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fundamentos teóricos da literatura 5

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<p>FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA</p><p>LITERATURA</p><p>AULA 5</p><p>Prof. Phelipe de Lima Cerdeira</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Estimado aluno, seja bem-vindo a mais uma de nossas aulas.</p><p>Este é, sem dúvida, um momento bastante expressivo de nossa disciplina.</p><p>Isso porque, juntos, já percorremos diversas questões que fazem parte dos</p><p>estudos literários e que, certamente, serão expandidas ao longo de toda a sua</p><p>formação na graduação em Letras. Desde o início, nosso desafio é fazer com</p><p>que possamos (re)pensar nossa relação com a literatura, valorizando a</p><p>importância da fruição e da leitura enquanto ação de construção de múltiplos</p><p>significados. Foi por meio dessas premissas, aliás, que discutimos eixos como a</p><p>ideia da literatura; a relação entre sociedade e o contexto literário; além de</p><p>explicitarmos questões como os gêneros literários, os estudos da narratologia e</p><p>os aspectos específicos do gênero lírico.</p><p>Para iniciar o nosso último terço da disciplina, é fundamental que você</p><p>resgate, em seu horizonte de leituras, todas as discussões realizadas, quando</p><p>dedicamos atenção para desconstruir a ideia de que a literatura pode ser</p><p>sistematizada apenas por conta de uma natureza estrutural específica ou aquilo</p><p>que os estruturalistas russos intitulavam como literariedade. A constatação de</p><p>que ao texto literário estão ligadas também propriedades extratextuais –</p><p>convenções no âmbito social e histórico, por exemplo – será o nosso ponto de</p><p>partida para que possamos estudar como se constituíram as historiografias</p><p>literárias e, por conseguinte, o cânone literário.</p><p>Após contextualizar brevemente a relevância das historiografias para</p><p>definir o que é – e, muitas vezes, o que deve ser – estudado, será possível</p><p>entender a formulação das chamadas escolas literárias ou movimentos literários.</p><p>Por conta de sua experiência na Educação Básica e, principalmente, nas aulas</p><p>do Ensino Médio, esse momento pode trazer à tona certa experiência de estudo,</p><p>que acabou fazendo com que a visão da literatura fosse apenas o resultado de</p><p>uma justaposição de datas e de nomes, sem que tensionamentos contextuais e</p><p>comparações pudessem ser realmente realizados de maneira interessante. Será</p><p>possível perceber que a intenção é fugir justamente do que o crítico brasileiro</p><p>Antonio Candido chamou de “exageros do velho método histórico”, responsável</p><p>por reduzir “a literatura a episódio de investigação sobre a sociedade, ao tomar</p><p>indevidamente as obras como meros documentos, sintomas da realidade social”</p><p>(Candido, 2000, p. 29).</p><p>3</p><p>Pensar sobre as escolas literárias, sobretudo no que diz respeito à</p><p>literatura brasileira, é, pois, uma oportunidade. Trata-se de um momento</p><p>estratégico da nossa formação na graduação em Letras para relacionar</p><p>características de determinado período para o projeto narrativo e poético de cada</p><p>autor, pensando a literatura não apenas como fonte para demonstrar certo</p><p>espírito e registro do tempo, mas também como centro de enunciados, um</p><p>espaço de discursos e de conflitos.</p><p>A ideia não será nos aprofundar em cada escola literária, justamente</p><p>porque isso será estudado em detalhes em disciplinas como Literatura Brasileira.</p><p>O desafio será, mais uma vez, atribuir novos significados a conteúdos que</p><p>porventura já tenham sido vistos, garantindo um nivelamento das informações</p><p>mais importantes.</p><p>Como temos feito ao longo de toda a nossa jornada, esta aula também</p><p>contará com a divisão de seções, o que permite a consulta mais organizada e o</p><p>estudo por meio dos eixos temáticos que você procura. Neste encontro, todo o</p><p>nosso raciocínio estará dividido pelas seguintes etapas:</p><p>1. Contextualizando;</p><p>2. Historiografia literária: ainda um caminho possível para estudar?;</p><p>3. Cânone literário: seleção e recorte;</p><p>4. Formação da literatura brasileira: a visão de Antonio Candido;</p><p>5. Literatura brasileira: escolas literárias;</p><p>É importante reforçar que, ao falar de literatura, espera-se que a leitura</p><p>seja sempre uma ação presente e necessária. Contamos com a sua</p><p>participação aqui e em nossas conversas por meio de videoaulas, fóruns e</p><p>atividades extracurriculares oferecidas. Que possamos estabelecer um diálogo</p><p>profícuo até o final deste módulo, (re)descobrindo um mundo chamado literatura.</p><p>Bons estudos!</p><p>TEMA 1 – CONTEXTUALIZANDO</p><p>Desde o início, quando aludimos a críticos como Tzvetan Todorov,</p><p>Antoine Compagnon, Terry Eagleton e, no contexto brasileiro, Antonio Candido,</p><p>procurávamos salientar como cada um, à sua maneira, problematizou a ideia de</p><p>literatura condicionada a dado tempo histórico e social. Tal afirmação, bem</p><p>verdade, já está mais do que discutida em nossa disciplina. Resta-nos pensar,</p><p>4</p><p>no entanto, como, durante séculos, uma perspectiva congelada do pensar</p><p>literário acabou sendo a responsável por concretar as bases para que</p><p>classificássemos e estudássemos a literatura. Trata-se de uma espécie de mapa</p><p>no qual nomes e obras poderiam explicar do que se trata certo conjunto literário.</p><p>O que isso quer dizer na prática? Ora, tente fazer um exercício rápido,</p><p>contando apenas com a sua memória. Se fosse para elencar, neste momento,</p><p>representantes da literatura brasileira, por exemplo, quais seriam os primeiros</p><p>nomes descritos? Você seria capaz de listar, rapidamente, ao menos três?