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<p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 49 A retomada de uma teoria materialista do crime e da pena: aportes a partir de Marx e Nayara Rodrigues Introdução Este trabalho tem o objetivo de resgatar, de forma parcial e introdutória, alguns aportes de Marx e de Pachukanis para a com- preensão da questão criminal. Trata-se de um esforço no sentido de retomada de uma tradição materialista de concepção do crime e da pena desde as raízes dessa mesma tradição. A partir dos autores-referência do texto, pretende-se, parti- cularmente, chamar atenção para o fato de que uma crítica ao sistema penal não pode estar dissociada de uma crítica ao Direito enquanto tal. Por óbvio, uma perspectiva de deslegitimação do sistema penal que tome por base o instrumental teórico do "Materialismo Histó- rico" deve estar atrelada a um intento de transformação radical das condições de vida a partir de uma perspectiva de superação da pró- pria sociabilidade que conforma essas mesmas condições, o que, en- tretanto, tem por decorrência, na visão marxiana e pachukaniana, a superação do próprio direito, fato que parece por vezes ser negligen- ciado em parte dos debates criminológicos, a partir de uma autono- mização da esfera do sistema penal. Nessa perspectiva, a retomada de Marx, como o autor que lançou as bases para toda uma específica tradição de compreensão da realidade, em geral, e para uma teoria materialista do crime e da pena que ganha força a partir da década de 1960, em particular, bem 1 Este artigo foi escrito a partir de palestra proferida na Faculdade de Direito e Ciên- cias do Estado da UFMG, por ocasião do "Seminário Caminhos para a Revolução de 1917: as revoluções antes da Revolução". Também representa, em parte, algumas das reflexões da autora no âmbito de sua dissertação de Mestrado, ainda em cons- trução. 2 Mestranda em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Endereço do currículo lattes: Contato: nayaramedra- do@gmail.com</p><p>50 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA como o resgate das contribuições de Pachukanis, reconhecido como o maior e mais consequente teórico marxista do direito, constitui ta- refa importante no sentido de deixar claros os pressupostos dos quais uma tal pretensão prático-teórica não pode abrir mão. Isso implica, também, em enfrentar de forma séria e consequente para além do fácil e frágil argumento do "anacronismo" os vários pontos de ten- são e de desconforto presentes na concepção marxiana do crime e da pena, como o são o tratamento do lumpenproletariado e do próprio estatuto do crime, para ficar em alguns poucos exemplos. o objeti- aqui, dada a limitação do espaço, é mais chamar atenção para a necessidade de enfrentamento dessas questões do que propriamente oferecer respostas definitivas. Estatuto do crime e do criminoso em Marx o primeiro esclarecimento a ser feito desde já é que Marx não constrói exatamente uma teoria criminológica, porque, de um lado, suas análises não partiam da lógica das ciências parcelares - ao contrário, nas palavras do próprio Marx, "conhecemos uma única ciência, a ciência da historia" (MARX; ENGELS, p. 86); e porque, de outro, ele nunca tomou a questão penal como eixo central de análise. Ao contrário, o compromisso do Marx era com a compreensão da própria realidade efetiva e de suas determinações materiais, e mais especificamente com a investigação do modo de produção capitalista e suas correspondentes relações de produção e de circulação, bem como as vias possíveis de sua superação. Contudo, mesmo não havendo um tratamento sistemático ou, mesmo, uma obra específica do Marx destinada a tratar da ques- tão do crime e da pena, a análise esparsa desses elementos, sempre em meio à busca da compreensão da própria realidade efetiva, nos traz chaves de investigação interessantes que podem contribuir para a compreensão disso que estamos denominando por questão penal. Os enfoques possíveis são muito variados. o primeiro deles, e talvez o mais intuitivo, é aquele que diz respeito ao reconhecimento, em Marx, de um possível caráter criminógeno da sociedade capitalis- ta, isto é, da compreensão do capitalismo mesmo, com suas determi- nações e consequências, como fator de propulsão ao crime. Em um artigo chamado "População, crime e Marx, analisando</p><p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 51 os indicadores socioeconômicos da Inglaterra e do país de Gales na primeira metade do século XIX, afirma que "deve haver algo de podre na essência mesma de um sistema social que eleva sua riqueza sem diminuir sua miséria, e eleva sua criminalidade ainda mais rapida- mente" (MARX, 2014, p. 120), e diz, logo em seguida, que "violações da lei geralmente emergem como resultado de ações econômicas" (MARX, 2014, p. 121). Ou seja, Marx fala expressamente de uma cri- minalidade produzida e manejada ativamente pelo sistema social. Nesse mesmo texto o autor abre margem para uma outra abordagem possível, que diz respeito ao próprio estatuto do crime no pensamento marxiano, isto é, uma abordagem questionadora de se o crime constitui uma construção social, uma realidade discursiva produzida a partir da etiqueta, algo afirmado pela Teoria do Etique- tamento (ou Labelling Approach) e amplamente recepcionado pela Criminologia Crítica, ou se o crime possui uma (realidade ontoló- gica), se ele é pré-constituído à intervenção penal, se verificável na realidade mesma. Marx Violações da lei geralmente emergem como resulta- do de ações econômicas (economical agencies), que se encontram além do alcance dos legisladores; mas, assim como a aplicação (the working of) da Lei da De- linquência Juvenil demonstra, depende, em certa me- dida, da sociedade