pessoas, acima de tudo. Por isso é que estava tão difícil entender que pensa- va e o que queria. Vai ver, Amaral estava mesmo certo quando lhe perguntou se ele acreditava ser fácil uma Chemistry indústria. Talvez fosse por isso. Porque também tinha esse lado. o lado dos empregos, da própria sobrevivência das pessoas. Com certeza, ia ter muita gente lutando contra também. Conflitos Mas como deixar que uma indústria se instale num lugar, ganhe inúmeros benefícios em troca dos empregos prometidos e depois comece a prejudicar todo mundo a S torto e a direito? por um lado a tarde com Carina tinha sido para Deve ter alguma lei que não permita isso! Ou a lei lá boa, durante a noite a cabeça de Rafael ainda conti- nunca é cumprida quando o lado analisado é o do mais nuava dando voltas. Ficava difícil pensar, posicionar-se de forte? um j e depois mudar... Estava tudo muito complicado. Lembrou-se do caso do acidente com o e do Não conseguia deixar de pensar em Gustavo. Sabia que Amaral tinha lhe falado. Tudo é extremamente difícil que le não estava errado em defender emprego do pai, já quando se tem muito dinheiro envolvido. Não é em nome que a família desfrutava melhores condições de vida. dele que as guerras são proclamadas? Em nome da Que coisa! pai de Gustavo tinha de trabalhar justa- cia e do poder? men lá? Não podia ser em outro lugar, não? Ficaria mais Será que Rafael estava sendo radical demais, como a fácil lutar para que a indústria fechasse as portas. Quando Carina já dissera? Que as coisas não eram bem assim? não se conhecem as pessoas envolvidas, é sempre mais fácil O garoto começou a pensar que tinha mesmo muito tom certas decisões. aprender. As coisas não são tão simples como ele imagina Mas, de repente, Rafael começou a pensar que diferen- va. Se fossem, não precisaria haver tanta gente trabalhando ça zia se era pai de Gustavo ou qualquer outra pessoa. e fiscalizando. Como a ONG do Amaral, por exemplo. dizer que, se fossem trabalhadores desconhecidos, Rolou na cama durante horas, sem conseguir dormir tudo bem? Se a empresa de fato fechasse, por acaso isso não Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Não só coi iria interferir na vida de todos os que trabalhavam lá? sas ruins. Tinha a Carina também. E isso era muitíssimo Rafael ficou mais deprimido ainda. Não era uma pes- bom. sca fria, insensível, que não pensava nos outros. Pelo con- Procurou pensar nela e esquecer indústrias, rios empregos, nuvens... tudo. Só Carina importava. 74 75</p><p>que é que eu posso fazer? Conversa com ele, Rafa. Rafael concordou, balançando a cabeça. - Eu fazer isso. A professora de acabava de chegar. Rafael e Carina entraram na sala junto com ela. o garoto passou pela carteira de Gustavo e disse: - A gente precisa conversar, Gustavo. Mas amigo só fez uma pergunta: - Já tirou aquelas besteiras da cabeça? A multa menino não respondeu, apenas reafirmou: - Depois a gente conversa. Rafael foi para seu lugar e só voltou a falar com IN Gustavo no intervalo. Carina achou que eles deverian con- la manhã seguinte, Rafael descobriu duas coisas versar e nem se importou de não ficar com namorado. pelo jc A primeira era que a Chemistry ia ser multada por Saiu com Cris e outras amigas da classe. crime imbiental, e a segunda, que um grupo ambientalista já Gustavo nem esperou Rafael falar nada. Já veio na tentava conversar com a indústria a fim de buscar soluções. defensiva: Que tipo de soluções será que eles estão buscando? Rafael perguntou. Pra seu governo, Rafa, eu conversei com o pai e ele me contou que a Chemistry tem muitos programas Carina balançou a cabeça de um lado para outro. sociais, viu? Ela não é essa que você está pensando. No jornal não falava mais nada? - ela perguntou. Não. Gustavo, isso que você me falou não tem nada a ver com os fatos que aconteceram. Um: a indústria poluiu Gustavo passou por Rafael e Carina, sem cumprimen- rio, a nossa água, que vai para a casa de todo mundo, além tá-los Os dois conversavam na porta da classe, esperando a profe isora que ainda não tinha chegado. de matar diversos peixes. Dois: ela infestou ar, desta vez amigo de Rafael entrou rápido, de cabeça baixa. deixando várias pessoas doentes. a deu um tempo e depois perguntou para namorado: Não estou dizendo que foi certo - Gustavo não viu outra saída a não ser admitir a gravidade da situação. - Mas Vocês ainda não fizeram as pazes, é? Rafael balançou a cabeça negativamente. foi um acidente! Só isso! Parece que você não quer entender! Gustavo, será que você não compreende, cara? Ele está bravo. Deixa, que passa. Encara como acidente porque quer defender a de Não acho certo vocês dois ficarem brigados. São tão os! qualquer jeito. Mas acidentes desse tipo - Rafael falou pau- sadamente as palavras seguintes - não podem acontecer! Entende agora? 