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<p>TUTÓIA-MA, 2022</p><p>| EDITOR-CHEFE</p><p>Geison Araujo Silva</p><p>| CONSELHO EDITORIAL</p><p>Ana Carla Barros Sobreira (Unicamp)</p><p>Bárbara Olímpia Ramos de Melo (UESPI)</p><p>Diógenes Cândido de Lima (UESB)</p><p>Jailson Almeida Conceição (UESPI)</p><p>José Roberto Alves Barbosa (UFERSA)</p><p>Joseane dos Santos do Espirito Santo (UFAL)</p><p>Julio Neves Pereira (UFBA)</p><p>Juscelino Nascimento (UFPI)</p><p>Lauro Gomes (UPF)</p><p>Letícia Carolina Pereira do Nascimento (UFPI)</p><p>Lucélia de Sousa Almeida (UFMA)</p><p>Maria Luisa Ortiz Alvarez (UnB)</p><p>Marcel Álvaro de Amorim (UFRJ)</p><p>Meire Oliveira Silva (UNIOESTE)</p><p>Miguel Ysrrael Ramírez Sánchez (México)</p><p>Rita de Cássia Souto Maior (UFAL)</p><p>Rosangela Nunes de Lima (IFAL)</p><p>Rosivaldo Gomes (UNIFAP/UFMS)</p><p>Silvio Nunes da Silva Júnior (UFAL)</p><p>Socorro Cláudia Tavares de Sousa (UFPB)</p><p>Copyright © Editora Diálogos - Alguns direitos reservados</p><p>Copyrights do texto © 2022 Autores e Autoras</p><p>Esta obra está sob Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-</p><p>CompartilhaIgual 4.0 Internacional. Este livro pode ser baixado, compartilhado e</p><p>reproduzido desde que sejam atribuídos os devidos créditos de autoria. É proibida</p><p>qualquer modificação ou distribuição com fins comerciais. O conteúdo do livro é de</p><p>total responsabilidade de seus autores e autoras.</p><p>Capa: Geison Araujo</p><p>Diagramação: Beatriz Maciel</p><p>Revisão: Bruno Lemos</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>(eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG)</p><p>T278</p><p>Temas e jogos digitais para educação alimentar e nutricional de</p><p>adolescentes [livro eletrônico] / Organizador Diôgo Vale. – Tutóia, MA:</p><p>Diálogos, 2022.</p><p>Formato: PDF</p><p>Requisitos de sistema: Adobe Acrobat Reader</p><p>Modo de acesso: World Wide Web</p><p>ISBN 978-65-89932-65-9</p><p>1. Nutrição - pesquisa. 2. Educação Alimentar. 3. Jogos digitais I. Título.</p><p>II. Vale, Diôgo.</p><p>CDD 613</p><p>Elaborado por Maurício Amormino Júnior – CRB6/2422</p><p>https://doi.org/10.52788/9786589932642</p><p>contato@editoradialogos.com</p><p>www.editoradialogos.com</p><p>geiso</p><p>Caixa de texto</p><p>https://doi.org/10.52788/9786589932659</p><p>SUMÁRIO</p><p>APRESENTAÇÃO..................................................................................7</p><p>1. ALIMENTAÇÃO COMO DIREITO ......................................... 11</p><p>Natália Louise de Araújo Cabral</p><p>2. A VALORIZAÇÃO DAS CULTURAS ALIMENTARES ....... 25</p><p>Thágila Maria dos Santos de Oliveira</p><p>3. O COMER E O MOMENTO DAS REFEIÇÕES ....................... 39</p><p>Rebekka Fernandes Dantas</p><p>4. A CULINÁRIA E A TRANSFORMAÇÃO DOS ALIMENTOS .... 50</p><p>Juliana Bianca Maia Franco</p><p>Joyce Maria de Sousa Oliveira</p><p>5. A ALIMENTAÇÃO, OS SISTEMAS ALIMENTARES E AS</p><p>SUSTENTABILIDADES .................................................................... 67</p><p>Camila Valdejane Silva de Souza</p><p>Maria Hatjiathanassiadou</p><p>Larissa Mont’Alverne Jucá Seabra</p><p>Clélia de Oliveira Lyra</p><p>6. O PROCESSAMENTO, A PUBLICIDADE E A PROPAGANDA</p><p>DE ALIMENTOS ................................................................................. 80</p><p>Natalie Marinho Dantas</p><p>Maria Eduarda da Costa Andrade</p><p>7. O CORPO, AS MÍDIAS E AS REDES SOCIAIS ........................ 95</p><p>Ginetta Kelly Dantas Amorim</p><p>Felipe Carlos de Macêdo Oliveira</p><p>Rafaela Nayara da Costa Pelonha</p><p>8. FOME, SACIEDADE E SATISFAÇÃO ....................................... 107</p><p>Felipe Carlos de Macêdo Oliveira</p><p>Rafaela Nayara da Costa Pelonha</p><p>9. JOGOS DIGITAIS PARA PROMOÇÃO DA ALIMENTAÇÃO</p><p>SAUDÁVEL NA ADOLESCÊNCIA ............................................... 119</p><p>Diôgo Vale</p><p>Andreza Claudia Damião do Nascimento</p><p>Nilana Melo da Silva</p><p>SOBRE O ORGANIZADOR ........................................................... 139</p><p>SOBRE OS AUTORES E AUTORAS ............................................ 140</p><p>ÍNDICE REMISSIVO ....................................................................... 141</p><p>7</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>Desenvolver estratégias para promoção da alimentação saudável</p><p>e da nutrição adequada é uma necessidade cada vez mais evidente em</p><p>nossa sociedade. Em meio aos desafios de conviver com a complexida-</p><p>de das realidades sociais, epidemiológicas, alimentares e nutricionais,</p><p>o fortalecimento da Educação Alimentar e Nutricional (EAN) como</p><p>campo de conhecimentos e práticas deve ser considerado como ação</p><p>estratégica e prioritária na área da Saúde Coletiva e da Educação. Essa</p><p>necessidade foi “escancarada” durante a pandemia de Covid-19. Um</p><p>problema de saúde pública que dizimou parte da população mundial</p><p>e foi causado por um vírus que desafiou as ciências e demonstrou a</p><p>importância de ações políticas direcionadas para proteção de direitos,</p><p>como o direito humano à alimentação adequada e saudável, as quais</p><p>devem estar baseadas em premissas como o combate às iniquidades e a</p><p>promoção da justiça social.</p><p>Vivenciamos, talvez, o momento histórico mais emblemático e</p><p>representativo do conceito de Sindemia Global – sinergia e coexis-</p><p>tência de problemas de saúde humana e de desafios ambientais. Esse</p><p>termo vem sendo amplamente discutido a partir das publicações capi-</p><p>taneadas por Boyd Swinburn - professor de Nutrição Populacional e</p><p>Saúde Global da Auckland University na Nova Zelândia. A produção</p><p>científica mais divulgada sobre o assunto foi um relatório divulgado</p><p>no periódico The Lancet em 2019 que ressaltou a Sindemia Global de</p><p>obesidade, desnutrição e mudanças climáticas vivenciada por popula-</p><p>ções dos diferentes territórios. A partir do final de 2019, o coronavírus</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 8</p><p>soma-se a essas problemáticas “engrossando o caldo” dos desafios da</p><p>Saúde Coletiva.</p><p>Enquanto habitantes do mundo foi preciso enfrentar o vírus e</p><p>precisamos agir imediatamente para reverter as mudanças climáticas,</p><p>as doenças crônicas, as guerras, as fragilidades dos serviços de saúde, a</p><p>negação de direitos humanos básicos e muito mais. No Brasil, a situ-</p><p>ação parece ainda mais grave em decorrência da falta de ações efetivas</p><p>para controle da contaminação do vírus e de medidas de proteção so-</p><p>cial. No fim de 2020, já era estimado que mais da metade da popula-</p><p>ção brasileira vivenciava algum grau de insegurança alimentar – seja</p><p>a falta de acesso regular até a fome que colocava em sofrimentos 19</p><p>milhões de pessoas. Com o desenrolar da Pandemia, essa situação foi</p><p>agravada chegando ao catastrófico número de 33,1 milhões de brasi-</p><p>leiros passando fome entre o final de 2021 e início de 20221.</p><p>Desse contexto pandêmico, emerge a necessidade de continuar</p><p>contribuindo para a qualificação da EAN, especialmente nas ações</p><p>com adolescentes – grupo populacional com alto potencial para</p><p>transformação social e ambiental. Precisamos prosseguir pensando</p><p>e (re)pensando uma EAN na adolescência que supere a transmissão</p><p>de conteúdos sobre nutrientes e que possa contribuir para “Tornar a</p><p>Terra habitável”, conforme reflexões compartilhadas por Edgar Morin</p><p>e Peter Sloterdijk2. Com isso, resolvi organizar o presente livro convi-</p><p>dando profissionais da Nutrição com suas ciências e experiências para</p><p>discutirem temáticas que foram apresentadas de maneira “tímida”</p><p>1 Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no</p><p>Brasil. Disponível em: https://olheparaafome.com.br/.</p><p>2 MORIN, Edgar; SLOTERDIJK, Peter. Tornar a Terra habitável. Natal, RN: EDUFRN,</p><p>2021. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/33223.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 9</p><p>no primeiro livro organizado por mim e publicado pela Editora do</p><p>IFRN: “Educação alimentar e nutricional de adolescentes: complexi-</p><p>dade, resiliência e autonomia”3.</p><p>Cada um dos oito primeiros capítulos foi escrito por nutricio-</p><p>nistas com vivências científicas e práticas. Nesses escritos, somos “pre-</p><p>senteados” com textos de profissionais da nutrição com percursos</p><p>formativos diversos em suas áreas de atuação, especializações, mes-</p><p>trados ou doutorados em: Nutrição, Antropologia, Ciências Sociais,</p><p>Tecnologia de Alimentos, Saúde Pública, Saúde Coletiva, Gastrono-</p><p>mia, Comportamento Alimentar, Psicologia, Ciências da Saúde. Essa</p><p>diversidade demonstra um pouco da grandeza desta obra. E no últi-</p><p>e utensílios culinários, acreditando que</p><p>estes teriam serventia na vida após a morte. A quantidade desses pro-</p><p>dutos encontrada na tumba era proporcional à importância que o in-</p><p>divíduo tinha na sociedade.</p><p>Nos livros datados do período clássico, também é possível ob-</p><p>servar referências dos sistemas alimentares grego e romano, os quais</p><p>abrangem valores como o da comensalidade, isto é, o ato de comparti-</p><p>lhar os alimentos entre os comuns. Nesse sentido, a alimentação pas-</p><p>sa a ter, então, não somente o propósito de atingir a saciedade, mas</p><p>também de contribuir com a socialização, estreitando a noção de uma</p><p>comunidade.</p><p>Aos poucos, não só as refeições comunitárias como também os</p><p>grandes banquetes se tornam parte da cultura e da época, e a ideia de</p><p>seguir um comportamento à mesa passa a existir. As mudanças aca-</p><p>bam por se refletir na esfera social, demarcando ainda mais a diferença</p><p>entre as classes em uma sociedade.</p><p>Na Idade Média, muitos modelos culinários da Antiguidade fo-</p><p>ram mantidos, mas outros passaram a se desenvolver de maneiras di-</p><p>versas. Com o intercâmbio de alguns costumes entre os povos, religi-</p><p>ões como o cristianismo, o judaísmo e os islamismo passaram a tentar</p><p>se diferenciar, mantendo sua identidade e suas particularidades que</p><p>eram representadas também por meio das restrições alimentares.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 53</p><p>Outros eventos, como a Revolução Francesa, levaram a mudan-</p><p>ças sociais que mais uma vez afetam a estrutura das refeições e cos-</p><p>tumes, das maneiras de cozinhar e das preparações gastronômicas. O</p><p>aspecto social da alimentação continua a caracterizar as culturas e re-</p><p>produzir as diferenças entre as camadas “altas” e “baixas” da socieda-</p><p>de. O aprimoramento do sabor dos alimentos também esteve ligado</p><p>às crenças e aos hábitos regionais de cada povo.</p><p>Nos séculos XV e XVII, a partir do desbravamento dos mares e</p><p>da colonização de novos continentes, os europeus entraram em con-</p><p>tato com outros tipos de alimentos e ingredientes, como especiarias</p><p>e frutos, antes desconhecidos. As bebidas consumidas nas colônias</p><p>e em lugares exóticos, como o chocolate, o café, os chás - produtos</p><p>provenientes das Américas, da Etiópia e da China, respectivamente -,</p><p>também se tornaram comuns na Europa.</p><p>Nos séculos XIX e XX, grandes chefs começaram a despontar,</p><p>especialmente na França, trazendo contribuições imprescindíveis para</p><p>a gastronomia até os dias de hoje, com a criação de novas receitas, além</p><p>de promover maior organização e melhor estruturação da cozinha.</p><p>No período da Revolução Industrial, o deslocamento das famí-</p><p>lias do campo para os centros urbanos nos países da Europa Ocidental</p><p>gerou novos hábitos alimentares e de consumo. Mas, com a mudança</p><p>veio também um problema: o abastecimento de alimentos para essas</p><p>famílias não era o suficiente. À época, embora a procura por alimentos</p><p>fosse grande, a oferta era escassa e cara, o que impulsionou a busca por</p><p>novas técnicas de armazenamento já no século XIX. Nesse período, o</p><p>setor industrial alimentício também se fortaleceu, principalmente a</p><p>parte do crescimento das empresas e fábricas de cereais, de alimentos</p><p>em conserva, surgiram também os refrigeradores. A sociedade urbana,</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 54</p><p>portanto, passou a contar com novos itens para o estabelecimento de</p><p>comida, e o alimento conservado deixou de ser um privilégio somente</p><p>dos mais abastados.</p><p>O século XX foi marcado pela acentuada industrialização e pelo</p><p>ritmo de vida acelerado. A mulher ganhou espaço no mercado de tra-</p><p>balho e a necessidade de consumir refeições rápidas ou praticamente</p><p>prontas se tornou uma realidade para todos. Para atender a essa de-</p><p>manda, surgiram os restaurantes do estilo fast-food, marcados pela</p><p>acessibilidade de preços e pela agilidade no serviço, e a indústria ali-</p><p>mentícia cresceu ainda mais, já que as pessoas tinham cada vez menos</p><p>tempo para o preparo das suas refeições. Os supermercados se trans-</p><p>formaram em hipermercados, oferecendo itens produzidos em maior</p><p>escala para suprir a crescente demanda global.</p><p>Nesse contexto, a alimentação fora do lar foi ganhando mais es-</p><p>paço com o avanço da urbanização. Além da comida oferecida em fei-</p><p>ras de rua, pequenas refeições já eram servidas em estabelecimentos</p><p>como tabernas e estalagens, onde os viajantes paravam para repousar e</p><p>recuperar as energias com refeições “restauradoras” (origem do termo</p><p>“restaurant”).</p><p>No final do século XX e no início do XXI, a gastronomia vivencia</p><p>uma pluralidade, na medida em que os modelos passados se misturam</p><p>aos contemporâneos, e novas tendências surgem constantemente.</p><p>Nas últimas décadas, a preocupação com o meio ambiente tam-</p><p>bém se tornou um fator importante, gerando uma demanda cada vez</p><p>maior por alimentos e ingredientes orgânicos. A economia e a cons-</p><p>cientização contribuem para o crescimento deste mercado, que parece</p><p>não ver a saturação. As pessoas passaram a levar em consideração a</p><p>procedência de seu alimento e voltaram a utilizar a comida como uma</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 55</p><p>ferramenta para auxiliar no bem-estar, preferindo consumir produtos</p><p>que proporcionem uma vida mais saudável, principalmente por esta-</p><p>rem livres de contaminantes. Outro aspecto importante é a intenção</p><p>de fomentar o comércio local, priorizando aquele alimento que repre-</p><p>senta também um valor cultural e típico da região.</p><p>Mais recentemente, a gastronomia se alia à nutrição na intenção</p><p>de proporcionar um cardápio adequado a cada indivíduo ou grupo,</p><p>respeitando intolerâncias e fatores regionais. Nesse cenário, a dietética</p><p>estuda e aplica os princípios e processos básicos da Ciência da Nutri-</p><p>ção no organismo humano, no planejamento, na execução e na avalia-</p><p>ção de dietas adequadas às características biológicas, socioeconômicas,</p><p>culturais e psicológicas dos indivíduos.</p><p>Dessa forma, Philippi (2019) afirma que a técnica dietética é a</p><p>sistematização e o estudo dos procedimentos para tornar possível a</p><p>utilização de alimentos, visando a preservação do valor nutritivo e a</p><p>obtenção dos caracteres sensoriais desejados. Também fazem parte da</p><p>Técnica Dietética as operações tecnológicas a que são submetidos os</p><p>alimentos e as modificações ocorridas durante seu processamento.</p><p>Os objetivos da Técnica Dietética podem ser classificados em:</p><p>dietético, digestivo, nutritivo, higiênico, sensorial, operacional e eco-</p><p>nômico.</p><p>● Dietético: consiste em adequar a forma de preparo dos ali-</p><p>mentos da dieta às necessidades fisiopatológicas do indivíduo ou</p><p>da população;</p><p>● Digestivo: consiste em modificar os alimentos por meio de</p><p>processos culinários, a fim de facilitar a digestão;</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 56</p><p>● Nutritivo: consiste em selecionar os melhores métodos de</p><p>preparo de alimentos para otimização e conservação máxima do</p><p>seu valor nutritivo;</p><p>● Higiênico: consiste em prevenir a ação de fatores externos que</p><p>possam prejudicar a qualidade dos alimentos, e ao mesmo tem-</p><p>po, prolongar a sua vida útil;</p><p>● Sensorial: consiste em apresentar o alimento de uma forma</p><p>que desperte todos os sentidos, pois cada alimento possui suas</p><p>próprias características sensoriais (aparência, cor, odor, sabor,</p><p>consistência ou textura que podem ser preservadas, ressaltadas</p><p>ou modificadas por meio adequadas de técnicas culinárias;</p><p>● Operacional: consiste em preparar e organizar espaços físicos,</p><p>materiais, equipamentos e utensílios; planejar cardápios e capaci-</p><p>tar o cozinheiro.</p><p>● Econômico: consiste em escolher as técnicas a serem utilizadas</p><p>no preparo dos alimentos, considerando os custos e os recursos</p><p>humanos, materiais e financeiros disponíveis.</p><p>Vale destacar que muitos desses conhecimentos que foram siste-</p><p>matizados pelas ciências envolvidas na produção de alimentos parti-</p><p>ram de experimentações culturais, como a fermentação para preparo</p><p>de massa e bebidas, a identificação de plantas adequadas para o consu-</p><p>mo e técnicas de preparação bem específicas (preparo</p><p>do tucupi por</p><p>indígenas do Norte do Brasil). Nesse sentido, o desenvolvimento de</p><p>habilidades culinárias se dá pela relação entre saberes culturais, sociais</p><p>e científicos.</p><p>Quando falamos em desenvolver, exercitar e partilhar essas habi-</p><p>lidades, é importante também termos em mente que se deve pensar</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 57</p><p>nas Boas Práticas de Manipulação de Alimentos. Essas consistem em</p><p>práticas de organização e higiene necessárias para garantir alimentos</p><p>seguros envolvendo todas as etapas: seleção dos fornecedores, com-</p><p>pra, recebimento, pré-preparo, preparo, embalagem, armazenamento,</p><p>transporte, distribuição e exposição à venda para o consumidor final</p><p>(BRASIL, 2004).</p><p>Uma boa higiene e comportamentos adequados na cozinha evi-</p><p>tam a contaminação dos alimentos em nível físico (ex: fios de cabelos,</p><p>pedaços de plásticos ou vidros), químicos (ex: detergente, inseticida),</p><p>e biológico (ex: microrganismos, como bactérias, vírus, fungos). Algu-</p><p>mas pessoas desconhecem, mas o simples fato de usar o mesmo utensí-</p><p>lio para manusear um alimento cru e depois um alimento preparado,</p><p>sem antes higienizá-lo corretamente, pode ocasionar uma contamina-</p><p>ção cruzada.</p><p>Por essa razão, durante toda a manipulação, o armazenamento</p><p>e a conservação dos alimentos todos devem estar atentos, principal-</p><p>mente, aos cinco pontos-chaves descritos pela Organização Mundial</p><p>da Saúde (OMS), a fim de garantir a segurança alimentar. São eles:</p><p>manter a limpeza, separar alimentos crus e cozidos, cozinhar com-</p><p>pletamente os alimentos, mantê-los armazenados a temperaturas ade-</p><p>quadas, e usar água e matérias-primas seguras.</p><p>Afinal, toda produção da área alimentícia exige certos cuidados</p><p>que devem ser observados em todas as etapas, desde a escolha dos for-</p><p>necedores até o preparo do alimento em si, incluindo também sua dis-</p><p>tribuição. Dessa forma, é imprescindível manter um controle higiêni-</p><p>co e sanitário durante todo o processo de transformação do alimento</p><p>para assegurar que o consumidor final receba um produto seguro.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 58</p><p>É de suma importância usar corretamente os ingredientes, pois</p><p>se trata de uma das etapas fundamentais do processo de elaboração de</p><p>alimentos. Alguns fatores como os tipos de utensílios e de equipamen-</p><p>tos utilizados, o tempo e o método de cocção, a qualidade dos ingre-</p><p>dientes e a manipulação garantirão aperfeiçoar o processo produtivo</p><p>(ARAÚJO et al., 2011).</p><p>Além disso, organize seu ambiente de trabalho na cozinha, isto é,</p><p>faça uma mise en place de toda preparação. Mise en place é uma expres-</p><p>são francesa usada para designar todas as operações realizadas antes de</p><p>serem servidas as refeições. Portanto, engloba atividades como a ve-</p><p>rificação e a organização dos ingredientes, utensílios e equipamentos</p><p>exigidos para a preparação dos pratos (COURTINE, 2003).</p><p>O objetivo da mise en place é facilitar e agilizar as etapas e os pro-</p><p>cessos envolvidos na preparação. Uma mise en place bem-feita, além de</p><p>auxiliar o ambiente organizado e seguro e de otimizar os recursos e o</p><p>tempo de preparo, possibilita que o cozinheiro administre diferentes</p><p>produções ao mesmo tempo sem ter problemas.</p><p>Para entender melhor, segue um exemplo da mise en place utili-</p><p>zada no preparo de um café com leite.</p><p>Para o café, você precisará de:</p><p>● pó de café (e uma tesoura para cortar a embalagem, se neces-</p><p>sário);</p><p>● uma colher de sopa para pegar o pó;</p><p>● água e um copo para pegá-la;</p><p>● uma panela para esquentar a água;</p><p>● um coador e o suporte para o coador;</p><p>● uma garrafa térmica para armazenar o café pronto.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 59</p><p>Para o leite, você precisará de:</p><p>● leite (e uma tesoura para cortar a caixa, caso esteja fechada);</p><p>● um copo para medir o leite e a água (caso seja leite em pó);</p><p>● uma panela para aquecer o leite.</p><p>Para esquentar a água e o leite, você precisará de:</p><p>● um fogão;</p><p>● gás e fósforo para acender o fogão;</p><p>● uma luva de forno para retirar as panelas do fogo, caso o cabo</p><p>esquente.</p><p>Para servir o café com leite, você precisará de:</p><p>● uma xícara;</p><p>● açúcar/adoçante;</p><p>● uma colher de café.</p><p>Agora, você já sabe de tudo que vai precisar. Reflita que um sim-</p><p>ples café com leite já exige uma série de itens. Imagine quando for um</p><p>banquete! Por isso, é recomendado fazer uma lista para se organizar</p><p>melhor.</p><p>Também é preciso limpar e organizar o local de trabalho, os equi-</p><p>pamentos e os utensílios necessários para fazer seu café com leite, além</p><p>de separar as quantidades de ingredientes e guardar o excedente no</p><p>local adequado. Assim, a mise en place estará pronta.</p><p>É importante que você leia atentamente, todo o modo de preparo</p><p>e que desenvolva uma lista de tarefas; desta forma; é possível elaborar</p><p>um plano de ataque, ou seja, organizar os procedimentos necessários</p><p>iniciando por aqueles que demandam mais tempo de elaboração e oti-</p><p>mizando ingredientes, mão de obra, equipamentos e utensílios.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 60</p><p>O plano de ataque traz informações sobre ingredientes, pré-</p><p>-preparo, equipamentos e utensílios e, muitas vezes, sobre o tempo</p><p>necessário para cada etapa da produção. Portanto, o plano de ataque é</p><p>essencial no auxílio da organização e da mise en place.</p><p>Ficha técnicas e receituários culinários são ferramentas que ga-</p><p>rantem o padrão das produções quanto ao sabor e à apresentação, e</p><p>contribuem para que não haja variações no custo da preparação. A</p><p>ficha técnica é um dos documentos mais importantes na cozinha pro-</p><p>fissional, pois ela garante a padronização da produção, além de auxiliar</p><p>na previsão de compras de gêneros alimentícios, no controle eficiente</p><p>do estoque e nos custos da preparação. Já o receituário é um docu-</p><p>mento muito importante na cozinha, até mesmo nas preparações mais</p><p>triviais. Ele deve ser guardado em local de fácil acesso a todos, para que</p><p>seja sempre possível consultá-lo no início do trabalho e sempre que for</p><p>necessário.</p><p>É essencial que entendamos que a transformação dos ingredien-</p><p>tes em diferentes preparações se dá por diferentes métodos e técnicas</p><p>de cocção. Os macronutrientes (carboidratos, lipídeos e proteínas),</p><p>micronutrientes (vitaminas e minerais) são todos feitos daquelas pe-</p><p>quenas unidades químicas chamadas de moléculas, átomos, íons…</p><p>Uma grande variedade de moléculas diferentes desempenha uma</p><p>grande variedade de papéis na mistura de reações químicas quase in-</p><p>finitamente complexas que chamamos de culinária (WOLKE, 2003).</p><p>Em seu livro O que Einstein disse ao seu cozinheiro, Wolke (2003)</p><p>nos apresenta a fascinante química que ocorre na cozinha. Para ele, o</p><p>mundo dos alimentos, assim como o mundo da ciência, é ilimitado.</p><p>Dessa forma, nos apresenta diversas questões instigantes, como esta:</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 61</p><p>“Algumas receitas pedem bicarbonato de sódio, algumas pedem fer-</p><p>mento em pó e outras pedem os dois. Qual a diferença?”. A princí-</p><p>pio, a diferença entre eles está nas substâncias químicas, enquanto o</p><p>bicarbonato é uma substância química simples (bicarbonato de sódio</p><p>puro), o fermento em pó é o bicarbonato de sódio combinado com</p><p>um ou mais sais ácidos.</p><p>Tanto o fermento em pó como o bicarbonato são usados para</p><p>levedação (do latim levere, significa tornar leve): fazer com que os pro-</p><p>dutos assados cresçam em função da produção de pequenas bolhas</p><p>de gás de dióxido de carbono (CO2). As bolhas de CO2 são liberadas</p><p>dentro da massa úmida, depois o calor do forno expande-as e as pren-</p><p>de no lugar, deixando a massa firme.</p><p>O bicarbonato libera o dióxido assim que entra em contato com</p><p>qualquer líquido ácido, como o soro de leite. Já o fermento que é o</p><p>bicarbonato misturado com um ácido seco, é usado quando a receita</p><p>não contém outros ingredientes ácidos. Os produtos como biscoito</p><p>ou bolo, são feitos com fermento, mas se estiver presente algum outro</p><p>ingrediente ácido, como o soro de leite, que pode causar um desequi-</p><p>líbrio, um pouco mais de bicarbonato pode ser usado para neutralizar</p><p>o ácido.</p><p>Ainda em sua obra, Wolke (2003) nos mostra que o fato de uma</p><p>batata está verde não significa dizer que ela não está madura; já que</p><p>as batatas podem ser comidas em qualquer estágio de crescimento. A</p><p>cor verde é um sinal de que não é para comê-la, uma vez que ali está</p><p>sinalizando a presença de uma substância chamada solanina, de gosto</p><p>amargo e que é altamente tóxica.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 62</p><p>O nível de solanina aumenta quando as batatas se apresentam</p><p>enrugadas ou esponjosas. O recomendado é não as utilizar. Quanto</p><p>àquelas que brotaram, os brotos são especialmente ricos em solanina,</p><p>especialmente quando começam a ficar verdes.</p><p>Várias reações físico-químicas ocorrem durante o processamento</p><p>térmico de alimentos, algumas são desejáveis e estão relacionadas ao</p><p>melhor aproveitamento nutricional e ao desenvolvimento de proprie-</p><p>dades sensoriais que aumentam a aceitabilidade, a exemplo da desna-</p><p>turação proteica, gelatinização de amido e caramelização (SOMOZA,</p><p>2005; BRUNTON et al., 2007).</p><p>O arroz branco possui certa quantidade de amido. Com o au-</p><p>mento da temperatura, a água adicionada para o cozimento entra nos</p><p>grânulos, faz com que o amido aumente de volume e ocorra o proces-</p><p>so de gelatinização por onde acontece a ruptura da ordem molecular</p><p>no interior dos grânulos (FENNEMA; DAMODARAN; PARKIN,</p><p>2010). O aquecimento em uma suspensão aquosa provoca o rompi-</p><p>mento das pontes de hidrogênio que mantêm essa ordem molecular</p><p>(ARAÚJO et al., 2013).</p><p>Quando a temperatura é reduzida, o amido tenta voltar ao seu</p><p>estado original, processo denominado de retrogradação. Esse processo</p><p>pode unir os grânulos de arroz, deixando-o “empapado”. Para evitar a</p><p>retrogradação, utiliza-se óleo para refogar, que tenta impedir a união</p><p>dos grãos.