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DIREITOS HUMANOS, GÊNERO E DIVERSIDADE NA ESCOLA
O projeto Gênero e Diversida-
de na Escola, criado em uma parce-
ria entre o Ministério da Educação, a 
Universidade Federal do ABC, a Secre-
taria de Direitos Humanos e Cidadania 
e a Secretaria de Educação da Pre-
feitura de São Paulo, desenvolveu um 
curso de aperfeiçoamento voltado para 
educadoras/es e pessoas da comunida-
de escolar dispostas a construir novos 
conhecimentos e autoconhecimento por 
meio de quatro eixos temáticos:
1. Diversidades
2. Gênero
3. Sexualidades
4. Relações Étnico-Raciais
A metodologia foi desenvolvida a 
partir da elaboração de escritos auto-
biográfi cos em diários, constituindo um 
memorial em que cada cursista pode 
relacionar sua própria história de vida 
e experiências pessoais com essas te-
máticas, reunindo elementos de suas 
vivências e aprendizados para a cons-
trução de um projeto de intervenção. 
Nosso objetivo é sensibilizar a co-
munidade escolar para esses saberes, 
cruzando categorias de análise da re-
alidade social para produção de novos 
conhecimentos em práticas educativas e 
culturais, transformadoras do cotidiano 
escolar. Buscamos favorecer uma for-
mação humana integral, voltada para 
o aprendizado, a compreensão e o 
convívio com as diferenças, não permi-
tindo que estas sejam transformadas em 
desigualdades, combatendo assim todo 
tipo de preconceito e promovendo uma 
cultura de paz, o reconhecimento das 
diversidades culturais com garantia de 
direitos humanos.
Neste volume temos uma coletânea 
de variados artigos de pesquisadores/
as, com diversos olhares e percepções, 
em torno da temática Gênero e Di-
versidade Sexual, divididos em 
quatro blocos: Sobrevivência, violên-
cia, desenvolvimento humano, seguran-
ça humana e direitos humanos no Brasil 
e no mundo; Lutas, disputas e reações 
por direitos para a população LGBT; 
Experiências, trajetórias, ativismos e a 
construção de um Observatório LGBT 
na UFABC; e Políticas públicas: Saúde, 
Assessoria LGBT e Educação.
Com o objetivo de deixar um re-
gistro da multiplicidade de pessoas, 
demandas e propostas que estão envol-
vidas na construção dessa iniciativa, o 
projeto Gênero e Diversidade na Escola 
(GDE - UFABC), com a equipe do Ob-
servatório LGBT, convidou participantes 
para contribuir com artigos e compar-
tilhamentos de experiências sobre suas 
trajetórias pessoais, suas participações 
nos movimentos sociais, bem como no 
âmbito acadêmico (como pesquisa-
dorxs, professorxs, extensionistas). Os 
escritos aqui reunidos tratam das re-
fl exões e das demandas que pessoas 
e grupos apresentaram por ocasião do 
Fórum de Lançamento do Observató-
rio LGBT, que também foi ocasião para 
mais um encontro presencial do curso 
de formação de professorxs Gênero e 
Diversidade na Escola - GDE - UFABC. 
A partir das pesquisas, debates e 
depoimentos apresentados neste livro, 
temos a perspectiva de reunir muitas 
vivências e propostas que ajudem a 
transformar nossa realidade e favore-
çam os processos de construção de po-
líticas públicas para enfrentar precon-
ceitos, garantir direitos e reconhecer as 
diversidades de gênero e sexuais.
A Série Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola é composta por 
livros impressos e digitais, com � nanciamento do Ministério da Educação - MEC 
em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São 
Paulo e a Universidade Federal do ABC. Os livros apresentam boa parte da produção 
colaborativa de conhecimentos realizada por cursistas, professores/as e pesquisadores/
as do Curso de Aperfeiçoamento Gênero e Diversidade na Escola (GDE UFABC). 
A formação docente continuada em Educação a Distância (EaD, modalidade semi-
presencial) foi desenvolvida entre os anos de 2015 e 2016, em oito polos da Rede 
UniCEU (Centros Educacionais Uni� cados - CEUs - Azul da Cor do Mar, Butantã, 
Navegantes, Paraisópolis, Perus, São Mateus, São Rafael e Vila do Sol). 
A Série traz, em seu primeiro volume, um panorama histórico geral e algumas 
experiências locais e regionais de abrangência nacional, com ampla re� exão acerca 
das políticas públicas educacionais em Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na 
Escola desenvolvidas pelo MEC e por inúmeras universidades na última década, com 
formação docente continuada de milhares de pessoas em todo Brasil. 
Em seis volumes, apresenta também a reunião da produção individual e coletiva 
de escritos autobiográ� cos e projetos de educadores/as das periferias de São Paulo e 
das regiões metropolitanas, em diálogo com quatro Eixos Temáticos: Diversidade; 
Gênero; Sexualidade e Relações Étnico-Raciais. Outros quatro volumes trazem resul-
tados de pesquisas e práticas metodológicas sobre Danças Circulares e Diversidades 
Culturais: Educação para uma Cultura de Paz; Gênero e Diversidades Sexuais; Sa-
beres Interdisciplinares sobre Gênero e Relações Étnico-Raciais no Cotidiano e na 
Cultura Escolar; e História Oral e Audiovisual e as Experiências e Protagonismos nas 
Entrevistas Autobiográ� cas de Educadoras/es da Periferia de São Paulo. 
Todos esses onze volumes da Série também são disponibilizados em formato 
impresso e em e-books, com mais um livro-bônus, apenas em formato digital, conten-
do diversos artigos e outros materiais didáticos, totalizando doze volumes disponibili-
zados numa plataforma colaborativa na internet, a DigitalPlural. 
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GÊNERO E DIVERSIDADE SEXUAL
percursos e refl exões na construção 
de um Observatório LGBT
GDE UFABC
Ana Carolina Francischette da Costa  Anderson Duarte 
 Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky 
Arthur P. Cavalcante  Beatriz Carvalho da Silva 
 Bruno de Melo Domingos  Carla Cristina Garcia 
Clarissa de Franco  Cristian Manuel Jimenez  Eliad 
Dias dos Santos  Elias David Morales Martinez  Elza 
Maria de Castro Lima  Gisele Salgado  Juliana Fabbron 
Marin Marin  Kevin Campos Correia  Léo Paulino Barbosa 
 Lélia Batista Alves  Natália Alves  Neon Cunha  Raimun-
do N. B. Neres  Regina Facchini  Rodrigo Meirelles  Thiago 
Mattioli  Vanessa Nailma de Lima  Vivian Navarro
capa vol10.indd 1 24/01/2017 20:32:14
DIRE I TOS HUMANOS, GÊNERO E D IVERS IDADE NA ESCOLA
GÊNERO E DIVERSIDADE SEXUAL
Baixe gratuitamente todos os livros da Editora Pontocom no site 
 www.editorapontocom.com.br
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GÊNERO E DIVERSIDADE SEXUAL
percursos e reflexões na construção 
de um Observatório LGBT
DIREITOS HUMANOS, GÊNERO E DIVERSIDADE NA ESCOLA
Ana Carolina Francischette da Costa  Anderson Duarte 
 Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky 	
Arthur P. Cavalcante  Beatriz Carvalho da Silva 
 Bruno de Melo Domingos  Carla Cristina Garcia 	
Clarissa de Franco  Cristian Manuel Jimenez  Eliad 
Dias dos Santos  Elias David Morales Martinez  Elza 
Maria de Castro Lima  Gisele Salgado  Juliana Fabbron 
Marin Marin  Kevin Campos Correia  Léo Paulino Barbosa 
 Lélia Batista Alves  Natália Alves  Neon Cunha  Raimundo 
N. B. Neres  Regina Facchini  Rodrigo Meirelles  Thiago 
Mattioli  Vanessa Nailma de Lima  Vivian Navarro
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Bibliotecária responsável: Aline Graziele Benitez CRB-1/3129
G289
1.ed. 
Gênero e diversidade sexual: percursos e reflexões na construção de 
um observatório LGBT / Ana Carolina Francischette da 
Costa... [et al.]. – 1.ed. – São Paulo: Editora Pontocom, 2016.
Recurso digital
Formato: pdf
Requisitos do sistema: Adobe digital editions
Modo de acesso: Word wide web
ISBN: 978-85-66048-85-8
1. Direitos humanos. 2 Diversidade sexual. 3. Gênero. 4. Polí-
ticas públicas – direitos. I. Duarte, Anderson ... [et al.]. II. Título. 
CDD 323
Índice para catálogo sistemático:
 1. Direitos humanos 323
Projeto gráfico e capa: Isabela A. T. Veras
Preparação de conteúdo: Marcia Borges
Revisão: Nora Augusta Corrêa
Diagramação: Fabricando Ideias
Produção de E-pub/ Mobi: HM Editorial e Digital: Guilherme Henrique 
Martins Salvador
Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-
-NãoComercial 4.0 Internacional. Para ver uma cópia desta licença, visite 
http://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0
GDE UFABC
http://creativecommons.org/licenses/by
Agradecimentos
A criação da Série Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola partiu do sucesso do projeto 
Gênero e Diversidade na Escola (GDE UFABC) que, por sua vez, só foi possível graças ao apoio, à cola-
boração e confiança de muitas pessoas que ajudaram a torná-lo uma realidade. Por isso, fazemos questão 
de registrar aqui nossos agradecimentos. Consideramos essencial agradecer, em primeiro lugar, a Secretaria 
Municipal de Direitos Humanos e Cidadania do Município de São Paulo, na figura de Jonas Waks, então 
coordenador adjunto de Educação em Direitos Humanos. A partir de seu contato - em virtude de já ter 
sido coordenadora do GDE no Paraná (UEPG/SED-PR) - mobilizamos as parcerias entre a Prefeitura 
de São Paulo, a Universidade Federal do ABC e o Ministério da Educação, que possibilitaram a existência 
do projeto GDE UFABC. Sua liderança, participação e entusiasmo foram fundamentais para a concreti-
zação deste trabalho, que se integrou à política municipal de formação docente nas temáticas dos Direitos 
Humanos, entre os anos de 2013 e 2016, ofertando milhares de vagas em cursos de extensão e pós-gradua-
ção para a rede municipal de ensino, juntamente com a UNIFESP e a UFSCar. A UFABC, por meio 
dessa parceria, ofertou mil vagas, tanto pelo GDE quanto pelo projeto Educação em Direitos Humanos 
(EDH), criado no mesmo contexto de negociação, para o qual posteriormente foram convidados a coor-
denar Ana Maria Dietrich e José Blanes Sala. Nessa construção coletiva, especial foi também o apoio da 
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão - SECADI e sua equipe - Ale-
xandre Bortolini, Daiane O. L. Andrade, Daniel A. Martins e Fábio M. H. Castro - para estruturar e 
executar o GDE UFABC no âmbito da política pública nacional de educação em Direitos Humanos e 
para que transcorresse com os devidos recursos e prazos, formando centenas de cursistas, constituindo-se 
numa das maiores experiências de formação docente continuada do Brasil.
Acreditamos nesta iniciativa como sendo histórica e de valor inestimável, considerando o impacto 
muito expressivo na formação de centenas de educadores/as que pudemos acompanhar diretamente em 
oito polos da Rede UniCEU das quatro regiões da cidade. Por isso, queremos agradecer também às equi-
pes dos polos UAB/UniCEU que nos acolheram com tanto carinho e entusiasmo, nossos principais par-
ceiros na mobilização e na interlocução com as populações locais. São eles e elas: Zilda Borges da Silva, do 
CEU Azul da Cor do Mar; Paulo Roberto R. Simões, Fátima Massara, Sebastião Arsani, Rita de Cássia 
N. Rossingnolli e André Santana, do CEU São Mateus; Maria Elza Araujo e Maria do Socorro L. Fer-
nandes, do CEU São Rafael; Eliana M. Lorieri, do CEU Perus; Rosana de Souza e Ana Paula P. Gomes, 
do CEU Paraisópolis; Marcelo Costa e Beatriz Rodgher, do CEU Navegantes, Luciene B. Veríssimo, do 
CEU Vila do Sol; e Adriana de Cássia Moreira e Naíme Silva, do CEU Butantã.
À equipe gestora da Universidade Federal do ABC, nosso profundo agradecimento, especialmente na 
figura da Profa. Dra. Virgínia Cardia Cardoso, coordenadora do Comitê Gestor Institucional de Forma-
ção Inicial e Continuada de Profissionais da Educação Básica - COMFOR, sobretudo quanto à mediação 
da obtenção e gestão dos recursos financeiros, pessoais e pedagógicos junto à Pró-Reitoria de Extensão e 
Cultura (PROEC), e Pró-Reitoria de Graduação (PROGRAD). Por isso, agradecemos também aos res-
pectivos pró-reitores, Daniel Pansarelli e Adalberto de Azevedo (PROEC) e José Fernando Q. Rey e 
Paula Tiba (PROGRAD), Lucia Franco (UAB), bem como aos/às técnicos/as administrativos/as: Eduar-
do S. Ré, Jussara Ramos, Kelly Gomes, Lídia Pancev, Lilian Menezes, Marcelo Alecsander, Marcelo 
Schiavo, Rail Ribeiro e Sandra Trevisan. Agradecemos igualmente ao trabalho da equipe da Fundação de 
Apoio à Pesquisa - FUNDEP, responsável pela gestão dos recursos financeiros do nosso projeto: Fabiana 
Barcelos, Fabiano Siqueira, Ana Rita Melo, Marilene Fernandes, entre outros que nos atenderam. Um 
agradecimento profundo ao Reitor, Prof. Dr. Klaus Kapelle, que nos incentivou logo na abertura oficial da 
política de formação docente, no Teatro Municipal de São Paulo, afirmando para milhares de pessoas ali 
presentes: “Somos uma universidade que respeita, incentiva, divulga e ensina Direitos Humanos. Portanto, 
nada mais natural do que ensinarmos Direitos Humanos.”
Agradecemos muito especialmente à equipe do projeto que desenvolveu um trabalho maravilhoso, 
superando as dificuldades de forma entusiasmada e companheira. Foram eles a formadora Gianne A. 
Barroso, bem como os/as tutores/as a distância: Ana Sueling A. Diniz, Ana Gisele V. Vale, Adriana G. de 
Paula, Adriana S. Morgado, Alessandra Di Benedetto, Aline B. Sant’Ana, Andrea G. Trindade, Emerson 
Costa, Everton A. T. de Godoi, Fernando V. L. Pereira, Luana Matias, Lucelia L. de Jesus, Marcia C. dos 
Santos, Mariana T. Faustino, Marinete T. C. Silva, Marta Miriam A. Santos, Mary Jane B. da Silva, Rena-
ta Coelho, Rute M. dos Santos e Valdinar L. Bezerra. Gratidão eterna à Taís R. Tesser e Wanderley F. 
Santana da Silva, tutor e tutora voluntário/a e, sobretudo, ao tutor presencial João Reynaldo Pires Junior, 
que trabalharam incansável e comprometidamente neste projeto. Parceria, solidariedade, coragem e dedi-
cação foi um pouco do que aprendemos juntos, base sólida a sedimentar nossa amizade por toda a vida.
Nosso agradecimento aos/às autores/as, especialmente ao Prof. Dr. José Carlos Sebe Bom Meihy (Di-
versitas - NEHO/USP e UNIGRANRIO), que co-organizou e apresentou vários livros, contribuindo 
inestimavelmente com sua experiência de trabalho. O mesmo agradecimento sincero aos/às professores/as 
pesquisadores/as do projeto que se dedicaram a essa jornada: Evonir Albrecht, Graciela Oliver, Monique 
Hulshof, Suzana Ribeiro e Wagner Cremonezi. Não podemos nos esquecer de agradecer a equipe editorial, 
liderada por Isabela Teles Veras e Márcia Borges, que abraçaram a ideia e foram fundo na tarefa de mobili-
zar todos os recursos para que fossem concretizados estes livros. Gratidão infinita à Livraria Alpharrabio, 
espaço cultural e afetivo, onde desenvolvemos nosso trabalho editorial, acolhidas por livros e principalmen-
te por pessoas amigas que amamos e admiramos, Dalila Teles Veras, Luzia Maninha Teles Veras e Eliane 
Ferro. Um agradecimento fraterno e entusiasmado à nossa Editora Pontocom e à parceria e disponibilidade 
do editor André Gattaz, com quem sempre pudemos contar.
Por último, agradecemos todas as centenas de pessoas que foram cursistas do GDE UFABC e, como 
forma de gratidão maior, esperamos que cada colaborador/a tenha vivido momentos especiais de sensibi-
lização e transformação em relação aos temas de nosso projeto. Tomara que nossa rede, criada nos espaços 
educativos dos CEUs, nas fronteiras da periferia com as regiões metropolitanas de São Paulo, se amplie 
cada vez mais! Esse trabalho é dedicado a minha família e a vocês que contribuíram com pesquisas, saberes 
e experiências, dando à nossa caminhada conjunta o verdadeiro valor da palavra colaboração, imprescindí-
vel para nossas temáticas em tempos difíceis, de muitas lutas e, principalmente de, defesa e ampliação dos 
direitos conquistados.
Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky 
Coordenadora do projeto Gênero e Diversidade na Escola UFABC
Sumário
Apresentação
Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky ........................................................ 9
Sobrevivência, violência, desenvolvimento humano, segurança 
humana e direitos humanos no Brasil e no mundo
Da sobrevivência LGBTS aos Princípios de YOGYAKARTA e o Observatóriono Grande ABC
Neon Cunha ........................................................................................................ 14
Diversidade sexual e de gênero e violência: situando reflexões e pesquisas
Regina Facchini .................................................................................................. 27
Homofobia, Desenvolvimento Humano e Liberdade
Cristhian Manuel Jimenez .................................................................................. 42
Os Direitos das Pessoas LGBT como questão de Segurança Humana no Contexto Internacional
Elias David Morales Martinez ............................................................................ 55
Lutas, disputas e reações por direitos para a população LGBT
De olhos vendados: a invisibilidade da união homoafetiva no Congresso Nacional e a 
oficialização pelo Supremo Tribunal Federal
Juliana Fabbron Marin Marin ............................................................................ 70
Discussão jurídica do direito das pessoas transexuais ao nome e as consequências no 
espaço acadêmico
Gisele Salgado ..................................................................................................... 82
O papel do Direito e da advocacia na luta por dignidade para a população LGBT através 
da experiência do Observatório LGBT da UFABC
Vivian Navarro .................................................................................................. 100
Das dificuldades do Processo Transexualizador e do Processo de Retificação de Prenome
Léo Paulino Barbosa ........................................................................................... 106
Religião em meio aos debates sobre gênero, ideologia de gênero e “Escola Sem Partido”: 
acomodações contemporâneas entre distorções, retrocessos e avanços
Clarissa De Franco .............................................................................................. 112
Diálogos inter-religiosos no Brasil de combate ao fundamentalismo, à homo-lesbo-transfo-
bia e promoção do Estado Laico
Arthur P. Cavalcante .......................................................................................... 122
Experiências, trajetórias, ativismos e a construção de um 
Observatório LGBT na UFABC
Breve histórico do Observatório LGBT na Universidade Federal do ABC: dos ataques 
homofóbicos à institucionalização
Thiago Mattioli ................................................................................................... 132
O Observatório LGBT da UFABC e os movimentos sociais
 Raimundo N. B. Neres ....................................................................................... 140
Meu Caminho até o Observatório LGBT da UFABC
Anderson Duarte ................................................................................................. 147
Depoimento de uma militante
Lélia Batista Alves .............................................................................................. 152
Reflexões sobre ativismo e representatividade política LGBT no Grande ABC paulista
Kevin Campos Correia ........................................................................................ 156
Coletivo LGBT Prisma: a construção de um espaço seguro, inclusivo e empoderador
Vanessa Nailma de Lima ...................................................................................... 160
Reformismo Revolucionário
Beatriz Carvalho da Silva ................................................................................... 163
A identidade de um gay cis
Bruno de Melo Domingos .................................................................................... 167
Políticas públicas: Saúde, Assessoria LGBT e Educação
A potencialidade da proteção à saúde nos modos de vida LGBT
Rodrigo Meirelles ................................................................................................ 172
Assessoria LGBT de Santo André
Eliad Dias dos Santos .......................................................................................... 176
A pedagogia transgressora e os estudos queer: aproximações
Carla Cristina Garcia ......................................................................................... 184
A educação como meio para o respeito à diversidade: reflexões e perspectivas
Natália Alves ..................................................................................................... 193
 Educar para as diversidades: resistência em tempos de retrocessos
Ana Carolina Francischette da Costa .................................................................... 197
Existe homofobia em SP: da prática à teoria
Elza Maria de Castro Lima ............................................................................... 202
Apresentação
No dia 11 de junho de 2016 foi realizado, na Universidade Federal do ABC, o Fórum 
de Lançamento do Observatório LGBT das Cidades do Grande ABC, um marco histó-
rico para a construção de um polo de pesquisas, estudos e atividades de extensão com a 
comunidade acadêmica e externa, sobretudo os movimentos sociais ligados às questões 
das diversidades de gênero e sexuais.
Nessa ocasião ímpar, estiveram presentes pessoas ligadas à universidade e aos movi-
mentos sociais que apresentaram suas trajetórias individuais e coletivas para compor o 
grande mosaico de reflexões e experiências, trazendo demandas e propostas para serem 
desenvolvidas pelo Observatório nos próximos anos.
Com o objetivo de deixar um registro da multiplicidade de pessoas, demandas e pro-
postas que estão envolvidas na construção dessa iniciativa, o projeto Gênero e Diversida-
de na Escola (GDE - UFABC), com a equipe do Observatório LGBT, convidou partici-
pantes desse grande núcleo de estudos e ações para contribuir com artigos e compartilha-
mentos de experiências sobre suas trajetórias pessoais, suas participações nos movimentos 
sociais ou ainda no âmbito acadêmico (como pesquisadorx, professorx, extensionista). 
Os escritos aqui reunidos tratam das reflexões e das demandas que pessoas e grupos 
apresentaram por ocasião do Fórum de Lançamento do Observatório LGBT, ocasião em 
que também aconteceu mais um encontro presencial do curso de formação de professorxs 
Gênero e Diversidade na Escola (GDE – UFABC).
A partir das pesquisas, debates e depoimentos que estão apresentados neste livro, te-
mos a perspectiva de reunir muitas vivências e propostas que ajudem a transformar nossa 
realidade e favoreçam os processos de construção de políticas públicas para enfrentar 
preconceitos, garantir direitos e reconhecer as diversidades de gênero e sexuais.
O livro está estruturado em quatro partes. 
A primeira está conformada por diferentes trabalhos relacionados aos direitos hu-
manos, seus princípios, políticas e violações relacionadas às questões de gênero e diver-
sidade sexual. 
A segunda parte nos traz uma série de trabalhos que tratam das disputas por con-
quistas de direitos pela população LGBT. Temas como união homoafetiva, nome social, 
mudança de pré-nome e processo transexualizador são colocadas em discussão. Há ain-
da dois trabalhos que evidenciam a pluralidade de pensamentos acerca da religiosidade, 
discutindo casos de grupos fundamentalistas contrários à conquista de direitos LGBT, 
bem como outros que reconhecem e respeitam a diversidade.
A terceira aborda o processo pelo qual se dá a construção do Observatório expressada 
por diferentes olhares, permeados pelas histórias de vida das pessoas que participam, es-
tudam e atuam em movimentos sociais e culturais, além da reflexão sobre o que estes 
movimentos representam na luta contemporânea por garantia de direitos e pelo reconhe-
cimento de si e do outro. Pontua-se, sobretudo, a criação do Observatório como reação 
histórica aos tristes acontecimentos em torno das agressões homofóbicas nos campi da 
UFABC, ideia gestada durante a realização do evento “Homo-lesbo-transfobia e Resis-
tência”, em julho de 2015. 
Em sua última parte concentra trabalhos preocupados emrevelar, mapear e discutir 
direitos e políticas públicas de saúde, cultura e educação, entre outros âmbitos, voltadas ao 
público LGBTTT e seus impactos reais nas vidas destas pessoas.
Assim, no escopo da Série Gênero e Diversidade na Escola, coube-se o privilégio de 
reunir esses trabalhos e reflexões conjuntas sobre o Observatório LGBT, pensado coleti-
vamente como construção de um grupo de pesquisa, ensino e extensão na UFABC sobre 
diversidade sexual e de gênero. Focando-se em direitos humanos legais de lésbicas, gays, 
bissexuais, travestis, mulheres transexuais, homens trans e transgêneros, em especial as 
pessoas em extrema vulnerabilidade social, vem criar mecanismos de inclusão, empodera-
mento e combate ao preconceito, discriminação e LGBTfobia.
Na construção deste projeto de ensino, pesquisa e extensão, que promove mapeamen-
tos e soluções de problemas em torno dessas demandas, estão envolvidas diversas pessoas, 
cada qual com sua história de vida, com diferentes trajetórias, oriundas de realidades 
distintas. Todxs, contudo, concentrados em construir ambientes mais justos àquelxs apar-
tadxs da sociedade por suas identidades de gênero e orientações sexuais em conflito com 
a heteronormatividade. 
Nesta coletânea estão reunidos muitos trabalhos preocupados em compreender de 
que forma as políticas públicas voltadas à população LGBTTT, especificamente ou não, 
têm impactos positivos. Sabemos que, por vezes, muitas delas são aplicadas em escala, o 
que pode torná-las impessoais e constrangedoras para estas pessoas, acabando por cerceá-
-las de seus direitos básicos, como à saúde e à educação, por exemplo.
Destaca-se também a importante atuação dos movimentos sociais na construção de 
políticas, e também no acolhimento e mobilização de pessoas em situação de violências e 
de que formas este ativismo contribuiu e ainda pode contribuir para que indivíduos e 
grupos marginalizados estejam cada vez mais abarcados pela cidadania.
Desenvolvimento, segurança, educação, lutas sociais e culturais e diversidade humana 
são alguns dos temas trabalhados pelxs autorxs no sentido de propor bases para a concep-
ção de políticas públicas voltadas à garantia da dignidade das diferentes pessoas e grupos 
e da mediação de conflitos e construção de uma cultura de paz e respeito às diversidades. 
De onde partimos ao concebermos sociedades mais justas? Quais as forças e potências 
envolvidas nas lutas sociais e culturais por direitos humanos que abarquem questões de 
gênero e de diversidade sexual? Como privilegiar o dissenso democrático nas práticas 
políticas, educacionais, sociais, culturais, sem que determinados grupos transformem ou-
tros considerados diferentes em desiguais? Como garantir direitos que alarguem, reco-
nheçam diferenças e movam classificações do corpo e das identidades que não dão conta 
da complexidade do mundo real? 
Estas e outras são questões candentes para muitas vidas em luta pelos direitos de to-
dos nós de vivermos com dignidade, amar e sermos amadxs por ser apenas aquilo que 
quisermos ser ao longo de nossas jornadas. E que agora são apresentadas neste volume da 
Série GDE, tanto para subsidiar a formação docente como para propor e disseminar 
novos (re)conhecimentos das diversidades para a sociedade em geral.
Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky
Coordenadora do Projeto Gênero e Diversidade na Escola (GDE-UFABC), Pesquisadora 
do Centro Simao Mathias de Estudos em História da Ciência - CESIMA/PUC-SP e do 
Núcleo de Estudos em História Oral - NEHO/USP 
Sobrevivência, violência, desenvolvimento 
humano, segurança humana e direitos 
humanos no Brasil e no mundo 
Da sobrevivência LGBTS aos Princípios de YOGYAKARTA e 
o Observatório no Grande ABC
Neon Cunha1
As poucas e consistentes conquistas da população LGBT surgem ao longo da história 
do Brasil a partir da sua visibilidade e enfrentamento social, de modo que se torna rele-
vante pontuar a importância de um ativismo/militância ora composto por coletivos ora 
por atores isolados dentro de uma sociedade que tem como determinante a supervalori-
zação da cisheteronormatividade.
A luta desta população está baseada a princípio na necessidade da sobrevivência, o que 
faz que ela tenha muitas vezes que manter-se na invisibilidade, um meio de garantir sua 
integridade física, tornando-a assim a uma luta centrada na segurança pessoal e no reco-
nhecimento do seu ser. Porém, nos últimos anos, essas conquistas passaram a dialogar 
com um cenário instável e de retrocessos conservadores, em especial no cenário político.
Tomando como ponto de partida minha experiência pessoal, a experiência de uma 
mulher transgênera de 46 anos, que tem acompanhado a evolução ainda que lenta desde 
seu autorreconhecimento e tendo sobrevivido a períodos de perseguição e extermínio 
desta população, tento aqui fazer uma breve análise de um período onde a invisibilidade 
era uma negociação sobre a vida, passando pela conquista de direitos que surge a partir 
dos contrastes de um período obscuro dos anos 90, até o avanço promovido pelos dife-
rentes atores e fatores nos processos de visibilidade e democratização. Ao mesmo tempo 
reflito sobre a insegurança de que sejamos consumidos por um sistema cujas lógicas 
conservadoras, principalmente as governamentais, possam negociar e/ou apagar impor-
tantes conquistas.
Trato aqui de um dos lados mais obscuros da sociedade brasileira contemporânea: o 
assassinato da população LGBT, em especial de pessoas travestis e transexuais. Há algu-
mas décadas movimentos de defesa de direitos humanos e a militância/ativismo vêm 
denunciando a intolerância desta sociedade em conviver pacificamente com suas diferen-
1 Bacharel em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas pela FAINC | Facul-
dades Integradas Coração de Jesus. Ativista transfeminista independente, atuou em pales-
tras, rodas de conversas, debates junto à sociedade civil e instituições governamentais e não 
governamentais. 
Gênero e Diversidade Sexual • 16 
ças sociais e culturais, em particular quando envolvem o livre exercício da sexualidade e 
expressão de gênero. Pontuo também sobre os avanços, em especial a partir da visibili-
dade da população transgênera e da publicação dos Princípios de Yogyakarta para apli-
cação da Lei Internacional de Direitos Humanos em relação à Orientação Sexual e 
Identidade de Gênero (2006-2007) e a importância da consolidação do Observatório 
LGBT do Grande ABC.
LGBTS no Brasil: invisibilidade, sobrevivência e conquistas
Para a comunidade LGBT do Brasil, desde o momento em que começaram a se or-
ganizar até os dias atuais, a luta contra toda e qualquer forma de discriminação tem per-
sistido, principalmente no que diz respeito ao direito a sua orientação sexual, e mais re-
centemente incluindo a identidade de gênero. Muitos encaram essa luta como inglória, 
mas nem por isso desistem da guerra. Desses combates surgiram inúmeras vitórias em 
diferentes setores, sejam eles políticos ou sociais.
Contudo, ainda persistem algumas ideias a respeito das pessoas transgêneras; aqui, em 
especial, darei atenção aos travestis, mulheres e homens transexuais, que são colocados 
como doentes, ou mesmo como um ridículo estereótipo, e tratados como inferiores. Al-
guns segmentos ainda sustentam essas ideias. A Medicina é um deles e, apesar das mudan-
ças políticas e sociais em relação às transexualidades e travestilidades, estas ainda são con-
sideradas “doenças” pela Associação de Psiquiatria Norte-Americana (APA) e pela Orga-
nização Mundial da Saúde (OMS). Também não é raro aparecer na imprensa religiosos 
que prometem a “cura” para essa população, seja propondo eliminar a trangeneridade atra-
vés da repressão, seja através de substâncias milagrosas que dizem reverter o problema em 
etapas, a “cura espiritual”. Tudo isso serve para manter e/ou aumentar o preconceito.
O gênero como categoria diagnóstica surge na década de 50, quando foram publica-
dos os primeiros artigos que registraram e defenderama especificidade do “fenômeno 
transexual”. Desde o início daquela década o endocrinologista Harry Benjamin se dedi-
cava a estabelecer as ocorrências que justificariam a diferenciação das pessoas transexuais 
em relação às homossexualidades. 
Desde a primeira publicação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos 
Mentais - DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), em 1952, há 
muito se vê um movimento globalizado pela retirada da transexualidade do rol das doen-
ças identificáveis como transtornos mentais, com a adesão de vários países. No Brasil o 
Conselho Federal de Psicologia (CFP) lançou no dia 22 de maio de 2015, na semana 
internacional de luta contra a homofobia, o site especial Despatologização das Identida-
des Trans, projeto integrante de campanha, iniciativa da Comissão de Direitos Humanos 
do CFP, contra a patologização das transexualidades.
17 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Recentemente, presenciamos uma hipervisibilidade das identidades de gênero e das 
sexualidades nos espaços onde se condensa o poder político e social, e podemos facilmen-
te identificar as políticas moralistas implementadas ao longo dos últimos anos: abstinên-
cia, monogamia, caça à prostituição, “demonização” do aborto e, além disso, atitudes ex-
plícitas de repúdio a identidades e práticas sexuais dissidentes por uma gama variada de 
atores estatais e religiosos que abrange ministros brasileiros, presidentes, juristas e religio-
sos influentes nos governos. Tanto no passado como hoje, doutrinas religiosas sobre o 
“sexo” têm estado na origem dessas ondas de pânico e repressão. Porém, há diferenças 
substantivas a apontar entre o passado e o presente. Por exemplo, as regras que regem as 
relações entre Estados e religiões não são as mesmas que prevaleciam antes dos séculos 
XVIII e XIX, exceto em alguns contextos muito específicos, como é o caso das chamadas 
teocracias islâmicas.
É preciso destacar que a questão do isolamento de indivíduos considerados “indesejá-
veis”, “anormais” ou ainda, de “comportamento obscuro” não é um fato novo no Brasil. 
Desde o final do século passado, a ideia do confinamento de uma camada “doente” da 
população já era tema de diversas discussões. A intenção era impor uma ordem a uma 
determinada população cuja característica visível era a “decadência moral” e tentar recons-
truir os vínculos perdidos entre alguns indivíduos e a sociedade (ADORNO, 1990). No 
início do século, em algumas cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, foram 
elaborados diversos planos com a preocupação de estabelecer uma ordem urbana, para 
algumas camadas da população. A questão principal era “limpar” os centros das cidades 
dos indesejáveis - prostitutas, criminosos, vadios, etc. E para sanear moralmente a cidade, 
“polícia e justiça receberam do Estado apoio material e humano visando dotá-las de ins-
trumentos adequados para conter a desobediência civil e política” (Ibid., p.9-10). O con-
trole dessa parcela da população sempre foi preocupação do Estado. É necessário manter 
e acreditar na existência de uma parte “sadia” da sociedade e o confinamento é visto como 
uma estratégia salutar, uma vez que expurga os indesejáveis e, ao mesmo tempo, produz 
um discurso de reeducação visando à integração dos chamados “desviantes” à ordem social 
dominante. Dessa forma, o indivíduo é protegido pelo Estado de qualquer mal que possa 
advir da vida em comunidade.
Hoje LGBTs estão abertamente engajados/as com a representação política, a visibili-
dade pública e a produção de novas diretrizes para suas vivências, saindo da marginalida-
de e repressão para a visibilidade e legitimidade. Para o autor Foucault, o “Estado” não é 
uma grande caixa da qual o poder emana, não é uma “coisa” que pode ser “tomada”, mas 
sim um processo permanente de criação e recriação de lógicas estatais. Esse processo, 
embora determinado por grupos ou forças dominantes, sempre envolve o conjunto do 
corpo social, inclusive aquelas e aqueles que são marginalizadas/os e punidas/os em razão 
de suas identidades ou práticas sexuais.
Gênero e Diversidade Sexual • 18 
Dos 15 aos 30 anos, meados dos anos 80 e década de 90, frequentei com certa regula-
ridade o centro “gay” da cidade de São Paulo, constituído basicamente pelo largo do Arou-
che, Praça da República e proximidades. Achava que poderia ser um espaço de aceitação 
e inclusão e, embora ainda não tendo feito minha transição de gênero (período pelo qual 
uma pessoa passa no momento em que se submete a tratamentos hormonais e cirúrgicos 
para paulatinamente transformar suas características primárias e secundárias nas do gê-
nero no qual se reconhece) e sendo lida como extremamente feminina, percebi o quanto 
a comunidade gay não via com bons olhos as mulheres trans; e ao mesmo tempo a socie-
dade e os órgãos governamentais queriam se ver livres de nós. Importante também lem-
brar que a inclusão de bissexuais, pessoas trans e intersexuais só se deu no Congresso 
Nacional de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, realizado em Brasília no ano 
de 2008. A sigla até então era GLS, Gays, Lésbicas e Simpatizantes, invisibilizando os 
demais e sendo que também travestis tinham suas identidades constantemente associadas 
à homossexualidade.
Nesse período desenvolvi laços de amizade com travestis e transexuais: Luíza, Paula, 
Charlote, Marcela e Dani, hoje todas falecidas devido a AIDS ou assassinato. Foram meu 
suporte afetivo e emocional durante os períodos mais difíceis no processo de formação 
acadêmica e de conflitos familiares, e seus conselhos constantes para que eu me mantives-
se em um emprego formal, por pior que fosse, e para que adiasse a transição para quando 
pudesse me sustentar sozinha eram sinal de grande afeto e da preocupação com nossas 
vidas extremamente vulneráveis.
Nesse mesmo período a polícia civil de São Paulo organizou a Operação Tarântula, 
que tinha como objetivo maior processar travestis e homossexuais por ultraje ao pudor 
público e crime de contágio da AIDS (Folha de S. Paulo, 19.03.87). Essa operação foi 
questionada pelos grupos que trabalham com problemas relacionados à comunidade GLS 
em São Paulo e acabou sendo suspensa, não somente pela sua ilegalidade, como também 
pelo uso da violência para realizá-la. Nesse mesmo ano, o prefeito de São Paulo, Jânio 
Quadros, orientou funcionários da limpeza pública a usar jatos d’água para afugentar tra-
vestis das ruas paulistanas ( Jornal do Brasil, 01.08.87), e mandou fechar diversas ruas nas 
travessas da Avenida Indianópolis e no centro da cidade, a fim de dificultar a circulação 
dessa população - ele não aguentava ver os “anormais” andando livremente pela cidade.
No início dos anos 90 a polícia civil fichava essa parcela da população por vadiagem 
na cidade. A justificativa do delegado João Duran Filho, da Delegacia de Repressão à 
Vadiagem, foi de que algumas pessoas tinham sido presas três vezes e não haviam conse-
guido um emprego. Eram consideradas então como vadias. Ainda segundo a proposta da 
época, era para se ter um maior controle sobre a AIDS.
Contudo, apesar desse discurso de proteger a população, o Departamento de Vigilân-
cia Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde não tinha nenhuma estatística sobre 
19 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
o número de pessoas trans que circulavam pelas ruas da cidade, nem mesmo das prostitu-
tas ou de como seria o programa de combate à AIDS.
Assisti a inúmeras agressões físicas e morais, tanto por parte de organizações gover-
namentais quanto da sociedade civil, vi incontáveis mortes, falava-se da existência de um 
serial killer, ou mesmo de um grupo de extermínio agindo na periferia da cidade. A pró-
pria polícia afirmava em relatos que eram dezenas de mortes.
Aos 24 anos fui expulsa de casa, processo comum na vida de mulheres trans. Com essa 
realidade me cercando e seguindo o conselho das amigas, permaneci adiando minha tran-
sição, ainda que vivendoem angústia e uma constante insatisfação pessoal. Você segue 
adiante buscando forças e motivos para se sentir segura, amada e respeitada e percebe que 
o que mais se aproxima a cada avanço nesse percurso é a violência nas suas mais diversas 
formas, sendo a rejeição social a mais significativa, além da eminência de ter sua integri-
dade física violada constantemente.
No início de 2014 finalizo minha transição estético-física, entendendo aqui um 
marco para o convívio e apresentação social da mulher invisibilizada pela necessidade 
de sobrevivência, pela rejeição familiar e social. Incluindo o universo LGBT, pontuo 
aqui também a importância do trabalho junto à psicoterapia, o avanço tecnológico da 
internet e o surgimento das redes sociais traçando um novo panorama a partir do uso 
das mídias digitais como relacionamento social, através do qual sujeitos buscam por 
auxílio para lidar com demandas emocionais, especialmente junto a comunidades onli-
ne, denominadas de redes.
Reconheço-me mulher desde os dois anos e meio de idade, mas pelos motivos antes 
relacionados me vi obrigada a fazer um papel de gênero (masculino) durante 30 anos. 
Apesar dos percalços e consciente da mulher que sou, me instrumentei com pesquisas 
buscando documentos que pudessem levar a um melhor entendimento e empoderamento 
sócio-político, e, embora conhecedora da Declaração Universal dos Direitos Humanos e 
das garantias de direitos por meio da Constituição Federal de 1988, foi nos Princípios de 
Yogyakarta que encontrei informações que melhor traduziram minhas expectativas em 
relação à promoção dos direitos das pessoas LGBT.
Princípios de YOGYAKARTA: um longo trajeto à dignidade
Os Princípios de Yogyakarta foram lançados em Genebra, em março de 2007, numa 
sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas - ONU, e desde então 
inúmeros Estados e uma vasta gama de organizações, grupos e indivíduos têm citado ou 
utilizado o documento. 
O Ministério de Relações Exteriores da Holanda considera os Princípios como refe-
rência para suas diretrizes de direitos humanos e cooperação internacional. No Canadá e 
no Uruguai, os Princípios foram adotados como parâmetro de monitoramento da prote-
Gênero e Diversidade Sexual • 20 
ção de direitos humanos. No Brasil, em 2008, a Secretaria Especial de Direitos Humanos 
republicou o documento para distribuição na 1ª Conferência Nacional de Lésbicas, Gays, 
Bissexuais, Travestis e Transexuais, cujo texto base também faz menção aos Princípios de 
Yogyakarta. 
No âmbito das negociações globais, imediatamente após seu lançamento, sete países 
fizeram menção aos Princípios de Yogyakarta em suas intervenções no CDH-ONU. Ao 
longo de 2007, outras referências seriam feitas, em particular nas intervenções dos relato-
res especiais.
É importante referir que a divulgação dos Princípios coincidiu no tempo com a inten-
sificação de lutas nacionais contra leis de sodomia, como no caso da Índia, e da compila-
ção de informação sistematizada pela Associação Internacional de Gays, Lésbicas, Bisse-
xuais, Transexuais e Intersexuais – ILGA (International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans 
and Intersex Association) sobre criminalização das relações entre pessoas do mesmo sexo. 
O governo francês deflagrou uma iniciativa no sentido de debater o tema da criminaliza-
ção na Assembleia Geral da ONU, da qual resultou uma declaração apoiada por 66 países, 
que foi apresentada ao plenário no dia 18 de dezembro de 2008.
A propagação dos Princípios de Yogyakarta e seu uso por organizações da sociedade 
civil também têm sido intensos e diversos. Uma rápida busca na Internet informa que a 
gama de aplicações é extensa: uma iniciativa das lésbicas irlandesas, inúmeras menções 
em sites e blogs mantidos pela comunidade transexual e intersex, lançamentos locais, tra-
duções criativas em quadrinhos e num pequeno filme de animação, algumas menções ao 
texto em ações legais contra violações ou que demandam tratamento igual perante a lei. 
Também são identificados muitos ataques ao documento por parte de setores conserva-
dores ou homofóbicos. 
Embora esses sinais sejam muito positivos, uma avaliação virtual implementada pelo 
Observatório de Sexualidade e Política em janeiro de 2009 para aferir o conhecimento e 
uso dos Princípios no Brasil teve resultados preocupantes. A pesquisa foi respondida por 
602 pessoas, mas apenas 24% delas conheciam os Princípios de Yogyakarta, um percen-
tual muito elevado de desconhecimento quando se considera que no Brasil se fez a pri-
meira tradução não oficial do documento e existe apoio governamental explícito aos Prin-
cípios de Yogyakarta. Ainda hoje, em uma avaliação pessoal junto a ativistas e instituições 
de defesa de direitos LGBT, nota-se o pouco conhecimento ou referência a este valioso 
instrumento, cuja visibilidade e divulgação pode servir de apoio à reforma legal, às dire-
trizes de política pública e também à transformação cultural.
A elaboração e a divulgação dos Princípios de Yogyakarta devem ser situadas em re-
lação ao trajeto mais longo de debates sobre sexualidade e direitos humanos nas arenas 
políticas globais, que se iniciaram em 1993 durante as preparações para a Conferência de 
População e Desenvolvimento, ocorrida no Cairo (1994), que incluiu os termos saúde 
sexual e direitos sexuais. Os direitos sexuais foram eliminados do texto final, mas renas-
21 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
ceram um ano mais tarde no parágrafo 96 da Plataforma de Ação de Pequim (1995), que 
define os direitos das mulheres no terreno da sexualidade. 
As controvérsias suscitadas pelos debates de Cairo e Pequim se intensificaram nos 
processos de revisão de cinco anos das duas conferências (1999 e 2000) e, a partir de 2001, 
se tornariam ainda mais agudas. Na primeira Sessão Especial da Assembleia Geral da 
ONU sobre AIDS (UNGASS, junho de 2001), alguns países fizeram objeção à partici-
pação de representantes de redes que atuam com direitos LGBTI e saúde numa mesa-
-redonda. Mais tarde, o mesmo aconteceu na preparação da Conferência contra o Racis-
mo, Discriminação Racial e formas correlatas de discriminação (DURBAN, 620 01). Na 
própria conferência, em setembro, o Brasil propôs a inclusão de um parágrafo sobre dis-
criminação por razão de orientação sexual, que não foi adotado. Dois anos mais tarde, o 
governo brasileiro apresentou uma proposta de resolução no mesmo sentido à Comissão 
de Direitos Humanos da ONU. Sua votação foi adiada para 2004, quando sob pressão dos 
países islâmicos a diplomacia brasileira retirou o texto. 