oficial (official society) carimbar (to stamp) certas violações como crimes ou como meras transgressões. Tal diferença de nomenclatura, longe de indiferente, decide o destino de milhares de homens, além da postura moral (moral tone) da sociedade (MARX, 2014, p. 120). autor reconhece, portanto, que o crime não existe apenas como realidade ontológica, ao passo que a sociedade oficial - por meio do carimbo jurídico tem um importante papel constitutivo em face do crime. Ao mesmo tempo, Marx coloca a questão de forma cautelosa, dizendo que depende apenas em certa medida da socie- dade oficial estabelecer esse carimbo, que terá repercussões concre- tas na realidade. Também diz que as ações econômicas motivadoras das violações às leis encontram-se além do alcance dos legisladores. Ou seja, embora reconheça um papel constitutivo do direito, ou do</p><p>52 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA legislador, ou da sociedade oficial em face do crime, Marx não dá exatamente o mesmo tratamento da Criminologia Crítica em sua apropriação da Teoria do Etiquetamento, no sentido de deslocar todo o foco para os processos de criminalização. Uma outra possível abordagem é a da relação estabelecida en- tre a figura do criminoso e o lumpenproletariado. Tanto Marx quanto Engels reconhecem, reiteradamente, que o criminoso pertence a essa "sub-classe" do lumpenproletariado, um agrupamento de indivíduos que não integram a dinâmica das atividades socialmente produtivas. Quanto a seu caráter, Marx e Engels afirmam no Manifesto Comu- nista que "[o lumpen] pode, às vezes, ser arrastado ao movimento por uma revolução proletária; todavia, suas condições de vida o pre- dispõem mais a vender-se à reação" (MARX; ENGELS, 2005, p. 49). Marx cita dois momentos históricos em que o lumpen teve um papel eminentemente o primeiro deles, descreve Marx em seu Lutas de classe na França, é o da Insurreição de Junho de 1848, reprimida de forma sangrenta pelos chamados 24 Batalhões da Guarda Móvel, compostos majoritariamente por indi- víduos recrutados do lumpen. outro é o golpe descrito por Marx como 18 Brumário de Luís Bonaparte", que contou com a ação fundamental da reacionária sociedade 10 de dezembro, mais uma vez composta por integrantes do lumpenproletariado. Trata-se, talvez, do tema mais polêmico abordado por Marx no que toca à questão penal. Há uma grande resistência, hoje, e acre- dito que principalmente a partir de Foucault e da sua visão de Mi- crofísica de poderes como geradora também de resistências, de se considerar esses sujeitos não identificados com o proletariado como tendentes à reação. Há um texto específico do Foucault, um diálogo com Gilles Deleuze que recebeu o título de Os intelectuais e o poder e integra o seu Microfísica do Poder, em que ele defende exatamente o caráter revolucionário daqueles por ele denominado como prisio- neiros, partindo obviamente de uma visão descentralizada do poder, algo absolutamente distinto da visão Mesmo autores da 3 Eles servem realmente à causa da revolução proletária lutando precisamente onde a opressão se exerce sobre eles. As mulheres, os prisioneiros, os soldados, os doentes nos hospitais, os homossexuais iniciaram uma luta específica contra a forma par- ticular de poder, de coerção, de controle que se exerce sobre eles. Estas lutas fazem parte atualmente do movimento revolucionário, com a condição de que sejam ra- dicais, sem compromisso nem reformismo, sem tentativa de reorganizar o mesmo</p><p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 53 tradição da Criminologia Crítica, como Juarez Cirino dos Santos, que parte inclusive da leitura pachukaniana de Marx, afirmam que o enquadramento do preso no lumpen não é adequado à descrição da realidade do atual estágio do capitalismo, em sua fase que deve ficar claro, de todo modo, é que não se trata, em Marx, de uma crítica de conteúdo moral ao lumpen. Antes, são exa- tamente suas condições materiais de vida, e a ausência de consciência de classe já que excluído das dinâmicas do trabalho produtivo que vão traçar, na visão de Marx, essa tendência e é bom reiterar que ele fala de uma tendência e não de um determinismo do lumpen à reação. A anatomia da sociedade civil-burguesa: o legado marxiano para a compreensão da pena Em um artigo denominado Capital Punishment, publicado em 1857 no The New York Tribune, Marx, além de fazer uma crítica dura às funções declaradas da pena, em particular da função preven- tiva, destaca o que para ele é a função real desempenhada pela pu- nição. Neste texto, o autor vai dizer: "a punição nada mais é que um meio de a sociedade se defender contra a infração de suas condições vitais, seja qual for seu caráter" (MARX, 2017, tradução nossa). Logo, em se tratando de uma forma específica de sociabili- dade a capitalista a pena não pode ter outra função real senão defender as condições necessárias à reprodução dessa mesma forma de sociabilidade. Com isso, Marx aproxima-se de uma conexão entre a própria pena e o modo de produção capitalista ou, mais especifica- poder apenas com uma mudança de titular. E, na medida em que devem combater todos os controles e coerções que reproduzem o mesmo poder em todos os luga- res, esses movimentos estão ligados ao movimento revolucionário do proletariado (FOUCAULT, 1979, pp. 77-78). 4 Na época do capitalismo monopolista, em que menos de um terço da força de tra- balho potencial está integrada nos processos produtivos, e mais de dois terços dessa força de trabalho se encontra em situação de marginalização forçada do mercado de trabalho, como mão-de-obra ociosa controlada diretamente pela prisão, nas suas conexões com a polícia e a justiça criminal, parece sem sentido considerar os presos como lumpenproletariado, sem consciência ou organização política e sem papel na luta de classes: a população carcerária é extraída da classe trabalhadora, engajada nas lutas sindicais por direitos trabalhistas (...) (CIRINO DOS SANTOS, 2006, p. 09).