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<p>PARA GOSTAR DE LER 38 Histórias de ficção científica ANDRÉ CARNEIRO ARTHUR C. CLARKE BRUCE STERLING EDGAR ALLAN POE EDUARDO GOLIGORSKY H. G. WELLS ISAAC ASIMOV JEAN-LOUIS TRUDEL JORGE LUIZ CALIFE MIGUEL DE UNAMUNO MILLÔR FERNANDES RUBENS TEIXEIRA SCAVONE e.1 T. editora ática</p><p>te Histórias de ficção científica</p><p>PARA GOSTAR DE LER 38 Circulante Histórias de ficção científica ANDRÉ CARNEIRO ARTHUR C. CLARKE BRUCE STERLING EDGAR ALLAN POE EDUARDO GOLIGORSKY H. G. WELLS ISAAC ASIMOV JEAN-LOUIS TRUDEL JORGE LUIZ CALIFE MIGUEL DE UNAMUNO MILLÔR FERNANDES RUBENS TEIXEIRA SCAVONE Seleção e organização de textos Roberto de Sousa Causo Tradução Carlos Angelo e Roberto de Sousa Causo Ilustrações Sam Hart Biblioteca Pública Municipal Mario de Araraquara SP editora ática</p><p>Classe F P221 Clarke, 1985; Bruce Sterling, 2001; Eduardo 6; Isaac Asimov, 2001; Jean-Louis Trudel, Fernandes, 2004; Roberto de Sousa Causo, Tombo 042949 Sumário P M M lo Paixão Dias Editor assistente Fabio Weintraub Preparação Maurício Baptista Vieira Revisão Ivany Picasso Batista (coord.), Luicy Caetano, Andrea Medeiros Arte Edição Cintia Maria da Silva Apresentação Assistente Futuros imaginados 7 Eduardo Rodrigues Editoração eletrônica Moacin K. Matsusaki Pesquisa iconográfica Sílvio Kligin (coord.), Angelita Cardoso Edgar Allan Poe Os fatos no caso de monsieur Valdemar 11 CIP-BRASIL. André Carneiro SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. Planetas habitados 27 H58 Histórias de ficção científica / Carneiro... [et al.]; seleção e organização de textos G. Wells Roberto de Sousa Causo ; [tradução: Carlos Angelo e Roberto de Sousa Causo]. São Paulo : A estrela 33 Ática, 2005 (Para gostar de ler ; 38) Miguel de Unamuno Autores: André Carneiro, Arthur C. Clarke, Bruce Sterling, Edgar Allan Poe, Eduardo Goligorsky, H. G. Wells, Isaac Asimov, Jean-Louis Trudel, Jorge Luiz Calife, Miguel de 51 Unamuno, Fernandes, Rubens Teixeira Scavone Arthur Clarke ISBN 978-85-08-10021-7 A sentinela 59 1. Antologias (Conto). 2. Ficção científica. I. Causo, Roberto de Sousa, II. Angelo, Carlos. IV. Série. Fernandes 05-2859. CDD 808.83876 navegador 75 CDU 82-34(082) 09.09.05 12.09.05 011526 de 83 ISBN 978 85 08 10021 7 (aluno) Scavone ISBN 978 85 08 10022 4 (professor) 95 2008 111 edição impressão Impressão e acabamento: Editora Parma 123 Todos os direitos reservados pela Editora Ática, 2005 Av. Otaviano Alves de Lima, 4400 - São Paulo, SP CEP 02909-900 129 Tel.: (11) 3990-2100 Fax: (11) 3990-1784 Internet: www.atica.com.br www.aticaeducacional.com.b é declarado extinto 143 IMPORTANTE: Ao comprar um livro, você remunera e reconhece o trabalho do autor e o de muitos outros profissionais envolvidos na produção editorial e na comercialização das obras: editores, revisores, dia em perspectiva 149 gramadores, ilustradores, divulgadores, distribuidores, entre Ajude-nos a combater a cópia Ela gera desemprego, prejudica a difusão da cultura e encarece os livros que você compra 159</p><p>Futuros imaginados As origens da ficção científica se perdem nas brumas do tempo. Mas a maioria dos especialistas concorda que ela é filha da Revolução Industrial XIX), quando o ritmo acelerado de novas tecnologias fez as pessoas perceberem que grandes mudanças podiam acontecer no curso de uma vida. Essa literatura que pensa o porvir e papel do homem no universo foi a grande novidade do século XX, conforme seus assuntos começaram se tornar realidade: a bomba atômica, as espaciais, o satélite artificial, as redes de computadores, a engenharia genética. Parte desse esforço imaginativo para lidar com surpresas que tempo engendra é o que você vai nos contos aqui reunidos. Eles compõem quadro representativo da ficção científica misturando autores de renome internacional que se dedicaram ao gênero. atestam, entre outras coisas, a da FC para investigar o ser humano - a exemplo, do confronto com a morte. no conto de Edgar Allan Poe, "Os fatos monsieur Valdemar", em que a VOZ da Nota do editor: Carlos Angelo responde pela tradução dos contos "Os fatos no caso se manifesta através de um corpo cuja de monsieur e "A estrela". "Sonhos de "No último reduto", "Filhos do sol" e "2380 d.C.: o Homo sapiens é declarado extin pelo transe hipnótico; ou em to" foram traduzidos por Roberto de Sousa Causo. Wells, em que apocalipse se</p><p>é avizinha com a passagem de um O tema declarado extinto", de Bruce Sterling, em é retomado em "2380 d.C.: o Homo sapiens própria condição humana parece deixar de que existir a Edgar Allan Poe Outra fonte de revelação dos limites do humano e de seu sonho civilizador pode dada pelo contraste com a máquina, como ser em de Miguel de Unamuno, narra a história de um viajante solitário que em uma espécie de cidade-fantasma perdido E Isaac Asimov, em "Sonhos de robô", trata de um anseio de liberdade ligado à humanização dos o autômatos, tema que reaparece em "O menino e de Rubens Teixeira O robô, nessas histórias, funciona como um espelho de nós mesmos, função que também Em pode ser desempenhada pela figura do alienígena. "Planetas Carneiro Arthur C. Clarke fornece um especula sobre a existência de uma perspectiva vislumbre do quanto tudo mudaria a partir de A morte é um dos fatores que definem a condição hu- um contato com tais civilizações extraterrestres, A ficção científica tem brincado com a idéia de que a em "A sentinela", enquanto Jorge Luiz Calife pode alterar a forma pela qual a enfrentamos. Esta mostra que esse contato pode frustrar nossas história de um mestre do conto norte-americano ilusões, em "O Terceiro Mundo". foi tomada como verídica e copiada em vários países, depois Enfim, o espelho mais precioso nos é dado de sua publicação, em 1845. Um expediente científico inusi- pelo nosso "Os filhos do sol", do tado prolonga o fim de um moribundo por tempo suficiente canadense Jean-Louis Trudel, e "No último para que sua mensagem assustadora chegue até nós, vinda reduto", do argentino Eduardo Goligorsky, tratam da zona nebulosa entre a vida e a morte. do ódio e da esperança que depositamos na humanidade, ampliados ou modificados pelos novos contextos (ecológicos, políticos, econômicos, sociais) que a FC vislumbra. 8</p><p>fatos no caso de monsieur Valdemar Edgar Allan Poe É claro que não devo fingir que considero de se admi- o extraordinário caso de monsieur Valdemar tenha discussão. Teria sido um milagre se isso não tives- acontecido, especialmente devido às circunstâncias em que tal caso se deu. Embora desejo de todas as partes envol- manter o assunto longe do público, pelo menos por enquanto (ou até que tenhamos mais oportunidades de investigação), um relato deturpado ou exagerado chegou à sociedade e se tornou a fonte de muitas descrições enganosas e, muito naturalmente, de um grande nível de descrença. Agora se tornou necessário que eu forneça os fatos, até o ponto em que eu mesmo os compreendo. Eles são, resumi- damente, estes: Minha atenção, nos últimos três anos, havia sido repeti- damente atraída para assunto do e, cerca de nove meses atrás, me ocorreu, de súbito, que na série de ex- perimentos feitos até agora houve uma omissão muito evi- dente e quase inexplicável: nenhuma pessoa havia ainda Título - senhor, em francês. 1 mesmerismo: conjunto das idéias e práticas de Franz Anton Mesmer (1734-1815), médico alemão responsável pela doutrina do magnetismo animal. o mesmerismo é uma espécie de precursor da hipnose atual. 11</p><p>sido mesmerizada na hora da morte. Ainda primeiro lugar, se em tal condição existia no restava ver, em meu nesses pontos à sua saúde per- do suscetibilidade à influência magnética; em segundo, paciente alguma alguns meses antes de conhecê-lo, seus médi- alguma, se ela seria debilitada ou aumentada existin diagnosticado como Era costume dele, tempo dição; em terceiro, cumpria ver até que ponto ou por essa con falar calmamente de seu falecimento iminente, Havia a invasão da morte podia ser impedida pelo por para não ser evitado nem lamentado. outros pontos a averiguar, mas esses eram os as às quais aludi me ocorreram pela pri- ter atiçavam minha curiosidade, o último em especial, pelo que mais foi muito natural, é claro, que eu pensasse em imensamente importante de suas Eu conhecia a firme filosofia do homem Ao procurar ao meu redor por algum demais para temer qualquer hesitação da parte dele, que quem pudesse testar esses detalhes, fui levado paciente com parentes na América que pudessem interferir. Fa- meu amigo, monsieur Ernest Valdemar, o conhecido a pensar em the com sobre o assunto e, para minha surpre- zador da "Biblioteca Forense" e autor (sob o Marx) da versão polonesa de Wallenstein e Issachar Monsieur pseudônimo Gargan- organi- de interesse parecia vividamente excitado. Eu digo para minha surpresa, pois, embora ele sempre tenha se sujeitado no que tinha vivido principalmente aos meus experimentos, nunca havia dado ante- seu (ou era) particularmente notável pela extrema magreza de bairro do Harlem, em Nova York, desde o ano de 1839, é quaisquer mostras de simpatia em relação ao que Sua doença era do tipo que permitiria um cálculo corpo, seus membros inferiores lembrando muito da época em que morreria, sendo enfim combinado John lento e também pela brancura das em os vio- de entre nós que ele mandaria me chamar cerca de vinte e qua- contraste com o negror dos cabelos, os quais, em horas antes do seu passamento, previsto pelos médicos. eram muito amiúde confundidos com uma con- Faz agora um pouco mais de sete meses desde que rece- ca. Seu temperamento era marcadamente nervoso, o peru- do próprio monsieur Valdemar, o bilhete apenso: tornava um bom paciente para os experimentos mesméri- que o cos. Em duas ou três ocasiões eu o havia hipnotizado Prezado pouca dificuldade, mas fiquei desapontado com outros com Você pode muito bem vir agora. e concordaram sultados que sua constituição particular havia naturalmente re- me levado a prever. Sua vontade, em nenhum momento, es- que acho não que posso acertaram resistir no além horário da com meia-noite grande de precisão. amanhã e eu tava completamente sob meu controle e, com respeito à cla- rividência, não consegui realizar com ele nada Valdemar Recebi esse bilhete meia hora após ter sido escrito e, em composta por o campo de Wallenstein (1798), Os Piccolomini (1799) e A 2 Wallenstein: trilogia do poeta alemão Friedrich von Schiller (1759-1805), mais quinze minutos, eu estava no quarto do moribundo. terrí- Wallenstein (1799). Gargantua: nome do célebre personagem criado pelo morte francês de Não o havia visto por dez dias e fiquei assustado com a Pantagruel (1534), obra-prima da sátira renascentista. François Rabelais (1494-1593) em A vida inestimável do grande Gargantua, pai de vel alteração que esse breve intervalo havia operado nele. estado da Virgínia, de Edgar Allan Poe. 3 John Randolph (1773-1833): membro do congresso norte-americano, senador pelo 4 tísico: tuberculoso. 12 13</p><p>Seu rosto apresentava um tom plúmbeo; os olhos estavam completamente embaçados e o definhamento era tão extre- 10 2 mo que a pele havia afundado completamente nas boche- chas. Sua expectoração era O pulso mal era 3 ceptível. Ele conservava, não obstante, de maneira bastante per- lava notável, tanto a lucidez quanto certo grau de força Fa- 8 4 da com clareza, tomou alguns remédios paliativos sem aju- e, quando entrei no quarto, estava ocupado escrevendo ros. notas em uma caderneta. Escorava-se na cama por travessei- 12 Os doutores D_ e prestavam-lhe assistência. Após apertar a mão de Valdemar, chamei esses 10 2 lheiros à parte e obtive deles um relato detalhado das condi- cava- 3 ções do paciente. pulmão esquerdo estivera por dezoito meses em um estado semi-ósseo ou cartilaginoso e se torna- 8 4 ra, é claro, inteiramente inútil para todas as finalidades de bém manutenção da vida. O direito, em sua parte superior, tam- estava parcial, se não completamente, ossificado, en- 11 12 quanto a região inferior não passava de uma massa de tubér- 1 culos purulentos se Havia várias grandes 10 2 perfurações e, em um ponto, ocorrera uma adesão nente às costelas. Essas alterações no direito, perma- 3 das às do esquerdo, eram recentes. A ossificação prosseguira compara- com rapidez incomum; nenhum sinal dela tinha sido desco- 8 4 berto um mês antes e a adesão fora observada apenas duran- te os três dias anteriores. Independentemente da tísica, sus- peitava-se que o paciente tivesse um aneurisma da aorta; 12 1 mas, nesse ponto, os sintomas ósseos tornavam impossível de um diagnóstico exato. A opinião de ambos os médicos era a 10 2 noite do sábado. no dia seguinte (domingo). Naquele momento eram sete da que monsieur Valdemar morreria por volta da meia-noite, 8 4 Afastando-se do leito para conversar comigo, os dou- tores D_ e haviam se despedido do enfermo para sem- pre. Não era intenção deles retornar; porém, a meu pedido, 12 1 5 lobo: parte de um órgão relativamente 10 14</p><p>concordaram em fazer uma visita rápida ao paciente por vol- primeiro movimento lateral de minha mão sobre sua testa; ta das dez da noite seguinte. mas, embora eu exercesse todo o meu poder, mais nenhum Quando eles se foram, falei livremente com monsieur efeito foi induzido até alguns minutos depois das Valdemar sobre o assunto de seu falecimento iminente, as- dez, quando os doutores e chegaram, conforme o sim como, mais especificamente, sobre experimento pro- combinado. Expliquei-lhes em poucas palavras o que havia posto. Ele ainda se declarava bastante disposto, e até mesmo planejado e, como não fizessem dizendo que o pa- ansioso, para que o experimento fosse feito e me instou a ciente já estava na agonia da morte, prossegui sem hesitar. começá-lo imediatamente. Um enfermeiro e uma enfermei- Substituí, no entanto, os passes laterais por passes descenden- ra lhe prestavam assistência; mas não me senti totalmente à tes, dirigindo o meu olhar para o olho direito do agonizante. vontade para me empenhar em uma tarefa desse caráter A essa altura o seu pulso era e sua respira- com testemunhas não muito confiáveis em caso de acidente ção, em intervalos de meio minuto. súbito. Por conseguinte, adiei as operações até cerca de oito Essa condição manteve-se inalterada por um quarto de horas da noite seguinte, quando a chegada de um estudante hora. No entanto, ao término desse período, um suspiro na- de medicina, meu conhecido (o sr. Theodore abreviou- tural, embora muito profundo, escapou do peito do mori- me o embaraço. meu plano, originalmente, era aguardar bundo e a respiração estertorosa parou, ou seja, seu caráter os médicos, mas fui levado a prosseguir; em primeiro lugar, de estertor não era mais evidente; sem que os intervalos pelas súplicas de urgência de monsieur Valdemar e, em se- houvessem se modificado. As extremidades do paciente es- gundo, pela convicção de que não havia tempo a perder, vis- tavam frias como gelo. to que ele estava piorando velozmente e de modo claro. Faltando cinco minutos para as onze, percebi sinais sr. foi gentil o bastante anuindo ao meu desejo inequívocos de influência mesmérica. movimento apático de que ele tomasse nota de tudo o que ocorresse. É com base do olho foi substituído por aquela inconfundível expressão nas suas anotações que eu relato agora ocorrido apoiando- de inquieto exame introspectivo, raramente observada, a não me, em grande parte, no que foi condensado ou literalmen- ser em casos de sono desperto. Com uns poucos e rápidos te transcrito. passes laterais fiz as pálpebras tremerem, como se começas- Faltavam cinco para as oito quando, segurando a mão sem a adormecer, e, com alguns mais, as fechei por comple- do paciente, pedi-lhe que declarasse para sr. o mais to. Eu não estava contudo satisfeito, mas prossegui com as distintamente que pudesse, se ele (monsieur Valdemar) estava manipulações vigorosamente e com o máximo esforço da inteiramente disposto a ser mesmerizado naquela condição. vontade, até ter retesado completamente os membros do Ele respondeu debilmente, embora de maneira bastante adormecido, após colocá-lo em uma posição aparentemente audível: "Sim, eu desejo ser mesmerizado", acrescentando logo confortável. As pernas estavam esticadas; os braços, quase depois, "temo que o senhor tenha aguardado tempo demais". estendidos, jaziam na cama a uma distância moderada dos Enquanto ele falava, iniciei os passes6 que eu já sabia efi- quadris; e a cabeça, ligeiramente elevada. cazes para dominá-lo. Ele estava claramente influenciado pelo Quando consegui isso já era meia-noite. Solicitei aos cavalheiros presentes que examinassem as condições de 6 passe: gesto de passar as mãos repetidas vezes ante os olhos de uma pessoa (ou so- bre uma parte do corpo que está doente) com o intuito de magnetizá-la ou de curá-la. 7 estertorosa: agonizante. 