</p><p>Diante de sua experiência como leitor médio e, claro, por conta de todo o trajeto</p><p>escolar, é muito provável que a resposta tenha sido afirmativa. É bem possível,</p><p>aliás, que, na lista imaginária de cada um, tenha surgido ao menos um destes</p><p>três nomes: Machado de Assis, José de Alencar e Gonçalves de Magalhães.</p><p>E, se juntamos o fato de que o desafio é feito a você, estudante de Letras, não</p><p>seria um exagero pensar que a lista não se contentou e parou apenas em três</p><p>nomes. Sem querer se aprofundar, para um leitor assíduo, não é difícil somar</p><p>aos exemplos anteriores os seguintes: Castro Alves, Olavo Bilac, Álvares de</p><p>Azevedo, Aluísio de Azevedo, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Euclides da</p><p>Cunha, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, João Cabral de Melo</p><p>Neto, Rubem Fonseca, Érico Veríssimo, Jorge Amado etc.</p><p>Mais do que propor um teste, a pergunta realizada anteriormente é uma</p><p>maneira de contextualizar como, ao longo dos anos, criamos um arcabouço de</p><p>referências. Em casos de leitores que não vivenciaram a literatura em sua</p><p>formação e rotina, é plausível que alguns dos nomes que serviram de exemplo</p><p>acabaram soando familiares, ainda que as suas obras não tenham sido lidas ou</p><p>que não estejam tão frescas na memória. Tudo isso ajuda a tocar em um ponto</p><p>crucial desta aula, e que deve fazer parte das suas reflexões como beletrista</p><p>daqui para frente: o que sabemos sobre a literatura pode, muitas vezes, estar</p><p>ligado não à nossa rotina leitura, mas ao que os manuais – as chamadas</p><p>historiografias literárias – selecionam como a representação de determinado</p><p>corpus ou conjunto literário.</p><p>Com base nessa constatação, poderíamos realizar outra pergunta: “mas,</p><p>afinal, conhecer o nome de Machado de Assis, por exemplo, mesmo que eu</p><p>nunca tenha lido uma de suas obras, é um problema?”. A resposta é complexa,</p><p>obviamente. O que se pode dizer, com toda a certeza, é que o problema não</p><p>está no saber ou reconhecer um nome, mas limitar esse conhecimento em um</p><p>5</p><p>dado cristalizado. A literatura existe efetivamente quando possibilitamos que ela</p><p>faça parte de nossa vida. Como estudante de Letras, é necessário sair da fase</p><p>de memorizar e começar a vivenciar os estudos literários. E como podemos fazer</p><p>isso? A resposta já é sabida: lendo, criando senso crítico, construindo</p><p>significados por meio de um texto literário.</p><p>Ter o nome de um escritor apenas como um pano de fundo, sem</p><p>conseguir relacioná-lo a uma obra, a um momento ou a uma temática é mais do</p><p>que comum. Na verdade, trata-se de um reflexo de como a literatura é</p><p>apresentada formalmente –</p><p>e mecanicamente – por meio dos seus principais</p><p>manuais: as historiografias literárias. Tal como sugere o nome, uma</p><p>historiografia literária refere-se a um gênero específico, que usa toda a natureza</p><p>epistemológica – os conhecimentos e a forma de estudar determinado tema – do</p><p>discurso histórico para organizar e estudar o que uma sociedade ou cultura</p><p>entende como literatura. Veremos, na próxima seção, alguns dos nomes de</p><p>críticos e teóricos interessados nas historiografias literárias. Nesta fase de</p><p>contextualização, no entanto, já tomamos tal dado para demonstrar que aqueles</p><p>nomes que surgiram em nosso teste de memória estão diretamente relacionados</p><p>ao que é registrado e cultuado por esse tipo de obra.</p><p>Grande parte do nosso conhecimento da literatura, por isso, advém do</p><p>que foi selecionado e cultuado ao longo do tempo pelos responsáveis dessas</p><p>historiografias literárias. Em uma das historiografias literárias mais simbólicas</p><p>para os estudos literários brasileiros, Formação da literatura brasileira (1957),</p><p>Antonio Candido reforçará o fato de que a perspectiva histórica está presente</p><p>para a arquitetura desse tipo de obra, “[...] pressupondo que as obras se</p><p>articulam no tempo, de modo a se poder discernir uma certa determinação na</p><p>maneira por que são produzidas e incorporadas ao patrimônio de uma</p><p>civilização.” (Candido, 2000, p. 29, grifos nossos).</p><p>Perceba, pois, que a fala de Candido salienta a ideia de “patrimônio de</p><p>uma civilização”. Ao refletirmos sobre tal questão com atenção e espírito crítico,</p><p>ficará mais claro que a proposição trará questões positivas e negativas. No que</p><p>diz respeito à esfera positiva, bastaria dizer que tomamos sempre um patrimônio</p><p>como algo a ser cuidado, respeitado e perpetuado. É por meio de um patrimônio</p><p>que determinado local, grupo ou país pode ser reconhecido e admirado,</p><p>revelando características particulares, traços distintivos, representações</p><p>culturais, sociais e históricas. Ligar uma historiografia literária à responsabilidade</p><p>6</p><p>de reunir um patrimônio é, portanto, algo de extrema relevância. A grande</p><p>questão é que tudo aquilo que não estará contemplado por uma historiografia</p><p>literária pode ser tomado por alguns como “não importante, desnecessário ou de</p><p>baixo valor”. Isso é negativo? Evidente que sim. Sobretudo porque, juntos, já</p><p>descobrimos que a ideia de literatura transcende a questões formais, ao uso</p><p>criativo da linguagem. Ao estar também ligada a escolhas e convenções de um</p><p>grupo, há o risco de que nomes e obras acabem não sendo os escolhidos pelas</p><p>historiografias literárias. Nesse caso, o que estudamos como literatura não é o</p><p>todo, mas apenas uma parte.