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<p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 5SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>01 OS HOMENS, A ARTE</p><p>E A LITERATURA</p><p>A ARTE E A LITERATURA</p><p>São inúmeras as maneiras de o homem expressar-se; no</p><p>entanto, é através da arte que consegue fazê-lo da maneira mais</p><p>sublime. A própria arte pode definir-se de várias maneiras, como a</p><p>pintura, a escultura, a música, o teatro, a arquitetura ou a literatura;</p><p>cada uma delas com objeto próprio: as texturas, cores e traços dão</p><p>forma à pintura; as formas e suas variações, à escultura. Cabe à</p><p>literatura ser a arte da palavra.</p><p>O artista é aquele que se preocupa com o objeto de sua arte, que</p><p>produz emoção, que faz do comum algo diferente; mas também</p><p>é aquele que transforma a realidade, lança um olhar diferente</p><p>sobre sua época, realiza a releitura do já feito e a faz a invenção</p><p>do porvir. Esse é o poder da arte, moldar a realidade de diferentes</p><p>maneiras, sob diversos pontos de vista, independente de realidades</p><p>ou fantasias, mentiras ou verdades. Segundo Pablo Picasso, pintor</p><p>espanhol do século XX, “a arte é uma mentira que revela a verdade”.</p><p>Ora, mas nem toda produção humana pode ser considerada</p><p>artística. Assim, o conceito de estética ganha importância.</p><p>Segundo a definição mais comum, estética é um ramo da filosofia</p><p>voltado à reflexão a respeito da beleza sensível. Assim, os sentidos;</p><p>as formas; a harmonia entre as partes, cores, palavras, versos,</p><p>melodias e ritmos; e as representações são objetos da estética.</p><p>A literatura, por assim dizer, é a arte da palavra, não de qualquer</p><p>coisa escrita, mas aquela intencional, carregada de significado,</p><p>harmônica, expressiva e que é capaz de recriar a realidade.</p><p>A intenção do escrito literário é voltada à própria linguagem,</p><p>não se preocupando unicamente com sentidos objetivos, mas</p><p>carregando-os de subjetividade, de possibilidades de significação,</p><p>de inovações estruturais e vocabulares, enfim, rompendo as</p><p>barreiras da linguagem e expressão comuns, alcançando elevados</p><p>níveis de expressividade.</p><p>A LINGUAGEM LITERÁRIA</p><p>Normalmente, pretende-se que um texto possua qualidades</p><p>como clareza, precisão, objetividade entre outras para que possa</p><p>ser plenamente compreendido em sua função natural: informar.</p><p>Entretanto, nem todos os textos possuem a mesma função e,</p><p>assim sendo, vão dispensar algumas dessas “qualidades” em prol</p><p>de seus interesses distintos.</p><p>Há ocasiões em que o texto apresenta-se distante dos</p><p>sentidos imediatos da palavra. Sua principal funcionalidade não é</p><p>a informativa, nem se pretende ser objetivo ou até mesmo claro.</p><p>A intenção revela-se no próprio uso da linguagem, na construção</p><p>múltipla de sentidos, na criação de realidades e no estranhamento</p><p>das estruturas. Essa linguagem, carregada de significação,</p><p>correspondente aos desejos e anseios do artista é que será</p><p>classificada como arte literária.</p><p>O texto literário diferencia-se, portanto, de outro não-literário,</p><p>pelo valor de sua linguagem simbólica, pela intencionalidade</p><p>de suas palavras, pela harmonia entre suas estruturas. Por tudo</p><p>isso é que chamamos de arte este tipo de produção escrita, em</p><p>contraposição a textos cotidianos como as notícias, os manuais, as</p><p>atas de reunião, as bulas de medicamentos, os livros didáticos etc.</p><p>ARTE E SOCIEDADE</p><p>O poeta e crítico literário estadunidense Ezra Pound afirmava</p><p>que “a literatura não existe no vácuo. Os escritores, como tais,</p><p>têm uma função social definida, exatamente proporcional à sua</p><p>competência como escritores. Essa é sua principal utilidade”. Isso</p><p>significa que a literatura é diretamente relacionada à sociedade que</p><p>a produz, ligada a seus conceitos, suas opiniões; retratando suas</p><p>vaidades, preconceitos, avanços ou comportamentos peculiares.</p><p>A literatura é, em certa medida, o próprio retrato daquela</p><p>sociedade, um apanhado da cultura que a sustenta, uma</p><p>representação de sua ideologia.</p><p>Ainda segundo Pound, “a linguagem é o principal meio de</p><p>comunicação humana. Se o sistema nervoso de um animal não</p><p>transmite sensações e estímulos, o animal se atrofia. Se a literatura</p><p>de uma nação entra em declínio, a nação se atrofia e cai”. A literatura,</p><p>então, não só é tomada como uma representação da cultura de um</p><p>povo, mas como construção da identidade social desta mesma</p><p>cultura que por ela se expressa e se redefine a cada momento.</p><p>Contudo, as condições históricas e culturais de uma sociedade</p><p>não são fixas, transformam-se ao longo do tempo e apresentam,</p><p>em cada época, um conjunto de características que serão refletidas</p><p>na arte, inclusive na literatura. A essas características damos o</p><p>nome de estilo de época. Essas características vão das vestimentas</p><p>à linguagem, da ideologia ao comportamento, refletindo-se nas</p><p>obras literárias de maneira que se pode fazer um retrato social de</p><p>uma determinada época.</p><p>É claro que nem todas as pessoas guardavam todas as</p><p>características de uma época, apesar de viver nela. Não é</p><p>porque todos os homens usavam bengalas no século XIX que</p><p>um determinado autor também o faria. A esse comportamento</p><p>individual, a essa compreensão pessoal de sua época, de seu</p><p>papel social e da própria realidade que o cercava chamamos estilo</p><p>individual. Portanto, toda análise literária passará obrigatoriamente</p><p>por três elementos:</p><p>Momento histórico</p><p>Representa a conjuntura política, social e econômica de</p><p>uma determinada sociedade. As guerras, as crises, os avanços</p><p>tecnológicos, as tensões internas, enfim, tudo o que pode modificar</p><p>a estrutura social ou sua ideologia deve ser levado em consideração</p><p>para o entendimento de uma obra literária.</p><p>Padrão estético</p><p>Cada época revela um conjunto ideológico próprio que é</p><p>representado pela estética. O resultado das inovações e as novas</p><p>perspectivas criam, isto é, modelos, padrões que “devem” ser</p><p>seguidos, pois representam a ideologia dominante da classe de</p><p>maior prestígio na sociedade.</p><p>Estilo individual</p><p>Como todos esses fatores influenciam a vida de um indivíduo?</p><p>Como esse indivíduo enxerga o mundo em que vive? Como</p><p>ele pretende mudá-lo? Essas perguntas formam um painel</p><p>comportamental do artista frente à sua época. Além disso, sua</p><p>história pessoal, suas preferências estéticas imediatas, sua</p><p>capacidade técnica e criativa serão decisivas para definir um perfil</p><p>que pode ser percebido em suas obras.</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO6</p><p>LITERATURA 01 OS HOMENS, A ARTE E A LITERATURA</p><p>A ARTE, A LITERATURA</p><p>E SEUS CONCEITOS</p><p>Literatura é arte. É arte polissêmica e polifônica. Como tal,</p><p>dialoga constantemente com outras formas de arte, em especial</p><p>com as artes plásticas. Disse um dia Murilo Rubião que o escritor</p><p>mantém o “olho armado” e, tal como o escultor ou o pintor, fixa o</p><p>eterno em sua obra.</p><p>Muito se tem discutido sobre a função e a estrutura do texto</p><p>literário, ou ainda sobre a dificuldade de se entenderem os enigmas,</p><p>as ambiguidades, as metáforas da literatura. Mas é exatamente</p><p>aí que reside o seu encanto: no trabalho com a palavra, com seu</p><p>aspecto conotativo, com seus enigmas.</p><p>Sem dúvida, a literatura apresenta-se como o instrumento</p><p>artístico de análise de mundo e de compreensão do homem.</p><p>Sófocles, Camões, Shakespeare, Rousseau, Dostoievski, Machado</p><p>de Assis, Eça de Queiroz, Kafka, Clarice Lispector... todos</p><p>preocupados com o grande mistério: entender a alma humana.</p><p>CARACTERÍSTICAS</p><p>DO TEXTO LITERÁRIO</p><p>• Plurissignificação: as palavras, no texto literário, assumem</p><p>vários significados. Valoriza-se a linguagem conotativa.</p><p>• Ficcionalidade: os textos criam um universo próprio, ainda</p><p>que baseados no real, mas transfigurando-o, recriando-o.</p><p>• Aspecto subjetivo: o texto apresenta, normalmente, o olhar</p><p>pessoal do artista, suas experiências e emoções.</p><p>• Ênfase na função poética da linguagem: o texto literário</p><p>manipula a palavra, revestindo-a de caráter artístico.</p><p>O artista apresenta na obra literária uma postura diante do</p><p>mundo e das aspirações do homem.</p><p>VEROSSIMILHANÇA INTERNA E</p><p>EXTERNA</p><p>(Ilustrações e texto de Will Eisner para o livro Narrativas gráficas)</p><p>Tanto na representação dos caracteres como</p><p>somos nós...</p><p>Dentro do eterno giro universal</p><p>Das cousas, tudo vai e volta à alma da gente,</p><p>Mas, se nesse vaivém tudo parece igual</p><p>Nada mais, na verdade,</p><p>Nunca mais se repete exatamente...</p><p>Sim, as cousas são sempre as mesmas na corrente</p><p>Que no-las leva e traz, num círculo fatal;</p><p>O que varia é o espírito que as sente</p><p>Que é imperceptivelmente desigual,</p><p>Que sempre as vive diferentemente,</p><p>E, assim, a vida é sempre inédita, afinal...</p><p>Estado de alma em fuga pelas horas,</p><p>Tons esquivos e trêmulos, nuanças</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>03 A CONSTRUÇÃO DO TEXTO POÉTICO: ESTRUTURA E EXPRESSÃO</p><p>21</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Suscetíveis, sutis, que fogem no Íris</p><p>Da sensibilidade furta-cor...</p><p>E a nossa alma é a expressão fugitiva das cousas</p><p>E a vida somos nós, que sempre somos outros!...</p><p>Homem inquieto e vão que não repousas!</p><p>Para e escuta:</p><p>Se as cousas têm espírito, nós somos</p><p>Esse espírito efêmero das cousas,</p><p>Volúvel e diverso,</p><p>Variando, instante a instante, intimamente,</p><p>E eternamente,</p><p>Dentro da indiferença do Universo!...</p><p>(Luz mediterrânea, 1965.)</p><p>No último verso do poema, o eu lírico conclui que</p><p>a) os espíritos mostram-se insensíveis ao volúvel Universo.</p><p>b) o Universo acompanha de perto a alma ou espírito.</p><p>c) o Universo é indiferente à relação entre o espírito e as coisas.</p><p>d) a variação das coisas é indiferente ao espírito que as sente.</p><p>e) as coisas têm espírito, mas o Universo não tem.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. B</p><p>02. A</p><p>03. A</p><p>04. A</p><p>05. E</p><p>06. B</p><p>07. A</p><p>08. D</p><p>09. D</p><p>10. C</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>PRÉ-VESTIBULAR22</p><p>LITERATURA 03 A CONSTRUÇÃO DO TEXTO POÉTICO: ESTRUTURA E EXPRESSÃO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 23SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>FIGURAS DE LINGUAGEM I:</p><p>FIGURAS DE PALAVRA E DE PENSAMENTO04</p><p>ESTILÍSTICA</p><p>Quando falamos em Estilística estamos realmente falando da</p><p>parte da gramática que estuda o estilo, entendendo por estilo um</p><p>conjunto de características e de usos de linguagem representativos</p><p>da intencionalidade do enunciador e capazes de estabelecer distinção</p><p>entre dois textos.</p><p>Quando diretamente relacionada à Semântica, a Estilística</p><p>ocupa-se significação contextual e expressiva das palavras</p><p>e expressões, baseando-se nas suas possibilidades de</p><p>plurissignificação. Pode, também, dar conta de modelos de</p><p>construção gramatical, desde que sirvam à expressividade.</p><p>Contudo, sua principal área de atuação reside no par conotação/</p><p>denotação e no estabelecimento da linguagem figurada.</p><p>Normalmente encontraremos a base para a análise da</p><p>Estilística nos textos literários, já que “a linguagem literária</p><p>desvia-se, sistematicamente, da norma padrão com o objetivo</p><p>de colocar em primeiro plano as propriedades linguísticas do</p><p>texto e de desfamiliarizar as percepções automatizadas do leitor”.</p><p>Outro campo de análise será a linguagem publicitária que utiliza</p><p>diversos jogos de palavras e sentidos em sua tarefa de persuadir</p><p>os consumidores.</p><p>LINGUAGEM FIGURADA</p><p>Procura da Poesia</p><p>(...)</p><p>Chega mais perto e contempla as palavras.</p><p>Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra</p><p>(Carlos Drummond de Andrade)</p><p>O poeta Drummond ensina que as palavras podem apresentar</p><p>múltiplos significados, dependendo do contexto em que as</p><p>utilizemos. A essa possibilidade de uma palavra apresentar diversos</p><p>sentidos chamamos polissemia. Alguns desses sentidos nos</p><p>remetem à ideia original da palavra, isto é, seu sentido primordial,</p><p>denotativo. Outros ganham um sentido dentro do contexto em que</p><p>são usados, o chamado sentido figurado ou conotativo.</p><p>No mesmo poema, Drummond fala que as palavras, antes</p><p>da poesia, ficam em “estado de dicionário”, isto é, apresentando</p><p>apenas sua significação objetiva, ligada diretamente à necessidade</p><p>em se nomear determinado ser ou processo. Contudo, podem-se</p><p>usar as palavras atribuindo-lhes novos sentidos de acordo com a</p><p>intenção, com o estilo a que se propõe. Alguns desses sentidos são</p><p>absolutamente comuns (ainda que se distanciem do significado</p><p>original) formados por associações ou aceitos culturalmente como</p><p>tais. É o que ocorre com a palavra coração que, por extensão e</p><p>associação, pode significar amor, paixão ou até mesmo ser usada</p><p>como adjetivo.</p><p>Desta maneira, pode-se entender que as figuras de linguagem</p><p>são manifestações do indivíduo na intenção estilística de explorar</p><p>usos da língua em determinados contextos, buscando a superação</p><p>da linguagem em prol de maior expressividade para o texto.</p><p>É sempre útil alertar que as figuras dependem da intenção e,</p><p>normalmente, do contexto em que são empregadas para que se as</p><p>possa realmente considerar.</p><p>Entre as várias maneiras de obterem-se tais efeitos, faz-se</p><p>uma divisão entre as figuras. Duas delas apresentaremos aqui:</p><p>aquelas que manifestam suas relações através de expressões</p><p>que se revelam possuidoras de outros sentidos, as figuras de</p><p>pensamento; e aqueles chamamos tropos linguísticos – por alguns</p><p>considerados figuras de palavra – em que os termos são usados</p><p>em sentido conotativo para sua realização.</p><p>FIGURAS DE PENSAMENTO</p><p>Antítese - Consiste na oposição entre duas ou mais ideias,</p><p>onde os conceitos se contrapõem, mas não se excluem.</p><p>“Os jardins têm vida e morte”</p><p>No caso de os conceitos tornarem-se irrealizáveis, teremos um</p><p>paradoxo:</p><p>“Rio de neve em fogo convertido”</p><p>L. Camões</p><p>Apóstrofe – é uma invocação ou interpelação direta às pessoas</p><p>ou seres personificados.</p><p>“Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?!”</p><p>Castro Alves</p><p>Comparação ou símile – é o estabelecimento de uma</p><p>comparação entre duas ideias, através do uso explícito de um</p><p>conectivo ou de uma construção marcantemente comparativa.</p><p>“Seus olhos brilhavam mais do que as estrelas”</p><p>“A saudade bateu foi que nem maré”</p><p>J. Vercillo</p><p>Eufemismo – é uma forma suave de expressar alguma</p><p>mensagem desagradável, forte ou socialmente desvalorizada.</p><p>Com o aparecimento do comportamento “politicamente correto”, o</p><p>eufemismo ganha uso corrente, seja nas empresas – como forma</p><p>de prestigiar funções subalternas com nomes imponentes – seja</p><p>no cotidiano, em que o uso de algumas expressões passou a soar</p><p>preconceituoso ou grosseiro.</p><p>“Ela deu o último suspiro”</p><p>“Meu avô trabalhava como um humilde chefe de recepção de</p><p>edifícios”</p><p>Quando se utilizam expressões para satirizar ou mesmo fazer</p><p>um uso popular diante determinada situação, temos o disfemismo.</p><p>“O bandido vestiu o paletó de madeira”</p><p>Gradação – configura-se como uma sequência de palavras,</p><p>sejam sinônimas ou não, promovendo a intensificação de uma ideia.</p><p>“O trigo nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se,</p><p>mediu-se”</p><p>Pe. Antônio Vieira</p><p>Hipérbole - consiste no exagero deliberado de uma afirmação.</p><p>“Ela chorou rios de lágrimas”</p><p>Ironia – consiste em dizer justamente o oposto do que se</p><p>pretende.</p><p>“Este goleiro é excelente: dez falhas numa única partida...”</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO24</p><p>LITERATURA 04 FIGURAS DE LINGUAGEM I: FIGURAS DE PALAVRA E DE PENSAMENTO</p><p>Perífrase – é o emprego de vários vocábulos para expressar</p><p>um único nome.</p><p>“O Poeta dos Escravos”</p><p>(Em lugar de Castro Alves)</p><p>Prosopopéia (ou Personificação) – é a atribuição de vida e</p><p>vontade própria a seres inanimados.</p><p>“Os penhascos gemiam”</p><p>Sinestesia – consiste em mesclar numa mesma expressão</p><p>sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido.</p><p>“Um grito áspero revelava todo o seu medo.”</p><p>‘TROPOS’ LINGUÍSTICOS -</p><p>AS FIGURAS DE PALAVRA</p><p>Consideram-se tropos as palavras tomadas fora de seu sentido</p><p>original, explorando claramente as possibilidades de significação</p><p>contextual, sendo utilizadas em sentido conotativo. É comum</p><p>também a designação desse processo como figuras de palavra.</p><p>Metáfora – figura que realça os aspectos conotativos de um</p><p>vocábulo, ensejando uma comparação imediata.</p><p>“Seus olhos eram estrelas”</p><p>“Alessandra é uma flor”</p><p>Metonímia – Existe quando o significado sugerido pelo termo</p><p>resulta de uma aproximação de ideias, empregando um termo no</p><p>lugar de outro, com o qual mantém uma relação de contiguidade</p><p>(autor pela obra, todo pela parte, lugar pelo produto, efeito pela</p><p>causa etc.). Note que, quando se fala em metonímia, sempre</p><p>haverá uma substituição de uma ideia pela outra.</p><p>“Vivem sem teto” (sem casa)</p><p>“Pegar um níquel” (uma moeda)</p><p>“Ele comeu dois pratos” (a comida contida nos pratos)</p><p>“Pedir a mão da moça em casamento” (a própria moça, não</p><p>só a mão)</p><p>“Coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor</p><p>do rosto.”</p><p>Machado de Assis</p><p>Catacrese – é a figura que confere novo emprego a um</p><p>vocábulo, por falta de termos apropriados.</p><p>“O pé da mesa quebrou”</p><p>“Apoiou-se, então, nos braços da cadeira”</p><p>Antonomásia – é um caso especial de metonímia, através</p><p>do qual um nome próprio é substituído por uma circunstância ou</p><p>qualidade a ele intrinsecamente relacionada.</p><p>“O Genovês salta os mares...”</p><p>(Castro Alves)</p><p>(o termo “Genovês” se refere a Cristóvão Colombo)</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (ENEM)</p><p>Metáfora</p><p>Gilberto Gil</p><p>Uma lata existe para conter algo</p><p>Mas quando o poeta diz: "Lata"</p><p>Pode estar querendo dizer o incontível</p><p>Uma meta existe para ser um alvo</p><p>Mas quando o poeta diz: "Meta"</p><p>Pode estar querendo dizer o inatingível</p><p>Por isso, não se meta a exigir do poeta</p><p>Que determine o conteúdo em sua lata</p><p>Na lata do poeta tudo-nada cabe</p><p>Pois ao poeta cabe fazer</p><p>Com que na lata venha caber O incabível</p><p>Deixe a meta do poeta, não discuta</p><p>Deixe a sua meta fora da disputa</p><p>Meta dentro e fora, lata absoluta</p><p>Deixe-a simplesmente metáfora.</p><p>Disponível em: http://www.letras.terra.com.br. Acesso em: 5 fev. 2009.</p><p>A metáfora é a figura de linguagem identificada pela comparação</p><p>subjetiva, pela semelhança ou analogia entre elementos. O texto</p><p>de Gilberto Gil brinca com a linguagem remetendo-nos a essa</p><p>conhecida figura. O trecho em que se identifica a metáfora é:</p><p>a) “Uma lata existe para conter algo”.</p><p>b) “Mas quando o poeta diz: ’Lata’”.</p><p>c) “Uma meta existe para ser um alvo”.</p><p>d) “Por isso não se meta a exigir do poeta”.</p><p>e) “Que determine o conteúdo em sua lata”.</p><p>02. (ENEM) TEXTO I</p><p>Onde está a honestidade?</p><p>Você tem palacete reluzente</p><p>Tem joias e criados à vontade</p><p>Sem ter nenhuma herança ou parente</p><p>Só anda de automóvel na cidade…</p><p>E o povo pergunta com maldade:</p><p>Onde está a honestidade?</p><p>Onde está a honestidade?</p><p>O seu dinheiro nasce de repente</p><p>E embora não se saiba se é verdade</p><p>Você acha nas ruas diariamente</p><p>Anéis, dinheiro e felicidade…</p><p>Vassoura dos salões da sociedade</p><p>Que varre o que encontrar em sua frente</p><p>Promove festivais de caridade</p><p>Em nome de qualquer defunto ausente…</p><p>ROSA, N. Disponível em: http://www.mpbnet.com.br. Acesso em: abr. 2010.</p><p>TEXTO II</p><p>Um vulto da história da música popular brasileira, reconhecido</p><p>nacionalmente, é Noel Rosa. Ele nasceu em 1910, no Rio de Janeiro;</p><p>portanto, se estivesse vivo, estaria completando 100 anos. Mas</p><p>faleceu aos 26 anos de idade, vítima de tuberculose, deixando um</p><p>acervo de grande valor para o patrimônio cultural brasileiro. Muitas</p><p>de suas letras representam a sociedade contemporânea, como se</p><p>tivessem sido escritas no século XXI.</p><p>Disponível em: http://www.mpbnet.com.br. Acesso em: abr. 2010.</p><p>Um texto pertencente ao patrimônio literário-cultural brasileiro é</p><p>atualizável, na medida em que ele se refere a valores e situações</p><p>de um povo. A atualidade da canção Onde está a honestidade?, de</p><p>Noel Rosa, evidencia-se por meio</p><p>a) da ironia, ao se referir ao enriquecimento de origem duvidosa</p><p>de alguns.</p><p>b) da crítica aos ricos que possuem joias, mas não têm herança.</p><p>c) da maldade do povo a perguntar sobre a honestidade.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>04 F IGURAS DE LINGUAGEM I: FIGURAS DE PALAVRA E DE PENSAMENTO</p><p>25</p><p>LITERATURA</p><p>d) do privilégio de alguns em clamar pela honestidade.</p><p>e) da insistência em promover eventos benefi centes.</p><p>03.</p><p>I - DENTRO DA NOITE</p><p>(Manuel Bandeira)</p><p>Dentro da noite a vida canta</p><p>E esgarça névoas ao luar...</p><p>Fosco minguante o vale encanta.</p><p>Morreu pecando alguma santa...</p><p>A água não para de chorar. [...]</p><p>II - SONHO BRANCO</p><p>(Cruz e Sousa)</p><p>De linho e rosas brancas vais vestido,</p><p>Sonho virgem que cantas no meu peito!...</p><p>És do Luar o claro deus eleito,</p><p>Das estrelas puríssimas nascido. [...]</p><p>Após atenciosa leitura dos textos acima (textos de séculos</p><p>diferentes: o primeiro, do início do século XX; o segundo, do fi nal</p><p>do século XIX), considerando a falta de semelhança entre eles,</p><p>identifi que uma fi gura de linguagem comum.</p><p>a) Paradoxo</p><p>b) Catacrese</p><p>c) Sinestesia</p><p>d) Hipérbole</p><p>e) prosopopéia</p><p>04. (ENEM)</p><p>O ouro do século 21</p><p>Cério, gadolínio, lutécio, promécio e érbio; sumário, térbio e</p><p>disprósio; hólmio, túlio e itérbio. Essa lista de nomes esquisitos</p><p>e pouco conhecidos pode parecer a escalação de um time de</p><p>futebol, que ainda teria no banco de reservas lantânio, neodímio,</p><p>praseodímio, európio, escândio e ítrio. Mas esses 17 metais,</p><p>chamados de terras raras, fazem parte da vida de quase todos</p><p>os humanos do planeta. Chamados por muitos de “ouro do</p><p>século 21”, “elementos do futuro” ou “vitaminas da indústria”, eles</p><p>estão nos materiais usados na fabricação de lâmpadas, telas de</p><p>computadores, tablets e celulares, motores de carros elétricos,</p><p>baterias e até turbinas eólicas. Apesar de tantas aplicações, o</p><p>Brasil, dono da segunda maior reserva do mundo desses metais,</p><p>parou de extraí-los e usá-los em 2002. Agora, volta a pensar em</p><p>retomar sua exploração.</p><p>SILVEIRA, E. Disponível em: www.revistaplaneta.com.br.</p><p>Acesso em: 6 dez. 2017 (adaptado).</p><p>As aspas sinalizam expressões metafóricas empregadas intencio-</p><p>nalmente pelo autor do texto para</p><p>a) imprimir um tom irônico à reportagem.</p><p>b) incorporar citações de especialistas à reportagem.</p><p>c) atribuir maior valor aos metais, objeto da reportagem.</p><p>d) esclarecer termos científi cos empregados na reportagem.</p><p>e) marcar a apropriação de termos de outra ciência pela reportagem.</p><p>05. (ENEM)</p><p>Aquarela</p><p>O corpo no cavalete</p><p>é um pássaro que agoniza</p><p>exausto do próprio grito.</p><p>As vísceras vasculhadas</p><p>principiam a contagem</p><p>regressiva.</p><p>No assoalho o sangue</p><p>se decompõe em matizes</p><p>que a brisa beija e balança:</p><p>o verde - de nossas matas</p><p>o amarelo - de nosso ouro</p><p>o azul - de nosso céu</p><p>o branco o negro o negro</p><p>CACASO. In: HOLLANDA, H. B (Org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.</p><p>Situado na vigência do Regime Militar que governou o Brasil,</p><p>na década de 1970, o poema de Cacaso edifi ca uma forma de</p><p>resistência e protesto a esse período, metaforizando</p><p>a) as artes plásticas, deturpadas pela repressão e censura.</p><p>b) a natureza brasileira, agonizante como um pássaro enjaulado.</p><p>c) o nacionalismo romântico, silenciado pela perplexidade com a</p><p>Ditadura.</p><p>d) o emblema nacional, transfi gurado pelas marcas do medo e</p><p>da violência.</p><p>e) as riquezas da terra, espoliadas durante o aparelhamento do</p><p>poder armado.</p><p>06. (ENEM)</p><p>Disponível em: www.portaldapropaganda.com.br. Acesso em: 29. out. 2013 (adaptado).</p><p>Os meios de comunicação podem contribuir para a resolução de</p><p>problemas sociais, entre os quais o da violência sexual infantil.</p><p>Nesse sentido, a propaganda usa a metáfora do pesadelo para</p><p>a) informar crianças vítimas de abuso sexual sobre os perigos</p><p>dessa prática, contribuindo para erradicá-la.</p><p>b) denunciar ocorrências de abuso sexual contra meninas, com o</p><p>objetivo de colocar criminosos na cadeia.</p><p>c) dar a devida dimensão do que é o abuso sexual para uma</p><p>criança, enfatizando a importância da denúncia.</p><p>d) destacar que a violência sexual infantil predomina durante</p><p>a noite, o que requer maior cuidado dos responsáveis nesse</p><p>período.</p><p>e) chamar a atenção para o fato de o abuso infantil ocorrer</p><p>durante o sono, sendo confundido por algumas crianças com</p><p>um pesadelo.</p><p>07. (ENEM)</p><p>Aquele bêbado</p><p>— Juro nunca mais beber — e fez o sinal da cruz com os</p><p>indicadores. Acrescentou: — Álcool.</p><p>O mais ele achou que podia beber. Bebia paisagens, músicas</p><p>de Tom Jobim, versos de Mário Quintana. Tomou um pileque de</p><p>Segall. Nos fi ns de semana, embebedava-se de Índia Reclinada, de</p><p>Celso Antônio.</p><p>— Curou-se 100% do vício — comentavam os amigos. Só ele</p><p>sabia que andava mais bêbado que um gambá. Morreu de etilismo</p><p>abstrato, no meio de uma carraspana de pôr do sol no Leblon,</p><p>e seu</p><p>féretro ostentava inúmeras coroas de ex-alcoólatras anônimos.</p><p>ANDRADE, C. D. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: Record, 1991.</p><p>A causa mortis do personagem, expressa no último parágrafo,</p><p>adquire um efeito irônico no texto porque, ao longo da narrativa,</p><p>ocorre uma</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO26</p><p>LITERATURA 04 FIGURAS DE LINGUAGEM I: FIGURAS DE PALAVRA E DE PENSAMENTO</p><p>a) metaforização do sentido literal do verbo “beber”.</p><p>b) aproximação exagerada da estética abstracionista.</p><p>c) apresentação gradativa da coloquialidade da linguagem.</p><p>d) exploração hiperbólica da expressão “inúmeras coroas”.</p><p>e) citação aleatória de nomes de diferentes artistas.</p><p>08. (ENEM)</p><p>O açúcar</p><p>O branco açúcar que adoçará meu café</p><p>nesta manhã de Ipanema</p><p>não foi produzido por mim</p><p>nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.</p><p>Vejo-o puro</p><p>e afável ao paladar</p><p>como beijo de moça, água</p><p>na pele, flor</p><p>que se dissolve na boca. Mas este açúcar</p><p>não foi feito por mim.</p><p>Este açúcar veio</p><p>da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,</p><p>[dono da mercearia.</p><p>Este açúcar veio</p><p>de uma usina de açúcar em Pernambuco</p><p>ou no Estado do Rio</p><p>e tampouco o fez o dono da usina.</p><p>Este açúcar era cana</p><p>e veio dos canaviais extensos</p><p>que não nascem por acaso</p><p>no regaço do vale.</p><p>(...)</p><p>Em usinas escuras,</p><p>homens de vida amarga</p><p>e dura</p><p>produziram este açúcar</p><p>branco e puro</p><p>com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.</p><p>Ferreira Gullar. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 227-8.</p><p>A antítese que configura uma imagem da divisão social do trabalho</p><p>na sociedade brasileira é expressa poeticamente na oposição entre</p><p>a doçura do branco açúcar e</p><p>a) o trabalho do dono da mercearia de onde veio o açúcar.</p><p>b) o beijo de moça, a água na pele e a flor que se dissolve na boca.</p><p>c) o trabalho do dono do engenho em Pernambuco, onde se</p><p>produz o açúcar.</p><p>d) a beleza dos extensos canaviais que nascem no regaço do vale.</p><p>e) o trabalho dos homens de vida amarga em usinas escuras.</p><p>09. (UERJ)</p><p>Um poema de Vinicius de Moraes</p><p>A flutuação do gosto em relação aos poetas é normal, como é</p><p>normal a sucessão dos modos de fazer poesia. Pelo visto, Vinicius</p><p>de Moraes anda em baixa acentuada. Talvez o seu prestígio tenha</p><p>diminuído porque se tornou cantor e compositor, levando a opinião</p><p>a considerá-lo mais letrista do que poeta. Mas deve ter sido também</p><p>porque encarnou um tipo de poesia oposto a certas modalidades</p><p>para as quais cada palavra tende a ser objeto autônomo, portador</p><p>de maneira isolada (ou quase) do significado poético.</p><p>Na história da literatura brasileira ele é um poeta de</p><p>continuidades, não de rupturas; e o nosso é um tempo que tende</p><p>à ruptura, ao triunfo do ritmo e mesmo do ruído sobre a melodia,</p><p>assim como tende a suprimir as manifestações da afetividade. Ora,</p><p>Vinicius é melodioso e não tem medo de manifestar sentimentos,</p><p>com uma naturalidade que deve desgostar as poéticas de choque.</p><p>Por vezes, ele chega mesmo a cometer o pecado maior para o</p><p>nosso tempo: o sentimentalismo. Isso lhe permitiu dar estatuto de</p><p>poesia a coisas, sentimentos e palavras extraídos do mais singelo</p><p>cotidiano, do coloquial mais familiar e até piegas, de maneira a</p><p>parecer muitas vezes um seresteiro milagrosamente transformado</p><p>em poeta maior. João Cabral disse mais de uma vez que sua</p><p>própria poesia remava contra a maré da tradição lírica de língua</p><p>portuguesa. Vinicius seria, ao contrário, alguém integrado no fluxo</p><p>da sua corrente, porque se dispôs a atualizar a tradição. Isso foi</p><p>possível devido à maestria com que dominou o verso, jogando com</p><p>todas as suas possibilidades.</p><p>Ele consegue ser moderno usando metrificação e cultivando</p><p>a melodia, com uma imaginação renovadora e uma liberdade</p><p>que quebram as convenções e conseguem preservar os valores</p><p>coloquiais. Rigoroso como Olavo Bilac, fluido como o Manuel</p><p>Bandeira dos versos regulares, terra a terra como os poemas</p><p>conversados de Mário de Andrade, esse mestre do soneto e da</p><p>crônica é um raro malabarista.</p><p>ANTONIO CANDIDO. Adaptado de Teoria e debate, nº 49.</p><p>São Paulo: Fundação Perseu Abramo, out-dez, 2001.</p><p>Com base nas ideias apresentadas no texto, a metáfora “um raro</p><p>malabarista” sugere que o poeta articula os seguintes aspectos</p><p>em sua poesia:</p><p>a) humor e seriedade</p><p>b) tradição e inovação</p><p>c) erudição e formalismo</p><p>d) musicalidade e silêncio</p><p>10. (UERJ)</p><p>Soneto da hora final</p><p>Será assim, amiga: um certo dia</p><p>Estando nós a contemplar o poente</p><p>Sentiremos no rosto, de repente</p><p>O beijo leve de uma aragem fria.</p><p>Tu me olharás silenciosamente</p><p>E eu te olharei também, com nostalgia</p><p>E partiremos, tontos de poesia</p><p>Para a porta de treva aberta em frente.</p><p>Ao transpor as fronteiras do Segredo</p><p>Eu, calmo, te direi: – Não tenhas medo</p><p>E tu, tranquila, me dirás: – Sê forte.</p><p>E como dois antigos namorados</p><p>Noturnamente tristes e enlaçados</p><p>Nós entraremos nos jardins da morte.</p><p>Vinicius de Moraes</p><p>No título Soneto da hora final, para revelar o tema do poema,</p><p>recorre-se à figura de linguagem denominada:</p><p>a) eufemismo</p><p>b) metonímia</p><p>c) hipérbole</p><p>d) ironia</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. E</p><p>02. A</p><p>03. E</p><p>04. C</p><p>05. D</p><p>06. C</p><p>07. A</p><p>08. E</p><p>09. B</p><p>10. A</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 27SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>FIGURAS DE LINGUAGEM II: FIGURAS</p><p>DE CONSTRUÇÃO E DE HARMONIA05</p><p>FIGURAS DE CONSTRUÇÃO</p><p>OU DE SINTAXE</p><p>As figuras de sintaxe caracterizam-se por alterarem de alguma</p><p>maneira as regras tradicionais da Gramática, isto é, a coesão</p><p>normativa é substituída por uma coesão significativa, condicionada</p><p>pelo contexto geral e pela situação, em busca de maior</p><p>expressividade. Com isso, encontraremos repetições de termos,</p><p>inversão de elementos, discordância entre outras modificações.</p><p>Podemos classificá-las em grupos:</p><p>1. por repetição</p><p>2. por omissão</p><p>3. transposição</p><p>4. discordância</p><p>FIGURAS DE CONSTRUÇÃO POR REPETIÇÃO</p><p>Anáfora - é a repetição de um termo ao início de versos ou</p><p>frases.</p><p>“Tudo é silêncio, tudo (é) calma, tudo (é) mudez”</p><p>Olavo Bilac</p><p>Pleonasmo - repetição desnecessária de um termo já expresso,</p><p>com valor enfático. Note que tal repetição tem de apresentar valor</p><p>estilístico, do contrário será considerado vicioso. Podemos ainda</p><p>dividir o pleonasmo em sintático e semântico.</p><p>1. Pleonasmo sintático - É a repetição de um termo da</p><p>oração, normalmente por referência pronominal.</p><p>“A mim, não me agradam tais comentários”</p><p>2. Pleonasmo semântico - Consiste na repetição das ideias</p><p>presentes nos termos.</p><p>“Sonhei que estava sonhando um sonho sonhado”</p><p>Martinho da Vila</p><p>Polissíndeto - emprego reiterado de conectivos entre elemen-</p><p>tos coordenados.</p><p>“Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua”</p><p>Olavo Bilac</p><p>FIGURAS DE CONSTRUÇÃO POR OMISSÃO</p><p>Assíndeto - omissão do conectivo entre termos coordenados.</p><p>“A barca vinha perto, chegou, atracou, entramos.”</p><p>Machado de Assis</p><p>Elipse - omissão de um termo da oração, facilmente percebido</p><p>pelo contexto.</p><p>Um cavalheiro. Até na miséria, um cavalheiro.</p><p>Faltei à prova.</p><p>Zeugma - tipo de elipse em que um termo participa de duas ou</p><p>mais orações, porém só aparece em uma única vez.</p><p>Eu fiz uma parte, Antônio fez outra e Sueli fez a última.</p><p>FIGURAS DE CONSTRUÇÃO</p><p>POR TRANSPOSIÇÃO</p><p>Hipérbato - inversão da ordem natural das palavras na oração</p><p>ou da ordem das orações no período. Existe, então, a introdução de</p><p>uma expressão no interior de outro sintagma. Também é chamada</p><p>de “inversão”.</p><p>“A casa, torno a ver, em que moramos”</p><p>Prolepse (ou Antecipação) - deslocamento de um termo do</p><p>interior de uma oração para o início do período.</p><p>“Os pastores parece que vivem no fim do mundo.”</p><p>(Parece que os pastores vivem no fim do mundo)</p><p>“Prima Justina creio que se levantou.”</p><p>(Creio que prima Justina se levantou)</p><p>FIGURAS DE CONSTRUÇÃO</p><p>POR DISCORDÂNCIA</p><p>Anacoluto - introdução aleatória de um termo sem qualquer</p><p>função sintática dentro da oração.</p><p>“Bom! Bom! Eu parece-me que ainda não ofendi ninguém!”</p><p>José Régio</p><p>Hipálage - transposição de uma virtude própria de determinado</p><p>termo para outro integrante da oração.</p><p>“As lojas loquazes dos barbeiros”</p><p>(Loquazes, que tem o sentido de “falantes”, refere-se aos</p><p>barbeiros,</p><p>não às lojas.)</p><p>Silepse - concordância estabelecida ideologicamente, contra-</p><p>riando a norma gramatical. São de três tipos:</p><p>1. Silepse de gênero - concordância ideológica com a pessoa</p><p>referida e não com a exigência do termo.</p><p>“Senhor Presidente, Vossa Excelência parece cansado.”</p><p>2. Silepse de número - concordância ideológica com o</p><p>número (singular ou plural), contrariando o número do</p><p>termo referido.</p><p>“A multidão ouvia com atenção. Ao final, aplaudiram.”</p><p>1. Silepse de pessoa - concordância ideológica com uma</p><p>pessoa diferente da expressa na oração.</p><p>“Todos entramos imediatamente”</p><p>“no fundo a gente se consolava, pensávamos em nós</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO28</p><p>LITERATURA 05 FIGURAS DE LINGUAGEM II: FIGURAS DE CONSTRUÇÃO E DE HARMONIA</p><p>mesmos.”</p><p>Autran Dourado</p><p>FIGURAS DE HARMONIA</p><p>Aliteração - é a incidência expressiva de fonemas consonantais</p><p>idênticos.</p><p>“Me deixa ser teu escracho capacho, teu cacho, riacho de amor...”</p><p>Chico Buarque</p><p>Assonância - é a repetição de sílabas ou vogais idênticas.</p><p>“Duma nuança mansa que não cansa”</p><p>E. Perneta</p><p>Onomatopeia - quando o vocábulo busca reproduzir o próprio</p><p>som ou ruído de objeto representado.</p><p>“Sino de Belém, como soa bem!</p><p>Sino de Belém bate bem-bem-bem.”</p><p>Manuel Bandeira</p><p>Paronomásia - consiste no emprego, ao final ou no interior dos</p><p>versos, de vocábulos parônimos.</p><p>“Por todo o dia</p><p>um certo verde</p><p>um inseto verde</p><p>o incerto ver-te”</p><p>Ramos Filho</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (UNESP) Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio</p><p>Vieira (1608-1697), para responder à questão.</p><p>Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada</p><p>pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua</p><p>presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores,</p><p>repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém</p><p>ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta,</p><p>Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós,</p><p>porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O</p><p>roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com</p><p>pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.</p><p>Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar</p><p>as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: [...]</p><p>Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão</p><p>e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e</p><p>merecem o mesmo nome.</p><p>Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um</p><p>filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma,</p><p>reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou,</p><p>foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes</p><p>católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem</p><p>a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais</p><p>ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque</p><p>a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se</p><p>não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de</p><p>que se ofenderão, porque lhes pode tocar. [...]</p><p>Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são</p><p>aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna</p><p>condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou</p><p>escusa ou alivia o seu pecado [...]. O ladrão que furta para comer</p><p>não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que</p><p>eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera [...].</p><p>Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam</p><p>bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa;</p><p>os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são</p><p>aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o</p><p>governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já</p><p>com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros</p><p>ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os</p><p>outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo:</p><p>os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.</p><p>(Essencial, 2011.)</p><p>Verifica-se o emprego de vírgula para indicar a elipse (supressão)</p><p>do verbo em:</p><p>a) “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão,</p><p>e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?” (1º</p><p>parágrafo)</p><p>b) “O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os</p><p>que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de</p><p>maior calibre e de mais alta esfera [...].” (3º parágrafo)</p><p>c) “O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar</p><p>com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os</p><p>Alexandres.” (1º parágrafo)</p><p>d) “Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o</p><p>ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo</p><p>lugar, e merecem o mesmo nome.” (1º parágrafo)</p><p>e) “Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades</p><p>e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem</p><p>temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes</p><p>furtam e enforcam.” (3º parágrafo)</p><p>02. (ENEM)</p><p>Canção do vento e da minha vida</p><p>O vento varria as folhas,</p><p>O vento varria os frutos,</p><p>O vento varria as flores...</p><p>E a minha vida ficava</p><p>Cada vez mais cheia</p><p>De frutos, de flores, de folhas.</p><p>[...]</p><p>O vento varria os sonhos</p><p>E varria as amizades...</p><p>O vento varria as mulheres...</p><p>E a minha vida ficava</p><p>Cada vez mais cheia</p><p>De afetos e de mulheres.</p><p>O vento varria os meses</p><p>E varria os teus sorrisos...</p><p>O vento varria tudo!</p><p>E a minha vida ficava</p><p>Cada vez mais cheia</p><p>De tudo.</p><p>(BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.)</p><p>Na estruturação do texto, destaca-se</p><p>a) a construção de oposições semânticas.</p><p>b) a apresentação de ideias de forma objetiva.</p><p>c) o emprego recorrente de figuras de linguagem, como o</p><p>eufemismo.</p><p>d) a repetição de sons e de construções sintáticas semelhantes.</p><p>e) a inversão da ordem sintática das palavras.</p><p>03. (UECE)</p><p>A Fita Métrica do Amor</p><p>Martha Medeiros</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>05 FIGURAS DE LINGUAGEM II: FIGURAS DE CONSTRUÇÃO E DE HARMONIA</p><p>29</p><p>LITERATURA</p><p>Como se mede uma pessoa? Os tamanhos variam conforme o</p><p>grau de envolvimento. Ela é enorme pra você quando fala do que leu</p><p>e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos</p><p>olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si</p><p>mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando</p><p>fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o</p><p>que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.</p><p>Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua</p><p>vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando</p><p>sonha junto. É pequena quando desvia do assunto.</p><p>Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende,</p><p>quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo</p><p>com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de</p><p>si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por</p><p>comportamentos clichês.</p><p>Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza</p><p>dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num</p><p>espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor</p><p>é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o</p><p>tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode</p><p>aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.</p><p>É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se</p><p>agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é</p><p>feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações,</p><p>de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender</p><p>a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O</p><p>egoísmo unifica os insignificantes.</p><p>Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma</p><p>pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.</p><p>Como figura de linguagem, a anáfora é caracterizada pela repetição</p><p>de uma ou mais palavras no início de versos, orações ou períodos.</p><p>Na crônica, a autora recorre à anáfora, nos três primeiros parágrafos</p><p>do texto, pela repetição da conjunção “quando”, com o objetivo de</p><p>a) ampliar a expressividade do conteúdo da mensagem,</p><p>enfatizando o sentido do termo repetido consecutivamente.</p><p>b) empregar a anáfora como um recurso estilístico indispensável</p><p>a qualquer texto de cunho literário.</p><p>c) respeitar as características da crônica, já que a anáfora é um</p><p>recurso linguístico próprio deste tipo de gênero textual.</p><p>d) fazer referência a uma informação previamente mencionada.</p><p>04. (UFG) Leia o poema a seguir.</p><p>br</p><p>um ônibus</p><p>na estrada</p><p>é só uma faixa</p><p>contínua</p><p>que puxa</p><p>& piche</p><p>& placas & postes</p><p>& mais & mais</p><p>asfalto</p><p>& pastos</p><p>& bois</p><p>& soja & cana</p><p>ao longo da estrada</p><p>interminável</p><p>& monótona</p><p>& sem fim</p><p>(PEREIRA, Luís Araujo. Minigrafias. Goiânia: Cânone Editorial, 2009. p. 75)</p><p>A anáfora é um recurso de linguagem cuja função é de organização</p><p>textual, de retomada referencial ou de repetição da mesma palavra</p><p>ou construção. No poema apresentado, emprega-se “&” por meio</p><p>dessa figura de linguagem, fazendo a anáfora produzir efeito de</p><p>sentido equivalente ao</p><p>a) movimento acelerado do ônibus, evidente na imagem “um</p><p>ônibus/ na estrada/ é só uma faixa/ contínua/ que puxa”.</p><p>b) tipo de vida monótono dos motoristas de ônibus implicado na</p><p>anáfora e na repetição de consoantes e de vogais.</p><p>c) som do ônibus na estrada, sugerido pelo emprego de</p><p>aliterações e assonâncias ao longo do poema.</p><p>d) panorama econômico da rodovia, reiterado nas palavras “piche”,</p><p>“placas”, “postes”, “asfalto”, “pasto”, “bois”, “soja” e “cana”.</p><p>e) cenário da rodovia, igual a todas as estradas, presente na</p><p>imagem “interminável/ & monótona/ & sem fim”.</p><p>05. (UEG) Leia o trecho abaixo:</p><p>– Desde que estou retirando</p><p>só a morte vejo ativa,</p><p>só a morte deparei</p><p>e às vezes até festiva;</p><p>só morte tem encontrado</p><p>quem pensava encontrar vida,</p><p>e o pouco que não foi morte</p><p>foi de vida severina</p><p>(aquela vida que é menos</p><p>vivida que defendida,</p><p>e é ainda mais severina</p><p>para o homem que retira).</p><p>(NETO, João Cabral de Melo. Morte e vida severina.</p><p>Rio de Janeiro: MEDIA fashion, 2008. p. 82)</p><p>Verifica-se, em termos estruturais, uma</p><p>a) aliteração no penúltimo verso.</p><p>b) anáfora no segundo e terceiro versos.</p><p>c) comparação no quinto verso.</p><p>d) metáfora no terceiro e quarto versos.</p><p>06. (UFU-MG)</p><p>Dionisos Dendrites</p><p>Seu olhar verde penetra a Noite entre tochas acesas</p><p>Ramos nascem de seu peito</p><p>Pés percutem a pedra enegrecida</p><p>Cantos ecoam tambores gritos mantos desatados.</p><p>Acorre o vento ao círculo demente</p><p>O vinho espuma nas taças incendiadas.</p><p>Acena o deus ao bando: Mar de alvos braços</p><p>Seios rompendo as túnicas gargantas dilatadas</p><p>E o vaticínio do tumulto à Noite –</p><p>Chegada do inverno aos lares</p><p>Fim de guerra em campos estrangeiros.</p><p>As bocas mordem colos e flancos desnudados:</p><p>À sombra mergulham faces convulsivas</p><p>Corpos se avizinham à vida fria dos valados</p><p>Trêmulas tíades presas ao peito de Dionisos trácio.</p><p>Sussurra a Noite e os risos de ébrios dançarinos</p><p>Mergulham no vórtice da festa consagrada.</p><p>E quando o Sol o ingênuo olhar acende</p><p>Um secreto murmúrio ata num só feixe</p><p>O louro trigo nascido das encostas.</p><p>(SILVA, Dora Ferreira da. Hídrias. São Paulo: Odysseus, 2004. pp. 42-43)</p><p>Considerando a leitura do poema e o uso dos recursos expressivos,</p><p>em Dionisos Dendrites</p><p>a) a aliteração no verso “Pés percutem a pedra enegrecida”</p><p>indica um som reproduzido como o dos tambores do verso</p><p>subsequente.</p><p>b) a gradação em ‘bocas’, ‘faces’ e ‘corpos’, nos três primeiros</p><p>versos da 3ª estrofe, aponta para a opulência do ritual.</p><p>c) a metonímia em “seu olhar verde penetra a Noite entre tochas</p><p>acesas” revela o embate estabelecido entre a vida e a morte.</p><p>d) a metáfora em ‘taças incendiadas’, no verso “o vinho espuma</p><p>nas taças incendiadas”, denota o sentimento de enfado dos</p><p>presentes em relação ao ritual.</p><p>07. (FUVEST) Desde pequeno, tive tendência para personificar</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO30</p><p>LITERATURA 05 FIGURAS DE LINGUAGEM II: FIGURAS DE CONSTRUÇÃO E DE HARMONIA</p><p>as coisas. Tia Tula, que achava que mormaço fazia mal, sempre</p><p>gritava: “Vem pra dentro, menino, olha o mormaço!” Mas eu ouvia o</p><p>mormaço com M maiúsculo.</p><p>Mormaço, para mim, era um velho que pegava crianças! Ia pra</p><p>dentro logo. E ainda hoje, quando leio que alguém se viu perseguido</p><p>pelo clamor público, vejo com estes olhos o Sr. Clamor Público,</p><p>magro, arquejante, de preto, brandindo um guarda-chuva, com</p><p>um gogó protuberante que se abaixa e levanta no excitamento</p><p>da perseguição. E já estava devidamente grandezinho, pois devia</p><p>contar uns trinta anos, quando me fui, com um grupo de colegas,</p><p>a ver o lançamento da pedra fundamental da ponte Uruguaiana</p><p>Libres, ocasião de grandes solenidades, com os presidentes</p><p>Justo e Getúlio, e gente muita, tanto assim que fomos alojados os</p><p>do meu grupo num casarão que creio fosse a Prefeitura, com os</p><p>demais jornalistas do Brasil e Argentina. Era como um alojamento</p><p>de quartel, com breve espaço entre as camas e todas as portas</p><p>e janelas abertas, tudo com os alegres incômodos e duvidosos</p><p>encantos de uma coletividade democrática.</p><p>Pois lá pelas tantas da noite, como eu pressentisse, em</p><p>meu entredormir, um vulto junto à minha cama, sentei-me</p><p>estremunhado* e olhei atônito para um tipo de chiru*, ali parado, de</p><p>bigodes caídos, pala pendente e chapéu descido sobre os olhos.</p><p>Diante da minha muda interrogação, ele resolveu explicar-se, com</p><p>a devida calma:</p><p>– Pois é! Não vê que eu sou o sereno...</p><p>(Mário Quintana, As cem melhores crônicas brasileiras.)</p><p>*Glossário:</p><p>estremunhado: mal acordado.</p><p>chiru: que ou aquele que tem pele morena, traços acaboclados (regionalismo: Sul do</p><p>Brasil).</p><p>Considerando que “silepse é a concordância que se faz não com a</p><p>forma gramatical das palavras, mas com seu sentido, com a ideia</p><p>que elas representam”, indique o fragmento em que essa figura de</p><p>linguagem se manifesta.</p><p>a) “olha o mormaço”.</p><p>b) “pois devia contar uns trinta anos”.</p><p>c) “fomos alojados os do meu grupo”.</p><p>d) “com os demais jornalistas do Brasil”.</p><p>e) “pala pendente e chapéu descido sobre os olhos”.</p><p>08. (UNESP)</p><p>Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes,</p><p>poeta e cidadão</p><p>A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.</p><p>Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.</p><p>De repente não tinha pai.</p><p>No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor</p><p>tua lembrança</p><p>Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância</p><p>Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino</p><p>Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna</p><p>Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta</p><p>De Augusto geralmente procrastinava a tarde.</p><p>Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho</p><p>Rangia nos trilhos a muitas praias de distância...</p><p>Dizíamos: “Ê-vem meu pai!”. Quando a curva</p><p>Se acendia de luzes semoventes*, ah, corríamos</p><p>Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes</p><p>Mas ser marraio** em teus braços, sentir por último</p><p>Os doces espinhos da tua barba.</p><p>Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e</p><p>paciência</p><p>Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura</p><p>De quem se deixou ser. Teus ombros possantes</p><p>Se curvavam como ao peso da enorme poesia</p><p>Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos</p><p>Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios</p><p>Para o cotidiano (e frequentemente o binóculo</p><p>Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras</p><p>Mirando o mar). Dize-me, meu pai</p><p>Que viste tantos anos através do teu óculo de alcance</p><p>Que nunca revelaste a ninguém?</p><p>Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta</p><p>exausto no último lance da maratona.</p><p>Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais</p><p>Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa</p><p>humilde</p><p>A um gesto do mar. A noite se fechava</p><p>Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.</p><p>Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. Deixavas-te olhando o mar</p><p>Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios</p><p>Buscavam ilhas, outras ilhas... — as imaculadas, inacessíveis</p><p>Ilhas do Tesouro. Querias. Querias um dia aportar</p><p>E trazer — depositar aos pés da amada as joias fulgurantes</p><p>Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles</p><p>Dos mais provectos***. Muitas vezes te vi, comandante</p><p>Comandar, batido de ventos, perdido na fosforência</p><p>De vastos e noturnos</p><p>oceanos</p><p>Sem jamais.</p><p>Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste</p><p>A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar</p><p>Em silêncio. Foste um pobre. Mendigavas nosso amor</p><p>Em silêncio. Foste um no lado esquerdo. Mas</p><p>Teu amor inventou. Financiaste uma lancha</p><p>Movida a água: foi reta para o fundo. Partiste um dia</p><p>Para um brasil além, garimpeiro sem medo e sem mácula.</p><p>Doze luas voltaste. Tua primogênita — diz-se —</p><p>Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas águas-</p><p>marinhas.</p><p>(Vinicius de Moraes. Antologia poética. 11 ed. Rio de Janeiro:</p><p>José Olympio Editora, 1974, p. 180-181.)</p><p>(*) Semovente: “Que ou o que anda ou se move por si próprio.”</p><p>(**) Marraio: “No gude e noutros jogos, palavra que dá, a quem primeiro a grita, o direito</p><p>de ser o último a jogar.”</p><p>(***) Provecto: “Que conhece muito um assunto ou uma ciência, experiente, versado,</p><p>mestre.”</p><p>(Dicionário Eletrônico Houaiss)</p><p>Marque a alternativa cujo verso contém um pleonasmo, ou seja,</p><p>uma redundância de termos com bom efeito estilístico.</p><p>a) De repente não tinha pai.</p><p>b) Rangia nos trilhos a muitas praias de distância...</p><p>c) Se curvavam como ao peso da enorme poesia</p><p>d) Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.</p><p>e) Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste</p><p>09. (UNESP) Leia o conto “A moça rica”, de Rubem Braga (1913-</p><p>1990), para responder à questão.</p><p>A madrugada era escura nas moitas de mangue, e eu avançava</p><p>no 1batelão velho; remava cansado, com um resto de sono. De</p><p>longe veio um 2rincho de cavalo; depois, numa choça de pescador,</p><p>junto do morro, tremulou a luz de uma lamparina.