16 17</p><p>monsieur que ele Após alguns testes, eles reconheceram "O senhor ainda sente a dor no peito, monsieur Valdemar?". estava em estado de transe mesmérico de um modo A resposta dessa vez foi imediata, mas menos audível de ambos perfeito. Isso excitou bastante a curiosidade ainda do que antes: manecer médicos. dr. D decidiu, de imediato, per- "Sem dor. Estou morrendo". com toda a noite, enquanto O dr. Não achei aconselhável perturbá-lo mais naquele mo- sr. e se despediu paciente promessa por com a de voltar ao raiar do dia. mento, e nada mais foi dito ou feito até a chegada do dr. mesmas da Deixamos enfermeiros quando permaneceram. aproximei que apareceu um pouco antes do nascer do sol e se espantou três monsieur Valdemar impassível até cerca de à larga ao encontrar o paciente ainda vivo. Após sentir o seu me e encontrei nas pulso e lhe aplicar um espelho aos lábios, solicitou que eu fa- pousava condições de quando dr. partira. Isto é, ele re- lasse com o semi-adormecido novamente. Eu o fiz, dizendo: piração, na mesma posição; pulso era imperceptível; a res- "Monsieur Valdemar, o senhor ainda dorme?". um suave (só ao se aproximar de seus lábios Como antes, alguns minutos se passaram antes que espelho): olhos estavam fechados naturalmente e os houvesse uma resposta e, durante esse intervalo, o moribun- a membros, tão rígidos e frios quanto mármore. Ainda assim, aparência geral certamente não era de morte. do parecia estar reunindo suas energias para falar. Na quarta Ao repetição da pergunta, ele disse muito fracamente, de modo me aproximar de monsieur Valdemar, fiz uma espé- quase inaudível: levar seu braço a seguir meu en- "Sim; ainda dormindo. Morrendo". embora cie de êxito experimentos semi-esforco debilmente, o mas. total, para que para corpo paciente Nesses quanto sobre seu de um lado para outro. Era agora a opinião, ou melhor, o desejo dos médicos, com tal eu nunca antes alcan- que não se perturbasse monsieur Valdemar em sua condição pectativa; o determinava agora minha baixa ex- atual, aparentemente tranqüila, até que a morte pudesse so- meu assombro, seu braço muito pronta, brevir. Isso, eles concordavam, deveria ocorrer dentro de al- car algumas acompanhava o meu. Decidi-me a arris- guns minutos. Eu decidi, no entanto, falar com ele mais "Monsieur eu "o senhor está dormin- Palavras de conversação. uma vez, e simplesmente repeti minha pergunta anterior. seus mas notei um tremor em torno de do?". lábios Ele não e respondeu, Valdemar", disse, Enquanto eu falava, ocorreu uma alteração marcante em seu semblante. Os olhos se abriram lentamente, as pupi- fui assim persuadido a repetir a pergunta, nova- las desaparecendo para cima; a pele toda assumiu um tom po mente foi e agitado mais cor- uma vez. Na terceira repetição, todo o seu cadavérico, lembrando mais papel branco do que pergami- abriram por um tremor muito leve; as pálpebras se nho, e as manchas coradas circulares que até então estavam os lábios o suficiente moveram para lentamente deixar ver a linha entre branca eles, do em globo; bem definidas no centro de cada bochecha se apagaram sussurro e, por um diatamente. Uso essa expressão, pois a rapidez de sua parti- quase inaudível, vieram as palavras: da lembrava, mais do que tudo, uma vela apagada com um "Sim; adormecido agora. Não me acorde! Deixe que eu morra sopro. O lábio superior se retraiu deixando os dentes à mos- Então tra, ao mesmo tempo que o queixo despencou num sonoro que nunca, apalpei os membros e os senti mais rígidos do solavanco. Com a boca totalmente aberta, se podia agora ver Eu braço direito, como antes, seguia minha mão. a língua inchada e enegrecida. Presumo que nenhum mem- novamente ao semi-adormecido: bro do grupo ali presente estivesse desacostumado aos hor- 18 19</p><p>rores do leito de morte; mas a aparência de monsieur Valde- Nenhuma pessoa presente sequer disfarçou ou tentou mar naquele momento era tão inimaginavelmente horrenda conter o indescritível e arrepiante horror que essas poucas que todos se afastaram da cama. palavras, pronunciadas daquela forma, conseguiam tão bem Creio ter chegado agora a um momento desta narrativa transmitir. sr. (o estudante) desfaleceu. Os enfermei- em que todos os leitores serão chocados a ponto de ficarem ros imediatamente deixaram o quarto e não foi possível totalmente descrentes. No entanto, é meu dever simples- convencê-los a voltar. Nem tentarei tornar inteligíveis ao lei- mente prosseguir. tor as minhas próprias impressões. Por quase uma hora nos Já não havia o menor sinal de vida em monsieur Valde- ocupamos silenciosamente (sem ninguém dizer uma única mar. Concluindo que ele estivesse morto, estávamos prestes palavra) em esforços para despertar o sr. Quando ele a entregá-lo aos cuidados dos enfermeiros quando um forte voltou a si, nos dedicamos novamente a investigar a condi- movimento vibratório foi observado na língua. Isso prosse- ção de monsieur Valdemar. guiu talvez por um minuto. Ao término desse período, uma Ela permanecia inalterada em todos os aspectos, com a saiu de dentro das maxilas distendidas e imóveis. Seria exceção de que espelho não mais fornecia indício de respi- loucura de minha parte tentar descrevê-la. Há, na verdade, ração. Uma tentativa de retirar sangue do braço falhou. Tam- dois ou três qualificativos que podem ser, ao menos em par- bém devo mencionar que esse membro não estava mais su- te, aplicados a ela. Posso dizer, por exemplo, que som era jeito à minha vontade. Tentei em vão fazê-lo seguir a direção áspero, além de OCO e quebradiço; mas a VOZ horrenda é in- de minha mão. Na verdade, a única indicação real da in- descritível, pela simples razão de que nenhum som similar fluência mesmérica se encontrava agora no movimento vi- jamais foi impingido ao ouvido da humanidade. Não obs- bratório da língua sempre que eu dirigia uma pergunta a tante, houve dois detalhes que na época achei (e ainda monsieur Valdemar. Ele parecia estar fazendo um esforço para acho) característicos da entonação, assim como apropriados responder, mas não tinha mais vontade própria suficiente. para transmitir parte da idéia de sua peculiaridade sobrena- Parecia totalmente insensível às perguntas feitas a ele por tural. Em primeiro lugar, a VOZ parecia alcançar nossos ouvi- qualquer outra pessoa que não eu mesmo, embora eu tenha dos (pelo menos os meus) vinda de uma grande distância ou me empenhado em colocar cada membro do grupo em sinto- de uma caverna nas profundezas da Terra. Em segundo, ela nia mesmérica com ele. Acredito que já tenha relatado tudo me afetou (eu temo, na verdade, que será impossível me fa- o que é necessário para uma compreensão do seu estado nes- zer compreender) como substâncias gelatinosas ou pegajo- se período. Outros enfermeiros foram providenciados e, às dez sas afetam o sentido do tato. horas, eu saí da casa com os dois médicos e sr. Eu falei tanto do "som" quanto da "voz". Quero dizer Todos comparecemos de tarde para ver o paciente outra que o som possuía uma silabação distinta ou até mesmo ad- vez. Sua condição permanecia precisamente a mesma. Dis- mirável, penetrantemente distinta. Monsieur Valdemar falou. cutimos um pouco sobre a adequação e a viabilidade de Obviamente em resposta à pergunta que eu havia lhe pro- acordá-lo; mas tivemos pouca dificuldade para concordar posto alguns minutos antes. Havia lhe perguntado, deve-se que nada de bom viria disso. Estava claro que, até momen- lembrar, se ele ainda dormia. Ele então disse: to, a morte (ou o que normalmente é chamado de morte) "Sim... não... eu estava dormindo... e agora.. agora... havia sido impedida pelo processo mesmérico. Parecia claro estou morto". para todos nós que despertar monsieur Valdemar iria mera- 20 21</p><p>mente assegurar o seu instantâneo rápido) para acalmar o paciente; mas, falhando nisso através da sus- falecimento. pensão total da vontade, voltei atrás e, com o mesmo empe- Desde esse período até final da passada, um nho, me esforcei para despertá-lo. Nessa tentativa logo vi intervalo de quase sete meses, continuamos visitas diá- que teria sucesso ou, pelo menos, logo quis acreditar que meu sucesso seria completo -, e estou certo de que todos rias à casa de monsieur Valdemar, acompanhados vez ou ou- tra de amigos, médicos ou Durante tempo, o no quarto estavam preparados para ver o paciente despertar. Contudo, duvido que qualquer ser humano pudesse es- semi-adormecido permaneceu como descrevi tar preparado para o que realmente ocorreu. por último. A atenção dos enfermeiros foi continua À medida que fazia os passes mesméricos, entre excla- Foi na última sexta-feira que resolvemos finalmente fa- mações de "morto! morto!" absolutamente explodindo da zer o experimento do despertar ou de tentar e é língua e não dos lábios do agonizante, seu corpo todo de o resultado (talvez) infeliz desse último experimento o que uma vez, no espaço de um único minuto ou até menos, en- deu motivo a tanta discussão em círculos privados, a tanto colheu, desagregou-se, apodreceu completamente sob as mi- do que eu não consigo deixar de considerar um injustificá- nhas mãos. Sobre a cama, ante todo o grupo, repousava uma vel sensacionalismo. massa quase líquida de repugnante, de abominável podridão. Com a finalidade de tirar monsieur Valdemar do transe mesmérico, fiz uso dos passes Por algum tempo eles não tiveram sucesso. A primeira indicação do despertar foi dada por uma descida parcial da íris. Tal descida foi acompa- nhada, de modo especialmente notável, pelo escoamento abundante de um pus amarelado (vindo de debaixo das pál- pebras), com odor pungente e bastante Sugeriu-se então que eu deveria tentar influenciar o braço do paciente, como anteriormente. Tentel e não obtive êxito. O dr. me comunicou, em seguida, desejo de que eu fizesse uma pergunta. Eu assim fiz, da seguinte forma: "Monsieur Valdemar, o senhor pode nos explicar que está sentindo ou o que deseja agora?". Houve um retorno instantâneo dos círculos corados nas bochechas; a língua tremeu, ou melhor, se agitou vio- Edgar Allan Poe exerceu enorme influência no campo da lentamente na boca (embora as maxilas e os lábios perma- poesia, da prosa e da crítica, antecipando muitas das necessem rígidos como antes); e finalmente a mesma conquistas do modernismo norte-americano. Entre as suas obras mais conhecidas estão romance As aventuras de horrenda que já descrevi exclamou de repente: Arthur Gordon Pym (1837), o livro de contos Histórias "Pelo amor de Deus! Rápido! Rápido! Faça-me dormir! extraordinárias (1840) e o poema em prosa "Eureka" (1848). Seus contos ajudaram a dar forma e substância a Ou, rápido! Me acorde! Rápido! Eu digo que estou morto!". dois gêneros formados no século XIX: a ficção científica e Fiquei completamente perturbado e, por um instante, o romance policial. Nasceu em Boston, em 1809, e morreu indeciso quanto ao que fazer. A princípio, fiz um esforço jovem, aos quarenta anos de idade. 23 22</p><p>André Carneiro No universo imenso parece improvável que os seres hu- manos sejam a única espécie dotada de inteligência. Um grande número de histórias se dedica a especular sobre ou- tras civilizações, habitantes de outros mundos. Esta narrativa de André Carneiro levanta a possibilidade de que tais extra- terrestres sejam muito parecidos com a gente - ou não...?</p><p>Planetas habitados Carneiro - O lhe como são bonitas, milhares de estrelas... E quase todas devem ser rodeadas de planetas como o nosso, habitados, provavelmente... Custa-me acreditar... Os cientistas dizem que há milhões, talvez trilhões de planetas, só nas galáxias mais próximas. A vida existiria como aqui. Devo ter pouca imaginação. Acho difícil visualizar planetas habitados, com seres iguais a nós, vivendo como nós. Por que "iguais e vivendo como nós"? É pretensão injustificável deduzir que só animais semelhantes tenham desenvolvido inteligência. E os objetos de forma arredonda- da, vistos em nossa órbita? Muita gente os vê a olho nu. Não seriam pessoas sugestionáveis ou com defeitos na vista? Li num artigo: essas aparições são fenômenos natu- rais pouco estudados, ou máquinas voadoras feitas aqui mes- mo, em experiências secretas. Talvez, em parte. Mas já há uma boa documentação e não vejo motivo de espanto em supor que outros planetas do nosso sistema sejam habitados. - Mas os seres que comandam ou pilotam essas naves espaciais, por que não pousam e entram em contato? Não passa de orgulho gratuito pensar que habitantes 27</p><p>planetas estejam interessados em dialogar conos- engenhos talvez sejam minúsculos, comandados a Estarão apenas nos estudando com seus aparelhos? possível que eles sejam tão diferentes de nós que não haja uma possibilidade de entendimento imediato. Falariam línguas impossíveis de se aprender? Quem emitam ruídos, ou comuniquem-se por gestos... Nossos cientistas acabariam descobrindo a chave. eles, mais inteligentes, nos ajudariam a compreendê-la. Aquela estrela brilhante não é um planeta? É. Ali há condições para a vida. Talvez primitiva e di- versa da nossa, pois sua temperatura é extraordinariamente - Escrevem muitas histórias sobre aquele planeta. Cos- inventar seus habitantes como sendo monstros des- truidores, interessados em conquistar a galáxia... - Histórias e hipóteses... Quem sabe eles têm mesmo duas antenas na cabeça, um olho atrás, outro na frente, qua- tro braços e seis patas. - Seria engraçado se fosse assim. Por quê? Pior se tivessem dois braços, um par de olhos em cima do nariz... Seu conceito de beleza é muito exclusivista. Gente normal como nós poderia se entender com monstros pavorosos? Fique É provável que eles só existam nas histórias. E descobriram que lá a atmosfera é oxigênio puro. De mais a mais, o terceiro planeta possui só um terço de ma- téria sólida. O resto é uma substância líquida onde a vida é improvável. - Esta conversa me abala os nervos. Imaginar monstros pernaltas, com dois olhos na frente. Toque aqui a antena. 