</p><p>54 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA mente, de uma crítica ontológica ao próprio sistema penal, consentâ- nea com uma crítica ontológica ao próprio Direito desenvolvida em textos como A Miséria da Filosofia e Crítica do Programa de Gotha. Falando mais propriamente sobre uma perspectiva ontoge- nética da pena, o texto mais fundamental nesse aspecto em Marx é, sem dúvida, o capítulo XXIV do Livro I do Capital, que, conjugado a artigos da Nova Gazeta Renana, permite apreender o tratamento marxiano da gênese da formação carcerária moderna, delimitando a função real por ele desempenhada no processo de objetivação ca- pitalista inglês, de modo a corroer a hegemônica narrativa liberal a respeito desse mesmo processo histórico. De fato, é predominante hoje no nosso Direito Penal uma abordagem de natureza liberal, que identifica o surgimento e a con- solidação do cárcere como pena com o marco da Modernidade. Afir- mam os teóricos liberais que essa novidade a pena privativa de li- berdade teria representado uma perspectiva de humanização do sistema de punição até então vigente, caracterizado, como Foucault vai destacar muito bem, pelos suplícios, "uma forma de produção sis- temática e dolorosa da morte", uma punição incidente sobre o corpo e executada sob a forma de um sangrento espetáculo público, como, nas palavras do autor "uma arte das sensações insuportáveis". A prisão viria, assim, concomitante à afirmação dos direitos do ho- mem e do cidadão e dos valores das revoluções burguesas, como uma tentativa de humanização de um sistema cruel de penalização. Da pu- nição incidente diretamente sobre o corpo, passa-se à punição exerci- da sobre a liberdade, considerada, ao mesmo tempo, como um bem e como um direito, ainda que, claro, a prisão também não abra mão da imposição de um sofrimento físico considerável: superlotação, estru- tura e condições de higiene precárias, privação alimentar, tortura, etc. Marx concorda com parte da afirmativa dos teóricos liberais: o surgimento e a consolidação do cárcere como pena surge bastante ligada ao contexto das revoluções burguesas e da consequente afir- mação da liberdade contratual e da igualdade jurídica como valores universais. Contudo, a consolidação da pena privativa de liberdade por meio do cárcere não vem, como tenta fazer crer a tradição liberal de análise do sistema penal, como uma tentativa de humanização das punições. Ao contrário, as prisões surgem com um objetivo bastante claro e determinado: servir à consolidação de um capitalismo nas-</p><p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 55 cente. Marx faz essa análise partindo especialmente do caso inglês: a chamada via clássica de transição para o capitalismo. Outros países e regiões carregaram suas especificidades nesse momento de transi- ção, que acabaram por se refletir também em particularidades quanto à questão prisional - e alguns autores da Criminologia Crítica (em especial Dario Melossi e Massimo Pavarini - tentaram, em alguma medida, compreender essas especificidades no caso estadunidense e italiano, por exemplo), mas foi o caso inglês o utilizado por Marx como "ilustração No capítulo 24 do Livro I do Capital, Marx tratará da assim chamada acumulação primitiva, o processo histórico que tem início em meados do século XV, de separação entre o trabalhador (proprie- tário de sua própria força de trabalho) e as condições de realização de seu trabalho, separação essa que constitui o cerne da chamada rela- Esse processo foi marcado, de um lado, pela acumulação de recursos nas mãos de poucos proprietários e, de outro, pela expro- priação súbita e violenta de uma grande massa de pequenos produ- tores rurais de seus meios de subsistência (a terra que até então lhes pertencia). Com o roubo violento de suas terras, ora operado apesar da lei ora contando com o aval legal (Lei dos Cercamentos), esses pe- quenos produtores foram lançados no mercado como trabalhadores livres, detentores exclusivamente de sua própria força de trabalho. A história da acumulação primitiva coincide, assim, com a história da expropriação de grandes massas humanas, uma história que, pela violência com base na qual se deu, "está gravada nos anais da huma- nidade com traços de sangue e fogo" (MARX, 2013, p. 962). Despojados de seus meios de sobrevivência, esses trabalha- dores viram-se obrigados a migrar para as cidades, passando a vender sua força de trabalho a preços baixíssimos às indústrias em ascensão. Uma boa parcela desse grupo, não-absorvidos imediatamente pelo mercado, acabaram por se converter, "em parte por predisposição mas majoritariamente em virtude das circunstâncias", em "vagabun- 5 "O que pretendo nesta obra investigar é o modo de produção capitalista e suas correspondentes relações de produção e de circulação. Sua localização clássica é, até o momento, a Inglaterra. Essa é a razão pela qual ela serve de ilustração principal à minha exposição teórica" (MARX, 2013, p. 113).