76 77</p><p>Gustavo fez uma cara contrariada: Então você ainda não tirou aquelas coisas da cabeça. Não estou falando nada, Gustavo. Aliás, descobri questões. Falou que gostaria de saber que poderia ser feito que não sei nada de nada. estou querendo entender nesse caso da indústria. e Não a indústria, mas as pessoas que vivem aqui. Leandro, um dos rapazes do grupo, ficou conversan- Só eu não quero brigar com você. Hoje de manhã, des- do com ele. que há um grupo ambientalista tentando se envolver - Bom, Rafael - começou -, que nós estamos tentan- no além das autoridades, é claro. Vou procurar saber do fazer agora é conversar com a Chemistry. Já sabemos que eles estão pensando. que ela vai ser multada, que é o que se costuma fazer em Rafa, ouça bem. Meu pai não pode perder esse situações como essa. - Tudo bem, Leandro, a indústria vai ser multada. Nem seu pai nem ninguém - Rafael cortou. - Vamos Mas me fala uma coisa: isso resolve? tentar resolver sem brigar, tá bom? Depende. Às vezes sim, às vezes não. Acontece que muitas multinacionais vêm para cá porque nossas leis Gustavo concordou com a cabeça. Também não que- ria brigar. Rafael era seu melhor amigo. ambientais são brandas demais, ao contrário do que ocorre em outros países, como no lugar de origem dessas Apertaram as mãos e voltaram para a classe. trias, por exemplo. Por isso elas não se importam com o preço a pagar. Para uma empresa desse porte, valor da penalidade não significa muito. Seria necessário aplicar multas pesadas mesmo. sim. Eu imagino o dinheirão que elas têm. Verdade. Mas não é só multinacional, não. Tem escritório da ONG muita empresa brasileira que não quer nem saber de mudar seus padrões, de investir para não agredir o ambiente. Você nem imagina, Rafael. As autoridades vão lá, e elas telefonou para o jornal e conseguiu com continuam fazendo a mesma coisa. Não estão nem Até endereço do escritório do grupo ambientalista parece que não vivem no mesmo planeta. São umas egoístas! Só pensam em dinheiro, eu sei. que na cidade. Era a ONG Por Um Planeta Vou contar um caso para você. Há uma tinturaria Chegando lá, viu algumas pessoas reunidas. E conver- aqui na cidade que, de tanto a gente ficar em cima, falar, fazer visitas de conscientização, o que não é fácil, de tanto savan exatamente sobre caso da tomar multas e mais multas, resolveu filtros nas chami- garoto se apresentou, dizendo que seu tio trabalha- para poluir menos o ar. Ufa! Até que enfim, não é? va ONG francesa que também defendia meio Rafael fez cara de quem concordava. Só não estava ambiente e que por isso sempre esteve envolvido com essas entendendo aonde rapaz queria chegar. Ele dava uma boa notícia com a expressão de que viria outra ruim logo em 78 79</p><p>garoto esperou para ver se Leandro confirmava a sua hipótese. para fazer por aqui mesmo. que esses filtros - ele retomou - têm de ser troca- - É... - confirmou o menino e, depois de uma pausa, dos d : tempos em tempos, senão acabam rasgando e, claro, disse: - Agora eu já Leandro. Volto amanhã para saber não r os resíduos Concluindo: poluem ar da as novidades mesm a forma. Um pouco menos, é verdade, mas poluem. Estamos tentando marcar uma reunião com a dire- Agora, meu caro, imagine o final dessa história. toria da indústria - Leandro informou. - Já disseram que Rafael deu um suspiro antes de falar. vão falar com a gente, dar explicações, mas precisam de um A empresa nunca trocou os filtros. tempo para agendar... essas coisas. - Exatamente. - Se houver mesmo essa reunião, aposto que eles vão - Que coisa! arranjar um monte de desculpas para que aconteceu. - Há empresários que não têm a mínima consciência Realmente. Mas, para nós, o mais importante é saber Rafael. Acham que só o dinheiro é que importa. Se que tipo de providências vão tomar daqui para a frente. for vestir, vai diminuir seus lucros, e isso nunca, não é? E será que vão mesmo tomar? Então, O que é que a gente pode fazer? No caso da Eles têm de tomar - Leandro foi enfático. Em segui- mu t nacional, ela pode continuar agredindo ambiente! da, pôs uma das mãos no ombro de Rafael. - Nós vainos - É sobre isso que nós queremos Temos de convencê-los. most ar aos dirigentes, por exemplo, que a indústria pode continuar lucrando, mesmo investindo em melhorias para prote ger