Contudo, nas duas negociações e nos processos de revisão de cinco anos, os conserva-
dores sempre souberam se aproveitar de impasses em relação a questões como pobreza, 
migração, cooperação internacional para impedir a gestação de consensos globais mais 
sólidos sobre direitos reprodutivos e sexuais. Além disso, entre Cairo e Pequim se deu 
uma franca aproximação entre os países islâmicos e o Vaticano (e seus seguidores), o que 
as feministas alcunharam de “Santa Aliança”. Esse deslocamento se desdobrou alguns 
anos mais tarde na emergência da Organização da Conferência Islâmica – uma associação 
relativamente frouxa entre países tão diversos quanto Paquistão, Gabão e Trinidad & 
Tobago – como um ator central da política sexual global, adicionando à fratura Norte-Sul 
uma nova tonalidade (Ocidente vs. Islã). A eleição de George Bush em 2000 carregaria 
água para o moinho do conservadorismo, pois, a despeito do 11 de Setembro e da guerra 
do Iraque, em todas as negociações globais que se sucederam os EUA estariam abertos ou 
veladamente alinhados com a “Santa Aliança”. 
A iniciativa de Yogyakarta foi motivada pelo impasse e regressão observados nas ne-
gociações da Comissão de Direitos Humanos entre 2003 e 2005. Como lembram várias 
autoras e autores, um efeito inequívoco da resolução brasileira foi a intensificação, amplia-
ção e diversificação do ativismo LGBTI e feminista pelas negociações relativas aos direi-
toshumanos, especialmente no contexto da Comissão. Em 2005, a Assembleia Geral da 
ONU aprovou a criação do Conselho de Direitos Humanos (CHD-ONU), para substi-
tuir a Comissão, com um status equivalente ao do Conselho Econômico e Social (ECO-
SOC) e ao do Conselho de Segurança (CS-ONU). Desde então, as redes feministas e 
LGBTI, assim como organizações internacionais de direitos humanos, vêm sustentando 
e ampliando a pauta que articula direitos humanos e sexualidade nessa nova instância. 
Adicionalmente, os países que historicamente se haviam posicionado a favor da plu-
Gênero e Diversidade Sexual • 22 
ralidade sexual tampouco abandonaram a agenda após o episódio da resolução brasileira. 
Em 2004, nos últimos momentos da Comissão de Direitos Humanos, a Nova Zelândia 
apresentou uma declaração sobre direitos humanos e orientação sexual que foi assinada 
por 31 países. Em 2006, uma iniciativa similar mobilizada pela Noruega foi apoiada por 
46 Estados membros do recém-estabelecido CDH-ONU. Esforços equivalentes se de-
senrolavam no Sistema Interamericano de Direitos Humanos, para onde se deslocaram 
os investimentos da diplomacia brasileira, resultando na “Resolução sobre a não discrimi-
nação das pessoas por razão de sua orientação sexual ou identidade de gênero”, adotada 
pela Assembleia da Organização dos Estados Americanos em Medellín, em junho de 
2008 (MULABI, 2008a). 
Em 2003, a canadense Louise Arbour foi nomeada Alta Comissária de Direitos Hu-
manos e, desde o primeiro momento, se mostrou aberta e comprometida com a aplicação 
dos direitos humanos a questões de sexualidade. Num fórum LGBTI organizado pela 
Arc International, em Genebra (2006), afirmou que faltava uma moldura normativa me-
lhor articulada para guiar a aplicação da lei de direitos humanos a situações de violação 
por motivo de orientação sexual ou identidade de gênero (O’FLAHERTY; FISHER, 
2008; THORESEN, 2009). 
Outra vertente de inspiração fundamental para a elaboração dos Princípios foram as 
recomendações e resoluções emitidas por especialistas vinculados aos comitês de vigilân-
cia e relatores especiais de direitos humanos. Isso porque, entre outras razões, vários des-
ses especialistas, desde algum tempo, haviam identificado a necessidade de definir um 
vocabulário comum para nomear as identidades sexuais, pois, se alguns comitês e relatores 
utilizavam predominantemente a terminologia orientação sexual e identidade de gênero, 
em outros casos prevalecia a nomenclatura LGBTI ou ainda preferência sexual ou mino-
rias sexuais (O’FLAHERTY; FISHER, 2008; SANDERS, 2008). 
A partir de 2005, uma coalizão de organizações de direitos LGBTI e de direitos hu-
manos – facilitada pelo Serviço Internacional de Direitos Humanos e pela Comissão 
Internacional de Juristas – formulou um projeto para identificar e divulgar definições da 
lei internacional de direitos humanos de modo que a mesma fosse aplicada de maneira 
clara às situações de violação por razões de orientação sexual e identidade de gênero. Um 
dos objetivos estratégicos desse esforço foi tornar explícitas as obrigações dos “Estados” 
em termos de implementação de normas gerais por eles aceitas ou ratificadas. A pesquisa 
documental realizada pelo professor Michael O’Flaherty resultou num esboço de docu-
mento que foi compartilhado com um grupo de 29 especialistas vindos de 25 países dife-
rentes, muitos deles contando com amplo reconhecimento e legitimidade no sistema in-
ternacional de direitos humanos. Em novembro de 2006, vários desses especialistas se 
reuniram na Universidade da Gadja Madha na Indonésia para finalização dos Princípios. 
Os Princípios de Yogyakarta não são uma declaração de aspirações ou carta de reivin-
dicação de direitos. O documento compila e reinterpreta definições de direitos humanos 
23 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
fundamentais consagradas em tratados, convenções, resoluções e outros textos internacio-
nais sobre os direitos humanos, no sentido de aplicá-los a situações de discriminação, 
estigma e violência experimentadas por pessoas e grupos em razão de sua orientação se-
xual e identidade de gênero. A ideia central é que não precisamos produzir definições 
específicas para coibir violações e proteger os direitos humanos dessas pessoas ou grupos. 
Basta aplicar os princípios gerais da lei internacional existente que já foi debatida, adota-
da e ratificada pela maioria dos países membros da ONU. Nesse sentido, o conteúdo dos 
Princípios se distancia da tendência contemporânea de nomeação e identificação de su-
jeitos ou identidades nas demandas por direitos, optando por uma perspectiva “constitu-
cionalista” ou, se quisermos, de universalismo situado.
O processo de elaboração envolveu um conjunto muito diverso e plural de grupos e 
instituições, ampliando a clareza sobre terminologias e normas numa perspectiva que 
não é exclusivamente legalista. Ao reiterar definições internacionais consagradas, como 
é o caso da Declaração Universal de Direitos Humanos e convenções posteriores, os 
Princípios de Yogyakarta “lembram” aos Estados seus compromissos, mas também alar-
gam o conhecimento sobre esses textos na comunidade envolvida com a luta pelos direi-
tos sexuais. Porém, como não se trata de um “documento estatal” negociado, seus conteú-
dos permanecem abertos à deliberação democrática: podem e devem ser modificados, 
retraduzidos e reinterpretados sempre, desde que a espinha dorsal do documento não 
seja comprometida.
Essa exterioridade e abertura dos Princípios de Yogyakarta deve ser valorizada, pois 
permite que seus conteúdos sejam debatidos, contextualizados, ampliados e ajustados, 
inclusive para superar lacunas e limites, os quais decorrem, exatamente, de vieses que 
impregnam os documentos consagrados de direitos humanos, já que estes constituem a 
referência normativa central, que não é definida pela pessoa a quem se aplica, mas pela 
família ou pelos médicos. As pessoas diretamente afetadas por essas intervenções arbitrá-
rias devem ter a oportunidade de reinterpretar essa cláusula para dirimir abusos.
Violência à população LGBT: subnotificações, apagamentos e desigualdade
Entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes no país, segun-
do pesquisa da organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU), 
rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero.
O Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil – e nota-se já aqui a invisibiliza-
ção das demais orientações e identidades de gênero – publicado em 2012 pela Secretaria 
de Direitos Humanos apontou o recebimento, pelo Disque 100, de 3.084 denúncias de 
violações de direitos relacionadas à população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis 
e transgêneros), envolvendo 4.851 vítimas. Em relação ao ano anterior, houve um aumen-
to de 166% no número de denúncias – em 2011, foram contabilizadas 1.159 denúncias 
Gênero e Diversidade Sexual • 24 
envolvendo 1.713 vítimas. Segundo o relatório, esses números apontam para um grave 
quadro de violência LGBTfóbica no Brasil: foram reportadas 27,34 violações por dia, 
durante o ano de 2012, e 13 pessoas foram diariamente vitimadas por essa violência.
As violências psicológicas foram as mais reportadas, com 83,2% do total, seguidas de 
discriminação, com 74,01%, e violências físicas, com 32,68%. Entre as violências físicas, 
as lesões corporais foram as mais reportadas, com 59,35%, seguidas por maus-tratos, com 
33,54%. As tentativas de homicídio totalizaram 3,1%, com 41 ocorrências, enquanto as-
sassinatos contabilizaram 1,44% das denúncias, com 19 ocorrências.
Além dos dados coletados no Disque Direitos Humanos (Disque 100), o relatório 
também incluiu informações sobre violações publicadas em veículos de comunicação: na 
mídia 511 violações contra a população LGBT, e entre estas 310 homicídios. De acordo 
com o documento, as travestis foram as maiores vítimas de violência, sendo 51,68% do 
total; seguidas por gays (36,79%), lésbicas(9,78%), heterossexuais e bissexuais (1,17% e 
0,39% respectivamente).
Importante observar que a invisibilização e o desconhecimento das transexuais espe-
lha-se também na subnotificação nos meios midiáticos, onde não se encontraram notícias 
relacionadas a essa parcela da população, conforme o relatório. Além disso, o relatório 
mostra que, em 2012, 71% das vítimas eram do sexo masculino e 20% do sexo feminino, 
não fazendo aqui distinção se era identidade auto reconhecida ou o registro civil docu-
mentado, e ainda de acordo com o documento, 54,19% das vítimas eram do sexo mascu-
lino e 40% eram travestis. Algumas vítimas não declararam sexo.
Na imprensa, a violência física contra a população LGBT é a mais relatada, com 
74,56%; seguida pelas discriminações (8,02%), violências psicológicas (7,63%) e violência 
sexual (3,72%).
Entre as violências físicas, os homicídios são os mais noticiados, com 74,54%, segui-
dos por lesões corporais (10,76%), latrocínios (6,82%) e tentativas de homicídio (7,87%).
Percebe-se aqui que os casos de violência contra essa população são subnotificados, 
devido à precariedade social em que grande parte das mulheres trans e travestis vivem; 
muitas não têm acesso à informação e aos meios de comunicação, o que torna pouco reais 
os dados sobre essa violência velada. Além do estigma da inferioridade humana, mulheres 
trans também sofrem com o machismo, pois, além da violência física, elas são alvo de 
violência psicológica constantemente, levando-se em consideração a ausência de políticas 
afirmativas e da aplicação, por exemplo, do nome social, o que garante reconhecimento da 
identidade de gênero. O nome social é uma importante bandeira dos movimentos sociais 
em prol da garantia e ampliação dos direitos humanos. Ele assegura a identidade de gê-
nero, além de combater a discriminação e auxiliar na construção de uma cultura de res-
peito, diversidade, inclusão social e democracia. Significa oportunidade para que travestis 
e transexuais superem o processo de exclusão que hoje vivenciam no Brasil. Medida im-
25 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
portante por significar o reconhecimento da cidadania das travestis e transexuais e ho-
mens trans, quando decretada por parte do governo federal, foi comemorada por aqueles 
e aquelas que por ela lutaram.
Hoje existe a possibilidade de amparo a mulheres trans e travestis pela Lei Maria da 
Penha (lei 11.340 de 7 de agosto de 2006), o que caracteriza um passo importante na 
conquista da igualdade de condições e de direitos, já que essa lei, por si só, já garante o 
respeito ao gênero feminino. Só que em relação à aplicação da mesma, o profissional que 
está lá, o delegado, a delegada, o juiz, pode não ter a interpretação de reconhecer o gênero 
feminino. Ainda é preciso avançar na garantia do entendimento, e nesse caso poderiam 
ser úteis os Princípios de Yogyakarta, pois ainda não existe um instrumento no Brasil que 
criminalize ou equipare a LGBTfobia ao crime de ódio, como a lei 7.716, que define os 
crimes resultantes de preconceito racial. A legislação determina a pena de reclusão a quem 
tenha cometido atos de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou pro-
cedência nacional. Através de sanção, a lei regulamentou o trecho da Constituição Federal 
que torna inafiançável e imprescritível o crime de racismo, ao declarar que todos são 
iguais sem discriminação de qualquer natureza.
O Brasil ainda precisa avançar em direção à Argentina, por exemplo, que tem uma 
legislação mais avançada e garante a transexuais e transgêneros facilidades na obtenção e 
troca de documentos. No Brasil, para obter uma identidade com nome e gênero com o 
qual se identificam, transexuais precisam recorrer à Justiça, passar por um processo tran-
sexualizador e esperar alguns anos para obter decisão favorável, embora exista uma possi-
bilidade conhecida como Lei João W. Nery, ou Projeto de Lei (PL) 5.002/2013, que 
dispõe sobre a identidade de gênero e afirma o direito ao seu reconhecimento, modifican-
do os instrumentos que creditem sua identidade pessoal a respeito dos prenomes, da 
imagem e do sexo com que é registrada neles – sendo essas mudanças gratuitas. O PL 
promove pontos importantes como: a autoidentificação da identidade de gênero, a partir 
de uma relação com a interioridade dos sujeitos, gerada pelo deslocamento do poder de 
dizer/definir o sexo, do especialista para o indivíduo; e a não necessidade de adequação 
entre o binômio gênero-sexo (não necessidade de cirurgia de mudança de sexo), rompen-
do a obrigatoriedade da relação entre sexo-gênero-sexualidade. 
Nos Princípios de Yogyakarta, o texto desestabiliza nomenclaturas calcadas na anato-
mia e conduta (ou comportamento), em especial a lógica binária. Mas, por outro lado, fixa 
as categorias “orientação sexual e identidade de gênero” que, como se sabe, também têm 
origem no vocabulário nosológico. No caso específico da orientação sexual e identidade 
de gênero, a fixação de nomenclaturas tem uma vinculação estreita com a questão da 
“visibilidade”, seja como efeito do poder disciplinar, seja como pauta dos movimentos 
LGBTI. Não se trata, aqui, de sugerir que as violações relacionadas com a orientação se-
xual e identidade de gênero sejam silenciadas, mas sim de reconhecer que esse desequilí-
Gênero e Diversidade Sexual • 26 
brio é problemático e, sobretudo, desenhar estratégias interseccionais que articulem direi-
tos sexuais com os direitos econômicos e sociais, direitos civis e políticos.
Diante dos poucos avanços das políticas públicas LGBT, muitas vezes barganhadas 
em favorecimento de coligações políticas excludentes como temos visto nos últimos anos, 
é preciso também alertar para o risco de retrocesso representado pela força da bancada 
conservadora no legislativo brasileiro que, além de querer acabar com os avanços, promo-
ve preconceitos, além de fortalecer estigmas e discriminações.
Em face disso, é preciso pontuar a importância da consolidação do Observatório 
LGBT do Grande ABC - Grupo de Análise e Pesquisa da Conjuntura e Resistência da 
Diversidade Sexual e de Gênero, instrumento de mobilização da sociedade civil, comuni-
dades de base e também da participação de ativistas e acadêmicos para evitar retrocessos. 
Nesta etapa da nossa história, o Observatório reconhece que o movimento LGBT é ex-
tremamente transformador, pois defende o direito de ser, o direito de expressar e o direito 
de amar numa sociedade em que o ser humano tem sido altamente coisificado e em que 
a violência é naturalizada. A defesa dos direitos dos setores historicamente marginaliza-
dos da população é hoje parte de uma luta pelo respeito à diversidade humana, e ao mes-
mo tempo pela manutenção da dignidade.
Espera-se aqui a disponibilização a toda a sociedade de informações acerca das ações 
deste Observatório, assim como permanente diálogo construtivo, voltado ao enfrenta-
mento das desigualdades de gênero e à garantia dos direitos da população LGBT. Outro 
objetivo é possibilitar que os diversos segmentos da sociedade civil, em seus diversos 
instrumentos, acompanhem as produções, assim como venham a colaborar na formulação 
de novas políticas públicas e/ou aperfeiçoamento das já existentes.
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Diversidade sexual e de gênero e violência: situando 
reflexões e pesquisas
Regina Facchini1
Sobre o corpo de José Renato dos Santos, os peritos contaram 26 facadas. Sobre o de 
Sandro Almeida Lúcio, 30. Jurandir Leite foi estrangulado. Seu cadáver trazia marcas de 
luta corporal. Laís Martins sofreu violências sexuais antes de ser assassinada. Seu rosto foi 
completamente desfigurado por pedradas. Severino Antônio, esfaqueado e estuprado antes 
da morte, levou um golpe de faca peixeira no ânus. Djalma Matos morreu por espanca-
mento. Teve a face deformada. Carlos de Lima recebeu diversos tiros, antes ou depois da 
morte. A cabeça de Jeová Albino foi esmagada por uma pedra; disparos de arma de fogo, 
contudo, causaram o homicídio. Assassinado, Ronaldo Carvalho teve seu pênis decepado.
Essas imagens de brutalidade atravessam os relatórios, dos anos de 2011 e 2012, sobre 
“crimes relacionados ao ódio contra homossexuais no Estado da Paraíba”. Formulados pelo 
Movimento do Espírito Lilás, uma das mais importantes organizações do Movimento de 
Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais daquele estado, tais relatórios compõem 
o esforço anual do Movimento LGBT brasileiro de apresentar os números de seus mortos. 
Por meio de consultas à imprensa ou a delegacias de polícia e órgãos governamentais, in-
tegrantes do Movimento contabilizam aquilo que chamam de “crimes de ódio”. No Brasil, 
esses homicídios somariam 338 no ano de 2012 e 266 em 2011. Na Paraíba, seriam 27 e 
21, respectivamente. (EFREM FILHO, 2016: 313) 
Com essas palavras, Roberto Efrem Filho inicia um artigo dedicado à reflexão sobre 
os conflitos e materializações que constituem as mortes de LGBTs e sua reivindicação por 
parte do movimento social como crimes de ódio. A exposição de tais imagens de brutalida-
de, por mais agressivas ou excessivas que possam parecer, evocam as imagens apresentadas 
pelo movimento LGBT e os sentimentos do pesquisador ao ser defrontado com elas. 
Remete também a esforços pioneiros, como os do professor e ativista Luiz Mott (1997, 
2000), na direção de fazer reconhecer a existência da violência em razão da sexualidade, 
1 Doutora em Ciências Sociais, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, pro-
fessora do Programa de Doutorado em Ciências Sociais, Universidade Estadual de Cam-
pinas (Unicamp).
29 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
tendo como fonte a compilação dos casos de violência letal noticiados pela imprensa, e 
sua importância na construção de iniciativas de combate ao que se refere como homofo-
bia, lesbofobia, bifobia, transfobia ou LGBTfobia no âmbito da legislação e das políticas 
públicas brasileiras.
Evoco essa referência para iniciar esta contribuição por acreditar que os elementos 
colocados no artigo de Efrem Filho nos ajudam a pensar não apenas a violência contra 
LGBTs e sua reivindicação pelo movimento, mas também o lugar de uma proposta como 
a de um Observatório LGBT numa instituição como a Universidade Federal do ABC. 
Este texto procura oferecer contribuições à reflexão sobre violência contra LGBTs no 
contexto da constituição de um observatório sediado em universidade, em diálogo com 
militantes e gestores locais, situando e reforçando a importância dessas parcerias para o 
enfrentamento à violência e à precariedade que marcam a vida dos LGBTs no contexto 
brasileiro contemporâneo.
Segundo argumenta Efrem Filho, o movimento e esferas do Estado manejam as ma-
terialidades dos crimes e, consequentemente, as materialidades dos corpos, por meio de 
uma disputa em torno da (des)legitimação das vítimas travada em meio a relações assimé-
tricas de gênero e sexualidade.
O investimento político, por parte do Movimento LGBT, nos contornos dessas bru-
talidades se contrapõe, não raramente, a um movimento inicial, promovido por setores 
estatais, de descaracterização dos laços entre a violência e a sexualidade, atribuindo a 
motivação do crime à intencionalidade de cometer crime contra o patrimônio ou ao en-
volvimento com prostituição ou atividades ilícitas. 
Porum lado, temos desigualdades relacionadas a gênero e à sexualidade fortemente 
arraigadas na nossa sociedade, das quais decorrem situações violentas, letais ou não, às 
quais estão submetidos gays, lésbicas, bissexuais, travestis, mulheres transexuais e homens 
trans. Elas atravessam tanto a vida das pessoas representadas pelo movimento LGBT, 
quanto a dos próprios ativistas, que também relatam experiências pessoais consideradas 
violentas seja nas escolas, na vizinhança, no trabalho ou nas esquinas. 
Por parte de ativistas, é necessário fazer reconhecer tais desigualdades e seus efeitos na 
produção da violência, na medida em que o reconhecimento de LGBTs como sujeitos 
de diretos é precário, configurando suas vidas como “vidas menos choráveis” ou “menos 
dignas de luto” (BUTLER, 2015). Tornar visível a violência, explicitar sua relação com 
as desigualdades de gênero e de sexualidade e disputar a materialidade, muitas vezes 
negada, dessas violações e dos corpos brutalizados está intimamente ligado, segundo 
Efrem Filho (2016), a conferir sentido à própria a luta e às estratégias e pautas políticas 
do próprio movimento.
Por outro lado, há a precariedade mesma do reconhecimento social e político de 
LGBTs como sujeitos de direitos e diferentes graus em que agentes estatais e operadores 
Gênero e Diversidade Sexual • 30 
do direito são permeáveis a demandas do movimento social. No contexto descrito por 
Efrem Filho (2016), a materialidade dos crimes e dos corpos brutalizados é disputada e 
as vítimas tendem a ser deslegitimadas, num processo por meio do qual a própria mate-
rialidade do crime, por vezes, aos poucos se esvai no desenrolar do processo judicial. 
Sérgio Carrara e Adriana Vianna (2004), ao analisarem processos envolvendo violên-
cia letal contra homossexuais nos tribunais cariocas dos anos 1980, indicam que mesmo 
quando a vítima ou a materialidade e o contexto do crime não passam por um processo 
de desqualificação, a vítima é muitas vezes reconfigurada como vítima de seus próprios 
desejos. Dos autos emergem imagens contrastantes, mas também tensamente conectadas 
e que podem ser disputadas: a de homossexuais solitários, passivos e melancólicos, cuja 
necessidade de satisfazer desejos tomados como “anomalia” os leva a situações em que são 
roubados e/ou assassinados, e a de homossexuais promíscuos, que podem ser ativos e 
passivos, ou mesmo bissexuais, vítimas de certo tipo de adicção sexual. Imaginários mo-
rais se misturam, assim, a definições de manuais da sexologia da virada do século XIX 
para o XX, propagadas pela criminologia no século XX. Articulam-se estereótipos marca-
dos por diferenciações sociais de sexualidade, gênero e classe – o “ativo” mais pobre é to-
mado como potencial criminoso em relação a um “passivo”, que pode ser mais rico, assim 
como mais velho e, por vezes, mais branco.
Desse modo, saberes científicos, convenções sociais com forte apelo moral e relações 
sociais de poder se articulam profundamente quando se trata da violência contra LGBTs. 
Nesse contexto, a explicitação das violências e, sobretudo, das mortes conforma parte das 
estratégias políticas adotadas pelo movimento LGBT, assim como a disputa – no âmbito 
político, mas também no âmbito acadêmico – entre referenciais teóricos que possibilitem 
um olhar mais sensível e acurado para as desigualdades que atravessam situações de vio-
lência. É dessa necessidade que surgiram os estudos sobre vitimização e sobre discrimina-
ção, bem como articulações entre ativismo e produção de conhecimento em âmbito aca-
dêmico, como a que perpassa a proposta da constituição de um observatório em âmbito 
universitário. Ao longo do texto, procuro trazer contribuições, retomando algumas refe-
rências teóricas e de pesquisa empírica, que possam contribuir para interessados na temá-
tica da violência contra LGBTs e para o trabalho de constituição de um observatório 
voltado à promoção de direitos de LGBTs, sobretudo no que diz respeito a pesquisas no 
tema da violência.
Violência, diferenças e desigualdades 
A temática da violência perpassa os processos judiciais analisados por Sérgio Carrara 
e Adriana Vianna (2004), os processos e entrevistas analisados por Roberto Efrem Filho 
(2016), as narrativas que trago no próximo item a partir de pesquisas que realizei, os dados 
de várias outras pesquisas, os relatos feitos ao Disque 100, as páginas de noticiário que 
31 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
estampam casos de vários Kaiques, Luanas e Lauras2, as fotos de corpos brutalizados que 
circulam na mídia nas redes sociais e a denúncia de entidades ativistas de que a expecta-
tiva média de vida de pessoas trans no Brasil não ultrapassa a casa da terceira década. 
Trata-se, segundo nossa perspectiva, de situações cuja ocorrência está diretamente rela-
cionada a formas de diferenciação social que se constituem a partir de relações sociais de 
poder e que podem situacionalmente operar como diferenças, mas também como assime-
trias e hierarquias, em dado contexto histórico, social e cultural (PISCITELLI, 2008; 
BRAH, 2006).
Embora algumas das práticas aqui referidas sejam reconhecidas como crime, ainda 
que não haja legislação de âmbito nacional que criminalize a homo, lesbo ou transfobia, é 
importante demarcar a diferenciação entre violência e crime, para o que recorremos à 
formulação de Guita Debert e Maria Filomena Gregori:
Crime implica a tipificação de abusos, a definição das circunstâncias envolvidas nos 
conflitos e a resolução destes no plano jurídico. Violência, termo aberto aos contenciosos 
teóricos e às disputas de significado, implica o reconhecimento social (não apenas legal) de 
que certos atos constituem abuso, o que exige decifrar dinâmicas conflitivas que supõem 
processos interativos atravessados por posições de poder desiguais entre os envolvidos. As 
violências evocam uma dimensão relacional que, segundo Foucault, estão longe de serem 
resolvidas pela esfera jurídica, pois tal instância, mesmo tendo como objetivo a justiça para 
todos, cria, produz e reproduz desigualdades. (DEBERT; GREGORI, 2008, p.176) 
As autoras focam o olhar nas relações sociais de poder que posicionam os sujeitos de 
modo diferenciado e que ao mesmo tempo permitem o reconhecimento social de deter-
minados atos como abuso. Além disso, na perspectiva adotada, o que chamamos de vio-
lência não pode ser entendido no registro da excepcionalidade ou como resultado da 
quebra da ordem social ou do abuso da lei, embora em certos casos possa ser enquadrado 
como tal. A violência é tomada como constitutiva da própria normalização e normatiza-
ção das relações sociais, de modo que a atribuição do lugar de “outro” da norma circuns-
2 As referências aludem a três casos de violência letal que mobilizaram atenção nos últimos 
anos em São Paulo: Kaique Augusto Batista dos Santos, adolescente de 17 anos, encontra-
do morto em janeiro de 2014; Luana Barbosa dos Reis Santos, lésbica negra de 34 anos, 
que foi espancada e ameaçada de morte por três policiais militares nas proximidades de sua 
casa e na presença de seu filho de 11 anos, falecendo dias depois em decorrência das lesões 
corporais; Laura Vermont, travesti de 18 anos, que faleceu em junho de 2015 em decorrên-
cia de situação que envolveu lesões corporais, inclusive esfaqueamento e um tiro no braço, 
tendo sido acusados um grupo de rapazes e policiais. Nos três casos, maior visibilidade foi 
alcançada pela atuação das famílias na denúncia da violência, que em especial nos dois 
últimos casos se articulou à atuação do movimento social. 
Gênero e Diversidade Sexual • 32 
creve os contornos do que é tido como bom e legítimo, e a discriminação, humilhações e 
agressões aparecem como modo de afirmar e reforçar normatividades sociais.
Para poder refletir sobre a violência relacionada à diversidade sexual e de gênero, é 
preciso que o sexo – tanto em relação ao “sexo que se tem” quanto ao “sexo que se faz” – 
não esteja alocado no lugar do “natural”e a-histórico, do anterior à cultura, que não pode-
ria – ou caberia – ser apreendido socialmente. É preciso considerar que há toda uma 
classificação e organização social do mundo a partir de diferenças percebidas entre os 
sexos (SCOTT, 1995) e que tais operações de classificação e de hierarquização consti-
tuem um modo de dar inteligibilidade ao mundo. Que tal modo de dar inteligibilidade ao 
mundo, que chamamos de gênero, constitui um aparato de poder que produz o nosso 
entendimento sobre os corpos – sobre o que estabeleceria a diferença entre os sexos, in-
vestindo em explicações como hormônios ou cromossomos –, de modo a assentar sobre 
tais aspectos uma relação de continuidade entre sexo, gênero e desejo.
Tal relação nada tem de “natural” e apenas ganha estabilidade ao longo do tempo a 
partir de atos de repetição e reiteração de normas sociais (BUTLER, 2003). Note-se 
que, nessa normatividade, os sujeitos são designados como masculinos ou femininos a 
partir de características corporais que denotam o dimorfismo sexual, não havendo lugar 
para o desacordo entre o sexo designado ao nascer e a identidade de gênero do sujeito. 
E que, para além disso, sexos-gêneros complementares determinam o esperado em re-
lação ao desejo, que deve voltar-se para o “sexo oposto”. Essa é, em linhas gerais, a 
normatividade social que se impõe inclusive de modos que evocam nos sujeitos sentidos 
de abuso e violação e que efetivamente violam direitos à vida, à integridade física e 
mental, ao pleno desenvolvimento de suas potencialidades e acesso a bens materiais e 
imateriais necessários a esse desenvolvimento, como dignidade, saúde, educação, traba-
lho, habitação, entre outros.
Lançar um olhar analítico sobre a sexualidade e a violência a ela relacionada deman-
da, também, que a sexualidade seja tomada como objeto possível de ser analisado do 
mesmo modo como fazemos com outras áreas da conduta humana, como a produção e 
consumo de bens, a culinária, a moda, a comunicação, a educação. Não há nada de es-
sencial ou natural aí. É preciso reconhecer o modo pelo qual a sexualidade é formulada 
nas sociedades ocidentais modernas, e também na nossa sociedade brasileira, e como 
isso nos faz concebê-la como algo “natural”, “íntimo” e do âmbito do “privado”. Mas 
também, como temos visto muito mais claramente nos últimos anos a partir da ação do 
conservadorismo político que se ampara em argumentos religiosos, como ela se torna 
matéria de controle social e de disputa política (FOUCAULT, 1977; RUBIN, 1992; 
WEEKS, 1999). Assim como os feminismos nos ensinam há décadas, para refletir sobre 
violência é preciso entender que não há nada de íntimo e pessoal em gênero e sexuali-
dade que não seja profundamente político.
33 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Ao tomarmos as homossexualidades como exemplo, é possível notar processos de 
classificação e de hierarquização que estabelecem um padrão “normal” de sexualidade, à 
custa da estigmatização, da patologização, da degradação e mesmo da criminalização da 
diversidade sexual. Daí a afirmação de que a violência não é pensada aqui no registro da 
excepcionalidade: a produção do “normal” implica a produção e o controle – muitas vezes 
classificável como violento – de seus “outros”.
A perspectiva que se delineou a partir das ocasiões em que pude pesquisar sobre a 
temática também indica que é preciso considerar que as desigualdades relacionadas à se-
xualidade se articulam de modo complexo com outros modos de diferenciação social, 
como gênero, raça, classe, origem ou classe social. Adianto, porém, que não é possível 
pensar tal articulação de marcadores de modo mecânico, como se sempre houvesse um 
efeito de “soma de opressões” que torna “mais vulneráveis” aqueles que somam mais aspec-
tos estigmatizados ou desvalorizados.
Um primeiro ponto a ressaltar é que as diferenciações que emergem na vida social 
podem operar tanto como formas de diferenciação mais horizontais quanto como hierar-
quias/desigualdades (BRAH, 2006; PISCITELLI, 2008). As várias articulações possíveis 
entre hierarquias sociais fazem com que categorias de diferenciação de diversas ordens se 
entrecruzem, constituindo-se mutuamente, explicitando dinâmicas que só podem ser en-
tendidas de modo contextualizado (BRAH, 2006). 
É pressuposto desta reflexão, também, que hierarquias ou desigualdades sociais não 
formam um sistema absoluto. Há uma luta constante em torno do que é tido como moral, 
saudável, legítimo e legal em termos de sexualidade e de gênero. Nessa luta, vários movi-
mentos sociais, como o movimento feminista, o movimento negro e o movimento LGBT, 
têm sido importantes protagonistas.
Ao longo das últimas décadas, com o fortalecimento de estudos de gênero e sexuali-
dade no campo científico brasileiro, têm surgido ocasiões de colaboração entre atores 
desse campo – pesquisadores, núcleos, centros de pesquisa – e ativistas e gestores que 
atuam em favor da promoção dos direitos de LGBTs. É bem verdade que tais iniciativas 
precisam lidar com desconfianças e ambiguidades que marcam a relação entre LGBTs e 
ciência, explicitados na própria forma de situar indistintamente atores e instituições como 
“a academia”, numa reação aos usos que historicamente têm sido feitos de discursos e 
conhecimentos científicos na direção da patologização da diversidade sexual e de gênero 
(FACCHINI, DANILIAUSKAS, PILON, 2013).
Pesquisas sobre violência contra LGBTs
Estudos sobre violência com base na (homo)sexualidade ou expressão de gênero têm 
ganhado mais visibilidade e se consolidado na última década no Brasil, integrando um 
processo de crescimento e diversificação do campo de estudos sobre sexualidade – ou na 
Gênero e Diversidade Sexual • 34 
articulação entre gênero e sexualidade (RAMOS, 2005; FACCHINI; DANILIAUS-
KAS; PILON, 2013). É preciso, contudo, notar que abordagens que procuram adensar o 
conhecimento sobre as dinâmicas da violência atingindo pessoas situadas no espectro do 
que se convencionou chamar de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, mulheres 
transexuais e homens trans) são ainda um tanto recentes. 
Refiro-me a um conjunto de reflexões e pesquisas que pode ser indicado a partir das 
categorias homofobia, lesbofobia, transfobia, bifobia ou LGBTfobia, que têm se consoli-
dado no vocabulário político no Brasil com vistas a nomear uma variedade de expressões 
da violência em razão de sexualidade e/ou de performance de gênero. Considero, ainda, 
que tais categorias têm sido coproduzidas por ativistas e pesquisadores a partir de densas 
e tensas relações entre ativismo e “academia” (FACCHINI; DANILIAUSKAS; PILON, 
2013; CARRARA, 2016; FACCHINI, 2016).
Embora tais pesquisas no Brasil ainda sejam escassas, há pelo menos duas principais 
frentes de estudos. Por um lado, temos pesquisas como as realizadas com jovens, estudan-
tes ou população em geral em diferentes localidades brasileiras e que procuram investigar 
a presença de preconceitos ou condutas discriminatórias em relação às homossexualida-
des ou a LGBTs.
 Um exemplo dessa primeira frente de estudos é a pesquisa realizada pela Fundação 
Perseu Abramo (VENTURI e BOKANY, 2011), uma das mais amplas e recentes, com 
2.014 entrevistados maiores de 16 anos em 150 municípios brasileiros, no ano de 2008. 
Nessa pesquisa, 92% dos respondentes identificavam a existência de discriminação contra 
LGBTs, sendo que 32% admitiam ter preconceito contra LGBTs. Esse percentual de 
admissão de preconceito foi contrastado com os 4% obtidos em pesquisas similares que 
enfocavam o preconceito racial ou contra idosos, e tomado como indicativo do alto grau 
de aceitação social do preconceito contra LGBTs. Além da legitimidade social que marca 
a discriminação e a violência contra LGBTs, a pesquisa estabelece relação entre tal legiti-
midade e convenções sociais acerca do caráter “natural” da heterossexualidade, que apon-
tam para a homossexualidade como “escolha individual” – que deve ser mantida no âmbi-
to do privado.A força de tais convenções se expressa na majoritária compreensão de que 
dificuldades decorrentes dessa “escolha” (a violência é encarada nesse sentido, de conse-
quência de más escolhas individuais) devem ser manejadas pelo próprio sujeito (70% dos 
entrevistados nessa pesquisa acreditavam que “a discriminação contra homossexuais, bis-
sexuais, travestis e transexuais é uma questão que as pessoas devem resolver entre elas” ao 
invés de ser objeto de políticas governamentais).
Outra frente de estudos procura explorar a dinâmica da homofobia a partir de entre-
vistas com potenciais vítimas de discriminação ou agressões. Esse é o caso das pesquisas 
realizadas pelo Centro Latino Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM/
IMS/UERJ), Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC/UCAM) e seus 
parceiros em concentrações de LGBTs por ocasião de Paradas do Orgulho em diversas 
35 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
capitais brasileiras. Tais pesquisas têm encontrado percentuais bastante consistentes de 
relatos de discriminação e de agressões entre LGBTs participantes desses eventos (CAR-
RARA et al, 2004, 2005, 2006, 2007): entre 61% e 65% dos LGBTs entrevistados relatam 
ao menos um episódio de discriminação com base na sexualidade ao longo da vida e entre 
56% e 72%, ao menos um episódio de agressão.
Alguns dados dessas pesquisas colaboram para a compreensão da dinâmica da discri-
minação que toma por base a sexualidade ou os atributos de gênero, considerando dife-
rentes tipos de ocorrência e diferentes modos de manejo das situações. De modo geral, 
travestis e transexuais relatam situações de discriminação e agressão em percentuais sig-
nificativamente mais altos. Em comparação com as mulheres cisgênero, homens homo ou 
bissexuais tendem a relatar com mais frequência situações de discriminação em contextos 
“impessoais”, como em estabelecimentos comerciais ou locais de lazer, em delegacias, ao 
tentar uma vaga de emprego ou buscar atendimento no sistema de saúde. No entanto, é 
no convívio familiar e nas relações interpessoais mais próximas e cotidianas que as mulhe-
res homossexuais relataram mais experiências de discriminação do que os homens.
Além de indicar a não excepcionalidade da violência contra LGBTs, os resultados 
indicam percentuais de relato e busca de apoio consistentemente baixos. Na pesquisa 
realizada na Parada paulistana de 2005, 40% dos que disseram ter sofrido ao menos uma 
agressão motivada pela sexualidade ao longo da vida não relataram aquela que considera-
ram a agressão mais marcante a ninguém. Entre os que relataram, a maior parte o fez a 
amigos ou familiares, sendo que menos de 20% relataram à polícia ou a grupos ativistas. 
Contudo, assim como a frequência das modalidades de agressão e discriminação investi-
gadas varia de acordo com a articulação entre diversos marcadores sociais de diferença 
(sexualidade, gênero, classe, raça e geração), o relato da agressão sofrida também varia, de 
modo que mulheres, em geral, relatam menos que homens; o percentual de relato decres-
ce conforme aumenta o nível de escolaridade; é menor, também, entre brancos e entre os 
que têm menos de 22 anos ou mais de 40 (FACCHINI et al, 2007).
A (não) denúncia e os sentidos e limites em torno da violência entre LGBTs
Inspirado pelos estudos de vitimização conduzidos em Paradas, há um esforço de re-
finamento de questões relacionadas aos baixos percentuais de denúncia a partir de uma 
pesquisa com metodologia quali e quantitativa, que foi coordenada por mim e por Isado-
ra Lins França no Núcleo de Estudos Pagu, da Universidade Estadual de Campinas, a 
partir de participantes da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo no ano de 2009 (FAC-
CHINI; FRANÇA, 2013).3 Os resultados, de modo consistente com a literatura, indica-
3 Essa pesquisa reproduziu em menor escala, na primeira etapa, a metodologia já consolida-
Gênero e Diversidade Sexual • 36 
ram altos percentuais de agressão e de discriminação relacionados à sexualidade ou à ex-
pressão de gênero – 80,6% dos entrevistados relataram ao menos uma situação de discri-
minação na vida e 74,7% relataram ter passado por alguma modalidade de agressão4 – e 
baixo percentual de relatos ou denúncias a órgãos competentes – entre aquelas agressões 
que foram consideradas as mais marcantes, 58,3% foram relatadas a alguém ou algum 
orgão, sendo que, destas, 44,5% foram relatadas a amigos e apenas 16,4% a policiais. 
A análise dos dados quantitativos indicou que entre as modalidades de agressão mais 
relatadas a outras pessoas estavam a agressão verbal e a agressão física, mas quando se tra-
da nas pesquisas realizadas pelo CLAM/IMS/UERJ e CESeC e seus parceiros locais, de 
modo a nos permitir entrar em contato com os participantes da primeira etapa da pesqui-
sa, convidando-os a conceder uma entrevista em profundidade. Na primeira fase foram 
entrevistados 320 LGBTs maiores de 18 anos e residentes na Grande São Paulo e, na se-
gunda, realizamos 31 entrevistas em profundidade com LGBTs que relataram na primeira 
etapa ter sofrido ao menos uma situação de discriminação ou violência. O conjunto de 
entrevistados foi composto de modo a obter a maior diversidade possível em termos de 
classe, geração, cor/raça e sexualidade agregada dos respondentes (as diversas identidades 
autoatribuídas pelos sujeitos na entrevista da primeira etapa foram agrupadas em catego-
rias mais amplas – homens e mulheres homo e bissexuais e pessoas trans – para que se 
pudesse diversificar internamente o conjunto da segunda fase). Note-se que não houve 
nenhum entrevistado à época que se identificasse como homem trans ou a partir de qual-
quer categoria abrigada no conjunto das transmasculinidades, o que se justifica pela recen-
te difusão dessas identidades (ALMEIDA, 2012). Na etapa quantitativa, temos um perfil 
mais geral que indica um conjunto de sujeitos predominantemente jovem (60% tinham até 
29 anos e 80% até 40 anos), com altos níveis de escolarização (51% iniciaram ou concluí-
ram um curso de nível superior), no qual 60% são formados por pessoas assignadas ao 
nascer como do sexo masculino e 50% se declararam brancos. No momento da pesquisa 
82% estavam trabalhando; 56% eram assalariados com carteira assinada e cerca de 15% 
eram profissionais liberais ou funcionários públicos. A maioria vivia com familiares 
(39,7%), seguidos pelos/as que moravam com o/a companheiro/a (25%), sozinhos/as 
(21,9%) ou com amigos/as (10,9%), sendo que 48,1% estavam em um relacionamento es-
tável (namoro ou casamento) e 10,3% tinham filhos. No que diz respeito à “sexualidade 
agregada”: 73,8% são homossexuais (sendo, 43,8% homens e 30% mulheres); 15% bisse-
xuais (sendo 5,6% homens e 9,4% mulheres); 9,4% trans (travestis e mulheres transexuais). 
4 No que diz respeito a situações de discriminação, encontramos os seguintes percentuais: 
por motivos religiosos – religião da outra pessoa (49,6%); por grupo de amigos ou vizinhos 
(48,8%); em ambiente religioso (42,2%); em ambiente familiar (42,2%); por professores/as 
ou colegas de escola/faculdade (39,9%); em comércio/locais de lazer (33,7%); por policiais 
ou em delegacias (26%); por profissionais ou serviços de saúde (21,7%); impedimento de 
doar sangue (19%); emprego e trabalho (19%); e, em serviços públicos como albergues, 
transportes ou banheiros públicos (17,1%). No que diz respeito a agressões: verbais 
(92,5%); ameaça de agressão (50,2%); constrangimento no trabalho (36%); agressão física 
(28,9%); chantagem ou extorsão (18,4%); violência sexual (11,7%); e “boa noite cinderela” 
(5,9%).
37 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
tava de relato a policiais, a agressão física era a modalidade mais relatada. Contudo, ainda 
assim, entre os que relataram ter sofrido agressão física (26%), pouco menos da metade 
(45%) relatou o fato à polícia. A análise indicou também baixo conhecimento de leis ou 
recursos de apoio a LGBT’s.5 Porém, para além do baixo (re)conhecimento de leis e recur-sos, outros fatores devem ser levados em consideração quando pensamos no silenciamento 
de situações que podem ser consideradas discriminatórias ou violentas pelos sujeitos.
A etapa qualitativa evidenciou que entre as situações que são imediata e inequivoca-
mente referidas como violentas, a agressão física é uma das mais reconhecidas como tal, 
especialmente quando é praticada por desconhecidos e na adolescência ou idade adulta. 
Tais situações pontuais, incrustadas no tempo e envolvendo sujeitos com os quais os en-
trevistados não tinham qualquer relação pessoal não se prestam a grandes remanejamen-
tos, e contrastam com o que encontramos em relação à violência no âmbito familiar: 
contexto no qual as narrativas, no geral, oscilavam entre um tom doloroso e um tom que 
logo relegava as experiências ao passado e à superação, diminuindo a importância das 
mesmas (DAS, 1999).6
Os casos relatados de agressão física em espaço público – o que também vale para 
agressões verbais e ameaça de agressão física – concentraram-se entre entrevistados que 
1) são reconhecidos como bichas ou sapatões, no bairro de residência ou em quaisquer es-
paços públicos; 2) não são reconhecidos a partir de sua expressão de gênero, mas pela 
exposição de afeto em público, principalmente por estarem de mãos dadas com alguém do 
mesmo sexo; 3) são reconhecidos como travestis ou transexuais7. 
Em contraste com o reconhecimento inequívoco das agressões físicas por desconheci-
dos como violência, temos o caráter um tanto ambíguo das situações de discriminação re-
5 Apesar de 51,3% dos entrevistados afirmarem que conhecem alguma lei ou projeto que 
beneficie LGBTs, apenas 15,7% do total citaram espontaneamente a Lei Estadual 
10.948/2001, que pune a discriminação contra LGBTs. Enquanto 45,6% dos entrevista-
dos disseram conhecer órgãos, serviços ou instituições que apoiam LGBTs, apenas 6,8% 
citaram a Coordenadoria da Diversidade ou um dos dois centros de referência voltados a 
essa população no município, 3,6% citaram alguma ONG LGBT (FALCÃO, 2011).
6 Além da violência que conta socialmente, inclusive nas classificações presentes entre LGBTs, 
como tal se concentrar na agressão física, um dos efeitos mais perversos dessa dinâmica é 
relacionado à visibilidade e ao reconhecimento social da violência e ao modo como se distri-
bui entre pessoas assignadas ao nascer como do sexo feminino ou masculino, de modo a 
invisibilizar boa parte da violência envolvendo mulheres lésbicas e bissexuais, assim como a 
que se dirige a crianças designadas como do sexo masculino e tidas como afeminadas.