</p><p>Fica mais clara agora nossa afirmação na seção de apresentação,</p><p>quando foi dito que seria necessário retomar as nossas discussões do início da</p><p>disciplina? Toda a nossa discussão a respeito do que é considerado literatura</p><p>acaba encontrando, nas historiografias literárias, uma espécie de centro único</p><p>de referência. Aí está o perigo: não podemos tomar como verdade absoluta</p><p>apenas o que figura em um compêndio, uma vez que, como todo produto</p><p>resultado de uma narrativa, as historiografias literárias traduzem um tempo, um</p><p>olhar e, principalmente, um recorte. Isso significa que os estudos literários não</p><p>consideram as historiografias literárias? Como veremos a seguir, não,</p><p>absolutamente. Essa reflexão ratifica apenas que a relação com tais obras, seja</p><p>enquanto estudante de Letras, seja enquanto pesquisador, deve ser sempre</p><p>balizada por um comportamento crítico e relativizador.</p><p>TEMA 2 – HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA: AINDA UM CAMINHO POSSÍVEL</p><p>PARA ESTUDAR?</p><p>No tema Contextualização, iniciamos uma reflexão a respeito das</p><p>historiografias literárias e de como tais obras acabam concentrando e definindo</p><p>padrões e caminhos para se pensar a literatura de determinado país, por</p><p>exemplo. Por essa razão, o crítico literário argentino Saúl Sosnowski faz questão</p><p>de relembrar que a criação de toda e qualquer historiografia literária é um “acto</p><p>político” (Sosnowski, 2015, p. 109, grifos nossos), voltado a criar certa tradição</p><p>ou “formular un legado” (Sosnowski, 2015, p. 36). Cabe-nos, agora, dedicar mais</p><p>tempo para pensar em como se constituem essas obras e, no caso da literatura</p><p>brasileira, quais nomes e historiografias literárias podem ser tomadas como</p><p>referência para os nossos estudos e discussões.</p><p>7</p><p>Antes disso, concentremo-nos em uma breve explicação a respeito da</p><p>história relacionada às historiografias literárias. Com base na alusão à figura de</p><p>Aristóteles e à obra Poética, havíamos comentado sobre como os discursos</p><p>histórico e ficcional acabam comungando uma narratividade comum, bem como</p><p>que sua diferenciação está ligada, muitas vezes, ao grau de observação de quem</p><p>é responsável por relatar. No caso específico da literatura, descobrimos que o</p><p>seu discurso está diretamente ligado com o conceito da mimese ou</p><p>representação e imitação de dada realidade. Pois bem, pensando no contexto</p><p>de países da América Latina, é interessante salientar como os agentes</p><p>responsáveis por legitimar o nascimento das novas nações, sobretudo a partir</p><p>do início do século XIX, acabaram sendo os responsáveis por consolidar ora o</p><p>discurso histórico, ora o discurso ficcional. Em sua obra Ficções de Fundação</p><p>(2004), a crítica Doris Sommer discorrerá exatamente sobre isso, relembrando a</p><p>participação de estadistas e de ilustrados para a formulação de obras como</p><p>gramáticas linguísticas e das historiografias. Em caráter anedótico, poderíamos</p><p>citar, aqui, nomes como os de Domingo Faustino Sarmiento, Andrés Bello e, no</p><p>Brasil, de certa forma, do próprio escritor José de Alencar. Ficou a cargo de</p><p>alguns representantes do discurso oficial a função de contar uma perspectiva</p><p>dos relatos e, ao mesmo tempo, criar novas expressões por meio da literatura.</p><p>Além de registrarem nessas obras apenas uma versão ou perspectiva, vale</p><p>lembrar que esses nomes da história e da literatura acabavam representando</p><p>uma fração da realidade do país, estando concentrados em poucas cidades ou,</p><p>como diria o sociológico francês Pierre Bourdieu, em campos intelectuais de</p><p>poder, responsáveis por sacramentar o fenômeno de “conservação cultural”</p><p>(Bourdieu, 2002, p. 38).</p><p>No contexto ocidental, sabe-se que foi justamente ao longo de todo o</p><p>século XIX, ou seja, no período do Romantismo (ocorrido a partir da Revolução</p><p>Francesa de 1789), que a história da literatura acabou se consagrando também</p><p>como um gênero literário. Um nome, no entanto, é o grande responsável para</p><p>fundar as bases da criação das historiografias literárias é o de Quintiliano.</p><p>Professor de retórica e escritor do período romano, Quintiliano foi um dos</p><p>primeiros pensadores a buscar a sistematização e a construção de um catálogo</p><p>de textos e de escritores que deveriam ser estudados. A partir dele e do ímpeto</p><p>de reunir apenas alguns “merecedores”, como bem lembra Otto Maria Carpeaux,</p><p>nasce o conceito de “Tábua de Valores” para a literatura. Mediante postura</p><p>8</p><p>cristalizada e que não permite relativizações, as historiografias literárias</p><p>transformam-se em um instrumento sagrado de legitimação, demonstrando o</p><p>quanto os seus responsáveis</p><p>intervienen sobre todo para resguardar las fronteras de la literatura,</p><p>cuyo cuidado se adjudican, como si éstas fueran “sagradas” y ellos,</p><p>sus sacerdotes. Usan así su bien ganado prestigio, su merecido poder,</p><p>para impedir entrar a la mayor parte de lo que se escribe al reino de la</p><p>literatura, y designan a dos o tres “elegidos” a los que sí dejan entrar,</p><p>son la necesaria excepción a la regla y subrayan el poder de los</p><p>sacerdotes y la ignominia que cae sobre los que se quedan afuera1.