</p><p>Aquele rincho de cavalo me fez lembrar a moça que eu encontrara</p><p>galopando na praia. Ela era corada, forte. Viera do Rio, sabíamos</p><p>que era muito rica, filha de um irmão de um homem de nossa</p><p>terra. A princípio a olhei com espanto, quase desgosto: ela usava</p><p>calças compridas, fazia caçadas, dava tiros, saía de barco com os</p><p>pescadores. Mas na segunda noite, quando nos juntamos todos na</p><p>casa de Joaquim Pescador, ela cantou; tinha bebido cachaça, como</p><p>todos nós, e cantou primeiro uma coisa em inglês, depois o Luar do</p><p>sertão e uma canção antiga que dizia assim: “Esse alguém que logo</p><p>encanta deve ser alguma santa”. Era uma canção triste.</p><p>Cantando, ela parou de me assustar; cantando, ela deixou que</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>05 FIGURAS DE LINGUAGEM II: FIGURAS DE CONSTRUÇÃO E DE HARMONIA</p><p>31</p><p>LITERATURA</p><p>eu a adorasse com essa adoração súbita, mas tímida, esse fervor</p><p>confuso da adolescência – adoração sem esperança, ela devia ter</p><p>dois anos mais do que eu. E amaria o rapaz de suéter e sapato</p><p>de basquete, que costuma ir ao Rio, ou (murmurava-se) o homem</p><p>casado, que já tinha ido até à Europa e tinha um automóvel e uma</p><p>coleção de espingardas magníficas. Não a mim, com minha pobre</p><p>3flaubert, não a mim, de calça e camisa, descalço, não a mim, que</p><p>não sabia lidar nem com um motor de popa, apenas tocar um</p><p>batelão com meu remo.</p><p>Duas semanas depois que ela chegou é que a encontrei na praia</p><p>solitária; eu vinha a pé, ela veio galopando a cavalo; vi-a de longe, meu</p><p>coração bateu adivinhando quem poderia estar galopando sozinha</p><p>a cavalo, ao longo da praia, na manhã fria. Pensei que ela fosse</p><p>passar me dando apenas um adeus, esse “bom-dia” que no interior</p><p>a gente dá a quem encontra; mas parou, o animal resfolegando e ela</p><p>respirando forte, com os seios agitados dentro da blusa fina, branca.</p><p>São as duas imagens que se gravaram na minha memória, desse</p><p>encontro: a pele escura e suada do cavalo e a seda branca da blusa;</p><p>aquela dupla respiração animal no ar fino da manhã.</p><p>E saltou, me chamando pelo nome, conversou comigo. Séria,</p><p>como se eu fosse um rapaz mais velho do que ela, um homem</p><p>como os de sua roda, com calças de “palm-beach”, relógio de</p><p>pulso. Perguntou coisas sobre peixes; fiquei com vergonha de</p><p>não saber quase nada, não sabia os nomes dos peixes que ela</p><p>dizia, deviam ser peixes de outros lugares mais importantes, com</p><p>certeza mais bonitos. Perguntou se a gente comia aqueles cocos</p><p>dos coqueirinhos junto da praia – e falou de minha irmã, que</p><p>conhecera, quis saber se era verdade que eu nadara desde a ponta</p><p>do Boi até perto da lagoa.</p><p>De repente me fulminou: “Por que você não gosta de mim?</p><p>Você me trata sempre de um modo esquisito...” Respondi, estúpido,</p><p>com a voz rouca: “Eu não”.</p><p>Ela então riu, disse que eu confessara que não gostava mesmo</p><p>dela, e eu disse: “Não é isso.” Montou o cavalo, perguntou se eu</p><p>não queria ir na garupa. Inventei que precisava passar na casa</p><p>dos Lisboa. Não insistiu, me deu um adeus muito alegre; no dia</p><p>seguinte foi-se embora.</p><p>Agora eu estava ali remando no batelão, para ir no Severone</p><p>apanhar uns camarões vivos para isca; e o relincho distante de</p><p>um cavalo me fez lembrar a moça bonita e rica. Eu disse comigo</p><p>– rema, bobalhão! – e fui remando com força, sem ligar para os</p><p>respingos de água fria, cada vez com mais força, como se isto</p><p>adiantasse alguma coisa.</p><p>(Os melhores contos, 1997.)</p><p>1batelão: embarcação movida a remo.</p><p>2rincho: relincho.</p><p>3flaubert: um tipo de espingarda.</p><p>O pleonasmo (do grego pleonasmós, que quer dizer</p><p>abundância, excesso, amplificação) é uma repetição de unidades</p><p>linguísticas idênticas do ponto de vista semântico, o que implica</p><p>que a repetição é tautológica (redundante). No entanto, ela é uma</p><p>extensão do enunciado com vistas a intensificar o sentido.</p><p>(José Luiz Fiorin. Figuras de retórica, 2014. Adaptado.)</p><p>Verifica-se a ocorrência de pleonasmo em:</p><p>a) “fiquei com vergonha de não saber quase nada, não sabia os</p><p>nomes dos peixes que ela dizia” (5º parágrafo).</p><p>b) “eu avançava no batelão velho; remava cansado, com um resto</p><p>de sono” (1º parágrafo).</p><p>c) “ela deixou que eu a adorasse com essa adoração súbita, mas</p><p>tímida” (3º parágrafo).</p><p>d) “A princípio a olhei com espanto, quase desgosto” (2º</p><p>parágrafo).</p><p>e) “Pensei que ela fosse passar me dando apenas um adeus” (4º</p><p>parágrafo).</p><p>10. (UERJ)</p><p>A educação pela seda</p><p>Vestidos muito justos são vulgares. Revelar formas é vulgar.</p><p>Toda revelação é de uma vulgaridade abominável.</p><p>Os conceitos a vestiram como uma segunda pele, e pode-se</p><p>adivinhar a norma que lhe rege a vida ao primeiro olhar.</p><p>(Rosa Amanda Strausz Mínimo múltiplo comum: contos.</p><p>Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.)</p><p>Em “Os conceitos a vestiram como uma segunda pele”, o vocábulo</p><p>a é comumente utilizado para substituir termos já enunciados.</p><p>No texto, entretanto, ele tem um uso incomum, já que permite</p><p>subentender um termo não enunciado.</p><p>Esse uso indica um recurso assim denominado:</p><p>a) elipse</p><p>b) catáfora</p><p>c) designação</p><p>d) modalização</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. C</p><p>02. D</p><p>03. A</p><p>04. D</p><p>05. B</p><p>06. A</p><p>07. C</p><p>08. E</p><p>09. C</p><p>10. A</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO32</p><p>LITERATURA 05 FIGURAS DE LINGUAGEM II: FIGURAS DE CONSTRUÇÃO E DE HARMONIA</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 35SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>06 ARTE MEDIEVAL:</p><p>TROVADORISMO E HUMANISMO</p><p>CONTEXTO HISTÓRICO</p><p>A Idade Média estendeu-se por mil anos, desde o século V ao</p><p>século XV. Marcada por um conjunto relevante de modificações</p><p>nas estruturas e relações sociais, a Idade Média muitas vezes é</p><p>vista como um período de trevas e de pouco desenvolvimento, mas</p><p>não, essa não é uma realidade no campo das artes.</p><p>A estruturação dos reinos, cidades ou outros ajuntamentos</p><p>de pessoas por meio do senhoralismo e do feudalismo forma uma</p><p>sociedade hierarquizada, da mesma forma que acaba por favorecer o</p><p>desenvolvimento do comércio.</p><p>No oriente, o Império Bizantino, parte do antigo Império Romano,</p><p>sobrevive e acaba por tornar-se uma grande potência, influenciando</p><p>política e culturalmente a região. Por outro lado, os reinos e cidades</p><p>que se formaram a partir do declínio do Império Romano do Ocidente</p><p>incorporaram grande parte de suas instituições.</p><p>O fenômeno do cristianismo é pedra angular para a</p><p>compreensão da visão artística da época, pois sua disseminação</p><p>e influência junto às esferas políticas concederam à Igreja Católica</p><p>Apostólica Romana um poder bastante</p><p>grande, tanto no aspecto</p><p>financeiro quanto no aspecto político-social. A proliferação de</p><p>templos e igrejas, faziam da Igreja Católica uma das principais</p><p>patrocinadoras da arte do período.</p><p>ARTE BIZANTINA E ROMÂNICA</p><p>A arte bizantina caracteriza-se por mosaicos de temática</p><p>religiosa, retratando figuras de forma bidimensional, com figuras</p><p>representadas frontalmente e verticalizadas de forma a sugerir</p><p>uma visão espiritual; a perspectiva e o volume são desconhecidos</p><p>da produção das imagens, representadas normalmente sobre</p><p>fundos monocromáticos dourados; a predileção por essa cor está</p><p>ligada à associal com o ouro.</p><p>Mosaico bizantino em homenagem a Constantino</p><p>Na arquitetura, apesar de manter os cânones romanos, como</p><p>arcos e cúpulas, os bizantinos apresentaram relevantes inovações.</p><p>A concepção das igrejas por meio de bases de diferentes formas</p><p>integradas a cúpulas permitia a construção de edifícios cada vez</p><p>maiores, que eram ricamente decorados. Um estilo que influenciou</p><p>a concepção de inúmeros outros tempos pelo mundo. É notável</p><p>também a influência oriental nas construções, como por exemplo</p><p>a utilização de minaretes, torres originalmente de mesquitas</p><p>islâmicas.</p><p>Basílica de Santa Sofia, Istambul</p><p>No ocidente, a arte recebe a grande influência da herança</p><p>romana, em especial nas construções, fundamentalmente igrejas,</p><p>caracterizada por arcos de volta perfeita, abóbodas e pouca entrada</p><p>de luz, com poucas e pequenas janelas. Da simplicidade a projetos</p><p>elaborados, esses edifícios mantinham por muitas vezes colunas</p><p>clássicas e apresentavam a grandiosidade que caracterizou a</p><p>expansão da fé católica no período.</p><p>Sé de Lisboa, Portugal</p><p>Torre e igreja de Pisa, Itália</p><p>Em relação à pintura, observa-se a mesma tendência à temática</p><p>religiosa em obras que, sobretudo, ornamentavam as igrejas. Nas</p><p>representações, notam-se a falta de proporcionalidade anatômica,</p><p>os fundos monocromáticos ou formado por cores sólidas e a</p><p>bidimensionalidade. As figuras humanas são apresentadas de</p><p>forma alongada e desarticulada, caracterísitica da arte do período.</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO36</p><p>LITERATURA 06 ARTE MEDIEVAL: TROVADORISMO E HUMANISMO</p><p>Pintura de Cristo em igreja</p><p>A partir do século XII, um conjunto de modificações nos</p><p>padrões da arte apresenta uma nova forma de representar o</p><p>mundo, era a arte gótica. Na pintura, representou o início da</p><p>preocupação com a busca pela profundidade com a reprodução</p><p>de elementos arquitetônicos e paisagísticos para a composição</p><p>de cenários e ambientes das obras. O período mostra também o</p><p>predomínio das linhas sobre as cores e a atenção aos detalhes de</p><p>expressividade gestual e facial, ainda que as figuras continuem</p><p>alargadas e curvilíneas.</p><p>Na arquitetura, os edifícios ganham altura, com uma tendência</p><p>acentuada ao verticalismo, especialmente pelas construções com</p><p>telhados piramidais. Decorações mais complexas com abundante</p><p>uso de janelas e vitrais para a valorização da luz e das cores são</p><p>típicas do período, que apresenta também o famoso arco em forma</p><p>de ogiva, inconfundível traço da arte gótica.</p><p>Catedral de Barcelona, Espanha</p><p>TROVADORISMO</p><p>Na literatura, surge o Trovadorismo, primeira manifestação</p><p>literária em língua portuguesa, identificada por suas</p><p>cantigas, expressões poéticas que eram apresentadas com</p><p>acompanhamento musical, típicas expressões do gênero lírico. Os</p><p>nobres que compunham as poesias e as melodias chamavam-se</p><p>trovadores e rejeitavam a utilização deste título por aqueles que</p><p>não tivessem sua classe social. Aos artistas de classe “inferior”</p><p>(que se autointitulavam trovadores também) dava-se o nome de</p><p>jograis ou menestréis.</p><p>As letras retratavam o pensamento teocêntrico da época e</p><p>transferiam as relações sociais feudais para as relações pessoais,</p><p>criando a vassalagem amorosa, na qual o homem corteja a dama</p><p>em um amor impossível, idealizado. As cantigas, de acordo com</p><p>suas características, poderiam classificar-se como cantigas de</p><p>amor, de amigo ou escárnio e maldizer.</p><p>CANTIGAS DE AMOR</p><p>Nessas cantigas, há um eu lírico masculino representando</p><p>o cavalheiro em plena vassalagem amorosa: a idealização da</p><p>mulher amada, sempre distante e inatingível. É um amor platônico,</p><p>existente apenas em sonho e cabe apenas ao cavalheiro colocar-</p><p>se a serviço da dama, pois pertencem a níveis sociais distintos. Daí</p><p>surge o acentuado sofrimento amoroso, cujo lirismo representa-se</p><p>na vitimização do eu-lírico, chamada “coita d’amor”</p><p>Ai eu coitad! E por que vi</p><p>a dona que por meu mal vi!</p><p>Ca Deus lo sabe, poila vi,</p><p>nunca já mais prazer ar vi;</p><p>ca de quantas donas eu vi,</p><p>tam bõa dona nunca vi.</p><p>Tam comprida de todo bem,</p><p>per boa fé, esto sei bem,</p><p>se Nostro Senhor me dê bem</p><p>dela! Que eu quero gram bem,</p><p>per boa fé, nom por meu bem!</p><p>Ca pero que lh’eu quero bem,</p><p>non sabe ca lhe quero bem.</p><p>Pero Garcia Burgalês</p><p>CANTIGAS DE AMIGO</p><p>As cantigas de amigo têm uma característica peculiar: seu eu</p><p>lírico é feminino. Não que isso deva ser confundido com a autoria</p><p>de mulheres; eram os homens que escreviam, mas usando a voz</p><p>femina na construção poética.</p><p>Nessas cantigas a mulher sofre por se ver separada de seu</p><p>amor, chamado “amigo”, representado normalmente por um</p><p>cavaleiro que saiu às batalhas. Assim, a temática é a angústia e</p><p>a preocupação da mulher com a vida de seu amado, a dúvida se</p><p>ele voltará um dia, tanto por conta dos perigos das guerras, tanto</p><p>por conta do medo de que ela seja trocada por outra. É, de fato,</p><p>uma confidência feminina que, por muitas vezes, utiliza-se de</p><p>personagens auxiliares como confidentes, como a mãe, a irmã, a</p><p>aia ou mesmo elementos da natureza, formando uma estrutura</p><p>poética que aproxima-se de um diálogo.</p><p>Non poss’ eu, madre, ir a Santa Cecília</p><p>ca me guardades a noit’ e o dia</p><p>do meu amigo</p><p>Nom poss’ eu, madre, aver gasalhado,</p><p>ca me non leixades fazer mandado</p><p>do meu amigo.</p><p>Ca me guardades a noit’ e o dia;</p><p>morrer-vos-ei con aquesta perfia</p><p>por meu amigo.</p><p>Ca me non leixades fazer mandado,</p><p>morrer-vos ei con aqueste cuidado</p><p>por meu amigo.</p><p>Morrer-vos ei con aquesta perfia,</p><p>e, se me leixassedes ir, guarria</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>06 ARTE MEDIEVAL: TROVADORISMO E HUMANISMO</p><p>37</p><p>LITERATURA</p><p>con meu amigo.</p><p>Morrer-vos ei con aqueste cuidado,</p><p>e, se quiserdes, irei mui de grado</p><p>con meu amigo.</p><p>Martim de Guizo</p><p>gasalhado – sossego</p><p>mandado – vontades</p><p>perfia – traição</p><p>guarria – viveria bem</p><p>CANTIGAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER</p><p>Essas cantigas apresentavam sátiras políticas, sociais e</p><p>maledicências pessoais. Nas cantigas de escárnio, havia um sem-</p><p>número de trocadilhos, ambiguidades e indiretas, pois não se revelava</p><p>o nome do alvo da crítica, estimulando a imaginação de todos, por</p><p>meio do uso de uma linguagem irônica e de muitos recursos retóricos.</p><p>As cantigas de maldizer eram sempre dirigidas a alguém de forma</p><p>direta, a quem se critica os costumes ou a aparência, de forma direta,</p><p>sem rodeios, com, muitas vezes, agressões verbais e utilização de</p><p>palavras chulas e xingamentos ao “maldito”.</p><p>Ai dona fea, fostes-vos queixar</p><p>que vos nunca louv’en[o] meu cantar;</p><p>mais ora quero fazer um cantar</p><p>em que vos loarei todavia;</p><p>e vedes como vos quero loar:</p><p>dona fea, velha e sandia!</p><p>João Garcia de Guilhade</p><p>Loar - louvar, elogiar Sandia - louca</p><p>HUMANISMO</p><p>No final do século XIV, tem início o que muitos costumam</p><p>chamar de “trecento”, o primeiro momento do Renascimento. O</p><p>que se vê, de fato, é o surgimento de um movimento intelectual</p><p>que inicia a transição do pensamento medieval para uma forma</p><p>diferente de enxergar o mundo.</p><p>Inspirando-se nas civilizações da antiguidade, a arte e a filosofia</p><p>voltam-se à humanidade, em um pensamento antropocêntrico,</p><p>valorizando a razão, a busca de maiores conhecimentos sobre o</p><p>homem e a natureza, elaborando um pensamento crítico sobre</p><p>o mundo a sua volta. É a tentativa de desenvolver a plenitude do</p><p>potencial humano.</p><p>Na literatura, há abundância de prosas e poesias palacianas,</p><p>dirigidas à nobreza. É neste período que a poesia separa-se da</p><p>música e, talvez por isso mesmo,</p><p>apresente certo “empobrecimento”</p><p>poético, devido a menores requintes e exigências. Os temas</p><p>relacionam-se diretamente a assuntos da vida palaciana e</p><p>apresentam a visão de mundo da nobreza e da fidalguia; não</p><p>era de se estranhar, visto que eram esses nobres e fidalgos que</p><p>as escreviam. O tema do amor ganha maior sensualidade e a</p><p>figura feminina já não é vista de forma tão idealizada quanto no</p><p>trovadorismo, uma das influências do antropocentrismo que surgia.</p><p>PROSA MEDIEVAL</p><p>A prosa do período é marcada pelas narrativas simples, de</p><p>heróis cavaleiros e damas apaixonadas. Eram as novelas de</p><p>cavalaria, que contavam as aventuras e os feitos desses cavaleiros,</p><p>além de seus amores. É uma literatura ingênua e simples, mas de</p><p>imenso sucesso e que venceu os tempos, tornando-se, por muitas</p><p>vezes, fonte de inspiração para muitas histórias da atualidade.</p><p>Formada por vários “ciclos”, que apresentavam o herói ou sua</p><p>origem (o ciclo clássico apresentava heróis da antiguidade; o ciclo</p><p>bretão, Rei Artur e seus cavaleiros etc), as novelas ou romances</p><p>de cavalaria foram bastante populares em Portugal, das quais se</p><p>destacam Tristão e Isolda, Amadis de Gaula, História de Merlim e a</p><p>Demanda do Santo Graal.</p><p>Outro gênero de destaque na prosa são as crônicas históricas,</p><p>que iniciaram os estudos historiográficos portugueses, relatando,</p><p>especialmente, a vida dos reis de Portugal. Merece destaque o escritor</p><p>Fernão Lopes, o principal representante deste tipo de crônica.</p><p>TEATRO HUMANISTA</p><p>Entretanto, é no gênero dramático que traz o principal nome</p><p>da arte portuguesa do período: Gil Vicente. Dramaturgo versátil e</p><p>talentoso, criou uma linguagem própria no teatro, fazendo obras de</p><p>caráter popular, com objetivo de criticar a sociedade ao mesmo tempo</p><p>em que levava mensagens moralizadoras. Assim, suas encenações</p><p>retratavam os costumes e o comportamento da sociedade em sua</p><p>época, além de mostrar os tipos que a compunham.</p><p>Dotado de elevado grau de crítica social, seus trabalhos, de</p><p>caráter universal, traziam muitas vezes caricaturas de personagens</p><p>e alegorias de forma quase didática para ensinar virtudes e expor</p><p>mazelas no comportamento das pessoas. Usando de temas</p><p>pastoris, profanos e religiosos, sempre se atendo ao cotidiano,</p><p>apresentava e criticava com humor e comicidade as condutas</p><p>de diversos integrantes da sociedade, aflorando ao final o caráter</p><p>moralizante que caracterizava sua produção.</p><p>Escreveu autos e farsas. Nos autos, peças curtas normalmente</p><p>compostas por um único ato, Gil Vicente abordava temáticas</p><p>religiosas com linguagem simples e direta, cujo elemento</p><p>preponderante era a enunciação de uma moral. Entre sua produção</p><p>elevada, destacam-se o Auto da Feira, o Auto da Alma, o Auto da</p><p>Barca do Inferno, o Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca</p><p>da Glória, entre tantos outros.</p><p>As farsas, obras igualmente curtas, porém com caráter</p><p>caricatural acentuado, voltavam-se às encenações de caráter</p><p>popular, com temas cotidianos, de caráter cômico. Quem Tem</p><p>Farelos?, O Velho da Horta e a Farsa de Inês Pereira figuram entre</p><p>as suas principais obras neste estilo.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (FUVEST) Interpretando historicamente a relação de vassalagem</p><p>entre homem amante/mulher amada, ou mulher amante/homem</p><p>amado, pode-se afirmar que:</p><p>a) o Trovadorismo corresponde ao Renascimento.</p><p>b) o Trovadorismo corresponde ao movimento humanista.</p><p>c) o Trovadorismo corresponde ao Feudalismo.</p><p>d) o Trovadorismo e o Medievalismo só poderiam ser provençais.</p><p>e) tanto o Trovadorismo como o Humanismo são expressões da</p><p>decadência medieval.</p><p>02. (FUVEST) O Trovadorismo, quanto ao tempo em que se instala:</p><p>a) tem concepções clássicas do fazer poético.</p><p>b) é rígido quanto ao uso da linguagem que, geralmente, é erudita.</p><p>c) estabeleceu-se num longo período que dura 10 séculos.</p><p>d) tinha como concepção poética a epopeia, a louvação dos heróis.</p><p>e) reflete as relações de vassalagem nas cantigas de amor.</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO38</p><p>LITERATURA 06 ARTE MEDIEVAL: TROVADORISMO E HUMANISMO</p><p>03.(UNIFESP) Senhor feudal</p><p>Se Pedro Segundo Vier aqui Com história Eu boto ele na cadeia.</p><p>Oswald de Andrade O título do poema de Oswald remete o leitor à</p><p>Idade Média. Nele, assim como nas cantigas de amor, a ideia de poder</p><p>retoma o conceito de</p><p>a) fé religiosa.</p><p>b) relação de vassalagem.</p><p>c) idealização do amor.</p><p>d) saudade de um ente distante.</p><p>e) igualdade entre as pessoas.</p><p>04. (FUVEST) Sobre o Trovadorismo em Portugal, é correto afirmar</p><p>que:</p><p>a) sua produção literária está escrita em galego ou galaico-</p><p>português e divide-se em: poesia(cantigas) e prosa (novelas de</p><p>cavalaria).</p><p>b) utilizou largamente o verso decassílabo porque sua influência</p><p>é clássica.</p><p>c) a produção poética daquela época pode ser dividida em lírico-</p><p>amorosa e prosa doutrinária.</p><p>d) as cantigas de amigo têm influência provençal.</p><p>e) a prosa trovadoresca tinha claro objetivo de divertir a nobreza,</p><p>por isso têm cunho satírico.</p><p>05. (MACKENZIE) Assinale a alternativa INCORRETA a respeito das</p><p>cantigas de amor.</p><p>a) O ambiente é rural ou familiar.</p><p>b) O trovador assume o eu-lírico masculino: é o homem quem</p><p>fala.</p><p>c) Têm origem provençal.</p><p>d) Expressam a “coita” amorosa do trovador, por amar uma dama</p><p>inacessível.</p><p>e) A mulher é um ser superior, normalmente pertencente a uma</p><p>categoria social mais elevada que a do trovador.</p><p>06. (UFPA) Amor, desamor e ciúme; frequente inspiração na vida</p><p>popular, bem como a exploração do eu feminino indicam cantiga de:</p><p>a) amigo</p><p>b) amor e amigo</p><p>c) amor</p><p>d) escárnio</p><p>e) maldizer</p><p>07. (MACKENZIE) Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo! E ai</p><p>Deus, se verrá cedo! Ondas do mar levado, se vistes meu amado! E ai</p><p>Deus, se verrá cedo! Martim Codax verrá = virá levado = agitado</p><p>Assinale a afirmativa correta sobre o texto</p><p>a) Nessa cantiga de amigo, o eu lírico masculino manifesta a</p><p>Deus seu sofrimento amoroso.</p><p>b) Nessa cantiga de amor, o eu lírico feminino dirige-se a Deus</p><p>para lamentar a morte do ser amado.</p><p>c) Nessa cantiga de amigo, o eu lírico masculino manifesta às</p><p>ondas do mar sua angústia pela perda do amigo em trágico</p><p>naufrágio.</p><p>d) Nessa cantiga de amor, o eu lírico masculino dirige-se às ondas</p><p>do mar para expressar sua solidão.</p><p>e) Nessa cantiga de amigo, o eu lírico feminino dirige-se às ondas do</p><p>mar para expressar sua ansiedade com relação à volta do amado.</p><p>08. (VUNESP) Leia o texto de Gil Vicente. DIABO — Essa dama, é ela</p><p>vossa? FRADE — Por minha a tenho eu e sempre a tive de meu. DIABO</p><p>— Fizeste bem, que é fermosa! E não vos punham lá grosa nesse</p><p>convento santo? FRADE — E eles fazem outro tanto! DIABO — Que</p><p>cousa tão preciosa! No trecho da peça de Gil Vicente, fica evidente</p><p>uma</p><p>a) visão bastante crítica dos hábitos da sociedade da época. Está</p><p>clara a censura à hipocrisia do religioso, que se aparta daquilo</p><p>que prega.</p><p>b) concepção de sociedade decadente, mas que ainda guarda</p><p>alguns valores essenciais, como é o caso da relação entre o</p><p>frade e o catolicismo.</p><p>c) postura de repúdio à imoralidade da mulher que se põe a</p><p>tentar o frade, que a ridiculariza em função de sua fé católica</p><p>inabalável.</p><p>d) visão moralista da sociedade. Para ele, os valores deveriam ser</p><p>resgatados e a presença do frade é um indicativo de apego à</p><p>fé cristã.</p><p>e) crítica ao frade religioso que optou em vida por ter uma mulher,</p><p>contrariando a fé cristã, o que, como ele afirma, não acontecia</p><p>com os outros frades do convento.</p><p>09. (MACKENZIE)</p><p>“Ai dona fea! foste-vos queixar</p><p>porque vos nunca louv’em meu trobar</p><p>mais ora quero fazer um cantar</p><p>em que vos loarei toda via</p><p>e vedes como vos quero loar:</p><p>dona fea, velha e sandia!”</p><p>Assinale a informação correta a respeito do trecho de João Garcia de</p><p>Guilhade:</p><p>a) é cantiga satírica</p><p>b) foi o primeiro documento escrito em língua portuguesa (1189)</p><p>c) trata-se de cantiga de amigo</p><p>d) foi escrita durante o Humanismo (1418-1527)</p><p>e) faz parte do Auto da Feira</p><p>10. (PUC) As narrativas que envolvem as lutas dos cruzados envolvem</p><p>sempre um herói</p><p>muito engajado na luta pela cristandade, podendo</p><p>ser a um só tempo frágil e forte, decidido e terno, furioso e cortes. No</p><p>entanto, com relação a mulher amada, esse herói é sempre:</p><p>a) pouco dedicado</p><p>b) infiel</p><p>c) devotado</p><p>d) indelicado</p><p>e) ausente e belicoso</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. C</p><p>02. E</p><p>03. B</p><p>04. A</p><p>05. A</p><p>06. A</p><p>07. E</p><p>08. A</p><p>09. A</p><p>10. C</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 37SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>CLASSICISMO: RENASCIMENTO07</p><p>MOMENTO HISTÓRICO</p><p>O final da Idade Média assiste à decadência do feudalismo,</p><p>com o fortalecimento do comércio, ascensão da classe burguesa</p><p>e a própria formação do capitalismo. O mercantilismo abre as</p><p>portas para uma visão mais antropocêntrica e liberal. A Igreja</p><p>acaba por sofrer os reflexos dessa crise, levando ao rompimento</p><p>das forças burguesas com o medievalismo católico, culminando no</p><p>movimento da Reforma Protestante.</p><p>Desde meados do século XIV, em especial na Itália, havia</p><p>um crescente afastamento de valores góticos e uma crescente</p><p>humanização do pensamento, resultando em avanços em ideias</p><p>que iam da economia à organização política, passando por</p><p>descobertas científicas e, evidentemente, as artes.</p><p>A partir do século XV, as ideias florescidas na região da</p><p>Toscana italiana começaram a expandir-se para outras regiões,</p><p>em plena conjunção com o aparecimento do humanismo filosófico.</p><p>Intensificam-se, portanto, estudos acerca da realidade e da própria</p><p>representação artística. Entretanto, é no século XVI em que se dá</p><p>um grande salto das técnicas e dos conhecimentos em diversas</p><p>áreas do saber humano. Era a renascença de valores clássicos</p><p>acompanhada de inovações artísticas e científicas jamais antes</p><p>vistas na história da humanidade.</p><p>O desenvolvimento de novos conhecimentos tanto artísticos</p><p>quanto científicos leva a inúmeras descobertas e a criações</p><p>tecnológicas, como a imprensa. É neste século que, munidos</p><p>pelo saber e empurrados pelos ideais mercantilistas, os europeus</p><p>lançam-se ao mar e iniciam a era das navegações que culminou</p><p>com o achamento das Américas, incluindo-se aí o Brasil.</p><p>ARTE RENASCENTISTA</p><p>A arte renascentista revigora os valores e ideais da antiguidade</p><p>clássica, em uma busca incessante pela representação formal,</p><p>imitativa e de tom mais realista possível. O racionalismo é a principal</p><p>característica do fazer artístico, com o desenvolvimento de cálculos</p><p>matemáticos para entendimento das representações, bem como de</p><p>estudos aprofundados em várias áreas, significando o surgimento de</p><p>um sem-número de técnicas de pintura e escultura que elevaram o</p><p>conhecimento e a realização artísticas a níveis jamais antes vistos.</p><p>Em consonância com os valores clássicos, as obras buscam</p><p>o equilíbrio e a simetria da representação e apresenta a principal</p><p>inovação em termos de artes visuais: a perspectiva. O domínio</p><p>desta técnica permitiu representações cada vez mais realistas,</p><p>impressionando pela distribuição de luzes e sombras.</p><p>O nascimento de Vênus, Sandro Boticelli, 1483</p><p>Ponto de fuga e linhas de perspectiva em A última ceia, de</p><p>Leonardo da Vinci</p><p>A temática renascentista ultrapassa os cânones cristãos,</p><p>apesar de muitas obras retratarem histórias religiosas sob o ponto</p><p>de vista católico, até por terem sido contratadas pela Igreja. É</p><p>comum a representação de alegorias e de divindades mitológicas,</p><p>como uma espécie de “tributo” temático aos valores da antiguidade.</p><p>A arquitetura renascentista preservou valores clássicos, suas</p><p>ordens e proporções. Catedrais e basílicas foram erguidas como</p><p>forma de demonstração de poder da Igreja Católica. A grandiosidade</p><p>das construções era complementada por suas formas equilibradas</p><p>e simétricas, gerando um resultado que impressiona os visitantes</p><p>até os dias de hoje.</p><p>Um bom exemplo é a Basílica de São Pedro, construída com o</p><p>financiamento da concessão de indulgências com a finalidade de</p><p>ser o principal templo do catolicismo. Na imagem a seguir, podem-</p><p>se perceber vários elementos da arquitetura clássica revisitada pelo</p><p>Renascimento, como a cúpula em abóboda, o frontão triangular, as</p><p>colunas de ordem clássica, os arcos de volta perfeita dos portais,</p><p>além da distribuição equilibrada e simétrica dos elementos.</p><p>Basílica de São Pedro, Vaticano</p><p>CLASSICISMO PORTUGUÊS</p><p>Pode-se dizer que o Classicismo corresponde à fase literária</p><p>do Renascimento. Desde o período humanista, há a tendência de</p><p>estabelecer-se algumas obras dentro dos limites do Renascimento.</p><p>Esse é o caso, por exemplo de Dante Alighieri e sua Divina Comédia;</p><p>Francesco Petrarca, poeta italiano inventor do soneto e Giovanni</p><p>Boccacio com seu clássico Decamerão. O período estende-se,</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO38</p><p>LITERATURA 07 CLASSICISMO: RENASCIMENTO</p><p>portanto, ao longo de vários séculos e abarca inúmeros gênios</p><p>da humanidade como William Shakespeare, François Rabelais e</p><p>Miguel de Cervantes.</p><p>Em Portugal, o movimento tem início em 1527 pelas mãos</p><p>do poeta Francisco Sá de Miranda. Ao retornar de uma viagem à</p><p>Itália, o poeta torna-se o grande renovador da arte literária lusitana</p><p>ao trazer a chamada “nova e doce forma poética” para a língua</p><p>portuguesa. Tratava-se do formato italiano de soneto, com dois</p><p>quartetos e dois tercetos, geralmente composto em decassílabos,</p><p>formato que se tornou o mais popular na língua portuguesa.</p><p>Entretanto, é com Luís Vaz de Camões que a literatura do período</p><p>chega ao ápice. O escritor, expoente máximo da poesia lusitana, apresenta-</p><p>se versátil e destaca-se tanto na produção de poesias líricas quanto na</p><p>construção da maior epopeia em língua portuguesa, Os Lusíadas, um</p><p>poema épico em que se narra a história de Portugal desde sua fundação</p><p>mítica e em que se exalta o povo português, celebrando-se os grandes</p><p>feitos da navegação e os heróis guerreiros da nação lusitana.</p><p>CANTO I</p><p>1.</p><p>As armas e os barões assinalados,</p><p>Que da ocidental praia Lusitana,</p><p>Por mares nunca de antes navegados,</p><p>Passaram ainda além da Taprobana,</p><p>Em perigos e guerras esforçados,</p><p>Mais do que prometia a força humana,</p><p>E entre gente remota edificaram</p><p>Novo Reino, que tanto sublimaram;</p><p>Camões, Os Lusíadas</p><p>Em sua produção lírica, Camões utiliza-se tanto da chamada</p><p>“medida velha” (redondilhas) quanto da “medida nova” (decassílabos)</p><p>com extrema habilidade. Sua temática apresenta certo desconcerto</p><p>com o mundo e uma dualidade que se dá entre o amor material e</p><p>aquele idealizado. Entretanto, todas as antíteses e paradoxos são</p><p>construídos de forma racional e passadas com uma mistura de</p><p>lirismo e uma análise intelectual do sentimento amoroso.</p><p>Soneto</p><p>Amor é fogo que arde sem se ver;</p><p>É ferida que dói, e não se sente;</p><p>É um contentamento descontente;</p><p>É dor que desatina sem doer.</p><p>É um não querer mais que bem querer;</p><p>É um andar solitário entre a gente;</p><p>É nunca contentar-se e contente;</p><p>É um cuidar que ganha em se perder;</p><p>É querer estar preso por vontade;</p><p>É servir a quem vence, o vencedor;</p><p>É ter com quem nos mata, lealdade.</p><p>Mas como causar pode seu favor</p><p>Nos corações humanos amizade,</p><p>Se tão contrário a si é o mesmo Amor?</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (UECE) Atente ao seguinte excerto:</p><p>“A impotência do homem diante do destino, absurdo deste</p><p>último, é também o que afirmam frequentemente os personagens</p><p>do teatro inglês no fim da Renascença. Ao fazê-lo, eles não</p><p>exprimem necessariamente a opinião dos próprios autores. Mas</p><p>eles dão testemunho – o que para nós importa aqui – de um</p><p>sentimento amplamente difundido na cultura dirigente”.</p><p>DELUMEAU, J. O pecado e o medo. Bauru: EDUSC, 2003, p.317.</p><p>O famoso autor do teatro inglês, que compôs sua obra no fim da</p><p>fase conhecida como Renascimento foi</p><p>a) Nicolau Maquiavel.</p><p>b) William Shakespeare.</p><p>c) Lord Byron.</p><p>d) Edgar Allan Poe.</p><p>02. (UERN) Ao longo dos séculos XV e XVI, muitas sociedades da</p><p>Europa Ocidental passaram por um processo de renovação da</p><p>cultura, que ficou conhecido como Renascimento. Foram tempos</p><p>de inquietação intelectual, agitados por múltiplos questionamentos.</p><p>A principal forma de manifestação do Renascimento foi a arte.</p><p>Identifique a seguir uma obra do movimento artístico renascentista.</p><p>a)</p><p>b)</p><p>c)</p><p>d)</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>07 CLASSICISMO: RENASCIMENTO</p><p>39</p><p>LITERATURA</p><p>03. (UPE-SSA 1) Observe o quadro a seguir:</p><p>Ele se propõe a retratar realisticamente uma mulher no Brasil</p><p>Holandês, território ocupado pelos holandeses entre 1630 e 1654.</p><p>Que elemento(s) pode(m) ser apontado(s) como não pertencente(s)</p><p>a esse contexto histórico?</p><p>a) A fauna, representada pelos preás.</p><p>b) A flora, representada pelo cajueiro.</p><p>c) A paisagem ao fundo.</p><p>d) A pose e o estilo da toga usada pela mulher.</p><p>e) A abundância de flores.</p><p>04. (ESPM)</p><p>As telas apresentadas, do pintor alemão Hans Holbein, são:</p><p>a) exemplares da pintura românica e expressam estilização e</p><p>severidade, grande esquematismo e distância da realidade</p><p>natural;</p><p>b) exemplares da pintura gótica e se caracterizam pelo</p><p>naturalismo, dramatismo na representação da figura humana;</p><p>c) obras do estilo barroco de pintura em que sobressai o contraste</p><p>do claro-escuro como recurso que intensifica a noção de</p><p>profundidade;</p><p>d) trabalhos de um dos mais famosos pintores do Renascimento,</p><p>que retratou pensadores e políticos europeus de sua época;</p><p>e) trabalhos do Neoclassicismo em que a temática política e</p><p>historicista foram marcantes, bem como a naturalidade na</p><p>representação.</p><p>05. (UERN) Os gêneros literários são empregados com finalidade</p><p>estética. Leia os textos a seguir.</p><p>Busque Amor novas artes, novo engenho,</p><p>Para matar-me, e novas esquivanças;</p><p>Que não pode tirar-me as esperanças,</p><p>Que mal me tirará o que eu não tenho.</p><p>(Camões, L. V. de. Sonetos. Lisboa: Livraria Clássica Editora. 1961. Fragmento.)</p><p>Porém já cinco sóis eram passados</p><p>Que dali nos partíramos, cortando</p><p>Os mares nunca doutrem navegados,</p><p>Prosperamente os ventos assoprando,</p><p>Quando uma noite, estando descuidados</p><p>Na cortadora proa vigiando,</p><p>Uma nuvem, que os ares escurece,</p><p>Sobre nossas cabeças aparece.</p><p>(Camões, L. V. Os Lusíadas. Abril Cultural, 1979. São Paulo. Fragmento.)</p><p>Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, a</p><p>classificação dos textos.</p><p>a) Épico e lírico.</p><p>b) Lírico e épico.</p><p>c) Lírico e dramático.</p><p>d) Dramático e épico.</p><p>06. (IFSP) São características das obras do Classicismo:</p><p>a) o individualismo, a subjetividade, a idealização, o sentimento</p><p>exacerbado.</p><p>b) o egocentrismo, a interação da natureza com o eu, as formas</p><p>perfeitas.</p><p>c) o contraste entre o grotesco e o sublime, a valorização da</p><p>natureza, o escapismo.</p><p>d) a observação da realidade, a valorização do eu, a perfeição da</p><p>natureza.</p><p>e) a retomada da mitologia pagã, a pureza das formas, a busca da</p><p>perfeição estética.</p><p>TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:</p><p>[...] o professor e escritor português Helder Macedo, que, no ensaio</p><p>Camões e a viagem iniciática, irá contestar a teoria da castidade do</p><p>poeta Camões, argumentando que o autor Luís de Camões, à frente</p><p>do seu tempo, teria, na verdade, procurado e desenvolvido uma nova</p><p>filosofia na qual os valores até então inconciliáveis do homem (o corpo</p><p>e a alma) pudessem, na sua poesia, finalmente se combinar.</p><p>Ora, Camões estava, sim, inserido numa Europa quinhentista,</p><p>que ainda apresentava como grandes ícones poéticos os</p><p>renascentistas italianos Dante e Petrarca, que, como dissemos,</p><p>eram defensores do amor não carnal e em cujos versos a figura</p><p>feminina era via de regra vista como símbolo de pureza. Entretanto,</p><p>se estes dois poetas aprovisionam o seu fazer poético de um</p><p>caráter platônico indubitável (e não o fazem apenas na arte, mas</p><p>também na vida, haja vista as biográficas paixões inalcançáveis</p><p>que estes nutriam pelas mulheres que se tornariam as suas</p><p>respectivas musas poéticas: Beatriz e Laura), a mesma certeza</p><p>não se pode ter em relação ao poeta português. Isto porque</p><p>viver na Europa quinhentista não faz necessariamente de Luís</p><p>de Camões um quinhentista genuíno, no sentido ideológico e</p><p>não temporal da palavra, não insere obrigatoriamente Camões</p><p>no pensamento do seu tempo, a coadunar, parcial ou totalmente,</p><p>com a visão de mundo vigente. E serão estas duas possibilidades,</p><p>estes inegociáveis estar e não estar camonianos em sua época,</p><p>que provocarão as dubiedades semânticas que podemos observar</p><p>com frequência nas leituras críticas de sua poesia.</p><p>Marcelo Pacheco Soares, Camões & Camões ou Pede o desejo, Camões, que vos</p><p>leia. <http://www.revistavoos.com.br/seer/index.php/voos/article/view/46/01_Vol2_</p><p>VOOS2009_CL20>.</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO40</p><p>LITERATURA 07 CLASSICISMO: RENASCIMENTO</p><p>07. (Espm) Baseando-se no texto, pode-se afirmar que:</p><p>a) o professor e escritor português citado discorda de uma teoria</p><p>filosófica nova desenvolvida por Camões.</p><p>b) a mulher, no quinhentismo, era vista, contrariando a regra,</p><p>como um ser idealizado, puro, inalcançável.</p><p>c) Camões produziu obras biográficas cujas fontes de inspirações</p><p>poéticas eram as figuras femininas.</p><p>d) Camões não seguiu rigidamente os cânones renascentistas da</p><p>época: o platonismo e o petrarquismo.</p><p>e) paira uma incerteza sobre a genuína influência da filosofia</p><p>platônica nos clássicos renascentistas Dante e Petrarca.</p><p>08. (Espm) Ainda segundo o texto:</p><p>a) Camões não se enquadra cronologicamente no quinhentismo,</p><p>mas sim ideologicamente.</p><p>b) alvos da crítica literária, as contradições semânticas são</p><p>frequentes na produção poética camoniana.</p><p>c) Camões produziu uma teoria da castidade, ao defender o amor</p><p>puro, não material, não carnal.</p><p>d) a busca da conciliação entre matéria e espírito, corpo e alma, é</p><p>um traço típico da lírica camoniana.</p><p>e) a consciência das tensões entre corpo e alma, “estar” e “não</p><p>estar”, faz de Camões um poeta à frente de seu tempo.</p><p>09. (UESPI) Filho do Classicismo português, Luís Vaz de Camões</p><p>sofreu influência de vários autores da Antiguidade. Quanto aos</p><p>escritores que foram lidos e que terminaram por formar o gosto</p><p>classicista do poeta lusitano, podemos incluir:</p><p>1. Virgílio.</p><p>2. Horácio.</p><p>3. Padre Antônio Vieira.</p><p>4. Petrarca.</p><p>5. Carlos Magno.</p><p>Estão corretas apenas:</p><p>a) 2, 3 e 5</p><p>b) 3, 4 e 5</p><p>c) 1, 2 e 4</p><p>d) 1, 2 e 3</p><p>e) 2, 4 e 5</p><p>10. (IFSP)</p><p>Tanto de meu estado me acho incerto,</p><p>Que em vivo ardor tremendo estou de frio;</p><p>Sem causa, juntamente choro e rio;</p><p>O mundo todo abarco e nada aperto.</p><p>É tudo quanto sinto um desconcerto;</p><p>Da alma um fogo me sai, da vista um rio;</p><p>Agora espero, agora desconfio,</p><p>Agora desvario, agora certo.</p><p>Estando em terra, chego ao Céu voando;</p><p>Numa hora acho mil anos, e é de jeito</p><p>Que em mil anos não posso achar uma hora.</p><p>Se me pergunta alguém por que assim ando,</p><p>Respondo que não sei; porém suspeito</p><p>Que só porque vos vi, minha Senhora.</p><p>(www.fredb.sites.uol.com.br/lusdecam.htm)</p><p>A leitura do poema permite afirmar que o eu lírico se sente</p><p>a) confuso, provavelmente pelo amor que tem por uma senhora.</p><p>b) alegre, provavelmente porque seu amor é correspondido.</p><p>c) triste, provavelmente porque não consegue amar ninguém.</p><p>d) desconcertado, provavelmente porque a senhora o ama</p><p>demais.</p><p>e) perdido, provavelmente porque foi rejeitado pela amada.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. B</p><p>02. D</p><p>03. D</p><p>04. D</p><p>05. B</p><p>06. E</p><p>07. D</p><p>08. E</p><p>09. C</p><p>10. A</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 41SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>QUINHENTISMO BRASILEIRO08</p><p>Assim como cada autor tem suas preferências temáticas ou</p><p>expressionais, as épocas também as têm. Um escritor de uma</p><p>época passada não trata dos mesmos assuntos de um autor</p><p>contemporâneo, nem mesmo utiliza a sua linguagem.</p><p>As mudanças culturais são responsáveis por variações</p><p>estéticas no tempo e no espaço. Assim, cada estilo literário é</p><p>caracterizado por valores artísticos, morais, religiosos, políticos e</p><p>sociais predominantes em determinada época.</p><p>No entanto, por maior que seja a influência do estilo</p><p>predominante em sua época, cada escritor é um indivíduo que</p><p>sempre deixa impressa sua marca no texto que produz. Por isso,</p><p>um texto é o cruzamento entre um estilo de época e estilo individual.</p><p>Esses estilos individuais e estilos de época não ficam restritos</p><p>no entrecho</p><p>das ações, importa procurar sempre a verossimilhança</p><p>e a necessidade; por isso, as palavras e os atos de uma</p><p>personagem de certo caráter devem justificar-se por sua</p><p>verossimilhança e necessidade.</p><p>(ARISTÓTELES; Arte Poética)</p><p>A importância da verossimilhança nas narrativas surgiu como</p><p>preocupação e objeto de estudo desde Aristóteles. De forma geral,</p><p>o conceito de verossimilhança está relacionado à verdade, ao que</p><p>se apresenta – ou tem aparência − de verdadeiro.</p><p>Esse estudo é fundamental para a literatura. Veja os conceitos</p><p>e definições abaixo:</p><p>(...) o objetivo da poesia (e da arte literária em geral) não é</p><p>o real concreto, o verdadeiro, aquilo que de fato aconteceu,</p><p>mas sim, o verossímil, o que pode acontecer, considerado</p><p>na sua universalidade.</p><p>(SILVA, Vítor M. de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1982.)</p><p>Verossímil. 1. Semelhante à verdade; que parece verdadeiro.</p><p>2. Que não repugna à verdade, provável.</p><p>(FERREIRA, A. B. de Holanda. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de</p><p>Janeiro: Nova Fronteira, 1986.)</p><p>A literatura, como toda obra de arte apresenta uma equivalência</p><p>de realidade, de verdade, de lógica interna ao texto e de um conjunto</p><p>de semelhanças que permitem ao leitor validar os acontecimentos</p><p>como possíveis: a verossimilhança. É possível distinguir dois tipos</p><p>de verossimilhança:</p><p>• INTERNA: percebida pela própria estrutura da obra, pela</p><p>coerência dos elementos que a estruturam.</p><p>• EXTERNA: percebida no mundo real, confere ao mundo</p><p>imaginário a percepção de realidade.</p><p>MÍMESE, CATARSE E EPIFANIA</p><p>Para os gregos, a arte possuía as funções hedonística e</p><p>catártica. A primeira preconizava a necessidade de a obra artística</p><p>proporcionar prazer, ser um retrato do belo. Essa beleza consistia</p><p>na relação direta e na semelhança entre a arte e a natureza. Na</p><p>segunda visão, a catarse era o um conjunto de sensações e</p><p>contrassensações, um efeito “moral” que buscava aliviar os</p><p>sentimentos produzidos pela própria obra de arte: o terror, a</p><p>piedade, as tensões etc.</p><p>A catarse pode ser compreendida tanto de forma externa</p><p>à obra de arte, quando ligada às sensações e identificações que</p><p>provoca no leitor ou expectador diante dos acontecimentos;</p><p>quanto de forma interna, como um processo de superação que os</p><p>próprios personagens devem enfrentar em suas jornadas. Assim, a</p><p>passagem do estado agonia de um personagem para sua redenção</p><p>já evidencia uma catarse.</p><p>O filósofo grego Aristóteles debruçou-se sobre a literatura</p><p>e ligava-a ao conceito de imitação, segundo ele, mímese. A</p><p>arte mimética buscava imitar a vida e nessa relação buscava a</p><p>fidelidade absoluta. Era isso que levava o texto ao encontro com</p><p>a Verdade. Com o passar do tempo, essa ideia de arte imitativa foi</p><p>perdendo força, apesar de ainda manter relação com as emoções</p><p>que provoca e a própria recriação da realidade que caracterizam os</p><p>conceitos de arte mais atuais.</p><p>Em muitas histórias, há “manifestações” de forças divinas ou</p><p>ocultas que levam um personagem à uma revelação, entendimento</p><p>súbito de sua condição ou compreensão da essência de algo ligado</p><p>à problemática da história. Essa intervenção “mágica”, que altera os</p><p>rumos dos acontecimentos e opera uma mudança na vida de um</p><p>personagem é chamada epifania. Modernamente, autores utilizam-</p><p>se de situações cotidianas como mote para a introspecção das</p><p>personagens, refundando o conceito grego em bases modernas.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (UNB) A arte indígena no Brasil é mais representativa</p><p>das tradições da comunidade em que está inserida que da</p><p>personalidade do indivíduo que a faz. É por isso que os estilos de</p><p>seus trabalhos artísticos variam significativamente de uma tribo</p><p>para outra. A tendência indígena de fazer objetos bonitos para usar</p><p>na vida tribal pode ser apreciada principalmente</p><p>a) na cerâmica, no trançado e na tecelagem.</p><p>b) na cerâmica, na tecelagem e na ourivesaria.</p><p>c) no trançado, na ourivesaria e na cutelaria.</p><p>d) na cutelaria, na arte corporal e na ourivesaria.</p><p>e) na arte corporal, na tecelagem e na colagem.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>01 OS HOMENS, A ARTE E A LITERATURA</p><p>7</p><p>LITERATURA</p><p>02. (ENEM)</p><p>A pintura rupestre mostrada na figura anterior, que é um patrimônio</p><p>cultural brasileiro, expressa</p><p>a) o conflito entre os povos indígenas e os europeus durante o</p><p>processo de colonização do Brasil.</p><p>b) a organização social e política de um povo indígena e a</p><p>hierarquia entre seus membros.</p><p>c) aspectos da vida cotidiana de grupos que viveram durante a</p><p>chamada pré-história do Brasil.</p><p>d) os rituais que envolvem sacrifícios de grandes dinossauros</p><p>atualmente extintos.</p><p>e) a constante guerra entre diferentes grupos paleoíndios da</p><p>América durante o período colonial.</p><p>03. (ENEM) Folclore designa o conjunto de costumes, lendas,</p><p>provérbios, festas tradicionais/populares, manifestações artísticas</p><p>em geral, preservado, por meio da tradição oral, por um povo ou</p><p>grupo populacional. Para exemplificar, cita-se o frevo, um ritmo</p><p>de origem pernambucana surgido no início do século) (Ele a</p><p>caracterizado pelo andamento acelerado e pela dança peculiar,</p><p>feita de malabarismos, rodopios e passos curtos, além do uso,</p><p>como parte da indumentária, de uma sombrinha colorida, que</p><p>permanece aberta durante a coreografia.</p><p>As manifestações culturais citadas a seguir que integram a mesma</p><p>categoria folclórica descrita no texto são</p><p>a) bumba-meu-boi e festa junina.</p><p>b) cantiga de roda e parlenda.</p><p>c) saci-pererê e boitatá.</p><p>d) maracatu e cordel.</p><p>e) catira e samba.</p><p>04. (ENEM) As pinturas rupestres no paleolítico, tinham um</p><p>significado mágico porque</p><p>a) expressavam o culto aos deuses.</p><p>b) expressavam os valores religiosos.</p><p>c) expressavam deuses antropozoomórficos.</p><p>d) possuíam um caráter expressionista.</p><p>e) ao representar cenas de caça e animais, os homens primitivos</p><p>desejavam sucesso na caça.</p><p>05. (UERN) Leia o texto que ressalta o caráter simbólico da arte</p><p>rupestre.</p><p>A arte rupestre</p><p>O homem Paleolítico deixou-nos belíssimas representações</p><p>nas paredes das cavernas e objetos decorativos com fino senso</p><p>artístico. O cuidado com os mortos, já comum entre os homens</p><p>de Neanderthal, é enriquecido com símbolos, isto é, sinais com</p><p>significados, que remetem a uma vida futura. [...] Ele recorre a</p><p>sinais que não atendem apenas às necessidades básicas, como</p><p>os animais. O homem inventa sinais, sons e gestos de um valor</p><p>simbólico porque remetem a algum significado. Esses sinais</p><p>podem ir além das necessidades de sobrevivência (arte, religião).</p><p>O elevado nível cultural desse homem já moderno explica seu</p><p>sucesso e sua difusão por todo o planeta, com uma ampla</p><p>variedade de expressões, mas sempre um único ímpeto criativo.</p><p>(Facchini, Fiorenzo. O Homem. São Paulo. Moderna 1997 p.36)</p><p>Com base no texto, analise.</p><p>I. A arte foi sem sombra de dúvida a primeira forma de expressão</p><p>do homem primitivo.</p><p>II. Os grupos humanos criaram símbolos para representar o</p><p>mundo em que viviam e seu cotidiano.</p><p>III. A ausência de documentos escritos deixados pelos seres</p><p>humanos da Pré-História nos impede de levantar hipóteses</p><p>sobre a forma como viveram.</p><p>IV. Embora muitas questões fiquem sem respostas, os vestígios</p><p>arqueológicos encontrados têm-nos permitido conhecer parte</p><p>do cotidiano Pré-Histórico.</p><p>Estão corretas apenas as afirmativas</p><p>a) I, II, IV b) I, II, III c) II, IV d) III, IV</p><p>06. (ENEM)</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO8</p><p>LITERATURA 01 OS HOMENS, A ARTE E A LITERATURA</p><p>A imagem integra uma adaptação em quadrinhos da obra Grande</p><p>sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Na representação gráfica, a</p><p>inter-relação de diferentes linguagens caracteriza-se por</p><p>a) romper com a linearidade das ações da narrativa literária.</p><p>b) ilustrar de modo fidedigno passagens representativas da história.</p><p>c) articular a tensão do romance à desproporcionalidade das</p><p>formas.</p><p>d) potencializar a dramaticidade do episódio com recursos das</p><p>artes visuais.</p><p>e) desconstruir a diagramação do texto literário pelo desequilíbrio</p><p>da composição.</p><p>TEXTO PARA AS</p><p>à literatura. Eles também se manifestam em outras formas de</p><p>arte. Veja, a seguir, como foi representado o primeiro contato entre</p><p>índios e europeus:</p><p>(Cândido Portinari, Descobrimento - século XX)</p><p>(Oscar Pereira da Silva, Desembarque de Cabral em Porto Seguro</p><p>- Século XX)</p><p>Vamos então conhecer melhor o período artístico-cultural</p><p>brasileiro do século XVI, conhecido como Quinhentismo.</p><p>CONTEXTO HISTÓRICO</p><p>Desde o século XIV, a Igreja perde espaço no monopólio da</p><p>cultura. A burguesia começa a frequentar a universidade e toma</p><p>contato com uma cultura desligada dos conceitos da Idade Média.</p><p>A decadência do feudalismo e o fortalecimento da burguesia</p><p>resultam em uma visão mais liberal, antropocêntrica, identificada</p><p>com o mercantilismo. Recuperam-se os ideais da Antiguidade</p><p>greco-romana, com a valorização da arte, da filosofia e da mitologia.</p><p>Em Portugal, as grandes navegações impelem o espírito</p><p>português à sua vocação desbravadora e navegante. A chegada da</p><p>imprensa possibilita a divulgação das obras de autores humanistas</p><p>europeus. A Revolução de Avis alia a monarquia aos ideais</p><p>mercantilistas proporcionando a expansão marítima portuguesa.</p><p>A cultura e as artes florescem, desmantelando os quadros</p><p>da antiga cultura medieval. O êxodo rural provoca um surto de</p><p>urbanização, que gera as condições para o desenvolvimento de</p><p>uma nova cultura, sendo essas cidades polos de irradiação do</p><p>Renascimento. A Igreja sofre os reflexos dessa crise: as forças</p><p>burguesas rompem com o medievalismo católico no movimento</p><p>da Reforma Protestante, ao passo que as forças tradicionais</p><p>reafirmam seus dogmas católicos através das resoluções do</p><p>Concílio de Trento, nos tribunais da Inquisição, lançando as bases</p><p>para o movimento da Contrarreforma.</p><p>De um lado, a conquista material – representada em Portugal</p><p>pelas conquistas marítimas; de outro, as mudanças espirituais –</p><p>representadas aqui pela Contrarreforma. São essas as premissas</p><p>para as primeiras manifestações da Nova Terra: as cartas</p><p>informativas – dando conta das riquezas materiais; e a literatura</p><p>jesuítica, voltada ao trabalho de catequese.</p><p>No Brasil, a ocupação efetiva do território pelos portugueses</p><p>só começou por volta de 1530. A atividade literária não passava</p><p>de alguns textos de informação sobre a nova terra – riquezas,</p><p>paisagens e indígenas. Para garantir o domínio das novas terras,</p><p>a metrópole portuguesa organizou capitanias hereditárias e enviou</p><p>jesuítas para catequizar os índios.</p><p>O conjunto de manifestações dos anos de 1500, retratando a</p><p>condição colonial do Brasil, sua terra e população, bem como as</p><p>atividades realizadas na nova terra, é chamado de Quinhentismo.</p><p>Essa literatura, apesar de produzida em solo brasileiro, reflete o</p><p>pensamento, a visão de mundo, as ambições e as intenções do</p><p>conquistador português.</p><p>LITERATURA INFORMATIVA</p><p>A literatura desta primeira fase faz um levantamento da nova</p><p>terra, sua flora, sua fauna, sua gente. A finalidade desses textos</p><p>é descrever as viagens e os primeiros contatos com a terra e os</p><p>nativos, por isso essa literatura também é chamada de literatura</p><p>dos viajantes, literatura de expansão ou literatura dos cronistas.</p><p>O objetivo principal é descrever e informar tudo o que pudesse</p><p>interessar aos governantes portugueses. Não havia nessas</p><p>comunicações quaisquer sentimentos de apego em relação à terra</p><p>conquistada, percebida como mera extensão da metrópole. O que</p><p>havia era a exaltação da terra, resultante do assombro europeu</p><p>diante da exuberância natural desta terra tropical.</p><p>Por serem descritivas, tais cartas são carregadas de adjetivos,</p><p>com uso exagerado de superlativos como forma de louvar a terra</p><p>conquistada pelos portugueses. Essa exaltação da terra exótica,</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO42</p><p>LITERATURA 08 QUINHENTISMO BRASILEIRO</p><p>dos nativos – vistos com certa simpatia e malícia, é chamada de</p><p>ufanismo e dá origem ao movimento nativista, que valoriza tudo</p><p>aquilo que é pertencente à terra nova.