</p><p>Ainda segundo Araújo et al (2013) quando uma suspensão de</p><p>amido é aquecida, os grânulos não mudam de aparência até que uma</p><p>certa temperatura seja alcançada. Em intervalos de temperatura, es-</p><p>pecífico para amidos de diferentes origens (batata, mandioca, milho,</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 63</p><p>trigo, arroz), as ligações de hidrogênio mais fracas entre as cadeias de</p><p>amilose e de amilopectina se rompem e os grânulos começam a in-</p><p>tumescer e formar soluções viscosas. Ao mesmo tempo, a suspensão</p><p>perde suas características de birrefringência, indicando alterações na</p><p>estrutura cristalina. Reações como estas, ocorrem nos pirões, famosos</p><p>na nossa culinária, e que acompanham os cozidos de carnes e peixes. A</p><p>granulometria e a quantidade de farinha de mandioca, determinam a</p><p>consistência e a textura do produto.</p><p>Já falamos anteriormente sobre a importância de combinar os</p><p>alimentos, além do aspecto sensorial, leva-se em consideração tam-</p><p>bém o valor nutricional. Em relação aos alimentos de origem animal,</p><p>estes são considerados boas fontes de proteínas, vitaminas e minerais,</p><p>enquanto os alimentos de origem vegetal costumam ser boas fontes</p><p>de fibras e de vários nutrientes e geralmente têm menos calorias por</p><p>grama do que os de origem animal.</p><p>As carnes, peixes e ovos são consumidos, como parte de prepa-</p><p>rações culinárias tradicionais que têm como base alimentos oriundos</p><p>de plantas. A adição de alimentos de origem animal acrescenta sabor</p><p>à comida, realça o sabor de cereais, feijões, legumes, verduras e tubér-</p><p>culos e melhora a composição nutricional da preparação final. Papel</p><p>semelhante tem a adição às preparações de alimentos de sabor intenso</p><p>como alho, cebola, pimentas, manjericão e coentro (BRASIL, 2014).</p><p>Há também combinações de alimentos de origem vegetal que se</p><p>complementam do ponto de vista nutricional, como a mistura de ce-</p><p>reais com leguminosas (comum na culinária mexicana e presente no</p><p>nosso arroz com feijão), de cereais com legumes e verduras (comum na</p><p>culinária de países asiáticos e presente no arroz com jambu do Pará),</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 64</p><p>de tubérculos com leguminosas (comum em países africanos e pre-</p><p>sente no nosso tutu com feijão) e de cereais ou tubérculos com frutas</p><p>(comum em várias culinárias e presente no arroz com pequi de Goiás</p><p>e na farinha de mandioca com açaí da Amazônia) (BRASIL, 2014).</p><p>Pois posto, esperamos que tenham entendido que cozinhar não</p><p>está restrito aos grandes chefs e que preparar a comida é um ato car-</p><p>regado de simbolismo. Quando se cozinha, transforma-se o alimento</p><p>em comida, ou seja, ali ele ganha seu status do tipo de comida que</p><p>será: um prato principal, uma sobremesa, um complemento do café</p><p>da manhã, prato salgado, prato doce, ao se comer quente, ou frio,</p><p>acompanhado ou sozinho, etc. Por meio das pessoas que os preparam,</p><p>apresentam-se receitas sutilmente diferentes, que é a assinatura pesso-</p><p>al de cada indivíduo, o que as transformam em únicas.</p><p>Espera-se ainda que a tecnologia da informação e o aprimora-</p><p>mento logísticos facilitem o acesso aos mais inusitados ingredientes e</p><p>às tendências no mundo todo, contribuindo para que a culinária atual</p><p>ganhe força e seja propagada para diferentes locais, minimizando os</p><p>limites geográficos ou sazonais. A comunicação perde barreiras com</p><p>esta facilidade de acesso à informação, trazendo para dentro da panela</p><p>uma infinidade de possibilidades gastronômicas.</p><p>Refletindo na ampla trajetória da gastronomia, que começou</p><p>com a descoberta do fogo por nossos antepassados pré-históricos e</p><p>passou por tantas fases até chegar ao que conhecemos atualmente, é</p><p>possível verificar que o mundo da cozinha reflete a sociedade e acom-</p><p>panha suas mudanças. É impressionante a variedade de técnicas, ten-</p><p>dências e sabores que continuam a ser descobertos e inventados. Até</p><p>cozinhar sem fogo já é uma realidade nos dias de hoje… Quem diria!</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 65</p><p>Dessa forma, percebe-se durante este capítulo a importância de</p><p>utilizar a culinária como estratégia de aprendizagem na educação de</p><p>adolescentes. Já que por meio desta, é possível promover intervenções</p><p>que melhorem as práticas alimentares, abordando dimensões senso-</p><p>riais, cognitivas, simbólicas e práticas. Além disso, o desenvolvimento</p><p>de habilidades culinárias por esse grupo, bem como o conhecimento</p><p>sobre os alimentos e suas aplicações pode ser uma forma de melhorar a</p><p>relação do adolescente com a comida e estimular a autonomia em suas</p><p>escolhas, respeitando os saberes culturais e científicos.</p><p>Referências</p><p>ARAÚJO W.M.C; MONTEBELLO, N.P. ; BOTELHO, R.B.; BORGO,</p><p>L.A. Alquimia dos alimentos 2° edição revisada e ampliada. Editora SENAC,</p><p>Brasília, 2013.</p><p>BOTELHO, L. P et al. Promoção da alimentação saudável para escolares:</p><p>aprendizados e percepções de um grupo operativo. Rev. Soc. Bras. Alim. Nutr.</p><p>São Paulo, SP, v. 35, n. 2, p. 103-116, ago. 2010.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento</p><p>de Atenção Básica. Guia Alimentar da População Brasileira. 2° Edição.</p><p>Brasília Distrito Federal. , 2014.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde/Agência Nacional de Vigilância Sanitária -</p><p>Cartilha sobre Boas Práticas para Serviço de Alimentação: Resolução RDC</p><p>216, de 15 de setembro de 2004.</p><p>BRUNTON, N.P.; GORMLEY, R.; BUTLER, F.; CUMMINS, E.;</p><p>DANAHER, M.M.; O’KEEFFE, M. A survey of acrylamide precursors in</p><p>Irish ware potatoes and acrylamide levels in French fries. LWT- Food Science</p><p>and Technology, v.40,p.1601-1609, 2007.</p><p>FENNEMA, O. R.; DAMODARAN, S.; PARKIN, K.L. Química de</p><p>Alimentos de Fennema. 4 ed. Editora Artmed, p.108-111, 2010.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 66</p><p>PHILIPPI, S. T. Nutrição e Dietética. 4ª ed. Barueri - SP: Manole, 2019.</p><p>SOMOZA, V. Five years of research on health risks and benefits of Maillard</p><p>reaction products: an update. Molecular Nutrition & Food Research, v.49, p.</p><p>663-672, 2005.</p><p>VIANNA, F. S. V.; PENTEADO, G. B.; DELELLIS, J.; CAMOEZI, V.</p><p>Manual Prático de Cozinha SENAC. São Paulo: Editora SENAC São Paulo,</p><p>2018.</p><p>WOLKE, R. L. O que Einstein disse a seu cozinheiro: a ciência na cozinha. 1 ed,</p><p>Rio de Janeiro: Jorge</p><p>Zahar, 2003.</p><p>DOI: 10.52788/9786589932659.1-5 67</p><p>CAPÍTULO 5</p><p>A ALIMENTAÇÃO,</p><p>OS SISTEMAS ALIMENTARES</p><p>E AS SUSTENTABILIDADES</p><p>Camila Valdejane Silva de Souza</p><p>Maria Hatjiathanassiadou</p><p>Larissa Mont’Alverne Jucá Seabra</p><p>Clélia de Oliveira Lyra</p><p>Alimentação e sustentabilidade: quais os significados e relações?</p><p>A educação em saúde, incluindo a alimentar e nutricional, deve</p><p>ser um processo que busque modos de vida mais sustentáveis, assim</p><p>podemos reduzir danos ao planeta e à vida humana. Nesse sentido,</p><p>discutir com adolescentes questões de alimentação e nutrição no con-</p><p>texto dos sistemas alimentares e das sustentabilidades é urgente.</p><p>Segundo o dicionário Aurélio, a palavra sustentabilidade significa</p><p>suster, suportar, resistir, conservar, manter (FERREIRA, 2008). En-</p><p>tender o significado dessa palavra é importante, pois associamos mui-</p><p>tas vezes esse termo somente com a sustentabilidade ambiental, e no</p><p>caso da sustentabilidade no âmbito da alimentação, vai muito além.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 68</p><p>Quando se fala em sustentabilidade, é importante se falar tam-</p><p>bém em desenvolvimento sustentável, pois ambos estão diretamente</p><p>associados. Esse termo foi amplamente difundido depois da ECO-92,</p><p>por meio do relatório de Brundtland. Nesse relatório, desenvolvimen-</p><p>to sustentável é definido como “aquele que atende às necessidades</p><p>do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras</p><p>atenderem a suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991).</p><p>Esse conceito de desenvolvimento sustentável é guiado por três</p><p>pilares, sendo: o ambiental, o social e o econômico. Dessa forma, po-</p><p>demos entender que a sustentabilidade se relaciona não somente com</p><p>a proteção ambiental, mas também com o desenvolvimento social e</p><p>econômico.</p><p>No campo da Nutrição, ao se perceber a necessidade de discutir</p><p>a sustentabilidade, surgiu o termo “Nutrição Sustentável”. Esse con-</p><p>ceito contempla cinco dimensões, que inclui as três já citadas ante-</p><p>riormente, além das dimensões cultural e de saúde. Tais dimensões</p><p>foram adicionadas visto que ambas têm íntima relação com a Nutri-</p><p>ção. Ao adicionar esses pilares se reforça a discussão sobre os impactos</p><p>que a alimentação tem na saúde humana, bem como a necessidade de</p><p>respeitar os hábitos e cultura alimentar de cada indivíduo e/ou povo</p><p>(KOERBER, BADER, LEITZMANN, 2017).</p><p>A “Nutrição Sustentável” considera todas as etapas do sistema</p><p>alimentar. Essa visão é importante, pois nos permite entender e discu-</p><p>tir de maneira mais ampla a relação da alimentação com a sustentabi-</p><p>lidade, entendendo como o sistema alimentar influencia em diversas</p><p>áreas da nossa vida e percebendo como a Nutrição vai muito além de</p><p>saúde e como a sustentabilidade vai muito além do ambiental.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 69</p><p>Adentrando um pouco mais na temática de sistemas alimentares,</p><p>esses podem ser definidos como todos os elementos e atividades rela-</p><p>cionados à produção, processamento, distribuição e consumo. Ainda, o</p><p>sistema alimentar é composto de subsistemas, como, por exemplo, siste-</p><p>mas de cultivo, gerenciamento de resíduos, fornecimento de insumos,</p><p>dentre outros. O sistema alimentar e seus subsistemas interagem com</p><p>outros sistemas da sociedade, como os sistemas de energia, de comércio</p><p>e de saúde (NGUYEN, 2018; HLPE, 2014). Pode-se afirmar que não</p><p>existe um único sistema alimentar, mas sim que existem vários sistemas</p><p>alimentares. Esses sistemas podem variar a depender de como cada uma</p><p>dessas etapas são realizadas.</p><p>Apesar de não existir um único sistema alimentar, o modo como</p><p>os alimentos estão sendo produzidos atualmente têm gerado impactos</p><p>na saúde humana e do planeta. A produção de alimentos está associada</p><p>a diversos impactos ambientais como degradação da terra, desfloresta-</p><p>mento, perda de habitats e biodiversidade, uso de recursos naturais em</p><p>abundância e contaminação da terra, ar e água (VERMEULEN, CAM-</p><p>PBELL, INGRAM, 2012; LINDGREEN et al., 2018).</p><p>Além disso, a produção e consumo de alimentos estão atualmente</p><p>associados também ao desenvolvimento de doenças crônicas não trans-</p><p>missíveis (DCNT), como diabetes, síndrome metabólica, câncer, doen-</p><p>ças cardíacas e cerebrovasculares, além de também estarem associados</p><p>à má nutrição, especialmente obesidade e desnutrição. As mudanças</p><p>nos padrões alimentares das populações ao longo dos anos, especial-</p><p>mente em decorrência da globalização, têm aumentado o consumo de</p><p>alimentos ultraprocessados e carnes, que estão associados com o desen-</p><p>volvimento de algumas DCNT, estados de má nutrição como também</p><p>maiores emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) e demais impactos</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 70</p><p>ambientais (BOUVARD et al., 2015; FIOLET et al., 2018; IVANCO-</p><p>VSKY‐WAJCMAN et al., 2021; MICHA; WALLACE; MOZAFFA-</p><p>RIAN, 2010; SROUR et al., 2019; SWINBURN et al., 2019).</p><p>Pesquisas mostram que o padrão e as escolhas alimentares entre</p><p>adolescentes são marcados pelo alto consumo de processados e ultra-</p><p>processados, principalmente refrigerantes, guloseimas e salgados, e bai-</p><p>xo consumo de frutas e hortaliças (SOUZA et al., 2019 TAVARES et</p><p>al., 2014; MAIA et al., 2018; VALE et al., 2021). Assim, este é um pú-</p><p>blico base para as ações de desenvolvimento sustentável (SHEEHAN et</p><p>al., 2017), tornando-os um grupo relevante para fomentar discussões</p><p>neste campo.</p><p>Dito isso, é importante destacar então o que diferencia os sistemas</p><p>atuais dos sistemas alimentares sustentáveis. Um sistema alimentar sus-</p><p>tentável é aquele capaz de oferecer segurança alimentar e nutricional</p><p>para todas as pessoas de forma que as dimensões de economia, socie-</p><p>dade e meio ambiente necessárias para gerar segurança alimentar e nu-</p><p>tricional para as gerações futuras não sejam comprometidas (HLPE,</p><p>2014).</p><p>Nesse sentido, para podermos alcançar sistemas mais sustentáveis,</p><p>mudanças precisam ser feitas. Essas mudanças estão intimamente li-</p><p>gadas aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) pro-</p><p>postos pela Organização das Nações Unidas em 2015. Para o alcance</p><p>desses ODS são necessárias grandes transformações nas formas de se</p><p>produzir e consumir alimentos. O sistema precisa ser mais produtivo,</p><p>diminuindo perdas e desperdícios de alimentos, mais inclusivo com</p><p>as populações pobres e marginalizadas, responsáveis ambientalmente,</p><p>capazes de fornecer dietas seguras e nutritivas (UNITED NATIONS,</p><p>2015; NGUYEN, 2018).</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 71</p><p>O alcance de sistemas alimentares mais saudáveis e sustentáveis é</p><p>um processo complexo, que requer tempo e envolvimento de diversos</p><p>setores da sociedade. Discutir essa temática e entender a importância</p><p>dessas mudanças é essencial para que estes objetivos possam ser alcan-</p><p>çados. Dito isso, nesse capítulo vamos discutir a temática abordando</p><p>cada etapa do sistema alimentar. Pensaremos como um caminho a ser</p><p>trilhado.</p><p>Dentre suas definições, consta que “caminho” é um meio de al-</p><p>cançar resultados. Trazendo para o contexto dessa discussão iremos</p><p>refletir todo o trajeto do alimento, partindo da produção, processamen-</p><p>to, distribuição, consumo e descarte, conforme ilustra a figura 1, onde o</p><p>percurso a ser percorrido depende das escolhas e autonomia de todos</p><p>os atores envolvidos nesse processo. Perceberemos que não se trata de</p><p>uma estrada reta e contínua, mas que as etapas por vezes se encontram,</p><p>como as conexões de vielas em grandes avenidas.</p><p>Figura 1 - Caminhos do sistema alimentar</p><p>Fonte: autoria própria.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 72</p><p>O caminho dos sistemas alimentares</p><p>Essa estrada tem início na produção dos alimentos, em que as téc-</p><p>nicas empregadas exercem um papel fundamental no impacto ambien-</p><p>tal, social e econômico. A substituição de dietas tradicionais por dietas</p><p>ricas em açúcares refinados, gorduras, óleos e carnes, tem aumentado</p><p>ao longo dos anos as ações</p><p>antropogênicas proporcionando escassez</p><p>hídrica, desmatamento florestal, alterações climáticas e ameaças à bio-</p><p>diversidade (TILMAN; CLARK, 2014; ALEKSANDROWICZ Et</p><p>al., 2016; SWINBURN Et al., 2019).</p><p>A manutenção desse padrão alimentar contemporâneo domi-</p><p>nante implica em práticas de monocultura em larga escala, pelo uso</p><p>indiscriminado de agrotóxicos, pesticidas e fertilizantes químicos,</p><p>que contaminam o solo, a água, os produtores e consumidores, além</p><p>da introdução de alimentos transgênicos, por mudanças no manejo</p><p>animal, mecanização das lavouras e desenvolvimento da agroindús-</p><p>tria. No Brasil, a principal fonte de emissão de Gases de Efeito Estufa</p><p>(GEE) é a agropecuária, responsável por mais de 70% das emissões em</p><p>2017 (RATTNER, 2009; TADDEI Et al., 2011; SWINBURN et</p><p>al., 2019). Uma dieta rica em carnes e laticínios tem demonstrado um</p><p>grande impacto ambiental.</p><p>Para tornar um sistema alimentar sustentável é necessário trans-</p><p>formar os impactos ambientais negativos em resultados positivos ou</p><p>neutros, promovendo práticas mais sustentáveis, como considerar</p><p>desperdício de alimentos nas diferentes atividades, reduzir a</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 73</p><p>homogeneização, entre outras. Uma das principais soluções apresen-</p><p>tadas estão no âmbito da produção, tendo como exemplo as práticas</p><p>agroecológicas, que visa promover um comércio mais justo (JACOB,</p><p>2021). Além disso, a agricultura familiar também tem um papel fun-</p><p>damental na promoção desses sistemas (MARTINELLI; CAVALLI,</p><p>2019).</p><p>A etapa A FAO estabeleceu cinco os princípios da agricultura e</p><p>alimentação sustentáveis, são eles: Melhorar a eficiência na utilização</p><p>dos recursos; Desenvolver ação direta para conservar, proteger e melho-</p><p>rar os recursos naturais; Proteger e melhorar os meios de subsistência</p><p>rurais e bem-estar social; Elevar a resiliência de pessoas, comunidades e</p><p>ecossistemas; E, aprimorar e tornar eficientes os mecanismos de gover-</p><p>nança (FAO, 2014A).</p><p>A etapa de processamento de alimentos diz respeito aos métodos</p><p>empregados pelos fabricantes com intuito de transformar produtos pri-</p><p>mários, conferindo aspectos como aumento do prazo de validade para</p><p>consumo, aumento da variedade de alimentos consumidos, palatabili-</p><p>dade, segurança e conveniência (BRASIL, 2014; FLOROS et al., 2010).</p><p>A aplicação em níveis elevados de técnicas de conservação pode</p><p>representar uma ameaça à alimentação saudável e sustentável, uma</p><p>vez que implica na perda de grande parte dos nutrientes presentes na</p><p>composição original do produto, bem como com a adição de gorduras,</p><p>sódio, açúcares, aditivos e conservantes (MARTINELLI; CAVALLI,</p><p>2019). O Guia Alimentar para a População Brasileira classifica os ali-</p><p>mentos baseados no grau de processamento, sendo divididos em: In</p><p>natura, minimamente processados, ingredientes culinários, processa-</p><p>dos e ultraprocessados (BRASIL, 2014).</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 74</p><p>Além das perdas nutricionais já retratadas, os ultraprocessados</p><p>impactam na etapa de distribuição dos Sistemas Alimentares. Em ge-</p><p>ral, são produzidos por grandes indústrias, o que possibilita a redução</p><p>dos preços de comercialização e maior disponibilidade nos ambien-</p><p>tes alimentares, causando impactos sociais no comércio justo dos ali-</p><p>mentos e no âmbito da cultura alimentar. No que tange aos aspectos</p><p>ambientais, tem-se ainda o aumento da produção de embalagens e</p><p>a possibilidade de transporte desses produtos para longas distân-</p><p>cias, proporcionando aumento da emissão de GEE (BRASIL, 2014;</p><p>MONTEIRO; CANNON, 2012).</p><p>A compra de produtos advindos da agricultura familiar emerge</p><p>como estratégia no contexto da distribuição e consumo sustentáveis,</p><p>uma vez que permite uma aproximação dos indivíduos à origem do</p><p>produto. Por conseguinte, se observa um maior respeito à safra dos</p><p>alimentos, implicando em menos desgaste dos recursos naturais e</p><p>maior garantia da qualidade do alimento, menores custos econômicos</p><p>e ambientais com transporte, além do comércio justo e repercussão</p><p>positiva em aspectos sociais, como geração de emprego e renda.</p><p>No campo do consumo, as alterações nas escolhas e padrões ali-</p><p>mentares são um desafio para a nutrição sustentável. O padrão alimen-</p><p>tar de adolescentes brasileiros apresenta uma tendência pelo maior</p><p>consumo de processados e ultraprocessados, onde 72,3% apresentam</p><p>consumo alimentar com maior risco para o processo saúde-doença</p><p>(TAVARES Et al., 2014; VALE Et al., 2021). Uma alimentação com</p><p>alta densidade energética e baixa diversidade, afeta as condições de saú-</p><p>de, ambientais e culturais. O desenvolvimento e resgate de habilidades</p><p>culinárias, qualidade dos alimentos e respeito à cultura alimentar são</p><p>considerados aspectos fundamentais para a sustentabilidade. Assim, a</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 75</p><p>Educação Alimentar e Nutricional é uma importante ferramenta que</p><p>contribui para diálogos no campo da construção de hábitos alimenta-</p><p>res saudáveis e sustentáveis.</p><p>Apesar da diversidade de alimentos do território brasileiro, tem</p><p>se observado uma redução na variedade consumida. Isso decorre de</p><p>dificuldades no acesso, não somente financeiro, mas também pelo es-</p><p>tilo de vida moderno, as expectativas sociais e culturais e o ambien-</p><p>te em que são feitas as escolhas alimentares. O estímulo ao consumo</p><p>de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) e alimentos da</p><p>sociobiodiversidade tem se apresentado como uma alternativa no au-</p><p>mento da diversidade da dieta, sendo acessíveis à população em vul-</p><p>nerabilidade social (CORADIN; SIMINSKI; REIS, 2011, MARTI-</p><p>NELLI; CAVALLI, 2019).</p><p>Por fim, a etapa de descarte é tratada como aquelas vielas que</p><p>se encontram com as avenidas, por estar presente nas demais etapas,</p><p>perpassando na produção, processamento, distribuição e consumo de</p><p>alimentos. Estima-se que um terço dos alimentos produzidos anual-</p><p>mente no mundo para consumo humano é perdido ou desperdiçado</p><p>(BELLÚ, 2017).</p><p>As perdas e o desperdício de alimentos afetam toda a cadeia pro-</p><p>dutiva, pois além de impactar negativamente a sustentabilidade dos</p><p>negócios agrícolas, reduzem a oferta de alimentos, geram receitas me-</p><p>nores para os produtores rurais e aumentam os preços para os consu-</p><p>midores finais (FAO, 2014B). Como problema principal social direto</p><p>tem-se a fome, pois quanto maior o desperdício, mais pessoas estarão</p><p>em insegurança alimentar. Em relação ao impacto na economia, esse</p><p>desperdício resulta em enormes custos para todo o sistema produtivo.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 76</p><p>Assim, os produtores e consumidores exercem um papel impres-</p><p>cindível nas estratégias de combate ao desperdício. As doações para</p><p>bancos de alimentos e movimentos sociais são estratégias para mini-</p><p>mizar os impactos proporcionados nas etapas de produção, proces-</p><p>samento e distribuição. Quanto aos consumidores, o consumo cons-</p><p>ciente, cuidados com o armazenamento, planejamento das compras</p><p>dos alimentos e aproveitamento integral dos alimentos.</p><p>Considerações finais</p><p>Pensar a promoção de Sistemas Alimentares Saudáveis e Susten-</p><p>táveis demanda uma percepção holística de todos os atores envolvidos,</p><p>desde a governança das ações, até a produção, consumo e descarte de</p><p>alimentos. Considerando que os adolescentes representam a geração</p><p>futura, as ações de Educação Alimentar e Nutricional são ferramentas</p><p>indispensáveis para este grupo, uma vez que são capazes de fomentar</p><p>as mudanças de hábitos e promover reflexões acerca da realidade e do</p><p>que se pretende construir.</p><p>Adolescentes conscientes dessas questões podem exercer seus</p><p>papéis de cidadania cobrando dos representantes o desenvolvimento</p><p>de Políticas Públicas de incentivo às ações da nutrição sustentável, para</p><p>com isso, alcançarmos uma produção e consumo sustentáveis confor-</p><p>me preconiza os ODS. Assim, faz-se necessário informar esses jovens</p><p>consumidores, como forma de promover autonomia dos sujeitos, tor-</p><p>nando-os capazes de realizar escolhas mais conscientes e sustentáveis.</p><p>DIÔGO VALE</p><p>(ORG.) 77</p><p>Referências</p><p>ALEKSANDROWICZ, Lukasz Et al. 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Considera-</p><p>do munição e combustível, a comida sempre foi objeto de interesse e</p><p>de poder para as civilizações: produzir para alimentar; alimentar para</p><p>crescer; expandir para produzir. O fato é que o alimento que come-</p><p>mos hoje também traz marcas e histórias de povos e civilizações ao</p><p>longo dos anos. E qual a história da nossa comida hoje - é a mesma da</p><p>época dos nossos avôs e avós?</p><p>A virada do século XX foi marcada por grandes transformações</p><p>tecnológicas, políticas e sociais. Geladeira, telefone, televisão... com</p><p>o avanço da ciência, surgem, ainda, novas técnicas de processamen-</p><p>to e conservação de alimentos (enlatamento, conservação à frio, em-</p><p>balagem a vácuo) e novas tecnologias a “favor da sobrevivência do</p><p>homem”. Desde a comercialização de latas de carne fresca de boi, de</p><p>carneiro e de vitela em conserva; a comercialização de leite, creme de</p><p>leite, hortaliças frescas, doces fermentados, presuntos em conserva… a</p><p>industrialização dos alimentos em busca de conservá-los em qualquer</p><p>clima, e por tempo “ilimitado”. E hoje, será que sabemos o que esta-</p><p>mos comendo? Será que podemos e somos capazes de fazer escolhas</p><p>saudáveis (e sustentáveis)?</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 82</p><p>Conhecer o alimento (o início)</p><p>Desde o seu momento de colheita, até chegar às nossas mesas, os</p><p>alimentos passam por diversas etapas em prol da sua adequada mani-</p><p>pulação, elaboração, preservação, armazenamento e comercialização.</p><p>Etapas essas que vão “da produção ao consumo”, e buscam garantir</p><p>alimentos com maior rendimento, maior vida útil e, não se engane,</p><p>maior aceitação pelos consumidores. Podemos dizer</p><p>que todas essas</p><p>técnicas são diferentes formas de processamento, desde a lavagem e</p><p>higienização, remoção de aparas, até a escolha das embalagens adequa-</p><p>das, método de conservação, separação de partes nobres e subprodu-</p><p>tos, formulação de novos produtos, adição de aditivos… e cada etapa é</p><p>pensada, desde “o início”.</p><p>No entanto, o alimento que consumimos pode ter diversos iní-</p><p>cios. Há os alimentos “in natura”, “minimamente processados”, os</p><p>“processados” e até mesmo os “ultraprocessados”. Alimentos in na-</p><p>tura são aqueles obtidos diretamente de plantas ou de animais (como</p><p>folhas e frutos ou ovos e leite) e adquiridos para consumo sem que</p><p>tenham sofrido qualquer alteração após deixarem a natureza. Alimen-</p><p>tos minimamente processados são alimentos in natura que, antes de</p><p>sua aquisição, foram submetidos a alterações mínimas (ex: grãos secos,</p><p>polidos e empacotados ou moídos na forma de farinhas, raízes e tu-</p><p>bérculos lavados, cortes de carne resfriados ou congelados e leite pas-</p><p>teurizado). Há, ainda, os ingredientes culinários (ex: óleos, gorduras,</p><p>açúcar e sal), extraídos diretamente da natureza e usados pelas pessoas</p><p>para temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 83</p><p>Já os alimentos processados, são produtos fabricados essencial-</p><p>mente com a adição de sal ou açúcar a um alimento in natura ou mi-</p><p>nimamente processado, como legumes em conserva, frutas em calda,</p><p>queijos e pães. As técnicas de processamento desses produtos se asse-</p><p>melham a técnicas culinárias, podendo incluir cozimento, secagem,</p><p>fermentação, acondicionamento dos alimentos em latas ou vidros e</p><p>uso de métodos de preservação como salga, salmoura, cura e defu-</p><p>mação. Alimentos processados em geral são facilmente reconhecidos</p><p>como versões modificadas do alimento original (BRASIL, 2014).</p><p>Enquanto isso, os alimentos ultraprocessados, envolvem no seu “iní-</p><p>cio” diversas etapas e técnicas de processamento e vários ingredientes,</p><p>muitos deles de uso exclusivamente industrial. Exemplos incluem re-</p><p>frigerantes, biscoitos recheados, “salgadinhos de pacote” e “macarrão</p><p>instantâneo”.