7 Cabe enfatizar que, em acordo com a literatura (CARRARA; VIANNA, 2006; EFREM 
FILHO, 2016), travestis e transexuais relataram eventos de agressão física em espaço pú-
blico em maior número que os outros perfis entrevistados e que, entre elas, a violência 
policial também se apresenta de forma muito intensa, por meio de constantes achaques, 
ameaças, espancamentos e prisões. 
Gênero e Diversidade Sexual • 38 
latadas no contexto de escolas, serviços de saúde e no trabalho. Tomando como exemplo o 
contexto ainda pouco estudado do ambiente de trabalho, há narrativas sobre situações 
evidentes de demissão, constrangimento ou assédio moral, que se distribuem de forma 
bastante dispersa entre os perfis, mas há também processos mais sutis – como os que se 
expressam no medo constante e constrangimento por ouvir comentários negativos sobre a 
homossexualidade em empregos em que as pessoas não se sentem à vontade para revelar 
sua identidade sexual ou na sensação de não ter oportunidades de galgar promoções no 
trabalho a partir da revelação da identidade sexual – que acabam por implicar a exclusão 
do mercado de trabalho, a restrição a determinadas profissões ou mesmo, no caso de pes-
soas trans, a interrupção da vida profissional com a realização de mudanças corporais ou 
adoção de expressão de gênero diferente da esperada para o sexo designado no nascimento.
Em relação àquelas experiências em que as pessoas têm sentimentos conflitantes a 
respeito da violência sofrida ou esta é difícil de delimitar como tal, estão as experiências 
relacionadas à violência de cunho institucional8, à violência sexual, ao apagamento iden-
titário (especialmente entre bissexuais) e as que se imiscuem ao cotidiano9. São situações 
em que o repertório e vocabulário dos entrevistados encontram limites para expressar: 
aquilo poderia mesmo ser denominado de violência? Como traduzir uma sensação permanente 
de opressão e silenciamento como violência? Tratamos de algo “denunciável”? Se sim, para quem 
denunciar? Quem reconhecerá aquela experiência como violência? Tais indagações e angústias 
se situam num fino limiar entre o que é sentido como abuso ou mesmo “injustiça” pelos 
sujeitos, o que pode ser reconhecido socialmente como violência e o que ganharia expres-
são no plano jurídico como “crime” ou como ato passível de denúncia.
Entretanto, mesmo considerando que o silenciamento pode se dar em contextos de 
relações interpessoais marcadas por muita proximidade ou de eventos que habitam as 
fronteiras tênues do que pode ou não ser reconhecido socialmente como violência, a au-
sência de relato/denúncia ultrapassa a esfera da decodificação da experiência vivida como 
violência. Mesmo nos casos em que os eventos narrados são inequivocamente afirmados 
como violência, o índice de denúncia é bastante baixo: no conjunto geral das 31 entrevis-
8 No que concerne à violência institucional, há uma dificuldade em lidar com a violência 
sofrida quando não se tem apoio ou quando essa violência está justificada na ordem do 
Estado ou em saberes socialmente legitimados. Uma das dificuldades nesse sentido é, mais 
do que encontrar uma instância de denúncia, a necessidade de encontrar em quaisquer 
interlocutores a possibilidade de compartilhamento do vivido e do reconhecimento daque-
la experiência como violência. 
9 Um número considerável de entrevistados fez referência a uma violência que perpassa sua 
trajetória de vida e seu dia a dia, sinalizando um contexto que percebem como violento e 
não um evento com início, meio e fim delimitados claramente no espaço-tempo. É quase 
como uma sensação que pouco se presta à descrição verbal, contrastando com os casos de 
agressão física, não raro contados em detalhe.
39 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
tas em profundidade realizadas, dos 12 entrevistados que afirmaram ter alguma vez na 
vida sofrido agressão física em idade adulta em razão da sua sexualidade, apenas dois 
formalizaram denúncia a instituições de segurança pública. 
O sentimento de desproteção frente a uma denúncia, ou seja, a sensação de que de-
nunciar é evidenciar um conflito e ter de lidar com ele sozinho/a até que haja algum de-
senrolar mais significativo por parte de um sistema judiciário moroso e ineficiente deses-
timulava parte dos entrevistados a denunciar nos contextos em que agressores são conhe-
cidos ou que a agressão não é tida como muito grave, ou seja, em que uma denúncia pode 
transformar um episódio suportável numa ameaça à integridade física.
Entre as justificativas mais citadas nas entrevistas para a ausência de denúncia esta-
vam o medo de se expor, ou seja, de ter sua identidade sexual revelada de alguma maneira 
e registrada em livros públicos; a sensação geral de que não vai dar em nada, reveladora de 
uma descrença geral no aparato judiciário; e o medo de sofrer novo preconceito nas dele-
gacias ou pelos policiais, que não estariam preparados para lidar com questões desse tipo. 
As possibilidades de denúncia parecem ainda mais difíceis quando o autor da agressão é 
policial ou quando esta se dá no contexto de comunidades ou de bairros periféricos, nos 
quais a violência raramente é arbitrada pela polícia e denunciar pode significar colocar em 
risco atividades ilícitas de pessoas respeitadas no local e, consequentemente, a segurança 
dos sujeitos e das pessoas que com ele coabitam. 
Para seguir refletindo e fazendoEste texto procurou oferecer contribuições teóricas e reflexões a partir de um recorte 
empírico de pesquisa bastante relevante – o da violência –, tendo em vista a criação de um 
observatório voltado à promoção dos direitos de LGBTs. O fiz a partir de uma reflexão 
inicial e de um entendimento que considera que tal recorte, bem como os direitos de 
LGBTs de modo mais geral, se situam num campo em que coexistem e se relacionam 
diversos atores sociais, tais como ativistas, pesquisadores, gestores – que se configuram 
como lugares sociais entre os quais há circulação de saberes, estratégias e mesmo sujeitos. 
Tal campo é marcado por um reconhecimento social precário de LGBTs como sujeitos de 
direitos e pela inserção numa arena social de disputas que tem se acirrado, especialmente 
após a última virada de década.
As pesquisas mencionadas ao longo deste texto tiveram como contexto especialmente 
a década de 2000, na qual se observou o desenvolvimento de políticas para LGBTs em 
âmbito nacional, mas também em muitos estados e municípios, como parte de um pro-
cesso que Sergio Carrara (2016) recentemente chamou de cidadanização das homosse-
xualidades e de LGBTs de modo mais amplo. A existência de tais pesquisas, fruto da ar-
ticulação entre pesquisadores, ativistas e gestores, foi fundamental para ampliar o conhe-
cimento acerca do que, na linguagem política, se traduziu como homofobia, lesbofobia, 
transfobia e LGBTfobia, se configurando como importantes instrumentos para a atuação 
Gênero e Diversidade Sexual • 40 
de ativistas e de gestores na direção da produção de políticas de enfrentamento à discri-
minação e violência contra LGBTs. Este é, também, o tipo de configuração e conjunção 
de atores necessária à atuação de um observatório voltado à promoção dos direitos de 
LGBTs numa universidade pública.
Contudo, para além da relevância social e política de que se reveste este trabalho, ele 
também acaba por retroalimentar, a partir do conhecimento produzido na articulação com 
a prática política, a produção de conhecimento mais propriamente científico. No caso das 
pesquisas citadas ao longo deste texto, por exemplo, geraram-se outras perguntas que vêm 
sendo exploradas, focalizando as respostas políticas a esse quadro de adversidades. 
Nessa direção, há uma recente produção de pesquisas no âmbito da pós-graduação 
acerca dos processos de participação socioestatal que construíram essas políticas e de 
gestão das mesmas em âmbito local e nacional (AGUIÃO, 2014; AGUIÃO; VIANNA; 
GUTTERRES, 2014; LOPES; HEREDIA, 2014). Houve, ainda, esforços de mapea-
mento e reflexão crítica acerca do conjunto de políticas públicas produzidas, cujo princi-
pal exemplo é a pesquisa conduzida pelo “Ser-Tão” - Núcleo de Estudos e Pesquisas em 
Gênero e Sexualidade, da Universidade Federal de Goiás10. Tais caminhos podem ser 
produtivos para a compreensão das respostas que vêm sendo elaboradas publicamente no 
enfrentamento da violência relacionada a gênero e sexualidade. E, nesse sentido, a atuação 
das universidades numa perspectiva crítica é fundamental para que possamos avançar 
diante do quadro já desenhado pelas pesquisas citadas ao longo deste texto e da precarie-
dade da vida dos sujeitos a que se referem. 
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10 Trata-se de um mapeamento crítico preliminar das iniciativas voltadas à promoção da 
cidadania da população LGBT e ao combate à LGBTfobia, em nível nacional e no âmbito 
do Distrito Federal e de nove estados da federação, analisando seis áreas principais: assis-
tência social, previdência social, saúde, segurança, trabalho e educação. Os resultados fo-
ram publicados em vários artigos dos autores (mas também estão disponíveis no site: htt-
ps://www.sertao.ufg.br/politicaslgbt/. Acessado em: 12.ago.2016.
https://www.sertao.ufg.br/politicaslgbt/
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Homofobia, Desenvolvimento Humano e Liberdade
Cristhian Manuel Jimenez1
A liberdade é um direito e valor universal, adotado pela ONU e outras organizações 
regionais, inerente a todos os seres humanos. O professor Amartya Sen, Prêmio Nobel de 
Economia em 1998, iniciou em seu livro “Desenvolvimento e Liberdade” sua defesa do 
paradigma do desenvolvimento humano. Sen descreveu o desenvolvimento como um 
processo de expansão das liberdades reais de que gozam os indivíduos, que envolve a 
transferência de atenção dos meios que permitem a expansão das liberdades, como o 
crescimento econômico, aumento de renda pessoal e modernização social tecnológica, 
cujo objetivo é a liberdade. As liberdades se tornam o objetivo principal e o principal meio 
para se chegar ao desenvolvimento. A liberdade é um valor intrínseco e instrumental.
O verdadeiro desenvolvimento de uma nação é o desenvolvimento de seu povo, não 
de algumas pessoas. Ver o verdadeiro desenvolvimento dos povos como um processo es-
sencialmente humano é tomar consciência de que o desenvolvimento dos países é o de-
senvolvimento de sua sociedade. Para o desenvolvimento humano, quem se desenvolve 
são as pessoas, não as coisas, tampouco os países. E está claro que naqueles países em que 
persiste a exclusão social de minorias étnicas, raciais ou sexuais é onde se perpetua a po-
breza real. Esse conceito de pobreza real se refere às condições sociais (como identidade 
de gênero e orientação sexual) entre as pessoas, o que aumenta suas dificuldades para viver 
uma vida como elas valorizam. Essa pobreza real deve ser combatida com mais equidade, 
entendendo este termo como um princípio de justiça, no sentido de que o resultado da 
vida de uma pessoa, em quaisquer de suas dimensões, deve refletir suas capacidades, esfor-
ços e talentos, mais que circunstâncias predeterminadas.
As pessoas lésbicas, gays, transexuais, bissexuais e intersexuais sofrem discriminação 
em todos os países do mundo, e tal exclusão em alguns está legitimada por lei, pelas auto-
ridades públicas e pela população.
1 Ativista de direitos humanos e professor universitário. Diretor de Relações Internacionais 
de FUNCEJI. Graduado em Diplomacia e Serviços Internacionais da Universidade Ca-
tólica Santo Domingo, UCSD. Especialista em Docência Universitária, UCSD. Mestrado 
em Gestão Humana, UNAPEC (2012). Bolsista da OEA no Mestrado em Ciências Hu-
manas e Sociais da Universidade Federal do ABC.
 O autor agradece à Renilson Cruz pela tradução do artigo do espanhol para o Português. 
Gênero e Diversidade Sexual • 44 
O que é a liberdade e como Sen a associa ao desenvolvimento? O crescimento econô-
mico pode ser afetado pela homofobia? Tal cálculo está baseado na dignidade ou utilida-
de? Como se aplica o conceito de liberdade de Sen às minorias sexuais? Quais esforços 
são necessários em nível global? São estas as questões que marcam este artigo, cuja finali-
dade é analisar as ameaças da homofobia ao desenvolvimento humano dos povos, de 
acordo com a abordagem de liberdade de Amartya Sen.
Liberdade como desenvolvimento
O conceito de liberdade tem sido motivo de amplas discussões ao longo da história 
humana. Compreendê-lo é imperativo para entender a teoria de Amartya Sen. No mun-
do moderno, ao falar de liberdade poderíamos defini-la como a ausência de impedimen-
tos para fazer o que desejamos, sempre no marco da licitude, como expunha Montes-
quieu. Na Grécia Antiga, a liberdade tinha outra conotação, no sentido de que era uma 
liberdade de participar na vida pública, pois era uma faculdade exclusiva dos cidadãos 
das pólis; ser livre era não ser escravo e pertencer a uma cidade que outorgasse tal atri-
buto. Entre os pensadores da modernidade, existem diferentes reflexões sobre liberdade. 
Grande parte defende a liberdade negativa. Um deles foi o utilitarista John Stuart Mill, 
que, ao falar de liberdade, defendeu “sobre sí mismo, sobre su cuerpo y sobre su espíritu, 
el individuo es soberano2” (MILL, 1991, p. cap. 1), e tal tese, ainda que ele se consideras-
se utilitarista, estava mais próxima do liberalismo, já que o homem é o dono de seu 
próprio corpo.
Mill também abordou limites à liberdade dos direitos ou interesses dos outros, a par-
tir de um cálculo utilitarista do princípio máximo de felicidade, princípio esse que pouco 
tem a ver com o respeito que hoje em dia se estabelece sobre a dignidade humana e os 
direitos humanos. Mill também foi um defensor das minorias e afirmou que: “En todas 
partes donde hay una clase dominante casi toda la moral pública deriva de los intereses de 
esta clase y de sus sentimientos de superioridad3” (MILL, 1991, p. 44-46). 
Mill entende a diversidade como algo positivo, já que via como negativo a imposição 
da maioria na construção da individualidade, pois entendia que para ser livre o Estado 
não deve interferir e tampouco a opinião pública.
Os libertários, como Nozick, definiram a liberdade como o direito fundamental de 
fazer o que quisermos com aquilo que nos pertence sem impedir o mesmo direito aos 
outros, violar a integridade física, sua propriedade ou as obrigações voluntariamente ad-
2 Tradução livre: sobre si mesmo, sobre seu corpo e sobre seu espírito, o indivíduo é soberano.
3 Tradução livre: Em todas as partes onde há uma classe dominante, quase toda a moral 
pública deriva dos interesses dessa classe e de seus sentimentos de superioridade.
45 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
quiridas. Outros como Kant definiram a liberdade como a capacidade de atuar de forma 
autônoma sem condicionantes externos. Entretanto, Philippe Van Parijs, para definir a 
liberdade, a distingue em duas dimensões; a primeira é uma liberdade negativa que “con-
siste en no ser impedido arbitrariamente de hacer lo que se desea y es capaz4” (VITA, 
2007, p. 56) como o exposto pelos liberais; a segunda dimensão é a liberdade positiva 
“entendida como el acceso a los medios y recursos que capacitan a una persona hacer de 
su vida lo que ella desea5” (VITA, 2007, p. 56). Essa definição igualitária não encontraria 
objeção a partir de uma perspectiva de justiça social, onde a liberdade é aquilo que podem 
fazer as pessoas com seus direitos, e ampliá-la a todos se converte na finalidade dessa 
corrente de pensamento. Bobbio também inseriu um conceito para a liberdade positiva, 
associado ao gozo dos direitos econômicos, sociais e culturais:
La segunda mutación del concepto de libertad llegó al pasar de una concepción nega-
tiva a otra positiva, es decir, cuando la libertad auténtica y dignade ser garantizada no sólo 
se extendió en términos de facultad negativa, sino también en términos de poder positivo, 
es decir, de capacidad jurídica y material de concretar las posibilidades abstractas garanti-
zadas por las constituciones liberales6 (BOBBIO, 1991, p. 43-44).
O direito ao trabalho, à seguridade social, o acesso aos benefícios do desenvolvimento, 
à saúde e lazer permitem ao ser humano materializar uma vida digna, e esse é o objeto da 
liberdade positiva. 
Como já dito, as liberdades negativas e positivas se diferenciam em que, na primeira, 
o objeto é que o Estado não seja um obstáculo, por exemplo, o direito a migrar implica 
que o Estado não proíba o livre trânsito e, na segunda, o Estado deve intervir para facilitar 
o meio necessário para se alcançar a liberdade; seguindo o mesmo exemplo, se uma pessoa 
quer migrar deve conseguir dinheiro através de um trabalho, o Estado para tal deve pro-
mover a possibilidade de fazê-la adquirir esse trabalho.
Sen, inspirado por Rawls, define a liberdade como o objetivo final do desenvolvimen-
to e o define como “proceso de expansión de las libertades reales de que disfrutan los in-
4 Tradução livre: consiste em não ser impedido arbitrariamente de fazer o que se deseja e se 
é capaz.
5 Tradução nossa: entendida como o acesso aos meios e recursos que capacitam uma pessoa 
a fazer de sua vida o que ela desejar.
6 Tradução livre: A segunda mutação do conceito de liberdade chegou ao passar de uma 
concepção negativa para outra positiva, ou seja, quando a liberdade autêntica e digna de ser 
garantida não só se estendeu em termos de faculdade negativa, como também em termos 
de poder positivo, ou ainda, de capacidade jurídica e material de concretizar as possibilida-
des abstratas garantidas pelas constituições liberais. 
Gênero e Diversidade Sexual • 46 
divíduos7” (SEN, 2000, p. 19). Pelo que falamos de um desenvolvimento das pessoas, para 
as pessoas e pelas pessoas, liberdade é ampliar as capacidades, eliminar privações e tornar 
a escolha possível. Esse conceito de liberdade é tão negativo quanto positivo, como foi 
exposto anteriormente, já que também implica a não interferência dos Estados no gozo 
das liberdades políticas e civis, assim como entender a justiça através da liberdade. Sen 
argumenta que, quanto maior a liberdade de um indivíduo, mais capacidade ele terá para 
melhorar sua vida e contribuir no mundo, e assim também acontece com o desenvolvi-
mento, pois se torna um agente de mudanças.
Homofobia e Crescimento Econômico
Para Sen, o desenvolvimento é muito mais complexo que o aumento do produto in-
terno bruto e das contas nacionais, deve ser valorizado para ampliação da liberdade. Ain-
da que, sem dúvida, o crescimento econômico seja importante, não é a finalidade do de-
senvolvimento como é a liberdade; o crescimento é um meio para se alcançar outros di-
reitos, bens e serviços que garantem uma vida digna; no entanto, o ingresso pouco tem a 
ver com ser vítima de homofobia na rua, de assédio trabalhista, familiar ou sexual e outras 
manifestações da violência e discriminação pelas quais passam pessoas LGBTI. Sen ar-
gumenta ainda que a pobreza já não deve ser vista somente como a falta de renda, nem 
como a falta de capacidade para ser livre. Essa pobreza real nas pessoas LGBTI está em 
todas as partes do mundo.
Em 2014, o Banco Mundial realizou um evento para discutir o impacto da homofobia 
no desenvolvimento. A Dra. Lee Badgett foi uma das palestrantes e apresentou resultados 
preliminares de um estudo sobre o custo econômico da homofobia na Índia. O estudo 
estimou que a homofobia custou à Índia entre 0,1 a 1,7% de seu produto interno bruto. 
Constatou-se que 56% dos executivos LGBTI sofreram discriminação, 64% das pessoas 
Kothis (homens indianos que adotam o gênero feminino) ganham menos que 70 dólares 
por mês, que 66% dos homens que fazem sexo com homens em Chennai ganham menos 
que 1,5 dólares por dia e 28% das lésbicas em zonas urbanas passaram por situação de 
violência na própria família.
O estudo apresenta a homofobia como uma ação que gera exclusão social na Índia 
através da violência, perda de emprego, discriminação, rejeição familiar, bullying na escola, 
pressão para se casarem e inclusive condenação à prisão por ser LGBTI; essas situações 
trazem, como consequência, menor educação (reduzem possibilidades de conseguir um 
emprego), baixa produtividade (reduzem o lucro das empresas), baixa renda (maior po-
breza), saúde precária (baixa expectativa de vida), assim como também redução da força 
7 Tradução livre: processo de expansão das liberdades reais de que usufruem os indivíduos. 
47 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
de trabalho. Essas consequências se traduzem em problemas macro para o país ao elevar os 
custos dos programas sociais e de saúde (devido ao alto índice de depressão, HIV e suicídio 
em pessoas LGBTI discriminadas), bem como diminui o acesso à economia do país.
O estudo mostrou que, se 0,6% da força de trabalho fosse LGBTI, o país estaria per-
dendo 1,25 bilhões de dólares do PIB; e se fosse 3,8% estaria perdendo 7,7 bilhões de 
dólares. No entanto, restam outras variáveis, como a perda de força de trabalho, a emigra-
ção, custos familiares e custos com educação (BADGETT, 2014).
O estudo da Dra. Lee Badgett demonstra como a Índia, mesmo sendo uma economia 
emergente, aumentou seu crescimento econômico excluindo as pessoas LGBTI, isto é, 
um crescimento que não aumenta oportunidades para viver a vida como se quer.
Essa falta de liberdade com que convivem as pessoas LGBTI empurra-as para a po-
breza econômica, que as priva de insumos (nutrição, prevenção de doenças como AIDS, 
entre outras coisas) ao receberem um tratamento desigual em saúde, educação, justiça e 
seguridade cidadã, bem como de suas capacidades, já que o gozo de suas liberdades polí-
ticas e civis está negado em alguns Estados (direito ao casamento, à família, entre outros).
Esse desenvolvimento excludente não é sustentável, Sen entende que quem o faz 
possível são as pessoas. Se não se investe nas pessoas, garantindo e promovendo suas li-
berdades, esse paradigma de desenvolvimento está destinado a ser deficiente, injusto e, 
ainda, vai desperdiçar um grande potencial humano, que seria capaz de criar maiores ri-
quezas e bem-estar geral. Acabar com a homofobia é uma condição indispensável para os 
Estados serem mais eficientes e produtivos.
Não quero deixar de ressaltar o fato de que os economistas e o Banco Mundial te-
nham virado a cara por muitos anos ao assunto de equidade das pessoas LGBTI, por 
motivo de não haver dados econômicos que lhes despertasse interesse. Kant considerava 
que todos os seres humanos são racionais e merecedores de respeito e dignidade e, nesse 
sentido, promover o desenvolvimento humano das pessoas LGBTI é um assunto de 
dignidade. Os defensores de direitos humanos se veem obrigados a demonstrar econo-
micamente os efeitos da homofobia, como se o argumento de respeito à dignidade não 
fosse suficiente, e isso mostra que nossos tomadores de decisões seguem aplicando uma 
análise utilitarista do princípio da felicidade, decidido pela maioria em um constante 
cálculo dos custos, benefícios e consequências, para respeitar e promover os direitos hu-
manos. Traduzir a dignidade em uma moeda comum e pôr um preço na dor e vida das 
pessoas LGBTI está errado.
Em 2013, o Banco Mundial publicou seu informe “a inclusão importa”, onde se abor-
dou, dentro de alguns de seus capítulos, o estigma e a discriminação por que passam as 
pessoas LGBTI. Esse documento tratou de entender a inclusão como um assunto de 
dignidade para ser inserido no discurso matriz do Banco, que definiu inclusão como “El 
proceso de mejora de la capacidad, la oportunidad y la dignidad de las personas, en des-
Gênero e Diversidade Sexual • 48 
ventaja, sobre la base de su identidad, para participar en la sociedad”8 (WORLD BANK, 
2013, p. 4). Tal iniciativa é um sinal de avanço para motivarações e medidas de inclusão 
que enfrentem a homofobia. Como defende Sen, as liberdades fundamentais são um 
elemento constitutivo e instrumental do desenvolvimento e sua importância não tem que 
ser demonstrada por sua influência econômica. 
A homofobia gera exclusão social e econômica às pessoas LGBTI. As barreiras ao 
acesso à educação e emprego mantêm as pessoas na pobreza. Um estudo realizado pelo 
Center for American Progress, em 2010 nos Estados Unidos, revelou que 40% dos jovens 
LGBTI desse país já foram vítimas de bullying homofóbico na escola e em casa, e acaba-
ram indo morar na rua (CENTER FOR AMERICAN PROGRESS, 2010). Não obs-
tante, um estudo do Centro para el Control y Prevención de Enfermedades (CDC), dos Es-
tados Unidos, revelou que jovens gays e lésbicas são quatro vezes mais propensos ao sui-
cídio devido às situações de violência e discriminação que enfrentam (CDC, 2011). 
Em um estudo realizado em 2015 pelo The Williams Institute, da UCLA School of Law 
com o apoio da USAID, se constatou que os países com menos direitos têm um índice de 
desenvolvimento humano menor que aqueles com mais liberdades, entre elas liberdades 
para as pessoas LGBTI. O documento defende que:
Países con más derechos para las personas LGBT tienen mayor ingreso per cápita y 
mayores niveles de bienestar. La correlación positiva entre los derechos LGBT y el IDH 
sugiere que los beneficios de los derechos se extienden más allá de los resultados puramen-
te económicos para el bienestar medido como el nivel educativo y la esperanza de vida9 
(Badgett, 2014, p. 3).
Com isso, tenta-se demonstrar que, quanto maior a inclusão das pessoas LGBT, me-
lhores resultados econômicos se obtêm para o desenvolvimento, pois deve ser uma parte 
constitutiva das agendas nacionais de desenvolvimento a ampliação das liberdades das 
pessoas LGBTI.
Homofobia, Direitos Humanos e Desenvolvimento Humano
Sem dúvidas, a orientação sexual, o gênero e a identidade sexual seguem uma ordem 
social dominada pelo conceito do heterossexismo, visto de uma ordem patriarcal, andro-
8 Tradução livre: O processo de melhoria da capacidade, da oportunidade e da dignidade das 
pessoas, em desvantagem, sobre a base de sua identidade, para participação na sociedade. 
9 Tradução livre: Países com mais direitos para as pessoas LGBT têm maior renda per capi-
ta e maiores níveis de bem-estar. A correlação positiva entre os direitos LGBT e o IDH 
sugere que os benefícios dos direitos se estendem para além dos resultados puramente 
econômicos para o bem-estar medido como nível educativo e expectativa de vida.
49 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
cêntrica e de uma moral que tem imposto, às vezes de forma legal e em quase todos os 
cantos do mundo, a violência simbólica como instrumento para inferiorizar, reduzir ou 
disciplinar as pessoas LGBTI. Essa ordem sexual condena as minorias sexuais a receber da 
sociedade um tratamento desigual e as priva de sua plena liberdade. A discriminação por 
orientação sexual é um ato que prejudica a igualdade e a dignidade das pessoas LGBTI. 
Discriminá-las é negar-lhes a condição de seres humanos iguais aos demais, e isso pertur-
ba a dignidade humana. 
Norberto Chaves defende em seu libro “A Homossexualidade Imaginada” que a 
homofobia é uma característica sistêmica comungada pela maioria da sociedade. Por 
trás da homofobia está o machismo, que associa a homossexualidade masculina ao gê-
nero feminino, o que embasa o desprezo ao homossexual, devido a que rejeita sua viri-
lidade. Chaves disse que o homossexual “Ha hecho lo peor que puede hacer un hombre: 
parecerse a una mujer”10 (CHAVES, 2009, p. 57). E é o pior porque abandonou o pri-
vilégio de ser o sexo dominante. No caso das lésbicas, a depreciação se baseia em que 
elas rejeitam o papel designado de mães e esposas. Ser homofóbico é um ato de afirma-
ção da condição de heterossexual. 
Em 2006, Amartya Sen se uniu a um grupo de intelectuais e outras figuras reconhe-
cidas da Índia, entre elas Vikram Seth, para pedir ao Governo e à Corte Suprema da Índia 
a anulação do artigo 377 do Código Penal, redigido em 1860 durante a ocupação britâni-
ca, que penaliza as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo com até 10 anos de 
prisão e pagamento de uma multa. Amartya Sen escreveu uma carta em paralelo à apre-
sentação pela maioria dos intelectuais, na qual afirma:
The criminalization of gay behaviour goes not only against fundamental human 
rights, as the open letter points out, but it also works sharply against the enhancement 
of human freedoms in terms of which the progress of human civilization can be 
judged11(SEN, 2006).
Como bem pontua Sen, não resta dúvida de que criminalizar a homossexualidade é 
um atentado à liberdade e uma violação aos direitos humanos. Essa criminalização 
priva as pessoas LGBTI de viver a vida que querem e ainda confere um obstáculo para 
o desenvolvimento. 
10 Tradução livre: Fez o que pior pode fazer um homem: parecer-se com uma mulher
11 Tradução livre: A criminalização do comportamento gay vai não só contra os direitos hu-
manos fundamentais, como a carta aberta aponta, mas também age fortemente contra o 
avanço das liberdades humanas, em termos das quais o progresso da civilização humana 
pode ser julgado.
Gênero e Diversidade Sexual • 50 
Em 2 de julho de 2009, um tribunal de Nova Déli aprovou uma decisão que decla-
rava inconstitucional o artigo 377 do Código Penal, que estabelecia penas contra a so-
domia; no entanto, a Suprema Corte da Índia anulou essa decisão judicial em 11 de 
dezembro de 2013. Em uma entrevista na mesma semana desse acontecido, o professor 
Sen deu seu parecer: 
Este es un asunto sobre los derechos de las minorías, y como los derechos de las mino-
rías así como los humanos están protegidos no buscando la mayoría. No importar lo que 
quiera la mayoría debe ser protegido, ese fue el punto central de John Stuart Mill en su 
libro sobre la Libertad a mediados del siglo XIX [...] El hecho de esperar la bendición del 
parlamento para proteger un derecho y que la Suprema Corte no haga nada respecto a esto 
es un fallo de entendimiento sobre el rol que debe jugar12 (SEN, 2013).
Em nome da tradição ou religião que confessa a maioria de um país se criam dog-
mas que promovem preconceitos, estigmatização, discriminação e violência contra pes-
soas LGBTI. Para Sen, a tradição não é razão para suprimir a liberdade. Para evitar isso, 
é importante promover uma democracia onde o direito de discordar seja forte para 
submeter insistentemente a questionamento aqueles preconceitos e medidas discrimi-
natórias e assim evitar a tirania das maiorias das quais falou Mill. Inclusive, esse autor 
condenava as pressões que exercem a opinião pública e o Estado para obrigar as pessoas 
a viverem sua vida de acordo com um padrão regido por convenções, costumes e opi-
niões que imperam, pois tal esforço impede o desenvolvimento e a liberdade das pes-
soas, assim como o avanço social. 
Ao proibir o casamento igualitário de pessoas LGBTI “aunque sea muy rica, carece 
algo que tiene razones para valorar”13’ (SEN, 2000, p. 56), já que a ausência desse obstácu-
lo é um componente constitutivo do desenvolvimento como liberdade. Ainda que casar, 
adotar filhos, mudar de nome ou de sexo não sejam opções de interesse para a maioria das 
pessoas LGBTI, como disse Sen, “és posible conceder importancia al hecho de tener 
oportunidades que no se aprovechan”14 (SEN, 2000, p. 101).
12 Tradução livre: Esse é um assunto sobre os direitos das minorias e, assim como os direitos 
humanos, estão protegidos não buscando a maioria. Não importa o que quer a maioria, 
deve ser protegido, e esse foi o ponto central de John Stuart Mill em seu livro sobre a li-
berdade em meados do século XIX. [...] o fato de esperar a benção do parlamento para 
proteger um direito e que a Suprema Corte não faça nada a respeito disso é uma falha no 
entendimento do papel que deve desempenhar.
13 Tradução livre: ainda que seja muitorica, carece de algo que tem razões para valorizar.
14 Tradução livre: é possível dar importância ao fato de ter oportunidades que não se aproveitam. 
51 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Que ninguém fique de fora!
A ONU tem feito esforços em nível mundial para promover o desenvolvimento hu-
mano em todos os países membros. É por isso que 189 Estados se comprometeram no 
ano 2000 a alcançar os Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, os quais benefi-
ciam também as pessoas LGBTI como parte da humanidade. No entanto, nenhum obje-
tivo fazia menção direta a essa minoria. Findo o prazo para cumprir essas metas, em 2015, 
a ONU empreendeu a Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável, e durante as 
negociações se tentou incluir o tema orientação sexual e identidade de gênero, mas este 
acabou retirado do documento final devido à oposição de vários países. Entretanto, o se-
cretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, assumiu um compromisso institucional de apoiar 
as pessoas LGBTI, e acrescentou o seguinte:
Hay 17 Objetivos de Desarrollo Sostenible que se basan todos en un único principio 
rector: que nadie se quede atrás […]. Este ideal sólo se hará realidad si llegamos a todas las 
personas, cualesquiera sean su orientación sexual o identidad de género […] Poner fin a la 
marginación y la exclusión de las personas del colectivo LGBT es una prioridad de dere-
chos humanos y un requisito indispensable del desarrollo15 (NACIONES UNIDAS, 
2015).
O primeiro dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável é pôr fim à pobreza em 
todas as suas formas em todo o mundo, e até 2030 erradicar a pobreza extrema. No en-
tanto, será impossível atingir esse objetivo se as pessoas LGBTI são excluídas dos proces-
sos de desenvolvimento. Segundo dados das Nações Unidas, “36 millones de personas aún 
viven en la pobreza extrema. La gran mayoría de esos pobres pertenece a 2 regiones: Asia 
Meridional y África Subsahariana”16 (NACIONES UNIDAS, 2016). É importante res-
saltar que 5 dos 6 países (à exceção do Nepal) que compõem a Ásia Meridional têm leis 
que penalizam os atos sexuais consensuais entre pessoas adultas do mesmo sexo e, na 
África Subsaariana, 29 dos 49 países mantêm leis similares. É importante mensurar como 
a pobreza afeta as pessoas LGBTI, e um exemplo disso é o estudo realizado em 2016 nos 
Estados Unidos que revelou que: “1 de cada 4 adultos LGBT (27%), alrededor de 2,2 
millones, ha experimentado una vez en el año pasado, no tener suficiente dinero para 
15 Tradução livre: Há 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável todos baseados em um 
único princípio norteador: que ninguém fique para trás [...] esse ideal se tornará realidade 
se chegarmos a todas as pessoas, qualquer que seja sua orientação sexual ou identidade de 
gênero [...] pôr fim à marginalização e exclusão das pessoas do coletivo LGBT é uma 
prioridade de direitos humanos e um requisito indispensável de desenvolvimento.
16 Tradução livre: 36 milhões de pessoas ainda vivem na pobreza extrema. A grande maioria 
desses pobres pertence a 2 regiões: Ásia Meridional e África Subsaariana.
Gênero e Diversidade Sexual • 52 
alimentarse ellos o a sus familias, en comparación con el 17% de los adultos no LGBT”17’ 
(TAYLOR N. T. BROWN, 2016, p. 2). Esclarecer sobre como a homofobia impacta a 
vida econômica e social das pessoas LGBTI, a sociedade e o país onde vivem deve ser uma 
prioridade. É por isso que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, afirmou:
Para los individuos y sus familias se trata de una tragedia personal. Para la sociedad, es 
un desperdicio vergonzoso de talento, inventiva y potencial económico. Todos debemos 
entender que poner fin a la marginación y exclusión de las personas LGBT es una priori-
dad de derechos humanos y un imperativo de desarrollo 18(KI-MOON, 2015).
Desde o início da epidemia do HIV/AIDS, os esforços mundiais da ONU para as 
pessoas LGBTI se focaram nessa problemática; com o tempo, se desenvolveu interesse 
em promover os direitos humanos e apenas desde 2015 a instituição começou a interes-
sar-se por incluir as minorias sexuais no discurso de desenvolvimento. Devido ao com-
promisso institucional da ONU e todo seu sistema, o Programa das Nações Unidas para 
o Desenvolvimento iniciou em 2015 um processo de consultas para criar um Índice de 
Inclusão LGBTI, que avaliará as privações sociais, econômicas e jurídicas das pessoas 
com diversas orientações e identidades de gênero em todo o mundo. Esses esforços cons-
tituem o primeiro passo para medir o desenvolvimento humano em nível mundial. Foram 
concluídos 5 eixos de prioridade para medir os avanços sobre inclusão LGBTI, nos quais 
estão o bem-estar econômico, a participação cívica e política, a proteção pessoal contra a 
violência, saúde e educação. Esse índice de inclusão LGBTI será desenvolvido pelo 
PNUD para promover a inserção das pessoas LGBTI no desenvolvimento de cada país. 
Somente através do acesso à saúde, educação, participação política e bem-estar econômi-
co as pessoas LGBTI poderão ser livres. 
Uma ferramenta já conhecida é o Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD, 
que tem servido para medir os progressos em nível mundial no tocante à liberdade, e 
também outros como o Índice de Equidade de Gênero, que têm colaborado para fazer um 
mundo igualitário para homens e mulheres. Essa proposta de Índice de Inclusão LGBTI 
será uma ferramenta importante para que os Estados possam obter informações para 
avaliar suas políticas públicas e cumprir suas obrigações internacionais em direitos huma-
nos para as pessoas LGBTI.
17 Tradução livre: 1 a cada 4 adultos LGBT (27%), por volta de 2,2 milhões, experimentaram 
uma vez no ano passado não ter dinheiro suficiente para alimentar a si ou à sua família, em 
comparação com 17% dos adultos não LGBT. 
18 Tradução livre: Para os indivíduos e suas famílias, se trata de uma tragédia pessoal. Para a 
sociedade, é um desperdício vergonhoso de talento, inovação e potencial econômico. Todo 
devemos entender que pôr fim à marginalização e exclusão de pessoas LGBT é uma prio-
ridade de direitos humanos e um imperativo de desenvolvimento. 
53 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Os esforços envolvem não somente os Estados e as organizações internacionais, mas 
também é necessário o apoio do setor privado e da sociedade civil. No caso das empresas, 
deve-se garantir que em cada espaço de trabalho as pessoas LGBTI não sejam vítimas de 
discriminação e violência, mas que se sintam incluídas, respeitadas e valorizadas pelo que 
são e pelo que podem contribuir. Políticas de inclusão no trabalho de pessoas LGBTI por 
grandes e pequenas empresas podem expandir as liberdades dessa minoria e impactar 
favoravelmente a comunidade e o país. Esforços iguais são necessários em instituições 
educativas e de saúde, que podem garantir uma mudança fundamental na vida das mino-
rias sexuais.
Vikram Seth, ao ser homenageado como uma das 25 lendas vivas da Índia em 2013, 
disse, em alusão à sentença do Supremo Tribunal da Índia sobre o artigo 377 do Código 
Penal, que “a intolerancia es violencia. Una violencia aceptada con el beneplácito de la 
sociedad”19 (SETH, 2013), e é por isso que acabar com a homofobia é exterminar a vio-
lência e a ameaça ao desenvolvimento dos países.
Hoje, em 2016, a Índia segue sendo um dos 69 países em todo o mundo em que as 
relações consensuais entre adultos do mesmo sexo ainda são penalizadas. A Índia conti-
nua sendo um país, como menciona Sen, onde as privações das liberdades humanas para-
lisam o progresso da sociedade. 
As pessoas LGBTI veem suas oportunidades reais de acesso a um emprego, ou de 
mantê-lo, diminuídas devido ao mobbing homofóbico; também é reduzido o aproveita-
mento das oportunidades de educação, por serem vítimas do bullying, que as força a aban-
donar a escola; o acesso aos serviços de saúde leva ao receio de receber tratamento de 
DSTs, por causa do estigma; a falta de apoio da família, que as expulsam de casa; uma vida 
demedo da violência e a falta de autoridades sensíveis, que deixam prevalecer a impuni-
dade após denúncias. Todas essas consequências da homofobia repercutem, como temos 
visto, no crescimento econômico de um país, já que essas situações provocam depressão, 
diminuindo a capacidade de aprendizagem, o estado de saúde, a produtividade, causando 
perda de horas de trabalho e inversão do capital humano. 
A homofobia não somente custa vidas, causa dor às pessoas LGBT, fere seus familia-
res e amigos, mas também impõe um substancial custo econômico a todo o país.
A homofobia representa diferentes ameaças para o rendimento das empresas, quando 
estas não aproveitam o potencial de seus empregados LGBTI, acarretando aumento dos 
custos derivados da discriminação; representa uma ameaça para o crescimento econômico 
dos países ao demandar maiores custos em serviços de saúde, seguridade e justiça. E, sem 
dúvidas, representa o maior obstáculo para as pessoas LGBTI, que sofrem um drama 
humano todos os dias de sua vida sem poder vivê-la como gostariam.
19 Tradução livre: a intolerância é violência. Uma violência com a aprovação da sociedade.
Gênero e Diversidade Sexual • 54 
Além de gerar benefícios econômicos, maximizar a felicidade, reduzir e minimizar a 
ação do Estado, a busca por liberdade deve basear-se na eficiência, equidade e igualdade 
como componentes essenciais para o desenvolvimento. O sofrimento que causa a homo-
fobia a suas vítimas, a seus familiares e amigos não deve atrair a atenção dos tomadores de 
decisões ao ser ressaltado em gráficos micro ou macroeconômicos que mostrem como a 
exclusão impacta suas finanças. Os avanços alcançados contra o racismo, a xenofobia, o 
sexismo e outras formas de exclusão das minorias não se basearam em economia, mas na 
legítima defesa da dignidade humana, valor universal de todos os seres humanos. 
Com esse enfoque de desenvolvimento baseado em liberdade proposto por Amartya 
Sen, as pessoas LGBTI devem ver-se como agentes capazes de construir a vida que que-
rem, e o Estado e a sociedade devem respeitá-las e lhes dar oportunidades para que esco-
lham sua própria concepção de viver sem impor ou restringir seus direitos. Nos últimos 
20 anos, 60 países aprovaram leis que protegem as pessoas contra a discriminação no 
trabalho; mais de 40 países descriminalizaram as relações sexuais consensuais entre pes-
soas do mesmo sexo; vários países aprovaram o casamento igualitário, a adoção de filhos 
por casais do mesmo sexo, e colocaram na constituição de seus países a não discriminação 
por orientação sexual e identidade de gênero, além de outros progressos jurídicos, sociais 
e econômicos. Esses avanços nos motivam a confiar em que uma mudança imbatível em 
relação à liberdade das minorias sexuais está em curso.
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Os Direitos das Pessoas LGBT como questão de Segurança 
Humana no Contexto Internacional
Elias David Morales Martinez1
O conceito de segurança humana é relativamente recente. Ele nasce a partir da nova 
realidade do sistema internacional do pós-Guerra Fria. Até então, priorizava-se a segu-
rança do Estado como conceito tradicional nos estudos que abordavam as problemáticas 
de natureza internacional. O Estado era o elemento a ser securitizado e protegido peran-
te as lógicas que regiam o mundo bipolar. Questões mais sociais, humanas e ambientaisnão tinham espaço suficiente para serem discutidas no contexto internacional com a im-
portância que mereciam. 
Assim, o período do pós-Guerra Fria traz consigo uma nova percepção da agenda 
internacional para discutir os assuntos que durante a Guerra Fria não foram tratados 
devidamente. As especificidades dos direitos humanos e os problemas ambientais, assim 
como seus impactos nas organizações internacionais, permitiram que novas abordagens 
teóricas fossem elaboradas para a compreensão da nova configuração do mundo do pós-
-Guerra Fria.
Tanto o conceito de segurança humana como a emergência dos direitos da população 
LGBT vão ter abertura expressiva e significativa para ampliar o debate no contexto inter-
nacional contemporâneo e moldar novas demandas locais (dentro dos Estados), regionais 
(processos de integração) e globais (organismos internacionais). A abordagem da segu-
rança humana cujo eixo temático consiste em antepor o indivíduo ao Estado considera, 
assim, uma ampliação conceitual, um leque de diferentes temáticas e áreas de interação 
humana, nas quais são identificadas as categorias de ameaças à segurança internacional, 
não mais como foco nos Estados (conforme abordagens tradicionais da Guerra Fria e a 
Escola de Copenhague), e nem nas estruturas sociais de dominação (conforme a Escola 
de Gales), mas sim na essência e natureza do ser humano, o qual constitui sociedades e 
grupos de ordem civil. 
Nesse sentido, o presente texto analisa o conceito de segurança humana, suas ori-
gens, seus desdobramentos recentes e sua interação com os direitos LGBT em plena 
1 Professor do Bacharelado em Relações Internacionais e do programa de Pós-Graduação 
em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC. Contato: david.mora-
les@ufabc.edu.br 
mailto:david.morales@ufabc.edu.br
mailto:david.morales@ufabc.edu.br
57 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
emergência internacional. Esta interseção revela a significativa importância que vêm 
adquirindo as demandas da população LGBT no mundo, não como uma questão de 
ordem, mas sim como uma constatação de humanização do direito na busca da igual-
dade civil e no combate à discriminação e violência LGBTfóbica de qualquer tipo. Para 
finalizar, discutiremos o porquê da necessidade de incentivar iniciativas e projetos de 
vanguarda que priorizem a segurança humana como é o caso do Observatório LGBT 
da Universidade Federal do ABC.
O Conceito de Segurança Humana
Tradicionalmente, no contexto do sistema internacional, o conceito de segurança foi 
centralizado no Estado, principalmente durante o período da Guerra Fria, impossibili-
tando um debate amplo das mais diversas temáticas que hoje são contempladas sob o 
olhar de uma abordagem mais abrangente. Nessa perspectiva tradicional, a segurança in-
ternacional estava focalizada no Estado baseada nos conceitos clássicos de poder, guerra 
e paz, o que favoreceu a percepção de se manter uma soberania estatal que defendesse a 
integridade territorial e fortalecesse a capacidade militar para conter as ameaças externas 
e internas ao Estado como elemento central da segurança.
O conceito tradicional de segurança internacional foi construído a partir das contri-
buições das escolas realista e idealista e nas suas versões neo-neo. Dos realistas herdamos 
as análises de entender o mundo a partir do conceito do poder e garantir assim a manu-
tenção da sobrevivência do Estado. Autores como Morgenthau (2003), Hoffmann (1991) 
e Waltz (2002) reconhecem que o sistema internacional é anárquico, caracterizado pela 
ausência de um governo central acima da autoridade dos Estados, que exercem soberania 
e jurisdição territorial inquestionável. Cada Estado terá que propender pelos seus pró-
prios interesses no contexto internacional em concorrência com outros Estados, o que 
gera conflito entre eles, uma vez que existem visões de mundo divergentes e isso muitas 
vezes pode levar ao uso da força militar para a satisfação da segurança.