</p><p>56 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA dos e paupers", passando a ser alvo de uma sanguinária política cri- minal de repressão à assim chamada vagabundagem - a recusa ao trabalho ainda que em condições de extrema precariedade típicas de um período de subvalorização salarial -, que incluía desde o açoite até a pena de morte. A partir da segunda metade do século XVI, prossegue Marx, essa política criminal terrorista é substituída por uma outra estraté- gia: a custódia institucional da população ociosa nas chamadas casas de trabalho e nas denominadas casas de correção, aliada a um regime de trabalhos forçados. Marx define as workhouses inglesas como "es- tabelecimentos públicos em que a população trabalhadora excedente vegeta às custas da sociedade burguesa" e que aliariam "de manei- ra verdadeiramente refinada a caridade à vingança que a burguesia descarrega nos miseráveis coagidos a apelar à sua caridade" (MARX, 2010, p. 369). Essas instituições, que se encobriam sob as vestes de caridade pública, em praticamente nada se diferenciavam, quanto à estrutura de acomodação, das casas de correção (destinadas, em tese, aos criminosos), exceto quanto à sua ainda maior precariedade. Em ambos os casos, prevalecia uma espécie de "caridade feroz", baseada em razões "inteiramente De um lado, a ordem burguesa e a atividade comercial poderiam sofrer de maneira inquietante se todos os paupers da fossem subitamente arre- messados à rua. Por outro lado, a indústria inglesa os- cila entre períodos de febril superprodução, em que a demanda por braços mal pode ser atendida e os braços devem ser obtidos tão barato quanto possível, e perí- odos de recuo comercial, em que a produção excede largamente o consumo e apenas com esforço a meta- de do exército de trabalhadores pode ser empregada, com metade do salário. Que meio mais sensato do que as workhouses para manter à disposição um exército de reserva para os períodos favoráveis e, ao mesmo tempo, durante os períodos desfavoráveis para o co- mércio, transformá-lo, pela punição nestes piedosos estabelecimentos, em máquina sem vontade, sem re- sistência, sem exigências, sem necessidades? (MARX, 2010, p. 369).</p><p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 57 A íntima relação estabelecida entre cárcere e capital variou conforme o momento histórico e a especificidade de cada região até porque também se modificavam as necessidades do próprio capital. Cabe destacar, nesse ponto, que Marx, ao tratar do desenvolvimen- to histórico do capitalismo inglês tomou-o como mera ilustração, e não como um modelo de análise a ser aplicado a toda e a qualquer situação. Marx descreve uma universalidade a do próprio sistema capitalista, com todas as suas consequências -, mas não ignora singu- laridades: daí a importância da categoria da particularidade histórica. De qualquer modo, o que Marx - e também Engels, consi- derando o importante estudo por ele realizado sobre a situação da classe trabalhadora inglesa tiveram o êxito de mostrar, a partir da exposição desse histórico da formação carcerária na Inglaterra, é que o cárcere enquanto pena surge basicamente no sentido de viabilizar a consolidação de um capitalismo nascente, seja garantindo um exérci- to industrial de reserva, seja habituando, pela imposição de trabalhos forçados e condições degradantes de existência, o nascente proleta- riado à nova rotina de produção, marcada por um esforço na extra- ção máxima da mais-valia. Fica nítido, portanto, o quanto é equivocado se falar em um pretenso papel humanizador ou civilizatório da pena privativa de li- berdade em sua gênese. Se há alguma "ressocialização" possível de ser mencionada é a "socialização" do pequeno produtor rural, até então detentor de seus próprios meios de sobrevivência, a uma outra socia- bilidade, marcada pelo trabalho estranhado, pela reificação das rela- ções sociais, pela impossibilidade de controle consciente, por parte do trabalhador, das suas próprias condições de vida a sociabilidade do capital. Também em seu Teorias da Mais-Valia, Marx, tratando com ironia a perspectiva segundo a qual o critério de classificação do tra- balho como produtivo é sua utilidade e dizendo que, desde tal ponto de vista, até mesmo o crime seria atividade produtiva, afirma que "o crime retira do mercado de trabalho parte da população supérflua e por isso reduz a concorrência entre os trabalhadores, impede, até certo ponto, a queda do salário abaixo do mínimo, enquanto a luta contra o crime absorve parte dessa população" e que, assim, cri- minoso aparece como uma daquelas naturais, que restabelecem um equilíbrio adequado e abre ampla perspectiva de</p><p>58 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA ocupações (MARX, 1980, pp. 383). Aqui, para além de uma análise da função desempenhada pelo cárcere em seu nascedouro, Marx aponta para uma certa funcionalidade da repressão ao crime por meio do sistema penal para o próprio nivelamento salarial e para o controle de disponibilidade de mão-de-obra. E é assim que o Marx, partindo de uma análise ontogenética da pena privativa de liberdade, tomando o caso inglês como paradig- ma ilustrativo de uma universalidade, consegue demonstrar como "a pena nada mais é que um meio de a sociedade se defender contra a infração de suas condições vitais, seja qual for o seu caráter". Por- tanto, se estamos falando de uma sociedade cujo caráter é marcado pela alienação e pelo estranhamento, em que as relações sociais são reificadas e as coisas (mercadorias) assumem a qualidade de relações sociais, a pena e o sistema de justiça a ela atrelado apenas servirão para manter e legitimar essas condições reais. Pachukanis e a pena como retribuição equivalente Legatário de Marx, Pachukanis é considerado ainda hoje, quase um século após a publicação de sua Teoria Geral do Direito e Marxismo - escrito, como dirá o autor, mais para esclarecimento pessoal do que para qualquer outra finalidade o principal teórico voltado para um olhar marxista sobre o direito. o jurista soviético, que chegou a ser Vice-comissário do Povo para a Justiça e morreu executado em meio aos chamados processos de Moscou, ponto máxi- mo da perseguição de Stálin a seus opositores políticos, destinará sua principal obra a lançar as primeiras bases muito embora não tivesse