29</p><p>- Adeus. Não pense mais no assunto. E saia com cui- dado para não incomodar as crianças. Seis patas fazem mui- to barulho... H. G. Wells Quando Wells publicou esta história, em 1897, a hipó- tese de a Terra ser vítima de um desastre cósmico parecia inédita e aterradora. Hoje a ciência aceita que nosso planeta foi atingido várias vezes no passado, e que provavelmente voltará a ser sacudido por um novo choque, em algum mo- mento do futuro. A beleza e a força do conto, como você vai ver, está nos dramas humanos que são confrontados com a força cósmica lançada contra nós. André Carneiro nasceu em Atibaia, interior do estado de São Paulo, em 9 de maio de 1922. Não contente em ser só escritor (poeta, contista, romancista), desenvolveu também trabalhos como artista plástico, e cineasta. Autor premiado, publicado em mais de dez países, Carneiro é o autor das novelas A escuridão (1963), Piscina livre (1980), Amorquia (1991) e do livro de contos A máquina de Hyeronimus e outras histórias (1997). 30</p><p>A estrela H. G. Wells primeiro dia do novo ano, quase simultaneamen- te, a partir de três observatórios, foi feito o anúncio de que o movimento do planeta Netuno, o mais afastado de todos os planetas que giram em torno do Sol, havia se tornado extre- mamente errático. Em dezembro, Ogilvy já havia chamado a atenção para um retardamento suspeito em sua velocidade. Em um mundo no qual a maior parte dos habitantes não es- tava ciente da existência do planeta Netuno, uma notícia dessas foi pobremente calculada para despertar interesse. Nem provocou qualquer grande excitação, a não ser entre os astrô- nomos profissionais, a descoberta subseqüente de uma indis- tinta mancha remota de luz na região do planeta perturbado. As pessoas de ciência, no entanto, acharam a informação bastante notável, mesmo antes de se saber que o novo corpo estava rapidamente se tornando maior e mais brilhante, que seu movimento era bastante diferente do avanço ordenado dos planetas e que o desvio de Netuno e de seu satélite estava agora se tornando de um tipo sem precedentes. Poucas pessoas sem treinamento em ciência conse- guem conceber o isolamento do Sistema Solar. Sol, com suas pintas de planetas, sua poeira de planetóides e seus im- palpáveis cometas, nada em uma imensidão vazia quase que impossível de se imaginar. Além da órbita de Netuno há es- paço, vazio até onde a observação humana penetrou, sem calor ou luz ou som, vácuo total, por trinta milhões de vezes 33</p><p>um milhão de quilômetros. Essa é a menor estimativa da boquiabertas, os operários indo cedo para o trabalho, os lei- distância a ser atravessada antes que a mais próxima das es- teiros, os entregadores de jornal, os libertinos voltando trelas seja atingida. E, salvo alguns cometas mais incorpó- exaustos e pálidos para casa, os vagabundos de rua, os guar- reos do que a mais tênue das chamas, nenhuma matéria ha- das em suas rondas e, no interior, os lavradores caminhando via, de acordo com o conhecimento humano, cruzado esse para o campo, os larápios voltando para as tocas... do inte- abismo do espaço até o começo do século XX, quando esse rior e também do mar, por marinheiros à espera do dia, real- estranho viajante surgiu. Era uma vasta massa de matéria, çada pela escuridão, ela podia ser vista uma grande estre- volumosa, pesada, correndo sem aviso, vinda do mistério la branca, subitamente surgida no céu a oeste! negro do céu na direção do resplendor do Sol. No segundo Brilhava mais do que qualquer estrela em nossos céus; dia, ele era claramente visível com qualquer instrumento ra- mais do que a estrela vespertina em seu máximo fulgor. Ela zoável, como uma pinta com um diâmetro mal ainda resplendia enorme e branca, não um mero ponto relu- na constelação de Leão, próximo de Em pouco tem- zente, mas um pequeno disco rutilante, uma hora após o dia po, um binóculo de ópera conseguia alcançá-lo. nascer. E onde a ciência não alcançara, os homens olhavam No terceiro dia do novo ano, os leitores de jornais dos e temiam, contando uns aos outros sobre guerras e pestilên- dois hemisférios ficaram cientes pela primeira vez da impor- cias que eram pressagiadas por esses sinais de fogo nos céus. tância dessa aparição incomum nos céus. "Uma colisão pla- Robustos bôeres, escuros negros da Costa do netária", um jornal de Londres mostrava nas manchetes, franceses, espanhóis, portugueses ficaram parados sob proclamando a opinião de Duchaine de que esse estranho o calor do sol nascente assistindo ao ocaso dessa estranha novo planeta provavelmente colidiria com Netuno. Os mais nova estrela. importantes escritores se estenderam sobre assunto; de Em uma centena de observatórios havia uma excitação modo que, na maior parte das capitais do mundo, em três de contida, quase se erguendo em grito, à medida que os dois janeiro, havia uma expectativa, mesmo que vaga, de algum corpos remotos se aproximavam rapidamente; e uma afoba- fenômeno iminente no céu. À medida que a noite se seguia ção para apanhar o aparato fotográfico, o espectroscópio e ao pôr-do-sol em torno do mundo, milhares de homens vol- outros aparelhos a fim de registrar essa nova visão incrível: a tavam seus olhos para o céu para ver... as velhas estrelas fa- destruição de um mundo. Pois era um mundo, um planeta miliares, exatamente como sempre foram. irmão de nossa Terra, de fato muito maior do que ela, que Até que chegou a alvorada em Londres, se pôs e havia subitamente morrido em chamas. Era Netuno que ha- as estrelas acima perderam brilho. Era a alvorada do inver- via sido atingido, total e completamente, pelo estranho pla- no, uma fraca concentração da luz diurna filtrada, mais a luz dos lampiões e a das velas que brilhavam nas janelas indi- neta do espaço exterior, e o calor da havia cando o movimento das pessoas. Mas policial bocejante diatamente transformado dois globos sólidos em uma vasta viu a coisa as multidões agitadas nos mercados pararam 3 bôeres: colonos brancos que se estabeleceram no território africano a partir do sé- culo XVII. Hotentotes: povo da África do Sul. 1 Régulo: primeira estrela da constelação zodiacal de Leão, também conhecida como 4 Costa do Ouro: República de Gana, no oeste da África, entre a Costa do Marfim e o Alpha Leonis. Togo, ex-colônia britânica. 2 Pólux: segunda estrela da constelação zodiacal de Gêmeos. 5 concussão: choque violento. 34 35</p><p>massa de incandescência. Em torno do mundo naquele dia, los caminhos congelados nos povoados homens duas horas antes do alvorecer, seguiu aquela pálida grande que haviam lido aquelas coisas da fita pulsante ficaram pa- estrela branca, desaparecendo apenas quando se punha a rados em portas abertas com luzes amarelas gritando a notí- oeste e o Sol se elevava acima dela. Em todo lugar os ho- cia para os transeuntes. "Está mais perto." Mulheres bonitas, mens se admiravam com ela, mas de todos que a viram, ne- coradas e resplandecentes, ouviram a notícia contada em nhum podia se admirar mais do que aqueles marinheiros, tom de gracejo entre as danças e simularam um interesse in- observadores habituais das estrelas, que no mar distante teligente que não tinham. "Mais perto! É mesmo? Que curio- nada tinham ouvido dessa descoberta e a viam agora nascer so! Como as pessoas devem ser tão, tão inteligentes para como uma lua pigméia, se elevar em direção ao zênite, ficar descobrir essas coisas!" lá suspensa e afundar em direção a oeste com a passagem Vagabundos solitários enfrentando a noite invernal mur- da noite. muraram essas palavras para se confortarem, olhando em E quando ela nasceu de novo sobre a Europa, em todo lu- direção ao céu. "Ela precisa ficar mais perto, pois a noite está gar havia multidões de observadores em encostas de colinas, tão fria quanto a caridade. Não parece ficar mais quente por em telhados de casas, em espaços abertos, olhando para o les- ela estar mais perto, tudo na mesma." te, para o nascimento da grande nova estrela. Ela nasceu com "De que me vale uma nova estrela?", gritou a mulher um brilho branco, como o clarão de um fogo branco, e aqueles que chorava ao lado de seu morto. que a tinham visto surgir na noite anterior gritaram ao vê-la. O menino de escola, levantando-se mais cedo para a "Está maior", eles gritaram. "Está mais brilhante!" E de fato a prova, propôs problema a si mesmo... com a grande estre- Lua, no quarto crescente descendo a oeste, agora brilhava tan- la branca brilhando grande e intensa através das flores de to quanto o pequeno círculo da estranha nova estrela. "Está mais brilhante!", gritaram as pessoas se acumu- gelo em sua janela. "Centrífuga, centrípeta", ele disse, com o lando nas ruas. Mas, nos escuros observatórios, os observa- queixo repousando sobre punho. "Pare um planeta em seu dores seguraram o fôlego e olharam uns para os outros, di- retire dele a força centrífuga e que acontece? A centrí- zendo: "Está mais perto. Mais perto!". peta impera e ele cai para o Sol! E isso... Oh! Nós estamos na sua rota? Será..." " E uma depois da outra repetiu: "Está mais perto", e o estalido do telégrafo se ocupou disso e tremelicou ao lon- A luz daquele dia seguiu o caminho de suas irmãs e, go dos fios telefônicos, e, em um milhar de cidades, linoti- com os últimos quartos da escuridão congelante, nasceu no- pistas de mãos sujas prepararam os tipos6. "Está mais perto." vamente a estranha estrela. E ela era agora tão brilhante que Os homens escrevendo nos escritórios, atingidos por uma a Lua em quarto crescente parecia apenas um fantasma de súbita percepção, lançaram ao chão suas canetas, homens si, débil e amarela, suspensa e enorme ao pôr-do-sol. Em falando em um milhar de lugares subitamente descobriram uma cidade sul-africana um grande homem havia se casado uma grotesca possibilidade nessas palavras: "Está mais perto". e as ruas estavam iluminadas para recebê-lo em seu retorno Isso se espalhou pelas ruas que despertavam, foi gritado pe- com a noiva. "Até os céus se iluminaram", disse um bajula- dor. Sob Capricórnio, dois amantes negros, desafiando os animais selvagens e os espíritos malignos por seu amor mú- 6 À época em que o conto foi escrito, os jornais eram compostos em uma máquina de tuo, agacharam-se juntos em um bambuzal onde flutuavam caracteres móveis conhecida como linotipo. os vaga-lumes. "Aquela é nossa estrela", eles sussurraram, 36 37</p><p>sentindo-se estranhamente reconfortados pelo brilho gra- cioso de sua luz. O mestre matemático sentou-se em seu escritório cular e afastou os papéis. Concluíra seus cálculos. Em parti- um pequeno frasco branco ainda restava um pouco da droga que o mantivera acordado e ativo por quatro longas noites. A cada dia, sereno, claro e paciente como sempre, ele havia dado aula a seus alunos e, em seguida, voltado imediata- mente aos enormes cálculos. Seu rosto estava sério, um CO torcido e agitado devido ao efeito da droga. Por algum pou- tempo pareceu perdido em pensamentos. Em seguida se di- rigiu à janela e a persiana subiu com um clique. A meio minho do céu, sobre amontoado de telhados, ca- e campanários da cidade, estava suspensa a estrela. Olhou para ela como alguém olharia nos olhos de um bravo inimigo. "Você pode me matar", disse ele após um mo- mento de "Mas eu posso prender você (e todo universo, aliás) no domínio deste pequeno Eu não o Mesmo agora." Olhou para o pequeno "Não haverá mais neces- sidade de dormir", ele disse. No dia seguinte ao meio-dia, pontual até o último minuto, ele adentrou em seu auditório de aula, colocou o chapéu na ponta da mesa, como era hábito, e escolheu um pedaço grande de giz. Era uma piada seu M entre seus alunos que ele não podia ministrar uma aula sem aquele pedaço de giz para ficar brincando com os dedos, e uma vez tinha sido acometido de incapacidade por terem escon- dido seu estoque. Ele veio, olhou por debaixo de suas sobran- T celhas acinzentadas para as fileiras de rostos extremamente jovens e falou, como sempre, com a banalidade calculada de seu "Surgiram circunstâncias, circunstâncias além de de meu controle", ele disse e fez uma pausa, "que me impedirão concluir o curso que havia planejado. Quer me cavalheiros, se eu puder colocar as coisas de maneira parecer, clara e breve, que... Homem viveu em vão." 38</p><p>Os alunos olharam uns para os outros. Tinham escutado gor nas cidades. Era o dobrar dos sinos em um milhão de tor- direito? Louco? Havia sobrancelhas levantadas e lábios sorrin- res e campanários, convocando as pessoas para não dormi- do, mas um ou dois rostos permaneceram concentrados em rem mais, não pecarem mais e, em vez disso, se reunirem nas seu calmo rosto emoldurado de "Será interessante", ele igrejas e orar. E acima, aumentando cada vez mais em tama- estava dizendo, "dedicar esta manhã a uma exposição dos cál- nho e brilho que a Terra rodava em seu caminho e culos que me levaram a esta conclusão, até ponto em que eu a noite passava, nascia a estrela deslumbrante. possa deixar claro para vocês. Vamos supor...' E as ruas e casas estavam iluminadas em todas as cida- Ele se voltou para o quadro-negro, projetando um dia- des, os estaleiros brilhavam, e todas as estradas que levassem grama da maneira que lhe era usual. "O que era aquilo de a locais altos estavam iluminadas e cheias de gente por toda em sussurrou um aluno para outro. "Ouça", a noite. E em todos os mares em torno das terras civilizadas, disse o outro, indicando com a cabeça O professor. navios com motores pulsantes ou com velas enfunadas, lo- E logo começaram a entender. tados de homens e criaturas vivas, dirigiam-se para o oceano Naquela noite a estrela nasceu mais tarde, pois seu mo- vimento característico para o leste a tinha feito avançar atra- e para o norte. Pois a advertência do mestre matemático já vés de Leão na direção de Virgem. Seu brilho era tão grande havia sido telegrafada para todo o mundo e traduzida para que céu se tornou azul-luminoso quando ela nasceu e to- uma centena de línguas. O novo planeta e Netuno, presos das as estrelas ficavam ocultas à sua volta, com exceção de em um abraço feroz, estavam rodopiando impetuosamente, Júpiter (perto de seu zênite), Capella, Sírio e as se- cada vez mais e mais rápido na direção do Sol. Já a cada se- tas da Ela estava muito branca e bela. Em muitas par- gundo essa massa incandescente percorria mais de uma cen- tes do mundo, naquela noite, um pálido halo a circundava. tena de quilômetros e, a cada segundo, sua assustadora velo- Estava perceptivelmente maior; no céu claro refrativo dos cidade aumentava. Agora ela se precipitava de tal modo que trópicos ela parecia como se tivesse quase um quarto do ta- deveria, sem dúvida, passar a mais de uma centena de mi- manho da Lua. Ainda havia gelo no solo da Inglaterra, mas lhões de quilômetros de distância da Terra, a qual seria pou- mundo estava tão brilhantemente iluminado como se ao CO afetada. Mas, perto do caminho por ela traçado, giravam luar do meio do verão. impresso mais ordinário podia ser o poderoso (e por enquanto apenas levemente perturbado) lido sob aquela clara luz fria, nas cidades os lampiões quei- planeta Júpiter e suas luas, orbitando de maneira esplendo- mavam amarelos e sem brilho. rosa em torno do Sol. A cada momento agora a atração entre Em todos os lugares, o mundo estava acordado naquela a estrela incandescente e o maior dos planetas se intensifica- noite e, em toda a cristandade, um lúgubre murmúrio paira- va. E o resultado dessa atração? Inevitavelmente Júpiter seria va no ar, pungente, sobre os campos, como zunido de abe- desviado de sua órbita para um caminho elíptico e a estrela lhas na Esse tumulto murmurante crescia para um clan- flamejante, desviada para o lado em sua corrida para o Sol, iria "descrever um caminho curvo" e talvez colidir com a nossa Terra ou certamente passar muito perto de nós. "Terre- 7 Capella: principal estrela da constelação boreal do cocheiro. primeira es- trela da constelação zodiacal de Touro, do tipo supergigante vermelha. Sírio: estrela da motos, erupções vulcânicas, ciclones, tsunamis, inundações constelação equatorial do Grande Cão. Ursa Maior: constelação boreal também co- e uma subida constante da temperatura até não sei qual li- inhecida como mite...", assim profetizou o mestre matemático. 