Essa visão bélica do cenário internacional é contrastada pelos idealistas e institucio-
nalistas, que defendem a existência de cooperação entre os Estados para manter a segu-
rança internacional em equilíbrio. Keohane e Nye (1988), Nye (2009) e Rosenau e Czem-
piel (2000) argumentam que, devido aos desdobramentos do sistema internacional, há 
uma multiplicidade de atores para além do Estado, o que favorece um ambiente não só de 
conflito mas também de cooperação e de interdependência gradual entre todos os atores 
do sistema internacional. Nesse sentido, essa abordagem deu início a uma redefinição da 
centralidade e prioridade concedidas ao Estado por parte dos realistas, o que favoreceu a 
emergência de novos debates em torno do reconhecimento de outros atores relevantes no 
cenário internacional. A contribuição dessa abordagem daria abertura para que novas 
Gênero e Diversidade Sexual • 58 
interpretações sobre a segurança internacional fossem levantadas, não mais centradas no 
ator estatal, mas contemplando outras áreas e atores das relações internacionais.
Rutzit (2005, p. 297) argumenta que, devido ao desaparecimento da Guerra Fria no 
final da década de 1980 e início da década de 1990, o tema da segurança internacional 
voltou a ser destaque, principalmente após os ataques terroristas de 2001. Mas nesse pe-
ríodo, entre o início do Pós-Guerra Fria e o início do século XXI, várias perspectivas da 
segurança com um viés mais amplo que desde a década de 1970 estavam sendo construí-
das, agora com mais transcendência para figurar. A Escola de Copenhague, liderada por 
Buzan e Weaver (1997), por exemplo, apresenta uma abrangência do conceito de segu-
rança em 5 dimensões: militar, econômica, societal, ambiental e estatal. Mesmo mantendo 
o Estado como ator central, essa abordagem reconhece outros atores e o conceito de se-
gurança se amplia nessas áreas, o que permite uma maior flexibilização perante a rigidez 
das abordagens realistas. 
Moller (1996) argumenta que, para entender o diferencial das novas abordagens da 
segurança internacional no Pós-Guerra Fria, é necessário comparar o objeto referente de 
segurança com os postulados das teorias das relações internacionais. Dessa forma, pode-
-se perceber que existe uma diversidade na qual as novas contribuições constatam a des-
continuidade com o reducionismo da segurança no elemento do Estado, dando priorida-
de ao indivíduo e suas dimensões de atuação. 
Na visão de Oliveira (2009, p. 68-69) as formulações das correntes alternativas sobre 
segurança, principalmente na década de 1990, são fortalecidas pelas novas realidades do 
mundo Pós-Guerra Fria, que abriram caminho para que fosse formulada uma nova pro-
posta de segurança abrangente focalizada no indivíduo e não mais no Estado, como tra-
dicionalmente foi. Nas palavras da autora:
Em linhas gerais, pode-se dizer que a segurança humana foca o indivíduo e não o 
Estado, como sujeito de segurança. O Estado é o meio pelo qual o indivíduo pode ter o seu 
bem-estar, liberdade e direitos garantidos e efetivados. Esta mudança traz profundas im-
plicações teóricas e práticas para as políticas dos Estados (OLIVEIRA, 2009, p. 68).
O conceito de segurança humana foi apresentado oficialmente pela Organização das 
Nações Unidas – ONU no ano de 1994, através do Programa de Desenvolvimento das 
Nações Unidas – PNUD, no relatório anual sobre Desenvolvimento Humano. O informe 
sugere que os países façam uma transição do conceito tradicional de segurança baseado 
no Estado e no viés militar, para uma nova abordagem mais humana, explorando novas 
fronteiras da vida cotidiana das pessoas, suas necessidades e áreas de interação social.
Para o PNUD (1994, p. 3) a preocupação das pessoas em relação à segurança não se 
dá mais em nível de catástrofe internacional, mas sim a partir da vida diária, de modo a 
identificar antecipadamente sinais de alarme de eventuais crises, para, na medida do pos-
59 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
sível, colocarem funcionamento estratégias de prevenção e evitar tragédias de diferentes 
naturezas que atentam à dignidade humana.
O conceito de segurança humana, na ponderação do PNUD (1994, p. 22-23), está 
fundamentado em quatro pilares essenciais: universalidade, interdependência, prevenção e 
centralidade no ser humano. A segurança humana contempla, de fato, uma preocupação 
universal no sentido de que existem ameaças que desafiam tanto os países desenvolvidos 
quanto os emergentes e os em desenvolvimento. Crises econômicas, de saúde, sanitárias, 
narcotráfico, violência urbana e mudanças climáticas, assim como a violação dos direitos 
humanos, estão presentes em todos os países, produzindo ameaças aos indivíduos de for-
ma constante.
As dimensões da segurança humana são interdependentes e, consequentemente, 
quando a segurança dos indivíduos é ameaçada em alguma parte do mundo, isso com 
certeza reverbera em outros lugares, afetando relativamente outros países e suas popula-
ções. Os acontecimentos que antes eram isolados, tais como desastres ecológicos, conflitos 
étnicos, epidemias, fome, terrorismo, tráfico de drogas e violações aos direitos humanos e 
minorias não ficam mais limitados às fronteiras do Estado onde acontecem.
Por outro lado, a segurança humana facilita que sejam tomadas medidas preventivas a 
fim de evitar posteriormente intervenções bruscas e mais duras através de políticas densas 
por parte dos Estados. Um exemplo de segurança humana preventiva é o tratamento dado 
à epidemia de AIDS por parte da ONU, como também de alguns governos orientados 
pela humanização da tragédia e suas consequências. No relatório do PNUD fica evidente 
que os custos causados por essa epidemia foram altamente superiores em comparação 
com os baixos custos de investimentos em saúde preventiva e no planejamento familiar.
A segurança humana, ao contrário das abordagens tradicionais, está centralizada 
no ser humano, no indivíduo, se preocupando com as pessoas que vivem em sociedade 
para garantir a liberdade de escolha, as oportunidades, satisfazendo as suas necessida-
des e, de forma especial, preocupando-se com a forma pela qual as pessoas vivem, em 
paz ou em conflito.
A segurança humana possui dois aspectos principais que são reconhecidos desde a 
fundação das Nações Unidas mas que não foram implementados de forma apropriada 
pela comunidade internacional. Em primeiro lugar, freedom from want ou ausência de 
necessidades, para manter os indivíduos salvos de ameaças crônicas como fome, doenças 
e repressão. Em segundo lugar, freedom from fear ou ausência de medo, para manter a 
salvo os indivíduos de ameaças súbitas e nocivas como genocídios, limpezas étnicas e 
violência contra as minorias (PNUD, 1994, p. 24-25).
O conceito de segurança humana se complementa a partir das sete dimensões de ação 
que integralizam e efetivam a sua implementação: a segurança econômica, alimentar, sani-
tária, ambiental, pessoal, comunitária e política. Todas elas com foco nos indivíduos para 
garantir a universalidade, a interdependência e a prevenção.
Gênero e Diversidade Sexual • 60 
A segurança econômica trata de garantir aos indivíduos condições suficientes para que 
tenham um trabalho digno, produtivo e remunerado, contando com os recursos mínimos 
para resolver os problemas estruturais e evitar ao máximo o desemprego, a desigualdade 
social e econômica, assim como a precarização e informalização do trabalho.
Quanto à segurança alimentar, pretende-se garantir por todos os meios que as pessoas 
possam ter acesso aos alimentos básicos e a uma boa nutrição, sem barreiras nem obstá-
culos físicos e nem políticos, evitando a má administração dos víveres e priorizando todos 
os mecanismos de distribuição de alimentos.
Com relação à segurança sanitária, o relatório do PNUD enfatiza que as ameaças sa-
nitárias tais como falta de água potável, acidentes de trânsito, doenças contagiosas, para-
sitárias, respiratórias e outros tipos de doenças são mais presentes em regiões de pobreza 
e de extrema pobreza. A segurança humana propende a manter afastados os indivíduos 
dessas ameaças garantindo acesso a saúde.
A respeito da segurança ambiental, as consequências derivadas do aquecimento global 
devem ser contidas para evitar que tragam efeitos adversos às populações, principalmente 
às mais vulneráveis. O desmatamento, o não tratamento das fontes hídricas, a poluição 
atmosférica, a camada de ozônio e as secas são considerados potenciais ameaças para a 
segurança humana.
Por outro lado, a segurança pessoal trata da proteção contra a violência física que pro-
vém do próprio Estado (o que é considerado tortura) ou de outros Estados (na condição 
de guerra), como também de outros indivíduos (o que seria violência urbana, crimes, 
violência contra mulher, contra as minorias e todas as fobias sociais), assim como da pro-
teção de qualquer outro grupo que apresente relativa vulnerabilidade.
Por sua vez, a segurança comunitária trata da garantia das pessoas poderem manifes-
tar a sua identidade cultural e seus valores familiares, da comunidade, dos grupos étni-
cos, sociais, além do fortalecimento das tradições ancestrais das organizações humanas 
étnicas e indígenas.
Finalmente, na segurança política são abordados tanto os direitos humanos dos cida-
dãos de um Estado como também os empecilhos, travas e dificuldades que impedem a 
implementação desses direitos dentro do Estado. Assim, a segurança política estabelece o 
compromisso de manter um direito civil sólido e ágil para garantir a governabilidade 
democrática, o funcionamento do Estado de direito e o respeito pelos direitos humanos.
Assim sendo, e tendo em conta a explicação das origens do conceito da segurança 
humana e que está sendo construído desde a Guerra Fria, suas principais características 
intrínsecas (freedom from want, freedom from fear), os quatro pilares (universalidade, inter-
dependência, prevenção e humanização) assim como as sete dimensões expostas anterior-
mente (econômica, alimentar, sanitária, ambiental, pessoal, comunitária e política), podemos 
evidenciar que a segurança humana está profundamente relacionada com a defesa dos 
direitos das pessoas LGBT no plano internacional. 
61 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
A interseção da segurança humana e a defesa dos direitos das pessoas 
LGBT
O conceito de segurança humana pode ser utilizado para analisar a paulatina emer-
gência no mundo dos direitos das pessoas LGBT, principalmente no Pós-Guerra Fria. Ao 
se alargar o conceito de segurança são compreendidas as ameaças externas aos Estados, 
como também as ameaças internas que vêm do próprio Estado, contemplando assim não 
somente as ameaças violentas ou hard threats, mas também aquelas que aparentemente 
não são tão violentas, ameaças leves ou soft threats, mas que causam mortes que podem ser 
evitadas pela prevenção (BALLESTEROS, 2014, p. 30).
Não é desconhecido o fato de que existe uma violência geral contra as pessoas LGBT 
no mundo inteiro, violência que é velada e que se manifesta em diferentes níveis depen-
dendo do país, da cultura e do regime político em exercício governamental e local. Mesmo 
que existam algumas conquistas em vários países, e avanços sejam dados na luta pela 
igualdade, ainda as estatísticas demonstram uma considerável realidade quando falamos 
do aumento da violência por orientação sexual e identidade de gênero. 
Isso poderia ser caracterizado como uma soft threat, mas na verdade, se observamos 
em maior profundidade, é de fato uma hard threat, pois, mesmo que não existam grandes 
extermínios em massa localizados, há práticas sistemáticas, em todos os países, de perse-
guição, crime, ódio e preconceito que geram ataques que produzem mortes que poderiam 
ter sido evitadas. Lembremos que em 78 países do mundo as práticas homossexuais ainda 
são consideradas como crime, e, devido a esse caráter de ilegalidade, muitas vítimas so-
frem os abusos e não têm como denunciar (REID, 2014, p. 2). E mais ainda,entre esses 
países, cinco são muito mais violentos, pois castigam com a morte a todo aquele que 
exerça seu direito de amar diferentemente da prática heterossexual.
Por isso, essa violência que se vivencia em aumento contra a população LGBT é uma 
temática objeto de cobertura pela segurança humana, uma vez que esta fortalece o desen-
volvimento humano e assim melhora a prática dos direitos humanos, o que leva à existên-
cia de uma proteção política e jurídica que salvaguarde os indivíduos mais vulneráveis, 
como é o caso das pessoas LGBT. A esse respeito, Ballesteros (2014, p. 31) argumenta: “o 
que caracteriza a segurança humana é a convicção de que não se pode perseguir a segu-
rança violando os direitos humanos, pois a verdadeira segurança humana consiste em fa-
zer os direitos humanos efetivos a todos”. 
Isso tem tudo a ver com o primeiro pilar da segurança humana, a universalidade, pois 
existe uma preocupação de que os direitos humanos sejam de fato respeitados e garanti-
dos em todos os países. Branco (2011) expõe que, desde a aprovação da Declaração Uni-
versal dos Direitos Humanos em 1948, a ONU tem feito destacados progressos no que 
tange à proteção e promoção dos direitos humanos relacionados à orientação sexual e 
identidade de gênero. O autor destaca igualmente o fato da Organização Mundial da 
Gênero e Diversidade Sexual • 62 
Saúde, em 1992, ter eliminado a homossexualidade da lista de enfermidades mentais, 
sendo que 17 de maio passou a ser festejado como o dia do combate a todas as fobias 
relativas à orientação sexual e identidade de gênero.
O exemplo da ONU é um caso expressivo de que existe em curso uma governança 
global sobre as questões LGBT em plena construção. Desde 1966 o Pacto Internacional 
de Direitos Civis e Políticos já incluía a não discriminação legislativa por orientação se-
xual buscando a sua prevenção. Igualmente, a Carta de Direitos Fundamentais da União 
Europeia de 2000 determinou que seus Estados membros censurassem legalmente a dis-
criminação por motivos de orientação sexual. 
Outro exemplo da universalidade da segurança humana com relação aos direitos das 
pessoas LGBT que tem sido de enorme impacto são os Princípios de Yogyakarta de 2006, 
nos quais se estabelecem os parâmetros internacionais da aplicação dos direitos humanos 
com relação à orientação sexual e identidade de gênero contra os atos violentos que essas 
pessoas sofrem em todos os países. Também incluímos nessa governança as resoluções e os 
informes sistemáticos que o Conselho dos Direitos Humanos da ONU vem produzindo, 
principalmente desde 2011, todos voltados para o combate da discriminação e fortaleci-
mento das garantias de igualdade e de sensibilização perante os direitos humanos. Vale 
lembrar aqui o enorme impacto gerado pela leitura pública do informe da Resolução 17/19 
feita pelo Secretário Geral da ONU Ban Ki-moon (REID, 2014). Esse informe trata dos 
abusos dirigidos às pessoas por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero.
Em nível regional encontramos também uma expressiva normatividade, principal-
mente pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização de Estados 
Americanos, que desde 2008 aprova anualmente resoluções sobre direitos humanos, 
orientação sexual e identidade de gênero, sempre buscando alertar sobre a situação no 
continente com o intuito de favorecer a implementação desses direitos nos respectivos 
países que compõem a Organização, incentivando a aprovação de normas e leis que per-
mitam uma verdadeira igualdade civil para todas as pessoas LGBT.
Esse aspecto corresponde ao pilar da interdependência da segurança humana, no sen-
tido de que existe uma adesão gradual e paulatina de alguns países para criar leis e emitir 
normas de igualdade em relação à orientação sexual e identidade gênero dos seus cida-
dãos. Porém, nem todos os países ao mesmo tempo têm aderido a essas mudanças nas 
suas arquiteturas jurídicas (constituição, leis, normas e decretos, resoluções). 
Nos últimos anos esse processo de igualdade, de penalização da LGBTfobia, assim 
como a aprovação e implementação de políticas públicas voltadas para a população mais 
vulnerável desse setor, tem acontecido de forma constante, e, mesmo que timidamente, as 
conquistas têm sido favoráveis. Por exemplo, com relação ao casamento igualitário, segun-
do dados da ILGA (2016), o efeito cascata na América Latina foi iniciado pela Argenti-
na em 2010, seguida pelo Uruguai (2013), Brasil (2013), Guiana Francesa (2013), Méxi-
63 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
co (2013) e Colômbia (2016). O Canadá foi o primeiro país da América a aprovar o ca-
samento entre pessoas do mesmo sexo em 2005, e os Estados Unidos somente o fizeram 
em 2015. Por sua vez, a Europa é o continente onde a maioria dos países reconhece tais 
uniões e garante aos seus cidadãos direitos e deveres iguais para todos, independentemen-
te da orientação sexual e identidade de gênero. 
De conformidade com os dados da ILGA (2016), até o primeiro semestre de 2016, 22 
países reconhecem o casamento em iguais condições, enquanto 19 países reconhecem 
uma união quase equivalente ao casamento, e 6 países uma união notavelmente inferior 
ao casamento convencional. Somente em 26 países se reconhece o direito de adoção con-
junta pelo casal homo-afetivo, e em 33 a adoção pelo segundo pai ou segunda mãe. 
Essa interdependência em matéria de reconhecimento de uniões maritais civis de 
pessoas LGBT que se está sendo gerada entre os países, principalmente no mundo oci-
dental, se dá no sentido de outorgar um reconhecimento igualitário ao indivíduo de ad-
quirir um direito e um compromisso civil e jurídico perante o Estado junto à pessoa com 
quem pretende viver em união conjugal, e assim tornar oficial, perante as autoridades, o 
núcleo familiar constituído.
Os avanços jurídicos favoráveis às pessoas LGBT não se referem somente à igualdade 
de direitos, mas também à busca de proteção perante crimes de ódio, preconceito, intole-
rância, abuso e fobia. Nesse aspecto, o que se pretende, além de proteger o indivíduo, é 
criar mecanismos sólidos para prevenir que outras pessoas sofram atropelos, crimes e in-
júrias pelo simples fato de manifestar e vivenciar sua sexualidade e seu gênero livremente. 
Estamos falando do terceiro pilar da segurança humana, que é a prevenção. 
Como exemplo do pilar da prevenção, os dados da ILGA (2016) revelam que em 40 
países a orientação sexual é considerada circunstância agravante de delitos, e em 36 países 
há proibição de incitação ao ódio por orientação sexual. No entanto, somente em 14 paí-
ses há proibição constitucional da discriminação por orientação sexual, enquanto que em 
39 países existem outras disposições contradiscriminatórias que contemplam expressa-
mente a orientação sexual. 
Como exemplo do quarto pilar da segurança humana, a humanização ou segurança 
centrada no indivíduo, podemos citar a questão da criminalização da homossexualidade 
que existe ainda em vários países. O trabalho que vem sendo empreendido pela ONU e 
por outros organismos e ONGs internacionais no sentido de informar, debater, argumen-
tar, discutir e promover a igualdade de direitos para as populações LGBT, também está 
direcionado aos países que até o presente momento criminalizam a sexualidade que não 
corresponde à heteronormativa. As estatísticas fornecidas pela ILGA (2016) revelam que 
em 13 países existe pena de morte para as pessoas homossexuais, 14 países impõem prisão 
perpétua, 43 pena de prisão de 3 a 14 anos, e em 8 países se condena a homossexualidade 
com multa. Nos últimos 3 anos houve detenções e castigos, nas categorias anteriores, em 
pelo menos 49 países.
Gênero e Diversidade Sexual • 64 
A segurança humana coloca o indivíduo como centro do processo securitizador 
para garantir os seus direitos humanos e civis conforme os acordos internacionais esta-
belecem. Por isso, conforme Benedeck (2008) argumenta, é possível asseverar que a 
segurança humana eos direitos humanos e civis estejam interconectados e sejam inter-
dependentes um ao outro, pois eles se reforçam mutuamente e de forma profunda e, 
dessa forma, não há como encontrar a segurança humana sem o cumprimento integral 
e universal dos direitos humanos. 
Ambos os conceitos, direitos humanos e segurança humana, reconhecem o direito de 
todo indivíduo à vida, à liberdade, à segurança pessoal e à defesa da dignidade humana. 
Segundo Benedeck (2008), os dois conceitos não devem ser usados de forma indistinta. 
Os direitos humanos têm caráter normativo e vinculante, enquanto que a segurança hu-
mana é ainda um conceito político e holístico. Nos direitos humanos, as ameaças são 
tratadas através do direito internacional, ao contrário da segurança humana, que tem 
como apoio a cooperação internacional. Além disso, a segurança humana é que tem o 
poder de elevar o grau de emergência de ameaças e, como consequência disso, vai ao en-
contro dos direitos humanos em nome da sobrevivência do indivíduo e das comunidades.
Como podemos observar até aqui, as duas características intrínsecas da segurança 
humana, liberdade ou ausência de medo e liberdade ou ausência de necessidades, podem ser 
claramente evidenciadas na prática da segurança humana, quando são aplicadas aos desa-
fios que os direitos LGBT experimentam nos últimos anos. Ao mesmo tempo em que há 
relativos avanços em alguns países para proteger as minorias por orientação sexual, ainda 
paira uma profunda sensação de medo pela persistência do preconceito nas diferentes 
sociedades, e em alguns países pela radicalização da homofobia como projeto político. 
Igualmente, quando falamos de ausência de necessidades, a segurança humana se 
preocupa em garantir ao indivíduo que seus direitos (que são humanos) sejam respeita-
dos e cumpridos. Assim, o direito a uma vida digna, à educação, à saúde e ao trabalho, 
que estão consagrados pelos direitos humanos e direitos civis, não estão plenamente 
garantidos para a população LGBT na maioria dos países. São muitos os empecilhos, 
de natureza cultural, social e jurídica que estabelecem travas e preconceitos que dificul-
tam, principalmente para a população transexual, o pleno acesso à educação, saúde e 
emprego dignos e de qualidade. 
Isso está relacionado com a dimensão econômica proposta pela segurança humana, que 
defende condições suficientes para que os indivíduos tenham um emprego digno e remu-
nerado para assim diminuir a desigualdade social e evitar, além do desemprego, a infor-
malidade de trabalho, como também para quebrar a rigidez do sistema educacional exclu-
sivo. Portanto, é necessário que cada vez mais os governos implementem políticas de in-
clusão empregatícia e educativa para lograr uma sociedade mais justa equitativa, mesmo 
nos países que têm demonstrado avanços nessa matéria.
65 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Outra dimensão da segurança humana que se destaca nesta análise é a segurança pes-
soal, pois ela pretende que exista uma proteção aos indivíduos contra qualquer tipo de 
violência física externa ou interna, com relação ao Estado. A segurança pessoal trata da 
proteção contra a violência física que provém do Estado, que é considerada tortura ou 
perseguição contra minoria, uma vez que os direitos humanos da população-alvo ficam 
evidentemente violentados. Mais uma vez lembremos que segundo os dados fornecidos 
pela ILGA (2016), em 13 países as relações homoafetivas são castigadas com pena de 
morte, e isso é uma causa de segurança pessoal. 
A particularidade das pessoas LGBT é que sua luta é por uma questão de reconheci-
mento e de igualdade de direitos e não de privilégios, como defendem os setores conser-
vadores e fundamentalistas. Nesse sentido, há uma percepção de que as reivindicações da 
população LGBT são também uma causa de segurança comunitária, pois buscam poder 
manifestar sua identidade sexual e de gênero como uma expressão natural da essência 
humana. Essa expressão é percebida não somente como uma luta social, mas como resul-
tado de uma providência das agrupações humanas espalhadas pelo mundo inteiro que 
defendem o reconhecimento dos seus direitos iguais assim como os da maioria de orien-
tação heterossexual e, por conseguinte, a diminuição das ameaças à sua existência e ex-
pressão de afeto e amor que é característico da espécie humana. 
Finalmente, a luta pela defesa e pelo reconhecimento dos direitos das populações 
LGBT no mundo está contemplada nas dimensões econômica, pessoal e comunitária, e es-
sas três se concentram na dimensão política da segurança humana. O embate político se 
dá principalmente quando emerge a necessidade de se encontrar mais vias para aliviar a 
opressão política que as minorias por orientação sexual e identidade de gênero sofrem em 
países democráticos e muito mais nos países sob regimes repressivos, totalitários e funda-
mentalistas.
Reid (2015) analisa o fato de que, ainda que os avanços na América Latina sobre os 
direitos das pessoas LGBT nos últimos anos tenham surpreendido o mundo, há um mo-
vimento paralelo de crescimento de condutas orientadas pela LGBTfobia, e o uso políti-
co de determinados procedimentos conduz a um acirramento da intolerância em vários 
governos nos diferentes continentes, estabelecendo, assim, uma dicotomia de valores, 
principalmente nos países com regimes repressivos, conservadores e fundamentalistas. 
Por isso, consideramos que é uma questão de segurança política a defesa dos direitos 
LGBT, pois não há igualdade social sem direitos humanos iguais para todos. Nesse sen-
tido, podemos evidenciar os riscos que estão latentes quando se trata de politizar os direi-
tos humanos para as pessoas LGBT de forma negativa. Na visão de Reid (2015, p. 2):
Acusar de homossexualidade com fins políticos flagrantes não é novo [...] é fácil obser-
var como as leis homofóbicas servem aos interesses dos Estados repressivos. Pelo procedi-
mento de assinalar um grupo social taxando-o de marginal e ameaçador, a legislação cria 
Gênero e Diversidade Sexual • 66 
uma dicotomia entre “inseridos” e “marginais” e estabelece os parâmetros da “comunidade” 
[...] A homofobia é uma realidade e uma estratagema. Uma realidade porquanto é genera-
lizada e acontece em todas as sociedades do mundo, e é estratagema na medida em que os 
que ocupam o poder manuseiam a homofobia para apontar a sua legitimidade, aumentar a 
sua popularidade e desviar a atenção dos problemas sociais. Ao fazer uma minoria impopu-
lar e em grande medida invisível, bode expiatório, alguns países com leis homofóbicas lo-
gram criar um pânico moral, o que pode facilmente estabelecer uma caça às bruxas.2
A iniciativa do Observatório LGBT da UFABC como expressão de 
segurança humana 
O projeto que nasceu na UFABC como resposta às manifestações LGBTfóbicas em 
2015 se materializou como um observatório dedicado ao estudo das mais diversas ques-
tões que tocam o universo da diversidade sexual e da identidade de gênero. Essa iniciativa 
desde o início foi orientada para atender às necessidades da região do Grande ABC e 
preencher assim uma lacuna que existia com relação a essas temáticas.
Vimos que a segurança humana focaliza sua ação no indivíduo como ente receptor de 
proteção e de igualdade social, para garantir assim as liberdades humanas e a realização 
pessoal de todos os cidadãos. Isso significa proteger as liberdades fundamentais que são 
essenciais à vida em situações de ameaças críticas e constantes, o que implica criar siste-
mas políticos, culturais e sociais que sirvam de base para que as pessoas possam garantir 
sua sobrevivência, sua dignidade e a plenitude dos seus direitos garantidos.
Assim sendo, o Observatório LGBT da UFABC se projeta como espaço para analisar 
todas essas ameaças que atentam contra a segurança humana da população LGBT, não 
somente da região como do Estado, do País e do sistema internacional. A partir da sua 
metodologia de funcionamento baseado no tripé ensino – pesquisa – extensão, elepode 
fornecer ferramentas de interação entre a comunidade acadêmica e os grupos sociais e de 
militância que tanto contribuem para o reconhecimento dos direitos LGBT nas diferen-
tes áreas de atuação. 
Para que se tenha uma ideia da relevância que terá o Observatório, é importante des-
tacar dados recentes sobre a realidade da violência contra LGBTs na região do Grande 
ABC. Na matéria publicada por Mecário (2015), vimos que os casos de homofobia se 
tornaram cada vez mais frequentes na região. Em 2015 o número de denúncias registra-
das só pela ONG ABCD’s foi de 148, representando um aumento de 59% em relação aos 
dados de 2014, que registraram 93 casos. 
2 Tradução livre
67 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Em nível estadual assim como no federal, podemos ver o aumento dos casos conforme 
os dados do relatório sobre violência homofóbica no Brasil publicado pela Secretaria 
Especial dos Direitos Humanos nas edições anuais de 2011, 2012 e 2013. Nesse último 
relatório publicado em 2016 fica clara a situação do país em relação ao alarmante aumen-
to de casos que envolvem violência contra a população LGBT: 
O Brasil vive, atualmente, um movimento contraditório em relação aos direitos huma-
nos da população de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis ‐ LGBT. Se por um 
lado conquistamos direitos historicamente resguardados e aprofundamos o debate público 
sobre a existência de outras formas de ser e se relacionar, por outro acompanhamos o con-
tínuo quadro de violência e discriminação que a população LGBT vive cotidianamente. 
Vemos que ser LGBT, infelizmente, ainda configura uma situação de risco. Violações de 
direitos são cometidas com frequência e por motivações diversas. Porém, frear essas pro-
gressões de modo que um LGBT possa sentir cada vez mais segurança em ser quem é, é 
um compromisso a ser firmado. Só será possível fazer algo frente a essa situação por meio 
de informações que sejam capazes de traduzir essa realidade (SEDH, 2016, p. 4).
O Observatório tem como responder a todo esse desafio regional e global, a partir do 
foco no indivíduo e na prevenção através de estudos que tratem essa questão da seguran-
ça pessoal, comunitária, política e econômica das populações LGBT. A partir do tripé no 
qual se baseia o Observatório, o foco da centralidade no indivíduo e a busca por estraté-
gias que levem à prevenção e à dissuasão de ataques violentos se torna fundamental para 
que a pesquisa, o ensino e a extensão sejam direcionados para o bem-estar da população 
LGBT como garantia de igualdade de direitos e de segurança humana plena. 
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Lutas, disputas e reações por 
direitos para a população LGBT
De olhos vendados: a invisibilidade da união homoafetiva 
no Congresso Nacional e a oficialização pelo Supremo 
Tribunal Federal
Juliana Fabbron Marin Marin1
Este artigo se propõe a discutir o silêncio do Legislativo no que tange à legalização da 
união entre pessoas do mesmo gênero, demonstrando os mecanismos utilizados para que 
este tema não permanecesse entre as paredes do Congresso Nacional e fosse transposto a 
um Poder que, acionado, teria que se pronunciar – seja de maneira favorável ou contrária 
– sobre a possibilidade de pessoas do mesmo gênero regularizarem a sua união nos termos 
do Direito.
Pouco mais de uma década e meia após a proposição do primeiro projeto de lei a 
abordar a legalização da união civil entre homoafetivos, foi oficializada a união entre 
pessoas do mesmo gênero pelo Supremo Tribunal Federal, órgão que compõe o Judiciário, 
representando a última instância desse Poder.
A demanda pela legalização dessa união nasce no cenário político com o movimento 
LGBT. Ao se politizar e se aproximar de partidos políticos na década de 90, o movimen-
to assume a postura de luta por direitos e isso se reflete em aumento da visibilidade social 
e no contexto do Legislativo por meio da proposição de projetos de lei, doExecutivo por 
meio da demanda de implementação de políticas públicas e do Judiciário pela proposição 
de ações em casos individuais. 
A construção social que legitima os padrões heterocisnormativos incorre na invisibi-
lidade dos sujeitos que se contrapõem às regras estabelecidas pela suposta maioria. A 
manutenção das normas sociais – leia-se os costumes e tradições – e das normas propria-
mente legais, pertencentes ao ordenamento jurídico brasileiro, fornecem respaldo à mar-
ginalização das chamadas minorias (mulheres, negros e LGBTs).
Dando ênfase ao objeto de pesquisa deste artigo – a união entre pessoas do mesmo 
gênero – verifica-se que preconceitos, discriminações e não garantia de direitos já atribuí-
dos aos heteroafetivos são legitimados por discursos baseados na moral, nos “bons” costu-
1 Mestranda em Políticas Públicas pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas 
da Universidade Federal do ABC e fundadora/participante do Observatório LGBT da 
UFABC. 
Gênero e Diversidade Sexual • 72 
mes e na valorização da família, como se a homoafetividade não passasse de uma trans-
gressão a todos os “bons” valores socialmente construídos. Se aqueles que representam 
o povo na política se abstêm de garantir direitos, espaços, visibilidade e reconhecimen-
to dos LGBTs, os representados mantêm a impressão de que a homoafetividade cor-
rompe e destrói os ideais da sociedade, desvirtuando-se da concepção de que a homoa-
fetividade se trata apenas de mais uma expressão de afeto e de sexualidade, de mais uma 
expressão da diversidade.
A oficialização da união estável homoafetiva pelo STF foi um marco, uma conquista 
que levou anos para ser concretizada e, quando efetivada, foi pela via judiciária e não le-
gislativa. Discutir a oficialização e não a legalização da união é importante para a com-
preensão do silêncio do Congresso Nacional sobre este tema, abrindo espaço para reflexão 
sobre os caminhos que ainda terão que ser percorridos e das barreiras a serem enfrentadas 
para que a diversidade sexual e de gênero sejam respeitadas pela sociedade e pelos que a 
estão representando.
O Silêncio do Congresso Nacional e a Atuação do STF
A união entre casais do mesmo gênero é um direito que vem sendo buscado legal-
mente desde a década de 1990 no Poder legislativo. Projeto de lei elaborado pela então 
Deputada Marta Suplicy previa a legalização da união de casais homoafetivos.
O projeto de lei 1.151 foi proposto no ano de 1995, com o objetivo de que o Legisla-
tivo aprovasse direitos que já eram garantidos aos casais heteroafetivos. Mas o projeto, que 
para ser aprovado teria que passar por aprovação das duas casas do Congresso Nacional, 
o Senado e a Câmara dos Deputados, não teve avanços e no ano de 2001 e a proposta 
deixou de ser discutida, sendo retirada de pauta.
Esse projeto, como dispõe seu próprio texto, previa a legalização da união civil entre 
casais homoafetivos, união esta que não se equipara à estável ou ao casamento civil, mas 
equipara os direitos dos casais homoafetivos aos direitos já existentes dos casais hete-
roafetivos.
O projeto de lei não promoveria uma igualdade plena, posto que o termo jurídico para 
identificar a união seria “união civil” e não casamento, como se aplica a casais heteroafe-
tivos. Como explicitado no Diário da Câmara dos Deputados acerca das diferenças entre 
a união civil e o casamento com base no projeto de lei n. 1.151/1995: 
A possibilidade de regu1arizar uma situação de união já existente tornará estes relacio-
namentos mais estáveis, na medida em que serão solucionados problemas práticos, legais e 
financeiros. A vida social dos casais homossexuais também será afetada, fazendo com que 
sejam melhor aceitos pela sociedade e até pelas próprias famílias.
73 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Esse projeto procura disciplinar a união civil entre pessoas do mesmo sexo e não se 
propõe a dar às parcerias homossexuais um status igual ao casamento. O casamento tem 
um status único. Este projeto fala de “parceria” e “união civil”. Os termos “matrimônio” e 
“casamento” são reservados para o casamento heterossexual, com suas implicações ideoló-
gicas e religiosas.
Está entendido, portanto, que todas as provisões aplicáveis aos casais casados também 
devem ser direito das parcerias homossexuais permanentes.
A possibilidade para casais de gays e lésbicas registrarem suas parcerias implicará na 
aceitação por parte da sociedade de duas pessoas do mesmo sexo viverem juntas numa 
relação emocional permanente.2
O projeto de lei 1.151/1995 não previa, portanto, a equiparação do status de união civil 
e casamento, mas traria o amparo legal da união entre homoafetivos, criando a previsão da 
união na legislação e consequente segurança jurídica para os parceiros homoafetivos.
Embora o reconhecimento da união entre homoafetivos não seja legitimado por 
grande parcela dos sujeitos sociais, a não garantia dos direitos colocam os homoafetivos à 
margem do ordenamento jurídico brasileiro, de maneira que a ausência de legislação pro-
move uma distinção entre os sujeitos em função de sua orientação sexual, com o julga-
mento de valores como consequência de ideologias e crenças que defendem a heteroafe-
tividade como a única orientação correta e possível, abarcando a homoafetividade como 
uma transgressão à normalidade. 
Somente mais de uma década após a proposta desse projeto de lei a união estável 
homoafetiva passa a ser reconhecida, muito embora esta não tenha sido legalizada, uma 
vez que não nasceu de discussões do Poder Legislativo e sim do Poder Judiciário, por 
meio da oficialização pelo Supremo Tribunal Federal no ano de 2011.
Antes da oficialização da união estável homoafetiva, a união entre pessoas do mesmo 
gênero era regulada pelo direito civil como sociedade de fato. Esta não é tratada no Có-
digo Civil como parte do âmbito familiar e sim como parte do direito das obrigações, 
como dispõe o art. 983 e seguintes do Código Civil de 2002. No caso de casais homoafe-
tivos, as relações não eram disciplinadas pelos dispositivos legais concernentes à família, 
mas pela equiparação à sociedade de fato, de acordo com a qual na dissolução da relação 
cada sujeito teria direito sobre os bens com os quais contribuiu durante o período de en-
volvimento. Caracteriza-se a sociedade de fato pelo regimento patrimonial, distanciando-
-se da segurança e garantia intrínseca às relações familiares.
2 Diário da Câmara dos Deputados, novembro de 1995. Projeto de Lei 1.151/1995. Dispo-
nível em: http://imagem.camara.gov.br/Imagem/d/pdf/DCD21NOV1995.pdf#page=41 
http://imagem.camara.gov.br/Imagem/d/pdf/DCD21NOV1995.pdf
Gênero e Diversidade Sexual • 74 
Diante dessa equiparação da união entre homoafetivos a uma sociedade, de fato claro 
fica o distanciamento do tratamento entre as relações homoafetivas e heteroafetivas, vio-
lando princípios fundamentais da Constituição Federal, como a igualdade e a dignidade 
da pessoa humana.
Decisões acerca de efeitos que só existiam no casamento entre casais heteroafetivos 
passaram a ser aplicadas, em casos concretos, a casais homoafetivos. Para a garantia dos 
seus direitos, o Judiciário era acionado pelos interessados e essas decisões judiciais davam 
ao casal a possibilidade de ter sua união reconhecida. Assim, decisões provenientes dos 
tribunais geram efeitos entre as partes envolvidas no processo, pois a ação na qual o indi-
víduo se fundamenta tem como pedido ao Tribunal o reconhecimento da união naquele 
caso específico e determinado. Cada sujeito que tinha a intenção de ter a união reconhe-
cida e os direitos assegurados defendia seus próprios interesses perante o Judiciário e a 
decisão favorável a um caso não necessariamente garantiria o mesmo direito a todos que 
o buscavam, visto que a decisão depende da interpretação do juiz responsável pela decisão.
Esses casos concretos não traziam todos os efeitos provenientes da união estável ou do 
casamento, mas o reconhecimento dos direitos buscadosno decorrer do processo. Os di-
reitos tratados nesses casos são, em geral, relacionados à herança e à pensão e atingem 
somente as partes envolvidas no processo. 
Para atingir todos os que estão subordinados ao ordenamento jurídico, faz-se neces-
sária a presença do efeito erga omnes, que garante a mesma aplicabilidade da decisão a 
todos e não apenas entre as partes envolvidas no processo. Para que uma decisão tenha 
esse efeito ela deve ser proferida pelo órgão máximo do Judiciário, o Supremo Tribunal 
Federal. Dessa forma, para que a união homoafetiva fosse igualmente garantida a todos 
os sujeitos, o STF teria que se manifestar favoravelmente. 
Princípio fundamental que deve ser seguido pelo Judiciário é o da inércia. Esse poder 
não pode se manifestar a menos que seja provocado. Assim, algum legitimado para propor 
ação perante o STF deve tirá-lo da inércia sobre a questão, acionando-o. Mas não são 
todos os sujeitos capazes de propor uma ação que surta o efeito a toda a coletividade. 
Existe um rol de legitimados no que tange à ação proposta para que a união estável ho-
moafetiva passe a ser permitida e válida no ordenamento jurídico brasileiro.
Aqueles que podem propor ação perante o STF estão elencados no art. 103 da Cons-
tituição Federal. Dentre os atores que podem acionar o STF, houve tentativa tanto por 
parte do Governador do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Ação de Arguição de 
Preceitos Fundamentais (ADPF) quanto por parte da Procuradoria-Geral da República, 
por meio da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIn) de reconhecimento da união 
entre sujeitos homoafetivos. A Ação Direta de Inconstitucionalidade tem como objetivo 
impedir que no ordenamento jurídico brasileiro esteja presente alguma norma que se 
mostre contrária à Constituição Federal. A ADIn visa, dessa forma, garantir a supremacia 
75 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
da Constituição, bem como a manutenção da segurança jurídica. E no que tange à Argui-
ção de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), esta tem como objetivo “im-
pedir que condutas ou normas contrárias a preceitos fundamentais decorrentes da Cons-
tituição comprometam a regularidade do sistema normativo, afetando a supremacia cons-
titucional” (DIMOULIS e LUNARDI, 2013). Essas foram as duas ações propostas com 
o objetivo de reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo gênero. 
A finalidade ao ser julgada a ADPF nº 132 era a interpretação do art. 1.723 do Có-
digo Civil – que aborda o reconhecimento da união estável entre homem e mulher – con-
forme a Constituição. E referente à ADIn nº 4.277, esta buscava que fossem declarados 
“a) que é obrigatório o reconhecimento, no Brasil, da união entre pessoas do mesmo sexo, 
como entidade familiar, desde que atendidos os requisitos exigidos para a constituição da 
união estável entre homem e mulher; e b) que os mesmos direitos e deveres dos compa-
nheiros nas uniões estáveis estendam-se aos companheiros nas uniões entre pessoas do 
mesmo sexo.” (BRASIL, STF, 2011) 
O STF é o órgão do Judiciário responsável pelo controle de constitucionalidade das 
leis. Assim, leis que contrariem a Constituição Federal são questionadas por meio de 
ações propostas por aqueles que são legitimados para fazê-lo. Dois dos legitimados pre-
sentes no artigo 103 da CF questionaram a não garantia de direitos aos homoafetivos 
frente ao STF, buscando o parecer favorável à oficialização da união estável homoafetiva 
e a promoção do reconhecimento da união entre pessoas do mesmo gênero como entida-
de familiar.
O Legislativo foi omisso no que concerne à legalização da união entre pessoas do 
mesmo gênero desde a propositura de projeto de lei que visava à discussão e legalização 
dessa temática, em 1995. Essa constante omissão e, portanto, a não garantia de direitos 
que já eram garantidos aos heteroafetivos deixou um vácuo legal sobre a aplicação dos 
mesmos direitos aos homoafetivos. Para suprir esse vazio legislativo, o Poder Judiciário 
começou a ser constantemente acionado para que a união entre homens ou entre mulhe-
res fosse permitida. No entanto, as decisões proferidas não eram vinculantes, pois os juízes 
possuem, muitas vezes, diferentes entendimentos sobre determinada matéria. Os juízes 
que proferiam decisões favoráveis à união homoafetiva utilizavam como base o princípio 
da analogia, cuja base se fundamenta na ausência de posicionamento legal sobre determi-
nada questão, aplicando-se, por analogia, direitos assegurados aos heteroafetivos. A Lei de 
Introdução ao Código Civil brasileiro dispõe em seu artigo 4º que “quando a lei for omis-
sa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de 
direito”, sendo utilizada como base em decorrência da falta de disposição expressa em lei 
que legitime os direitos dos sujeitos homoafetivos.
As decisões proferidas pelos juízes e que, de certa maneira, dependem de seu enten-
dimento sobre o tema, não geram a segurança jurídica necessária para a garantia dos di-
Gênero e Diversidade Sexual • 76 
reitos, pois ao mesmo tempo em que pode ser favorável ao pedido realizado, o da garantia 
dos mesmos direitos dos heteroafetivos aos homoafetivos, pode também ser negativa, 
julgada a improcedência dos pedidos. Para uniformizar as decisões e para que se tornem 
aplicadas a todas as pessoas interessadas deve haver o parecer do órgão máximo do Poder 
Judiciário, o Supremo Tribunal Federal. 
O Poder Legislativo é o eleito pelos cidadãos, por meio do voto, diferentemente dos 
membros do Poder Judiciário. Nesse sentido, o Poder representativo da população seria o 
primeiro e, portanto, teoricamente, o responsável por decidir questões políticas que atin-
jam a vida do povo. Todavia, as chamadas minorias sociais, como mulheres, pessoas negras 
e LGBTs, carecem de presença e de representação na política, de forma que suas deman-
das são deixadas de lado, postas debaixo dos panos do cotidiano legislativo.
Questões relacionadas às ditas minorias são dissenso na sociedade, são tabu, polêmica 
e, portanto, sofrem com a desatenção dos deputados e senadores eleitos. A preocupação 
com reeleição e manutenção de um status aceito pela população faz com que as demandas 
que fogem da representação da maioria sejam pouco discutidas. As questões LGBT ainda 
são muito invisibilizadas dentro do Congresso Nacional, e o silêncio do Legislativo refle-
te na manutenção das lutas nas ruas, do movimento LGBT e na busca por outros meios 
e instrumentos que garantam direitos a essa população.
O movimento LGBT é repleto de atores que há décadas pautam demandas tanto ao 
Poder Executivo quanto ao Legislativo. O movimento nasceu no final de década de 70 
no Brasil, inicialmente com pouco envolvimento político. Todavia, na década de 80, 
com a redemocratização do país e com a eclosão da AIDS, o movimento adquire caráter 
mais politizado, passando a fazer reivindicações na própria constituinte, como a inser-
ção da proibição de discriminação por orientação sexual na Constituição – pedido que 
não foi inserido no texto legal –, bem como atuando em parceria com o Estado no 
combate à doença.
O reconhecimento do movimento em relação ao Estado se mostra inicialmente não 
pelas reivindicações, pela luta de direitos, de visibilidade e do combate ao preconceito e 
discriminação. Como aponta Facchini (2011), “a entrada das pautas do movimento nas 
políticas públicas não se deu, portanto, pelo reconhecimento das demandas de cidadania 
de LGBTs ou pela criação de conselhos de direitos, mas pela política de saúde e, mais 
especificamente, a política de combate às DSTs e AIDS”. E é o combate à doença que une 
movimento social e Estado, abrindo espaço para a institucionalização do movimento 
LGBT e maior aproximação com partidos políticos, especialmente os de esquerda. A 
institucionalização, que antes não era benquista pelos militantes do movimento, torna-se 
uma possibilidade para alguns, embora não se torne consenso dentro do movimento. 
