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<p>Dramatúrgicos</p><p>Prof. Allende Renck</p><p>EstuDos</p><p>Indaial – 2021</p><p>1a Edição</p><p>Impresso por:</p><p>Elaboração:</p><p>Prof. Allende Renck</p><p>Copyright © UNIASSELVI 2021</p><p>Revisão, Diagramação e Produção:</p><p>Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech</p><p>Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI</p><p>Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI</p><p>R396e</p><p>Renck, Allende</p><p>Estudos dramatúrgicos. / Allende Renck – Indaial: UNIASSELVI, 2021.</p><p>179 p.; il.</p><p>ISBN 978-65-5663-959-8</p><p>ISBN Digital 978-65-5663-955-0</p><p>1. Dramartugia. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci.</p><p>CDD 792</p><p>Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao Livro Didático Estudos Dramatúrgicos!</p><p>A disciplina de Estudos Dramatúrgicos aborda uma ampla parte da sua formação, na</p><p>medida em que introduz um amplo cabedal conceitual e prepara para a interpretação</p><p>e a mobilização de formas dramáticas com as quais entrará em contato ao longo da</p><p>formação e depois dela.</p><p>Na Unidade 1, nós abordaremos os conceitos básicos do gênero dramático.</p><p>Isso serve para que você possa identificar as formas gerais e específicas de um texto</p><p>dramático, de modo a melhor construir o seu percurso acadêmico. Conversaremos</p><p>a respeito dos ideais gregos para o gênero dramático, partindo da obra do filósofo</p><p>Aristóteles. Assim, mergulharemos nas possíveis diferentes interpretações propostas</p><p>até o contemporâneo, para as estruturas pensadas já na Grécia antiga. Além disso,</p><p>definiremos alguns dos mais importantes movimentos teatrais da história desse gênero,</p><p>com foco nas características e na mobilização conceitual empreendida.</p><p>Já na Unidade 2, o nosso objetivo será trilhar um caminho histórico mais</p><p>pormenorizado. Embora, na Unidade 1, a origem histórica e o caminho do gênero teatral</p><p>sejam abordados de passagem, o foco da Unidade 1 são os conceitos, o que difere da</p><p>Unidade 2, a qual terá, como objetivo, informar os movimentos feitos pela dramaturgia</p><p>historicamente, os personagens mais marcantes, os dramaturgos mais inovadores,</p><p>e assim por diante. A Unidade 2 englobará o período da Grécia antiga até o início da</p><p>modernidade, ou seja, do século V a.C. até por volta do movimento Renascentista, dos</p><p>séculos XV a XVII.</p><p>Por fim, na Unidade 3, continuaremos os nossos estudos, agora, para abordar, de</p><p>maneira mais profunda, o teatro moderno, contemporâneo, além das diversas maneiras</p><p>através das quais o gênero dramático se desdobrou para a performance contemporânea,</p><p>para o cinema, para as telenovelas etc.</p><p>Bons estudos! Esperamos que possamos, juntos, construir, da melhor forma</p><p>possível, a sua caminhada acadêmica dentro dos Estudos Dramatúrgicos.</p><p>Prof. Allende Renck</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você –</p><p>e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR</p><p>Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite</p><p>que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para</p><p>utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois,</p><p>é só aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos.</p><p>GIO</p><p>Olá, eu sou a Gio!</p><p>No livro didático, você encontrará blocos com informações</p><p>adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento</p><p>acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender</p><p>melhor o que são essas informações adicionais e por que você</p><p>poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações</p><p>durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais</p><p>e outras fontes de conhecimento que complementam o</p><p>assunto estudado em questão.</p><p>Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos</p><p>os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina.</p><p>A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um</p><p>novo visual – com um formato mais prático, que cabe na</p><p>bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada</p><p>também digital, em que você pode acompanhar os recursos</p><p>adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo</p><p>deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura</p><p>interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no</p><p>texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que</p><p>também contribui para diminuir a extração de árvores para</p><p>produção de folhas de papel, por exemplo.</p><p>Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente,</p><p>apresentamos também este livro no formato digital. 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Boa leitura!</p><p>ENADE</p><p>LEMBRETE</p><p>Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma</p><p>disciplina e com ela um novo conhecimento.</p><p>Com o objetivo de enriquecer seu conheci-</p><p>mento, construímos, além do livro que está em</p><p>suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem,</p><p>por meio dela você terá contato com o vídeo</p><p>da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa-</p><p>res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de</p><p>auxiliar seu crescimento.</p><p>Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que</p><p>preparamos para seu estudo.</p><p>Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!</p><p>SUMÁRIO</p><p>UNIDADE 1 — OS ELEMENTOS DE COMPOSIÇÃO DA DRAMATURGIA ..........................1</p><p>TÓPICO 1 — UNIDADES DRAMÁTICAS E DESENVOLVIMENTOS .................................. 3</p><p>1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 3</p><p>2 ORIGEM DO GÊNERO DRAMÁTICO ............................................................................4</p><p>3 CARACTERÍSTICAS DO GÊNERO DRAMÁTICO ......................................................... 5</p><p>3.1 ESTRUTURA TEXTUAL ................................................................................................................5</p><p>3.2 DRAMATURGO EM CENA ......................................................................................................... 11</p><p>3.3 DESENVOLVIMENTO DA AÇÃO DRAMÁTICA ....................................................................... 12</p><p>4 ELEMENTOS DO TEXTO DRAMÁTICO ...................................................................... 13</p><p>4.1 PERSONAGENS E TIPOS ........................................................................................................... 13</p><p>4.2 CORO ............................................................................................................................................. 15</p><p>4.3 PÚBLICO ...................................................................................................................................... 16</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 ................................................................................................. 18</p><p>AUTOATIVIDADE .......................................................................................................... 19</p><p>TÓPICO 2 — POÉTICA DA CENA E CONSTRUÇÃO DRAMÁTICA ................................. 21</p><p>1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 21</p><p>2 COMO AGE UM DRAMA? ........................................................................................... 21</p><p>3 EXPLORANDO AS SENSIBILIDADES ENTRE CENA E PÚBLICO .............................22</p><p>3.1 GÊNERO DRAMÁTICO</p><p>as estratégias</p><p>ficcionais, pois incorpora o texto e se inclina na direção do público, com o objetivo de</p><p>fazer com que esse reverbere as ideias, também, no seu próprio corpo, no seu próprio</p><p>meio social. A arte dramática prospera em tempos de crise. Quando o campo social, com</p><p>tensão política, relega algumas ideias ao silêncio, o texto dramático surge com força</p><p>para retirar o público do torpor.</p><p>Seja imaginando os conflitos humanos para tomar o poder, como em Hamlet,</p><p>de Shakespeare, advogando pela liberdade heroica do sujeito, como em Os Bandoleiros,</p><p>de Schiller, propondo uma dúvida existencial entre o bem e o mal, como em Fausto, de</p><p>Goethe, ou invocando a tensão da espera, como em Esperando Godot, de Beckett, o que</p><p>o texto dramático tem, como fundamento, é a ficção como antropologia especulativa;</p><p>é a ideia de propor a vivência de um mundo de maneira que, ao entrar em contato com</p><p>tais emoções, todos possam redirecionar os interesses.</p><p>27</p><p>4.3 PARA ALÉM DA CATARSE: INVOCANDO AFETOS</p><p>POLÍTICOS</p><p>O dramaturgo alemão Bertold Brecht elevou, à máxima potência, a ideia do</p><p>drama como mobilizador social, ao pensar na ideia de teatro épico. Para tanto, Brecht</p><p>decidiu, em razão de uma relação mais didática do poder imaginativo do teatro, subverter</p><p>algumas das propostas aristotélicas, de maneira a colocar o teatro como um mobilizador</p><p>político, agora, direto, e não apenas sugestivo. Em Introdução à Dramaturgia, Renata</p><p>Pallottini compartilha uma comparação feita, pelo próprio Brecht, entre a forma</p><p>dramática e a forma épica, como poderemos observar a seguir:</p><p>QUADRO 1 – COMPARAÇÃO</p><p>FONTE: Pallottini (1988, p. 64)</p><p>Forma dramática Forma épica</p><p>1 Realiza-se através da ação [...] Há narração</p><p>2 Envolve o espectador Torna o espectador observador</p><p>3 Gasta-lhe a atividade Desperta a atividade</p><p>4 Possibilita-lhe emoções Força-o a tomar decisões</p><p>5 Dá-lhe vivência Dá-lhe uma concepção do mundo</p><p>6 O espectador é colocado dentro de algo</p><p>(identificação)</p><p>O espectador é colocado em face de algo</p><p>7 Age por meio da sugestão Age por meio de argumentos</p><p>8 Os sentimentos são conservados</p><p>O espectador é compelido a efetivar</p><p>atos de conhecimento</p><p>9 O espectador se identifica, convive O espectador permanece em face de, estuda</p><p>10 O homem é pressuposto como conhecido O homem é objeto de pesquisa</p><p>11 O homem é imutável O homem é mutável e vive mudando</p><p>12 Há tensão visando ao desfecho Há tensão visando ao desenvolvimento</p><p>13 Uma cena é ligada pela outra</p><p>(encadeamento)</p><p>Cada cena é feita por si</p><p>14 Observa-se o crescimento (organismo) Observa-se a montagem</p><p>15 O acontecer é linear O acontecer é em curvas</p><p>16 Surge a necessidade evolutiva Aparecem saltos</p><p>17 O homem é tido como fixo O homem é tido como processo</p><p>18 O pensamento determina o ser O ser social determina o pensamento</p><p>19 Percebe-se a emoção Marca presença o raciocínio</p><p>28</p><p>Como podemos observar, Brecht critica a concepção da forma dramática por</p><p>Aristóteles, de forma a pensar em uma outra maneira para que o drama aja sobre o</p><p>espectador. As críticas de Brecht aparecem em um contexto específico, de crescimento</p><p>das teorias sociais marxistas pela Europa, e servem como uma maneira de adaptar a</p><p>forma dramática em direção a uma ação direta do público. Como o próprio Brecht afirma,</p><p>o teatro troca a sugestão por argumentos, e, no processo, troca, de fato, até mesmo, a</p><p>concepção de homem na sociedade.</p><p>O teatro épico de Brecht é a concretização de uma crítica direta à forma de</p><p>percepção do gênero poesia dramática vinda de Aristóteles. Surgiu a partir de um</p><p>movimento histórico que modificou a percepção do homem, a percepção da religião e a</p><p>percepção da função social que os seres ocupam. O personagem brechtiano é narrado</p><p>e conversa, diretamente, com o público. Ele não se restringe a uma unidade de ação</p><p>ou a uma unidade de tempo ou espaço, pois flutua, livremente, entre os momentos de</p><p>choque necessários para o contato com o público. No entanto, a base necessária para</p><p>que Brecht pudesse desmontar e remontar a teoria dramatúrgica, ainda, faz referência à</p><p>Grécia antiga. Podemos mencionar a ideia catártica de alterar a percepção do espectador</p><p>através do texto dramático, e, apenas, a partir desse conhecimento, que ele se colocou</p><p>como crítico. Para ressignificar o gênero dramático, primeiramente, o dramaturgo teve</p><p>que dominá-lo.</p><p>5 GÊNERO DRAMÁTICO NO MEIO SOCIAL</p><p>Contemporaneamente, a dramaturgia é, ainda, uma força de mobilização social</p><p>extremamente potente. Durante a ditadura militar no Brasil, que se estendeu de 1964</p><p>a 1985, artistas, como o músico, escritor e dramaturgo Chico Buarque, compuseram</p><p>um número diverso de histórias dramáticas em ordem de subverter o opressor sistema</p><p>político que existia no país. A mobilização do gênero dramático, como proposta de uma</p><p>outra direção aos rumos sociais que cresciam, estende-se, hoje, a outras formas de</p><p>propostas dramatúrgicas que se lançam como herdeiras da forma basal.</p><p>Em 2019, o cineasta Kleber Mendonça Filho se juntou ao cineasta Juliano</p><p>Dornelles para lançar a obra cinematográfica Bacurau. O filme, que trata de uma invasão</p><p>de mercenários estrangeiros para o extermínio da população de uma cidade do interior,</p><p>a qual dá nome ao filme, Bacurau, e da brava resistência empreendida pelos moradores</p><p>dessa cidade contra a investida, não, apenas, mostrou-se uma potente experiência</p><p>catártica pelos cinemas de todo o mundo, mas, também, tomou o espaço extratextual</p><p>com os protestos da produção e do elenco no Festival de Cinema de Cannes, de 2019,</p><p>contra o estado atual da política pelo mundo.</p><p>29</p><p>Invariavelmente social, o gênero dramático se posiciona em uma linha tênue</p><p>entre lugar, cena e meio social, e a ação encontra, até hoje, diversas maneiras de mobilizar</p><p>afetos dos corpos espectadores em ordem de causa, com um certo desconforto com o</p><p>estado geral das coisas. Eternamente, uma proposta de diálogo, a dramaturgia respira</p><p>um espírito de questionamento, de proposta, dando, a si mesma, o direito de permanecer</p><p>uma das mais relevantes formas artísticas de todos os tempos.</p><p>FIGURA 2 – PRODUÇÃO E ELENCO DE BACURAU, NO TAPETE VERMELHO DO</p><p>FESTIVAL DE CINEMA DE CANNES, 2019</p><p>FONTE: <http://twixar.me/nbNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>30</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A ação dramática acontece quando há uma tomada de posição pelos personagens</p><p>envolvidos.</p><p>• A “poesia” se diferencia da “história” pela capacidade de imaginar o que “poderia ter</p><p>acontecido”.</p><p>• A arte dramática é um importante mobilizador social para além da cena teatral.</p><p>• A “verossimilhança” aristotélica significa que os personagens devem seguir as regras</p><p>estabelecidas pelo universo ficcional no qual se inserem.</p><p>• A “catarse” aristotélica é a capacidade de o gênero teatral, pela performance do texto,</p><p>afetar o público, e, assim, purgar as emoções na experiência artística.</p><p>• O gênero dramático compõe uma antropologia especulativa, na medida em que</p><p>imagina a humanidade nas mais variadas situações e conflitos.</p><p>• O teatro épico de Bertold Brecht se contrapunha à forma dramática aristotélica,</p><p>propondo uma interação didática mais direta do texto com o público.</p><p>• Ainda hoje, a dramaturgia é usada como forma de trazer à tona mazelas sociais das</p><p>mais variadas.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>31</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 No tópico anterior, aprendemos sobre diferentes elementos de composição do</p><p>gênero dramático e da estrutura funcional do drama, além da possível relação de</p><p>leitura social. A partir disso, e com base no conteúdo abordado, também, no Tópico 1,</p><p>assinale a resposta CORRETA, quanto à ação dramática:</p><p>a) ( ) A ação de um drama tem, como objetivo, proporcionar a experiência de um</p><p>desenvolvimento dialético nos personagens.</p><p>b) ( ) O público não é levado em consideração no desenvolvimento de uma ação</p><p>dramática.</p><p>c) ( ) Aristóteles considerava a</p><p>Unidade Temporal mais importante do que a Unidade</p><p>de Ação.</p><p>d) ( ) O afeto proposto pela ação teatral é reservado para o âmbito da cena.</p><p>2 Do período clássico até a dramaturgia contemporânea, a interação cena-público é</p><p>fundamental na construção dos sentidos narrativo, estético e histórico do drama.</p><p>Com relação a essa interação fulcral do desenvolvimento dramatúrgico, analise as</p><p>afirmativas a seguir:</p><p>I- O intuito de um espetáculo dramático é fazer ressoar, no público, as emoções</p><p>encenadas.</p><p>II- O gênero dramático possui um efeito muito forte no público, pois relata, sempre e</p><p>exatamente, aquilo que aconteceu.</p><p>III- Apesar de ser um elemento importante para um espetáculo, o público é dispensável</p><p>para o efeito geral a ser alcançado.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) Somente a sentença I está correta.</p><p>c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>d) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>3 Para habilitar um pensamento sobre o drama, Aristóteles lança mão de algumas</p><p>estruturas teóricas que mobilizam os conhecimentos gerais sobre o texto dramático</p><p>em ordem de ele aproveitar suas potências. Com relação ao estudo realizado no</p><p>Tópico 2, assinale V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas:</p><p>32</p><p>( ) Aristóteles afirma que a poesia se difere da história por possibilitar a experiência</p><p>verossímil do que “poderia ter acontecido”.</p><p>( ) Apesar de ser um grande entretenimento, o texto dramático, historicamente, teve</p><p>pouco efeito no meio social.</p><p>( ) De acordo com Aristóteles, a “verossimilhança” é um elemento fundamental para o</p><p>acontecimento da “catarse”.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – F – F.</p><p>b) ( ) V – F – V.</p><p>c) ( ) F – V – F.</p><p>d) ( ) F – F – V.</p><p>4 A Catarse é um conceito de suma importância na Poética, de Aristóteles. Disserte a</p><p>respeito dos elementos que a compõem.</p><p>5 Bertold Brecht imagina uma forma teatral distinta da proposta por Aristóteles, dado o</p><p>nome de “Teatro épico”. Explique as distinções propostas por Brecht para essa ideia.</p><p>33</p><p>TÓPICO 3 —</p><p>GÊNEROS, TIPOS E INTERPRETAÇÕES</p><p>UNIDADE 1</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Acadêmico, agora que nos inteiramos da teoria que envolve a cena dramática, é a</p><p>hora de vermos, mais detalhadamente, como essa foi se apresentando. Exploraremos os</p><p>gêneros e os tipos que mais se destacaram na história da dramaturgia. Diferenciaremos</p><p>a tragédia da comédia e da farsa. Observaremos como cada gênero dramático explora o</p><p>meio social no qual se insere (e, como acompanhamos no tópico anterior, como o altera)</p><p>e como, fora do eixo europeu, a arte dramatúrgica se desenvolveu.</p><p>É um tópico pensado, para que possamos explorar a forma através da qual</p><p>a teoria apresentada nos tópicos anteriores foi se desenvolvendo, em diálogo com o</p><p>tempo. Dessa forma, poderemos observar as alterações sofridas pelo protagonista,</p><p>encarado por dramaturgos e pelo público; de que forma o espaço cênico foi se alterando,</p><p>desde os espaços abertos gregos até as ruas das grandes metrópoles atuais, e como</p><p>a arte dramática se mostrou, aos poucos, modificada a cada tempo histórico e a cada</p><p>sociedade que a tomou para si.</p><p>Como em todos os tópicos desta unidade, a nossa jornada começou na Grécia</p><p>Antiga e vai se desdobrando até as performances contemporâneas, de maneira que</p><p>possamos ver a fundo as perspectivas inseridas em cada um dos gêneros, dos tipos e</p><p>das interpretações apresentados aqui.