ambiente. Ela deve, pelo menos, trabalhar den- tro d padrões da ISO "ISO - Rafael ficou pensativo. Já tinha ouvi- do esse nome, tinha quase certeza disso. Mas onde? E-mail 4 - Sabe, Rafael - Leandro desabafou é tanta coisa, mas anta coisa!.. - Eu sei. A situação é desanimadora. - Felizmente, algumas empresas estão sempre inves- A maral, tindo na preservação ambiental. São essas exceções que nos A situação é a seguinte: conforme você previu, existe mesmo moti am a continuar nossa luta. Já que você gosta tanto do aqui na cidade um grupo ambientalista envolvido no caso da mul- assur to, será que não podia ajudar a gente? o que acha? É a ONG Por Um Planeta - Acho ótimo! Foi pra isso que eu vim aqui. Vivo Conversei com Leandro, um dos ativistas, e ele me disse do para o meu tio que, quando eu fizer dezoito anos, que está tentando conversar com os diretores da indústria. Acho vou do Brasil para trabalhar com ele. que eles estão é enrolando, para ganhar tempo e inventar um - Legal, Rafael, mas até lá você tem bastante coisa monte de desculpas. Fora as promessas que eu imagino que vão fazer 80 81</p><p>) pior você não sabe: lembra que eu te falei que achava fechar de uma vez essa empresa poluidora? Pois é. http//: Arran uma briga com o meu melhor amigo por causa disso. .com.br pai do Gustavo trabalha lá, e foi justamente esse empre- http//: go melhorou muito a vida da família. Ele ficou bravo pra http//: www caran ba quando eu contei sobre as minhas Chegou .net até a defender a Chemistry, pode isso? Disse que ela desenvolve vários programas sociais e que ajuda muita gente. http//: Leandro falou que as autoridades vão multá-la e até já .net estipu laram a quantia: UFIRs. Descobri que UFIR quer @ .com.br dizer Unidade Fiscal de Referência e que seu valor varia, depen- dendo do dia do pagamento. Por isso mesmo é que as multas são das assim. E-mail 5 Peguei jornal hoje cedo para ver quanto valia cada UFIR e fiz as contas. o valor da multa, hoje, é aproximadamente R$ 600,00. afa, Dez mil reais é um dinheiro para muita gente. Agora, Gostei de ver. Está procurando ir a fundo e pondo a mão me fila se isso é muito para uma multinacional que fatura na massa. É isso Você pode ajudar a fiscalizar junto com por ano? essa ONG, independentemente do caso da Chemistry. as o Leandro tem Enquanto governo não aplicar outras coisas que eu já falei, do tipo "olhos bem Tá realmente pesadas, essas indústrias, tanto as multina- lembrado? is quanto as brasileiras, vão continuar nem dando bola Quanto às suas colocações, você está coberto de Eu para a questão do meio tinha the dito isso, lembra? Quando milhões de dólares estão o lance agora é que eles vão conversar e procurar resolver. em jogo, é difícil conseguir leis mais duras. Muitas vezes gover- Ou melhor, tentar convencer o pessoal da empresa de que algu- no seus interesses. Não dizer que ele esteja total- ma visa tem de ser feita para que não volte a cometer qualquer mente errado, porque uma das questões pensadas quando as outro crime multinacionais se instalam no Brasil é a geração de empregos. Será que vai ser fácil, Amaral? Não sei, não. Você já tem uma idéia pelo pai do seu amigo. Quantas famílias Um abração. não estão envolvidas? Rafa. que uma coisa é certa: não é porque a Chemistry gera emprego, não é porque desenvolve programas sociais, que ela direito de comprometer a qualidade de vida das pessoas. Há ainda uma mentalidade, por parte de algumas multi- de que, ao jogar seus lixos tóxicos em países menos desenvolvidos, estarão livrando da poluição os seus locais de ori- 82 83</p><p>gem. isso é uma Não importa o lugar que se polui, as conseq serão para todos. que fazer, então? Como salvar planeta se no mundo todo sempre alguém agredindo o ambiente? há como resolver todos os problemas, é Mas, se que está ao nosso alcance, bom resultado das nossas ações sentido por todos. É lema da nossa luta ecológica: "Pense globalmente e agir localmente". ) que o Leandro e a ONG estão fazendo é exatamente isso: gem na sua cidade para evitar que a indústria polua ambie nte local e, com isso, ajudam toda a humanidade. Quando provoca queimadas, desperdiça energia, polui água e 0 ar, seja aqui, ou na China, todo planeta é A ISO 14000 icado. Cabe a nós, localmente, denunciar, combater esses com- e conscientizar as pessoas. resultado disso tudo será S entido globalmente, entendeu? Rafae afael não sabia por quê, mas naquele dia, assim Por aqui ocorre a mesma coisa. Nós sempre encontramos que abriu os olhos, um estalo fez com que pulasse da cama. grupos de pescadores