Nosanos 1990, assistimos à organização de setoriais LGBT em partidos como o PT 
e o PSTU, bem como o lançamento de candidaturas e a proposição de projetos de lei, o que 
77 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
demonstra uma transformação nas relações entre ativistas e partidos desde os conflitos 
observados no início dos anos 1980. Em começos dos anos 2000 amplia-se o leque de 
partidos que têm se aproximado da temática LGBT e de setoriais, das ações de políticas 
públicas e parlamentares e das candidaturas que se organizam a partir de vários partidos. 
[...] No entanto, as primeiras demonstrações mais vivas de reconhecimento de LGBT nas 
políticas públicas e nos programas de governo aparecem de modo mais expressivo apenas 
nos anos 2000. Isto sugere um processo de construção da legitimidade da temática LGBT 
nos partidos, que ocorre em meados dos anos 1980 e se intensifica nos anos 1990. Nesse 
processo, a proposição do projeto de lei sobre a parceria civil entre pessoas do mesmo 
sexo, em 1995, é um marco que indica as primeiras conquistas dessa articulação LGBT 
pela via partidária (FACCHINI e FRANÇA, 2009) (grifo meu).
A aproximação com partidos políticos aparentemente traria mais espaço de repre-
sentação aos LGBTs e consequente regulação de direitos para essa população. Todavia, 
o cenário político do Congresso Nacional e a sua composição impossibilitam que se dê 
continuidade às discussões que pautam assuntos socialmente ainda polêmicos e que não 
têm o crivo das alas sociais mais conservadoras, com ênfase nas religiões católica e 
evangélica.
No cenário atual, projetos “pró-LGBT” parecem não ter a menor perspectiva de serem 
apreciados pelo Poder Legislativo, considerando-se a pressão de parlamentares vinculados 
a grupos religiosos fundamentalistas e à atual radicalização do discurso homofóbico no 
Congresso Nacional e na sociedade brasileira em geral. Aqui vale destacar que é notória a 
ausência de parlamentares lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, nos três âmbitos 
de atuação do Poder Legislativo: as câmaras municipais, as assembleias estaduais e o Con-
gresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado Federal). Se o número de candidatos 
pertencentes ao universo LGBT é baixo, os que quando eleitos se comprometem com as 
bandeiras do movimento LGBT são ainda mais minoritários. Basta lembrar que, em mais 
de 100 anos de vida republicana, o primeiro homem gay e abertamente comprometido 
com a questão LGBT foi eleito para a Câmara dos Deputados apenas em 2010, o deputa-
do Jean Willys, do PSOL (MELLO, BRAZ, FREITAS, AVELAR, 2012).
Um marco da luta do movimento LGBT no processo legislativo foi a proposição de 
projeto de lei que aprovaria a união civil entre pessoas do mesmo gênero, proposta em 
1995. Após esse projeto, diversos outros foram propostos na Câmara dos Deputados e no 
Senado, sendo alguns pró-LGBT e outros contrários a essa população. São encontradas 
barreiras para a garantia de direitos LGBTs no Congresso Nacional, barreiras estas que se 
tornam explícitas pela atuação de setores conservadores da sociedade dentro do Poder 
Legislativo Federal, que se manifestam pela Frente Parlamentar Evangélica, popularmen-
te conhecida como bancada evangélica e, também, pela bancada católica. Juntas, essas 
duas expressões religiosas compõem a Frente Parlamentar da Família e de Apoio à Vida 
Gênero e Diversidade Sexual • 78 
e reiteradamente lutam contra a aprovação de qualquer projeto progressista relacionado 
aos LGBTs. A Frente Parlamentar Evangélica, “ao lado da bancada católica, dispõe de 
força suficiente para impedir que projetos referentes ao aborto ou aos direitos civis de 
homossexuais sejam aprovados no Congresso” (TREVISAN, 2013).
A vigilância religiosa e que reproduz ideais conservadores dentro do espectro político 
de decisões impede o progresso na garantia de direitos aos LGBTs. A visibilidade social 
conquistada por meio da atuação dos movimentos pouco ainda se reflete nos espaços de 
poder, pois o silenciamento é arma frequentemente utilizada para cercear direitos. Ainda 
vigoram o preconceito, a discriminação e o imaginário dos LGBTs como transgressores 
dos padrões sociais e possíveis agentes que irão corromper os ideais de família enraizados 
em nossa cultura. 
Existem conquistas por parte do movimento LGBT, mas os ganhos dessa população 
geram a reação de embate e de construção de argumentação contrária ao movimento, que 
culmina na depreciação dos LGBTs.
Há iniciativas importantes, como a construção e o fortalecimento de Frentes Parla-
mentares, a elaboração e a proposição de projetos de lei, e mesmo o estabelecimento de 
normativas de associações profissionais que combatem a patologização e a discriminação 
de LGBT. Contudo, há também uma reação conservadora muito forte, que tem se expres-
sado a partir de uma linguagem híbrida, combinando elementos de discurso fundamenta-
lista religioso e fragmentos deslocados de discursos acadêmicos ou ativistas, com o intuito 
de gerar um efeito de pânico moral em torno de imagens de “homossexuais pedófilos” que 
“optam” ou querem se livrar de uma “perversão” (FACCHINI e FRANÇA, 2009).
O Congresso Nacional se manifesta como um ambiente nocivo à luta LGBT. São 
quase quarenta anos de luta e que pouco repercutiram nesse ambiente político. A presen-
ça de LGBTs em sua composição é quase nula, assim como a representação de suas de-
mandas. Mesmo partidos mais progressistas não pautam as necessidades do movimento, 
não priorizam, não evidenciam a importância de reconhecimento legal para garantia de 
segurança jurídica.
Uma das demandas do movimento era a garantia da união entre sujeitos do mesmo 
gênero, com a mesma validade jurídica existente entre heteroafetivos. Entretanto, no 
contexto político vigente no Congresso Nacional, com ampla representação de interes-
ses religiosos e tradicionais, projetos que envolvem essa demanda não caminham ou, se 
caminham, isso acontece em passos lentos. Frente a essa condição, o Poder Judiciário, 
mais especificamente o STF, se tornou importante ator ao garantir uma demanda do 
movimento, com a oficialização da união estável homoafetiva no ano de 2011. Ao ser 
acionado, todos os ministros votantes se colocaram como favoráveis à oficialização, 
baseando-se na própria Constituição Federal para a garantia dessa permissão. Essa de-
cisão passou a integrar o ordenamento jurídico brasileiro, de forma que qualquer casal 
79 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
homoafetivo que manifeste interesse em concretizar a união poderá realizá-la, cum-
prindo os mesmos requisitos existentes em lei que normatizam o seu procedimento, e 
assumindo os mesmos efeitos.
Como consequência da oficialização da união estável homoafetiva, o Conselho Na-
cional de Justiça (CNJ) aprovou a resolução 175/2013, que prevê a possibilidade de habi-
litação, celebração de casamento ou conversão de união estável em casamento por casais 
homoafetivos. 
A Justiça é personificada em uma deusa, chamada Têmis. Ela representaria o senti-
mento da verdade, da equidade e da humanidade3. Ela carrega consigo uma balança e 
permanece com seus olhos vendados, prezando pela imparcialidade e pela compreensão 
de que perante a lei, todos devem ser tratados como iguais. Se a representação da Justiça 
possui seus olhos vendados para garantir que ninguém se faça superior ao outro, a maior 
parte do Congresso Nacional brasileiro venda seus olhos para garantir que a diversidade 
não seja vista, que não seja respeitada e que a balança tenda sempre para aqueles que não 
veem seus direitos serem constantemente cerceados e suas vozes silenciadas.
As lutas dos LGBTs não se resumem à permissão de casamento entre pessoas do 
mesmo gênero. As pautas do movimento e dos sujeitos vão muito além, existe um leque 
de demandas que envolvem a necessidade de legislação, via Legislativo e implementa-
ção de políticas públicas, via Executivo. E essas demandas se fazem diversas pela pró-
pria diversidade dentrodo movimento e das especificidades de cada letra que compõe a 
sigla LGBT.
Com referência às demandas já conquistadas, algumas se encontram no âmbito do 
Judiciário por meio de suas decisões e do Executivo por meio de políticas públicas. Em 
tantos anos de movimento, o Poder que menos se manifestou sobre o assunto foi o Legis-
lativo Federal.
Muitos avanços tornaram-se possíveis e foram conquistados ao longo dos anos de luta 
do Movimento LGBT Brasileiro. Poucos por vias do legislativo, uma vez que a força polí-
tica de partidos financiados e ligados às igrejas, em especial as neopentecostais, ao que nos 
demonstra a conjuntura, é mais forte do que de partidários de causas humanistas e em prol 
dos direitos humanos (CANABARRO, 2013).
Há pouco mais de duas décadas o primeiro projeto de lei buscando a legalização da 
união entre pessoas do mesmo gênero foi proposto e desde então o Congresso Nacional 
não se pronunciou para garantir o direito da união aos homoafetivos. Alguns fatores pa-
recem contribuir para o silêncio do Legislativo, como a quase nula presença de LGBTs no 
3 Informação disponível em: http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=bibliot
ecaConsultaProdutoBibliotecaSimboloJustica&pagina=temis
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=bibliotecaConsultaProdutoBibliotecaSimboloJustica&pagina=temis
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=bibliotecaConsultaProdutoBibliotecaSimboloJustica&pagina=temis
Gênero e Diversidade Sexual • 80 
Congresso Nacional, a baixíssima representação, por serem poucos deputadas e deputa-
dos a incluírem em sua pauta as questões LGBT. E aos poucos que estão na luta dentro 
do Congresso Nacional e que de fato representam os interesses dessa população, são 
impostas barreiras para a aprovação dos projetos propostos, principalmente no que con-
cerne ao impedimento de aprovação com base em fundamentos religiosos, revestidos de 
base jurídica. 
[...] os parlamentares evangélicos buscam revestir o argumento religioso que justifica 
muitos de seus posicionamentos com argumentos mais “técnicos” ou jurídicos. A defesa de 
seus interesses e valores não está mais amparada na Bíblia, mas na Constituição Federal. 
Assim, justificam seu posicionamento contra o casamento homossexual, por exemplo, não 
porque a Bíblia o condena, mas porque a Constituição reconhece a união estável entre o 
homem e a mulher como entidade familiar (TREVISAN, 2013).
Mesmo após anos de movimento LGBT e de aumento de sua visibilidade, há uma 
limitação muito grande na atuação política quando se trata de questões LGBT. Muito 
embora no Executivo Federal os avanços tenham sido maiores quando comparados ao 
Legislativo, pouco ainda foi feito. Há um caminho muito longo a ser percorrido de reco-
nhecimento, de implementação de políticas públicas de combate à LGBTfobia e que re-
tirem os LGBTs da condição de vulnerabilidade social. 
O Congresso Nacional, além de inviabilizar a aprovação de projetos de lei, utiliza-se 
do jogo político para buscar o veto de implementação de políticas por parte do Executivo, 
o que pode ser exemplificado pelo veto, em 2011, do “kit anti-homofobia”, material didá-
tico proposto pelo Ministério da Educação como forma de discutir questões LGBT nas 
escolas, mas que foi vetado pela então presidenta por pressão de bancadas religiosas do 
Congresso Nacional.
A laicidade do Estado, prerrogativa constitucional, é posta em xeque quando em de-
trimento de crenças religiosas a diversidade sexual e de gênero não são respeitadas e os 
sujeitos que não se adequam ao padrão socialmente imposto são marginalizados. 
A carência de informações muitas vezes se coloca como a base do preconceito. Não 
conhecer as diversidades naturaliza a noção da diferença como algo diverso do que deve-
ria ser, o que mantém a ideia de que existe um modelo, um padrão a ser seguido; e os 
sujeitos que a ele não se adequam, são transgressores da norma. Como aponta Louro 
(2008), a diferença é algo que nos é ensinado; portanto, ela não é natural, e sim naturali-
zada. A diferença é resultante de construção social.
Quanto à diferença, é possível dizer que ela seja um atributo que só faz sentido ou só 
pode se constituir em uma relação. A diferença não pré-existe nos corpos dos indivíduos 
para ser simplesmente reconhecida; em vez disso, ela é atribuída a um sujeito (ou a um 
corpo, uma prática, ou seja lá o que for) quando relacionamos esse sujeito (ou esse corpo 
81 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
ou essa prática) a um outro que é tomado como referência. Portanto, se a posição do ho-
mem branco heterossexual de classe média urbana foi construída, historicamente, como a 
posição-de-sujeito ou a identidade referência, segue-se que serão diferentes todas as iden-
tidades que não correspondam a esta ou que desta se afastem. A posição normal é, de al-
gum modo, onipresente, sempre presumida, e isso a torna, paradoxalmente, invisível. Não 
é preciso mencioná-la. Marcadas serão as identidades que dela diferirem (LOURO, 2008).
Nesse sentido, aceitar o padrão enraizado na sociedade, desejar a sua continuidade 
sem questioná-lo e manter o silêncio acerca da diversidade é escolher que os LGBTs – 
lidos socialmente como os sujeitos diferentes, que se contrapõem ao modelo – não te-
nham direitos e que continuem na condição de vulnerabilidade e de permanente “mino-
ria” que tem que transformar seu cotidiano em uma luta contra o preconceito, discrimina-
ção, violências físicas e simbólicas, buscando reconhecimento, visibilidade e respeito na 
vida pública e privada.
A reflexão sobre as barreiras encontradas no Congresso Nacional para a legalização da 
união homoafetiva e consequente necessidade de acionar o STF se faz necessária para a 
compreensão de que houve avanço no contexto brasileiro acerca das questões LGBT, 
mesmo que se trate de progressos ainda mínimos e, por vezes, provenientes de vias não 
inicialmente imaginadas, como pelo Judiciário. Entretanto, mais do que uma conclusão 
que derive das questões elencadas neste artigo, nascem questionamentos e inquietações 
sobre as possibilidades de transformação e desconstrução social que façam com que os 
representantes políticos retirem suas vendas e enxerguem que, para além de suas crenças 
e concepções, existe uma diversidade enorme a ser politicamente representada.
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Preceito Fundamental. Relator. Ministro Ayres Britto. Brasília, 05 de maio de 2011.
CANABARRO, R. História e Direitos Sexuais no Brasil: o Movimento LGBT e a Discus-
são sobre Cidadania. Anais Eletrônicos do II Congresso Internacional de História 
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DIMOULIS, D.; LUNARDI, S. Curso de processo constitucional: controle de constitucio-
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Discussão jurídica do direito das pessoas transexuais ao 
nome e as consequências no espaço acadêmico
Gisele Salgado1
Legislações e a regulamentação do nome
O nome sempre foi um dos direitos garantidos em quase todas as legislações burgue-
sas. Porém, o foco do direito ao nome não era para a sua alteração, no caso de pessoas trans 
ou travestis. Ter um nome é ser considerado como pessoa e não como coisa e, não por 
acaso, esse direito será positivado em muitos países com passado de escravidão negra. O 
Código Civil de 1916 não trata dos direitos da personalidade, mas garante o direito ao 
nome de nascimento em registro público (art. 12, I). Atualmente o direito ao nome é as-
segurado no artigo 16 do Código Civil de 2002: “Toda pessoa tem direito ao nome, nele 
compreendidos o prenome e o sobrenome”. O direito ao nome torna-se algo que não 
pode ser tirado, mas também é de difícil modificação. No mesmo código, no artigo 1604, 
impede-se a alteração: “Ninguém pode vindicar estado contrário ao que resulta do regis-
tro de nascimento, salvo provando-se erro ou falsidade do registro”.
Essa dificuldade de alteração visava uma pretensa estabilidade social, em que pessoas 
seriam reconhecidas e facilmente identificadas, também por seus nomes. Porém, em al-
guns casos, era possível a modificação, como no caso de nomes vexatórios, inserção do 
nome do pai em reconhecimento de paternidade ou mesmo as mulheres quando do casa-
mento (somente com a Constituição Federal de 1988 é que se pode pleitear o direito do 
homem também adotar o nome da esposa, por equiparação). Essa era a previsão na Lei de 
Registros Públicos (Lei 6.015 de 1973). O artigo 54 dessa lei entende que o assento de 
nascimento deverá conter, entre outras informações, o sexo, o nome e o prenome. A lei 
6.216 de 1975 permitiu que, depois de registrado o nome, esse pudesse ser alterado, como 
aponta na redação do artigo 57: “Qualquer alteração posterior de nome, somente por 
exceção e motivadamente, após audiência do Ministério Público, será permitida por sen-
tença do juiz a que estiver sujeito o registro, arquivando-se o mandato e publicando-se a 
1 Pós-doutora em Filosofia do Direito pela FD- USP, doutora e mestre em Filosofia do 
Direito pela PUC-SP, bacharel em Direito, História e Filosofia, Profª universitária. 
Gênero e Diversidade Sexual • 84 
alteração pela imprensa”. Em 1998 a lei 9.708 alterou mais uma vez a lei de registro pú-
blico, permitindo alterações: “O prenome será definitivo, admitindo-se, todavia, a sua 
substituição por apelidos públicos notórios.”
As pessoas que queriam alterar o nome passavam por uma verdadeira via crucis para 
terem o direito ao nome pelo qual queriam ser identificadas socialmente. Para alterar o 
nome era necessário um processo judicial, que muitas vezes era custoso demais para uma 
população já excluída do mercado de trabalho e alijada de direitos. A jurisprudência 
aponta para uma alteração dos posicionamentos dos magistrados em relação a essa ques-
tão, que irá culminar em várias legislações garantindo com maior celeridade, menor custo 
e maior acesso o direito à modificação ou retificação do nome civil.
As primeiras leis sobre a possibilidade das pessoas trans e travestis utilizarem os no-
mes que desejam surge com as leis do nome social. São exemplos dessas leis: decreto 
55.588/2010 - tratamento nominal das pessoas transexuais e travestis nos órgãos públicos 
do Estado de São Paulo, decreto 1.675/2009 do Estado do Pará, lei 5.916/2009 do Esta-
do do Piauí, decreto 35.051/2010 do Estado de Pernambuco, decreto 43.065/2011 do 
Estado do Rio de Janeiro, decreto normativo 13.684/2013 do Estado de Mato Grosso do 
Sul2.
Essas legislações falam de um nome social em substituição ao nome civil. Assim, a 
pessoa poderia alterar o nome em algumas situações, porém seu nome civil ainda era 
mantido. Em muitos casos era possível a utilização do nome social, especialmente em 
estabelecimentos de saúde, mas em outros tantos órgãos governamentais e mesmo na vida 
civil era mantido o uso do nome civil, causando imensos problemas às pessoas trans e 
travestis. Um exemplo do direito ao nome social está expresso na legislação do Estado de 
São Paulo (decreto 55.588/2010):
Artigo 1º - Fica assegurado às pessoas transexuais e travestis, nos termos deste decreto, 
o direito à escolha de tratamento nominal nos atos e procedimentos promovidos no âmbi-
to da Administração direta e indireta do Estado de São Paulo.
Artigo 2º - A pessoa interessada indicará, no momento do preenchimento do cadastro 
ou ao se apresentar para o atendimento, o prenome que corresponda à forma pela qual se 
reconheça, é identificada, reconhecida e denominada por sua comunidade e em sua inser-
ção social. 
Esse mesmo procedimento foi adotado por leis municipais, como o decreto 
51.180/2010, que trata do nome social nos registros municipais e relativos a serviço pú-
blico da administração direta e indireta. Essa legislação define nome social como sendo 
2 Legislação foi compilada e disponibilizada na íntegra no site da ABGLT (Associação Bra-
sileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais).
85 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
aquele pelo qual travestis e transexuais se reconhecem, bem como são identificados por 
sua comunidade e em seu meio social. No artigo 1º desse decreto lê-se:
Art. 1º. Os órgãos e entidades da Administração Municipal Direta e Indireta devem 
incluir e usar o nome social das pessoas travestis e transexuais em todos os registros muni-
cipais relativos aos serviços públicos sob sua responsabilidade, como fichas de cadastro, 
formulários, prontuários, registros escolares e outros documentos congêneres.
Para adquirir o nome social as pessoas deveriam manifestar por escrito o interesse de 
obter esse direito, mediante requerimento formal ao órgão. A partir desse pedido o nome 
social passaria a ser escrito juntamente com o nome civil, colocado entre parêntesis, antes 
do nome civil (artigo 1º e artigo 2º). 
Essas resoluções legais, juntamente com a mudança da jurisprudência para aceitar a 
alteração do nome das pessoas trans e travestis, levou a uma enxurrada de resoluções le-
gais, inclusive no âmbito de órgãos estatais e órgãos de classe. A Resolução nº 11/2014 do 
Conselho Nacional de Combate à discriminação e promoção dos direitos de lésbicas, 
gays, bissexuais, travestis e transexuais estabelece os parâmetros para a inclusão dos itens 
“orientação sexual”, “identidade de gênero” e “nome social” nos boletins de ocorrência 
emitidos pelas autoridades policiais no Brasil. Essa legislação apresenta diversas defini-
ções, como a de orientação sexual e de identidade de gênero, em conformidade com a 
legislação internacional, os Princípios da Yogyakarta, que especificam: 
I - Orientação sexual como uma referência à capacidade de cada pessoa de ter uma pro-
funda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo 
gênero ou de mais de um gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas. 
II - Identidade de gênero, a profundamente sentida experiência interna e individual do 
gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, 
incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação na 
aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões 
de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos.
Órgãos de classe, como o Conselho Regional de Medicina (Resolução 208/2009 Cre-
mesp) e a Ordem dos Advogados do Brasil – OAB (Resolução nº 7, de7 de junho de 
2016 da OAB - Art. 44), também possuem regulamentações sobre o tema. A OAB prevê 
que na publicidade profissional que promover ou nos cartões e material de escritório de 
que se utilizar, o advogado fará constar seu nome, nome social ou o da sociedade de advo-
gados, além do número ou os números de inscrição na OAB. Essas normatizações são 
válidas internamente nos órgãos, mas já sinalizam uma mudança de posicionamento tam-
bém da sociedade civil. 
A legislação mais forte, por ser da esfera federal e, portanto, válida em todo o territó-
rio nacional é o decreto 8.727/2016, também chamado de lei do nome social. Essa lei 
Gênero e Diversidade Sexual • 86 
dispõe sobre o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas 
travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal direta, autárquica e 
fundacional. 
A legislação brasileira, quanto ao nome e à proteção das pessoas trans e travestis, ain-
da é pequena e não garante que, fora do âmbito da administração pública, esse direito será 
respeitado. Porém, essa legislação traz visibilidade a essas pessoas, permitindo que se dis-
cutam, no âmbito do Direito e do judiciário, medidas mais protetivas. Essa legislação tem 
um peso simbólico, muito mais do que o efetivo cumprimento, mas não se deve por isso 
rechaçar sua existência.
Um importante projeto de lei para a alteração do nome das pessoas trans é o que ficou 
conhecido como Lei João Nery. Esse projeto de lei, ainda não aprovado (até agosto de 
2016 esse projeto encontrava-se parado), tem uma enorme contribuição para a alteração 
do nome das pessoas trans, que poderá ser feita em cartório, levando à diminuição brutal 
dos custos com um processo judicial, que, normalmente, é caro e lento. Para a alteração do 
nome e sexo o trâmite previsto na lei será gratuito e sem necessidade de advogado ou 
gestor (art. 6º Parágrafo 2). Esse projeto, de autoria do deputado Jean Wyllys e de Érika 
Kokay, é um dos mais polêmicos, pois trata de um assunto que ainda é tabu para grande 
parte da sociedade brasileira e das bancadas religiosas do Congresso Nacional. O direito 
à cidadania das pessoas trans ainda não é tido como digno por parcela significante da 
população brasileira, que não considera as pessoas trans como cidadãos e como portadores 
de direitos. 
O projeto de Lei João Nery deixa explícito que para alteração do nome não será ne-
cessário passar por intervenção cirúrgica de transexualização total ou parcial, terapias 
hormonais ou qualquer outro tipo de tratamento ou diagnóstico psicológico ou médico 
ou autorização judicial (art. 4º, parágrafo único). 
Nome social e a alteração do nome civil
O nome social é um nome escolhido pelas pessoas transexuais e travestis para serem 
reconhecidas socialmente. Geralmente esse nome visa à readequação de um nome civil de 
um sexo para outro, porém nada obsta que também venha a ser um nome fluido de gêne-
ro. Porém, em todos esses casos a pessoa que pede a alteração está descontente com seu 
nome e quer que a sociedade reconheça um outro nome. Casos assim são possíveis pela lei 
de registro civil, porém a interpretação de muitos magistrados é que essa mudança do 
nome somente poderia ocorrer com a cirurgia de redesignação de sexo. Um novo nome 
precisaria de um novo corpo, que seria obtido a partir de laudos atestando que a pessoa 
teria um distúrbio psíquico, o transexualismo. 
Assim, negava-se a possibilidade de alteração de nome para pessoas transexuais que 
não queriam fazer cirurgia e para as travestis, pois não se detectava distúrbio mental. Na 
87 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
falta de documentos que os representassem, muitos começaram a falsificar documentos 
de identidade. Alguns órgãos, entendendo esse problema, começaram a oferecer docu-
mentos próprios, em que um nome escolhido pela pessoa transexual ou travesti pudesse 
ser utilizado. Surge um nome social documentado, que se contrapõe ao nome do registro 
civil, até então de difícil alteração.
Alguns autores, como Ballen, discutem a necessidade de efetivação de um nome social 
que não pode ser utilizado amplamente, entendendo que o melhor seria a mais rápida 
alteração do registro civil a fim de evitar problemas para as pessoas transexuais e travestis:
A efetivação dos direitos do transexual não se dá pelo uso do nome social, bem como 
nos demais casos, e sim por meio de uma alteração legislativa e a transferência desta atri-
buição e adequação ao Cartório do Registro Civil, com a fiscalização correcional do poder 
judiciário [...] Assim, embora aparentemente traga um benefício, o uso e a regulamentação 
do nome social traz maior desserviço ao direito do indivíduo e à efetivação de uma ordem 
jurídica justa (BALLEN, s/d, p.19 - 20).
Nem todos os órgãos aceitam a carteira em que há o nome social, apesar desta ser 
expedida também por órgão estatal. Muitas vezes é exigida a dupla apresentação de do-
cumentos, o que não deixa de gerar constrangimentos: 
Como outra face do critério estatal de dupla apresentação dos documentos, observa-se 
a abertura a espaço de constrangimento à travesti ou transexual, na medida em que se 
opera a coerção de contradizer-se – como se a fim de exigir o justo tratamento verbal cal-
cado em determinada identidade de gênero fosse preciso afirmar a existência anterior e 
formalizada de outro. Tal violência simbólica, assim, não se limita a constatar a diferença e 
reconhecê-la enquanto socialmente válida: ela a interpreta e traduz como desigualdade, na 
qual, por óbvio, o documento oficializado prevalece, posto que legal e tradicionalmente 
legítimo (AGUINSKY, 2013, p.7).
A Cartilha sobre o Tratamento Nominal de discentes travestis e transexuais, da Coor-
denadoria de Gestão da Educação Básica de 2014/São Paulo, ensina os gestores a inserir 
o nome social na matrícula dos estudantes. Porém, o processo apenas lida com uma inser-
ção e não um apagamento do nome civil. Assim, o aluno que pede para utilizar o nome 
social tem na matrícula e nas listas de chamada dois nomes. Em uma chamada oral na 
sala, o professor sensibilizado poderá chamar a pessoa pelo nome social, porém o nome 
civil ainda está lá, possibilitando que docentes não tão atentos ou não tão sensibilizados 
firam os direitos das pessoas que pediram o uso do nome social.
É distinta a posição, em parecer, da Câmara Técnica de articulação institucional, pla-
nejamento, orçamento e monitoramento do Plano Nacional de promoção da Cidadania e 
Direitos Humanos para LGBT, que diz:
Gênero e Diversidade Sexual • 88 
[...] Não entendemos que haja necessidade de vincular nome social ao nome civil em 
instrumentos que não se configuram como documentos oficiais. Sendo assim, nos parece 
indicáveis às redes e instituições de ensino a garantia do uso exclusivo do nome social em 
instrumentos internos de identificação, mantendo registro administrativo que faça a vin-
culação entre o nome social e a identificação civil.
Somente o nome social não garante cidadania plena às pessoas trans, uma vez que não 
é o nome que está no documento oficial exigido em diversos lugares para entrada. O 
nome social consta em documentos como o cartão do SUS, por exemplo, que nem ao 
menos tem foto, o que leva diversos lugares a não o aceitarem, ou aceitarem mediante a 
apresentação também do documento oficial de identidade, geralmente o RG. Por isso 
entende-se que para a garantia plena de direitos o justo seria franquear o documento 
oficial já alterado e não a solução paliativa do nome social, que nada mais é do que um 
“semidireito”, um direito de segunda categoria, pois tem baixíssima efetividade para a 
garantia da cidadania das pessoas trans.
A questão tem que ser olhada do outro ponto de vista, pois geralmente os estabeleci-
mentos de ensino são heteronormativos e cisnormativos e, por isso, excludentes de toda e 
qualquer pessoa que não se adeque aos padrões estabelecidos. Essa exclusão também está 
em toda a sociedade, porém é nas escolas queas primeiras socializações ocorrem e que 
esse padrão se torna ainda mais excludente. Ao adaptar a escola a toda e qualquer pessoa, 
sem excluir um grupo ou tentar adequar as pessoas por meio de violências simbólicas e/
ou físicas, inverte-se a questão. Não é a modificação do nome que vai promover a adequa-
ção de transgêneros e travestis à escola, mas se a escola respeitar o nome escolhido pelo 
aluno ou aluna mostrará que não é excludente. 
Casos discutidos no judiciário de nome civil de pessoas transexuais
A ADIN (Ação Direta de Inconstitucionalidade) nº 4.275 de 2016 permite que toda 
pessoa transexual possa ter alterados em seu registro civil o nome e o sexo, independente 
da cirurgia de transgenitização. Essa ADIN veio a alterar a lei de registros públicos, apa-
ziguando a discussão jurisprudencial sobre a possibilidade da alteração do nome. O que 
aparece na ADIN e no parecer da AGU sobre a ADIN é uma mudança interpretativa, 
que visa incluir e se utiliza de uma interpretação da legislação infraconstitucional à luz 
dos princípios constitucionais de igualdade. Essa ADIN reflete em grande parte a luta das 
pessoas transexuais, em especial os desejos contidos no projeto de lei denominado comu-
mente de Lei João Nery.
A jurisprudência foi sendo alterada ao longo dos anos e pode-se verificar uma tendên-
cia inicial a não permitir a alteração do nome; depois essa permissão foi concedida em 
casos de pessoas que haviam passado por cirurgia de redesignação genital, e, posterior-
89 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
mente, foi estendida para outros casos sem necessidade de cirurgia. Esses casos geralmen-
te tratam de um duplo pedido, em que nome e sexo são objetos de alteração no registro. 
Mesmo os acórdãos mais pró-direitos LGBTTT não eram tão favoráveis à alteração do 
sexo, e muitos deles mostravam desconhecimento ou pouco conhecimento da questão. 
Analisa-se aqui brevemente o conteúdo de ementas em que esses três posicionamentos 
são expressos. 
Um dos primeiros posicionamentos da jurisprudência sobre a questão das pessoas 
trans foi negar o pedido para alteração de nome e sexo. Esse é o posicionamento do 
acórdão abaixo, em que são negados os direitos por não ter ocorrido a cirurgia de rede-
signação genital: 
TJ-PA - APELAÇÃO CÍVEL AC 00201233920068140301 BELÉM (TJ-PA)
Data de publicação: 31/08/2010 
EMENTA. Registro civil. Retificação. Transexualidade. Alteração de nome. Indeferi-
mento. Necessidade de cirurgia. 1. Embora permitida a retificação de nome e sexo em re-
gistro civil de nascimento, por transexualidade, entretanto, necessário se torna a cirurgia de 
redesignação de sexo. 2. Apelo conhecido e improvido.
Há, por outro lado, jurisprudência no sentido de permitir a alteração do nome, quan-
do a pessoa sofreu a cirurgia. Nesse caso o magistrado recorre aos laudos médicos, com-
provando que há uma doença – transexualidade ou transexualismo – e a pessoa tem fenó-
tipos femininos. 
TJ-PA - APELAÇÃO CÍVEL AC 200730049340 PA 2007300-49340 (TJ-PA) 
Data de publicação: 09/03/2009 
Ementa: PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. TRANSEXUALISMO. 
ALTERAÇÃO DO NOME E SEXO DO APELANTE EM REGISTRO CIVIL. JU-
RISPRUDÊNCIA MAJORITÁRIA. PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA 
HUMANA - PROVIMENTO. I A apelação deve ser conhecida, pois tempestiva e de 
acordo com determinações legais; II Apelante submeteu-se à intervenção cirúrgica para 
mudança de sexo e possui fenótipo feminino, além de condição psicológica de mulher; III 
Princípio da dignidade da pessoa humana tem vertentes na questão da [...]
A fundamentação do acórdão não se dá com base nos diversos documentos interna-
cionais, nem mesmo nas leis que existiam na época, mas sim no princípio da dignidade da 
pessoa humana. Esse princípio constitucional, que tem conteúdo aberto, permite uma 
interpretação ampla e muitas vezes é utilizado por juristas quando não há lei específica. 
Não se sabe aqui se o problema foi o não conhecimento das leis e dos documentos inter-
nacionais ou a opção por utilização de um princípio. Como esse princípio não é específi-
co, ele era utilizado tanto para conceder a alteração quanto para negá-la, como é o caso do 
acórdão abaixo:
Gênero e Diversidade Sexual • 90 
TJ-SE - APELAÇÃO CÍVEL AC 2011200408 SE (TJ-SE) 
Data de publicação: 14/04/2011 
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE RETIFICAÇÃO DE REGISTRO 
CIVIL - TRANSEXUAL - NÃO REALIZAÇÃO DE CIRURGIA DE NEOVAGI-
NOPLASTIA - IMPOSSIBILIDADE - NÃO OCORRÊNCIA DE ERRO NO RE-
GISTRO - INEXISTÊNCIA DE OFENSA AO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA 
PESSOA HUMANA - NOME QUE CONDIZ COM O ESTADO FÍSICO - APE-
LO CONHECIDO E IMPROVIDO - DECISAO UNÂNIME. - Hodiernamente 
admite-se a alteração do registro de nascimento relativamente ao sexo e ao nome quando 
for realizada cirurgia de redesignação sexual.
O que importava aos magistrados era fundamentalmente a questão da adequação do 
nome da pessoa a uma determinada genitália, utilizando-se de um padrão absolutamente 
binário, ou seja, nome masculino condiz com uma genitália e nome feminino condiz com 
outra genitália. Esse binarismo, há muito questionado pela biologia, ainda está presente 
em diversas sentenças. Para alguns magistrados a possibilidade de alteração do nome e do 
sexo somente decorre de doença, que faz com que algumas pessoas não tenham em com-
passo o sexo biológico e o gênero social. Sabe-se que essa posição é atualmente questio-
nada, porém ela ainda está presente em alguns acórdãos, como o abaixo:
TJ-RS - Apelação Cível AC 70069422608 RS (TJ-RS) 
 Data de publicação: 02/08/2016 
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. RETIFICAÇÃO DO REGISTRO CIVIL. 
TRANSEXUALISMO. ALTERAÇÃO DO GÊNERO. AUSÊNCIA DE CIRURGIA 
DE REDESIGNAÇÃO SEXUAL OU TRANSGENITALIZAÇÃO. POSSIBILIDA-
DE. O sexo é físico-biológico, caracterizado pela presença de aparelho genital e outras 
características que diferenciam os seres humanos entre machos e fêmeas, além da presença 
do código genético que, igualmente, determina a constituição do sexo - cromossomas XX 
e XY. O gênero, por sua vez, refere-se ao aspecto psicossocial, ou seja, como o indivíduo se 
sente e se comporta frente aos padrões estabelecidos como femininos e masculinos a partir 
do substrato físico-biológico. É um modo de organização de modelos que são transmitidos 
tendo em vista as estruturas sociais e as relações que se estabelecem entre os sexos. Consi-
derando que o gênero prepondera sobre o sexo, identificando-se o indivíduo transexual 
com o gênero oposto ao seu sexo biológico e cromossômico, impõe-se a retificação do re-
gistro civil, independentemente da realização de cirurgia de redesignação sexual ou trans-
genitalização, porquanto deve espelhar a forma como o indivíduo se vê, se comporta e é 
visto socialmente. Sentença de procedência confirmada. POR MAIORIA, COM TRÊS 
VOTOS A DOIS, NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO, VENCIDOS O 
DES. SÉRGIO FERNANDO DE VASCONCELLOS CHAVES E A DESA. LISE-
LENA SCHIFINO ROBLES RIBEIRO. (Apelação Cível nº 70069422608, Sétima Câ-
91 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
mara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sandra Brisolara Medeiros, Julgado em 
27/07/2016).
A necessidade de cirurgia passa a ser questionada quando homens transexuais come-
çam a entrar com pedidos de alteração de nome. Isso porque no caso dos homens transe-
xuais ainda hoje é controverso e difícil o procedimento de adequação da genitália. 
Alguns magistrados chegavam a permitir a alteração do nome das pessoas trans mes-
mo que ainda não tivesse sido feita a cirurgia de redesignação sexual. Porém, nesses casos, 
era obrigatório que estivesse marcada a cirurgia. O que se observa é um verdadeiro horror 
do magistrado à dubiedade, e a necessidade de classificar de acordo com um binarismo, 
como se pode ver no acórdão abaixo:
TJ-RS - Apelação Cível AC 70056132376 RS (TJ-RS)
Data de publicação: 19/11/2013 
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RETIFICAÇÃO DE REGISTRO DE 
NASCIMENTO QUANTO AO NOME E SEXO DO AUTOR. TRANSEXUALIS-
MO. AUSÊNCIA DE CIRURGIA DEREDESIGNAÇÃO SEXUAL. INVIABILI-
DADE DA ALTERAÇÃO DO REGISTRO, UMA VEZ NÃO PREVISTA CIRUR-
GIA PARA MUDANÇA DE SEXO, NEM MESMO PROVA ROBUSTA ACERCA 
DA ABRANGÊNCIA DO TRANSTORNO SEXUAL. APELAÇÃO DESPROVI-
DA. (Apelação Cível nº 70056132376, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, 
Relator: Jorge Luís Dall’Agnol, Julgado em 13/11/2013).
Há na jurisprudência uma posição intermediária entre a negação e aceitação total da 
alteração do nome e sexo. Alguns magistrados irão aceitar que a pessoa tenha seu nome 
de registro civil alterado, mas que o mesmo não pode se dar em relação ao sexo. Assim, a 
pessoa que entrasse com o pedido ficaria em uma situação também constrangedora, pois, 
depois da sentença, seria o sexo que não iria condizer com o prenome adotado. Isso pode 
ser observado na sentença abaixo:
TJ-RS - Apelação Cível AC 70064503675 RS (TJ-RS)
Data de publicação: 06/07/2015 
Ementa: REGISTRO CIVIL. TRANSEXUALIDADE. PEDIDO DE ALTERA-
ÇÃO DE PRENOME E DE SEXO. ALTERAÇÃO DO NOME. POSSIBILIDADE. 
AVERBAÇÃO À MARGEM. A ALTERAÇÃO DO SEXO SOMENTE SERÁ POS-
SÍVEL APÓS A CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO. 1. O fato da pessoa ser 
transexual e exteriorizar tal orientação no plano social, vivendo publicamente como mu-
lher, sendo conhecido por apelido, que constitui prenome feminino, justifica a mudança do 
nome, já que o nome registral é compatível com o sexo masculino. 2. Diante das condições 
peculiares da pessoa, o seu nome de registro está em descompasso com a identidade social, 
sendo capaz de levar seu usuário a situação vexatória ou de ridículo, o que justifica plena-
Gênero e Diversidade Sexual • 92 
mente a alteração. 3. Deve ser averbado que houve determinação judicial modificando o 
registro, sem menção à razão ou ao conteúdo das alterações procedidas, resguardando-se, 
assim, a publicidade dos registros e a intimidade do requerente. 4. No entanto, é descabida 
a alteração do registro civil para fazer constar dado não verdadeiro, isto é, que o autor seja 
do sexo feminino, quando inequivocamente ele é do sexo masculino, pois ostenta órgãos 
genitais tipicamente masculinos. 5. A definição do sexo é ato médico e o registro civil de 
nascimento deve espelhar a verdade biológica, somente podendo ser corrigido quando se 
verifica erro. Recurso desprovido, por maioria. (Apelação Cível nº 70064503675, Sétima 
Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sérgio Fernando de Vasconcellos Cha-
ves, Julgado em... 24/06/2015).
Outro ponto que deve ser analisado na jurisprudência sobre o tema é a postura dos 
magistrados quanto ao tratamento das pessoas trans. É possível ver nos julgados mais 
antigos uma insistência do magistrado em apontar no acórdão a designação do pronome 
ligado ao nome do registro civil e não do nome social da pessoa trans, como se pode veri-
ficar no acórdão abaixo, em que é marcado a todo tempo o pronome do sexo masculino:
TJ-BA - Apelação APL 03683304120128050001 BA 0368330-41.2012.8.05.0001 
(TJ-BA) 
Data de publicação: 23/10/2013 
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL. 
TRANSEXUAL. PEDIDO DE ALTERAÇÃO DE PRENOME INDEPENDEN-
TEMENTE DA REALIZAÇÃO DE CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO. 
POSSIBILIDADE. INTERESSE PROCESSUAL EVIDENTE. SENTENÇA 
ANULADA. ACERVO PROBATÓRIO SUFICIENTE PARA JULGAMENTO 
DA AÇÃO PELO ÓRGÃO AD QUEM. TEORIA DA CAUSA MADURA. INTE-
LIGÊNCIA DO ARTIGO 515 § 3º DO CPC. USO DE APELIDO PÚBLICO. DI-
REITO À IDENTIDADE PESSOAL E À DIGNIDADE. CONSTRANGIMEN-
TOS DIVERSOS. PROCEDÊNCIA DO PEDIDO. PERMISSIVO DO ART. 58 
DA LEI DE REGISTROS PÚBLICOS. APELO PROVIDO. 1) Na hipótese dos au-
tos, a anulação da sentença é a medida que se impõe, haja vista que a pretensão autoral é 
a mudança do nome pelo apelido público e não a mudança do gênero, sendo flagrante o 
interesse processual, mesmo sem a realização da cirurgia de transgenitalização. 2) In casu, 
tratando-se de questão exclusivamente de direito e estando a causa madura para julga-
mento, possível o enfrentamento do mérito, na forma do art. 515, § 3º, do CPC. 3) A 
demonstração de que as características físicas e psíquicas do indivíduo, que se apresenta 
como mulher, não estão em conformidade com o que seu nome masculino representa 
coletiva e individualmente são suficientes para determinar a alteração de seu nome. 4) Do 
panorama delineado aos autos, colhe-se provas robustas da condição de transexual do 
Apelante e dos transtornos sofridos pelo fato de ostentar nome masculino no registro 
93 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
civil e viver publicamente como mulher, conhecido socialmente por Luana Neves. 5) 
Com permissivo no artigo 58 da Lei de Registros Públicos (Lei 6015 /73) e redação dada 
pela lei nº 9.708 /1998, impõe-se o deferimento da retificação do registro civil do Ape-
lante. Apelo provido. Ação julgada procedente.
A mudança da necessidade da cirurgia começa a ser notada na jurisprudência dos 
anos de 2014 em diante, coincidindo com o estabelecimento das principais leis estaduais 
e municipais sobre o tema. Também se inicia nesse período uma maior abertura para o 
tema no âmbito do judiciário, possivelmente fruto de políticas públicas e de campanhas 
de conscientização dos problemas enfrentados pelas pessoas trans. Muitos magistrados de 
posição conservadora entendem que é necessária uma mudança no posicionamento da 
jurisprudência a fim de proteger as pessoas trans, que, devido à visibilidade, alcançam o 
status de cidadãos, de sujeitos de direito. Esse é o caso do acórdão abaixo, em que se pode 
perceber o magistrado falando nos novos tempos:
TJ-RJ - APELAÇÃO APL 00139862320138190208 RJ 001398623.2013.8.19.0208 
(TJ-RJ) 
Data de publicação: 16/04/2014 
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL - PROCESSO DE JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA 
- TRANSEXUAL - REQUERIMENTO DE RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CI-
VIL PARA MODIFICAÇÃO DO PRENOME E SEXO - REQUERENTE NÃO 
SUBMETIDO À CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO - ART. 58 DA LEI 
DE REGISTROS PÚBLICOS - INTERPRETAÇÃO CONFORME A CONSTI-
TUIÇÃO - Registro civil que não se coaduna com a identidade sexual do requerente sob 
a ótica psicossocial e não reflete a verdadeira identidade de gênero perante a sociedade. 
Intenso sentimento de desconforto com a obrigatoriedade de adotar identidade masculina. 
Negativa de realização de cirurgia de redesignação sexual. A transgenitalização, por si só, 
não é capaz de habilitar o transexual às condições reais do sexo, pois a identificação sexual 
é um estado mental que preexiste à nova forma física resultante da cirurgia. Não permitir 
a mudança registral de sexo com base em uma condicionante meramente cirúrgica equiva-
le a prender a liberdade desejada pelo transexual às amarras de uma lógica formal que não 
permite a realização daquele como ser humano. No plano jurídico, a questão remete ao 
plano dos direitos fundamentais. Convocação do juiz a assumir o papel de intérprete da 
normatividade, mediante uma imbricação entre o direito e a moral. Utilização dos proce-
dimentos jurídicos que permitam a concretização dos preceitos materiais assecuratórios do 
exercício pleno da cidadania. Os “novos tempos” do Direito não podem ser dissociados da 
vida em sociedade, na qual a cidadania se desenvolve pelo constante processo argumenta-
tivo que se dá nas instituições do Estado e nas organizações comunitárias. A cidadania 
adquiriu status de direito fundamental, tendo sido conceituado como “direito à proteção 
jurídica”, cujo significado sociológico cabe na expressão “direito a ter direitos”. Interpreta-
Gênero e Diversidade Sexual • 94 
ção do art. 58 da Lei de Registro Público conforme a Constituição. Construção herme-
nêutica justificada. A norma tem por finalidade proteger o indivíduo contra humilhações, 
constrangimentos e discriminações [...]