</p><p>Comecemos com a definição dos gêneros gregos tragédia, comédia e farsa.</p><p>2 TRAGÉDIA, COMÉDIA E PRINCÍPIOS</p><p>Pelo que abarcamos nos tópicos anteriores, muito do que se pensa a respeito</p><p>da dramaturgia, ainda hoje, germina do pensamento do filósofo grego Aristóteles, a partir</p><p>de Poética. No entanto, o texto que nos chega da Poética aristotélica engloba muito</p><p>pouco qualquer coisa que não seja o gênero trágico. Assim, partiremos das definições</p><p>de Aristóteles e de exemplos textuais para melhor entendermos a particularidade de</p><p>cada gênero dramático e como cada um deles faz o um comentário dialógico com o</p><p>mundo que o cerca. Daremos o passo inicial com um gênero privilegiado por Aristóteles:</p><p>a tragédia.</p><p>34</p><p>2.1 TRAGÉDIA</p><p>Aristóteles define a tragédia, em Poética, da seguinte maneira:</p><p>É, pois, a tragédia, a mimese de uma ação de caráter elevado, completa</p><p>e de certa extensão, em linguagem ornamentada, com cada uma</p><p>das espécies de ornamento, distintamente, distribuída em partes;</p><p>mimese que se efetua por meio de ações dramatizadas, e não por</p><p>meio de uma narração, e que, em função da compaixão e do pavor,</p><p>realiza a catarse de tais emoções (ARISTÓTELES, 2015, p. 71-73).</p><p>Podemos notar, portanto, que a tragédia, na percepção aristotélica, é a forma</p><p>mais elevada do gênero dramático. Nela, não apenas os personagens são altivos e</p><p>importantes, mas, também, os acontecimentos representados expressam essa altivez.</p><p>A tragédia existe em função da catarse de emoções, como compaixão e pavor, pois lida</p><p>com os mais altos conflitos humanos, portanto, purga, no público, os mais intensos dos</p><p>sentimentos.</p><p>O exemplo mais utilizado de tragédia, muito elogiado por Aristóteles, em</p><p>Poética, é o da peça Édipo Rei, de Sófocles. Nessa peça, o personagem protagonista de</p><p>Sófocles, Édipo, ainda bebê, tem o próprio destino selado. O pai dele, o rei Laio, ouvira,</p><p>do oráculo de Delfos, que o filho mataria o pai e casaria com a mãe, a rainha Jocasta. Ao</p><p>saber desse futuro tenebroso, Laio condena o filho à morte como solução prévia para</p><p>o destino profetizado. Laio convoca um pastor para deixar Édipo à mercê de feras com</p><p>os pés amarrados, longe de Tebas. Com pena, o pastor desobedece e leva o bebê para</p><p>casa, mas não pode sustentá-lo, e acaba por doar a criança. Édipo termina na guarda</p><p>de Políbio, rei de Corinto, que passa a tratá-lo como um filho, e, lá, é educado, e cresce</p><p>até receber a notícia de que a família que o criou não é, de verdade, a dele. Louco de</p><p>raiva, Édipo abandona a casa, e, ao se deparar com o pai biológico, sem sabê-lo, em uma</p><p>discussão, mata-o. Após esse conflito, Édipo chega a Tebas, onde nascera, e soluciona o</p><p>enigma da Esfinge que assolava a cidade. Por ter salvado a cidade da criatura mitológica,</p><p>Édipo é considerado herói e é declarado o novo rei de Tebas, casando-se com a própria</p><p>mãe, Jocasta, o que finaliza o acerto da profecia do Oráculo. Édipo e Jocasta têm quatro</p><p>filhos: Polinices, Antigona, Ismene e Etéocles. Ao consultar um oráculo, Édipo percebe</p><p>como havia vivido a vida nas sombras e entra em desespero quanto à possibilidade</p><p>de verdade da profecia. Uma mensagem sela o destino, e, a partir de um completo</p><p>desespero, o herói trágico se cega para deixar de se ver. Jocasta, ao saber da trágica</p><p>história, suicida-se. Toda a peça, como determina Aristóteles, na proposta da unidade</p><p>do tempo, passa-se no momento da descoberta de Édipo, o qual tem a história revelada</p><p>para si, tomando consciência, aos poucos, da própria jornada.</p><p>A seguir, leia um trecho da cena final da tragédia de Édipo, quando o protagonista</p><p>está prestes a perceber a sina:</p><p>35</p><p>PASTOR</p><p>Ele nascera… no palácio do rei Laio!</p><p>ÉDIPO</p><p>Simples escravo, ou então… filho do próprio rei?</p><p>PASTOR</p><p>Quanta tristeza! É doloroso de falar!</p><p>ÉDIPO</p><p>Mais doloroso de escutar, mas não te negues.</p><p>PASTOR</p><p>Seria filho dele, mas tua mulher 1370</p><p>que deve estar lá dentro sabe muito bem</p><p>a origem da criança e pode esclarecer-nos.</p><p>ÉDIPO</p><p>Foi ela mesma a portadora da criança?</p><p>PASTOR</p><p>Sim, meu senhor; foi Jocasta, com as próprias mãos.</p><p>ÉDIPO</p><p>Por que teria ela agido desse modo? 1375</p><p>PASTOR</p><p>Mandou-me exterminar a tenra criancinha.</p><p>ÉDIPO</p><p>Sendo ela a própria mãe? Não te parece incrível?</p><p>PASTOR</p><p>Tinha receios de uns oráculos funestos.</p><p>ÉDIPO</p><p>E quais seriam os oráculos? Tu sabes?</p><p>PASTOR</p><p>Diziam que o menino mataria o pai. 1380</p><p>ÉDIPO</p><p>Indicando o MENSAGEIRO.</p><p>Por que deste o recém-nascido a este ancião?</p><p>36</p><p>PASTOR</p><p>Por piedade, meu senhor; pensei, então,</p><p>que ele o conduziria a um lugar distante</p><p>de onde era originário; para nosso mal</p><p>ele salvou-lhe a vida. Se és quem ele diz, 1385</p><p>julgo-te o mais infortunado dos mortais!</p><p>ÉDIPO</p><p>Transtornado.</p><p>Ai de mim! Ai de mim! As dúvidas desfazem-se!</p><p>Ah! Luz do sol. Queiram os deuses que esta seja</p><p>a derradeira vez que te contemplo! Hoje</p><p>tornou-se claro a todos que eu não poderia 1390</p><p>nascer de quem nasci, nem viver com quem vivo</p><p>e, mais ainda, assassinei quem não devia! (SÓFOCLES, 1990, p. 79-81).</p><p>Édipo é um príncipe, filho do rei de Tebas, um personagem elevado por excelência,</p><p>mas, acima de tudo, ele é um personagem de destino traçado. A tragédia grega tem,</p><p>como ponto de tensão, esse ser humano elevado preso nas amarras de um destino, e é</p><p>esse destino, essa inescapável dor advinda do conflito, que forja o que Aristóteles elogia</p><p>quanto à catarse das emoções mais intensas.</p><p>FIGURA 3 – ÉDIPO CONFRONTA ESFINGE</p><p>FONTE: <http://twixar.me/hbNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>37</p><p>2.2 COMÉDIA</p><p>Outro gênero, dentro da poesia dramática, é o da comédia. Apesar de ter sido</p><p>menos elucidado pela Poética aristotélica, o filósofo chega a defini-la da seguinte forma:</p><p>A comédia é, como se disse, a mimese de homens inferiores; não,</p><p>todavia, de toda espécie de vício: o cômico é apenas uma parte do</p><p>feio. Poder-se-ia dizer que o cômico é um determinado erro e uma</p><p>vergonha que não causam dor e destruição; como bem exemplifica</p><p>a máscara cômica: ela é feia e disforme, sem expressar dor</p><p>(ARISTÓTELES, 2015, p. 67).</p><p>O gênero cômico tratava, então, dos vícios do homem comum (ou, nas palavras</p><p>de Aristóteles, inferior). A comédia era o gênero que se conectava com os personagens</p><p>mundanos e tinha, como temas, não o destino traçado pelos deuses, mas a ação</p><p>mundana dos seres humanos.</p><p>Talvez, o exemplo mais famoso de comédia grega seja a peça A Greve do Sexo:</p><p>Lisístrata, de Aristófanes. Nessa peça, as mulheres da Grécia, cansadas das másculas</p><p>guerras entre Atenas e Esparta, decidem realizar uma greve sexual coletiva para forçar</p><p>acordos de paz. Podemos ver um trecho a seguir:</p><p>LISÍSTRATA – Vocês não sentem falta dos pais dos seus filhos, os</p><p>quais as guerras afastaram, por tanto tempo, do convívio familiar?</p><p>Aposto que todas vocês estão, temporariamente, viúvas. Não há uma</p><p>só que tenha o marido presente aqui em Atenas.</p><p>CLEONICE – O meu eu não vejo há mais de cinco meses. Faz parte do</p><p>grupo que vigia Eucrates.</p><p>LAMPITO – Soldados vigiando o próprio general: eis uma novidade!</p><p>CLEONICE – Eucrates é um general competente e o comando não</p><p>pode prescindir dele, mas se não o vigiam, é capaz de vender, ao</p><p>inimigo, até a própria farda. (Todas riem.)</p><p>MIRRINA – Meu marido partiu para Dalos, sete meses atrás.</p><p>LAMPITO - E o meu, a última vez que esteve em casa, só teve tempo</p><p>de pegar um escudo e partir de novo. Nem vi a cor da masculinidade</p><p>dele.</p><p>LISÍSTRATA – É assim com todas. Há meses não recebem a paga</p><p>natural do casamento. Eu, desde que a guerra começou, não</p><p>encontro, em casa, nem mesmo a bainha de uma adaga, aquele</p><p>palmo de couro curtido e envernizado que poderia me consolar nos</p><p>dias mais intensos. Digam-me, pois, se eu explicar, a vocês, uma</p><p>maneira perfeita de pôr fim à guerra, vocês me ajudam, unem-se a</p><p>mim, enfrentam as naturais dificuldades da luta?</p><p>CLEONICE – Claro que sim, Lisís. Nós, de Atenas, todas nós</p><p>concordamos, mesmo que tenhamos que passar uma semana inteira</p><p>sem uma gota de vinho.</p><p>MIRRINA – Por mim, também concordo, mesmo que tenha que cortar</p><p>um braço para me alimentar. LAMPITO - Eu também, é claro. Para</p><p>conseguir a paz, subirei de joelhos ao pico do Taigeto.</p><p>LISÍSTRATA – Bem, então vou revelar o meu grande segredo. Oh,</p><p>irmãs de solidão e de sofrimento, para obrigar nossos maridos a</p><p>fazerem a paz, devemos todas nos abster...</p><p>CLEONICE – Abster de quê?</p><p>38</p><p>LAMPITO – Diz!</p><p>MIRRINA – Fala!</p><p>LISÍSTRATA – Mas vocês cumprirão o prometido? Se absterão,</p><p>completamente, do que eu disser?</p><p>MIRRINA – Prometemos! Nem que essa abstenção nos cause a morte.</p><p>LISÍSTRATA – Pois bem, vocês terão que se abster daquela pequena</p><p>parte do homem que mais o classifica como tal. Ué, por que viram</p><p>as costas? Onde é que vocês vão? Você aí, por que morde os lábios?</p><p>E você, por que balança a cabeça desse jeito? Estão todas pálidas.</p><p>Até há algumas amarelas. Mudaram todas de cor. Estão chorando?</p><p>Respondam, ao menos! Vão ou não cumprir o que prometeram? Qual</p><p>é a dificuldade?</p><p>CLEONICE – Para mim, total. Eu não resisto. Que a guerra continue!</p><p>MIRRINA – Eu também. Que continue a guerra!</p><p>LISÍSTRATA – (Para Mirrina.) Mas não era você que estava disposta a</p><p>comer o próprio braço?</p><p>MIRRINA – Estou disposta a sacrificar esse membro, mas não a me</p><p>privar do outro. Tudo, tudo que você quiser, amada Lisístrata. Menos</p><p>isso.</p><p>CLEONICE – Lisinha, me pede para atravessar uma fogueira com os</p><p>pés nus, eu o farei sem hesitação, mas não nos prive da coisa que faz</p><p>a vida, da coisa melhor da vida, da coisa que é a própria vida!</p><p>LISÍSTRATA – Tua opinião também é essa?</p><p>MIRRINA – Creio que é a de todas. Preferimos a fogueira proposta por</p><p>Cleonice (ARISTÓFANES, 2003, p. 7-8).</p><p>Como podemos perceber, o tom cômico segue uma linha, absolutamente, distinta</p><p>do tom trágico. A força e a relação com o público estão em colocar em cena os absurdos</p><p>do dia a dia, e não em se preocupar com as questões de grandes heróis. No entanto,</p><p>os princípios que aprendemos nos primeiros dois tópicos ainda se aplicam. A ação,</p><p>ainda, possui unidade; os diálogos, ainda, movimentam as personagens e as alteram, e</p><p>existe uma catarse em jogo, uma catarse das emoções mais mundanas que continuam</p><p>fundamentais. Como não é de se surpreender, as comédias eram muito populares entre</p><p>o público grego, apesar de não serem muito apreciadas pela intelectualidade da época.</p><p>O diretor Spike Lee adaptou a peça de Aristófanes em uma das obras</p><p>cinematográficas dele, chamada Chi-raq, trocando as guerras entre</p><p>Esparta e Atenas pelos conflitos de gangues na cidade de Chicago.</p><p>FONTE: <https://www.adorocinema.com/filmes/filme-239643/>. Acesso</p><p>em: 24 abr. 2021.</p><p>NOTA</p><p>39</p><p>2.3 TRAGICOMÉDIA E FARSA</p><p>A farsa e a tragicomédia são gêneros teatrais muito posteriores aos gêneros</p><p>gregos. Ambos foram desenvolvidos durante a Idade Média, na Europa, e jogam com as</p><p>possibilidades do riso e da alegria dentro da ação dramática.</p><p>A tragicomédia mescla elementos da tragédia, tendo, como principais temas</p><p>de ação, alguns tópicos, como a violência, a morte, os roubos e coisas do gênero.</p><p>Também, trabalha com uma inversão do julgo final esperado de uma tragédia, isto</p><p>é, declara um final feliz. Ao unir elementos da tragédia e da comédia gregas, os</p><p>dramaturgos renascentistas trouxeram à tona uma interpretação da ação dramática</p><p>que proporcionava alívio ao fim da história. Podemos pensar na tragicomédia como uma</p><p>tomada da vida cotidiana e desventurada, acompanhada de uma fina comicidade. A</p><p>tragicomédia pode ser observada, em sua sobrevivência contemporânea, no fenômeno</p><p>das telenovelas e em algumas séries de televisão.</p><p>A farsa tem, como intuito, a caricatura total da sociedade a que se apresenta.</p><p>Enquanto a comédia grega comentava a respeito dos homens inferiores de maneira</p><p>sutil, a farsa extrapola aquilo que Aristóteles chamou de feio, de maneira a fazê-lo gritar</p><p>ao espectador. A função dela não é moral, mas a de um entretenimento de espelho: o</p><p>público é capaz de rir de um exagero de si mesmo.</p><p>Comentamos, aqui, rapidamente, a respeito desses dois gêneros, por</p><p>entendermos que eles germinam, diretamente, de uma reinterpretação da tragédia e</p><p>da comédia gregas. Essas interpretações são fundamentais para o desenvolvimento</p><p>dialético da dramaturgia, e é, justamente,</p><p>isso que será analisado a seguir.</p><p>3 COMO SE DESENVOLVEM AS INTERPRETAÇÕES</p><p>DE GÊNERO</p><p>Ao longo da história da dramaturgia, o gênero dramático foi se metamorfoseando,</p><p>coadunando diferentes técnicas e experiências, de maneira a ter a cara que tem na atua-</p><p>lidade. Entender como essas diferentes interpretações foram acontecendo é importante</p><p>para que possamos esclarecer como a dramaturgia contemporânea se comporta.</p><p>3.1 GÊNEROS REFLETEM O CONTEXTO</p><p>Se, na Grécia antiga, como vimos no primeiro tópico, a adesão popular ao</p><p>gênero dramático foi um resultado do advento da escrita, é válido pensarmos que os</p><p>acontecimentos gerais de uma sociedade modificam a forma através da qual se olha</p><p>e se interpreta os meios artísticos. Após o nascimento e o crescimento do gênero</p><p>dramático na Grécia antiga, e com o desenrolar da queda militar da Grécia, pouco se</p><p>conheceu do desenvolvimento de técnicas dramáticas na Europa antes da Idade Média.</p><p>40</p><p>O período que separa esses dois marcos parece ter uma linha semelhante de explicação.</p><p>De acordo com Jennifer Wise (1998), há motivos para acreditar que é, justamente, o</p><p>avanço da escrita, como tecnologia popular, que começou a reacender o fogo dramático</p><p>europeu no período. No entanto, a diferença cultural entre a Grécia antiga e a Idade</p><p>Média Europeia era bem marcante. Enquanto os gregos eram devotos de um politeísmo,</p><p>a população europeia era, majoritariamente, cristã. O pêndulo moral foi alterado, e ao</p><p>se alterar essa linha de moralidade, modificou-se, também, a forma de interpretação</p><p>possível do mundo. Já não eram mais os Oráculos, em nome de Apolo, que sopravam</p><p>os ventos do destino de um personagem elevado que, deles, não escapava. As histórias</p><p>eram alteradas pelo que circundava o palco e o texto, pelo mundo que se desenvolvia,</p><p>pelos costumes alterados, pelo público metamorfoseado. Assim, como seriam essas</p><p>diferentes interpretações? Acompanhe!</p><p>4 CENA COMO ESPELHO DO MUNDO</p><p>Estabelecemos que o contexto informa a forma de interpretação do gênero</p><p>dramático da mesma forma que o drama pode influir sobre as mobilizações extratextuais.</p><p>Assim, a partir de agora, observaremos como, depois dos gêneros pensados na Grécia</p><p>antiga, foram desenvolvidas novas abordagens dramáticas quanto aos modos de se ler</p><p>o mundo e de se interagir com o público.</p><p>4.1 DIFERENTES GÊNEROS NA HISTÓRIA EUROPEIA</p><p>Temporalmente, após as interpretações dos gêneros gregos, o que chamou</p><p>atenção na Europa foi o teatro medieval:</p><p>• O foco central do teatro medieval pode ser resumido a partir da ideia de religiosidade,</p><p>a qual permeava a sociedade europeia da época. Com início em meados do século</p><p>XII d.C., essa forma de interpretação do gênero dramático se estendeu por volta de</p><p>três séculos, até o Renascimento. Era baseado em celebrações realizadas a favor das</p><p>festividades religiosas, como Páscoa e Natal. Os espetáculos eram, originalmente,</p><p>encenados pelos membros clericais, após as missas ou as procissões, e tinham,</p><p>como temas, as passagens bíblicas, os milagres, os mistérios, os sermões, os</p><p>autos sacramentais, as biografias de santos e os dramas litúrgicos. Para entender a</p><p>dominação cultural dessa forma de encenação, basta se lembrar de que o contexto</p><p>histórico desses séculos era de predomínio da hegemonia da Igreja Católica e dos</p><p>costumes dela, dessa forma, nada mais natural que o gênero de representação</p><p>dramática corporal converse, intimamente, com essa hegemonia. Como podemos</p><p>notar, as formações dramáticas germinavam de dentro das experiências religiosas,</p><p>o que dava pouco espaço para uma leitura crítica da situação. Mesmo assim, ao,</p><p>gradativamente, sair dos espaços, puramente, religiosos, e começar a ser apresentado</p><p>em praças públicas, o teatro medieval deixou incorporar, nos temas, a vida e o</p><p>costume do povo. Renata Pallottini, em Introdução à Dramaturgia, comenta que:</p><p>41</p><p>A passagem, na Idade Média, da atitude dramática à épica, baseada no</p><p>espírito das missas e das cerimônias cristãs, explica, com a visão do</p><p>mundo, o caráter medieval, aberto, multiforme, sem rigor dramático.</p><p>Os cenários são sucessivos ou simultâneos, o tempo é, praticamente,</p><p>todo o tempo, os estilos se misturam, os personagens se multiplicam.</p><p>Está-se representando toda a história da cristandade, de as virtudes</p><p>e os pecados dos santos e dos diabos. Mesmo um Everyman não</p><p>é alguém, é todo mundo. Adão não é Adão, é o Homem (todos os</p><p>homens). Tudo já aconteceu, tudo é simultâneo, e tudo está ligado</p><p>a tudo. O teatro medieval é um mural, e não um retrato (PALLOTTINI,</p><p>1988, p. 55).</p><p>• Já o teatro Renascentista, que se iniciou a partir do século XV, na Europa, e tomou</p><p>conta de países, como Inglaterra, França, Espanha e Itália, buscou retornar aos</p><p>princípios aristotélicos, ainda que modificando, intensamente, o que era considerado</p><p>um tema fundamental da ação dramática, o que era criado em cima de conceitos</p><p>estabelecidos. Pallottini, a respeito do teatro no Renascimento, conta que</p><p>o ideal do Renascimento – de ser mais aristotélico do que Aristóteles</p><p>– reforça a obediência às famosas três unidades e cria o palco</p><p>ilusionista, no qual, à força de isolar o público, pô-lo na escuridão,</p><p>afastá-lo (pelo menos, na medida do possível), buscavam-se, cada</p><p>vez mais, criar e manter a ilusão cênica ao máximo (PALLOTTINI,</p><p>1988, p. 55).</p><p>Dentre as formas de interpretações da época do Renascimento Europeu, as que</p><p>mais marcaram foram o Teatro Elisabetano, na Inglaterra, o qual teve, como o nome mais</p><p>marcante, o dramaturgo William Shakespeare, e, como característica, a desconstrução</p><p>das unidades dramáticas aristotélicas em ordem de uma construção aberta de história</p><p>(poderia se estender por anos, com a troca do espaço representado, e assim por diante).</p><p>Pode-se citar Commedia Dell’Arte, na Itália, com a inserção de um jogo de</p><p>improviso e de divertimento na cena teatral. Como menciona Massaud Moisés, no</p><p>Dicionário de Termos Literários, impressionava que, “frente a um cenário fixo, ou que</p><p>mudava consoante o entrecho a se desenrolar, improvisavam o diálogo e a ação,</p><p>estribados, meramente, em um esquema orientador” (MOISÉS, 2013, p. 83).