burlando as leis e pescando em local proi- Já sei onde escutei isso! Não adianta apenas expulsá-los e apreender os peixes. Levantou depressa, foi ao banheiro e escovou os den- Eles voltam. É preciso convencê-los de que tes. Se ele se apressasse, daria para tomar um café rápido e possível, ao mesmo tempo, obedecer à ainda sobraria um tempinho para conversar com pai. lei e garantir sua sobrevivência, Preciso falar com você - Rafael foi sentando e pondo pescando espécies que não leite na correm risco de extinção, Marcos tomava seu café tranqüilamente. Já Rafael por exemplo. parecia ter acordado com um ânimo fora do comum. É isso, Rafa. Con- "Milagres acontecem", pensou O pai. Sempre achou tinue agindo localmente. que filho ia acordar mesmo quando já estivesse na Ou, como eu the disse no porta da escola. Ou dentro da classe, quando professor começo das nossas con- falasse seu nome na chamada. Antes, parecia um zumbi, versas: fique de olhos fazendo todas as coisas automaticamente. bem abertos. Olhou para ele e perguntou, na maior calma: Um abração. O que você quer conversar? Amaral. Foi você que falou uma vez numa tal de ISO 14000, não foi? 84 85</p><p>Acho que sim. A empresa está se reestruturando para seguir os padrões da ISO, e eu faço parte da equipe que para que a firma receba certificado da ISO. nenta as mudanças. Por quê? - Então são empresas que têm essa consciência ecoló- Por quê? Puxa, pai! Por que você não me contou? gica de que tanto falamos, pai? Isso a é para a indústria não poluir mais, não é? É. Mas a coisa não é tão romântica como está Marcos terminou de cortar seu pão. Estendeu a mão e colocando. pegou o pote de manteiga. respondeu: Rafael franziu as sobrancelhas. Primeiro: não é só para isso. Segundo: faz meses que - Como assim? estou falando nisso aqui em casa! Muitas vezes eu conver- Não é só por isso, porque vai proteger planeta de sei com a sua mãe a respeito desse assunto na sua frente e graves danos ambientais. É tudo uma questão de competi- ligou. tividade de mercado. É verdade, Rafa - disse que também estava Agora é que tudo tinha embolado mesmo na cabeça à mera. - Várias vezes a gente conversou sobre isso na sua do menino. o que uma coisa tinha a ver com a outra? Não frento estavam falando em proteger o ambiente? Onde entra Rafael fez uma cara de quem estava mercado nisso? Mas vocês deviam ter me contado o que era! - Não entendi - ele confessou. Você nunca perguntou! Marcos falou com espan- Filho, todas as ISOs surgiram para dar destaque às to. que é que você quer saber afinal, Rafael? empresas que trabalham com altos padrões qualitativos. A menino engoliu um pouco de leite. Cortou um ISO 14000, em específico, certifica que, além de uma peda de e passou manteiga. la fazendo tudo e falan- empresa produzir com qualidade, ainda protege o ambien- do ac mesmo tempo: te e não o agride. Entendeu? o negócio é seguinte: falei pra vocês que eu Rafael balançou a cabeça devagar, como se começasse conh eci o Leandro da ONG aqui da cidade. a entender. Resolveu verificar se o seu raciocínio estava certo: Os dois balançaram a cabeça Então, ela consegue vender mais. É isso? Então, ele disse que a multinacional tem de traba- Isso mesmo. Você sabe que aqui no Brasil nós já de acordo com as exigências da ISO 14000, pelo temos empresas que compram de fornecedores que S. tenham certificado da ISO? Bom, isso eu também acho - concordou Marcos. Entendi. É uma questão de concorrência. Me explica direito, pai - Rafael pediu. pai respondeu positivamente com a cabeça. Em Marcos começou: seguida, levou sua xicara à boca. Depois continuou: A ISO 14000 direciona uma série de procedimentos É uma forma de forçá-los a não destruir o ambiente para a empresa seguir. São muitas coisas, tudo visando a com seus resíduos e, conseqüentemente, preservar a vida com qualidade, mas sem agredir o ambiente. das pessoas. uma equipe vai estudar, ver tudo o que tem de ser mudado pousou sua mão sobre a do marido, sorrindo amorosamente. 