A mudança não ocorre apenas nos direitos garantidos, mas também nos tratamen-
tos empregados às pessoas. Alguns acórdãos passam a respeitar os pronomes de trata-
mento das pessoas trans. No julgado abaixo, trata-se desde o início a mulher trans de 
ela, a autora:TJ-PI - Apelação Cível AC 00241891820128180140 PI 201200010084003 (TJ-PI)
Data de publicação: 04/12/2014 
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO DE MODIFICAÇÃO DE REGISTRO 
CIVIL – TRANSEXUALISMO – MODIFICAÇÃO DO PRENOME SEM A REA-
LIZAÇÃO DE CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO – DIGNIDADE DA 
PESSOA HUMANA – DIREITO À IDENTIDADE PESSOAL – REFORMA DA 
SENTENÇA – RECURSO PROVIDO. Suficientemente demonstrado que as caracte-
rísticas da parte autora, físicas e psíquicas, não estão de acordo com os predicados que o seu 
nome masculino representa para si e para a coletividade, tem-se que a alteração do preno-
me é medida capaz de resgatar a dignidade da pessoa humana, sendo desnecessária a prévia 
transgenitalização. Decisão unânime, de acordo com o parecer ministerial superior.
Em quase todos os acórdãos está presente a discussão de uma alteração do nome e do 
sexo das pessoas transexuais devido a uma doença. Somente em alguns exemplares da 
jurisprudência isso não é discutido. Entende-se que esse seria o melhor posicionamento, 
uma vez que há outros tantos diversos casos de alteração de nome sem que se precise 
demonstrar doença. A mera vontade do interessado e a não lesividade a outro deveriam 
ser requisitos suficientes para a alteração. Esse é o posicionamento do acórdão abaixo:
TJ-RS - Apelação Cível AC 70052872868 RS (TJ-RS) 
Data de publicação: 09/04/2013 
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CI-
VIL DE NASCIMENTO. MUDANÇA DE SEXO. TRANSEXUALIDADE. POS-
SIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO. Quando está comprovado que a retificação do 
registro de nascimento não trará qualquer prejuízo à sociedade e, sobretudo, garante a 
dignidade da pessoa humana daquele que a pleiteia, cumpre a procedência do pedido. 
Sentença mantida. NEGARAM PROVIMENTO AO APELO. (Apelação Cível nº 
70052872868, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Alzir Felippe 
Schmitz, Julgado em 04/04/2013).
Com a ADIN sobre o nome das pessoas trans, que incorpora parte do projeto de Lei 
João Nery, a jurisprudência tenderá a caminhar para não exigir nada além da vontade da 
pessoa em alterar o nome e o sexo. Esse procedimento tenderá a ser muito mais rápido, 
95 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
evitando-se que a pessoa trans tenha de usar o nome social em muitos lugares, podendo 
já utilizar o nome que deseja. 
A aceleração desses procedimentos permite o rápido gozo de direitos, e essa medida 
já está sendo adotada por alguns órgãos do judiciário, como relata Lopes:
Ainda que as alterações sejam sempre feitas pelo judiciário, na Bahia, em outubro de 
2015, a Defensoria Pública do Estado conseguiu, sem ajuizar uma ação judicial, alterar o 
nome de um transexual de 32 anos moradora da região metropolitana de Salvador. Os 
defensores, levando em consideração a lei dos Registros Públicos e também os Princípios 
de Yogykarta, encaminharam um oficio e o 1º juiz da Vara de Feitos de Relações de Con-
sumo, Civil e Comercial do município de Simões Filhos concedeu a alteração, autorizando 
a averbação no Registro Civil. A decisão, inédita, foi recebida com surpresa, devido à difi-
culdade que os defensores têm de conseguir a autorização, mesmo na capital do Estado 
(LOPES, 2015, p.11).
A promoção dos direitos às pessoas LGBTT e o Direito Internacional
As legislações no âmbito internacional têm entendido que o nome é um dos direitos 
fundamentais, e sustentam que esse direito seja garantido e efetivado em diversos países3. 
Há legislações mais gerais e outras mais específicas que tratam dos direitos das pessoas 
LGBTT. 
Nos documentos internacionais há uma previsão do direito ao nome como um direito 
básico. Esse direito está presente no artigo 18 da Convenção Americana sobre Direitos 
Humanos (Convenção de São José da Costa Rica, 1969), que diz: “Toda pessoa tem di-
reito a um prenome e aos nomes de seus pais ou ao de um destes. A lei deve regular a 
forma de assegurar a todos esse direito, mediante nomes fictícios, se for necessário.”
A Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 não trata do direito ao 
nome, nem identifica a necessidade de igualdade e não discriminação de pessoas em razão 
do gênero. Essas declarações muito genéricas em relação aos sujeitos protegidos acabaram 
não sendo suficientes na proteção dos vários sujeitos de direito que foram legitimados 
com o tempo. Há a previsão em seu artigo 2, inciso 1, da garantia universal de igualdade 
de direitos: 
Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos 
nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, 
3 Para um breve relato do direito ao nome de pessoas trans no Direito Comparado ver texto 
de Edna Hogemann: “Direitos Humanos e diversidade sexual: o reconhecimento da iden-
tidade de gênero através do nome social.”
Gênero e Diversidade Sexual • 96 
opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou 
qualquer outra condição.
Algumas legislações específicas para outros sujeitos também garantem o direito ao 
nome, como o caso da Declaração Universal dos Direitos da Criança de 1959, que prevê, 
no princípio 3 do texto, o direito ao nome e no princípio 1 a não discriminação por de-
corrência de sexo, mas não fala em gênero.
Com a visibilidade das pessoas LGBTT surgiu a necessidade de declarações e cartas 
de direitos que tratassem especificamente dessas pessoas e que garantissem a elas direitos 
que lhes eram negados, pois não eram entendidas como pessoas capazes de serem prote-
gidas na legislação tida como universal, o que leva a discutir o próprio conceito daquelas 
declarações que diziam proteger um sujeito universal.
Os Princípios de Yogyakarta de 2006 tratam de questões sobre a aplicação da legisla-
ção internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de 
gênero. Esse documento é um dos mais importantes, devido à especificidade do sujeito de 
direito, que são as pessoas trans e travestis. Esse documento mapeia uma série de discri-
minações e desrespeitos, que impedem as pessoas de gozarem sua vida como seres huma-
nos, inclusive os direitos relativos à oportunidade de educação, como se pode ver no se-
guinte trecho:
Entretanto, violações de direitos humanos que atingem pessoas por causa de sua orien-
tação sexual ou identidade de gênero, real ou percebida, constituem um padrão global e 
consolidado, que causa sérias preocupações. O rol dessas violações inclui execuções extra-
judiciais, tortura e maus-tratos, agressões sexuais e estupro, invasão de privacidade, deten-
ção arbitrária, negação de oportunidades de emprego e educação e sérias discriminações 
em relação ao gozo de outros direitos humanos. Estas violações são com frequência agra-
vadas por outras formas de violência, ódio, discriminação e exclusão, como aquelas basea-
das na raça, idade, religião, deficiência ou status econômico, social ou de outro tipo.
O terceiro Princípio da Carta de Yogyakarta é o que tem relação direta com a questão 
do nome, por tratar de princípio de reconhecimento. Esse princípio deixa claro que não é 
necessário se submeter a procedimentos médicos para reconhecimento legal da identida-
de de gênero, ressaltando inclusive a cirurgia de mudança de sexo, esterilização e terapia 
hormonal. Esse princípio elenca uma série de políticas públicas que os Estados deverão 
seguir. Essas são as políticas públicas para o princípio do reconhecimento:
a) Garantir que todas as pessoas tenham capacidade jurídica em assuntos cíveis, sem 
discriminação por motivo de orientação sexual ou identidade de gênero, assim como a 
oportunidade de exercer esta capacidade, inclusive direitos iguais para celebrar contratos, 
administrar, ter a posse, adquirir (inclusive por meio de herança), gerenciar, desfrutar e 
dispor de propriedade; b) Tomar todas as medidas legislativas, administrativas e de outros 
97 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
tipos que sejam necessárias para respeitarplenamente e reconhecer legalmente a identida-
de de gênero autodefinida por cada pessoa; c) Tomar todas as medidas legislativas, admi-
nistrativas e de outros tipos que sejam necessárias para que existam procedimentos pelos 
quais todos os documentos de identidade emitidos pelo Estado que indiquem o sexo/gê-
nero da pessoa – incluindo certificados de nascimento, passaportes, registros eleitorais e 
outros documentos – reflitam a profunda identidade de gênero autodefinida por cada pes-
soa; d) Assegurar que esses procedimentos sejam eficientes, justos e não-discriminatórios 
e que respeitem a dignidade e privacidade das pessoas; e) Garantir que mudanças em do-
cumentos de identidade sejam reconhecidas em todas as situações em que a identificação 
ou desagregação das pessoas por gênero seja exigida por lei ou por políticas públicas; f ) 
Implementar programas focalizados para apoiar socialmente todas as pessoas que vivem 
uma situação de transição ou mudança de gênero.
A Resolução 2.435 de 2008 da Organização dos Estados Americanos – OEA irá 
afirmar sua preocupação com a violação dos direitos das pessoas LGBTT. A resolução 
deixa claro que há violações de direitos humanos e que é necessário um posicionamento 
e políticas para conter essa situação. Porém, o documento é mais um alerta para a própria 
OEA do que uma carta de princípios vinculando os países membros. Sua justificativa:
TOMANDO NOTA COM PREOCUPAÇÃO dos atos de violência e das violações 
aos direitos humanos correlatos perpetradas contra indivíduos, motivados pela orientação 
sexual e pela identidade de gênero, RESOLVE: 1. Expressar preocupação pelos atos de 
violência e pelas violações aos direitos humanos correlatas, motivados pela orientação se-
xual e pela identidade de gênero.
Nessa mesma linha está a Declaração nº A63/635 de 2008 da Organização das 
Nações Unidas – ONU que reafirma os direitos humanos na sua universalidade e de-
clara a necessidade de se afirmar direitos para as pessoas LGBTT devido a violações 
constantes. Assim dizem os itens 4 e 5 da declaração: 
4. Estamos profundamente preocupados com as violações de direitos humanos e liber-
dades fundamentais baseadas na orientação sexual ou identidade de gênero. 5. Estamos, 
assim mesmo, alarmados pela violência, perseguição, discriminação, exclusão, estigmatiza-
ção e preconceito que se dirigem contra pessoas de todos os países do mundo por causa de 
sua orientação sexual ou identidade de gênero, e porque estas práticas solapam a integrida-
de e dignidade daqueles submetidos a tais abusos.
Esse documento termina com diretivas gerais aos países signatários para que assegu-
rem o direito pleno das pessoas, sem discriminação sexual ou de gênero, nos seguintes 
parâmetros: 
11. Urgimos os Estados a tomar todas as medidas necessárias, em particular medidas 
legislativas ou administrativas, para assegurar que a orientação sexual ou identidade de 
Gênero e Diversidade Sexual • 98 
gênero não sejam, em qualquer circunstância, a base de sanções penais, em particular exe-
cuções, prisões ou detenções. 12. Urgimos os Estados a assegurar que se investiguem as 
violações de direitos humanos baseados na orientação sexual ou na identidade de gênero e 
que os responsáveis enfrentem as consequências perante a justiça. 13. Urgimos os países a 
assegurar uma proteção adequada aos defensores de direitos humanos, e a eliminar os 
obstáculos que lhes impedem levar adiante seu trabalho em temas de direitos humanos, 
orientação sexual e identidade de gênero.
Os locais de ensino e o direito à diversidade
Os locais de ensino, sejam eles da educação fundamental, básica, técnica ou univer-
sitária, são locais em que devem prevalecer os princípios de igualdade, que estão presen-
tes na Constituição Federal de 1988 e nas políticas públicas que visam uma sociedade 
mais igualitária. Nesses locais o direito à diversidade não deve ser somente respeitado, 
mas sim promovido a partir da extensão, ensino e pesquisa. A população LGBTT tem 
encontrado uma grande dificuldade em prosseguir com seus estudos, desde os níveis 
mais básicos até as universidades. São pessoas que não são incentivadas nem pelos fa-
miliares, nem pelas pessoas dos estabelecimentos de ensino, nem pelos colegas. Há uma 
rede de exclusão a um padrão cisnormativo e heteronormativo, que é o hegemônico na 
sociedade ocidental atual. 
Um dos primeiros direitos que devem ser assegurados às pessoas transexuais e traves-
tis que frequentam qualquer estabelecimento de ensino é o direito ao nome. Porém, não 
basta assegurar o direito ao nome civil, que muitas vezes não representa seu desejo. A al-
teração judicial do nome, mesmo com as inovações legais, não é um procedimento fácil, 
nem conhecido por todos. As escolas têm o dever de assegurar o direito ao nome desejado, 
mesmo quando o nome civil não tiver sido alterado, a fim de que a pessoa não venha a 
passar por constrangimentos. Esse é o primeiro de muitos direitos que têm de ser garan-
tidos4. O direito à utilização do banheiro de acordo com seu gênero também é um dos 
direitos básicos, que encontra resistência por muitos estabelecimentos de ensino.
O parecer da Advocacia Geral da União – AGU para utilização de nome social na Uni-
versidade de Brasília (Processo UNB doc nº 9256/2012) afirma a necessidade do Direito 
positivado se adequar em âmbito nacional a uma política de inclusão e diversidade. O parecer 
cita uma série de documentos no âmbito estadual e municipal, bem como outros órgãos que 
utilizam-se do nome social. O parecer é favorável à utilização do nome social e fundamenta:
4 Para uma discussão sobre os problemas educacionais enfrentados pelas discriminações das 
pessoas trans no ambiente educacional vide Direito à Adequação do Nome do Transexual no 
Ambiente Escolar de Tereza Rodrigues Vieira e Fernando Corsato Neto.
99 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
O nome social poderá ser utilizado em todos os documentos e na pauta de chamadas, 
tudo para evitar constrangimentos desnecessários, os quais são ultrajantes e retiram das 
pessoas a capacidade de se firmarem como sujeitos de direitos, de serem livres e elas mes-
mas, reunindo uma pluralidade de direitos que evidenciará a dignidade, razão pela qual 
deverá, acima de tudo, entender que o deferimento do pedido deverá ser feito juridicamen-
te, eis que a requerente deve ter assegurada a sua dignidade.
Há uma larga quantidade de pareceres e resoluções que afirmam o direito do aluno de 
utilizar o nome social, como: MEC - Parecer Técnico nº 141/2009, Resolução nº 12/2015, 
que dispõe sobre o reconhecimento institucional da identidade de gênero nos sistemas e 
instituições de ensino. No âmbito das universidades há também portarias que permitem 
o uso do nome social, como: portaria nº 2.209/2013 da Universidade Federal de Sergipe 
e a deliberação da CEPE/IFSC nº 006/2010 do Instituto Federal de Educação e Tecno-
logia de Santa Catarina5. Deve-se destacar que há pareceres favoráveis para a utilização 
de nomes sociais inclusive para menores de 18 anos, como o parecer nº 1/2013 do Núcleo 
de Prática jurídica da UFPR – adoção de nome social para pessoas trans menores.
O universo da educação formal e principalmente as instituições de ensino superior 
devem estar preparadas para utilizar o nome social das pessoas trans que assim o deseja-
rem, porque essa é somente a primeira porta para que essas pessoas se sintam acolhidas 
nas instituições acadêmicas. Entende-se que é a primeira porta, pois, sem ela, nenhum dos 
outros direitos poderá ser efetivado. Para uma pessoa trans brasileira, que quase sempre 
sofreu transfobia, a propiciação de um ambiente em que essas atitudes criminosas de 
desrespeito não ocorram é essencial para que ela possa permanecer na escola. Políticas 
públicas que olhem para as necessidades das pessoas trans também devem ser incorpora-
das no âmbito escolar. Um observatório de Direitos Humanos nas Universidades é tam-
bém fundamental para que se promovam mais direitos de acordocom as demandas das 
pessoas trans e para discutir meios de contenção de condutas transfóbicas.
Referências Bibliográficas
AGUINSKY, Beatriz (et all.) A carteira de nome social para travestis e transexuais no 
Rio Grande do sul: entre polêmicas, alcances e limites. Anais do Fazendo Gênero 
5 Uma lista mais completa dos instrumentos legislativos no âmbito educacional em diversos 
estados brasileiros encontra-se nos textos: “O uso legal do nome social na escola: retrato do 
território brasileiro”, de Guilherme de Freitas Silva e Claudio Eduardo Resende Alves; 
“Travestis e transexuais na escola: ressonâncias do uso do nome social na rede municipal 
de educação de Belo Horizonte”, de Eduardo R. Alves; “Inclusão” de travestis e transexuais 
através do nome social e mudança de prenome: diálogos iniciais com Karen Schwach e 
outras fontes, de Cláudio Eduardo Resende Alves Maranhão.
Gênero e Diversidade Sexual • 100 
10 de 2013. Disponível em: http://www.fazendogenero.ufsc.br/10/resources/
anais/20/1387471840_ARQUIVO_BeatrizGershensonAguinsky.pdf
ALVES, Eduardo Resende. Travestis e transexuais na escola: ressonâncias do uso do 
nome social na rede municipal de educação de Belo Horizonte. Anais do Fazendo 
Genero 10. Disponivel: http://www.fazendogenero.ufsc.br/10/resources/
anais/20/1384362621_ARQUIVO_ClaudioEduardoResendeAlves.pdf
BALLEN, Kellen Cristina Gomes & BIZETTI, Lilian Fernanda. Nome civil em con-
traposição com nome social como (des) serviço à efetividade de direitos na socieda-
de globlalizada. Disponível em: http://www.publicadireito.com.br/
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HOGEMANN, Edna Raquel. Direitos humanos e diversidade sexual: o reconhecimento 
da identidade de gênero através do nome social. Revista SJRJ, Rio de Janeiro, v. 21, 
n.3 9, p. 217-231, abr. 2014.
LOPES, Ana Luíza Martins Dias. O direito à identidade de gênero e ao nome civil dos 
transexuais: uma análise atual do cenário e da necessidade de adequação das normas 
brasileiras. TCC-PUC-RGS, 2015. Disponível em: http://www3.pucrs.br/pucrs/
files/uni/poa/direito/graduacao/tcc/tcc2/trabalhos2015_2/ana_lopes.pdf
MARANHÃO FILHO, Eduardo Meinberg de Albuquerque. “Inclusão” de travestis e 
transexuais através do nome social e mudança de prenome: diálogos iniciais com 
Karen Schwach e outras fontes. Revista Oralidades - Ano 6 n.11 - jan-jul/2012 
Disponível em: http://diversitas.fflch.usp.br/files/5.%20MARANH%C3%83O%20
FILHO,%20E.M.A.%20Inclus%C3%A3o%20de%20travestis%20e%20transe-
x u a i s % 2 0 a t r a v % C 3 % A 9 s % 2 0 d o % 2 0 n o m e % 2 0 s o c i a l % 2 0 e % 2 0
mudan%C3%A7a%20de%20prenome%20-%20di%C3%A1logos%20iniciais%20
com%20Karen%20Schwach%20e%20outras%20fontes_0.pdf
SILVA, Guilherme de Freitas & ALVES, Cláudio Eduardo Resende. O uso legal do 
nome social na escola: retrato do território brasileiro. Anais do Congresso. Dispo-
nível em: https://anaiscongressodivsex.files.wordpress.com/2015/03/14-guilher-
me-freitas-_-claudio-eduardo.pdf
VIEIRA, Tereza Rodrigues; CORSATO NETO, Fernando. Direito à adequação do 
nome do transexual no ambiente escolar. IV Simpósio Internacional de Educação 
Sexual: feminismos, identidade de gênero e políticas públicas. UEM, 2015. Dispo-
nível em: http://www.sies.uem.br/trabalhos/2015/611.pdf
http://www.fazendogenero.ufsc.br/10/resources/anais/20/1387471840_ARQUIVO_BeatrizGershensonAguinsky.pdf
http://www.fazendogenero.ufsc.br/10/resources/anais/20/1387471840_ARQUIVO_BeatrizGershensonAguinsky.pdf
http://www.fazendogenero.ufsc.br/10/resources/anais/20/1384362621_ARQUIVO_ClaudioEduardoResendeAlves.pdf
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http://diversitas.fflch.usp.br/files/5. MARANH%C3%83O FILHO, E.M.A. Inclus%C3%A3o de travestis e transexuais atrav%C3%A9s do nome social e mudan%C3%A7a de prenome - di%C3%A1logos iniciais com Karen Schwach e outras fontes_0.pdf
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http://diversitas.fflch.usp.br/files/5. MARANH%C3%83O FILHO, E.M.A. Inclus%C3%A3o de travestis e transexuais atrav%C3%A9s do nome social e mudan%C3%A7a de prenome - di%C3%A1logos iniciais com Karen Schwach e outras fontes_0.pdf
https://anaiscongressodivsex.files.wordpress.com/2015/03/14-guilherme-freitas-_-claudio-eduardo.pdf
https://anaiscongressodivsex.files.wordpress.com/2015/03/14-guilherme-freitas-_-claudio-eduardo.pdf
http://www.sies.uem.br/trabalhos/2015/611.pdf
O papel do Direito e da advocacia na luta por dignidade 
para a população LGBT através da experiência do 
Observatório LGBT da UFABC
Vivian Navarro1
A advocacia é uma das funções essenciais à justiça, segundo a Constituição Federal de 
1988. A despeito dos desafios enfrentados no dia a dia, uma advocacia em prol dos direi-
tos humanos é mais do que possível, é necessária. 
Ciente disso e recém-graduada na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, 
engajei-me no Observatório LGBT da Região do ABCDMRR, inscrevendo-me no 
Grupo de Trabalho sobre direitos humanos e direitos da população LGBT, por acreditar 
no Direito como instrumento de transformação social.
Durante o lançamento do Observatório, apresentamos breve conceito de direitos hu-
manos, e expusemos por que é necessário falar em direitos para a população LGBT. Após 
explanação sobre orientações sexuais e identidades de gênero, foram apontados alguns 
direitos existentes em âmbito nacional, estadual e na região do ABCDMRR sobre o as-
sunto. Ressaltou-se a existência do princípio da igualdade, na Constituição Federal, como 
importante referencial para o combate às discriminações.
As discriminações sofridas pela população LGBT são inúmeras: violências (agressões 
físicas e psicológicas, abandono, estupros corretivos), falta de oportunidades, de estudo e 
de acesso a políticas públicas. 
Por isso, discriminar positivamente a população LGBT, com políticas públicas que 
combatam esses problemas e atendam às demandas específicas de cada letra da sigla se faz 
necessário, motivo pelo qual uma atuação jurídica, dentro do Observatório LGBT, tem 
muito a oferecer na busca pela criação e efetivação de direitos. 
Sou de Santo André, tenho 25 anos, advogada recém-graduada na Faculdade de Di-
reito de São Bernardo do Campo (FDSBC). Nos anos de 2014 e 2015 fiz parte da gestão 
do Centro Acadêmico XX de Agosto da FDSBC. 
1 Advogada formada pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, é membro do 
Fórum Gênero e Masculinidades. 
Gênero e Diversidade Sexual • 102 
Descobri o feminismo em 2014, graças a amigas maravilhosas. Faço parte do coletivo 
Pró-Equidade de Gênero da FDSBC desde sua fundação (novembro de 2014), e tenho 
muito orgulho de todas as mulheres fortes que integram esse coletivo. 
Minha descoberta enquanto feminista interseccional ocorreu no início de 2015. Con-
ceitos como “lugar de fala”, “vivência”, “privilégios” e “fazer recortes” tornaram-se parte do 
meu vocabulário diário. E eu, mulher cisgênera, heterossexual, branca, de classe média, 
com acesso à educação, descobri que havia muita coisa para aprender. 
Desdeentão, tenho me dedicado a me desconstruir e a conscientizar as pessoas ao 
meu redor sobre as opressões existentes na sociedade, além de atuar para reduzir as desi-
gualdades existentes, seja protagonizando as lutas ou sendo aliada. 
E nesse caminho, passei a integrar o Fórum de Gênero e Masculinidades do Grande 
ABC, que completou um ano de existência em agosto de 2016. Sucintamente, é uma or-
ganização da sociedade civil que visa à desconstrução do machismo e da masculinidade 
preponderante na sociedade, como medida de prevenção e combate à violência contra as 
mulheres e população LGBT. 
As pessoas integrantes do Fórum foram convidadas pelo Coletivo Prisma, da UFABC, 
a participar da construção do Observatório LGBT da Região do ABCDMRR, e foi com 
curiosidade e vontade de ajudar que aceitei o convite. 
Acredito muito no potencial transformador da educação. E cada vez mais fico convic-
ta da necessidade de não só desconstruir o machismo nos homens cisgênero adultos, mas 
de construir masculinidades que não sejam tóxicas desde a infância, em busca de uma 
sociedade mais justa para todas as pessoas, e não somente para uma parcela da população. 
Advocacia: função essencial à justiça 
O capítulo IV da Constituição Federal brasileira, de 1988, trata “Das Funções Essen-
ciais à Justiça”: Ministério Público, Advocacia e Defensoria Pública. 
Quanto à advocacia, a previsão é sucinta: “Art. 133. O advogado é indispensável à 
administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da 
profissão, nos limites da lei.”
É impossível, em breve artigo, dissertar sobre as diversas concepções de justiça e sobre 
como o acesso à justiça, no Brasil, ainda é um privilégio. Tampouco objetiva-se romanti-
zar tal profissão, ignorando-se as agruras enfrentadas no dia a dia. 
Fato é que toda pessoa bacharel em Direito, no momento da formatura, promete que 
fará “da justiça o meio de combater a violência e de socorrer os que dela precisarem”, e que 
o Código de Ética da Ordem dos Advogados do Brasil, no artigo 3º, prevê o seguinte: 
Art. 3º O advogado deve ter consciência de que o Direito é um meio de mitigar as 
desigualdades para o encontro de soluções justas e que a lei é um instrumento para garan-
tir a igualdade de todos.
103 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Portanto, para fins de entendimento, aqui neste texto vamos adotar a concepção de 
Direito acima apresentada, qual seja, que o Direito pode ser instrumento de transforma-
ção social, a partir do combate às desigualdades e da busca por igualdade não apenas pe-
rante a lei (igualdade formal), mas também na sociedade (igualdade material). 
Gostaria de demonstrar como esta concepção do Direito pode ser aplicada na prática, 
a partir da experiência com o Observatório LGBT do ABCDMRR. 
Construção e lançamento do Observatório LGBT na Região do ABCDMRR 
O evento para lançamento do Observatório LGBT foi pensado e construído com a 
participação de diversos movimentos e entidades sociais da região. 
Na primeira reunião foi explanado, por membros do Coletivo Prisma da UFABC, do 
que se trataria o Observatório LGBT: uma organização que consideraria os três eixos da 
universidade (ensino, pesquisa e extensão) para pensar em iniciativas voltadas à população 
LGBT da região. 
Também deliberamos sobre a composição da mesa que ocorreria no período da ma-
nhã, para falar sobre a importância do Observatório para a região. A composição foi 
pensada de maneira cuidadosa para garantir representatividade, praticando o pensamento 
constante imbuído na frase “Nada sobre nós sem nós”. 
Depois, decidimos pela criação de grupos temáticos, para pensarmos, dentro de cada 
tema, o que poderia ser feito pelo Observatório, considerando os três eixos (ensino, pes-
quisa e extensão). E assim, foram criados cinco grupos de trabalho, dentre eles, o de Di-
reitos Humanos e da população LGBT, do qual obviamente optei por participar, enquan-
to bacharel em Direito. 
Formação de Grupo de Trabalho de Direitos Humanos e da população LGBT 
Ciente de que nem todas as pessoas presentes seriam do “mundo jurídico”, optamos 
por apresentar alguns conceitos e informações antes de selecionar iniciativas que pode-
riam ser realizadas dentro da temática discutida no Observatório, além da apresentação 
da breve coletânea de direitos já existentes (salientando-se a lei estadual 10.948/01 que 
pune manifestações e práticas LGBTfóbicas). 
Inicialmente, necessário elucidar por que se fala em direitos humanos quando discu-
timos direitos da população LGBT. A conceituação não é tão simples, e cada autor escre-
ve à sua maneira. A partir de diversas conceituações presentes na internet, apresentamos, 
no dia do evento, a nossa própria. 
Direitos humanos são os direitos e liberdades básicas de todos os seres humanos, 
independentemente de raça, gênero, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qual-
quer outra condição. Incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de 
Gênero e Diversidade Sexual • 104 
expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre e muitos outros, e todos merecem esses 
direitos, sem discriminação. 
Portanto, basta ser “humano” para ter esses direitos. Com a conceituação fica mais simples 
a elucidação, porque uma pessoa que faz parte da população LGBT também é “humana”. 
Mas se somos todos seres humanos, por que esse recorte, falando em direitos da po-
pulação LGBT, ao invés de direitos humanos, apenas? Porque existem demandas especí-
ficas, inclusive para a população de cada uma dessas letras: a opressão pode decorrer da 
orientação sexual e/ou da identidade de gênero. E falar em direitos humanos, de maneira 
genérica, acaba por invisibilizar necessidades específicas. 
Dignidade da pessoa humana: princípio da igualdade e discriminação positiva 
A Constituição Federal, no artigo 1º, prevê alguns fundamentos da República. Um 
deles é a dignidade da pessoa humana. Portanto, como apresentado acima, basta ser hu-
mano para ter direito à dignidade. 
No artigo 5º, caput, da Constituição, consta que somos todos iguais perante a lei. 
E nesse mesmo sentido, há também vedação à discriminação, no artigo 3º, inciso IV, 
da Constituição Federal, que dispõe que é objetivo fundamental da República Federativa 
do Brasil “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e 
quaisquer outras formas de discriminação”. 
É preciso compreender que tipo de discriminação é vedado. Isso porque não é raro 
observar comentários argumentando que “somos todos iguais”, normalmente insurgindo-
-se de maneira contrária a iniciativas voltadas para uma determinada minoria social. 
O texto constitucional menciona raça, sexo, cor e idade por estas serem fontes de 
“desequiparações odiosas”, presentes na realidade social2, vedando-se a discriminação ne-
gativa, preconceituosa, e não qualquer tipo de discriminação.
Assim, é perfeitamente admissível a discriminação positiva, que significa tratar dife-
rentes grupos de maneiras diferentes, mas com um objetivo positivo, a fim de melhorar a 
condição de determinado grupo, e com critérios3: 
Além da existência da desigualdade (comprovada estatisticamente), e da relação entre 
a desigualdade e o tratamento diferenciado (ou seja, que a diferenciação busque eliminar 
a desigualdade), é necessário que um bem jurídico tutelado constitucionalmente tenha 
sido violado pela desigualdade. 
Preenchidos esses requisitos, é perfeitamente cabível discriminar-se positivamente a 
população LGBT, em busca de igualdade material. 
Grupos de Trabalho e propostas envolvendo Direitos Humanos
As propostas a seguir foram elaboradas durante o lançamento do Observatório, no 
grupo de trabalho de direitos humanos. Há propostas também de outros grupos, e algu-
105 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
mas dessas propostas são transversais, englobando demandas de outros grupos, mas bus-
camos focar em propostas que envolvessem o Direito, nos três eixos propostos:eixo ensi-
no, eixo pesquisa e eixo extensão.
Eixo Ensino
	 Capacitação para professores, técnicos administrativos e seguranças da univer-
sidade, para sensibilização e conscientização sobre orientações sexuais, identidades de 
gênero e a vulnerabilidade sexual a que estão expostas essas pessoas, bem como dos direi-
tos da população LGBT.  
	 Criação de disciplina obrigatória tanto para BCT quanto para BCH; ou apro-
veitar uma matéria já existente, como a de “Estrutura dinâmica e social”, para que estes se 
sensibilizem e passem a abordar a temática.  
	 Elaborar informativos e cartilhas sobre direitos da população LGBT e o que 
fazer em casos práticos de homo/lesbo/bi/transfobia, sendo uma cartilha para cada sigla. 
	 Realizar palestras e cursos sobre direitos da população LGBT e acesso à Justiça. 
	 Cobrar a Universidade para que informe ao alunado sobre o que pode ser feito 
em caso de discriminação, dentro da universidade; 
	 Sugerir a criação de comissão permanente para apuração de discriminações contra 
minorias no âmbito da Universidade, com representatividade LGBT, de mulheres e negros. 
Eixo Pesquisa
Foram sugeridas algumas linhas de pesquisa para iniciação científica, mestrado, dou-
torado e EPD (pesquisa dos primeiranistas): 
	 Estudar a união estável homoafetiva e o casamento homoafetivo perante o Es-
tado brasileiro (por exemplo, a partir do levantamento de dados, nos cartórios da região, 
sobre casamentos e uniões estáveis e divórcios homoafetivos registrados).  
	 Pesquisar sobre sistema prisional e gênero, principalmente fazendo o recorte da 
população trans, que acaba indo para a prisão conforme o que consta do registro, e não a 
identidade de gênero. 
	 Buscar levantar dados sobre assassinato da população LGBT. 
	 Sobre discurso de ódio contra a população LGBT, analisar a relação disso com 
o fundamentalismo religioso; e dos discursos fundamentalistas com o financiamento de 
campanha e dos projetos legislativos. 
	 Quanto ao atendimento do poder público à população LGBT, analisar as polí-
ticas públicas voltadas à população LGBT no país e na região, estudar como ocorrem os 
atendimentos da população LGBT nos hospitais públicos da região, bem como o acesso 
aos demais direitos sociais (educação, trabalho, etc.) previstos na Constituição. 
Gênero e Diversidade Sexual • 106 
Eixo Extensão
O eixo da extensão é visto como o mais importante no Observatório, pois contém 
propostas que vão para além dos muros da Universidade, permitindo trabalhar com a 
comunidade de toda a região do ABCDMRR. Por isso, foram elaboradas as seguintes 
propostas: 
	 Curso de direitos humanos e LGBT para a comunidade, para a Polícia Militar, 
para a Guarda Civil Municipal, para professores, para servidores públicos e demais públi-
cos interessados. 
	 Abordar o tema de direitos humanos e LGBT na escola preparatória da popu-
lação LGBT em vulnerabilidade. 
	 Elaborar informativos e cartilhas sobre direitos da população LGBT e o que 
fazer em casos práticos de homo/lesbo/bi/transfobia, com linguagem acessível. 
	 Realizar palestras e cursos sobre direitos da população LGBT e acesso à Justiça. 
	 Celebração de convênio entre UFABC e universidades e faculdades de Direito da 
região para sensibilização e conscientização sobre orientações sexuais, identidades de gêne-
ro e a vulnerabilidade a que estão expostas essas pessoas, bem como capacitação sobre direi-
tos humanos e LGBT; e também para oferecer assistência jurídica à população LGBT. 
	 Fazer parcerias com movimentos sociais já estabelecidos, para que abordem a 
temática LGBT; por exemplo: promotoras legais populares (para que seja inserido no 
curso conteúdo sobre a população LGBT e seus direitos). 
	 Fazer parcerias com o GADVS, Grupo de Advogados em Defesa da Diversida-
de Sexual e de Gênero; e com a OAB-SP. 
É de suma importância que o Observatório LGBT não seja somente da academia 
para a academia. É necessário que as pessoas privilegiadas por estarem no ambiente aca-
dêmico tenham ações que gerem mudanças na sociedade como um todo. 
A população LGBT não costuma ser objeto de pesquisa. É composta por pessoas que 
têm direito de acesso às políticas públicas, mas que veem isso ser negado a todo instante. 
Cabe aos pensadores e operadores do Direito conscientizarem-se e informarem-se, 
para que, ao se depararem com essas demandas, saibam respeitar a dignidade dessas pes-
soas, por exemplo, no caso da retificação dos documentos pessoais. 
Referências Bibliográficas
2 MELLO, Celso Antonio Bandeira de. Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. p. 
18. 
3 ______ Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. p. 11
Das dificuldades do Processo Transexualizador e do 
Processo de Retificação de Prenome
Léo Paulino Barbosa1 
Aqui no Brasil, para que se dê entrada com processo de retificação de prenome e gê-
nero via judiciário, se exige o protocolo transexualizador, comumente conhecido como 
“processo transexualizador”. Várias especialidades fazem parte desse processo, pois são 
necessários laudos, após dois anos de acompanhamento. Esses laudos são emitidos pelas 
áreas de: Psicologia, Psiquiatria, Clínica Geral, Assistência Social, Endocrinologia e espe-
cialistas como Ginecologista e Proctologista, que também fazem o acompanhamento de-
vido à inserção de hormônios em corpos não preparados para recebê-los.
 O que vou tentar fazer aqui é um relato das dificuldades e queixas que eu encontrei ou 
que me foram relatadas, e através delas lutamos para melhorar o sistema. Este relato abar-
ca desde o começo da minha transição até hoje (abrangendo por volta de dois anos e meio).
 Quando me falaram do processo transexualizador, a princípio não dei muita impor-
tância porque a fonte não era de confiança. E para mim, que estava num processo de co-
nhecimento de mim mesmo, com tanta informação na minha mente para ser absorvida, a 
transição em si era uma decisão importante demais e que demandava de mim um apro-
fundamento maior das razões para fazê-la.
 O fato é que as minhas verdades começaram a ter nome e sobrenome por volta de 
2010/2011, com a ajuda de pessoas que me são caras, como, por exemplo, Giuliana Zam-
botto Furlan, mulher transexual lésbica que deu “aulas” sobre todos esses temas que nos 
causam estranhamento a primeira vez que lemos sobre eles, tais como cissexismo, cisgê-
nero, heteronormatividade, entre outros. Tudo isso, nessa época, era uma coisa muito 
nova, e para mim, uma nova linguagem, como se eu estivesse aprendendo alemão. Ela é 
uma militante da causa de T, e muito empática às demandas de todas as minorias. E em-
patia é fundamental para que se avance na compreensão do outro e suas especificidades. 
Outra mulher importantíssima nesse meu reconhecer foi Priscila Bastos. Psicóloga, cario-
ca, militante LGBT, pansexual. Priscila foi o pivô do meu reconhecimento, foi ela que me 
1 Coordenador do setorial do Grande ABC pelo Instituto Brasileiro de Transmasculinidade 
- IBRAT. Graduando em Ciências Jurídicas. Militante da Causa de pessoas trans e traves-
tis. Militante de direitos humanos. 
Gênero e Diversidade Sexual • 108 
deu a sustentação para que eu, hoje, pudesse estar em paz comigo mesmo. Porque eu, 
oras, eu era uma bomba em contagem regressiva. Vivia em um estado de estresse cons-
tante e tão intenso que não sabia o que era ter silêncio, nem mesmo se eu estivesse no 
Alasca, pois os barulhos dentro de mim eram tão intensos e tão altos que paz era quase 
uma coisa utópica. 
 Vou por um instante situar vocês de uma forma bem leve sobre os porquês desses 
meus “barulhos”... 
 O fato é que, desde os cinco anos, me reconheço no gênero masculino. E esse mascu-
lino em mim é latente, aparente, e sempre foi por mim defendido. Lutei minha vida toda 
pelo meu “eu” masculino, desde os cinco anos de idade. 
Na minha adolescência passei por diversas exclusões pelo meu “eu” masculino. Em 
casa, com exorcismos e não aceitação. Também na escola e na busca de emprego. Desde 
1989 não tenho registrode emprego em carteira, mesmo fazendo cursos e me mantendo 
capacitado para o mercado de trabalho. A minha falta de compreensão sobre gênero e 
sexualidade não me deixava entender o motivo dessas exclusões e isso me levou às drogas. 
Fiquei nas drogas químicas por vinte anos, sendo que nos últimos dez anos minha prefe-
rência era o crack. Todos esses vinte anos foram marcados por muitas violências, muitas 
mesmo. E eu saí das drogas em 2010, julho, com as minhas forças, a minha determinação 
e, acreditem ou não, com a ajuda da espiritualidade. Creio que isso já dá uma ideia dos 
barulhos que vão dentro de mim. Então continuemos...
Conheci Pri Bastos no mesmo grupo de Facebook em que conheci a Giu, e ficamos 
amigos. E conversávamos muitos sobre gênero, ainda mais porque sou muito curioso, e ela 
me deu muitos textos para ler e dizia que depois que eu os lesse, iríamos conversar... De-
pois de um tempo, já com toda a leitura em mente, a chamei: “Pri, li tudo!” E ela logo em 
seguida me respondeu: “Então vou te fazer uma pergunta.” 
 – Beleza, faz aí! 
 – Então Léo, agora me diz, você é um homem ou uma mulher?
E foi nesse momento, nesse instante, em que minha vida inteira passou pelos meus 
olhos, que eu percebi o quanto fui roubado em meus direitos. O quanto essa sociedade cis 
e heteronormativa luta para que nós não existamos. O quanto era interessante para essa 
sociedade que eu me matasse nas drogas. O quanto era interessante que eu me mantives-
se alienado, socialmente, politicamente e em relação aos meus direitos, porque assim eu 
estaria inexistente. Porque assim eu não estaria nas ruas lutando para ser aceito. Porque 
assim eu não estaria agora cursando Direito para peitar toda essa organização sociopolí-
tica cis heteronormativa binária que exclui outros gêneros, outras sexualidades, outras 
raças, outras cores, outros valores que não sejam aqueles que eles classificaram como mo-
ralmente aceitos, socialmente aceitos, politicamente aceitos ou cientificamente aceitos. E 
no campo científico não são aceitos avanços que estejam indo contra “a moral e os bons 
costumes”, mesmo o país sendo laico.
109 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
 Depois desse meu processo de autodescobrimento, demorei para assimilar as infor-
mações, aceitar que direitos perdidos já não seriam mais recuperáveis, e que eu colocava a 
culpa em mim. Muitas das exclusões eu julgava serem culpa minha. Minha vida, meus 
sofrimentos, pensava ser culpa minha... Eu tive que assimilar 40 anos da minha história... 
Foi doloroso saber minhas verdades!
Em 2013 sofri um acidente de moto que me deixou incapacitado para muitas coisas 
por um ano. Em 2014 comecei a fazer minha transição.
Em 2014 procurei o ASITT (Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Tran-
sexuais) que fica dentro do CRT (Centro de Referência e Treinamento), em São Paulo na 
Vila Mariana.
 O procedimento inicial foi de preenchimento de uma ficha e espera para acolhimen-
to ainda no mesmo dia. Depois de aproximadamente 45 minutos passei com uma assis-
tente social que fez várias perguntas sobre mim e sobre as expectativas que eu tinha sobre 
o processo transexualizador, quais as cirurgias que eu queria realizar e pronto, estava feito 
o acolhimento. Veja que isso aconteceu 2014. O ASITT tinha começado a atender ho-
mens trans em 2013, enquanto as mulheres trans e as travestis já eram atendidas desde 
2009. Saí de lá com a primeira consulta de clínica geral marcada para dali a cinco meses. 
Na consulta com a médica clínica geral, que no meu caso foi muito atenciosa, ela faz 
uma investigação preliminar de sua vida no que se refere às questões de saúde em geral: 
se você já teve determinadas doenças, se tem alergias, se já fez cirurgias, ou seja, o que é 
praxe. Depois é solicitada uma bateria de exames de sangue, com mais de vinte tipos de 
análises. Isso é muito importante, uma vez que é necessário que o corpo esteja capacitado 
para receber o hormônio que vai ser injetado. Ali também já é realizado o encaminha-
mento para o psicólogo. 
Com relação ao psicólogo eu nunca fui chamado pela indicação da médica, pois me 
aconteceu o seguinte: enquanto eu esperava o tempo para voltar para o ASITT e colher 
sangue, alguns meninos me falaram que havia uma roda de conversa com uma psicóloga do 
ASITT e que a participação nesse processo também era considerada parte do tratamento. 
Pois bem, comecei a frequentar essa roda de conversa e depois de umas três ou quatro 
sessões pedi para que o atendimento fosse individual. A Dra. Maria Lúcia aceitou e eu 
comecei a passar com ela, já dentro do procedimento exigido para o processo transexuali-
zador. Depois de algum tempo (creio que entre seis e oito meses, contando com o tempo 
que eu já havia passado em outros psicólogos), a doutora deu o meu laudo para retificação 
de nome e gênero. Antes desse processo, ela havia me dado o laudo para hormonização.
Quando voltei com os exames prontos, a médica clínica geral me encaminhou para o 
endocrinologista, o que demorou em torno de três a quatro meses. No endócrino a médi-
ca solicitou exames complementares, ginecológicos e de mama, o que demandou mais 
algum tempo. No final de 2014, dia 16 de dezembro, eu comecei a minha hormonização. 
Eu consegui tudo em um ano porque tive a sorte de encontrar a Dra. Maria Lucia, que foi 
Gênero e Diversidade Sexual • 110 
muito atenta as às minhas especificidades e meu histórico. O fato de eu já ter bigode e um 
cavanhaquizinho tímido antes de me hormonizar, creio eu que também tenha ajudado. 
Quanto ao laudo psiquiátrico, recebi este ano, em fevereiro/2016.
 Entretanto, soube que para quem entrou depois de mim, em 2015, a história foi 
bem diferente. Já com o aparelhamento lotado, quem se inscrevia no processo transe-
xualizador em 2015 esperava, já de início, seis meses para acolhimento, depois mais seis 
para a primeira consulta e mais seis meses para os primeiros exames. Quanto à psicolo-
gia, estava sem data, mas a estimativa passava de dois anos para a primeira consulta. A 
endocrinologia é mais rápida, mas temos o problema da exigência de laudo de hormo-
nização para dar início, ou então, se a pessoa transexual ou travesti já for usuária do 
hormônio, dá-se continuidade. 
 Ao chegar 2016, a situação ficou insustentável e as inscrições foram fechadas. Eu não 
tenho o número exato, mas passa de 3.000 travestis, mulheres transexuais e homens trans 
sendo atendidos pelo ASITT. E a fila de espera também é enorme, mas sem data para 
abertura de vagas.