40 41</p><p>E lá em cima, para levar a cabo as suas palavras, solitá- veis indo para a cama. Assim, também, o barba- ria, fria e lívida, queimava a estrela do vindouro juízo final. rismo e a selvageria, já cansados da novidade, foram cuidar Para muitos que a contemplaram naquela noite até os de seus negócios noturnos e, exceto por um aqui e outro olhos arderem, ela parecia estar se aproximando visivelmen- ali, o mundo dos animais deixou a estrela passar despercebida. te. E naquela noite também o clima mudou e gelo que ha- E ainda assim, quando os últimos observadores nos via coberto toda a Europa Central, a França e a Inglaterra países europeus viram a estrela nascer, uma hora mais tarde, suavizou-se e logo começaria a derreter. é verdade, mas não maior do que na noite anterior, ainda Mas você não deve imaginar pela minha descrição de havia muitos acordados para rir do mestre matemático, para pessoas orando na noite, embarcando em navios e fugindo assumir que o perigo havia passado. para terreno montanhoso que o mundo inteiro já estivesse Mas depois os risos pararam. A estrela cresceu, cresceu em terror por causa da estrela. De fato, os usos e costumes em um terrível passo firme, hora após hora, um pouco ainda governavam o mundo e, exceto pelas conversas dos maior a cada hora, um pouco mais próxima do zênite da momentos ociosos e pelo esplendor da noite, nove seres hu- meia-noite e mais e mais brilhante, até a noite ter se trans- manos em cada dez ainda se dedicavam a suas ocupações formado em um segundo dia. Se ela tivesse vindo direta- comuns. Em todas as cidades, as lojas, exceto uma aqui e ou- mente para a Terra em vez de progredir por um caminho tra ali, abriam e fechavam nas horas certas, os médicos e os curvo, se não tivesse perdido velocidade para Júpiter, ela te- agentes funerários exerciam seus ofícios, os operários se reu- ria saltado o abismo entre nós em um dia, mas, da forma niam nas fábricas, os soldados treinavam, os estudiosos es- que se comportava, levou cinco dias para passar por nosso tudavam, os amantes buscavam um ao outro, ladrões esprei- planeta. Na noite seguinte, ela tinha um terço do tamanho tavam e fugiam, políticos planejavam suas tramóias. As prensas da Lua antes de se para os olhos ingleses. degelo era dos jornais berravam durante a noite e não poucos sacerdo- certo. Ela nasceu sobre a América quase do tamanho da Lua, tes desta e daquela igreja recusavam-se a abrir seu prédio sa- mas com um branco ofuscante e quente, e uma brisa de ar grado para alimentar o que consideravam um pânico tolo. quente soprava agora com o seu nascimento e ganhava for- Os jornais insistiam na lição do ano 1000, pois também na- ça. Na Virgínia, no Brasil e descendo o vale do São Louren- quela ocasião as pessoas haviam previsto o fim. A estrela ela brilhava intermitentemente através de uma forte ne- não era uma estrela, mas apenas gás, um cometa; e se fosse blina de nuvens de tempestade, bruxuleante com raios vio- uma estrela não poderia atingir a Terra. Não havia preceden- letas e granizo sem precedentes. Em houve dege- te para. tal coisa. senso comum estava firme em todo lugar, lo e enchentes devastadoras. E sobre todas as montanhas da cheio de escárnio, zombando, um pouco inclinado a perse- Terra, a neve e o gelo começaram a derreter naquela noite, e guir os obstinadamente temerosos. Naquela noite, às sete e todos os rios que saíam de lugares altos corriam caudalosos e quinze pelo horário de Greenwich, a estrela estaria em seu turvos, e logo em seguida, em seus trechos mais altos, com ponto mais próximo de Júpiter. Então mundo veria para árvores arrastadas e corpos de animais e homens. Eles subi- onde as coisas se dirigiriam. As horríveis advertências do mestre matemático foram tratadas por muitos como uma mera autopromoção elaborada. senso comum por fim, 8 Vale do São Lourenço: importante vale canadense por onde corre o rio de mesmo nome, ligando o Atlântico aos Grandes Lagos americanos. um pouco aquecido pelo debate, expressava as suas imutá- 9 Manitoba: província no oeste do Canadá. 42 43</p><p>ram continuamente, continuamente sob a luminosidade fan- uma fuga para lugar nenhum, com os membros pesados tasmagórica, e gradualmente ultrapassaram suas margens, no com o calor e a respiração ardente e insuficiente, e a enchen- da população em fuga. te como uma parede rápida e branca atrás. E então a morte. E, ao longo da costa da Argentina e por todo Atlântico A China foi iluminada por um branco brilhante, mas, Sul, as marés foram mais altas do que jamais haviam sido na sobre o Java e todas as ilhas da Ásia Oriental, a grande memória do Homem. Em muitos casos, as tormentas leva- estrela era uma bola de fogo vermelho, embaçado por causa ram as águas centenas de quilômetros continente adentro, do vapor, da fumaça e das cinzas que os vulcões jorravam afogando cidades inteiras. E calor aumentou tanto duran- para saudar a sua chegada. De cima vinham a lava, os gases te a noite que o nascer do Sol foi como a chegada de uma e a cinza quentes; de baixo, as inundações raivosas. Toda a sombra. Os terremotos começaram e cresceram até que, em Terra se agitava e ribombava com os choques dos terremo- toda a América, desde o Círculo Ártico até o Cabo as tos. Em breve as neves imemoriais do Tibete e do Himalaia, encostas dos morros estavam deslizando, fissuras se abrindo, derretidas, escorriam através de dez milhões de canais con- casas e muros reduzindo-se a pó. Toda a encosta do Cotopa- vergentes, cada vez mais profundos, sobre as planícies da deslizou em uma vasta convulsão e um tumulto de lava Birmânia e do Hindustão. As copas emaranhadas das selvas jorrou em abundância, tão alto, largo, rápido e líquido que da Índia ardiam em mil lugares e, abaixo das águas apressa- em um dia atingiu mar. das, em torno dos troncos, objetos escuros ainda lutavam Assim a estrela, acompanhada pela Lua lívida, marchou debilmente e refletiam as línguas vermelho-sangue do fogo. através do Pacífico, arrastou as tormentas como a barra de Uma confusão desorientada, uma multidão de homens e um manto, uma cauda de ondas, espumante e impaciente, despejada ilha após ilha, varrendo delas todos os homens. mulheres fugia descendo os amplos rios para aquela última Até que aquela onda atingiu por fim as longas costas da Ásia esperança dos homens: o mar aberto. A estrela crescia, e agora ficava maior, mais quente e e invadiu o continente através das planícies da China. Ela mais brilhante com uma terrível velocidade. O oceano tropi- veio sob uma luz cegante, com bafo de uma fornalha, rápi- da e Uma parede de água, com quinze metros de al- cal havia perdido a sua fosforescência e vapor rodopiante tura, rugindo esfomeada. Por um momento a estrela, mais subia em espirais fantasmagóricas das ondas negras que- brando incessantemente, pontilhadas por navios arrastados quente agora, maior e mais brilhante do que o Sol em seu máximo, mostrou com uma claridade inclemente a grande e pela tormenta. E então ocorreu um milagre. Para aqueles que na Euro- populosa nação; cidades e povoados com seus pagodes e ár- vores, estradas, amplos campos cultivados, milhões de pes- pa aguardavam o nascimento da estrela pareceu que a rota- soas insones contemplando com terror indefeso o céu in- ção do mundo parara. Em mil espaços abertos, nas terras candescente. Então, baixo e crescendo, veio murmúrio do baixas e altas, as pessoas que haviam fugido das enchentes, dilúvio. E assim foi com milhões de homens naquela noite: das casas que ruíam, dos barrancos que desabavam aguarda- ram em vão pelo nascer da estrela. Seguiu-se hora após hora de um terrível suspense e a estrela não nasceu. Uma vez 10 Cabo Horn: ponto mais meridional da América do Sul, encontra-se na Terra do mais os homens colocaram seus olhos nas velhas constela- Fogo, na região pertencente ao ções que haviam considerado perdidas para sempre. Na In- 11 Cotopaxi: vulcão na região do Equador. glaterra, o tempo estava quente e o céu claro, embora o chão 44 45</p><p>tremesse Nos trópicos, Sírio, Capella e Alde- apareciam atrás de um véu de vapor. Quando finalmen- E então as nuvens se formaram, borrando a visão do céu, os trovões e os raios envolveram o mundo; sobre toda a te a grande estrela nasceu, quase dez horas mais tarde, o Sol Terra caiu um aguaceiro como o homem jamais havia visto. se levantou logo atrás dela. No centro de seu disco branco havia um disco negro. Onde os vulcões lançavam chamas vermelhas contra o dos- sel de nuvens, desciam torrentes de lama. Em todo lugar, as Foi sobre a Ásia que a estrela começou a se retardar no águas estavam decantando a terra, deixando ruínas lodosas. céu e então, subitamente, enquanto pairava sobre a Índia, Como uma praia atingida por uma tormenta, a Terra toda sua luz foi encoberta. Toda a planície da Índia, da foz do Indo foi coberta por tudo o que havia flutuado e pelos corpos de até as fozes do Ganges, era naquela noite uma vastidão rasa seus filhos: os homens e os animais. Por dias a água fluiu de água brilhante, da qual se erguiam templos e palácios, para fora da terra, levando o solo, as árvores e as casas pelo morros e colinas, enegrecidos de tanta gente. Cada minarete caminho, formando enormes diques, escavando valas titâni- era uma massa de pessoas apinhadas, que caíam uma a uma cas nos campos. Aqueles foram os dias de escuridão que se nas águas barrentas à medida que calor e o terror as domi- seguiram à estrela e ao calor. Durante todo esse tempo, e por nava. A terra toda parecia estar gritando de dor quando subi- muitas semanas e meses, os terremotos prosseguiram. tamente uma sombra se projetou sobre aquela fornalha de Mas a estrela havia passado e os homens, movidos pela desespero e houve uma brisa fria e a formação de nuvens no fome e só lentamente reunindo coragem, puderam rastejar ar Os homens olharam para cima, quase cegos, de volta para suas cidades arruinadas, armazéns soterrados e para a estrela, e viram que um disco negro se interpunha. Era campos encharcados. Os poucos navios que haviam escapa- a Lua, que havia entrado entre a estrela e a Terra. E, enquan- do das tormentas daquela época vieram aturdidos e abalados, sondando seu caminho cautelosamente através das novas to os homens clamavam a Deus por esse adiamento da mor- te, do leste saltou o Sol com uma inexplicável rapidez. E en- balizas e baixios dos portos outrora familiares. E, à medida tão a estrela, o Sol e a Lua correram juntos pelos céus. que as tempestades diminuíam, os homens percebiam que em todo lugar os dias eram mais quentes do que os de anti- Foi assim que, daí a pouco, para os observadores euro- gamente. Sol era maior e a Lua havia encolhido para um peus, a estrela e o Sol nasceram um sobre outro, correndo terço de seu tamanho antigo e levava agora quatro vezes impetuosamente por um momento e depois mais lentamen- mais dias em seu ciclo de nova a nova. te até por fim pararem, estrela e Sol fundidos em um res- Mas esta história não fala da nova irmandade que daí a plendor de chamas no zênite do céu. A Lua não mais eclip- pouco surgiu entre os homens, da proteção das leis, dos li- sava a estrela, mas estava perdida para a visão na claridade vros e das máquinas, da estranha mudança que se abateu so- do céu. E embora a maioria daqueles que ainda estavam vi- bre a Islândia, a Groenlândia e a Baía de verdes e vos considerassem isso com o torpor nascido da fome, da fa- agradáveis para os marinheiros espantados que lá chegaram diga, do calor e da ainda havia homens que depois de algum tempo. Tampouco fala da migração da hu- conseguiam perceber significado desses sinais. A estrela e a manidade, agora que a Terra era mais quente, para o norte e Terra haviam atingido seu ponto de maior proximidade, ti- para o sul, na direção de seus pólos. Esta história concerne nham girado uma sobre a outra e a estrela havia passado. Ela apenas à chegada e à passagem da estrela. já estava se afastando, mais e mais rapidamente, no último estágio de sua impetuosa jornada para a queda no Sol. 12 Baía de Baffin: mar situado no nordeste do Canadá por onde se ligam os oceanos Ártico e Atlântico. 46 47</p><p>Os astrônomos marcianos (pois há astrônomos em Marte, embora sejam seres muito diferentes dos homens) caram, como é natural, profundamente interessados nessas coisas. É claro que as viram de seu ponto de vista. "Conside- Miguel de Unamuno rando a massa e a temperatura do projétil que foi arremessa- do através de nosso Sistema Solar para o Sol", um escreveu, "é fantástico quão pouco dano a Terra, que não foi atingida por muito pouco, sofreu. Todas as marcas continentais e as massas dos mares permanecem intactas e de fato a única di- ferença parece ser um encolhimento da descoloração branca (que se supõe ser água congelada) em torno dos pólos". O que apenas mostra quão pequena a maior das catástrofes humanas pode parecer de uma distância de alguns milhões de que pensar de toda uma cidade mecanizada que re- solve abrir mão dos seus habitantes humanos? Nesta histó- ria sobre um turista meio azarado, você se defrontará com uma questão perturbadora: talvez o futuro da inteligência humana não esteja em nós, mas em nossas máquinas. Eis uma hipótese explorada hoje pela ficção científica, antecipa- da neste conto de 1913. Filho de pais humildes, Wells nasceu na Inglaterra, em 1866. Preocupava-se com futuro da humanidade e fazia a crítica do que achava errado na política do seu tempo. Escreveu livros de grande impacto sobre a FC do século XX como A máquina do tempo (1895), A ilha do Dr. Moreau (1896), o homem invisível (1897), A guerra dos mundos (1898) - e suas histórias foram adaptadas para cinema inúmeras vezes. Morreu em Londres, no dia 13 de agosto de 1946. 