</p><p>Fazer boas escolhas - o fim</p><p>Padrões alimentares compostos principalmente por produtos ali-</p><p>mentícios ultraprocessados têm grandes impactos negativos nos desfe-</p><p>chos de saúde, formadas por alimentos com alta densidade energética</p><p>(e muitos com excesso de sódio, açúcares e gorduras saturadas), hiper</p><p>palatáveis e que possuem baixa saciedade. Além disso, substituem os</p><p>padrões alimentares tradicionais e os modos de comer dos indivíduos;</p><p>alteram funções metabólicas no organismo como de glicose e o dese-</p><p>quilíbrio da microbiota intestinal; driblam os mecanismos fisiológicos</p><p>de percepção de fome e saciedade; são baratos do ponto de vista de</p><p>produção e possuem um grande marketing para uma nova represen-</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 84</p><p>tação social desses alimentos para as pessoas e comunidades como um</p><p>todo. Logo, há evidências fortíssimas de que a ingestão desses alimen-</p><p>tos está diretamente relacionada às mudanças nos padrões dietéticos e</p><p>na epidemia da obesidade e das doenças crônicas não transmissíveis, as</p><p>principais causas de morbidade e mortalidade no Brasil e no mundo.</p><p>A publicidade desses produtos, comumente, chama a atenção</p><p>para o fato de que eles são “irresistíveis”. E aquele morador do campo,</p><p>será mesmo que ele é obrigado a comer todos os aqueles alimentos</p><p>que possuem embalagem, publicidade massiva, pesticidas, aditivos,</p><p>abandonando as suas tradições de se alimentar daquilo que se planta?</p><p>Será, portanto, que escolhemos ou somos induzidos às nossas escolhas</p><p>alimentares? É importante conhecer o início de tudo, o caminho até</p><p>mesmo dos alimentos até à nossa mesa para fazermos parte dessa tra-</p><p>jetória. Resgatar as práticas alimentares é um grande início para esse</p><p>fim.</p><p>Para saber mais sobre a classificação “NOVA” e outras informa-</p><p>ções sobre outras recomendações gerais que orientam a escolha de ali-</p><p>mentos para compor uma alimentação nutricionalmente balanceada,</p><p>saborosa e culturalmente apropriada, consulte o Guia alimentar para</p><p>a população brasileira.1</p><p>Saudáveis e sustentáveis - o meio</p><p>Apesar das recomendações do Guia, a inclusão de alimentos</p><p>ultraprocessados (AUP) na dieta brasileira tem apresentado tendên-</p><p>1 Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_bra-</p><p>sileira_2ed.pdf#:~:text=assim%2C o Guia Alimentar para a Popula%C3%A7%C3%A3o Brasilei-</p><p>ra,pr%C3%A1ticas alimentares saud%C3%A1veis no %C3%A2mbito individual e</p><p>https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf#:~:text=assim%2C o Guia Alimentar para a Popula%C3%A7%C3%A3o Brasileira,pr%C3%A1ticas alimentares saud%C3%A1veis no %C3%A2mbito individual e</p><p>https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf#:~:text=assim%2C o Guia Alimentar para a Popula%C3%A7%C3%A3o Brasileira,pr%C3%A1ticas alimentares saud%C3%A1veis no %C3%A2mbito individual e</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 85</p><p>cia crescente. Refrigerantes e outras bebidas açucaradas, embutidos,</p><p>biscoitos recheados, salgadinhos, guloseimas, macarrão instantâneo,</p><p>pizzas e salgados fritos e assados estão entre os ultraprocessados mais</p><p>consumidos por adolescentes. A Pesquisa de Orçamentos Familiares</p><p>(2017–2018) identificou que cerca de 26,7% do total calórico consu-</p><p>mido por adolescentes no Brasil foi proveniente de ultraprocessados,</p><p>sendo o maior percentual, quando comparado ao grupo de adultos</p><p>e idosos (SILVA et al., 2021). São dados preocupantes, uma vez que</p><p>práticas alimentares inadequadas na adolescência podem tanto levar a</p><p>deficiências nutricionais, afetando o processo de crescimento, quanto</p><p>contribuir para o desenvolvimento de agravos à saúde e piora da qua-</p><p>lidade de vida em longo prazo.</p><p>Por que os dados apontam esse excesso de consumo de ultrapro-</p><p>cessados? Por que as informações entre melhor conhecimento e atitu-</p><p>de sobre esses alimentos estão desvinculadas entre os nossos jovens?</p><p>“Aí que mora o perigo”</p><p>Os adolescentes são facilmente atraídos pela praticidade e sabor</p><p>dos ultraprocessados, compostos por elevadas quantidades de gordu-</p><p>ra, açúcar e sal. Mas, além disso, eles estão entre os mais expostos à</p><p>publicidade e propaganda desses produtos. O próprio Guia Alimen-</p><p>tar afirma que a publicidade de alimentos ultraprocessados domina</p><p>os anúncios comerciais de alimentos, frequentemente veicula infor-</p><p>mações incorretas ou incompletas sobre alimentação e atinge, sobre-</p><p>tudo, crianças e jovens. Comerciais em televisão e rádio, anúncios em</p><p>jornais e revistas, matérias na internet, amostras grátis de produtos,</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 86</p><p>ofertas de brindes, descontos e promoções, produtos em locais estraté-</p><p>gicos dentro dos supermercados e embalagens atraentes são alguns dos</p><p>exemplos mais frequentes dos mecanismos adotados para a sedução e</p><p>convencimento dos consumidores.</p><p>Dessa forma, não se trata apenas da mudança de comportamento</p><p>individual, mas também do ambiente alimentar a que o adolescente</p><p>está submetido. O ambiente alimentar pode ser descrito como um mi-</p><p>croambiente que engloba o local onde o indivíduo está inserido como</p><p>sua moradia, trabalho, bairro, escola, cujas particularidades de acesso</p><p>aos alimentos (disponibilidade, qualidade e preço) norteiam suas es-</p><p>colhas de consumo. Esse ambiente, por sua vez, está relacionado aos</p><p>macroambientes alimentares constituídos por políticas, indústrias</p><p>alimentícias, empresas de publicidade e marketing, entre outros que</p><p>indiretamente exercem influência sobre a decisão de compra da popu-</p><p>lação e condicionam perfis de consumo (HENRIQUES et al., 2021).</p><p>A constante interação dos jovens com o ambiente tecnológico</p><p>interfere de maneira decisiva nos comportamentos adotados por essa</p><p>população. A publicidade de alimentos de baixa qualidade nutricio-</p><p>nal tem alcançado diferentes mídias digitais de comunicação e entrete-</p><p>nimento</p><p>frequentemente acessadas por adolescentes, o que representa</p><p>um cenário desfavorável para escolhas alimentares saudáveis e, conse-</p><p>quentemente, um possível facilitador do consumo excessivo de AUP</p><p>(SILVA et al., 2021).</p><p>Um exemplo interessante é a Lei de Rotulagem e Publicidade</p><p>de Alimentos do Chile, implementada em 2016. Trata-se da primeira</p><p>regulamentação em nível nacional a impor um conjunto de medidas</p><p>regulatórias relacionadas à rotulagem, venda e publicidade de alimen-</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 87</p><p>tos, com o intuito de prevenir a obesidade e as Doenças Crônicas</p><p>Não Transmissíveis (DCNT). Conforme exposto em publicação do</p><p>Observatório da Obesidade (2021), a Lei inclui a adoção de modelo</p><p>de rotulagem frontal de advertência na embalagem dos alimentos, a</p><p>restrição do marketing voltado para o público infantil e a coibição da</p><p>venda nas escolas de alimentos e bebidas com açúcares adicionados, e/</p><p>ou sódio ou gordura saturada que excedem os limites estabelecidos de</p><p>nutrientes ou calorias.</p><p>Após a implementação desse conjunto de políticas públicas no</p><p>país, uma pesquisa recente publicada na revista científica internacio-</p><p>nal PLOS Medicine demonstra que os chilenos estão comprando me-</p><p>nos produtos como refrigerantes e bebidas de fruta com grande quan-</p><p>tidade de açúcar. Dentre os resultados encontrados por Taille et al.</p><p>(2020), o consumo de bebidas açucaradas por domicílio caiu 23,7%</p><p>comparada à tendência observada no período antes da regulamenta-</p><p>ção, o que representa uma redução de 22,8 ml por pessoa por dia. A</p><p>maior queda na compra domiciliar foi de sucos de fruta açucarados,</p><p>com 42% de redução, seguida pela compra de bebidas lácteas, com</p><p>20% de redução (IDEC, 2020).</p><p>O debate em torno da regulação da publicidade envolve os Esta-</p><p>dos, em seu papel de proteção da população; a sociedade civil organi-</p><p>zada, que reivindica a garantia de seus direitos; e as empresas do setor</p><p>regulado, tanto as produtoras de bens sujeitos ao controle, como a</p><p>publicidade e a propaganda, que defendem a liberdade de atuação por</p><p>meio de mecanismos de autorregulamentação. No Brasil, uma série</p><p>de Projetos de Lei vêm sendo elaborados, com diferentes focos e dife-</p><p>rentes origens de iniciativa, na tentativa de preencher a lacuna relati-</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 88</p><p>va ao controle da publicidade direcionada a crianças e adolescentes, e</p><p>nenhum deles tendo sido encaminhado até as instâncias necessárias à</p><p>aprovação como Lei até o momento (SILVA et al., 2017).</p><p>Nesse contexto, é importante esclarecer aos adolescentes que a</p><p>função da publicidade é essencialmente aumentar a venda de produ-</p><p>tos, e não informar ou, menos ainda, educar as pessoas. Deve-se co-</p><p>nhecer a legislação brasileira de proteção aos direitos do consumidor</p><p>e denunciar aos órgãos públicos qualquer desrespeito a esta legislação</p><p>(BRASIL, 2014).</p><p>Cabe destacar que a adolescência é o momento em que os valo-</p><p>res pessoais se fortalecem, as opiniões ganham corpo e as injustiças se</p><p>tornam ainda mais imperdoáveis. E esse código moral pulsante pode</p><p>ser o melhor caminho para incentivar os adolescentes a fazer escolhas</p><p>alimentares mais saudáveis. Um estudo feito pela Universidade de</p><p>Chicago comprovou que os adolescentes expostos aos métodos des-</p><p>leais usados nas propagandas da indústria de alimentos não só fazem</p><p>escolhas alimentares melhores como também deixam de se identificar</p><p>positivamente com os alimentos ultraprocessados. De acordo com os</p><p>pesquisadores, a postura dos jovens busca reafirmar a autonomia fren-</p><p>te ao controle dos adultos e assumir uma posição simbólica contra a</p><p>injustiça praticada pelo marketing da indústria (BRYAN; YEAGER;</p><p>HINOJOSA, 2019; MATIOLI, 2020).</p><p>Assim, além da necessidade de implementação de ações de regu-</p><p>lação da publicidade de alimentos ultraprocessados, deve-se discutir</p><p>essa questão no currículo escolar, capacitando os estudantes a iden-</p><p>tificar informações enganosas e a serem críticos com as informações</p><p>veiculadas na mídia. Ainda, o ambiente escolar deve ser livre de pro-</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 89</p><p>pagandas de alimentos ultraprocessados e garantir a oferta de alimen-</p><p>tação saudável. A seguir vamos conversar mais acerca da publicidade</p><p>de alimentos na escola e apresentar sugestões de materiais, cartilhas e</p><p>sites a serem trabalhados com os adolescentes, os pais e a comunidade</p><p>escolar.</p><p>Publicidade e propaganda de alimentos na escola</p><p>Você já parou para pensar que na escola também há publicidade</p><p>de alimentos? E como profissionais da saúde e da educação podem</p><p>incentivar a alimentação saudável nesse espaço?</p><p>No Brasil, a alimentação nas escolas públicas é regulamentada</p><p>por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE),</p><p>que garante a oferta de refeições saudáveis e estabelece diretrizes para</p><p>Educação Alimentar e Nutricional (EAN) nas escolas. De forma am-</p><p>pla, existem alguns dispositivos legais para a promoção da alimentação</p><p>saudável em escolas, como a Portaria Interministerial nº 1010 de 08</p><p>de maio de 2006, que institui as diretrizes para promoção da alimen-</p><p>tação saudável nas escolas de educação infantil, fundamental e nível</p><p>médio das redes pública e privadas, em âmbito nacional (BRASIL,</p><p>2006); o Manual das cantinas escolares saudáveis que busca auxiliar</p><p>proprietários a transformar suas cantinas em locais para a promoção</p><p>da alimentação saudável (BRASIL, 2010) e a Lei nº 13.666/2018,</p><p>da presidência da república, que determina a inclusão transversal do</p><p>tema da EAN no currículo escolar (BRASIL, 2018). Alguns estados</p><p>e municípios brasileiros já publicaram legislações para regulamentar a</p><p>venda de alimentos nas cantinas escolares. Contudo, ainda não existe</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 90</p><p>uma Lei Federal que regule a comercialização de alimentos nestes am-</p><p>bientes, não há fiscalização nem ações punitivas para as irregularidades</p><p>(HENRIQUES et al., 2021).</p><p>A escola representa um ambiente oportuno para ações de edu-</p><p>cação nutricional, não somente como uma medida esporádica, mas</p><p>como uma ação articulada ao currículo escolar. Considerando-se que</p><p>o ambiente escolar atua como um exemplo aos estudantes, é necessá-</p><p>rio, também, que a regulação da venda e da propaganda de alimentos</p><p>nas cantinas escolares, bem como a oferta de alimentação saudável,</p><p>seja uma realidade em toda a rede de ensino (COSTA et al., 2018).</p><p>Já existem diretrizes que indicam a importância de promover a</p><p>alimentação saudável nas escolas e de intervir nesse ambiente, com a</p><p>perspectiva de proteger os estudantes dos riscos da obesidade. Ago-</p><p>ra precisamos colocá-las em prática. O Instituto Brasileiro de Defesa</p><p>do Consumidor (IDEC) publicou em 2020 o documento “Ambiente</p><p>Alimentar das Escolas: Guia para Gestores”, em que é debatida a im-</p><p>portância da escola como espaço de construção de hábitos alimentares</p><p>saudáveis e são apresentadas algumas experiências, desafios e soluções</p><p>de regulamentação da oferta de alimentos nesse ambiente.</p><p>O estado de Minas Gerais, por exemplo, publicou em 2018 o De-</p><p>creto Estadual nº 47.557 que propunha a proibição da comercializa-</p><p>ção e distribuição de alimentos considerados não saudáveis em todas</p><p>as escolas do estado - particulares e públicas -, além de uma série de re-</p><p>comendações pedagógicas para que a alimentação seja um tema trans-</p><p>versal dentro da escola, orientações que vão de acordo com o Guia</p><p>Alimentar para a População Brasileira. Pensando na mudança do</p><p>ambiente alimentar, o decreto representou um avanço na regulamen-</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 91</p><p>tação de cantinas das escolas mineiras. Além de proibir que a institui-</p><p>ção forneça alimentos não saudáveis, o texto restringe a publicidade</p><p>infantil nesse espaço.</p><p>Sabemos, entretanto, que o problema da obesidade e o consumo</p><p>de ultraprocessado entre adolescentes não será resolvido apenas com</p><p>a proibição de alimentos não saudáveis nas escolas ou com a limitação</p><p>da publicidade. Para isso, é necessária a ação conjunta de pais, pro-</p><p>fessores, profissionais</p><p>da saúde, proprietários de cantinas, legislado-</p><p>res e publicitários para promover ambientes e estratégias propícias à</p><p>promoção de hábitos alimentares saudáveis entre os escolares (IDEC,</p><p>2020). Os adolescentes precisam, antes de tudo, ser críticos quanto a</p><p>informações, orientações e mensagens sobre alimentação.</p><p>Para tanto, a seguir estão algumas sugestões de materiais que po-</p><p>dem ser utilizados nas atividades de educação alimentar e nutricional</p><p>com os adolescentes:</p><p>Comer bem e melhor juntos: cardápio de ferramentas para</p><p>promover a alimentação saudável entre adolescentes, junto</p><p>às suas famílias e comunidades - publicação da UNICEF que</p><p>reúne informações, dicas, sugestões de atividades e referências de</p><p>conteúdos para promover a alimentação saudável entre adoles-</p><p>centes a partir de suas vivências familiares e comunitárias. É um</p><p>cardápio de ferramentas para inspirar experiências coletivas sobre</p><p>este tema, especialmente nos centros urbanos.2</p><p>2 Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/media/4901/file/comer_bem_e_melhor_jun-</p><p>tos_pb.pdf</p><p>https://www.unicef.org/brazil/media/4901/file/comer_bem_e_melhor_juntos_pb.pdf</p><p>https://www.unicef.org/brazil/media/4901/file/comer_bem_e_melhor_juntos_pb.pdf</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 92</p><p>Observatório de Publicidade de Alimentos (OPA) - é uma ini-</p><p>ciativa do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor)</p><p>que tem como objetivo fortalecer o direito dos consumidores à</p><p>informação adequada. Para isso, o observatório apoia a identifica-</p><p>ção de publicidades ilegais de alimentos e facilita a sua denúncia</p><p>aos órgãos competentes.3</p><p>Põe no Rótulo - é o resultado da colaboração e interação de pes-</p><p>soas que buscam caminhos para garantir que os rótulos dos ali-</p><p>mentos cumpram com o seu papel de informar com clareza sobre</p><p>composição e riscos para que os consumidores possam fazer esco-</p><p>lhas conscientes e informadas. 4</p><p>Coleção Escolas Saudáveis - publicações do Idec (Instituto Bra-</p><p>sileiro de Defesa do Consumidor) com debate em torno de medi-</p><p>das legais que transformem as escolas e os serviços de alimentação</p><p>escolar em fornecedores de alimentos e refeições saudáveis e que</p><p>estimulem a adoção de hábitos igualmente saudáveis também</p><p>fora da escola.5</p><p>3 Disponível em: https://publicidadedealimentos.org.br/.</p><p>4 Disponível em: https://www.poenorotulo.com.br/sobre.</p><p>5 Disponível em: https://idec.org.br/colecaoescolassaudaveis.</p><p>https://publicidadedealimentos.org.br/</p><p>https://www.poenorotulo.com.br/sobre</p><p>https://idec.org.br/colecaoescolassaudaveis</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 93</p><p>Referências</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde (MS). Portaria nº 1.010, de 08 de maio de</p><p>2006. Institui as diretrizes para a Promoção da Alimentação Saudável nas</p><p>Escolas de educação infantil, fundamental e nível médio das redes públicas</p><p>e privadas, em âmbito nacional. Diário Oficial da União. Poder Executivo,</p><p>Brasília, 2006; 8 maio.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde (MS). Secretaria de Atenção à Saúde.</p><p>Departamento de Atenção Básica. Manual das cantinas escolares saudáveis:</p><p>promovendo a alimentação saudável. Brasília: MS; 2010. 56 p.</p><p>BRASIL. Presidência da República. Lei nº 13.666, de 16 de maio de 2018.</p><p>Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da</p><p>Educação Nacional), para incluir o tema transversal da educação alimentar e</p><p>nutricional no currículo escolar. Brasília, 2018; 16 maio.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento</p><p>de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira / Ministério da</p><p>Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2.</p><p>ed., 1. reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014. 156 p. : il.</p><p>BRYAN, J.; YEAGER, D. S.; HINOJOSA, C. P. A values-alignment</p><p>intervention protects adolescents from the effects of food marketing. Nature</p><p>Human Behaviour, v. 2, p. 596 - 603, 2019.</p><p>COSTA, C. S.; FLORES, T. R.; NEVES, R. G. et al. Comportamento</p><p>sedentário e consumo de alimentos ultraprocessados entre adolescentes</p><p>brasileiros: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 2015. Cad. Saúde</p><p>Pública, v. 34, n. 3, 2018.</p><p>DA SILVA, D. A. C.; DA CUNHA, A. C. R.; DA CUNHA, T. R.; et al.</p><p>Publicidade de alimentos para crianças e adolescentes: desvelar da perspectiva</p><p>ética no discurso da autorregulamentação. Ciência & Saúde Coletiva, v. 22, n.</p><p>7, p. 2187-2196, 2017.</p><p>HENRIQUES, P.; DE ALVARENGA, C. R. T; FERREIRA, D. M.; et al.</p><p>Ambiente alimentar do entorno de escolas públicas e privadas: oportunidade</p><p>ou desafio para alimentação saudável? Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, n. 8, p.</p><p>3135-3145, 2021.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 94</p><p>IDEC - INSTITUTO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. Consumo de</p><p>bebidas açucaradas cai 23,7% no Chile. IDEC. 2021. Disponível em: https://</p><p>idec.org.br/noticia/taxacao-rotulagem-e-regulacao-de-publicidade-reduzem-</p><p>consumo-de-bebidas-acucaradas-no-chile. Acesso em: 09 nov. 2021.</p><p>MATIOLI, V. Adolescentes não aceitam ser enganados pela indústria de</p><p>alimentos. O joio e o trigo. 2020. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.</p><p>br/2020/01/adolescentes-nao-aceitam-ser-enganados-pela-industria-de-</p><p>alimentos/. Acesso em: 09 nov. 2021.</p><p>OBSERVATÓRIO DA OBESIDADE. Regulamentação chilena de alimentos</p><p>e bebidas e empregos/salários no setor produtivo. Disponível em: https//</p><p>www.observatoriodeobesidade.uerj.br/?p=3160. Acesso em: 09 nov. 2021.</p><p>SILVA, J. B.; ELIAS, B. C.; WARKENTINA, S. et al. Fatores associados ao</p><p>consumo de alimentos ultraprocessados em adolescentes brasileiros: Pesquisa</p><p>Nacional de Saúde do Escolar, 2015. Rev Paul Pediatr., v. 40, 2022.</p><p>TAILLIE, L. S.; REYES, M.; COLCHERO, M. A. et al. Uma avaliação da Lei</p><p>de Rotulagem e Publicidade de Alimentos do Chile sobre compras de bebidas</p><p>adoçadas com açúcar de 2015 a 2017: Um estudo antes e depois. PLoS Med, v.</p><p>17, n. 2, 2020.</p><p>https://idec.org.br/noticia/taxacao-rotulagem-e-regulacao-de-publicidade-reduzem-consumo-de-bebidas-acucaradas-no-chile</p><p>https://idec.org.br/noticia/taxacao-rotulagem-e-regulacao-de-publicidade-reduzem-consumo-de-bebidas-acucaradas-no-chile</p><p>https://idec.org.br/noticia/taxacao-rotulagem-e-regulacao-de-publicidade-reduzem-consumo-de-bebidas-acucaradas-no-chile</p><p>https://ojoioeotrigo.com.br/2020/01/adolescentes-nao-aceitam-ser-enganados-pela-industria-de-alimentos/</p><p>https://ojoioeotrigo.com.br/2020/01/adolescentes-nao-aceitam-ser-enganados-pela-industria-de-alimentos/</p><p>https://ojoioeotrigo.com.br/2020/01/adolescentes-nao-aceitam-ser-enganados-pela-industria-de-alimentos/</p><p>http://www.observatoriodeobesidade.uerj.br/?p=3160</p><p>http://www.observatoriodeobesidade.uerj.br/?p=3160</p><p>DOI: 10.52788/9786589932659.1-7 95</p><p>CAPÍTULO 7</p><p>O CORPO, AS MÍDIAS E</p><p>AS REDES SOCIAIS</p><p>Ginetta Kelly Dantas Amorim</p><p>Felipe Carlos de Macêdo Oliveira</p><p>Rafaela Nayara da Costa Pelonha</p><p>Neste instante, esteja você onde estiver, há uma casa com o seu</p><p>nome. Você é o único proprietário, mas faz tempo que perdeu as</p><p>chaves. Por isso, fica de fora, só vendo a fachada. Não chega a</p><p>morar nela. Essa casa, teto que abriga suas mais recônditas e</p><p>reprimidas lembranças, é o seu corpo.</p><p>- O corpo tem suas razões, THÉRÈSE BERTHERAT.</p><p>As questões com o corpo têm relação direta com os desafios ali-</p><p>mentares e nutricionais vivenciados por adolescentes. No processo de</p><p>cuidado alimentar e nutricional desse público é importante que as pes-</p><p>soas que ocupam esse importante espaço realizem uma reflexão inicial</p><p>sobre sua própria relação com o corpo. Convidamos você agora, neste</p><p>capítulo, a pensar no seu corpo como uma casa, assim como descreve</p><p>Bertherat (2010) no escrito acima. Olhe para essa casa e reflita: em que</p><p>momento você passou a morar nela? Como encontra-se atualmente?</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 96</p><p>Para ajudar nesse processo, recomendamos a leitura da carta a seguir e</p><p>sugerimos que ao final deste capítulo você mesmo possa escrever sua</p><p>própria carta</p><p>endereçada ao seu corpo.</p><p>Oi, querido corpo! Tudo bem?</p><p>Quem diria que um dia eu lhe chamaria de querido, mas aconte-</p><p>ceu. Corpo, eu vim lhe pedir desculpas por todas as coisas que fiz a</p><p>gente passar por acreditar que você não era digno, bonito ou capaz.</p><p>Hoje, eu me peguei querendo entender como e por que isso aconteceu,</p><p>e consegui perceber que tudo foi iniciado nos primeiros comentários</p><p>que ouvi sobre você. O nariz era do pai, a boca da mãe, as mãos da</p><p>avó... e assim por diante. Você não era meu... era dos outros. Então,</p><p>quem eu era? O que era meu, de fato?</p><p>Porém, esses comentários eram inofensivos, já que eram feitos com</p><p>o intuito de achar semelhanças entre aqueles próximos a mim. O</p><p>problema surgiu quando essas observações se voltaram para a mi-</p><p>nha forma, o meu peso, o meu cabelo, o meu quadril, entre tantas</p><p>outras coisas que podem ser listadas em um corpo, porque, sim, tudo</p><p>era motivo para pitaco.</p><p>Foi aí, então, que eu passei a lhe ver como uma lista... ou várias:</p><p>uma lista de coisas que eu precisava mudar, outra de coisas que</p><p>não agradavam a quem me olhava, mais uma lista de coisas que</p><p>eu não gostava em você. E todas essas listas eu enxergava ao lhe</p><p>encarar no espelho ou em fotos. Era duro. Eu preferia não olhar</p><p>pra você.Junto a isso, nessa mesma época, o sentimento de compa-</p><p>ração nasceu, ou seja, toda e qualquer garota com um corpo que</p><p>era considerado bonito e dentro dos requisitos que todos estavam</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 97</p><p>impondo, eu a achava superior, então eu precisava ser como ela e</p><p>pra isso eu comecei aquelas dietas loucas, lembra? Ô corpo, eu te fiz</p><p>passar por cada uma... quantas coisas que a gente amava comer eu</p><p>deixei de lhe dar por acreditar que você não merecia, não podia...</p><p>ou por acreditar que, caso você comesse, a gente ficaria maior e mais</p><p>distante da aceitação? Pois é, a todo custo eu fiz você ser menor e</p><p>ficar cada vez mais parecido com o corpo da menina famosa que eu</p><p>assistia e admirava no celular.</p><p>Mas isso não ajudou muito, né? Agora eu estava magra demais e</p><p>parecia doente, segundo as mesmas bocas que falavam do antigo</p><p>você. Então, o que elas queriam? Nessa hora, corpo, eu deveria ter</p><p>entendido que elas só queriam falar! Falar mal, falar bem, falar.</p><p>Portanto, de nenhum jeito você seria aceito, de nenhum jeito você</p><p>estaria agradando, porque sempre tem algo para ser modificado,</p><p>melhorado, padronizado.</p><p>Agora, aos 25 anos e depois de tantas mudanças, eu percebo que fui</p><p>descuidada com você, percebo que eu não consegui enxergar todas</p><p>as outras coisas que você fazia por mim, afinal, acordar cedo pra</p><p>escola, prestar atenção na aula, guardar o conteúdo na cachola e</p><p>ainda ter energia pra correr... é muita coisa, certo? Eu te enxergava</p><p>só pelo exterior e queria que as pessoas te aceitassem, mas hoje eu sei</p><p>que essa é uma guerra que você já entra derrotado. Corpo, peço des-</p><p>culpas por todas as tentativas de lhe modificar, ao invés de tentar</p><p>entender que você é perfeito e está errado quem tenta a todo custo</p><p>fazer a gente acreditar no contrário.</p><p>Obrigada por me acompanhar nessa caminhada e por ter supor-</p><p>tado tudo. Prometo que daqui em diante vou entender o que você</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 98</p><p>está querendo falar e respeitar as suas vontades, para que tenhamos</p><p>uma relação boa e saudável. Não terão mais dietas malucas nem</p><p>exercícios em excesso, nenhum alimento será proibido, porque agora</p><p>entendemos que não há alimentos vilões ou mocinhos. E o tempo,</p><p>responsável por todas as mudanças, será muito bem-vindo.</p><p>O corpo: a casa em que você (não) habita</p><p>Podemos perceber nosso corpo de inúmeras maneiras. Ao olhar</p><p>diretamente para ele, ao ver sua imagem refletida no espelho, ao sen-</p><p>tir o corpo pelo toque e ao ser notado por alguém. Como objeto de</p><p>estudo, esse corpo é ao mesmo tempo um corpo biológico, social, an-</p><p>tropológico, estético e subjetivo (LAZZARINI; VIANA, 2006), mas</p><p>não é intenção nossa nesse capítulo nos aprofundar em campos de sa-</p><p>ber que ao longo do tempo construíram teorias acerca do corpo. Pro-</p><p>pomos nesse momento uma reflexão sobre a imagem que se constrói</p><p>do corpo em que se habita e sua interface com a adolescência.</p><p>Não sei se você já percebeu, mas quando uma criança nasce é co-</p><p>mum ouvir comentários do tipo: “a boca é do pai”, “o pé puxou a</p><p>mãe”, “esse olho é do vovô”. Percebe que esse corpo ao vir ao mundo</p><p>é atravessado por várias referências familiares, pelo seu meio social?</p><p>Há de concordar conosco que a criança cresce ouvindo dos mais pró-</p><p>ximos sobre o quanto seu corpo lembra o corpo ou parte do corpo</p><p>de outra pessoa. Então, podemos pensar que antes mesmo de termos</p><p>consciência do próprio corpo, ele já foi em algum momento idealiza-</p><p>do por alguém.