qualquer pretensão de escrever um manual para uma "explicação materialista do ordenamento jurídico como forma histórica determi- nada" (PACHUKANIS, 1989, p. 18). Pachukanis traz duas grandes inovações quanto ao tradicio- nal debate em torno do direito. De um lado, rompendo com pers- pectivas puramente normativistas, buscou entendê-lo como fruto de relações sociais historicamente dadas6. De outro, buscou pensar uma 6 "A dogmática jurídica, por conseguinte, não coloca de forma alguma a questão de porque o homem se transformou de indivíduo zoológico em sujeito de direito. Ela parte da relação jurídica como uma forma acaba- da, dada a priori. A teoria marxista, ao contrário, considera historicamente toda forma social. Ela, portanto, se propõe por tarefa explicar as condições</p><p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 59 crítica ao direito não mais em termos de conteúdo, mas em termos de forma, forma esta que apenas poderia coexistir com um modo de produção socialmente determinado: o capitalista. direito, para Pachukanis, só surge com todas as suas de- terminações com o capitalismo, tendo em vista que "só a sociedade burguesa capitalista criou todas as condições necessárias para que o momento jurídico seja plenamente determinado nas relações sociais" (PACHUKANIS, 1989, p. 23). Antes teriam existido apenas formas rudimentares e embrionárias, mas não o direito enquanto tal, que pressupõe a generalização da troca de mercadorias - a ponto de in- cluir a troca de força de trabalho por meios de subsistência - e a opo- sição, "tão característica que existe na época burguesa, entre o indiví- duo como pessoa privada e o indivíduo como membro da sociedade política" (PACHUKANIS, 1989, p. 23). Como apenas com a sociabilidade capitalista a troca passa a ser efetivada em escala global e tendo como base o indivíduo e sua vontade (não mais representante de uma vontade coletiva), também o direito, enquanto categoria de mediação propiciadora da troca mer- cantil, apenas poderá surgir no capitalismo. E sendo uma forma his- tórica atrelada à sociabilidade capitalista, com a superação dessa mes- ma sociabilidade, chegaria ao fim também o direito enquanto forma: A transição para o comunismo evoluído não se mos- tra, segundo Marx, como uma passagem a novas for- mas jurídicas, mas como o desaparecimento da forma jurídica enquanto tal, como uma libertação em relação a esta herança da época burguesa, destinada a sobrevi- ver à própria burguesia (PACHUKANIS, 1989, p. 28). A forma jurídica, para Pachukanis, seria determinada pela relação de troca de mercadorias própria do modo de produção ca- pitalista. Se, de um lado, essa relação de troca se dá a partir do esta- belecimento de uma equivalência qualitativa entre bens dotados de mesmo valor a mercadoria -, de outro, no direito, a relação se dá entre portadores destas mercadorias, concebidos como seres dotados de uma vontade juridicamente presumida que os tornam, enquan- materiais, historicamente determinadas, que tenham feito desta ou daquela categoria uma realidade" (PACHUKANIS, 1989, p. 83).</p><p>60 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA to sujeitos de direitos (categoria abstrata e impessoal), livres e iguais (PACHUKANIS, 1989, p. 87). Do mesmo modo que a mercadoria apareceria como a "for- ma elementar" da riqueza nas sociedades capitalistas, unidade a par- tir da qual Marx inicia a exposição d' o sujeito seria, de acordo com Pachukanis, "o átomo da teoria jurídica, seu elemento mais simples, indecomponível" (PACHUKANIS, 1989, p. 81). Por isso mesmo, sustentando que a análise de Marx da Economia Política teria início com a mercadoria, Pachukanis começa sua investigação sobre o direito a partir da figura do sujeito jurídico. autor soviético parte, portanto, de uma espécie de parale- lismo entre o tratamento dado por Marx à forma-mercadoria e aqui- lo que ele passa a denominar como Mais do que isso, Pachukanis afirmará que essa conclusão já está presente em Marx, que teria concebido a sociedade capitalista "antes de tudo [como] uma sociedade de proprietários de mercadorias" (PACHUKANIS, 1989, p. 84)9. Ao tratar da categoria do sujeito de direito, Pachukanis está partindo especialmente do segundo capítulo do Livro I d' Capital. Ali, Marx afirma que as mercadorias são objetos destituídos de von- tade e, como tais, não podem ir sozinhas ao mercado e se trocar reci- procamente, exigindo o intermédio de uma figura específica aquela descrita por Marx como o "guardião de Para relacionar essas coisas umas com as outras como mercadorias, seus têm de estabelecer rela- ções uns com os outros como pessoas cuja vontade 7 "A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma "enorme coleção de e a mercadoria singular como sua for- ma elementar. Nossa investigação começa, por isso, com a análise da mercadoria" (MARX, 2013, p. 93). 8 A empreitada não passou livre de críticas. Elcemir Paço Cunha, por exemplo, ar- gumenta que Pachukanis, ao estabelecer o que o crítico chama de "analogia" entre a forma-mercadoria e a forma-jurídica, não teria se atentando para o fato de que a mercadoria é, na verdade, a unidade a partir da qual Marx inicia sua exposição e não sua pesquisa (PAÇO CUNHA, 2014, p. 149). Esse aspecto, longe de um detalhe isolado, tem uma repercussão significativa, tendo em vista a diferenciação presente em Marx entre modo de investigação e modo de exposição. 9 "A análise da forma sujeito, em Marx, decorre imediatamente da análise da forma mercadoria" (PACHUKANIS, 1989, p. 84).