</p><p>O primeiro e mais importante desses registros foi a Carta de</p><p>Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral,</p><p>endereçada a el-rei Rei D. Manuel. É considerada como a “certidão</p><p>de nascimento” do Brasil; nela, Caminha mostra claramente as</p><p>preocupações que atormentavam o povo português da época:</p><p>a conquista de bens materiais e o aumento do número de fiéis</p><p>adeptos ao Catolicismo. Veja um trecho da carta:</p><p>“Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul</p><p>vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste</p><p>porto houvemos vista¹, será tamanha que haverá nela bem vinte</p><p>ou vinte cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas</p><p>partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas² brancas; e a terra</p><p>por cima toda chã³ e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a</p><p>ponta, é tudo praia-palma4, muito chã e muito formosa.</p><p>Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a</p><p>estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos,</p><p>que nos parecia muito longa.</p><p>Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata,</p><p>nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém</p><p>a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados,</p><p>como os de Entre-Douro e Minho5, porque neste tempo de</p><p>agora os achávamos como os de lá.</p><p>Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa</p><p>que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das</p><p>águas que tem.</p><p>Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar me parece que</p><p>será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente</p><p>que Vossa Alteza em ela deve lançar.</p><p>E que não houvesse mais que ter aqui esta pousada para</p><p>esta navegação de Calecute6, isso bastaria. Quanto mais</p><p>disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza</p><p>tanto deseja, a saber, acrescentamento7, da nossa santa fé.</p><p>1 houvemos vista: pudemos ver</p><p>2 delas... delas: umas... outras</p><p>3 chã: plana</p><p>4 praia-palma: segundo J. Cortesão, pode significar “toda praia,</p><p>como a palma, muito chã e muito formosa”</p><p>5 Minho: nome de uma região de Portugal</p><p>6 Calecute: cidade da Índia para onde se dirigiam os portugueses</p><p>7 acrescentamento: difusão, expansão</p><p>Além de Pero Vaz de Caminha, certamente a figura mais</p><p>conhecida entre os cronistas da nova terra, também outros</p><p>viajantes relataram suas impressões sobre a nova terra e os</p><p>nativos. Entre eles podem-se destacar:</p><p>• Pero Lopes e Sousa: Diário de Navegação (1530);</p><p>• Pero Magalhães de Gândavo: Tratato da Terra do Brasil e</p><p>a História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente</p><p>Chamamos de Brasil (1576);</p><p>• Gabriel Soares de Souza: Tratado Descritivo do Brasil (1587);</p><p>• Ambrósio Fernandes Brandão: Os Diálogos das Grandezas</p><p>do Brasil (1618).</p><p>LITERATURA JESUÍTICA</p><p>A outra manifestação literária que se dá em terras brasileiras</p><p>ocorre graças aos jesuítas, religiosos que chegaram ao Brasil</p><p>junto dos primeiros colonizadores com a missão de catequizar os</p><p>índios. Esses jesuítas deixaram várias cartas, tratados descritivos,</p><p>crônicas históricas e poemas.</p><p>Destacam-se na produção literária de catequese os padres</p><p>Manuel da Nóbrega, Fernão Cardim e, principalmente José de</p><p>Anchieta. Os jesuítas produziram poesias de devoção, peças</p><p>teatrais de caráter pedagógico, inspirado em passagens bíblicas</p><p>e documentos que informavam o andamento de seus trabalhos</p><p>a seus superiores na metrópole. Coube a Anchieta também a</p><p>produção de uma gramática da língua tupi.</p><p>As composições dos jesuítas representavam o pensamento</p><p>da Contrarreforma, contrários às ciências e tudo aquilo que</p><p>representasse a liberdade de expressão ou de ideias. A intenção</p><p>é puramente “salvacionista” e a forma ignora por completo as</p><p>influências da arte renascentista.</p><p>O trabalho de catequese jesuítica, ao mesmo tempo em que</p><p>impediu a destruição completa dos índios – através da luta incansável</p><p>contra a escravidão indígena (o que rendeu o ódio dos colonos)</p><p>–, destruiu os valores culturais indígenas, impondo um modo de</p><p>vida e uma religiosidade completamente distintos do que estavam</p><p>acostumados, transformando-os</p><p>em presas fáceis de bandeirantes e</p><p>capitães do mato. Vejamos um poema de José de Anchieta:</p><p>À Santa Inês</p><p>Na vinda de sua Imagem</p><p>Cordeirinha linda,</p><p>Como folga o povo,</p><p>Porque vossa vinda</p><p>Lhe dá lume novo.</p><p>Cordeirinha santa,</p><p>De Jesus querida,</p><p>ossa santa vida</p><p>O Diabo espanta.</p><p>Por isso vos canta</p><p>Com prazer o povo,</p><p>Porque vossa vinda</p><p>Lhe dá lume novo.</p><p>Nossa culpa escura</p><p>Fugirá depressa,</p><p>Pois vossa cabeça</p><p>Vem com luz tão pura.</p><p>Vossa formosura</p><p>Honra é do povo,</p><p>Porque vossa vinda</p><p>Lhe dá lume novo.</p><p>Virginal cabeça,</p><p>Pela fé cortada,</p><p>Com vossa chegada</p><p>Já ninguém pereça;</p><p>HERANÇA DO QUINHENTISMO</p><p>Muitos autores revisitaram os autores quinhentistas em busca</p><p>das origens nacionais, ora com uma visão mais complacente</p><p>daqueles acontecimentos, ora com um viés mais crítico. O que se</p><p>pode afirmar, com certeza, é que o período quinhentista brasileiro,</p><p>ainda que não apresen te grande quantidade de obras artísticas,</p><p>nem mesmo grandes preocupações estéticas, é uma grande</p><p>influência para artistas posteriores.</p><p>Observe a visão crítica de Oswald de Andrade, poeta modernista,</p><p>na denúncia da exploração que marcou a colonização brasileira.</p><p>História Pátria</p><p>Lá vai uma barquinha carregada de</p><p>Aventureiros</p><p>Lá vai uma barquinha carregada de</p><p>Bacharéis</p><p>Lá vai uma barquinha carregada de</p><p>Cruzes de Cristo</p><p>Lá vai uma barquinha carregada de</p><p>Donatários</p><p>Lá vai uma barquinha carregada de</p><p>Espanhóis</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>08 QUINHENTISMO BRASILEIRO</p><p>43</p><p>LITERATURA</p><p>Paga prenda</p><p>Prenda os espanhóis!</p><p>Lá vai barquinha carregada de</p><p>Flibusteiros</p><p>Lá vai barquinha carregada de</p><p>Governadores</p><p>Lá vai barquinha carregada de</p><p>Holandeses</p><p>Lá vem uma barquinha cheinha de índios</p><p>Outra de degradados</p><p>Outra de pau de tinta</p><p>Até que o mar inteiro</p><p>Se coalhou de transatlânticos</p><p>E as barquinhas ficaram</p><p>Jogando prenda coa raça misturada</p><p>No litoral azul de meu Brasil</p><p>(Oswald de Andrade)</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (UFSM-RS) Sobre a literatura produzida no primeiro século da</p><p>vida colonial brasileira, é correto afirmar que:</p><p>a) É formada principalmente de poemas narrativos e textos</p><p>dramáticos que visavam à catequese.</p><p>b) Inicia com Prosopopeia, de Bento Teixeira.</p><p>c) É constituída por documentos que informam acerca da terra</p><p>brasileira e pela literatura jesuítica.</p><p>d) Os textos que a constituem apresentam evidente preocupação</p><p>artística e pedagógica.</p><p>e) Descreve com fidelidade e sem idealizações a terra e o homem,</p><p>ao relatar as condições encontradas no Novo Mundo.</p><p>02. (UNISA) A “literatura jesuíta”, nos primórdios de nossa história:</p><p>a) tem grande valor informativo;</p><p>b) marca nossa maturação clássica;</p><p>c) visa à catequese do índio, à instrução do colono e sua</p><p>assistência religiosa e moral;</p><p>d) está a serviço do poder real;</p><p>e) tem fortes doses nacionalistas.</p><p>03. (UNIV. EST. DE LONDR.) É lícito dizer que a literatura brasileira</p><p>nasceu marcada:</p><p>a) pela cultura clássica greco-romana.</p><p>b) pelas luzes do racionalismo francês.</p><p>c) pelo renascimento italiano, fi ltrado através da experiência nativa.</p><p>d) pela cultura barroca dos padres jesuítas.</p><p>e) pelo folclore indigenista.</p><p>04. (SANTA CASA) Assinale a incorreta:</p><p>a) A literatura de viagens constitui valioso documento do Brasil-</p><p>Colônia.</p><p>b) Na literatura de viagens encontramos informações sobre a</p><p>natureza e o homem brasileiro.</p><p>c) Os primeiros escritos sobre o Brasil pertencem à categoria de</p><p>literatura, uma vez que notamos neles preocupações estéticas.</p><p>d) O mito ufanista é representado pelo louvor à terra fértil e a</p><p>natureza como algo exuberante.</p><p>e) nenhuma das anteriores</p><p>05. São características da poesia do Padre José de Anchieta:</p><p>a) a temática, visando a ensinar os jovens jesuítas chegados ao</p><p>Brasil;</p><p>b) linguagem cômica, visando a divertir os índios; expressão em</p><p>versos decassílabos, como a dos poetas clássicos do século XVI;</p><p>c) temas vários, desenvolvidos sem qualquer preocupação</p><p>pedagógica ou catequética;</p><p>d) função pedagógica; temática religiosa; expressão em redondilhas,</p><p>o que permitia que fossem cantadas ou recitadas facilmente</p><p>06. (Udesc) Quanto à organização social de nossos selvagens, é</p><p>coisa quase incrível – e dizê-la envergonhará aqueles que têm leis</p><p>divinas e humanas – que, 1apesar de serem conduzidos apenas</p><p>pelo seu natural, ainda que um tanto degenerado, eles se deem tão</p><p>bem e vivam em tanta paz uns com os outros. Mas com isso me</p><p>refiro a cada nação em si ou às nações que sejam aliadas; pois</p><p>quanto aos inimigos, já vimos em outra ocasião o tratamento</p><p>terrível que lhes dispensam2. Porque, em ocorrendo alguma briga</p><p>(o que se dá com tão pouca frequência que durante quase um</p><p>ano em que com eles estive só os vi brigar duas vezes), os outros</p><p>nem sequer 3pensam em separar ou pacificar os contendores; ao</p><p>contrário, se estes tiverem de arrancar-se mutuamente os olhos,</p><p>4ninguém lhes dirá nada, e eles assim farão. 5Todavia, se alguém</p><p>for ferido por seu próximo, e se o agressor for preso, ser-lhe-á</p><p>6infligido o mesmo ferimento no mesmo lugar do corpo, por parte</p><p>dos parentes próximos do agredido, e caso este venha a morrer</p><p>depois, ou caso morra na hora, os parentes do defunto tiram a vida</p><p>ao assassino de um modo semelhante. De tal forma que, para dizer</p><p>numa palavra, é vida por vida, olho por olho, dente por dente etc.</p><p>Mas, como já disse, são coisas que raramente se veem entre eles.</p><p>2 O autor tratou do assunto no capítulo XIV, “Da guerra, combate</p><p>e bravura dos selvagens”.</p><p>Olivieri, Antonio Carlos e Villa, Marco Antonio. Cronistas do descobrimento.</p><p>São Paulo: Ed. Ática,1999, p.69.</p><p>A obra Cronistas do descobrimento, Antonio Carlos Olivieri e Marco</p><p>Antonio Villa, faz referência à história do descobrimento do Brasil. A</p><p>literatura está dividida em diversas estéticas literárias que também</p><p>pontuam características que se assemelham ou resgatam elementos</p><p>da história nacional. Com base nesta analogia, relacione as colunas.</p><p>1. Literatura de</p><p>Informação</p><p>2. Romantismo</p><p>3. Modernismo</p><p>( ) A gênese da formação literária brasileira</p><p>se encontra, basicamente, no século</p><p>XVI, constituem-na os relatos dos</p><p>cronistas viajantes.</p><p>( ) Oswald de Andrade reestrutura a Carta</p><p>de Caminha em poemas, criando uma</p><p>paródia e sugerindo uma releitura</p><p>crítica da história do Brasil.</p><p>( ) A imagem do índio é resgatada por</p><p>José de Alencar em obras indianistas. E</p><p>assim, com tipos heroicos como Peri e</p><p>Iracema, o autor cria em seus romances</p><p>uma imagem gloriosa do povo indígena.</p><p>( ) A produção literária deste período foi</p><p>marcada pela recuperação do passado</p><p>histórico brasileiro, visto sob uma ótica</p><p>às vezes crítica, outras irônica.</p><p>( ) Devido à ausência de um passado</p><p>medieval, o indianismo foi um</p><p>dos elementos de sustentação do</p><p>sentimento nacionalista, o qual era</p><p>característica deste período literário.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta, de cima</p><p>para baixo.</p><p>a) 2 - 2 - 2 - 1 - 3</p><p>b) 1 - 3 - 3 - 3 - 2</p><p>c) 1 - 3 - 2 - 3 - 2</p><p>d) 2 - 3 - 2 - 1 - 3</p><p>e) 2 - 2 - 3 - 1 - 2</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO44</p><p>LITERATURA 08 QUINHENTISMO BRASILEIRO</p><p>07. (IFSP) A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados,</p><p>de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem</p><p>cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de</p><p>encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso</p><p>são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado</p><p>e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão</p><p>travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta</p><p>como um furador.</p><p>(Carta de Pero Vaz de Caminha. www.dominiopublico.com.br. Acesso em: 04.12. 2012.)</p><p>O trecho acima pertence a um dos primeiros escritos considerados</p><p>como pertencentes à literatura brasileira. Do ponto de vista da</p><p>evolução histórica, trata-se de literatura</p><p>a) de informação.</p><p>b) de cordel.</p><p>c) naturalista.</p><p>d) ambientalista.</p><p>e) árcade.</p><p>08. (ESPCEX (AMAN) ) Em relação ao momento histórico do</p><p>Quinhentismo brasileiro, podemos afirmar que</p><p>a) a Europa do século XVI vive o auge do Renascimento, com</p><p>a cultura humanística</p><p>recrudescendo os quadros rígidos da</p><p>cultura medieval.</p><p>b) o século XVI marca também uma crise na Igreja: de um lado,</p><p>as novas forças burguesas e, de outro, as forças tradicionais</p><p>da cultura medieval.</p><p>c) os dogmas católicos são contestados nos tribunais da</p><p>Inquisição (livros proibidos) e no Concílio de Trento, em 1545.</p><p>d) o homem europeu estabelece duas tendências literárias</p><p>no Quinhentismo: a literatura conformativa e a literatura</p><p>dominicana.</p><p>e) a política das grandes navegações coíbe a busca pela conquista</p><p>espiritual levada a efeito pela Igreja Católica.</p><p>09. (IFSP) Esse texto do século XVI reflete um momento de</p><p>expansão portuguesa por vias marítimas, o que demandava a</p><p>apropriação de alguns gêneros discursivos, dentre os quais a carta.</p><p>Um exemplo dessa produção é a Carta de Caminha a D. Manuel.</p><p>Considere a seguinte parte dessa carta:</p><p>Nela [na terra] até agora não pudemos saber que haja ouro</p><p>nem prata... porém a terra em si é de muito bons ares assim frios</p><p>e temperados como os de Entre-Doiro-e-Minho. Águas são muitas</p><p>e infindas. E em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar,</p><p>dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor</p><p>fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente</p><p>e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve</p><p>lançar.</p><p>Assinale a alternativa em que as palavras grifadas estão</p><p>empregadas em sentido conotativo.</p><p>a) ...porém a terra em si é de muito bons ares...</p><p>b) Águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que</p><p>querendo-a aproveitar...</p><p>c) ...querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas</p><p>que tem...</p><p>d) ...o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será</p><p>salvar esta gente...</p><p>e) ...esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela</p><p>deve lançar.</p><p>10. (UDESC) O movimento literário que retrata as manifestações</p><p>literárias produzidas no Brasil à época de seu descobrimento,</p><p>e durante o século XVI, é conhecido como Quinhentismo ou</p><p>Literatura de Informação.</p><p>Analise as proposições em relação a este período.</p><p>I. A produção literária no Brasil, no século XVI, era restrita às</p><p>literaturas de viagens e jesuíticas de caráter religioso.</p><p>II. A obra literária jesuítica, relacionada às atividades</p><p>catequéticas e pedagógicas, raramente assume um</p><p>caráter apenas artístico. O nome mais destacado é o do</p><p>padre José de Anchieta.</p><p>III. O nome Quinhentismo está ligado a um referencial</p><p>cronológico — as manifestações literárias no Brasil tiveram</p><p>início em 1500, época da colonização portuguesa — e não</p><p>a um referencial estético.</p><p>IV. As produções literárias neste período prendem-se à</p><p>literatura portuguesa, integrando o conjunto das chamadas</p><p>literaturas de viagens ultramarinas, e aos valores da cultura</p><p>greco-latina.</p><p>V. As produções literárias deste período constituem um</p><p>painel da vida dos anos iniciais do Brasil colônia, retratando</p><p>os primeiros contatos entre os europeus e a realidade da</p><p>nova terra.</p><p>Assinale a alternativa correta.</p><p>a) Somente as afirmativas I, IV e V são verdadeiras.</p><p>b) Somente a afirmativa II é verdadeira.</p><p>c) Somente as afirmativas I, II, III e V são verdadeiras.</p><p>d) Somente as afirmativas III e IV são verdadeiras.</p><p>e) Todas as afirmativas são verdadeiras.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. C</p><p>02. C</p><p>03. D</p><p>04. C</p><p>05. D</p><p>06. C</p><p>07. A</p><p>08. B</p><p>09. E</p><p>10. C</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 5SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>BARROCO09</p><p>MOMENTO HISTÓRICO DO BARROCO</p><p>O século XVI marca a ampliação dos limites geográficos do</p><p>mundo conhecido; o homem passa a acreditar na sua capacidade</p><p>de dominar a natureza e transformá-la por meio da razão. O</p><p>século XVII parece ser a continuação da glória renascentista</p><p>que se anunciava: os conhecimentos científicos e as grandes</p><p>descobertas tiveram espaço para florescer; o antropocentrismo</p><p>domina o pensamento europeu, à exceção da Península Ibérica,</p><p>que se fecha aos novos ares renascentistas e volta-se a uma</p><p>religiosidade extremada, levando Portugal e Espanha a ficar de fora</p><p>dos avanços produzidos na época. O final do século XVII , portanto,</p><p>guarda alterações no quadro econômico, social, político e religioso,</p><p>abalando a euforia antropocêntrica estabelecida.</p><p>O século XVII é marcado pelo mercantilismo, baseado no</p><p>metalismo, na balança comercial favorável e no acúmulo de</p><p>capitais; a burguesia surgia com imenso poder econômico nesse</p><p>contexto. Contudo, se por um lado, a conjuntura econômica</p><p>favorecia a ascensão de setores populares, tais quais os</p><p>burgueses; por outro, a sociedade não se mostrava aberta em</p><p>relação às estruturas política e social.</p><p>Apesar de deter um forte poder econômico, a burguesia estava</p><p>afastada do poder político, constituía o Terceiro Estado, a mais</p><p>baixa das três classes impermeáveis pelas quais a sociedade se</p><p>organizava. As outras duas classes, o clero e a nobreza, gozavam de</p><p>inúmeros privilégios e controle absoluto sobre as decisões políticas</p><p>e os comportamentos sociais. Os camponeses e artesãos sofriam</p><p>com pesados impostos e a falta de direitos. A burguesia fortalecia-</p><p>se com seu poder econômico e pressionava politicamente a</p><p>nobreza e o rei, a fim de conseguir maior participação política no</p><p>Estado.</p><p>O absolutismo monárquico centralizava todo poder nas mãos</p><p>do rei, considerado o representante de deus na Terra. Por mais</p><p>estranho que possa parecer, durante algum tempo, esse sistema,</p><p>ainda que excludente, beneficiou a própria burguesia, já que lhe</p><p>convinha um governo centralizado que unificasse e ampliasse as</p><p>condições do mercado nacional.</p><p>CONTEXTO HISTÓRICO PORTUGUÊS</p><p>Se Portugal viveu seus dias de glória no primeiro quarto do século</p><p>XVI, é bem verdade que o último quarto do mesmo século representa</p><p>o pior período de sua história. A expansão ultramarina levou Portugal</p><p>a conhecer uma aparente grandiosidade: Lisboa era a capital mundial</p><p>das especiarias, mas a agricultura nacional era abandonada.</p><p>As colônias na África e na América, que renderam à Espanha</p><p>um enorme acúmulo de metais preciosos, não deram a Portugal o</p><p>mesmo benefício: suas colônias nada forneceram de riquezas em</p><p>imediato, especialmente o Brasil. Ouro e prata, principais objetivos</p><p>do metalismo mercantilista, não foram achados rapidamente no</p><p>Brasil, levando Portugal a uma condição de dependência de seu</p><p>comércio de especiarias. Com a decadência desse comércio,</p><p>observa-se o franco declínio da economia portuguesa. Um vasto</p><p>domínio territorial, de gastos monumentais com uma metrópole</p><p>em crise econômica e política.</p><p>Impelido pelo sonho megalomaníaco de transformar Portugal</p><p>em um grande império, o jovem rei D. Sebastião parte para a</p><p>conquista de terras africanas e desaparece em meio ao insucesso</p><p>na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos, em 1578, sem deixar</p><p>descendentes.</p><p>Dom Sebastião I, pintura de Cristóvão de Morais</p><p>Dois anos mais tarde, Felipe II da Espanha anexa Portugal</p><p>a seu reino e consolida a unificação da Península Ibérica. O</p><p>desaparecimento do jovem rei e a perda da autonomia levam</p><p>o povo português a uma imensa amargura para olhar o futuro e</p><p>uma melancolia ao relembrar o passado. Cria-se um ambiente</p><p>de desilusão e esperança na volta do monarca desaparecido, que</p><p>conduziria Portugal à glória, transformando-o no Quinto Império.</p><p>Essa crença messiânica ganha o nome de Sebastianismo e teve</p><p>como um dos maiores representantes o próprio padre Antônio</p><p>Vieira.</p><p>Com a unificação da península, a Contrarreforma se fortalece</p><p>e o ensino torna-se praticamente um monopólio nas mãos dos</p><p>jesuítas, além de estabelecer-se uma forte censura eclesiástica,</p><p>um obstáculo praticamente intransponível a qualquer avanço na</p><p>área do saber. Enquanto a Europa experimenta um rico tempo</p><p>de descobertas científicas e inovações tecnológicas, a Península</p><p>Ibérica permanece como mantenedora da cultura medieval.</p><p>ESTÉTICA BARROCA</p><p>Barroco é a denominação dada às manifestações artísticas</p><p>do século XVII, daí também ser conhecido como seiscentismo.</p><p>A palavra barroco tem origem controversa, mas a hipótese</p><p>mais</p><p>conhecida versa que o nome designa um tipo de pérola de forma</p><p>irregular, imperfeita, desigual, assimétrica. A estética barroca</p><p>guarda as qualidades da pérola que lhe nomeia, já que representa</p><p>o intenso conflito interno do homem do ano de 1600: por um lado,</p><p>o racionalismo e o renascimento, por outro, a Contrarreforma.</p><p>Essa antítese é retratada no estilo, gerando assimetria, confusão,</p><p>rebuscamento e paradoxos.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR6</p><p>LITERATURA 09 BARROCO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Pérola barroca</p><p>A contradição social e cultural produz a matiz dos conflitos</p><p>retratados pelo barroco: teocentrismo x antropocentrismo, fé x</p><p>razão, alma x corpo, bem x mal, perdão x pecado, espírito x matéria,</p><p>deus x homem, virtude x prazer. O racionalismo oferece o prazer</p><p>e a vida material; a Igreja, a volta aos valores medievais, com a</p><p>renúncia aos prazeres mundanos e à mortificação da carne.</p><p>Caravaggio, São Francisco em êxtase</p><p>Essa preocupação insana a qual era submetido o homem</p><p>seiscentista o levava apenas a crer na brevidade da vida, na</p><p>efemeridade da existência, restando a ele aproveitar o tempo que</p><p>lhe restava (carpe diem). Longe de ser positiva, essa era uma atitude</p><p>pessimista: devia-se aproveitar a vida, pois a morte já chegava. É</p><p>claro que, após gozar dos prazeres da carne, restava o sofrimento,</p><p>o pecado e o arrependimento. Era o momento de pedir perdão e de</p><p>se redimir frente a deus. Assim, o homem barroco estava sempre</p><p>enfrentando o dilema de aproveitar o tempo que lhe restava na terra</p><p>e pedir perdão pelos pecados que cometeu ao desfrutá-lo.</p><p>As lutas religiosas e as dificuldades econômicas decorrentes</p><p>da decadência do comércio de especiarias estabelecem as</p><p>condições da crise por que passam os portugueses, gerando</p><p>tensão e desequilíbrio, características tão marcantes do Barroco.</p><p>Dessa maneira, o culto exagerado da forma, a busca pelo detalhe,</p><p>o rebuscamento, o uso sobrecarregado de figuras de linguagem e,</p><p>até mesmo, uma tendência sensualista são expressões do espírito</p><p>seiscentista. Na literatura, pode-se perceber claramente duas</p><p>tendências barrocas: o Cultismo e o Conceptismo.</p><p>Cultismo</p><p>Remete-se ao rebuscamento no plano formal. Caracteriza-</p><p>se pelo uso de linguagem culta, rebuscada e extravagante;</p><p>um vocabulário sofisticado, com grande número de figuras de</p><p>linguagem (principalmente a metáfora, a antítese e a hipérbole) e</p><p>jogos de palavras. A valorização dos pormenores e a exploração</p><p>de efeitos sensoriais como cor, som, forma e volume, além de</p><p>construir imagens violentas e fantasiosas. É um estilo presente</p><p>sobretudo na poesia. A maior influência cultista pertence ao poeta</p><p>espanhol Luís de Gôngora, pelo qual também ficou conhecido o</p><p>estilo como Gongorismo.</p><p>Rebuscamento ornamental em igreja da Bahia</p><p>Conceptismo</p><p>A palavra remete à origem espanhola concepto (conceito,</p><p>ideia) e, por isso, refere-se ao estilo que valoriza o jogo de</p><p>ideias, construído a partir das sutilezas do raciocínio lógico, com</p><p>valorização do pensamento através de analogias e alegorias.</p><p>É um estilo racionalista, que utiliza uma retórica aprimorada,</p><p>bem elaborada; normalmente manifestado na prosa. O maior</p><p>representante conceptista foi, sem dúvida, o espanhol Francisco de</p><p>Quevedo, que também empresta seu nome para apelidar o gênero:</p><p>Quevedismo.</p><p>Francisco de Quevedo</p><p>Apesar de estilos diferentes, é importante ressaltar que ambos</p><p>retratam a mesma escola barroca. Portanto, não é difícil imaginar</p><p>que a produção de um autor pode apresentar traços cultistas</p><p>e conceptistas; por vezes, um mesmo texto enquadra-se nas</p><p>características dos dois estilos, sem que haja prejuízo na estética</p><p>da obra.</p><p>CONTEXTO HISTÓRICO BRASILEIRO</p><p>No século XVII, o Brasil era um importante empreendimento</p><p>comercial de Portugal, o grande celeiro de cana-de-açúcar. Com</p><p>o declínio do comércio de especiarias, a colônia na América</p><p>torna-se a maior fonte de riquezas de Portugal. Tudo aqui era</p><p>organizado em torno dos engenhos de cana, concentrados na</p><p>Zona da Mata nordestina.</p><p>Os colonos portugueses que vinham ao Brasil, quando não eram</p><p>degredados – desajustados na sociedade europeia –, estavam</p><p>apenas interessados na exploração da cana e no enriquecimento</p><p>rápido, que os permitisse um breve retorno a Portugal. Em momento</p><p>algum se observou um movimento de enraizamento na Colônia, de</p><p>construção de uma vida social na América portuguesa.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>09 BARROCO</p><p>7</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>A realidade brasileira era de violência, de escravização do</p><p>negro e de perseguição aos índios. Aqui não havia a opulência da</p><p>aristocracia europeia – o mercado consumidor do açúcar –, mas</p><p>os incultos e, na maioria das vezes, analfabetos comerciantes</p><p>interessados no lucro. Apesar disso, surgia na colônia um grupo</p><p>de pessoas letradas: advogados, religiosos, homens de letras,</p><p>cuja formação dava-se em Portugal por serem filhos desses ricos</p><p>comerciantes ou fidalgos que se instalaram no Brasil.</p><p>A cidade de Salvador, capital da Colônia, era, além de um</p><p>centro político e econômico, um verdadeiro – e único – polo de</p><p>produção cultural, reunindo as manifestações artísticas da época,</p><p>ainda que não houvesse sentimento de conjunto, representando</p><p>meramente esforços individuais. O estilo e as características eram</p><p>simplesmente transplantadas da Europa para cá, através dos</p><p>poucos que se aventuravam nessa área.</p><p>Contudo, a política brasileira vivia um momento delicado: com</p><p>a unificação da Península Ibérica e a passagem do trono português</p><p>à coroa espanhola, o conflito já deflagrado entre os Países Baixos</p><p>e a Espanha passara a ter reflexos em Portugal e em suas posses.</p><p>Os holandeses perderiam sua participação nos lucros da produção</p><p>e comércio do açúcar, assim partiram para a invasão da colônia</p><p>portuguesa na América: o Brasil.</p><p>Essas invasões começaram por Salvador, ocupada por mais</p><p>de um ano. Apesar de terem demorado pouco mais de 24 horas</p><p>para ocuparem a cidade, não conseguiram passar de seus limites,</p><p>encontrando resistência nos colonos que, refugiados em fazendas</p><p>próximas à capital, impediram a expansão dos invasores. Com a</p><p>chegada de reforços, duras batalhas foram travadas até a expulsão</p><p>dos holandeses.</p><p>Contudo, as invasões continuaram: em 1635 a faixa litorânea</p><p>que vai de Sergipe ao Maranhão estava sob domínio holandês, com</p><p>destaque para a invasão de Pernambuco em 1630 e o governo</p><p>de Maurício de Nassau que promoveu intensa urbanização,</p><p>com inúmeras benfeitorias em Recife e Olinda. Somente com a</p><p>Insurreição Pernambucana, que durou dez anos, houve a expulsão</p><p>definitiva dos holandeses no ano de 1654.</p><p>(Detalhe de O cristo do Carregamento da Cruz, madeira policromada, por Aleijadinho, no</p><p>Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG)</p><p>A arte barroca brasileira segue os mesmos preceitos estéticos</p><p>do barroco europeu nas artes plásticas, com destaque para o</p><p>escultor mineiro Antônio Francisco Lisboa, conhecido como</p><p>Aleijadinho. Apesar de suas obras terem sido produzidas no século</p><p>XVIII, elas retratam as características do barroco. Na figura em</p><p>destaque, por exemplo, Aleijadinho mostra o imaginário da dor e do</p><p>sofrimento relacionado ao imaginário religioso. Não há um Cristo</p><p>glorioso e alegre, ou mesmo reflexivo, mas um Cristo de paixão e</p><p>morte na cruz.</p><p>GREGÓRIO DE MATOS GUERRA</p><p>O maior poeta barroco brasileiro nasceu em Salvador, Bahia,</p><p>provavelmente a 23 de dezembro de 1636 (apesar de alguns</p><p>historiadores datarem seu nascimento em 1633 e outros em março</p><p>de 1623). Filho de uma família abastada, teve acesso ao melhor</p><p>da educação na época, iniciando seus estudos no Colégio dos</p><p>Jesuítas e terminando-os em Coimbra, Portugal, onde formou-</p><p>se em Direito. Tornou-se juiz, foi Procurador da Bahia em Lisboa,</p><p>clérigo e ainda encontrou tempo para ensaiar alguns poemas</p><p>satíricos. Por causa deles, viu-se obrigado a retornar ao Brasil onde</p><p>foi convidado a trabalhar com os Jesuítas.</p><p>Gregório foi tesoureiro-mor e vigário-geral (ainda que sempre</p><p>tenha se recusado a vestir-se como clérigo), mas continuou</p><p>exercendo sua veia satírica. Por seu comportamento, foi destituído</p><p>de seus cargos eclesiásticos e partiu para uma vida mais boêmia,</p><p>transformando-se em um verdadeiro cronista da época, castigando</p><p>com suas críticas e sátiras a sociedade baiana, ridicularizando</p><p>impiedosamente as autoridades civis e religiosas. Por isso, foi</p><p>duramente perseguido pelo governador baiano Antônio de Souza</p><p>Menezes, o Braço de Prata e denunciado à Inquisição por apresentar</p><p>hábitos de “homem solto sem modo de cristão”.</p><p>Casou-se com Maria dos Povos, com quem teve um filho, mas</p><p>não parou nem de advogar nem de escrever suas poesias satíricas</p><p>e pornográficas. Seus poemas contra o Governador Antônio Luiz</p><p>Gonçalves da Câmara Coutinho fez com que seus filhos o jurassem</p><p>de morte. Os amigos de Gregório – sim, ele tinha amigos! –</p><p>armaram uma forma de prendê-lo e enviá-lo à força para Angola,</p><p>de modo a preservar-lhe a vida.</p><p>Profundamente desgostoso com a vida, envolveu-se em</p><p>uma conspiração de militares portugueses que planejavam a</p><p>independência de Angola. Gregório colaborou com a prisão dos</p><p>líderes do movimento, mostrando sua fidelidade à corte portuguesa.</p><p>Como prêmio, pôde voltar ao Brasil.</p><p>A notícia de sua volta causou enorme repercussão em</p><p>Salvador, onde foi proibido de entrar. Já doente, sua volta se deu</p><p>em Recife, longe de seus desafetos. Morreu em 26 de novembro</p><p>de 1695 (alguns autores apontam janeiro de 1696 como a data de</p><p>sua morte) vítima de uma febre que contraíra ainda em Angola.</p><p>Gregório desenvolveu sua obra em poesias sacras, lírica</p><p>amorosa, poesias satíricas e escritos erótico-irônicos. Araripe</p><p>Júnior, importante crítico literário, em 1894, definiu assim o poeta</p><p>baiano: “um notabilíssimo canalha, eis o que ele era”. Essa fama</p><p>sempre acompanhou Gregório de Matos devido a ter primado</p><p>pela irreverência. Afrontou os valores e a falsa moral da sociedade</p><p>baiana de seu tempo. Comportou-se de maneira a escandalizar</p><p>todo o povo da colônia e da metrópole. Com ele, o sisudo barroco</p><p>“se tropicaliza, come banana, grita palavrões e põe os pés no chão</p><p>brasileiro”, segundo afirma José de Nicola.</p><p>Rompeu com os modelos europeus do barroco, fez a</p><p>denúncia das contradições da sociedade baiana e criticou</p><p>implacavelmente todos os grupos sociais, fossem governantes,</p><p>fidalgos, comerciantes, escravos, clérigos, prostitutas, mulatos</p><p>etc. Gregório foi o primeiro poeta popular, conseguiu passear</p><p>por todas as camadas sociais, incorporou em sua linguagem</p><p>vocábulos indígenas e africanos, sem contar a linguagem baixa e</p><p>chula, carregada de palavrões e obscenidades. Por sua produção e</p><p>comportamento, ganhou o apelido de Boca do Inferno.</p><p>Nenhum de seus poemas foi publicado em vida, todos foram</p><p>transmitidos oralmente até meados do século XIX quando foram</p><p>reunidos em um livro. Houve várias compilações que deixaram a</p><p>desejar, criando controvérsia sobre a autoria de alguns poemas</p><p>atribuídos a Gregório de Matos. Sua obra basicamente pode ser</p><p>dividida em sacra, amorosa, satírica e erótica.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR8</p><p>LITERATURA 09 BARROCO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Sua poesia sacra é bastante abrangente, desde poemas</p><p>comemorativos por festas de santos até aqueles de contrição e</p><p>reflexão moral. Nessa vertente, obedeceu aos preceitos do barroco</p><p>europeu, com inúmeras referências bíblicas, apresentando temas</p><p>como o amor a deus, a culpa, o arrependimento, o pecado e o</p><p>perdão. Outras vezes apontou o desconcerto do mundo, lembrando</p><p>a transitoriedade da vida e do tempo, fazendo uso do carpe diem.</p><p>Em sua linguagem encontram-se inúmeras inversões e figuras de</p><p>linguagem, além da construção de imagens fortes e de um espírito</p><p>extremamente contraditório, abusando de antíteses e paradoxos,</p><p>bem ao estilo barroco.</p><p>A Jesus Cristo Nosso Senhor</p><p>Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,</p><p>Da vossa alta clemência me despido;</p><p>Porque quanto mais tenho delinquido,</p><p>Vos tenho a perdoar mais empenhado.</p><p>Se basta a vos irar tanto pecado,</p><p>A abrandar-vos sobeja um só gemido:</p><p>Que a mesma culpa que vos há ofendido,</p><p>Vos tem para o perdão lisonjeado.</p><p>Se uma ovelha perdida e já cobrada</p><p>Glória tal e prazer tão repentino</p><p>Vos deu, como afirmais na sacra história,</p><p>Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,</p><p>Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,</p><p>Perder na vossa ovelha a vossa glória</p><p>A lírica amorosa de Gregório é marcada pelo contraste entre</p><p>corpo/alma, levando ao inevitável sentimento de culpa no plano</p><p>espiritual, por se deixar levar pelo pecado da carne. A própria figura</p><p>feminina revela-se como a personificação do pecado, levando o</p><p>poeta à perdição.</p><p>Sonetos a D. Ângela de Sousa Paredes</p><p>Anjo no nome, Angélica na cara</p><p>Isso é ser flor, e Anjo juntamente</p><p>Ser Angélica flor, e Anjo florente</p><p>Em quem, se não em vós se uniformara?</p><p>Quem veria uma flor, que a não cortara</p><p>De verde pé, de rama florescente?</p><p>E quem um Anjo vira tão luzente</p><p>Que por seu Deus, o não idolatrara?</p><p>Se como Anjo sois dos meus altares</p><p>Fôreis o meu custódio, e minha guarda</p><p>Livrara eu de diabólicos azares</p><p>Mas vejo, que tão bela, e tão galharda</p><p>Posto que os Anjos nunca dão pesares</p><p>Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda</p><p>Sua obra satírica é extensa, assim como seus desafetos: ricos,</p><p>pobres, negros, brancos, mulatos, padres, freiras, autoridades,</p><p>amigos, inimigos, toda a sociedade baiana foi vítima de sua “lira</p><p>maldizente”. Esses poemas não se resumem à zombaria, mas</p><p>revelam uma crítica aos vícios da sociedade. Sua produção satírica</p><p>revela nosso poeta mais original, fugindo dos padrões europeus,</p><p>estando completamente voltados à realidade baiana. Fica evidente</p><p>um sentimento nativista, o início do processo de uma consciência</p><p>crítica nacional, separando o que é brasileiro do que é exploração</p><p>lusitana.</p><p>O que falta nessa cidade? Verdade.</p><p>Que mais por sua desonra? Honra.</p><p>Falta mais que se lhe ponha. Vergonha.</p><p>O demo a viver se exponha,</p><p>Por mais que a fama a exalta,</p><p>Numa cidade, onde falta,</p><p>Verdade, Honra, Vergonha.</p><p>(...)</p><p>E nos frades há manqueiras? Freiras</p><p>Em que ocupam os serões? Sermões</p><p>Não se ocupam em disputas? Putas.</p><p>Com palavras dissolutas</p><p>me concluís na verdade,</p><p>que as lidas todas de um Frade</p><p>são Freiras, Sermões, e Putas.</p><p>O açúcar já se acabou? Baixou</p><p>E o dinheiro se extinguiu? Subiu</p><p>Logo já convalesceu? Morreu.</p><p>À Bahia aconteceu</p><p>o que a um doente acontece,</p><p>cai na cama, o mal lhe cresce,</p><p>Baixou, Subiu, e Morreu.</p><p>A Câmara não acode? Não pode</p><p>Pois não tem todo o poder? Não quer</p><p>É que o governo a convence? Não vence.</p><p>Que haverá que tal pense,</p><p>que uma Câmara tão nobre</p><p>por ver-se mísera, e pobre</p><p>Não pode, não quer, não vence.</p><p>Sua poesia erótico-pornográfica exalta a sensualidade da</p><p>mulher, normalmente as amantes que conquistou no Recôncavo</p><p>Baiano. Expressava sua volúpia, seus desejos e seus desencontros.</p><p>Cantava também os escândalos sexuais que ocorriam nos</p><p>conventos, lugares que, segundo nosso “cronista” imperavam o</p><p>pecado, a sodomia e a homossexualidade.</p><p>A outra freira, que satirizando a delgada fisionomia</p><p>do poeta lhe chamou “pica-flor”</p><p>Se Pica-flor me chamais,</p><p>Pica-flor aceito ser,</p><p>mas resta agora saber,</p><p>se no nome, que me dais,</p><p>meteis a flor, que guardais</p><p>no passarinho melhor!</p><p>se me dais este favor,</p><p>sendo só de mim o Pica,</p><p>e o mais vosso, claro fica,</p><p>que fico então Pica-flor.</p><p>PADRE ANTÔNIO VIEIRA</p><p>“Devemos dar muitas graças a deus por fazer este homem</p><p>católico, porque se o não fosse poderia dar muito cuidado à Igreja</p><p>de deus”. O homem a quem se referia o papa Clemente X era</p><p>Antônio Vieira, o “monstro dos ingênuos e príncipe dos oradores”.</p><p>Vieira nasceu em Lisboa, em 6 de fevereiro 1608 e aos sete anos</p><p>veio para a Bahia, onde, aos 15 anos, entrou para a Companhia</p><p>de Jesus. Seu retorno a Portugal deu-se somente em 1640, após</p><p>a Restauração – movimento pelo qual Portugal libertou-se da</p><p>Espanha – quando saúda o rei D. João IV, de quem se tornaria</p><p>conselheiro e confessor e que o nomearia representante e mediador</p><p>de Portugal nas relações econômicas e políticas internacionais. Sua</p><p>atuação nunca foi meramente religiosa. Seus sermões defendiam</p><p>suas posições políticas, voltando contra si a pequena burguesia</p><p>cristã, por defender o capitalismo judaico e os cristãos novos; os</p><p>pequenos comerciantes, por defender um monopólio comercial; os</p><p>administradores e colonos, por defender os índios. Teve problemas</p><p>inclusive com a própria Inquisição que o condenou e o prendeu por</p><p>dois anos, sob a acusação da defesa de cristãos-novos.</p><p>Vieira pregou a todos, brancos, negros, índios, brasileiros e</p><p>portugueses. Fez de seus sermões sua principal arma para veicular</p><p>suas ideias, postas em prática na catequese, na defesa dos índios</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>09 BARROCO</p><p>9</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>e da colônia, quando da invasão holandesa. Quando no púlpito, o</p><p>padre tratava de todos os assuntos que envolviam e preocupavam</p><p>o auditório; tais encontros eram praticamente o único espaço</p><p>onde era possível informar-se e refletir sobre a conjuntura e os</p><p>acontecimentos da vida e do mundo. Em 1697, no colégio da Bahia,</p><p>Antônio Vieira faleceu, deixando mais de 500 cartas, 200 sermões</p><p>e três obras proféticas.</p><p>História do futuro, Esperanças de Portugal e Clavis Prophetarum</p><p>constituem as profecias de Vieira. Nelas, notam-se o sentimento</p><p>sebastianista e as esperanças de Portugal em tornar-se o Quinto</p><p>Império do Mundo, uma “interpretação” alegórica de uma profecia</p><p>bíblica. Esses textos demonstram o caráter nacionalista exagerado</p><p>e a servidão incondicional, típica dos jesuítas.</p><p>As cartas de Vieira dizem respeito ao relacionamento entre</p><p>Portugal e Holanda, à Inquisição e os cristãos-novos e, finalmente,</p><p>aos acontecimentos da colônia. Esses documentos possuem mais</p><p>valor histórico que propriamente literário.</p><p>A principal vertente da obra de Antônio Vieira, sem dúvida,</p><p>encontra-se em seus sermões. Produzidos no estilo conceptista,</p><p>são textos de brilhante retórica em que o pregador utiliza-se</p><p>da lógica e de uma expressão clara e singela para convencer,</p><p>apresentar e provar ideias e conceitos. Vieira pregou no Brasil, em</p><p>Portugal e na Itália, sempre com grande repercussão.</p><p>Foi, seguramente, um gênio da língua, obtendo efeitos</p><p>extraordinários, sem utilizar-se de exageros ou metáforas: um</p><p>discurso inventivo e original, de grande engenhosidade, com clara</p><p>construção discursiva, seguindo uma estrutura clássica:</p><p>• Introito, exórdio ou introdução – apresenta um tema</p><p>(normalmente um texto bíblico) em que se fundamenta</p><p>toda a argumentação, ligando-o à introdução do assunto</p><p>principal do sermão.</p><p>• Demonstração ou argumento – é o desenvolvimento</p><p>do tema, respondendo à questão levantada procurando</p><p>convencer o ouvinte. Apresenta argumentos e exemplos,</p><p>muitas vezes tirados da história ou da Antiguidade,</p><p>buscando ampliar os limites do texto.</p><p>• Peroração ou conclusão – procura despertar no ouvinte</p><p>sentimentos que decorram da argumentação.</p><p>Entre seus principais sermões, destacam-se:</p><p>• Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra</p><p>as de Holanda (Bahia, 1640) – coloca-se contrário à</p><p>invasão holandesa.</p><p>• Sermão do mandato (Capela Real de Lisboa, 1645) –</p><p>desenvolve o tema do amor místico.</p><p>• Sermão de Santo Antônio (aos peixes) (Maranhão, 1654)</p><p>– posiciona-se contrariamente à escravização dos índios.</p><p>• Sermão da Sexagésima (Capela Real de Lisboa, 1655) –</p><p>apresenta como tema a própria arte de pregar.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01.(UFV)</p><p>“Goza, goza da flor da mocidade,</p><p>que o tempo trota a toda ligeireza,</p><p>e imprime em toda flor sua pisada.</p><p>Ó, não aguardes que a madura idade</p><p>te converta essa flor, essa beleza,</p><p>em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.”</p><p>(Gregório de Matos)</p><p>Os tercetos acima ilustram:</p><p>a) caráter de jogo verbal próprio da poesia lírica do séc. XVI,</p><p>sustentando uma crítica à preocupação feminina com a beleza.</p><p>b) jogo metafórico do Barroco, a respeito da fugacidade da vida,</p><p>exaltando gozo do momento.</p><p>c) estilo pedagógico da poesia neoclássica, ratificando as</p><p>reflexões do poeta sobre as mulheres maduras.</p><p>d) as características de um romântico, porque fala de flores, terra,</p><p>sombras</p><p>02.(PUC) “Anjo no nome, Angélica na cara! Isso é ser flor, e Anjo</p><p>juntamente: Ser Angélica flor e Anjo florente, Em quem, senão em</p><p>vós, se uniformara?”</p><p>Na estrofe acima, o jogo de palavras:</p><p>a) é recurso de que se serve o poeta para satirizar os desmandos</p><p>dos governantes de seu tempo;</p><p>b) retrata o conflito vivido pelo homem barroco, dividido entre o</p><p>senso do pecado e o desejo de perdão;</p><p>c) expressa a consciência de que o poeta tem do efêmero da</p><p>existência e o horror pela morte;</p><p>d) revela a busca da unidade, por um espírito dividido entre o</p><p>idealismo e o apelo dos sentidos;</p><p>e) permite a manifestação do erotismo do homem, provocado</p><p>pela crença na efemeridade dos predicados físicos da natureza</p><p>humana.</p><p>03. (F. OBJETIVO-SP) Sobre Cultismo e Conceptismo, os dois aspectos</p><p>construtivos do Barroco, assinale a única alternativa incorreta.</p><p>a) O Cultismo opera através de analogias sensoriais, valorizando a</p><p>identificação dos seres por metáforas. O Conceptismo valoriza</p><p>a atitude intelectual, a argumentação.</p><p>b) Cultismo e Conceptismo são partes construtivas do Barroco</p><p>que não se excluem. É possível localizar no mesmo autor e até</p><p>no mesmo texto os dois elementos.</p><p>c) Cultismo é perceptível no rebuscamento da linguagem,</p><p>pelo abuso no emprego de figuras semânticas, sintáticas e</p><p>sonoras. O Conceptismo valoriza a atitude intelectual, o que se</p><p>concretiza no discurso pelo emprego de sofismas, silogismos,</p><p>paradoxos.</p><p>d) Cultismo na Espanha, Portugal e Brasil é também conhecido</p><p>como Gongorismo e seu mais ardente defensor, entre nós, foi</p><p>o Pe. Antônio Vieira, que, no Sermão da sexagésima, propõe a</p><p>primazia da palavra sobre a ideia.</p><p>04. (UFPR) O soneto “No fluxo e refluxo da maré encontra o</p><p>poeta incentivo pra recordar seus males”, de Gregório de Matos,</p><p>apresenta características marcantes do poeta e do período em que</p><p>ele o escreveu:</p><p>Seis horas enche e outras tantas vaza</p><p>A maré pelas margens do Oceano,</p><p>E não larga a tarefa um ponto no ano,</p><p>Depois que o mar rodeia, o sol abrasa.</p><p>Desde a esfera primeira opaca, ou rasa</p><p>A Lua com impulso soberano</p><p>Engole o mar por um secreto cano,</p><p>E quando o mar vomita, o mundo arrasa.</p><p>Muda-se o tempo, e suas temperanças.</p><p>Até o céu se muda, a terra, os mares,</p><p>E tudo está sujeito a mil mudanças.</p><p>Só eu, que todo o fim de meus pesares</p><p>Eram de algum minguante as esperanças,</p><p>Nunca o minguante vi de meus azares</p><p>PRÉ-VESTIBULAR10</p><p>LITERATURA 09 BARROCO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>De acordo com o poema, é correto afirmar:</p><p>a) A temática barroca do desconcerto do mundo está</p><p>representada no poema, uma vez que as coisas do mundo</p><p>estão em desarmonia entre si.</p><p>b) A transitoriedade das coisas terrenas está em oposição ao</p><p>caráter imutável do sujeito, submetido a uma concepção</p><p>fatalista do destino humano.</p><p>c) A concepção de um mundo às avessas está figurada no soneto</p><p>através da clara oposição entre o mar que tudo move e a lua</p><p>imutável.</p><p>d) A clareza empregada para exposição do tema reforça o ideal</p><p>de simplicidade e bucolismo da poesia barroca, cujo lema</p><p>fundamental era a aurea mediocritas.</p><p>e) A sintonia entre a natureza e o eu poético embasa as</p><p>personificações de objetos inanimados aliadas às hipérboles</p><p>que descrevem o sujeito.</p><p>05.(UFJF)</p><p>À cidade da Bahia</p><p>Triste Bahia! Ó quão dessemelhante</p><p>Estás e estou do nosso antigo estado!</p><p>Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,</p><p>Rica te vi eu já, tu a mi abundante.</p><p>A ti trocou-te a máquina mercante,</p><p>Que em tua larga barra tem entrado,</p><p>A mim foi-me trocando e tem trocado</p><p>Tanto negócio e tanto negociante.</p><p>Deste em dar tanto açúcar excelente</p><p>Pelas drogas inúteis, que abelhuda</p><p>Simples aceitas do sagaz Brichote.</p><p>Oh quisera Deus que de repente</p><p>Um dia amanheceras tão sisuda</p><p>Que fora de algodão o teu capote!</p><p>Matos, Gregório de. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p><p>O poema de Gregório de Matos é uma crítica ao:</p><p>a) renascimento cultural.</p><p>b) mercantilismo.</p><p>c) medievalismo.</p><p>d) preconceito racial.</p><p>e) aumento dos preços.</p><p>06. (IFB) Segundo Bosi</p><p>(2013), “na esteira do Camões épico e das</p><p>epopeias menores dos fins do século XVI, o poemeto em oitavas</p><p>heroicas publicado em 1601 pode ser considerado um primeiro</p><p>e canhestro exemplo de maneirismo nas letras da colônia”.</p><p>Considerando a literatura barroca no Brasil, tal excerto se refere a:</p><p>a) Prosopopeia, de Bento Teixeira.</p><p>b) “Triste Bahia”, de Gregório de Matos</p><p>c) Sermão da Sexagésima, de Antônio Vieira.</p><p>d) Música do Parnaso, de Botelho de Oliveira.</p><p>e) Sermão XIV do Rosário, de Antônio Vieira.</p><p>07. (UFSM) Por isto são maus ouvintes os de entendimentos</p><p>agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores,</p><p>porque um entendimento agudo pode-se ferir pelos mesmos fios</p><p>e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades</p><p>endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais,</p><p>porque quando as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se</p><p>despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas,</p><p>que ainda são piores que as pedras.</p><p>(Sermão da Sexagésima, de Pe. Antônio Vieira.)</p><p>Pelo trecho reproduzido, pode-se concluir que o Sermão da</p><p>Sexagésima trata da</p><p>a) problemática da pregação religiosa, considerando as figuras</p><p>dos pregadores e dos fiéis.</p><p>b) necessidade do engajamento dos fiéis nas batalhas contra</p><p>os holandeses.</p><p>c) perseguição sofrida pelo pregador em função do apoio que</p><p>emprestava a índios e negros.</p><p>d) exortação que o pregador fazia em favor de seu projeto de criar</p><p>a Campanha das Índias Ocidentais.</p><p>e) condenação aos governantes locais que desobedeciam aos</p><p>princípios do mercantilismo seiscentista.</p><p>08. (UEL) Identifique a afirmação que se refere a GREGÓRIO</p><p>DE MATOS.</p><p>a) No seu esforço de criação da comédia brasileira, realiza um</p><p>trabalho de crítica que encontra seguidores no Romantismo e</p><p>mesmo no restante do século XIX.</p><p>b) Sua obra é uma síntese singular entre o passado e o presente:</p><p>ainda tem os torneios verbais do quinhentismo português, mas</p><p>combina-os com a paixão das imagens pré-românticas.</p><p>c) Dos poetas arcádicos eminentes, foi sem dúvida o mais</p><p>liberal, o que mais claramente manifestou as ideias da</p><p>ilustração francesa.</p><p>d) Teve grande capacidade em fixar num lampejo os vícios, os</p><p>ridículos, os desmandos do poder local, valendo-se para isso</p><p>do engenho artificioso que caracterizava o estilo da época.</p><p>e) Sua famosa sátira à autoridade portuguesa na Minas do</p><p>chamado ciclo do ouro é prova de que seu talento não se</p><p>restringia ao lirismo amoroso.</p><p>09. (UNESP) Leia o soneto “Nasce o Sol, e não dura mais que um</p><p>dia”, do poeta Gregório de Matos (1636-1696), para responder à</p><p>questão a seguir:</p><p>Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,</p><p>Depois da Luz se segue a noite escura,</p><p>Em tristes sombras morre a formosura,</p><p>Em contínuas tristezas a alegria.</p><p>Porém, se acaba o Sol, por que nascia?</p><p>Se é tão formosa a Luz, por que não dura?</p><p>Como a beleza assim se transfigura?</p><p>Como o gosto da pena assim se fia?</p><p>Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,</p><p>Na formosura não se dê constância,</p><p>E na alegria sinta-se tristeza.</p><p>Começa o mundo enfim pela ignorância,</p><p>E tem qualquer dos bens por natureza</p><p>A firmeza somente na inconstância.</p><p>(Poemas escolhidos, 2010.)</p><p>O soneto de Gregório de Matos aproxima-se tematicamente da citação:</p><p>a) “Nada é duradouro como a mudança.” (Ludwig Börne, 1786-1837)</p><p>b) “Não se deve indagar sobre tudo: é melhor que muitas coisas</p><p>permaneçam ocultas.” (Sófocles, 496-406 a.C.)</p><p>c) “Nada é mais forte que o hábito.” (Ovídio, 43 a.C.-17 d.C.)</p><p>d) “A estrada do excesso conduz ao palácio da sabedoria.”</p><p>(William Blake, 1757-1827)</p><p>e) “Todos julgam segundo a aparência, ninguém segundo a</p><p>essência.” (Friedrich Schiller, 1759-1805)</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>09 BARROCO</p><p>11</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>10. (FC. CHAGAS) Assinale o texto que, pela linguagem e pelas idéias,</p><p>pode ser considerado como representante da corrente barroca.</p><p>a) "Brando e meigo sorriso se deslizava em seus lábios; os negros</p><p>caracóis de suas belas madeixas brincavam, mercê do Zéfiro,</p><p>sobre suas faces... e ela também suspirava."</p><p>b) "Estiadas amáveis iluminavam instantes de céus sobre ruas</p><p>molhadas de pipilos nos arbustos dos squares. Mas a abóbada</p><p>de garoa desabava os quarteirões."</p><p>c) "Os sinos repicavam numa impaciência alegre. Padre Antônio</p><p>continuou a caminhar lentamente, pensando que cem vezes</p><p>estivera a cair, cedendo à fatalidade da herança e à influência</p><p>do meio que o arrastavam para o pecado."</p><p>d) "De súbito, porém, as lancinantes incertezas, as brumosas</p><p>noites pesadas de tanta agonia, de tanto pavor de morte,</p><p>desfaziam-se, desapareciam completamente como os tênues</p><p>vapores de um letargo..."</p><p>e) "Ah! Peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural</p><p>irregularidade! A vossa bruteza é melhor que o meu alvedrio.</p><p>Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras:</p><p>eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória:</p><p>eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento:</p><p>eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade."</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. B</p><p>02. D</p><p>03. D</p><p>04. B</p><p>05. B</p><p>06. A</p><p>07. A</p><p>08. D</p><p>09. A</p><p>10. E</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>PRÉ-VESTIBULAR12</p><p>LITERATURA 09 BARROCO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>1ª SÉRIE 7SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>13 ARCADISMO: ARTE E</p><p>LITERATURA EUROPEIA</p><p>LITERATURA</p><p>OBJETIVOS</p><p>1. Ler e interpretar poemas modernos, à luz de conhecimentos recém-adquiridos de História da Arte;</p><p>2. Depreender que o Arcadismo faz parte da chamada literatura colonial brasileira (Quinhentismo, Barroco,</p><p>Neoclassicismo – Arcadismo);</p><p>3. Observar traços estilísticos neoclássicos e recursos poéticos.