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 99</p><p>As primeiras sensações corporais se dão por meio de experiên-</p><p>cias subjetivas em nosso meio familiar e cultural e assim passamos a</p><p>construir nossa imagem corporal. Essa imagem surge a partir das per-</p><p>cepções que temos em nossa mente do nosso próprio corpo (SLA-</p><p>DE, 1994) e sofre influência importante da cultura, sociedade, mídia,</p><p>família e amigos (ALVES et al., 2009). Campos (2007, p.64) nos diz</p><p>que “é efetivamente através do olhar que se cria a imagem de si; ima-</p><p>gem especular, criada a partir do ato de olhar a si próprio no espelho,</p><p>de olhar para o outro, do olhar do outro”.</p><p>O corpo infantil sofre mudanças com a chegada da puberdade e</p><p>essa fase marca a vida de muitas pessoas. O corpo em transição na ado-</p><p>lescência pode ser acompanhado de estranhamento e bullying, pois</p><p>corpos magros ou gordos podem em algum momento não fazer parte</p><p>de um padrão estabelecido socialmente e é por conta desse padrão que</p><p>muitos passam a odiar o próprio corpo.</p><p>A insatisfação corporal pode surgir ainda criança e acompanhar</p><p>uma pessoa por toda vida. À medida que o corpo sofre transformações,</p><p>você pode estar satisfeito ou não com ele e é por conta desse proces-</p><p>so que em algum momento passamos a querer controlá-lo e moldá-lo</p><p>conforme determinado padrão aceito socialmente. Projetamos em nos-</p><p>sa consciência um corpo ideal que muito se afasta do nosso corpo real.</p><p>Atualmente, essa projeção que fazemos é fortemente influencia-</p><p>da pelas mídias e redes sociais e a adolescência é a fase em que mais se</p><p>observa o poder dessa influência midiática ao dispor de recursos sim-</p><p>bólicos que constroem padrões sociais. Cabe aqui destacarmos essa</p><p>fase como um momento importante de construção da identidade,</p><p>sendo influenciada pelos grupos sociais e ainda pelos valores culturais</p><p>(CASTRO et al., 2010).</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 100</p><p>As mídias e redes sociais: um encontro desleal com corpos</p><p>irreais</p><p>Há muito tempo que a TV e as revistas influenciam a população.</p><p>Corpos magros sempre tiveram muito destaque nesses espaços midi-</p><p>áticos que determinam padrões a serem seguidos a cada época. Mais</p><p>recentemente observamos a ascensão das redes sociais, principalmente</p><p>o Facebook e Instagram.</p><p>Esses espaços têm ganhado cada vez mais seguidores e existir hoje</p><p>numa rede social é algo indispensável para muitos jovens que utilizam</p><p>a internet como principal meio para buscar informações e um espaço</p><p>para se comunicarem e encontrar seus pares (AMORIM et al., 2019).</p><p>Dessa maneira, o ciberespaço hoje se configura num importante espa-</p><p>ço relacional, mas carregado de incertezas quanto ao impacto na saúde</p><p>emocional dos indivíduos.</p><p>Um estudo que teve como objetivo avaliar a relação entre a in-</p><p>fluência da mídia e o uso de redes sociais na imagem corporal de ado-</p><p>lescentes do sexo feminino concluiu que as mídias, incluindo as redes</p><p>sociais, estão associadas à insatisfação da imagem corporal de meninas</p><p>adolescentes e que o acesso diário maior de 10 vezes ao dia ao Face-</p><p>book e Instagram aumentou a chance de insatisfação (LIRA et al.,</p><p>2017). Algumas redes sociais oferecem ferramentas para que possa-</p><p>mos avaliar o tempo em que ficamos conectados a ela. Com isso, o in-</p><p>divíduo que</p><p>mo capítulo, apresentamos os resultados de uma pesquisa que realizei</p><p>junto com duas ex-estudantes do curso técnico integrado em Progra-</p><p>mação de Jogos Digitais do Instituto Federal de Educação, Ciência e</p><p>Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) Campus Ceará-Mirim.</p><p>Nesse espaço descrevemos e refletimos sobre jogos digitais que podem</p><p>ser aplicados nas ações de promoção da alimentação saudável com</p><p>adolescentes.</p><p>Pensamos este livro como um apoio didático-pedagógico para os</p><p>diversos profissionais envolvidos no cuidado alimentar e nutricional</p><p>de adolescentes. As informações disponíveis nesta obra devem norte-</p><p>ar atividades dialógicas com adolescentes em escolas, serviços de saú-</p><p>de e outros espaços de educação formais ou informais. Os capítulos</p><p>são independentes e podem ser consultados como referencial teórico</p><p>e prático para o desenvolvimento de ações (projetos individuais ou</p><p>3 VALE, Diôgo [org.]. Educação alimentar e nutricional de adolescentes: complexidade,</p><p>resiliência e autonomia. Natal: Editora IFRN, 2020. 240 p. Disponível em: https://memoria.</p><p>ifrn.edu.br/handle/1044/2089.</p><p>coletivos) de educação alimentar e nutricional com adolescentes na</p><p>perspectiva da complexidade para o desenvolvimento de práticas ali-</p><p>mentares resilientes e autônomas.</p><p>Finalmente, desejo que possamos desenvolver conhecimento e</p><p>ações de EAN a partir de uma perspectiva ampliada e transformadora</p><p>de realidades. Com isso, poderemos discutir a alimentação e as esco-</p><p>lhas alimentares como direito humano fundamental, como um ato</p><p>político e como via para o desenvolvimento sustentável. Para a mate-</p><p>rialização dessas mudanças positivas, devemos qualificar a educação</p><p>em saúde, incluindo a educação alimentar e nutricional nos processos</p><p>de ensino e aprendizagem, valorizando as etapas de planejamento, ava-</p><p>liação e registro das ações. Além de intensificarmos atividades junto</p><p>com as adolescentes a partir de novas Tecnologias de Informação e</p><p>Comunicação, e que permitam construções de atitudes compartilha-</p><p>das e fraternas para transformação das realidades alimentares e nutri-</p><p>cionais desses sujeitos e do mundo. Este livro simples, não pretende</p><p>atingir todos esses objetivos, mas deseja estimular mais alguns passos</p><p>na direção da promoção da alimentação adequada e saudável entre</p><p>esse público adolescente.</p><p>Desejo leituras inspiradoras!</p><p>Diôgo Vale</p><p>(Organizador)</p><p>DOI: 10.52788/9786589932659.1-1 11</p><p>CAPÍTULO 1</p><p>ALIMENTAÇÃO COMO DIREITO</p><p>Natália Louise de Araújo Cabral</p><p>A adolescência é um período de diversidades impulsionadas pelas</p><p>intensas mudanças biopsicossociais, as quais geram necessidades espe-</p><p>cíficas e que requerem a garantia de direitos para atender às demandas</p><p>desse contexto. O direito a uma vida digna, à alimentação adequada</p><p>e saudável, à saúde, à educação e todos os demais direitos humanos</p><p>enunciados no Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) devem ser</p><p>exigidos e assegurados. O reconhecimento do direito à alimentação,</p><p>o qual será abordado neste capítulo, é impulsionado pelo acesso à in-</p><p>formação proporcionado por estratégias educativas como a Educação</p><p>Alimentar e Nutricional. Então, por que não os incluir no debate</p><p>que trata dos interesses dos adolescentes? Esse movimento de diálogo</p><p>atento, dando visibilidade aos aspectos de como ocorre a violação do</p><p>direito humano à alimentação adequada é essencial para que eles se</p><p>tornem protagonistas na sua exigibilidade.</p><p>Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e</p><p>à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação,</p><p>cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança</p><p>em caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos</p><p>de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle</p><p>(ARTIGO 25, ONU, 2008).</p><p>Esse trecho da Declaração Universal dos Direitos Humanos</p><p>transborda a essencialidade da alimentação para a realização de uma</p><p>vida plena em dignidade.</p><p>Há muito tempo o direito humano à alimentação adequada</p><p>(DHAA) é reconhecido por normativas internacionais, a exemplo da</p><p>Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada em 1948.</p><p>No Brasil, entretanto, a incorporação da alimentação ao rol dos direitos</p><p>sociais aconteceu somente com a alteração do art. 6º da Constituição</p><p>Federal, por meio da Emenda Constitucional nº 64, em 2010. A</p><p>instituição desse marco legal foi primordial para que políticas públicas</p><p>promotoras do DHAA fossem elaboradas e, a partir delas, ações para</p><p>sua efetivação.</p><p>O direito à alimentação é pautado pelos mesmos princípios que</p><p>regem os demais direitos humanos. É universal porque todos os seres</p><p>humanos indistintamente têm direito à alimentação. Sendo os direi-</p><p>tos civis, sociais, políticos, econômicos e sociais igualmente necessá-</p><p>rios para uma vida digna, são indivisíveis. É um direito inalienável, ou</p><p>seja, não pode ser cedido voluntariamente ou retirado, e, independe</p><p>da existência de legislações específicas. Outros princípios são a inter-</p><p>dependência e a inter-relação, o que significa que a efetivação desse di-</p><p>reito requer a realização dos demais. Não existe direito à alimentação</p><p>sem garantia dos direitos à educação e à saúde, por exemplo.</p><p>Conceitualmente, o DHAA é, segundo afirmado em 2002 pelo</p><p>Relator Especial da ONU:</p><p>o direito de todas as pessoas de ter acesso regular, permanente e irrestrito,</p><p>quer diretamente ou por meio de aquisições financeiras, a alimentos</p><p>seguros e saudáveis, em quantidade e qualidade adequadas e suficientes,</p><p>correspondentes às tradições culturais do seu povo e que garantam</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 13</p><p>uma vida livre do medo, digna e plena nas dimensões física e mental,</p><p>individual e coletiva (CÚPULA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO,</p><p>2002).</p><p>O DHAA pauta-se sobre duas vertentes: o direito de estar livre</p><p>da fome e má nutrição e o direito à alimentação adequada, ou seja, a</p><p>erradicação da fome faz parte do caminho, mas não é o ponto final.</p><p>Dessa forma, não devemos restringi-lo ao atendimento das necessida-</p><p>des nutricionais de energia e nutrientes. A “alimentação adequada”</p><p>de que trata o conceito é muito mais ampla e envolve a adequação à</p><p>cultura e aos hábitos alimentares, a qualidade sanitária, as sustentabi-</p><p>lidades social, econômica e ambiental, entre outros (figura 1).</p><p>Figura 1 - Representação dos elementos que constituem o termo</p><p>“alimentação adequada”</p><p>Fonte: Leão e Recine (2011).</p><p>Por exemplo: vamos pensar na situação de uma família que mora</p><p>em uma casa de taipa, às margens do Rio Potengi (Natal/RN), numa</p><p>espécie de “ilha”, com acesso à rua por uma ponte suspensa feita com</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 14</p><p>restos de madeira. O sustento vem da venda de mariscos e peixes que</p><p>pescam ali mesmo do rio onde moram e que também alimentam</p><p>a família. Será que essa família tem o seu direito à alimentação</p><p>assegurado? Como realizar o preparo de alimentos seguros e saudáveis</p><p>sem condições de moradia, fornecimento de água e esgotamento</p><p>sanitário adequados? Será que a disponibilidade de alimentos é regular,</p><p>permanente e irrestrita nesse domicílio, sem o adequado acesso à renda</p><p>para a aquisição alimentos variados e em quantidade suficiente para</p><p>atender às necessidades nutricionais da família? Aqui fica claro que o</p><p>DHAA só será plenamente efetivado quando os outros direitos sociais,</p><p>como moradia, trabalho, transporte, forem igualmente assegurados.</p><p>Como diz a canção de Caetano Veloso: “Gente é pra brilhar. Não pra</p><p>morrer de fome!”</p><p>Nesse contexto de integração dos aspectos necessários para erra-</p><p>dicar a fome e má nutrição, e de promover a alimentação adequada,</p><p>é que surge o conceito de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN)</p><p>como estratégia para garantir o DHAA. A Lei Orgânica de Segurança</p><p>Alimentar e Nutricional (LOSAN) define a SAN como:</p><p>a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos</p><p>de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras</p><p>necessidades essenciais, tendo como</p><p>tiver curiosidade pode acessar esse espaço e refletir sobre</p><p>o gerenciamento do seu tempo ao longo do dia.</p><p>Esse gerenciamento torna-se importante diante dos grandes im-</p><p>pactos que as redes sociais podem causar como, por exemplo, ansie-</p><p>dade, depressão e dependência (SOUZA; CUNHA, 2019), além de</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 101</p><p>influenciarem de maneira negativa ao estabelecerem o perfil corporal</p><p>magro como modelo de beleza, o que reflete um aumento nos níveis</p><p>de insatisfação corporal que muito afeta o estado de humor e autoes-</p><p>tima dos indivíduos (SILVA et al., 2020).</p><p>Estamos diante de uma geração que já nasceu na era digital e pro-</p><p>cura na mídia respostas para questões do dia a dia e seus desconten-</p><p>tamentos. Se repetidamente esses indivíduos visualizam imagens de</p><p>corpos “perfeitos” passam a acreditar nessa realidade e se frustram e</p><p>ficam insatisfeitos quando não conseguem alcançar esse ideal (LIRA</p><p>et al., 2017). Por isso, é importante pensar em ações que promovam</p><p>reflexões acerca das mudanças corporais, com o intuito de promover</p><p>um espaço de escuta e acolhimento aos adolescentes insatisfeitos com</p><p>seu corpo.</p><p>Encorajando a autoaceitação do adolescente</p><p>Propomos a você leitor fazer o seguinte exercício: imagine o que</p><p>você pode conquistar em termos de qualidade de vida quando o ob-</p><p>jetivo não for mais emagrecer e ter o corpo perfeito. Imagine ainda o</p><p>quanto você pode aproveitar ao consumir alimentos que goste e prin-</p><p>cipalmente ao lado de pessoas queridas. Esse exercício pode ser realiza-</p><p>do com os adolescentes que estão aos seus cuidados.</p><p>Por que é importante refletirmos sobre isso? Então… temos obser-</p><p>vado que a preocupação com a aparência e com o peso se constituem</p><p>de maneira errada como importantes indicadores de felicidade, saúde,</p><p>bem-estar e sucesso. O desejo em busca do corpo perfeito muitas vezes</p><p>mascara inúmeras faltas que o indivíduo acumula em seu interior e</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 102</p><p>alimenta uma indústria mundial de bilhões de dólares que investe a</p><p>cada dia em produtos contendo soluções milagrosas que atende aos</p><p>anseios de grande parte das pessoas que se encontram insatisfeitas com</p><p>seu próprio corpo.</p><p>É importante lembrar que a busca por uma melhor qualidade de</p><p>vida não deveria ser conquistada por meio da infelicidade ou ainda da</p><p>busca de algo irreal. É necessário ainda refletir sobre a necessidade de</p><p>se fazer dietas restritivas associadas ou não a medicações e cirurgias. E,</p><p>sobretudo, quando você entender que deve respeitar seu corpo, pas-</p><p>sará a ter uma saúde estável e uma sensação de equilíbrio. E a conse-</p><p>quência disso é chegar a um peso saudável sustentável, o que significa</p><p>emagrecer se estiver com excesso de peso ou retomar uma relação tran-</p><p>quila com seu corpo se tiver um comer transtornado.</p><p>Além disso, quando se trabalha com adolescentes é preciso com-</p><p>preender as mudanças que ocorrem em seus corpos, as fases de seu</p><p>desenvolvimento. O aumento de peso muitas vezes é consequência</p><p>desses processos. A incompreensão dessas mudanças por parte das</p><p>crianças e dos adolescentes pode acarretar comportamentos de risco</p><p>para o desenvolvimento de transtornos alimentares. O não reconhe-</p><p>cimento do próprio corpo em transformação, o medo de engordar e</p><p>não se encaixar em padrões, tudo isso prejudica a relação dos jovens</p><p>com a comida.</p><p>Não é o momento de determinar um número na balança. Isso</p><p>pode deixar a(o) adolescente com medo de ter fome pelo temor de en-</p><p>gordar, gerar nela o hábito de reduzir as quantidades de comida e não</p><p>escutar o que o corpo pede, e perder a noção das sensações de fome e</p><p>saciedade pelo risco imaginado de ganhar peso, ou até agravar o risco</p><p>de desenvolver um transtorno alimentar.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 103</p><p>Hoje, sabemos que as mulheres são as que mais sofrem com a</p><p>insatisfação corporal, o que leva a uma busca obsessiva pela magreza.</p><p>É perfeitamente normal que as adolescentes ganhem peso durante seu</p><p>processo de desenvolvimento, com acentuação de suas curvas e isso</p><p>já foi muito valorizado por nossa sociedade em outras épocas. Mas, o</p><p>que estamos vivenciando hoje em dia é cada vez mais a validação do</p><p>corpo magro como exemplo de saúde e beleza. É normal e saudável</p><p>que uma menina ganhe peso e gordura durante a puberdade, uma vez</p><p>que tornar-se mulher não é engordar, mas ganhar curvas. Antigamen-</p><p>te, essa transformação era motivo de orgulho para uma menina. Hoje,</p><p>infelizmente, é cada vez menos encarada como um acontecimento</p><p>normal e desejável.</p><p>Mas, afinal… Como um(a) adolescente pode desenvolver uma</p><p>imagem positiva do seu corpo? Em seu livro “O peso das dietas”, a</p><p>nutricionista Sophie Deram compartilhou alguns segredos com os</p><p>leitores e um deles é fazer as pazes com o próprio corpo. E como con-</p><p>seguiremos?</p><p>1. saiba que seu corpo é perfeito;</p><p>2. pare de se pesar;</p><p>3. não fale criticamente do seu corpo;</p><p>4. aprecie seu corpo de maneira diferente;</p><p>5. pense nas qualidades que você realmente admira em outras</p><p>pessoas;</p><p>6. foque nas coisas de que goste em você;</p><p>7. seja um modelo para os outros.</p><p>Esse é um convite para fazer as pazes com o seu corpo e baseia-se</p><p>na aceitação e confiança dele. Aceitá-lo é reconhecer sua individuali-</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 104</p><p>dade e suas imperfeições. Confiar nele é entender que o mesmo possui</p><p>sua sabedoria e é preciso aprender a escutá-lo. Aceitá-lo, todavia, não</p><p>significa vê-lo perfeito (até porque a perfeição não existe), significa pa-</p><p>rar de odiá-lo durante as 24 horas do dia.</p><p>Então, você já chegou até aqui e viu que para ter uma boa rela-</p><p>ção com o corpo é importante ter uma boa relação com a comida (e</p><p>vice-versa). Mas outra coisa é tão importante quanto o que foi dito:</p><p>ter higiene das redes sociais. Nas mídias, é imposto um padrão de be-</p><p>leza e modelos de corpos que provavelmente não são iguais aos seus.</p><p>É importante saber onde estamos investindo nosso tempo. Para isso,</p><p>trouxemos algumas reflexões:</p><p>1. Quanto tempo do dia você passa nas redes sociais?</p><p>2. Você segue pessoas com corpos parecidos com os seus?</p><p>3. Você consegue enxergar as pessoas além de suas aparências?</p><p>Quando refletimos sobre isso, abrimos nosso leque de visão sobre</p><p>coisas que provavelmente não estão na “vida real”: pessoas siliconadas,</p><p>com pele uniforme e sem manchas, cintura fina e dias sempre alegres</p><p>e motivadores. E aí vem uma pequena ruptura no mecanismo nocivo</p><p>das redes sociais: não somente diminuir o consumo diário, mas me-</p><p>lhorá-lo qualitativamente, com o intuito de usar menos programas de</p><p>edição de imagem e filtros de embelezamento; se projetar em pesso-</p><p>as reais, com corpos reais… e lembrar que a vida precisa ser vivida lá</p><p>fora… e fora dos padrões.</p><p>Dessa maneira, compreendemos que a construção de uma me-</p><p>lhor relação com o corpo e a maior percepção de como as mídias/re-</p><p>des sociais influenciam nossas escolhas podem implicar num cuidado</p><p>mais consciente com o que comemos. Isso porque as preocupações</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 105</p><p>com o corpo levam a uma busca por alimentos considerados saudá-</p><p>veis ou ainda comportamentos de riscos para transtornos alimentares</p><p>e cada vez mais a internet mostra-se como principal local para essas</p><p>buscas.</p><p>Os profissionais de saúde e educadores - ao promover um espaço</p><p>de escuta, acolhimento e diálogo sobre o corpo e sua relação com a co-</p><p>mida com os adolescentes - podem facilitar com que esses exponham</p><p>suas experiências e dificuldades. Conhecer melhor o corpo e as mu-</p><p>danças decorrentes dessa fase podem ajudar o adolescente a entender</p><p>melhor o seu processo de crescimento e desenvolvimento proporcio-</p><p>nando-o vivenciar essa fase com menos estranhamento e traumas.</p><p>Por fim, torna-se urgente desmistificar algumas crenças relacio-</p><p>nadas à alimentação e nutrição e sua relação com o corpo, pois muitos</p><p>ainda acreditam que determinados alimentos emagrecem ou engor-</p><p>dam, algo constantemente propagado na internet. Conhecer os inte-</p><p>resses por trás das informações veiculadas pelas</p><p>mídias/redes sociais,</p><p>como também as estratégias de persuasão para o público jovem, aju-</p><p>dará no desenvolvimento de um olhar mais crítico sobre esses espaços</p><p>e na possibilidade de escolhas mais adequadas e saudáveis.</p><p>Referências</p><p>AMORIM, G.K.D; SOUZA, P. C.; SOARES, E.P. Educação Alimentar e</p><p>Nutricional na Adolescência: o ciberespaço como foco de contratendência.</p><p>In: PINTO, V.L.X; MEDEIROS, M.; BEZERRA, I.W.L. Promoção da</p><p>alimentação saudável nas escolas: ideias e ações que conjugam educação, saúde</p><p>e justiça social. Natal, RN : EDUFRN, 2019. 277 p. : il., PDF ; 18.594 Kb.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 106</p><p>CAMPOS, S. C. S. A imagem corporal e a constituição do eu. Reverso, Belo</p><p>Horizonte, v. 29, n.54, p.63-69, set. 2007.</p><p>CASTRO, I. R. R. et al. Imagem corporal, estado nutricional e</p><p>comportamento com relação ao peso entre adolescentes brasileiros. Ciência &</p><p>Saúde Coletiva. 2010, v. 15, suppl 2, pp. 3099-3108.</p><p>DERAM, S. O peso das dietas. São Paulo: Sensus, 2014.</p><p>DERAM, S. Os 7 pilares da saúde alimentar. São Paulo: Sextante, 2021.</p><p>LAZZARINI, E. R.; VIANA, T. C. O corpo em psicanálise. Psicologia: Teoria</p><p>e Pesquisa [online]. 2006, v. 22, n. 2, pp. 241-249.</p><p>LIRA, A. G. et al. Uso de redes sociais, influência da mídia e insatisfação com</p><p>a imagem corporal de adolescentes brasileiras. Jornal Brasileiro de Psiquiatria</p><p>[online]. 2017, v. 66, n. 3, pp. 164-171.</p><p>SILVA, A. F. S.; JAPUR, C. C.; PENAFORTE, F. R. O. Repercussions of</p><p>Social Networks on Their Users’ Body Image: Integrative Review. Psicologia:</p><p>Teoria e Pesquisa. 2020, v. 36, e36510.</p><p>SOUZA, K.; CUNHA, M. X. C. Impactos do uso das redes sociais virtuais</p><p>na saúde mental dos adolescentes: uma revisão sistemática da literatura.</p><p>Educação, Psicologia e Interfaces. 2019 v. 3, n.3, p. 204-217.</p><p>DOI: 10.52788/9786589932659.1-8 107</p><p>CAPÍTULO 8</p><p>FOME, SACIEDADE E SATISFAÇÃO</p><p>Felipe Carlos de Macêdo Oliveira</p><p>Rafaela Nayara da Costa Pelonha</p><p>A visão que fundamentou a elaboração deste capítulo é a de in-</p><p>formação inclusiva, integradora e orgânica: inclusiva no sentido de</p><p>que todos(as) possam ler e entender; integradora, pois olha para os</p><p>conceitos aqui relatados de uma forma abrangente, não os fragmen-</p><p>tando somente às questões biológicas; e orgânica porque se propõe a</p><p>ser plena de sentido e ter como linha mestra a construção dos conhe-</p><p>cimentos.</p><p>A partir disso, precisamos frisar a importância de abordar a fome,</p><p>a saciedade e a satisfação em comer na adolescência, uma vez que é</p><p>uma fase marcada pela busca de viver o agora, sem muita preocupação</p><p>com as consequências que poderão surgir no futuro. Assim, a criação</p><p>de hábitos alimentares saudáveis a partir da desconstrução de regras e</p><p>mitos acerca da alimentação pode resultar numa relação positiva tanto</p><p>com a comida quanto com o corpo.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 108</p><p>Vamos conversar (um pouco) sobre o “comer” na</p><p>adolescência</p><p>O ato de comer é difundido nos diversos espaços de forma sim-</p><p>plista como apenas um comportamento biológico, no qual é visto</p><p>como o ser humano precisa de uma alimentação cercada de nutrientes</p><p>para manter suas funções vitais, ou seja, é como se o corpo fosse um</p><p>carro e a comida, seu combustível. Porém, comer também é, muito</p><p>mais que uma necessidade biológica, um processo social que se adapta</p><p>de acordo com as condições socioculturais existentes. Essas muitas ve-</p><p>zes impostas e caracterizadas por condições que se modificam também</p><p>de acordo com cada fase da vida. Nesse sentido, podemos pensar o</p><p>“comer” de formas diferentes nas infâncias, adolescências e entre adul-</p><p>tos e idosos. Como o nosso foco é a adolescência, vamos começar:</p><p>A adolescência é marcada por diversas transformações físicas,</p><p>hormonais, sociais e, entre tantas outras, alimentares. Todas essas mu-</p><p>danças têm efeito sobre o que chamamos de “comportamento alimen-</p><p>tar”, já que ele é influenciado tanto por fatores internos quanto por</p><p>fatores externos do dia a dia. Esses fatores são:</p><p>1. Fatores internos: forma de enxergar o próprio corpo, neces-</p><p>sidades fisiológicas, saúde individual, preferências e aversões ali-</p><p>mentares;</p><p>2. Fatores externos: hábitos familiares, amigos, regras sociais e</p><p>culturais, mídia, modismos, experiências e conhecimentos indi-</p><p>viduais.</p><p>A forma como o adolescente lida com esses fatores é o que vai</p><p>moldar a sua relação com a comida, ou seja, como ele pensa, sente e</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 109</p><p>se comporta com os alimentos. Esses aspectos somados à autonomia</p><p>para realização de escolhas alimentares proporcionam aos adolescen-</p><p>tes o poder de decisão sobre o quê, quando e como vai comer.</p><p>O processo de escolha alimentar incorpora não só decisões basea-</p><p>das em reflexões conscientes, mas também em automáticas, habituais</p><p>e subconscientes. Por isso, os padrões alimentares desenvolvidos nesta</p><p>etapa da vida podem contribuir para o aparecimento de transtornos</p><p>alimentares.</p><p>O ato de se alimentar desenvolve-se de acordo com regras im-</p><p>postas pela sociedade, meio ambiente, história individual e valores do</p><p>grupo social no qual o adolescente está inserido. Ao longo do tempo,</p><p>diversos fatores interagem com a vida e as experiências e resultam nas</p><p>preferências individuais (como o sabor) e outras considerações (como</p><p>a conveniência, a questão financeira, a publicidade de alimentos e o</p><p>tempo com as telas) que moldam o comportamento alimentar.</p><p>Os principais problemas detectados na alimentação dos adoles-</p><p>centes são: a) omissão de refeições, especialmente o café da manhã; b)</p><p>substituição das principais refeições [como o almoço e o jantar] por</p><p>lanches; c) alta e frequente ingestão de refrigerantes e alimentos com</p><p>alta densidade calórica [como salgados fritos e bolachas recheadas]; d)</p><p>baixa ingestão de frutas e hortaliças. Estudos mostram que a falta de</p><p>atenção a estes problemas pode resultar não somente no aparecimen-</p><p>to de doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT), mas também na</p><p>regulação da percepção de fome, saciedade e satisfação.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 110</p><p>Fome x saciedade</p><p>O nosso cérebro é como se fosse um correio. Ele manda cartas,</p><p>recados, bilhetes e encomendas. A fome é um recado enviado pelo seu</p><p>cérebro dizendo que você precisa comer. A saciedade, pelo contrário,</p><p>é uma alerta que seu cérebro dá quando você deve parar de comer, isto</p><p>é, a fome foi embora.</p><p>Todavia, nem sempre nos atentamos aos recados e alertas do cé-</p><p>rebro. E nem sempre estamos em casa para receber as encomendas.</p><p>Por isso, o cérebro, esperto que só ele, não usa somente sua função de</p><p>correio (funções fisiológicas), usa também outras funções (comporta-</p><p>mentais, emocionais, sociais, afetivas, entre outras).