</p><p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 61 reside nessas coisas e que agir de modo tal que um só pode se apropriar da mercadoria alheia e alienar a sua própria mercadoria em com a vontade do outro, portanto, por meio de um ato de vontade comum a ambos. Eles têm, portanto, de se reconhe- cer mutuamente como proprietários privados. Essa relação jurídica, cuja forma é o contrato, seja ela legal- mente desenvolvida ou não, é uma relação volitiva, na qual se reflete a relação econômica. o conteúdo dessa relação jurídica ou volitiva é dado pela própria rela- ção econômica. Aqui, as pessoas existem umas para as outras apenas como representantes da mercadoria e, por conseguinte, como possuidoras de mercadorias (MARX, 2013, p. 219). o guardião de que fala Marx aparece, portanto, como o re- presentante ou o possuidor da mercadoria. Na visão de Pachukanis, a vontade abstrata do proprietário substitui a diversidade concreta da relação do homem com a coisa, da mesma forma que as peculiarida- des que distinguem um homem do outro reduzem-se na figura do sujeito de direito. E é assim que relações sociais assumem o caráter de relação entre coisas e a relação entre coisas (as mercadorias) recebem o atributo, com o intermédio do sujeito de direito, de relações sociais: a vontade manifesta pelo proprietário reside na coisa mesma (PA- CHUKANIS, 1989, p. 86). direito, em resumo, é concebido como uma mediação social entre proprietários de mercadorias, sendo, por isso, o grande propiciador da circulação mercantil, por meio das figuras do sujei- to de direito e do contrato jurídico, uma forma cujo conteúdo, dizia Marx, é dado pela própria relação Ou, dito nas palavras do próprio Pachukanis: o objetivo prático da mediação jurídica é o de dar ga- rantias à marcha, mais ou menos livre, da produção e da reprodução social que, na sociedade de produção 10 Essa ênfase na esfera da circulação vai render críticas a Pachukanis, pelo fato de ele, aparentemente, reduzir a importância da esfera da produção. É a chamada tese circulacionista pachukaniana, que autores como Márcio Bilharinho Naves vão ten- tar contrapor, em uma defesa da obra de Pachukanis (NAVES, 2008, pp. 72-78).</p><p>62 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA mercantil, se operam formalmente através de vários contratos jurídicos privados (PACHUKANIS, 1989, pp. 08-09). Com o sistema capitalista, esclarecerá Pachukanis, as relações sociais de dominação e servidão baseadas na coerção direta típicas da sociedade feudal que como tal, dispensavam qualquer tipo de regu- lação jurídica para se efetivar - são substituídas por relações basea- das na liberdade: o trabalhador assalariado "surge no mercado como livre vendedor de sua força de trabalho e é por isso que a relação de exploração capitalista se mediatiza sob a forma jurídica de contrato" (PACHUKANIS, 1989, p. 82). Fala-se, a partir de então, em proprie- tários que se defrontam em nível de igualdade no mercado, sem se perguntar sobre os processos históricos - aqueles atos de subjugação, martírio e escravização que, segundo Marx, estão gravados nos anais da história com traços de sangue e fogo - que tornaram um dos polos proprietário exclusivamente de sua força de trabalho e o polo oposto detentor dos meios de produção. Não se questiona também o como essa pretensa comercialização de mercadorias significa, na verdade, a comercialização do homem mesmo, reduzido a coisa. É por isso que esse afirmado cenário de liberdade nada mais é, dirá Pachukanis, que o mercado idealizado, "transposto para as nuvens da abstração filo- sófica e liberado da grosseira empiria" (PACHUKANIS, 1989, p. 87). E é nesses termos que "a coisa domina economicamente o homem", na medida em que há a redução de uma relação social de trabalho concreto à condição de coisa (mercadoria), ao mesmo tempo que esse mesmo homem, em resposta, "reina juridicamente sobre a coisa", estabelecendo com ela uma relação de propriedade (PACHUKANIS, 1989, p. 86). homem, encarnado em sujeito de di- reito livre e igual, propicia a troca que, em última instância, significa a alienação de si, o fazer circular a si mesmo como objeto de troca: "a estrutura mesma do sujeito de direito, na dialética da vontade pro- dução - propriedade, não é, definitivamente, mais que a expressão jurídica da comercialização do homem" (NAVES, 2008, p. 68). Ou: fetichismo da mercadoria é completado pelo fetichismo jurídico" (PACHUKANIS, 1989, p. 90). Sendo a esfera da circulação, no modelo capitalista, marcada pela troca de equivalentes (mercadorias dotadas de um mesmo valor</p><p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 63 de troca, medido pelo tempo de trabalho socialmente necessário), e sendo o direito o grande mediador da troca, também ele apenas pode operar, como reconhece Marx em seu Crítica do Programa de Gotha, a partir da aplicação de um "padrão igual de medida" (MARX, 2012a, p. 32). A ideia jurídica redunda propriamente na ideia de equivalên- cia (PACHUKANIS, 1989, p. 147). Mais especificamente sobre o lugar do Direito Penal em meio à crítica à forma jurídica enquanto tal, Pachukanis dedica o último capítulo de sua Teoria Geral do Direito e Marxismo, para tratar do que chama de "Direito e violação de direito". Ali, novamente partin- do desse paralelismo entre forma-mercadoria e forma-jurídica com todas as suas consequências e, dentre elas, o princípio da equivalên- cia como sendo uma marca comum, o autor vai tratar o crime como "uma modalidade particular da circulação na qual a relação de troca, ou seja, a relação contratual é estabelecida imediatamente, ou, melhor dizendo, através da ação arbitrária de uma das partes", ao passo que a sanção penal surge como um equivalente que compensa os prejuízos sofridos pela vítima (PACHUKANIS, 1988, p. 119). Desse modo, também a relação entre crime e punição se dá sob a forma de contrato, de um negócio jurídico que tem a particu- laridade de ser realizado não entre dois particulares, como