</p><p>(Drucaroff, 2011, p. 39)</p><p>O fato de o Romantismo demarcar um momento de anseio de construção</p><p>de identidades e de bases de uma nova tradição para os novos países explica,</p><p>portanto, a razão de as historiografias</p><p>literárias terem vivido uma espécie de</p><p>época de ouro, que, no caso brasileiro, prosseguiu até as primeiras décadas do</p><p>século passado. Segundo o crítico Paulo Franchetti, o século XX no Brasil foi</p><p>palco da formulação de diferentes historiografias literárias (muitas utilizadas até</p><p>hoje nas aulas de literatura), tais como as escritas por Afrânio Coutinho, Nelson</p><p>Werneck Sodré, Alfredo Bosi e, claro, Antonio Candido. Poderíamos somar a</p><p>essa lista nomes que já se dedicavam às historiografias no final do século XIX,</p><p>tais como Silvio Romero, Ronald Carvalho e José Veríssimo, responsáveis,</p><p>respectivamente, pelas obras História da Literatura Brasileira, Pequena História</p><p>e História da Literatura Brasileira.</p><p>O afã romântico pela busca do nacional, que tanto se afasta da premissa</p><p>universal neoclássica, passou a se concentrar no que seria particular,</p><p>conduzindo, assim, a lógica de diversas histórias da literatura. A grande questão</p><p>é que, diante de um contexto pós-moderno que tanto fissura a visão homogênea</p><p>da identidade e que questiona a todo tempo o que é “nacional”, a impressão de</p><p>que historiografias literárias congregam uma verdade já não poderia mais ser</p><p>defendida e aceita. É notável que, pelo menos desde a década de sessenta do</p><p>século XX, diversos críticos literários já desenvolviam reflexões sobre a</p><p>viabilidade de se pensar em uma história da literatura que fosse singular. Entre</p><p>posições mais catastróficas como as de Paulo Franchetti – que acredita que a</p><p>1 Tradução: “intervêm, sobretudo, para resguardar as fronteiras da literatura, cujo cuidado se</p><p>atribuem, como se estas fossem “sagradas” e eles os seus sacerdotes. Usam, assim, o seu</p><p>prestígio conquistado, o seu poder merecido, para impedir que entrem a maior parte do que se</p><p>escreve no reino da literatura, designando a dois ou três “eleitos” que, sim, devem entrar, afinal,</p><p>é necessária a exceção à regra; e destacam o poder dos sacerdotes e o aviltamento que cai</p><p>sobre os que acabaram ficando fora dessa seleção”.</p><p>9</p><p>disciplina de história da literatura teria morrido com o tempo –, acabamos</p><p>encontrando chaves de leitura como a do professor e pesquisador Luís Bueno,</p><p>ponderando que historiar a literatura ainda segue sendo possível, desde que a</p><p>postura enciclopédia e unilateral seja abandonada por contribuições constantes,</p><p>por meio de trabalhos mais específicos, como artigos científicos, dissertações de</p><p>mestrado, teses de doutorado, entre outros. Segundo Bueno,</p><p>se eliminarmos a pretensão de se elaborarem as tais “grandes</p><p>sínteses”, o próprio crítico abre uma brecha para que o óbito seja</p><p>revertido, e a resposta, quem sabe, pode ser a de que sim, ainda há</p><p>algum conhecimento a que só a história literária pode conduzir: aquele</p><p>que, motivado por uma questão levantada pelo tempo presente, ou</p><p>seja, o do historiador da literatura, dependa da consideração de um</p><p>conjunto de experiências pertencentes a uma tradição literária. Afinal,</p><p>abandonar a pretensão de uma visão totalizadora, como se vê, não</p><p>implica necessariamente abandonar uma visão de conjunto, mas sim</p><p>assumi-la, com uma tarefa adicional: definir esse conjunto a partir de</p><p>critérios e problemas específicos. É buscar sintetizar um movimento e</p><p>não o movimento geral. (Bueno, 2012, p. 214)</p><p>TEMA 3 – CÂNONE LITERÁRIO: SELEÇÃO E RECORTE</p><p>Apostar que uma história da literatura – seja ela qual for,</p><p>independentemente da literatura que ela trate – seria capaz de sintetizar toda a</p><p>produção literária de um espaço discursivo, como vimos, é, no mínimo, ingênuo.</p><p>Ainda assim, sabemos que, por conta das historiografias literárias e de sua busca</p><p>por escrever certa tradição, acabamos nos acostumando a ler e falar de apenas</p><p>alguns autores. Lembra-se do nosso desafio inicial de compor uma breve lista</p><p>de nomes que representassem a literatura brasileira? Pois bem, ao</p><p>estabelecerem certos valores, estilos e momentos literários, as obras que traçam</p><p>a história da literatura acabam definindo o que chamamos nos estudos literários</p><p>de cânone literário. O que seria exatamente um cânone? Ao buscar uma</p><p>definição objetiva, poderíamos defini-lo como uma sistematização, um conjunto</p><p>de nomes e obras que podem ilustrar um determinado período de produção</p><p>literária. Dito de outra forma, em seu ensaio “Algunas cuestiones en torno del</p><p>canon” (2006), a escritora argentina María Teresa Andruetto ponderará que um</p><p>cânone “[...] es una lectura del presente hacia el pasado, para decidir qué</p><p>enseñar, qué antologar, cómo hacer para que ciertos libros permanezcan vivos</p><p>y sean leídos por las generaciones que nos siguen”.2 (Andruetto, 2013a, p. 07).</p><p>2 Tradução: “[...] É uma leitura do presente em direção ao passado, para decidir o que ensinar, o</p><p>que antologar, como fazer para que certos livros permaneçam vivos e sejam lido pelas gerações</p><p>que nos seguem”.</p><p>10</p><p>Em sua reflexão, Andruetto esclarece como a proposta de criação de um</p><p>cânone literário está diretamente ligada ao que ensinar, o que mostrar e,</p><p>principalmente, como ler determinadas obras. Cânone literário, portanto, está</p><p>ligado a um processo duplo de seleção e recorte. Quando uma historiografia</p><p>seleciona certas obras, ao mesmo tempo, recorta uma parte, excluindo outros</p><p>tantos textos e escritores possíveis. Para nós, estudantes e pesquisadores de</p><p>Letras, tal compreensão passa a ser fundamental e deve nos alertar,</p><p>diariamente, sobre a importância de que possamos estabelecer diálogos e nos</p><p>comprometer em querer pesquisar. Tal como aponta o teórico brasileiro Eduardo</p><p>Coutinho, é preciso sempre ter em mente que “[e]l canon literario, […] no es una</p><p>entidad fija, natural, sino una construcción como otra cualquiera,</p><p>ideológicamente marcada y sujeta a intereses de un orden eminentemente</p><p>político; de este modo, él es mutable y enteramente dependiente de la mirada</p><p>que le da forma”3 (Coutinho, 2005, p. 123).