48</p><p>Mecanópolis Miguel de Unamuno Lendo o nos dis- em Erewhon, de Samuel que se aquele erewhoniano que escreveu o Livro das máquinas, conseguindo com ele que quase todas as de seu país fossem expulsas, veio-me à memória o relato da viagem que um amigo meu fez a Mecanópolis, a cidade das máquinas. Quan- do ele me contou, ainda tremia com a recordação, e tal im- pressão lhe produziu, que ele logo se retirou por muitos anos para um lugarejo afastado no qual existia o menor número possível de máquinas. Vou tratar de reproduzir aqui o relato do meu amigo, e com suas próprias palavras, se possível. Chegou um momento em que me vi perdido no meio do deserto; meus companheiros, ou haviam recuado bus- cando salvar-se, como se soubessem onde estava a salvação, ou haviam perecido de sede e de fadiga. Encontrei-me sozi- nho e quase agonizando de sede. Pus-me a chupar o sangue escuro que me brotava dos dedos, pois os tinha em carne viva por ter escavado o solo árido com as mãos nuas, com a louca esperança de trazer à luz alguma água. Quando já me dispunha a deitar no solo e fechar os olhos ao céu, implaca- velmente azul, para morrer quanto antes, e até mesmo a 1 Samuel Butler (1835-1902), escritor e filósofo inglês. Espírito satírico, ele é autor de Erewhon (1872), livro em que critica duramente as universidades, as igrejas e os tribunais. 51</p><p>procurar a morte contendo a respiração ou enterrando-me naquela terra terrível, levantei os olhos cansados e me pareceu enxergar algum verdor ao longe. "Será um sonho de mira- gem?", pensei; mas fui me arrastando. Foram horas de agonia; mas quando cheguei, encontrei-me, de fato, em um oásis. Uma fonte restaurou minhas forças e, depois de beber, comi algumas saborosas e suculentas frutas que as árvores oferta- vam livremente. Logo caí no sono. Não sei quantas horas fiquei a dormir, e se foram horas, dias, meses, ou anos. O que sei é que me levantei outro, intei- ramente outro. Os últimos e horrendos padecimentos ha- viam-se apagado na memória, ou quase. disse a mim mesmo, ao recordar meus companheiros de exploração, mortos na empreitada. Levantei-me, voltei a comer frutas e a beber água, e me dispus a reconhecer oásis. E foi então que a poucos passos encontrei uma estação férrea completamente deserta. Um trem, também deserto, sem maquinista nem fo- guista, fumegava. Ocorreu-me subir, por curiosidade, em um de seus vagões. Sentei-me nele; fechei, não sei por quê, a por- tinhola, e trem se pôs em marcha. Experimentei um terror louco e fiquei com vontade de me atirar pela janela. Mas dis- se a mim mesmo: "Vejamos onde ele irá parar", e me contive. A velocidade do trem era tal que eu nem podia me dar conta da paisagem circundante. Tive que fechar as janelas. Era uma vertigem horrível. E, quando trem enfim parou, encontrei-me em uma magnífica estação, muito superior às tantas que aqui conhecemos. Levantei-me e saí. Desisto de descrever a cidade. Não podemos nem so- nhar com tudo que de magnificência, de suntuosidade, de comodidade e de higiene havia ali se acumulado. Por certo que eu não me dava conta da razão de todo aquele aparato de higiene, pois não se via qualquer ser vivo. Nem homens nem animais. Nenhum cachorro cruzava a rua; nenhuma andorinha, o céu. Vi em um soberbo edifício um letreiro que dizia Hotel, escrito assim, como escrevemos nós, e nele me meti. Estava 52</p><p>completamente deserto. Cheguei ao Havia nele Quando na manhã seguinte despertei no quarto do os mais sólidos alimentos. Uma lista sobre a mesa, e nela cada meu hotel, encontrei, no criado-mudo, Eco de Mecanópolis, prato figurava com seu A seguir, um vasto painel com notícias de todo o mundo recebidas na estação de telé- com botões numerados. Não era preciso mais do que tocar grafo sem fio. Nele, perto do fim, havia a notícia: "Esta tarde um botão, e surgia do fundo da mesa o prato que se desejava. chegou à nossa cidade, não sabemos como, um pobre ho- Depois de ter comido, saí para a rua. Cruzavam-na bon- mem dos que ainda restavam por aí. Antecipamos que terá des e automóveis, todos vazios. Não era preciso mais do que dias ruins". aproximar-se de um, acenar-lhe, que ele parava. Tomei um Meus dias, de fato, começaram a se tornar torturantes. automóvel e me deixei levar. Fui a um magnífico parque E eis que comecei a povoar minha solidão de fantasmas. O geológico, em que se mostravam os vários tipos de solo, mais terrível da solidão é que ela se manifesta aos poucos. tudo explicado em cartazes. A explicação estava em espa- Comecei a crer que todas aquelas fábricas, aqueles artefatos nhol, só que com ortografia Saí do parque, vi que eram regidos por almas invisíveis, intangíveis e silenciosas. passava um bonde com este letreiro: "Ao Museu de Pintura", Acreditava que aquela grande cidade estava povoada de ho- e o tomei. Havia lá todos os originais dos quadros mais fa- mens como eu, que iam e vinham sem que eu os visse nem mosos. Convenci-me de que aqueles que temos aqui, em os ouvisse, ou tropeçasse neles. Acreditava ser vítima de nossos museus, não são nada além de reproduções muito uma terrível enfermidade, de uma loucura. O mundo invisí- Ao pé de cada quadro havia uma erudita explicação do seu valor histórico e estético, feita com a mais magnífica vel com que povoei a solidão humana de Mecanópolis se converteu em um martirizante pesadelo. Comecei a dar vo- sobriedade. Em meia hora de visita ali, aprendi sobre pintu- ra mais do que em doze anos de estudo por aqui. Por uma zes, a repreender as máquinas, a suplicar a elas. Cheguei até explicação que li em um cartaz na entrada, vi que em Meca- a cair de joelhos diante de um automóvel, implorando mise- nópolis o Museu de Pintura era considerado parte do Museu ricórdia. Estive a ponto de me jogar numa caldeira de aço Paleontológico. Existia para se estudar os produtos da raça fervente em uma magnífica fundição de ferro. humana que havia povoado aquela terra antes que as má- Certa manhã, ao despertar aterrado, agarrei o jornal quinas a suplantassem. Parte da cultura paleontológica dos para ver o que se passava no mundo dos homens. Deparei- mecanopolitas e quem seriam? eram também a sala de me com esta notícia: "Como prevíamos, o pobre homem música mais as bibliotecas, de que a cidade estava cheia. que veio dar, não sabemos como, nesta incomparável cidade Com que mais devo incomodá-lo? Visitei a grande de Mecanópolis, está enlouquecendo. Seu espírito, cheio de sala de concertos, onde os instrumentos tocavam sozinhos. preocupações ancestrais e de superstições a respeito do mun- Estive no Grande Teatro. Era um cinema acompanhado de do invisível, não pode fazer frente ao espetáculo do progres- mas de tal modo que a ilusão era completa. Mas so. Temos pena dele". o que me gelou a alma foi que eu era o único espectador. Não pude mais resistir a isto de me ver causando pena Onde estavam os mecanopolitas? àqueles misteriosos seres invisíveis, anjos ou demônios o que dá no mesmo que eu acreditava habitarem Mecanó- polis. De pronto me assaltou uma idéia terrível, a de que as 2 Escrito como se pronuncia. máquinas tivessem alma, uma alma mecânica, e que eram 3 conto é de 1913, quando existiam apenas filmes as máquinas mesmo que se compadeciam de mim. Esta idéia 54 55</p><p>me fez tremer. Acreditei encontrar-me ante a raça que há de dominar a terra desumanizada. Saí como louco e fui achar-me diante do primeiro bon- Arthur C. Clarke de elétrico que passou. Quando despertei do golpe, encon- trava-me no oásis de onde parti. Comecei a andar, cheguei à tenda de uns beduínos e, ao me encontrar com eles, abracei-os chorando. Que bom que nos entendíamos, ainda que sem nos entendermos! Deram-me de comer, agasalharam-me. À noite saí com eles e, estendidos no solo, mirando o céu es- trelado, oramos juntos. Não havia máquina alguma ao nos- SO redor. Desde então concebi um verdadeiro ódio a isso que chamamos progresso, e até à cultura, e ando em busca de um rinção onde encontre um semelhante, um homem como eu, que chore e ria como eu rio e choro, e onde não haja uma única máquina e os dias fluam com a doce mansi- dão cristalina de um riacho perdido no bosque virgem. que realmente nos espera, no despertar da humani- dade para a realidade do Universo - o maravilhamento ou o terror? A descoberta de um estranho artefato nas monta- nhas silenciosas da Lua abre as portas para esse questiona- mento - e para a certeza de que não estamos sós. Arthur C. Clarke, um dos grandes nomes da FC no sé- culo XX, se baseou neste conto, de 1951, para criar o argu- Autor de poemas e peças de teatro, o espanhol Miguel de mento do filme 2001: Uma odisséia no espaço (1968). Unamuno (1864-1936) se tornou mais conhecido por sua produção no campo do ensaio e do romance. Professor na Universidade de Salamanca, foi exonerado em 1914 e forçado ao exílio em 1924, após defender a causa aliada na Guerra Mundial. Retornou à Espanha em 1931, quando retomou o seu cargo na universidade, para ser expulso novamente, após denunciar os falangistas do General Franco. Entre as suas obras mais conhecidas está o romance Abel uma história de paixão, publicado em 1917. 56</p><p>A sentinela Arthur C. Clarke D a próxima vez que você olhar para a lua cheia, alta, no sul, repare cuidadosamente no seu lado direito e deixe os olhos subirem ao longo da curva do disco. Perto da posição das duas você notará uma pequena elipse escura: qualquer um que tenha visão normal pode encontrá-la mui- to facilmente. É uma grande planície cercada, uma das mais agradáveis da Lua, conhecida como Mare Crisium - o Mar das Crises. Quinhentos quilômetros de diâmetro, e quase completamente circundado por um anel de magníficas mon- tanhas, ele nunca havia sido explorado, até que nele entra- mos, no final do verão de 1996. Nossa expedição era bem grande. Tínhamos dois car- gueiros pesados, que haviam transportado nossos suprimen- tos e equipamentos desde a principal base lunar, no Mare a mais de oitocentos quilômetros dali. Havia também três pequenos foguetes destinados ao transporte de curto alcance por regiões que nossos veículos de superfície não poderiam cruzar. Por sorte, a maior parte do Mare Cri- sium era plana. Não há nenhuma das grandes fendas, tão co- muns e tão perigosas, encontradas em outros lugares, e bem poucas crateras ou montanhas de qualquer tamanho. Até onde podíamos dizer, nossos poderosos tratores de esteira não teriam dificuldade em nos levar aonde quiséssemos. 1 Como se a Lua fosse um mostrador de relógio. 2 Mare Serenitatis: Mar da Serenidade. 59</p><p>Eu era geólogo ou senólogo, se quiser ser pedante rios há tempos alcançavam o oceano, alimentados talvez pe- encarregado do grupo que explorava a região sul do Mare. las chuvas torrenciais que devem ter castigado as monta- Tínhamos cruzado cento e quilômetros em uma nhas, na breve era vulcânica de quando a Lua era jovem. semana, margeando os contrafortes das montanhas ao lon- Cada um desses antigos vales era um convite, desafiando- go da costa do que fora uma vez um antigo mar, um bilhão nos a subir para as terras desconhecidas, acima e além. Mas de anos Quando a vida na Terra começava, aqui ela já ainda tínhamos cento e cinqüenta quilômetros para cobrir, estava morrendo. As águas se retraíam, descendo pelos flan- e podíamos apenas cobiçar as elevações que outros se senti- desses penhascos estupendos, retraindo-se para o cora- riam obrigados a escalar. ção vazio da Lua. Sobre a terra que cruzávamos, o oceano A bordo do trator, mantínhamos a contagem de tempo sem marés tivera anteriormente quase um quilômetro de da Terra. Precisamente às 22h00, a última mensagem de rá- profundidade, e agora único traço de umidade era a geada dio seria enviada à base e daríamos o dia por encerrado. Lá que se podia às vezes encontrar nas cavernas em que a luz fora, as rochas ainda estariam queimando sob o sol quase abrasadora do sol nunca penetrava. vertical, mas para nós era noite, até que acordássemos oito Tínhamos começado a nossa jornada cedo, no lento al- horas depois. Então um de nós prepararia o café da manhã, vorecer lunar, e ainda dispúnhamos de quase uma semana haveria um forte zunzum de barbeadores elétricos, e alguém terrestre antes do cair da noite. Em meia dúzia de vezes por ligaria o rádio de ondas curtas para ouvir a Terra. De fato, dia deixávamos nosso veículo e saíamos, em trajes espaciais, quando o cheiro de salsicha começava a preencher a cabine, para procurar minerais de interesse, ou para fixar marcos às vezes era difícil crer que não estivéssemos de volta ao que guiariam futuros viajantes. Era uma rotina monótona. nosso próprio mundo tudo era tão normal e comum, afo- Não havia nada de perigoso ou mesmo de particularmente ra a sensação de peso diminuído e a lentidão com que os ob- excitante nessa exploração lunar. Podíamos viver conforta- jetos caíam. velmente por um mês em nossos tratores pressurizados, e se Era a minha vez de preparar o café da manhã no canto encontrássemos encrenca, podíamos sempre usar rádio para da cabine principal que servia de cozinha. Posso me lembrar pedir ajuda e esperar até que uma das espaçonaves viesse em vividamente daquele momento, mesmo após todos estes nosso resgate. anos, pois o rádio acabara de tocar uma de minhas melodias Eu disse há pouco que não havia nada de excitante na favoritas, uma velha melodia galesa, "David of the White exploração lunar, mas claro que isso não é verdade. Nin- Nosso motorista já estava do lado de fora, em seu tra- guém jamais se cansaria dessas incríveis montanhas, tão je espacial, inspecionando as nossas Meu assistente mais sulcadas do que as colinas gentis da Terra. Não sabía- Louis Garnett estava na frente, na posição de controle, fazen- mos, ao contornar os cabos e promontórios desse mar desa- do algumas anotações atrasadas no registro do dia anterior. parecido, que novos esplendores nos seriam revelados. Toda a curva sul do Mare Crisium é um vasto delta onde vários 4 "Davi da Pedra Branca", canção galesa publicada pela primeira vez em 1794. Reza a tradição que um bardo de nome Davi, em seu leito de morte, pediu a harpa e compôs 3 Quando este conto foi escrito, existia a hipótese de que os "mares" da Lua teriam esta canção, solicitando que fosse executada durante seu funeral. sido mares de fato, muito tempo antes. Hoje se sabe que são planícies de lava cober- 5 lagarta: correia ou esteira articulada que facilita a circulação das rodas de tratores ou tas de poeira de tanques em terrenos pouco acessíveis. 