no direito privado, mas entre o declarado autor do crime e o Estado, encarnação de um assim denominado interesse público, ao mesmo tempo que re- presentante dos interesses privados da vítima do crime. A pena surge como um equivalente à violação do direito, e sua medida é o tempo de privação de liberdade. Por isso mesmo os princípios da propor- cionalidade e da individualização da pena assumem um papel tão relevante, como uma marca característica da época burguesa: capi- talismo industrial, a declaração dos Direitos do Homem e o sistema de detenção temporária são fenômenos que pertencem a uma mesma época histórica" (PACHUKANIS, 1989, p. 159). É nessa mesma época, prossegue Pachukanis, que a pena se reveste mais explicitamente de contornos de uma vingança caracte- risticamente jurídica. De fato, o autor soviético sustenta que a história do direito penal é intimamente imbrincada com a noção de vingan- ça. Para os povos primitivos, a reparação era tida como desonrosa e a vingança pessoal era um dever sagrado. posterior jus taliones prossegue nessa mesma tendência, mas estabelecendo limites nor-</p><p>64 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA mativos para o alcance do ciclo de revanchismo. Após, ganha espaço a reparação sob a forma de dinheiro: na Roma Antiga, exemplifica Pachukanis, era perfeitamente aceitável oferecer seu próprio corpo como meio de sanar dívidas financeiras. Por fim, com o surgimento do capitalismo, o pagamento em dinheiro como forma principal de reparação é afastado, e a privação de liberdade em instituições de cus- tódia, antes tidas como provisórias, são generalizadas como principal modo de punir, indicando, "em suma, o fato de que o derramamento de sangue é o único equivalente para o sangue já derramado" (PA- CHUKANIS, 1989, p. 147). E é assim que "de fenômeno puramente biológico, a vingança passa a ser instituição jurídica a partir do mo- mento em que se une à forma de troca equivalente, da troca medida por valores" (PACHUKANIS, 1989, pp. 120-121). Entretanto, essa vingança jurídica expressa pelo aparato cri- minal do Estado Burguês, esclarece o autor, não é dirigida de for- ma indiscriminada, mas, ao contrário, é instrumento assegurador da dominação de classe da classe dominante sobre as classes exploradas. Aparecendo como um verdadeiro "terror de classe organizado que só se distingue em certo grau das chamadas medidas excepcionais utilizadas durante a guerra civil (PACHUKANIS, 1989, p. 151), o sis- tema penal não pode ser analisado sem se tomar como central o seu caráter classista: Não se pode compreender o verdadeiro sentido da prática penal do Estado de classe sem partir de sua natureza antagonista. As teorias do direito penal que deduzem os princípios da política penal a partir dos interesses do conjunto da sociedade são deformações conscientes da realidade. conjunto da só existe na imaginação dos juristas; só existem, de fato, classes com interesses opostos, contraditórios. Todo sistema histórico e determinado de política penal traz a marca dos interesses da classe a qual serve (PACHUKANIS, 1989, p. 152). Partindo dessa constatação de que interesse de classe im- prime em cada sistema penal a marca da concretização histórica", Pa- chukanis não poderia chegar a outra conclusão senão a de que um sistema penal que não seja marcado pelos antagonismos de classe, tal</p><p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 65 como concretizado na imaginação dos juristas, apenas poderia existir com o fim das classes sociais e, com ele, o desaparecimento do prin- cípio de relação de equivalência (PACHUKANIS, 1989, pp. 152-153). Em suma, para Pachukanis o direito penal consiste, em seu conteúdo e em seu caráter, em instrumento de dominação de classe, ao passo que, enquanto forma, aparece como um dos ramos integran- tes da superestrutura jurídica, não podendo ser dela dissociado (PA- CHUKANIS, 1989, p. 153). Por esse último fato, é, tal como o direito em geral, regido pelo princípio da equivalência, carregando, contudo, a especificidade de incidir de forma mais direta sobre o corpo do con- denado e de tomar como critério de mensuração do objeto de troca não o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção da mercadoria, mas o tempo de privação de liberdade. condenado é colocado em relação negocial com o Estado, que, como dito, encarna o interesse público, ao mesmo tempo em que representa o interesse privado da vítima do dano. Fica claro, portanto, que o mesmo paralelismo apoiado em uma dedução lógica que Pachukanis emprega para a compreensão da forma jurídica, o autor também o faz quanto à questão penal. É porque há um paralelismo entre forma jurídica e forma valor que o princípio da equivalência é também o reitor da punição e a pena pode ser considerada como retribuição equivalente medida pelo tempo de privação de liberdade: "a privação de liberdade, ditada pela sentença do tribunal, por um certo período de tempo, é a forma específica pela qual o direito penal moderno, realiza o princípio da reparação equivalente" (PACHUKANIS, 1989, p. 158). Como já destacado, esse é um tratamento inexistente em Marx. Se Pachukanis está errado nas conclusões a que chega, é uma outra discussão e, acredito, estamos longe de ter condições de encer- rá-la de maneira satisfatória. Mas que essas conclusões tomam por base um salto bastante significativo parece evidente. Pachukanis também não parte, ao menos não com o mes- mo rigor marxiano, de uma análise propriamente ontogenética da pena privativa de liberdade que tome por critério a investigação da gênese, do desenvolvimento e da função real desempenhada por um determinado complexo do ser social em meio ao conjunto da re- produção como um todo -, como o faz Marx. Vale reiterar aqui