</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Na segunda metade do século XVIII, inicia-se uma forte reação contra o Barroco e o panorama ideológico que ele representava. A</p><p>arte setecentista cultiva a graciosidade e a leveza, utilizando linhas suavemente curvadas e tons esbatidos. Na pintura, as cenas são</p><p>sempre estilizadas em ambientes campestres, onde pastores e pastoras, ninfas e sátiros representam a superficialidade e a alegria</p><p>maliciosa dos salões aristocráticos. Na literatura, podemos observas as seguintes tendências:</p><p>• Arcadismo – Em sentido amplo, é a produção poética ligada às arcádias*; em sentido mais específico, refere-se ao ideal de</p><p>simplicidade e de naturalidade que se buscou nos temas bucólicos e pastoris convencionais, pela imitação de poetas latinos e</p><p>renascentistas.</p><p>*Arcádias – desde a fundação da Arcádia Romana (1690), as agremiações literárias (academias) passaram a receber estes</p><p>nomes: Arcádia Lusitana e Nova Arcádia (Portugal), Arcádia Ultramarina (Brasil).</p><p>• Neoclassicismo – No geral, o termo é usado em referência ao conjunto da produção artística da segunda metade do século</p><p>XVIII. Num sentido mais restrito, refere-se a uma tendência artísticas das últimas décadas do século XVIII e primeiras do XIX. A</p><p>arte neoclássica caracteriza-se pelo retorno ao equilíbrio clássico e pela imitação dos autores greco-latinos e renascentistas.</p><p>Valoriza a perfeição formal, cultua a grandiosidade, repudia a decoração supérflua e desenvolve temas mitológicos históricos.</p><p>• Pré-Romantismo – Concomitantemente ao florescimento do Neoclassicismo, o progressivo desgaste dos valores aristocráticos</p><p>leva muitos artistas e escritores a abandonarem as convenções classicizantes, imprimindo em suas obras certas características</p><p>que prenunciam o Romantismo do século XIX, como o emocionalismo e o pessimismo.</p><p>ARCADISMO: ARTE E LITERATURA</p><p>EUROPEIA</p><p>O Século das Luzes, como ficou conhecido os anos de 1700</p><p>é um período de aprofundamento às críticas ao Antigo Regime,</p><p>um período de transformação social, política e econômica. Um</p><p>período em que convivem o capitalismo comercial, o absolutismo,</p><p>o sistema colonial, a sociedade baseada em estamentos e o</p><p>surgimento de um conjunto de pensadores que iriam mudar para</p><p>sempre a história da humanidade.</p><p>Esses pensadores procuravam uma explicação racional</p><p>para o mundo, com fortes críticas ao pensamento religioso</p><p>representado pela Contrarreforma e introduziam ideias com a</p><p>finalidade de promover</p><p>melhorias das condições existenciais do</p><p>homem. Era, sobretudo, uma crítica burguesa à sociedade, uma</p><p>forma de afirmação de aquele modelo de organização social</p><p>não era justo e que precisava ser suplantado. Esse conjunto</p><p>de ideias ficou conhecido como Iluminismo. Os filósofos</p><p>iluministas afirmavam que a razão guiaria o homem para a</p><p>sabedoria, conduzindo-o à verdade. Assim, a razão era a fonte</p><p>de todo o conhecimento.</p><p>Ilustração inicial da Enciclopédia de Diderot e D’Alambert</p><p>1ª SÉRIESISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO8</p><p>LITERATURA 13 ARCADISMO: ARTE E LITERATURA EUROPEIA</p><p>A burguesia do século XVIII desenvolveu-se de maneira</p><p>exponencial, em especial promovendo grandes revoluções</p><p>tecnológicas que provocaram profundas mudanças na sociedade</p><p>europeia e firmaram o capitalismo como sistema de produção</p><p>dominante. A Revolução Industrial foi, sem dúvida, a mais</p><p>importante dessas revoluções, sendo responsável por significativas</p><p>mudanças na história da humanidade.</p><p>A evolução da tecnologia aplicada à produção de mercadorias</p><p>serviu para atender a um emergente mercado consumidor, que</p><p>se ampliou para uma revolução social, o que trouxe o surgimento</p><p>das relações de trabalho assalariadas, a substituição da energia</p><p>humana pela energia a vapor, a passagem de uma sociedade</p><p>estamental para uma sociedade de classes, dividida em burguesia</p><p>capitalista – dona do capital e dos meios de produção – e o</p><p>proletariado, dono exclusivamente de sua força de trabalho.</p><p>A influência da classe burguesa aumentava na sociedade, seu</p><p>poder econômico já era dominante e a arte influenciava-se com</p><p>suas ideias e propostas. Como “alternativa” social, a burguesia</p><p>se afastava da nobreza, com sua opulência e luxo exagerados.</p><p>Como contraponto, projetava uma vida simples e sem requintes,</p><p>ainda que essa não fosse a realidade de suas vidas. Entretanto,</p><p>essa imagem tornava-se um ideal agradável como mensagem,</p><p>uma promessa de que havia um mundo diferente, racional,</p><p>equilibrado e justo.</p><p>Contrariando a tendência do século XVII de ostentar igrejas e</p><p>palácios imponentes, o século XVIII apresenta casas mais simples</p><p>e belos jardins, anunciando um novo sentido de vida. Os materiais</p><p>mais simples entram em cena, as cores fortes e o rebuscamento</p><p>perdem seus lugares. O Arcadismo reflete a ideologia da classe</p><p>aristocrática em decadência e da alta burguesia, insatisfeitas com</p><p>o absolutismo real, e com as formas sociais de convivência rígidas,</p><p>artificiais e complicadas.</p><p>As mudanças estéticas apoiam-se na revolução filosófica</p><p>que representou o Iluminismo. Assim, o poder da razão suplanta</p><p>o sentimentalismo ou irracionalismo barroco: a razão é sinônimo</p><p>de verdade, em lugar das crenças religiosas passadas. As luzes</p><p>do esclarecimento ajudam os homens a entender o mundo e a</p><p>combater preconceitos. É por oposição ao pensamento anterior</p><p>que surge a tendência simplificar a arte. O Neoclassicismo, como</p><p>também é conhecido o período, é marcado pelo domínio da razão,</p><p>pela imitação dos clássicos e pela aproximação com a natureza.</p><p>A busca da simplicidade é um ideal árcade, que considera o</p><p>simples como verdadeiro, como racional. Não há diferença entre</p><p>simplicidade, verdade e razão. Como a simplicidade é a essência</p><p>do movimento, a imitação da natureza e dos padrões clássicos</p><p>torna-se o caminho para a arte. Lembremos que, nesse caso, imitar</p><p>significa seguir modelos e não copiar pura e simplesmente. Há um</p><p>conjunto de características dos artistas do arcadismo, as quais</p><p>ficaram conhecidas por seus nomes em latim.</p><p>AUREA MEDIOCRITAS</p><p>O Arcadismo propõe um retorno à ordem natural. Como na</p><p>literatura clássica, a natureza adquire um sentido de simplicidade,</p><p>harmonia e verdade. Cultua-se o “homem natural”, isto é, o homem</p><p>que “imita” a natureza em sua ordem e equilíbrio; condenando-</p><p>se, em contrário, toda ousadia, extravagância, exacerbação das</p><p>emoções. A expressão latina traduz-se como o equilíbrio de ouro.</p><p>LOCUS AMENUS</p><p>A integração entre o indivíduo e a paisagem física torna-se</p><p>um imperativo social, naquilo que se convencionou chamar de</p><p>bucolismo. Esta aproximação com o natural dá-se por meio de</p><p>uma literatura de caráter pastoril, representando a existência</p><p>de pastores e pastoras na paz do campo, entre ovelhinhas, que</p><p>significa exatamente um lugar ameno para os encontros amorosos.</p><p>Contudo, vale ressaltar que esse conceito não surgir da vivência</p><p>direta e real com natureza. A poesia campestre é meramente uma</p><p>convenção, ou seja, uma espécie de modismo de época a que todo</p><p>escritor deve se submeter.</p><p>FUGERE URBEM</p><p>O conceito de fuga da cidade representa o escape da própria</p><p>organização social. É na cidade que está a influência da nobreza, da</p><p>igreja, os impostos e tudo mais. O homem simples é o camponês,</p><p>daí a adoção do campo como forma de negar e contrapor a</p><p>vida luxosa e os desperdícios da nobreza, além das proibições</p><p>comportamentais impostas pela igreja. Fugir da cidade representa</p><p>tudo isso, ainda que, de fato, isso fosse apenas uma alegoria, não um</p><p>modelo de vida adotado pelos árcades. Sendo assim, os campos,</p><p>pastores e rebanhos são artificiais, são como meros cenários para</p><p>que o poeta possa refletir sobre o sentido da natureza. A fuga da</p><p>cidade representa um desejo, não uma condição real de vida dos</p><p>autores da época.</p><p>INUTILIA TRUNCAT</p><p>O que é inútil atrapalha, diz o conceito árcade. O artista dessa</p><p>época está preocupado em ser simples, racional, inteligível. E</p><p>para atingir esses requisitos exige-se a imitação dos autores</p><p>consagrados da Antiguidade, preferencialmente os pastoris. Só a</p><p>imitação dos clássicos asseguraria a vitalidade, o racionalismo e</p><p>a simplicidade da manifestação literária. Daí a contínua utilização</p><p>da mitologia clássica como recurso poético, representando outra</p><p>convenção, tornada obrigatória pelo prestígio dos modelos antigos.</p><p>A obrigatória utilização de imagens clássicas tradicionais</p><p>acaba criando uma poesia despersonalizada. Essa renúncia à</p><p>manifestação subjetiva leva o poeta ao universalismo, a expressar</p><p>sentimentos comuns, genéricos, médios, reduzindo suas criações</p><p>a fórmulas convencionais.</p><p>CARPE DIEM</p><p>Quando o poeta declara seu amor à pastora, faz de uma</p><p>maneira elegante e discreta, exatamente porque as regras desse</p><p>“jogo” exigem o respeito à etiqueta afetiva. Desta forma, o seu</p><p>“amor” pode ser apenas um fingimento, um artifício de imagens</p><p>repetitivas e banalizadas: é o convencionalismo amoroso que</p><p>marca o período. Ainda assim, o convite ao gozo da vida é cercado</p><p>de imediatismo, o carpe diem, expressão latina que significa</p><p>“aproveite o dia”. Esse conceito também era marca do barroco,</p><p>mas com outro sentido, a ideia de gozar o máximo dos prazeres</p><p>pelo medo da morte. No Arcadismo revela-se de maneira positiva:</p><p>aproveitar a vida por ser breve e o futuro incerto, mas sem o medo</p><p>e o tormento barrocos.</p><p>APPIANI, Andrea. Retrato de Josephine</p><p>Bonaparte de Beauharnais</p><p>1ª SÉRIE SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>13 ARCADISMO: ARTE E LITERATURA EUROPEIA</p><p>9</p><p>LITERATURA</p><p>Nas artes plásticas, percebe-se uma nítida retomada dos</p><p>valores renascentistas, com o aproveitamento das técnicas</p><p>desenvolvidas pelo estilo barroco. Assim, o equilíbrio, a harmonia e</p><p>a simetria – valores clássicos – são combinados com técnicas de</p><p>contraste e distribuição da luz.</p><p>As personagens retratadas, normalmente elementos da cultura</p><p>greco-romana, não se apresentam como figuras atormentadas,</p><p>mas em representações esculturais, como se posassem para a</p><p>representação. Em outros casos, a influência das técnicas barrocas</p><p>surge na representação dinâmica das cenas, sem, contudo, trazer a</p><p>carga dramática e os contrastes exagerados do barroco.</p><p>DAVID, Jacques-Louis. A morte de Sócrates</p><p>No Brasil, o Arcadismo teve como marco inicial a</p><p>publicação de “Obras Poéticas”, de Cláudio Manuel da Costa</p><p>em 1768 e, ademais, a fundação da “Arcádia Ultramarina”,</p><p>em Vila Rica. Vale lembrar que o nome dessa escola literária</p><p>provém das Arcádias, ou seja, das sociedades literárias da</p><p>época. Os principais escritores brasileiros</p><p>desse período são:</p><p>Cláudio Manuel da Costa, Santa Rita Durão, Basílio da Gama e</p><p>Tomás Antônio Gonzaga.</p><p>• Os autores árcades portugueses que merecem</p><p>destaque são: Manuel Maria Barbosa du Bocage,</p><p>António Dinis da Cruz e Silva, Correia Garção,</p><p>Marquesa de Alorna e Francisco José Freire.</p><p>• Outros escritores brasileiros que merecem destaque</p><p>são: Inácio José de Alvarenga Peixoto (1744-1793) e</p><p>Silva Alvarenga (1749-1814).</p><p>• Apesar de ser um poeta nascido em Portugal, a cidade</p><p>de Marília, no estado de São Paulo, recebe esse nome</p><p>em homenagem ao escritor Tomás Antônio Gonzaga.</p><p>SAIBA</p><p>PROTREINO</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>Começando pela leitura</p><p>LXII</p><p>Torno a ver-vos, ó montes; o destino</p><p>Aqui me torna a pôr nestes oiteiros;</p><p>Onde um tempo os gabões deixei grosseiros</p><p>Pelo traje da Côrte rico, e fino.</p><p>Aqui estou entre Almendro, entre Corino,</p><p>Os meus fiéis, meus doces companheiros,</p><p>Vendo correr os míseros vaqueiros</p><p>Atrás de seu cansado desatino.</p><p>Se o bem desta choupana pode tanto,</p><p>Que chega a ter mais preço, e mais valia,</p><p>Que da cidade o lisonjeiro encanto;</p><p>Aqui descanse a louca fantasia;</p><p>E o que té agora se tornava em pranto,</p><p>Se converta em afetos de alegria.</p><p>Cláudio Manuel da Costa</p><p>Ampliando conhecimentos</p><p>01. Como podemos caracterizar o eu-poético: urbano ou rural? E como</p><p>se sentia antes e depois de voltar? Justifique sua resposta.</p><p>02. Há dois conceitos importantes na poesia árcade: o fugere urbem,</p><p>isto é, a fuga da cidade e o aurea mediocritas, que valoriza uma</p><p>vida equilibrada, sem grandes luxos. Identifique no texto duas</p><p>passagens em que se percebam tais conceitos.</p><p>03. Identifique elementos da cultura clássica presentes no texto.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (ENEM) Soneto VII</p><p>Onde estou? Este sítio desconheço:</p><p>Quem fez tão diferente aquele prado?</p><p>Tudo outra natureza tem tomado;</p><p>E em contemplá-lo tímido esmoreço.</p><p>Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço</p><p>De estar a ela um dia reclinado:</p><p>Ali em vale um monte está mudado:</p><p>Quando pode dos anos o progresso!</p><p>Árvores aqui vi tão florescentes</p><p>Que faziam perpétua a primavera:</p><p>Nem troncos vejo agora decadentes.</p><p>Eu me engano: a região esta não era;</p><p>Mas que venho a estranhar, se estão presentes</p><p>Meus males, com que tudo degenera.</p><p>(COSTA, C.M. Poemas. Disponível em www.dominiopublico.gov.br. Acesso em 7 jul 2012)</p><p>1ª SÉRIESISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO10</p><p>LITERATURA 13 ARCADISMO: ARTE E LITERATURA EUROPEIA</p><p>No soneto de Claudio Manuel da Costa, a contemplação da</p><p>paisagem permite ao eu lírico uma reflexão em que transparece</p><p>uma</p><p>a) angústia provocada pela sensação de solidão.</p><p>b) resignação diante das mudanças do meio ambiente.</p><p>c) dúvida existencial em face do espaço desconhecido.</p><p>d) intenção de recriar o passado por meio da paisagem.</p><p>e) empatia entre os sofrimentos do eu e a agonia da terra.</p><p>02. (UFV) Leia o texto a seguir e faça o que se pede:</p><p>Ornemos nossas testas com as flores</p><p>E façamos de feno um brando leito;</p><p>Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,</p><p>Gozemos do prazer de sãos amores.</p><p>Sobre as nossas cabeças,</p><p>Sem que o possam deter, o tempo corre,</p><p>E para nós o tempo, que se passa,</p><p>Também, Marília, morre.</p><p>(TAG, MD, Lira XIV)</p><p>Todas as alternativas a seguir apresentam características do</p><p>Arcadismo, presentes na estrofe anterior, EXCETO:</p><p>a) Ideal de ÁUREA MEDIOCRIDADE, que leva o poeta a exaltar o</p><p>cotidiano prosaico da classe média.</p><p>b) Tema do CARPE DIEM - uma proposta para se aproveitar a</p><p>vida, desfrutando o ócio com dignidade.</p><p>c) Ideal de uma existência tranquila, sem extremos, espelhada na</p><p>pureza e amenidade da natureza.</p><p>d) Fugacidade do tempo, fatalidade do destino, necessidade de</p><p>envelhecer com sabedoria.</p><p>e) Concepção da natureza como permanente reflexo dos</p><p>sentimentos e paixões do “eu” lírico.</p><p>03. (FGV)</p><p>[4]</p><p>Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,</p><p>que viva de guardar alheio gado,</p><p>de tosco trato, de expressões grosseiro,</p><p>dos frios gelos e dos sóis queimado.</p><p>Tenho próprio casal1 e nele assisto2 ;</p><p>dá-me vinho, legume, fruta, azeite;</p><p>das brancas ovelhinhas tiro o leite,</p><p>e mais as finas lãs, de que me visto.</p><p>Graças, Marília bela,</p><p>graças à minha estrela!</p><p>(...)</p><p>[5]</p><p>Tu não verás, Marília, cem cativos</p><p>tirarem o cascalho e a rica terra,</p><p>ou dos cercos dos rios caudalosos,</p><p>ou da minada serra.</p><p>Não verás separar ao hábil negro</p><p>do pesado esmeril a grossa areia,</p><p>e já brilharem os granetes de oiro</p><p>no fundo da bateia3 .</p><p>(...)</p><p>Não verás enrolar negros pacotes</p><p>das secas folhas do cheiroso fumo;</p><p>nem espremer entre as dentadas rodas</p><p>da doce cana o sumo.</p><p>Verás em cima da espaçosa mesa</p><p>altos volumes4 de enredados feitos;</p><p>ver-me-ás folhear os grandes livros,</p><p>e decidir os pleitos.</p><p>Enquanto revolver os meus consultos,</p><p>tu me farás gostosa companhia,</p><p>lendo os fastos da sábia, mestra História,</p><p>e os cantos da poesia.</p><p>Tomás A. Gonzaga, Marília de Dirceu.</p><p>Glossário:</p><p>1 casal: pequena propriedade rural.</p><p>2 assisto: resido, moro.</p><p>3 bateia: utensílio empregado no garimpo; espécie de gamela.</p><p>4 altos volumes: referência a processos judiciais, pois o poeta</p><p>era magistrado.</p><p>Nesses excertos, Dirceu apresenta a Marília alguns dos argumentos</p><p>com que pretende convencê-la a desposá-lo, bem como lhe sugere</p><p>uma imagem de sua vida conjugal futura.</p><p>Considerando-se o teor dos argumentos e das imagens aí</p><p>presentes, pode-se concluir corretamente que</p><p>a) a relação amorosa proposta pelo poeta passa pelo crivo da</p><p>racionalidade e do cálculo.</p><p>b) as preocupações pecuniárias do eu lírico revelam que ele visa</p><p>antes ao dote que à dama.</p><p>c) o poeta trata de seduzir a dama interesseira, expondo-lhe o rol</p><p>de seus bens.</p><p>d) o poeta acena à amada com um futuro conjugal aventuroso e</p><p>movimentado.</p><p>e) as imagens idílicas que o eu lírico emprega remetem, de modo</p><p>cifrado, a interesses eróticos inconfessáveis.</p><p>04. (UNESP)</p><p>[18]</p><p>Não vês aquele velho respeitável,</p><p>que à muleta encostado,</p><p>apenas mal se move e mal se arrasta?</p><p>Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo,</p><p>o tempo arrebatado,</p><p>que o mesmo bronze gasta!</p><p>Enrugaram-se as faces e perderam</p><p>seus olhos a viveza:</p><p>voltou-se o seu cabelo em branca neve;</p><p>já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo,</p><p>nem tem uma beleza</p><p>das belezas que teve.</p><p>Assim também serei, minha Marília,</p><p>daqui a poucos anos,</p><p>que o ímpio tempo para todos corre.</p><p>Os dentes cairão e os meus cabelos.</p><p>1ª SÉRIE SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>13 ARCADISMO: ARTE E LITERATURA EUROPEIA</p><p>11</p><p>LITERATURA</p><p>Ah! sentirei os danos,</p><p>que evita só quem morre.</p><p>Mas sempre passarei uma velhice</p><p>muito menos penosa.</p><p>Não trarei a muleta carregada,</p><p>descansarei o já vergado corpo</p><p>na tua mão piedosa,</p><p>na tua mão nevada.</p><p>As frias tardes, em que negra nuvem</p><p>os chuveiros não lance,</p><p>irei contigo ao prado florescente:</p><p>aqui me buscarás um sítio ameno,</p><p>onde os membros descanse,</p><p>e ao brando sol me aquente.</p><p>Apenas me sentar, então, movendo</p><p>os olhos por aquela</p><p>vistosa parte, que ficar fronteira,</p><p>apontando direi: — Ali falamos,</p><p>ali, ó minha bela,</p><p>te vi a vez primeira.</p><p>Verterão os meus olhos duas fontes,</p><p>nascidas de alegria;</p><p>farão teus olhos ternos outro tanto;</p><p>então darei, Marília, frios beijos</p><p>na mão formosa e pia,</p><p>que me limpar o pranto.</p><p>Assim irá, Marília, docemente</p><p>meu corpo suportando</p><p>do tempo desumano a dura guerra.</p><p>Contente morrerei, por ser Marília</p><p>quem, sentida, chorando</p><p>meus baços olhos cerra.</p><p>(Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu e mais poesias.</p><p>Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1982.)</p><p>No conteúdo da quinta estrofe do poema encontramos uma das</p><p>características mais marcantes do Arcadismo:</p><p>a) paisagem bucólica.</p><p>b) pessimismo irônico.</p><p>c) conflito dos elementos naturais.</p><p>d) filosofia moral.</p><p>e) desencanto com o amor.</p><p>05. (UNESP) Os autores deste movimento pregavam a simplicidade,</p><p>quer nos temas de suas composições, quer como sistema de vida:</p><p>aplaudindo os que, na Antiguidade e na Renascença, fugiam ao</p><p>burburinho citadino para se isolar nas vilas, pregavam a “áurea</p><p>mediocridade”, a dourada mediania existencial, transcorrida sem</p><p>sobressaltos, sem paixões ou desejos. Regressar à Natureza,</p><p>fundir-se nela, contemplar-lhe a quietude permanente, buscar</p><p>as verdades que lhe são imanentes – em suma, perseguir a</p><p>naturalidade como filosofia de vida.</p><p>(Massaud Moisés. Dicionário de termos literários, 2004. Adaptado.)</p><p>O comentário do crítico Massaud Moisés refere-se ao seguinte</p><p>movimento literário:</p><p>a) Arcadismo.</p><p>b) Simbolismo.</p><p>c) Romantismo.</p><p>d) Barroco.</p><p>e) Naturalismo.</p><p>06. (UFRS) Soneto XIII</p><p>Cláudio Manuel da Costa</p><p>Nise? Nise? onde estás? Aonde espera</p><p>Achar-te uma alma, que por ti suspira,</p><p>Se quanto a vista se dilata, e gira,</p><p>Tanto mais de encontrar-te desespera!</p><p>Ah, se ao menos teu nome ouvir pudera</p><p>Entre esta aura suave, que respira!</p><p>Nise, cuido que diz; mas é mentira.</p><p>Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.</p><p>Grutas, troncos, penhascos de espessura,</p><p>Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,</p><p>Mostrai, mostrai-me a sua formosura.</p><p>Nem ao menos o eco me responde!</p><p>Ah como é certa a minha desventura!</p><p>Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?</p><p>No soneto, o sujeito lírico dirige-se, mediante o vocativo,</p><p>a) somente a Nise.</p><p>b) à aura e ao eco.</p><p>c) a Nise, à aura, a grutas, a troncos e a penhascos de espessura.</p><p>d) à aura, a grutas, a troncos e a penhascos de espessura.</p><p>e) a Nise, a grutas, a troncos e a penhascos de espessura.</p><p>07. (UFMG) Leia o soneto que se segue, de Cláudio Manuel da Costa.</p><p>Pastores, que levais ao monte o gado,</p><p>Vede lá como andais por essa serra;</p><p>Que para dar contágio a toda a terra,</p><p>Basta ver-se o meu rosto magoado:</p><p>Eu ando (vós me vedes) tão pesado;</p><p>E a pastora infiel, que me faz guerra,</p><p>É a mesma, que em seu semblante encerra</p><p>A causa de um martírio tão cansado.</p><p>Se a quereis conhecer, vinde comigo,</p><p>Vereis a formosura, que eu adoro;</p><p>Mas não; tanto não sou vosso inimigo:</p><p>Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro;</p><p>Que se seguir quiserdes, o que eu sigo,</p><p>Chorareis, ó pastores, o que eu choro.</p><p>Todas as alternativas contêm afirmações corretas sobre esse</p><p>soneto, EXCETO</p><p>a) O poema opõe um estilo de vida simples a um estilo de vida</p><p>dissimulado.</p><p>b) A palavra “guerra” enfatiza a recusa da pastora a corresponder</p><p>aos afetos do poeta.</p><p>c) O sentido da visão é o predominante em todas as estrofes do</p><p>poema.</p><p>d) A expressão “para dar contágio a toda a terra” revela a</p><p>intensidade do sofrimento do pastor.</p><p>1ª SÉRIESISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO12</p><p>LITERATURA 13 ARCADISMO: ARTE E LITERATURA EUROPEIA</p><p>08. (ITA)</p><p>Torno a ver-vos, ó montes; o destino</p><p>Aqui me torna a pôr nestes oiteiros;</p><p>Onde um tempo os gabões deixei grosseiros</p><p>Pelo traje da Corte rico, e fino.</p><p>Aqui estou entre Almendro, entre Corino,</p><p>Os meus fiéis, meus doces companheiros,</p><p>Vendo correr os míseros vaqueiros</p><p>Atrás de seu cansado desatino.</p><p>Se o bem desta choupana pode tanto,</p><p>Que chega a ter mais preço, e mais valia,</p><p>Que da Cidade o lisonjeiro encanto;</p><p>Aqui descanse a louca fantasia;</p><p>E o que té agora se tornava em pranto,</p><p>Se converta em afetos de alegria.</p><p>Dadas as asserções:</p><p>I. O poema manifesta o conflito do poeta, homem nativista</p><p>provinciano, ligado à terra natal, cuja formação superior deu-se</p><p>na metrópole.</p><p>II. O poema mostra como o autor soube explorar a característica</p><p>principal do Arcadismo: a celebração da vida urbana pelo</p><p>intelectual, consciente das dificuldades da vida no campo.</p><p>III. O poema manifesta a preocupação do poeta com os problemas</p><p>sociais da época: transferência de riquezas da colônia para a</p><p>metrópole, oriundas da pecuária e empobrecimento do homem</p><p>do campo.</p><p>está(ão) correta(s):</p><p>a) Apenas a I.</p><p>b) Apenas a II.</p><p>c) I e II.</p><p>d) I e III.</p><p>e) II e III.</p><p>09. (UEL) Tomás Antônio Gonzaga certamente adotou os valores</p><p>da poesia neoclássica, mas em MARÍLlA DE DIRCEU:</p><p>a) percebe-se o quanto o poeta desprezava as convenções do</p><p>bucolismo literário.</p><p>b) ainda ocorrem torneios de linguagem nitidamente barrocos.</p><p>c) a sátira ao Governador de Minas faz lembrar os momentos</p><p>mais ferinos de Gregório de Matos.</p><p>d) a convenção bucólica combina-se com um confessionalismo</p><p>amoroso que já foi reconhecido como pré-romântico.</p><p>e) a amada do poeta deixa de ser associada à figura convencional</p><p>da pastora.</p><p>10. (UEL)</p><p>Sou pastor; não te nego; os meus montados</p><p>São esses, que aí vês; vivo contente</p><p>Ao trazer entre a relva florescente</p><p>A doce companhia do meu gado.</p><p>Nos versos anteriores, de Cláudio Manuel da Costa, exemplifica-se</p><p>o seguinte traço da lírica arcádica:</p><p>a) valorização das circunstâncias biográficas do poeta.</p><p>b) imaginação delirante de paisagens exóticas.</p><p>c) valorização das classes humildes, opostas às aristocráticas.</p><p>d) representação da natureza amena e do sentimento bucólico.</p><p>e) representação da natureza como espelho das fortes paixões.</p><p>EXERCÍCIOS PRO</p><p>01. (CENTEC-BAHIA) Assinale a alternativa correta.</p><p>“Minha bela Marília, tudo passa;</p><p>a sorte deste mundo é mal segura;</p><p>se vem depois dos males a ventura,</p><p>vem depois dos prazeres a desgraça.</p><p>Estão os mesmos deuses</p><p>sujeitos ao poder do ímpio fado:</p><p>Apolo já fugiu do céu brilhante,</p><p>já foi pastor de gado.”</p><p>A única ideia não expressa pelo poeta, nesse texto, é:</p><p>a) a vida é breve e a felicidade inconstante.</p><p>b) os prazeres da vida vêm, sempre, seguidos da desventura.</p><p>c) os homens e os deuses estão sujeitos às mesmas leis.</p><p>d) destino determina a existência humana.</p><p>e) a existência é considerada sob o prisma da religiosidade.</p><p>02. (UECE) Considerando que, durante o Barroco, os poetas</p><p>escreviam praticamente para si mesmos e que, no Arcadismo, a</p><p>intenção é divulgar as ideias em textos acessíveis ao maior número</p><p>de leitores, identifique as características desses estilos, listadas a</p><p>seguir, escrevendo (1) para as características do Barroco e (2) para</p><p>as características do Arcadismo.</p><p>( ) Volta à Idade Média.</p><p>( ) Volta ao Renascimento.</p><p>( ) Autêntico, ainda que paradoxal.</p><p>( ) Celeste, espiritual, místico.</p><p>( ) Campestre, pastoril, bucólico.</p><p>( ) Todo conhecimento vem da experiência e da reflexão.</p><p>A sequência correta, de cima para baixo, é:</p><p>a) 2, 1, 2, 1, 2, 1.</p><p>b) 1, 2, 2, 1, 2, 2.</p><p>c) 2, 2, 1, 2, 1, 1.</p><p>d) 1, 2, 1, 1, 2, 2.</p><p>03. (CESPE)</p><p>10A2BBB</p><p>Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro,</p><p>fui honrado pastor da tua aldeia;</p><p>vestia finas lãs e tinha sempre</p><p>a minha choça do preciso cheia.</p><p>Tiraram-me o casal e o manso gado,</p><p>nem tenho a que me encoste um só cajado.</p><p>Para ter que te dar, é que eu queria</p><p>de mor rebanho ainda ser o dono;</p><p>prezava o teu semblante, os teus cabelos</p><p>ainda muito mais que um grande trono.</p><p>Agora que te oferte já não vejo,</p><p>além de um puro amor, de um são desejo.</p><p>Se o rio levantado me causava,</p><p>levando a sementeira, prejuízo,</p><p>eu alegre ficava, apenas via</p><p>na tua breve boca um ar de riso.</p><p>Tudo agora perdi; nem tenho o gosto</p><p>de ver-te ao menos compassivo o rosto.</p><p>Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu. In: A. Candido e A. Castello. Presença da</p><p>literatura brasileira. Das origens ao Romantismo. São Paulo: Difel, 1976, p. 165-6.</p><p>1ª SÉRIE SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>13 ARCADISMO: ARTE E LITERATURA EUROPEIA</p><p>13</p><p>LITERATURA</p><p>A principal característica árcade presente nas estrofes do texto</p><p>10A2BBB é</p><p>a) o sofrimento amoroso, que restringe o poema ao mundo</p><p>interior do eu lírico e o distancia da realidade material.</p><p>b) a predominância da atmosfera bucólica e pastoril, que confere</p><p>aos versos um efeito de simplicidade clássica.</p><p>c) a presença da herança clássica, que se traduz na constante</p><p>evocação dos deuses greco-romanos.</p><p>d) o preciosismo do vocabulário, que, por vezes, dificulta a</p><p>compreensão do texto pelo leitor.</p><p>e) o dilaceramento do eu lírico entre a simplicidade da vida</p><p>campestre e o conforto da vida na cidade.</p><p>04. (IFSC)</p><p>52 Obrei quanto o discurso me guiava, ouvia aos sábios,</p><p>quando errar temia; aos bons no gabinete o peito abria, na rua a</p><p>todos como iguais tratava.</p><p>Julgando os crimes, nunca voto dava mais duro ou pio do que</p><p>a lei pedia; mas devendo salvar ao justo, ria, e devendo punir ao</p><p>réu, chorava.</p><p>Não foram, Vila Rica, os meus projetos meter em férreo cofre</p><p>cópia d’oiro que farte aos filhos e que chegue aos netos;</p><p>Outras são as fortunas que me agoiro: ganhei saudades, adquiri</p><p>afetos, vou fazer destes bens melhor tesoiro.</p><p>(GONZAGA, Tomás Antônio. In: Marília de Dirceu e Cartas Chilenas.</p><p>São Paulo: Editora Ática, 1997, p. 80).</p><p>Tomás Antônio Gonzaga,</p><p>QUESTÕES 7 E 8</p><p>GAVETA DOS GUARDADOS</p><p>1A memória é a gaveta dos guardados. Nós somos o que</p><p>somos, não o que virtualmente seríamos capazes de ser.</p><p>2Minha bagagem são os meus sonhos. Fui o poeta das ruas,</p><p>das vielas silenciosas do Rio, antes que se tornasse uma cidade</p><p>assolada pela violência. Sempre fui ligado à terra, ao meu pátio.</p><p>3No Rio Grande do Sul estou no colo da mãe. Creio que minha fase</p><p>atual, neste momento, em 1993, reflete a eterna solidão do homem.</p><p>4A obra só se completa e vive quando expressa. Nos meus</p><p>quadros, o ontem se faz presente no agora. Lanço-me na pintura e</p><p>na vida por inteiro, como um mergulhador na água. A arte é também</p><p>história. E expressa a nossa humanidade. A arte é intemporal, embora</p><p>guarde a fisionomia de cada época. Conheci em Paris um escultor</p><p>brasileiro, bolsista, que não frequentava museus para não perder a</p><p>personalidade, esquecendo que só se perde o que se tem.(...)</p><p>5A memória é a gaveta dos guardados, repito para sublinhar. O</p><p>clima dos meus quadros vem da solidão da campanha, do campo,</p><p>onde fui guri e adolescente. Na velhice perde-se a nitidez da visão</p><p>e se aguça a do espírito.</p><p>6A memória pertence ao passado. É um registro. Sempre que</p><p>a evocamos, se faz presente, mas permanece intocável, como um</p><p>sonho. A percepção do real tem a concreteza, a realidade física,</p><p>tangível. Mas como os instantes se sucedem feito os tique-taques</p><p>do relógio, eles vão se transformando em passado, em memória,</p><p>e isso é tão inaferrável* como um instante nos confins do tempo.</p><p>7Escrever pode ser, ou é, a necessidade de tocar a realidade que</p><p>é a única segurança de nosso estar no mundo - o existir. É difícil,</p><p>se não impossível, precisar quando as coisas começam dentro de</p><p>nós. (...)</p><p>8A vida dói... Para mim o tempo de fazer perguntas passou.</p><p>Penso numa grande tela que se abre, que se me oferece intocada,</p><p>virgem. A matéria também sonha. Procuro a alma das coisas. Nos</p><p>meus quadros o ontem se faz presente no agora. A criação é um</p><p>desdobramento contínuo, em uníssono com a vida. O auto-retrato</p><p>do pintor é pergunta que ele faz a si mesmo, e a resposta também</p><p>é interrogação. A verdade da obra de arte é a expressão que ela nos</p><p>transmite. Nada mais do que isso!</p><p>FOLHA DE SÃO PAULO, 09/05/1998</p><p>(CAMARGO, Iberê. In: NESTROVSKI, Arthur (Org.). "Figuras do Brasil: 80 autores em 80</p><p>anos de Folha". São Paulo: Publifolha, 2001.)</p><p>A memória é a gaveta dos guardados.</p><p>07. (UERJ)</p><p>A frase acima expressa a importância das experiências</p><p>individuais na criação artística. A passagem do texto em que mais</p><p>facilmente se percebe o vínculo entre memória e obra de arte é:</p><p>a) “A obra só se completa e vive quando expressa.”</p><p>b) “Nos meus quadros, o ontem se faz presente no agora.”</p><p>c) “Lanço-me na pintura e na vida por inteiro.”</p><p>d) “A percepção do real tem a concreteza, a realidade física.”</p><p>08. (UERJ) Escrever pode ser, ou é, a necessidade de tocar a</p><p>realidade que é a única segurança de nosso estar no mundo</p><p>– o existir. É difícil, se não impossível, precisar quando as coisas</p><p>começam dentro de nós.</p><p>Esse parágrafo relaciona-se com o parágrafo anterior pela</p><p>associação de:</p><p>a) registro e dor.</p><p>b) texto e verdade.</p><p>c) escrita e passado.</p><p>d) literatura e solidão.</p><p>09. (UERJ)</p><p>Porque a realidade é inverossímil</p><p>Escusando-me1 por repetir truísmo2 tão martelado, mas movido</p><p>pelo conhecimento de que os truísmos são parte inseparável da boa</p><p>retórica narrativa, até porque a maior parte das pessoas não sabe</p><p>ler e é no fundo muito ignorante, rol no qual incluo arbitrariamente</p><p>você, repito o que tantos já dizem e vivem repetindo, como quem</p><p>usa chupetas: a realidade é, sim, muitíssimo mais inacreditável</p><p>do que qualquer ficção, pois esta requer uma certa arrumação</p><p>falaciosa3, a que a maioria dá o nome de verossimilhança. Mas ocorre</p><p>precisamente o oposto. Lê-se ficção para fortalecer a noção estúpida</p><p>de que há sentido, lógica, causa e efeito lineares e outros adereços que</p><p>integrariam a vida. Lê-se ficção, ou mesmo livros de historiadores ou</p><p>jornalistas, por insegurança, porque o absurdo da vida é insuportável</p><p>para a vastidão dos desvalidos que povoa a Terra.</p><p>(João Ubaldo Ribeiro. Diário do Farol. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.)</p><p>Glossário:</p><p>1escusando-me: desculpando-me</p><p>2truísmo: verdade trivial, lugar comum</p><p>3falaciosa: enganosa, ilusória</p><p>"os truísmos são parte inseparável da boa retórica narrativa, até</p><p>porque a maior parte das pessoas não sabe ler" (l. 1-3)</p><p>O narrador justifica a necessidade de truísmos pela dificuldade de</p><p>leitura da maior parte das pessoas.</p><p>Encontra-se implícita no argumento a noção de que o leitor</p><p>iniciante lê melhor se:</p><p>a) estuda autores clássicos;</p><p>b) conhece técnicas literárias;</p><p>c) identifica ideias conhecidas;</p><p>d) procura textos recomendados.</p><p>10. (UERJ)</p><p>(…) Não resguardei os apontamentos obtidos em largos dias</p><p>e meses de observação: num momento de aperto fui obrigado a</p><p>atirá-los na água. Certamente me irão fazer falta, mas terá sido</p><p>uma perda irreparável?</p><p>Quase me inclino a supor que foi bom privar-me desse material.</p><p>Se ele existisse, ver-me-ia propenso a consultá-lo a cada instante,</p><p>mortificar-me-ia por dizer com rigor a hora exata de uma partida,</p><p>quantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido, em manhã</p><p>de bruma, a cor das folhas que tombavam das árvores, num pátio</p><p>branco, a forma dos montes verdes, tintos de luz, frases autênticas,</p><p>gestos, gritos, gemidos. Mas que significa isso?</p><p>Essas coisas verdadeiras não ser verossímeis. E se</p><p>esmoreceram, deixá-las no esquecimento: valiam pouco, pelo</p><p>menos imagino que valiam pouco. Outras, porém, conservaram-se,</p><p>cresceram, associaram-se, e é inevitável mencioná-las. Afirmarei</p><p>que sejam absolutamente exatas? Leviandade.</p><p>(…) Nesta reconstituição de fatos velhos, neste esmiuçamento,</p><p>exponho o que notei, o que julgo ter notado. Outros devem possuir</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>01 OS HOMENS, A ARTE E A LITERATURA</p><p>9</p><p>LITERATURA</p><p>lembranças diversas. Não as contesto, mas espero que não</p><p>recusem as minhas: conjugam-se, completam-se e me dão hoje</p><p>impressão de realidade (…)</p><p>(RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio, São Paulo: Record, 1984.)</p><p>O fragmento transcrito expressa uma reflexão do autor-narrador</p><p>quanto à escrita de seu livro contando a experiência que viveu</p><p>como preso político, durante o Estado Novo.</p><p>No que diz respeito às relações entre escrita literária e realidade, é</p><p>possível depreender, da leitura do texto, a seguinte característica</p><p>da literatura:</p><p>a) revela ao leitor vivências humanas concretas e reais.</p><p>b) representa uma conscientização do artista sobre a realidade.</p><p>c) dispensa elementos da realidade social exterior à arte literária.</p><p>d) constitui uma interpretação de dados da realidade conhecida.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. A</p><p>02. C</p><p>03. E</p><p>04. E</p><p>05. A</p><p>06. D</p><p>07. B</p><p>08. C</p><p>09. C</p><p>10. D</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO10</p><p>LITERATURA 01 OS HOMENS, A ARTE E A LITERATURA</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 11SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>GÊNEROS LITERÁRIOS E A</p><p>CONSTRUÇÃO DO HERÓI02</p><p>Os gêneros não são leis nem regras fixas, mas categorias</p><p>relativas dentro das quais cada escritor se move à vontade:</p><p>elas é que estão a serviço dele, não ele a serviço delas.</p><p>(Massaud Moisés)</p><p>Assim como grande parte das questões relacionadas à</p><p>literatura, a reflexão sobre os gêneros literários assemelha-se a uma</p><p>tentativa de teorizar sobre assuntos em constante mutabilidade.</p><p>A visão que temos sobre literatura ou artes de forma geral deve</p><p>estar sempre vinculada às condições históricas e sociais de cada</p><p>lugar e de cada tempo. E sabemos que o tempo muda e que essa</p><p>mudança implica novas visões de mundo, novas formas de tratar</p><p>a realidade que nos circunda. Como consequência, novos olhares</p><p>sobre a literatura e seus gêneros.</p><p>Para nós, da civilização ocidental, a arte tem como referência</p><p>a Grécia antiga e seus pensadores. E a partir de suas ideias, os</p><p>gêneros da literatura têm sido estudados. Discípulo de Platão, que</p><p>distinguia apenas poesia</p><p>também conhecido pelo nome poético</p><p>de Dirceu, é classificado, pela historiografia da literatura brasileira,</p><p>como um escritor pertencente ao Arcadismo. Tendo em vista</p><p>a leitura do poema acima, a afirmação em destaque pode ser</p><p>comprovada por quê? Assinale a resposta CORRETA.</p><p>a) os poetas árcades, apesar de burgueses, privilegiavam os</p><p>sentimentos em vez dos valores materiais, reflexão presente</p><p>no segundo terceto do poema.</p><p>b) os poetas árcades propunham como ideal uma vida em</p><p>tranquilidade, junto à natureza, exemplificada no primeiro</p><p>terceto do poema.</p><p>c) os poetas árcades inspiraram-se na literatura da Antiguidade</p><p>Clássica, e o tema da mitologia está em evidência no poema.</p><p>d) os poetas árcades recuperaram valores neoclássicos, como</p><p>o carpe diem, aproveitar o momento presente, o qual está</p><p>enunciado no segundo quarteto do poema.</p><p>e) os poetas árcades valeram-se do conceito de aurea</p><p>mediocritas, certos da felicidade que lhes traz cada instante,</p><p>reflexão presente no último terceto do poema.</p><p>05. (VUNESP) Leia o soneto de Cláudio Manuel da Costa para</p><p>responder à questão.</p><p>Se sou pobre pastor, se não governo</p><p>Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;</p><p>Se em frio, calma, e chuvas inclementes</p><p>Passo o verão, outono, estio, inverno;</p><p>Nem por isso trocara o abrigo terno</p><p>Desta choça, em que vivo, coas enchentes</p><p>Dessa grande fortuna: assaz presentes</p><p>Tenho as paixões desse tormento eterno.</p><p>Adorar as traições, amar o engano,</p><p>Ouvir dos lastimosos o gemido,</p><p>Passar aflito o dia, o mês, e o ano;</p><p>Seja embora prazer; que a meu ouvido</p><p>Soa melhor a voz do desengan</p><p>Que da torpe lisonja o infame ruído.</p><p>(Biblioteca Virtual de Literatura. Em: www.biblio.com.br)</p><p>A característica árcade que norteia o estabelecimento de sentidos</p><p>no poema é:</p><p>a) inutilia truncat, ou cortar o que seja inútil, propondo que as</p><p>paixões pessoais devem sobrepor-se às paixões coletivas.</p><p>b) aurea mediocritas, ou equilíbrio do ouro, propondo que a</p><p>simplicidade deve sobrepor-se ao luxo e à ostentação.</p><p>c) fugere urbem, ou fugir da cidade, propondo que a vida no</p><p>campo pode ser tão mais atrativa e rica que a do meio urbano.</p><p>d) locus amoenus, ou lugar ameno/agradável, propondo que o</p><p>verdadeiro líder governa do campo, longe das atribulações.</p><p>e) carpe diem, ou aproveitar o presente, propondo que os prazeres</p><p>mundanos devem ser explorados intensamente.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROTREINO</p><p>01. É um vaqueiro, um homem rural que se sentia infeliz (“em pranto”, “louca fantasia”)</p><p>mas que está agora contente (“afetos de alegria”).</p><p>02. Fugere urbem: “Que chega a ter mais preço, e mais valia,/Que da cidade o lisonjeiro</p><p>encanto;”</p><p>Aurea mediocritas: ”Se o bem desta choupana pode tanto,/Que chega a ter mais preço, e</p><p>mais valia,/Que da cidade o lisonjeiro encanto;”</p><p>03. A referência aos pastores Almendro e Corino.</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. E</p><p>02. A</p><p>03. A</p><p>04. A</p><p>05. A</p><p>06. E</p><p>07. A</p><p>08. A</p><p>09. D</p><p>10. D</p><p>EXERCÍCIOS PRO +</p><p>01. E 02. D 03. B 04. A 05. B</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>1ª SÉRIESISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO14</p><p>LITERATURA 13 ARCADISMO: ARTE E LITERATURA EUROPEIA</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 21SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>ROMANTISMO11</p><p>MOMENTO HISTÓRICO</p><p>A ascensão da burguesia europeia é um processo que</p><p>teve início no século XVI culminando na Revolução Francesa,</p><p>de 1789. Na França, a derrota da aristocracia permitiu não só</p><p>extinguir os privilégios da nobreza e do clero, mas, sobretudo,</p><p>derrubar as barreiras então existentes entre as classes sociais.</p><p>Com isso, surgiu uma nova concepção de mundo, de sociedade</p><p>e do próprio homem, baseada na livre iniciativa, exaltando</p><p>a audácia, a competência e os méritos de cada indivíduo,</p><p>independentemente de seus títulos e seus antepassados.</p><p>O período, especialmente o último quarto do século XVII, foi</p><p>bastante agitado politicamente, merecendo destaque três momen-</p><p>tos importantes: Revolução Industrial, a Revolução Francesa e a</p><p>Independência dos Estados Unidos.</p><p>A Revolução Industrial teve papel importante na modificação</p><p>dos meios de produção e foi um dos fatores que possibilitou a</p><p>ascensão econômico-financeira da burguesia, especialmente na</p><p>Inglaterra. O processo de industrialização modificou as antigas</p><p>relações econômicas e estabeleceu em toda a Europa outros</p><p>modelos de pensamento e cultura, baseados na visão de uma nova</p><p>classe dominante, a burguesia industrial.</p><p>A burguesia, que já tinha o poder econômico em suas mãos,</p><p>passou a ambicionar também o poder político destacando-</p><p>se cada vez mais no quadro social. Isso explica a intensa</p><p>intervenção na cultura da época, buscando a modificação de</p><p>padrões, possibilitando um novo status quo, dessa vez favorável</p><p>ao modelo burguês.</p><p>A Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos</p><p>explicitam de maneira categórica e factual os ideais liberais e até onde</p><p>iria o ímpeto burguês pela conquista de maior espaço político. Estava</p><p>derrotado o absolutismo monárquico e sua visão feudal do mundo.</p><p>HOUËL, Jean-Pierre. A tomada da Bastilha, 1789</p><p>Como efeito dessa mudança de visão, a liberdade de</p><p>expressão ganhou vida, possibilitando o surgimento de escritores,</p><p>dizendo o que pensam, refletindo sobre a vida e criando novos</p><p>mundos. Por meio do esforço de alfabetização empreendido pelos</p><p>revolucionários, todo cidadão ganhou acesso à leitura, levando</p><p>ao surgimento de um novo público leitor, diversificado e sem</p><p>nenhuma identificação com a arte neoclássica que predominava</p><p>anteriormente. A arte também se tornava mercadoria.</p><p>A consciência da liberdade criou no interior de cada artista um</p><p>sentimento de alívio e euforia, já que não havia mecenas aos quais</p><p>deviam sujeitar sua arte. Por outro lado, surgiu também o temor,</p><p>por estar lançado em um mercado desconhecido. A exaltação do</p><p>caráter quase sagrado da obra de arte criou a contradição entre</p><p>a concepção artística e sua participação no mundo dos negócios.</p><p>O Romantismo é, sem dúvida a expressão artística da</p><p>sociedade burguesa, uma espécie de liberalismo na literatura. É</p><p>um estilo comprometido com a nova visão de mundo, uma arte da</p><p>burguesia, pela burguesia, para a burguesia.</p><p>O PENSAMENTO ROMÂNTICO</p><p>A construção do pensamento romântico incorporou as</p><p>visões dos grandes pensadores burgueses da época. A teoria do</p><p>“bom selvagem”, defendida pelo filósofo Jean-Jacques Russeau,</p><p>bem como a valorização dos elementos folclóricos, nacionais e</p><p>populares em contraposição ao universalismo clássico, defendido</p><p>pelo movimento alemão Tempestade e Ímpeto, são exemplos</p><p>de como o Romantismo espelhava de maneira cristalina o</p><p>pensamento burguês.</p><p>No plano estético específico do Romantismo, a contribuição</p><p>de Johann Wolfgang Göethe é de fundamental importância, pois</p><p>introduz as bases de um novo espírito de época: o exagero da</p><p>imaginação e o transbordamento dos sentimentos. Seu romance</p><p>Werther, que em parte era autobiográfico, conta os sofrimentos do</p><p>jovem personagem-título.</p><p>AMBERG, Wilhelm. Jovens lendo Werther de Goethe, 1870.</p><p>A história, violentamente romântica, combina paixão e morte,</p><p>explora o conflito por que passa o rapaz, loucamente apaixonado</p><p>por uma moça comprometida. Werther, sentindo-se culpado pela</p><p>paixão proibida, muda-se para outra região em busca de calar seus</p><p>sentimentos. Todavia, sua paixão lhe vence e o faz regressar ao</p><p>lugar de toda sua dor: sua amada, antes até mesmo receptiva ao</p><p>sentimento do rapaz, mostra-se constrangida e nervosa. Seu marido</p><p>toma-se de ciúmes por Werther que, apesar de perceber, continua</p><p>fazendo a corte platônica de sua amada. No último encontro, os</p><p>amantes se beijam, mas sua amada o repele, entre o amor e a</p><p>cólera, dizendo que nunca mais quer vê-lo. Assim, atormentado,</p><p>Werther se convence da impossibilidade da concretização de seu</p><p>amor, restando-lhe uma única alternativa, o suicídio.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR22</p><p>:</p><p>LITERATURA 11 ROMANTISMO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>O romance de Göethe torna-se um verdadeiro marco do</p><p>Romantismo, obtendo uma enorme repercussão em toda a Europa.</p><p>Mais ainda, a obra desencadeia uma onda de suicídios na Europa,</p><p>causados</p><p>pela identificação dos jovens leitores com a paixão não</p><p>correspondida de Werther, chegando a ser proibida em alguns países.</p><p>ALÉM DAS FOLHAS DE PAPEL</p><p>O Romantismo não foi um movimento exclusivamente literário,</p><p>manifestando-se na música, através de grandes compositores</p><p>como Beethoven e Tchaikovsky. A democratização da cultura</p><p>atingiu também a música, fazendo surgir os concertos para o</p><p>grande público. A ópera popularizou-se de maneira espantosa,</p><p>reunindo a música e o teatro, especialmente na Itália, com Verdi e</p><p>na Alemanha, com Wagner.</p><p>Nas artes plásticas, pintores como Géricault, Delacroix e</p><p>Hayez, entre tantos outros, demonstraram o sentimentalismo e o</p><p>nacionalismo, por meio de contrastes violentos de luz e sombra e</p><p>de distribuição intensa das cores.</p><p>DELACROIX, Eugène. A liberdade guiando o povo, 1830.</p><p>O termo romântico, que desde o início do século XVIII já ganhava</p><p>espaço no vocabulário francês referindo-se ao romance como</p><p>gênero narrativo, ganhou novos sentidos, separando o romanesco</p><p>(relativo ao romance) e romântico (aplicado a paisagens e estados</p><p>de espírito). Por fim, o termo Romantismo, indicador do período</p><p>artístico, surgiu na Alemanha, disseminando-se pelo resto do</p><p>mundo com o sentido de anticlássico. Sem sombra de dúvida, o</p><p>Romantismo constitui-se em uma poderosa e revolução artística</p><p>que alteraria para sempre a cultura ocidental.</p><p>CARACTERÍSTICAS DO ROMANTISMO</p><p>A arte clássica sempre sujeitou-se a normas, padrões e modelos</p><p>preestabelecidos. Mas, com a liberdade de expressão alcançada</p><p>pela sociedade burguesa, todas as fôrmas temáticas e obrigações</p><p>estéticas foram destruídas. A partir desse momento, qualquer</p><p>pessoa poderia elaborar objetos artísticos, obedecendo apenas aos</p><p>comandos de sua própria inspiração. É evidente que tal liberação</p><p>romântica foi parcial, já que o pensamento e comportamento</p><p>da época provocaram inibições, repressões e estilos que se</p><p>transformaram em “novas regras” para o ato escrever.</p><p>Individualismo e subjetivismo</p><p>A nova concepção burguesa do homem e da sociedade</p><p>valorizou a expressão individual, a iniciativa, a concorrência,</p><p>baseando-se nas chances de autorrealização do indivíduo. O</p><p>Romantismo, reflexo de tal pensamento, valorizou o particular, o</p><p>singular, as individualides.</p><p>Não são raras as vezes que a figura do poeta foi divinizada,</p><p>tornando-se a expressão de um ser diferente, tocado pelos</p><p>deuses da inspiração, que o levam à criação artística. Contudo,</p><p>essa expressão individual levou por outras vezes a um poeta com</p><p>alma esmagada pela solidão e pela brutalidade do mundo. Muita</p><p>dessa concepção advém da desilusão com a nova sociedade, de</p><p>uma percepção da mediocridade burguesa, voltada apenas para o</p><p>acúmulo de capitais.</p><p>Essa melancolia, que traduz na expressão dos poetas, introduziu</p><p>a valorização do lado sombrio e inútil da existência, características</p><p>românticas que persistem até os dias de hoje. Por fim, há artistas</p><p>que não se encaixam no mundo em que vivem, fechando-se em si</p><p>mesmos, em uma espécie de compensação. Daí surgem as sensações</p><p>de estranhamento, as ameaças de caos, os estados de êxtase, uma</p><p>personagem angustiada, orgulhosamente afirmativa de sua imagem e,</p><p>ao mesmo tempo, infantil, incapaz de transformar o mundo.</p><p>GÉRICAULT, Théodore. A balsa da Medusa, 1818-1819</p><p>Sentimentalismo</p><p>Não há dúvida de que os sentimentos no Romantismo foram</p><p>mais importantes do que a racionalidade. Só há sentido na existência</p><p>se esta guiar-se e desenvolver-se sob o domínio dos sentimentos.</p><p>Os românticos apresentaram obsessões sentimentais que</p><p>acabaram por dar uma nova significação às paixões humanas: um</p><p>amor profundo, intenso, delicado, mas desmedido e arrebatador;</p><p>um amor ideal e infinito, exclusivo e febril, que persiste ainda na</p><p>mente de muitos apaixonados do século XXI.</p><p>HAYEZ, Francesco. O beijo, 1857</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>11 ROMANTISMO</p><p>23</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Culto à natureza</p><p>O culto à natureza é uma das características mais marcantes</p><p>da estética romântica, pois a natureza exerce profundo fascínio</p><p>sobre os escritores, que nela enxergam o oposto da civilização que</p><p>os oprime. Esse encontro com a natureza ganha ares de reencontro</p><p>com o próprio eu, aumentando a sensibilidade, relacionando-a com</p><p>seu próprio mundo interior.</p><p>Os poetas românticos produzem uma subjetivização do</p><p>mundo natural, no qual tais elementos apresentam significação</p><p>poética, sejam as horas do dia, as estações do ano, o sol, a lua, a</p><p>chuva, o mar, a montanha, a floresta ou o campo; não se tratam</p><p>de simples cenários, mas de um magnífico espetáculo que traduz</p><p>os dramas humanos. A natureza humaniza-se ou, até mesmo,</p><p>diviniza-se. Os eventos naturais servem para indicar estados de</p><p>espírito e sentimentos, funcionando como um prolongamento</p><p>do eu: a chuva pode ser a extensão do choro do poeta, e assim</p><p>por diante.</p><p>Além disso, não desprendendo-se de algumas características</p><p>clássicas e neoclássicas, a natureza pode surgir também como</p><p>confidente e musa de inspirações. É como uma mãe que protege</p><p>seu filho dos desconcertos do universo, das desventuras da vida e</p><p>o consola nos momentos de tristeza.</p><p>Excentricidade</p><p>O Romantismo tem predileção pelo exótico, pelo excêntrico,</p><p>chegando a beirar o melodramático, o mórbido, o grotesco ou o</p><p>histérico. Assim, não são incomuns temas trágicos, catástrofes,</p><p>monstros e seres fantásticos.</p><p>LEIGHTON, Frederic. O pescador e a sereia, 1856-1858.</p><p>Evasão</p><p>O artista romântico mostra-se inconformado com o mundo em</p><p>que vive, por isso é comum que busque escapar dele de alguma</p><p>forma. Já que a sociedade não quer escutá-lo ou compreendê-lo,</p><p>já que não consegue mudar seu destino, resta ao poeta apenas a</p><p>fuga. Essa tentativa pode se manifestar de diversas formas, por</p><p>isso as diversas formas de evasão: o sonho, a fantasia, o culto do</p><p>passado, a infância e, por fim, a morte.</p><p>A forma mais comum de evasão é baseada no princípio da</p><p>fantasia. O artista cria universos imaginários onde pode encontrar</p><p>tudo aquilo que lhe falta ou lhe é negado pela sociedade real. O</p><p>sonho não é somente uma fonte de inspirar a criação artística,</p><p>senão também uma forma de resposta aos problemas do mundo.</p><p>FRIEDERICH, Caspar David. O peregrino sobre o mar de névoa, 1818</p><p>Essa forma idealizada de escapar do mundo real pode ganhar</p><p>ares de exagero, como no “mal do século”, uma espécie de</p><p>“enfermidade moral” pela qual passam os poetas. Essa “doença”</p><p>do espírito é resultado do tédio, do aborrecimento provocado pela</p><p>percepção de que não há grandeza alguma na existência cotidiana,</p><p>isto é, na própria mediocridade da vida burguesa e, também, no</p><p>vazio dos corações juvenis.</p><p>Para escapar de seu tempo, o romântico pode também</p><p>encontrar no passado os ideais sublimes e os valores modelares</p><p>que faltam à sociedade em que vive. Essa evasão pode se dar por</p><p>meio da volta a um passado histórico, grandioso, mitificado por</p><p>heróis e perfeições; ou de maneira individual, valorizando a infância,</p><p>época em que os problemas não existiam e a vida era simples e</p><p>plena de felicidade.</p><p>A ESTÉTICA ROMÂNTICA</p><p>A expressão artística romântica privilegia a inspiração em lugar</p><p>da pesquisa formal. Por isso, a poesia não apresenta um padrão</p><p>métrico, rítmico e rímico, indicando a liberdade de composição</p><p>conquistada pelos poetas. Os adjetivos são usados de maneira</p><p>emblemática, ampliando a conotação emotiva das palavras, de</p><p>forma a criar idealizações na linguagem que possam traduzir o</p><p>exagero temático a que se propõem os artistas.