</p><p>Assim, percebemos que nossa fome e saciedade não dependem</p><p>só de correios, mas de diversas outras coisas que envolvem este proces-</p><p>so de “comer-parar-comer-parar”. Por isso, é importante lembrarmos:</p><p>existem vários tipos de fome. As quatro principais são:</p><p>1. Fome fisiológica/biológica: é a mais comum, que temos diaria-</p><p>mente. É a necessidade de caloria/energia. É um boleto que chega</p><p>dos correios e que pode ser pago com qualquer alimento.</p><p>2. Fome emocional/psicológica: é a vontade de comer. Aparece</p><p>em momento de instabilidade emocional (tristeza, felicidade, de-</p><p>cepção...). Pode sinalizar emoções/sensações de prazer e/ou arre-</p><p>pendimento em comer tal coisa.</p><p>3. Fome específica: é a vontade de comer algo específico. Ela só é</p><p>atendida ao consumir algo específico (um bolo de chocolate bem</p><p>chocolatudo). Pode surgir aleatoriamente ou por estímulos exter-</p><p>nos (um story no instagram).</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 111</p><p>4. Fome social: é a vontade de comer que surge em momentos</p><p>sociais, datas comemorativas e importantes (quando você está no</p><p>aniversário de criança e tem tanta comida que você não sabe nem</p><p>por onde começar).</p><p>Depois de conhecer os tipos de fome, vem à tona: é comum ter</p><p>todos os tipos de fome? Se sim, é comum ter todos os dias?</p><p>Até que</p><p>ponto essa frequência é ideal?</p><p>Bom... É uma pergunta que não tem resposta certa. Porque tudo</p><p>depende. Ter os 4 tipos de fome é normal e esperado, mas não dia-</p><p>riamente. Mas mais importante do que olhar a frequência que elas</p><p>aparecem é saber diferenciá-las e respeitá-las. Dizem que os opostos se</p><p>atraem, e acreditamos que sim. A fome e a saciedade são assim. Porque</p><p>quando entendemos e respeitamos todos os tipos de fome, a saciedade</p><p>provavelmente vai ser respeitada.</p><p>Quer um exemplo? Quando der fome de chocolate, coma seu</p><p>chocolatinho em paz. Respeitando a fome (provavelmente específica</p><p>ou emocional), você não vai comer a barra inteira. Conscientemente,</p><p>intuitivamente e respeitosamente. Sem imposição.</p><p>Ah, “sem imposição” não combina com dietas. As dietas, em sua</p><p>maioria, são robotizadas e restritivas. Não dão espaço para que refli-</p><p>tamos sobre nossas vontades, nossa fome e nossa saciedade. Isso pode</p><p>ser prejudicial para todas as idades.</p><p>Em 2016, saiu na [revista chique, renomada e importante] Pedia-</p><p>trics uma diretriz da Academia Americana de Pediatria para a prevenção</p><p>da obesidade e de transtornos alimentares em adolescentes afirmando</p><p>que o maior fator desencadeador de ambos era fazer dieta restritiva.</p><p>Então, se quer saber mais sobre fome e saciedade: fuja das dietas!</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 112</p><p>Figura 1: Como reconhecer a fome e a saciedade</p><p>Fonte: Alvarenga et al. (2019).</p><p>Satisfação em comer</p><p>Comer é bom e todo mundo gosta. Mas nem sempre continua-</p><p>mos com a sensação boa após as refeições (pode vir o arrependimen-</p><p>to). O bolo de chocolate, quando comido com culpa em vez de ser de-</p><p>gustado, não tem o mesmo resultado no corpo. Provavelmente, o bolo</p><p>comido com culpa vai ser engolido com pressa e deixará uma sensação</p><p>de estresse, enquanto o bolo degustado com prazer vai trazer satisfa-</p><p>ção e bem-estar, sem que se precise comer exageradamente.</p><p>A satisfação em comer é influenciada, principalmente, pelo re-</p><p>sumo dos alimentos aos seus valores nutricionais (faz mal ou não; en-</p><p>gorda ou emagrece; bom ou ruim). Assim, quando normalizamos que</p><p>todos os alimentos são permitidos (exceto por intolerância ou alergia</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 113</p><p>alimentares), percebemos que podemos viver em paz e harmonia com</p><p>a alimentação.</p><p>Se você comer com satisfação, vai naturalmente optar por comer</p><p>com mais tranquilidade e moderação quando estiver com fome e pa-</p><p>rar quando se sentir confortável, sem culpa ou arrependimentos. É</p><p>importante consumir o que realmente gosta, sem julgamento nutri-</p><p>cional e sem classificação de bom-ruim ou proibido-permitido.</p><p>Nesse processo, você vai encontrar paz com a comida e sua vida</p><p>melhorará. Largue a comida sem gosto, sem cor, sem ânimo que tem</p><p>nome fitness. Invista num empratamento bonito, colorido, diversifi-</p><p>cado e harmônico... e nada de dar bola para alimentos light-diet.</p><p>Recomendações importantes para o cuidado alimentar e</p><p>nutricional de adolescentes</p><p>Entendemos que não é uma tarefa fácil cuidar de adolescentes, e</p><p>isso também envolve a alimentação. No entanto, é importante que vo-</p><p>cês ajudem os indivíduos desde a infância a desenvolverem uma rela-</p><p>ção tranquila com a comida e com o próprio corpo. A nossa sociedade</p><p>está impregnada com a mentalidade de que dieta e restrição alimentar</p><p>são meios justos de obter um corpo “perfeito”, longe do natural, lon-</p><p>ge do real.</p><p>Respeitem a fome dos seus filhos e os ensine a comer de acordo</p><p>com as suas necessidades, fazendo-os entender que as emoções preci-</p><p>sam ser sentidas, não comidas. Trabalhem o conceito de saúde e hábi-</p><p>tos saudáveis, e evite criticar seus corpos. O foco deve ser sempre na</p><p>saúde, não na imagem mostrada no espelho. Fazendo assim, é mais</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 114</p><p>provável que seus filhos aprendam a reconhecer a fome inicial e a re-</p><p>agir de acordo com ela, o resultado disso é que o peso se mantenha</p><p>estável e não se torne um problema.</p><p>Algumas atitudes positivas sobre comida devem ser ressalta-</p><p>das nos diversos ambientes alimentares que adolescentes vivem</p><p>(famílias, escolas, comunidade, serviços de saúde):</p><p>1. Sejam exemplos de comportamento alimentar tranquilo –</p><p>não façam dietas nem comentários sobre corpos (gordos ou ma-</p><p>gros) ou sobre o processo de engordar e emagrecer. Isso pode ge-</p><p>rar uma desregulação da fome-saciedade-satisfação causado pelo</p><p>desconforto em comer junto de outras pessoas, comer escondido</p><p>e rápido para não ser julgado, por exemplo.</p><p>2. Forneçam uma alimentação variada, na qual seus filhos possam</p><p>encontrar frutas, legumes e verduras e não entendam alimentos</p><p>como sorvete pizza como ruins. Adolescentes devem entender</p><p>que todos os alimentos podem fazer parte da rotina alimentar,</p><p>desde que exista moderação. Isso ajudará para que não desenvol-</p><p>vam episódios repetidos de exagero, ou até mesmo de compulsão</p><p>alimentar.</p><p>3. Falem sobre a importância de saborear a comida! Não é neces-</p><p>sário saber quantidade de calorias ou nutrientes presentes em to-</p><p>das as refeições. Deixem esses saberes nutricionais, para profissio-</p><p>nais da Nutrição. Saiba que todos os nutrientes são importantes</p><p>e que não existem alimentos completamente “bons” ou “ruins”.</p><p>Essa medida ajudará cada adolescente no processo de escolha au-</p><p>tônoma dos alimentos. Isso facilitará uma melhor percepção do</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 115</p><p>processo de fome, saciedade e satisfação. Por exemplo, não iria</p><p>para uma festa e cometeria muitos excessos, pois sabia que os ali-</p><p>mentos podem ser consumidos em outros momentos.</p><p>4. Foquem no que comer, não no que não comer. A restrição</p><p>gera mais desejo e possíveis episódios de comer em exagero, sem</p><p>respeitar os sinais de fome e saciedade.</p><p>5. Ensinem sobre comer respeitando os sinais de fome e de sacie-</p><p>dade, não incentivem a “raspar o prato”, se eles falam que estão</p><p>satisfeitos/cheios. Aqui entra o respeito à fome: se também que-</p><p>rem repetir por fome ou por terem gostado demais da comida,</p><p>não há motivo de proibição.</p><p>6. Demonstrem que as escolhas alimentares devem ser feitas com</p><p>base no equilíbrio entre desejo, fome e variedade alimentar.</p><p>Pensando nessas questões, para que as escolhas alimentares sejam</p><p>feitas de forma consciente, livre de culpa e de outros sentimentos ne-</p><p>gativos que causam insegurança e má relação com a comida, separa-</p><p>mos três conselhos que poderão ajudar na melhoria da alimentação,</p><p>inclusive no conhecimento sobre fome, saciedade e satisfação: 1. Não</p><p>faça dietas; 2. Coma melhor, não em menor quantidade; e 3. Cozinhe</p><p>mais! Para entender melhor:</p><p>1. Não faça dietas: lembra de que falamos que o seu cérebro é</p><p>como se fosse um correio? Então, ao fazer dietas você fecha esse</p><p>correio e não recebe mais as cartas que indicam a sua fome ou a</p><p>sua saciedade. Em outras palavras, você, por si só, não consegue</p><p>mais reconhecer os sinais que o seu corpo envia e faz escolhas ali-</p><p>mentares de acordo com regras externas – dietas da moda, acredi-</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 116</p><p>tar que precisa comer a cada três horas, pensar que o alimento é</p><p>bom ou ruim, engordativo ou emagrecedor... e por aí vai! Portan-</p><p>to, você come sem exercer sua autonomia.</p><p>2. Coma melhor, não em menor quantidade: é muito comum</p><p>fazermos a associação que para comer melhor, a gente precisa</p><p>comer menos, mas não é bem verdade! Comer bem é conseguir</p><p>comer de tudo, sem culpa, sem restrição, com prazer e respeitan-</p><p>do as emoções e a fome. Numa alimentação saudável, todos os</p><p>alimentos podem estar presentes – até mesmo o fast food – e nes-</p><p>sa alimentação saudável e consciente, conseguimos entender que</p><p>comer de tudo não é o mesmo que comer tudo o tempo todo.</p><p>Então, da mesma forma que o sanduíche com milkshake pode es-</p><p>tar presente, as frutas, legumes e verduras também estarão! Varie!</p><p>Esse é o segredo de comer bem.</p><p>3. Cozinhe mais: cozinhar é uma das melhores coisas que você</p><p>pode fazer pela sua saúde e é a melhor estratégia para fazer</p><p>as pa-</p><p>zes com a comida. Cozinhar ajuda a todos da família a comer mais</p><p>alimentos naturais e menos processados ou industrializados. Ao</p><p>preparar a comida em casa, você consegue controlar a quantidade</p><p>e qualidade, além de usar e abusar da sua criatividade para criar</p><p>pratos! E olha só: os efeitos de cozinhar vão além dos impactos</p><p>nutricionais, já que ajudam a diminuir o estresse e, para algumas</p><p>pessoas, é uma forma de demonstrar carinho e amor a quem está</p><p>compartilhando a refeição.</p><p>A partir dessas recomendações pode-se ajudar adolescentes no</p><p>caminho saudável de não ver mais a comida com medo ou como uma</p><p>inimiga. Precisamos ter paciência, porque o processo de educação</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 117</p><p>alimentar e nutricional é lento e contínuo. Esse fica mais fácil quan-</p><p>do conseguimos perceber melhor nosso corpo, principalmente nos-</p><p>sa fome, saciedade e satisfação, e quando estabelecemos metas reais</p><p>e alcançáveis, ou seja, se hoje em dia come-se uma fruta por semana,</p><p>deve-se aumentar esse número para duas por semana. É fundamental</p><p>trabalhar e adaptar a progressão das recomendações para uma alimen-</p><p>tação saudável à sua realidade, percebendo e (re)aprendendo sobre os</p><p>sinais de fome, saciedade e satisfação.</p><p>Referências</p><p>ALVARENGA, M. et al. Nutrição comportamental. Editora Manole, 2015.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. Caderno de atividades: Promoção da</p><p>Alimentação Adequada e Saudável: Educação Infantil / Ministério da Saúde,</p><p>Universidade do Estado do Rio de Janeiro. – Brasília: Ministério da Saúde,</p><p>2018.</p><p>PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Superintendência de Educação.</p><p>Os Desafios da Escola Pública Paranaense na Perspectiva do Professor PDE:</p><p>Produção Didático-pedagógica, 2016. Curitiba: SEED/PR., 2018</p><p>DERAM, S. O peso das dietas. Sextante, 2a Edição. Rio de Janeiro, 2018.</p><p>ESTIMA, C. C. P.; BRUENING, M.; HANNAN, P. J. ; ALVARENGA, M.</p><p>S; LEAL, G. V. S. ; PHILIPPI, S. T. ; NEUMARK-SZTAINER, D. . A cross-</p><p>cultural comparison of eating behaviors and home food environmental factors</p><p>in adolescents from São Paulo (Brazil) and Saint Paul/Minneapolis (USA).</p><p>Journal of Nutrition Education and Behavior, v. 46, p. 370-375, 2014.</p><p>GAMBARDELLA, A. M. D.; FRUTUOSO, M. F. P.; FRANCH, C. Prática</p><p>alimentar de adolescentes. Rev. Nutr., Campinas, v. 12 (1), p. 5 -19, jan./abr.,</p><p>1999.</p><p>HEITOR, S. F. D.; ESTIMA, C. C. P. ; NEVES, F. J. ; NEMER, A. S.</p><p>A. ; CASTRO, S. S. ; FERREIRA, J. E. S. Tradução e adaptação cultural</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 118</p><p>do questionário sobre motivo das escolhas alimentares (Food Choice</p><p>Questionnaire - FCQ) para a língua portuguesa.. Ciência e Saúde Coletiva</p><p>(Impresso), v. 20, p. 2339-2346, 2015.</p><p>FRANCH, Claudia. Adolescents feeding practices. Revista de Nutrição, v. 12,</p><p>n. 1, p. 55-63, 1999.</p><p>SAMARA, Beatriz Santos; MORSCH, Marco Aurélio. Comportamento do</p><p>consumidor: conceitos e casos. São Paulo: Prentice-Hall, 2005.</p><p>SPANIOL, A. M. Influência da publicidade de alimentos sobre a escolha</p><p>alimentar de crianças e adolescentes de escolas públicas do Distrito Federal. Tese</p><p>(Mestrado em Nutrição) - Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de</p><p>Brasília. Brasíia, p. 170. 2014.</p><p>DOI: 10.52788/9786589932659.1-9 119</p><p>CAPÍTULO 9</p><p>JOGOS DIGITAIS PARA PROMOÇÃO</p><p>DA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL</p><p>NA ADOLESCÊNCIA</p><p>Diôgo Vale</p><p>Andreza Claudia Damião do Nascimento</p><p>Nilana Melo da Silva</p><p>Os jogos digitais estão presentes no cotidiano dos adolescentes.</p><p>No Brasil, percebe-se uma ampla difusão prática de jogar utilizando</p><p>equipamentos eletrônicos nos diversos territórios e espaços, e entre</p><p>pessoas de diferentes idades, gêneros, níveis educacionais e classes eco-</p><p>nômicas. Essa realidade é explicada pelo maior acesso aos dispositivos</p><p>eletrônicos móveis e à internet desde o início da última década. As ten-</p><p>dências do setor de jogos digitais podem ser mais melhor compreendi-</p><p>das a partir dos resultados de estudos como o Censo de Jogos Digitais</p><p>(SAKUDA; FORTIM, 2018) e a Pesquisa Game Brasil (PESQUISA</p><p>GAME BRASIL, 2021).</p><p>No contexto da saúde e da educação, os jogos digitais passaram a</p><p>ser pesquisados, desenvolvidos e aplicados em diferentes processos de</p><p>ensino-aprendizagem. Em escolas, percebe-se que esses jogos são cada</p><p>vez mais utilizados para facilitar a aprendizagem em componentes</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 120</p><p>curriculares. Nas diferentes áreas da saúde, a aplicação dessas tecno-</p><p>logias também começou a ser uma realidade. Sobre isso, Vasconcellos,</p><p>Carvalho e Araújo (2018) apresentam conceitos, históricos, reflexões e</p><p>possibilidades de aplicação de jogos digitais em sua obra: “Jogo como</p><p>prática de saúde”.</p><p>A partir da leitura desse livro, podemos expandir nossos olhares</p><p>sobre as potencialidades inerentes ao “jogar em plataformas digitais”</p><p>relacionados aos processos de cuidado em saúde, como: promoção,</p><p>prevenção, reabilitação, saúde nas escolas, ensino, treinamento, comu-</p><p>nicação e participação social. No último capítulo da obra “Jogo como</p><p>prática de saúde”, os autores apresentam estratégias para criação de jo-</p><p>gos, além de conceitos como Serious Gaming e jogos aplicados à saúde</p><p>(VASCONCELLOS, CARVALHO E ARAÚJO, 2018).</p><p>Baseado na ideia de jogos aplicados à saúde foi desenvolvida a</p><p>pesquisa cujos resultados são relatados no presente capítulo. Durante a</p><p>Pandemia de Covid-19, nós (nutricionista e técnicas em programação</p><p>de jogos digitais) realizamos um estudo buscando identificar jogos</p><p>digitais que faziam parte da rotina de adolescentes e que apresentavam</p><p>elementos relacionados à alimentação. A partir de uma coleta de</p><p>dados on-line, pudemos listar jogos digitais com potencial para</p><p>aplicação no processo de Educação Alimentar e Nutricional (EAN)</p><p>de adolescentes.</p><p>Fomos motivados para realização dessa pesquisa porque, na prá-</p><p>tica, é comum percebermos a presença desses tipos de jogos no dia a</p><p>dia dos adolescentes. Jogos digitais aparecem constantemente como</p><p>temática durante as conversas, os acompanhamentos nutricionais</p><p>individuais ou nas ações coletivas. Contata-se que o tempo jogando</p><p>interfere na organização das rotinas alimentares (número e horários</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 121</p><p>de refeições) e parecem desregular a percepção do processo fome-sa-</p><p>ciedade e várias outras formas de autocuidado em saúde. Esse fato é</p><p>base para as recomendações atuais sobre a necessidade de monitora-</p><p>mento do tempo dispensado para jogos digitais e outras atividades</p><p>na presença de telas por parte dos responsáveis de cada adolescentes.</p><p>Entretanto, a proibição completa da utilização desses equipamentos</p><p>e jogos por adolescentes não parecem viáveis e nem representam uma</p><p>maneira efetiva para fomentar práticas promotoras da saúde, incluin-</p><p>do a alimentação saudável. Não se pode negar que os jogos digitais são</p><p>formas de diversão e socialização muito comuns e aceitas entre adoles-</p><p>centes atualmente.</p><p>Em substituição a práticas muito restritivas em relação à utili-</p><p>zação de jogos digitais, discute-se a importância do aproveitamento</p><p>desses recursos como uma Tecnologia de Informação e Comunicação</p><p>(TIC). Essas podem facilitar o diálogo entre profissionais/cuidadores e</p><p>adolescentes sobre diversas temáticas do processo de crescimento e de-</p><p>senvolvimento humano, como a alimentação e a nutrição adequadas.</p><p>Nesse sentido, apresentamos a seguir jogos digitais que emergiram de</p><p>nossa pesquisa com adolescentes, para a qual foi empregado um for-</p><p>mulário eletrônico divulgado em comunidades de jogadores digitais</p><p>existentes em redes sociais (Instagram, Facebook e WhatsApp).</p><p>Durante janeiro de 2021, período da coleta de dados, recebemos</p><p>278 respostas. Dentre essas, 50% foram de garotos cisgênero e 48%, de</p><p>garotas cisgênero. Tais resultados mostraram a paridade de gênero entre</p><p>adolescentes que jogavam, destacando a presença do gênero feminino</p><p>como consumidoras de jogos digitais no Brasil (LOUREIRO, 2021).</p><p>Nesse estudo, obtivemos respostas de adolescentes</p><p>de 13 uni-</p><p>dades da federação distribuídas nas cinco grandes regiões brasileiras.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 122</p><p>O maior número de respostas foi de jogadores que moravam no Rio</p><p>Grande do Norte (RN) (256) e Minas Gerais (10). A maior quanti-</p><p>dade de respostas do RN era esperada porque a coleta de dados foi</p><p>feita em uma amostragem por conveniência, e nesse processo as pri-</p><p>meiras redes sociais a serem divulgadas tinha maior participação dos</p><p>estudantes do Instituto Federal do Rio Grande do Norte Campus Ce-</p><p>ará-Mirim. Sugere-se que futuras pesquisas considerem um processo</p><p>de coleta de dados mais amplo e sistemático para identificação de uma</p><p>maior variedade de jogos digitais.</p><p>Mesmo com essa limitada população, as respostas dos parti-</p><p>cipantes indicaram 82 jogos dos quais 80 foram identificados pelos</p><p>pesquisadores nas plataformas de jogos. Os jogos mais frequentes fo-</p><p>ram Candy Crush (30), Minecraft (27), Fruit Ninja (16), Overcooked</p><p>(15), Pou (12) e Free Fire (11) (quadro 1).</p><p>Quadro 1 - Jogos segundo frequência de respostas dos participantes</p><p>Candy crush (30)</p><p>Minecraft (27)</p><p>Fruit Ninja (16)</p><p>Overcooked (15)</p><p>Pou (12)</p><p>Free Fire (11)</p><p>The Sims (8)</p><p>GTA (7)</p><p>Papa’s games (7)</p><p>Stardw valley (5)</p><p>LOL(League of</p><p>Legends (5)</p><p>Toca kitchen 2 (2)</p><p>Gartic (2)</p><p>Bee Swarm simula-</p><p>dor (1)</p><p>Yakuza kiwami (1)</p><p>Fire emblem three</p><p>houses (1)</p><p>Animal crossing (1)</p><p>Cyberpunk (1)</p><p>Hello iogurte (1)</p><p>Bug game (1)</p><p>Sushi cat (1)</p><p>Cozinha da flipline</p><p>studio (1)</p><p>Doom Eternal (1)</p><p>Valorant (1)</p><p>Overwatch (1)</p><p>Talking Angela (1)</p><p>Jogo de cozinhar do</p><p>friv (1)</p><p>Hay day (1)</p><p>Super smash bros</p><p>(1)</p><p>Terraria (1)</p><p>Deus da guerra (1)</p><p>Celeste (1)</p><p>Criminal case (1)</p><p>Teddy in the bush</p><p>1 (1)</p><p>Cooking chef (1)</p><p>Hand simulator (1)</p><p>Dead town (1)</p><p>Clash Royale (1)</p><p>DLS (1)</p><p>Ark survival (1)</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 123</p><p>Green farm (4)</p><p>Farm Hero Saga (3)</p><p>Genshin impact (3)</p><p>Colheita Feliz (2)</p><p>Harvest moon (2)</p><p>Cooking fever (2)</p><p>DayZ (2)</p><p>Red Dead Redemp-</p><p>tion 2 (2)</p><p>Pokémon Go (2)</p><p>Subnautica (2)</p><p>Cafeland (1)</p><p>Homens Capes (1)</p><p>Final fantasy (1)</p><p>Call of duty (1)</p><p>Café Mania (1)</p><p>Dragon city (1)</p><p>Lords mobile (1)</p><p>World of tanks (1)</p><p>Stop (1)</p><p>Bug game (1)</p><p>Coin master (1)</p><p>Moy (1)</p><p>Farmville (1)</p><p>Frontline (1)</p><p>Cookie Must Die</p><p>(1)</p><p>Cookie Run:</p><p>Ovenbreak (1)</p><p>Dadish (1)</p><p>The escapists (1)</p><p>Banana Kong (1)</p><p>Good pizza (1)</p><p>Pacman (1)</p><p>Pés (1)</p><p>Mount and Blade</p><p>(1)</p><p>Resident evil 7 (1)</p><p>Uncharted 4 (1)</p><p>The last of us parte</p><p>2 (1)</p><p>Puzzle King (1)</p><p>Brian test (1)</p><p>Tom (1)</p><p>Final fantasy XV (1)</p><p>Fonte: Pesquisa de jogos digitais para educação alimentar e nutricional de</p><p>adolescentes, Brasil (2021).</p><p>Todos os jogos identificados pertenciam aos gêneros ação ou si-</p><p>mulação. Após análise das narrativas das produções digitais restaram</p><p>57 jogos que possuíam alimentação em seus enredos. Cada um desses</p><p>jogos foi categorizado em: (1) alimentação como elemento principal</p><p>(25 jogos) ou a (2) alimentação como elemento secundário (32 jogos).</p><p>Entre os 32 jogos que apresentaram a alimentação como elemen-</p><p>to secundário (quadro 2), destacamos o Minecraft como o mais ci-</p><p>tado pelos participantes. Nesse jogo digital, o(a) jogador(a) encontra</p><p>um mundo 3D em estilo pixelizado, proporcionando uma experiên-</p><p>cia semelhante aos clássicos jogos da “Era 8-bits”. O jogo tem como</p><p>objetivo principal construir coisas. Nesse ambiente virtual, podemos</p><p>encontrar diferentes ferramentas com diversas utilidades. Cada joga-</p><p>dor(a) precisa “coletar blocos” com a finalidade de adquirir recursos</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 124</p><p>para, com isso, construir o que bem entender. Nesse mundo Mine-</p><p>craft, os alimentos devem ser consumidos regularmente para o joga-</p><p>dor não “levar danos” (perder capacidade de trabalho) ou morrer de</p><p>fome.</p><p>Quadro 2 - Jogos com narrativas na quais a alimentação aparece como tema</p><p>secundário</p><p>FreeFire: o personagem come cogumelo andando pelo mapa para ganhar vida.</p><p>Minecraft: os alimentos devem ser consumidos regularmente se não o jogador</p><p>começa a levar danos, podendo morrer de fome.</p><p>Subnautica: tem que pegar comida antes de começar a exploração para poder se</p><p>alimentar e sobreviver.</p><p>Cyberpunk: o personagem pode consumir uma ampla gama de alimentos e bebidas,</p><p>com alguns oferecendo até certos tipos de bônus temporários.</p><p>The sims: os personagens do jogo sempre têm que se alimentar para não morrerem.</p><p>DayZ: o personagem precisará consumir alimentos e bebidas para sobreviver.</p><p>Gartic: o jogador desenha alimentos que aparecem na tela.</p><p>Dragon city: é necessário alimentar os dragões para subirem de nível.</p><p>GTA: o jogo apresenta um mapa dentro do jogo de lanchonetes e restaurantes.</p><p>Red Dead Redemption 2: alimentos enlatados, frutas e barras de cereais restauram</p><p>vida e energia.</p><p>Yakuza kiwami: no jogo existe a barrinha de estomago, onde o jogador não pode</p><p>comer mais do que o necessário.</p><p>Lords mobile: o jogador precisa plantar alimentos para o exército não morrer de</p><p>fome.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 125</p><p>League of legend: uma fruta que dá vida e um biscoito que faz praticamente a</p><p>mesma coisa, aparece no meio do jogo.</p><p>Pokémon Go: tem que alimentar o pokémon com alimentos que são coletados.</p><p>Stop: é um jogo de adedonha, então as comidas vão aparecer quando o tema for</p><p>alimentos.</p><p>World of tanks: os itens de comidas que utilizam são repostos automaticamente.</p><p>Ark survival: é necessário alimentar os dinossauros de acordo com as espécies.</p><p>Coin master: os bichinhos do jogo precisam ser alimentados para ficarem acordados,</p><p>felizes e ativos! Sem petiscos os bichinhos adormecem e não realizam suas tarefas.</p><p>Super smash bros: a missão é alimentar os pets.</p><p>Fire emblem three houses: nesse jogo os personagens se alimentam.</p><p>Mount and Blade: durante a guerra o grupo come mais ou menos a cada 14 horas.</p><p>Criminal Case: existem alimentos como peixe, coxa de frango e pedaços de presunto</p><p>para alimentar os animais.</p><p>The escapists: os personagens fazem refeições no refeitório da prisão.</p><p>Pacman: o personagem come pastilhas durante o jogo.</p><p>Puzzle King: às vezes aparecem desenhos de alimentos para serem preenchidos.</p><p>The last of us part 2: o personagem precisa se alimentar para não morrer.</p><p>Brian test: nesse jogo de enigmas as frutas são utilizadas para fazer contas</p><p>matemáticas, ensinar os nomes e alimentar pets.</p><p>Celeste: durante a narrativa existe uma receita de torta de morango e os jogadores</p><p>precisam colecionar morangos que aparecem durante as fases.</p><p>Fonte: Pesquisa de jogos digitais para educação alimentar e nutricional de</p><p>adolescentes, Brasil, 2021.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 126</p><p>Alimentação como elemento principal em jogos digitais</p><p>Os jogos que apresentaram a alimentação como elemento princi-</p><p>pal foram agrupados em quatro categorias de ação: (1) cultivar alimen-</p><p>tos, (2) rotina e alimentação, (2) cozinhar e (4) alimentos e diversão.</p><p>É interessante identificar que jogos por serem dos gêneros simulação</p><p>ou ação/aventura facilitam o envolvimento e a imersão dos jogadores</p><p>nas narrativas.</p><p>Além disso, as quatro categorias identificadas remetem impor-</p><p>tantes estratégias para o processo de EAN de adolescentes na perspec-</p><p>tiva da complexidade, resiliência e autonomia: (1) aproximação com</p><p>o cultivo de alimentos e a natureza, (2) planejamento da alimentação</p><p>dentro de uma rotina de vida saudável, (5) maior contato com a cozi-</p><p>nha e o desenvolvimento de saberes culinários, (4) práticas pedagógi-</p><p>cas pautadas na ludicidade e que permitam contato com diversas sen-</p><p>sações e emoções de maneira planejada e responsável.</p><p>Na prática, verifica-se que o envolvimento de adolescentes com</p><p>hortas e outros ambientes naturais que permitam vivenciar a produ-</p><p>ção e comercialização (feiras) de alimentos in natura ou minimamente</p><p>processados tem efeitos positivos sobre o interesse nesses alimentos</p><p>mais saudáveis e em novos alimentos. De maneira semelhante, perce-</p><p>bemos o efeito de adolescentes que vivenciam</p><p>atividades relacionadas</p><p>ao ato de cozinhar, como a participação em oficinas culinárias, o teste</p><p>de receitas em casa, a criação de preparações culinárias, e o estudo so-</p><p>bre a história de receitas, por exemplo. A “diversão” retoma a essência</p><p>dos jogos ao envolver lazer, interação e contato com diferentes sujei-</p><p>tos, emoções e sensações. Todos esses aspectos precisam ser explorados</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 127</p><p>e são relevantes no desenvolvimento de ações educativas transforma-</p><p>doras para promoção da alimentação saudável. Com isso, permitindo</p><p>reflexões sobre a alimentação no contexto das rotinas de vida e de au-</p><p>tocuidado que encaminharam adolescentes para a adoção de práticas</p><p>alimentares promotoras da alimentação saudável.