</p><p>Sobre a questão do recorte que acaba por relativizar a objetividade crítica,</p><p>Antonio Candido, em uma passagem do seminal Formação da literatura</p><p>brasileira, traça a seguinte reflexão:</p><p>há forçosamente na busca da coerência um elemento de escolha e</p><p>risco, quando o crítico decide adotar os traços que isolou, embora</p><p>sabendo que pode haver outros. Num período, começa por escolher os</p><p>autores que lhe parecem representativos; nos autores, as obras que</p><p>melhor se ajustam ao seu modo de ver; nas obras, os temas, imagens,</p><p>traços fugidios que o justificam. Neste processo vai muito da sua</p><p>coerência, a despeito do esforço e objetividade. Sob este aspecto,</p><p>a crítica é um ato arbitrário, se deseja ser criadora, não apenas</p><p>registradora. Interpretar é, em grande parte, usar a capacidade de</p><p>arbítrio; sendo o texto uma pluralidade de significados virtuais, é</p><p>definir o que se escolheu, entre outros. (Candido, 2000, p. 37, grifos</p><p>nossos)</p><p>TEMA 4 – FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA: A VISÃO DE ANTONIO</p><p>CANDIDO</p><p>Não foram poucas as vezes que, ao longo de nossa disciplina de</p><p>Fundamentos Teóricos da Literatura, contamos com o nome e com as reflexões</p><p>críticas de Antonio Candido. O seu nome, como já dissemos, é mesmo uma</p><p>referência para os estudos literários, não apenas pela proposta de ler o texto</p><p>literário, mas pelo fato de o pesquisador estabelecer diferentes eixos discursivos</p><p>3 “[O] cânone literário, [...] Não é uma entidade fixa, natural, mas uma construção como outra</p><p>qualquer, ideologicamente marcada e sujeita a interesses de uma ordem eminentemente política;</p><p>desse modo, ele é mutável e inteiramente dependente da perspectiva que lhe dá forma”.</p><p>11</p><p>entre literatura e sociedade. Segundo o próprio Antonio Candido, há diferentes</p><p>maneiras de se estudar a literatura, um reflexo das contribuições recebidas entre</p><p>os séculos XIX e XX, “[...] graças à intervenção da filosofia e da história, que a</p><p>libertaram dos gramáticos e retores. Se esta operação de salvamento teve</p><p>aspectos excessivos e acabou por lhe comprometer a autonomia, foi ela que a</p><p>erigiu em disciplina viva.” (Candido, 2000, p. 32).</p><p>Para esta aula é fundamental que nos detenhamos a uma obra particular,</p><p>a historiografia literária Formação da literatura brasileira, redigida entre as</p><p>décadas de 1940 e 14950 e publicada em dois volumes. Desde o prefácio para</p><p>a primeira edição de 1957, Antonio Candido será categórico ao afirmar que</p><p>“[c]ada literatura requer tratamento peculiar, em virtude dos seus problemas</p><p>específicos ou da relação que mantém com outras. A brasileira é recente,</p><p>gerou no seio da portuguesa e dependeu da influência de mais duas ou três</p><p>para se constituir.” (Candido, 2000, p. 09, grifos nossos). A percepção de que</p><p>a literatura brasileira seria “recente” está diretamente ligada a uma maneira de</p><p>estudar a literatura, a um preceito de anterioridade, afinal, e Candido acaba</p><p>fazendo relações com literaturas forjadas anteriormente. A perspectiva de</p><p>filiação à literatura do colonizador e de outros ramos da literatura ocidental fez</p><p>com que a obra Formação da literatura brasileira gerasse certa polêmica,</p><p>sobretudo diante de afirmações tão taxativas como a retratada a seguir:</p><p>podemos imaginar um francês, um italiano, um inglês, um alemão,</p><p>mesmo um russo e um espanhol, que só conheçam os autores da sua</p><p>terra e, não obstante, encontrem neles o suficiente para elaborar a</p><p>visão das coisas, experimentando as mais altas emoções literárias.</p><p>Se isto já é impensável no caso de um português, o que se dirá de um</p><p>brasileiro? A nossa literatura é galho secundário da portuguesa,</p><p>por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas... Os que</p><p>nutrem apenas delas são reconhecíveis à primeira vista, mesmo</p><p>quando eruditos e inteligentes, pelo gosto provinciano e falta do senso</p><p>de proporções. Estamos fadados, pois, a depender da experiência</p><p>de outras letras, o que pode levar ao desinteresse e até</p><p>menoscabo das nossas. (Candido, 2000, p. 9, grifos nossos)</p><p>A consideração de que a literatura brasileira seria uma espécie de primo</p><p>pobre, de apêndice de outra, que, por sua vez, também estava sob a égide de</p><p>literaturas mais relevantes marca um olhar crítico datado e, ao mesmo tempo,</p><p>oferece certa provocação que merece ser ouvida. Da afirmação de Candido,</p><p>parece seguir valendo não apenas o incômodo causado pela sua perspectiva,</p><p>mas o fato de que somos nós os responsáveis por reconsiderar e (re)posicionar</p><p>a nossa literatura, sem a necessidade de tomar uma literatura anterior como</p><p>necessariamente mais desenvolvida. O vinco romântico de progressão e</p><p>12</p><p>evolução, bem como a necessidade de um passado épico, tão característicos de</p><p>historiografias literárias do século XIX, pode ser transformado em um afinco por</p><p>buscar outras realidades. Nesse caso, Antonio Candido planta em nosso</p><p>imaginário crítico uma irrequieta semente.