</p><p>Havia o siglo de oro espanhol, o qual ficou conhecido pela forte posição moral</p><p>conservadora, o que se contrapunha com a liberdade expressa no Teatro Elisabetano.</p><p>A ópera foi uma forma dramática que se originou, também, durante o</p><p>Renascimento, e que mescla, em si, a encenação dramática com o canto (aceno para</p><p>a Grécia antiga), incluindo a música sinfônica. Apesar de ter surgido na Itália, a ópera,</p><p>logo, tomou conta da Europa como gênero dramático, e se popularizou pela França. Os</p><p>maiores expoentes foram, no entanto, da Alemanha, como Richard Wagner, e da própria</p><p>Itália, com Giuseppe Verdi.</p><p>42</p><p>FIGURA 4 – TEATRO GLOBE, EM LONDRES, REPLICA O ESPAÇO CÊNICO ABERTO DA ÉPOCA ELISABETANA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/pbNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>FIGURA 5 – PERSONAGENS DA COMMEDIA DELL’ARTE</p><p>FONTE: <https://shutr.bz/3sx3GgQ>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>FIGURA 6 – APRESENTAÇÃO CONTEMPORÂNEA DE ÓPERA - ORQUESTRA ACOMPANHA</p><p>CANTORA AO FUNDO</p><p>FONTE: <http://twixar.me/RbNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>43</p><p>• Após o Renascimento, as artes dramáticas, na Europa, foram, novamente, marcadas</p><p>por uma mudança de perspectiva com a arte romântica do século XIX. Renata Pallottini</p><p>nos diz que “experiência dos românticos e dos predecessores é, exatamente, a de</p><p>colocar os valores – e a desilusão, diante dos valores – em um teatro novo, avesso</p><p>aos cânones, individualista, resposta a um mundo adverso, agressivo e infeliz”</p><p>(PALLOTTINI, 1988, p. 57). O drama romântico seguia a linha geral do Romantismo</p><p>europeu. Em diálogo com a sociedade, que borbulhava uma revolução, a mentalidade</p><p>romântica era a de quebra com a tradição, com a criação de uma nova</p><p>forma de</p><p>ver o mundo. As características principais eram o individualismo, o nacionalismo e a</p><p>idealização. As peças, também, tinham a característica de beber muito nos folclores</p><p>típicos dos países, de maneira que a história representada falasse, intimamente, com</p><p>o espírito popular: um ótimo exemplo disso é a peça Fausto, do poeta alemão Goethe,</p><p>baseada em um folclore medieval. Tratou da decadência do ser humano Fausto, frente</p><p>à tentação de tudo ter, representada pelo demônio Mefistófeles (um tema universal</p><p>que poderia, assim, facilmente, reverberar com o público do século XIX).</p><p>FIGURA 7 – FAUSTO E MEFISTÓFELES</p><p>FONTE: <http://twixar.me/PbNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>• O século XX foi marcado pelo avanço do teatro épico, como já estudamos. Frente aos</p><p>avanços modernistas de vanguarda e às reverberações políticas que acompanhavam</p><p>esses avanços, isto é, a Primeira Guerra Mundial, em 1914, a Revolução Russa, em 1917,</p><p>e a Segunda Guerra Mundial, em 1941, o teatro se adaptou de maneira a comentar,</p><p>diretamente, os acontecimentos. Essa era a razão de o teatro épico, pensado por</p><p>Brecht, ter, como foco principal, a didática no diálogo, para trazer o público para uma</p><p>tomada de posição informada, refletida. O filósofo alemão Walter Benjamin, no texto</p><p>Ensaios sobre Brecht, cita o seguinte:</p><p>44</p><p>O conceito de teatro épico (formulado por Brecht, como teórico da</p><p>prática poética) indica, sobretudo, que esse teatro deseja um público</p><p>relaxado, que acompanha a trama com descontração. Certamente,</p><p>sempre será um coletivo, diferentemente do leitor, que está a sós</p><p>com o texto. Esse púbico, como coletivo, também, sentir-se-á</p><p>chamado a um posicionamento imediato, porém, tal posicionamento,</p><p>imagina Brecht, deve ser refletido, relaxado – resumindo, o de</p><p>pessoas interessadas (BENJAMIN, 2017, p. 23).</p><p>No bojo do teatro épico, o século XX, a partir de uma maneira de lidar com</p><p>os acontecimentos históricos, marcantes da época, também, deu origem ao teatro</p><p>do absurdo, o qual consistia em representações fora de uma ordem lógica, tentando</p><p>demonstrar o absurdo da condição humana. Um expoente exemplar dessa forma teatral</p><p>foi Samuel Beckett:</p><p>A radicalização dos procedimentos estéticos e formais que Beckett</p><p>imprime nas peças implode noções consagradas de ação, de espaço,</p><p>de tempo e de personagem. São procedimentos que exaurem</p><p>escritura cênica e práxis teatral e desmontam possibilidades de</p><p>enquadramentos e significados fechados para o conjunto total</p><p>da criação, ainda que o esforço hermenêutico seja inesgotável.</p><p>Dentre essas tentativas, situa-se o exame de Martin Esslin, que</p><p>analisa a dramaturgia produzida no entre e no após as duas grandes</p><p>guerras mundiais, ao mostrar o homem em frangalhos, pondo em</p><p>xeque a linguagem e a capacidade de comunicação em um mundo</p><p>desprovido de sentidos. É o que ele denomina de Teatro do Absurdo</p><p>(MARFUZ, 2013, p. 7).</p><p>O teatro, no século XX, tomou posse de um falar para o público, ao invés de falar</p><p>com o público, a fim de estabelecer uma conexão direta com as experiências históricas</p><p>que foram se manifestando.</p><p>O termo “Hermeneutica”, de acordo com o Dicionário de Termos</p><p>Literários, de Massaud Moisés, é aquilo que é “relativo à interpretação,</p><p>derivado de hemeneus, intérprete de Hermes, figura mitológica que</p><p>interpretava textos crípticos enviados pelos deuses aos mortais”</p><p>(MOISÉS, 2013, p. 223).</p><p>NOTA</p><p>Além dessas diversas interpretações de gêneros pela Europa, outras regiões</p><p>do mundo estavam desenvolvendo as próprias técnicas dramáticas. Trataremos disso</p><p>a seguir.</p><p>45</p><p>4.2 PARA ALÉM DA EUROPA: O TEATRO NA ÁSIA, NA</p><p>ÁFRICA E NAS AMÉRICAS</p><p>Da mesma forma que a Europa avançava com diferentes interpretações teatrais</p><p>a partir da Idade Média, também, outros países desenvolveram práticas dramáticas</p><p>por volta dessa época. Algumas das diferentes interpretações de ação, propostas por</p><p>outras culturas, chamavam a atenção quando colocadas em perspectiva, sendo que</p><p>as expressões artísticas pareciam se relacionar, intimamente, com o próprio tempo</p><p>histórico, e influenciar a dramaturgia contemporânea.</p><p>• As artes performáticas na China datam de milênios antes de Cristo. A formação,</p><p>desde o princípio, tinha, como característica, a mesclagem da dança e do canto na</p><p>ação dramática. Podemos pensar nisso como a origem do musical, muito popular,</p><p>atualmente, no Ocidente. A diferença principal entre o estilo clássico chinês e o</p><p>ocidental é o pouco uso ou a ausência de cenários. A performance é, completamente,</p><p>dirigida ao público, e o ambiente é criado pela interpretação do ator.</p><p>• O teatro japonês se desenvolveu a partir do século XIV, e contou com quatro formas</p><p>tradicionais. O Teatro No consistia em uma junção de canto, pantomima, música e</p><p>poesia, conectando-se com a forma musical. Apresentado em um palco vazio, era</p><p>interpretado só por homens, com o uso de máscaras, para caracterizar personagens</p><p>femininos ou mitológicos. O fluxo da ação decorreu da coreografia e do canto, e</p><p>não existia uma relação com as unidades aristotélicas. Nasceu como uma forma</p><p>ritualística. Além do Teatro No, o Japão, também, deixou, como legado dramático,</p><p>as formas Kyogen, o Kabuki e o Banraku. O Teatro Kyogen, originado, também, no</p><p>século XIV, era o gênero cômico do teatro japonês, caracterizado pela simplicidade</p><p>da estrutura do palco, com interpretações sem coreografia. Eram apresentados</p><p>temas atuais, como a relação de chefes e de subordinados. O Teatro Kabuki apareceu</p><p>no século XVII, e nos apresentou, como informa a jornalista Maira Rosa, do portal</p><p>Mundo-nipo, um teatro “exuberante, com palco e elenco grandiosos. Os rostos dos</p><p>atores são cobertos por maquiagens elaboradas. As cortinas permitem mudanças</p><p>no cenário, as quais utilizam efeitos especiais, como alçapões, setores que giram e</p><p>cabos elevados para os artistas “voarem”” (ROSA, 2020, s.p.). O gênero mais famoso,</p><p>dentre os desenvolvidos no Japão, seguia a linha do No, a fim de mesclar a poesia</p><p>dramática com a dança e com o canto, mantendo a tradição de não se ater a uma</p><p>unidade de ação. Já o Teatro Banraku tinha a formação composta por marionetes,</p><p>e a história contada por um narrador. Pensando dentro dos conceitos europeus que</p><p>vimos previamente, pode-se pensar que o Banraku apresentava uma linha de Teatro</p><p>Épico na narrativa, considerada a função didática.</p><p>46</p><p>FIGURA 8 – ILUSTRAÇÃO DE UM ATOR DE KABUKI JAPONÊS</p><p>FONTE: <http://twixar.me/NbNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>• Na Índia, as artes performáticas apareceram no século IV, com uma relação intrínseca</p><p>com a dança e a religiosidade. O jornalista Nilo Abreu informa que, “na Índia, encontramos</p><p>uma única palavra para designar dança e teatro, "Natyashastra", o que equivale dizer que,</p><p>para o ator, ou o bailarino indiano, não haveria, a "priori", nenhuma distinção entre essas</p><p>duas linguagens” (ABREU, 2004, s.p.). Dentre as diversas formas performáticas nascidas</p><p>na Índia, três são as principais: o Teatro Koodiyattan, o Teatro Therokothu e o Teatro</p><p>Kathakali. O primeiro servia como forma de comunhão entre as pessoas da comunidade</p><p>e era formado por “uma elaborada mistura de gestos simbólicos e com diálogo e verso</p><p>em sânscrito” (ABREU, 2004, s.p.). Já o Therokothu era uma forma de arte mais popular,</p><p>majoritariamente, apresentada em festivais, sem grandes roupagens cênicas. O que</p><p>o diferenciava, instantaneamente, do Teatro Kathakali, era “o estilo de dança-teatral</p><p>mais popular da Índia, além da mais rica forma” (ABREU, 2004, p. 1). Exclusiva para a</p><p>interpretação masculina, a Kathakali era considerada uma arte nobre e sagrada. Abreu</p><p>nos conta que, na Índia, acreditava-se na sacralidade do palco, “local escolhido, pelos</p><p>deuses, para que se dê a eterna luta entre o bem e o mal” (ABREU, 2014, p. 1). Assim, a</p><p>forma Kathakali era, por isso mesmo,</p><p>repleta de significados religiosos e realizada como</p><p>um ritual. O palco se apresentava simples, e, antes de começar a peça, uma canção</p><p>invocatória era realizada, acompanhada por címbalos e percussão.</p><p>47</p><p>FIGURA 9 – APRESENTAÇÃO DO KATHAKALI INDIANO</p><p>FONTE: <http://twixar.me/cbNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>• No continente africano, a forma teatral surgiu com a colonização, e começou a</p><p>tomar as linhas ocidentais, mas isso não impediu que houvesse o desenvolvimento</p><p>de performances ao longo da história, com a forma de uma tradição ancestral que</p><p>performava as histórias do povo com o auxílio da dança e da oralidade em diversas</p><p>tribos do continente.</p><p>• Da mesma forma, o continente americano, colonizado pelos europeus, não</p><p>desenvolveu, por si só, uma forma teatral que se desprendesse dos desenvolvimentos</p><p>ocidentais. A dramaturgia era muito ligada às diferentes escolas europeias observadas</p><p>anteriormente, por influência de uma burguesia crescente em meados do século XIX,</p><p>que viajava para a Europa e trazia, de lá, remanescentes das produções culturais</p><p>para, então, adaptar à realidade americana.</p><p>5 CORPO E ATRIBUIÇÕES</p><p>Para finalizarmos esta primeira unidade do seu livro didático, debruçar-nos-</p><p>emos, agora, sobre o corpo. Muito comentamos a respeito do fato de que o gênero</p><p>dramático ganha força catártica por colocar em cena corpos humanos, físicos, que</p><p>dão vida à imaginação dramática, fazendo respirar os personagens. Por isso mesmo, o</p><p>corpo, no teatro, tem uma importância tremenda: ele faz o público se relacionar com a</p><p>vivência do texto.</p><p>48</p><p>O teórico Luís Alberto Brandão Santos, no artigo O Corpo no Teatro, argumenta</p><p>que o “teatro se define por uma espécie de atuação desempenhada, por meio da</p><p>presença de corpos em um contexto que visa à produção, à provocação de determinadas</p><p>significações” (SANTOS, 2000, p. 279). O corpo dramático, no entanto, não é apenas</p><p>aquele dos atores, mas de todos os objetos cênicos que criam uma interação física,</p><p>corpórea em cena:</p><p>Certamente, o sentido de corpo não se limita ao de corpo humano,</p><p>apesar de abrangê-lo, já que diferentes tipos de objetos podem</p><p>desempenhar papéis fundamentais no teatro, havendo encenações</p><p>que chegam a dispensar o ator para explorar corporeidades não</p><p>humanas (SANTOS, 2000, p. 279).</p><p>É importante citarmos que o espaço cênico funciona como a invenção de um</p><p>mundo outro, do mundo do “poderia ser”, como pensa Aristóteles, e, nesse mundo, que</p><p>obedece às próprias regras, os corpos interagem entre si. Seja em um palco, nas ruas</p><p>ou em templos religiosos, o corpo dramático vaza e se relaciona com o corpo público,</p><p>com o social. É por essa razão que podemos pensar no teatro como uma “[...] inter-</p><p>relação de corpos. Corpos que interagem no espaço da cena. Corpos que interagem no</p><p>espaço da audiência. Corpos no palco, interagindo com corpos na plateia. Mesmo que</p><p>tais espaços sejam intercambiáveis, há, sempre, um jogo de mútua presencialidade dos</p><p>corpos” (SANTOS, 2000, p. 280).</p><p>Poderíamos, de fato, pensar no gênero dramático como um gênero de criação</p><p>de corpos: na medida em que os corpos dos atores, agindo sobre o texto, movimentam-</p><p>se pelas passagens dramáticas, são expostos, entram em conflito, desenvolvem o</p><p>clímax e concluem a história, uma mensagem sensível passada de palco para público:</p><p>a de alteração do corpo. Não à toa, a ideia de catarse aristotélica, o purgar de emoções,</p><p>inclina-se na direção desse público, desses corpos, os quais devem, então, após o</p><p>contato com a cena, ser alterados.</p><p>O corpo dramático nada mais é que o conjunto de corpos sensíveis que se</p><p>encontram no instante de um espetáculo. Ele é o palco, os objetos de cena, os atores,</p><p>o público e o meio social, e precisa lidar com uma outra relação: com os corpos que</p><p>experienciaram a ação dramática.</p><p>5.1 O QUE É CORPO DRAMÁTICO?</p><p>49</p><p>5.2 COMO O CORPO MUDA EM CENA?</p><p>A pergunta que introduz esta última parte, e que finaliza a Unidade 1 do seu</p><p>livro didático, é uma questão acerca da própria natureza da ação dramática. Como o</p><p>drama altera o corpo? Como a cena pode mudar os corpos? Pensando no que chamou</p><p>de A Partilha do Sensível, o filósofo francês Jacques Rancière propôs que “o estado</p><p>estético é pura suspensão, momento em que a forma é experimentada por si mesma.</p><p>O momento de formação de uma humanidade específica” (RANCIÈRE, 2009, p. 34).</p><p>Não seria, a arte dramática, justamente, o epítome desse estado estético, na</p><p>medida em que coloca em relação a respiração dos corpos, na medida em que faz</p><p>purgarem as emoções, na medida em que propõe uma experiência de um mundo outro,</p><p>um mundo, poderíamos pensar, de uma humanidade específica, para o público?</p><p>Ao longo desta unidade, observamos como a teoria e o gênero dramático</p><p>foram alterando as formas de se fazer o drama, mas algo que permaneceu inalterado</p><p>foi que, invariavelmente, os corpos, que povoam a cena, entram em relação com os</p><p>corpos que a observam, com o intuito de, mesmo que sutilmente, fazer sentir algo,</p><p>como uma metamorfose. O gênero dramático é um gênero de alteração de corpos,</p><p>literal (pensemos nos figurinos e nas práticas corporais que podem ser usados, por cada</p><p>ator, para dar vida ao personagem) e metaforicamente: proporciona uma partícula de</p><p>mudança aos corpos que o acompanham.</p><p>50</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>ENTENDA A IMPORTÂNCIA DO TEATRO NA SOCIEDADE</p><p>A importância do teatro é sentida de diversas formas na vida de uma pessoa,</p><p>de modo que ela passa a ter uma visão mais ampla da sociedade, adquirindo respeito,</p><p>cidadania e um posicionamento mais aberto à diversidade.</p><p>Essa forma de arte colabora muito para o combate ao preconceito e à</p><p>discriminação [...]. Tais problemas estão bem visíveis na sociedade atual, desencadeando</p><p>fatos tristes diariamente, e o teatro pode ajudar a disseminar um pensamento que</p><p>engloba amor e respeito entre as pessoas. Quer saber como?</p><p>Este post traz tudo a respeito do assunto, mostrando como tal manifestação</p><p>artística influencia no desenvolvimento de uma sociedade mais respeitosa e com uma</p><p>grande bagagem cultural. Continue a leitura e confira!</p><p>O teatro e a relevância cultural</p><p>Tido como uma das mais antigas manifestações culturais da humanidade, o</p><p>teatro abre espaço para que os artistas se expressem por meio de interpretações de</p><p>roteiros que trazem, sempre, questões atuais da sociedade. Isso ocorre em forma de</p><p>protesto ou, apenas, como uma maneira diferente de tratar desses assuntos.</p><p>Tal abordagem existe desde os primórdios da arte, e já foi muito perseguida em</p><p>períodos de pouca liberdade de expressão cultural, em diversas nações ao redor do</p><p>mundo. Esse viés caracterizou o teatro como uma atividade intelectual, além de artística.</p><p>Os palcos, sempre, foram locais de debates dos problemas e das dores sofridas</p><p>pelo povo, ainda que, algumas vezes, implicitamente. Devido à romantização dos</p><p>talentosos artistas presentes nas apresentações, é comum haver a necessidade de</p><p>uma interpretação.</p><p>A importância do teatro na luta contra o preconceito</p><p>Por conta da atuação, o teatro foi, ao longo do tempo, tornando-se uma grande</p><p>fonte de cultura para o povo. As representações desenvolvidas, com os cunhos filosófico</p><p>e contestador, estimulavam o pensamento e o senso crítico dos atores, e de quem</p><p>estava assistindo às peças.</p><p>51</p><p>Percebendo essa grande ferramenta de comunicação com a sociedade, cada</p><p>vez mais, os grupos de teatro entenderam que, ali, eles poderiam abordar diversos</p><p>temas importantes, e um dos mais frequentes era o preconceito.</p><p>De certo modo, é muito triste que, ainda, seja necessário algum tipo de</p><p>manifestação cultural que preze pelo enaltecimento do respeito às diversidades étnicas,</p><p>sexuais e de gênero. Tais pontos deveriam ser assimilados e praticados</p><p>pela sociedade</p><p>como um todo.</p><p>Justamente, por conta da lacuna apresentada, o teatro segue relevante</p><p>em relação ao viés militante. Tenta conscientizar as pessoas, fazê-las pensarem nas</p><p>responsabilidades como cidadãs, por meio da interpretação de roteiros que trazem</p><p>essas temáticas, extremamente, necessárias.</p><p>A atuação de grupos teatrais com esse viés</p><p>Cientes do grande peso cultural do teatro, alguns grupos têm desenvolvido</p><p>obras com forte expressividade ao longo dos anos. Elas abrangem as causas que</p><p>visam à desconstrução do pensamento preconceituoso, tão impregnado nas raízes da</p><p>sociedade mundial (e, especialmente, da brasileira).</p><p>Manifesta-se o clamor por respeito e por direitos iguais dentro de obras que</p><p>retratam essas causas, sejam elas com uma abordagem mais atual, humorística, em</p><p>formato de shows, ou, até mesmo, por meio das que têm um viés mais sério, com uma</p><p>contextualização histórica capaz de trazer, ao palco, a origem do problema.</p><p>Cada um desses grupos costuma estar associado a uma causa específica.