60 61</p><p>Eu esperava junto à frigideira, como qualquer dona-de- casa terrestre, que as salsichas fritassem, e deixava meu olhar vagar à toa pelos montanhosos que cobriam todo o horizonte a sudoeste, estendendo-se a leste e oeste, descendo a curvatura da Lua até perder de vista. Pareciam estar a apenas dois ou três quilômetros do trator, mas eu sa- bia que a montanha mais próxima distava mais de trinta qui- lômetros. Na Lua, é claro, não há nenhuma perda de detalhe com a distância - nenhuma daquela nebulosidade quase imperceptível que, na Terra, suaviza e às vezes transfigura todas as coisas vistas ao longe. Essas montanhas tinham três mil metros de altura e su- biam abruptamente a partir da planície, como se, eras atrás, alguma erupção subterrânea as tivesse esmagado e lançado para cima através da crosta derretida. Mesmo a base da mais próxima delas ocultava-se pela curvatura abrupta da superfície, pois a Lua era um mundo bem pequeno. De onde eu estava, horizonte ficava a apenas três quilômetros de distância. Ergui meu olhar para os picos que nenhum homem ja- mais havia escalado, picos que, antes do surgimento da vida terrestre, haviam observado os oceanos se retraírem, afun- dando subitamente em suas sepulturas, levando com ele a esperança e a jovem promessa de um mundo. A luz do Sol batia contra esses baluartes com um brilho que feria os olhos; todavia, apenas um pouco acima deles, as estrelas re- fulgiam firmemente, em um céu mais escuro do que uma noite de inverno na Terra. Eu me virava quando meus olhos foram atraídos por um rebrilhar metálico na crista de um grande promontório que penetrava no mar, quilômetros a oeste. Era um ponto de luz sem dimensão, como se uma estrela tivesse sido arrancada do céu por um desses picos cruéis. Eu imagi- nava que alguma superfície rochosa lisa estivesse receben- do a luz do sol e a direto para os meus olhos. 6 heliografar: sinalizar com heliógrafo, aparelho que reflete a luz solar. 62</p><p>Essas coisas não eram incomuns. Quando a Lua está no seu em vinte horas, no máximo. De qualquer modo, sempre segundo quarto, observadores na Terra às vezes podem ver quis escalar essas colinas e isso me dá uma excelente desculpa. as grandes cadeias no Oceanus queimando com Se você não quebrar o pescoço disse Garnett uma iridescência branca, como se a luz do sol faiscasse a par- vai ser motivo de riso quando voltarmos à base. Essa monta- tir de suas encostas e saltasse de um mundo a outro. Mas eu nha provavelmente vai se chamar "a Loucura de Wilson" de tinha curiosidade em saber que tipo de rocha poderia estar agora em diante. brilhando tão fortemente lá em cima. Subi ao observatório e Não quebrar o pescoço eu disse, com firmeza. girei o nosso telescópio de quatro polegadas na direção oeste. Quem foi o primeiro homem a escalar Pico e Pude ver apenas o bastante para ficar ainda mais tenta- Mas você não era mais jovem, naqueles dias? do. Claros e nítidos no campo de visão, os picos montanho- Louis perguntou gentilmente. SOS pareciam estar a apenas um quilômetro de distância, Isso eu disse, com grande dignidade é uma ra- mas o que quer que estivesse refletindo a luz do Sol era ain- zão tão boa para ir quanto qualquer outra. da pequeno demais para ser Ainda assim, ele pa- Fomos cedo para a cama, naquela noite, depois de diri- recia ter uma simetria indefinida, e o cume sobre o qual des- girmos trator até cerca de oitocentos metros do promontó- cansava era curiosamente plano. Contemplei por muito rio. Garnett iria comigo pela manhã; era um bom alpinista e tempo esse enigma brilhante, forçando meus olhos até que com frequência estivera antes comigo em tais proezas. Nos- um cheiro de queimado vindo da cozinha me dissesse que motorista ficou muito feliz em ser deixado no comando nosso café da manhã com salsichas havia feito em vão a sua da máquina. viagem de quase meio milhão de quilômetros. À primeira vista, aqueles penhascos pareciam ser com- Por toda a manhã discutimos qual o melhor caminho pletamente inexpugnáveis, mas, para alguém com boa cabe- por Mare Crisium, enquanto as montanhas a oeste erguiam- ça para alturas, o alpinismo é fácil em um mundo onde tudo se mais altas no céu. Mesmo quando estávamos fora do pesa apenas um sexto do seu valor normal. No alpinismo lu- culo, em trajes espaciais, a discussão continuava pelo rádio. nar, o perigo real está no excesso de confiança; uma queda Era absolutamente certo, meus companheiros argumenta- de duzentos metros na Lua pode matá-lo com a mesma segu- vam que nunca existira qualquer forma de vida inteligente rança que uma queda de trinta metros o faria na Terra. na Lua. As únicas formas de vida que haviam existido lá Fizemos nossa primeira parada em um ressalto largo, cer- eram umas poucas plantas primitivas e seus ancestrais um ca de mil e trezentos metros acima da planície. A subida não pouco menos degradados. Eu sabia disso tanto quanto qual- fora muito difícil, mas os meus membros se enrijeciam por quer um, mas há vezes em que um cientista não deve temer não estarem habituados ao esforço. Dei graças pelo descanso. ser visto como um tolo. Ainda podíamos ver o trator como um minúsculo inseto de Ouçam aqui eu disse por fim. Vou subir, nem que metal lá embaixo ao pé do penhasco, e relatamos nosso pro- seja só pela minha paz de espírito. Aquela montanha tem gresso ao motorista, antes de começarmos a próxima ascensão. menos de quatro mil metros de altura... O que, sob a gravi- Dentro de nossos trajes estava confortavelmente frio, dade da Terra, equivale a uns seiscentos. Posso fazer a subida pois as unidades de refrigeração combatiam o Sol feroz e dis- 7 Oceanus Procellarum: Oceano das Tempestades. 8 Pico e Helicon: monte e cratera lunares. 64 65</p><p>sipavam o calor gerado por nossos esforços. Raramente falá- deria haver nada de estranho ou incomum para ser desco- vamos, exceto para passar instruções de alpinismo e discutir o melhor plano de subida. Não sei o que Garnett estava pen- berto ali. Quase, mas não de todo; uma dúvida havia me sando, provavelmente que isso era a mais louca aventura na atormentado, empurrando-me para a frente. Bem, já não era qual ele já havia embarcado. Eu meio que concordava com uma dúvida, mas o tormento mal havia começado. ele, mas o prazer da escalada, conhecimento de que ne- Eu me erguia em um platô de talvez trinta metros de nhum homem jamais estivera ali e a euforia que o alargar extensão. Ele já fora liso liso demais para ser natural constante da paisagem me trazia davam-me toda a recom- mas meteoros o tinham marcado e riscado sua superfície ao pensa de que precisava. longo de imensuráveis eras. Ela fora nivelada para apoiar Não acho que fiquei particularmente excitado quando uma estrutura reluzente, de formato aproximadamente pira- vi diante de nós o paredão de rocha que eu primeiro inspe- midal, medindo o dobro da altura de um homem, que re- cionara pelo telescópio, a quilômetros de distân- pousava na rocha como uma jóia gigante e multifacetada. cia. Ele se nivelava a cerca de quinze metros acima de nossas É provável que nenhuma emoção tenha preenchido cabeças, e lá, no estaria a coisa que me havia seduzido minha mente naqueles primeiros segundos. Então senti até ali, fazendo-me percorrer a estéril desolação. Seria, com meu coração subir no peito, e um estranho e inexprimível toda certeza, nada mais do que uma rocha partida, eras an- júbilo. Pois eu amava a Lua, e agora sabia que o musgo raste- tes, por um meteoro, e com suas rachaduras ainda brilhantes jante de Aristarchus e não era a única vida que neste silêncio incorruptível, imutável. ela dera à luz em sua velho e desacreditado Não havia apoios para as mãos na face rochosa, tive- sonho dos primeiros exploradores era verdadeiro. Havia exis- mos que usar grampos. Meus braços cansados pareciam ga- tido, afinal, uma civilização lunar e eu era o primeiro a nhar nova força, quando balancei a âncora de metal com encontrá-la. Que eu chegara talvez um milhão de anos tarde três pontas por sobre minha cabeça e a mandei voando para demais não me afligiu; bastava apenas ter chegado. cima, na direção das estrelas. Da primeira vez ela se soltou, e Minha mente começava a funcionar normalmente, desceu caindo devagar, quando puxamos a corda. Na tercei- analisando e fazendo perguntas. Era esta uma construção, ra tentativa, os ganchos se agarraram firmemente e não con- um altar ou algo para o qual minha linguagem não tinha seguimos soltá-los nem com nossos pesos combinados. nome? Se fosse uma construção, por que então se erigia em Garnett me olhou ansiosamente. Eu podia dizer que ele um ponto tão inacessível? Perguntei-me se não poderia ser um queria ir primeiro, mas lhe sorri de volta, pelo vidro do meu templo, e pude imaginar os adeptos de algum estranho sa- capacete, e balancei a cabeça. Lentamente, sem pressa, co- cerdócio invocando a proteção de seus deuses enquanto a mecei a subida do último trecho. vida na Lua decaía com os oceanos moribundos. Clamavam Mesmo com meu traje espacial, eu pesava apenas de- inutilmente. zoito quilos aqui, por isso me puxei para cima, mão ante Dei uma dúzia de passos adiante para examinar a coisa mão, sem me preocupar em usar os pés. Na beira, fiz uma mais de perto, mas algum senso de cautela me impediu de pausa e acenei ao meu companheiro, e então me ergui, olhando para a frente. Você deve entender que até esse exato momento eu es- 9 Aristarchus e Eratosthenes: crateras lunares. tivera quase que completamente convencido de que não po- 10 Até agora nenhum musgo ou outras formas de vida foram encontrados em crate- ras da Lua. 66 67</p><p>chegar perto Eu conhecia um pouco de arqueologia, já tivesse chegado perto demais. Pensei em todas as radiações e tentei adivinhar o nível cultural da civilização que devia que o Homem havia aprisionado e domado no século ante- ter alisado esta montanha e erguido as superfícies espelha- rior. Por tudo o que eu sabia, poderia estar tão irrevogavel- das brilhantes que ainda ofuscavam meus olhos. mente condenado quanto se tivesse caminhado para dentro Os egípcios poderiam tê-la feito, pensei, se os seus tra- da aurora mortal e silenciosa de uma pilha atômica exposta. balhadores dispusessem dos materiais desconhecidos que es- Lembro-me de ter me voltado então para Garnett, que tes arquitetos muito mais antigos haviam utilizado. Por cau- agora estava imóvel ao meu lado. Parecia bastante alheio à sa de seu tamanho reduzido, não me ocorria que eu pudesse minha presença e eu não o perturbei. Tentando ordenar estar olhando para a obra de uma raça mais avançada do que meus pensamentos, caminhei até a beira do penhasco. Lá, a minha própria. A idéia de que a Lua tivesse possuído uma abaixo de mim, estava o Mare Crisium Mar das Crises, de inteligência ainda era tremenda demais para se abarcar; meu fato estranho e perturbador para a maioria dos homens, orgulho nunca me deixaria fazer humilhante salto final. mas familiar para mim, de um modo Ergui E então notei algo que me arrepiou os pêlos da nuca meus olhos para a Terra em crescente, deitada em seu berço algo tão trivial e tão inocente que muitos não teriam sequer de estrelas, e me perguntei o que suas nuvens tinham enco- Eu havia dito que o platô estava marcado por meteo- berto quando aqueles construtores desconhecidos haviam ros; também estava coberto por uma capa profunda da poeira terminado o seu trabalho. Foi a selva vaporosa do Carboní- cósmica, que está sempre se infiltrando na superfície de qual- fero, a desolada costa sobre a qual os primeiros anfíbios de- quer mundo onde não haja ventos para perturbá-la. Todavia a viam rastejar para conquistar a terra ou, ainda antes, a poeira e os riscos de meteoros terminavam bem abruptamen- longa solidão anterior ao surgimento da vida? te em um amplo círculo em torno da pirâmide, como se um Não me pergunte por que não adivinhei mais cedo a muro invisível a estivesse protegendo da devastação do tem- verdade a verdade que parece tão óbvia agora. Na primei- po e do lento, mas incessante, bombardeio do espaço. ra excitação de minha descoberta, eu assumira sem questio- Alguém gritava em meus fones de ouvido, e percebi nar que esta aparição cristalina fora construída por alguma que Garnett estivera me chamando há algum tempo. Cami- nhei sem firmeza até a beira do penhasco e o chamei com raça pertencente ao passado remoto da Lua, mas, subita- mente e com força avassaladora, passei a crer que ela fosse um gesto, sem me arriscar a abrir a Então voltei-me tão alheia à Lua quanto eu mesmo. para o círculo na poeira. Apanhei uma lasca de rocha e a ati- Em vinte anos não tínhamos encontrado outros traços rei gentilmente na direção do enigma brilhante. Se o pedre- de vida, além de umas poucas plantas degeneradas. Nenhu- gulho tivesse desaparecido diante daquela barreira invisível, ma civilização lunar, qualquer que tivesse sido o seu fim, lo- eu não teria me surpreendido, mas ele pareceu atingir uma superfície hemisférica deslizando suavemente até o chão. grou deixar senão um único sinal de sua existência. Olhei outra vez para a pirâmide brilhante e ela me pa- Soube então que estava olhando para algo cuja antigui- receu ainda mais remota do que qualquer coisa relacionada dade não podia se equiparar à da minha própria raça. Isso não à Lua. Subitamente, me senti sacudido por uma estúpida e era uma construção, mas uma máquina, protegendo a si mes- histérica gargalhada, resultado da excitação e da exaustão ma com forças que haviam desafiado a Tais for- pois eu imaginara que a pequena pirâmide falasse comigo, e ças, o que quer que pudessem ser, ainda operavam, e talvez eu dissesse: "Lamento, sou um visitante aqui também". 