</p><p>O que está registrado na historiografia de Candido e que merece a nossa</p><p>atenção passa a ser sua maneira de ver a literatura de forma geral, o que</p><p>explicará a sua linha do tempo para diferenciar o que seriam manifestações</p><p>literárias de uma literatura brasileira propriamente dita. Quando indagado a</p><p>respeito do que seria, então, a literatura, Candido a compara como “um sistema</p><p>de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas</p><p>dominantes duma fase.” (Candido, 2000, p. 23). Mesmo que aberto ao postulado</p><p>de que a literatura pode ser lida de diferentes maneiras, Candido escolhe uma</p><p>específica, calcada em uma tríade: autor, leitor e obra. Esses três eixos fundam</p><p>o que o teórico chamará de sistema literário, caracterizado pela</p><p>existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos</p><p>conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os</p><p>diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um</p><p>mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em</p><p>estilos), que liga uns a outros. (Candido, 2000, p. 23)</p><p>O impacto causado pelo estabelecimento do sistema literário é muito</p><p>maior do que alguns poderiam imaginar. Com base no pressuposto de que, para</p><p>ser literatura, é necessário que estejam ativos os elementos autor, obra e</p><p>leitor, Candido acabou inviabilizando que muitas expressões literárias</p><p>enunciadas no Brasil desde o século XVI fossem contempladas em sua</p><p>historiografia. Das crônicas de viajantes até poéticas do Barraco, tudo passou a</p><p>ser entendido como manifestação literária e não como literatura propriamente</p><p>dita. A explicação é a de que, entre os séculos XVI e a primeira metade do século</p><p>XVIII, não havia um sistema literário no país consolidado, ora por conta de obras</p><p>fora do escopo da mimese literária, ora pela não profissionalização dos autores,</p><p>ora por leitores rarefeitos ou pela ausência de uma cadeia editorial. Sobre isso,</p><p>Candido apregoa:</p><p>Salvo melhor juízo, sempre provável em tais casos, isto ocorre a partir</p><p>dos meados do século XVIII, adquirindo plena nitidez na primeira</p><p>metade do século XIX. Sem desconhecer grupos ou linhas temáticas</p><p>anteriores, nem influências como as de Rocha Pita e Itaparica, é com</p><p>os chamados árcades mineiros, as últimas academias e certos</p><p>intelectuais ilustrados, que surgem homens de letras formando</p><p>conjuntos orgânicos e manifestando em graus variáveis a vontade de</p><p>fazer literatura brasileira. Tais homens foram considerados fundadores</p><p>13</p><p>pelos que o sucederam, estabelecendo-se deste modo uma tradição</p><p>contínua de estilos, temas, formas ou preocupações. Já que é preciso</p><p>um começo, tomei como ponto de partida as Academias dos Seletos e</p><p>dos Renascidos e os primeiros trabalhos de Cláudio Manuel da Costa,</p><p>arredondando, para facilitar, a data de 1750, na verdade puramente</p><p>convencional. (Candido, 2000, p. 25)</p><p>Dito anteriormente, o crítico brasileiro faz uma distinção entre</p><p>manifestações literárias (esforços individuais e não relacionados a um</p><p>movimento predominante) e literatura. Segundo Candido, o período que</p><p>compreenderia as manifestações literárias no Brasil</p><p>vai das origens, no século XVI, com os autos e cantos de Anchieta, às</p><p>Academias do século XVIII. Período importante e do maior interesse,</p><p>em que se prendem as raízes da nossa vida literária e surgem, sem</p><p>falar dos cronistas, homens do porte, de Antônio Vieira e Gregório de</p><p>Matos [...] Com efeito, embora tenha permanecido na tradição local da</p><p>Bahia, ele [referindo-se a Gregório de Matos] não existiu literariamente</p><p>(em perspectiva histórica) até o Romantismo, quando foi redescoberto,</p><p>sobretudo graças a Varnhagen; e só depois de 1882 e da edição Vale</p><p>Cabral pôde ser devidamente avaliado. (Candido, 2000, p. 24)</p><p>Na obra Literatura brasileira: uma perspectiva histórica, os autores</p><p>Ewerton Kaviski e Maria Luísa Carneiro Fumaneri ratificam a opinião de Candido,</p><p>argumentando que</p><p>não é possível falar em literatura brasileira nesses primeiros séculos,</p><p>não só porque o país era uma colônia de Portugal, mas principalmente</p><p>porque as condições básicas de articulação do sistema literário não</p><p>estavam estabelecidas, em razão, principalmente, da ausência de</p><p>público. (Kaviski; Fumaneri, 2014, p. 23)</p><p>Por certo, a postura crítica de Candido não é uma unanimidade. A</p><p>exclusão de produções do Barroco da literatura brasileira e, principalmente, o</p><p>não-olhar para a obra de Gregório de Matos acabou dando origem a uma ácida</p><p>crítica desenvolvida por Haroldo de Campos em seu ensaio O sequestro do</p><p>barraco na formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Matos (1981).</p><p>Seja como for, retoma-se a historiografia literário de Candido e sua perspectiva</p><p>de sistema literário justamente pelos efeitos causados para a nossa</p><p>compreensão do objeto literário e da sua influência até a contemporaneidade</p><p>para os estudos da literatura brasileira.</p><p>TEMA 5 – LITERATURA BRASILEIRA: ESCOLAS LITERÁRIAS</p><p>Quando abrimos manuais de literatura ou uma</p><p>historiografia literária</p><p>brasileira, em geral, descobrimos uma perspectiva da literatura ordenada,</p><p>seguindo uma espécie de progressão. Além de uma proposição pedagógica e</p><p>14</p><p>didática, a ordem proposta é uma herança de Quintiliano, nome já estudado por</p><p>nós nas seções anteriores. Dentre tantos conceitos e classificações, “[n]o</p><p>arsenal da história literária, dispomos, para o nosso caso, de conceitos como:</p><p>período, fase, momento; geração, grupo, corrente; escola, teoria, tema; fonte,</p><p>influência.” (Candido, 2000, p. 36).