</p><p>Os jogos listados a seguir possuem como semelhança não terem</p><p>sido desenvolvidos com um objetivo voltado a EAN, por isso devem</p><p>ser utilizados como estratégia para: introduzir temáticas, estimular re-</p><p>flexões sobre questões fundamentais ao processo de cuidado alimen-</p><p>tar e nutricional, desenvolvimento de projeto terapêuticos individu-</p><p>ais, implementação de projetos de ensino e pesquisa (disciplinares e</p><p>interdisciplinares). Vale destacar que os jogos identificados devem ser</p><p>cuidadosamente avaliados com base no objetivo da ação educativa e</p><p>característica do público de adolescentes a que será destinado.</p><p>Cultivar alimentos</p><p>Diversos jogos são ambientados em contextos rurais e os obje-</p><p>tivos relacionam-se a simulação do processo de plantação, colheita e</p><p>outros cuidados com propriedades rurais. No Brasil, o jogo “Colheita</p><p>Feliz”, que foi bastante difundido, é um exemplo emblemático desse</p><p>tipo de jogo. Em nosso estudo, foram citados cinco jogos com narra-</p><p>tivas semelhantes: Farmville, Stardew Valley, Green Farm, Hay Day e</p><p>Colheita Feliz (atualmente indisponível).</p><p>De forma geral, esses jogos digitais apresentam algumas variações</p><p>quanto ao gênero, tipo de plataforma disponível e funcionalidade.</p><p>Alguns permitem, além da plantação e colheita, a construção de espa-</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 128</p><p>ços, a exploração da vizinhança, a troca de produtos, o trabalho com</p><p>abelhas, o cuidado de animais diversos (peixes, galinhas, ovelhas), a</p><p>observação dos efeitos das estações do ano, o manejo de insetos. A</p><p>seguir estão descritas características de dois desses jogos.</p><p>Farmville</p><p>Zynga</p><p>Fonte: https://www.zynga.com/games/farmville-2/.</p><p>● Gênero: Simulação.</p><p>● Plataforma: Android, iOS, Navegador web.</p><p>● Objetivo: Evoluir como fazendeiro(a) administrando uma fa-</p><p>zenda virtual, cujas atividades incluem o plantio, cultivo e colhei-</p><p>ta de diversas plantas, árvores e animais, além da construção de</p><p>casas, celeiros e outros elementos típicos de uma fazenda.</p><p>● Breve descrição: O jogo coloca você como dono de uma fazen-</p><p>da e faz com que você tenha que cultivar alimentos, cuidar dos</p><p>animais e ganhar dinheiro vendendo ou trocando os produtos</p><p>que você produziu.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 129</p><p>Stardew Valley</p><p>Eric Barone, ConcernedApe, Sickhead Game</p><p>Fonte: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.chucklefish.stardewval-</p><p>ley&hl=pt_BR&gl=US.</p><p>● Gênero: Simulação.</p><p>● Plataforma: Nintendo Switch, PlayStation 4, Linux, Android</p><p>● Objetivo: aprender como cuidar da fazenda e criar um vínculo</p><p>com a comunidade.</p><p>● Breve descrição: Stardew Valley é um jogo de simulação de fa-</p><p>zenda primariamente inspirado pela série de videogames Harvest</p><p>Moon. O jogo utiliza um calendário simplificado no qual cada</p><p>ano é composto por meses de 28 dias. A narrativa e mecânica re-</p><p>presentam simulações das estações, que determinam que plantas</p><p>podem crescer e quais atividades podem ser benéficas para cada</p><p>uma delas.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 130</p><p>Rotina e alimentação</p><p>Os jogos referentes a categoria nomeada como Rotina e alimenta-</p><p>ção caracterizam-se por envolverem cuidados com uma personagem.</p><p>Muito semelhante ao jogo Tamagotchi lançado nos anos 90. Os jogos</p><p>digitais recentes comumente têm como elemento principal um ani-</p><p>mal e o(a) jogador(a) tem como desafios: cuidar, alimentar, limpar, co-</p><p>locar para dormir, vestir roupas e brincar. Esses são conhecidos como</p><p>jogos de mascotes ou pet games. Com esses objetivos, foram citados</p><p>em nossa pesquisa os jogos Moy, Pou, Talking Angela e Talking An-</p><p>gela. A seguir, descrevemos um desses jogos considerando que todos</p><p>possuem mecânicas e narrativas muito semelhantes.</p><p>Moy</p><p>Frojo Apps</p><p>Fonte: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.frojo.moy2&hl=pt&-</p><p>gl=US</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 131</p><p>● Gênero: Simulação.</p><p>● Plataforma: Android</p><p>● Objetivo: Ajudar o Moy na hora de escovar os dentes, tomar</p><p>banho, avisar a hora de ir para cama, oferecer comida saudável,</p><p>fazer exercícios e brincar.</p><p>● Breve descrição: Este é um jogo para cuidar do seu Moy. Para</p><p>isso, o jogador deve executar ações de rotina ajudando o persona-</p><p>gem na hora de escovar os dentes, tomar banho, na hora de ir para</p><p>cama, comer comida saudável, fazer exercícios e brincar (dentro</p><p>do jogo existem minijogos). Com isso o Moy se desenvolve.</p><p>Cozinhar</p><p>Nesta categoria estão agrupados os jogos ambientados em res-</p><p>taurantes: Good pizza, Overcooked, Cafeland, Café Mania, Toca Kit-</p><p>chen, Crazy Cooking chef, Cooking Fever, Cozinha do Friv (platafor-</p><p>ma de jogos), Cozinha do flipline studio (plataforma de jogos), Papa’s</p><p>Games (plataforma de jogos).</p><p>As narrativas desses jogos e plataformas de jogos parecem seguir</p><p>a tendência dos programas que retratam competições culinárias e gas-</p><p>tronômicas. Nessas disputas, o tempo aparece como elemento central</p><p>comum a mecânica dos jogos, mas que também ratifica a máxima</p><p>mercadológica de “fazer mais/melhor em menos tempo”. Outra ob-</p><p>servação interessante do conjunto de jogos citados, é que a maioria</p><p>desses utiliza em suas narrativas elementos, como: alimentos ultrapro-</p><p>cessados e restaurantes fast food.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 132</p><p>Os enredos e desafios desses jogos podem gerar importantes pon-</p><p>tos de discussão com adolescentes. A influência desses jogos no desejo</p><p>e consumo desses tipos alimentos, o possível financiamento de jogos</p><p>digitais por empresas do ramo da alimentação, a necessidade de de-</p><p>senvolver habilidades culinárias para as escolhas alimentares mais sau-</p><p>dáveis. Vale lembrar que a utilização de jogos digitais aplicados deve</p><p>ocorrer com base no planejamento adequado para que a ação cumpra</p><p>o objetivo de estimular reflexões e críticas com a finalidade de desen-</p><p>volver práticas alimentares mais conscientes, resilientes e autônomas</p><p>por parte desse grupo etário.</p><p>Good pizza</p><p>TapBlaze, PM Studios</p><p>Fonte: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.tapblaze.pizzabusines-</p><p>s&hl=pt_BR&gl=US.</p><p>● Gênero: Simulação.</p><p>● Plataforma: Android, iOS, Microsoft Windows, macOS,</p><p>Nintendo Switch, Mac OS.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 133</p><p>● Objetivo: Preparar as pizzas que os clientes encomendam de</p><p>forma rápida e correta para manter o negócio funcionando.</p><p>● Breve descrição: Neste jogo, cada jogador deve atender os</p><p>clientes, anotar pedidos, preparar as pizzas com os ingredientes</p><p>do pedido e lucrar com as vendas para manter a pizzaria aberta.</p><p>Alimentos e diversão</p><p>Esta última categoria é composta por jogos digitais nos quais os</p><p>alimentos assumem funções estéticas e lógicas na mecânica do jogo,</p><p>como em Candy Crush (combinação de doces por cores), Fruit Ninja</p><p>(cortar as frutas e não as bombas), Farm Heroes Saga (combinação de</p><p>peças com alimentos). Além disso, também estão nesse grupo os jogos</p><p>nos quais alimentos são personagens - Cookies Must Die e Cookie</p><p>Run Oven Break – ou nos quais a alimentos devem ser coletados</p><p>como requisito para continuidade no jogo - Banana Kong e Teddy</p><p>in the Bush. Esta categoria diferencia-se dos jogos nos quais a alimen-</p><p>tação foi considerada como tema secundário, porque nesta categoria</p><p>os jogos caracterizam toda sua narrativa e seus desafios em alimentos</p><p>específicos, e a maioria</p><p>apresenta composições com outros gêneros de</p><p>ampla difusão comercial como: corrida infinita, quebra-cabeça, ação</p><p>e aventura.</p><p>Jogos desse tipo podem ser importantes para estimular a conver-</p><p>sa sobre alimentos específicos, mas principalmente, podem ser apli-</p><p>cados para trazer mais ludicidade e diversão para ações de EAN com</p><p>adolescentes. Banana Kong e Fruit Ninja podem favorecer conversas</p><p>e ações sobre o incentivo do consumo de frutas, legumes e verduras a</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 134</p><p>partir de posteriores oficinas sensoriais com alimentos identificados</p><p>nos jogos, ou ainda de investigações sobre produção e consumo desses</p><p>alimentos na população. Candy Crush pode fazer parte de um projeto</p><p>de pesquisa nas escolas de, por exemplo, como as guloseimas ultra-</p><p>processadas (balas, doces, chocolates) foram introduzidas nos padrões</p><p>alimentares como “comida de crianças e jovens”. A partir de Cookies</p><p>must die e Cookie Run Oven Break pode-se trabalhar, por exemplo:</p><p>a presença dos bolos e biscoitos nas diferentes culturas alimentares;</p><p>ou como pensar receitas dos diferentes territórios; ou como esses ali-</p><p>mentos atingiram o status de comfort foods; e, até mesmo, discutir</p><p>sobre os danos causados por biscoitos ultraprocessados e os interesses</p><p>comerciais e políticos que financiam esses alimentos.</p><p>Banana Kong</p><p>FDG Entertainment GmbH & Co.KG</p><p>Fonte: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.fdgentertainment.bana-</p><p>nakong&hl=pt_BR&gl=US.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 135</p><p>● Gênero: Corrida infinita.</p><p>● Plataforma: Android, iOS.</p><p>● Objetivo: Ajudar o Gorila a coletar bananas para poder conti-</p><p>nuar na aventura.</p><p>● Breve descrição: O personagem pula, navega de barco, voa e</p><p>até enfrenta crocodilos, piranhas e lava para conseguir avançar</p><p>pela mata. O jogo é bastante dinâmico e o(a) jogador(a) precisa</p><p>coletar o máximo de bananas possível para encher sua barra de</p><p>energia e, assim, conseguir destruir obstáculos e fazer rotas alter-</p><p>nativas para avançar as fases.</p><p>Cookie must die</p><p>Rebel Twins</p><p>Fonte: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.rebeltwins.cookiesmust-</p><p>die&hl=pt_BR&gl=US.</p><p>● Gênero: Ação.</p><p>● Plataforma: Android, iOS.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 136</p><p>● Objetivo: Parar o avanço dos grupos cookies mutantes e os</p><p>chefes poderosos.</p><p>● Breve descrição: Jack (personagem) precisa deter um grupo</p><p>do mal composto pelos cookies mutantes e os chefes poderosos.</p><p>Tudo isso antes que reduzam a cidade em destroços. Para isso são</p><p>desenvolvidas ações como correr e pegar as melhores armas para</p><p>serem usadas no campo de batalha.</p><p>O que podemos fazer com tudo isso?</p><p>Jogar! É importante explorar os jogos para compreender melhor</p><p>como eles podem ser aplicados dependendo da temática e questão</p><p>que deseja discutir com cada adolescente ou grupo deles. Como esses</p><p>jogos não foram desenvolvidos com o objetivo específico para EAN,</p><p>é imprescindível que a utilização desses recursos seja cautelosa e que</p><p>esteja inserida dentro de um planejamento de ação educativa baseado</p><p>na realidade e nas experiências do grupo.</p><p>Experimentar! A diversidade de jogos precisa ser aplicada e ava-</p><p>liada em situações práticas diversas. Ainda não temos muitos relatos</p><p>de experiências que apresentam os benefícios de jogos digitais comer-</p><p>ciais aplicados à EAN. Sabemos que é uma estratégia potencial, pois o</p><p>tempo e recursos necessários ao desenvolvimento de jogos específicos</p><p>são altos e ainda existe o risco de não conseguir que adolescentes se</p><p>envolvam efetivamente com a produção digital.</p><p>Por exemplo, uma professora de geografia pode desenvolver um</p><p>projeto educativo sobre sustentabilidade e alimentação empregando</p><p>jogos como FarmVille, como ferramenta disparadora das conversas</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 137</p><p>sobre produção de alimentos e sobre os sistemas alimentares. Ou mes-</p><p>mo um projeto interdisciplinar envolvendo Biologia, Física e Quími-</p><p>ca, pode utilizar jogos como Crazy Cooking chef para discutir calori-</p><p>metria e formas de propagação de calor, funcionamento de máquinas</p><p>nas cozinhas, nutrientes e componentes dos alimentos, transforma-</p><p>ções químicas e físicas que acontecem nas cozinhas. Em atendimen-</p><p>tos individuais, podem ser utilizados jogos de rotina como Pou para</p><p>trabalhar a importância do autocuidado e de uma rotina alimentar</p><p>organizada.</p><p>Pesquisar! Esses não são os únicos jogos disponíveis e, por isso, o</p><p>indivíduo ou os grupos podem ajudar e encontrar jogos digitais mais</p><p>atualizados, acessíveis e que despertem o interesse do público-alvo nes-</p><p>sa faixa etária. Precisamos fortalecer essa temática de pesquisa e ação</p><p>dentro do campo da EAN. Utilizar jogos digitais e outras ferramen-</p><p>tas inovadoras contribuem para a qualificação das ações de promoção</p><p>da alimentação saudável com esse público. Além disso, mais conhe-</p><p>cimentos sobre jogos digitais de interesse do público adolescente ge-</p><p>rarão diretrizes importantes para o desenvolvimento de jogos digitais</p><p>que atendam objetivos específicos da EAN.</p><p>Compartilhar! Este capítulo possibilitou conhecer mais jogos</p><p>que fazem parte do cotidiano de adolescentes, e por isso, podem fa-</p><p>cilitar o envolvimento do adolescente com a ação de EAN. Sabemos</p><p>que os jogos digitais aplicados à promoção da alimentação adequada</p><p>e saudável podem melhorar o vínculo e o diálogo entre adolescentes e</p><p>profissionais envolvidos no cuidado alimentar e nutricional (nutricio-</p><p>nistas, professores e outros educadores) desse público. Como recurso</p><p>problematizador, os jogos digitais podem gerar uma rede comparti-</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 138</p><p>lhamento de conhecimentos e de diálogos para promoção de uma</p><p>“prática resiliente, autônoma e voluntária de hábitos alimentares mais</p><p>saudáveis” (VALE et al., 2020, p.182).</p><p>Referências</p><p>LOUREIRO, M. Donas do jogo: as brasileiras que estão transformando a</p><p>indústria de games no país. InfoMoney, 2021. Disponível em: https://www.</p><p>infomoney.com.br/do-zero-ao-topo/donas-do-jogo-as-brasileiras-que-estao-</p><p>transformando-a-industria-de-games-no-pais/. Acesso em: 30 mar. 2021.</p><p>PESQUISA GAME BRASIL. PGB 2021. Pesquisa Game Brasil, 2021.</p><p>Disponível em: https://www.pesquisagamebrasil.com.br/pt/pesquisa-game-</p><p>brasil/. Acesso em: 11 nov. 2021.</p><p>SAKUDA, L. O; FORTIM, I. (Org.). II Censo da Indústria Brasileira de</p><p>Jogos Digitais. São Paulo: Homo Ludens, 2018. 330 p.</p><p>VALE, D; AMORIM, G.K.D; DANTAS, R.F; et al. Educação alimentar</p><p>e nutricional de adolescentes para resiliência e autonomia. IN: Educação</p><p>alimentar e nutricional de adolescentes: complexidade, resiliência e autonomia.</p><p>Natal: Editora IFRN, 2020. 220p.</p><p>VASCONCELLOS, M. S; CARVALHO, F. G; ARAUJO, I. S. O jogo como</p><p>prática de saúde. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2018. 134p.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 139</p><p>SOBRE O ORGANIZADOR</p><p>DIÔGO VALE</p><p>Nutricionista do IFRN Campus Ceará-Mirim. Possui graduação em</p><p>Nutrição, Mestrado em Nutrição e Doutorado em Saúde Coletiva</p><p>pela UFRN. Especialista em Alimentação e Nutrição na Atenção Bá-</p><p>sica pela ENSP/Fiocruz. Autor de livros e artigos científicos na área</p><p>de alimentação e nutrição de adolescentes com foco na epidemiologia</p><p>nutricional, educação alimentar e nutricional, prevenção de agravos e</p><p>promoção da saúde.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 140</p><p>SOBRE OS AUTORES E AUTORAS</p><p>ANDREZA CLAÚDIA DAMIÃO DO NASCIMENTO</p><p>Técnica em Programação de Jogos Digitais pelo Instituto Federal de</p><p>Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte Campus</p><p>Ceará-Mirim e técnica em Gestão Empresarial pela Fatex/RN.</p><p>CAMILA VALDEJANE SILVA DE SOUZA</p><p>Nutricionista e mestre em Nutrição pela Universidade Federal do</p><p>Rio Grande do Norte (UFRN). Especialista em Vigilância Sanitária</p><p>(UNINTER). Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em</p><p>Saúde Coletiva (UFRN). Membro do Grupo de Pesquisa em Alimen-</p><p>tação Coletiva (GPAC/UFRN) e do Estudo Brazuca Natal/RN.</p><p>CLÉLIA DE OLIVEIRA LYRA</p><p>Possui graduação em Nutrição</p><p>pela Universidade Federal do Rio</p><p>Grande do Norte - UFRN (1994), mestrado em Saúde Coletiva pela</p><p>Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2000) e doutorado em</p><p>Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde - UFRN (2012).</p><p>Atualmente é professora associada do Departamento de Nutrição, do</p><p>Programa de Pós-graduação em Nutrição e do Programa de Pós-gra-</p><p>duação em Saúde Coletiva da UFRN.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 141</p><p>FELIPE CARLOS DE MACÊDO OLIVEIRA</p><p>Nutricionista e estudante do bacharelado em Farmácia (UFRN).</p><p>Possui duas pós-graduações, sendo uma em Saúde Pública e outra em</p><p>Saúde Mental. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-Gradu-</p><p>ação em Nutrição (PPgNut/UFRN).</p><p>GINETTA KELLY DANTAS AMORIM</p><p>Nutricionista e mestre em Psicologia pela Universidade Federal do</p><p>Rio Grande do Norte (UFRN).</p><p>JOYCE MARIA DE SOUSA OLIVEIRA</p><p>Graduada em Nutrição e Mestre em Alimentos e Nutrição pela Uni-</p><p>versidade Federal do Piauí (UFPI). Pós-graduada em Nutrição Clíni-</p><p>ca Funcional e Estética pelo Centro Universitário (UNINOVAFAPI).</p><p>Pós-graduanda em Fitoterapia aplicada à Nutrição pela Faculdade</p><p>Única. Nutricionista do Instituto Federal do Ceará (IFCE), campus</p><p>Camocim.</p><p>JULIANA BIANCA MAIA FRANCO</p><p>Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do</p><p>Ceará, Doutoranda em Administração, Mestre em Psicologia, Espe-</p><p>cialista em Gestão Ambiental, Nutricionista e Gastróloga.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 142</p><p>LARISSA MONT’ALVERNE JUCÁ SEABRA</p><p>Nutricionista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do</p><p>Norte (UFRN) (1996); especialista em Controle de Qualidade de</p><p>Alimentos, Nutrição e Saúde pública pela UFRN (1996); mestre em</p><p>Tecnologia de Alimentos pela Universidade Federal do Ceará (1999)</p><p>e doutora em Ciências da Saúde pela UFRN (2011). Professora As-</p><p>sociada do Departamento de Nutrição da UFRN. Líder do GPAC</p><p>- Grupo de Pesquisa em Alimentação Coletiva e professora do Progra-</p><p>ma de Pós-Graduação em Nutrição da UFRN.</p><p>MARIA EDUARDA DA COSTA ANDRADE</p><p>Nutricionista do IFRN (Reitoria). Possui graduação em Nutrição</p><p>e Mestrado em Nutrição pela UFRN. Pós-graduada em Gestão da</p><p>Qualidade na Produção de Alimentos pela UNI-RN e em Nutrição</p><p>Esportiva Funcional pela Universidade Cruzeiro do Sul/Centro de</p><p>Nutrição Funcional.</p><p>MARIA HATJIATHANASSIADOU</p><p>Nutricionista e mestre em Nutrição pela Universidade Federal do Rio</p><p>Grande do Norte. Membro do Grupo de Pesquisa em Alimentação</p><p>Coletiva (GPAC/UFRN).</p><p>NATÁLIA ARAÚJO CABRAL</p><p>Nutricionista do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia</p><p>do Sertão Pernambucano. Doutora em Saúde Coletiva pela Universi-</p><p>dade Federal do Rio Grande do Norte.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 143</p><p>NATALIE MARINHO DANTAS</p><p>Nutricionista pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte</p><p>(UFRN), Mestre em Ciências de Alimentos pela Universidade Fede-</p><p>ral Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Doutora em Nutrição em Saú-</p><p>de Pública pela Universidade de São Paulo (FSP/USP).</p><p>NILANA MELO DA SILVA</p><p>Técnica em Programação de Jogos Digitais pelo Instituto Federal de</p><p>Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte Campus</p><p>Ceará-Mirim.</p><p>RAFAELA NAYARA DA COSTA PELONHA</p><p>Nutricionista (UFRN), mestranda em Ciências da Saúde (UFRN) e</p><p>possui cursos em Comportamento Alimentar pelo Instituto Nutri-</p><p>ção Comportamental e pelo IPGS.</p><p>REBEKKA FERNANDES DANTAS</p><p>Nutricionista, mestre e doutora em Ciências Sociais pela Universida-</p><p>de Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Tem interesse no estu-</p><p>do dos aspectos socioculturais da alimentação por meio da Literatura.</p><p>THÁGILA MARIA DOS SANTOS DE OLIVEIRA</p><p>Nutricionista pela UFRN. Mestre em Antropologia Social pela</p><p>UFRN com Estágio de Pesquisa de Mestrado na Université Victor</p><p>Seagalen Bordeaux II/França. Doutoranda em Antropologia Social</p><p>pela UFRN. Membro do Grupo de Pesquisa Cultura, Identidade e</p><p>Representações Simbólicas (CIRS/UFRN)</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 144</p><p>ÍNDICE REMISSIVO</p><p>A</p><p>Adolescência 8, 11, 25, 47, 85, 88, 98, 99, 107, 108</p><p>Alimentação saudável 7, 9, 25, 39, 65, 73, 89, 90, 91, 93, 105, 116,</p><p>117, 121, 127, 137</p><p>Aprendizagem 10, 46, 65, 119</p><p>C</p><p>Comensalidade 40, 41, 42, 43, 44, 46, 47, 52</p><p>Consumo 28, 40, 41, 53, 56, 69, 70, 71, 73, 74, 75, 76, 82, 85, 86, 87,</p><p>91, 93, 94, 104, 132, 133, 134</p><p>Corpo 26, 28, 34, 35, 37, 44, 88, 95, 96, 97, 98, 99, 101, 102, 103,</p><p>104, 105, 106, 107, 108, 112, 113, 115, 117</p><p>Culinária 26, 31, 33, 50, 51, 60, 63, 64, 65</p><p>Cultura 13, 25, 26, 27, 29, 32, 34, 35, 37, 39, 51, 52, 68, 74, 99</p><p>D</p><p>Desenvolvimento Sustentável 70</p><p>Direitos humanos 8, 11, 12</p><p>E</p><p>Educação Alimentar 4, 7, 11, 23, 41, 47, 75, 76, 89, 105, 120</p><p>Educação Alimentar e Nutricional 7, 11, 23, 41, 47, 75, 76, 89, 105,</p><p>120</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 145</p><p>G</p><p>Guia Alimentar para a População Brasileira 25, 41, 73, 90</p><p>I</p><p>Insegurança alimentar 8, 15, 20, 22, 75</p><p>J</p><p>Jogos digitais 4, 9, 119, 120, 121, 122, 123, 125, 126, 127, 130, 132,</p><p>133, 136, 137</p><p>L</p><p>Linguagem 29, 34, 51</p><p>N</p><p>Nutrição 7, 9, 13, 14, 15, 16, 18, 19, 20, 23, 26, 32, 35, 37, 55, 67, 69,</p><p>74, 76, 78, 105, 121, 139</p><p>P</p><p>Pandemia 8, 120</p><p>Políticas públicas 12, 16, 18, 87</p><p>Publicidade 22, 84, 85, 86, 87, 88, 89, 91, 94, 109, 118</p><p>R</p><p>Representações 27, 29, 31</p><p>S</p><p>Saúde 7, 8, 9, 17, 18, 21, 23, 41, 42, 48, 57, 65, 77, 78, 79, 93, 94, 106,</p><p>117, 118, 139, 140, 141, 142, 143</p><p>T</p><p>Transtornos alimentares 45, 102, 105, 109, 111</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 146</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>1. ALIMENTAÇÃO COMO DIREITO</p><p>2. A VALORIZAÇÃO DAS CULTURAS ALIMENTARES</p><p>3. O COMER E O MOMENTO DAS REFEIÇÕES</p><p>4. A CULINÁRIA E A TRANSFORMAÇÃO DOS ALIMENTOS</p><p>5. A ALIMENTAÇÃO, OS SISTEMAS ALIMENTARES E ASSUSTENTABILIDADES</p><p>6. O PROCESSAMENTO, A PUBLICIDADE E A PROPAGANDADE ALIMENTOS</p><p>7. O CORPO, AS MÍDIAS E AS REDES SOCIAIS</p><p>8. FOME, SACIEDADE E SATISFAÇÃO</p><p>9. JOGOS DIGITAIS PARA PROMOÇÃO DA ALIMENTAÇÃOSAUDÁVEL NA ADOLESCÊNCIA</p><p>SOBRE O ORGANIZADOR</p><p>SOBRE OS AUTORES E AUTORAS</p><p>ÍNDICE REMISSIVO</p><p>base práticas alimentares promotoras</p><p>de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental,</p><p>cultural, econômica e socialmente sustentáveis (BRASIL, 2006).</p><p>Para entender melhor como a SAN constitui um caminho para a</p><p>realização do DHAA, vamos discutir um pouco sobre as suas dimen-</p><p>sões: disponibilidade, acesso, utilização biológica e a estabilidade, que</p><p>é transversal às outras três. A disponibilidade diz respeito à produção</p><p>suficiente para atender à demanda de uma comunidade, seja ela obtida</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 15</p><p>diretamente pelo acesso a terras produtivas (agricultura ou pecuária),</p><p>seja pela possibilidade de aquisição nos comércios locais, ou ainda pelo</p><p>provimento de alimentos (doações). Mas a produção de alimentos sozi-</p><p>nha não é suficiente para assegurar que as pessoas estejam livres da fome</p><p>e da má nutrição. Se esse fosse o único fator determinante, o Brasil, um</p><p>dos maiores produtores de alimentos do mundo, não estaria com cerca</p><p>de 19 milhões de pessoas enfrentando a fome, conforme dados do In-</p><p>quérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da pande-</p><p>mia da Covid-19 no Brasil, publicado em 2021.</p><p>Nesse sentido, a segunda dimensão da SAN é fundamental para</p><p>entendermos por que isso acontece. Não basta que os alimentos estejam</p><p>disponíveis. É preciso que sua aquisição seja acessível para a população,</p><p>tanto física quanto financeiramente.</p><p>● Acesso físico: o alimento deve ser acessível a pessoas que vivem</p><p>em áreas de difícil acesso, como a realidade de muitas famílias de</p><p>regiões remotas no sertão nordestino, de indígenas aldeados, ou</p><p>ainda aquelas que são vítimas de desastres naturais ou guerras.</p><p>● Acesso financeiro: as pessoas devem ter acesso aos recursos fi-</p><p>nanceiros que possibilitem a aquisição de alimentos disponíveis</p><p>nas redes de comércio, de forma regular, permanente e irrestrita,</p><p>sem comprometer o acesso a outras necessidades básicas.</p><p>Nos anos de 2020 e 2021, com a emergência de saúde pública de-</p><p>corrente da pandemia da Covid-19, houve aumento no número de fa-</p><p>mílias brasileiras com algum grau de insegurança alimentar, devido à</p><p>crise econômica que se instalou no país e no mundo, gerando desem-</p><p>prego e, consequentemente, afetando a capacidade dessas famílias em</p><p>adquirir alimentos. O aumento do preço aliado à redução da renda</p><p>comprometeu a quantidade e a qualidade dos alimentos presentes na</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 16</p><p>mesa das famílias, com impacto também sobre a regularidade da oferta,</p><p>especialmente entre aqueles mais vulneráveis socialmente. Nesse con-</p><p>texto, o Estado tem o dever de intervir no cumprimento da obrigação</p><p>de prover, por meio de doações de alimentos, auxílios emergenciais ou</p><p>outras estratégias que garantam a alimentação e nutrição às famílias que</p><p>estejam enfrentando a fome e a má nutrição por situações que fogem ao</p><p>seu controle, como é o caso da pandemia.</p><p>O conceito de SAN evidencia que além de disponível e acessível em</p><p>quantidade suficiente, a alimentação deve ser de qualidade, para atingir</p><p>o seu objetivo de promover saúde. Com isso, é preciso haver o adequado</p><p>aproveitamento dos alimentos, sobre o qual se refere a terceira dimen-</p><p>são: a utilização biológica. Essa dimensão, que faz parte do componente</p><p>nutricional da SAN, ressalta a importância de que sejam assegurados os</p><p>meios para que o organismo utilize adequadamente os nutrientes. Por</p><p>exemplo, o acesso à água potável e ao esgotamento sanitário adequado é</p><p>primordial para evitar a ocorrência de doenças parasitárias que afetam a</p><p>absorção dos nutrientes.</p><p>A última dimensão da SAN é a estabilidade, a qual é transversal às</p><p>outras três. Isso significa que a alimentação deve ser disponível e acessí-</p><p>vel de forma regular, permanente e irrestrita. Pensemos, como exem-</p><p>plo, na população em situação de rua ou que reside em condições de</p><p>extrema vulnerabilidade social. É comum que em determinadas épocas,</p><p>com o final do ano, diversas iniciativas solidárias sejam articuladas pela</p><p>sociedade civil para realizar doação de cestas básicas, sopas, marmitas,</p><p>entre outros, para esse grupo. Apesar de serem importantes para aliviar a</p><p>fome dessas pessoas, essas são ações pontuais, enquanto a necessidade de</p><p>alimentação é permanente. Por isso, se reforça a obrigação do Estado em</p><p>respeitar, proteger e promover políticas públicas que alcancem a SAN</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 17</p><p>à medida que o DHAA seja gradativamente concretizado, com a estru-</p><p>turação de programas e ações que garantam a disponibilidade, acesso, a</p><p>adequada utilização biológica e a estabilidade da alimentação.