 Abriram-se então vagas na UBS Santa Cecília, e há uma movimentação sendo feita 
para que as pessoas trans e travestis que necessitam sejam avisadas. Muitos meninos já 
estão sendo atendidos por lá. E como é novinho, não tem fila. O atendimento é rápido, as 
consultas são rápidas e a hormonização em menos de seis meses. Não houve, até o mo-
mento, queixas transfóbicas. O que para nós é um avanço, já que em todo SUS, até mesmo 
no ASITT, temos diversas queixas. 
 Ah, e quanto às cirurgias: hoje em São Paulo se fazem duas cirurgias por mês, uma 
no Hospital das Clínicas e a outra no Mario Covas, e a fila está em quem foi cadastrado 
em 2009. Na velocidade que temos hoje nas cirurgias, demoraria mais de 200 anos para 
finalizar as 3.000 pessoas já cadastradas, isso sem falar no número de pessoas em espera e 
as que estão chegando todos os dias.
Mas agora vamos ao que interessa. A demonstração do processo todo é para que se 
tenha uma ideia do tempo que se leva para que uma pessoa trans e/ou travesti consiga os 
documentos necessários (laudos) para dar entrada no processo de retificação de nome e 
gênero, já que sem esses laudos o judiciário indefere o pedido.
 E veja bem, para o protocolo transexualizador esses documentos bastariam. Veja: para 
mim, esses laudos nada mais são do que o parecer de outra pessoa que não vive a minha 
realidade. Entretanto, tenho que contar para ela ao longo de aproximadamente dois anos 
que sou transexual, até finalmente ela entendere colocar no laudo seu veredicto, aceitando 
que “sim, essa pessoa tem um problema que está dentro da Classificação Internacional de 
Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID 10 – f64 e que em decorrência desse 
probleminha ela sofre”. 
 Só que na verdade todo sofrimento que eu tive em minha vida não advém do fato de 
eu ser transexual. Sou transexual e estou muito bem comigo mesmo. Todo o problema que 
111 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
até hoje tive vem de uma sociedade que não aceita o diferente. Que não aceita o que não 
é seu espelho e quer me impor padrões que não me cabem. Como, por exemplo, me impor 
que eu tenha um corpo cis. E se eu não quiser ter um corpo cis? Isso me fará menos trans? 
Estou bem com meu corpo, não quero que imponham a mim a violência de ter que me 
submeter a uma cirurgia para aparentar ser um homem cis. Contudo reconheço que quem 
acha necessária a cirurgia deve ter o direito de realizá-la.
“EU SOU UM HOMEM TRANS! MEU CORPO É LEGÍTIMO! E exijo respei-
to à forma como me identifico psíquica e corporalmente.”
 Por que disse tudo isso? Porque dei entrada em meu processo de retificação de nome 
e gênero e o Ministério Público, além dos laudos que forneci, ainda exigiu mais análises 
com equipe multidisciplinar. Já passei com assistente social, que entrevistou dois amigos 
meus de infância, a minha chefe no estágio e meu amigo que divide apartamento comigo. 
Essas entrevistas têm como objetivo ver como a sociedade me entende. Me enxerga. Me 
respeita. Eu sei que este relato não dá uma clareza de como me pareço, mas sou extrema-
mente masculino, um homem gordo, baixinho, já ficando com entradas, cabelos grisalhos, 
voz grave e com peitos pequenos. E que por ser gordo, o povo não liga uma coisa à outra. 
É claro que tenho medo de ser descoberto neste país transfóbico e algo grave aconte-
cer comigo. E sim, um dia eu faço a cirurgia, mas neste momento me reservo meu direito 
de não querer. E, apesar dos laudos, não passarei só por essa assistente, ainda terei que 
passar por profissional de Psicologia novamente, diga-se de passagem. E daí pergunto: e 
se ela for transfóbica? E se ela for fundamentalista? Vocês percebem a violência à qual estou 
sendo submetido? Toda a minha formação identitária psicossocial nas mãos de uma pes-
soa que pode não ir com a minha cara e negar meus direitos? O que estou falando até 
agora é sobre a negação de direitos explícita. Até o momento só houve negação. As teste-
munhas e os laudos são pedidos de aceitação dos meus direitos, mas estão nas mãos dessas 
pessoas. Podem ver o quanto isso é violento? E contando que a psicóloga diga “sim”, 
ainda há a decisão do juiz. 
Se submetêssemos homens cis ao crivo que eu estou passando, para que eles tivessem 
que provar que são homens, será que eles passariam? Ou seja, há toda uma sujeição à 
violência porque meu corpo não é CIS! 
 Algo que não posso admitir é a imposição de corpos cis às pessoas trans. Isso não 
pode ser uma imposição, deveria ser uma decisão de cada um. 
Apesar de tudo, já temos caso em que o judiciário está entendendo que reconheci-
mento de identidade mediante cirurgia é uma violação do direito de personalidade, além 
de uma violação de direitos humanos.
 Estamos longe de conseguir uma lei que contemple as identidades trans dignamente, 
como a que queremos com a aprovação da lei João Nery PL 5002/13, que facilitaria a 
modificação em cartório de nome e gênero de pessoas transexuais e travestis. Ela também 
Gênero e Diversidade Sexual • 112 
prevê a manutenção do tratamento hormonal e cirurgias de adequação ao gênero e de 
redesignação sexual, que são extremamente importantes em uma sociedade que não 
entende o corpo trans como sendo um corpo detentor dos mesmos direitos que qual-
quer cidadão.
Há também a necessidade de que todos entendam gênero e suas mais diversas varia-
ções, tanto em identidades quanto em expressões e/ou papéis de gênero. Há uma infini-
dade de visões e autocompreensões de gênero que não se enquadram dentro da dicotomia 
dominante no mundo, mas nem por isso elas deixam de existir ou de necessitar ter os seus 
direitos reconhecidos. 
 O que importa realmente é que comecemos a entender que o outro, por ser dife-
rente de nós, é apenas mais uma nuance da humanidade, e é com essas nuances que 
vamos colorindo esse planeta em diversidades, sejam elas de raça, gênero, sexualidades, 
religiosidades.
O que nos faz cada vez mais humanos é acolher cada dia mais nossos iguais, respei-
tando-os e aceitando-os em suas singularidades. Cada um de nós é detentor de uma 
verdade única que somente cabe a nós mesmos. Contudo, enquanto seres humanos, temos 
todos direitos universais consagrados que devem ser respeitados, sem acepções de raça, 
classe, etnia, gênero, sexualidades etc. E se tivermos empatia e reconhecermos nossos 
privilégios, dando esses dois passos, estaremos cada dia mais próximos da igualdade para 
todos em cada especificidade. 
 Cabe a mim, a você, a todos nós ajudarmos nessa construção. Então, não espere que 
cada demanda lute por seus direitos sem sua participação. Juntos somos mais fortes! 
Abrace, também, a causa trans!
Religião em meio aos debates sobre gênero, ideologia 
de gênero e “Escola Sem Partido”: acomodações 
contemporâneas entre distorções, retrocessos e avanços 
Clarissa De Franco1
A máquina torcedor estraçalha a carne do homem no ponto de ônibus porque trajava preto e 
branco e não azul e branco E duas de nós são agredidas pela máquina heterossexual porque andá-
vamos de mãos dadas Roupas arrancadas carne exposta para delírio da máquina estupro Não 
para A máquina multidão não opera milagres Não ajuda Olha nossa miséria e dança E quando 
dança na rua seja por causa da máquina carnaval ou máquina manifestação as máquinas auto-
motivas não perdoam A artéria avenida leva oxigênio para as células casas O ódio contra quem 
obstrui o sistema máquina circulatório é o mesmo contra quem rouba seja um xampu um celular 
uma maçã não para MATEM para que a máquina lamento possa funcionar Crânios afundados 
Barrigas perfuradas Ossos quebrados Cabeças decepadas Não para A máquina gozo das imagens 
precisa ejacular e não nos resta outra saída. (O Canto das Mulheres do Asfalto, Carlos Ca-
nhameiro. In FONSECA, 2015, p. 30.)
A escolha da poesia densa que acabamos de trazer demonstra nossa estratégia de ar-
ticular a questão da violência de gênero com outras formas de violência, como a incapaci-
dade de aceitação da legitimidade da verdade do outro, e também a necessidade de elimi-
nar as diferenças, apontando para uma negação da alteridade em função de recursos pri-
mários de defesa de território de identidade. O “outro” representa uma ameaça aos pro-
cessos de transitoriedade da identidade do sujeito, que como defesa, passa a mobilizar-se 
com violência. Há, nesse processo, um espetáculo triste de espelhamento e imaturidade.
As religiões, nesses processos de estruturação da identidade e espelhamento emocio-
nal, acabam por ocupar um papel muitas vezes normativo e orientador, papel que é viven-
ciado por cada religioso/a de modo mais ou menos autônomo. Neste sentido, as apropria-
ções das orientações religiosas por parte dos seguidores são determinantes para as relações 
com os demais sujeitos e temas da sociedade.
1 Clarissa De Franco é psicóloga da UFABC, doutora em Ciência da Religião e pós-douto-
ra em Ciências Humanas e Sociais. Atua com políticas afirmativas e suas linhas de pesqui-
sas centram-se em religião, laicidade, direitos humanos e islamofobia. 
Gênero e Diversidade Sexual • 114 
Em tempos que alguns autores chamam de pós-modernos (LYOTARD, 1993), 
modelos como as religiões podem trazer um alento aos seres humanos, que estão imer-
sos em multiculturalismo, individualismo, fragmentos ideológicos, discursos e narrati-
vas plurais, vozes heterogêneas sobre verdade, moralidade, caminho correto... As reli-
giões e suas orientações tendem a fornecer modelos orientadores de sentido. Dianteda 
laicidade e multiculturalismo, no entanto, tais modelos, quando pretendem uma univer-
salização de seus pressupostos, acabam por promover um não reconhecimento de ou-
tros pontos de vista. 
Quando se trata das aproximações entre religião e gênero, especialmente nos debates 
públicos, logo se pensa, em termos de senso comum, nos preconceitos e violências ocorri-
das em nome de universos morais religiosos rígidos. De fato, a participação das religiões 
nos espaços públicos, a partir da noção de laicidade, é alvo de polêmicas e, por vezes, foco 
de intolerâncias e violências. Há que se considerar, como introdução ao debate, que a 
laicidade de Estado não retira as religiões do espaço público, mas sim regulamenta sua 
participação, além de garantir que a pluralidade de crenças seja respeitada, sem favoreci-
mento a grupos religiosos majoritários. Também devemos ter como pressuposto que há 
muitas matrizes religiosas, com doutrinas, crenças e práticas distintas entre si, e que não 
se pode atribuir o mesmo referencial a todas elas.
As vozes das diversas matrizes religiosas têm garantido por lei seu direito de partici-
par de debates públicos, como os que tocam o foco deste artigo, os debates de gênero. O 
foco de preocupação, em termos de laicidade, é de que modo se dá essa participação dos 
grupos religiosos nesses debates, uma vez que existe um número notável de lideranças 
religiosas com poder propositivo e deliberativo em nossa política, em especial, um grupo 
majoritário específico: os cristãos. 
Eis um primeiro problema na representação democrática: o debate não se dá entre 
religiões e outros grupos sobre o tema de gênero. Ele acontece a partir de um grupo reli-
gioso específico com outros segmentos da sociedade. No Brasil, a Frente Parlamentar 
Evangélica hoje tem uma representação de aproximadamente 30% de parlamentares2 no 
Congresso. Um número expressivo, que tem sido responsável por trazer pautas e projetos 
de lei considerados em sua maioria como conservadores. Essa representatividade é próxi-
ma (um pouco superior) à porcentagem de evangélicos no país declarada no último censo 
do IBGE de 20103 (cerca de 22,2% da população brasileira), mas considerando a defasa-
gem dos anos de 2010 para cá, e acompanhando o crescimento do número de evangélicos 
2 Dados disponíveis em: http://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.
asp?id=53658. Acesso em agosto de 2015.
3 Dados disponíveis em: http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?tema=censodemog 
2010_relig Acesso em agosto de 2016.
http://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=53658
http://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=53658
http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?tema=censodemog2010_relig
http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?tema=censodemog2010_relig
115 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
declarados no país nos últimos anos (NERI, 2011), podemos supor que essa porcentagem 
seja representativa.
 Percebe-se que a disputa do espaço público esbarra em questões de representa-
tividade. Frentes parlamentares inchadas (como a Evangélica e a Ruralista, entre outras) 
tendem a orientar os debates públicos para tendências universalizantes e homogeneiza-
doras. Já tratamos desse tema em outro trabalho (PINEZI; FRANCO, in: FRANCO; 
MARANHÃO, 2016), apontando a tendência da chamada Bancada Evangélica de apre-
sentar propostas que indicam um objetivo de universalizar a moralidade, à luz de pressu-
postos cristãos. Conforme discutiremos no texto, percebe-se uma disputa política e ideo-
lógica, e ao mesmo tempo uma distorção em torno do conceito de gênero. Tal distorção 
invade o terreno das políticas educacionais e coloca em disputa o destino de atores e 
atrizes sociais que não se encaixam em padrões vigentes e que buscam uma cidadania 
participativa e um reconhecimento social. Para fazer jus à poesia de Carlos Canhameiro 
do início do texto, as máquinas da ideologia dominante e defesa da tradição seguem es-
magando a contradição.
Gênero e a distorção conceitual e moral da ideologia de gênero e 
“Escola sem Partido”
Eu superei esta agressão entendendo que o mal estava com quem me agrediu (Renata Peron, 
abril de 2015, in FONSECA, 2015, p. 23.).
Em 08 de julho de 2016, em matéria do Jornal O Globo4, lê-se a seguinte manchete: 
“Temer promete a pastores que MEC vai analisar combate à ‘ideologia de gênero’”. A 
matéria ilustra uma tensão presente no espaço público brasileiro que envolve política, li-
deranças de um grupo religioso e uma disputa acerca do conceito de gênero e de seus usos 
na educação e em outros âmbitos. O termo “ideologia de gênero” veio à baila recentemen-
te e coloca-se no centro de um importante debate acerca de diretrizes educacionais e 
políticas, envolvendo conceitos como gênero, moral e sexualidade.
O conceito de gênero vem de duas matrizes: de um lado, os movimentos sociais femi-
nistas e mais recentemente também os de grupos LGBT5, e de outro lado, os estudos 
4 Disponível em: http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/temer-promete-pasto-
res-que-mec-vai-analisar-combate-ideologia-de-genero.html. Matéria de 08 de julho de 
2016, acesso em agosto de 2016.
5 Apesar de existirem outros termos, a sigla LGBT foi escolhida para tratar das reivindica-
ções de gênero que incluem outros sujeitos além das mulheres feministas, como lésbicas, 
gays, bissexuais, transexuais, transgêneros, travestis, intersexuais, queer, etc. 
http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/temer-promete-pastores-que-mec-vai-analisar-combate-ideologia-de-genero.html
http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/temer-promete-pastores-que-mec-vai-analisar-combate-ideologia-de-genero.html
Gênero e Diversidade Sexual • 116 
sociológicos, antropológicos, filosóficos e psicológicos. Tal conceito firmou-se de modo 
mais concreto a partir de teorias pós-modernas, pós-estruturalistas e pós-coloniais, que, 
de modo bem genérico, questionam as tradições clássicas de alguns pressupostos, como 
conceitos e narrativas pautados em binarismos (natureza e cultura, por exemplo).
Com raízes em reivindicações dos movimentos sociais feministas, os estudos de gêne-
ro passaram por diversas fases, dentre elas, uma luta inicial por direitos civis básicos, como 
direito a voto e participação na vida pública. Essa é a chamada primeira onda do feminis-
mo, que se convencionou situar entre fins do século XIX e primeira metade do século XX. 
Simone de Beauvoir (2003), no fim dessa primeira fase do feminismo, está entre as auto-
ras que cumprem o importante papel de trabalhar a noção de construção social dos gêne-
ros. Papel que, como veremos a seguir, foi reformulado pela teoria queer e pela filósofa 
Judith Butler.
Na esteira de Simone de Beauvoir, seguiu-se a esse momento um cenário de pós-
-guerra, no qual se reivindicavam mudanças mais sólidas no papel social da mulher, busca 
por igualdade de condições, direito ao prazer, além de questionar os modelos clássicos de 
casamento e de relações entre os gêneros. A segunda onda do feminismo traz outras rei-
vindicações de cunho político. Os estudos de gênero passam a ser intercruzados com 
outros dados como etnia, raça, classe social e desse movimento surgem importantes no-
mes, como Angela Davis (1981) e Beverly Fisher (1978), que passam a denunciar a invi-
sibilidade das mulheres negras dentro das próprias pautas dos movimentos feministas. O 
feminismo negro passa a lutar para que as mulheres negras se tornem sujeitos políticos. 
Joan Scott, também nessa linha política de considerar outros marcadores, considera que 
“o gênero é uma forma primária de significar as relações de poder” (SCOTT, 1995, p. 88). 
Outros nomes, de fora do circuito estadunidense e europeu, surgem com reivindica-
ções dos estudos pós-coloniais, como Gayatri Spivak (2010), que trata do silenciamento 
das vozes das mulheres ao longo dos séculos, em especial mulheres de determinadas con-
dições sociais, étnicas, econômicas e geográficas. 
Já na terceiraonda do feminismo, a precursora do movimento queer e filósofa estadu-
nidense pós-estruturalista Judith Butler faz avançar as discussões do feminismo negro, na 
medida em que indica que o discurso feminista universal é excludente, pois parte do viés 
da mulher branca e de classe média. Apontando as diferenças entre as mulheres dos vários 
lugares sociais e identitários, Butler (2003; 1994) propõe uma desconstrução das teorias 
feministas que acabavam por gerar uma “falsa” universalização do conceito de mulheres.
 A autora trouxe uma ressignificação de concepções tradicionalmente vistas como 
binárias no que se refere à natureza e cultura, significante e significado, sexo e gênero. 
Essas formulações são colocadas em questão, por exemplo, pelo conceito de performativi-
dade (BUTLER, 2003; 1994). Tal proposta desconstrói a ideia de identidade de gênero, 
como se pensava até o momento, indicando que os ditos sujeitos do gênero não existiriam 
117 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
de fato. Esse raciocínio desmonta o binarismo sexo/gênero em que sexo era tido como 
naturalizado e gênero como uma construção social. A pensadora, desafiando concepções 
filosóficas, propõe a performatividade como ato do gênero, indicando que ser homem, ou 
ser mulher, ou ser outra coisa não são realidades ou verdades internas. Portanto, não se 
pertence a um gênero, mas se atua e se performa em gêneros diante de determinados 
contextos sociais. Ser homem, ser mulher, ser homossexual, ser travesti, ser transexual, ser 
não binário, ser cisgênero... todas essas formulações seriam móveis, fluidas, dinâmicas e 
não parte do ser, mas sim componentes do percurso identitário das pessoas. 
As lutas de gênero, nessa terceira fase pós-década de 90, passam a abarcar também as 
vozes do movimento LGBT. Considerando que os grupos feministas, bem como os gru-
pos LGBT não são homogêneos, apresentando grandes diferenças conceituais e de orga-
nização, essas teorias são vivenciadas e atualizadas em cada um desses microcosmos da 
luta de gênero. 
E é nesse contexto revolucionário acerca dos estudos de gênero que surge o conceito 
de “ideologia de gênero”, uma reação ao processo de consolidação dos estudos de gênero. 
Não se trata de um conceito acadêmico, mas sim de um termo que tem se popularizado e 
sido utilizado por figuras com alguma repercussão pública, tornando-se palco de uma 
disputa político-ideológica que passa pela questão religiosa, quando se pretende universa-
lizante e homogeneizadora, como foi apontado no início desta comunicação. 
O termo “ideologia de gênero” surgiu no Brasil a partir dos debates envolvendo a 
elaboração do Plano Nacional de Educação (PNE), desde 2014. Políticos, religiosos, pes-
quisadores, sociedade civil e cidadãos comuns têm se dividido entre o grupo dos que en-
tendem ser necessário que o termo gênero conste nos novos planos municipais e estaduais 
de educação e o grupo daqueles que percebem essa tentativa como uma ameaça aos con-
ceitos clássicos e às noções tradicionais de sexualidade.
Ideologia de gênero é apontada por grupos religiosos e conservadores6 como uma 
crença de que não haveria diferença entre homens e mulheres, a não ser pela escolha de 
atuação em um determinado gênero. Esse ponto de vista indica que a ideologia de gênero 
exclui a noção de sexo biológico, trazendo apenas a perspectiva de gênero como constru-
ção social, e sugere que este seja um “perigo” educacional, na medida em que teria a cha-
mada ideologia de gênero um objetivo de tornar único seu ponto de vista, como uma 
teoria universal. Há uma forte argumentação desses grupos no sentido de que a crença na 
6 Deixamos como referências não acadêmicas sites de grupos religiosos que trabalham a pers-
pectiva da ideologia de gênero: https://www.youtube.com/watch?v=j7zbS1RYdpg (Docu-
mentário da BBC sobre ideologia de gênero. Acesso em agosto de 2016). https://www.you-
tube.com/watch?v=e8y-wtgULQE (Padre Paulo Ricardo falando sobre o tema na Câmara 
de Brasília. Acesso em agosto de 2016). https://www.youtube.com/watch?v=y_HgQV-
CiOnQ (Pastor Silas Malafaia, sobre ideologia de gênero. Acesso em agosto de 2016). 
https://www.youtube.com/watch?v=j7zbS1RYdpg
https://www.youtube.com/watch?v=e8y-wtgULQE
https://www.youtube.com/watch?v=e8y-wtgULQE
https://www.youtube.com/watch?v=y_HgQVCiOnQ
https://www.youtube.com/watch?v=y_HgQVCiOnQ
Gênero e Diversidade Sexual • 118 
ideologia de gênero ou na ideologia de ausência do sexo é uma proposta de excluir as di-
ferenças biológicas, o que acabaria refletindo ao longo dos anos em uma destruição das 
noções tradicionais de relacionamentos afetivos, casamento e família. 
Com um discurso público com aparência de neutralidade, os adeptos do termo ideo-
logia de gênero acusam os estudiosos e os movimentos sociais de gênero de impor uma 
agenda à educação e às políticas do país que não permitiria outra posição além da ideia de 
que gênero é uma construção social. Existe nesse ponto uma inversão ideológica, discur-
siva e conceitual importante. O conceito de gênero, construído durante décadas com base 
em grupos que foram excluídos, marginalizados, ofendidos e alijados da participação na 
vida pública, ganha agora contornos de opressão, segundo o olhar daqueles que criaram o 
termo ideologia de gênero. 
Tal inversão ideológica entre sujeitos da relação opressor/oprimido encobre os reais 
problemas existentes sobre gênero. A título de exemplo, acompanhando o espírito do 
momento em que este texto é construído7, uma atleta sul-africana chamada Castel Se-
menya é enquadrada na categoria de intersexual, pelo fato de possuir um corpo que não 
se enquadra nos padrões masculinos, tampouco femininos. Castel tem a genitália femi-
nina, mas não possui órgãos femininos como ovário e útero. Além disso, seus níveis de 
testosterona são equiparados aos de homens. Castel Semenya torna-se um desafio, na 
medida em que a acusam de ter vantagens nas competições, a partir de seu maior nível 
hormonal em relação às demais competidoras. Seu caso enquadra-se em uma espécie de 
limbo, para o qual não se tem ainda referências e procedimentos consensuais. Conside-
rando o impacto desse desafio e de muitos outros que se apresentam a partir das possi-
bilidades de gênero, percebe-se quão leviana seria a afirmação de que a categoria de 
gênero é uma invenção ou crença de grupos que querem impor sua narrativa ideológica 
ao restante da população.
O termo “ideologia” pressupõe um instrumento de doutrinação. E, considerando as 
declarações públicas de lideranças religiosas sobre a ideologia de gênero apontadas na 
nota 6 deste artigo, podemos observar que não se trata de uma pauta neutra. Pelo contrá-
rio, há objetivos bastante delineados de evitar doutrinações ideológicas contrárias aos 
pressupostos religiosos cristãos. Trata-se de uma inversão de paradigmas, já que aqueles 
que tradicionalmente saem em defesa de valores conservadores, levando a choques cultu-
rais e a intolerâncias contra grupos com pautas progressistas, acusam agora os progressis-
tas de doutrinadores ideológicos. 
Na mesma direção de inversão de preconceitos, o projeto de lei chamado de “Escola 
sem Partido” (PL 867/2015, do deputado Izalci Lucas Ferreira, PSDB e PLS 193/2016 
do senador Magno Malta, PR) tem a proposta de incluir entre as diretrizes e bases da 
7 O artigo foi escrito na época dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. 
119 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
educação nacional, apoiando-se na “neutralidade política, ideológica e religiosa do Esta-
do” (art. 2º), orientações, restrições e normativas sobre o conteúdo educacional e as práti-
cas pedagógicas. Tal proposta, conforme veremos no art. 3º citado abaixo, proíbe formas 
de doutrinação ou veiculação de conteúdos que entrem em conflito com as convicções das 
famílias dos estudantes. 
São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica bem como 
a veiculação de conteúdos ou a realização de atividadesque possam estar em conflito com 
as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes8.
O projeto, que parte de um aparente princípio apartidário e não doutrinador, acaba 
por se mostrar restritivo e cerceador quanto à liberdade de expressão do/a professor/a, 
além de promover formas de contenção e censura em relação à manifestação das plurali-
dades. O princípio de proibição à veiculação de atividades e conteúdos que estejam em 
conflito com as crenças e orientações morais dos pais dos alunos acaba por fazer calar 
qualquer forma de manifestação dos docentes que não se restrinjam à objetividade dos 
conteúdos didáticos. Estranha uma neutralidade que exige o silêncio em vez do debate. 
Cabe constar que ambos os proponentes do projeto Escola Sem Partido na Câmara e 
no Senado pertencem à Frente Parlamentar Evangélica. O senador Magno Malta é pas-
tor evangélico e já atuou em outras pautas restritivas e cerceadoras. Em 2007, em discur-
so na tribuna do Senado, Magno se opôs à aprovação do projeto de lei 122/2006, que 
criminaliza a homofobia.
Nesse sentido, podemos observar que não se trata de uma pauta neutra. O projeto 
Escola Sem Partido, na mesma linha do grupo que traz o termo ideologia de gênero bus-
cando impedimentos para que esta palavra conste em nosso plano educacional, mostra a 
organização política de grupos com participação ativa de religiosos cristãos, em especial 
de lideranças evangélicas, com interesses em defesa de valores tradicionais de sexualidade, 
família e moralidade.
 Estamos diante de discursos com aparência de democracia e neutralidade, mas práti-
cas que tendem ao cerceamento de expressões, como já aqui apontado. O mecanismo a 
que se deve atentar refere-se especialmente ao processo de inversão do preconceito. Os 
grupos que geralmente trazem o discurso da tradição e da família são também aqueles que 
acabam por permitir que violências e intolerâncias permaneçam existindo contra mino-
rias, e no caso deste artigo, as minorias de gênero. Como pano de fundo a esta discussão, 
temos a clássica divisão do país entre o que se pressupõe ser “direita” e “esquerda”, conser-
vadorismo e progressismo, entre outros binarismos fortes na cultura brasileira.
8 PL 867/2015, disponível em: http://www.camara.gov.br/sileg/integras/1317168.pdf. 
Acesso em agosto de 2016.
http://www.camara.gov.br/sileg/integras/1317168.pdf
Gênero e Diversidade Sexual • 120 
Há que se concluir, indicando que a palavra ideologia – carregada de cargas simbó-
licas e conceituais muitas vezes negativas – pode ser usada como um símbolo dessas 
disputas políticas, morais, religiosas, partidárias, sociológicas e filosóficas nas quais es-
tamos mergulhados. O símbolo se alia ao seu significante que, deliberadamente, conduz 
a um significado.
Não existe uma lei de identidade de gênero no Brasil. Nós não temos uma lei que nos 
resguarde o uso do nome social. O que existe, o que nós temos e que foi aprovada agora, no 
dia 12 de março de 2015, foi uma resolução que estabelece que a gente possa usar o nome 
social nas instituições. [...] Mas não é lei. Isso é uma resolução, tá? (Renata Peron in FON-
SECA, 2015, p. 25).
Apresentamos, nesta comunicação, uma perspectiva que tem ocupado boa parte das 
relações atuais entre religião e política, passando pela questão de gênero. Vivemos um 
cenário de disputa ideológica, política e religiosa, no qual os atores e as atrizes assumem 
posições diante de binarismos que dificultam acentuadamente consensos e diálogos. Tal 
disputa tende a mascarar avanços nas discussões de gênero e a deixar de lado as perspec-
tivas de combate às intolerâncias e às violências de gênero. Um claro retrocesso que tende 
a prejudicar justamente aqueles/as que sofrem com as tentativas de universalizar pensa-
mentos e coibir manifestações. Ainda hoje, projetos como a criminalização da homofobia 
não foram aprovados em nosso Congresso. A política tem se tornado palco de todas essas 
disputas aqui apontadas.
Finalizamos esta reflexão indicando que a existência da pluralidade ameaça grandes 
grupos e forças ideológicas (como os religiosos), que acabam por utilizar retóricas e dis-
cursos como forma de aniquilar os avanços que os afetam. Aciona-se, desse modo, meca-
nismos de proteção identitária, em busca da sobrevivência do grupo e de seus valores.
O projeto Escola Sem Partido, aliado à busca pelo fim do uso da palavra e do concei-
to de gênero nos planos educacionais de base do Brasil, são mostras desse mecanismo de 
proteção grupal dos religiosos, em especial de algumas lideranças evangélicas. É preciso 
lembrar, no entanto, que evangélicos não são, nem de longe, um grupo homogêneo, e que 
tal debate aqui apontado é expressão de uma disputa que envolve determinados atores e 
atrizes do campo religioso evangélico e cristão. Nesse sentido, generalizações para ambos 
os lados dessa disputa (evangélicos e militâncias de gênero) acabam por promover ainda 
mais intolerâncias e violências.
Há que se considerar que nem todas as relações entre religião e gênero são tensas e 
conflitivas. Em alguns grupos religiosos, a homossexualidade ou outras possibilidades de 
vivência da sexualidade e do gênero encontram boa receptividade, como é o caso das reli-
giões de matrizes afro, que tendem a valorizar a figura feminina. Além disso, é preciso 
olhar para as tentativas de aproximação dos grupos religiosos cristãos aos homossexuais 
por meio das Igrejas inclusivas, hoje espalhadas por todo país. O grande líder do universo 
121 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
católico, papa Francisco, tem promovido falas públicas em sentido de conciliação com 
histórias de machismo e LGBTfobia promovidas em outros períodos pela Igreja.
Ao contrário do que se pressupõe por lideranças que pedem o fim do uso do termo 
“gênero”, não existe um “plano maligno” de cientistas, feministas e LGBTs para acabar com 
a moral e os bons costumes. Existe um mundo plural, que vem se diversificando acelerada-
mente e que espera ver essa diversidade representada e empoderada nos espaços públicos. 
Referências Bibliográficas
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo sexo. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2003.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Ja-
neiro: Civilização Brasileira, 2003.
BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do sexo. Tradução de 
Tomaz Tadeu da Silva. In: LOURO, Guacira Lopes (org.). O corpo educado. Belo 
Horizonte: Autêntica Editora, 2001. p. 151-172.
DAVIS, Angela Y. Women, Race, and Class. New York: Random House, 1981. 
FISHER, Beverly. Quest, a Feminist Quarterly. International Feminism. Paperback, 1978. 
FONSECA, Weber. Lgbtfobia. Casos de violência por discriminação de gêneros, identi-
dades e orientações sexuais na Grande São Paulo. São Paulo: Lamparina luminosa, 
2015.
FRANCO, Clarissa; PINEZI, Ana Keila Mosca. Laicidade e os limites da religião no 
contexto político brasileiro: a Frente Parlamentar Evangélica e a defesa de uma 
moralidade universalizante. in FRANCO, Clarissa; MARANHÃO, Eduardo 
Meinberg Fo. Gênero e Religião: violência, fundamentalismos e política. Florianó-
polis: Colmeia (no prelo).
LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Tradução: Ricardo Correia Barbosa. 4. ed. 
Rio de Janeiro: José Olympio, 1993. 
NERI, Marcelo Cortês. Novo Mapa das Religiões. São Paulo: FGV, 2011.
SCOTT, Joan. Gênero: uma Categoria Útil de Análise Histórica. Educação e Realida-
de. 20 (2), p.71-99, 1995. 
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora da UFA-
MG, 2010.
Outras fontes:
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temas.php?tema=censodemog2010_relig Acesso em agosto de 2016.
http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?tema=censodemog2010_relig
http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?tema=censodemog2010_relig
Gênero e Diversidade Sexual • 122 
Matéria do Jornal O Globo online: “Temer promete a pastores que MEC vai analisarcombate à ‘ideologia de gênero’”. Disponível em: http://blogs.oglobo.globo.com/
lauro-jardim/post/temer-promete-pastores-que-mec-vai-analisar-combate-ideo-
logia-de-genero.html. Matéria de 08 de julho de 2016, acesso em agosto de 2016.
PL 867/2015, disponível em: http://www.camara.gov.br/sileg/integras/1317168.pdf. 
Acesso em agosto de 2016.
Documentário da BBC sobre ideologia de gênero. Disponível em: https://www.youtube.
com/watch?v=j7zbS1RYdpg Acesso em agosto de 2016. 
Padre Paulo Ricardo falando sobre o tema na Câmara de Brasília. Disponível em: https://
www.youtube.com/watch?v=e8y-wtgULQE. Acesso em agosto de 2016. 
Pastor Silas Malafaia, sobre ideologia de gênero. Disponível em: https://www.youtube.
com/watch?v=y_HgQVCiOnQ. Acesso em agosto de 2016.
Dados oficiais da Frente Parlamentar Evangélica, Disponível em: http://www.camara.leg.
br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=53658. Acesso em agosto de 2015.
http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/temer-promete-pastores-que-mec-vai-analisar-combate-ideologia-de-genero.html
http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/temer-promete-pastores-que-mec-vai-analisar-combate-ideologia-de-genero.html
http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/temer-promete-pastores-que-mec-vai-analisar-combate-ideologia-de-genero.html
http://www.camara.gov.br/sileg/integras/1317168.pdf
https://www.youtube.com/watch?v=j7zbS1RYdpg
https://www.youtube.com/watch?v=j7zbS1RYdpg
https://www.youtube.com/watch?v=e8y-wtgULQE
https://www.youtube.com/watch?v=e8y-wtgULQE
https://www.youtube.com/watch?v=y_HgQVCiOnQ
https://www.youtube.com/watch?v=y_HgQVCiOnQ
http://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=53658
http://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=53658
Diálogos inter-religiosos no Brasil de combate ao 
fundamentalismo, à homo-lesbo-transfobia e promoção do 
Estado Laico
 Arthur P. Cavalcante1 
O texto escrito e apresentado vem do interesse pessoal em pesquisar o tema da reli-
gião e sua relevância para o espaço público brasileiro. Hoje o ambiente acadêmico não 
pode desconsiderar o fator da religião ou dos grupos baseados na fé/crença no caminhar 
dos planejamentos das políticas públicas em nosso país. Vemos aqui e ali ações desses 
grupos ou de políticos que, inspirados por uma religiosidade, buscam influenciar/deter-
minar – às vezes de forma positiva, mas na maioria das vezes negativamente –, colocando 
em risco o Estado Laico e o bem-estar da pessoa cidadã. 
O tema sobre “Diálogos Inter-religiosos no Brasil de combate ao fundamentalismo, à 
homo-lesbo-transfobia e promoção do Estado Laico”, trazendo a academia e a sociedade 
civil organizada para um colóquio, mostra exatamente esse cuidado da pessoa cientista 
para estar atenta à compreensão de como se dão essas dinâmicas de disputa da religião no 
espaço público em tempos da modernidade, do secularismo e da globalização. 
Há muito percebo, como liderança religiosa de minha comunidade de fé e também 
como pesquisador em Ciências da Religião, a disputa acirrada no espaço público pelas 
religiões, ligadas diretamente à estrutura eclesiástica ou aos movimentos/redes/organiza-
ções ecumênicas. Vira e mexe ouvimos aqui e ali notícias sobre o lobby de igrejas, demar-
cando espaço/opinião, sobre questões que envolvem, por exemplo, aborto, direitos sexuais 
e reprodutivos e aqui, especificamente, os direitos LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, tra-
vestis, transexuais e intersexo). Muitos não se contentam em permanecer no espaço pri-
vado e buscam retomar o seu protagonismo na sociedade. 
Para exemplificar isso, trago à memória a dramatização de uma crucificação de uma 
LGBTI, protagonizada por Viviany Beleboni, uma jovem atriz transexual, na 19º Parada 
do Orgulho LGBT de São Paulo. A mobilização ocorreu em 07/06/2015 e teve como 
tema: “Eu nasci assim. Eu cresci assim. Vou ser sempre assim. Respeitem-me!” 
1 Reitor da Paróquia da Santíssima Trindade, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Se-
cretário Geral da Província Brasileira. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade 
Metodista de São Paulo (UMESP). 
Gênero e Diversidade Sexual • 124 
Seu ato gerou reações diversas, tais como críticas e até insinuações claras de violências, 
às vezes físicas, ou mais sutis, mas não menos agressivas, de pessoas e lideranças que se 
diziam desrespeitadas pela “profanação” de um símbolo religioso cristão (cruz). A atriz 
afirmou que:
Eu vejo a parada como um protesto, não como uma festa [...] Usei as marcas de Jesus, que 
foi humilhado, agredido e morto. Justamente o que tem acontecido com muita gente no meio 
GLS, mas com isso ninguém se choca.2 
Isso me custou perguntas do tipo: como a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil vê 
oficialmente esse tipo de manifestação, que para muitas pessoas demonstra uma falta de 
respeito pelo símbolo religioso? 
Quero destacar alguns comentários de lideranças do cenário religioso cristão sobre o 
episódio da crucificação da trans no contexto daquela Parada, mas que são comentários 
recorrentes também em outras circunstâncias: 
Entendo que quem sofre se sente como Jesus na cruz. Mas é preciso cuidar para não 
banalizar ou usar de maneira irreverente símbolos religiosos, em respeito à sensibilidade reli-
giosa das pessoas. Se queremos respeito, devemos respeitar (Cardeal Dom Odilo Scherer - 
Arcebispo da Arquidiocese de São Paulo/Igreja Católica Apostólica Romana - ICAR). 3
Imagens que chocam, agridem e machucam. Isto pode? É liberdade de expressão, di-
zem eles. Debochar da fé na porta de uma igreja pode? Colocar Jesus num beijo gay pode? 
Enfiar um crucifixo no ânus pode? Despedaçar símbolos religiosos pode? Usar símbolos 
católicos como tapa sexo pode? Dizer que sou contra tudo isso NÃO PODE? Sou intole-
rante, né? (Marco Feliciano, Deputado Federal e líder religioso evangélico).4 
É óbvio que discordei da estratégia de marketing dos organizadores e sem dúvida 
percebi que o alvo era mesmo a provocação aos cristãos. Embora o episódio tenha sido 
justificado como sendo uma forma de expor a humilhação sofrida pelos gays, a impressão 
que dá é outra [...] Ali não estava acontecendo uma profanação de objetos sagrados para 
mim – no caso, a cruz – simplesmente porque para mim uma cruz de madeira nada tem de 
sagrada nela [...] Meu cristianismo evangélico reformado não tem templos sagrados, obje-
2 <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/06/representei-dor-que-sentimos-diz-
-transexual-crucificada-na-parada-gay.html>
3 Folha de São Paulo 09/06/2015. Acesso em 09/07/15 <http://www1.folha.uol.com.br/
cotidiano/2015/06/1639631-atriz-que-encenou-crucificacao-na-parada-gay-recebe-
-ameacas.shtml>
4 <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/06/representei-dor-que-sentimos-diz-
-transexual-crucificada-na-parada-gay.html>
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/06/representei-dor-que-sentimos-diz-transexual-crucificada-na-parada-gay.html
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/06/representei-dor-que-sentimos-diz-transexual-crucificada-na-parada-gay.html
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/06/1639631-atriz-que-encenou-crucificacao-na-parada-gay-recebe-ameacas.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/06/1639631-atriz-que-encenou-crucificacao-na-parada-gay-recebe-ameacas.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/06/1639631-atriz-que-encenou-crucificacao-na-parada-gay-recebe-ameacas.shtml
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/06/representei-dor-que-sentimos-diz-transexual-crucificada-na-parada-gay.html
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/06/representei-dor-que-sentimos-diz-transexual-crucificada-na-parada-gay.html
125 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
tos sagrados, imagens sagradas, símbolos sagrados ou líderes sagrados. Por isto não ficamos 
explodindo bombas quando zombam de Lutero, Zuwinglio ou Calvino, quando tripudiam 
sobre a Bíblia ou quando picham as igrejas. E por isto eu não me sinto ofendido quando 
alguém usa uma cruz de madeira para suas manifestaçõesanticristãs ou para outros obje-
tivos (Augustos Nicodemus, Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil - IPB e ex-Chanceler 
da Universidade Mackenzie/SP).5 
De certa forma o discurso institucional de lideranças eclesiásticas está bem retratado 
aqui e espelha bem um recrudescimento da religião sobre essa temática que envolve as 
relações de gênero e seus direitos na sociedade, apesar de ter apresentado aqui perfis cris-
tão católico e evangélico/protestante apoiados basicamente em textos/tradições com viés 
literalista, com hermenêuticas já sacralizadas e claro, apoiados na herança do patriarcado. 
Na contramão desses grupos religiosos há outros que, apesar de conservadores, inclusi-
ve dentro de grandes Igrejas buscam – ora com ações isoladas de liderança, ora até mesmo 
como instituições – quebrar o ciclo das violências simbólicas presentes em suas estruturas, 
lideranças e até de seus fiéis. Exemplificando, ainda dentro do contexto dessa crucificação, 
ocorreram dias depois ações de solidariedade de um padre católico romano e de um pastor 
da Igreja Batista. Eles fizeram uma prática cristã chamada de lava pés, tipicamente usada 
por algumas tradições cristãs na Quinta-Feira Santa que antecede a crucificação de Jesus 
Cristo. Nesse ato o próprio Jesus é quem lava os pés de seus seguidores, trazendo ali a pro-
posta de está a serviço do outro num gesto de profunda humildade. Fonte: Catraca Livre.6
Cito também o pronunciamento do bispo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do 
Brasil em sua página na rede social, com forte tom de crítica: 
Ao invés de reclamar contra o uso da Cruz pelos movimentos de afirmação da diver-
sidade sexual, os pastores de si mesmos deveriam crucificar o seu ego e transformar a Cruz 
em sinônimo de libertação e não de opressão! (bispo primaz da Igreja Episcopal Anglicana 
do Brasil - IEAB Dom Francisco de Assis da Silva, declaração em sua página de rede so-
cial Facebook 09/06/2015). 
Por fim, o site do Conselho Nacional de Igrejas (CONIC), espaço ecumênico no qual 
certo número de Igrejas Cristãs têm garantido suas representações, chegou a anunciar, após 
a 19ª Parada, algumas notícias com viés gay friendly sobre a crucificação, o lava pés, e tam-
bém uma entrevista com a secretária pastora Romi Bencke numa matéria muito interessan-
te intitulada “Ideologia de gênero nas escolas pode contribuir para a redução da violência”.7
5 <http://noticias.gospelprime.com.br/nao-ofendido-transexual-crucificada/>
6 <https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/em-sp-padre-e-pastor-lavam-os-
-pes-de-trans-crucificada-na-parada-gay/>
7 < http://www.conic.org.br/portal/noticias?start=20>
http://noticias.gospelprime.com.br/nao-ofendido-transexual-crucificada/
https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/em-sp-padre-e-pastor-lavam-os-pes-de-trans-crucificada-na-parada-gay/
https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/em-sp-padre-e-pastor-lavam-os-pes-de-trans-crucificada-na-parada-gay/
http://www.conic.org.br/portal/noticias?start=20
Gênero e Diversidade Sexual • 126 
De alguma forma percebemos a presença da religião querendo também garantir sua 
participação na esfera pública e trazer sua contribuição. A bem da verdade, dependendo 
dos interesses, ora poderá contribuir, ora atrapalhar ou até atravancar políticas públicas, 
impondo muitas vezes valores de sua crença em detrimento do direito dos outros, como 
pessoas de religiões diferentes, agnósticos e ateus. O que não se pode ignorar ou relevar é 
a sua importância dentro desse debate; não se deve encarar a religião apenas como inimiga 
nº 1, e sim, quem sabe, trazê-la como aliada em favor dos direitos humanos e do Estado 
Laico a partir de seus próprios dogmas, ora inspirados no Livro Sagrado, ora inspirados em 
sua tradição, pela qual a pessoa humana espelha o próprio ser divino, onde ele/ela habita. 
Uma boa leitura é trazida por Santos (2013, p.10), ao introduzir bem esse universo tão 
complexo em sua obra “Se Deus fosse um Ativista dos Direitos Humanos” e da qual 
destaco: 
[...] A ideologia da autonomia e do individualismo possessivos é hoje contrariada (até 
que ponto, é debatível) por duas políticas normativas principais que, embora com uma 
presença desigual em diferentes partes do globo, procuram operar globalmente. São elas os 
direitos humanos e as teologias políticas. Independentemente de quão remotos sejam os 
seus antecedentes, os direitos humanos, como gramática decisiva da dignidade humana, só 
entraram nas agendas nacionais e internacionais a partir das décadas de 1970 e 1980. 
Quase simultaneamente emergiram também na cena internacional as teologias políticas, 
entendendo como tal as concepções da religião que partem da separação entre a esfera 
pública e privada para reclamar a presença (maior ou menor) da religião na esfera pública. 
Segundo elas, a dignidade humana consiste em cumprir a vontade de Deus, um mandato 
que não pode se circunscrever à esfera privada.