</p><p>Com base nas chamadas escolas ou correntes literárias, passa a ser</p><p>possível sistematizar certas nuances temáticas e formas predominantes para</p><p>construir a diegese, ou seja, o plano ficcional por meio da realidade imitada. No</p><p>que diz respeito ao contexto literário brasileiro, será frequente encontrar uma</p><p>divisão preliminar, ligada ao que Candido chamou de manifestações literárias e,</p><p>depois, às escolas literárias propriamente ditas:</p><p> Quinhentismo: produção voltada às cartas e crônicas de viajantes, com</p><p>verve bastante documental e apelo para o registro, tal qual um documento</p><p>histórico.</p><p> Barroco: Período que engloba as produções estéticas e literárias dos</p><p>séculos XVI, XVII e primeiras décadas do XVIII. Há, ainda, uma grande</p><p>influência advinda de Portugal, seja por questão de ordem linguística, seja</p><p>pelos temas de interesse e pela perspectiva ao pensar a literatura. A</p><p>presença jesuíta e a eventual concentração de conhecimento em torno de</p><p>sua órbita, acaba justificando a temática religiosa e a tradição oral com</p><p>base em formas como o sermão ou mesmo a poema oral. É sempre</p><p>preponderante relembrar que o período é marcado pelo choque de claro-</p><p>escuro, as descobertas da nova terra, as antíteses entre a razão e a</p><p>religião. O pesquisador Ewerton Kaviski relembra que a “visão religiosa”</p><p>e a “visão transfiguradora” são os dois principais traços estéticos do</p><p>período (Kaviski, 2014). Destaca-se, nessa fase, a proliferação de</p><p>ilustrados em redutos como a Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro.</p><p>Desses séculos, são frequentes as alusões para as produções do padre</p><p>Antonio Vieira, Bento Teixeira e, sem dúvida, Gregório de Matos.</p><p> Arcadismo: trata-se do movimento literário que demarca o início do que</p><p>Antonio Candido chamará de sistema literário no Brasil. Para o crítico, o</p><p>Arcadismo não pode ser entendido como um período de alienação</p><p>vivenciado pelos seus representantes. Tratar-se-ia, na verdade, de um</p><p>argumento romântico de que os árcades fizeram literatura por</p><p>empréstimo. É nesse momento que se consolida um grupo de intelectuais</p><p>15</p><p>(Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio de Gonzaga, Alvarenga</p><p>Peixoto, Silva Alvarenga e Basílio da Gama) dispostos a buscar certa</p><p>renovação estética, sendo intitulados como Escola Mineira.</p><p> Romantismo: a escola literária é, sem sombra de dúvidas, o ponto de</p><p>inflexão para a produção da literatura brasileira, sobretudo por demarcar</p><p>a consolidação do chamado sistema literário aludido por Antonio Candido.</p><p>A estética romântica assumirá, no país, diferentes nuances, o que explica</p><p>que muitas historiografias dividam o movimento literário em três gerações</p><p>específicas. Seja como for, é uma característica comum à estética</p><p>romântica o apelo à nação em formação e à criação de certo espírito de</p><p>comunhão. Diversos fatos históricos, tais como a vinda da família real em</p><p>1808, vão marcar e influenciar a produção literária, justamente por</p><p>demarcar a liberação da produção literária e a disseminação dos livros.</p><p>De forma objetiva, poderíamos aludir os seguintes nomes para ilustrar o</p><p>Romantismo brasileiro: Primeira Geração romântica – Gonçalves de</p><p>Magalhães, Manuel Araújo Porto-Alegre, Gonçalves Dias, Teixeira e</p><p>Sousa e Joaquim Manuel de Macedo; Segunda Geração romântica ou</p><p>Geração Ultrarromântica – Álvares de Azevedo, Junqueira Freira,</p><p>Casimiro de Abreu, José de Alencar, Bernardo Guimarães e Manuel</p><p>Antônio de Almeida; Terceira Geração romântica – Castro Alves,</p><p>Fagundes Varela, Sousândrade e Machado de Assis.</p><p> Realismo-naturalismo: As escolas têm ao seu favor o sistema literário</p><p>bastante desenvolvido. Em questões estéticas, o interesse passa a ser de</p><p>narrar certa realidade e costumes vivenciados no final do século XIX.</p><p>Machado de Assis segue sendo referência para essa escola, assim como</p><p>os nomes de Aluísio de Azevedo e Visconde de Taunay.</p><p> Simbolismo: muitas historiografias apontam dificuldades para pensar a</p><p>escola, muito por conta de sua produção concentrada apenas na última</p><p>década do século XIX. O nome de Cruz e Sousa é, sem dúvida alguma, a</p><p>grande referência para o movimento literário e para a produção poética da</p><p>época, com estética semelhante à parnasiana, com influência do espírito</p><p>decadentista do final do século. Vale ressaltar que muitas das</p><p>contribuições simbolistas serão retomadas em uma primeira fase de</p><p>modernistas, como Manuel Bandeira ou mesmo Mario de Andrade.</p><p>16</p><p> Parnasianismo: da mesma forma que a escola Simbolista, o</p><p>Parnasianismo bebe da inspiração de poetas como Charles Baudelaire e</p><p>Mallarmé, reverberando o espírito decadentista do final do século XIX e a</p><p>ideia de que a poesia deveria se afastar do cotidiano endurecido pelo afã</p><p>burguês. As contribuições para o gênero lírico são, sem dúvida, mais</p><p>proeminentes, com grande interesse pelo rigor, pela forma e pela</p><p>sonoridade. Destacam-se, aqui, nomes como Olavo Bilac, Alberto de</p><p>Oliveira e Raimundo Correia.</p><p> Modernismo: a escola modernista brasileira abre um capítulo novo para</p><p>a literatura. Alicerçada por seu manifesto e voltada à busca da</p><p>experimentação e inovação constantes, o Modernismo demarca um</p><p>período de grandes transformações no plano literário, cada vez mais</p><p>disposto a uma expressão de identidade. Em muitas historiografias, será</p><p>possível observar a atuação de uma fase intitulada de pré-modernista,</p><p>anterior à Semana de Arte Moderna Brasileira de 1922, da qual fizeram</p><p>parte escritores como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro</p><p>Lobato. Da mesma forma que no Romantismo, por conta das</p><p>idiossincrasias e particularidades de alguns projetos, a escola modernista</p><p>acaba sendo dividida pedagogicamente em três momentos ou gerações.