</p><p>Há uns que defendem e manifestam a arte pela manutenção da cultura negra e pelo</p><p>combate ao racismo; outros, atuam pela causa LGBT. Há, também, os que abordam</p><p>todas as demandas de uma sociedade.</p><p>Historicamente, sempre existiram movimentos que prezassem pela arte não só</p><p>ligada ao entretenimento, e o Brasil não fica atrás. É importante conhecer alguns desses</p><p>grupos que têm papéis importantes na cultura teatral nacional:</p><p>Bando de Teatro Olodum</p><p>Há 20 anos, o grupo baiano leva a apresentação “Cabaré da Raça” aos palcos,</p><p>para tratar de um tema relevante: a discriminação racial. Infelizmente, o preconceito étnico,</p><p>ainda, é um problema na sociedade, por isso, a peça segue pertinente e necessária.</p><p>O texto traz uma série de situações de discriminação vividas pela população</p><p>negra. São questões do cotidiano que, infelizmente, ainda acontecem, sendo mostradas</p><p>diante de toda uma temática musical. O espetáculo passou por algumas atualizações,</p><p>mas o conceito, ainda, é o mesmo, desde 1997.</p><p>52</p><p>Toda Deseo</p><p>Composto por homens de Belo Horizonte/MG, o grupo aborda a temática da</p><p>homossexualidade, e, principalmente, da vida dos travestis, mostrando como esses</p><p>artistas sofrem com o preconceito diante da maneira através da qual se manifestam</p><p>artisticamente. Nenhum dos atores é, de fato, um travesti: a interpretação é uma espécie</p><p>de homenagem.</p><p>O grupo se divide entre diferentes atuações, tendo, como a principal delas, a</p><p>peça “No Soy Un Maricón”. O espetáculo retrata o cotidiano difícil dos travestis e o que</p><p>eles enfrentam em meio a uma sociedade preconceituosa, que não compreende essa</p><p>forma de expressão.</p><p>Teatro Oficina</p><p>Uma das mais antigas e representativas companhias de teatro do Brasil,</p><p>o Oficina teve grande papel na moldagem desse viés intelectual da arte no país. Ele</p><p>apresenta, sempre, as demandas da sociedade, inclusive, a conscientização que</p><p>engloba o problema do preconceito em todos os níveis.</p><p>O teatro e o papel educacional</p><p>O teatro, também, mostra-se como uma importante ferramenta educacional.</p><p>Por meio dele, é possível ajudar o jovem estudante a se desenvolver melhor em uma</p><p>série de aspectos de alta importância, o que abarca os desempenhos social, escolar e</p><p>acadêmico.</p><p>Um desses pontos importantes é a possibilidade que os palcos oferecem de</p><p>melhorar os níveis de expressividade e de criatividades dos jovens, proporcionando um</p><p>verdadeiro salto nesses quesitos. A melhora no modo de falar, no pensamento e na</p><p>maneira de formular ideias é clara e crescente a quem está inserido nesse meio artístico.</p><p>Há um forte apelo em relação ao contato com outras pessoas. A participante</p><p>melhora, significativamente, a relação social, conhecendo novas ideias e fazendo novos</p><p>amigos, o que é fundamental para o desenvolvimento dele.</p><p>A pessoa se desenvolve dentro de instituições que prezam pelo respeito</p><p>à diversidade e que estimulam, intelectualmente, o pensamento, ajudando os membros</p><p>a desenvolverem um senso crítico acerca de tudo o que os cerca no dia a dia.</p><p>A importância do teatro, para a conscientização quanto ao preconceito e</p><p>a todas as demandas da sociedade atual, é enorme, pois cidadãos melhores e com</p><p>pensamentos mais amplos são formados.</p><p>FONTE: <http://blog.wearehuman.com.br/entenda-a-importancia-do-teatro-na-luta-contra-o-preconceito/>.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>53</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A tragédia grega era um gênero que representava seres elevados, lidando com</p><p>questões elevadas, com o intuito de purgar as mais fortes emoções.</p><p>• A comédia grega falava dos seres “feios” e “inferiores”, e abarcava as emoções e os</p><p>tipos humanos mais mundanos.</p><p>• A tragicomédia e a farsa só foram desenvolvidas na Idade Média europeia, mas se</p><p>relacionavam, intimamente, com a tragédia e a comédia gregas, na medida em que</p><p>propunham alterar as mobilizações de afeto que estas envolviam.</p><p>• Os diferentes gêneros teatrais foram criados na medida em que, socialmente,</p><p>clamava-se por uma maneira distinta de mobilizar as ações dramáticas.</p><p>• O teatro medieval tinha, como principais características, a devoção religiosa e o apelo</p><p>à moral cristã da época.</p><p>• Durante o período do Renascimento, um grande número de diferentes interpretações</p><p>do gênero dramático povoou o imaginário europeu. Cada país propunha as próprias</p><p>formas de ler e de alterar os conceitos dramáticos.</p><p>• No século XIX, com o Romantismo, o drama europeu passou por uma alteração que</p><p>negava o cânone dramatúrgico e lançava novas formas de intepretação.</p><p>• As formas dramáticas do século XX surgiram, em parte, pelos conflitos sociais</p><p>intensos da época, como uma forma de dar vazão às interpretações gerais desses</p><p>acontecimentos.</p><p>• A China tem uma tradição dramática de mais de 3000 anos. Confunde texto, canto</p><p>e dança.</p><p>• Durante a Idade Média, no Japão, várias distintas formas de interpretação dramática</p><p>estavam se desenvolvendo.</p><p>• Na Índia, a dramaturgia desenvolvida tem fortes laços com a moral e com a religiosidade.</p><p>• O gênero dramático é o de alteração de corpos.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>54</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 Apesar de não ter sido um gênero único de texto na época clássica, a Tragédia,</p><p>principalmente, por ter tido parte, com sua análise, como única sobrevivente do texto</p><p>Poética, de Aristóteles, tem força majoritária no pensamento sobre a dramaturgia da</p><p>Grécia antiga. Assim, com relação à tragédia grega, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Os personagens eram pessoas comuns.</p><p>b) ( ) Era narrada.</p><p>c) ( ) Tinha, como principais emoções catárticas, a alegria e o terror.</p><p>d) ( ) Os personagens eram pessoas elevadas em um profundo conflito humano.</p><p>2 As artes performáticas, desenvolvidas na Grécia antiga, chegam até nós,</p><p>contemporaneamente, como aurora do gênero poético dramático Com base nas</p><p>informações contidas no Tópico 3, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- A Grécia foi a primeira civilização a ter artes performáticas.</p><p>II- A Grécia foi a primeira civilização a sistematizar conceitos para pensar nas artes</p><p>performáticas.</p><p>III- Aristóteles escreve, em Poética, a respeito da tragicomédia e da farsa.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>d) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>3 Após um período sem grandes relatos históricos sobre o desenvolvimento da arte</p><p>dramática, ela aparece, novamente, e reconfigurada, durante o período medieval.</p><p>Acerca desse teatro medieval, assinale V para as sentenças verdadeiras e F para as</p><p>sentenças falsas:</p><p>( ) Começou no século X d.C.</p><p>( ) A imensa maioria dos espetáculos tinha, como tema, a religiosidade cristã.</p><p>( ) Propunha leituras críticas da</p><p>sociedade medieval.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – F – F.</p><p>b) ( ) V – F – V.</p><p>c) ( ) F – V – F.</p><p>d) ( ) F – F – V.</p><p>55</p><p>4 Apesar dos estudos sobre a dramaturgia focarem, primordialmente, no drama europeu</p><p>e no desenvolvimento dele, outros continentes, também, contribuíram, de maneira</p><p>contundente, para a diversidade de potências contidas nas artes performáticas. Com</p><p>base no estudo do tópico anterior, explique os diferentes gêneros teatrais do Japão e</p><p>a diferença em comparação às interpretações europeias.</p><p>5 No início do século XX, a Europa foi palco de intensos acontecimentos históricos, assim,</p><p>comente a respeito de como esses acontecimentos influenciaram nas interpretações</p><p>do gênero dramático.</p><p>56</p><p>57</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ABREU, N. O teatro oriental indiano. 2004. Disponível em: http://tempoperpetuo.</p><p>blogspot.com/2014/02/o-teatro-oriental-indiano.html. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>ARISTÓFANES. A greve do sexo: Lisístrata. Tradução: Millôr Fernandes. Porto Alegre:</p><p>L&PM, 2003.</p><p>ARISTÓTELES. Poética. Tradução: Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2015.</p><p>BENJAMIN, W. Ensaios sobre Brecht. Tradução: Claudia Abeling. São Paulo:</p><p>Boitempo, 2017.</p><p>MARFUZ, L. Beckett e a implosão da cena. São Paulo: Perspectiva; Salvador:</p><p>PPGAC/UFBA, 2013.</p><p>MOISÉS, M. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 2013.</p><p>PALLOTTINI, R. Dramaturgia: a construção da personagem. São Paulo: Perspectiva, 2015.</p><p>PALLOTTINI, R. Introdução à dramaturgia. São Paulo: Editora Ática, 1988.</p><p>RAMOS, L. F. A rubrica como literatura da teatralidade: modelos textuais &</p><p>poéticas da cena. São Paulo: USP, 2001. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/</p><p>salapreta/article/view/57001/59998. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>RANCIÈRE, J. A partilha do sensível. Tradução: Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO</p><p>Experimental, 2009.</p><p>ROSA, M. Os quatro estilos do teatro tradicional do Japão. 2020. Disponível em:</p><p>https://mundo-nipo.com/cultura-japonesa/artes/07/10/2015/a-arte-do-teatro-</p><p>tradicional-japones-no-kyogen-kabuki-e-bunraku/#:~:text=Atualmente%2C%20</p><p>existem%20quatro%20tipos%20de,%2C%20Kyogen%2C%20Kabuki%20e%20Bunraku.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>SAER, J. J. O conceito de ficção. Revista FronteiraZ, São Paulo, v. 1, n. 8, p. 1, 2012.</p><p>SANTOS, L. A. B. O corpo no teatro. 2000. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/</p><p>poslit. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>SÓFOCLES. Trilogia tebana. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.</p><p>WISE, J. Dionysus writes: the invention of theatre in Ancient Greece. New York:</p><p>Cornell University Press, 1998.</p><p>58</p><p>59</p><p>ASPECTOS HISTÓRICOS DA</p><p>DRAMATURGIA</p><p>UNIDADE 2 —</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• elaborar os conhecimentos a partir do estudo da história canônica da dramaturgia</p><p>como gênero literário;</p><p>• compreender o desenvolvimento histórico do gênero dramático;</p><p>• desenvolver as diferenciações entre as diversas formas dramáticas presentes na</p><p>história;</p><p>• identificar os paralelos entre a história e a representação.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará</p><p>autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – DRAMA CLÁSSICO</p><p>TÓPICO 2 – DRAMA NA IDADE MÉDIA: TEATRO EM SUSPENSÃO</p><p>TÓPICO 3 – APRESENTANDO A CENA MODERNA</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure</p><p>um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>60</p><p>CONFIRA</p><p>A TRILHA DA</p><p>UNIDADE 2!</p><p>Acesse o</p><p>QR Code abaixo:</p><p>61</p><p>TÓPICO 1 —</p><p>DRAMA CLÁSSICO</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Acadêmico, no Tópico 1, abordaremos o princípio histórico do gênero</p><p>dramático como forma literária a partir do século V a.C., passando, brevemente, pelas</p><p>interpretações possíveis do aparecimento de formas de um fazer teatral que prefigurem</p><p>a sistematização empreendida pelos gregos para a mobilização da arte performática.</p><p>Estudaremos, juntos, a possibilidade de um nascimento do gênero dramático</p><p>antes que ele pudesse, assim, ser chamado, e conheceremos a forma através da qual ele</p><p>se definiu na Grécia antiga. Além disso, abarcaremos as apropriações e o desenvolvimento</p><p>empreendidos pelos romanos durante a histórica conquista do território grego, o</p><p>que levou em conta uma imensa assimilação cultural e uma subsequente adoção de</p><p>costumes helênicos.</p><p>A partir desses três breves movimentos, faremos um apanhado que se estenderá</p><p>até o fim do seu livro didático, o que inclui as formas através das quais o desenvolvimento</p><p>histórico do gênero dramático, como uma modalidade artística, cruzara-se com os</p><p>acontecimentos marcantes da história.</p><p>2 ANTES DOS GREGOS</p><p>O teórico do teatro Cesare Molinari (2010), na obra História do teatro, lembra-</p><p>nos de que a formação espetacular representacional, o teatro, pode ser observada em</p><p>diversas culturas e em tempos que diferem do marco histórico das representações de</p><p>textos escritos empreendidas pelos gregos, a partir do século V a.C.</p><p>Ao falar do espetáculo na tribo Pigmeus Bambuti, do vale do Alto Ituri, Molinari</p><p>(2010) identifica que, lá, o drama funciona como uma espécie de exercício de comunhão</p><p>dos povos com o meio, com a história e com os acontecimentos que afetam o coletivo.</p><p>Ele nos diz, no capítulo O Teatro dos Primitivos, que,</p><p>na maioria das vezes, a atividade teatral se associa não a uma</p><p>periodicidade fixa, mas aos eventos da vida coletiva. Assim, o</p><p>nascimento e a morte, que nos parecem factos, puramente,</p><p>individuais, para muitos povos, são acontecimentos que interessam</p><p>a todo o grupo social, e dão, por isso, lugar a manifestações coletivas,</p><p>muitas das quais com carácter espetacular: combatem em uma</p><p>batalha simulada na qual os dois grupos opostos se acusam,</p><p>reciprocamente, de ter causado, direta ou indiretamente, a morte do</p><p>62</p><p>desaparecido – assunção de responsabilidade da coletividade em</p><p>relação ao indivíduo, cujo significado moral vai além do desejo de</p><p>purificação (MOLINARI, 2010, p. 20-21).</p><p>Acrescenta que,</p><p>de resto, para muitos povos, o teatro é um instrumento muito válido</p><p>para ligar e estreitar, em uma única rede de conexões, os diferentes</p><p>momentos da vida, para abolir a nítida distinção entre passado,</p><p>presente e futuro, em nome de uma experiência global que envolve,</p><p>além da experiência individual, a história e o próprio destino do grupo</p><p>ao qual os indivíduos pertencem (MOLINARI, 2010, p. 21).</p><p>Podemos pensar, assim, que a prática mimética, apesar de não, ainda, ter sido</p><p>sistematizada, influía, de maneira fundamental, em diversas relações e grupos sociais,</p><p>mesmo antes da estruturação escrita empreendida pelos gregos. Também, é possível</p><p>compreender que as funções dessa mimese, a de construir uma coletividade que unisse</p><p>os corpos sociais, e de contar uma história que apelasse, fortemente, para a moral da</p><p>época, não diferem muito da que é apresentada no teatro grego.</p><p>Para termos certeza, vamos nos debruçar sobre a história desse teatro a seguir.</p><p>3 GÊNEROS NA HISTÓRIA GREGA</p><p>Um marco fundamental dos estudos dramatúrgicos é o livro Poética, do filósofo</p><p>grego Aristóteles, como vimos anteriormente, na Unidade 1 do seu livro didático.</p><p>Entender como essa obra funciona como uma chave de leitura para o período grego da</p><p>dramaturgia é essencial para que consigamos identificar como a história desse gênero</p><p>literário aconteceu e acontece. Aqui, devemos pensar um pouco em como o teatro</p><p>grego se construiu, retornar para um momento das origens, e nos debruçarmos sobre</p><p>os efeitos.</p><p>O teatro grego, como conhecemos hoje, teve origem em Atenas, em meados</p><p>do século V a.C. A principal interpretação era a da tragédia grega, mas, também,</p><p>existiam interpretações de algumas comédias. O drama, como prática, remonta a rituais</p><p>dionisíacos de interação entre o</p><p>humano e o divino, e com aquilo que estava no caminho,</p><p>entre os dois. Aristóteles define a tragédia como</p><p>[...] a mimese de uma ação de caráter elevado, completa e de certa</p><p>extensão, em linguagem ornamentada, com cada uma das espécies</p><p>de ornamento, distintamente, distribuída em partes; mimese que</p><p>se efetua por meio de ações dramatizadas, e não por meio de uma</p><p>narração, e que, em função da compaixão e do pavor, realiza a catarse</p><p>de tais emoções (ARISTÓTELES, 2015, p. 71-73).</p><p>A comédia, por sua vez, como</p><p>63</p><p>[...] a mimese de homens inferiores; não, todavia, de toda espécie de</p><p>vício: o cômico é, apenas, uma parte do feio. Poder-se-ia dizer que o</p><p>cômico é um determinado erro e uma vergonha que não causam dor</p><p>e destruição; como bem exemplifica a máscara cômica: ela é feia e</p><p>disforme, sem expressar dor (ARISTÓTELES, 2015, p. 67).</p><p>Em ambas as definições de Aristóteles, sobrevivem os traços dessa função,</p><p>quase ritual, da arte dramática, na medida em que a interpretação, seja de personagens</p><p>elevados ou de personagens inferiores, funciona como um tipo de conexão corpórea,</p><p>através do personagem e da comunicação ética com o público.</p><p>A força que o gênero dramático ganhou, historicamente, no período que se</p><p>estendia dos séculos VI ao V a.C., deveu-se, primordialmente, a dois fatores: o texto</p><p>escrito, o que permitiu a interpretação e a reinterpretação dramáticas; e a relação de</p><p>fluidez dialética com o público.</p><p>Acadêmico, para um aprofundamento conceitual da relação da cena</p><p>com o público, retorne à Unidade 1 do seu livro didático.</p><p>DICA</p><p>Cesare Molinari nos conta a disposição cênica dos espetáculos trágicos da</p><p>Grécia antiga:</p><p>[...] A tragédia clássica era constituída pelo diálogo dos dois ou</p><p>dos três atores (iam representando vários personagens, mudando</p><p>de máscaras e de trajes) entre eles, e com um coro composto por</p><p>quinze pessoas, em nome dos quais falava o corifeu. Esses diálogos</p><p>constituíam os episódios, os quais, hoje, diríamos actos, da tragédia,</p><p>intercalados por intervalos líricos cantados por todo o coro, chamados</p><p>de stasimi (estásimos), com exceção de um determinado canto, para</p><p>o qual o coro fazia a entrada, o que se chamava de parodos. Durante</p><p>os estásimos, nenhum ator estava presente no teatro, mas, no</p><p>momento de maior tensão dramática, um ou mais atores, também,</p><p>poderiam se envolver no canto e, talvez, até na dança do coro: era o</p><p>kommos (MOLINARI, 2010, p. 44).</p><p>O ator tomava o lugar de um tipo de conector moral, um corpo que servia como</p><p>exemplo conectivo entre a ficção (texto poético dramático) e a realidade (público). Do</p><p>lado da tragédia, para comentar e inculcar, nos espectadores, as grandes questões</p><p>éticas da sociedade, e, do lado da comédia, para comentar a respeito dos costumes em</p><p>pauta no presente da escrita e da encenação dramática.</p><p>Molinari cita a comédia e o desenvolvimento dela, esta que empreendia, no</p><p>coro, uma característica de “fantástica duplicidade” humana e ferina. Essa peculiaridade</p><p>escorria para as personagens, as quais, por sua vez,</p><p>64</p><p>[...] actuavam em um plano mais, nitidamente, caricatural do que o</p><p>texto deixava prever, exprimindo-se com uma mímica intensa e muito</p><p>viva, embora, não necessariamente, excessiva, ou, verdadeiramente,</p><p>grotesca. Ainda, sugeria-se, mais do que a máscara, o traje</p><p>das personagens, que tinham o ventre e o rabo acolchoados e</p><p>avolumados, trazendo, muitas vezes, um mastodôntico falo entre</p><p>as pernas. Todavia, o grotesco só atingia, violentamente, aquelas</p><p>que podemos definir como personagens negativas, ou seja, as que</p><p>eram alvo das polêmicas políticas e culturais do autor. Ao passo</p><p>que, por outro lado, a gesticulação e o movimento dos actores</p><p>cómicos dava, também, muito espaço aos gostos de apreender e</p><p>de representar, com a mais forte intensidade possível, a pequena</p><p>humanidade nos comportamentos mais verdadeiros, mais</p><p>espontâneos e característicos, mas sem intenção alguma de fazer</p><p>uma representação realista (MOLINARI, 2010, p. 57-58).