86 87</p><p>Estou tão orgulhosa do seu pai, filho! Vê como ele també ajuda a preservar o planeta, como você vive falando? quando a qualidade do ar não atingia níveis críticos de "Pensar globalmente e agir localmente" - Rafael intolerância. E que, com isso, era possível imaginar imen- penso 1 em alta. so desperdício de dinheiro público, já que o que você disse, filho? - Marcos perguntou, va muito com os problemas causados pela poluição. enquanto trocava olhares e sorrisos com Ângela. Depois, falava que os maiores prejudicados eram os Disse que você está fazendo tudo certo, pai. mais pobres, como os moradores das favelas próximas às grandes avenidas, por causa do alto de veículos. Rafael deixou sua mente divagar e ficou como tudo na vida dessas pessoas era mais injusto. Além das condições indignas de moradia e alimentação, a saúde também era precária. Era por isso que Amaral dizia que uma coisa tinha mesmo ligação com a outra. A reportagem Quando o menino voltou a si, especialista já falava sobre possíveis soluções para diminuir a poluição do Uma delas era realmente diminuir número de carros. Outra, Rafael não costumava ver reportagens televisivas, fazer com que o governo incentivasse uso de transportes principalmente à noite, pois geralmente estava na rua urbanos coletivos de qualidade. Disse ainda uma que jogan io bola ou conversando com os amigos, ou ainda em Rafael também não sabia. nem sequer imaginava: uma casa, na Internet. moto podia chegar a poluir mesmo que dez carros. Mas a chamada de uma emissora de tevê, particular- - Não acredito! - o garoto falou consigo mesmo. lhe chamou a atenção. Iam falar sobre a qualidade Mas especialista contou que novas leis já estavam do ar grandes cidades. sendo aplicadas, e mesmo que havia sido feito com os tinha ouvido falar muito a respeito do assunto. carros novos deveria valer também para as motos todas Inclusive sobre os tais de carros e os protestos que ter de se adequar a um sistema que menos isso C: usava. ambiente. Essas leis já vigoravam na Europa havia dez Sua cidade era muito menor que São Paulo, por exem- anos. E agora, felizmente, passariam a existir igualmente plo - que ficava a pouco mais de uma hora dali -, mas já aqui no tinha muitos dos problemas das A mencionada pelo entrevistado fez a or isso resolveu mudar sua costumeira programação memória de Rafael entrar em ação. Era um recado aos e assis tir. Quem falava na reportagem era um especialista e motoristas: eles deveriam manter seus carros sempre regu- estud em poluição do ar. lados e não permitir que catalisador fosse trocado por Ele começava dizendo que, em dias mais poluídos, era outra coisa, pois isso faria a emissão de poluentes aumen- grande número de internações em hospitais, mesmo tar até vinte vezes. Assim que a reportagem acabou, garoto desligou a 88 89</p><p>televis e saiu da sala. Passou pela cozinha e olhou no reló- gio de parede: onze horas. Os pais ainda não tinham voltado do cin Tomou um copo d'agua e foi para o seu quarto. O choque um livro de ecologia que estava em cima da mesin na, ao lado do computador. Folheou te, do os títulos, passando os olhos com rapidez em alguns trechos. em um dos tópicos: Já sabia que a vida na dependia da camada desse gás na É ela INTERROMPEMOS NOSSA que otege as pessoas da ação perigosa dos raios ultravio- leta do sol. PROGRAMAÇÃO PARA TRANSMITIR : abia também que, por causa da poluição, planeta A PALAVRA DOS está aquecendo, que mudanças no clima já são sentidas ENGENHEIROS por to lo O mundo, como secas, enchentes, derretimento das AMBIENTAIS regice polares, aumento do nível do mar... algumas cidades podo ni até mesmo desaparecer se fizer nada! os olhos com força. Queria expulsar todos esses da cabeça, pelo menos por um tempo, para ão ficar maluco. Depois, fechou livro rapidamente, fazendo até um quando uma parte se encostou na outra. Era como O S escritos em letras garrafais na tela inter- se "Chega! Não quero pensar em mais nada, senão rompiam a transmissão do filme a que Rafael estava assis- enlouquecer de vez!" tindo. Empurrou O volume para um Ajeitou traves- Que droga! ele reclamou em alta. - Justo seirc, socou-o algumas vezes e se virou para outro lado agora, na melhor parte! - deu um suspiro e por fim con- para tentar dormir. Rezou para esquecer logo tudo aquilo e formou. - jeito é esperar. Vou aproveitar para ir ao pegar sono de uma vez. banheiro e depois tomar água. O garoto já la se levantando, quando uma voz pare- ceu ordenar que ficasse na sala: Caros telespectadores, não saiam Rafael virou-se para a tevê. Olhou o repórter de esgue- Iha, que continuava inerte, aguardando uma resposta. Resolveu obedecer-lhe e voltou para Vai logo, que preciso fazer xixi - Meus ouvintes o repórter desfez aquela postura está- 91</p><p>tica e seu discurso -, estamos mais uma vez entrando nos lan de todas as pessoas, numa rede mundial de transmis- são, pa a falar da nossa campanha. compridas, luvas brancas, botas de cano alto por cima da calça, um chapéu com uma aba enorme e óculos de spl. - Campanha? Que campanha? - perguntou Rafael. Claro, Rafa! É que eu dar uma