Na verdade, os fiéis, apesar de toda informação fornecida pelos diversos meios de 
comunicação, e mesmo tendo a secularização como pano de fundo, ainda buscam para si 
respostas a seus questionamentos dentro do referencial dos Saberes do Sagrado. Esses 
fiéis querem a opinião ou a orientação de sua religião, através de seu líder, seja este um 
pastor, padre ou bispa; querem uma palavra sobre este ou aquele assunto e como influen-
ciar o seu meio social. 
É necessário considerar também que a liderança religiosa não pode se fiar na exclusi-
vidade devocional do fiel à sua comunidade. Vale destacar a definição de bricolagem de 
crenças, esboçada por Hervieu-Léger (2008, p. 63) em sua obra “O Peregrino e o Conver-
tido: A Religião em Movimento”:
[...] como crentes ‘bricoladores’, isto é, aqueles que se apropriam de elementos religio-
sos daqui e dali, criando, a partir de suas experiências e expectativas pessoais, pequenos 
sistemas de significação que dão um sentido à sua existência [...] a capacidade do indivíduo 
para elaborar seu próprio universo de normas e de valores a partir de sua experiência sin-
gular, tende a impor-se, como vimos, vencendo os esforços reguladores das instituições. 
127 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Na verdade, esse fiel trava muitos diálogos com outros saberes, com outras igrejas e 
também religiões de matrizes diferentes da sua, formando para si o seu sistema de crenças 
no qual ele se percebe. O nosso olhar para o fiel deverá levar em consideração esse perfil 
multifacetário, antes de tentar enquadrá-lo nessa ou naquela definição. 
Mesmo que uma liderança religiosa diga, por exemplo, que tal lei ou tal direito con-
cedido a um LGBTI está ferindo a família heteronormativa (aqui se entende a Sagrada 
Família: Jesus, Maria e José), portanto modelo sacralizado por preservar o modelo pa-
triarcal dito por eles “bíblico”, não necessariamente será encontrado em seu rebanho. Ire-
mos ver, pelo contrário, novos arranjos que não seguem à risca a orientação da instituição.
Falando sobre o Processo Eleitoral de 2014
Temos outra parcela distinta da população, que também tem seu interesse, não no 
Sagrado propriamente dito, mas na opinião, ou melhor, no voto de seu eleitor, cujo perfil, 
dentre tantas facetas, tem na religião um fator importante para sua vida. Bem verdade que 
alguns políticos valorizam tanto esse fator que são capazes de negociar apoio ou não a 
determinados projetos, levando em consideração o voto de seu eleitor religioso ou da di-
reção da pastora dessa ou daquela igreja. Por sua vez, o grande interesse das lideranças 
religiosas é ver suas crenças materializadas nas políticas públicas de sua cidade, estado e, 
por que não dizer, do próprio país. Esses acordos costumeiramente custam a alma dos 
seus partidos, podendo inclusive, conforme o nível de interesses, provocar o rompimento 
com outras camadas do seu eleitorado. 
Segundo dados fornecidos pelo Núcleo de Estudos sobre o Congresso (NECON) - 
IESP/UERJ, a chamada “bancada evangélica” saiu dos 78(2011) para 82 (2015) deputa-
dos federais, engrossando, com outras bancadas, o caldo político conservador, originando 
o Congresso mais conservador desde 1964 (SANTOS; CANELLO; CUNHA, s/d; p. 1). 
Não se pode dizer o mesmo para a Presidência da República, haja vista que o fator religião 
não pesou tanto assim, como havia sido especulado. Talvez seja a hora para os movimen-
tos sociais desmitificarem o “voto do irmão”, que fascinou tantos candidatos(as), e busca-
rem brechas de diálogos com os partidos políticos. 
Um parênteses sobre Religião, Secularização e Modernidade
Certa vez, estava explicando para uma amiga inglesa – ainda nesse contexto de eleição 
presidencial – que tudo o que é de fora se transforma quando chega aqui no Brasil. Pare-
ce que tudo, ao passar pelo “jeitinho brasileiro”, sofre transformações gerando algo novo. 
Nosso protestantismo e catolicismo, por exemplo, têm um jeito muito próprio que vai 
diferir, por exemplo, do modelo inglês ou italiano. 
Gênero e Diversidade Sexual • 128 
Nosso processo de secularização não é o mesmo encontrado na Europa. Mesmo na 
própria Europa, alguns países seguiram processos distintos de secularização. Berger e 
Luckman (2005, p. 47), em sua obra “Modernidade, Pluralismo e Crise de Sentido”, afir-
mam que: 
[...] a modernidade leva invariavelmente à secularização, no sentido de um dano irre-
parável na influência das instituições religiosas sobre a sociedade, bem como de uma perda 
de credibilidade da interpretação religiosa na consciência das pessoas. 
Assim, para esses autores, o binômio modernidade-secularização vai ter, grosso 
modo, na Europa Ocidental, a sua melhor aplicabilidade, diminuindo a influência das 
Igrejas nos debates sobre políticas públicas, mas não significando a perda da religiosi-
dade do indivíduo fiel. 
Aliás, modernidade tem tudo a ver com o sucesso da expansão religiosa de grupos 
pentecostais e neopentecostais. Contudo, não podemos esquecer que a Reforma Protes-
tante carregou dentro de si, dentro de suas origens, a Modernidade Nascente, que trouxe 
consigo a pluralização, a desinstitucionalização e a relativização. Algumas Igrejas mais 
tradicionais, chamadas por muitos de históricas, também não estariam fora desse grupo, 
apelando para práticas exóticas, fora de suas raízes, buscando superar sua crise em relação 
aos bancos vazios de seus templos. Talvez o aumento de grupos fundamentalistas esteja 
atrelado ainda à própria modernidade, que por trazer no seu bojo o pluralismo, quebrando 
o monopólio das instituições eclesiásticas tradicionais ou oficiais, desperta uma crise de 
sentido que, por sua vez, favorece a manutenção de discursos reacionários e intolerantes, 
onde dois diferentes não podem ocupar o mesmo espaço. 
Quando falamos das Américas, um parênteses deve ser aberto no caso dos Estados 
Unidos. E o faço, é claro, partilhando o olhar para o Brasil, sobre a influência de nossa 
bancada evangélica, buscando algumas pistas para entender nossa conjuntura. Lá a reli-
gião majoritária, o Protestantismo de diversas denominações, é algo levado a sério pela 
população, tanto no espaço privado como no espaço público. Basta lembrar, num passado 
não tão longe, do governo George W. Bush, quando este direcionava muitas políticas 
públicas baseadas na fé. No caso norte-americano, gosto de citar um trecho sobre a con-
juntura americana envolvendo religião/política, na obra organizada por Carlos Eduardo 
Lins da Silva cujo título é “Uma Nação com Alma de Igreja: Religiosidade e Políticas 
Públicas nos EUA”, em que há uma análise muito interessante proposta por Pereira que 
devo destacar: 
[...] é correto, no entanto, que a interpretação literal da Bíblia passou a nortear vá-
rias ações políticas, especialmente nas nacionais, após as eleições de 2000. Ainda assim, 
tais propostas não têm uma diretriz única e também não fazem parte de um processo 
homogêneo e evolutivo. Outros grupos políticos, mesmo dentro do Partido Republica-
129 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
no, perseguem objetivos sem orientação religiosa. Além disso, a mobilização da direita 
cristã indica, sobretudo, a capacidade de articulação da sociedade civil, americana, não 
completamente de viés conservador. Isso aponta que tais grupos poderão buscar articu-
lar-se para desfazer os nós de sacralização construídos pela administração atual (PE-
REIRA, 2009, p. 242). 
O fato é que nos Estados Unidos o fator “crença religiosa” teve relevância não só 
para a vitória de Bush nas urnas, mas também no direcionamento de suas ações duran-
te o seu governo. 
Já aqui no Brasil, nossa herança evangélica tem, no geral, uma origem nas ações mis-
sionárias de Igrejas americanas. Contudo, estas, ao chegarem no Brasil, encontraram uma 
base religiosa formada por uma população indígena já dizimada e catequizada, uma Igre-
ja Católica Romana majoritária, e, é claro, as religiões de matrizes africanas. Ou seja, o 
contexto americano é bem diferente do contexto de nossa terra brasilis, causando aqui um 
outro tipo de impacto na vida pública, não devendo, contudo, ser menosprezado na sua 
capacidade de articulação e mobilização, mesmo que para isso tenha que fazer alianças 
estratégicas com outras Igrejas ou religiões quando os assuntos são de interesse comum. 
Conservadorismos e Fundamentalismos: preocupações e possibilidades
Quero destacar a diferença entre o fundamentalismo e o conservadorismo. Nessa hora 
não devemos pôr todos dentro de um mesmo caldeirão. O fundamentalismo cristão tem 
suas origens no protestantismo norte-americano, a partir do lançamento de uma obra 
intitulada “Os Fundamentos” (1910), que destacava os seguintes pontos: autoridade ex-
clusiva da Bíblia e dos seus eventos, crença na conversão e um relacionamento pessoal 
com Jesus Cristo e aceitação de regras morais. Na verdade, a construção desses textos dos 
“Fundamentos” parece ser uma resposta aos novos métodos e interpretações “modernas” 
da Bíblia Cristã que de alguma forma ameaçavam a crença tradicional ou, mais especifi-
camente, as bases de fé inspiradas no Livro Sagrado. 
O surgimento do Fundamentalismo Cristão se dá nesse contexto de disputa sobre 
quem detém o poder final sobre o texto sagrado no início do século XX. Pode-se acres-
centar também três elementos da modernidade que irão fortalecer o surgimento da ideo-
logia fundamentalista, a saber: a secularização, o pós-colonialismo e a globalização. Nesse 
sentido, diante de um mundo onde as mudanças na sociedade ocorriam com uma veloci-
dade jamais vista na história, a resposta desses grupos religiosos cristãos foi a reafirmação 
de suas crenças/valores através dos quais não só encontravam o seu lugar no mundo, mas 
poderiam influenciar politicamente os espaços sociais. 
O conservador/tradicional segue uma tendência de olhar com desconfiança para as 
novas ideias ou, mais precisamente, para as formas como elas desejam se estabelecer na 
Gênero e Diversidade Sexual • 130 
sociedade. Para o conservadorismo qualquer coisa que transpire ares revolucionários é 
perigosa para o estabelecido, o conhecido e o provado. E daí sua diferença em relação aos 
reacionários, como os fundamentalistas descritos por Berger e Zijderveld (2012, p. 66): 
[...] A diferença pode ser explicada de maneira simples: o tradicionalismo significa que 
a tradição é aceita sem questionamento; já o fundamentalismo surge quando o não ques-
tionamento é contestado ou totalmente perdido. [...] Segue-se a isso que um tradicionalis-
ta pode se dar o luxo de ser descontraído em relação à sua visão de mundo e relativamente 
tolerante em relação às pessoas que não compartilham dessa atitude – afinal, elas não 
passam de pessoas inferiores que negam o óbvio. Para o fundamentalista, esses “outros” 
representam uma séria ameaça à certeza conquistada a duras penas; eles devem ser conver-
tidos, segregados ou, no extremo, expulsos ou “liquidados”. [...] o fundamentalismo é uma 
tentativa de recuperar o não questionamento de uma tradição,normalmente visto como 
um retorno ao passado imaculado (real ou imaginário) da tradição. 
Muitos grupos fundamentalistas não cessam de flertar com correntes mais conserva-
doras porque creem estarem lidando com seus semelhantes na defesa de tópicos ditos 
tradicionais, mas se enganam completamente, pois, na essência, são diferentes. Brekke 
(2012, p. 13-14) aprofunda mais a discussão trazendo à tona as diferenças contundentes: 
[...] However, in matters of religious authority, fundamentalists are not conservative. 
On the contrary, one of the key characteristics of fundamentalism in most religious tradi-
tions is its rejection of the religious authority associated with traditional religious hierar-
chies and organizations. Fundamentalists reject the priestly authority that is backed up by 
hierarchy and traditional education. Instead, they espouse prophetic authority earned by 
charisma and gifts in preaching. Although it may seem like a contradiction in terms, fun-
damentalists are radical and conservative. They are radical because they reject traditional 
authority, and they are conservative in the sense that they often want to in the sense that 
they want traditional religious values to guide social life.
Nossa preocupação de fato deve-se voltar muito mais para o avanço do fundamenta-
lismo, que, acredito, já sabemos estar presente em muitos espaços religiosos/públicos em 
nosso país. Nesse sentido, creio que podemos buscar diálogos com grupos conservadores 
como possíveis aliados importantes no avanço de políticas públicas.
Mesmo assim, não devemos olhar para esse fundamentalismo como um bloco in-
transponível, sem brechas. Pelo contrário, ele se apresenta bastante complexo, com dife-
rentes vieses. Basta olhar ainda, no contexto da última eleição presidencial, o caso das 
igrejas da Assembleia de Deus, de viés pentecostal clássico, que fizeram escolhas distintas 
em cada região, ministérios distintos, não havendo propostas de “candidatos fechados ou 
oficiais”. Igualmente lembro que no segundo turno das eleições presidenciais de 2014 
ouve uma mobilização de um grupo de religiosos, sem interferência institucional, chama-
131 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
do “Evangélicos com Dilma”, que definiu e articulou apoio à candidata, buscando unir 
forças contra o movimento da direita política do país e que também reuniu “crentes”, ci-
dadãos que foram beneficiados pelas políticas do governo. 
Podemos ainda citar as famosas cartas pastorais de muitas igrejas nesse período elei-
toral. Algumas delas não podiam afirmar que esse ou aquele candidato deveria ser apoia-
do, mas buscaram, dentro de suas concepções, nos princípios éticos ou até morais, deixar 
meio que entendido o candidato da preferência da liderança. Destaco aqui as declarações 
da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), das Igrejas Históricas ou mesmo 
da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. 
Acho que a grande contribuição tem sido dada pelos movimentos ecumênicos, tanto 
institucionais como de voluntários, informais, para um melhor arejamento de ideias no es-
paço de nossas igrejas. Esses movimentos estão em boa parte envolvidos com políticas pú-
blicas sérias e comprometidos com os direitos humanos. São grupos que estão em perma-
nente diálogo com os movimentos sociais e com eles procuram trabalhar, claro, destacando 
sua orientação religiosa, mas que não os impede de trabalhar conjuntamente. Esse fato 
conseguiu abrir brechas de diálogos com os grupos mais conservadores dentro das igrejas. 
Referências
BERGER, P.; LUCKMAN, T. Modernidade, Pluralismo e Crise de Sentido: A Orientação 
do Homem Moderno. Petrópolis: Vozes, 2. ed., 2005.
BERGER, P.; ZIJDERVELD, A. Em favor da dúvida: como ter convicções sem se tornar 
um fanático. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. 
HERVIEU-LÉGER, D. O Peregrino e o Convertido: A religião em movimento. Petrópo-
lis: Vozes, 2008.
PEREIRA, Paulo J. A influência da Religiosidade sobre as Políticas Públicas no Governo 
Bush. In: SILVA, Carlos (org.). (2009). Uma Nação com Alma de Igreja: Religiosida-
de e Políticas Públicas nos Estados Unidos. São Paulo: Paz e Terra, 2009. 
SANTOS, B. Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos. São Paulo: Cortez, 2013.
SANTOS, F.; CANELLO, J.; CUNHA, B. (s/d). O Congresso e as eleições legislativas 
de 2014: perfil ideológico. Boletim do Núcleo de Estudo sobre o Congresso- (NE-
CON) - IESP/UERJ. Disponível em: <http://necon.iesp.uerj.br/images/pdf/bole-
tim_ideol.pdf> Acesso em: 03/11/2014. 
SILVA, Carlos. (Org.). Uma Nação com Alma de Igreja: Religiosidade e Políticas Públicas 
nos Estados Unidos. São Paulo: Paz e Terra, 2009. 
TORKEL, Brekke. Fundamentalism: Prophecy and Protest in an Age of Globalization. 
Cambridge University Press, 2012.
http://necon.iesp.uerj.br/images/pdf/boletim_ideol.pdf
http://necon.iesp.uerj.br/images/pdf/boletim_ideol.pdf
Experiências, trajetórias, ativismos 
e a construção de um Observatório 
LGBT na UFABC
Breve histórico do Observatório LGBT na Universidade 
Federal do ABC: dos ataques homofóbicos à 
institucionalização
Thiago Mattioli1
Com um caráter descritivo, este texto se propõe a apresentar de forma sintética o pro-
cesso de criação e institucionalização do Observatório LGBT na Universidade Federal do 
ABC (UFABC). Para isso, aborda as manifestações homofóbicas ocorridas dentro dos 
campi da universidade, expõe as reações da comunidade acadêmica sobre tais episódios, 
com a realização de eventos e discussões sobre temáticas de diversidade sexual e de gênero, 
os quais dão início a tal processo. Por fim, o artigo apresenta pontualmente a história da 
construção conjunta do Observatório, por discentes e docentes da UFABC, apresentando 
as ações desenvolvidas até o segundo semestre de 2016 e os próximos passos a seguir.
Entretanto, inicialmente, é necessário apresentar resumidamente o que se compreen-
de por homofobia e manifestações homofóbicas, permitindo um rigor conceitual que se 
baseia nas discussões acadêmicas sobre a questão e oferecendo uma forma adequada de 
classificação dos atos perpetrados na UFABC no ano de 2015.
Assim, o termo homofobia surge em publicações acadêmicas na década de 1970, sen-
do inicialmente compreendido como a aversão contra homossexuais ou autoaversão por 
parte destes próprios (WEINBERG, 1972). Desde sua definição inicial o termo tem sido 
reinterpretado ao longo do tempo, sendo conceituado de forma ampliada, compreenden-
do não apenas a aversão, mas também a hostilidade contra pessoas LGBT, somando-se a 
isso o elemento social, religioso, cultural, institucional e jurídico de repressão que inferio-
riza e criminaliza tais pessoas por não estarem de acordo com o padrão normalmente 
aceito, isto é, o padrão heterossexual (BORILLO, 2010). Porém, da mesma forma, o 
conceito sofre uma série de críticas sobre seu caráter etimológico, sua visão como forma 
de doença psicológica e também sobre sua interpretação androcêntrica (HEREK, 2004; 
JUNQUEIRA, 2007; BORILLO, 2010). 
Também se verifica discussões que pretendem contribuir para a superação do concei-
to, incorporando outros termos como o estigma sexual, entendido como um conhecimen-
1 Doutorando em Ciências Humanas e Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciên-
cias Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC e Membro Fundador do Obser-
vatório LGBT da UFABC. 
Gênero e Diversidade Sexual • 134 
to social da inferioridade do homossexual na sociedade; o heterossexismo, visto como 
uma questão estrutural e cultural onde grupos sexuais minoritários são tratados de manei-
ra injusta por sua condição e o preconceito sexual, compreendido de forma mais ampla 
como atitudes negativas relativas à orientação sexual (HEREK, 2007; 2009).
Dessa forma, considerando e respeitando as discussões acima, este artigo utiliza de 
forma simplificada o conceito de homofobia, compreendido conjuntamente como uma 
forma de aversão, hostilidade e de repressão aos sujeitos, condutas e expressões sexuais 
nãoconformes à norma sexual. A partir dessa definição também se torna possível definir 
e identificar a noção de manifestações homofóbicas como aquelas que representam ações 
praticadas como resultado dessa aversão, com intuito de hostilizar, ameaçar, eliminar, cas-
tigar e reprimir sujeitos e comunidades homossexuais que, portanto, podem ser conside-
radas como homofóbicas. Com essas definições é possível discorrer sobre tais manifesta-
ções ocorridas na UFABC no ano de 2015.
As manifestações homofóbicas na Universidade Federal do ABC
Criado em 2009, o grupo Prisma pretendia ser um espaço de convivência, integração 
e debate de temáticas LGBT dentro da Universidade Federal do ABC, promovendo en-
contros, festas e reuniões com esse intuito. Entretanto, o grupo perdeu a dinâmica de sua 
atuação, tornando-se paralisado entre 2013 e 2014. Em 2015, alunos que integravam o 
grupo, com novos interessados, iniciaram um processo de recuperação de suas atividades, 
agora com um caráter militante e se reformulando enquanto um coletivo2. É a partir 
dessa retomada que as manifestações homofóbicas nos campi da UFABC ocorrem.
Em 12 de junho de 2015 o coletivo Prisma publicou em sua página do Youtube e 
compartilhou em sua página do Facebook um vídeo realizado no campus de São Bernardo 
do Campo, utilizando como fio condutor a pergunta “com quem você vai passar o dia dos 
namorados?”, mostrando como esta simples pergunta possui diferentes respostas. Curtas 
entrevistas foram realizadas por seus produtores, onde alunos da Universidade – indepen-
dente de sua orientação sexual – indicavam com quem passariam a data (UMA pergun-
ta,... 2015). De acordo com os integrantes do coletivo esse foi o estopim para as manifes-
tações homofóbicas ocorridas na UFABC.
Apenas cinco dias após a publicação do vídeo, em 17 de junho de 2015, foram encon-
tradas pichações nos banheiros do campus São Bernardo do Campo contendo mensagens 
homofóbicas: mensagens como “viado tem que morrer”, “vai ter homofobia sim” e que 
ameaçavam diretamente alunos do coletivo Prisma (REDAÇÃO, 2015).
2 Informações concedidas por Juliana Fabbron e Raimundo Neres, integrantes do coletivo 
Prisma.
135 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
O caso ganhou a cobertura de diversos veículos midiáticos, não apenas de jornais locais, 
mas também de jornais de circulação nacional e de grandes revistas como os jornais “O Es-
tado de São Paulo”, “ABCD Maior”, “Brasil Post”, a revista “Isto É” e a emissora de televisão 
TVT (BRANDALISE, 2015; FELTRIN, 2015; PALHARES, 2015; ÉNÓIS, 2015; TVT, 
2015). Dessa forma, a pressão feita pelo coletivo Prisma para que a Universidade se posicio-
nasse sobre tais ataques, somada à cobertura feita pela mídia, resultou em uma série de res-
postas, em diferentes níveis e de diversas origens, aos ataques ocorridos dentro da UFABC.
Respostas da Comunidade Acadêmica aos ataques homofóbicos
As principais respostas dadas pela comunidade acadêmica da UFABC podem ser 
divididas entre ações institucionais gerais, específicas e dos coletivos discentes. Dessa for-
ma, são apresentadas brevemente tais respostas, demonstrando um processo inicial de 
articulação entre diferentes instâncias e atores da Universidade.
A primeira ação realizada como resultado dos ataques homofóbicos ocorridos foi a 
emissão pelo coletivo Prisma, em 19 de junho, de uma moção de repúdio, onde reconhecia 
e apresentava suas preocupações com tais ataques, defendendo uma sociedade plural e de 
respeito às diversidades. O coletivo também criou um grupo de trabalho para receber e 
encaminhar denúncias de atos e ataques homofóbicos dentro dos campi da Universidade 
(PRISMA, 2015). Em 26 de junho, através de sua página no Facebook os representantes 
discentes dos cursos de graduação em Ciências e Tecnologia e Ciência e Humanidades 
também indicaram seu repúdio às manifestações (DISCENTES, 2015).
De acordo com integrantes do coletivo Prisma houve uma intensa articulação entre o 
coletivo e a Pró-reitoria de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas da Universi-
dade (PROAP), que viabilizou a lavratura de um boletim de ocorrência sobre a questão e 
sua investigação3.
Em termos de ações institucionais gerais podem ser citadas as notas emitidas pela 
UFABC aos veículos midiáticos, além da moção de repúdio aprovada pelo Conselho 
Universitário (ConsUni) em 02 de dezembro de 2015 (UFABC, 2015). De forma mais 
específica, ressalta-se o evento realizado pelo coletivo Prisma, em conjunto com a PROAP, 
em 26 de junho de 2015, com a presença do Reitor da Universidade, Prof. Dr. Klaus W. 
Capelle. Nesse evento foi apresentada e discutida a situação de vulnerabilidade da comu-
nidade LGBT da Universidade e cobradas atitudes da instituição a esse respeito. 
Outro evento realizado sobre a temática ocorreu por iniciativa do Programa de Pós-
-graduação em Ciências Humanas e Sociais (PG-CHS) em conjunto com o Bacharelado 
em Relações Internacionais (BRI) em 17 de julho do mesmo ano, sob o título “Homo-
3 Informações concedidas por Juliana Fabbron e Raimundo Neres, integrantes do coletivo 
Prisma.
Gênero e Diversidade Sexual • 136 
-lesbo-transfobia e Resistência: Visões e Experiências”, contando com a participação de 
ativistas e acadêmicos, reunidos para discutir o tema apresentando perspectivas acadêmi-
cas, religiosas e dos movimentos sociais. 
Estavam presentes ao evento a Profª Dra. Carla Cristina Garcia, da Pontifícia Univer-
sidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Dra. Clarissa de Franco, da Seção de Apoio 
Psicossocial da UFABC, Beto de Jesus, ativista da Associação Brasileira de Lésbicas, 
Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Cristhian Manuel Jiménez, ativista 
da República Dominicana, Reverendo Arthur Cavalcante, da Igreja Episcopal Anglicana 
do Brasil, Raimundo Neres e Juliana Fabbron, representando o coletivo Prisma, com a 
mediação do Prof. Dr. Elias David Morales Martinez. Durante as discussões ocorridas 
nesse evento foi feita a primeira menção à possível criação de um Observatório LGBT na 
Universidade, por sugestão da Profª Dra. Carla Cristina Garcia.
 Todas as ações realizadas pelos diferentes âmbitos institucionais e diversos docentes 
e discentes indicam claramente a articulação feita para que a comunidade acadêmica da 
UFABC oferecesse uma resposta às manifestações homofóbicas perpetradas, e foram o 
início de maiores e mais intensas discussões que viriam a planejar, estruturar e fundar o 
Observatório LGBT na UFABC.
A construção coletiva do Observatório LGBT na Universidade Federal 
do ABC: articulações e estruturação
A partir das discussões e sugestões feitas no evento do dia 17 de julho, considerando 
essa necessidade e compreendendo que a função da universidade pública é não apenas 
produzir conhecimento, mas agir na busca de soluções para a melhoria da qualidade de 
vida de seu entorno, um grupo de professores e alunos dos cursos acima, compreendendo 
o grupo facilitador do Observatório4, decidiu desenvolver uma proposta de criação de um 
observatório, a ser implementado dentro das estruturas da UFABC.
Para que isso fosse possível, verificou-se a necessidade de entrar em contato com os 
diferentes movimentos sociais que trabalham com temas de diversidade sexual e de gêne-
ro na região, de forma que a proposta do Observatório compreendesse a realidade social 
em que está inserida, verificando as formas pelas quais poderia desenvolver e produzir 
conhecimentos socialmente relevantes. Assim, foram realizadas três reuniões de articula-
ção, com o objetivo de verificar tais pautas, a serem apresentadas e discutidas no evento 
oficial de lançamento do Observatório. Essas reuniões foram articuladas, em particular, 
4 O grupo facilitador é composto pelos professores Dr. Elias David Morales Martinez (PG-
-CHS/BRI), Profª Dra. Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky (BPP/EGI) e pelos 
discentes Me. Thiago Mattioli (PG-CHS), Juliana Fabbron Fabbron (PG-PP), Raimundo 
Nonato Neres (BCH), Julian Rodrigues (PG-CHS), CristhianManuel Jiménez (PG-CHS).
137 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
pelo coletivo Prisma, o que permitiu uma intensa troca de experiências previamente ao 
evento de lançamento, contribuindo para que as necessidades e expectativas desses movi-
mentos e grupos fossem apresentadas.
Em 11 de junho de 2016, no campus de Santo André da UFABC, foi realizado o 
evento de lançamento da proposta do Observatório. Nesse evento foi realizado o seminá-
rio, mediado pelo Prof. Dr. Elias David Morales Martinez, “A importância do Observa-
tório LGBT para o ABCDMRR”, que contou com a presença de ativistas lésbicas, gays 
e transexuais em sua mesa, além das contribuições da Profª Dra. Regina Fachini (UNI-
CAMP) e da Profª Andrea Paula Kamensky (UFABC). Em adição ao seminário, foi 
realizado o encontro de quatro grupos de trabalho, com o objetivo de obter propostas e 
sugestões para as atividades do Observatório. Os grupos foram: 1) ativismo e representa-
tividade; 2) cultura e lazer; 3) saúde e 4) trabalho e renda. Como resultados desses encon-
tros foram produzidas propostas e sugestões ligadas a cada um dos temas, com o eixo 
principal em atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Dessa forma, é essencial apresentar que as atividades do Observatório LGBT na 
UFABC se pautam no tripé universitário, consagrado no artigo 207 da Constituição Fe-
deral, que compreende o ensino, a pesquisa e a extensão como atividades indissociáveis 
(BRASIL, 1988). Somado a isso, ao se basear nesse tripé, o Observatório não apenas 
considera que tais atividades são essenciais, mas as compreende como uma forma efetiva 
de atuar na sociedade, na promoção de uma cultura de paz, de respeito, plural e diversa. 
Dessa forma, ao praticar a indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão desenvolve 
um processo dialógico que serve de insumo para a própria prática (FREIRE, 2013) ao 
mesmo tempo em que pretende criar um conhecimento contextual, baseado nas relações 
entre pesquisadores e seus públicos, verificando seus problemas e dando voz aos grupos 
vulneráveis (SANTOS, 2011).
Portanto, o Observatório pretende atuar através de sua área de ensino, propondo a 
criação de cursos e disciplinas orientadas à promoção da diversidade sexual, fazendo das 
salas de aula um importante local de debate, discussão e aprendizado, que contribuam 
para a formação de cidadãos conscientes e para a desconstrução de preconceitos arraiga-
dos na sociedade. 
A partir de sua área de pesquisa, promoverá a investigação científica nos níveis de 
graduação e pós-graduação, permitindo aos pesquisadores interessados em temáticas 
LGBT o acesso a grupos de discussão, materiais e cenários, com o objetivo de desenvolver 
novos conhecimentos, visões e formas de compreensão de uma realidade social complexa, 
contribuindo também com novas tecnologias sociais que possam auxiliar de forma deci-
siva nas realidades que se propõe a estudar. 
E via sua área de extensão, o Observatório oferecerá à comunidade externa não so-
mente o acesso ao conhecimento, novas tecnologias sociais e produtos desenvolvidos a 
partir do ensino e da pesquisa, mas utilizará esse instrumento de acesso à sociedade como 
Gênero e Diversidade Sexual • 138 
forma de se manter próximo à realidade social, permitindo uma constante atualização e a 
busca por novas formas de maximizar o impacto de suas atividades nas populações dire-
tamente interessadas em suas atividades.
Em termos de sua estrutura e a partir de uma série de reuniões feitas pelo grupo faci-
litador, o Observatório se dividirá em três pontos, indissociavelmente conectados, sendo 
que esses pontos compreendem a parte de ensino, pesquisa e extensão, cada um com uma 
institucionalidade própria.
A parte de ensino, a ser estruturada a partir da participação do Observatório na futu-
ra estrutura do Núcleo Estratégico em Ética e Direitos Humanos, oferece ao programa 
sua face institucional dentro da estrutura da UFABC. É a partir desse ponto que haverá 
o acesso a determinadas instâncias de discussão e decisão que poderiam beneficiar seu 
projeto pedagógico. Como exemplos da relevância desse ponto podem ser citados a inser-
ção do Observatório em uma estrutura considerada como estratégica, além da possibili-
dade de propostas, aos conselhos superiores, da criação ou inserção de temáticas em dis-
ciplinas. No mesmo sentido, esse braço interno e institucional permitirá contar com o 
apoio dos recursos vinculados ao Núcleo.
Em sua parte de pesquisa, estruturada a partir da criação de um grupo de pesquisa 
junto à UFABC e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico 
(CNPq), o Observatório contará com linhas específicas para cada temática a ser tratada; 
além disso, é a partir desse grupo que pesquisadores de outras instituições poderiam par-
ticipar do projeto sem a necessidade de vinculação e de maneira mais flexível, o que per-
mitirá uma maior adesão de interessados de fora da região da Universidade.
E a partir da proposição de um programa de extensão, via editais da Pró-Reitoria de 
Extensão e Cultura (PROEC), ações a serem desenvolvidas com a comunidade externa 
podem ganhar um caráter institucional e estruturado, possibilitando um acesso contínuo 
dessa comunidade aos produtos e tecnologias sociais desenvolvidos a partir da área de 
ensino e pesquisa. Tais ações devem ter foco na questão da educação para a diversidade 
sexual e de gênero, com subprojetos focados nas necessidades verificadas através dos even-
tos realizados pelo Observatório, a exemplo do realizado para angariar propostas.
Dessa forma, a estruturação do Observatório sobre esse tripé acadêmico-institucional 
oferecerá aos seus participantes a capacidade de utilizar da forma mais adequada não so-
mente a estrutura que a UFABC já oferece, mas também vai permitir que diferentes 
projetos e ações sejam desenvolvidos de forma concomitante, se ancorando nos interesses, 
capacidades e possibilidades de seus participantes.
Quanto a suas atividades futuras, o Observatório pretende realizar ainda no ano de 
2016 um seminário acadêmico dentro da UFABC como forma de apresentar sua estrutura, 
convidar novos interessados e debater os temas e propostas oferecidos no evento de lança-
mento, permitindo uma interação maior entre os diferentes agentes que integram a Univer-
sidade, os movimentos sociais e o próprio Observatório. No mesmo sentido, a partir desse 
139 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
seminário e da adesão de novos participantes será possível iniciar os processos de coleta de 
interesses acadêmicos que devem alimentar as áreas de ensino, pesquisa e extensão.
Por fim, ao agregar os diferentes e diversos interesses de seus agentes, o Observatório 
poderá avaliar as melhores formas de agir, a partir de sua estrutura – ainda a ser finalizada 
–, oferecendo não apenas um espaço de debates e discussões sobre temáticas LGBT, mas 
também formas efetivas de ação na realidade social de seu contexto geográfico.
Considerações Finais
Ainda em um processo não finalizado de estruturação e inserção na estrutura institu-
cional da Universidade Federal do ABC, o Observatório LGBT já se apresenta como 
uma experiência de construção coletiva, envolvendo docentes, discentes e os interesses das 
comunidades que este se propõe a estudar. A partir do tripé acadêmico do ensino, pesqui-
sa e extensão, refletido na proposta de sua estruturação em três áreas correlatas, o Obser-
vatório se coloca como um relevante, embora nascente, espaço de discussões e debates de 
temáticas sobre orientação sexual, identidade e expressões de gênero e como promotor 
dessa diversidade.
Compreendendo sua função como ser um elo entre o ambiente acadêmico e a reali-
dade social em que pretende atuar, inicia sua jornada a partir da contribuição dos diferen-
tes atores interessados na temática, não apenas acadêmicos, mas membros de movimentos 
sociais e da sociedade civil, permitindo o desenvolvimento de uma reflexão teórico-con-
ceitual importante, mascom firme lastro nessa realidade.
Dessa forma, o Observatório representa não apenas um local de ensino, pesquisa e 
extensão, mas também um espaço de aprendizagem mútua, superando os muros da 
Universidade.
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http://www.abcdmaior.com.br/materias/politica/ufabc-abre-sindincancia-para-apurar-ameacas-de-morte-contra-gays
http://www.abcdmaior.com.br/materias/politica/ufabc-abre-sindincancia-para-apurar-ameacas-de-morte-contra-gays
https://www.youtube.com/watch?v=bzK9OZ_UW94
O Observatório LGBT da UFABC e os movimentos sociais
 Raimundo N. B. Neres 1
O surgimento dos movimentos sociais de forma organizada ocorreu com mais força 
no início do século XX com o desenvolvimento econômico capitalista, fortalecido pela 
revolução industrial. Consequentemente, com o aumento da mão de obra que vinha do 
campo, as cidades cresceram, tornando-se metrópoles e provocando o crescimento urbano 
desordenado, fazendo com que os proletários, os trabalhadores, se vissem em uma situa-
ção urbana bastante precária. Com a expansão das indústrias essas populações foram 
deslocadas para as periferias das grandes cidades, que não possuíam qualquer infraestru-
tura, como transporte, moradia, acesso à saúde e educação, saneamento básico, etc., neces-
sidades que deveriam ser supridas pelo Estado, que não o fez por ser capitalista e não ter 
foco em políticas públicas para populações carentes. Com a ausência do Estado, os cida-
dãos conscientes de seus direitos começaram a se organizar para pleitear direitos básicos 
e fundamentais, surgindo assim como força reivindicatória daquilo que falta, que é precá-
rio em seu grupo, em sua comunidade, e assim esses cidadãos tornaram-se representantes 
de suas comunidades.
Com os movimentos sociais LGBT não foi diferente. Durante séculos e séculos a 
homossexualidade e qualquer prática comportamental distinta do padrão heteronormati-
vo eram passíveis de sanções sociais, físicas e criminais, e muitas dessas sanções culmina-
vam em execução sumária, portanto os LGBTs tinham como única defesa esconder todas 
as práticas e comportamentos sociais, adequando-se ao padrão heteronormativo imposto 
pela sociedade.
Os movimentos sociais LGBT nasceram como movimento de defesa dos homosse-
xuais na Europa, no século XX, após a 2ª Guerra Mundial, quando o nazismo perseguiu 
homossexuais por toda a Europa, os aprisionando em campos de concentração e, segundo 
estimativas, matando mais de 320.000. Assim, por volta da década de 50, de forma clan-
destina e com pouca visibilidade, começou o surgimento de grupos pequenos de LGBTs 
organizados, tendo como principal objetivo a visibilidade, o respeito, o fim da criminali-
zação da homossexualidade, da intolerância, da discriminação e da violência.
1 Formado em Gestão Ambiental. Estudante de graduação da UFABC. Militante e mem-
bro de movimentos sociais LGBT há 17 anos e membro da comissão fundadora do Ob-
servatório LGBT da UFABC.
Gênero e Diversidade Sexual • 142 
A disseminação dos movimentos sociais LGBT se deu mundialmente após o aconte-
cimento tornado símbolo de resistência, chamado de a “Rebelião de Stonewall”, ocorrido 
em 28 de junho de 1969, no bar de mesmo nome, localizado no bairro de Greenwich 
Village, Nova York, nos Estados Unidos. Durante vários dias ocorreu essa rebelião bas-
tante violenta contra a repressão e violência policial que oprimia, discriminava e crimina-
lizava os LGBTs, principalmente nos seus pontos de encontro que eram bares como o 
Stonewall. Esse acontecimento foi um marco, com grande visibilidade internacional, 
tornando-sea data do ocorrido, 28 de junho, o dia Internacional do Orgulho LGBT, 
comemorado todos os anos em todo o mundo. 
Esse acontecimento fomentou o crescimento dos movimentos organizados, que são 
de suma importância, pleiteando, exigindo, pressionando o Estado para que se tornem 
efetivas políticas públicas para a população LGBT, que vai muito além dos então conhe-
cidos apenas como homossexuais. Hoje o movimento é muito amplo e abrange as pecu-
liaridades e especificidades de cada cidadão, incluindo lésbicas, gays, bissexuais, travestis, 
transexuais, transgêneros, intersexuais, não binários, mulheres e homens trans. Além dis-
so, pretende também lhes dar visibilidade e denunciar toda a forma de intolerância sexual, 
exclusão, opressão, violência e o cerceamento de direitos básicos e fundamentais. Não se 
trata de uma conjuntura de opressão contemporânea e sim milenar, é a forma estrutural 
como nossa sociedade foi construída desde os seus primórdios, tornando tais opressões, 
exclusões e segregações institucionalizadas, instrumentalizadas e muitas vezes legitima-
das pelo Estado Político e de Direito.
Os movimentos sociais LGBT defendem principalmente a aceitação dessa população 
pela sociedade, buscando o bem-estar social, assim como a luta por direitos básicos, fun-
damentais, constitucionais e civis e que estes sejam garantidos e praticados, através de 
políticas públicas que atendam as necessidades dessa população, dentro das peculiaridades 
e especificidades de cada letra da sigla LGBT e de suas extensões interseccionais.
O movimento LGBT é formado por ativistas que representam as lésbicas, gays, bis-
sexuais, travestis, transexuais, transgêneros, não binários, intersexuais, homens e mulheres 
trans, e tem como principal foco a humanização e a valorização dos mesmos, na ausência 
do Estado e de políticas públicas que os representem. A participação desses movimentos 
sociais na política é fundamental para o fortalecimento da democracia, dos processos de 
inclusão social e das conquistas de direitos para o bem comum. Segundo Karl Marx, as 
“mudanças na sociedade ocorrem a partir da ebulição dos movimentos sociais: contra o 
capital e o Estado”.
 Construção do Observatório LGBT da UFABC com participação de 
movimentos sociais LGBT
A ideia da construção do Observatório LGBT da UFABC surgiu a partir das picha-
ções de cunho LGBTfóbico que ocorreram em diversos lugares dentro da Universidade 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Greenwich_Village
https://pt.wikipedia.org/wiki/Greenwich_Village
143 • Direitos Humanos, Gênero e Diversidade na Escola
Federal do ABC – UFABC, principalmente no campus da cidade de São Bernardo do 
Campo/SP. Com esses ataques que ocorreram nos meses de junho e julho de 2015, os 
LGBTs e pessoas pró-desconstrução de gênero que faziam parte da comunidade acadê-
mica perceberam que não estavam mais numa bolha segura e confortável, e que os ataques 
e opressões eram reflexo da sociedade em que a Universidade está inserida, serviam à 
perpetuação de uma estrutura social e institucional, que na sociedade civil é muito mais 
intensa, e mostravam um vislumbre das intolerâncias, das opressões, discriminações e 
violências que a população LGBT sofre diariamente em todos os lugares.
 Após algumas ações promovidas pela reitoria, pelo coletivo LGBT Prisma Diversi-
dade UFABC e pelo seminário promovido pelo Prof. Dr. Elias David Morales Martinez, 
surgiu a ideia de criarmos um núcleo de ensino, pesquisa e extensão para tratar das ques-
tões que envolvem o empoderamento da população LGBT e a luta contra a LGBTfobia, 
não somente na UFABC, mas também no entorno desta, uma vez que é impossível dis-
sociar a Universidade do contexto político, social, cultural no qual ela está inserida. Tendo 
ocorrido diversas reuniões e discussões sobre a atuação que esse núcleo iria ter e sobre 
como seria formado, surgiu a ideia do Observatório LGBT da UFABC, que envolveria 
práticas de ensino, pesquisa e extensão, tanto na comunidade acadêmica quanto nas socie-
dades civis que serão seus objetos de estudo.
Era notório que essa construção não poderia se restringir apenas à academia, e que se 
fazia necessário escutar os movimentos sociais LGBT. São movimentos que atuam há 
décadas dentro desse viés, empoderando LGBTs, denunciando todo tipo de preconceitos 
e discriminações e ao mesmo tempo ensejando e exigindo políticas públicas perante o 
Estado, acolhendo a população LGBT dentro de suas especificidades e peculiaridades, 
através de todos os tipos de atividades, seminários, fóruns, conselhos, congressos, mapea-
mentos, estudos acadêmicos, eventos culturais, educacionais e sociais. 
Os que chamamos de movimentos sociais LGBT estão organizados através de cole-
tivos, entidades, associações, organizações não governamentais, grupos, e até mesmo atra-
vés de ativistas independentes e autônomos, dentre outras formas. São protagonistas de 
suas histórias, de suas lutas, de suas conquistas, são especialistas em fazer políticas públi-
cas para si próprios e para outros, e, muito além do conhecimento educacional, institucio-
nal e acadêmico, possuem um grande conhecimento empírico obtido através das suas vi-
vências, das suas experiências, das suas realidades como cidadãos e LGBTs; portanto, 
possuem grande legitimidade e são importantíssimos para ajudar a academia a atingir 
seus objetivos e metas na criação de um Observatório LGBT.
Tendo essa visão, os membros do coletivo LGBT Prisma Diversidade UFABC – no 
caso Juliana Fabbron Marin e eu, Raimundo Neres, também membros fundadores do 
Observatório LGBT da UFABC – resolvemos reunir diversos representantes dos movi-
mentos sociais com o objetivo de construirmos juntos o evento de lançamento desse ob-
Gênero e Diversidade Sexual • 144 
servatório. Durante meses, através de vários encontros e reuniões, discutimos qual seria a 
melhor forma de fazer o lançamento e quais seriam os principais temas que o observató-
rio deveria discutir e, posteriormente, como seria usado como matriz de atuação nos eixos 
ensino, pesquisa e extensão.
Os movimentos sociais e ativistas independentes não foram apenas escutados: eles se 
tornaram agentes da construção do evento denominado “Fórum de Lançamento do Ob-
servatório LGBT das Cidades do Grande ABC”. Desde a primeira reunião até o dia do 
evento tudo foi decidido após muita discussão e análise, de forma horizontal, sem qual-
quer hierarquia, todos com igualdade de falas, de sugestões e proposições, não havia dis-
tinção entre acadêmicos e membros da sociedade civil.
A pluralidade era a principal característica dessa construção, a representatividade era 
fato concreto: havia representantes, protagonistas de todas as letras da sigla LGBT e 
pessoas pró-desconstrução de gênero. Havia homens e mulheres trans e cis, travestis, bis-
sexuais, heterossexuais, lésbicas e gays, todos juntos, pessoas de várias cidades e idades, 
adolescentes, jovens e adultos, estudantes do ensino médio, alunos de graduação dos mais 
diversos cursos: Políticas Públicas, Engenharia, Saúde Pública, Psicologia, Direito e das 
mais diversas instituições de ensino, como: Universidade Presbiteriana Mackenzie, Uni-
versidade de São Paulo - USP, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, Faculda-
de de Direito de São Bernardo do Campo, Universidade Paulista - UNIP, muitos repre-
sentantes de diversas ONGs, coletivos e entidades LGBT e pró-desconstrução de gênero. 
Todos juntos com um único objetivo: a construção do Observatório LGBT da UFABC, 
que trará grandes benefícios não somente para os LGBTs mas também para toda a região 
metropolitana do Grande ABC e para todas as comunidades e sociedades que forem 
objetos de estudo, análise e proposições de projetos de extensão deste Observatório.
O formato do evento foi peculiar, único. Ocorreu durante um sábado e foram mais de 
12 horas de atividades. Iniciou-se pela manhã com uma mesa do seminário “A importân-
cia do Observatório LGBT para o ABCDMRR”. Com muita pluralidade e representati-
vidade, na

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