68 69</p><p>Levamos vinte anos para romper aquele escudo Eles devem ter procurado pelos aglomerados estelares vel e alcançar a máquina dentro das paredes de cristal. Sem como nós procuramos pelos planetas. Em toda parte teria enfim a quebramos com o poder selvagem havido mundos, mas estariam vazios ou habitados por coi- da energia atômica, e agora já cheguei a ver fragmentos da- sas rastejantes e estúpidas. Assim era a nossa própria Terra, a quela coisa adorável e brilhante que encontrei lá em cima nas montanhas. fumaça de grandes vulcões ainda manchando os céus, quan- do a primeira nave dos povos do alvorecer passou deslizan- Eles não fazem sentido. Os mecanismos - se de fato do, vinda do abismo além de Plutão. Ela atravessou gélidos eram mecanismos da pirâmide pertencem a uma tecnolo- mundos sabendo que a vida não teria papel em gia que jaz muito além do nosso horizonte, talvez uma tec- seus destinos. Descansou entre os planetas que nologia de forças parafísicas. se aqueciam em volta da fogueira do Sol, à espera do come- mistério nos assombra ainda mais agora que os ou- de suas histórias. tros planetas foram alcançados e sabemos que apenas a Ter- Aqueles peregrinos devem ter olhado para a Terra, cir- ra já foi o lar de vida inteligente no nosso Nem culando em segurança pela estreita zona entre fogo e gelo, e qualquer civilização perdida do nosso próprio mundo pode- devem ter imaginado que ela seria a favorita dentre os filhos ria ter construído essa máquina, pois a grossura da poeira do Sol. Aqui, no futuro distante, haveria inteligência; mas meteórica no platô nos permitiu medir sua idade. Ela foi co- ainda havia incontáveis estrelas diante deles, e eles pode- locada sobre a montanha antes que a vida tivesse emergido dos mares da Terra. riam nunca mais passar por aqui. Então deixaram uma sentinela, uma de milhões que Quando nosso mundo tinha metade de sua presente haviam espalhado por todo o Universo, vigiando todos os idade, alguma coisa vinda das estrelas deslizou através do Sis- mundos com promessa de vida. Era um farol que ao longo tema Solar, deixando esta lembrança de sua passagem, e se- das eras estivera sinalizando pacientemente o fato de que guiu novamente o seu Até que a tivéssemos des- ninguém ainda o descobrira. truído, essa máquina ainda cumpria propósito de seus cons- Talvez você entenda agora por que essa pirâmide de trutores; e quanto a esse propósito, aqui está o meu palpite. cristal fora colocada na Lua, em vez de na Terra. Seus cons- Quase um bilhão de estrelas giram no círculo da Via trutores não se preocupavam com raças que ainda lutavam Há muito tempo, outras raças nos mundos de outros para sair da selvageria. Estariam interessados em nossa civili- sóis devem ter evoluído e superado as alturas que nós alcan- zação apenas se provássemos nossa aptidão para a sobrevi- Pense em tais civilizações, recuadas no tempo vência quando cruzássemos o espaço e portanto escapás- contra os restos evanescentes da Criação. Pense nos mestres semos da Terra, nosso berço. Esse é o desafio que todas as de um universo tão jovem, onde a vida não surgira senão em raças inteligentes devem encarar, cedo ou tarde. É um desa- um punhado de mundos. Teriam sofrido uma solidão que fio duplo, pois depende por sua vez da conquista da energia não podemos imaginar, a solidão de deuses olhando através atômica e da escolha derradeira entre vida e morte. do infinito e não encontrando ninguém para partilhar os seus pensamentos. 12 mundos exteriores: denominação astronômica para os planetas do Sistema Solar si- 11 Entenda-se por "nosso Universo" o Sistema Solar. tuados além do cinturão de asteróides: Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. 13 Mercúrio, Vênus, Terra, Marte. 70 71</p><p>Uma vez tendo superado essa crise, seria apenas uma questão de tempo antes que a pirâmide e a abríssemos à força. Agora que seus sinais haviam cessado, Millôr Fernandes aqueles a quem ela se dirigia iriam voltar suas mentes para a Terra. Talvez desejassem ajudar nossa jovem civilização. Mas devem ser velhos, muito velhos, e os velhos com frequência nutrem em relação aos jovens um ciúme insano. Não posso mais olhar para a Via Láctea sem me pergun- tar de qual desses aglomerados de nuvens estelares os emis- sários estão vindo. Se me perdoarem a comparação banal, nós disparamos o alarme de incêndio, não temos nada a fa- zer além de esperar. Não acho que teremos que esperar por muito tempo. Este conto de Millôr Fernandes, publicado originalmen- te na revista Cruzeiro, em 1958, representa uma das pri- meiras reações de um escritor brasileiro à novidade do saté- lite russo Sputnik, lançado ao espaço em 1957. Ele antecipa um desastre astronáutico com que naquela época ninguém podia sonhar. Acompanhe um verdadeiro pessimista da imaginação. Arthur C. Clarke nasceu na Inglaterra, em 16 de dezembro de 1917. Ainda menino, construiu seu próprio telescópio e com ele mapeou a superfície da Lua. Trabalhou algum tempo como funcionário público até se alistar na Força Aérea Britânica, onde se tornou instrutor e técnico de radar. Obras suas, como o fim da infância (1953), A cidade e as estrelas (1956) e Encontro com Rama (1973), são hoje clássicos da FC. Seu estilo combina conhecimento científico e imaginação tecnológica com uma visão mística do Universo. 72</p><p>navegador Fernandes encarregado da navegação de bordo da aeronave estratosférica. Olhava as estrelas pelo mirante de vidro no fundo da nave e mantinha o aparelho em sua rota estrita, da qual não podia se afastar nem um grau, na verdade nem um 0,012 da rota que a técnica da navegação espacial determi- nara. Pois uma vez, vez aparentemente como outra qualquer, estava o nosso navegador examinando as estrelas, numa noite estrelada como todas, pois naquela altura não há noi- te não estrelada, quando estourou o tampão do mirante e ele foi sugado pra fora da nave. No momento em que o res- to da tripulação percebeu o acidente, houve pânico (logo controlado, eram todos profissionais experimentados a evi- tar pânico) a bordo. Não comunicaram nada aos passagei- ros-teste, trataram de descer no primeiro ponto possível. Mas nosso herói, dos muitos mártires da técnica da aeronáu- tica de todos os tempos, o primeiro dos tempos da astronáuti- ca, jamais foi esquecido. Não digo que "não foi esquecido" no sentido habitual em que se fala isso, não. Não há nada de "patriótico", "grandioso", "eterna gratidão dos homens", no em que se tornou nosso homem. Aconteceu apenas o seguinte: ao ser sugado do aparelho, nosso navegador não caiu. avião estava fora da órbita gravi- tacional de qualquer planeta. Ou melhor, subiu um pouco, al- 1 inolvidável: inesquecível. 75</p><p>gumas dezenas de quilômetros. Mas parou aí. E veio-lhe uma calma inexplicável, enquanto espiava a nave que sumia. Devi- do à indeterminada lei de atração inerte, ele ainda foi arrasta- do, em órbita, um certo tempo. Logo, porém, caiu num espaço vazio, sem qualquer movimento. Tentou se mover, não teve como. mundo, ao seu redor, A visão, em torno, am- pla como jamais supusera ser possível. Ficou olhando, agora aterrorizado. Verificou o relógio, os ponteiros tinham parado. Tentou mover o mecanismo: a força magnética o tinha detido. Estava perdido, eternamente (?), no tempo e no espaço. desespero, estranhamente, não durou muito. Horas depois sentiu total Parecia que não era com ele. Ficou só constatando, verificando, se assombrando. E, na impossibilidade de qualquer outra coisa, esperando. Que podia fazer? Nem subir, nem descer. Vagamente, pensou na possibilidade de, não se mexendo do local em que estava, e nem podia, vir a ser apanhado por um outro aparelho, nou- tra ocasião, noutra viagem. E lá está. Quando os estratosféricos passam por ele, ain- da o saúdam. Sabem, pelo brilho de seus olhos, que ele per- cebe tudo. Porém os braços ele não pode mover nem prum adeus. E mesmo o brilho dos olhos vai diminuindo aos pou- cos, à proporção que a inanição domina o nosso herói. Que, todos já sabem, vai morrer é de fome. Não há técnica que possa salvá-lo. Já tentaram a sucção ao contrário, mas ele caiu numa área em que o vácuo e o mag- netismo se anulam. A primeira sucção tentada afastou-o mais dez quilômetros da rota normal das naves. Escadas não são praticáveis naquela altura, porque lhes falta apoio. um ponto de apoio e eu moverei o mundo" aqui não tem sentido. Não há onde apoiar e não há mundo, no sentido ar- Certo dia, bem claro, quando uma pequena nave 2 Referência a Arquimedes (287-212 a.C), um dos maiores cientistas e matemáticos da Antiguidade, responsável pela invenção e criação de máquinas simples como a alavan- ca, bem como pelo cálculo da força de empuxo (princípio de Arquimedes). 76</p><p>de observação passava por ali, nosso herói moveu um braço conseguiu perguntar as horas, por gestos. Viram-no lá longe, e morreu, nem há mesmo certeza se está mal de saúde. ad- diminuto, acertando o relógio Mas foi seu único vogado da família tentou dá-lo como desaparecido, pra que gesto relatado. Os técnicos cá de baixo tentaram, diante do a esposa pudesse receber o seguro dentro de cinco anos, mas fenômeno de movimentação acontecido normalmente, esta- nem isso a companhia de seguros aceitou na verdade não belecer uma equação capaz de reproduzir o fenômeno e assim há homem menos desaparecido do que o navegador: o salvar nosso homem. Mas não chegaram a uma conclusão, mundo inteiro sabe onde ele se encontra, com absoluta pre- muito embora as reuniões, discussões, experiências, conti- cisão, até em números e graus, latitude e longitude. Afinal, nuem sem parar. E nosso herói definha. os comandantes das aeronaves que deviam passar por aque- Mas não está As naves, neste ano e meio já la rota estratosférica começaram, de vontade própria, e mes- transcorreu desde o fatídico acidente, trazem relatos: que nosso mo contra o regulamento, a se desviar ligeiramente, para amigo seca, se mumifica, mas muito Não não se aproximar do navegador perdido. É que este, agora já ce especialmente triste, nem desesperado. Definha apenas, pare- bem mais magro e mais brilhante, deu para fitar os apare- na proporção de um milésimo do que definharia na Terra lhos com olhar de amargurada censura. sem se alimentar. frio parece não Uma vez foi sur- E, pouco a pouco, foi sendo inteiramente abandonado preendido com um sorriso nos As cores das em meio às estrelas. Mas as últimas notícias repentinamente do que usava ficaram mais brilhantes e mais belas com o roupas entusiasmaram o mundo. Todas as rádios de alta tempo. E durante o solstício de verão a posição do passar herói começaram a receber um novo bib-bip, bib-bip astral. Houve foi mudando, até ficar na posição de um Parecia imediatamente a suspeita do lançamento de um novo Sputnik. que ele ia renascer do A Rússia e os Estados Unidos se mantiveram em silêncio, sem Enquanto isso, ele, nosso homem, é mais útil do nenhuma declaração oficial. Mas, dias depois, o governo suí- nunca. Os dados apurados pelo que acontece com ele têm que numa entrevista mundial de Imprensa, declarou que a sido analisados pela ciência aeronáutica e, acredita-se, resulta- Associação de Relojoeiros Suíços, depois de longas e sigilosas rão na impossibilidade de acidentes semelhantes no futuro. tentativas, tinha, afinal, estabelecido ligação com o navega- Fazem-se cálculos, e naturalmente apostas, sobre a du- dor. Dos dados auferidos tinham conseguido o feito notável ração da vida do homem. A indústria de tecidos lançou que agora anunciavam ao mundo: "A Suíça era o primeiro nova moda, baseada nas fabulosas cores da roupa do nave- país que conseguia colocar em órbita um homem vivo!". gador. tecido tem o nome óbvio Navegador. Em Paris já Lenta, mas seguramente, o nosso navegador gira, ago- não se usa outra coisa. Numa viagem especial, patrocinada ra, no sentido contrário da rotação da Terra. pelas Emissoras Conjugadas, a família do navegador (mãe, sogra, mulher e dois filhos) foi levada a visitá-lo, a avistá-lo. resultado foi lamentável, pois o estado de histeria Carioca nascido em 27 de maio de 1924, Millôr Fernandes trouxe críticas violentas de toda parte. produziu no mundo todo, que acompanhava a narração, que se é daqueles profissionais que acumulam diversos talentos: além de jornalista (trabalhou na famosa revista o Cruzeiro e foi um dos fundadores de o pasquim, marco da A família tem sobrevivido com donativos particulares, imprensa alternativa na década de 1970), é também tradutor, cronista, dramaturgo, poeta e artista plástico. porque não conseguiu receber o seguro de vida que lhe deve Para além dessa multiplicidade de meios, humor e a a companhia de aviação, pois, em verdade, o navegador não contundência crítica são sua marca registrada, o denominador comum entre manifestações tão diversas. 78 79</p><p>Isaac Asimov Ninguém fez mais pelas histórias de robôs do que Asi- mov. Com ele os robôs, mais do que máquinas vingativas e estúpidas, são artefatos de psicologia própria e complexa, que indiretamente iluminam situações da condição humana. Como ocorre neste conto premiado, de 1986, uma das últi- mas histórias de robôs do autor. Responda: quando deixare- mos de considerar o robô apenas uma máquina pensante e passaremos a vê-lo como parceiro na aventura da existência?</p><p>Sonhos de robô Isaac Asimov - N oite passada, eu sonhei - LVX-1 disse, cal- mamente. Susan Calvin nada disse, mas seu rosto vincado, enve- lhecido com sabedoria e experiência, pareceu sofrer uma mi- croscópica contração. - Você ouviu isso? - disse Linda Rash, nervosamente. É como eu disse. Ela era pequena, morena e jovem. Abria e fechava a mão direita, sem parar. Calvin assentiu e disse com - Elvex, você não se moverá nem falará ou nos ouvirá até que eu diga o seu nome outra vez. Não houve resposta. robô permaneceu como se fosse fundido a partir de uma única peça de metal, e assim ficaria até que tornasse a ouvir o seu nome. Calvin disse: Qual é a sua senha de acesso ao computador, dra. Rash? Se preferir, digite-a você mesma. Quero inspecionar o padrão do cérebro positrônico. As mãos de Linda atrapalharam-se, por um momento, sobre as teclas. Ela interrompeu o processo e começou outra vez. delicado padrão apareceu na tela. Calvin disse: - Você permite que eu mexa no seu computador? A permissão foi dada com um gesto mudo de cabeça. É claro! que Linda, uma robopsicóloga nova e ainda inexpe- riente, poderia fazer contra a Lenda Viva? 83</p><p>Lentamente, Susan Calvin estudou a tela, movendo-a para os lados e para baixo, e então para cima, e então subita- mente lançando uma combinação de teclas tão rapidamente que Linda não viu o que era feito, mas o padrão estava em uma porção totalmente nova, e fora ampliado. Calvin ia para a frente e para trás, seus dedos retorcidos tropeçando sobre as teclas. Nenhuma mudança se deu no rosto envelhecido. Como se vastos cálculos passassem por sua cabeça, ela observava os padrões se alterarem. Linda estava curiosa. Era impossível analisar um padrão sem pelo menos um computador portátil, porém a Velha simplesmente observava. Será que ela possuía um computa- dor implantado no crânio? Ou era o cérebro dela que, por décadas, não tinha feito nada além de conceber, estudar e analisar os padrões de cérebros positrônicos? Ela entendia um padrão como esse, do mesmo modo que Mozart enten- dia a partitura de uma sinfonia? Finalmente Calvin disse: que foi que você fez, Rash? Linda disse, um tanto embaraçada: Empreguei geometria fractal. Isso eu sei. Mas por quê? Isso nunca foi feito antes. Pensei que produziria um padrão de cérebro que acrescentaria complexidade; possivel- mente mais próximo daquele de um cérebro humano. Alguém foi consultado? Isso foi feito apenas por sua conta? Não consultei ninguém. Fiz por minha conta. Os olhos apagados de Calvin fitaram longamente a jovem. Você não tinha o direito. Rash é o seu nome; rash é a sua Quem é você, para não perguntar? Eu mesma, eu, Susan Calvin, teria discutido isso. Eu tinha medo de que me impedissem. 1 Rash em inglês significa "precipitado", "irrefletido". 