</p><p>A exaltação retórica vem acompanhada por uma enxurrada</p><p>de interjeições e exclamações, contribuindo para a impressão de</p><p>uma linguagem grandiloquente, de ênfase declamatória e que está</p><p>sempre em busca do sublime. A utilização de metáforas, hipérboles</p><p>e outras figuras é recorrente tanto na poesia quanto na prosa, que</p><p>chega, por vezes, a aproximar um gênero de outro. As imagens</p><p>são criadas com simbologia própria, predominando elementos</p><p>extraídos de fenômenos naturais e de suas paisagens, como</p><p>florestas, rios</p><p>caudalosos, tempestades, tufões etc.</p><p>CABANEL, Alexandre. Ophelia, 1883</p><p>PRÉ-VESTIBULAR24</p><p>:</p><p>LITERATURA 11 ROMANTISMO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>O ROMANTISMO NO BRASIL</p><p>O Romantismo brasileiro nasce das possibilidades que surgem</p><p>com a chegada da família real em 1808. A urbanização do Rio de</p><p>Janeiro e o contato com a corte propiciam o campo necessário</p><p>à divulgação das influências europeias. Tais ideais de autonomia</p><p>e respirando-se um ar notadamente nacionalista, a colônia</p><p>caminhava rumo a sua independência.</p><p>Após a Independência, cresce ainda mais o sentimento</p><p>nacionalista e intensificam-se tendências já cultivadas na Europa,</p><p>como a busca do passado histórico e a exaltação da natureza.</p><p>Aliado a esses fatores, havia enorme interesse da novo governo em</p><p>ofuscar as crises sociais, financeiras e econômicas geradas por</p><p>nossa separação da corte portuguesa.</p><p>DEBRET, Jean-Baptiste. Coroação de D. Pedro I, 1828.</p><p>A política nacional passava por um momento conturbado:</p><p>o autoritarismo de D. Pedro I, representada pela dissolução do</p><p>Congresso e pela outorga de uma Constituição, a luta pelo trono</p><p>português que acaba por aclamá-lo Pedro IV, a Confederação</p><p>do Equador e a abdicação. Sem contar o assassinato de Líbero</p><p>Badaró, o período regencial e a prematura maioridade de D. Pedro II.</p><p>Contudo, a independência política teve suas consequências</p><p>socioculturais: surgem as instituições universitárias e um público</p><p>leitor. Os escritores são os principais intérpretes dos anseios desse</p><p>novo quadro social. E foi assim, nos folhetins que o Romantismo</p><p>ganhou corpo e conquistou mentes e corações dessa nova geração</p><p>leitora, formada, em especial, por senhoras ricas da sociedade e</p><p>estudantes que agora fervilhavam na capital.</p><p>Os valores do Romantismo europeu adequavam-se às</p><p>exigências ideológicas dos escritores brasileiros, opondo-se à</p><p>arte clássica, que, por estas terras, era sinônimo de dominação</p><p>portuguesa. O Romantismo voltava-se para a natureza, para o</p><p>exótico, encontrando aqui uma natureza exuberante, própria à</p><p>grandiloquência do estilo. Tudo contribuía para os maiores delírios</p><p>ufanistas que uma jovem pátria poderia proporcionar.</p><p>PORTO-ALEGRE, Araújo. Selva brasileira, sem data.</p><p>GÊNESE ROMÂNTICO</p><p>A publicação, em Paris, da revista Niterói (1836) foi o grande</p><p>passo para a deflagração do movimento romântico. A revista</p><p>estampava em sua primeira página: “Tudo pelo Brasil e para o</p><p>Brasil”. A produção foi elaborada por intelectuais que estudavam</p><p>na Europa, propondo a investigação “das letras, artes e ciências</p><p>brasilienses”. Um desses jovens, Gonçalves de Magalhães, lançaria</p><p>no mesmo ano o livro que é considerado o marco do Romantismo</p><p>no Brasil: Suspiros poéticos e saudades.</p><p>Capa da revista Niterói, publicada em Paris no ano de 1836</p><p>Contudo, o projeto dos autores românticos não se realizou</p><p>completamente, já que seus princípios “nacionalistas” estavam, em</p><p>maior ou menor grau, comprometidos com uma visão europeia de</p><p>mundo. Esse nacionalismo, feito de imagens exteriores, continha</p><p>mais paisagem do que qualquer ideologia.</p><p>Além disso, os escritores desse primeiro momento viviam à</p><p>sombra do poder, exercendo importantes cargos políticos, como</p><p>ministros, secretários, embaixadores, burocratas do alto escalão.</p><p>Esse fato certamente os comprometeu com a classe dominante,</p><p>daí fugirem da escravidão e da pobreza, ignorando os privilégios</p><p>das elites e a miséria das ruas, ou mesmo a violência que já se</p><p>espalhava pelas ruas das nossas cidades. Talvez tenha sido esse</p><p>um pensamento de mercado, tendo em vista que ele apenas</p><p>correspondiam às expectativas de seus leitores. A celebração do</p><p>idílio e da natureza, a mitificação das regiões e do índio, criava uma</p><p>arte conservadora, muito ao gosto do público que a consumia.</p><p>AS FASES ROMÂNTICAS</p><p>O estudo do Romantismo pode ser divido em três gerações</p><p>distintas, sem que isso signifique uma separação rígida entre</p><p>elas. Devemos entender que cada autor passeia pelas gerações</p><p>assumindo com maior ou menor intensidade características em</p><p>voga na época. É fundamental perceber que há também uma</p><p>grande diferença entre as obras produzidas em prosa e poesia,</p><p>já que adotam características distintas, atendendo a interesses</p><p>específicos no quadro de leitores.</p><p>Esses três momentos distintos caracterizam-se por apresentar</p><p>temas e visões de mundo diferenciadas. Cada geração assume</p><p>uma perspectiva própria, embora sejam todas elas marcadas pelo</p><p>caráter romântico. Contudo, os elementos que definem cada uma</p><p>delas não lhes são exclusivos, demonstrando pontos de contato de</p><p>forma bastante acentuada.</p><p>A primeira geração é chamada de nacionalista ou de indianista.</p><p>Nela, revela-se com intensidade o sentimento nacionalista,</p><p>marcadamente a saudade da Pátria, a valorização da natureza,</p><p>um retorno à religiosidade cristã. Além disso desenvolve-se uma</p><p>espécie de novo amor cortês, platônico e impossível, retomando</p><p>as novelas de cavalaria europeias da Idade Média. O índio surge</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>11 ROMANTISMO</p><p>25</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>nesse contexto como o verdadeiro herói nacional, muito em razão</p><p>de substituir figura do cavaleiro medieval, inexistente na história</p><p>brasileira. Esse índio apresenta valores clássicos e comportamento</p><p>europeu.</p><p>A segunda geração, subjetivista, ficou conhecida como</p><p>Ultrarromantismo ou Mal-do-século. Influenciados pelo poeta</p><p>Inglês Lord Byron, a geração também leva a alcunha de byronista.</p><p>Os poetas ultrarromânticos abordavam os temas do tédio, da</p><p>morte, do suicídio, das sombras, da dor e do sofrimento. O medo de</p><p>amar era constante e levava à evasão poética. Tais fugas levavam</p><p>a lugares exóticos, à própria infância e, mais comumente, à morte.</p><p>PHILLIPS, Thomas. Lord Byron em trajes albaneses, 1813</p><p>A terceira geração é marcada por uma forte preocupação</p><p>social, influenciada pelos movimentos abolicionista e republicano</p><p>que ganhavam força no cenário político. A geração condoreira,</p><p>como ficou conhecida, faz a denúncia da escravidão, defende as</p><p>causas humanitárias, canta a liberdade, opõe-se à monarquia. No</p><p>campo dos sentimentos, a sensualidade volta à tona e surge um</p><p>amor erótico, possível de se realizar. É, em verdade, um momento</p><p>de transição do Romantismo para o movimento Realista que já</p><p>começa a se manifestar em alguns autores.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (UEL) “Malditos românticos, que têm crismado tudo e trocado</p><p>em seu crismar os nomes que melhor exprimem as ideias!... O que</p><p>outrora as chamava em bom português, moça feia, os reformadores</p><p>dizem menina simpática!... O que numa moça era antigamente,</p><p>desenxabimento, hoje é ao contrário: sublime languidez!... Já não há</p><p>mais meninas importunas e vaidosas... As que o foram chamamse</p><p>agora espirituosas!... A escola dos românticos reformou tudo isso,</p><p>em consideração ao belo sexo.”</p><p>(MACEDO, Joaquim Manuel de. “A Moreninha”. São Paulo: FTD, 1991. p.31.)</p><p>De acordo com o texto e considerando o período em que a obra foi</p><p>escrita, é correto afirmar:</p><p>a) A figura de linguagem utilizada no texto para se referir ao</p><p>modo como as mulheres passam a ser tratadas pelos artistas</p><p>românticos é a hipérbole, que consiste no exagero com o</p><p>intuito de realçar uma ideia.</p><p>b) O termo “românticos”, utilizado no texto, diz respeito a estado</p><p>de espírito, desviando-se do movimento artístico dominante na</p><p>primeira metade do século XIX brasileiro</p><p>c) O movimento romântico teve caráter contestador, trazendo</p><p>mudanças não somente para a arte como também para o</p><p>comportamento.</p><p>d) Percebe-se, no texto, forte influência do Positivismo, pois o</p><p>personagem preocupa-se com a maneira através da qual os</p><p>escritores românticos referem-se às mulheres.</p><p>e) A referência ao modo de tratar a figura feminina exprime uma</p><p>tentativa de aproximar dois polos considerados inconciliáveis e</p><p>opostos, denotando profundo gosto pelo paradoxal e antitético.</p><p>02. (PUC-PR)</p><p>“Quando eu te fujo e me desvio cauto</p><p>Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,</p><p>Contigo dizes, suspirando amores:</p><p>"- Meu Deus! Que gelo,</p><p>que frieza aquela!"</p><p>Como te enganas! Meu amor é chama</p><p>Que se alimenta no voraz segredo,</p><p>E se te fujo é que te adoro louco...</p><p>És bela - eu moço; tens amor - eu medo!...”</p><p>(Casimiro de Abreu, “Amor e medo”)</p><p>Assinale o sentimento dos artistas românticos do século XIX</p><p>expresso nos versos citados:</p><p>a) sentimento de desencontro amoroso devido à frieza de um</p><p>dos amantes.</p><p>b) receio de declarar-se devido à oposição da sociedade.</p><p>c) trata do sentimento amoroso enquanto um paradoxo, pois se</p><p>mostra indefinível e confuso. d) a impossibilidade de amar tem</p><p>como justificativa o temor de assumir o sentimento.</p><p>d) o amor existe entre os dois namorados, mas o rapaz teme que</p><p>o prazer sensual destrua o sentimento amoroso.</p><p>03. (UNESP) A poesia dos antigos era a da posse, a dos novos</p><p>é a da saudade (e anseio); aquela se ergue, firme, no chão do</p><p>presente; esta oscila entre recordação e pressentimento. O ideal</p><p>grego era a concórdia e o equilíbrio perfeitos de todas as forças;</p><p>a harmonia natural. Os novos, porém, adquiriram a consciência</p><p>da fragmentação interna que torna impossível este ideal; por</p><p>isso, a sua poesia aspira a reconciliar os dois mundos em que</p><p>se sentem divididos, o espiritual e o sensível, fundindo-os de um</p><p>modo indissolúvel. Os antigos solucionam a sua tarefa, chegando</p><p>à perfeição; os novos só pela aproximação podem satisfazer o seu</p><p>anseio do infinito.</p><p>(August Schlegel apud Anatol Rosenfeld. Texto/Contexto I, 1996. Adaptado.)</p><p>Os “novos” a que se refere o escritor alemão August Schlegel são</p><p>os poetas</p><p>a) românticos.</p><p>b) modernistas.</p><p>c) árcades.</p><p>d) clássicos.</p><p>e) naturalistas.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR26</p><p>:</p><p>LITERATURA 11 ROMANTISMO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>04. (ENEM)</p><p>DAVID, J.L-. Napoleão cruzando os Alpes. Óleo sobre tela. 271 cm x 232xm.</p><p>Museu de Versalhes, Paris, 1801.</p><p>A pintura Napoleão cruzando os Alpes, do artista francês Jacques</p><p>Louis-David, produzida em 1801, contempla as características de</p><p>um estilo que</p><p>a) utiliza técnicas e suportes artísticos inovadores.</p><p>b) reflete a percepção da população sobre a realidade.</p><p>c) caricaturiza episódios marcantes da história europeia.</p><p>d) idealiza eventos históricos pela ótica de grupos dominantes.</p><p>e) compõe obras com base na visão crítica de artistas consagrados.</p><p>05. (UFV) Assinale a alternativa falsa:</p><p>a) Romantismo, como estilo, não é modelado pela individualidade</p><p>do autor; a forma predomina sempre sobre o conteúdo.</p><p>b) Romantismo é um movimento de expressão universal, inspirado</p><p>nos modelos medievais e unificado pela prevalência de</p><p>características comuns a todos os escritores da época.</p><p>c) Romantismo, como estilo de época, consistiu basicamente</p><p>num fenômeno estético-literário desenvolvido em oposição ao</p><p>intelectualismo e à tradição racionalista e clássica do século XVIII.</p><p>d) Romantismo, ou melhor, o espírito romântico, pode ser</p><p>sintetizado numa única qualidade: a imaginação. Pode-se</p><p>creditar à imaginação a capacidade extraordinária dos</p><p>românticos de criarem mundos imaginários.</p><p>e) Romantismo caracterizou-se por um complexo de características,</p><p>como o subjetivismo, o ilogismo, o senso de mistério, o exagero,</p><p>o culto da natureza e o escapismo.</p><p>06. (FGV) 1Era no tempo do rei.</p><p>Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da</p><p>Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo -</p><p>O canto dos meirinhos -; e bem lhe assentava o nome, porque era</p><p>aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe</p><p>(que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos</p><p>de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos</p><p>do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável</p><p>e respeitada; formavam um dos extremos da formidável 2cadeia</p><p>judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a</p><p>3demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto</p><p>eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes,</p><p>tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual se passavam os</p><p>terríveis combates das 4citações, provarás, 5razões principais e</p><p>finais, e todos esses 6trejeitos judiciais que se chamava o processo.</p><p>Daí sua influência moral.</p><p>Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.</p><p>Já na frase de abertura das Memórias de um sargento de milícias</p><p>– “Era no tempo do rei.” (ref. 1) –, que remete ao mesmo tempo à</p><p>abertura-padrão dos contos da carochinha e ao período joanino da</p><p>história do Brasil, manifestam-se as duas modalidades do tempo</p><p>presentes nessa obra: uma, de caráter lendário e intemporal e,</p><p>outra, de caráter histórico bem determinado.</p><p>O convívio dessas duas modalidades do tempo indica que, do</p><p>ponto de vista dessa obra, a história brasileira caracterizou-se pela</p><p>conjunção de</p><p>a) mudança e imobilismo.</p><p>b) realismo e alucinação.</p><p>c) religiosidade e materialismo.</p><p>d) liberdade e opressão.</p><p>e) localismo e cosmopolitismo.</p><p>07. (UFRGS) Assinale a alternativa correta sobre autores do</p><p>Romantismo brasileiro.</p><p>a) Gonçalves Dias, autor dos célebres Canção do exílio e I-Juca-</p><p>Pirama, dedicou a maioria de seus poemas à temática da</p><p>escravidão.</p><p>b) Joaquim Manuel de Macedo, em A Moreninha, afasta-se da</p><p>estética romântica em muitos pontos, especialmente no tom</p><p>paródico adotado pelo narrador que ridiculariza a sociedade</p><p>burguesa fluminense.</p><p>c) Álvares de Azevedo, em A noite na taverna, desvincula-se do</p><p>nacionalismo paisagista e indianista e ingressa no universo</p><p>juvenil da angústia, do erotismo e do sarcasmo.</p><p>d) Manuel Antônio de Almeida, em Memórias de um sargento de</p><p>milícias, vincula-se à estética romântica, em especial porque</p><p>se centra em personagens da classe média urbana fluminense.</p><p>e) Castro Alves é o principal poeta do indianismo romântico, pois</p><p>toma o índio como figura prototípica da nacionalidade.</p><p>08. (ENEM) O último longa de Carlão acompanha a operária</p><p>Silmara, que vive com o pai, um ex-presidiário, numa casa da</p><p>periferia paulistana. Ciente de sua beleza, o que lhe dá certa</p><p>soberba, a jovem acredita que terá um destino diferente do de suas</p><p>colegas. Cruza o caminho de dois cantores por quem é apaixonada.</p><p>E constata, na prática, que o romantismo dos contos de fada tem</p><p>perna curta.</p><p>(VOMERO, M. F. Romantismo de araque. Vida Simples, n. 121, ago. 2012.)</p><p>Reconhece-se, nesse trecho, uma posição crítica aos ideais de</p><p>amor e felicidade encontrados nos contos de fada. Essa crítica é</p><p>traduzida</p><p>a) pela descrição da dura realidade da vida das operárias.</p><p>b) pelas decepções semelhantes às encontradas nos contos de</p><p>fada.</p><p>c) pela ilusão de que a beleza garantiria melhor sorte na vida e</p><p>no amor.</p><p>d) pelas fantasias existentes apenas na imaginação de pessoas</p><p>apaixonadas.</p><p>e) pelos sentimentos intensos dos apaixonados enquanto vivem</p><p>o romantismo.</p><p>09. (ENEM)</p><p>TEXTO I</p><p>A canção do africano</p><p>Lá na úmida senzala.</p><p>Sentado na estreita sala,</p><p>Junto ao braseiro, no chão,</p><p>entoa o escravo o seu canto,</p><p>E ao cantar correm-lhe em pranto</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>11 ROMANTISMO</p><p>27</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Saudades do seu torrão...</p><p>De um lado, uma negra escrava</p><p>Os olhos no filho crava,</p><p>Que tem no colo a embalar...</p><p>E à meia-voz lá responde</p><p>Ao canto, e o filhinho esconde,</p><p>Talvez p’ra não o escutar!</p><p>“Minha terra é lá bem longe,</p><p>Das bandas de onde o sol vem;</p><p>Esta terra é mais bonita.</p><p>Mas à outra eu quero bem.”</p><p>ALVES, C. Poesias completas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995 (fragmento).</p><p>TEXTO lI</p><p>No caso da Literatura Brasileira, se é verdade que prevalecem</p><p>as reformas radicais, elas têm acontecido mais no âmbito de</p><p>movimentos literários do que de gerações literárias. A poesia de</p><p>Castro Alves em relação à de Gonçalves Dias não é a de negação</p><p>radical, mas de superação, dentro do mesmo espírito romântico.</p><p>MELO NETO, J. C. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003 (fragmento)</p><p>O fragmento do poema de Castro Alves exemplifica a afirmação de</p><p>João Cabral de Melo Neto porque</p><p>a) exalta o nacionalismo, embora lhe imprima um fundo</p><p>ideológico retórico.</p><p>b) canta a paisagem local, no entanto, defende ideais do liberalismo.</p><p>c) mantém o canto saudosista da terra pátria, mas renova o</p><p>tema amoroso.</p><p>d) explora a subjetividade do eu lírico, ainda que tematize a</p><p>injustiça social.</p><p>e) inova na abordagem de aspecto social, mas mantém a visão</p><p>lírica da terra pátria.</p><p>10. (PUCRS) Considerando as várias tendências do Romantismo</p><p>no Brasil, é correto afirmar que todas elas possuem, como elemento</p><p>fundamental,</p><p>a) A rejeição às formas artísticas parnasianas.</p><p>b) A valorização das relações fugazes.</p><p>c) A possibilidade de democratização da literatura.</p><p>d) A indiferença ante as formas naturais.</p><p>e) O sentimento de amor exacerbado.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. C</p><p>02. E</p><p>03. A</p><p>04. D</p><p>05. A</p><p>06. A</p><p>07. C</p><p>08. C</p><p>09. E</p><p>10. E</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>PRÉ-VESTIBULAR28</p><p>:</p><p>LITERATURA 11 ROMANTISMO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 29SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA:</p><p>AS FASES DO ROMANTISMO12</p><p>A GERAÇÃO INDIANISTA –</p><p>CARACTERÍSTICAS</p><p>MEIRELLES, Victor. Moema, 1865</p><p>INDIANISMO</p><p>A concepção do bom selvagem, ideia apresentada por</p><p>Rousseau, define um modelo de um herói indígena que deveria se</p><p>tornar o passado e a tradição de um país como o Brasil, sem uma</p><p>história gloriosa que pudesse ser cantada. O nativo – que nada</p><p>guarda de sua cultura original – converte-se no herói europeu,</p><p>forjado à imagem e semelhança de um cavaleiro medieval.</p><p>Valorização da natureza</p><p>O Romantismo assume a imagem exótica que as metrópoles</p><p>europeias faziam dos trópicos, adaptando-a ao ufanismo, um</p><p>orgulho idealizado e exagerado pelas coisas da terra. Sem o</p><p>passado histórico para ser cantada e com um desenvolvimento</p><p>urbano ainda acanhado frente às capitais europeias, restava cantar</p><p>a natureza e o índio que, na sua condição de primitivo habitante, era</p><p>o próprio símbolo da nacionalidade.</p><p>A terra é a imagem da própria pátria. Por isso, até mesmo os</p><p>fenômenos naturais tornam-se representativos da grandeza do</p><p>país. Essa natureza jovem, vital, exuberante, compensa a pobreza</p><p>social ao mesmo tempo que aponta novas potencialidades para o</p><p>Brasil.</p><p>Dessa forma, a natureza vai além de ser mero cenário, sendo</p><p>tema e personagem principal dessa visão romântica, assumindo a</p><p>posição uma nação rica diante do mundo. Além disso, a imagem</p><p>positiva criada para o índio confere às elites o orgulho de uma</p><p>ascendência nobre, fator importante na legitimação de seu próprio</p><p>poder no Brasil em face à Independência. Assim, percebe-se</p><p>claramente o interesse político em se assumir uma determinada</p><p>postura estética.</p><p>Regionalismo</p><p>A consciência de um país novo e sua consequente euforia gera</p><p>um sentimento regionalista de descoberta, que procura afirmar</p><p>as particularidades e a identidade das regiões e da vida rural,</p><p>na ânsia de tornar literário todo o Brasil. Contudo, esse registro</p><p>do mundo não urbano é superficial, já que a trama romanesca é</p><p>essencialmente citadina, atendendo os esquemas românticos do</p><p>folhetim. Além disso, os autores usam sempre a linguagem culta</p><p>e literária das cidades, jamais a fala particular da região retratada.</p><p>Uma linguagem brasileira</p><p>Os escritores românticos – principalmente o romancista José</p><p>de Alencar – reivindicam uma língua brasileira. Não provocação</p><p>revolucionária, mas baseado em dois fatores: um político e</p><p>outro mercadológico. No campo político, a afirmação do Brasil</p><p>como nação independente era fundamental, por isso não é</p><p>difícil imaginar que a sintaxe lusitana passa a receber críticas;</p><p>mercadologicamente, uma língua “brasileira” seria mais acessível</p><p>ao novo público leitor que surgia, garantindo maior sucesso das</p><p>produções artísticas.</p><p>A POESIA DA PRIMEIRA GERAÇÃO</p><p>Gonçalves de Magalhães</p><p>Domingos José Gonçalves de Magalhães nasceu em Niterói</p><p>em 1811 é considerado o poeta que iniciou o Romantismo no Brasil.</p><p>Formado em medicina, viajou para a Europa, tomando contato com</p><p>os ideais românticos. Foi um dos fundadores da revista Niterói,</p><p>no mesmo ano em que publica “Suspiros Poéticos e Saudade”, o</p><p>marco inicial do Romantismo brasileiro. Em 1837, volta ao Brasil e</p><p>dez anos mais tarde ingressa na carreira diplomática. Exerceu essa</p><p>função até seu falecimento, em Roma, no ano de 1882.</p><p>Sua poesia cultivava os valores fundamentais do Romantismo</p><p>primitivo, com ênfase na religião e no patriotismo. Ele inicia a</p><p>elaboração dos primeiros versos românticos brasileiros, lançando</p><p>Suspiros poéticos e saudades, no qual busca a afirmação de uma</p><p>literatura nacional, destruindo os artifícios neoclássicos, propondo</p><p>em substituição a valorização da natureza, do índio e de uma</p><p>religiosidade panteísta.</p><p>Sua poesia foi considerada fraca, recebendo muitas críticas,</p><p>algumas muito contundentes, como as de José de Alencar,</p><p>gerando uma grande polêmica, tendo em vista que essa inimizade</p><p>tinha repercussão política, já que Magalhães era protegido de D.</p><p>Pedro II e fez com que José de Alencar fosse preterido na indicação</p><p>ao Senado pelo Imperador.</p><p>Faltava a Magalhães autêntica emoção poética, os sentimentos</p><p>apresentam-se em sua obra de maneira retórica, frequentemente</p><p>“despoetizados” por imagens de mau gosto, como no trecho abaixo:</p><p>Nas veias o sangue já não me galopa,</p><p>em sacros furores nos lábios me fervem;</p><p>A lira canora do cisne beócio,</p><p>deixei sobre a trípode.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR30</p><p>LITERATURA 12 POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA: AS FASES DO ROMANTISMO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Apesar disso, Gonçalves de Magalhães foi considerado o</p><p>maior poeta pátrio durante muito tempo. Transformou-se em</p><p>símbolo oficial da literatura brasileira, merecendo inclusive</p><p>grande apreço de D. Pedro II. Mas insistentemente denunciado</p><p>por Alencar pelo artificialismo de sua composição, a obra de</p><p>Magalhães passa a ser relegada a um plano secundário. O próprio</p><p>Imperador tentou defendê-lo – usando um pseudônimo, claro –</p><p>mas Alencar já detinha prestígio que lhe garantia a autoridade para</p><p>seus argumentos. Coube a Magalhães o mérito histórico de ter</p><p>introduzido o Romantismo no país.</p><p>Gonçalves Dias</p><p>Filho de um comerciante português e de uma mulata, Antônio</p><p>de Gonçalves Dias nasceu em Caxias, no Maranhão, em 10 de</p><p>agosto de 1823. Orgulhava-se de ter no sangue as três raças</p><p>formadoras do povo brasileiro: branca, indígena e negra. Ainda</p><p>contava com seis anos de idade, quando o pai casou-se com uma</p><p>moça branca e proibiu o filho de visitar a mãe, com quem somente</p><p>se reencontraria quinze anos depois. Em 1840, cursou Direito na</p><p>Faculdade de Coimbra, encontrando ali os principais escritores</p><p>da primeira fase do Romantismo português. Em 1843, escreveu</p><p>“Canção do Exílio”, um dos maiores poemas brasileiros.</p><p>Graduado bacharel, volta ao Brasil e inicia uma fase de</p><p>intensa produção literária. Muda-se para o Rio de Janeiro, torna-</p><p>se professor de Latim no Colégio Pedro II e lança, com grande</p><p>sucesso, os Primeiros cantos e os Segundos cantos. Ocupa</p><p>diversos cargos de importância nas áreas de pesquisa escolar e</p><p>de busca de documentos históricos, devido ao bom trânsito que</p><p>consegue junto à corte imperial.</p><p>Em visita ao Maranhão, reencontra seu grande amor, Ana Amélia,</p><p>e a pede em casamento, o que lhe é negado pela família, por sua</p><p>origem bastarda e mulata. Transtornado com essa recusa, casa-</p><p>se com Olímpia Coriolana, provavelmente a primeira mulher que</p><p>encontrou após tal negativa e com a qual viveu um casamento infeliz.</p><p>A serviço, viajou muito pelas províncias do Norte e pela</p><p>Europa. Contraiu tuberculose e buscou tratamento na França.</p><p>Em 1864, durante a viagem de volta ao Brasil, o navio Ville de</p><p>Boulogne naufragou na costa brasileira. Todos a bordo salvaram-</p><p>se, à exceção do poeta que, por estar agonizando em seu leito, foi</p><p>esquecido, tornando-se a única vítima fatal do desastre.</p><p>Gonçalves Dias é responsável pela consolidação do</p><p>Romantismo no Brasil, desenvolvendo com maestria todas</p><p>as características iniciais dessa primeira fase. Sua produção</p><p>poética é de boa qualidade destacando-se entre os autores do</p><p>período, conseguindo o equilíbrio entre os temas sentimentais,</p><p>patrióticos e saudosistas.</p><p>Dono de uma linguagem harmoniosa e</p><p>de relativa simplicidade, evita os excessos verbais, foge da pompa</p><p>declamatória bem como do popularesco.</p><p>Sua obra trata principalmente do índio, da natureza e do amor</p><p>impossível. Demonstra grande conhecimento da vida dos índios,</p><p>com dosagem certa de idealização, transformando o índio em</p><p>verdadeiro herói. Seu poema Juca Pirama faz uma espécie de</p><p>síntese do indianismo:</p><p>Meu canto de morte</p><p>Guerreiros, ouvi:</p><p>Sou filho das selvas,</p><p>Nas selvas cresci;</p><p>Guerreiros, descendo</p><p>Da tribo tupi</p><p>Da tribo pujante,</p><p>Que agora anda errante</p><p>Por fado inconstante,</p><p>Guerreiros, nasci:</p><p>Sou bravo, sou forte,</p><p>Sou filho do Norte;</p><p>Meu canto de morte,</p><p>Guerreiros, ouvi.</p><p>Gonçalves Dias, ao valorizar a natureza, canta o mar, o céu, os</p><p>campos e as florestas. No entanto, a natureza não tem um valor</p><p>universal, pois apenas a celebra sob o viés ufanista da nação.</p><p>Apenas no espaço da pátria, os elementos naturais se manifestam</p><p>em sua plena majestade. A celebração da natureza entrelaça-se</p><p>com o sentimento saudosista trazendo de volta a infância, os</p><p>amores idos e vividos e, seu sentimento “exilado” quando estava na</p><p>Europa. Sua obra mais representativa, a Canção do exílio, sintetiza</p><p>a identificação entre o país e sua natureza.</p><p>Desde a concepção, tornou-se o poema mais conhecido</p><p>do Brasil, o mais imitado e o mais parodiado. Apesar do estilo</p><p>laudatório, o poema exalta as maravilhas naturais do Brasil sem</p><p>fazer uso de nem um adjetivo sequer. É a própria essência do</p><p>ufanismo romântico: minha pátria é a melhor, a única terra em que</p><p>se pode ser feliz, sem defeitos, um verdadeiro paraíso.</p><p>Minha terra tem palmeiras,</p><p>Onde canta o Sabiá;</p><p>As aves, que aqui gorjeiam,</p><p>Não gorjeiam como lá.</p><p>Nosso céu tem mais estrelas,</p><p>Nossas várzeas têm mais flores,</p><p>Nossos bosques têm mais vida,</p><p>Nossa vida mais amores.</p><p>Em cismar - sozinho, à noite -</p><p>Mais prazer encontro eu lá;</p><p>Minha terra tem palmeiras,</p><p>Onde canta o Sabiá.</p><p>Minha terra tem primores,</p><p>Que tais não encontro eu cá;</p><p>Em cismar - sozinho, à noite</p><p>Mais prazer encontro eu lá;</p><p>Minha terra tem palmeiras,</p><p>Onde canta o Sabiá.</p><p>Não permita Deus que eu morra,</p><p>Sem que eu volte para lá;</p><p>Sem que desfrute os primores</p><p>Que não encontro por cá;</p><p>Sem qu’inda aviste as palmeiras,</p><p>Onde canta o Sabiá.”</p><p>Por fim, cabe ressaltar sua lírica amorosa, marcada pelo</p><p>sofrimento. Nela, o amor raramente se concretiza, ganhando</p><p>ares de uma ilusão perdida. Apaixonar-se significa predispor-</p><p>se à angústia e à solidão. A resposta da amada às súplicas</p><p>poéticas simplesmente não existe, levando o poeta ao desespero.</p><p>As sementes do ultrarromantismo já brotam na lírica amorosa de</p><p>Gonçalves Dias.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>12 POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA: AS FASES DO ROMANTISMO</p><p>31</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>A CRISE DO PENSAMENTO BURGUÊS</p><p>A metade do século XIX marca uma importante mudança no</p><p>pensamento artístico nacional: o modelo de sociedade burguesa</p><p>já não atende mais aos anseios da juventude, que se desinteressa</p><p>pela vida político-social. Apesar do crescente desenvolvimento</p><p>urbano, a jovem vida acadêmica dos grandes centros afasta-</p><p>se dos princípios burgueses consagrados pelo romantismo.</p><p>Dessa forma, o nacionalismo e o indianismo entram em declínio</p><p>e o descontentamento com a vida burguesa torna-se evidente,</p><p>gerando uma atitude pessimista, entediada, à espera da morte.</p><p>O protesto contra o mundo burguês e suas relações sociais, dão</p><p>origem a uma lírica voltada para a subjetividade, para o individualismo,</p><p>baseada na confissão e no transbordamento dos sentimentos</p><p>interiores. Essa nova geração, influenciada pelo inglês Byron e pelo</p><p>francês Musset, prega a rebeldia moral, a recusa do entediante</p><p>cotidiano burguês e a busca de novas formas sentimentais.</p><p>ALMEIDA, Belmiro. Arrufos, 1887</p><p>O país vivia um período de estabilidade no chamado</p><p>Segundo Reinado, repleto de barganhas políticas entre liberais</p><p>e conservadores que partilhavam o poder sob arbítrio do Poder</p><p>Moderador de D. Pedro II. A economia apresentava um bom</p><p>desempenho, baseada no crescimento da produção cafeeira, com</p><p>a consequente consolidação desta aristocracia rural no poder. As</p><p>rebeliões escasseavam, pacificando internamente o país.</p><p>Um fato curioso sobre o ultrarromantismo é que a maior</p><p>parte de seus representantes morreu na faixa dos vinte anos;</p><p>vidas curtas, porém carregadas de complexidade. Apesar de que</p><p>sua produção sugira o cultivo de ideias suicidas, não se pode</p><p>dizer que as mortes prematuras tenham sido intencionais, já</p><p>que todos foram vitimados por doenças incuráveis na época,</p><p>especialmente a tuberculose. O estilo de vida boêmio de muitos</p><p>desses poetas pode ter contribuído com suas mortes, contudo,</p><p>não se pode afirmar que havia qualquer intencionalidade nesses</p><p>atos, diante do horror que demonstraram diante da morte.</p><p>POETAS DO MAL DO SÉCULO</p><p>Os poetas dessa geração demonstraram uma inadequação</p><p>à realidade em que viveram, reproduzindo em suas vidas um</p><p>comportamento desregrado, levando uma vida entre os estudos</p><p>acadêmicos, o ócio e a boêmia. O ultrarromantismo brasileiro</p><p>foi amplamente influenciado por Lord Byron, poeta inglês que</p><p>escandalizava a sociedade com seu estilo de vida dedicado aos vícios</p><p>e às relações extraconjugais. Somado a isso, foi ainda acusado de</p><p>manter relações incestuosas com a irmã e também de pederastia.</p><p>O mal do século caracteriza-se pela atração pelo sombrio e pela</p><p>morte, acrescida, por muitas vezes, de temas macabros e satânicos.</p><p>O sentimentalismo, o egocentrismo e a idealização são exagerados,</p><p>criando uma visão do amor bastante particular, com a mistura de</p><p>atração e medo, desejo e culpa. Desta forma, cria-se a figura do amor</p><p>impossível, da mulher inatingível e idealizada: virgem e incorpórea.</p><p>Diante das negativas e do medo que traz o amor, surge a evasão,</p><p>já que a própria realidade não o acolhia, nem os sonhos tornavam-</p><p>se possíveis. Daí ser comum a apresentação de lugares exóticos, as</p><p>lembranças da infância e, sobretudo, o culto à morte.</p><p>Álvares de Azevedo</p><p>Nascido em São Paulo em 12 de setembro de 1831, Manuel</p><p>Antônio Álvares de Azevedo descendia de família ilustre no cenário</p><p>político. O pai exercera, entre outros cargos, o de juiz de direito, chefe</p><p>de polícia e deputado geral. Em razão disso, teve sua formação</p><p>básica e secundária na capital do Império. Sua volta a São Paulo</p><p>dá-se para cursar a Faculdade de Direito, onde participa ativamente</p><p>da vida acadêmica e literária. Apesar de ser um aluno excelente</p><p>e de ser bastante querido entre os colegas, sentia-se incapaz de</p><p>estabelecer um relacionamento amoroso concreto, principal razão</p><p>de sua infelicidade.</p><p>A mediocridade da vida em São Paulo, quando comparada</p><p>às intensas experiências dos europeus, atormentava sua alma,</p><p>fazendo-o mergulhar na leitura dos ultrarromânticos europeus.</p><p>Por conta da saudade de sua mãe e de sua irmã, o sentimento</p><p>de solidão e o desejo insatisfeito levaram-no a um pensamento</p><p>depressivo, aproximando-o de inclinações mórbidas. No início de</p><p>1852, descobre-se com tuberculose e desespera-se ante a visão</p><p>da morte. Buscou tratamento na fazenda do tio, onde deu efetivos</p><p>sinais de melhora, mas uma queda de cavalo afetou-lhe a região</p><p>ilíaca. Sem outra coisa a fazer, os médicos resolveram operá-lo, o</p><p>que, na época, significava uma intervenção sem anestesia. Apesar</p><p>de ter suportado heroicamente as dores, a tuberculose já o deixara</p><p>muito debilitado. Dias depois, ao leito de morte, diz a seu pai: “Que</p><p>fatalidade!”. E, sendo essas suas últimas palavras, morre em 25 de</p><p>abril de 1852, no ano de sua formatura, sem que completasse vinte</p><p>e um anos de idade.</p><p>Nem mesmo seu corpo descansou em paz com sua morte. O</p><p>cemitério em que foi enterrado foi vítima de uma ressaca marinha</p><p>e seu corpo teve de ser exumado. Seu túmulo havia sido destruído</p><p>e seus ossos encontrados por seu cão e só então transferidos,</p><p>inaugurando o cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.</p><p>Não publicou nenhum de seus escritos em vida e, como</p><p>afirmara em um de seus poemas, a “glória que</p><p>pressinto em meu</p><p>futuro” veio efetivamente após sua morte. Sua obra é bastante</p><p>autobiográfica e, como não poderia ser diferente, representa uma</p><p>vida adolescente de tal modo dilacerada e conflituosa que acaba</p><p>por se tornar experiência mais aguda do Romantismo brasileiro,</p><p>considerando-se aspectos pessoais e poéticos.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR32</p><p>LITERATURA 12 POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA: AS FASES DO ROMANTISMO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Em muitos poemas, expressa um cinismo típico de quem –</p><p>por incansáveis leituras – detém a experiência do saber, mas</p><p>não experimenta a própria vida. Sua poesia, que começa como</p><p>imitação dos ultrarromânticos europeus, carregada de fantasias</p><p>delirantes, evolui significativamente, superando o artificialismo</p><p>byroniano característico dos demais poetas da geração.</p><p>Suas obras falam de amor, da morte, do tédio, mas revelam</p><p>também certo humor e cinismo.</p><p>Quando trata de amor, usa os modelos byronianos, tornando</p><p>sua lírica pouco convincente. As orgias e vícios que descreve</p><p>como sua maldição moral são artificiais, tendo em vista que tais</p><p>experiências não tenham ocorrido e, mais ainda, porque carecem</p><p>de certa persuasão, não traduzindo nenhuma inquietação. No</p><p>entanto, essa máscara acaba por revelar o que havia por detrás</p><p>das aparências: o devasso e o cínico, na verdade, revelam profundo</p><p>medo das relações amorosas, traduzindo-se pela não concretização</p><p>das vontades sexuais, criando uma imagem feminina carregada</p><p>de imagens eróticas, cuja volúpia jamais é saciada, por ser ela</p><p>intocável e inatingível, fruto da própria timidez do poeta.</p><p>Já na temática da morte, a genialidade expressiva de Álvares</p><p>de Azevedo se manifesta. Tema recorrente em sua produção,</p><p>poeta profetiza sua própria morte, diz não poder esquecê-la;</p><p>entrega-se a ela de peito aberto. Mas não é por isso que essa</p><p>entrega será desprovida de desespero e angústia. As perdas dos</p><p>afetos, das pessoas e do futuro, levam-no às lamentações. Ao</p><p>mesmo tempo, em uma atitude escapista, a morte representa a</p><p>solução para suas dores.</p><p>O tédio, sentimento que levou o nome para a geração “mal</p><p>do século”, traduzia-se em uma espécie de cinismo e enfado por</p><p>ter vivido todas as experiências possíveis: sexo, bebidas, ópio,</p><p>transgressões. Paradoxalmente, o tédio de Álvares de Azevedo</p><p>era resultado da falta de tais experiências a que estava condenado</p><p>vivendo em São Paulo. Lembremo-nos que a maior cidade do Brasil</p><p>hoje era, na época, uma cidadezinha provinciana, sem vida noturna,</p><p>sem grandes horizontes para as ambições e sonhos dos jovens.</p><p>Esse sentimento, causa dos excessos ultrarromânticos, é</p><p>atenuado pela exposição de sua subjetividade, revelando um</p><p>jovem tímido, inexperiente e ansioso por amor. Suas poesias são</p><p>confissões de um adolescente solitário e impotente diante de sua</p><p>existência; um poeta conflituoso, entre o tédio de sua realidade e</p><p>os sonhos que alimentavam sua alma, possibilitando que vivesse</p><p>no descompasso de seu mundo.</p><p>Apesar de tudo, surpreende em sua poesia a ironia, resultante</p><p>do riso das coisas cotidianas. Despido do sentimentalismo, o</p><p>poeta lança seu olha em torno de si e traça observações que</p><p>vão do leve humor ao sarcasmo cínico.</p><p>Fora da poesia, merece destaque Noites na taverna, uma</p><p>reunião de contos que revela o espírito transgressor ultrarromântico,</p><p>ambientando sete rapazes que bebem, fumam e gritam em uma</p><p>taverna, narrando histórias exageradas de suas vidas orgíacas e</p><p>criminosas. É a expressão adolescente de rebeldia contra o mundo</p><p>e de comportamento social, apresentando cenas de necrofilia,</p><p>incesto, canibalismo, assassinato e violação de todos os códigos</p><p>morais da época (e da nossa também!). Nesses escritos propõe-se</p><p>a criação de um mundo de sombras, povoado por indivíduos de</p><p>impulsos imorais e que praticam toda sorte de ações que mostram</p><p>o lado cruel de suas almas.</p><p>Como exemplo de sua poesia, a presença constante da</p><p>morte e a certeza do poeta diante da proximidade dela fazem</p><p>de “Lembrança de morrer”, um dos mais belos exemplos de sua</p><p>sensibilidade, mesmo quando se trata das instruções sobre o seu</p><p>túmulo e sua lápide:</p><p>Quando em meu peito rebentar-se a fibra,</p><p>Que o espírito enlaça à dor vivente,</p><p>Não derramem por mim nem uma lágrima</p><p>Em pálpebra demente.</p><p>E nem desfolhem na matéria impura</p><p>A flor do vale que adormece ao vento:</p><p>Não quero que uma nota de alegria</p><p>Se cale por meu triste passamento. (...)</p><p>Descansem o meu leito solitário</p><p>Na floresta dos homens esquecida,</p><p>À sombra de uma cruz, e escrevam nela</p><p>- Foi poeta, sonhou e amou na vida.</p><p>Casimiro de Abreu</p><p>Casimiro José Marques de Abreu nasceu em 4 de janeiro de</p><p>1839, em Barra de São João, no estado do Rio de Janeiro. Filho</p><p>de um imigrante português, enriquecido pelo comércio, Casimiro</p><p>passou a infância numa fazenda. Enviado à capital do Império para</p><p>exercer as atividades de seu pai, não demonstrou tino para a área.</p><p>Ainda assim, seu pai não desistiu e enviou-o para Lisboa com a</p><p>mesma intenção. Após quatro anos em Portugal, já com dezoito</p><p>anos, retornou ao Brasil conciliando a vida boêmia e as atividades</p><p>comerciais.</p><p>Foi em Lisboa que tomou contato com o Romantismo,</p><p>estabelecendo ligação com o meio intelectual português. Chegou a</p><p>escrever para alguns jornais, trabalho que o fez conhecer Machado</p><p>de Assis. Primaveras é sua única obra e obteve enorme êxito, sendo</p><p>aclamado pelo público da época. Contudo, não desfrutou muito de</p><p>sua fama, pois logo se descobriu com tuberculose, falecendo em</p><p>pouquíssimo tempo, no dia 18 de outubro de 1860, com vinte dois</p><p>anos incompletos.</p><p>Poeta de linguagem simples e espontânea, expõe um lirismo</p><p>singelo com rimas fáceis e atmosfera musical, beirando a</p><p>superficialidade, mas que encantou o público, tornando-se um</p><p>dos poetas mais populares do romantismo. Sua temática também</p><p>revela o mal do século, com ênfase na tristeza da vida e certo</p><p>grau de pessimismo, apesar de não abandonar o sentimento</p><p>saudosista-nacionalista da primeira geração. Seu lirismo amoroso</p><p>revela a melancolia que se traduz na atitude de evasão do poeta:</p><p>não para a morte, mas para a infância.</p><p>De visão extremamente subjetiva, Casimiro de Abreu substitui</p><p>a dor adolescente por uma visão inocente e deslumbrada dos</p><p>tempos juvenis. Canta a mocidade como um tempo idealizado,</p><p>“a primavera da vida”. Longe do sombrio, prefere as manhãs, as</p><p>brincadeiras infantis, as paisagens da fazenda de sua infância e os</p><p>salões de baile onde se compartilha a dança e os namoros.</p><p>Influenciado por Gonçalves Dias, inunda seus poemas de</p><p>sentimento nostálgico, refletindo o “exílio” de seu precursor. Se a</p><p>saudade da nação não enriquece sua lírica, descobre na nostalgia</p><p>sua consagração. As saudades são misturadas ao subjetivo,</p><p>trazendo as lembranças da família, da casa e da própria infância.</p><p>Canta a “aurora da vida”, o tempo de meninice, as emoções</p><p>que ficaram na memória. Com suas poesias melodiosas, sem</p><p>abstrações, nas quais empresta sentimento e delicadeza à evasão</p><p>romântica, garante a imortalidade de sua visão, em um dos poemas</p><p>mais famosos da literatura nacional:</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>12 POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA: AS FASES DO ROMANTISMO</p><p>33</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Meus oito anos</p><p>Oh! que saudades que tenho</p><p>Da aurora da minha vida,</p><p>Da minha infância querida</p><p>Que os anos não trazem mais!</p><p>Que amor, que sonhos, que flores,</p><p>Naquelas tardes fagueiras</p><p>À sombra das bananeiras,</p><p>Debaixo dos laranjais!</p><p>Como são belos os dias</p><p>Do despontar da existência!</p><p>- Respira a alma inocência</p><p>Como perfumes a flor;</p><p>O mar é - lago sereno,</p><p>O céu - um manto azulado,</p><p>O mundo - um sonho dourado,</p><p>A vida - um hino d’amor!</p><p>Que auroras, que sol, que vida,</p><p>Que noites de melodia</p><p>Naquela doce alegria,</p><p>Naquele ingênuo folgar!</p><p>O céu bordado d’estrelas,</p><p>A terra de aromas cheia,</p><p>As ondas beijando a areia</p><p>E a lua beijando o mar!</p><p>Oh! dias da minha infância!</p><p>Oh! meu céu de primavera!</p><p>Que doce a vida não era</p><p>Nessa risonha manhã.</p><p>Em vez das mágoas de agora,</p><p>Eu tinha nessas delícias</p><p>De minha mãe as carícias</p><p>E beijos de minha irmã!</p><p>Livre filho das</p><p>montanhas,</p><p>Eu ia bem satisfeito,</p><p>De camisa aberto ao peito,</p><p>- Pés descalços, braços nus -</p><p>Correndo pelas campinas</p><p>À roda das cachoeiras,</p><p>Atrás das asas ligeiras</p><p>Das borboletas azuis!</p><p>Naqueles tempos ditosos</p><p>Ia colher as pitangas,</p><p>Trepava a tirar as mangas,</p><p>Brincava à beira do mar;</p><p>Rezava às Ave-Marias,</p><p>Achava o céu sempre lindo,</p><p>Adormecia sorrindo</p><p>E despertava a cantar!</p><p>Merecem destaque no período poetas como Junqueira Freire e</p><p>Fagundes Varela que, apesar de ultrarromânticos, já demonstram</p><p>algumas das características da geração seguinte. Podem ser</p><p>assim chamados de “poetas de transição”.</p><p>O CAMINHO DA TRANSIÇÃO</p><p>A partir da segunda metade do século XIX, a sociedade brasileira</p><p>passa por significativas mudanças em termos políticos, sociais e</p><p>econômicos. A constante pressão britânica pelo fim do comércio de</p><p>escravos fez com que o Brasil abolisse o tráfico negreiro da África, o que</p><p>representou o surgimento de um pensamento abolicionista nacional.</p><p>Por outro lado, há uma forte reação contra esses movimentos,</p><p>especialmente dos grandes cafeicultores e isso aumenta as</p><p>pressões internas sofridas pelo Império. No plano econômico, o</p><p>país inaugura suas primeiras fábricas de produtos simples, como</p><p>tecidos, bebidas e artigos como sabão e outros produtos que antes</p><p>eram importados. Além disso, as cidades começam a crescer,</p><p>inauguram-se estradas de ferro, empresas de gás, mineração</p><p>e até mesmo o transporte urbano começa a desenvolver-se,</p><p>especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo.</p><p>Em meio a este início de desenvolvimento econômico, rompeu-</p><p>se a Guerra do Paraguai, que arrastou-se ao longo de seis anos</p><p>e causou diversas reações sociais, criando inúmeros problemas a</p><p>serem resolvidos pelo governo imperial. Ainda que o Brasil tenha</p><p>vencido a guerra, a coroa acumulou enormes prejuízos com o</p><p>confronto, o que criou um rombo nas finanças imperiais e acarretou</p><p>em inúmeras dívidas pela tomada de empréstimos estrangeiros.</p><p>Aos poucos a monarquia brasileira ia perdendo apoio de diversos</p><p>setores que criticavam a condução econômica, a organização</p><p>social, os favorecimentos políticos, entre outros aspectos. Esses</p><p>grupos pressionavam o governo, que não conseguia atender às</p><p>demandas de todos os campos, gerando um descontentamento</p><p>generalizado.</p><p>Por exemplo, o Império buscava leis que terminassem com</p><p>a escravidão de maneira progressiva, como a lei do ventre livre e</p><p>a lei dos sexagenários; por um lado, os abolicionistas criticavam</p><p>as medidas, pois as consideravam tímidas e queriam o fim da</p><p>escravidão imediato; por outro, grandes escravocratas afirmavam</p><p>que tais medidas representavam uma ameaça a seus interesses.</p><p>Não por acaso, ao tentar equilibrar-se entre as diversas posições,</p><p>o governo não resistiu e, um ano após a assinatura da lei áurea, a</p><p>monarquia caiu ante ao golpe militar que instituiu a República.</p><p>MEIRELLES, Victor. Abolição da escravatura, s/d</p><p>A TERCEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA</p><p>Conhecida como Geração Condoreira, a terceira geração foi</p><p>marcada por um forte posicionamento político abolicionista e pela</p><p>incessante defesa da liberdade, tomando como metáfora o condor,</p><p>ave andina que voa alto, livre e domina os céus.</p><p>A busca pela identidade nacional é ainda tema das obras,</p><p>porém ultrapassa os valores do indianismo e enxerga a sociedade</p><p>de maneira diversificada, incluindo conflitos oriundos da escravidão</p><p>para a composição do cenário brasileiro.</p><p>Mantendo a idealização típica do romantismo, há um retorno às</p><p>ideias iniciais do lema francês da “liberdade, igualdade e fraternidade”,</p><p>em que se defende uma sociedade construída em outros moldes,</p><p>ainda que não sejam defesas consistentes e aprofundadas.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR34</p><p>LITERATURA 12 POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA: AS FASES DO ROMANTISMO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Por outro lado, a visão do amor e da mulher afasta-se do</p><p>paradigma da segunda geração e ganha contornos mais materiais,</p><p>em que a mulher – ainda que idealizada em sua figura – apresenta-</p><p>se de forma tangível e sensual, em uma relação amorosa que</p><p>ultrapassa as linhas do imaginário.</p><p>É, em verdade, um momento de transição do Romantismo para o</p><p>movimento Realista que já começa a se manifestar em alguns autores.</p><p>O POETA DOS ESCRAVOS</p><p>Castro Alves</p><p>Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em uma fazenda no</p><p>município de Muritiba, na Bahia em 14 de março de 1847, no seio de</p><p>uma das mais tradicionais e poderosas famílias do interior baiano.</p><p>Ainda criança mudou-se para Salvador, onde fez seus estudos. A</p><p>morte de sua mãe, quando ele tinha apenas nove anos, deixou-o</p><p>bastante abalado, ainda mais por ver o desespero de seu irmão</p><p>mais velho que se suicida alguns anos depois, ainda inconformado</p><p>pela perda da mãe.</p><p>Em 1862, já em Recife e preparando-se para a faculdade</p><p>de Direito, Castro Alves torna-se amante de uma famosa atriz</p><p>portuguesa e entrega-se à boêmia e aos ideais abolicionistas.</p><p>Assim, passa grande parte de seu tempo em reuniões e agitações</p><p>políticas que em salas de aula. Foi reprovado diversas vezes</p><p>em várias matérias diferentes, algumas porque nem sequer as</p><p>frequentava, estando naqueles horários nos bares a produzir ou</p><p>recitar versos. Castro Alves percebeu de imediato seu talento, pois</p><p>sua produção tinha grande impacto, repercutindo entre os colegas</p><p>e dando a Castro um status de fama.</p><p>Castro Alves ainda produziu um drama para que Eugênia Câmara</p><p>– a atriz portuguesa – pudesse encená-la. E ambos foram a Salvador</p><p>para montar a peça, que recebeu espetacular consagração, deixando</p><p>Castro Alves radiante. O agora casal viajou rumo a São Paulo, onde</p><p>Castro prometeu retomar e concluir o curso de Direito.</p><p>Em uma breve parada no Rio de Janeiro, Castro foi recebido</p><p>por José de Alencar e Machado de Assis: Castro tornara-</p><p>se uma lenda, fosse por sua qualidade de poeta, fosse como</p><p>declamador de sua própria obra. Seus poemas faziam enorme</p><p>sucesso e eram declamados nas faculdades, tornando-se a</p><p>voz dos estudantes abolicionistas.</p><p>Contudo, sua vida amorosa não ia bem. A fama lhe trouxe glória</p><p>e também mulheres, às quais não conseguiu negar os favores</p><p>amorosos, o que deixava a orgulhosa Eugênia com os nervos à</p><p>flor da pele. A atriz portuguesa o abandonou, sumindo-se para</p><p>sempre da vida de Castro Alves, que se mostrou muito abalado</p><p>pela separação.</p><p>Para tentar esquecer as dores de amor, passou a dedicar-se</p><p>à caça e foi em uma caçada em São Paulo que o fim do poeta se</p><p>aproximou. Ao caminhar segurando a espingarda, acidentalmente</p><p>feriu-se no pé, mais precisamente no calcanhar, que infeccionou.</p><p>Levado ao Rio de Janeiro para tratamento, não teve grande</p><p>sorte. Como a infecção não cedia e piorava, foi submetido a uma</p><p>amputação sem anestesia. Transferido para Salvador, viveu por</p><p>mais um ano aproximadamente, até que sobreviesse a tuberculose</p><p>que lhe mataria. Em 6 de julho de 1871, Castro Alves nos deixava,</p><p>antes de completar vinte e quatro anos de idade.</p><p>Sua poesia refletia os ideais abolicionistas que abraçava, mais</p><p>que um intelectual, Castro era um homem de ação, participando</p><p>ativamente dos movimentos abolicionista e republicano. Seu</p><p>engajamento político é tão forte que chega a prejudicar sua arte</p><p>literária, vista, por muitas vezes como mais denúncia e ação que</p><p>propriamente estética. Consciente da importância dos estudos,</p><p>valorizou o papel da educação na sociedade, da imprensa e do livro.</p><p>Engajado em uma série de lutas sociais, usou sua poesia</p><p>para combater toda e qualquer injustiça, cantando a liberdade</p><p>e a igualdade em uma pregação que atingia todos os setores</p><p>sociais. Mas, sem dúvida, o que mais de marcante lhe restou</p><p>foram seus poemas abolicionistas. Sua retórica é eloquente, sua</p><p>poesia grandiosa, feita para declamações públicas, com inúmeras</p><p>apóstrofes e imagens espetaculares.</p><p>Seu lirismo amoroso distancia-se dos padrões anteriores: não</p><p>apresenta o amor inatingível, impossível e, por isso, idealizado;</p><p>não esconde a sensualidade nem a perverte. O amor em Castro</p><p>Alves é viril, sensual e caloroso, explorando o erotismo sem</p><p>qualquer vestígio de culpa,</p><p>de plena realização sexual, refletindo,</p><p>na poesia, o comportamento do poeta.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (VUNESP) Leia atentamente os versos seguintes: “Eu deixo</p><p>a vida com deixa o tédio Do deserto o poeta caminheiro – Como</p><p>as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um</p><p>mineiro.” Esses versos de Álvares de Azevedo significam a:</p><p>a) revolta diante da morte.</p><p>b) aceitação da vida como um longo pesadelo.</p><p>c) aceitação da morte como a solução.</p><p>d) tristeza pelas condições de vida.</p><p>e) alegria pela vida longa que teve.</p><p>02. (FUVEST) “O indianismo dos românticos […] denota tendência</p><p>para particularizar os grandes temas, as grandes atitudes de que</p><p>se nutria a literatura ocidental, inserindo-as na realidade local,</p><p>tratando-as como próprias de uma tradição brasileira.”</p><p>(Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira)</p><p>Considerando-se o texto acima, pode-se dizer que o indianismo, na</p><p>literatura romântica brasileira:</p><p>a) procurou ser uma cópia dos modelos europeus.</p><p>b) adaptou a realidade brasileira aos modelos europeus.</p><p>c) ignorou a literatura ocidental para valorizar a tradição brasileira.</p><p>d) deformou a tradição brasileira para adaptá-la à literatura ocidental.</p><p>e) procurou adaptar os modelos europeus à realidade local.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>12 POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA: AS FASES DO ROMANTISMO</p><p>35</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>03. (FUVEST) “Teu romantismo bebo, ó minha lua, A teus raios</p><p>divinos me abandono, Torno-me vaporoso… e só de ver-te Eu sinto</p><p>os lábios meus se abrir de sono.”