</p><p>Para se alcançar a estabilidade, uma série de esforços governamen-</p><p>tais precisam ser realizados. Só é possível ter recursos financeiros que</p><p>garantam o acesso regular à alimentação a partir da realização do direi-</p><p>to ao trabalho, que por sua vez é oportunizado por meio do acesso à</p><p>educação de qualidade. Como já discutimos neste capítulo, o direito à</p><p>alimentação somente é efetivado plenamente com a realização dos de-</p><p>mais. A situação de SAN e, consequentemente a realização do DHAA,</p><p>é influenciada por fatores sociais, econômicos e culturais chamados de</p><p>determinantes sociais (quadro 1).</p><p>Quadro 1 - Determinantes sociais da Segurança Alimentar e Nutricional por</p><p>níveis sócio-organizacionais</p><p>NÍVEL DISPONIBILIDADE ACESSO UTILIZAÇÃO ESTABILIDADE</p><p>Macro</p><p>Políticas agrícolas –</p><p>incentivo e subsídios</p><p>Apoio à</p><p>agricultura</p><p>familiar</p><p>Políticas nacionais</p><p>de saneamento</p><p>básico e vigilância</p><p>sanitária</p><p>Mecanismos</p><p>internacionais e</p><p>nacionais para</p><p>manter a estabili-</p><p>dade econômica</p><p>Competição com</p><p>atividades agrícolas não</p><p>alimentares</p><p>Políticas</p><p>econômicas,</p><p>sociais e</p><p>assistenciais</p><p>Política de edu-</p><p>cação alimentar e</p><p>nutricional</p><p>Leis trabalhistas</p><p>Preços no mercado</p><p>internacional</p><p>Preços</p><p>internos Políticas de Saúde</p><p>Sustentabilidade</p><p>social, econômica</p><p>e ambiental de</p><p>políticas</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 18</p><p>Meso</p><p>Desastres ambientais e</p><p>guerras</p><p>Empregos e</p><p>salários</p><p>Saneamento</p><p>básico e vigilância</p><p>sanitária</p><p>Crescimento</p><p>do mercado de</p><p>emprego formal</p><p>Produção local</p><p>Preços dos</p><p>alimentos e de</p><p>outras necessi-</p><p>dades básicas</p><p>Disponibilidade</p><p>de serviços de</p><p>saúde</p><p>Disponibilidade</p><p>de creche</p><p>Disponi-</p><p>bilidade e</p><p>acessibilidade</p><p>de programas</p><p>sociais</p><p>Educação</p><p>alimentar e</p><p>nutricional</p><p>Variabilidade</p><p>climática</p><p>Flutuações de</p><p>preço</p><p>Micro</p><p>Proximidade aos pon-</p><p>tos de abastecimento e</p><p>venda de alimentos</p><p>Renda/</p><p>estabilidade</p><p>Financeira</p><p>Saúde dos</p><p>moradores Emprego formal</p><p>Produção para</p><p>Autoconsumo</p><p>Inserção</p><p>numa rede</p><p>social</p><p>Práticas de higiene Seguro-</p><p>desemprego</p><p>Participação</p><p>em programas</p><p>assistenciais</p><p>Acesso a sanea-</p><p>mento básico e</p><p>água potável</p><p>Capacidade</p><p>de armazenar</p><p>alimentos</p><p>Educação alimen-</p><p>tar e nutricional Vagas em creches</p><p>Fonte: BRASIL, 2014.</p><p>Dentro do escopo dos macrodeterminantes da SAN, estão as</p><p>políticas públicas de diversos setores, as quais devem estar articuladas</p><p>para se alcançar o objetivo maior de efetivar o DHAA. De forma obje-</p><p>tiva, são essas políticas que irão determinar se/como a alimentação es-</p><p>tará na mesa das famílias. Mesmo antes da inclusão da alimentação en-</p><p>quanto direito constitucional, o Brasil já dispunha de uma agenda de</p><p>políticas públicas e documentos orientadores de ações de alimentação</p><p>e nutrição (Fig.2). A maior parte delas incorporadas pelas políticas de</p><p>saúde, uma vez que as demandas decorrentes da violação do DHAA</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 19</p><p>e da SAN, tais como carências nutricionais, sobrepeso, obesidade e as</p><p>doenças crônicas não transmissíveis, são atendidas por esse setor.</p><p>Figura 2 - Principais políticas e programas de alimentação e nutrição</p><p>no país de 1940 até a atualidade</p><p>Legenda:</p><p>SAPS – Serviço de Alimentação da Previdência Social</p><p>STAN – Serviço Técnico de Alimentação Nacional</p><p>CNA – Comissão Nacional de Alimentação</p><p>PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar</p><p>INAN – Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição</p><p>PRONAN – Programa Nacional de Alimentação e Nutrição</p><p>PAT – Programa de Alimentação do Trabalhador</p><p>SISVAN – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional</p><p>PNAN – Política Nacional de Alimentação e Nutrição</p><p>LOSAN – Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutriciona</p><p>SISAN – Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional</p><p>DHAA – Direito Humano à Alimentação Adequada</p><p>BSM – Brasil Sem Miséria.</p><p>Fonte: Haack et al. (2018).</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 20</p><p>A Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) tem</p><p>como objetivo a melhoria das condições de saúde e nutrição da popu-</p><p>lação brasileira, realizada por meio da promoção de práticas alimenta-</p><p>res adequadas e saudáveis, a vigilância alimentar e nutricional, a pre-</p><p>venção e cuidado dos agravos relacionados à alimentação e nutrição,</p><p>tendo como pressupostos o direito à saúde e à alimentação. Apesar de</p><p>não tratar especificamente da SAN, a PNAN dialoga com a Política</p><p>Nacional de Segurança Alimentar Nutricional (PNSAN), prevista na</p><p>Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN), insti-</p><p>tuída pelo Decreto nº 7.272/2010. A PNSAN visa promover a SAN e</p><p>assegurar o DHAA em todo o território nacional.</p><p>As diretrizes da PNSAN envolvem uma abordagem intersetorial</p><p>necessária à efetivação do DHAA. São elas:</p><p>● Promoção do acesso universal à alimentação adequada e sau-</p><p>dável, com prioridade para as famílias e pessoas em situação de</p><p>insegurança alimentar e nutricional;</p><p>● Promoção do abastecimento e estruturação de sistemas sus-</p><p>tentáveis e descentralizados, de base agroecológica, de produção,</p><p>extração, processamento e distribuição de alimentos;</p><p>● Instituição de processos permanentes de educação alimentar e</p><p>nutricional, pesquisa e formação nas áreas de segurança alimen-</p><p>tar e nutricional e do direito humano à alimentação adequada;</p><p>● Promoção, universalização e coordenação das ações de segu-</p><p>rança alimentar e nutricional voltadas para quilombolas e demais</p><p>povos e comunidades tradicionais;</p><p>● Fortalecimento das ações de alimentação e nutrição em todos</p><p>os níveis da atenção à saúde, de modo articulado às demais ações</p><p>de segurança alimentar e nutricional;</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 21</p><p>● Promoção do acesso universal à água de qualidade e em quan-</p><p>tidade suficiente, com prioridade para as famílias em situação de</p><p>insegurança hídrica e para a produção de alimentos da agricultu-</p><p>ra familiar e da pesca e aquicultura;</p><p>● Apoio a iniciativas de promoção da soberania alimentar, segu-</p><p>rança alimentar e nutricional e do direito humano à alimentação</p><p>adequada em âmbito internacional e a negociações internacio-</p><p>nais;</p><p>● Monitoramento da realização do direito humano à alimenta-</p><p>ção adequada.</p><p>Essas são diretrizes norteadoras para a construção de um Plano</p><p>Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, dentro do contexto</p><p>do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN),</p><p>com vistas a articular programas e ações intersetoriais para respeitar,</p><p>promover, proteger e prover o DHAA, considerando as diversidades</p><p>socioculturais, ambientais, étnico-raciais e a equidade de gênero, além</p><p>de disponibilizar os mecanismos para sua exigibilidade.</p><p>Alguns exemplos de integração entre programas de diversos se-</p><p>tores para realização da SAN e efetivação do DHAA são: Programa</p><p>Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Programa de Aquisição</p><p>de Alimentos (PAA), Programa Bolsa Família (PBF), Estratégia Saúde</p><p>da Família (ESF), Programa Nacional de Fortalecimento da Agricul-</p><p>tura Familiar (PRONAF), entre outros.</p><p>A LOSAN prevê que o Estado deve dispor dos instrumentos</p><p>necessários para a exigibilidade do DHAA pela sociedade civil, mas</p><p>para poder exigi-lo é preciso que as pessoas se reconheçam enquanto</p><p>titulares dos direitos e quem são os portadores das obrigações. Esse</p><p>reconhecimento só acontece com acesso à informação, viabilizado por</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 22</p><p>meio da educação alimentar e nutricional (EAN), uma importante</p><p>estratégia para reflexão-ação sobre o DHAA e no fortalecimento do</p><p>controle social para promoção da SAN.</p><p>A abordagem do DHAA é diversa e possibilita discutir o assun-</p><p>to sobre diferentes óticas. Como dito neste capítulo, a sua exigibili-</p><p>dade deve abarcar os titulares do direito, incluindo os adolescentes,</p><p>que podem e devem ser protagonistas na identificação das violações</p><p>e na busca de ferramentas para que seja efetivado. A coexistência da</p><p>desnutrição, do sobrepeso e obesidade entre os adolescentes, manifes-</p><p>tações essas de insegurança alimentar e nutricional, denunciam que o</p><p>DHAA está sendo violado em alguma dimensão.</p><p>Cabe aos profissionais que irão orientar as ações para reconhe-</p><p>cimento da alimentação como direito, discutir assuntos como as de-</p><p>sigualdades sociais e suas relações com o combate à fome, o acesso à</p><p>ações de provimento da alimentação (programas de transferência de</p><p>renda, doação de cestas básicas), a realização do Programa Nacional</p><p>de Alimentação Escolar (PNAE) nas instituições em que estudam, a</p><p>importância da agricultura familiar na promoção da sustentabilidade</p><p>ambiental, social, econômica e cultural. Além disso, é primordial sen-</p><p>sibilizá-los sobre o apelo da publicidade de alimentos ultraprocessa-</p><p>dos e de que forma são influenciados pela indústria alimentícia. É nes-</p><p>se espaço de diálogo que o desenvolvimento do olhar crítico e sensível</p><p>para os fatores que permeiam as diferentes dimensões do DHAA será</p><p>amadurecido e os adolescentes atores na busca efetivação do direito.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 23</p><p>Referências</p><p>ARRUDA TEO, C.R.P. et al. Direito Humano à Alimentação Adequada:</p><p>percepções e práticas de nutricionistas a partir do ambiente escolar. Trabalho,</p><p>Educação e Saúde [online]. 2017, v. 15, n. 1 [Acessado 30 Outubro 2021] , pp.</p><p>245-267. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00045. Epub</p><p>08 Dez 2016. ISSN 1981-7746. https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00045.</p><p>BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do</p><p>Brasil. Brasília, DF, Centro Gráfico, 1988.</p><p>BRASIL. Lei no 11.346, de 15 de setembro de 2006. Cria o Sistema Nacional</p><p>de Segurança Alimentar e Nutricional SISAN com vistas em assegurar o</p><p>direito humano à alimentação adequada e dá outras providências. Diário</p><p>Oficial da União, Brasília, DF 2006.</p><p>BRASIL. Decreto no 7.272, de 25 de agosto de 2010. Regulamenta a Lei nº</p><p>11.346, de 15 de setembro de 2006, que cria o Sistema Nacional de Segurança</p><p>Alimentar e Nutricional - SISAN com vistas a assegurar o direito humano à</p><p>alimentação adequada, institui a Política Nacional de Segurança Alimentar e</p><p>Nutricional - PNSAN, estabelece os parâmetros para a elaboração do Plano</p><p>Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, e dá outras providências.</p><p>Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2010.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento</p><p>de Atenção Básica. Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Ministério</p><p>da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.</p><p>Básica. – 1. ed., 1. reimpr. – Brasília: Ministério da Saúde, 2013.</p><p>BRASIL. Educação Alimentar e Nutricional no Programa Bolsa Família. Rio</p><p>de Janeiro: EAD/ENSP, 2014. 128 p.</p><p>BURITY, V. et al. Direito Humano à Alimentação Adequada no Contexto</p><p>da Segurança Alimentar e Nutricional. ABRANDH, [s. l.], n. JULY, p. 204,</p><p>2010.</p><p>HAACK, A. et al. Políticas e programas de nutrição no Brasil da década de 30</p><p>até 2018: uma revisão da literatura. Com. Ciências Saúde, [s. l.], v. 29, n. 2, p.</p><p>126–138, 2018.</p><p>LEÃO, M.M.; RECINE, Elisabetta. O direito humano à alimentação</p><p>adequada. In: TADDEI, J. A. et al. Nutrição em saúde pública. São Paulo:</p><p>Rubio, 2011. p. 471–488.</p><p>https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00045</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 24</p><p>LEÃO, M. et al. O direito</p><p>humano à alimentação adequada e o sistema</p><p>nacional de segurança alimentar e nutricional. ABRANDH, 2013.</p><p>ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Organizações das</p><p>Nações Unidas. Comentário geral n. 12: o direito humano à alimentação</p><p>adequada (art. 11). 1999. Disponível em: http://www.mpf.mp.br/pfdc/gts-</p><p>e-relatorias/alimentacao-adequada/temas-trabalhados/docs/Comentario%20</p><p>Geral%20No%2012.pdf/view.</p><p>ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Declaração Universal</p><p>dos Direitos Humanos. Disponível em: http:/www.onu-brasil.org.br/</p><p>documentos direitos humanos.php.</p><p>http://www.mpf.mp.br/pfdc/gts-e-relatorias/alimentacao-adequada/temas-trabalhados/docs/Comentario Geral No 12.pdf/view</p><p>http://www.mpf.mp.br/pfdc/gts-e-relatorias/alimentacao-adequada/temas-trabalhados/docs/Comentario Geral No 12.pdf/view</p><p>http://www.mpf.mp.br/pfdc/gts-e-relatorias/alimentacao-adequada/temas-trabalhados/docs/Comentario Geral No 12.pdf/view</p><p>DOI: 10.52788/9786589932659.1-2 25</p><p>CAPÍTULO 2</p><p>A VALORIZAÇÃO DAS CULTURAS</p><p>ALIMENTARES</p><p>Thágila Maria dos Santos de Oliveira</p><p>Quando pensamos em alimentação saudável, devemos pensar nos</p><p>aspectos culturais da alimentação? Por que isso tem potencial para ser</p><p>trabalhado na adolescência? Em 2014 foi publicada uma nova edição</p><p>do Guia Alimentar para a População Brasileira. Nele, uma das carac-</p><p>terísticas mais interessantes, quando comparado à versão anterior, foi</p><p>a atenção dada à importância da valorização das culturas alimentares</p><p>dentro de uma alimentação saudável. Isso nos mostra a importância</p><p>de se pensar cultura e alimentação quando pensamos em questões re-</p><p>lacionadas à saúde.</p><p>A reflexão sobre os aspectos culturais que moldam nossa alimen-</p><p>tação é imprescindível, sobretudo na adolescência, porque podemos</p><p>refletir sobre o porquê comemos, o que comemos, e assim refletir so-</p><p>bre o que é uma alimentação saudável na sociedade em que vivemos,</p><p>podendo, dessa forma, fazer escolhas alimentares mais críticas e cons-</p><p>cientes. Pensando nessa relação, neste texto trarei algumas categorias</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 26</p><p>que podem ser abordadas com adolescentes para pensar a relação en-</p><p>tre alimentação e cultura.</p><p>Mas antes de adentrar no tema, eu gostaria de contar uma his-</p><p>tória de um episódio da minha vida o qual sempre lembro. Uma vez,</p><p>ainda como estudante de nutrição, recebi uma turca intercambista em</p><p>minha casa, e para apresentar o Brasil, nada melhor do que mostrar a</p><p>“culinária brasileira” do meu entendimento. Mas claro que ela tam-</p><p>bém deveria mostrar a “culinária turca” para mim. Eu fiz um pudim</p><p>de coco e ela fez uma bebida com iogurte. Meu pudim estava muito</p><p>doce e a bebida era feita com água mineral, iogurte natural e sal. Ela</p><p>provou meu pudim e fez uma cara não muito interessante, mas disse</p><p>que estava bom. Eu insisti que ela comesse mais, porém a tentativa</p><p>fora recusada. Acredito que a quantidade de açúcar do pudim não</p><p>era habitual para ela. E eu confesso que iogurte com granola, aveia e</p><p>mel para mim seria mais apetitoso que o ayran, a bebida de água, sal e</p><p>iogurte, típica da região dela.</p><p>Essa pequena história nos “abre o apetite” para pensar alguns as-</p><p>pectos do nosso paladar e da nossa cultura. Enquanto o excesso de</p><p>açúcar para a turca era repugnante, o ayran para mim não era nada</p><p>saboroso. Nós crescemos em lugares onde a cultura alimentar não nos</p><p>permitia entender aquele sabor. A alimentação humana, como dito</p><p>pelos antropólogos Jésus Contreras e a antropóloga Mabel Gracia</p><p>(2011), é um fenômeno biopsicossocial, ou seja, os alimentos têm sua</p><p>função biológica de nutrir o corpo, mas há questões sociais, culturais</p><p>e psicológicas que determinam o que comemos e não comemos.</p><p>Portanto, este texto trará alguns conceitos e questões importan-</p><p>tes dentro do campo da alimentação e cultura. Inicialmente farei uma</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 27</p><p>breve explanação sobre o conceito de cultura e em seguida explicarei</p><p>o que é cultura alimentar. Posteriormente trago alguns conceitos e</p><p>classificações dentro dos estudos sobre cultura alimentar com alguns</p><p>exemplos. Por último, eu explico a relação entre cultura, alimentação</p><p>e saúde e em seguida as considerações finais.</p><p>Cultura, alimentação, simbologias e identidades</p><p>Antes de explicar o que seria a cultura alimentar, é interessante</p><p>que exploremos o conceito de cultura. Muitas vezes observamos as</p><p>pessoas falarem sobre cultura de forma equivocada como se fosse um</p><p>termo que classifica os indivíduos entre “os que têm cultura” e “os que</p><p>não têm cultura”. A discussão sobre cultura é bastante abrangente,</p><p>mas podemos conceituá-la segundo o antropólogo Geertz (1987)</p><p>cultura denota um esquema de significados historicamente transmitido</p><p>representado em símbolos, um sistema de concepções herdadas e expressas</p><p>em formas simbólicas por meio do qual os homens comunicam, perpetuam</p><p>e desenvolvem seus conhecimentos e suas atitudes perante a vida (GEERTZ,</p><p>1987).</p><p>Nesse sentido, podemos adentrar no conceito de cultura alimen-</p><p>tar. O antropólogo Jesus Contreras (2002, p. 222) conceituou cultura</p><p>alimentar como “o conjunto de representações, crenças, conhecimen-</p><p>tos e práticas herdadas e/ou aprendidas que estão associadas à comi-</p><p>da e que são compartilhadas por indivíduos de uma dada cultura ou</p><p>de um determinado grupo social dentro de uma cultura”. Em outras</p><p>palavras, isto quer dizer que nossas concepções sobre o comestível, pa-</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 28</p><p>latável, o tóxico, o venenoso, o saudável ou o perigoso também são</p><p>determinadas culturalmente.</p><p>Ora, os seres humanos são animais onívoros, portanto são capa-</p><p>zes de se alimentar de várias substâncias presentes na natureza. Preci-</p><p>samos de uma quantidade de proteínas, carboidratos, lipídios, mine-</p><p>rais, vitaminas e outros nutrientes que em quantidades inferiores ou</p><p>superiores às necessidades corporais podem nos levar ao adoecimento.</p><p>Entretanto, nem todas as substâncias presentes na natureza servem de</p><p>alimento para o corpo. Devido a nossa condição de onívoro, nossa ali-</p><p>mentação leva em consideração questões biológicas, ideológicas, tec-</p><p>nológicas, sociais, econômicas e políticas.</p><p>Por exemplo, vamos pensar no consumo de animais ao redor do</p><p>mundo. É comum a ingestão de insetos em alguns países da América</p><p>central e em algumas comunidades indígenas da América do Sul. Em</p><p>alguns países asiáticos, é comum o consumo de carne de cachorro, o</p><p>que nos países americanos seria considerado um crime. Neste quadro</p><p>1, adaptado de Claude Fischler (1995), podemos ter uma percepção</p><p>sobre essa questão:</p><p>Quadro 1 - Classificação segundo as culturas (comestível/não comestível) de</p><p>certas espécies animais</p><p>COMESTÍVEL NÃO COMESTÍVEL</p><p>INSETOS América Latina, Asia,</p><p>África...</p><p>Europa Ocidental, América do</p><p>Norte...</p><p>CACHORRO Corea, China,</p><p>Oceania...</p><p>América de Norte, Europa...</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 29</p><p>CAVALO França, Bélgica,</p><p>Espanha, Japão...</p><p>América do Norte, Grã- Bretanha...</p><p>COELHO França, Itália,</p><p>Espanha...</p><p>América do Norte, Grã- Bretanha...</p><p>CARAMUJOS França, Itália,</p><p>Espanha...</p><p>América do Norte, Grã- Bretanha...</p><p>RÃ França, Ásia... América do Norte, Europa...</p><p>Fonte: (FISCHLER, 1995).</p><p>Enquanto em alguns lugares um determinado animal pode ser</p><p>considerado comestível, em outros pode ser considerado repugnante.</p><p>A partir disso voltamos à questão biológica. Todos esses animais con-</p><p>têm nutrientes, principalmente proteínas, e fisiologicamente podem</p><p>cumprir o seu papel, mas nem todos são culturalmente comestíveis.</p><p>Além das questões que envolvem a permissão e proibição de</p><p>animais e plantas consideradas comestíveis, é interessante pensar nesse</p><p>momento o conceito de cozinha. Segundo o antropólogo Claude</p><p>Lévi-Strauss (2004), a cozinha é uma linguagem a qual cada sociedade</p><p>expressa suas estruturas e suas contradições. O sociólogo Claude Fischler</p><p>(1995), consoante a Lévi-Strauss, entende que no conceito de cozinha</p><p>estão associadas representações, práticas e crenças compartilhadas por</p><p>indivíduos</p><p>de uma mesma cultura ou de um grupo dentro desta cultura.</p><p>Estas representações, crenças e práticas podem estar relacionadas</p><p>à maneira de cozinhar, ao modo de servir, ao horário de cada refeição,</p><p>à ordem de cada refeição e ao momento de cada refeição. Para exempli-</p><p>ficar a ideia de Lévi-Strauss e Claude Fischler, vamos pensar em dois</p><p>exemplos interessantes com as imagens a seguir:</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 30</p><p>Figura 1 - A quebra do Macarrão</p><p>Fonte: https://www.facebook.com/rossopassaporto/photos/-quebrar-spaghetti-por-a-</p><p>qui-chega-a-ser-um-crime-falando-em-pasta-uma-curiosidad/2456444894618638/.</p><p>Figura 2 - 1) “English Breakfast”; 2) Imagem do Guia Alimentar para</p><p>população brasileira</p><p>Fonte: https://iamafoodblog.com/a-breakdown-of-the-full-english-breakfast; https://</p><p>bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2008.pdf.</p><p>https://www.facebook.com/rossopassaporto/photos/-quebrar-spaghetti-por-aqui-chega-a-ser-um-crime-falando-em-pasta-uma-curiosidad/2456444894618638/</p><p>https://www.facebook.com/rossopassaporto/photos/-quebrar-spaghetti-por-aqui-chega-a-ser-um-crime-falando-em-pasta-uma-curiosidad/2456444894618638/</p><p>https://iamafoodblog.com/a-breakdown-of-the-full-english-breakfast/</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 31</p><p>Na figura 1, temos uma tirinha ilustrando uma pessoa cozinhan-</p><p>do um macarrão. No momento de adicioná-lo à água quente, ela que-</p><p>bra a massa, fazendo aparecer um globo com as cores da bandeira da</p><p>Itália que diz: traidora da pátria. O humor da tirinha dá-se exatamen-</p><p>te por uma regra culinária transgredida, sobretudo em uma sociedade</p><p>na qual a culinária é um importante marcador cultural. Diz-se que na</p><p>Itália o macarrão deve ser colocado inteiro na água para cozinhar.</p><p>O segundo exemplo (figura 2), na imagem 1 temos um English</p><p>breakfast, um típico café da manhã inglês; e na imagem 2, um prato</p><p>de almoço típico no Brasil. Percebam que em ambos os pratos há fei-</p><p>jão com caldo. Vendo a imagem 01, qualquer brasileiro poderia pen-</p><p>sar que o prato corresponde à refeição do almoço, e talvez um inglês</p><p>pudesse associar o prato de arroz com feijão do Brasil a um café da</p><p>manhã. O que acontece é que no Brasil o arroz com feijão é um prato</p><p>consumido no horário do almoço e o English Breakfast um prato con-</p><p>sumido no café da manhã. Inverter as ordens da “hora certa” de comer</p><p>determinado alimento poderia provocar estranhamento.</p><p>Os alimentos também podem ser classificados de acordo com re-</p><p>gras que respeitem a idade, o sexo, a posição, o espaço, status, religião e</p><p>outras variáveis. Como explicita Claude Fischler (1995),</p><p>Entre os alimentos classificados como comestíveis e consumíveis, intervêm</p><p>as regras de propriedade e contextualidade. Entre os critérios que regem</p><p>essas regras implícitas ou explícitas, as mais claras e frequentes dizem</p><p>respeito aos comensais: sua idade, sexo, posição, status, seu papel social. As</p><p>relações dos alimentos entre si interferem constantemente, na forma, por</p><p>exemplo, regras de associação e exclusão, princípios de compatibilidade ou</p><p>incompatibilidade que podem ser considerados propriamente culinários.</p><p>As refeições são estruturadas de acordo com uma gramática e sintaxe</p><p>complexas. Os sistemas de representações sanitárias são outro critério</p><p>importante para ordenar a alimentação (FISCHLER, 1995, p.49).</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 32</p><p>Para compreender esses critérios, vejamos o quadro 2 a seguir:</p><p>Quadro 2 - Categorias dos alimentos</p><p>CATEGORIAS OBSERVAÇÕES</p><p>Comida de criança Balas, pirulitos, sorvetes, jujubas, pipocas, cocadas e doces.</p><p>Comida de São João Canjica, pé de moleque, arroz doce, milho cozido,</p><p>pamonha etc.</p><p>Comida de festa de</p><p>aniversário.</p><p>Bolo, docinhos, refrigerantes, salgadinhos, sanduíches,</p><p>cachorros-quentes.</p><p>Comida sagrada Pão e vinho</p><p>Comida fitness Há vários exemplos, mas normalmente se associa a</p><p>alimentos com baixo teor de gordura e carboidratos.</p><p>Doces sem açúcar, pizza low carb etc.</p><p>Comida de hospital Comida sem sabor, sem sal e sem açúcar.</p><p>Comida de bar Bebidas alcóolicas, bolinhos, pasteis, croquetes, caldos,</p><p>churrasquinhos etc.</p><p>Fonte: Elaborado pela autora.</p><p>Estes são alguns exemplos de categorias alimentares. Poderíamos</p><p>construir mais categorias, como “comida de mulher”, “comida ruim”,</p><p>“comida saudável”, “comida de pobre”, “comida de rico”, entre tantas</p><p>outras. As categorias edificam as regras que circundam nossa relação</p><p>com os alimentos e partem de um sistema de valores existentes na cul-</p><p>tura. Entretanto, esse sistema de valores não é estático. A cultura não</p><p>é um elemento estático, ela se modifica, portanto, esse sistema de valo-</p><p>res relacionados a comida também se modifica.</p><p>Um exemplo interessante do campo da nutrição é a classificação</p><p>do que seria “comida de criança”. Por muito tempo convencionou-se</p><p>33</p><p>que as guloseimas seriam a “comida de criança”. Hoje os nutricionis-</p><p>tas reivindicam o termo comida de criança como os legumes, as frutas</p><p>e verduras.</p><p>As classificações alimentares também nos permitem demarcar o</p><p>que entendemos como as identidades alimentares de regiões específi-</p><p>cas. Eu poderia perguntar: qual a identidade da cozinha brasileira? E</p><p>da cozinha argentina? E a cozinha francesa? Japonesa? Pensando no</p><p>território brasileiro, o que seria uma cozinha baiana? Carioca? Gaú-</p><p>cha? Paraense?</p><p>A construção das identidades alimentares a partir da localização</p><p>geográfica é tema de muitas discussões nas ciências humanas. O soció-</p><p>logo Jean Pierre Poulain (2004) explica, por exemplo, em seu livro So-</p><p>ciologias da Alimentação, que esse anseio pela defesa das identidades</p><p>alimentares está relacionado a uma crise identitária da sociedade em</p><p>resposta a um processo de mundialização e industrialização de merca-</p><p>dos alimentares.