</p><p>Primeira Geração: Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel</p><p>Bandeira, além dos pintores Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Menotti Del</p><p>Picchia; Segunda Geração: Carlos Drummond de Andrade, Manuel</p><p>Bandeira, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes, José Lins do</p><p>Rego, Jorge Amado, Raquel de Queiroz, Érico Vérissimo; Terceira</p><p>Geração: Clarice Lispector, Guimarães Rosa, entre outros.</p><p>Vale lembrar que as escolas apresentadas anteriormente seguem certa</p><p>predominância registrada pelas historiografias literárias. Evidentemente, após o</p><p>Modernismo, será possível registrar como expressão da literatura</p><p>contemporânea outras escolas literárias, como o caso do concretismo, o</p><p>neoconcretismo etc. Os nomes citados dos escritores, portanto, são o reflexo do</p><p>que estudamos como cânone literário, não significando que sejam os únicos.</p><p>17</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Com base nas discussões estabelecidas ao longo deste encontro, reflita</p><p>sobre as seguintes questões:</p><p>1. De que forma uma historiografia literária pode ser utilizada por um</p><p>estudante de Letras ou pesquisador da área? Diante de uma obra desse</p><p>gênero, qual é o tipo de comportamento esperado?</p><p>2. Como se constitui um cânone literário? Quais são as variáveis envolvidas</p><p>para a definição de certo conjunto de obras a ser estudado em</p><p>determinada literatura nacional?</p><p>3. Segundo a perspectiva do crítico Antonio Candido, quais são os pilares</p><p>do chamado sistema literário? Com as suas palavras, comente de que</p><p>forma esse olhar para pensar a literatura entende as cartas do</p><p>descobrimento e outras produções do Quinhentismo, por exemplo.</p><p>FINALIZANDO</p><p>Este encontro teve como objetivo apresentar como a literatura</p><p>foi</p><p>sistematizada ao longo dos séculos por meio das chamadas historiografias</p><p>literárias. Com base em nomes como Quintiliano, as histórias da literatura</p><p>passaram a reunir o que, até então, os historiadores literários julgavam ser os</p><p>escritores e obras que deveriam ser a base e a tradição. Sobretudo no período</p><p>romântico, no final do século XVIII e início do século XIX, as historiografias</p><p>literárias ganharam uma fase de ouro, servindo de referência para a construção</p><p>da identidade das nações.</p><p>Pelos processos de seleção e recorte, foi possível entender como é criado</p><p>um cânone literário, valorizando que, mais do que critérios estéticos, estão</p><p>também em jogo – como não poderia deixar de ser em toda e qualquer</p><p>enunciação – parâmetros políticos. Diante de toda essa discussão, pensamos</p><p>especificamente no contexto brasileiro, dando especial atenção para Antonio</p><p>Candido e sua Formação da literatura brasileira. Dentre tantas contribuições</p><p>para a crítica e para os estudos literários, Candido descortinará como o pensar</p><p>literário está ligado diretamente a um sistema literário, um complexo</p><p>alicerçado por eixos como autor, leitor e obra. Outrossim, tivemos a</p><p>oportunidade de retomar a ideia das escolas literárias na literatura brasileira,</p><p>18</p><p>listando, de forma objetiva e panorâmica, alguns dos nomes que voltarão a ser</p><p>estudados em outras disciplinas.</p><p>19</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALVES, J. É. de L. et al. Estruturas do texto literário. Curitiba: InterSaberes,</p><p>2013.</p><p>ANDRUETTO, M. T. Hacia una literatura sin adjetivos. Córdoba: Comunic-</p><p>Arte, 2013.</p><p>ARISTÓTELES. Arte poética. Brasília, 2001. Disponível em:</p><p><http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000005.pdf>. Acesso em:</p><p>7 abr. 2019.</p><p>BUENO, L. Depois do fim: ainda história de literatura nacional? Revista Matraga,</p><p>Rio de Janeiro, v. 19, n. 31, jul./dez. 2012.</p><p>CANDIDO, A. Vários escritos. São Paulo: Duas cidades, 2004.</p><p>_____. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6 ed. Belo</p><p>Horizonte: Editora Itatiaia, 2000.</p><p>CAMPOS, H. de. O sequestro do barroco na formação da literatura</p><p>brasileira: o caso Gregório de Matos. Salvador: FCJA, 1989.</p><p>CARPEAUX, O. M. História da literatura ocidental. São Paulo: Leya, 2011.</p><p>COMPAGNON, A. Literatura para quê? Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2009.</p><p>COUTINHO, E. La reconfiguración de identidades en la producción literaria de</p><p>América Latina. In: ELGUE DE MARTINI, C. et al. Espacio, memoria e</p><p>identidad: configuraciones en la literatura comparada. 1 ed. Córdoba:</p><p>Comunicarte Editorial, 2005. p. 117-126.</p><p>EAGLETON, T. Teoria da literatura: uma introdução. São Paulo: Martins</p><p>Fontes, 1983.</p><p>KAVISKI, E.; FUMANERI, M. L. C. Literatura brasileira: uma perspectiva</p><p>histórica. Curitiba: InterSaberes, 2014.</p><p>LOPES, P. C. Literatura e linguagem literária. BOCC, Lisboa, Portugal.</p><p>Disponível em: <http://bocc.ubi.pt/pag/bocc-lopes-literatura.pdf>. Acesso em: 7</p><p>abr. 2019.</p><p>MICHAELIS. Dicionário brasileiro da língua portuguesa. Disponível em:</p><p><https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/>.</p><p>Acesso em: 7 abr. 2019.</p><p>20</p><p>MOISÉS, M. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 2004.</p><p>OLIVEIRA, S. Análise de textos literários: poesia. Curitiba: InterSaberes, 2017.</p><p>SOSNOWSKI, S. Cartografía de las letras hispanoamericanas: tejidos de la</p><p>memoria. Villa María: Eduvim, 2015.</p><p>TODOROV, T. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.</p>

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