</p><p>A função cômica, portanto, era a de um exagero representacional que dava a</p><p>entender, de maneira, relativamente, leve, as críticas políticas e culturais dos autores.</p><p>Representando, como comenta Aristóteles, personagens inferiores, as comédias tinham a</p><p>liberdade e a potência de falar com o público, diretamente, a respeito de assuntos um</p><p>tanto desconfortáveis daquele tempo.</p><p>A seguir, vejamos alguns exemplos dos diferentes tons propostos por esses</p><p>distintos modos de cena dramática. Na tragédia do dramaturgo Eurípedes, Medeia, os</p><p>deuses assumem um lugar fundamental na trama, incluindo as emoções mais fortes,</p><p>o ódio e o amor, focos essenciais das discussões propostas. Ainda, a vida e a morte são</p><p>presenças constantes no desenrolar da trama.</p><p>(Entra Jasão.)</p><p>Jasão</p><p>Ao teu chamamento venho. Apesar da tua hostilidade, não deixarás</p><p>certamente de ser servida. Mas quero ouvir o que pretendes de novo</p><p>da minha parte, ó mulher.</p><p>Medeia</p><p>Rogo-te, Jasão, que perdoes as minhas palavras. É natural que</p><p>suportes as minhas iras, dadas as muitas provas de amor que</p><p>trocamos. Eu entrei em discussão comigo mesma, a mim me censurei.</p><p>Miserável, que insânia é esta, e que hostilidade para com quem me</p><p>quer bem? E estou, como uma inimiga, contra os soberanos do país</p><p>e contra o marido, que fez o que havia de mais conveniente para nós,</p><p>desposando uma rainha e gerando irmãos para meus filhos? não hei</p><p>de eu libertar-me desta ira? Que me pode acontecer se os deuses</p><p>dão providências desta maneira? não tenho eu os filhos e não sei que</p><p>temos que abandonar esta terra e que são escassos os amigos? Nisto</p><p>refletindo, compreendi que fora estulta e em vão me enfurecera. Agora</p><p>eu louvo-te e pareces-me sensato em nos arranjar este parentesco,</p><p>e eu insensata, eu que devia tomar parte nestas decisões e ajudar a</p><p>levá-las a bom termo, e estar ao lado do teu tálamo e regozijar-me</p><p>por prestar à noiva e a ti os meus cuidados. Mas nós somos, não direis</p><p>más, mas mulheres; mas não deves igualar-te na maldade, nem a</p><p>uma loucura responder com outra. Pedimos-te este favor e admitimos</p><p>que erramos há pouco, mas agora pensávamos melhor.</p><p>65</p><p>(Medeia vai à porta da casa chamar os filhos.)</p><p>Ó filhos, filhos, vinde cá, deixai a nossa casa. (Os filhos entram.) Saí,</p><p>vinde beijar o vosso pai e dizer-lhe adeus comigo e, ao mesmo tempo,</p><p>abandonai a antiga aversão contra os inimigos, tal como a vossa mãe.</p><p>Porque tréguas já fizemos e a ira aplacamos. Tomai-lhe a mão direita.</p><p>Ai de mim, como eu penso nos males dissimulados! Ó filhos meus,</p><p>ainda por muito tempo podereis assim estender os braços caros?</p><p>Desgraçada de mim, como estou propensa às lágrimas e a cheia de</p><p>temor! Agora, enfim, que erradiquei a inimizade ao pai, esta cena de</p><p>ternura encheu-me os olhos de lágrimas.</p><p>Coro</p><p>Também a mim aos olhos vem um pranto vivo. Oxalá o mal não</p><p>avance mais do que agora.</p><p>Jasão</p><p>Isso louvo, ó mulher, e aquilo não censuro. Porque é natural que o</p><p>sexo feminino se enfureça contra os maridos, quando eles contraem</p><p>núpcias estranhas. Mas o teu ânimo mudou para melhor e, embora</p><p>só com o tempo, reconheceste a decisão que prevaleceu. Esse</p><p>procedimento é de uma mulher sensata. Para vós, ó filhos, conseguiu</p><p>vosso pai, não sem cuidados e com o auxílio dos deuses, perfeita</p><p>segurança. Penso, na verdade, que haveis de ser ainda, com vossos</p><p>irmãos, os primeiros nesta terra de Corinto. Crescei, que o resto vos</p><p>arranjará vosso pai e quem dos deuses vos for propício. Possa eu</p><p>ver-vos chegar florescentes ao termo da juventude, superiores aos</p><p>meus inimigos!</p><p>Mas tu, porque de lágrimas abundantes banhas teus olhos, volvendo</p><p>para o lado o branco rosto, e sem prazer recebes as minhas palavras?</p><p>Medeia</p><p>Não é nada. Pensava nestas</p><p>crianças.</p><p>Jasão</p><p>Está descansada. Eu velarei por elas.</p><p>Medeia</p><p>Assim farei. Nem eu desconfiarei da tua palavra. Frágil é a mulher e</p><p>nascida para as lágrimas.</p><p>Jasão</p><p>Mas por que tanto gemes por estes filhos?</p><p>Medeia</p><p>Eu lhes dei o ser. E, quando tu fazias votos para que os pequenos</p><p>vivessem, invadiu-me um sentimento de piedade, se assim viria a</p><p>acontecer...</p><p>Quanto aos motivos que te trouxeram a falar comigo, uns já foram</p><p>ditos, dos outros vou fazer menção. Já que aos soberanos parece</p><p>conveniente mandar-me embora do país e que é melhor para mim –</p><p>reconheço-o bem – que eu não habite demasiado perto de ti e dos</p><p>senhores desta terra, pois que me consideram maléfica para a casa</p><p>deles, nós nos retiraremos destes lugares; mas as crianças, pede a</p><p>Creonte que sejam educadas por tuas mãos e que não sejam daqui</p><p>exiladas.</p><p>66</p><p>Jasão</p><p>Não sei se o convencerei; é preciso tentar.</p><p>Medeia</p><p>Mas, ao menos, manda a tua esposa pedir ao pai que as crianças não</p><p>saiam do país.</p><p>Jasão</p><p>Sim, imagino que, a ela, sempre a poderei convencer.</p><p>Medeia</p><p>Com certeza, se ela é uma mulher como as outras. Mas também</p><p>nessa diligência eu te ajudarei. Vou-lhe mandar uns presentes, que</p><p>em beleza excederão em muito o que se usa, creio eu82, e que serão</p><p>levados pelas crianças.</p><p>(Chamando para dentro de casa.)</p><p>É preciso que um dos criados traga aqui o adereço a toda a pressa83.</p><p>E ela será feliz não uma, mas mil vezes, por lhe ter cabido em sorte</p><p>por companheiro um homem excelente, como tu, e por possuir</p><p>um adereço que outrora o pai do meu pai, o Sol, deu aos seus</p><p>descendentes.</p><p>(Um servo traz o adereço e retira-se.)</p><p>Tomai estes dons nupciais em vossas mãos, ó filhos, levai-os para os</p><p>dardes à feliz noiva real, que não receberá dádiva desprezível.</p><p>Jasão</p><p>Insensata! Para que deixas tuas mãos vazias desses bens? Julgas</p><p>que o palácio real é escasso em peplos, escasso em ouro? Guarda</p><p>essas coisas; não as dês. Se, na verdade, alguma consideração tem</p><p>por nós a esposa, colocar-nos-á acima dos dons, eu bem o sei.</p><p>Medeia</p><p>Não me digas isso. Há um provérbio que diz que os presentes até aos</p><p>deuses convencem. O ouro é para os mortais mais potente do que</p><p>mil argumentos. Dela é o gênio protetor, é ela que o deus dá agora</p><p>a prosperidade, é jovem e é soberana. E o exílio dos meus filhos, por</p><p>ele eu dava a vida, que não ouro apenas. Ó filhos, entrai os dois no</p><p>rico palácio e suplicai à nova esposa de vosso pai, e minha senhora,</p><p>implorai-lhe que não vos expulse desta terra, e dai-lhe o adereço,</p><p>porque o mais necessário é que estes dons sejam recebidos pelas</p><p>próprias mãos dela. Ide o mais depressa que puderdes. Sede bem</p><p>recebidos, para serdes para a vossa mãe os arautos da boa nova, que</p><p>ela anseia por que aconteça.</p><p>(Saem Jasão e os filhos.)</p><p>4.º Estásimo</p><p>Estrofe</p><p>Coro</p><p>não mais tenho, não mais</p><p>esperança que vivam</p><p>as crianças: para a morte</p><p>já caminham.</p><p>67</p><p>Dos adereços de ouro</p><p>a noiva mal o recebe.</p><p>Oh! Recebe!</p><p>E na loira cabeça</p><p>com as próprias mãos</p><p>o enfeite mortal colocará.</p><p>Antístrofe</p><p>A beleza esplendente</p><p>e a graça divina</p><p>lhe farão por o peplos</p><p>e a coroa</p><p>dourada; sob a terra</p><p>em breve noivará.</p><p>Desgraçada,</p><p>tal a rede fatal,</p><p>onde ela há de cair.</p><p>E não pode fugir a tal desgraça.</p><p>Estrofe</p><p>E tu, ó desgraçado, mal casado,</p><p>genro do soberano, sem saberes,</p><p>morte funesta, horrível,</p><p>aos filhos, à mulher, a ti preparas.</p><p>Ilusão, infeliz, é teu destino.</p><p>Antístrofe</p><p>Contigo gemo ainda a tua dor,</p><p>mãe desgraçada de filhos, que matas,</p><p>por causa de um noivado,</p><p>que celebra teu marido, vivendo</p><p>com uma companheira, contra a lei.</p><p>Êxodo</p><p>(Entra o Pedagogo com as crianças)</p><p>Pedagogo</p><p>Senhora, teus filhos escaparam ao exílio e a noiva real com prazer</p><p>recebeu os presentes em suas mãos; daquele lado haverá paz para</p><p>as crianças. Mas então? Como estás perturbada, quando tudo corre</p><p>bem?</p><p>Medeia</p><p>Ai! Ai!</p><p>Pedagogo</p><p>Os lamentos não estão de acordo com tão boas notícias.</p><p>Medeia</p><p>Ai! Ai! Digo eu ainda.</p><p>Pedagogo</p><p>Acaso anunciei uma desgraça sem saber, e me enganei, julgando</p><p>trazer boas novas?</p><p>68</p><p>Medeia</p><p>O dito está dito; não te censuro.</p><p>Pedagogo</p><p>Fortes razões eu tenho, ó ancião; porquanto os deuses e eu pensamos</p><p>mal; quando planejei este ato.</p><p>Pedagogo</p><p>Tem confiança; ainda um dia hás de partir para junto de teus filhos.</p><p>Medeia</p><p>Antes disso, outros farei partir85, coitada de mim!</p><p>Pedagogo</p><p>Não és só tu que te separas dos filhos. E quem é mortal tem de</p><p>suportar melhor a desgraça.</p><p>Medeia</p><p>Assim farei. Mas tu vai dentro de casa e prepara aquilo de que as</p><p>crianças necessitam todos os dias.</p><p>(O Pedagogo retira-se)</p><p>Ó filhos, filhos, vós tendes país e tendes morada, na qual, depois</p><p>de terdes abandonado esta desgraçada, habitareis, para sempre</p><p>privados da vossa mãe. Eu tenho de partir para o exílio, para outra</p><p>terra, antes de ter gozado a vossa companhia e de vos ter visto</p><p>felizes, antes de ter adornado o leito, e a noiva, e o tálamo, e de ter</p><p>pegado nos fachos nupciais.</p><p>Oh! Desventurada que eu sou, por ser tão indomável! Não era para</p><p>isto que eu vos tinha criado, ó filhos, não foi para isto que eu sofri</p><p>trabalhos e passei torturas, suportando as dores agudas de dar à luz.</p><p>Coitada de mim, que em tempos tive tanta esperança em vós, que</p><p>havíeis de amparar-me na velhice, e que, depois de morta, me havíeis</p><p>de arranjar por vossas mãos, piedosamente, causando inveja aos</p><p>homens; e agora se foi o doce pensamento. Porque, privada de vós,</p><p>eu levarei uma vida amarga, e para mim dolorosa. E vós nem sequer</p><p>ao menos vereis a vossa mãe com esses queridos olhos, porque</p><p>tereis passado a outro gênero de vida.</p><p>Ai! Ai! Porque fitais em mim os olhos, ó filhos? Por que sorrides pela</p><p>última vez? Ai! Ai! Que hei de eu fazer? O ânimo fugiu-me, mulheres,</p><p>desde que vi o olhar límpido dos meus filhos. não, eu não seria capaz.</p><p>Deixá-las ir, as minhas decisões anteriores. Levarei desta terra os</p><p>filhos, que são meus. Para que hei de eu, para afligir o pai deles com</p><p>a sua desgraça, infligir a mim duas vezes os mesmos males? Não, eu</p><p>não, por certo. Deixá-las ir, as minhas decisões.</p><p>Contudo, que se passa em mim? Quero provocar o escárnio dos meus</p><p>inimigos, deixando-os de castigo? Tenho de me atrever. Ah! Mas que</p><p>vileza a minha, ter sequer admitido pensamentos de brandura no</p><p>meu espírito! Ide, ó filhos, para casa. A quem não agradar assistir aos</p><p>meus sacrifícios, é consigo. O meu braço não estará enfraquecido.</p><p>Ai! Ai!</p><p>Mas não, meu coração, tu, ao menos, não farás isso. Deixa-os, ó</p><p>desgraçada, poupa as crianças. Vivendo lá conosco, eles serão a tua</p><p>alegria.</p><p>69</p><p>Juro pelos gênios da vingança, que estão no Hades, nunca acontecerá</p><p>que eu entregue os meus filhos aos inimigos para lhes sofrerem as</p><p>insolências. É assim, absolutamente, e não há que fugir-lhe. E é certo</p><p>que com a coroa na cabeça, envolta no peplos, a noiva perecerá, eu</p><p>bem o sei. Mas eu sigo pelo caminho mais desgraçado, e a estes vou</p><p>mandá-los por um ainda pior! Quero dizer adeus aos meus filhos.</p><p>Deixai-me, ó filhos, deixai à vossa mãe apertar a vossa mão direita.</p><p>Ó mão tão querida, ó boca mais cara de todas, e figura e rosto nobre</p><p>dos meus filhos, gozai de felicidade, mas lá; que a daqui vosso pai vo-la</p><p>tirou. Ó doce abraço, ó terno corpo e sopro suavíssimo dos meus filhos!</p><p>Ide, ide.</p><p>(Os filhos se retiram)</p><p>Já não estou em estado de olhar mais para nós, que sou dominada</p><p>pelo mal. E compreendo bem o crime que vou perpetrar, mas, mais</p><p>potente do que a minha vontade, é a paixão, que é a causa dos</p><p>maiores males para os mortais.</p><p>Coro</p><p>Muitas vezes já,</p><p>tenho usado de razões mais sutis</p><p>e entrado em disputas mais altas</p><p>do que é dado ao sexo das mulheres.</p><p>Mas também para nós há uma Musa,</p><p>conosco anda para nos ensinar.</p><p>Mas não com todas. Talvez entre muitas,</p><p>poder-se-á alguma encontrar,</p><p>não estranha às Musas.</p><p>Dentre os mortais, quem filhos nunca teve</p><p>nem experimentou,</p><p>E EFEITOS ALÉM DO PALCO ..........................................................23</p><p>4 EFEITOS E AFETOS NA AÇÃO DRAMÁTICA: OS DESDOBRAMENTOS</p><p>DA CATARSE .............................................................................................................24</p><p>4.1 CATARSE GREGA ........................................................................................................................ 24</p><p>4.2 EXPLORANDO HISTÓRIAS: O PODER DA IMAGINAÇÃO TEATRAL ................................. 26</p><p>4.3 PARA ALÉM DA CATARSE: INVOCANDO AFETOS POLÍTICOS .........................................27</p><p>5 GÊNERO DRAMÁTICO NO MEIO SOCIAL ..................................................................28</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2 .................................................................................................30</p><p>AUTOATIVIDADE .......................................................................................................... 31</p><p>TÓPICO 3 — GÊNEROS, TIPOS E INTERPRETAÇÕES ..................................................33</p><p>1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................33</p><p>2 TRAGÉDIA, COMÉDIA E PRINCÍPIOS .......................................................................33</p><p>2.1 TRAGÉDIA ................................................................................................................................... 34</p><p>2.2 COMÉDIA ......................................................................................................................................37</p><p>2.3 TRAGICOMÉDIA E FARSA ........................................................................................................ 39</p><p>3 COMO SE DESENVOLVEM AS INTERPRETAÇÕES DE GÊNERO ..............................39</p><p>3.1 GÊNEROS REFLETEM O CONTEXTO .................................................................................... 39</p><p>4 CENA COMO ESPELHO DO MUNDO ......................................................................... 40</p><p>4.1 DIFERENTES GÊNEROS NA HISTÓRIA EUROPEIA ............................................................. 40</p><p>4.2 PARA ALÉM DA EUROPA: O TEATRO NA ÁSIA, NA ÁFRICA E NAS AMÉRICAS........... 45</p><p>5 CORPO E ATRIBUIÇÕES ............................................................................................ 47</p><p>5.1 O QUE É CORPO DRAMÁTICO? ............................................................................................... 48</p><p>5.2 COMO O CORPO MUDA EM CENA? ....................................................................................... 49</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR .........................................................................................50</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 .................................................................................................53</p><p>AUTOATIVIDADE ..........................................................................................................54</p><p>REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 57</p><p>UNIDADE 2 — ASPECTOS HISTÓRICOS DA DRAMATURGIA ......................................59</p><p>TÓPICO 1 — DRAMA CLÁSSICO ................................................................................... 61</p><p>1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 61</p><p>2 ANTES DOS GREGOS ................................................................................................ 61</p><p>3 GÊNEROS NA HISTÓRIA GREGA ...............................................................................62</p><p>4 TEATRO ROMANO .................................................................................................... 80</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 .................................................................................................82</p><p>AUTOATIVIDADE ..........................................................................................................83</p><p>TÓPICO 2 — DRAMA NA IDADE MÉDIA: TEATRO EM SUSPENSÃO ............................85</p><p>1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................85</p><p>2 FINS DO DRAMA: PERÍODO DE CLANDESTINIDADE DA POESIA DRAMÁTICA .....85</p><p>3 TEATRO MEDIEVAL: A CENA UTILITÁRIA ................................................................88</p><p>3.1 A QUE (M) SERVE O TEATRO? ................................................................................................. 88</p><p>4 SAGRADO VS PROFANO ...........................................................................................89</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2 .................................................................................................90</p><p>AUTOATIVIDADE .......................................................................................................... 91</p><p>TÓPICO 3 — APRESENTANDO A CENA MODERNA ......................................................93</p><p>1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................93</p><p>2 IDADE MODERNA E REFORMULAÇÃO DA AÇÃO .....................................................93</p><p>2.1 MODERNIDADE E CONTEXTO ................................................................................................. 95</p><p>2.2 TEATRO COMO MEIO DE ASSIMILAÇÃO DA MODERNIDADE .......................................... 96</p><p>3 EBULIÇÃO CULTURAL EUROPEIA E INTERPRETAÇÕES ........................................96</p><p>3.1 COMMEDIA DELL’ARTE .............................................................................................................97</p><p>3.2 TEATRO ELISABETANO ............................................................................................................ 98</p><p>3.3 SÉCULO DE OURO E BARROCO ESPANHOL ..................................................................... 101</p><p>3.4 NASCIMENTO DA ÓPERA ......................................................................................................102</p><p>3.5 RESGATE FRANCÊS ................................................................................................................103</p><p>3.6 ALEMANHA E EFEITOS ........................................................................................................103</p><p>4 EFEITOS POSTERIORES ........................................................................................104</p><p>4.1 MUDANÇA NA PERSPECTIVA DA AÇÃO DRAMÁTICA ......................................................105</p><p>4.2 HERÓI MODERNO .....................................................................................................................105</p><p>4.3 CONFLITOS EM SUSPENSÃO ................................................................................................106</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR ....................................................................................... 