</p><p>(Álvares de Azevedo, “Luar de verão”, Lira dos vinte anos)</p><p>Neste excerto, o eu-lírico parece aderir com intensidade aos temas</p><p>de que fala, mas revela, de imediato, desinteresse e tédio. Essa</p><p>atitude do eu-lírico manifesta a:</p><p>a) ironia romântica.</p><p>b) tendência romântica ao misticismo.</p><p>c) melancolia romântica.</p><p>d) aversão dos românticos à natureza.</p><p>e) fuga romântica para o sonho.</p><p>04. Leia o poema abaixo e a seguir, responda o que é pedido:</p><p>Mocidade e Morte</p><p>Oh! eu quero viver, beber perfumes</p><p>Na flor silvestre, que embalsama os ares;</p><p>Ver minh’alma adejar pelo infinito,</p><p>Qual branca vela n’amplidão dos mares.</p><p>No seio da mulher há tanto aroma…</p><p>Nos seus beijos de fogo há tanta vida…</p><p>– Árabe errante, vou dormir à tarde</p><p>À sombra fresca da palmeira erguida</p><p>No trecho acima, de Castro Alves, reúnem-se vários dos temas e</p><p>aspectos mais característicos de sua poesia. São eles:</p><p>a) identificação com a natureza, condoreirismo, erotismo.</p><p>b) aspiração de amor e morte, sensualismo, exotismo.</p><p>c) sensualismo, aspiração de absoluto, nacionalismo, orientalismo.</p><p>d) personificação da natureza, hipérboles, sensualismo velado,</p><p>exotismo.</p><p>e) aspiração de amor e morte, condoreirismo, hipérboles.</p><p>05. (UFMS) Considere os versos do poema “As trevas”, que integra a</p><p>obra Espumas flutuantes, de Castro Alves, para responder à questão</p><p>a seguir.</p><p>“Tive um sonho em tudo não foi sonho!...</p><p>O sol brilhante se apagava: e os astros,</p><p>Do eterno espaço na penumbra escura,</p><p>Sem raios, e sem trilhos, vagueavam.</p><p>A terra fria balouçava cega</p><p>E tétrica no espaço ermo de lua.</p><p>A manhã ia... vinha ... e regressava...</p><p>Mas não trazia o dia! Os homens pasmos</p><p>Esqueciam no horror dessas ruínas</p><p>Suas paixões: E as almas conglobadas</p><p>Gelavam-se num grito de egoísmo</p><p>Que demandava ‘luz’. Junto às fogueiras</p><p>Abrigavam-se... e os tronos e os palácios,</p><p>Os palácios dos reis, o albergue e a choça</p><p>Ardiam por fanais. Tinham nas chamas</p><p>As cidades morrido. Em torno às brasas</p><p>Dos seus lares os homens se grupavam,</p><p>P’ra à vez extrema se fitarem juntos.</p><p>Feliz de quem vivia junto às lavas</p><p>Dos vulcões sob a tocha alcantilada!”</p><p>As figuras de linguagem estão presentes em textos poéticos e</p><p>produzem expressividade no discurso, criando efeitos de sentido</p><p>variados. Assinale a alternativa que nomeia a figura em destaque</p><p>nos seguintes versos: “E as almas conglobadas/Gelavam-se num</p><p>grito de egoísmo”.</p><p>a) Aliteração.</p><p>b) Comparação.</p><p>c) Metonímia.</p><p>d) Catacrese.</p><p>e) Sinestesia.</p><p>06. (ESPM) (...) O mal du siècle, a indefinível doença que alanceia</p><p>os românticos, que lhes enlanguesce a vontade, entedia a vida e faz</p><p>desejar a morte, só poderá ser correctamente entendido no contexto</p><p>da odisseia do eu romântico, pois que exprime o cansaço e a</p><p>frustração resultantes da impossibilidade de realizar o absoluto. (...)</p><p>(Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, 8.ª edição,</p><p>Livraria Almedina, Coimbra, 1988)</p><p>A partir das considerações sobre o “mal-do-século”, assinale o</p><p>item cujo texto não apresente as características apontadas.</p><p>a) Já da morte o palor me cobre o rosto,</p><p>Nos lábios meus o alento desfalece,</p><p>Surda agonia o coração fenece,</p><p>E devora meu ser mortal desgosto!</p><p>(Álvares de Azevedo)</p><p>b) Ah!, findou para mim tão leda sorte;</p><p>Agora é só feliz minha existência</p><p>No mudo estado, que arremeda a morte.</p><p>(Bocage)</p><p>c) A filha de Araquém sentiu afinal que suas veias se estancavam;</p><p>e contudo o lábio amargo de tristeza recusava o alimento que</p><p>devia restaurar-lhe as forças. O gemido e o suspiro tinham</p><p>crestado com o sorriso o sabor em sua boca formosa.</p><p>(José de Alencar, Iracema)</p><p>d) E que farias tu da vida sem a tua companheira de martírio?</p><p>Onde irás tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou,</p><p>sem o esquecimento da imagem desta dócil mulher, que</p><p>seguiu cegamente a estrela da tua malfadada sorte?!</p><p>(Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição)</p><p>e) Eu morro qual nas mãos da cozinheira</p><p>O marreco piando na agonia...</p><p>Como o cisne de outrora... que gemendo</p><p>Entre os hinos de amor se enternecia.</p><p>(Álvares de Azevedo)</p><p>07. (UEG) Leia o fragmento e observe a imagem para responder</p><p>à questão.</p><p>É ela! é ela! – murmurei tremendo,</p><p>e o eco ao longe murmurou – é ela!</p><p>Eu a vi... minha fada aérea e pura –</p><p>a minha lavadeira na janela.</p><p>Dessas águas furtadas onde eu moro</p><p>eu a vejo estendendo no telhado</p><p>os vestidos de chita, as saias brancas;</p><p>eu a vejo e suspiro enamorado!</p><p>Esta noite eu ousei mais atrevido,</p><p>nas telhas que estalavam nos meus passos,</p><p>ir espiar seu venturoso sono,</p><p>vê-la mais bela de Morfeu nos braços!</p><p>Como dormia! que profundo sono!...</p><p>Tinha na mão o ferro do engomado...</p><p>Como roncava maviosa e pura!...</p><p>Quase caí na rua desmaiado!</p><p>AZEVEDO, Álvares de. É ela! É ela! É ela! É ela. In: Álvares de Azevedo.</p><p>São Paulo: Abril Educação, 1982. p. 44.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR36</p><p>LITERATURA 12 POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA: AS FASES DO ROMANTISMO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Tanto a pintura quanto o excerto apresentados pertencem ao</p><p>Romantismo. A diferença entre ambos, porém, diz respeito ao</p><p>fato de que</p><p>a) no fragmento verifi ca-se o retrato de um ser idealizado, ao</p><p>passo que no quadro tem-se uma fi gura retratada de modo</p><p>pejorativo.</p><p>b) na pintura tem-se o retrato de uma mulher de feições austeras,</p><p>ao passo que no poema nota-se a descrição de uma mulher</p><p>sofi sticada.</p><p>c) no excerto tem-se a descrição realista e não idealizada de</p><p>uma mulher, ao passo que na pintura retrata-se uma mulher</p><p>pertencente à burguesia.</p><p>d) na imagem tem-se uma moça cuja caracterização é abstrata,</p><p>ao passo que no poema tem-se uma mulher cujo aspecto é</p><p>burguês e requintado.</p><p>e) no quadro constata-se a imagem de uma moça simplória, ao</p><p>passo que no poema nota-se a caracterização de uma donzela</p><p>de vida airada.</p><p>08. (IMED) Leia os excertos dos poemas “Se eu morresse amanhã”</p><p>e “Cântico do calvário”, respectivamente:</p><p>Excerto 1</p><p>Se eu morresse amanhã, viria ao menos</p><p>Fechar meus olhos minha triste irmã;</p><p>Minha mãe de saudades morreria</p><p>Se eu morresse amanhã!</p><p>Excerto 2</p><p>Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,</p><p>Legado acerbo da ventura extinta,</p><p>Dúbios archotes que a tremer clareiam</p><p>A lousa fria de um sonhar que é morto!</p><p>Os poemas “Se eu morresse amanhã”, de ________________________</p><p>_______, e</p><p>“Cântico do calvário”, de ________________________, revelam</p><p>inclinação a aspectos enigmáticos e sombrios e a constante</p><p>presença da morte. Ambos integram o período literário do</p><p>________________________.</p><p>Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as</p><p>lacunas</p><p>do trecho acima.</p><p>a) Gregório de Matos Guerra – Manuel Botelho de Oliveira – Arcadismo</p><p>b) Cláudio Manuel da Costa – Santa Rita Durão – Arcadismo</p><p>c) Junqueira Freire – Casimiro de Abreu – Romantismo</p><p>d) Álvares de Azevedo – Fagundes Varela – Romantismo</p><p>e) Alphonsus de Guimaraens – Pedro Kilkerry – Simbolismo</p><p>09. (UPF) Leia as seguintes afi rmações sobre a obra I-Juca Pirama</p><p>de Gonçalves Dias.</p><p>I. O poema, exemplo marcante da descrição científi ca do elemento</p><p>indígena, narra o drama vivido pelo último descendente da tribo</p><p>dos tupis, feito prisioneiro pelos timbiras.</p><p>II. O autor apresenta uma visão do índio integrado na tribo, nos</p><p>costumes, no sentimento de honra que, para os românticos,</p><p>era a sua mais bela característica.</p><p>III. O movimento psicológico do poema, com suas alternativas de</p><p>pasmo e exaltação, se apoia em variação rítmica bem marcada.</p><p>Está correto apenas o que se afi rma em:</p><p>a) I e II.</p><p>b) II e III.</p><p>c) I e III.</p><p>d) II.</p><p>e) III.</p><p>10. (UEPA)</p><p>Dos Gamelas1 um chefe destemido,</p><p>Cioso d’alcançar renome e glória,</p><p>Vencendo a fama, que os sertões enchia,</p><p>Saiu primeiro a campo, armado e forte</p><p>Guedelha2 e ronco dos sertões imensos,</p><p>Guerreiros mil e mil vinham trás ele,</p><p>Cobrindo os montes e juncando as matas,</p><p>Com pejado carcaz3 de ervadas setas</p><p>Tingidas d’urucu, segundo a usança</p><p>Bárbara e fera, desgarrados gritos</p><p>Davam no meio das canções de guerra.</p><p>Chegou, e fez saber que era chegado</p><p>O rei das selvas a propor combate</p><p>Dos Timbiras ao chefe. –– “A nós só caiba,</p><p>(Disse ele) a honra e a glória; entre nós ambos</p><p>Decida-se a questão do esforço e brios.</p><p>Estes, que vês, impávidos guerreiros</p><p>São meus, que me obedecem; se me vences,</p><p>São teus; se és o vencido, os teus me sigam:</p><p>Aceita ou foge, que a vitória é minha.”</p><p>1 - tribo indígena;</p><p>2 - chefe de tribo;</p><p>3 - objeto para carregar as setas.</p><p>DIAS, Gonçalves. Os Timbiras: poema americano. Salvador: Progresso, 1956.</p><p>Disposto a morrer e a submeter seus seguidores à propriedade do</p><p>inimigo em caso de derrota, o índio desafi ante tem, segundo os</p><p>valores bélicos, o objetivo de:</p><p>a) pôr à prova a fi delidade de seu povo às suas ordens.</p><p>b) interagir com a tribo inimiga para chegar a uma solução</p><p>diplomática de seus conflitos.</p><p>c) dar a conhecer seu nome e sua fama entre os sertões e anular</p><p>a fama dos Timbiras.</p><p>d) exaltar a nação indígena dos Timbiras reafirmando sua</p><p>superioridade.</p><p>e) propagar os valores e costumes estrangeiros entre os índios</p><p>de sua tribo.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. C</p><p>02. E</p><p>03. A</p><p>04. A</p><p>05. E</p><p>06. E</p><p>07. C</p><p>08. D</p><p>09. B</p><p>10. C</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 37SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>PROSA ROMÂNTICA: JOSÉ DE</p><p>ALENCAR, MACEDO E ALMEIDA13</p><p>CONTEXTO DE INSERÇÃO</p><p>DA PROSA NO BRASIL</p><p>Evidentemente, as condições históricas que permitiram a</p><p>fixação dos princípios românticos no Brasil aplicam-se igualmente</p><p>à poesia e à prosa. É claro que fatores como a urbanização da</p><p>cidade do Rio de Janeiro, a “corte” do Império, além da formação de</p><p>uma sociedade consumidora crescente que frequentava a cidade,</p><p>influenciam decisivamente a procura por entretenimento – nesse</p><p>caso, já influenciado pelo espírito nacionalista – com a “cor local”.</p><p>E foi assim que prosa romântica fez sucesso no Brasil,</p><p>ganhando adeptos e formando um núcleo leitor, introduzida pelas</p><p>histórias de autores europeus como Victor Hugo, Alexandre Dumas</p><p>e Walter Scott, principalmente com a publicação desses escritores</p><p>nos jornais, em folhetins diários, uma espécie de precursora das</p><p>novelas televisivas dos dias atuais. Tal estratégia aumentou de</p><p>forma expressiva a tiragem dos periódicos, devido ao entusiasmo</p><p>declarado dos leitores, cativados pela nova narrativa, envolvente,</p><p>de linguagem acessível, sem complicações intelectuais, de</p><p>acontecimentos rápidos e de emoções fortes.</p><p>A estrutura folhetinesca buscava retratar pequenas</p><p>desarmonias na ordem social burguesa vigente, com suas histórias</p><p>apresentando conflitos que perturbavam a tranquilidade anterior,</p><p>provocando a desordem e estabelecendo a crise nos valores</p><p>burgueses; contudo, as dificuldades eram superadas e a felicidade</p><p>era restabelecida com a reordenação da ordem burguesa,</p><p>reafirmando-se os seus valores.</p><p>No Brasil, o público leitor desses folhetins era tipicamente</p><p>urbano, apesar de ter suas raízes no mundo rural que lhes</p><p>sustentavam: mulheres e estudantes que se estabeleceram na</p><p>corte após a Independência, como parte da mudança da família em</p><p>busca de ascensão econômica ou política – as esposas e filhas</p><p>de tais famílias acompanhavam o traslado – ou filhos de senhores</p><p>rurais mandados aos grandes centros para completar os estudos.</p><p>ALMEIDA JR, José Ferraz. Leitura, 1892</p><p>O sentimentalismo dos folhetins veio a modernizar uma</p><p>sociedade que já se sentia incomodada com um conjunto de</p><p>ideias intolerantes que refletiam a visão agrária e atrasada que</p><p>não combinava com os valores urbanos que o pensamento</p><p>burguês apregoava. Em 1844, com a publicação de A Moreninha</p><p>de Joaquim Manoel de Macedo, a literatura brasileira avançava</p><p>em busca da construção de uma identidade própria e abandonava</p><p>as meras cópias e versões dos folhetins europeus, inaugurando</p><p>a era do romance nacional.</p><p>ESTRUTURA DO FOLHETIM</p><p>Podem-se elencar algumas marcas bastante significativas</p><p>do folhetim romântico do século XIX. O caráter conservador das</p><p>narrativas nacionais fixava moralmente um modelo de sociedade</p><p>que emergia pós-Independência. Características libertárias,</p><p>luta por igualdade ou adaptações mais ligadas a determinados</p><p>contextos europeus só aparecerão no romance brasileiro no final</p><p>do movimento romântico. No geral, o folhetim estruturava-se em</p><p>uma ordem mais ou menos definida:</p><p>1. Situação inicial de ordem burguesa.</p><p>2. Perturbação na ordem burguesa: alguma ruptura com</p><p>preceitos familiares ou institucionais.</p><p>3. Crise nos valores burgueses, rejeição e desaprovação de</p><p>ações dos protagonistas (via de regra jovens “contestadores”.</p><p>4. Busca pelo mérito e pela superação dos rejeitados.</p><p>5. Decadência ou equívoco do planejamento inicial imposto,</p><p>normalmente com a descoberta de falhas morais que</p><p>caracterizam o antagonista.</p><p>6. Superação das dificuldades.</p><p>7. Revelação de atitudes e personalidades com retratação</p><p>e reaproximação.</p><p>8. A felicidade se restabelece com a reordenação da ordem</p><p>burguesa, reafirmando os seus valores iniciais.</p><p>Lucélia Santos e Rubens de Falco em uma cena da adaptação televisiva do romance</p><p>A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães exibida em 1976.</p><p>Assim, fatores como o sentimentalismo, o impasse amoroso</p><p>e a idealização de sentimentos ou mesmo das questões</p><p>nacionais surgem, em um primeiro momento, como as mais</p><p>fortes características desses folhetins. As personagens eram</p><p>normalmente planas – isto é, previsíveis em seu comportamento,</p><p>sem grandes alterações no arco de sua própria história –, com</p><p>utilização abusiva de modelos de heróis clássicos.</p><p>No plano da narrativa, apesar de que o foco narrativo</p><p>pudesse variar bastante, são mais comuns as construções em</p><p>terceira pessoa. Entretanto, uma característica constante é a</p><p>ampla utilização de flash backs na narrativa. A linguagem busca</p><p>uma afirmação nacional, afastando-se de modelos gramaticais</p><p>lusitanos e, ainda que não reivindique a total oralidade popular,</p><p>passa a representar a modalidade brasileira reconhecida pela</p><p>aristocracia nacional.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR38</p><p>LITERATURA 13 PROSA ROMÂNTICA: JOSÉ DE ALENCAR, MACEDO E ALMEIDA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>TIPOS DE ROMANCES ROMÂNTICOS</p><p>Pode-se dividir os romances brasileiros em quatro “classes”,</p><p>segundo a temática desenvolvida:</p><p>a) Regionalista</p><p>• Visão romântica e idealizada do país sobre sobre si mesmo.</p><p>• Valorização da diversidade étnica, linguística, social e</p><p>cultural.</p><p>• Experiência nova na literatura nacional, fez os escritores</p><p>observarem a realidade nacional.</p><p>• Afirmação da identidade nacional.</p><p>b) Indianista</p><p>• Exaltação do índio e da natureza nacional.</p><p>• Celebra a pureza do índio e a formação mestiça da raça</p><p>brasileira.</p><p>• Idealização de personagens e relações.</p><p>e prosa – “falarei em prosa, pois não</p><p>sou poeta” – e estimulado por ele, Aristóteles, em sua Poética,</p><p>debruçou-se sobre o assunto e ofereceu encaminhamentos</p><p>inovadores, propondo a divisão dos gêneros em três modalidades:</p><p>LÍRICO, ÉPICO E DRAMÁTICO.</p><p>Observe que o vocábulo “gênero” (genus-eris), em sua acepção</p><p>latina, significa geração – tempo de origem ou de nascimento.</p><p>Dessa forma, já é possível perceber esse caráter de transformação</p><p>próprio dos gêneros literários, à medida que cumpririam um ciclo</p><p>de nascimento, desenvolvimento e morte. O gênero épico, por</p><p>exemplo, tão valorizado na antiguidade, abandonou a estrutura</p><p>em versos e passou a priorizar o contar histórias em prosa, o que</p><p>permitiu o surgimento dos textos narrativos em forma de romance,</p><p>conto, crônica, dentre outros.</p><p>Falar em gêneros, hoje, e em classificações estanques é</p><p>objeto de discussão. A classificação dos textos em gêneros é por</p><p>demais limitada ou segmentada para entendermos a riqueza que a</p><p>literatura oferece. Sua pluralidade e complexidade, especialmente</p><p>na literatura contemporânea, nos permite, inclusive, perceber que</p><p>modernamente os gêneros se interpenetram em um texto, como</p><p>uma prosa poética, por exemplo. Haverá sempre a predominância</p><p>de características de um dos gêneros, todavia será possível</p><p>encontrar traços de outro(s) gênero(s) em um mesmo texto.</p><p>Hoje, com as novas mídias, antigos gêneros são modificados e</p><p>novos estão surgindo com a interação entre a literatura e outras</p><p>manifestações artísticas.</p><p>GÊNERO LÍRICO</p><p>A palavra lírico vem do nome de um pequeno instrumento</p><p>musical da antiguidade, a lira. A melodia acompanhava os versos</p><p>recitados, combinando música e literatura, duas artes em única</p><p>manifestação. O gênero é a manifestação de um eu lírico, a</p><p>expressão de seus sentimentos pessoais, seu mundo interior, suas</p><p>emoções e impressões.</p><p>Normalmente o poeta lírico é um ser isolado, que se interessa</p><p>pelos estados da alma, com suas sensações. Daí essa expressão</p><p>artística ser estritamente subjetiva, interiorizando o mundo exterior,</p><p>criando identificações; no plano formal, há predominância de</p><p>pronomes e verbos em 1ª pessoa.</p><p>A ode, a elegia e o soneto são formas clássicas de manifestação</p><p>lírica. São textos preocupados com a forma, nos quais predominam</p><p>as funções emotiva e poética. A métrica, a rima e a musicalidade</p><p>também ganham destaque nas obras líricas. Observe o lirismo nos</p><p>versos a seguir, de Vinícius de Moraes:</p><p>A partida</p><p>Quero ir-me embora pra estrela</p><p>Que vi luzindo no céu</p><p>Na várzea do setestrelo.</p><p>Sairei de casa à tarde</p><p>Na hora crepuscular</p><p>Em minha rua deserta</p><p>Nem uma janela aberta</p><p>Ninguém para me espiar</p><p>De vivo verei apenas</p><p>Duas mulheres serenas</p><p>Me acenando devagar.</p><p>Será meu corpo sozinho</p><p>Que há de me acompanhar</p><p>Que a alma estará vagando</p><p>Entre os amigos, num bar.</p><p>Ninguém ficará chorando</p><p>Que mãe já não terei mais</p><p>E a mulher que outrora tinha</p><p>Mais que ser minha mulher</p><p>É a mãe de uma filha minha.</p><p>Irei embora sozinho</p><p>Sem angústia nem pesar</p><p>Antes contente da vida</p><p>Que não pedi, tão sofrida</p><p>Mas não perdi por ganhar.</p><p>Verei a cidade morta</p><p>Ir ficando para trás</p><p>E em frente se abrirem campos</p><p>Em flores e pirilampos</p><p>Como a miragem de tantos</p><p>Que tremeluzem no alto.</p><p>Num ponto qualquer da treva</p><p>Um vento me envolverá</p><p>Sentirei a voz molhada</p><p>Da noite que vem do mar</p><p>Chegar-me-ão falas tristes</p><p>Como a querer me entristar</p><p>Mas não serei mais lembrança</p><p>Nada me surpreenderá:</p><p>Passarei lúcido e frio</p><p>Compreensivo e singular</p><p>Como um cadáver num rio</p><p>E quando, de algum lugar</p><p>Chegar-me o apelo vazio</p><p>De uma mulher a chorar</p><p>Só então me voltarei</p><p>Mas nem adeus lhe darei</p><p>No oco raio estelar</p><p>Libertado subirei.</p><p>(Vinicius de Moraes)</p><p>GÊNERO DRAMÁTICO</p><p>A palavra drama vem do grego e significa ação. E é o “agir”</p><p>que torna diferente este gênero dos demais, já que apresenta sua</p><p>história contada diretamente pelos personagens. Os textos não</p><p>visam ser recitados, mas encenados. O palco é o espaço deste</p><p>gênero, onde atores representam os papéis das personagens,</p><p>desenrolando-se por meio de diálogos, seguindo uma sequência</p><p>que confira às cenas a lógica de causa e consequência.</p><p>A ausência do narrador é compensada com indicações</p><p>diversas, como, por exemplo, o cenário. É comum que o gênero</p><p>trate dos conflitos humanos, as relações dos homens com o</p><p>mundo e a própria miséria – moral, social ou econômica – por que</p><p>passam. A crítica é universal, servindo o homem como exemplar</p><p>de qualquer outro, exemplificando comportamentos e sentimentos</p><p>diversos como avareza, ganância, prudência entre outros.</p><p>Em sua estrutura notam-se as marcações cênicas, comuns</p><p>no início de atos e cenas, em que são descritos os elementos do</p><p>ambiente, a entrada de personagens e seus figurinos. Também</p><p>são comuns as rubricas de interpretação, textos que surgem entre</p><p>parênteses dentro das falas das personagens, para indicar ao ator</p><p>as emoções ou maneiras de interpretar as falas segundo a visão</p><p>do dramaturgo.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR12</p><p>LITERATURA 02 GÊNEROS LITERÁRIOS E A CONSTRUÇÃO DO HERÓI</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>O gênero dramático compreende várias modalidades como a</p><p>tragédia – que visava representar ações de consequências graves,</p><p>inspirando pena e terror; a comédia – que representava o cotidiano</p><p>e a crítica aos costumes, provocando o riso; e a farsa – pequena</p><p>peça de caráter caricatural de crítica à sociedade, aos poderosos e</p><p>aos costumes em geral.</p><p>O texto a seguir, fragmento da peça Eles não usam black-tie,</p><p>de Gianfrancesco Guarnieri, mostra os conflitos vividos por Otávio,</p><p>líder de movimento sindical e seu filho Tião, operário que fura a</p><p>greve para não perder o emprego.</p><p>TIÃO – Papai...</p><p>OTÁVIO – Me desculpe, mas seu pai ainda não chegou. Ele</p><p>deixou um recado comigo, mandou dizê pra você que ficou muito</p><p>admirado, que se enganou. E pediu pra você tomá outro rumo,</p><p>porque essa não é a casa de fura-greve!</p><p>TIÃO – Eu vinha me despedir e dizer só uma coisa: não foi por</p><p>covardia!</p><p>OTÁVIO – Seu pai me falou sobre isso. Ele também procura</p><p>acreditá que num foi por covardia. Ele acha que você até que teve</p><p>peito. Furou a greve e disse pra todo mundo, não fez segredo. Não</p><p>fez como o Jesuíno que furou a greve sabendo que tava errado.</p><p>Ele acha, o seu pai, que você é ainda mais filho da mãe! Que você</p><p>é um traidô dos seus companheiro e da sua classe, mas um traidô</p><p>que pensa que tá certo! Não um traidô por covardia, um traidô por</p><p>convicção!</p><p>TIÃO – Eu queria que o senhor desse um recado a meu pai...</p><p>OTÁVIO – Vá dizendo.</p><p>TIÃO – Que o filho dele não é um “filho da mãe”. Que o filho dele</p><p>gosta de sua gente, mas que o filho dele tinha um problema e quis</p><p>revolvê esse problema de maneira mais segura. Que o filho é um</p><p>homem que quer bem!</p><p>OTÁVIO – Seu pai vai ficá irritado com esse recado, mas eu</p><p>digo. Seu pai tem outro recado pra você. Seu pai acha que a culpa</p><p>de pensá desse jeito não é sua só. Seu pai acha que tem culpa...</p><p>TIÃO – Diga a meu pai que ele não tem culpa nenhuma.</p><p>OTÁVIO (perdendo o controle) – Se eu te tivesse educado mais</p><p>firme, se te tivesse mostrado melhor o que é a vida, tu não pensaria</p><p>em não ter confiança na tua gente...</p><p>TIÃO – Meu pai não tem culpa. Ele fez o que devia. O problema</p><p>é que não podia arriscá nada. Preferi tê o desprezo de meu pessoal</p><p>pra poder querer bem, como eu quero querer, a tá arriscando a vê</p><p>minha mulhé sofrê como minha mãe sofre, como todo mundo</p><p>nesse morro sofre!</p><p>OTÁVIO – Seu pai acha que ele tem culpa!</p><p>TIÃO – Tem culpa de nada, pai!</p><p>OTÁVIO – (num rompante) E deixa ele acreditá nisso, se não,</p><p>ele vai sofrê muito mais. Vai achar que o filho dele caiu na merda</p><p>sozinho. Vai achar que o filho dele é safado de nascença. (Acalma-</p><p>se repentinamente.) Seu pai manda mais um recado. Diz que você</p><p>não precisa aparecê mais. E deseja boa sorte pra você.</p><p>TIÃO – Diga a ele que vai ser assim. Não foi por covardia e não</p><p>me arrependo de nada. Até um dia. (encaminha-se para a porta).</p><p>GÊNERO ÉPICO</p><p>Provavelmente a mais antiga forma de manifestação literária,</p><p>surgindo da necessidade</p><p>c) Histórico</p><p>• Busca o passado “glorioso” do país</p><p>• Visão ufanista e exagerada.</p><p>d) Urbano</p><p>• Comunicação direta com o público burguês.</p><p>• Retrata as relações cotidianas.</p><p>• Personagens comuns e de fácil identificação.</p><p>• Idealização amorosa.</p><p>• Retrato dos valores e ideais burgueses.</p><p>ALGUNS ROMANCISTAS</p><p>Joaquim Manuel de Macedo</p><p>Nasceu em Itaboraí, no Rio de Janeiro, em 24 de junho de</p><p>1820, filho de uma família relativamente abastada. Formou-se em</p><p>Medicina, ciência que não colocaria em prática, pois já se decidira</p><p>pelas carreiras literária, docente e política. Destacou-se em todas</p><p>elas, ensinando os filhos da princesa Isabel, lecionando História</p><p>no colégio Pedro II e tornando-se deputado em várias legislaturas,</p><p>além apresentar inúmeras contribuições ao jornalismo. Como</p><p>escritor, foi o primeiro a conhecer a fama, sendo o pioneiro na prosa</p><p>romântica nacional e grande produtor de romances, deixando mais</p><p>de quarenta obras publicadas.</p><p>Nos últimos anos de vida, Joaquim Manuel de Macedo sofreu</p><p>com a decadência de suas faculdades mentais, junto à superação</p><p>de sua fama por outros escritores e pela perda de sua situação</p><p>financeira. Esquecido pelo público, morre no Rio de Janeiro em 11</p><p>de abril de 1882.</p><p>Sua importância é resultado da visão de “mercado” que</p><p>possuía: Macedo percebeu que o público nacional aceitaria de</p><p>bom grado um romance adaptado aos cenários brasileiros, desde</p><p>que fosse conservado o estilo das narrativas inglesas e francesas</p><p>com o qual os leitores estavam acostumados por culpa dos</p><p>folhetins publicados nos jornais.</p><p>Sua obra reflete os ideais do romantismo europeu somados</p><p>aos valores morais da sociedade patriarcal brasileira. Com sua</p><p>escrita simples e descritiva, de histórias sem grandes surpresas,</p><p>focava principalmente na identificação dos leitores com os locais</p><p>reais da cidade que eram descritos. Sua obra não possui grande</p><p>valor artístico, não apresenta novidades estilísticas nem mergulha</p><p>em quaisquer análises psicológicas ou sociológicas. Cabe-lhe o</p><p>destaque pelo pioneirismo do romance nacional.</p><p>Em lugar das grandes paixões, namoros respeitáveis que</p><p>seguem o padrão da sociedade, com a sequência de noivado e</p><p>casamento. O afeto era apresentado pelos olhos do decoro, sem</p><p>revoltas ou tragédias. Enfim, como se convencionou classificar a</p><p>obra de Macedo: mais açúcar do que sangue, retratando o cotidiano</p><p>da burguesia e, por que não dizer, a mediocridade de seus valores.</p><p>José de Alencar</p><p>José Martiniano de Alencar nasceu em Mecejana, no interior do</p><p>Ceará, em 1º de maio de 1829, filho de uma das mais tradicionais</p><p>famílias da elite cearense. Seu pai chegou a participar da</p><p>Confederação do Equador e também foi senador do Império. Aos</p><p>nove anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde</p><p>estudou, completando seus estudos em São Paulo, onde se formou</p><p>em Direito.</p><p>De volta ao Rio, trabalhou como advogado e aproveitou para</p><p>contribuir na imprensa. Polemista, fez duras críticas ao trabalho de</p><p>Gonçalves de Magalhães, apadrinhado do Imperador, que comprou</p><p>a polêmica. Começa a publicar seus livros em 1857, lançando</p><p>Cinco Minutos em livro e o Guarani como folhetim, obtendo uma</p><p>repercussão jamais antes vista no país.</p><p>José de Alencar foi político, orador parlamentar e consultor do</p><p>Ministério da Justiça, chegando a Ministro de Estado; só não foi</p><p>Senador – cargo a que se candidatou – porque D. Pedro II vetou-</p><p>lhe a nomeação. Casou-se aos trinta e cinco anos com Georgina</p><p>Cochrane, uma jovem de 18 anos, sobrinha do Almirante Cochrane,</p><p>herói da Independência. José conheceu a jovem na Tijuca, em um</p><p>de seus retiros para cuidar de sua tuberculose.</p><p>Em 12 de dezembro de 1877, depois de uma séria piora em seu</p><p>estado de saúde, José de Alencar sucumbe à tuberculose e morre</p><p>no Rio de Janeiro.</p><p>A importância de José de Alencar para a literatura nacional</p><p>é enorme, chegando a ser considerado como seu patriarca.</p><p>Buscou fazer em suas obras um painel do país, mostrando a</p><p>diversidade de aspectos geográficos, sociais e étnicos do Brasil.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>13 PROSA ROMÂNTICA: JOSÉ DE ALENCAR, MACEDO E ALMEIDA</p><p>39</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Em sua ideia de construção do romance brasileiro encontra-</p><p>se um projeto abrangente, buscando histórias gloriosas e</p><p>idealizando mitos dos fundadores da raça.</p><p>Inovador quanto à linguagem, decidiu que, se o romance deveria</p><p>ser o retrato do país, não bastava somente a temática brasileira,</p><p>mas uma linguagem nacional. Assim, rompe com o estilo literário</p><p>lusitano, usando períodos curtos e sintéticos, valendo-se de</p><p>comparações e metáforas, buscando analogias na natureza para</p><p>descrever as expressões do índio, do qual se utiliza da linguagem,</p><p>usando por muitas vezes vocábulos indígenas.</p><p>Alencar representa em suas obras a idealização da realidade</p><p>humana e social do país, passando, assim, ao largo dos problemas</p><p>sociais como a escravidão, por exemplo. Suas personagens são</p><p>exemplares positivos e que devem ser imitados, correspondendo</p><p>às necessidades das classes elitizadas do país na formação de</p><p>uma boa imagem da nação.</p><p>Seus romances urbanos idealizam a própria sociedade, dando-</p><p>lhe um caráter inverossímil ao tentar retratar os conflitos entre a</p><p>realidade e o universo sublimado. Isso mostra uma transição, já</p><p>com alguma influência de percepções pré-realistas. Apesar de</p><p>extremamente folhetinesco, Alencar introduz novidades temáticas</p><p>em sua trilogia de “perfis femininos”, nas quais apresenta análises</p><p>psicológicas mais desenvolvidas e mistura as questões financeiras</p><p>aos relacionamentos amorosos.</p><p>O drama das personagens liga-se às questões da</p><p>organização social. Em Lucíola, a prostituta que se apaixona</p><p>– um amor impossível frente à diferença dos grupos sociais;</p><p>Senhora apresenta o casamento por interesse; e Diva, um retrato</p><p>do mundo fútil das elites, transformando o relacionamento em</p><p>um jogo de interesses, desprezo e humilhações, explorando os</p><p>limites dos sentimentos humanos.</p><p>Seus romances indianistas também figuram entre os mais</p><p>importantes da literatura nacional. É nítida a idealização do índio e</p><p>sua colocação como herói nacional, alçando-o como um dos pilares</p><p>– junto ao europeu – de formação do povo brasileiro, ignorando</p><p>por completo o papel do negro na gênese brasileira. Tais romances</p><p>ocorrem em um passado distante, chegando mesmo, em Ubirajara,</p><p>a ocorrer antes do descobrimento. O índio em Alencar é inspirado</p><p>no cavaleiro medieval europeu, possuindo características épicas de</p><p>um herói clássico.</p><p>Alencar também apresenta uma gama de romances históricos,</p><p>ambientados no passado colonial, buscando representar a</p><p>formação da nação como povo. Contudo, não há fidelidade nos</p><p>relatos históricos, deixando os fatos em segundo plano, servindo</p><p>como pano de fundo para as mais idealizadas e inverossímeis</p><p>aventuras.</p><p>Por fim, José de Alencar dá início aos romances regionalistas</p><p>na literatura brasileira. Nascidas da nostalgia do autor e de uma</p><p>evasão para a infância, é de nítida intenção ideológica a produção</p><p>de tais obras. Retratam a condição do país da forma mais pura,</p><p>localizando-as no mundo rural, buscando revelar o país em sua</p><p>extensão geográfica, demonstrando os típicos brasileiros da região,</p><p>com a finalidade de integrá-los a um projeto de unidade, como</p><p>desejo das elites imperiais e que encontra em Alencar seu porta-</p><p>voz. Em O Sertanejo, faz uma belíssima descrição, demonstrando</p><p>claramente ter os conhecimentos para a realização de tal obra,</p><p>fato que se revela insuficiente em O Gaúcho, já que o autor jamais</p><p>conhecera a região, traçando um perfil superficial e estereotipado</p><p>dos habitantes do sul.</p><p>José de Alencar foi o mais nacionalista de nossos autores,</p><p>considerou sua arte uma missão patriótica a ser cumprida,</p><p>registrando a marca da autonomia literária de nossa arte e de</p><p>nossa linguagem. Percebeu o país em sua extensão e buscou</p><p>analisar o Brasil em todas as suas vertentes: urbana, rural,</p><p>geográfica, étnica e histórica. Não se pode acusar Alencar de</p><p>não ter se posicionado frente às mazelas</p><p>sociais, visto que o</p><p>escritor possuía um posicionamento político claro, defendendo os</p><p>interesses da monarquia e das elites do Império da qual fazia parte;</p><p>sua escrita ideológica representa coerentemente seu pensamento</p><p>e seu discurso de classe.</p><p>OUTROS AUTORES</p><p>Há inúmeros outros romancistas do período que são</p><p>importantes e que valem a pena ser conhecidos e pesquisados.</p><p>Nomes como Bernardo Guimarães, Manuel Antônio de Almeida,</p><p>Visconde de Taunay, Franklin Távora e Martins Pena merecem uma</p><p>boa leitura.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (ENEM) FABIANA, arrepelando-se de raiva — Hum! Ora, eis aí</p><p>está para que se casou meu filho, e trouxe a mulher para minha</p><p>casa. É isto constantemente. Não sabe o senhor meu filho que</p><p>quem casa quer casa... Já não posso, não posso, não posso!</p><p>(Batendo com o pé). Um dia arrebento, e então veremos!</p><p>PENA, M. Quem casa quer casa. www.dominiopubiico.gov.br. Acesso em: 7 dez. 2012.</p><p>As rubricas em itálico, como as trazidas no trecho de Martins Pena,</p><p>em uma atuação teatral, constituem</p><p>a) necessidade, porque as encenações precisam ser fiéis às</p><p>diretrizes do autor.</p><p>b) possibilidade, porque o texto pode ser mudado, assim como</p><p>outros elementos.</p><p>c) preciosismo, porque são irrelevantes para o texto ou para</p><p>a encenação.</p><p>d) exigência, porque elas determinam as características do</p><p>texto teatral.</p><p>e) imposição, porque elas anulam a autonomia do diretor.</p><p>02. (UPF) No Brasil, a poesia da primeira geração romântica tinha</p><p>como objetivo criar uma __________, tomando como protagonista a</p><p>figura do __________. A poesia da segunda geração romântica, por</p><p>sua vez, foi impregnada de __________, que se aliou ao subjetivismo</p><p>extremo e ao escapismo. Já na terceira geração romântica,</p><p>destaca-se a poesia de Castro Alves, que tem como uma de suas</p><p>temáticas principais __________.</p><p>Assinale a alternativa cujas informações preenchem corretamente</p><p>as lacunas do enunciado.</p><p>a) identidade clássica / sertanejo / pessimismo / a denúncia</p><p>da escravidão.</p><p>b) identidade nacional / sertanejo / tédio / a repulsa ao erotismo.</p><p>c) identidade nacional / índio / pessimismo / a denúncia da</p><p>escravidão.</p><p>d) identidade nacional / sertanejo / pessimismo / o desejo pela</p><p>mulher amada.</p><p>e) identidade clássica / índio / tédio / a denúncia da escravidão.</p><p>03. (UNESP) Esse autor introduziu no romance brasileiro o índio e</p><p>os seus acessórios, aproveitando-o ou em plena selvageria ou em</p><p>comércio com o branco. Como o quer representar no seu ambiente</p><p>exato, ou que lhe parece exato, é levado a fazer também, se não</p><p>antes de mais ninguém, com talento que lhe assegura a primazia,</p><p>o romance da natureza brasileira.</p><p>(José Veríssimo. História da literatura brasileira, 1969. Adaptado.)</p><p>PRÉ-VESTIBULAR40</p><p>LITERATURA 13 PROSA ROMÂNTICA: JOSÉ DE ALENCAR, MACEDO E ALMEIDA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Tal comentário refere-se a</p><p>a) Aluísio Azevedo.</p><p>b) José de Alencar.</p><p>c) Manuel Antônio de Almeida.</p><p>d) Basílio da Gama.</p><p>e) Gonçalves Dias.</p><p>04. (FUVEST) Nasceu o dia e expirou.</p><p>Já brilha na cabana de Araquém o fogo, companheiro da noite.</p><p>Correm lentas e silenciosas no azul do céu, as estrelas, filhas da lua,</p><p>que esperam a volta da mãe ausente.</p><p>Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e</p><p>vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a</p><p>virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos</p><p>ardentes amores.</p><p>Iracema recosta-se langue ao punho da rede; seus olhos</p><p>negros e fúlgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o estrangeiro,</p><p>e lhe entram n’alma. O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí,</p><p>fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se</p><p>debruça enfim sobre o peito do guerreiro.</p><p>José de Alencar, Iracema.</p><p>É correto afirmar que, no texto, o narrador</p><p>a) prioriza a ordem direta da frase, como se pode verificar nos</p><p>dois primeiros parágrafos do texto.</p><p>b) usa o verbo “correr” (2º parágrafo) com a mesma acepção que</p><p>se verifica na frase “Travam das armas os rápidos guerreiros,</p><p>e correm ao campo” (também extraída do romance Iracema).</p><p>c) recorre à adjetivação de caráter objetivo para tornar a cena</p><p>mais real.</p><p>d) emprega, a partir do segundo parágrafo, o presente do</p><p>indicativo, visando dar maior vivacidade aos fatos narrados,</p><p>aproximando-os do leitor.</p><p>e) atribui, nos trechos “aqui lhe sorri” e “lhe entram n’alma”,</p><p>valor possessivo ao pronome “lhe”.</p><p>05. (UECE) O texto abaixo consta como prefácio da 2ª edição</p><p>do romance Janelas Fechadas, do maranhense Josué Montello,</p><p>publicado pela primeira vez em 1941. Foi escrito por Tristão</p><p>de Athayde (Alceu Amoroso Lima), que compõe uma crítica na</p><p>qual desenvolve ideias originais, como uma aproximação entre</p><p>Benzinho, protagonista do romance de Montello, e Capitu.</p><p>Uma Capitu Nordestina</p><p>1Cada novo livro de Josué Montello é um acontecimento em</p><p>nossas letras. Sua fecundidade literária, aliás [...], nunca se fez com</p><p>sacrifício de seu esmero na expressão verbal. Pelo contrário, esse</p><p>esmero atingiu seu alto grau de perfeição com Aleluia, mas de</p><p>forma alguma se esgotou na sua busca de concisão, outra meta</p><p>constante em sua estilística pessoal. 2Ainda agora, o que o levou</p><p>a reeditar esse quase primeiro livro de sua “maturidade literária”,</p><p>como ele próprio assinalou, foi a preocupação estritamente</p><p>estilística e não estrutural, junto ao cuidado de preservar o tipo</p><p>de sua personagem central, a jovem Benzinho, e o ambiente</p><p>maranhense de todos os seus romances.</p><p>Aliás, se a paisagem maranhense desse romance nada tem a</p><p>ver com a rude paisagem tipicamente nordestina dos romances</p><p>de um José Lins do Rego ou de um José Américo, o caráter da</p><p>jovem Maria de Lourdes Silva, apelidada Benzinho desde a infância,</p><p>nada tem a ver com o tipo genuíno das jovens nordestinas,</p><p>como aliás dos homens da região, onde a firmeza de caráter é</p><p>a expressão mais representativa do temperamento nordestino,</p><p>pela supremacia dos valores morais sobre os valores eróticos e</p><p>sobretudo hedonísticos. 3Sendo esse romance dos seus vinte anos</p><p>uma tentativa quase subconsciente de reação antirromântica, não</p><p>é de espantar que essa adolescente dos subúrbios de São Luís, o</p><p>bairro do Anil, se pareça mais com a sofisticada carioca Capitu do</p><p>que com 4qualquer das Inocências, ou Moreninhas do romantismo</p><p>de sua época.</p><p>Benzinho, pela mão feiticeira de seu criador literário, que,</p><p>aliás, colheu o modelo na vida real, passa ao longo do romance</p><p>sem que o autor se aprofunde em qualquer análise psicológica</p><p>da passagem de uma condição de vítima inocente à de uma</p><p>representante típica, embora inconsciente, de um fenômeno</p><p>sociológico, o da ascensão social, que, ao contrário do tipo habitual</p><p>da mulher nordestina, coloca inteiramente de lado as razões do</p><p>coração ou da sensualidade para se dirigir exclusivamente pela</p><p>razão. E pelo raciocínio rigorosamente interesseiro de promoção</p><p>social ou de influência exterior. Quando, pela primeira vez, se</p><p>entrega a um quase desconhecido, é levada exclusivamente por</p><p>uma frase eventual de sua mãe, que lhe confidenciara a vontade de</p><p>ter um neto. Pela segunda vez, o que a levou a fazer o mesmo foi</p><p>simplesmente a ambição de casar com um vizinho rico.</p><p>Em ambos os casos, absoluta ausência de sentimento</p><p>passional e, no fundo, preocupações de tipo masculino mais que</p><p>feminino. Não é a preocupação feminista de emancipação de</p><p>seu sexo, mas a passividade em face de um desejo materno e o</p><p>impulso masculino de ambição social.</p><p>Aliás, na criação da personagem central dessa jovem Capitu</p><p>nordestina, tocava Josué Montello em um fenômeno típico das</p><p>sociedades modernas: a confusão ou o desencontro entre os sexos,</p><p>em sua respectiva natureza biológica e psicológica. Já Aristóteles</p><p>verificava haver homens de alma feminina e vice-versa. Assim como</p><p>não há, entre as várias idades do ser humano, limites claros e</p><p>positivos, assim também não existe, entre os sexos, uma psicologia</p><p>respectivamente incompatível. O que é preciso é não confundir o</p><p>desencontro de psicologias com a confusão, ou antes, a inversão</p><p>das psicologias.</p><p>Uma coisa é um homem de alma feminina e outra</p><p>um homem efeminado. Naqueles, o que vemos é o predomínio de</p><p>certas qualidades, que normalmente distinguem a alma feminina,</p><p>sem que, entretanto, essa troca perturbe seus valores máximos.</p><p>Introdução. ATHAYDE, Tristão de. In: MONTELLO, Josué. Romances e novelas. V. 1. P. 109-111.</p><p>Considere a expressão “qualquer das Inocências, ou Moreninhas</p><p>do romantismo de sua época” (referência 4):</p><p>I. O crítico, nesta passagem do texto, refere-se diretamente aos</p><p>romances Inocência (de Visconde de Taunay) e A Moreninha</p><p>(de Joaquim Manuel de Macedo) e indiretamente às</p><p>personagens do mesmo nome.</p><p>II. O que o crítico chama de “romantismo de sua época”</p><p>(época de Josué Montello) é um Romantismo tardio, fora</p><p>de época; extemporâneo.</p><p>III. O pronome “qualquer”, no excerto transcrito, equivale a “nenhuma”.</p><p>Está correto o que se diz apenas em</p><p>a) II.</p><p>b) I e II.</p><p>c) III.</p><p>d) I e III.</p><p>06. (FAC. ALBERT EINSTEIN) Considerando as situações amorosas</p><p>que se mostram no romance Memórias de um Sargento de Milícias,</p><p>de Manuel Antonio de Almeida, é correto afirmar que</p><p>a) há um relacionamento amoroso desinteressado entre José</p><p>Manoel e Luisinha que se efetiva por um casamento feliz</p><p>e duradouro.</p><p>b) cresce uma paixão entre Vidinha e Leonardo que resulta em</p><p>união estável, consumada em casamento aprovado por todos,</p><p>mesmo tendo o herói tomado gosto pela vida de vadio.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>13 PROSA ROMÂNTICA: JOSÉ DE ALENCAR, MACEDO E ALMEIDA</p><p>41</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>c) renasce em Luisinha o sentimento adormecido que nutria</p><p>por Leonardo e, após a decepção da primeira união</p><p>conjugal, casa-se com ele em bodas festivas e amparadas</p><p>em herança recebida e na promoção às fileiras das Milícias</p><p>no posto de sargento.</p><p>d) resulta do casamento feliz de Leonardo-Pataca com Maria das</p><p>Hortaliças, o nascimento de um menino, fruto de uma pisadela</p><p>e de um beliscão e que será a felicidade de todos porque nunca</p><p>será malsinado.</p><p>07. (FATEC) Leia o fragmento da obra “Senhora”, de José de Alencar.</p><p>Quando Seixas achava-se ainda sob o império desta nova</p><p>contrariedade, apareceu na sala a Aurélia Camargo, que chegara</p><p>naquele instante. Sua entrada foi como sempre um deslumbramento;</p><p>todos os olhos voltaram-se para ela; pela numerosa e brilhante</p><p>sociedade ali reunida passou o frêmito das fortes sensações.</p><p>Parecia que o baile se ajoelhava para recebê-la com o fervor da</p><p>adoração. Seixas afastou-se. Essa mulher humilhava-o. Desde</p><p>a noite de sua chegada que sofrera a desagradável impressão.</p><p>Refugiava-se na indiferença, esforçava-se por combater com o</p><p>desdém a funesta influência, mas não o conseguia. A presença</p><p>de Aurélia, sua esplêndida beleza, era uma obsessão que o</p><p>oprimia. Quando, como agora, a tirava da vista fugindo-lhe, não</p><p>podia arrancá-la da lembrança, nem escapar à admiração que ela</p><p>causava e que o perseguia nos elogios proferidos a cada passo em</p><p>torno de si. No Cassino, Seixas tivera um reduto onde abrigar-se</p><p>dessa cruel fascinação.</p><p><http://tinyurl.com/ou5m65d> Acesso em: 17.09.2015. Adaptado.</p><p>É correto afirmar que essa obra pertence ao</p><p>a) Romantismo, pois ela critica os valores burgueses, exalta a</p><p>natureza e a vida simples do campo, denunciando a corrupção</p><p>e a hipocrisia na sociedade fluminense do século XX.</p><p>b) Romantismo, pois ela enaltece a fragilidade da mulher e</p><p>exprime de forma contida os sentimentos das personagens,</p><p>situando-as no contexto da sociedade paulista do século XX.</p><p>c) Romantismo, pois ela exalta a figura feminina, expõe,</p><p>de maneira exacerbada, os sentimentos das personagens,</p><p>tendo como pano de fundo os costumes da sociedade</p><p>fluminense do século XIX.</p><p>d) Modernismo, pois ela idealiza a mulher e a juventude e trata</p><p>da infelicidade dos amores não correspondidos, inserindo as</p><p>personagens na sociedade fluminense do século XX.</p><p>e) Modernismo, pois ela se opõe ao exagero na expressão dos</p><p>sentimentos e ao papel de submissão destinado às mulheres,</p><p>retratando o cotidiano da sociedade paulista do século XX.</p><p>08. (UNISC) Assinale a alternativa que não apresenta uma obra de</p><p>Machado de Assis.</p><p>a) Lucíola</p><p>b) Helena</p><p>c) Dom Casmurro</p><p>d) Memorial de Aires</p><p>e) Esaú e Jacó</p><p>09. (UPF) Sobre o romance Iracema, de José de Alencar, é incorreto</p><p>afirmar que:</p><p>a) apresenta um narrador onisciente, em terceira pessoa.</p><p>b) incorpora inúmeros termos indígenas, com o intuito de forjar</p><p>uma língua literária nacional.</p><p>c) simboliza o consórcio do português e do indígena na formação</p><p>da nação brasileira.</p><p>d) possui, como argumento histórico, fatos relacionados ao</p><p>estado de Pernambuco, terra natal do autor.</p><p>e) vale-se da prosa poética na representação do espaço e das</p><p>personagens.</p><p>10. (UFRGS) Assinale a alternativa correta a respeito de Memórias</p><p>de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida.</p><p>a) Leonardinho é filho de agricultores portugueses, imigrantes</p><p>que vieram para o Brasil junto com D. Manuel.</p><p>b) O compadre e a comadre representam o trabalhador da</p><p>indústria que nascia na organização econômica brasileira.</p><p>c) A união entre o jovem Leonardo e Luisinha estabelece-se como</p><p>marca romântica no romance, pois recupera o ideal do amor</p><p>juvenil coroado pelo casamento.</p><p>d) Leonardo é o típico herói romântico: sonhador e devotado</p><p>à amada.</p><p>e) O romance não apresenta definição de coordenadas temporais</p><p>e espaciais, pois sua ação pode ocorrer tanto no Rio de Janeiro</p><p>quanto em Salvador.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. B</p><p>02. C</p><p>03. B</p><p>04. D</p><p>05. B</p><p>06. C</p><p>07. C</p><p>08. A</p><p>09. D</p><p>10. C</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>PRÉ-VESTIBULAR42</p><p>LITERATURA 13 PROSA ROMÂNTICA: JOSÉ DE ALENCAR, MACEDO E ALMEIDA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 43SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>REALISMO14</p><p>MOMENTO HISTÓRICO</p><p>A partir da segunda metade do século XIX, a Europa assiste</p><p>a uma série de gigantescas mudanças econômicas, científicas e</p><p>sociais, com o surgimento de correntes de pensamento que se</p><p>refletem na estética como uma crítica às posturas românticas.</p><p>A segunda fase da Revolução Industrial, marcada pelo</p><p>avanço nas tecnologias de produção advindas de um agudo</p><p>avanço no campo do conhecimento científico, modifica não só o</p><p>funcionamento produtivo, mas as próprias estruturas econômicas</p><p>da sociedade. Pequenos empreendimentos familiares passam</p><p>a não encontrar lugar e em seu lugar surgem grandes fábricas e</p><p>empresas, normalmente com atuação conjunta e organizada para</p><p>dominar mercados – os chamados trustes e cartéis.</p><p>HEJENBROCK, Herman. A fundição de ferro em blocos, 1890</p><p>A população passa a aglomerar-se em centros urbanos, um</p><p>reflexo da própria industrialização, que atrai para as cidades grandes</p><p>contingentes populacionais oriundos dos campos. Os industriais</p><p>e seus grupos econômicos expandem sua influência e passam a</p><p>atuar em nome de seus países, dominando o mercado internacional</p><p>e dando início à expansão imperialista, com um novo processo de</p><p>colonização e captura de países africanos e asiáticos em busca de</p><p>matérias-primas. A burguesia europeia vive seu apogeu, em que há</p><p>enorme fluxo de capitais, rápido enriquecimento e vida luxuosa, tudo</p><p>às custas da exploração das vastas colônias pelo mundo.</p><p>Ao mesmo tempo, verifica-se um grande avanço das ciências</p><p>e da filosofia. O positivismo de Augusto Comte, o determinismo de</p><p>Hippolyte Taine, as descobertas no campo da biologia, além das</p><p>muitas invenções tecnológicas, como a luz elétrica, o telégrafo,</p><p>entre outras aceleram a transformação do mundo e a tentativa de</p><p>descrevê-lo e entendê-lo.</p><p>Por outro lado, as contradições advindas das novas formas</p><p>de produção não demoram a surgir de maneira contundente. As</p><p>cidades incham-se e crescem desordenadamente, onde não há</p><p>condições mínimas de higiene e as pessoas amontoam-se sem</p><p>conforto algum; burgueses e proletários entram em rota de colisão</p><p>e devido à exploração massiva, com longas jornadas de trabalho,</p><p>falta de condições, trabalho infantil e ausência de direitos. Nessa</p><p>conjuntura, surgem movimentos e revoltas de trabalhadores</p><p>empurrados por movimentos anarquistas e posteriormente pelas</p><p>organizações comunistas, apoiadas na crítica do socialismo</p><p>científico postulado por Karl Marx.</p><p>Este cenário contraditório entre a excitação burguesa, com</p><p>sua exploração capitalista desumano, e a duríssima realidade</p><p>dos milhares de trabalhadores, que pintam as ruas da cidade de</p><p>pobreza, traz, não de forma surpreendente uma crise aos valores</p><p>românticos, incompatíveis com a realidade que se apresenta.</p><p>INFLUÊNCIAS IDEOLÓGICAS</p><p>O Realismo representa um olhar alinhado à compreensão</p><p>do período, marcado pelo cientificismo e por algumas linhas de</p><p>pensamento que são decisivas na construção de sua estética. Em</p><p>linhas gerais, pode-se caracterizá-los de forma sucinta:</p><p>Positivismo</p><p>Auguste Comte</p><p>Desenvolvido pelo filósofo francês Auguste Comte, pregava</p><p>a estrita racionalidade científica e lógica, e a postulação de</p><p>que a ciência é sinônimo absoluto da verdade. O progresso</p><p>da humanidade vem dos avanços da ciência e por isso era a</p><p>única “deusa” possível. Dessa forma, as subjetividades e</p><p>achismos eram secundários, pois o conhecimento restringia-</p><p>se à experiência sensível dos dados materiais e concretos e a</p><p>imaginação devia subordinar-se à experiência na busca pelo</p><p>observável, pelo palpável, pelo concreto, por tudo aquilo que</p><p>poderia ser mensurado de alguma forma.</p><p>Tinha como lema “o amor como princípio, a ordem como base</p><p>e o progresso como fim” e pregava a hierarquia, organização,</p><p>obediência e desprezo ao imaterial. Estabelecia a crença em um</p><p>governo da elite intelectual, guiado pela ciência, única maneira</p><p>de melhorar a vida da sociedade.</p><p>O positivismo chegou a manifestar-se como filosofia religiosa,</p><p>louvando a ciência e pensadores, unindo a teologia e a metafísica</p><p>no que ficou conhecida como a Religião da Humanidade.</p><p>Determinismo</p><p>Hippolyte Taine</p><p>Hippolyte Taine foi um pensador francês, adepto do positivismo,</p><p>que defendia o entendimento do comportamento humano por três</p><p>fatores determinados: a raça, o meio e o momento.</p><p>A raça é o conjunto das características hereditárias imprimidas</p><p>pela família às gerações seguintes. O meio corresponde às tradições,</p><p>as crenças, os hábitos mentais e as instituições que modelam os</p><p>indivíduos. O momento é o conjunto de circunstâncias que desencadeia</p><p>as ações de cada indivíduo, a “ocasião” ou “oportunidade”.</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO44</p><p>LITERATURA 14 REALISMO</p><p>O homem é forçado a adaptar-se às circunstâncias adquire um</p><p>temperamento e um caráter que lhes são correspondentes, sendo,</p><p>portanto, suas ações determinadas pelos fatores, nunca pela sua</p><p>escolha. A conclusão é de que o homem não é livre nem em seu</p><p>agir nem em seu pensar.</p><p>Evolucionismo</p><p>Charles Darwin</p><p>A contribuição de Charles Darwin para a ciência e o</p><p>entendimento do mundo é enorme. E, evidentemente, seus</p><p>pensamentos, ao modificarem a forma de como se entende o</p><p>mundo, são influências diretas na maneira como os artistas vão</p><p>reproduzir este mundo.</p><p>Em linhas gerais, sua teoria da Evolução mostra a modificação</p><p>das espécies por meio de transformações progressivas ao longo</p><p>do tempo de acordo com o ambiente em que habitam.</p><p>Para as artes, a explicação da origem do homem fornecida por</p><p>Darwin retira a divindade como um fator-chave. Assim, o homem</p><p>não é mais um fruto divino, idealizado e assume sua condição</p><p>animal, submisso às condições materiais e instintos.</p><p>Socialismo científico</p><p>Karl Marx e Friedrich Engels</p><p>Karl Marx, em conjunto com Friedrich Engels, produz a</p><p>primeira crítica consistente do modelo liberal burguês, nos</p><p>âmbitos econômico, político e social. Faz a denúncia da exploração</p><p>burguesa, da forma do acúmulo de riquezas, dos processos</p><p>imperialistas e dá novo entendimento às formas de produção e as</p><p>relações que dela advém.