saidinha. Preciso Parecia não perceber que não adiantava falar com a tevê. ir até açougue. P tinha a impressão de que respondia Desse... desse.. desse... - menino parecia ter diretamente a ele: engasgado feito um disco antigo. - Desse jeito, mãe? Nossa campanha é um alerta. Prestem bastante aten- Ângela não conseguia compreender do nca se esqueçam, nem por um único segundo, de seguir estas in struções: jamais saiam de casa sem usar protetor solar e espanto. Ué... Não gostou da minha roupa nova? - ela deu roupas incluindo chapéu, luvas botas de cano uma voltinha com as mãos na cintura. Parecia ter amado Cubrari-se dos à cabeça. Óculos escuros são modelito. E continuou falando. - Estava em oferta. con- Todo cuidado é pouco. câncer de pele está aí, junto todo em três vezes e, como brinde, estes óculos de e é un a das inúmeras doenças causadas pela exposição aos sol. Não são lindos, filho? raios travioleta do sol. Protejam-se! Cuidem-se! A mãe sorria de um jeito esquisito. que ele esta- I ito isso, muito deu um último va ficando louco? Será que ela estava realmente se achando sorriso para as câmeras: bonita? Meu Deus! - Uma boa tarde e continuem com a nossa programação Não, mãe! - ele gritou, as palavras explodindo na normal garganta. - É horrivel, Pafael estava boquiaberto. filme já fora retomado de Enquanto protestava e esbravejava, Rafael ouvia um onde kavia parado, mas menino estava tão chocado que som que vinha se misturar aos seus gritos. De não CC entender nada do que personagem repente, som foi ficando cada vez mais perto, e ele pôde dis- Deu um grito: cernir a de Ângela, que falava seu nome repetidas vezes. - Mãe! Corre aqui! Você nem imagina que repór- Rafael! Rafael, acorde! ter da televisão falou agorinha mesmo! Mãe! garoto abriu os olhos lentamente. Primeiro, olhou Angela veio correndo. Essa mania do filho de para teto. Depois, fixou o olhar no rosto de Ângela, ainda la gritando, às vezes, a deixava maluca. Qualquer dia ia ter sem mexer restante do corpo um único um baque no coração. Ah, se ia! Continuava largado na cama feito uma estátua. Apenas que é, Rafael? Assim você me assusta, menino! ela Mãe? Cadê a sua roupa? garoto ainda estava com os olhos vidrados na tela. Instintivamente, Ângela olhou para baixo enquanto repórter da tele... mãe?!? - filho parou de repen- punha a mão nos seios, a fim de verificar se faltava alguma te, assim que olhou para ela. - que é isso? É você mesma? peça. Tinha certeza de já ter tirado a camisola. Estava agora A mulher usava um prateado de mangas de short e camiseta, preparando cafe. De que roupa você está falando, filho? 92 93</p><p>Rafael abriu e fechou os olhos. Depois foi falando devag medindo as palavras: Você não está de chapéu... nem de óculos... - sua enton ação de mudou. Era como se tivesse feito uma grand descoberta. - Que maravilha! Ficou louco, Rafael?! Será que dormiu com a televi- são lig ada de novo? Não, mãe, eu desliguei. Não viu quando chegou do cinema? Hum... Tudo bem. Então deve ter sonhado alguma - Ela passou a mão na cabeça do filho, desman- chando ainda mais aquele cabelo bagunçado. - Já estava mesin ) na hora de eu te Vai levantando que café O catalisador está menino obedeceu. Deu uma longa espreguiçada assim que se levantou da cama. A mãe veio logo A atravessar portão de casa para ir à escola, antes de Rafael entrar no banheiro, virou-se para ela e cisse: Rafael viu vizinho. Ele estava entrando no carro. Seu José! - chamou, dando uma corrida para alcan- Você está bem mais bonita deste jeito, dona antes que ele partisse. um beijo e saiu feliz da A mulher não O homem olhou para garoto. Ficou com a porta entend eu nada. entreaberta, sem descer do automóvel, e esperou. - Oi, Rafael! Bom dia! Bom dia, seu José - menino ficou meio sem graça de repente. Tinha chamado vizinho num impulso, mas agora estava um tanto constrangido. Então perguntou: - Como vai a dona Adriana? Ela já sarou? Ah, minha mulher está bem, obrigado. Foi um susto, não, rapaz? Graças a Deus, sua mãe apareceu na hora certa. Ela já estava quase sufocando. Se fosse esperar até me chamar na firma... Todos os vizinhos ficaram preocupados. Claro que não foi só a minha mãe. Mas foi ela quem tirou o carro da garagem e foi pro- videnciando tudo. Dona Ângela é uma santa. Uma alma boa como eu vejo poucas por 95</p><p>icaram em vizinho fez menção de entrar no carro novamente. Ou Rafael falava agora ou podia tá difícil, menino! Você sabe quanto tá custando? E não deixá-lo ir embora e esperar até outra oportunidade. Era tô falando de carro zerinho, não! uma