107</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 ................................................................................................ 111</p><p>AUTOATIVIDADE ........................................................................................................ 112</p><p>REFERÊNCIAS ............................................................................................................ 114</p><p>UNIDADE 3 — DRAMATURGIA CONTEMPORÂNEA: A PERFORMANCE,</p><p>O CORPO E A DIDÁTICA .......................................................................115</p><p>TÓPICO 1 — TEATRO E VANGUARDAS ........................................................................117</p><p>1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................117</p><p>2 SÉCULO XIX E NECESSIDADE DE UMA NOVA CENA ............................................. 118</p><p>2.1 O QUE É TEATRO DE VANGUARDA? .....................................................................................119</p><p>2.2 VANGUARDAS HISTÓRICAS EUROPEIAS ...........................................................................140</p><p>2.3 TEATRO EM VANGUARDA ......................................................................................................144</p><p>digo eu que está</p><p>no melhor caminho da felicidade,</p><p>mais que quem os teve.</p><p>Quem não tem filhos nem experimentou,</p><p>seja isso um bem, seja isso um mal</p><p>para os mortais – não tendo descendência,</p><p>muita dor evitam.</p><p>Mas aqueles para quem dos filhos em casa</p><p>existe o doce rebento, eu vejo</p><p>o tempo em tormento passar.</p><p>Como criá-los da melhor maneira,</p><p>depois, da vida deixar-lhes os meios.</p><p>Depois, se para o bem, se para o mal os criam,</p><p>e para isso se esforçam,</p><p>até isso é incerto.</p><p>De todos os males, guardei para agora</p><p>um só que é pior para todos os homens.</p><p>Na vida acharam bem-estar bastante,</p><p>à flor da juventude eles já chegaram,</p><p>e nobres são; mas a sorte o decide,</p><p>os tira do caminho e a morte lhes leva</p><p>dos filhos para o Hades os corpos belos.</p><p>Para que serve então aos homens os deuses,</p><p>além dos outros males, um desgosto</p><p>mais forte que todos,</p><p>por causa de ter filhos, lhe acrescentem?</p><p>70</p><p>Medeia</p><p>Amigas, há muito que eu aguardo os acontecimentos, com ânimo</p><p>atento ao que há de vir de acolá. Mas eis que vejo um dos criados</p><p>de Jasão aproximar-se. A sua respiração arquejante indica que vai</p><p>anunciar uma nova desgraça.</p><p>(Entra o Mensageiro)</p><p>Mensageiro</p><p>Ó tu, que cometeste uma ação terrível e fora da lei, ó Medeia, foge,</p><p>foge, não desprezes navio que te leve ou carro que ande sobre o solo!</p><p>Medeia</p><p>Que acontece que exija a minha fuga?</p><p>Mensageiro</p><p>Morreu há pouco a princesa e Creonte, que a gerou, por causa dos</p><p>teus venenos.</p><p>Medeia</p><p>Disseste as palavras mais belas e entre os benfeitores e amigos meus</p><p>para sempre te contarei.</p><p>Mensageiro</p><p>Que dizes? Estarás no teu juízo, ou estarás louca, ó mulher, tu que,</p><p>depois de arruinar a casa dos soberanos, te comprazes em ouvi-lo e</p><p>não te atemorizas?</p><p>Medeia</p><p>Também tenho algo para responder às tuas palavras. Mas não</p><p>tenho pressa, amigo, conta. Como morreram? Porque nos deleitarás</p><p>duplamente, se eles morreram na maior aflição.</p><p>Mensageiro</p><p>Depois que os teus dois filhos chegaram com seu pai e entraram nos</p><p>aposentos nupciais, regozijamo-nos, nós, escravos, que com teus</p><p>males nos havíamos afligido. Logo se murmurava com insistência que</p><p>tu e teu marido vos tínheis reconciliado da vossa prévia dissensão.</p><p>Beija um a mão, outro a loira cabeça das crianças. Eu mesmo, era tal</p><p>o prazer, que segui com elas para os aposentos das mulheres.</p><p>A senhora que, agora, nós veneramos na tua vez, antes de fitar os</p><p>teus dois filhos, tinha o olhar ardente preso em Jasão. Depois, cobriu</p><p>os olhos e voltou para o lado a face branca, tocada pela aversão que</p><p>lhe causara o ingresso das crianças. Porém o teu marido dissipa as</p><p>iras e a fúria da donzela, dizendo-lhe assim: - Não sejas hostil a quem</p><p>me é caro, aplaca a tua ira, torna a volver o rosto, e tem por amigos</p><p>aqueles que o são para o teu esposo; recebe estes presentes e roga a</p><p>teu pai que perdoe o exílio a estas crianças, por amor de mim.</p><p>Ela, ao ver o adereço, não resistiu, e deu ao marido o seu consentimento</p><p>para tudo. E, mal se tinham afastado de casa o pai e os filhos, pegou</p><p>no peplos matizado, vestiu-o, e, colocando a áurea coroa sobre os</p><p>anéis do cabelo, compõe o penteado a um espelho brilhante, sorrindo</p><p>à imagem inanimada do seu corpo. E depois, levantando-se do trono,</p><p>passeia pela casa, caminhando leve, com seus alvos pés, muito feliz</p><p>com as dádivas e, muitas e muitas vezes, retesando a perna, olhava</p><p>para trás, a ver se caía bem.</p><p>71</p><p>Então, um espetáculo terrível se pôde ver: a cor se lhe muda, e avança</p><p>cambaleante, os membros trementes, e a custo consegue deixar-se</p><p>cair sobre o trono, antes de tombar por terra.</p><p>Uma das criadas antigas, crendo que vinham aí as iras de Pan ou</p><p>de algum dos deuses, soltou um grito, antes mesmo de ver pela</p><p>boca golfar alva espuma, as meninas dos olhos reviradas e o corpo</p><p>exangue. Então um grande lamento em contrário respondeu àquele</p><p>grito. Logo uma se precipitou para a casa do pai, outra para o esposo</p><p>de há pouco, a contar a fatalidade da noiva. E toda a casa ressoava</p><p>com o ruído das correrias apressadas.</p><p>Já então um corredor veloz, movendo-se num dos lados de uma liça</p><p>de seis pletros, teria tocado na meta. E ela, no meio do seu silêncio e</p><p>de olhos semicerrados, despertou, pobre donzela, com um gemido.</p><p>Uma dupla aflição a atacava: o diadema de ouro, colocado na cabeça,</p><p>a largar uma torrente mágica de fogo omnívoro, e o peplos, e o</p><p>peplos sutil, dádiva dos teus filhos, lacerava as brancas carnes da</p><p>desventurada.</p><p>Do trono se ergue, em chamas, agitando o cabelo e a cabeça em</p><p>toas as direções, querendo arrancar a coroa, mas, solidamente, o</p><p>ouro retinha a sua pressa, e o fogo, depois de ela sacudir a cabeça,</p><p>brilhava com outro tanto fulgor. Cai no solo, vencida pela desgraça,</p><p>perfeitamente irreconhecível, exceto a quem a gerara. Pois já bem</p><p>dos olhos era visível a bela forma, nem a nobreza do seu rosto, mas</p><p>sangue à mistura com fogo lhe gotejava do alto da cabeça, e dos</p><p>ossos as carnes lhe escorriam, tal a lágrima que cai do pinheiro,</p><p>consumidas pelas fauces ocultas dos venenos – um espetáculo</p><p>pavoroso! Todos tinham medo de tocar no cadáver. A sorte fora a</p><p>nossa mestra.</p><p>Mas eis que o infeliz pai, da desgraça ignaro, entra de súbito em casa</p><p>e cai sobre o cadáver. Logo um grito soltou, e cingindo-a com os</p><p>braços, beija-a, exclamando: - Ó desventurada filha, quem dos deuses</p><p>te perdeu desta forma ignominiosa? Quem priva de ti este velho, ao</p><p>pé da sepultura? Ai de mim! Possa eu, ó filha, contigo sucumbir!</p><p>Depois que cessou gemidos e lamentações, querendo erguer o velho</p><p>corpo, ficava aderente ao peplos sutil, como a hera aos ramos do</p><p>loureiro, e era uma luta temerosa. Ele tentava levantar o joelho, e ela</p><p>retinha-o. E cada vez que fizesse força, separava dos ossos as suas</p><p>velhas carnes. Por fim, desistiu e exalou, o infeliz, o seu espírito, pois</p><p>já não era superior ao mal. Jazem os cadáveres ao pé um do outro,</p><p>o da filha e o do velho pai, uma desgraça que clama pelas lágrimas.</p><p>Para mim, o teu caso está fora de discussão. Tu mesma descobrirás</p><p>a maneira de te subtraíres ao castigo. As coisas dos mortais, não é</p><p>agora a primeira vez que as tenho por uma sombra, nem sinto temor</p><p>de dizer que aqueles dentre os homens que têm fama de sábios e de</p><p>artificiosos nos seus discursos, esses mesmos merecem o maior dos</p><p>castigos. Dos mortais, não há um só homem que seja feliz. Pode, se</p><p>sobrevier a prosperidade, ser um mais bem-sucedido do que o outro,</p><p>mas, feliz, não é nenhum.</p><p>(Sai o Mensageiro)</p><p>Coro</p><p>Parece que muitos foram os males que com justiça o nume infligiu a</p><p>Jasão neste dia.</p><p>72</p><p>Medeia</p><p>Amigas, decidida está a minha ação: matar os filhos o mais depressa</p><p>que puder e evadir-me desta terra, não vá acontecer que, ficando</p><p>eu ociosa, abandone as crianças, para serem mortas com mão mais</p><p>hostil. É absoluta a necessidade de as matar, e, já que é forçoso,</p><p>matá-las-emos nós, nós que as geramos. Mas vamos, arma-te,</p><p>coração. Por que hesitamos e não executamos os males terríveis,</p><p>mas necessários? Anda, ó minha desventurada mão, empunha a</p><p>espada, empunha-a, move-te para a meta96 dolorosa da vida, não te</p><p>deixes dominar pela cobardia, nem pela lembrança dos teus filhos, de</p><p>como eles te são caros, de como os geraste. Mas por este breve dia,</p><p>ao menos, olvida, que depois os chorarás. Porque, mesmo matando-</p><p>os, eles te são sempre caros e eu – que desgraçada mulher que eu</p><p>sou.</p><p>(Medeia entra em casa)</p><p>Coro</p><p>Estrofe</p><p>Ó terra, ó raios</p><p>do Sol coruscantes,</p><p>vede, oh! Vede esta mulher perdida,</p><p>antes que com mão suicida</p><p>ela ataque os próprios filhos.</p><p>Da tua dourada estirpe</p><p>ela procede; e os mortais</p><p>temem derramar o sangue de um deus.</p><p>Detém-te tu, ó luz, filha de Zeus!</p><p>Desta casa arranca o crime infeliz</p><p>e a vingança da Erínia!</p><p>Antístrofe</p><p>Em vão o trabalho</p><p>dos filhos, em vão</p><p>a descendência cara tu geraste.</p><p>Tu, que sem medo passaste</p><p>das Simplégades o estreito</p><p>com as suas rochas</p><p>negras.</p><p>Por que, desgraçada, a ira</p><p>pesada na alma te cai e o crime</p><p>hostil vem? Mancha que não se redime</p><p>em casas genocidas, onde cai</p><p>dos deuses a maldição.</p><p>Filhos (dentro)</p><p>Ai de mim!</p><p>Coro</p><p>Estrofe</p><p>Ouves este grito?</p><p>Ouves as crianças?</p><p>Ai que desgraçada,</p><p>Mulher de má sorte!</p><p>73</p><p>Filhos</p><p>Ai, que farei? Para onde fugir à mãe?</p><p>não sei, querido irmão, perdidos estamos.</p><p>Coro</p><p>Entramos?</p><p>Salvemos do crime</p><p>Estas crianças.</p><p>Filhos</p><p>Sim, pelos deuses, salvai-nos, precisamos.</p><p>Como a ponta da espada já está perto!</p><p>Coro</p><p>Desgraçada, eras de pedra</p><p>ou de ferro, tu que os filhos,</p><p>esses frutos que geraras,</p><p>com a própria mão mataste!</p><p>Antístrofe</p><p>Uma só mulher</p><p>uma só até agora</p><p>ouvi, que para os filhos</p><p>levantaste a mão.</p><p>Foi Ino que os deuses enlouqueceram,</p><p>quando Hera de casa a quis expulsar.</p><p>No mar cai a pobre,</p><p>pelo ímpio crime</p><p>dos próprios filhos,</p><p>estendendo o pé para além da margem,</p><p>morre, consigo os dois filhos levando.</p><p>Que horror pode vir ainda?</p><p>Ó tálamo feminil,</p><p>causa de tantos trabalhos,</p><p>que mal tens feito aos mortais!</p><p>(Entra Jasão)</p><p>Jasão</p><p>Mulheres, que estai junto destes tetos, ainda se encontra nesta casa</p><p>a autora de tantos horrores, Medeia, ou conseguiu ela fugir? Pois</p><p>força é que ela se oculte debaixo da terra ou que asas lhe levantem o</p><p>corpo para o ar profundo, se não quer pagar a pena à casa real. Estará</p><p>ela convencida de que, lhe será dado fugir incólume desta casa?</p><p>Mas não venho tanto por cuidado nela, como nas crianças.</p><p>Aquela que fez mal, o pagará com a desgraça. Eu vim para salvar a</p><p>vida dos meus filhos, não vão os parentes fazer-lhes alguma coisa</p><p>para vingar o ímpio crime materno.</p><p>Coro</p><p>Ó desgraçado, que não sabes a que ponto chegaram teus males,</p><p>Jasão! Se não, não proferirias tais palavras.</p><p>Jasão</p><p>Que é? Acaso também quer matar-me, a mim?</p><p>Coro</p><p>Teus filhos estão mortos pela mão de sua mãe.</p><p>74</p><p>Jasão</p><p>Ai de mim, que dizes? Como tu me deitaste a perder, mulher!</p><p>Coro</p><p>Pensa em teus filhos, como seres que já não existem.</p><p>Jasão</p><p>Onde os matou então? Dentro ou fora de casa?</p><p>Coro</p><p>Abre essas portas, verás os teus filhos assassinados.</p><p>Jasão</p><p>Correi já as fechaduras, ó servos, soltai estas trancas, para eu ver a</p><p>dupla desgraça, os que morreram... e aquela a quem eu farei pagar</p><p>as culpas.</p><p>(Medeia aparece em plano mais elevado, no carro do Sol, com os</p><p>cadáveres dos filhos) (EURÍPEDES, 2015, p. 33-45).</p><p>Nesse trecho, o qual finaliza a tragédia de Eurípedes (2015), Medeia convence</p><p>Jasão, pai dos filhos e objeto de vingança dela, a deixar que os herdeiros presenteiem</p><p>a futura esposa com as vestes e a tiara, tendo, Medeia, já envenenado ambas, o que</p><p>gerou a morte do rei e da filha dele como alvos da vingança da protagonista. Tomada</p><p>pelo desejo de vingança por ter sido abandonada pelo pai dos seus filhos, para que ele</p><p>pudesse se casar com a princesa, a protagonista de Eurípedes, então, tomou a decisão</p><p>de matar os pequenos em ordem de causar o máximo de dor ao antigo amante. Percebe-</p><p>se o conflito entre amor e ódio, e a dor e o sofrimento das personagens parecem</p><p>comentar, intimamente, o limite do que pode o Ser. Medeia explora, psicologicamente,</p><p>os fundos subjetivos aos quais alguém pode chegar quando em um frenesi vingativo,</p><p>extrapola o aceitável, e, fazendo isso, dá, ao público, o conhecer do que poderia ser feito</p><p>por pessoas, por aqueles que, com eles, partilhavam as ruas. A tragédia grega aparece,</p><p>portanto, como uma história limítrofe dos personagens elevados, uma apresentação do</p><p>que poderia acontecer caso fossem, as coisas, levadas ao fim. É um gênero dramático,</p><p>fundamentalmente, filosófico, com a exploração das formas através das quais o sujeito se</p><p>relaciona não só com os outros, mas com o próprio ser. Medeia é uma personagem que</p><p>se sente traída, e, a partir desse sentimento, inventa uma série de acontecimentos que</p><p>atingem o limite da ação humana. A peça, portanto, coloca o espectador a questionar a</p><p>própria noção ética, o conjunto de valores morais, quando, implicitamente, pergunta se ele,</p><p>também, não iria tão longe assim frente a uma sensação tão visceral como a vingança.</p><p>São papéis do coro, também, como vimos na Unidade 1 deste livro, assimilar e</p><p>apresentar o que está acontecendo em cena em relação à moral da época. No caso da</p><p>tragédia de Eurípedes (2015), o Coro se demonstrou amedrontado, receoso pelas ações</p><p>que Medeia começou a tomar, e, de certa maneira, posicionou o espectador nessa</p><p>mesma chave. Jasão, que, outrora, era herói e amante, tornou-se um tolo. Também,</p><p>aí, uma mensagem filosófica é colocada para os espectadores: a das consequências</p><p>inevitáveis de cada ação humana. As questões postas na tragédia têm o objetivo de</p><p>sobreviver ao contexto temporal, daí a afirmação aristotélica de caráter elevado.</p><p>75</p><p>FIGURA 1 – TELA MEDEA, DO PINTOR FRANCÊS EUGENE DELACROIX, REALIZADA EM 1862, RETRATA</p><p>OS MOMENTOS ANTES DO ASSASSINATO DOS FILHOS PELA PROTAGONISTA TRÁGICA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/KgNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>Já na comédia Um Deus Chamado Dinheiro, de Aristófanes (1995), temas</p><p>mundanos, como dívidas, desejo por riquezas, e uma inconsequência cômica, tomam</p><p>o centro do argumento narrativo. Acompanhe no trecho exposto a seguir:</p><p>Cenário</p><p>Praça pública em Atenas; ao fundo, aparece a casa de CRÊMILO.</p><p>Por um lado, entra um velho cego e nada bem vestido, marchando,</p><p>tropegamente, com a ajuda de um bastão. Atrás dele, vêm CRÊMILO</p><p>e o escravo CARÍON, de volta de uma viagem, e coroados de folhas de</p><p>loureiro; CARÍON traz uma panela.</p><p>Caríon</p><p>Como é penoso, Zeus e todos os deuses, ser escravo de um senhor</p><p>que perdeu o juízo! … Se o escravo dá os melhores conselhos e seu</p><p>dono não liga, fatalmente, vão sobrar aborrecimentos para o mais</p><p>fraco. O destino não deixa que ele disponha livremente de sua</p><p>pessoa, pois o escravo pertence a quem pagou para ser o seu dono.</p><p>Afinal, as coisas são assim mesmo, mas quanto a esse tal de Loxias3,</p><p>que berra oráculos do alto de seu tripé, censuro o fato de ele, que</p><p>é médico e adivinho muito competente, segundo dizem, mandar de</p><p>volta meu senhor ainda mais desequilibrado. Ele vem caminhando</p><p>atrás de um velho cego, fazendo o contrário do que devia fazer. De</p><p>fato, nós, que enxergamos, devíamos guiar os cegos, enquanto ele</p><p>segue um deles e me obriga a fazer o mesmo, e tudo isto sem dar</p><p>uma explicação, sem me dirigir a palavra mais curta!</p><p>Dirigindo-se a Crêmilo.</p><p>Está bem; não vou ficar calado de jeito nenhum se o senhor não</p><p>explicar finalmente por que estamos seguindo este homem; vou</p><p>lhe causar aborrecimentos e o senhor não vai poder bater em mim,</p><p>porque estou usando uma coroa.</p><p>76</p><p>CRÊMILO</p><p>Se você me aborrecer, por pouco que seja, arranco a sua coroa e você</p><p>vai sofrer ainda mais por isso!</p><p>CARÍON</p><p>Isso é papo furado. Não vou parar de falar até o senhor me dizer</p><p>quem é este cego. Estou perguntando porque quero bem ao senhor,</p><p>o melhor homem deste mundo.</p><p>CRÊMILO</p><p>Está bem! Não vou esconder a verdade a você, pois entre os meus</p><p>escravos acho que você é o mais fiel e o mais… ladrão. Eu, embora</p><p>seja religioso e justo, não fui bem-sucedido na vida e sou pobre.</p><p>CARÍON</p><p>Eu sei disto, e muito bem.</p><p>CRÊMILO</p><p>Outros homens, embora sejam hereges, demagogos, dedos-duros,</p><p>avarentos, estão com tudo.</p><p>CARÍON</p><p>Concordo com o senhor.</p><p>CRÊMILO</p><p>Fui, então, consultar o deus, não para mim mesmo, tão infeliz que já</p><p>considero esgotadas todas as jogadas de minha vida, mas para meu</p><p>filho, o único que tenho, a fim de saber se ele, mudando sua conduta,</p><p>devia passar a ser cínico, injusto, sonegador, um verdadeiro mau-</p><p>caráter, pois em minha opinião só sendo tudo isto se tira proveito da</p><p>vida agora.</p><p>CARÍON</p><p>E que disse Febo no meio de suas coroas?</p><p>CRÊMILO</p><p>Você vai saber. O deus me disse, claramente, para eu seguir a primeira</p><p>pessoa que encontrasse saindo do templo, e para não perder essa</p><p>pessoa de vista e insistir para ela</p><p>me acompanhar até a minha casa.</p><p>CARÍON</p><p>E quem o senhor encontrou primeiro?</p><p>CRÊMILO</p><p>Apontando para o cego.</p><p>Este aqui.</p><p>CARÍON</p><p>O quê? O senhor não adivinhou o pensamento do deus; ele quis dizer</p><p>com a maior clareza que o senhor devia educar seu filho de acordo</p><p>com os costumes atuais desta terra.</p><p>CRÊMILO</p><p>Por que você pensa assim?</p><p>CARÍON</p><p>Está na cara, mesmo para um cego, que se deve entender que é mais</p><p>vantajoso não fazer nada de bom na época atual.</p><p>77</p><p>CRÊMILO</p><p>Não é possível que o oráculo de um deus tenha sido neste sentido;</p><p>ele tem um alcance mais elevado. Se este homem dissesse logo</p><p>quem ele é, por que razão e em que circunstâncias ele veio até aqui</p><p>conosco, compreenderíamos o significado do oráculo.