</p><p>Pensando no Brasil, um país de dimensões continentais em que</p><p>se come de tantas formas diferentes, o que de fato poderíamos afirmar</p><p>como uma “culinária brasileira”? Não me alongo sobre esta pergunta,</p><p>pois além de ser uma discussão longa que me levaria a escrever muitas</p><p>páginas, essa é uma pergunta de reflexão para o leitor. O que de fato</p><p>interessa-nos é pensar que o discurso sobre as identidades alimentares</p><p>também é uma construção cultural de uma sociedade que também</p><p>deseja ver e se mostrar através da comida.</p><p>Vamos lembrar do exemplo da figura 1. Além do papel da sáti-</p><p>ra sobre uma regra culinária transgredida, aquela imagem mostra um</p><p>símbolo da identidade alimentar italiana: o macarrão. Isso quer dizer</p><p>que todos os dias se come macarrão na Itália? Pode ser que sim e pode</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 34</p><p>ser que não. Para saber disso, poderíamos nos debruçar sobre uma</p><p>pesquisa dos hábitos alimentares italianos em várias regiões, mas a</p><p>principal mensagem é que no processo histórico da sociedade italiana</p><p>convencionou-se pensar, por diversas questões sociais e culturais desse</p><p>povo, que o macarrão é parte da identidade alimentar. Nesse ponto</p><p>lembramos sempre de Lévi-Strauss quando fala da cozinha como uma</p><p>linguagem que revela as estruturas da sociedade.</p><p>Vejamos o exemplo do livro A história da Alimentação, de Luís</p><p>da Câmara Cascudo. Nessa obra, o autor defende que a cozinha bra-</p><p>sileira é resultado da união de três cozinhas distintas: a indígena, a</p><p>portuguesa e a africana. A obra de Cascudo, considerada por muitos</p><p>estudiosos da alimentação como um importante marco dos estudos</p><p>alimentares, vem de uma época em que se tentava explicar as quais</p><p>eram “raízes” do Brasil ou a identidade do Brasil. Portanto, se viemos</p><p>de uma mistura de três raças, a nossa comida seria formada pela união</p><p>de três culturas distantes. Mas será que é possível pensar na alimenta-</p><p>ção brasileira apenas por essa ótica?</p><p>Cultura alimentar e nossa relação com a saúde</p><p>Como já mencionado, cada cultura molda seus próprios critérios</p><p>sobre alimentação, dessa forma nossa percepção sobre a relação entre</p><p>corpo, saúde e alimentação também</p><p>tem seu cunho cultural.</p><p>Recentemente, muitos profissionais de saúde têm se questionado</p><p>sobre os discursos dietéticos e a influência destes sobre a saúde dos</p><p>indivíduos. A questão é que vivenciamos uma época a qual estamos</p><p>imersos em discursos contraditórios sobre alimentação e corpo saudá-</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 35</p><p>veis. Há classificações ora muito abrangentes, ora muito restritas em</p><p>relação às categorias de “alimento saudável”, “corpo saudável”, “comi-</p><p>da boa”, “comida ruim”, “corpo bonito” e “corpo saudável”. O que</p><p>pode ser um “alimento saudável” hoje, talvez não seja amanhã. O soci-</p><p>ólogo Claude Fischler (1979) conceitua a gastroanomia (gastronomia</p><p>+ anomia) como o mal-estar causado pelo excesso de informações so-</p><p>bre alimentação e nutrição. O comensal moderno recebe tantas infor-</p><p>mações contraditórias sobre a alimentação que o leva a uma situação</p><p>de ansiedade alimentar.</p><p>Além disso, uma marca da cultura alimentar moderna tem sido</p><p>reduzir a comida aos seus nutrientes. Há uma tendência em conceitu-</p><p>ar os alimentos quanto ao seu teor nutritivo. O termo nutricionismo,</p><p>estudado pelo pesquisador Gyogy Scrins (2013) e difundido pelo jor-</p><p>nalista Michael Pollan, refere-se a esse aspecto ideológico de pensar a</p><p>comida restringindo-a aos seus nutrientes. Uma laranja ou limão são</p><p>referidos como vitamina C, a carne é referida como proteína e uma pi-</p><p>zza ou uma salada de batatas podem ser referidas como carboidratos.</p><p>Vejamos as figuras 3 e 4 que nos mostram:</p><p>Figura 3 - Tirinha de Garfield</p><p>Fonte: https://app.planejativo.com/q/42251/portugues/charges-e-tirinhas.</p><p>https://app.planejativo.com/q/42251/portugues/charges-e-tirinhas</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 36</p><p>Figura 4 - Alimentos de uma dieta low carb.</p><p>Fonte: https://br.pinterest.com/iolandasamo/low-carb-diet/.</p><p>A figura 3 mostra uma tirinha do Garfield em que é oferecida a ele</p><p>uma vitamina C, mas ele recusa e quando é mencionado que a vitami-</p><p>na C está na lasanha ele a come. Mesmo que a lasanha seja o principal</p><p>desejo do Garfield, Jon não oferece a comida, mas sim o nutriente: a</p><p>vitamina. Na figura 4, temos um cardápio que enfatiza nutrientes da</p><p>refeição, como o carboidrato e a proteína, sem citar o nome dos alimen-</p><p>tos ou preparações. Esses dois exemplos mostram como o “nutricionis-</p><p>mo” é um conceito presente culturalmente no cotidiano alimentar.</p><p>https://br.pinterest.com/iolandasamo/low-carb-diet/</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 37</p><p>Considerações finais</p><p>Com base nessas ideias, educadores em alimentação e nutrição</p><p>podem estimular adolescentes a compreender melhor a diversidade</p><p>cultural sobre temas relacionados à alimentação e nutrição.</p><p>Como as diversas sociedades comem? Como elas criam suas con-</p><p>cepções e regras sobre o horário de comer, sobre técnicas culinárias,</p><p>sobre o corpo e a saúde? Neste texto explanei algumas questões que</p><p>envolvem cultura e alimentação que podem ser utilizadas para tra-</p><p>balhar com adolescentes. Vimos que a cultura pode ser conceituada</p><p>como um esquema de significados historicamente transmitido repre-</p><p>sentado em símbolos e um sistema de concepções herdadas e expresso</p><p>em formas simbólicas por meio do qual os homens se expressam. O</p><p>homem, como um animal onívoro, não escolhe seus alimentos ape-</p><p>nas pelas questões fisiológicas individuais. A cultura molda as nossas</p><p>escolhas alimentares, interferindo na maneira como enxergamos os</p><p>alimentos, o corpo e a nossa própria saúde.</p><p>Reiterando o que foi dito no início do capítulo, refletir sobre os</p><p>aspectos culturais da alimentação como abordado neste capítulo pode</p><p>levar aos adolescentes a fazerem escolhas alimentares mais críticas e</p><p>conscientes.</p><p>Referências</p><p>CASCUDO, Luis Câmara. A História da Alimentação no Brasil. São Paulo:</p><p>Global, 2011.</p><p>CONTRERAS J, GRACIA M. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de</p><p>Janeiro: Fiocruz; 2011. 496 p.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 38</p><p>CONTRERAS, J. La modernitat alimentària. Entre la desestructuració i la</p><p>proliferació de codis. Dialnet Metris.  ISBN 84-7306-802-5, 2002.</p><p>FISCHLER C. El (h)omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo. Barcelona:</p><p>Anagrama; 1995. 421 p</p><p>FISCHLER C. Gastro-nomie et gastro-anomie: sagesse du corps et crise</p><p>bioculturelle de l’alimentation moderne [Internet]. Paris: Communications</p><p>(31); 1979 [acessado 2021 out 20]. Disponível em: http://www.persee.</p><p>fr/web/revues/home/prescript/article/comm_0588- 8018_1979_</p><p>num_31_1_1477.</p><p>GEERTZ, C. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1987.</p><p>LÉVI-STRAUSS C. O cru e o cozido. São Paulo, CosacNaify, 2004. 442 p.</p><p>POULAIN, J.P. Sociologias da alimentação: os comedores e o espaço social</p><p>alimentar. Florianópolis: UFSC; 2004. 311 p.</p><p>SCRINIS, G. Nutricionism: the science and politics of dietary advice. New</p><p>York: Columbia University Press, 2013.</p><p>DOI: 10.52788/9786589932659.1-3 39</p><p>CAPÍTULO 3</p><p>O COMER E O MOMENTO</p><p>DAS REFEIÇÕES</p><p>Rebekka Fernandes Dantas</p><p>Para entender a importância de trabalhar o comer e o momen-</p><p>to das refeições com adolescentes, faz-se necessário refletir sobre a ali-</p><p>mentação como parte da cultura e da sociedade, o que vai além dos</p><p>seus aspectos biológicos. Como dito por Edgar Morin (2000), somos</p><p>100% natureza e 100% cultura, ou seja, esses dois elementos não estão</p><p>separados, mas coexistem, ainda que, quando se trata de realizar ativi-</p><p>dades educativas sobre alimentação saudável, seja dada atenção majo-</p><p>ritária aos aspectos biológicos e nutricionais.</p><p>Podemos compreender melhor os aspectos sociais e culturais da</p><p>alimentação ao pensar no fato de que, apesar de onívoros, não come-</p><p>mos efetivamente tudo, pois além de comestíveis do ponto de vista</p><p>biológico, os alimentos precisam ser culturalmente comestíveis, ou</p><p>seja, elegidos por uma determinada cultura (FISCHLER, 1995).</p><p>Por isso que, como nos conta o antropólogo Claude Lévi-Strauss</p><p>(2006), os militares norte-americanos, ao desembarcarem na França</p><p>durante a Segunda Guerra Mundial, destruíram diversas queijarias</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 40</p><p>normandas, pois o aroma, tão apreciado pelos franceses, era interpre-</p><p>tado como cheiro de cadáver.</p><p>De forma semelhante, a ginga, pequeno peixinho que hoje com-</p><p>põe um prato típico da Redinha (bairro de Natal/RN) chamado gin-</p><p>ga com tapioca, era visto como comida de pobre e ficava desperdiçada</p><p>na praia. Até que um homem chamado Geraldo Januário teve a ideia</p><p>de pedir à sua esposa, Dalila, para fritá-lo, espetá-lo em palitos de co-</p><p>queiro e colocá-lo dentro da tapioca, criando a preparação que hoje</p><p>é até reconhecida por lei estadual como patrimônio imaterial do Rio</p><p>Grande do Norte (DANTAS, 2015).</p><p>Essa capacidade de transformar os alimentos em comida, cons-</p><p>titui o que chamamos de cozinha ou sistema alimentar, que está en-</p><p>volvido com a preparação, combinação de ingredientes, colheita e</p><p>consumo e é regido por regras específicas que comportam dimensões</p><p>imaginárias, simbólicas e sociais (FISCHLER, 1995).</p><p>Por algum tempo, acreditou-se que a cozinha era um elemen-</p><p>to de distinção entre seres humanos e outros animais, o que foi por</p><p>água abaixo com a descoberta de uma população de macacos da ilha</p><p>de Koshima. Eles mergulhavam a batata-doce na água antes de comê-</p><p>-la, migrando depois para o mar, onde também poderiam “temperar”</p><p>seus alimentos (FLANDRIN; MONTANARI, 1998).</p><p>Com isso, passou-se a achar que o comportamento humano di-</p><p>ferenciador seria a comensalidade, ou o ato de comer e beber junto,</p><p>porém os animais também comem juntos, a exemplo dos felinos, que</p><p>têm estratégias de caça e levam a presa para ser comida em conjunto</p><p>com os demais do bando (LANDINI, 1998).</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 41</p><p>O que nos diferencia é, então, o modo como fazemos a nossa co-</p><p>zinha e a forma como comemos juntos (escolha de ingredientes, for-</p><p>mas de cocção, normas alimentares etc.), pois a alimentação, ao mes-</p><p>mo tempo que é partilhada com os animais, também é elemento de</p><p>distinção</p><p>(PERLÉS, 1979).</p><p>Comer junto faz bem à saúde</p><p>Apesar da importância desses dois elementos: cozinha e comen-</p><p>salidade, uma maior ênfase parece ser dada ao que comemos e aos</p><p>nutrientes que compõem a comida, em detrimento do modo como</p><p>comemos juntos, como vemos nos estudos científicos, consultórios</p><p>ou nas atividades educativas.</p><p>O Guia Alimentar para a População Brasileira (BRASIL, 2014),</p><p>documento muito importante no apoio às ações de Educação Alimen-</p><p>tar e Nutricional, foi publicado pelo Ministério da Saúde e, em sua</p><p>edição de 2014, vai contra a corrente. Ele traz um capítulo inteiro (“O</p><p>ato de comer e a comensalidade”) sobre a comensalidade e apresenta</p><p>três orientações básicas sobre o tema, considerando que elas podem</p><p>contribuir para a saúde e a interação social:</p><p>1. Comer com regularidade e atenção. Procurar alimentar-se</p><p>em horários regulares, evitando “beliscar” entre as refeições, além</p><p>de comer devagar, desfrutando da comida sem ficar envolvido</p><p>com outra atividade, como ficar no celular.</p><p>2. Comer em ambientes apropriados. O ambiente da alimen-</p><p>tação deve ser limpo, confortável e tranquilo, sem estímulo para</p><p>o consumo ilimitado de alimentos, como a oferta de grandes por-</p><p>ções de comida.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 42</p><p>3. Comer em companhia. Quando possível, comer acompanha-</p><p>do de familiares, amigos ou colegas da escola ou trabalho. Além</p><p>disso, compartilhar também as tarefas que antecedem as refei-</p><p>ções, como o preparo e as que sucedem, como lavar a louça.</p><p>O Guia Alimentar traz essas recomendações, pois na prática e nos</p><p>estudos científicos, a comensalidade tem se mostrado uma aliada da</p><p>saúde.</p><p>A tese de Diôgo Vale, por exemplo, realizada com dados da Pes-</p><p>quisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2015 mostrou que</p><p>adolescentes que realizam almoço ou jantar com os pais ou responsá-</p><p>veis tiveram indicadores alimentares e nutricionais melhores (VALE,</p><p>2020). Os adultos também parecem se beneficiar da comensalidade.</p><p>Um estudo realizado com 7725 adultos coreanos que participaram</p><p>do Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição (KHANES) 2013-2014</p><p>apresentou em seus resultados que comer sozinho eleva a probabilida-</p><p>de de desenvolver síndrome metabólica (KWON et al., 2017).</p><p>Comensalidade ou comensalidades?</p><p>Ainda que saibamos dos benefícios da comensalidade para a saú-</p><p>de, não podemos deixar de discutir as diferentes configurações da co-</p><p>mensalidade, ou melhor, comensalidades.</p><p>Cabe lembrar que “comensal” deriva da palavra em latim com-</p><p>mensalis (de cum, com + mensa, mesa) (HOUAISS, 2009), significan-</p><p>do “conviver à mesa”. Ou seja, comer junto guarda uma estreita relação</p><p>com a convivência, podendo ser tão desafiante e conflituosa quanto.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 43</p><p>Pense em quantos momentos diferentes podemos praticar a co-</p><p>mensalidade. Diariamente, ao comer em família, nas refeições princi-</p><p>pais, em festas, nas comemorações de momentos importantes da vida</p><p>(como aniversários e casamentos), na partilha daquela deliciosa feijo-</p><p>ada ou de um fast-food com os amigos. Enfim, as circunstâncias são</p><p>muitas e tudo isso é comer junto.</p><p>No entanto, de maneira geral, o mundo contemporâneo apre-</p><p>senta algumas particularidades em relação à comensalidade. Por exem-</p><p>plo, é fácil perceber que cada vez mais comemos menos em família.</p><p>Isso acontece, em partes, porque cada membro da família tem ativida-</p><p>des e horários diferentes e já não é mais viável o encontro em casa de</p><p>todos eles, sem falar que a inserção da mulher (maior responsável pelo</p><p>preparo de alimentos) no mercado de trabalho deu a ela uma dupla</p><p>jornada laboral, sem que houvesse uma reorganização da divisão se-</p><p>xual das atividades domésticas. Do mesmo modo, os escolares podem</p><p>ter diversas atividades ao longo do dia, não sendo possível ir em casa</p><p>realizar suas refeições, de modo que são feitas com os amigos ou soli-</p><p>tariamente. E mesmo quando fazemos as refeições em companhia é</p><p>comum a presença de elementos individualistas.</p><p>Talvez você já tenha passado por situações em que o momento da</p><p>refeição é partilhado com pessoas que apresentam diferentes particu-</p><p>laridades alimentares, como vemos na figura 1, ilustração da cartunis-</p><p>ta Roz Chast, publicada no jornal New Yorker em novembro do ano</p><p>de 2010 e reproduzida por Fischler (2013). A cartunista ilustrou uma</p><p>refeição americana do Dia de Ação de Graças, mas em vez do tradicio-</p><p>nal peru consumido nessa data, vemos uma mesa vazia, porque cada</p><p>pessoa segue uma alimentação diferente, o que pode ser identificado</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 44</p><p>nos balões: intolerante à lactose, vegetariano, vegano, macrobiótico,</p><p>fanático tradicionalista, em limpeza do corpo, estritamente kosher,</p><p>gourmet ultra exigente, alérgico ao glúten e não consome sal.</p><p>Figura 1 - The last thanksgiving, Ilustração de Roz Chast</p><p>Fonte: New Yorker (2010).</p><p>É importante pensar sobre esse individualismo. Ainda que ele</p><p>traga consequências negativas e, quanto à alimentação, a diminuição</p><p>da prática da comensalidade e do ritualismo da alimentação, também</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 45</p><p>nos proporciona mais liberdade à mesa e abertura para o outro em</p><p>determinados contextos.</p><p>Para entender melhor, pense no symposium grego, festa da Anti-</p><p>guidade em que os homens se reuniam para beber. Existia um grande</p><p>ritual, era um momento de comunhão e igualdade, mas, justamente</p><p>por isso, não havia espaço para a diferença e as mulheres não podiam</p><p>participar.</p><p>No entanto, também não quero dizer que o individualismo se</p><p>sobreponha totalmente a uma lógica mais comunal. Na verdade, pa-</p><p>rece existir uma coexistência com prevalência da individualidade na</p><p>sociedade atual.</p><p>Um estudo realizado por Claude Fischler e Estele Masson exem-</p><p>plifica isso muito bem. Eles realizaram uma pesquisa comparativa com</p><p>alguns países europeus (França, Itália, Suíça, Alemanha e Inglaterra)</p><p>e Estados Unidos, encontrando as maiores discrepâncias entre os nor-</p><p>te-americanos e os franceses. Enquanto os primeiros viam a alimenta-</p><p>ção como uma responsabilidade individual, em que cada pessoa tem a</p><p>liberdade de escolher o que comer, os franceses tendiam a valorizar as</p><p>refeições em companhia, mas também são eles que se mostram mais</p><p>intolerantes a outros hábitos alimentares, como o vegetarianismo</p><p>(FISCHLER; MASSON, 2010).</p><p>Adentrando um pouco mais no microambiente da alimentação,</p><p>é imprescindível dar atenção ao fato de que nem todo mundo pode</p><p>sentir prazer ao comer junto. Se pensarmos nas pessoas que sofrem</p><p>com transtornos alimentares, que tanto afeta os adolescentes, sentar-</p><p>-se à mesa com familiares e amigos pode ser um verdadeiro tormento.</p><p>Vale lembrar que a mesa pode ser palco de discussões de famí-</p><p>lia, brigas, desentendimentos e espaço para policiar o prato do outro</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 46</p><p>(“Vai comer tudo isso?” “Por que não come mais um pouco?”), o que</p><p>pode tornar a refeição bastante indigesta.</p><p>Além disso, no século XXI, podemos nos perguntar se precisa-</p><p>mos mesmo da presença física dos outros para praticar a comensalida-</p><p>de. A pandemia da COVID-19 nos mostra que não. Com a necessida-</p><p>de de isolamento social, muitas pessoas passaram a confraternizar por</p><p>meio das redes sociais, reuniões virtuais e chamadas de vídeo. É o que</p><p>uma revisão de literatura (SPENCE; MANCINI; HUISMAN, 2019)</p><p>chama de “comensalidade digital”, ao concluir que as tecnologias digi-</p><p>tais podem proporcionar refeições multissensoriais.</p><p>Como lidar com os conflitos à mesa?</p><p>Diante disso e considerando que o momento da mesa pode ser</p><p>espaço de aprendizagem, socialização, descobertas e saúde, é impor-</p><p>tante estimular a comensalidade entre adolescentes e ao mesmo tem-</p><p>po possibilitar espaços para que pensem sobre os conflitos e desafios</p><p>com os quais esta prática está envolvida. Por isso, trago 4 pontos com-</p><p>portamentais que podem ser incentivados em ações educativas sobre</p><p>o tema.</p><p>1. Buscar comer em companhia. Que os adolescentes,</p><p>em con-</p><p>junto com seus responsáveis, procurem momentos para comer</p><p>junto com familiares e amigos, seja uma refeição ao dia, como</p><p>o jantar, ou nos finais de semana, o que pode contribuir com a</p><p>socialização e estreitamento de laços com familiares.</p><p>2. Comer junto com os alimentos. Nem sempre temos com-</p><p>panhia para comer, mas sempre é possível comer junto com os</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 47</p><p>alimentos. Ou seja, praticar o mindful eating, ou a capacidade de</p><p>trazer a atenção para o presente no momento da refeição, aprovei-</p><p>tando com todos os sentidos, as cores, texturas, aromas, sabores</p><p>e mesmo os sons que fazemos ao comer (FIGUEIREDO et al.,</p><p>2019), sem fazer outras atividades ao mesmo tempo. Essa pode</p><p>ser uma forma de apreender melhor o mundo à nossa volta e pro-</p><p>porcionar um encontro com os alimentos e com nós mesmos.</p><p>3. Praticar um ritual durante as refeições. Os adolescentes po-</p><p>dem ser estimulados a praticarem um ritual e se conectarem com</p><p>o momento, como preparar a mesa, colocar uma música ambien-</p><p>te e deixar o local limpo e agradável.</p><p>4. Aprender a lidar com as diferenças. Ter as refeições como</p><p>um momento em que as diferenças podem estar presentes, diz</p><p>respeito a saber se relacionar com diferentes pessoas, bem como</p><p>consumir alimentos de outras culturas, isso é importante para</p><p>abrir-se ao novo e reduzir preconceitos.</p><p>Por fim, é importante que profissionais que trabalham a Educa-</p><p>ção Alimentar e Nutricional com adolescentes saibam lidar com esse</p><p>grupo.</p><p>Assim como no processo de comer junto, é importante que eles</p><p>encontrem o equilíbrio entre um certo controle necessário e uma li-</p><p>berdade e autonomia que a adolescência exige e necessita, sem per-</p><p>missividade ou autoritarismo, sempre acolhendo cada adolescente em</p><p>suas individualidades aproveitando os diferentes espaços e elementos</p><p>da alimentação, incluindo a comensalidade, para promover uma ali-</p><p>mentação adequada e saudável.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 48</p><p>Referências</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento</p><p>de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília:</p><p>Ministério da Saúde, 2014.</p><p>DANTAS, Rebekka Fernandes. Ginga com tapioca: de Dalila a Ivanize, das</p><p>origens à atualidade. Sebo Vermelho, 2015.</p><p>FIGUEIREDO, Manoela. COSTA, Ana Carolina. TIMERMAN, Fernanda.</p><p>POLACOW, Viviane. Comer com atenção plena (mindful eating). In:</p><p>ALVARENGA, Marle. FIGUEIREDO, Manoela. TIMERMAN, Fernanda.</p><p>ANTONACCIO, Cynthia. Nutrição Comportamental. 2. ed. Barueri – SP:</p><p>Manole, 2019.</p><p>FISCHLER, Claude. El (h)omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo.</p><p>Barcelona: Anagrama, 1995.</p><p>FISCHLER, Claude. Les alimentations particulières: mangerons-nous encore</p><p>ensamble demain? Odile Jacob: Paris, 2013.</p><p>FISCHLER, Claude; MASSON, Estelle. Comer: a alimentação de franceses,</p><p>outros europeus e americanos. Tradução de Ana Luiza Ramazzina Guirardi.</p><p>São Paulo: Editora Senac, 2010.</p><p>FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo. História da</p><p>Alimentação. Tradução de Luciano Vieira e Guilherme João de Freitas</p><p>Teixeira. 7.ed. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.</p><p>HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0. Rio de</p><p>Janeiro: Objetiva, 2009.</p><p>KWON, A. Rom et al. Eating alone and metabolic syndrome: A population-</p><p>based Korean National Health and Nutrition Examination Survey 2013–</p><p>2014. Obesity Research & Clinical Practice, 2017.</p><p>LANDINI, José Carlos. Do animal ao humano: uma leitura psicodramática.</p><p>Editora Ágora, 1998.</p><p>LÉVI-STRAUSS, Claude. A origem dos modos à mesa (Mitológicas v. 3).</p><p>Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac Naify, 2006.</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 49</p><p>MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Tradução de</p><p>Catarina Eleonora F. Silva e Jeanne Sawaya. São Paulo: Cortez, 2000.</p><p>PERLÉS, Catherine. Les origines de la cuisine - l’acte alimentaire dans</p><p>l’histoire de l’homme. Communications, n. 31, 1979.</p><p>SPENCE, Charles; MANCINI, Maurizio; HUISMAN, Gijs. Digital</p><p>commensality: Eating and drinking in the company of technology. Frontiers in</p><p>psychology, v. 10, p. 2252, 2019.</p><p>VALE, Diogo. PENSE - comportamentos, fatores psicossociais e sustentabilidade</p><p>da alimentação de adolescentes brasileiros: da vigilância ao cuidado. Tese de</p><p>Doutorado. Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Natal, RN,</p><p>2020.</p><p>DOI: 10.52788/9786589932659.1-4 50</p><p>CAPÍTULO 4</p><p>A CULINÁRIA E A TRANSFORMAÇÃO</p><p>DOS ALIMENTOS</p><p>Juliana Bianca Maia Franco</p><p>Joyce Maria de Sousa Oliveira</p><p>Por que aprender sobre culinária e a transformação dos</p><p>alimentos é importante para adolescentes?</p><p>A resposta em si é bem simples e é abordada pelo Guia Alimen-</p><p>tar da População Brasileira, documento esse que preconiza que um</p><p>dos dez passos para uma alimentação adequada e saudável é desenvol-</p><p>ver, exercitar e partilhar habilidades culinárias, principalmente com</p><p>crianças e jovens, sem distinção de gênero (BRASIL, 2014). Se você</p><p>não tem habilidades culinárias, pode adquiri-las por meio de conver-</p><p>sas com as pessoas que sabem cozinhar, de receitas compartilhadas por</p><p>familiares, amigos e colegas, por meio de cursos e através de leituras de</p><p>livros e consultas pela internet.</p><p>Por meio da culinária, os professores podem expor os conteúdos</p><p>de forma multidisciplinar, saindo um pouco da sala de aula, mas sem</p><p>deixar o conhecimento de lado. Através de aulas práticas, podem esti-</p><p>https://www.metropoles.com/brasil/educacao-br/alimentacao-saudavel-na-escola-deve-comecar-em-casa-diz-especialista</p><p>https://www.metropoles.com/brasil/educacao-br/alimentacao-saudavel-na-escola-deve-comecar-em-casa-diz-especialista</p><p>DIÔGO VALE (ORG.) 51</p><p>mular a criatividade, coordenação motora, cooperação, capacidade de</p><p>organização dos alunos. Além disso, ainda é possível trabalhar outros</p><p>conteúdos, por exemplo: de português, com a leitura de receitas; de</p><p>matemática, ao pesar e dividir alimentos e a transformação dos ali-</p><p>mentos e os nutrientes, em biologia e química. As lições na cozinha</p><p>também servem de ferramenta para os educadores abordarem com os</p><p>estudantes questões sociais, como desperdício de comida, excesso de</p><p>lixo e respeito à natureza.</p><p>O antropólogo Lévi-Strauss diz que “assim como não existe</p><p>sociedade sem linguagem, não existe nenhuma que, de um modo ou</p><p>outro, não cozinhe pelo menos algum dos seus alimentos” (LÉVI-</p><p>STRAUSS, 1979, p. 169). Em um dos seus artigos, o autor trata do</p><p>que ele intitula de como “as leis do estômago” e faz uma brilhante</p><p>observação sobre as características dos alimentos, independentemente</p><p>da cultura, dividindo-os em três categorias: cru, cozido e podre.</p><p>Nessa perspectiva, Vianna et al. (2018, p. 11) diz que a alimen-</p><p>tação e o ato de cozinhar fazem parte da história da humanidade não</p><p>apenas como forma de obter sustento, mas também como um fenô-</p><p>meno cultural, como uma forma de expressão dos diferentes povos.</p><p>Dessa forma, a junção de vários fatores fez com que os hábitos alimen-</p><p>tares desses povos surgissem, criando uma ampla diversidade de uti-</p><p>lização dos produtos naturais disponíveis em cada região do planeta.</p><p>Para falar sobre as primeiras manifestações da culinária, é preciso</p><p>voltar mais de quinhentos mil anos na história, para o momento em</p><p>que o homem dominou o fogo e passou a se diferenciar de seus an-</p><p>cestrais, tornando os alimentos mais digeríveis e transformando sua</p><p>dieta. Outra invenção importante foram os utensílios, inicialmente</p><p>feitos de barro e de pedras, que facilitam o preparo desses alimentos.</p><p>TEMAS E JOGOS DIGITAIS PARA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES 52</p><p>Os primeiros registros que podemos chamar de “receitas culiná-</p><p>rias” vêm da Mesopotâmia e datam de 2000 a.C. Esses registros sur-</p><p>giram da necessidade dos habitantes de guardar uma técnica ou um</p><p>método de preparo para as gerações futuras. No antigo Egito, ma-</p><p>nifestações a respeito da produção alimentar estão evidenciadas em</p><p>hieróglifos, em figuras e mesmo nas tumbas: os egípcios costumavam</p><p>ser sepultados com alimentos</p>

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