rápida, sem ter de pensar muito. Rafael tentou não se perder no emaranhado de Seu ele chamou de que o seu vizinho falava. homem parou no meio do caminho. Era uma pes- Mas quem comprar carro do senhor vai continuar soa uito simples, os cabelos já bem grisalhos, corpo poluindo do mesmo jeito! Tinha lá seus e poucos anos e um certo Era um raciocínio tão óbvio que seu José parecia ar jov al. Rafael achou que era pela sua simpatia, por estar não perceber. Que diferença fazia se quem poluía era ele, sempre de bem com a vizinho ou qualquer outra pessoa a dezenas, centenas ou Quer me falar alguma coisa? - seu José perguntou. milhares de quilômetros dali? bem.. Outro dia, senhor me disse uma coisa a homem foi entrando no carro e disse: respei do catalisador do seu carro. Tá lembrado? Filho, vamos fazer o seguinte: quando vender o Ah.. sei... o que você quer saber? carro, eu falo para novo comprador tudo isso que me Bom, senhor sabe, é lógico, para que serve cata- falou. que acha, hein? Agora preciso ir, que senão chego lisado não é? atrasado e descontam no meu salário. Aí, adeus carro novo. Sei, claro. É para diminuir a poluição. Seu José deu um sorriso entrou no Mas senhor trocou catalisador furado por um... deu a partida e foi embora. como é mesmo nome? Rafael ficou um tempo ali parado, acompanhando o abafador? Mas é a mesma coisa! Antes o carro carro até perdê-lo de vista. Quando ia atravessar a rua, uma fazia barulhão e agora acabou. moto passou e buzinou. Mas isso não significa que não esteja poluindo. Ele acenou quando viu quem era: irmão Gus- Olha, seu José, caso é que eu ouvi uma reportagem na tavo, feliz da vida, pilotando sua moto nova. televis e me lembrei do senhor. Por quê? - ele franziu as Tinha um especialista dizendo que, com uma troca como essa que O senhor fez, o carro acaba poluindo muito mais Jmas vinte vezes mais. homem arregalou os olhos, com um ar de espanto. É, Rafael? Disso eu não sabia. catalisador tem mesmo de ser usado, seu Jose. Bom, agora eu já gastei com isso aqui. Mas esta- mos pensando em trocar de carro. A gente precisa de um mais I Aí ele vem com catalisador e tudo bem. Mas 96</p><p>E-mail 6 E é que eu queria chegar: a Chemistry, depois de passar um bom tempo enrolando pessoal da ONG, não teve alternativa senão atender grupo. maral, Claro que os diretores da multinacional já vieram com um tempinho que não te Minha vida anda propostas para continuar produzindo sem agredir ambiente. tão CO rida ultimamente! Tem as provas do final do ano, meu Eles não bobos, sabiam muito bem que era isso que o grupo com a Carina, que anda muito bem... Te falei da minha iria cobrar. ada? Leandro e seu pessoal deram exemplos concretos de uma tremenda gata. Eu nem imaginava que ela pudes- outras indústrias da cidade, inclusive que já trabalham dentro se gos ar de mim A gente andou até brigando por dos padrões da ISO 14000 (te contei que meu pai ajudou a causa de umas coisas... modos de pensar diferentes. Mas, implantá-la na indústria em que ele trabalha? Pô, Amaral, depois fizemos juntos algumas superorgulhoso dele!), e citou as empresas que já subs- Primeira: eu, que era tão radical (isso era ela quem dizia) caldeiras poluentes por gás natural. Quando eu estive com a: questões ambientais, que não enxergava muitas outras no escritório da ONG, ele me contou. vi que, por exemplo, um meio ambiente degradado só É tanta coisa, Amaral, que eu nem sei. S6 sei que aprendi contril ui para aumentar as injustiças sociais, não é verdade? pra caramba nesses últimos meses. São as pessoas mais pobres que sofrem mais. Claro que no final Leandro acha que a Chemistry vai realmente começar a sofremos. o planeta é um só para ricos e pobres. pensar com carinho em todas as propostas. A ONG Por Um Plane- coisa: ela, que era tão radical (isso era Sustentável trabalha justamente para isso: conscientizar essas eu dizia) com as questões sociais, e que não enxergava pessoas de que é possível ter lucros sem prejudicar o ambiente. tantas coisas acabou vendo que o país pode Será que eles vão conseguir, Amaral? crescer economicamente, mas sempre atento à preservação do Eu, por enquanto, tento fazer que posso. Outro dia dei- planet 7. Isso vai fazer com que a qualidade de vida das pessoas xei quase todo mundo aqui meio maluco porque, mal e consequentemente, as injustiças sociais em casa, já fui apagando tudo quanto era luz, desligando apa- relhos elétricos ligados à toa, tudo. É que professor de ciências estava justamente falando sobre isso na aula, dizendo que todo desperdício gera poluição