</p><p>Para ele, os acontecimentos são determinados pelas</p><p>condições materiais da sociedade e, ao fim e ao cabo, a história</p><p>do mundo é a história da luta de classes – o conflito sempre</p><p>existente entre exploradores e explorados. De seus postulados,</p><p>surgem movimentos operários e a visão de um protagonismo do</p><p>trabalhador, muito presente, em especial, nas obras naturalistas.</p><p>A ESTÉTICA DO PERÍODO</p><p>Influenciado pelo pensamento da época, o artista atua como</p><p>um cientista e faz a representação da realidade como um estudo de</p><p>fenômeno. O cientificismo leva ao abandono da visão subjetiva e a</p><p>valorização do objeto, do cenário, das personagens, enfim de tudo</p><p>aquilo que é observável.</p><p>Os aspectos descritivos são evidentes em uma arte minuciosa,</p><p>quase documental, sempre com bastante sobriedade, sem</p><p>idealizações ou exageros. Como verdadeiros estudiosos da</p><p>realidade, era comum que artistas visitassem os lugares que</p><p>retratavam, por vezes convivendo com as pessoas que descreviam</p><p>e submetendo-se às mesmas condições que elas. Era fundamental</p><p>experimentar: a beleza está na realidade como ela é, não cabendo</p><p>ao artista melhorar a natureza.</p><p>CAILLEBOTTE, Gustave. Rua de Paris em dia chuvoso, 1877</p><p>A arte politiza-se fortemente e são comuns as obras de caráter</p><p>de denúncia social e com protestos em favor dos oprimidos.</p><p>Inspiradas nos contrastes sociais entre burguesia e trabalhadores,</p><p>as pinturas e as histórias são retratos do cotidiano, das tragédias</p><p>sociais e descrevem a rudeza, a feiura, a imoralidade e a vulgaridade</p><p>das personagens, elevadas à categoria de heróis, com forte</p><p>tipificação social desses retratados.</p><p>O REALISMO</p><p>Quando se fala em Realismo, não se está limitando sua</p><p>definição à literatura, pelo contrário, o termo designa um conjunto de</p><p>tendências artísticas contrárias à visão romântica de mundo que se</p><p>desenvolve no final do século XIX. É uma visão artística que pretende</p><p>“a reprodução exata e sincera do ambiente social” em que ocorre.</p><p>Aquele sentimento desagradável da realidade que era expresso</p><p>de forma melancólica pelo Romantismo é agora a matéria-prima</p><p>do olhar do artista, que busca compreendê-lo pelas teorias</p><p>sociológicas, psicológicas e científicas em geral. Como um bom</p><p>cientista, o artista mantém sua neutralidade diante do que é</p><p>retratado, sem fornecer sua visão particular ou julgamentos. Assim,</p><p>é comum que a literatura apresente histórias com o predomínio do</p><p>foco narrativo em terceira pessoa.</p><p>Investigando objetivamente os indivíduos e suas classes, os</p><p>artistas enveredam pela análise psicológica, com um estudo sobre</p><p>o homem, seus conceitos, sua relação com a realidade de seu</p><p>tempo, com o ambiente em que vive e com os elementos sociais</p><p>e humanos que o cercam. Em verdade, cada personagem é uma</p><p>representação do grupo do qual faz parte, em verdadeira tipificação</p><p>social do indivíduo.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>14 REALISMO</p><p>45</p><p>LITERATURA</p><p>A análise adentra pelo psicológico, pelas crises internas,</p><p>conflitos e comportamentos que a sociedade espera e tudo aquilo</p><p>que o indivíduo pode oferecer. Toda essa forma de representar a</p><p>realidade não deve se afastar dos princípios da verossimilhança,</p><p>rejeitando todo artificialismo típico dos românticos.</p><p>A própria vida romântica, desmascarada, é tema realista. A crise</p><p>dos valores burgueses é amplamente explorada e o Romantismo</p><p>criticado. A arte volta-se para o presente, para a contemporaneidade,</p><p>quando são expostas as contradições da sociedade e de suas</p><p>instituições: o casamento, a religiosidade, a família e a série de</p><p>conceitos firmemente estabelecidos a partir de uma visão romântica</p><p>são atacados por toda a sorte de histórias que tematizam adultérios,</p><p>traições, corrupções, torpezas e perversões diversas.</p><p>O NATURALISMO</p><p>O Naturalismo surge como uma variedade de Realismo.</p><p>Entretanto, ambos os movimentos são concomitantes, isto é, ocorrem</p><p>ao mesmo tempo ou em tempos muito próximos. Mesmo assim,</p><p>há no Naturalismo vários dos princípios do Realismo, em especial</p><p>aqueles que caracterizam a atitude artística, como a objetividade,</p><p>a observação da natureza, a busca pela verossimilhança. A esses</p><p>fatores, acrescenta-se um cientificismo exacerbado, uma busca de</p><p>demonstração das diversas</p><p>teorias da época.</p><p>REALISMO</p><p>E NATURALISMO BRASILEIRO</p><p>Tal qual o Romantismo, que encontrou uma conjuntura diferente,</p><p>mas favorável ao estabelecimento da estética no país, o Realismo</p><p>encontraria no Brasil um contexto em que seria possível o paralelo às</p><p>estéticas e às críticas europeias. De fato, o Brasil não viveu à época</p><p>sua industrialização, nem mesmo houve aqui os conflitos advindos</p><p>dos novos modos de produção, entretanto, a situação também não</p><p>era estabelecida pelos parâmetros liberais burgueses, mas pela</p><p>consolidação da imagem nacional pelo Império.</p><p>E são as crises do Império que aproximam o sentimento brasileiro</p><p>às críticas europeias. A Guerra do Paraguai (1864-1870) é um duro</p><p>golpe para a monarquia brasileira, que passa a receber críticas e perder</p><p>representatividade junto a estratos importantes da sociedade. Mesmo</p><p>saindo vencedora do conflito, a coroa pôde retomar os rumos políticos</p><p>do país. Oficiais do exército eram cooptados por ideias positivistas e a</p><p>ideologia republicana começava a ganhar força nos círculos militares. O</p><p>mero papel de perseguidores de escravos fujões não mais representava</p><p>as aspirações de soldados, sargentos e tenentes.</p><p>Emerge, então, uma visão cientificista da existência, do</p><p>homem e da sociedade, governada por leis que a ciência pode</p><p>explicar. São essas leis que regem a vida e o comportamento das</p><p>personagens. O positivismo torna-se uma referência obrigatória</p><p>no entendimento dessas obras, que normalmente introduzem as</p><p>questões biológicas para retratar e explicar uma realidade rude e</p><p>incrivelmente conflituosa.</p><p>A hereditariedade biológica é um fator determinante nas</p><p>ações das personagens, assim como o meio. O homem é</p><p>produto do ambiente e estudar o ambiente é compreender o</p><p>próprio homem. Não há saída para as personagens, que são</p><p>completamente determinadas por sua origem biológica e pela</p><p>relação com o meio em que vivem.</p><p>As histórias mostram a luta pela existência, uma sociedade</p><p>em que o mais forte prevalece e que não há limites éticos para</p><p>a busca de sua supremacia. Ao mesmo tempo, aqueles que não</p><p>são fortes, sucumbem à raça ou à origem. É comum, portanto,</p><p>que sejam apresentados inúmeros personagens débeis, doentes,</p><p>anormais, degradantes. A patologia toma conta da arte e desfilam</p><p>narrativas repletas de ébrios, delinquentes, homicidas, incestuosos,</p><p>degenerados, corruptos, indecentes, prostitutas, homossexuais etc.</p><p>REALISMO NATURALISMO</p><p>Romance documental, apoiado na observação e na análise da</p><p>realidade. Romance experimental, apoiado na experimentação científica.</p><p>Valorização da racionalidade: inteligência. Valorização do instinto: atitudes animalescas, brutas.</p><p>Fotografia da realidade, busca a impressão da vida real. Cria experiências geradoras de conclusões a que não se chegaria</p><p>apenas pela observação.</p><p>Arte desinteressada, impassibilidade. Arte engajada, de denúncia; preocupações políticas e sociais.</p><p>Seleção de temas, mantendo aspirações estéticas. Apresentação de aspectos torpes e degradantes.</p><p>Reprodução da realidade exterior, bem como da interior, por meio</p><p>da análise psicológica. Centrado nos aspectos exteriores: atos, gestos e ambientes.</p><p>Apoio na psicologia, visão sobre o indivíduo (homem). Preferência pela biologia, a patologia (evolucionismo –</p><p>zoomorfismo) e (determinismo - ambiente coletivo).</p><p>Retrata e critica as classes dominantes, a alta burguesia urbana. Retrata as camadas inferiores, o proletariado, os marginalizados.</p><p>Sugestão e possibilidades. É o leitor quem tira as</p><p>suas conclusões.</p><p>Assertivo nos conceitos. Expõe conclusões (tese), cabendo ao</p><p>leitor aceitá-las ou discuti-las.</p><p>Grande preocupação com o estilo. O estilo é relegado a segundo plano; no primeiro, está a denúncia.</p><p>MEIRELLES, Victor. Combate Naval do Riachuelo, 1883</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO46</p><p>LITERATURA 14 REALISMO</p><p>Diante do agravamento do quadro financeiro, setores mais jovens</p><p>das áreas urbanas ampliam um sentimento oposicionista. Os setores</p><p>médios sentem-se abandonados e engrossam as fileiras daqueles</p><p>que se opõem ao regime. Um sentimento abolicionista faz-se crescer</p><p>– mais por questões econômicas que por humanidade – colocando</p><p>grandes escravocratas de um lado e uma emergente classe de novos</p><p>produtores (sem acesso a escravos) de outro.</p><p>O Imperador, alheio às críticas que assolam o país, viaja pelo</p><p>mundo em busca de ciência e artes. O sistema só se mantém</p><p>graças a latifundiários conservadores que condicionam seu apoio à</p><p>manutenção da escravatura. Entretanto, as pressões internacionais,</p><p>econômicas e políticas são muitas e a abolição parecia inevitável. Em</p><p>1888, a abolição da escravidão marca também o fim de qualquer apoio</p><p>dos escravistas senhores rurais e a República era mera questão de</p><p>tempo. Um ano depois, pelas mãos do monarquista marechal Deodoro</p><p>da Fonseca, os militares retiram D. Pedro II do trono, mandam-no ao</p><p>exílio, tomam o poder e, assim, proclamam a República.</p><p>Mesmo tendo origem em um golpe de estado e, na verdade, não</p><p>apresentasse nenhum caráter modernizante, ou qualquer proposta</p><p>de reorganização da sociedade, a República goza de um grande</p><p>apoio da população e, impelida por ideais positivistas, investirá no</p><p>progresso do país, ainda que de forma bastante tímida, a partir da</p><p>virada do século XX.</p><p>CALIXTO, Benedito. Proclamação da República, 1892</p><p>AUTORES</p><p>RAUL POMPEIA</p><p>Raul D’Ávila Pompeia nasceu em 1863 na cidade de Angra dos</p><p>Reis, RJ, mas foi criado e estudou na cidade do Rio de Janeiro.</p><p>Aluno do Colégio Pedro II, publicou seu primeiro livro, “Uma tragédia</p><p>no Amazonas”. Estudante de Direito, passou por São Paulo, Recife</p><p>até voltar ao Rio de Janeiro, onde se dedicou ao jornalismo e jamais</p><p>exerceu a advocacia.</p><p>Escreveu crônicas, artigos e contos até publicar, em forma</p><p>de folhetim, sua principal obra: O Ateneu. Romance de caráter</p><p>autobiográfico, conta as memórias do narrador-personagem Sérgio</p><p>sobre seu tempo de estudante no internato Ateneu. Separado</p><p>de sua mãe aos onze anos, é levado pelo pai ao colégio interno</p><p>Ateneu, cujo dono, Aristarco, agia como o imperador do colégio,</p><p>mais preocupado com o lucro do que com a questão pedagógica.</p><p>Em um mundo de moral rebaixada, o garoto Sérgio tem contato</p><p>com várias personagens, dentre elas, pederastas, aproveitadores</p><p>que se passavam por protetores; e várias atitudes, como a</p><p>ganância e a prepotência. Assassinato, amizades por interesse em</p><p>uma sucessão de críticas ao comportamento humano. O colégio</p><p>termina incendiado e assim se dá o fim do Ateneu.</p><p>O livro apresenta uma linguagem forte, de sonoridade e</p><p>plástica bastante ricas. Aparenta viés naturalista – ao apresentar</p><p>a degradação das personagens e o determinismo do meio no</p><p>comportamento humano –, apesar de que as análises psicológicas</p><p>das figuras da história situem-no mais próximo ao realismo.</p><p>Entretanto, dado o caráter memorial e da forte carga emocional,</p><p>calcada nas sensações do próprio autor, muitos preferem</p><p>classificar o romance como impressionista.</p><p>Raul Pompeia teve uma vida boêmia e tornou-se, talvez por</p><p>conta disso, um dos maiores caricaturistas sociais da literatura</p><p>nacional. Forte defensor republicano e florianista, colecionou</p><p>desafetos dentro dos círculos militares, especialmente após a</p><p>morte de Floriano Peixoto. Sentindo-se humilhado e rejeitado,</p><p>acabou por suicidar-se na noite de natal do ano de 1895.</p><p>ALUÍSIO AZEVEDO</p><p>Aluísio Tancredo Gonçalves Azevedo nasceu em São Luís,</p><p>MA, em 1857. Após os primeiros estudos na capital maranhense,</p><p>mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Academia</p><p>Belas Artes. Rapidamente adaptou-se à vida na capital, respirando</p><p>a política local, tornou-se um abolicionista convicto e passou a</p><p>trabalhar como chargista em alguns jornais.</p><p>Após a morte de seu pai, retornou a São Luís, onde, já ligado ao</p><p>jornalismo, entrou na literatura por conta de dificuldades financeiras,</p><p>publicando seu primeiro romance, ainda no estilo romântico. Porém,</p><p>foi em 1881, com a publicação de “O mulato”, que escandalizou</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>14 REALISMO</p><p>47</p><p>LITERATURA</p><p>a população maranhense. Era o primeiro romance naturalista da</p><p>literatura brasileira e que abordava a questão do preconceito racial.</p><p>Praticamente expulso da cidade, recebeu a alcunha de “Satanás de</p><p>São Luís” e retorna ao Rio de Janeiro.</p><p>Na capital buscou sobreviver de seus escritos – o que justifica</p><p>sua produção irregular, com muitos romances de qualidade duvidosa,</p><p>feitos por encomenda –, porém acabou por largar a literatura e entrar</p><p>na seara da diplomacia. Seguiu a carreira diplomática representando</p><p>o Brasil em vários países. E foi na Argentina, mais precisamente na</p><p>cidade de Buenos Aires, em 1903, que veio a falecer.</p><p>Seu estilo dinâmico e ágil retrata ambientes e realidades no</p><p>melhor estilo das teorias naturalistas. Predominam em suas obras as</p><p>descrições objetivas e fortes, criando imagens sensoriais marcantes,</p><p>fazendo largo uso das sinestesias e metáforas em suas narrativas.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (UNIFESP) Talvez o aspecto mais evidente da novidade</p><p>retórica e formal na composição dessa obra seja justamente a</p><p>metalinguagem ou a autorreflexividade da narrativa, quer dizer, o</p><p>narrador “explica” constantemente para o leitor o andamento e o</p><p>modo pelo qual vai contando suas histórias. Essa autorreflexividade</p><p>tem um importante efeito de quebra da ilusão realista, pois lembra</p><p>sempre o leitor de que ele está lendo um livro e que este, embora</p><p>narre a respeito da vida de personagens, é apenas um livro, ou seja,</p><p>um artifício, um artefato inventado.</p><p>Pode-se dizer também que a reflexão do narrador, além de</p><p>revelar a poética que preside a composição de sua narrativa, revela</p><p>também a exigência dessa poética de contar com um novo tipo de</p><p>leitor: o narrador como que pretende um leitor participante, ativo e</p><p>não passivo.</p><p>(Valentim Facioli. Um defunto estrambótico, 2008. Adaptado.)</p><p>Tal comentário aplica-se à obra</p><p>a) Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de</p><p>Almeida.</p><p>b) O Ateneu, de Raul Pompeia.</p><p>c) O cortiço, de Aluísio Azevedo.</p><p>d) Iracema, de José de Alencar.</p><p>e) Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.</p><p>02. (PUCSP)</p><p>Texto I</p><p>A revolução dessa obra, que parece cavar um fosso entre dois</p><p>mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando</p><p>o desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito</p><p>do narrador onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir</p><p>a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente. O que restou</p><p>foram as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto1 e</p><p>desfrutador Brás Cubas.</p><p>(BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 40. ed. São Paulo: Cultrix, 2002, p.177)</p><p>Texto II</p><p>Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não</p><p>souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. (...) Não</p><p>era perfeito, decerto; tinha, por exemplo, o sestro2 de mandar para</p><p>os jornais a notícia de um ou outro benefício que praticava, -sestro</p><p>repreensível ou não louvável, concordo; mas ele desculpava-se</p><p>dizendo que as boas ações eram contagiosas, quando públicas;</p><p>razão a que se não pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto</p><p>faço o seu maior elogio) que ele não praticava, de quando em</p><p>quando, esses benefícios senão com o fim de espertar a filantropia</p><p>dos outros; e se tal era o intuito, força é confessar que a publicidade</p><p>tornava-se uma condiçãosinequanon3. Em suma, poderia dever</p><p>algumas atenções, mas não devia um real a ninguém.</p><p>(ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê, 2001, p. 224-225)</p><p>Vocabulário:</p><p>1 cauto: cauteloso, previnido.</p><p>2 sestro: vício.</p><p>3 condiçãosinequanon: condição sem a qual não é possível o que se pretende.</p><p>No Texto I, o crítico literário Alfredo Bosi apresenta sua leitura</p><p>a respeito da singularidade e da universalidade do Realismo</p><p>praticado por Machado de Assis. É possível afirmar que, no Texto II,</p><p>Brás Cubas confirma essa visão sobre a prosa realista machadiana,</p><p>pois manifesta:</p><p>a) consciência da natureza contraditória do ser humano, capaz de</p><p>feitos virtuosos e defeituosos.</p><p>b) compreensão da inocência inerente ao comportamento</p><p>humano, defensável por suas virtudes.</p><p>c) constatação da conduta instintiva do ser humano, inconsciente</p><p>dos efeitos de seus atos.</p><p>d) percepção da essência defeituosa do caráter humano,</p><p>condenável por seus vícios.</p><p>03. (UNIFESP) Havia cinco semanas que ali morava, e a vida</p><p>era sempre a mesma, sair de manhã com o Borges, andar por</p><p>audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao</p><p>distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça.</p><p>(...) Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da</p><p>mãe e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele só falava</p><p>uma ou outra vez na rua; em casa, nada.</p><p>“Deixe estar, — pensou ele um dia — fujo daqui e não volto mais.”</p><p>Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D.</p><p>Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos. A educação</p><p>que tivera não lhe permitira encará-los logo abertamente, parece</p><p>até que a princípio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco</p><p>a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os</p><p>foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três semanas eram</p><p>eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso.</p><p>Aguentava toda a trabalheira de fora, toda a melancolia da</p><p>solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de</p><p>ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.</p><p>Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede</p><p>(não tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava</p><p>o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma cousa.</p><p>Rejeitou a ideia logo, uma criança! Mas há ideias que são da família</p><p>das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e</p><p>pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e</p><p>a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira</p><p>que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra ideia não foi</p><p>rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os</p><p>esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo</p><p>eram sintomas, e concluiu que sim.</p><p>Uma das características do Realismo é a introspecção psicológica.</p><p>No conto, ela se manifesta, sobretudo,</p><p>a) no comportamento grosseiro de Borges, que impõe medo a D.</p><p>Severina e desperta ódio em Inácio.</p><p>b) nas vivências interiores de Inácio e de D. Severina, que revelam</p><p>seus sentimentos e conflitos.</p><p>c) na forma solitária como Inácio se submete no trabalho com</p><p>Borges, sem que pudesse estar com sua mãe e irmãs.</p><p>d) nas reflexões de D. Severina, que vê Inácio como uma criança</p><p>que merece carinho e não o silêncio e a reclusão.</p><p>e) na forma como o contato é estabelecido entre as personagens,</p><p>já que a falta de diálogo é uma constante em suas vidas</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO48</p><p>LITERATURA 14 REALISMO</p><p>04. (UFRGS) O cortiço (1890) e Dom Casmurro (1899) foram</p><p>publicados na mesma década, porém apresentam registros de</p><p>linguagem diferentes, como se pode ver nos trechos abaixo.</p><p>No bloco superior, estão listados nomes de personagens de</p><p>O cortiço e de Dom Casmurro; no inferior, os trechos dos romances</p><p>em que essas personagens são descritas.</p><p>Associe adequadamente o bloco inferior ao bloco superior.</p><p>1. Firmo (O cortiço)</p><p>2. Escobar (Dom Casmurro)</p><p>3. Jerônimo (O cortiço)</p><p>4. José Dias (Dom Casmurro)</p><p>( ) [...] viera da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena,</p><p>tentar a vida no Brasil, na qualidade de colono de um fazendeiro,</p><p>em cuja fazenda mourejou durante dois anos, sem nunca</p><p>levantar a cabeça, e de onde afinal se retirou de mãos vazias</p><p>e uma grande birra pela lavoura brasileira. Para continuar</p><p>a servir na roça tinha que sujeitar-se a emparelhar com os</p><p>negros escravos e viver com eles no mesmo meio degradante,</p><p>encurralado como uma besta, sem aspirações, nem futuro,</p><p>trabalhando eternamente para outro.</p><p>( ) [...] era um mulato pachola, delgado de corpo e ágil como</p><p>um cabrito; capadócio de marca, pernóstico,</p><p>só de maçadas,</p><p>e todo ele se quebrando nos seus movimentos de capoeira.</p><p>Teria seus trinta e tantos anos, mas não parecia ter mais de</p><p>vinte e poucos. Pernas e braços finos, pescoço estreito, porém</p><p>forte; não tinha músculos, tinha nervos.</p><p>( ) Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como</p><p>as mãos, como os pés, como a fala, como tudo. Quem não</p><p>estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, não</p><p>sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava</p><p>claro nem seguido; as mãos não apertavam as outras, nem</p><p>se deixavam apertar delas, porque os dedos, sendo delgados</p><p>e curtos, quando a gente cuidava tê-los entre os seus, já não</p><p>tinha nada.</p><p>( ) [...] apareceu ali vendendo-se por médico homeopata; levava</p><p>um Manual e uma botica. Havia então um andaço de febres;</p><p>[...] curou o feitor e uma escrava, e não quis receber nenhuma</p><p>remuneração. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo, com</p><p>pequeno ordenado. [...] recusou, dizendo que era justo levar a</p><p>saúde à casa de sapé do pobre.</p><p>A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima</p><p>para baixo, é</p><p>a) 1 – 2 – 3 – 4.</p><p>b) 1 – 3 – 2 – 4.</p><p>c) 2 – 3 – 4 – 1.</p><p>d) 3 – 1 – 2 – 4.</p><p>e) 3 – 2 – 4 – 1.</p><p>TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES:</p><p>Texto 1</p><p>Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro</p><p>estipêndio, salvo o que quisessem dar por festas. Quando meu</p><p>pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família,</p><p>ele veio também, e teve o seu quarto ao fundo da chácara.</p><p>Um dia, reinando outra vez febres em Itaguaí, disse- lhe meu pai</p><p>que fosse ver a nossa 1 escravatura. 9 José Dias deixou-se estar</p><p>calado, suspirou e acabou confessando que não era médico. 10</p><p>Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola,</p><p>e não o fez sem estudar muito e muito; mas a consciência não</p><p>lhe permitia aceitar mais doentes.</p><p>- Mas, você curou das outras vezes.</p><p>- Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que foram</p><p>os remédios indicados nos livros. Eles, sim, eles, abaixo de Deus.</p><p>Eu era um charlatão... Não negue; os motivos do meu procedimento</p><p>podiam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para servir</p><p>à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.</p><p>Não foi despedido, como pedia então; meu pai já não podia</p><p>dispensá-lo. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário; dava-se</p><p>por falta dele, como de pessoa da família.</p><p>Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme,</p><p>disseram-me; 2 não me lembra. Minha mãe 3 ficou-lhe muito grata,</p><p>e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao sétimo</p><p>dia, depois da missa, ele foi despedir-se dela.</p><p>- Fique, José Dias.</p><p>- Obedeço, minha senhora.</p><p>Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro</p><p>palavras de louvor.</p><p>Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto,</p><p>por cima da cama.</p><p>8 "Esta é a melhor apólice", dizia ele muita vez. Com o tempo,</p><p>adquiriu certa autoridade na família, 4 certa audiência, ao menos;</p><p>não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo,</p><p>não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. 12 E não lhe</p><p>suponhas alma subalterna; as cortesias que 5 fizesse vinham antes</p><p>do cálculo que da índole. A roupa durava-lhe muito; ao contrário</p><p>das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele trazia o</p><p>velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma elegância pobre e</p><p>modesta. 6Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao</p><p>serão e à sobremesa, ou explicar algum fenômeno, falar dos efeitos</p><p>do calor e do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez</p><p>uma viagem que fizera à Europa, e confessava que 7 a não sermos</p><p>nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, 11 mas a nossa</p><p>família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.</p><p>- Abaixo ou acima? Perguntou-lhe tio Cosme um dia.</p><p>- Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração. E minha mãe,</p><p>que era religiosa, gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar,</p><p>e sorriu aprovando. José Dias agradeceu de cabeça. Minha mãe</p><p>dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que era</p><p>advogado, confiava-lhe a cópia de papéis de autos.</p><p>Machado de Assis. Dom Casmurro. Em http://www.bibvirt.futuro.usp.br/content/view/</p><p>full/1429. Acesso em 08/09/08</p><p>05. (FGV) Na referência 1 do excerto, escravatura é exemplo de</p><p>recurso de estilo em que:</p><p>a) A palavra expressa oposição.</p><p>b) A concordância é feita com a ideia de que a palavra expressa e</p><p>não com a sua forma gramatical.</p><p>c) Se toma o substantivo abstrato pelo concreto.</p><p>d) Se muda a construção sintática no meio do enunciado.</p><p>e) Se utiliza do exagero para evidenciar uma ideia.</p><p>06. (UNICAMP) No conto “O espelho”, de Machado de Assis, o</p><p>esboço de uma nova teoria sobre a dupla natureza da alma humana</p><p>é apresentado por Jacobina. A personagem narra a situação em</p><p>que se viu sozinha na casa da tia Marcolina.</p><p>“As horas batiam de século a século no velho relógio da sala,</p><p>cuja pêndula, tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior como um</p><p>piparote contínuo da eternidade.”</p><p>Considerando os indicadores da passagem do tempo na citação, é</p><p>correto afirmar que</p><p>a) o movimento oscilante do pêndulo do relógio expressa a</p><p>duplicidade da alma interior.</p><p>b) o som do velho relógio da sala materializa acusticamente a</p><p>longevidade da alma interior.</p><p>c) a sonoridade repetitiva do pêndulo intensifica as aflições da</p><p>alma interior.</p><p>d) o contínuo batimento das horas sugere o vigor da alma interior.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>14 REALISMO</p><p>49</p><p>LITERATURA</p><p>07. (UERJ) No romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo, a sintonia</p><p>com os ideais naturalistas é acentuada pela seguinte característica</p><p>básica da história:</p><p>a) a personagem sobrepõe-se ao ambiente</p><p>b) o coletivo sobrepõe-se ao individual.</p><p>c) o psicológico sobrepõe-se ao social.</p><p>d) o trabalho sobrepõe-se ao capital.</p><p>08. (PUCRS) Ela saltou em meio da roda, com braços na cintura,</p><p>rebolando as ilhargas e balançando a cabeça (...) numa sofreguidão</p><p>(...) carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante: já</p><p>correndo de barriga empinada, já recuando de braços estendidos, a</p><p>tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem</p><p>azeite em que se não toma pé e nunca se encontra o fundo</p><p>O vocabulário do texto salienta os traços do:</p><p>a) Romantismo</p><p>b) Realismo</p><p>c) Naturalismo</p><p>d) Impressionismo</p><p>e) Modernismo</p><p>09. (ENEM) Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos</p><p>desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando</p><p>e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho de Porfiro,</p><p>acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente</p><p>com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes</p><p>da música crioula para que o sangue de toda aquela gente</p><p>despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse o corpo com</p><p>urtigas bravas. E seguiram-se outra notas, e outras, cada vez mais</p><p>ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que</p><p>soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a</p><p>correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada;</p><p>eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor: música feita de</p><p>beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo</p><p>estalar de gozo.</p><p>AZEVEDO, A. O Cortiço. São Paulo: Ática, 1983 (fragmento).</p><p>No romance O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, as personagens</p><p>são observadas como elementos coletivos caracterizados por</p><p>condicionantes de origem social, sexo e etnia. Na passagem</p><p>transcrita, o confronto entre brasileiros e portugueses revela</p><p>prevalência do elemento brasileiro, pois</p><p>a) destaca o nome de personagens brasileiras e omite o de</p><p>personagens portuguesas.</p><p>b) exalta a força do cenário natural brasileiro e considera o do</p><p>português inexpressivo.</p><p>c) mostra o poder envolvente da música brasileira, que cala o</p><p>fado português.</p><p>d) destaca o sentimentalismo brasileiro, contrário à tristeza dos</p><p>portugueses.</p><p>e) atribui aos brasileiros uma habilidade maior com instrumentos</p><p>musicais</p><p>10. (PUC-RJ) “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, a porta</p><p>do Ateneu. Coragem para a luta.Bastante experimentei depois a</p><p>verdade</p><p>deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança</p><p>educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do</p><p>amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que</p><p>parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com</p><p>a vantagem única de fazer mais sensível a criatura a impressão rude</p><p>do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência</p><p>de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade</p><p>hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje,</p><p>sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não</p><p>viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.”</p><p>Raul Pompéia</p><p>O trecho acima é o início do romance O Ateneu, de Raul Pompéia.</p><p>Considerando esta obra como um todo, constatamos nela uma</p><p>perfeita correspondência entre a sociedade do Ateneu e a sociedade</p><p>de fora dele, porque:</p><p>a) em ambas, os valores sociais, éticos e morais são</p><p>irrepreensíveis.</p><p>b) a figura afável do diretor de escola equivale à do pai de família.</p><p>c) tanto na escola quanto na família a criança se sente “na estufa</p><p>de carinho que é o regime do amor doméstico</p><p>d) escola e sociedade completam eficazmente a educação da</p><p>criança e a preparam para a vida.</p><p>e) o internato é um pequeno mundo que reflete a sociedade e</p><p>seus desequilíbrios.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. E</p><p>02. D</p><p>03. B</p><p>04. D</p><p>05. C</p><p>06. C</p><p>07. B</p><p>08. C</p><p>09. C</p><p>10. E</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO50</p><p>LITERATURA 14 REALISMO</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 51SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>UM MESTRE NA PERIFERIA DO</p><p>CAPITALISMO: MACHADO DE ASSIS15</p><p>BIOGRAFIA</p><p>Joaquim Maria Machado de Assis, jornalista, contista, cronista,</p><p>romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, em 21</p><p>de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de</p><p>setembro de 1908. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que</p><p>morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que</p><p>Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono.</p><p>Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou</p><p>a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.</p><p>Filho do operário Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina,</p><p>Machado de Assis perdeu a mãe muito cedo, pouco se conhecendo</p><p>de sua infância e início da adolescência. Foi criado no morro do</p><p>Livramento. Sem meios para cursos regulares, estudou como pôde</p><p>e, em 1854, com 15 anos incompletos, publicou o primeiro trabalho</p><p>literário, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no Periódico dos Pobres. Em</p><p>1856, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo e</p><p>lá conheceu Manuel Antônio de Almeida, que se tornou seu protetor.</p><p>O primeiro livro publicado por Machado de Assis foi a tradução</p><p>de Queda que as mulheres têm para os tolos (1861), impresso na</p><p>tipografia de Paula Brito. Em 1862, era censor teatral, cargo não</p><p>remunerado, mas que lhe dava ingresso livre nos teatros. Começou</p><p>também a colaborar em O Futuro, órgão dirigido por Faustino</p><p>Xavier de Novais, irmão de sua futura esposa. Seu primeiro livro de</p><p>poesias, Crisálidas, saiu em 1864. Em 1867, foi nomeado ajudante</p><p>do diretor de publicação do Diário Oficial. Em agosto de 69, morreu</p><p>Faustino Xavier de Novais e, menos de três meses depois (12 de</p><p>novembro de 1869), Machado de Assis se casou com a irmã do</p><p>amigo, Carolina Augusta Xavier de Novais. Foi companheira perfeita</p><p>durante 35 anos. O primeiro romance de Machado, Ressurreição,</p><p>saiu em 1872. No ano seguinte, o escritor foi nomeado primeiro</p><p>oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura,</p><p>Comércio e Obras Públicas, iniciando assim a carreira de burocrata</p><p>que lhe seria até o fim o meio principal de sobrevivência. Em 1874, O</p><p>Globo (jornal de Quintino Bocaiúva), em folhetins, o romance A mão</p><p>e a luva. Intensificou a colaboração em jornais e revistas, como</p><p>O Cruzeiro, A Estação, Revista Brasileira (ainda na fase Midosi),</p><p>escrevendo crônicas, contos, poesia, romances, que iam saindo em</p><p>folhetins e depois eram publicados em livros. (...)</p><p>Em 1881 saiu o livro que daria uma nova direção à carreira</p><p>literária de Machado de Assis - Memórias póstumas de Brás</p><p>Cubas, que ele publicara em folhetins na Revista Brasileira de</p><p>15 de março a 15 de dezembro de 1880. Revelou-se também</p><p>extraordinário contista em Papéis avulsos (1882) e nas várias</p><p>coletâneas de contos que se seguiram. Em 1889, foi promovido a</p><p>diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia.</p><p>(ABL – Machado de Assis. Dados biográficos. Disponível em http://www.</p><p>machadodeassis.org.br)</p><p>ESTILO</p><p>Machado de Assis não foi poeta. Foi mais que isso. Também</p><p>seria incompleto chamar-lhe romancista. Ou contista. Ou cronista.</p><p>O fato é que escreveu tudo isso: romances, crônicas, poesias,</p><p>peças de teatro e muitos artigos de jornais. Tudo com muito</p><p>talento e com uma percepção aguçada da realidade em que vivia.</p><p>Reconhecido como gênio da literatura, ganhou apelidos como</p><p>“Mestre da periferia do Capitalismo”, “Homem subterrâneo” ou</p><p>“Bruxo do Cosme Velho”.</p><p>Para efeitos didáticos, sua obra se divide em duas fases</p><p>principais: a primeira, chamada fase romântica, caracteriza-se</p><p>por assemelhar-se em alguns pontos com o Romantismo; fruto</p><p>provável de seu círculo de amizades. Contudo, mesmo nesses</p><p>primeiros trabalhos já se notam pequenos traços de diferença,</p><p>alguns distanciamentos e observações que ultrapassavam o</p><p>cânone idealista dos autores românticos. Sua segunda fase,</p><p>realista, apresenta-nos um autor envolvido com as ideias realistas</p><p>da época e ultrapassando as fronteiras dessas caracterizações.</p><p>Machado não se prende ao Realismo, se o faz algumas vezes, é</p><p>por culpa de sua época, pois sua criação é inovadora e por muitas</p><p>vezes fugindo de padrões e modelos pré-concebidos.</p><p>Pode-se partir para outra divisão da produção machadiana, a</p><p>poesia e a prosa. Enquanto a poesia da primeira fase é fortemente</p><p>ligada ao Romantismo – com nítida influência de Gonçalves Dias -,</p><p>a poesia da segunda fase revela um poeta de grande preocupação</p><p>formal, chegando a aproximar-se dos ideais parnasianos.</p><p>Seu Romantismo, período que durou até 1880, diferia dos modelos</p><p>existentes: o sentimentalismo não surgia de forma exagerada e suas</p><p>personagens não eram planas – de comportamento previsível e</p><p>sem evoluções – como era comum no período. A construção dos</p><p>enredos, contudo, segue o padrão linear com começo, meio e fim</p><p>bem demarcados. Com a publicação de “Memórias Póstumas de</p><p>Brás Cubas”, Machado de Assis inicia sua “segunda fase”, na qual é</p><p>evidente seu amadurecimento estético e temático. Suas personagens,</p><p>agora redondas, constroem-se psicologicamente e deixam à mostra</p><p>seus defeitos e vicissitudes como o egoísmo, o pessimismo e o</p><p>negativismo humanos. A própria composição de Machado sofre um</p><p>amadurecimento estético e técnico: capítulos curtos, períodos diretos</p><p>e concisos, além de sua principal marca: a conversa com o leitor.</p><p>Tematicamente, Machado destila sua ironia sobre a época em que</p><p>vive e sobre a humanidade, promove um estudo da alma feminina e</p><p>critica incisivamente os valores românticos da sociedade.</p><p>Sua marca registrada era seu próprio estilo: sutil e irônico.</p><p>Suas crônicas trazem à tona reflexões sobre fatos corriqueiros,</p><p>buscando a essência do que era observado em uma mistura de</p><p>riso crítico e riso de contemplação, deles advindo uma crítica ou</p><p>uma advertência. Assim, os fatos eram pormenorizados diante da</p><p>reflexão que dele passava a ser possível.</p><p>OBRAS</p><p>Poesias</p><p>• Crisálidas, 1864.</p><p>• Falenas, 1870.</p><p>• Americanas, 1875.</p><p>• Poesias completas, 1901.</p><p>Romances</p><p>• Ressurreição, 1872.</p><p>• A mão e a luva, 1874.</p><p>• Helena, 1876.</p><p>• Iaiá Garcia, 1878.</p><p>• Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.</p><p>• Quincas Borba, 1891.</p><p>• Dom Casmurro, 1899.</p><p>• Esaú Jacó, 1904.</p><p>• Memorial de Aires, 1908.</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO52</p><p>LITERATURA 15 UM MESTRE NA PERIFERIA DO CAPITALISMO: MACHADO DE ASSIS</p><p>Contos</p><p>• Contos Fluminenses, 1870.</p><p>• Histórias da meia-noite, 1873.</p><p>• Papéis avulsos, 1882.</p><p>•</p><p>Histórias sem data, 1884.</p><p>• Várias histórias, 1896.</p><p>• Páginas recolhidas, 1899.</p><p>• Relíquias de casa velha, 1906.</p><p>Teatro</p><p>• Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861.</p><p>• Desencantos, 1861.</p><p>• Hoje avental, amanhã luva, 1861.</p><p>• O caminho da porta, 1862.</p><p>• O protocolo, 1862.</p><p>• Quase ministro, 1863.</p><p>• Os deuses de casaca, 1865.</p><p>• Tu, só tu, puro amor, 1881.</p><p>Póstumas</p><p>• Crítica, 1910.</p><p>• Teatro coligido, 1910.</p><p>• Outras relíquias, 1921.</p><p>• Correspondência, 1932.</p><p>• A semana, 1914/1937.</p><p>• Páginas escolhidas, 1921.</p><p>• Novas relíquias, 1932.</p><p>• Crônicas, 1937.</p><p>• Contos Fluminenses - 2º. volume, 1937.</p><p>• Crítica literária, 1937.</p><p>• Crítica teatral, 1937.</p><p>• Histórias românticas, 1937.</p><p>• Páginas esquecidas, 1939.</p><p>• Casa velha, 1944.</p><p>• Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.</p><p>• Crônicas de Lélio, 1958.</p><p>• Conto de escola, 2002.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (ENEM) Leia o texto e examine a ilustração:</p><p>ÓBITO DO AUTOR</p><p>(....) expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês</p><p>de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns</p><p>sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca</p><p>de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos.</p><p>Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce</p><p>que chovia - peneirava - uma chuvinha miúda, triste e constante, tão</p><p>constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a</p><p>intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de</p><p>minha cova: -"Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis</p><p>dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável</p><p>de um dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade.</p><p>Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que</p><p>cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isto é a dor crua e má que</p><p>lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime</p><p>louvor ao nosso ilustre finado." (....)</p><p>(Adaptado. Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Ilustrado por</p><p>Cândido Portinari. Rio de Janeiro: Cem Bibliófilos do Brasil, 1943. p.1.)</p><p>Compare o texto de Machado de Assis com a ilustração de Portinari.</p><p>É correto afirmar que a ilustração do pintor</p><p>a) apresenta detalhes ausentes na cena descrita no texto verbal.</p><p>b) retrata fielmente a cena descrita por Machado de Assis.</p><p>c) distorce a cena descrita no romance.</p><p>d) expressa um sentimento inadequado à situação.</p><p>e) contraria o que descreve Machado de Assis.</p><p>02. (UERJ) A questão refere-se à obra “O alienista”, de Machado</p><p>de Assis.</p><p>O texto literário recorre com frequência a “índices” que anunciam</p><p>reviravoltas posteriores no enredo, preparando os leitores para o</p><p>que ainda vai acontecer.</p><p>O índice que melhor anuncia e prepara o final de “O alienista” está</p><p>presente em:</p><p>a) Ao cabo daqueles cinco anos, pessoas que levavam o chapéu</p><p>ao chão, logo que ele assomava no fim da rua, agora batiam-</p><p>lhe no ombro, (capítulo V)</p><p>b) D. Evarista era a esperança de Itaguaí; contava-se com ela para</p><p>minorar o flagelo da Casa Verde. Daí as aclamações públicas, a</p><p>imensa gente que atulhava as ruas, (capítulo V)</p><p>c) Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em</p><p>quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos</p><p>afirma que o alienado não é o alienista? (capítulo VI)</p><p>d) Morra o Dr. Bacamarte! Morra o tirano!, uivaram fora trezentas</p><p>vozes. Era a rebelião que desembocava na Rua Nova. (capítulo</p><p>VI)</p><p>03. (UERJ)</p><p>Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castelo.</p><p>Começaram a subir pelo lado da Rua do Carmo. Muita gente há no</p><p>Rio de Janeiro que nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais</p><p>nascerá e morrerá sem lá pôr os pés. Nem todos podem dizer que</p><p>conhecem uma cidade inteira.</p><p>Um velho inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me</p><p>há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu</p><p>clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do mundo.</p><p>Natividade e Perpétua conheciam outras partes, além de</p><p>Botafogo, mas o morro do Castelo, por mais que ouvissem falar</p><p>dele e da cabocla que lá reinava em 1871, era-lhes tão estranho</p><p>e remoto como o clube. O íngreme, o desigual, o mal calçado da</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>15 UM MESTRE NA PERIFERIA DO CAPITALISMO: MACHADO DE ASSIS</p><p>53</p><p>LITERATURA</p><p>ladeira mortificavam os pés às duas pobres donas. Não obstante,</p><p>continuavam a subir, como se fosse penitência, devagarinho,</p><p>cara no chão, véu para baixo. A manhã trazia certo movimento;</p><p>mulheres, homens, crianças que desciam ou subiam, lavadeiras</p><p>e soldados, algum empregado, algum lojista, algum padre, todos</p><p>olhavam espantados para elas, que aliás vestiam com grande</p><p>simplicidade; mas há um donaire* que se não perde, e não era</p><p>vulgar naquelas alturas. A mesma lentidão no andar, comparada</p><p>à rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira</p><p>vez que ali iam. (...)</p><p>Com efeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o</p><p>número da casa da cabocla, até que deram com ele. A casa era</p><p>como as outras, trepada no morro. Subia-se por uma escadinha,</p><p>estreita, sombria, adequada à aventura. Quiseram entrar depressa,</p><p>mas esbarraram com dous sujeitos que vinham saindo, e coseram-</p><p>se ao portal. Um deles perguntou-lhes familiarmente se iam</p><p>consultar a adivinha.</p><p>– Perdem o seu tempo, concluiu furioso, e hão de ouvir muito</p><p>disparate...</p><p>– É mentira dele, emendou o outro, rindo; a cabocla sabe muito</p><p>bem onde tem o nariz.</p><p>Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as</p><p>palavras do primeiro eram sinal certo da vidência e da franqueza da</p><p>adivinha; nem todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos</p><p>da Natividade podia ser miserável, e então... Enquanto cogitavam</p><p>passou fora um carteiro, que as fez subir mais depressa, para</p><p>escapar a outros olhos. Tinham fé, mas tinham também vexame</p><p>da opinião, como um devoto que se benzesse às escondidas.</p><p>Velho caboclo, pai da adivinha, conduziu as senhoras à sala.</p><p>(...)</p><p>– Minha filha já vem, disse o velho. As senhoras como se</p><p>chamam?</p><p>(...)</p><p>A falar verdade, temiam o seu tanto, Perpétua menos que</p><p>Natividade. A aventura parecia audaz, e algum perigo possível.</p><p>Não ponho aqui os seus gestos; imaginai que eram inquietos</p><p>e desconcertados. Nenhuma dizia nada. Natividade confessou</p><p>depois que tinha um nó na garganta. Felizmente, a cabocla não se</p><p>demorou muito; ao cabo de três ou quatro minutos, o pai a trouxe</p><p>pela mão, erguendo a cortina do fundo.</p><p>MACHADO DE ASSIS Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.</p><p>*donaire − elegância</p><p>No texto de Machado de Assis, narra-se um episódio protagonizado</p><p>por duas personagens que se dirigem a uma consulta com uma</p><p>adivinha.</p><p>Com base no exposto no texto, uma motivação para essa consulta</p><p>pode ser descrita como:</p><p>a) preocupação oriunda de perda de bens</p><p>b) decepção em virtude de traição de amigos</p><p>c) angústia em função de mudanças no trabalho</p><p>d) ansiedade derivada de acontecimentos na família</p><p>04. (UNITAU) Sobre Machado de Assis, pode-se dizer:</p><p>I. Sua produção literária compõe-se de poesia, romance,</p><p>conto, teatro, crítica e crônica.</p><p>II. Um dos seus temas preferidos é o contraste entre os</p><p>motivos verdadeiros e aparentes do comPortamento</p><p>humano.</p><p>III. É mais conhecido como cronista do que como romancista.</p><p>a) apenas II é correto.</p><p>b) são corretos II e III.</p><p>c) são corretos I e II.</p><p>d) são corretos I e III.</p><p>e) todos são corretos.</p><p>05. (UEL) Em DOM CASMURRO, o narrador machadiano</p><p>a) registra, de forma comovente, as memórias de sua adolescência,</p><p>na qual veio a conhecer e a perder o grande amor de sua vida.</p><p>b) rememora, de forma lírica, uma paixão antiga, que lhe valeu a</p><p>ruptura definitiva com sua família conservadora.</p><p>c) rememora, com ressentimento, as origens, o desenvolvimento e o</p><p>fim de uma paixão, destruída pelo ciúme.</p><p>d) recupera, em tom trágico, a história de seu grande amigo, traído</p><p>pela mulher fútil e aventurosa.</p><p>e) registra, com ironia, a impiedade de seus injustificáveis ciúmes</p><p>pela mulher cuja inocência tardiamente reconhece.</p><p>06. (MACKENZIE) Sobre Machado de Assis, é INCORRETO afirmar que:</p><p>a) antes de "Memórias</p><p>Póstumas de Brás Cubas", publicou romances</p><p>que ainda apresentavam algumas características românticas.</p><p>b) seu teatro, embora menos conhecido, atinge o mesmo nível de</p><p>grandiosidade alcançado por Martins Pena.</p><p>c) sua poesia madura encontra-se em "Ocidentais", em que se</p><p>revelam características parnasianas.</p><p>d) é nos romances de sua segunda fase que se encontram seus</p><p>traços mais marcantes, como o aprofundamento psicológico dos</p><p>personagens, o pessimismo e o ceticismo.</p><p>e) "Páginas Recolhidas" é uma coletânea de crônicas, motivadas por</p><p>matérias jornalísticas e desenvolvidas com o apoio de alusões</p><p>literárias.</p><p>07. (ENEM) Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem</p><p>não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo</p><p>fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de</p><p>meu pai. Reconheço que era um modelo. Arguíam-no de avareza, e</p><p>cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma</p><p>virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo</p><p>que o déficit. Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos que</p><p>chegavam a acusá-Io de bárbaro. O único fato alegado neste particular</p><p>era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles</p><p>desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os</p><p>perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado</p><p>em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro</p><p>que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente</p><p>atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações</p><p>sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se</p><p>no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando morreu Sara, dali</p><p>a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro</p><p>de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de</p><p>uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza;</p><p>verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele</p><p>fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo.</p><p>ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.</p><p>Obra que inaugura o Realismo na literatura brasileira, Memórias</p><p>póstumas de Brás Cubas condensa uma expressividade que</p><p>caracterizaria o estilo machadiana: a ironia. Descrevendo a moral de</p><p>seu cunhado, Cotrim, o narrador—personagem Brás Cubas refina a</p><p>percepção irônica ao</p><p>a) acusar o cunhado de ser avarento para confessar-se injustiçado</p><p>na divisão da herança paterna.</p><p>b) atribuir a “efeito de relações sociais” a naturalidade com que</p><p>Cotrim prendia e torturava os escravos.</p><p>c) considerar os “sentimentos pios” demonstrados pelo personagem</p><p>quando da perda da filha Sara.</p><p>d) menosprezar Cotrim por ser tesoureiro de uma confraria e membro</p><p>remido de várias irmandades.</p><p>e) insinuar que o cunhado era um homem vaidoso e egocêntrico,</p><p>contemplado com um retrato a óleo.</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO54</p><p>LITERATURA 15 UM MESTRE NA PERIFERIA DO CAPITALISMO: MACHADO DE ASSIS</p><p>08. (ENEM) O texto abaixo foi extraído de uma crônica de Machado</p><p>de Assis e refere-se ao trabalho de um escravo.</p><p>"Um dia começou a guerra do Paraguai e durou cinco anos,</p><p>João repicava e dobrava, dobrava e repicava pelos mortos e pelas</p><p>vitórias. Quando se decretou o ventre livre dos escravos, João é que</p><p>repicou. Quando se fez a abolição completa, quem repicou foi João.</p><p>Um dia proclamou-se a república. João repicou por ela, repicara</p><p>pelo Império, se o Império retornasse."</p><p>MACHADO, Assis de. Crônica sobre a morte do escravo João, 1897)</p><p>A leitura do texto permite afirmar que o sineiro João:</p><p>a) por ser escravo tocava os sinos, às escondidas, quando</p><p>ocorriam fatos ligados à Abolição.</p><p>b) não poderia tocar os sinos pelo retorno do Império, visto que</p><p>era escravo.</p><p>c) tocou os sinos pela República, proclamada pelos abolicionistas</p><p>que vieram libertá-lo.</p><p>d) tocava os sinos quando ocorriam fatos marcantes porque era</p><p>costume fazê-lo.</p><p>e) tocou os sinos pelo retorno do Império, comemorando a volta</p><p>da Princesa Isabel.</p><p>09. (ENEM)</p><p>Machado de Assis</p><p>Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista,</p><p>dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e</p><p>ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de</p><p>1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco</p><p>José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele</p><p>que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua,</p><p>perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês,</p><p>também mulata, que se dedica ao menino e o matricula na escola</p><p>pública, única que frequentou o autodidata Machado de Assis.</p><p>Disponível em: http://www.passeiweb.com. Acesso em: 1 maio 2009.</p><p>Considerando os seus conhecimentos sobre os gêneros textuais, o</p><p>texto citado constitui-se de</p><p>a) fatos ficcionais relacionados a outros de caráter realista,</p><p>relativos à vida de um renomado escritor.</p><p>b) representações generalizadas acerca da vida de membros da</p><p>sociedade por seus trabalhos e vida cotidiana.</p><p>c) explicações da vida de um renomado escritor, com estrutura</p><p>argumentativa, destacando como tema seus principais feitos.</p><p>d) questões controversas e fatos diversos da vida de personalidade</p><p>histórica, ressaltando sua intimidade familiar em detrimento de</p><p>seus feitos públicos.</p><p>e) apresentação da vida de uma personalidade, organizada</p><p>sobretudo pela ordem tipológica da narração, com um estilo</p><p>marcado por linguagem objetiva.</p><p>10. (UFMG) Com base na leitura de Quincas Borba, de Machado de</p><p>Assis, é CORRETO afirmar que o narrador do romance</p><p>a) adere ao ponto de vista do filósofo, pois professa a teoria do</p><p>Humanitismo.</p><p>b) apela à sentimentalidade do leitor no último capítulo, em que</p><p>narra a morte de Rubião.</p><p>c) apresenta os acontecimentos na mesma ordem em que estes</p><p>se deram no tempo.</p><p>d) narra a história em terceira pessoa, não participando das ações</p><p>como personagem.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. A</p><p>02. C</p><p>03. D</p><p>04. C</p><p>05. C</p><p>06. B</p><p>07. B</p><p>08. D</p><p>09. E</p><p>10. D</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 55SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>O FINAL DO SÉCULO</p><p>E O PARNASIANISMO16</p><p>VASO CHINÊS</p><p>Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,</p><p>Casualmente, uma vez, de um perfumado</p><p>Contador sobre o mármor luzidio,</p><p>Entre um leque e o começo de um bordado.</p><p>Fino artista chinês, enamorado,</p><p>Nele pusera o coração doentio</p><p>Em rubras flores de um sutil lavrado,</p><p>Na tinta ardente, de um calor sombrio.</p><p>Mas, talvez por contraste à desventura,</p><p>Quem o sabe?... de um velho mandarim</p><p>Também lá estava a singular figura.