</p><p>CARÍON</p><p>Dirigindo-se ao cego em tom ameaçador.</p><p>Vamos, velho! Você quer dizer, ou não, quem é você, ou eu vou ter de</p><p>agir neste sentido? Fale já!</p><p>PLUTO</p><p>Digo para você gemer.</p><p>CARÍON</p><p>Dirigindo-se a CRÊMILO.</p><p>Você entendeu a resposta dele?</p><p>CRÊMILO</p><p>Ele disse estas palavras a você, e não a mim; você interrogou o velho</p><p>de maneira errada e grossa.</p><p>Dirigindo-se a PLUTO.</p><p>Se lhe agradam as maneiras de um homem leal, responda, meu velho.</p><p>PLUTO</p><p>Digo para você chorar.</p><p>CARÍON</p><p>Dirigindo-se, ironicamente, a CRÊMILO.</p><p>Receba bem o homem e o presságio do deus…</p><p>CRÊMILO</p><p>Dirigindo-se, novamente, a PLUTO.</p><p>Garanto que você não terá mais motivos para rir!</p><p>CARÍON</p><p>Dirigindo-se a PLUTO.</p><p>Se você não falar, eu mato você miseravelmente, seu miserável!</p><p>PLUTO</p><p>Me deixem em paz, vocês dois!</p><p>CRÊMILO</p><p>De jeito nenhum!</p><p>78</p><p>CARÍON</p><p>Ora! Então, eu falei melhor que o senhor. Vou matar este homem da</p><p>pior maneira possível: levo ele até a beira de um precipício e depois</p><p>saio de perto para ele quebrar o pescoço na queda.</p><p>CRÊMILO</p><p>Então, leve o velho já!</p><p>Os dois tentam agarrar PLUTO.</p><p>PLUTO</p><p>Não! De jeito nenhum!</p><p>CRÊMILO</p><p>Você não vai falar?</p><p>PLUTO</p><p>Mas, se vocês souberem quem eu sou, tenho certeza de que vão me</p><p>maltratar e não vão me deixar ir embora.</p><p>CRÊMILO</p><p>Claro, ainda que você não queira!</p><p>PLUTO</p><p>Então, primeiro me soltem.</p><p>CRÊMILO</p><p>Está bem, vamos soltar você.</p><p>PLUTO</p><p>Agora, ouçam. Percebi que tenho de dizer o que estava disposto a</p><p>manter em segredo: eu sou o deus Pluto.</p><p>CARÍON</p><p>Que mau-caráter! Você é Pluto e ficou calado?</p><p>CRÊMILO</p><p>Você, Pluto, neste estado lamentável? Ah! Febo Apolo! Ah! Deuses!</p><p>Ah! Demônios! Ah! Zeus! Que disse você? Você é, realmente, Pluto?</p><p>PLUTO</p><p>Sou.</p><p>CRÊMILO</p><p>O próprio?</p><p>PLUTO</p><p>O propriíssimo.</p><p>CRÊMILO</p><p>Então, diga-se: de onde vem você assim tão sujo?</p><p>PLUTO</p><p>Estou saindo da casa de Patroclés, que não toma banho desde o dia</p><p>em que nasceu.</p><p>CRÊMILO</p><p>E como lhe aconteceu a desgraça de ficar cego? Conte-me!</p><p>79</p><p>PLUTO</p><p>Foi Zeus quem me fez isto, despeitado por causa dos homens. Há</p><p>muito tempo, eu o ameaçava de favorecer somente as pessoas</p><p>justas, sábias e honestas. Então, ele me cegou para me impedir de</p><p>reconhecer as pessoas. Vejam até quanto vai o despeito dele contra</p><p>as pessoas de bem!</p><p>CRÊMILO</p><p>Mas se ele é venerado, é pelas pessoas de bem e justas.</p><p>PLUTO</p><p>Concordo com você.</p><p>CRÊMILO</p><p>Então, diga-me: se voltasse a enxergar como antes, você fugiria, a</p><p>partir de agora, das pessoas más?</p><p>PLUTO</p><p>Garanto a você.</p><p>CRÊMILO</p><p>E você procuraria a companhia dos justos?</p><p>PLUTO</p><p>Sem dúvida nenhuma, pois há muito tempo não vejo gente justa.</p><p>CARÍON</p><p>Dirigindo-se aos espectadores.</p><p>Não há nada de extraordinário nisto; eu também, que enxergo</p><p>otimamente, também não vejo, há muito tempo, uma pessoa justa</p><p>(ARISTÓFANES, 1995, p. 6-13).</p><p>Na comédia de Aristófanes (1995), o tom é, completamente, distinto. O problema</p><p>é mais mundano, a avareza aparece como linha de tensionamento da representação,</p><p>mas não é a única coisa que denota as distinções de abordagem da comédia para a</p><p>tragédia. Os próprios deuses são escritos por Aristófanes, de tal maneira que poderíamos</p><p>enquadrá-los na categoria aristotélica de “personagens inferiores”, pois sucumbem</p><p>a emoções terrenas e frívolas, pois existem em função da própria vaidade. Na peça</p><p>do trecho anterior, Crêmilo, então, convenceu Pluto a consertar os olhos, de modo a</p><p>favorecer as “pessoas de bem”. A inconsequência, o imediatismo e o egocentrismo do</p><p>ser humano dão o tom da comédia, e propõem, diretamente, ao público, uma leitura</p><p>política que parece estar, apenas, latente na tragédia. Os textos cômicos, pelo constante</p><p>contato popular, tinham a possibilidade de ser, explicitamente, políticos, o que, também,</p><p>denota uma diferenciação marcante quanto às tragédias.</p><p>Partes dessas características, da tragédia e da comédia, sobreviveram e</p><p>sobrevivem, até hoje, na nossa dramaturgia, mas a primeira inserção de diferença que</p><p>conhecemos, quanto a essas abordagens, é a da dramaturgia romana, após a conquista</p><p>do território grego. Continue a leitura, pois veremos um pouco dessas distinções e como</p><p>elas aparecem no texto dramático romano.</p><p>80</p><p>4 TEATRO ROMANO</p><p>Por volta de 336 a.C., Alexandre, O Grande, rei macedônio, conquistou o território</p><p>grego e instaurou o período helenístico da Grécia, um retorno a certas tradições estéticas</p><p>gregas mescladas com costumes originários da Macedônia. Tendo sido educado</p><p>por Aristóteles, Alexandre construiu um grande respeito pelos costumes e pelas</p><p>formas culturais da Grécia antiga, o que fez com que houvesse, durante a dominação</p><p>macedônica, ao menos, um aceno cultural à tradição. Contudo, em 146 a.C., os romanos</p><p>tomaram o território grego, o que deu início a um longo período dos controles cultural,</p><p>político e ideológico de Roma por todo o território europeu. Essa dominação romana</p><p>se estendia por diferentes costumes, e, ainda que houvesse, sim, uma absorção de</p><p>certas tradições gregas, muitas coisas, no cenário geral da cultura, foram modificadas.</p><p>Uma dessas coisas era a importância, além do funcionamento das artes dramáticas</p><p>no território.</p><p>O teatro romano tem pouco espaço nos relatos e nos estudos históricos da</p><p>dramaturgia, de um modo geral, muito pelo fato de o espectador romano ter tido baixo</p><p>interesse no prestigiar das artes dramáticas, frequentemente, preferindo as lutas de</p><p>gladiadores nos coliseus, como um verdadeiro entretenimento. No entanto, isso não quer</p><p>dizer que a poesia dramática não aconteceu e se desenvolveu durante a dominação</p><p>romana. A forma através da qual a cultura romana fez reverência ao clássico da cultura</p><p>grega, no helenismo, possuía, em si, certos desvios e fusões no gênero dramático, o que</p><p>dava, ao drama romano, uma caracterização própria.</p><p>O público ateniense, ao assistir às representações trágicas,</p><p>presenciava a reelaboração e a reinterpretação de mitos e de</p><p>histórias que constituíam o núcleo central da cultura: nessa cultura</p><p>autóctone e, plenamente, compartilhada pelo povo, o teatro foi um</p><p>instrumento importantíssimo no século V a. C., provavelmente, o</p><p>principal instrumento de desenvolvimento, de continuidade e de</p><p>conservação.</p><p>Em Roma, a situação é, de certo modo, oposta. O teatro se torna</p><p>um instrumento para analisar e para assimilar uma cultura,</p><p>substancialmente, estranha à tradição indígena, de forma a adequá-</p><p>la às novas exigências sociais e políticas. É claro que só um público</p><p>restrito podia viver na gênese desse trabalho de assimilação: à maior</p><p>parte da população, eram dados resultados que ela só podia aceitar</p><p>ou rejeitar. Em Roma, nasceu o classicismo, entendido como uma</p><p>referência constante de um patrimônio de formas, de imagens e de</p><p>conteúdos antigos e estrangeiros, considerado ideal e possuído por</p><p>uma categoria restrita de pessoas. A consequência que, daí, advém,</p><p>é uma nítida divisão entre uma cultura de classes privilegiadas,</p><p>que pode até ser oferecida ao vasto público que não participa da</p><p>elaboração dela, e uma cultura popular, às vezes, um subproduto da</p><p>primeira (neste caso, é mais oportuno defini-la como popular),</p><p>que,</p><p>apesar de desenvolver uma temática própria, é, sempre, considerada</p><p>vulgar e inferior. Só a intervalos, nos momentos de forte cansaço</p><p>da produção oficial, essa segunda cultura vem, imponentemente,</p><p>à ribalta, e se coloca como alternativa: não se baseando em uma</p><p>efetiva mudança na estrutura social, permanece um fato episódico e</p><p>sem continuidade (MOLINARI, 2010, p. 68).</p><p>81</p><p>A construção de uma divisão cultural tão, intimamente, embrenhada nas</p><p>estruturas do funcionamento da sociedade romana, de acordo com Molinari (2010),</p><p>teve efeito para desincentivar o crescimento da produção teatral, como forma de</p><p>desenvolvimento, de continuidade e de preservação, como ocorrera na Grécia. Em</p><p>Roma, a</p><p>A produção literária aristocrática podia se dirigir, unicamente, ao</p><p>próprio público, já a produção teatral precisava, de algum modo,</p><p>contar com um público mais vasto. Para conquistar a simpatia, era</p><p>possível seguir duas vias: inserir, no contexto neo-helênico, temas</p><p>e motivos da cultura popular – foi a via seguida por Plauto, o qual</p><p>vivificava as personagens com violentas ênfases de sátira, com o</p><p>italum acetum, pelo qual era famoso, e com a variedade métrica do</p><p>canto popular –, ou encontrar argumentos e ideias que, pelo caráter,</p><p>fossem capazes de estimular o arrebatamento ou outras sensações</p><p>fáceis (MOLINARI, 2010, p. 68-69).</p><p>Dessa forma, a inovação romana surgiu de uma necessidade de modulação do</p><p>discurso teatral. Ainda, os temas foram alterados, o entendimento quanto ao cenário e</p><p>às emoções representadas mudaram de maneira a aproximar a representação do vasto</p><p>público, e os temas, de maneira geral, também, sofreram adaptações. A limitação, na</p><p>Grécia, bem marcada, entre tragédia e comédia, ficou borrada, de maneira a fazer o</p><p>teatro sobreviver nessa construção social elitista.</p><p>Um estudo que pode interessar ao acadêmico é o interessantíssimo</p><p>ensaio da autora Florence Dupont, intitulado de Aristóteles ou</p><p>Vampiro do Teatro Ocidental. Ela se debruça, longamente, sobre</p><p>as raízes da pouca presença do teatro romano nos estudos</p><p>históricos, e desenvolve um argumento para um teatro distinto</p><p>das concepções aristotélicas.</p><p>FONTE: <https://amzn.to/38vUgLA>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>NOTA</p><p>Outro momento histórico no qual o drama apareceu foi na Idade Média. As</p><p>características mudaram consideravelmente, assim como a sociedade. Assim, no</p><p>próximo tópico, estudaremos como a Idade Média lidou com as diferentes interpretações</p><p>dramáticas e quais eram os espaços nos quais essas interpretações estavam inseridas.</p><p>82</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• Existiam representações prototeatrais em diferentes povos, e esses povos, em sua</p><p>maioria, percebiam a performance como uma relação de proximidade com o sagrado.</p><p>Essa relação parecia ter uma íntima ligação com a performance dramática, na medida</p><p>em que acontecia em diferentes comunidades que não tinham uma relação dialógica</p><p>entre si.</p><p>• A dramaturgia grega clássica dividia, majoritariamente, os textos nos gêneros tragédia</p><p>e comédia, os quais se diferiam, fundamentalmente, pelo tema presente. A tragédia</p><p>era um texto que abarcava as grandes questões morais do ser, e, a comédia, a política</p><p>simples do povo comum e o contexto dele. Os temas trágicos pareciam se estender</p><p>no tempo e no espaço de uma maneira eterna, na medida em que trabalhavam com</p><p>as questões éticas, espirituais da época, enquanto os temas cômicos demonstravam</p><p>lidar com o dia a dia e com os assuntos que povoavam a mente imediata do povo.</p><p>• O teatro não teve a mesma reverberação cultural em Roma quanto teve na Grécia,</p><p>mas esse acontecimento forçou uma modulação temática da dramaturgia romana,</p><p>o que aproximou a tragédia da comédia e gerou frutos importantes para o futuro da</p><p>dramaturgia e dos outros gêneros.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>83</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 A origem da poesia dramática é um assunto muito debatido, na medida em que os</p><p>relatos do nascimento, da formação e da popularização diferem, em detalhes, para</p><p>diferentes historiadores. No entanto, existe um consenso que envolve a época de</p><p>popularização, os costumes da formação sistematizada desse gênero poético na</p><p>Grécia e o que diferenciou essa sistematização ocorrida. Com base nas informações</p><p>presentes no Tópico 1 e nos seus conhecimentos, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) A prática performática nasceu na Grécia.</p><p>b) ( ) A tragédia grega ganhou popularidade no século IV a.C.</p><p>c) ( ) A comédia era o gênero mais cultuado na Grécia Antiga.</p><p>d) ( ) O drama, como prática, remonta a rituais dionisíacos de interação entre o humano</p><p>e o divino, e daquilo que está no caminho entre os dois.</p><p>2 Muitos analistas afirmam que a tragédia Medeia, do dramaturgo Eurípedes, é um</p><p>texto protofeminista, na medida em que a personagem principal, Medeia, agiu a</p><p>partir dos sentimentos dela, sem se sentir coagida pelas consequências possíveis.</p><p>Outros afirmam um machismo implícito na afirmação de que o perder do amante</p><p>levaria uma mulher a atos impensáveis. De um lado e de outro, a personagem de</p><p>Eurípedes marcou, fortemente, o imaginário, pois expõe os possíveis limites violentos</p><p>dos sentimentos humanos. Com relação ao trecho de Medeia, transcrito no Tópico 1,</p><p>e às características das tragédias gregas, analise as seguintes afirmações:</p><p>I- A personagem Medeia, ao decidir matar os filhos, apresentou, para o público, uma</p><p>faceta do sofrimento humano que se encaixa com a definição aristotélica de que as</p><p>tragédias tratam de temas elevados.</p><p>II- O coro funciona como uma ponte entre o público e a cena.</p><p>III- A ação desenvolvida na tragédia Medeia teve uma alta carga de análise psicológica.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) Todas as sentenças estão corretas.</p><p>d) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>3 As peças cômicas do dramaturgo Aristófanes foram as únicas que sobreviveram até</p><p>o contemporâneo, como forma de registro desse gênero dramático. Nelas, Aristófanes</p><p>empreendeu um esforço de análise da sociedade grega, com ares cômicos dentro</p><p>da definição aristotélica. Acerca da comédia Um Deus Chamado Dinheiro, a partir do</p><p>trecho transcrito no Tópico 1, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as</p><p>sentenças falsas:</p><p>84</p><p>( ) O tema da peça é a insatisfação popular no tocante às relações de poder econômico</p><p>na sociedade.</p><p>( ) A peça, por não tratar de temas elevados, não trata de divindades gregas.</p><p>( ) Parte fundamental da proposta temática é a inconsequência das personagens.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – F – F.</p><p>b) ( ) V – F – V.</p><p>c) ( ) F – V – F.</p><p>d) ( ) F – F – V.</p><p>4 O teatrólogo Cesare Molinari (2010, s.p.), afirma, a respeito da relação de distinção</p><p>do teatro na Grécia e em Roma, o seguinte: “O público ateniense, ao assistir às</p><p>representações trágicas, presenciava a reelaboração e a reinterpretação de mitos e</p><p>de histórias que constituíam o núcleo central da cultura: nessa cultura autóctone, e,</p><p>plenamente, compartilhada pelo povo, o teatro foi um instrumento importantíssimo</p><p>no século V a.C., provavelmente, o principal instrumento de desenvolvimento, de</p><p>continuidade e de conservação. Em Roma, a situação é, de certo modo, oposta”.</p><p>Explique essa situação oposta.</p><p>5 Como vimos no tópico anterior, existem diferenças marcantes na forma de serem</p><p>compostas uma tragédia e uma comédia. Explique a distinção temática possível de</p><p>se diagnosticar a partir dos trechos das peças Medeia e Um Deus Chamado Dinheiro</p><p>transcritos no Tópico 1.</p><p>85</p><p>DRAMA NA IDADE MÉDIA:</p><p>TEATRO EM SUSPENSÃO</p><p>UNIDADE 2 TÓPICO 2 —</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Em 380 d.C., através do decreto do imperador bizantino Teodósio I, o Cristianismo</p><p>foi oficializado como religião oficial do Império Romano. No mesmo ato, Teodósio decretou</p><p>uma punição ao exercício de cultos pagãos. Tal acontecimento, o que impactou,</p><p>significativamente, não apenas o Império Romano, mas toda a história da humanidade,</p><p>portanto, não teria, em seu bojo, uma consequência pacífica. Da mesma forma que,</p><p>outrora, cristãos eram perseguidos no território romano, agora, o mesmo acontecia com</p><p>os pagãos. A fé cristã se tornou lei e passou a ser, como religião de Estado, um braço moral</p><p>do poder estatal: uma bússola que guiava todos os paradigmas sociais.</p><p>A hegemonia do Cristianismo teve o auge no que, hoje, conhecemos como</p><p>Idade Média, também, tratada por alguns, como Idade das Trevas. Na Idade Média, o</p><p>poder da Igreja se estendia por todos os ramos do convívio social, e, obviamente, não</p><p>seria diferente na expressão cultural. A partir dessa perspectiva, deve-se observar o</p><p>acontecimento do drama, nesse período, como algo que, inevitavelmente, tinha que</p><p>lidar com o poder hegemônico de uma moral cristã. Dessa forma, as apresentações</p><p>dramáticas desenvolvidas tinham, sobre si, um peso grande a carregar no tocante às</p><p>exigências de uma sociedade, majoritariamente, dominada pela perspectiva cristã, e,</p><p>dogmaticamente, guiada por essa perspectiva. Nesse contexto turbulento, o teatro se</p><p>propôs a nascer e a desenvolver as práticas e os discursos.</p><p>2 FINS DO DRAMA: PERÍODO DE CLANDESTINIDADE DA</p><p>POESIA DRAMÁTICA</p><p>Com a queda do Império Romano, a arte dramática entrou em um período de</p><p>obscuridade absoluta. As representações teatrais pareciam desaparecer, como prática,</p><p>no contexto histórico.</p><p>A instituição teatral da Antiguidade, como a descrevemos, com a</p><p>complexa estrutura organizativa e com a imagem que essa implicava,</p><p>foi destruída pela queda do Império Romano e desapareceu: a última</p><p>informação relativa a autênticas representações teatrais, segundo</p><p>o significado que se atribuía a essa expressão na civilização greco-</p><p>romana, remonta a 467 d. C., para o ocidente europeu (MOLINARI,</p><p>2010, p. 78).</p><p>86</p><p>O autor explica que a vitória ideológica do Cristianismo tinha muito a ver com</p><p>o apagamento do drama como instituição, do teatro como prática estabelecida, na</p><p>medida em que havia uma vontade generalizada da sociedade cristã hegemônica de</p><p>elidir, da cultura, as referências ao classicismo. Dessa forma, a prática teatral caiu em</p><p>uma clandestinidade pela constante perseguição por parte daqueles que detinham o</p><p>poder absoluto na Alta Idade Média.</p><p>Como, historicamente, a repressão política tendia a se revelar inútil na construção</p><p>popular de práticas artísticas, ainda, existiam formas teatrais anti-institucionais: os</p><p>jograis foram popularizados durante a Idade Média, e serviam como uma forma de</p><p>difundir a prática teatral no dia a dia das cidades. Eram condenados pela forma através</p><p>da qual certos moralistas percebiam as funções: a de modular a natureza e a de fazer,</p><p>do corpo, um espaço para o desenvolvimento e para o divertimento de ideias contra a</p><p>hegemonia. No Dicionário de Termos Literários, Massaud Moisés (2013, s.p.) menciona,</p><p>a respeito do jogral:</p><p>JOGRAL – Provç. Joglar, do lat. joucularis, gracioso, zombeteiro</p><p>Praticando uma atividade que remonta aos mimi, histrionis e thymelici,</p><p>da antiguidade greco-latina, os jograis começaram na França, desde</p><p>o século V. Todavia, o vocábulo data do século VIII. Primitivamente,</p><p>designava todos quantos desempenhavam o ofício ou o mister de</p><p>divertir, com jogos, burlas, momices etc. A partir do século X, passou</p><p>a se referir aos cantores ou aos executantes musicais que divulgavam</p><p>a poesia provençal. Acumulavam, desse modo, as velhas funções</p><p>traunescas e as novas, de caráter, estritamente, literário. Conclui-se</p><p>que “os jograis eram todos os que ganhavam a vida atuando ante o</p><p>público, para o entreter com a música, com a literatura, com os ditos</p><p>engraçados, ou com jogo de mãos, de acrobatismo, de mímica etc.”