Você sabe que, quando eu cismo com alguma coisa, fico desligado, pensativo. Quis entender melhor isso que ele falou. Então, comecei a prestar mais atenção nas coisas. Veja só, fui comprar um CD e, da caixinha e do encarte com as ainda tinha outra embalagem de pape- lão que vinha por cima. 99</p><p>No mesmo dia, minha mãe chegou do supermercado com uma be ndeja de frios que, além do isopor, continha uma emba- le plástico. gora, me diz se há necessidade de produzir tanto lixo. E isso, são apenas dois exemplos de tudo que andei aqui em casa mesmo. Nós geramos poluição e nem sequer nos damos conta! Cara! Isso tudo andou me deixando louco! Quase pirado. Tá cer que deixei meio mundo paranóico Até o coi- tado irmão do Gustavo ouviu. É que ele comprou uma moto, e eu teria saber se ela causava mais poluição ou se já estava das novas normas de fabricação. Ainda bem que ele não ficov pravo. Acho que até entendeu minha preocupação. Eu acredito, Amaral, que nós mesmos podemos resolver certas Pequenos problemas que estão do nosso lado ou bem ebaixo do nosso nariz, e a gente nem percebe. E-mail 7 Por isso resolvi ficar de olhos bem abertos, como você vive falan Tá legal assim? Tchau, Ah... com uma baita saudade de você. Quando é que vai tirar hein? R afa, Um abração. Quer dizer que meu sobrinho está namorando? Puxa! Rafa. Você está melhor que eu, hein? Gostei tanto da sua cartinha que você nem faz Isso que você falou sobre desperdício é realmente grave. Se as pessoas não mudarem de comportamento, plane- ta não vai suportar muito mais, A gente sabe, Rafa, que para a vida aqui na Terra ser pos- é preciso levar em consideração os seus recursos naturais e a forma como eles são usados, sem degradar 0 ao longo dos anos, além da quantidade de lixo produzida. a importância da luta de todos na preservação do planeta. Concordo plenamente com você: para que produzir mais lixo, ainda mais sem necessidade? claro que não podemos radicalizar e condenar à morte tudo que já incorporamos na nossa vida, como é caso das 100 101</p><p>descartáveis. Mas precisamos, sim, ter um sistema de reciclagem. Não propriamente dele, mas... sei lá, de repente tafa, eu também estou morrendo de saudades de você, da você pode achar que deixá-la num canto e ficar do Marcos e do Brasil. Quanto às minhas acho do nele... que vio demorar um pouco para acontecer. Em A menina olhou para namorado com o canto dos nossa ONG vai participar de um congresso sobre energias reno- olhos. Parecia que o seu receio era justamente esse. em São Paulo, daqui a quinze dias. Prometo dar uma - Pode ser... - ela disse. - Você vive idolatrando esse na viagem e passar um fim de semana ai com vocês. seu tio.. Eu ligo para combinarmos tudo. E pede para a sua mãe - Isso, antes de conhecer você. fazer macarronada que eu adoro, tá bom? Rafael disse a frase com um jeito tão especial; tão amoroso, que Carina percebeu que ele realmente gostava dela. Que bom estar com quem se ama e sentir quanto é amado! Ela passou a mão pelos cabelos dele e Beijaram-se com paixão, sem nem se importar com cuem passava. Carina abriu os olhos e, bem de perto, disse baixinho: Convite - E aquela história de você ir embora para a A menina deixou a frase no ar. Rafael pegou sua mão e voltaram a caminhar. A É verdade que eu falei isso a minha vida na sua casa domingo? - E então? :- Claro! Por que o espanto? - Acho que é bobagem eu ficar planejando essas coi- - Sei lá, Rafa, nunca fui à sua casa e você já me con- sas com tanta antecedência - ele puxou a mão da gatota, vida pra almoçar e tudo? fazendo com que parasse de caminhar. Olhou para e - Que é que tem, Carina? o Gustavo também vai. Eu continuou: - Pode ser que eu vá, pode ser que não. Quem quer) que vocês conheçam O Amaral. Ele é dez! é que sabe? - Eu imagino, o tanto que você fala nele... Carina não gostou da resposta. Pela cara fez, Rafael se aproximou e puxou Carina pela cintura. Era Rafael percebeu e achou que deveria explicar melhor as -feira à noite e já estavam voltando para casa. Pararam suas em a uma sorveteria do bairro para conversar. Eu não sei, Carina. E também não quero mais ficar Vai me dizer que está com ciúme? - ele brincou. Em fazendo planos. Não esse tipo de plano. Sabe, depois de segu.da, deu um beijinho na boca da garota. tudo que aconteceu por aqui, depois de eu ter conhecido - Ciúme, Rafa? - Carina fez uma careta. - Tenha dó, né?! o Leandro, a ONG... - ele deu um suspiro antes de conti- nuar - muita coisa mudou na minha cabeça. 102 103</p>

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