</p><p>Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,</p><p>Sentia um não sei quê com aquele chim</p><p>De olhos cortados à feição de amêndoa.</p><p>Alberto de Oliveira</p><p>MOMENTO HISTÓRICO</p><p>O final do século XIX caracterizou-se por uma grande</p><p>transformação nos meios de produção. O avanço da industrialização</p><p>tornou possível um crescimento econômico jamais experimentado</p><p>anteriormente; o uso da energia elétrica e do petróleo acelerou ainda</p><p>mais o funcionamento e o desenvolvimento das fábricas. Assim,</p><p>a burguesia consolidava seu poder, já que mantinha os meios</p><p>de produção, aumentava seus lucros e fortalecia suas posições</p><p>políticas. De outro lado, vítimas da crescente exploração capitalista,</p><p>estava o proletariado: excluído do processo econômico e submetido a</p><p>condições de trabalho desumanas em troca de salários baixíssimos.</p><p>Também foi uma época de grande desenvolvimento do</p><p>pensamento humano, com reflexos expressivos nas ciências</p><p>naturais e humanas. Movimentos filosóficos como o positivismo e</p><p>o marxismo somaram-se aos científicos, como o darwinismo, para</p><p>emprestar uma visão menos idealizada do mundo, portanto mais</p><p>objetiva e distanciada do dogmatismo religioso.</p><p>O Brasil, por sua vez, não estava alheio às transformações do</p><p>mundo. Aqui, os movimentos abolicionista e republicano ganhavam</p><p>corpo e conquistavam importantes objetivos sociais e políticos: o</p><p>fim da escravidão e a proclamação da República. Desta maneira,</p><p>o país alinhava-se ao pensamento europeu, separando</p><p>de relatar as experiências dos primitivos,</p><p>das batalhas e das vitórias. É possível supor que, em meio aos fatos</p><p>que narravam, outros fossem sendo acrescentados, em referência</p><p>a deuses ou elementos da natureza que garantiam aos guerreiros</p><p>sua força e tenacidade: estava criada a ficção.</p><p>O gênero épico caracteriza-se pela presença de um narrador que,</p><p>via de regra, distancia-se do assunto narrado, contando histórias</p><p>de outras personagens. Esses textos eram produzidos para serem</p><p>lidos diante de uma plateia e narram feitos de heróis, histórias de</p><p>um povo ou de uma nação. A exaltação das personagens e de seus</p><p>comportamentos nas batalhas ou aventuras é marca registrada do</p><p>gênero.</p><p>Os poemas épicos são chamados de epopeias e seguem o</p><p>roteiro de exaltação de heróis em batalha, forjando a história das</p><p>nações. O famoso livro Os Lusíadas, de Luís de Camões é um</p><p>exemplo deste gênero. No Brasil, Caramuru, de Santa Rita Durão,</p><p>e O Uraguai, de Basílio da Gama, ilustram o gênero de maneira</p><p>emblemática.</p><p>Originalmente, o ponto chave do gênero é a mimese,</p><p>retratando a realidade de maneira verossímil e objetiva. O foco nos</p><p>acontecimentos e o abandono de uma visão pessoal do narrador</p><p>dão diversidade à história, seja na criação das personagens, seja na</p><p>percepção dos conflitos apresentados. Leia o fragmento a seguir,</p><p>trecho de Os Lusíadas de Luís de Camões.</p><p>CANTO I</p><p>As armas e os barões assinalados,</p><p>Que da ocidental praia Lusitana,</p><p>Por mares nunca de antes navegados,</p><p>Passaram ainda além da Taprobana,</p><p>Em perigos e guerras esforçados,</p><p>Mais do que prometia a força humana,</p><p>E entre gente remota edificaram</p><p>Novo Reino, que tanto sublimaram;</p><p>GÊNERO NARRATIVO</p><p>Modernamente, são poucas as produções que mantêm as</p><p>características do gênero épico. Muitos autores abandonaram</p><p>sua denominação e características substituindo sua denominação</p><p>por gênero narrativo, usado de maneira a nomear as produções</p><p>que apresentem, genericamente, um enredo, além de narrador,</p><p>personagens, tempo e espaço.</p><p>O conto e o romance são descendentes desse gênero,</p><p>mantendo apenas algumas características formais, afastando-se</p><p>da temática e da visão de exaltação a heróis, deuses e semideuses</p><p>da antiguidade. A métrica foi substituída gradualmente pela prosa,</p><p>que hoje parece o padrão para este tipo de produção.</p><p>O gênero narrativo apresenta como elementos:</p><p>• Personagens: podem ser planas (comportamento</p><p>previsível) ou esféricas (apresentadas sob vários aspectos,</p><p>comportamento imprevisível).</p><p>• Tempo: histórico ou cronológico (fatos apresentados de</p><p>acordo com a ordem dos acontecimentos) e psicológico</p><p>(lembranças do passado desencadeiam a narrativa).</p><p>• Enredo: conjunto dos fatos de uma história.</p><p>• Espaço: lugar onde transcorre a ação (físico, social,</p><p>psicológico).</p><p>• Ponto de vista / Foco narrativo: para contar uma história, o</p><p>narrador pode se posicionar de maneiras diversas. Assim,</p><p>dependendo da perspectiva do narrador, uma obra literária</p><p>pode ter:</p><p>– Foco narrativo em terceira pessoa: quando o narrador</p><p>é apenas uma voz que não se identifica; em outras</p><p>palavras, quando o narrador não é uma personagem.</p><p>– Foco narrativo em primeira pessoa ou narrador-</p><p>personagem: quando o narrador é uma das</p><p>personagens que vivem a história.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>02 G ÊNEROS LITERÁRIOS E A CONSTRUÇÃO DO HERÓI</p><p>13</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>HERÓIS</p><p>Na literatura, nas histórias em quadrinhos, no teatro, no</p><p>cinema, na televisão, o texto fi ccional apresenta uma galeria</p><p>de protagonistas que marcaram as nossas memórias, como o</p><p>inseguro Bento Santiago, o fi dalgo Dom Quixote, o angustiado</p><p>Hamlet, o apaixonado Romeu, o dedutivo Sherlock Holmes, o</p><p>vigilante Batman, o forte Peri ou o inteligente Indiana Jones.</p><p>Protagonistas podem também ser classifi cados como heróis ou</p><p>anti-heróis.</p><p>Em suas crenças, seus mitos e seus rituais, todos os povos –</p><p>mesmo sem considerar seu estágio social ou econômico – possuem</p><p>indivíduos destacados, diferentes dos demais homens daquela</p><p>estrutura social. Os gregos, ao tratarem desse tema, classifi caram-</p><p>nos como heróis, em função de seus feitos grandiosos passados</p><p>de geração a geração. Exaltados e idealizados nas crenças do</p><p>povo, esses feitos, reais ou não, refletiram o que o povo desejava</p><p>ser. E, até hoje, percebe-se a necessidade que o homem tem de</p><p>criar os seus heróis. Na modernidade, o herói entra em conflito</p><p>e se revela um ser inseguro, com fraquezas e questionamentos.</p><p>Essas variações na caracterização do protagonista de uma obra</p><p>permitem a classifi cação de três tipos de herói, elencados a seguir.</p><p>HERÓI CLÁSSICO, ÉPICO OU MEDIEVAL</p><p>Desde a antiguidade clássica grega, o herói épico é</p><p>personifi cado como um ser invencível e tem como papel defender</p><p>e proteger os fracos e oprimidos da humanidade. Segundo suas</p><p>convicções, a justiça e a bondade devem prevalecer sobre tudo.</p><p>Para tal, é necessário combater o mal e, nesse contexto, permitir</p><p>que o bem vença. Ele sempre enfrenta o perigo com fé e disposição</p><p>para vencer. Na literatura, em especial nas epopeias e nos textos</p><p>medievais, heróis são dotados de grande força física e de disposição</p><p>para vencer quaisquer obstáculos. Com força e coragem, levam</p><p>adiante suas ações com o objetivo de construir uma sociedade</p><p>alicerçada no bem e na justiça. Exemplos desse tipo de herói são</p><p>os semideuses da mitologia grega e os protagonistas das epopeias</p><p>como Aquiles, Hércules, Ulisses e Perseu. Na literatura brasileira,</p><p>Peri, do romance O Guarani, é exemplo do herói medieval. Na</p><p>essência desses personagens estão os mitos gregos reinventados</p><p>ao longo dos tempos. Veja abaixo a descrição desse herói no</p><p>Romantismo:</p><p>Então passou-se sobre esse vasto deserto de água e</p><p>céu uma cena estupenda, heroica, sobre-humana; um</p><p>espetáculo grandioso, uma sublime loucura.</p><p>Peri alucinado suspendeu-se aos cipós que se</p><p>entrelaçavam pelos ramos das árvores já cobertas de água,</p><p>e com esforço desesperado cingindo o tronco da palmeira</p><p>nos seus braços hirtos, abalou-o até as raízes.</p><p>Três vezes os seus músculos de aço, estorcendo-se,</p><p>inclinaram a haste robusta; e três vezes o seu corpo vergou,</p><p>cedendo a retração violenta da árvore, que voltava ao lugar</p><p>que a natureza lhe havia marcado.</p><p>Luta terrível, espantosa, louca, desvairada: luta da vida</p><p>contra a matéria; luta do homem contra a terra; luta da</p><p>força contra a imobilidade.</p><p>Houve um momento de repouso em que o homem,</p><p>concentrando todo o seu poder, estorceu-se de novo</p><p>contra a árvore; o ímpeto foi terrível; e pareceu que o corpo</p><p>ia despedaçar-se nessa distensão horrível:</p><p>Ambos , árvore e homem, embalançaram-se no seio das</p><p>águas: a haste osc ilou; as raízes desprenderam-se da terra</p><p>já minada profundamente pela torrente.</p><p>(ALENCAR, José de. O guarani. Série bom livro.</p><p>Editora Ática, São Paulo.)</p><p>HERÓI MODERNO</p><p>OU PROBLEMÁTICO</p><p>Esses heróis tradicionais são encontrados na literatura</p><p>moderna e contemporânea. Personagens como Chaplin, Bentinho,</p><p>de Machado de Assis, Fabiano e Paulo Honório, de Graciliano</p><p>Ramos, sentem-se abaixo dos homens comuns. Moralmente</p><p>abatidos, expondo suas contradições e fraquezas, o herói moderno</p><p>é resultante das situações de conflito que caracterizam o mundo</p><p>moderno. É o homem comum que reconhece as suas inseguranças</p><p>em relação ao mundo, tornando-se um herói melancólico.</p><p>Assim Machado de Assis caracteriza Félix, no romance</p><p>Ressurreição, por exemplo:</p><p>Não direi que fosse bonito, na signifi cação mais ampla da</p><p>palavra; mas tinha as feições corretas, a presença simpática,</p><p>e reunia à graça natural a apurada elegância com que</p><p>vestia. A cor do rosto era um tanto pálida, a pele lisa e fi na.</p><p>A fi sionomia era plácida e indiferente, mal alumiada por um</p><p>olhar de ordinário frio, e não poucas vezes morto.</p><p>Do seu caráter e espírito melhor se conhecerá lendo estas</p><p>páginas e, acompanhando o herói por entre as peripécias da</p><p>singelíssima ação, que empreendo narrar.</p><p>Não se trata aqui de um caráter inteiriço, nem de um espírito</p><p>lógico e igual em si mesmo; trata-se de um homem complexo,</p><p>a Igreja do</p><p>Estado, organizando o sistema judiciário do país e estabelecendo</p><p>um regime de maior participação popular.</p><p>CALIXTO, Benedito. Proclamação da República (1893)</p><p>ESTÉTICA PARNASIANA</p><p>O Parnasianismo foi contemporâneo do Realismo e do</p><p>Naturalismo, portanto influenciado pelos mesmos elementos</p><p>históricos dos outros movimentos; contudo, a estética parnasiana</p><p>diferencia-se ideologicamente por não se preocupar com a</p><p>temática social ou mesmo com a reflexão sobre o homem e sua</p><p>condição.</p><p>O racionalismo que dominava a época traduziu-se em</p><p>objetivismo, em rejeição aos excessos românticos e em crítica</p><p>ao sentimentalismo. A arte não era mais vista como um simples</p><p>entretenimento, era necessária a busca da beleza, a arte pela</p><p>arte. A poesia não mais serviria às emoções humanas, mas à</p><p>própria Arte.</p><p>SANZIO, Rafael. O Parnaso. Afresco no Vaticano (1511)</p><p>O poeta, alienado socialmente, inspira-se na Antiguidade</p><p>Clássica, na mitologia greco-latina como uma forma de negar os</p><p>princípios do Romantismo e garantir prestígio entre as camadas</p><p>mais letradas do Brasil. O artificialismo é uma de suas principais</p><p>características, visto ser uma poesia que valorizava excessivamente</p><p>a forma (os sonetos, as rimas ricas, a métrica perfeita), ostentando</p><p>um nível vocabular refinado e grande rigor gramatical.</p><p>O nome Parnasianismo tem origem na Grécia antiga: segundo</p><p>a lenda, Parnaso é o nome de um monte da Fócida, consagrado</p><p>a Apolo e às musas. É o monte onde nasceu Castália, a musa</p><p>inspiradora dos poetas. Por consagrar a arte ao belo, o estilo torna-</p><p>se impassível e impessoal. É uma arte excessivamente descritiva,</p><p>cheia de adjetivos e imagens poéticas elaboradas. O objetivo maior</p><p>é o culto à forma na busca de atingir a perfeição.</p><p>APPIANI, Andrea. Parnassus (1811)</p><p>PRÉ-VESTIBULARSISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO56</p><p>LITERATURA 16 O FINAL DO SÉCULO E O PARNASIANISMO</p><p>Os temas parnasianos resumem-se a alguns episódios</p><p>históricos, fenômenos naturais e a descrição detalhada de</p><p>objetos decorativos como vasos e enfeites em geral. A mulher</p><p>no Parnasianismo é vista com objetividade, contrapondo-se às</p><p>idealizações românticas. Desta forma, a sensualidade e o amor</p><p>carnal eram cultivados pelos parnasianos. A deusa da beleza</p><p>Vênus era o padrão feminino, revelando também a preferência</p><p>pelas figuras pagãs da Antiguidade.</p><p>AUTORES PARNASIANOS</p><p>O Parnasianismo fez bastante sucesso em sua época,</p><p>estendendo-se da década de 80 do século XIX até a Semana de</p><p>Arte Moderna em 1922. Coube a Teófilo Dias, com a publicação</p><p>de Fanfarras (1882), inaugurar o movimento, que teve como</p><p>representantes poetas como Alberto de Oliveira, Francisca Júlia,</p><p>Raimundo Correia, Olavo Bilac e Vicente de Carvalho.</p><p>Alberto de Oliveira</p><p>Antônio Mariano Alberto de Oliveira foi farmacêutico, professor</p><p>e poeta, nasceu em Palmital de Saquarema, RJ, em 28 de abril de</p><p>1857, e faleceu em Niterói, RJ, em 19 de janeiro de 1937. Cursou</p><p>também a Faculdade de Medicina até o terceiro ano, onde foi colega</p><p>de Olavo Bilac, com quem, desde logo, estabeleceu as melhores</p><p>relações. Sua casa em Niterói ficou famosa por ser frequentada</p><p>pelos mais ilustres escritores brasileiros, entre os quais Olavo Bilac,</p><p>Raul Pompeia, Raimundo Correia, Aluísio e Artur Azevedo. Nessas</p><p>reuniões, só se conversava sobre arte e literatura.</p><p>Alberto de Oliveira foi uma espécie de líder do Parnasianismo,</p><p>até por ser o poeta que melhor encarnou as características do</p><p>movimento. O estilo de Oliveira é frio e intelectualizado, com</p><p>predileção pelo preciosismo formal e gramatical. Sua poesia é</p><p>descritiva, preza pelo objetivismo e pelas cenas exteriores, o amor</p><p>da natureza, o culto da forma, a pintura da paisagem, a linguagem</p><p>castiça e a versificação rica.</p><p>Ao mesmo tempo em que fervilhava social e politicamente a</p><p>vida na cidade, com as lutas abolicionistas e republicanas, Alberto</p><p>de Oliveira dizia: “Eu hoje dou a tudo de ombros, pouco me importam</p><p>paz ou guerra, e não leio jornais”. Fiel ao Parnasianismo até o fim da</p><p>vida, manteve-se distante dos problemas sociais e pôs-se apenas</p><p>a cultivar a arte pela arte.</p><p>VASO GREGO</p><p>Esta de áureos relevos, trabalhada</p><p>De divas mãos, brilhante copa, um dia,</p><p>Já de aos deuses servir como cansada,</p><p>Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.</p><p>Era o poeta de Teos que a suspendia</p><p>Então, e, ora repleta ora esvazada,</p><p>A taça amiga aos dedos seus tinia,</p><p>Toda de roxas pétalas colmada.</p><p>Depois... Mas o lavor da taça admira,</p><p>Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas</p><p>Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,</p><p>Ignota voz, qual se da antiga lira</p><p>Fosse a encantada música das cordas,</p><p>Qual se essa voz de Anacreonte fosse.</p><p>(Sonetos e poemas, 1886.)</p><p>Raimundo Correia</p><p>colmada: coberta, cheia.</p><p>esvazada: esvaziada.</p><p>ignota: ignorada, desconhecida.</p><p>Olimpo: segundo a mitologia, amorada dos deuses.</p><p>poeta de Teos: referência a Anacreonte, poeta grego, nascido em Teos, famoso por suas</p><p>canções de amor irônicas e melancólicas.</p><p>Nasceu a 13 de maio de 1859, em um navio ancorado em águas</p><p>maranhenses. Estreou na poesia como romântico, influenciado por</p><p>Casimiro de Abreu e Fagundes Varela. Sua segunda fase é a que</p><p>mais nos interessa, pois é nela que se faz perfeitamente parnasiano.</p><p>É um dos autores mais sensíveis, influenciado pelo pessimismo</p><p>do pensador alemão Arthur Schopenhauer – que defendia a ideia de</p><p>que todas as dores e males do mundo provêm da vontade de viver</p><p>–, produziu poemas cheios de sombras e luares, ainda que tenha</p><p>adotado a perfeição formal como princípio. Apresenta temática</p><p>tipicamente parnasiana, como a natureza, a perfeição dos objetos</p><p>e a cultura clássica. Produziu também poesias filosóficas de</p><p>meditação, na qual dialogava com o pessimismo e fazia reflexões</p><p>de ordem moral e social.</p><p>A parte final de sua obra revela um processo de transição, a qual</p><p>alguns chamam de terceira fase: seu pessimismo, em meio a cenas</p><p>noturnas e sensações, busca refúgio na metafísica e na religião.</p><p>Seu estilo oscila entre a descrição e a sugestão de imagens, com</p><p>aspectos de musicalidade e sinestesia, demonstrando claramente</p><p>a transição para o Simbolismo.</p><p>Uma polêmica norteou a produção poética de Raimundo</p><p>Correia: a de que ele teria sido um plagiador. Não se discute a arte e</p><p>a engenhosidade de Correia, sua originalidade deixa dúvidas a ponto</p><p>de muitos de seus defensores admitirem seu caráter “recriador”. A</p><p>influência, por muitas vezes exagerada, de autores europeus em</p><p>sua obra é nítida em várias de suas obras, recriação das ideias de</p><p>autores como Theòphile de Gautier e Metastásio. Nada que retire o</p><p>brilho lírico deste renomado poeta brasileiro.</p><p>AS POMBAS</p><p>Vai-se a primeira pomba despertada...</p><p>Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas</p><p>De pombas vão-se dos pombais, apenas</p><p>Raia sanguínea e fresca a madrugada...</p><p>E à tarde, quando a rígida nortada</p><p>Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,</p><p>PRÉ-VESTIBULAR SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>16 O FINAL DO SÉCULO E O PARNASIANISMO</p><p>57</p><p>LITERATURA</p><p>Ruflando as asas, sacudindo as penas,</p><p>Voltam todas em bando e em revoada...</p><p>Também dos corações onde abotoam,</p><p>Os sonhos, um por um, céleres voam,</p><p>Como voam as pombas dos pombais;</p><p>No azul da adolescência as asas soltam,</p><p>Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,</p><p>E eles aos corações não voltam mais...</p><p>(Sinfonias, 1883.)</p><p>abotoam: germinam.</p><p>céleres: velozes.</p><p>nortada: vento frio que sopra do norte.</p><p>ruflando: encrespando as asas (ou penas) para alçar voo.</p><p>Olavo Bilac</p><p>Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro</p><p>a 16 de dezembro de 1865 e parecia destinado ao verso clássico,</p><p>já que seu próprio nome é um verso alexandrino, com doze sílabas</p><p>métricas. Seu pai o queria médico, mas Olavo abandonou a faculdade</p><p>de Medicina e foi estudar Direito em São Paulo, curso também que não</p><p>concluiu. Trabalhou como inspetor escolar e jornalista.</p><p>Ao contrário de outros poetas parnasianos, Olavo mostrava-</p><p>se envolvido com ideais Republicanos e nacionalistas. Patriota e</p><p>nacionalista, defendeu a instrução primária, da educação física e</p><p>do serviço militar</p><p>incoerente e caprichoso, em quem se reuniam opostos</p><p>elementos, qualidades exclusivas, e defeitos inconciliáveis.</p><p>(ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Garnier, 1988.)</p><p>ANTI-HERÓI</p><p>O anti-herói não é o antagonista da obra, a quem são atribuídas</p><p>características negativas. O anti-herói é apresentado de forma</p><p>caricatural, a ele faltam atributos físicos e/ou morais característicos</p><p>do herói clássico. Em uma visão direta e simplista, o anti-herói é uma</p><p>espécie de herói com imperfeições, no aspecto físico, moral, ético.</p><p>Ele desconstrói a imagem do herói clássico. Mário de Andrade criou</p><p>em Macunaíma um exemplo do anti-herói na literatura brasileira.</p><p>Macunaíma, o herói sem caráter, demonstra, já na introdução do</p><p>PRÉ-VESTIBULAR14</p><p>LITERATURA 02 GÊNEROS LITERÁRIOS E A CONSTRUÇÃO DO HERÓI</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>enredo, um conjunto de traços físicos e comportamentais que o</p><p>classificam como anti-herói: foi parido como fruto do medo da</p><p>noite e era feio, preguiçoso, esperto e ganancioso.</p><p>(Fonte: www.meucinelabrasileiro.com.br)</p><p>No fundo do mato-virgem, nasceu Macunaíma, herói de</p><p>nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite.</p><p>Houve um momento em que o silêncio foi tão grande</p><p>escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia</p><p>Tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que</p><p>chamaram Macunaíma.</p><p>Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro,</p><p>passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar,</p><p>exclamava: – Ai! Que preguiça... e não dizia mais nada.</p><p>(ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. São Paulo: Martins</p><p>Fontes, 1978.)</p><p>Na cultura popular, os personagens de desenhos animados</p><p>como Pica-pau e Pernalonga, por suas características, podem ser</p><p>também considerados anti-heróis. Adorados pelo público, Pica-pau</p><p>ficou marcado por ser esperto, travesso e mau, em especial com</p><p>seus predadores, e Pernalonga personifica a astúcia e a esperteza.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (ENEM)</p><p>Vó Clarissa deixou cair os talheres no prato, fazendo a</p><p>porcelana estalar. Joaquim, meu primo, continuava com o queixo</p><p>suspenso, batendo com o garfo nos lábios, esperando a resposta.</p><p>Beatriz ecoou a palavra como pergunta, “o que é lésbica?”. Eu fiquei</p><p>muda. Joaquim sabia sobre mim e me entregaria para a vó e,</p><p>mais tarde, para toda a família. Senti um calor letal subir pelo meu</p><p>pescoço e me doer atrás das orelhas. Previ a cena: vó, a senhora é</p><p>lésbica? Porque a Joana é. A vergonha estava na minha cara e me</p><p>denunciava antes mesmo da delação. Apertei os olhos e contrai o</p><p>peito, esperando o tiro. [...]</p><p>[...] Pensei na naturalidade com que Tais e eu levávamos a</p><p>nossa história. Pensei na minha insegurança de contar isso à</p><p>minha família, pensei em todos os colegas e professores que já</p><p>sabiam, fechei os olhos e vi a boca da minha vó e a boca da tia</p><p>Carolina se tocando, apesar de todos os impedimentos. Eu quis</p><p>saber mais, eu quis saber tudo, mas não consegui perguntar.</p><p>POLESSO, N. B. Vó, a senhora é lésbica? Amora.</p><p>Porto Alegre: Não Editora. 2015 (fragmento).</p><p>A situação narrada revela uma tensão fundamentada na perspectiva do</p><p>a) conflito com os interesses de poder.</p><p>b) silêncio em nome do equilíbrio familiar.</p><p>c) medo instaurado pelas ameaças de punição.</p><p>d) choque imposto pela distância entre as gerações.</p><p>e) apego aos protocolos de conduta segundo os gêneros.</p><p>02. (ENEM)</p><p>Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e</p><p>contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois,</p><p>como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na</p><p>testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou</p><p>assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo</p><p>de um livro adúltero [...].</p><p>Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o</p><p>cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços,</p><p>e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em</p><p>borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero.</p><p>Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão</p><p>de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.</p><p>ASSIS, M. A causa secreta. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br.</p><p>Acesso em: 9 out. 2015.</p><p>No fragmento, o narrador adota um ponto de vista que acompanha</p><p>a perspectiva de Fortunato. O que singulariza esse procedimento</p><p>narrativo é o registro do(a)</p><p>a) indignação face à suspeita do adultério da esposa.</p><p>b) tristeza compartilhada pela perda da mulher amada.</p><p>c) espanto diante da demonstração de afeto de Garcia.</p><p>d) prazer da personagem em relação ao sofrimento alheio.</p><p>e) superação do ciúme pela comoção decorrente da morte.</p><p>03. (ENEM)</p><p>Segundo quadro</p><p>Uma sala da prefeitura. O ambiente é modesto. Durante a</p><p>mutação, ouve-se um dobrado e vivas a Odorico, “viva o prefeito”</p><p>etc. Estão em cena Dorotéa, Juju, Dirceu, Dulcinéa, o vigário e</p><p>Odorico. Este último, à janela, discursa.</p><p>ODORICO – Povo sucupirano! Agoramente já investido no cargo</p><p>de Prefeito, aqui estou para receber a confirmação, a ratificação, a</p><p>autenticação e por que não dizer a sagração do povo que me elegeu.</p><p>Aplausos vêm de fora.</p><p>ODORICO – Eu prometi que o meu primeiro ato como prefeito</p><p>seria ordenar a construção do cemitério.</p><p>Aplausos, aos quais se incorporam as personagens em cena.</p><p>ODORICO – (Continuando o discurso:) Botando de lado os</p><p>entretantos e partindo pros finalmente, é uma alegria poder anunciar</p><p>que prafrentemente vocês lá poderão morrer descansados, tranquilos</p><p>e desconstrangidos, na certeza de que vão ser sepultados aqui</p><p>mesmo, nesta terra morna e cheirosa de Sucupira. E quem votou em</p><p>mim, basta dizer isso ao padre na hora da extrema-unção, que tem</p><p>enterro e cova de graça, conforme o prometido.</p><p>GOMES, D. O bem amado. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012.</p><p>O gênero peça teatral tem o entretenimento como uma de suas</p><p>funções. Outra função relevante do gênero, explícita nesse trecho de</p><p>O bem amado, é a</p><p>a) criticar satiricamente o comportamento de pessoas públicas.</p><p>b) denunciar a escassez de recursos públicos nas prefeituras do</p><p>interior.</p><p>c) censurar a falta de domínio da língua padrão em eventos</p><p>sociais.</p><p>d) despertar a preocupação da plateia com a expectativa de vida</p><p>dos Cidadãos.</p><p>e) questionar o apoio irrestrito de agentes públicos aos gestores</p><p>governamentais.</p><p>04. (ENEM) O homem disse, Está a chover, e depois, Quem é você,</p><p>Não sou daqui, Anda à procura de comida, Sim, há quatro dias que</p><p>não comemos, E como sabe que são quatro dias, É um cálculo, Está</p><p>sozinha, Estou com o meu marido e uns companheiros, Quantos são,</p><p>Ao todo, sete; Se estão a pensar em ficar conosco, tirem daí o sentido,</p><p>já somos muitos, Só estamos de passagem, Donde vêm, Estivemos</p><p>internados desde que a cegueira começou, Ah, sim, a quarentena, não</p><p>serviu de nada. Porque diz isso, Deixaram-nos sair, Houve um incêndio</p><p>e nesse momento percebemos que os soldados que nos vigiavam</p><p>tinham desaparecido, E saíram, Sim, Os vossos soldados devem ter</p><p>sido dos últimos a cegar, toda a gente está cega, Toda a gente, a</p><p>cidade toda, o país,</p><p>SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras. 1995.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>02 GÊNEROS LITERÁRIOS E A CONSTRUÇÃO DO HERÓI</p><p>15</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>A cena retrata as experiências das personagens em um país atingido</p><p>por uma epidemia. No diálogo, a violação de determinadas regras de</p><p>pontuação</p><p>a) revela uma incompatibilidade entre o sistema de pontuação</p><p>convencional e a produção do gênero romance.</p><p>b) provoca uma leitura equivocada das frases interrogativas e</p><p>prejudica a verossimilhança.</p><p>c) singulariza o estilo do autor e auxilia na representação do</p><p>ambiente caótico.</p><p>d) representa uma exceção às regras do sistema de pontuação</p><p>canônica.</p><p>e) colabora para a construção da identidade do narrador pouco</p><p>escolarizado.</p><p>05. (ENEM) PINHÃO sai ao mesmo tempo que BENONA entra.</p><p>BENONA: Eurico, Eudoro Vicente está lá fora e quer falar com você.</p><p>EURICÃO: Benona, minha irmã, eu sei que ele está lá fora, mas</p><p>não quero falar com ele.</p><p>BENONA: Mas</p><p>Eurico, nós lhe devemos certas atenções.</p><p>EURICÃO: Você, que foi noiva dele. Eu, não!</p><p>BENONA: Isso são coisas passadas.</p><p>EURICÃO: Passadas para você, mas o prejuízo foi meu.</p><p>Esperava que Eudoro, com todo aquele dinheiro, se tornasse meu</p><p>cunhado. Era uma boca a menos e um patrimônio a mais. E o peste</p><p>me traiu. Agora, parece que ouviu dizer que eu tenho um tesouro.</p><p>E vem louco atrás dele, sedento, atacado de verdadeira hidrofobia.</p><p>Vive farejando ouro, como um cachorro da molest’a, como um</p><p>urubu, atrás do sangue dos outros. Mas ele está enganado. Santo</p><p>Antônio há de proteger minha pobreza e minha devoção.</p><p>SUASSUNA, A. O santo e a porca. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 (fragmento).</p><p>Nesse texto teatral, o emprego das expressões “o peste” e “cachorro</p><p>da molest’a” contribui para</p><p>a) marcar a classe social das personagens.</p><p>b) caracterizar usos linguísticos de uma região.</p><p>c) enfatizar a relação familiar entre as personagens.</p><p>d) sinalizar a influência do gênero nas escolhas vocabulares.</p><p>e) demonstrar o tom autoritário da fala de uma das personagens.</p><p>06. (ENEM) Em casa, Hideo ainda podia seguir fiel ao imperador</p><p>japonês e às tradições que trouxera no navio que aportara em Santos.</p><p>[...] Por isso Hideo exigia que, aos domingos, todos estivessem juntos</p><p>durante o almoço. Ele se sentava à cabeceira da mesa; à direita ficava</p><p>Hanashiro, que era o primeiro filho, e Hitoshi, o segundo, e à esquerda,</p><p>Haruo, depois Hiroshi, que era o mais novo. [...] A esposa, que também</p><p>era mãe, e as filhas, que também eram irmãs, aguardavam de pé ao</p><p>redor da mesa [...]. Haruo reclamava, não se cansava de reclamar: que</p><p>se sentassem também as mulheres à mesa, que era um absurdo</p><p>aquele costume. Quando se casasse, se sentariam à mesa a esposa</p><p>e o marido, um em frente ao outro, porque não era o homem melhor</p><p>que a mulher para ser o primeiro [...]. Elas seguiam de pé, a mãe um</p><p>pouco cansada dos protestos do filho, pois o momento do almoço era</p><p>sagrado, não era hora de levantar bandeiras inúteis [...].</p><p>NAKASATO, O. Nihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011 (fragmento).</p><p>Referindo-se a práticas culturais de origem nipônica, o narrador</p><p>registra as reações que elas provocam na família e mostra um</p><p>contexto em que</p><p>a) a obediência ao imperador leva ao prestígio pessoal.</p><p>b) as novas gerações abandonam seus antigos hábitos.</p><p>c) a refeição é o que determina a agregação familiar.</p><p>d) os conflitos de gênero tendem a ser neutralizados.</p><p>e) o lugar à mesa metaforiza uma estrutura de poder.</p><p>07. (ENEM)</p><p>O filme Menina de ouro conta a história de Maggie Fitzgerald,</p><p>uma garçonete de 31 anos que vive sozinha em condições humildes</p><p>e sonha em se tornar uma boxeadora profissional treinada por</p><p>Frankie Dunn.</p><p>Em uma cena, assim que o treinador atravessa a porta do</p><p>corredor onde ela se encontra, Maggie o aborda e, a caminho da</p><p>saída, pergunta a ele se está interessado em treiná-la. Frankie</p><p>responde: “Eu não treino garotas”. Após essa fala, ele vira as costas</p><p>e vai embora. Aqui, percebemos, em Frankie, um comportamento</p><p>ancorado na representação de que boxe é esporte de homem e,</p><p>em Maggie, a superação da concepção de que os ringues são</p><p>tradicionalmente masculinos.</p><p>Historicamente construída, a feminilidade dominante atribui a</p><p>submissão, a fragilidade e a passividade a uma “natureza feminina”.</p><p>Numa concepção hegemônica dos gêneros, feminilidades e</p><p>masculinidades encontram-se em extremidades opostas.</p><p>No entanto, algumas mulheres, indiferentes às convenções</p><p>sociais, sentem-se seduzidas e desafiadas a aderirem à prática</p><p>das modalidades consideradas masculinas. É o que observamos</p><p>em Maggie, que se mostra determinada e insiste em seu objetivo</p><p>de ser treinada por Frankie.</p><p>FERNANDES. V; MOURÃO. L. Menina de ouro e a representação de feminilidades plurais.</p><p>Movimento, n. 4, out-dez. 2014 (adaptado).</p><p>A inserção da personagem Maggie na prática corporal do boxe indica</p><p>a possibilidade da construção de uma feminilidade marcada pela</p><p>a) adequação da mulher a uma modalidade esportiva alinhada a</p><p>seu gênero.</p><p>b) valorização de comportamentos e atitudes normalmente</p><p>associados à mulher.</p><p>c) transposição de limites impostos à mulher num espaço de</p><p>predomínio masculino.</p><p>d) aceitação de padrões sociais acerca da participação da mulher</p><p>nas lutas corporais.</p><p>e) naturalização de barreiras socioculturais responsáveis pela</p><p>exclusão da mulher no boxe.</p><p>08. (ENEM)</p><p>Querido diário</p><p>Hoje topei com alguns conhecidos meus</p><p>Me dão bom-dia, cheios de carinho</p><p>Dizem para eu ter muita luz, ficar com Deus</p><p>Eles têm pena de eu viver sozinho</p><p>[...]</p><p>Hoje o inimigo veio me espreitar</p><p>Armou tocaia lá na curva do rio</p><p>Trouxe um porrete a mó de me quebrar</p><p>Mas eu não quebro porque sou macio, viu</p><p>HOLANDA, C. B. Chico. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 2013 (fragmento).</p><p>Uma característica do gênero diário que aparece na letra da canção de</p><p>Chico Buarque é o(a)</p><p>a) diálogo com interlocutores próximos.</p><p>b) recorrência de verbos no infinitivo.</p><p>c) predominância de tom poético.</p><p>d) uso de rimas na composição.</p><p>e) narrativa autorreflexiva.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR16</p><p>LITERATURA 02 GÊNEROS LITERÁRIOS E A CONSTRUÇÃO DO HERÓI</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>09. (ENEM)</p><p>Dúvida</p><p>Dois compadres viajavam de carro por uma estrada de fazenda</p><p>quando um bicho cruzou a frente do carro.</p><p>Um dos compadres falou:</p><p>– Passou um largato ali!</p><p>O outro perguntou:</p><p>– Lagarto ou largato?</p><p>O primeiro respondeu:</p><p>– Num sei não, o bicho passou muito rápido.</p><p>Piadas coloridas. Rio de Janeiro: Gênero, 2006.</p><p>Na piada, a quebra de expectativa contribui para produzir o efeito de</p><p>humor. Esse efeito ocorre porque um dos personagens</p><p>a) reconhece a espécie do animal avistado.</p><p>b) tem dúvida sobre a pronúncia do nome do réptil.</p><p>c) desconsidera o conteúdo linguístico da pergunta.</p><p>d) constata o fato de um bicho cruzar a frente do carro.</p><p>e) apresenta duas possibilidades de sentido para a mesma</p><p>palavra.</p><p>10. (ENEM) Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago</p><p>dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o</p><p>Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: -</p><p>Zé-Zim. por que é que você não cria galinhas-d’angola, como todo o</p><p>mundo faz? — Quero criar nada não... - me deu resposta: — Eu gosto</p><p>muito de mudar... [...] Belo um dia, ele tora. Ninguém discrepa. Eu,</p><p>tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. [...] Essa não faltou também</p><p>à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra.</p><p>[...] Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião</p><p>Guedes; quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu.</p><p>Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali</p><p>onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe.</p><p>ROSA. J. G. Grande Sertão Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio (fragmento).</p><p>Na passagem citada, Riobaldo expõe uma situação decorrente de</p><p>uma desigualdade social típica das áreas rurais brasileiras marcadas</p><p>pela concentração de terras e pela relação de dependência entre</p><p>agregados e fazendeiros. No texto, destaca-se essa relação porque o</p><p>personagem-narrador</p><p>a) relata a seu interlocutor a história de Zé-Zim, demonstrando</p><p>sua pouca disposição em ajudar seus agregados, uma vez que</p><p>superou essa condição graças à sua força de trabalho.</p><p>b) descreve o processo de transformação de um meeiro —</p><p>espécie de agregado — em proprietário de terra.</p><p>c) denuncia a falta de compromisso e a desocupação dos</p><p>moradores, que pouco se envolvem no trabalho da terra.</p><p>d) mostra como a condição material da vida do sertanejo é</p><p>dificultada pela sua dupla condição de homem livre e, ao</p><p>mesmo tempo, dependente.</p><p>e) mantém o distanciamento narrativo condizente com sua</p><p>posição social, de proprietário de terras.</p><p>GABARITO</p><p>EXERCÍCIOS PROPOSTOS</p><p>01. B</p><p>02. D</p><p>03. A</p><p>04. C</p><p>05. B</p><p>06. E</p><p>07. C</p><p>08. E</p><p>09. C</p><p>10. D</p><p>ANOTAÇÕES</p><p>LITERATURA</p><p>PRÉ-VESTIBULAR 17SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>A CONSTRUÇÃO DO TEXTO</p><p>POÉTICO: ESTRUTURA E EXPRESSÃO03</p><p>OS ASPECTOS CONSTITUTIVOS</p><p>DO POEMA</p><p>Passamos agora a estudar a linguagem e os recursos</p><p>linguísticos utilizados na construção</p><p>de obras artísticas. O poema</p><p>é um objeto poético, não se confundindo com a poesia, um gênero</p><p>de composição. Portanto, o poema é forma enquanto a poesia é</p><p>abstrata e imaterial. Pode haver poesia sem que haja o poema ou</p><p>quaisquer de suas formalidades; isso ocorre, por exemplo, nas</p><p>prosas poéticas.</p><p>Por sua formalidade, o poema é constituído por versos, uma</p><p>sucessão de sílabas e fonemas que se organizam como uma unidade</p><p>rítmica e melódica, correspondente a cada uma das linhas de um</p><p>poema. Os versos se organizam em estrofes, um simples agrupamento</p><p>de versos. O número de versos que compõe uma estrofe é variável e</p><p>para cada um deles há uma classificação específica:</p><p>• dístico: dois versos</p><p>• terceto: três versos</p><p>• quarteto ou quadra: quatro versos</p><p>• quintilha: cinco versos</p><p>• sexteto ou sextilha: seis versos</p><p>• sétima ou septilha: sete versos</p><p>• oitava: oito versos</p><p>• nona: nove versos</p><p>• décima: dez versos</p><p>O conjunto de versos (ou, mais raramente, o verso único)</p><p>que se repete ao final de estrofes tem o nome de estribilho.</p><p>Enjambement (cavalgamento) é o nome dado ao verso que tem sua</p><p>unidade sintática completada em outro verso:</p><p>Vês! Ninguém assistiu ao formidável</p><p>Enterro de tua última quimera.</p><p>(Augusto dos Anjos)</p><p>Sabemos também que a criação de versos caracteriza-se por</p><p>uma linha melódica, cujos principais recursos são a rima, o ritmo</p><p>e a métrica.</p><p>RIMA</p><p>É a coincidência fonética entre as vogais tônicas de duas</p><p>palavras e os fonemas que lhe seguirem. Normalmente a rima é</p><p>um recurso melódico usado no final dos versos.</p><p>Quando um verso apresenta uma coincidência melódica com</p><p>outro, origina uma rima externa (entre versos). Em outros casos,</p><p>a rima se dá entre duas palavras de um mesmo verso, sendo</p><p>classificada como rima interna.</p><p>Quando externas, as rimas podem apresentar-se alternadas,</p><p>emparelhadas ou interpoladas. São alternadas quando o primeiro</p><p>verso rima com o terceiro e o segundo com o quarto, por exemplo,</p><p>(ABAB); chamam-se emparelhadas as que seguem o esquema</p><p>AABB; e intercaladas, ABBA:</p><p>Por água brava ou serena A</p><p>Deixamos nosso cantar, B</p><p>Vendo a voz como é pequena A</p><p>Sobre o comprimento do ar. B</p><p>Cecília Meireles</p><p>Filho meu, de nome escrito A</p><p>da minh’alma no infinito. A</p><p>Escrito a estrelas e sangue B</p><p>no farol da rua langue... B</p><p>Cruz e Sousa</p><p>Como ama o homem adúltero o adultério A</p><p>E o ébrio a garrafa tóxica de rum, B</p><p>Amo o coveiro - este ladrão comum B</p><p>Que arrasta a gente para o cemitério! A</p><p>Augusto dos Anjos</p><p>Existem ainda versos que não apresentam rimas entre si; esses</p><p>são chamados versos brancos:</p><p>Os inocentes do Leblon</p><p>não viram o navio entrar.</p><p>Trouxe bailarinas?</p><p>trouxe imigrantes?</p><p>trouxe um grama de rádio?</p><p>Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,</p><p>mas a areia é quente, e há um óleo suave</p><p>que eles passam nas costas, e esquecem.</p><p>Carlos Drummond de Andrade</p><p>As rimas também são classificadas por outros aspectos,</p><p>podendo ser perfeitas, imperfeitas, pobres, ricas, raras e preciosas.</p><p>São perfeitas as rimas que há coincidência entre os sons finais</p><p>a partir da vogal tônica (bola/escola, funil/barril); são imperfeitas</p><p>aquelas que</p><p>1. apresentam metafonia, que é a diferença de timbre entre as</p><p>vogais (estrela/vela);</p><p>2. apresentam semelhança fonética, mas não exata igualdade</p><p>(cais/paz);</p><p>3. rimam parcialmente (vertigem/virgem).</p><p>São ricas as rimas entre palavras de classes gramaticais</p><p>diferentes (mar/cantar, dor/compor) e pobres aquelas entre</p><p>palavras de mesma classe (amor/dor, amar/cantar); São chamadas</p><p>de raras, aquelas cujas terminações sejam difíceis e em pequeno</p><p>número na língua (cisne/tisne). Por fim, diz-se preciosa a rima que</p><p>se utiliza de mais de uma palavra para ser realizada; normalmente,</p><p>essas rimas apoiam-se na estrutura enclítica dos pronomes ao</p><p>verbo para criar seu efeito: (vê-lo/selo, segui-lo/tranquilo).</p><p>RITMO</p><p>Consiste na alternância entre as sílabas tônicas e átonas</p><p>das palavras que compõem um verso. Essa disposição gera uma</p><p>alternância de intensidade entre as sílabas, marcando pontos em</p><p>que se aumenta ou diminui a acentuação e, por consequência a</p><p>tensão do verso.</p><p>MÉTRICA</p><p>Se o ritmo trata da disposição das sílabas em um verso, a</p><p>métrica trata da quantidade de sílabas que nele se faz presente. A</p><p>divisão de um verso em suas sílabas poéticas chama-se escansão.</p><p>PRÉ-VESTIBULAR18</p><p>LITERATURA 03 A CONSTRUÇÃO DO TEXTO POÉTICO: ESTRUTURA E EXPRESSÃO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>Deve-se tomar cuidado, pois não há correspondência exata</p><p>entre as sílabas gramaticais e poéticas. Para realizar a escansão,</p><p>deve-se seguir as seguintes regras:</p><p>• Contagem até a última sílaba tônica dos versos.</p><p>• Ligação de vogais átonas finais com vogais subsequentes</p><p>De tudo, ao meu amor serei atento</p><p>Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto</p><p>Que mesmo em face do maior encanto</p><p>Dele se encante mais meu pensamento</p><p>Vinícius de Moraes</p><p>DIVISÃO GRAMATICAL</p><p>1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12</p><p>De/ tu/ do,/ ao/ meu/ a/ mor/ se/ rei/ a/ ten/ to</p><p>DIVISÃO POÉTICA</p><p>1 2 3 4 5 6 7 8 9 10</p><p>De/ tu/ do ao/ meu/ a/ mor/ se/ rei/ a/ ten/ to</p><p>FENÔMENOS MÉTRICOS</p><p>• Elisão: supressão da vogal átona final de uma palavra pela</p><p>vogal inicial da palavra seguinte.</p><p>Mas / que / se / JA IN / fi / ni / TO EN / quan / to / du / re.</p><p>• Crase: fusão de sons vocálicos iguais.</p><p>De / le / SE EN / can / te / mais / meu / pen / sa / men / to.</p><p>• Hiato: Separação de sons interverbais.</p><p>E vaga</p><p>Ao luar</p><p>Se apaga</p><p>NO AR</p><p>• Sinérese: união do hiato interno em uma só sílaba.</p><p>Lan / ça a / POE / si / a</p><p>• Diérese: divisão do ditongo em duas sílabas.</p><p>En / quan / to hou / ver / no / mun / do / SA / U /da / de</p><p>Os versos de um poema que não apresentam uma regularidade</p><p>métrica são chamados de livres em oposição aos regulares cuja</p><p>métrica se repete e que podem se classificar de acordo com o</p><p>número de sílabas poéticas:</p><p>• monossílabo – uma sílaba poética</p><p>• dissílabo – duas sílabas poéticas</p><p>• trissílabo – três sílabas poéticas</p><p>• pentassílabo ou redondilha menor – cinco sílabas poéticas</p><p>• heptassílabo ou redondilha maior – sete sílabas poéticas</p><p>• octossílabo – oito sílabas poéticas</p><p>• decassílabo – dez sílabas poéticas</p><p>• alexandrino – doze sílabas poéticas</p><p>• bárbaros – mais de treze sílabas poéticas</p><p>Outras medidas de verso são possíveis, apesar de raras.</p><p>Existem versos regulares de quatro, seis, nove catorze e até</p><p>dezesseis sílabas, contudo, por sua raridade são classificados por</p><p>alguns como exóticos ou de métrica exótica.</p><p>PROPOSTOS</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>01. (ENEM)</p><p>Essa lua enlutada, esse desassossego</p><p>A convulsão de dentro, ilharga</p><p>Dentro da solidão, corpo morrendo</p><p>Tudo isso te devo. E eram tão vastas</p><p>As coisas planejadas, navios,</p><p>Muralhas de marfim, palavras largas</p><p>Consentimento sempre. E seria dezembro.</p><p>Um cavalo de jade sob as águas</p><p>Dupla transparência, fio suspenso</p><p>Todas essas coisas na ponta dos teus dedos</p><p>E tudo se desfez no pórtico do tempo</p><p>Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro</p><p>Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo</p><p>Também isso te devo.</p><p>HILST, H. Júbilo, memória, noviciado da paixão. São Paulo: Cia. Das Letras, 2018.</p><p>No poema, o eu lírico faz um inventário de estados passados</p><p>espelhados no presente. Nesse processo, aflora o</p><p>a) cuidado em apagar da memória os restos do amor.</p><p>b) amadurecimento revestido de ironia e desapego.</p><p>c) mosaico de alegrias formado seletivamente.</p><p>d) desejo reprimido convertido em delírio.</p><p>e) arrependimento dos erros cometidos.</p><p>02. (ENEM)</p><p>Quebranto</p><p>às vezes sou o policial que me suspeito</p><p>me peço documentos</p><p>e mesmo de posse deles</p><p>me prendo e me dou porrada</p><p>às vezes sou o porteiro</p><p>não me deixando entrar em mim mesmo</p><p>a não ser</p><p>pela porta de serviço</p><p>[...]</p><p>às vezes faço questão de não me ver</p><p>e entupido com a visão deles</p><p>sinto-me a miséria concebida como um eterno</p><p>começo</p><p>fecho-me o cerco</p><p>sendo o gesto que me nego</p><p>a pinga que me bebo e me embebedo</p><p>o dedo que me aponto</p><p>e denuncio</p><p>o ponto em que me entrego.</p><p>às vezes!...</p><p>CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza. 2007 (fragmento).</p><p>Na literatura de temática negra produzida no Brasil, é recorrente a</p><p>presença de elementos que traduzem</p><p>experiências históricas de</p><p>preconceito e violência. No poema, essa vivência revela que o eu lírico</p><p>PRÉ-VESTIBULAR</p><p>03 A CONSTRUÇÃO DO TEXTO POÉTICO: ESTRUTURA E EXPRESSÃO</p><p>19</p><p>LITERATURA</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>a) incorpora seletivamente o discurso do seu opressor.</p><p>b) submete-se à discriminação como meio de fortalecimento.</p><p>c) engaja-se na denúncia do passado de opressão e injustiças.</p><p>d) sofre uma perda de identidade e de noção de pertencimento.</p><p>e) acredita esporadicamente na utopia de uma sociedade</p><p>igualitária.</p><p>03. (ENEM)</p><p>o que será que ela quer</p><p>essa mulher de vermelho</p><p>alguma coisa ela quer</p><p>pra ter posto esse vestido</p><p>não pode ser apenas</p><p>uma escolha casual</p><p>podia ser um amarelo</p><p>verde ou talvez azul</p><p>mas ela escolheu vermelho</p><p>ela sabe o que ela quer</p><p>e ela escolheu vestido</p><p>e ela é uma mulher</p><p>então com base nesses fatos</p><p>eu já posso afirmar</p><p>que conheço o seu desejo</p><p>caro watson, elementar:</p><p>o que ela quer sou euzinho</p><p>sou euzinho o que ela quer</p><p>só pode ser euzinho</p><p>o que mais podia ser</p><p>FREITAS, A. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Cosac Naify, 2013.</p><p>No processo de elaboração do poema, a autora confere ao eu lírico</p><p>uma identidade que aqui representa a</p><p>a) hipocrisia do discurso alicerçado sobre o senso comum.</p><p>b) mudança de paradigmas de imagem atribuídos à mulher.</p><p>c) tentativa de estabelecer preceitos da psicologia feminina.</p><p>d) importância da correlação entre ações e efeitos causados.</p><p>e) valorização da sensibilidade como característica de gênero.</p><p>04. (ENEM)</p><p>O mundo revivido</p><p>Sobre esta casa e as árvores que o tempo</p><p>esqueceu de levar. Sobre o curral</p><p>de pedra e paz e de outras vacas tristes</p><p>chorando a lua e a noite sem bezerros.</p><p>Sobre a parede larga deste açude</p><p>onde outras cobras verdes se arrastavam,</p><p>e pondo o sol nos seus olhos parados</p><p>iam colhendo sua safra de sapos.</p><p>Sob as constelações do sul que a noite</p><p>armava e desarmava: as Três Marias,</p><p>o Cruzeiro distante e o Sete-Estrelo.</p><p>Sobre este mundo revivido em vão,</p><p>a lembrança de primos, de cavalos,</p><p>de silêncio perdido para sempre.</p><p>DOBAL, H. A província deserta. Rio de Janeiro: Artenova, 1974.</p><p>No processo de reconstituição do tempo vivido, o eu lírico projeta</p><p>um conjunto de imagens cujo lirismo se funda menta no</p><p>a) inventário das memórias evocadas afetivamente.</p><p>b) reflexo da saudade no desejo de voltar à infância.</p><p>c) sentimento de inadequação com o presente vivido.</p><p>d) ressentimento com as perdas materiais e humanas.</p><p>e) lapso no fluxo temporal dos eventos trazidos à cena.</p><p>05. (ENEM)</p><p>As atrizes</p><p>Naturalmente</p><p>Ela sorria</p><p>Mas não me dava trela</p><p>Trocava a roupa</p><p>Na minha frente</p><p>E ia bailar sem mais aquela</p><p>Escolhia qualquer um</p><p>Lançava olhares</p><p>Debaixo do meu nariz</p><p>Dançava colada</p><p>Em novos pares</p><p>Com um pé atrás</p><p>Com um pé a fim</p><p>Surgiram outras</p><p>Naturalmente</p><p>Sem nem olhar a minha cara</p><p>Tomavam banho</p><p>Na minha frente</p><p>Para sair com outro cara</p><p>Porém nunca me importei</p><p>Com tais amantes</p><p>[...]</p><p>Com tantos filmes</p><p>Na minha mente</p><p>É natural que toda atriz</p><p>Presentemente represente</p><p>Muito para mim</p><p>CHICO BUARQUE. Carioca. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 2006 (fragmento).</p><p>Na canção, Chico Buarque trabalha uma determinada função da</p><p>linguagem para marcar a subjetividade do eu lírico ante as atrizes</p><p>que ele admira. A intensidade dessa admiração está marcada em:</p><p>a) “Naturalmente/ Ela sorria/ Mas não me dava trela”.</p><p>b) “Tomavam banho/ Na minha frente/ Para sair com outro cara”.</p><p>c) “Surgiram outras/ Naturalmente/ Sem nem olhar a minha</p><p>cara”.</p><p>d) “Escolhia qualquer um/ Lançava olhares/ Debaixo do meu</p><p>nariz”.</p><p>e) “É natural que toda atriz/ Presentemente represente/ Muito</p><p>para mim”.</p><p>06. (ENEM)</p><p>Esses chopes dourados</p><p>[...]</p><p>quando a geração de meu pai</p><p>batia na minha</p><p>a minha achava que era normal</p><p>que a geração de cima</p><p>só podia educar a de baixo</p><p>batendo</p><p>quando a minha geração batia na de vocês</p><p>ainda não sabia que estava errado</p><p>mas a geração de vocês já sabia</p><p>e cresceu odiando a geração de cima</p><p>aí chegou esta hora</p><p>em que todas as gerações já sabem de tudo</p><p>PRÉ-VESTIBULAR20</p><p>LITERATURA 03 A CONSTRUÇÃO DO TEXTO POÉTICO: ESTRUTURA E EXPRESSÃO</p><p>SISTEMA PRODÍGIO DE ENSINO</p><p>e é péssimo</p><p>ter pertencido à geração do meio</p><p>tendo errado quando apanhou da de cima</p><p>e errado quando bateu na de baixo</p><p>e sabendo que apesar de amaldiçoados</p><p>éramos todos inocentes.</p><p>WANDERLEY, J. In: MORICONI, I. (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século.</p><p>Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (fragmento).</p><p>Ao expressar uma percepção de atitudes e valores situados na</p><p>passagem do tempo, o eu lírico manifesta uma angústia sintetizada na</p><p>a) compreensão da efemeridade das convicções antes vistas</p><p>como sólidas.</p><p>b) consciência das imperfeições aceitas na construção do senso</p><p>comum.</p><p>c) revolta das novas gerações contra modelos tradicionais de</p><p>educação.</p><p>d) incerteza da expectativa de mudança por parte das futuras</p><p>gerações.</p><p>e) crueldade atribuída à forma de punição praticada pelos mais</p><p>velhos.</p><p>07. (ENEM)</p><p>Cântico VI</p><p>Tu tens um medo de</p><p>Acabar.</p><p>Não vês que acabas todo o dia.</p><p>Que morres no amor.</p><p>Na tristeza.</p><p>Na dúvida.</p><p>No desejo.</p><p>Que te renovas todo dia.</p><p>No amor.</p><p>Na tristeza.</p><p>Na dúvida.</p><p>No desejo.</p><p>Que és sempre outro.</p><p>Que és sempre o mesmo.</p><p>Que morrerás por idades imensas.</p><p>Até não teres medo de morrer.</p><p>E então serás eterno.</p><p>MEIRELES, C. Antologia poética, Rio de Janeiro: Record. 1963 (fragmento).</p><p>A poesia de Cecília Meireles revela concepções sobre o homem</p><p>em seu aspecto existencial. Em Cântico VI, o eu lírico exorta seu</p><p>interlocutor a perceber, como inerente à condição humana,</p><p>a) a sublimação espiritual graças ao poder de se emocionar.</p><p>b) o desalento irremediável em face do cotidiano repetitivo.</p><p>c) o questionamento cético sobre o rumo das atitudes humanas.</p><p>d) a vontade inconsciente de perpetuar-se em estado adolescente.</p><p>e) um receio ancestral de confrontar a imprevisibilidade das</p><p>coisas.</p><p>08. (IFAL) Para responder à(s) questão(ões) à seguir, considere o</p><p>texto abaixo.</p><p>Minha vida</p><p>Minha vida</p><p>não é tempo que corre</p><p>do meu natal</p><p>à minha morte</p><p>Minha vida é o meu dia de natal</p><p>- Dia da minha morte</p><p>In: COOPER, Jorge. Poesia Completa. Maceió: Cepal, 2010, p. 41.</p><p>Qual das afirmações a seguir dialoga, em seu sentido, com a visão</p><p>do eu lírico do poema “Minha vida”?</p><p>a) Nada na vida é por acaso; por isso, é necessário aproveitar as</p><p>oportunidades que o destino nos proporciona.</p><p>b) É necessário fazer o tempo parar, a fim de preservarmos o</p><p>quanto pudermos a nossa juventude.</p><p>c) O natal é uma data simbólica, porque representa o nascimento</p><p>de Jesus, fonte de vida.</p><p>d) É preciso viver cada dia como se ele fosse o primeiro e o último</p><p>de nossas vidas.</p><p>e) O natal nos leva a refletir sobre a força inexorável do tempo, que</p><p>reúne vida e morte.</p><p>09. (ENEM PPL)</p><p>Mãos dadas</p><p>Não serei o poeta de um mundo caduco.</p><p>Também não cantarei o mundo futuro.</p><p>Estou preso à vida e olho meus companheiros.</p><p>Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.</p><p>Entre eles, considero a enorme realidade.</p><p>O presente é tão grande, não nos afastemos.</p><p>Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.</p><p>Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.</p><p>Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.</p><p>Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.</p><p>Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.</p><p>O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os</p><p>homens presentes,</p><p>a vida presente.</p><p>ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.</p><p>Escrito em 1940, o poema Mãos dadas revela um eu lírico marcado</p><p>pelo contexto de opressão política no Brasil e da Segunda Guerra</p><p>Mundial. Em face dessa realidade, o eu lírico</p><p>a) considera que em sua época o mais importante é a</p><p>independência dos indivíduos.</p><p>b) desvaloriza a importância dos planos pessoais na vida em</p><p>sociedade.</p><p>c) reconhece a tendência à autodestruição em uma sociedade</p><p>oprimida.</p><p>d) escolhe a realidade social e seu alcance individual como</p><p>matéria poética.</p><p>e) critica o individualismo comum aos românticos e aos</p><p>excêntricos.</p><p>10. (UNESP) A(s) questão(ões) a seguir abordam um poema de</p><p>Raul de Leoni (1895-1926).</p><p>A alma das cousas</p>