que mesmo Pachukanis assumiu o caráter de reflexões inacabadas de sua</p><p>66 . CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA obra, e que ele não pretendia que Teoria Geral do direito e marxismo fosse tomado como fio de Ariadne pra análise do direito. De qualquer modo, o autor representa, sem sobra de dúvida, um grande avanço no sentido de interpretação do direito, especial- mente por romper com as perspectivas puramente normativistas rei- nantes até então e que ainda hoje exercem ampla influência na for- mação jurídica e na aplicação do direito. Pachukanis carrega consigo o inestimável mérito de tentar colocar a análise marxista do direito nos trilhos certos, além de chamar atenção e lançar bases para a com- preensão das especificidades dos vários ramos do direito. Considerações Finais Abstraídas as várias e significativas distinções entre os pensa- mentos marxiano e pachukaniano, é possível dizer que o que ambos os autores trazem de mais relevante para se pensar a questão penal é aquilo que aparece de mais fundamental em seus pensamentos: é impossível se pensar em uma crítica ao sistema penal que não parta, também, de uma crítica ao próprio direito e talvez também do pró- prio politicismo -, ao mesmo tempo em que não há como se pensar uma crítica ao direito que não parta de uma perspectiva de superação da própria sociabilidade capitalista e das condições de vida por ela engendradas. Do ponto de vista teórico, essa parece uma constatação bas- tante óbvia, tomando-se como ponto de partida o terreno de uma assim intitulada Criminologia Crítica. Ocorre que, como diria o pró- prio Pachukanis em referência a uma certa tendência colocada no âmbito da teoria do direito, "a muitos marxistas tem sido suficiente introduzir, nas teorias acima [as teorias jurídicas denominadas so- ciológicas e o momento de luta de classes para se obter uma teoria do direito verdadeiramente materialista e marxista" (PA- CHUKANIS, 1989, p. 16). Creio que também para a Criminologia Crítica tem sido suficiente, por vezes, inserir o momento da luta de classes e o diagnóstico da seletividade penal para se pretender uma teoria verdadeiramente crítica, materialista e marxista. A meu ver, contudo, a contribuição de Marx - e também de Pachukanis - vai muito além disso: significa pensar também em qual abolicionismo penal queremos, quais são seus pressupostos e do que</p><p>ESTUDOS EM HOMENAGEM AOS 10 ANOS DO GRUPO CASA VERDE 67 ele não pode ser dissociado. E desde uma leitura marxista, não é pos- sível se questionar uma abolição apenas do sistema penal, deixando intocada as outras esferas do direito, ou o direito como tal. A abolição do sistema penal pressupõe e é decorrência mesma da superação da própria sociabilidade capitalista. Obviamente essa constatação não leva a prognósticos sim- ples. Há todo o complexo debate sobre as dimensões da tática e da estratégia revolucionárias. E aí entra toda a discussão de se um uso tático do direito pode ser tomado em termos revolucionários, na for- ma de um direito insurgente ou alternativo, que têm por correlato uma política criminal das classes subalternas, ou se na verdade esse uso tático apenas pode significar o que Vitor Sartori tem chamado de "enxugar gelo" (SARTORI, 2018), em grande medida importante, mas muito distante da afirmação de uma perspectiva insurgente ou revolucionária do direito, ainda que em termos táticos. Também é aqui que entra a discussão de se um pretenso uso tático do direito penal deve se dar necessariamente em termos de mi- norar sua força, ou seja, barrar sua expansão, ou se é possível se de- fender uma expansão tática do sistema penal em certos termos e em casos específicos sem se contradizer uma estratégia revolucionária, necessariamente abolicionista. Esse último debate é aquele colocado quanto ao que Maria Lucia Karam (1996) tem chamado de Esquerda Punitiva, e as pautas em torno de um acionamento do sistema penal para a defesa dos direitos humanos. Todas essas são discussões complexas. o fato é que desde um ponto de vista marxista e nisso Marx e Pachukanis convergem em absoluto é impossível se partir de uma autonomização do sistema penal, ou de uma crítica que o tome como objeto isolado, indepen- dente de sua base real, como parecem crer alguns. Afinal, como diria Pachukanis: Os conceitos de delito e de pena, como resulta do que foi dito precedentemente, são determinações necessá- rias da forma jurídica, das quais não poderemos nos libertar a não ser quando tiver início o aniquilamento da superestrutura jurídica em geral. E quando come- a ultrapassar realmente, e não somente nas de- clarações, esses conceitos tornados inúteis, então essa será a melhor prova de que o horizonte limitado do</p><p>68 . CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRÍTICA CRIMINOLÓGICA direito burguês começou finalmente a se alargar dian- te de nós (PACHUKANIS, 1989, p. 136). Referências bibliográficas CIRINO DOS SANTOS, Juarez. A criminologia radical. Curitiba: Lumen Juris, 2006. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. KARAM, Maria Lúcia. A Esquerda Punitiva. In: Revista Discursos Sediosos, Relume Dumará, Rio de Janeiro, pp. 79-92, 1996. MARX, Karl. A Ideologia alemã. Trad. Luís Claudio de Castro e Cos- ta. São Paulo: Boitempo, 2002. As lutas de classes na França: de 1848 a 1850. Trad. Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2012. Capital Punishment. Disponível em: https://www.mar- Acesso em 29 mar. 2017. Crítica do Programa de Gotha. São Paulo: Boitempo, 2012a. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2005. . Nova Gazeta Renana. Trad. Lívia Cotrim. São Paulo: Educ, 2010. . o 18 Brumário de Luís Bonaparte. Trad. Nélio Schnei- der. 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