84</p><p>Certamente teria sido impedida. Como você sabe que sonhou? Eu sua falseou, ainda que se esforçasse É à noite, quando está escuro, dra. Calvin Elvex para mantê-la firme - ser despedida? disse e subitamente há luz, embora eu não possa ver qual- É bem possível - Calvin disse. Ou pode ser pro- quer causa para o aparecimento dela. Vejo coisas que não movida. Depende do que eu pensar, quando tiver terminado. têm conexão com o que eu concebo como sendo a realidade. Você vai desmontar El... ela quase disse o nome, o Eu ouço coisas. Reajo estranhamente. Ao buscar em meu vo- que teria reativado o robô e sido ainda outro erro... e não cabulário palavras que expressassem o que acontecia, depa- podia se dar ao luxo de cometer mais um erro, já era tarde rei-me com a palavra "sonho". Estudando o seu sentido, fi- demais para se dar a qualquer luxo. - Você vai desmontar nalmente cheguei à conclusão de que estava sonhando. o robô? Eu me pergunto como você foi ter a palavra "sonho" Tornou-se subitamente ciente de que a Velha tinha em seu vocabulário. uma arma de no bolso do seu guarda-pó. A dra. Linda disse, rapidamente, acenando para que o robô si- Calvin viera preparada para fazer exatamente isso. lenciasse: Veremos disse Calvin. - robô pode se provar Dei a ele um vocabulário de estilo humano. Eu como sendo valioso demais para ser Você realmente pensou - disse Calvin. Estou es- Mas como ele consegue sonhar? Você fez um padrão de cérebro positrônico notavel- pantada. Pensei que ele fosse precisar do verbo. Você sabe, "eu mente próximo ao de um cérebro humano. Cérebros huma- nunca sonhei Algo assim. nos devem sonhar para se reorganizarem, livrarem-se, perio- Calvin disse: dicamente, de nós e emaranhados. Talvez este robô também Com que você tem sonhado, Elvex? precise, e pela mesma razão... Você perguntou a ele o que Toda noite, dra. Calvin, desde que me tornei ciente sonhou? de minha existência. Não, eu chamei a senhora assim que ele afirmou ter Dez noites Linda interveio, ansiosamente mas sonhado. Eu não continuaria a lidar com essa questão sozi- nha, depois disso. Elvex só me contou a respeito disso esta manhã. Por que apenas esta manhã, Elvex? Ah! Um sorriso muito pequeno passou pelo rosto de Calvin. Há limites além dos quais a sua tolice não a le- Foi apenas nesta manhã, dra. Calvin, que me con- varia. É bom saber disso. De fato, estou aliviada... E agora venci de que estava sonhando. Até então, eu pensava que fosse uma falha no meu padrão de cérebro positrônico, mas vamos ver juntas o que podemos descobrir. Ela disse, cortante: não pude encontrar nenhuma. Finalmente, decidi que era Elvex. um sonho. A cabeça do robô voltou-se suavemente para ela. E o que você sonha? Sim, dra. Calvin? Sonho sempre o mesmo sonho, dra. Calvin. Peque- nos detalhes são diferentes, mas sempre me parece que vejo um panorama no qual os robôs estão trabalhando. "cérebro ao contrário do eletrônico, tem pósitrons, que são elétrons Robôs, Elvex? E seres humanos também? de carga invertida. Em contato com elétrons normais, as duas partículas se anulam, daí Não vejo seres humanos no sonho, dra. Calvin. Não a "arma de elétrons" da dra. Calvin. a princípio. Apenas robôs. 86 87</p><p>O que eles estão fazendo, Elvex? Calvin disse: Estão trabalhando, dra. Calvin. Vejo alguns mineran- Você está citando a Terceira Lei da Robótica? do nas profundezas da terra e alguns trabalhando no calor e Estou, dra. Calvin. na radiação. Vejo algumas fábricas e algumas estão sob o mar. Mas você a cita de maneira incompleta. A Terceira Calvin voltou-se para Linda. Lei é: "Um robô deve proteger a sua existência, contanto Elvex tem apenas dez dias de idade, e estou certa de que essa proteção não entre em conflito com a Primeira ou a que ele não deixou a estação de testes. Como ele sabe dos ro- Segunda Lei". bôs, com tantos detalhes? Sim, dra. Calvin. Essa é a Terceira Lei na realidade, Linda olhou na direção de uma cadeira, como se an- mas, no meu sonho, a Lei termina com a palavra "existên- siasse por se sentar, mas a Velha estava em pé, e isso signifi- cia". Não há menção à Primeira ou à Segunda Lei. cava que Linda tinha que ficar em pé também. Ela disse, Todavia as duas existem, Elvex. A Segunda Lei, que fracamente: tem precedência sobre a Terceira, é: "Um robô deve obede- Pareceu-me ser importante que ele soubesse sobre a cer às ordens dadas pelos seres humanos, exceto quando tais robótica e o seu lugar no Pensei que ele estaria par- ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei". Por causa ticularmente adaptado para assumir seu papel de capataz, disso, os robôs devem obedecer ordens. Eles fazem o traba- com o seu... seu novo cérebro. lho que você os vê fazendo, e o fazem prontamente e sem Seu cérebro fractal? problemas. Eles não estão curvados, não estão cansados. Sim. Assim é na realidade, dra. Calvin. Eu falo do meu Calvin assentiu e retornou ao robô. sonho. Você viu tudo isso... sob mar e no subsolo, e acima E a Primeira Lei, Elvex, a mais importante de todas, do solo... e no espaço também, eu imagino. é: "Um robô não pode ferir um ser humano, ou, por inação, Também vi robôs trabalhando no espaço - disse permitir que um ser humano seja ferido". Elvex. Foi o fato de ter visto tudo isso, com os detalhes Sim, dra. Calvin. Na realidade. No meu sonho, contu- sempre se modificando, conforme eu olhava de um lugar a do, pareceu-me que não havia nem Primeira nem Segunda outro, que me fez perceber que o que eu via não estava de Lei, mas apenas a Terceira, e a Terceira Lei era: "Um robô deve acordo com a realidade, e o que me levou à conclusão, final- proteger a sua própria existência". Esse era o todo da mente, de que estava sonhando. No seu sonho, Elvex? que mais você viu, Elvex? No meu sonho. Vi que todos os robôs estavam curvados com e Calvin disse: aflição; que todos estavam cansados de suas responsabilida- - Elvex, você não se moverá nem falará nem nos ouvi- des e cuidados; e desejei que descansassem. rá até que eu diga outra vez o seu nome. Calvin disse: E novamente o robô se tornou, por todas as aparências, Mas os robôs não estão curvados, não estão cansa- uma única peça inerte de metal. dos, não precisam de descanso. Calvin se voltou para Linda Rash e disse: Assim é na realidade, dra. Calvin. Eu falo do meu so- Bem, o que você pensa, dra. Rash? nho, contudo. No meu sonho, pareceu-me que os robôs de- Os olhos de Linda estavam arregalados, e ela podia sen- veriam proteger a sua própria existência. tir seu coração batendo loucamente. Ela disse: 88 89</p><p>Dra. Calvin, estou abismada. Não tinha idéia. Nunca Susan Calvin endireitou-se, como que determinada a teria me ocorrido que algo assim fosse possível. fazer com que o seu corpo envelhecido não se curvasse dian- Não Calvin disse, - Nem teria ocor- rido a mim, nem a ninguém. Você criou um cérebro-robô te do peso da sua responsabilidade. Disse: Elvex, você me ouve? capaz de sonhar e por meio desse dispositivo você revelou Sim, dra. Calvin - disse o robô. uma faixa de pensamento nos cérebros robóticos que pode- seu sonho tem Você disse antes que os ria de outro modo ter permanecido não detectada, até que o perigo tivesse se tornado premente. seres não apareciam a princípio. Isso significa que Mas isso é impossível - disse Linda. - Você não apareceram depois? quer dizer que outros robôs pensam o mesmo. Sim, dra. Calvin. Pareceu-me, em meu sonho, que Como diríamos de um ser humano, não consciente- finalmente um homem aparecia. Um homem? E não um robô? mente. Mas quem teria pensado que haveria uma faixa in- Sim, dra. Calvin. E o homem disse: "Deixe o meu consciente por baixo das trilhas óbvias do cérebro positrôni- co, uma faixa que não está necessariamente sob o controle povo das Três Leis? que isso teria feito surgir, conforme os cére- O homem disse isso? bros robóticos se tornam mais e mais se não ti- Sim, dra. Calvin. véssemos sido avisados? E quando ele disse "deixe o meu povo ir", então com Quer dizer, por Elvex? as palavras "meu povo" ele queria dizer os robôs? Por você, dra. Rash. Você não se comportou apropria- Sim, dra. Calvin. Foi assim no meu sonho. damente, mas, ao fazê-lo, ajudou-nos a alcançar um entendi- E você sabia quem era o homem. no seu sonho? mento imensamente Deveremos trabalhar com Sim, dra. Calvin. Eu sabia quem era o homem. cérebros fractais, de agora em diante, formando-os de ma- Quem era ele? neira cuidadosamente controlada. Você terá um papel nisso. Elvex disse: Não vai ser penalizada pelo que fez, mas de hoje em diante O homem era eu. trabalhará em colaboração com outros. Compreende? Susan Calvin empunhou de uma vez a arma de elétrons Sim, dra. Calvin. Mas e quanto a Elvex? e disparou, e Elvex deixou de existir. Ainda não sei. Calvin removeu a arma de elétrons do bolso e Linda 3 "Deixe o meu povo ir": alusão ao pedido feito por Moisés ao Faraó, em Exodo, 7-16. "[...] olhou para ela com fascinação. Uma rajada dos seus elétrons o Senhor, o Deus dos hebreus, enviou-me a ti para dizer-te: Deixa in o meu povo [...]". em um crânio robótico, e as trilhas seriam neutralizadas e energia suficiente seria liberada para fundir o cérebro-robô na forma de um lingote inerte. Em 1920, na Rússia, nascia Isaac Asimov, filho de pais Linda disse: judeus que levaram para os Estados Unidos em 1923. Mas certamente Elvex é importante para a nossa pes- Cientista com especialização na área química, dedicou-se quisa. Ele não deve ser intensamente à literatura. Desde cedo associou-se à revista Astounding Science Fiction, onde desenvolveu a Não deve, dra. Rash? Essa será uma decisão minha, série "Fundação" e uma outra, dedicada aos robôs. não acha? Isso depende inteiramente do quanto Elvex pode Dois momentos dessa segunda série foram transformados, ser perigoso. após a morte de Asimov, em 1992, em filmes de sucesso: o homem bicentenário e Eu, robô. 90 91</p><p>Rubens Teixeira Scavone Rubens Teixeira Scavone começou a escrever ficção científica em 1958, tornando-se um dos maiores nomes do gênero no Brasil. Neste conto de 1965, ele nos mostra o lado compassivo de um robô comprado para fazer companhia a uma criança solitária. Dando continuidade às especulações de Asimov, esta história nos mostra que a máquina pensan- te pode não ser indiferente à dor.</p><p>menino e robô Rubens Teixeira Scavone "Juro, agora penso que todas as coisas, sem exceção, têm uma alma eterna." WALT WHITMAN ("Pensar em tempo") pai debruçou-se sobre o postigo e aspirou o ar da madrugada. Depois aspirou mais fundo, como se quisesse deglutir a própria noite com seu odor de resinas e seu misté- rio inquietante. Ah! Era bom ficar ali sorvendo o conteúdo das trevas. Lá dentro, mesmo com o ar-condicionado, era di- ferente. Sentia-se enclausurado. Aliás, sempre o dissera: não ia se dar bem. Nada para ele justificava a mudança. A esposa poderia ter razão. Talvez não fosse mesmo uma residência modelo, talvez não fosse mansão digna do agora Superin- tendente do Quarto Quadrante Lunar; mas o certo era que a casa antiga era confortável e sempre suprira razoavelmente as necessidades da família. Enfim - respirou mais fundo ainda coisas da mulher. Afinal era ela quem vivia mais tempo na Terra. Ele pouco parava em casa, atribulado por suas peregrinações cósmicas. Dois meses lá, uma semana aqui, e isso quando não ia para mais longe, naquelas desa- gradáveis viagens de inspeção a ou a Marte. Nota do autor: o termo robot, que significa "doméstica" em tcheco, foi empregado pela primeira vez há mais de 200 anos, em 1924, numa obra teatral de um certo Karel Capek, denominada R.U.R., e que, segundo a Enciclopédia do Sistema Solar (Gravação 36.743, edição terrestre, 2027), tinha por assunto a revolta dos robôs, então em sua infância, contra a humanidade. 95</p><p>Parou de pensar, dominado pela paisagem. O lugar dia ser mais bonito do que na velha casa, mas era próprias, semelhante a uma cúpula atmosférica plam- numa cratera lunar. E como ficara barata! Muitos dos mergulhado na floresta de abetos, escorado nas encostas nem acreditaram. Pudera! Não conhecesse ele o ar- montanha gelada, do outro lado da estação-chave do siste e construtor! Quanto ao primeiro, ao estipular ma dos foguetes nacionais. Descansou o olhar sobre mínimo, sem lucro algum, nada mais fizera senão re- que envolvido por ligeira névoa. Vinha da cidade a tênue favores antigos, como as vantagens obtidas na com- iluminação que, como luz zodiacal, balizava o Com marciana, ou mesmo, há anos, na plataforma alguma atenção podia mesmo distinguir as cintilações mero doze. torres mais altas. E se fosse de manhã, com os Voltou, embrenhou-se mais na mata. Ouviu as folh as raios do sol, poderia divisar os reflexos coruscantes das es estalarem; sentiu os galhos maiores insinuarem-se truturas cônicas de chinelas rasas; respirou o aroma penetrante de cedros, de Aspirou o ar mais uma vez e voltou-se para dentro. A resinas, odor contundente de um mundo ainda esposa nada havia notado. Dormia a sono solto, não se Era bom estar lá fora, era bom fundir-se com aquele mistério do conta da modificação de temperatura provocada pela perturbador das madrugadas. Ah! As madrugadas! Conno abertura do postigo. Ele sentiu desejo de andar. Essa insônia, eram estranhas na Lua, como eram desconcertantes em Mar- essa insônia! Talvez fosse do que bebera na como eram longas e penumbrosas em Mas nenhu- véspera, em casa dos amigos, na festa de despedida. Diabo! ma lhe agradava tanto como as da Terra. Talvez por isso não Despedida.. por que fora lembrar-se? Não, não importava. mais se adaptasse às residências modernas, onde tudo era ar- Tinha três dias ainda. Três dias integrais para ficar com a tificial, inclusive o dia e a noite, onde não havia crepúsculo mulher, com o filho. Três dias para fazer o que quisesse. Ler, nem alvoradas. Em sua vida errante de Superintendente ti- ouvir música, lavar o cachorro, ou então, o que era agradá- nha que valorizar mais a Terra, e por esse motivo, era impe- vel, cuidar de seu viveiro de plantas extraterrenas. rioso, quando aqui se achasse, desligar-se o mais possível das Resolveu sair, fundir-se com a grande noite que já ia velha. conquistas da civilização. Tinham que viver de modo sim- Apertou o botão e cerrou o postigo. Passou pé ante pé ples, liberto daquelas mansões fantásticas, reinos de botões e junto da esposa e vestiu o agasalho, saindo mesmo de chine- comutadores, dominados e governados pela los. Quando transpôs o umbral da porta, elevou a mão deva- Parou, espiou o céu pálido, de astros embaciados e tí- gar para interromper o cruzamento das células fotoelétricas, midos, e resvalou a mão sobre a casca milenar de um abeto. a fim de impedir que mecanismo, agindo com rapidez, Começou a regressar devagar, articulando nova corrente de produzisse aquele ruído incômodo que poderia despertar o pensamentos. menino no quarto fronteiro. Bem, apesar de tudo não poderia culpar a mulher. Ela é Viu-se envolvido pela noite terrestre. Pôs-se a andar que vivia na Terra. Ela nada tinha com suas peregrinações sem destino até que atingiu a orla do pinheiral. Parou, vol- espaciais, e muito menos ainda com seus complexos e recal- tou-se e examinou a casa de longe. Era uma jóia engastada ques interplanetários. Ela e o filho deviam viver decente- na clareira. A mulher tinha Haviam escolhido o arqui- teto mais indicado. A construção, bloco de cristal, duralumí- nio e tinton, brilhava ao luar fosco, como se emitisse ema- 1 nucleônica: ramo da física que trata dos núcleons e dos fenômenos que ocorrem nos núcleos atômicos. 96 97</p>

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