</p><p>(PIDAL, 1945, p. 12). No entanto, a palavra não ostentava sentido tão</p><p>preciso e unívoco: “é um desses termos de significação muito ampla</p><p>que foi sentido de variadíssimos modos, segundo as circunstâncias</p><p>e as épocas” (PIDAL, 1945, p. 11). O jogral provinha, geralmente,</p><p>das classes sociais mais humildes, e se limitava a entoar cantigas</p><p>dos trovadores, em cuja companhia andava, e a representar atos</p><p>histriônicos. Por vezes, contudo, executava canções da própria lavra.</p><p>Podia, assim, subir à categoria de trovador, e, este, descer à categoria</p><p>de jogral. A verdade, porém, que, “historicamente, o trovador nasce</p><p>por imitação do jogral; é o cavalheiro, ou uma pessoa qualquer, que</p><p>faz versos como os histriões” (PIDAL, 1945, p. 17).</p><p>Análogos aos scopas anglo-saxônicos e aos cantores muçulmanos,</p><p>os jograis errantes entraram em decadência no século XIV, à medida</p><p>que os músicos da Corte adotavam uma nova designação – menestrel.</p><p>“Depois disso, o antigo nome de “jogral” permaneceu como sinônimo de</p><p>“chocarreiro que trata e fala, sempre, de burlas” [ditos engraçados], ou</p><p>como truão vagabundo e de má vida” (PIDAL, 1945, p. 23).</p><p>No corpo e na prática dos jograis, o teatro, de maneira menos ostensiva e muito</p><p>menos altiva do que na antiguidade clássica, sobreviveu, por longos anos, à repressão</p><p>moralista de uma sociedade que não compreendia aquela atividade, zombeteira</p><p>e voltada, única e exclusivamente, para o divertimento (e ao desvio das normas) da</p><p>sociedade, digna de um corpo cristão.</p><p>87</p><p>O jogral é, também, e, essencialmente, turpis. Esse termo não é,</p><p>genericamente, depreciativo, mas significa, justamente, que o jogral,</p><p>o mimo, é aquele que desvirtua (torpet) a imagem natural, e essa é a</p><p>condenação, ideologicamente, mais grave. O Cristianismo admite, e,</p><p>aliás, sugere, reprimir a natureza, limitando a satisfação dos desejos e</p><p>das necessidades para humilhar a carne, mas não admite que se possa</p><p>alterá-la, na medida em que, enquanto obra de Deus, é sublime e</p><p>perfeita. Os pecados contranatura não têm perdão, nem compreensão, e</p><p>uma mesma condenação abrange o actor que transfigura o corpo, o</p><p>luxo e a maquilhagem das mulheres, as práticas anticoncepcionais,</p><p>a sodomia, e, em última instância, a investigação científica. Essa</p><p>condenação diz, ainda, respeito a outros tipos de disfarces, de uma</p><p>outra forma, e em um contexto diferente, os quais podemos, no</p><p>entanto, definir, em sentido lato, como teatrais: a festa popular e,</p><p>principalmente, a grande festa carnavalesca. Difundida em toda a</p><p>Europa, em esquemas, frequentemente, muito semelhantes, a festa</p><p>do Carnaval tem, dentre os elementos constitutivos, precisamente, o</p><p>disfarce e a máscara. A Igreja não condena o ritual, o qual, no fundo, é</p><p>o processo sacrificial da antiga divindade terrestre, e o próprio disfarce,</p><p>o qual, contra a natureza, transforma o homem em mulher, e, a mulher,</p><p>em homem, e, ambos, em animais (MOLINARI, 2010, p. 83).</p><p>FIGURA 2 – ILUSTRAÇÃO JOGRAL</p><p>FONTE: <http://twixar.me/0gNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>No entanto, apesar de o Cristianismo ter condenado práticas, fundamentalmente,</p><p>teatrais, e promovido uma repressão de expressões dramáticas, de um modo geral, a</p><p>sobrevivência das representações forçaram algum tipo de modulação no comportamento</p><p>das forças hegemônicas. Dessa maneira, existiu, historicamente, um esforço cristão</p><p>para a produção de peças dramáticas que estivessem alinhadas, ideologicamente, com</p><p>o status quo imposto pela igreja.</p><p>88</p><p>3 TEATRO MEDIEVAL: A CENA UTILITÁRIA</p><p>Mais do que reprimir as formas profanas de dramatização, a Igreja desenvolveu</p><p>uma forma de construir as próprias dramatizações utilitárias. Dessa forma, narrativas</p><p>eclesiásticas dramatizadas eram tidas como parte complementar ao rito cristão. Molinari</p><p>(2010, p. 88) pensa em tal prática nos seguintes termos:</p><p>O rito católico, como os ritos de, quase, todas as religiões, é rico em</p><p>elementos espetaculares, e no seu expoente máximo, a missa, assume,</p><p>mesmo, um significado dramático, não só pela forma dialogada do</p><p>“texto”, mas, sobretudo porque a missa é a representação, embora</p><p>simbólica, de um acontecimento: “fazei isto em memória de mim”</p><p>(MOLINARI, 2010, p. 88).</p><p>Dessa maneira, o desenvolvimento do drama litúrgico, como forma de relacio-</p><p>namento dramático com o público, deu-se, quase que, como consequência lógica. Da</p><p>mesma maneira, as representações não necessitavam de palcos bem elaborados, na</p><p>medida em que eram desenvolvidas no mesmo espaço do rito. Na verdade, em muitas</p><p>ocasiões, o drama litúrgico se coadunava, tematicamente, de maneira tão íntima com o</p><p>rito, que parecia não ser possível separar um do outro.</p><p>3.1 A QUE (M) SERVE O TEATRO?</p><p>A forma através da qual a Igreja lidou, durante a Idade Média, com as formas</p><p>dramáticas, trouxe à tona a necessidade de um questionamento: A que e a quem serve</p><p>o drama? Esse questionamento levantou uma fundamental questão contemporânea:</p><p>como a performance dramática se relaciona com o controle da narrativa geral? Qual é a</p><p>extensão política do trabalhar com dramático?</p><p>Questionar isso é colocar em jogo um questionamento a respeito da ação e da</p><p>relação do público, e, mesmo, da atmosfera política com o que o teatro representa. Durante</p><p>a ditadura militar brasileira, o teatro foi usado como forma basal de desenvolvimento</p><p>crítico, de proposta de ação política, e como resistência discursiva ao regime: era uma</p><p>forma de contar a história que estava sendo escondida. Por esse mesmo motivo, a arte</p><p>dramática foi, brutalmente, censurada durante o regime militar – de maneira similar à</p><p>repressão dos jograis na Idade Média.</p><p>A mobilização de um discurso dramático, proposta, pela Igreja, na Idade Média,</p><p>foi um entendimento da força discursiva da obra de arte, do poder de convencimento</p><p>de uma narrativa corporificada, de uma maneira de dar o braço a torcer quanto à</p><p>potência da poesia dramática, e de se colocar em jogo nesse terreno. Terreno este que,</p><p>imediatamente, deveria ser disputado.</p><p>89</p><p>4 SAGRADO VS PROFANO</p><p>O binarismo sagrado e profano é um assunto inescapável ao se mencionar</p><p>a Idade Média, período no qual a dominação ideológica da Igreja Católica colocava</p><p>qualquer prática, não alinhada às crenças, como um ataque direto à doutrina. Pensar na</p><p>arte, na Idade Média, portanto, é, necessariamente, pensar em como a prática estudada</p><p>navegou nesse confronto binário.</p><p>Com as artes dramáticas, não foi diferente. Se existiam uma repressão e</p><p>um conflito com a representação, também, existia uma resistência quanto a isso. É</p><p>importante lembrar que, o teatro, como instituição, mesmo tendo sido, basicamente,</p><p>dissolvido no período da Alta Idade Média, a representação, como prática, a performance,</p><p>como forma de encarar a vida, não deixou de existir, de fato, cresceu.</p><p>Mesmo a repressão católica não conseguia neutralizar a força da performance</p><p>teatral como estratégia ética, estratégia de sobrevivência, assim, empreendia o</p><p>próprio esforço dramático na batalha dialética pela mente, pelo coração e pela alma</p><p>da população. Se relembrarmos o que aprendemos na Unidade 1 do seu livro didático,</p><p>a respeito da forma de um texto dramático, da necessidade de um desenvolvimento</p><p>dialético das personagens, podemos, de fato, pensar no conflito discursivo, ideológico,</p><p>político que se colocava em cena na Alta Idade Média, como um texto teatral, e o</p><p>sagrado e o profano como categorias (personagens) antagônicas. Dessa maneira, toda</p><p>representação que desviasse da doutrina católica era rebatida com uma representação</p><p>que elevasse a moral cristã e reafirmasse os dogmas. No bojo desse conflito dialético,</p><p>durante o desenvolvimento bélico entre essas duas perspectivas, a modernidade surgiu:</p><p>de fato, a modernidade parece se configurar como o desenlace desse conflito entre</p><p>o sagrado e o profano, e a arte dramática, como instituição, retorna com toda força.</p><p>Exploraremos isso no próximo tópico.</p><p>90</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• Durante séculos, a poesia dramática ficou ausente de registros históricos, na medida</p><p>em que existiu um desaparecimento das representações dramáticas sistematizadas</p><p>no correr da dominação cultural romana e da Igreja Católica.</p><p>• O Cristianismo perseguiu as artes dramáticas por um longo tempo, de maneira a</p><p>apagar, de certa maneira, as formas, percebidas como profanas, de representações.</p><p>• A Igreja Católica, com ânsia de vencer uma guerra ideológico-discursiva, produziu a</p><p>própria forma de dramaturgia, os dramas litúrgicos. Essa formação acontecia quase</p><p>que mesclada aos cultos religiosos. Tinha, como temas principais, as passagens</p><p>bíblicas, e, como objetivo, o inculcar generalizado da moral cristã.</p><p>• Durante esse período da Idade Média, os jograis representavam as artes dramáticas,</p><p>e eram perseguidos por fazê-lo na medida em que as ações eram tidas como</p><p>pecaminosas. A existência dramática do jogral fazia parte de uma dramatização e da</p><p>profissionalização artística da própria sociedade, algo que não se solidificaria naquele</p><p>momento, mas que funcionou como semente para o que viria.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>91</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 Como vimos neste tópico, a Igreja Católica, a qual representava o Cristianismo</p><p>hegemônico na Idade Média, empreendeu um grande esforço para pautar as</p><p>discussões ideológicas que ocorriam naquele tempo. Com o drama, isso não era</p><p>diferente. A partir disso, assinale a alternativa CORRETA a respeito do esforço de</p><p>repressão da Igreja Católica contra as representações dramáticas:</p><p>a) ( ) O esforço de repressão da igreja tinha, como objetivo, o apagamento de</p><p>referências clássicas.</p><p>b) ( ) A repressão por parte da igreja, dos espetáculos teatrais, tinha, como objetivo,</p><p>um aumento da quantidade de pessoas que atendiam ritos.</p><p>c) ( ) Reprimir foi a única estratégia da igreja para combater as artes dramáticas.</p><p>d) ( ) A repressão da igreja não teve efeito algum no desenvolvimento das artes</p><p>dramáticas.</p><p>2 Além de um esforço de repressão que tinha, como objetivo, o apagamento de</p><p>representações dramáticas, tidas como profanas, a igreja, também, instituiu a própria</p><p>forma de dramaturgia, como forma de batalhar em um cenário cultural no qual havia</p><p>a representação em sua forma pura. Com base nas informações contidas no Tópico</p><p>2, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- O drama litúrgico nasceu como forma de atrair, pela representação, o público para o</p><p>discurso e para a prática religiosos.</p><p>II- O drama litúrgico acontecia no mesmo espaço no qual se fazia o rito religioso.</p><p>III- O acontecimento da modernidade tem relação íntima com o conflito entre sagrado</p><p>e profano que aconteceu durante a Idade Média, e se traduz muito bem nessa</p><p>repressão.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) Todas as sentenças estão corretas.</p><p>d) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>3 Na batalha ideológica na qual era, majoritariamente, hegemônica, a igreja tinha,</p><p>como oponente, dentro das artes dramáticas, a personagem do jogral, artista</p><p>profissionalizado que detinha a representação dramática de textos provençais como</p><p>forma principal de atuação. A partir dessa informação, e do que estudamos no Tópico</p><p>2, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas:</p><p>92</p><p>( ) O jogral constituía, para a igreja, um pecado contranatura.</p><p>( ) Durante o esforço para dramatizar os ritos, a igreja empregou jograis.</p><p>( ) De acordo com Cesare Molinari (2010), o próprio rito católico constituía uma prática</p><p>espetacular.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – F – F.</p><p>b) ( ) V – F – V.</p><p>c) ( ) F – V – F.</p><p>d) ( ) F – F – V.</p><p>4 O esforço para reprimir as artes dramáticas, empreendido pela igreja, na Idade Média,</p><p>estava longe de ser parado naquele período histórico. Volta e meia, durante a história</p><p>da humanidade, as artes são reprimidas, de maneira a impedir a livre expressão</p><p>de pensamento, de crença, de criticidade etc. A partir desse conhecimento e do</p><p>conteúdo estudado, explique quando o teatro teve muita força política.</p><p>5 Na Idade Média, a prática artística empreendida pelo jogral foi alvo de repressão pela</p><p>Igreja Católica, e era considerada um pecado contra a natureza. Explique o que faz</p><p>um jogral e como isso se relaciona com a importância dele na Idade Média.</p><p>93</p><p>TÓPICO 3 —</p><p>APRESENTANDO A CENA MODERNA</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Canônica e cronologicamente, a Idade Moderna se estendeu do século XV ao</p><p>século XVIII. Ela se apresentou como uma revolução diante das perspectivas, tidas</p><p>como absolutas, nos períodos que formavam a Idade Média. Nesse período, existiu uma</p><p>revitalização histórica da arte dramática como instituição.</p><p>Como uma tomada de posição frente ao que estava estabelecido, a cultura</p><p>da Idade Moderna se colocou como um construto dos conflitos discursivo e social. A</p><p>religião dominava, contudo, iniciou-se o debate que envolvia o papel da ciência. As</p><p>certezas eram absolutas, mas se abriu um espaço para as dúvidas. Ainda, as formas</p><p>eram desimportantes, mas marcou presença um espaço para o estudo detalhado do</p><p>corpo. Na Idade Moderna, nasceu e floresceu o Renascimento, e, no bojo desse contexto,</p><p>um mergulho nas raízes da arte dramática se intensificou.</p><p>No último tópico da Unidade 2, estudaremos como a Idade Moderna se</p><p>apresentou às artes dramáticas, e como ela pôde abrir caminho para o que temos, como</p><p>dramaturgia e performance, no contemporâneo.</p><p>2 IDADE MODERNA E REFORMULAÇÃO DA AÇÃO</p><p>A Idade Moderna teve o princípio observado a partir da conquista de</p><p>Constantinopla, pelos Turcos Otomanos, em 1453. Essa data e esse acontecimento, de</p><p>fato, parecem predizer o ponto principal do que é a modernidade, incluindo a violência</p><p>de uma conquista territorial e a mudança das perspectivas política – já que um povo</p><p>passou a exercer a cultura onde, antes, outro o fazia – e cultural. Ainda, houve uma</p><p>apreensão, uma dúvida: o que estava por vir.</p><p>Essa tônica da Idade Moderna foi tão forte que o fim foi definido como o momento</p><p>da Revolução Francesa, da queda da Bastilha, acontecida em 1789. A queda da Bastilha</p><p>e a prisão monárquica francesa se tornaram pontos importantes de culminação da</p><p>modernidade, com a tradução da força de uma movimentação dos indivíduos (modernos)</p><p>a partir das vontades próprias, contra o que eles percebiam como a tirania aristocrática</p><p>e a favor de um sistema que, em tese, valorizava, mais diretamente, o indivíduo.</p><p>94</p><p>As inquietações que surgiram, a partir de uma conquista sanguinolenta de</p><p>um território, alcançaram a prisão como símbolo de tomada de poder sobre o próprio</p><p>destino, o que pairou, durantes séculos, sobre todos os indivíduos europeus. Com as</p><p>artes, isso não poderia ser diferente. A extensão, pelos séculos que formam a Idade</p><p>Moderna, foi palco de muitos acontecimentos, e berço de muitas das ideias que marcam</p><p>a nossa história e informam o nosso contemporâneo.</p><p>Alguns autores, como Descartes (1596-1650) e Leibniz (1646-1716), tentaram,</p><p>cada um com a própria maneira, compreender a constituição do ser como sujeito, a</p><p>existência e a relação dele com os outros que o cercam. As ideias que englobam o</p><p>desenvolvimento histórico dos conflitos dialéticos, propostas pelo filósofo Georg</p><p>Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), e a concepção de crítica, desenvolvida, a fundo,</p><p>por Immanuel (Kant 1724-1804) são todos frutos dessa tensão que parecia informar,</p><p>essencialmente, o período da Idade Moderna.</p><p>Nas artes dramáticas, diversas foram as maneiras de se tentar propor um novo</p><p>funcionamento para a ação e uma nova concepção de personagem, de herói, de palco e</p><p>de performance. Compreendendo a questão como elemento formativo de toda a época, as</p><p>artes dramáticas mergulharam em um autoquestionamento quanto às próprias estruturas.</p><p>Dentro desses questionamentos, para entender a ação moderna, é preciso,</p><p>primeiramente, entender o herói moderno. Se, no período clássico, o herói era definido</p><p>como uma ferramenta do divino, como uma peça em um tabuleiro, inescapável do jogo</p><p>do destino, o herói da Idade Moderna, assim como a própria essência desse período,</p><p>é um questionador. A construção passa pela dúvida daquilo que o define e pelo</p><p>questionamento quanto à caracterização de herói.</p><p>A ação moderna se retira de uma construção moral superior (divina) e se propõe</p><p>um movimento ético de responsabilidade (terreno, causal). Assim, as personagens</p><p>agem a partir do que as cerca, escolhem de acordo com o desenvolvimento dialético</p><p>das outras personagens com as quais interagem, e percebem, erram, humanamente.</p><p>De certa maneira, a ação moderna (e, poderíamos pensar, mesmo, na Idade Moderna em</p><p>si) recusa a ideia de destino e retira o limite aristotélico entre personagens inferiores e</p><p>superiores, mesclando-os.</p><p>Acadêmico, segue uma lista de obras para compreender, mais a fundo, as perspectivas</p><p>filosóficas mencionadas:</p><p>Discurso Sobre o Método, René Descartes.</p><p>Princípios da Filosofia, René Descartes.</p><p>Princípios da Filosofia – Monadologia, Leibniz.</p><p>A Dobra, Leibniz e o Barroco, Gilles Deleuze</p><p>NOTA</p><p>95</p><p>Fenomenologia do Espírito, Hegel.</p><p>Cursos de Estética, Hegel.</p><p>Introdução à Leitura de Hegel, Alexandre Kojeve.</p><p>Crítica da Razão Pura, Immanuel Kant.</p><p>Crítica da Razão Prática, Immanuel Kant.</p><p>Crítica do Juízo, Immanuel Kant.</p><p>2.1 MODERNIDADE E CONTEXTO</p><p>A Idade Moderna é a era do questionamento. Nela, a sociedade ocidental se</p><p>percebe pequena demais para si mesma e se propõe a descobrir o que jaz para além do</p><p>próprio invólucro.</p><p>Não surpreende que, nessa era, a arte renascentista tenha se desenvolvido, dada</p><p>a propensão a questionamentos que artistas, como Leonardo Da Vinci e Michelangelo,</p><p>tinham, a ponto de estudarem, milimetricamente, a forma de corpos humanos para</p><p>melhor representá-los pictoricamente. Também, não é surpresa que essa seja a época</p><p>das chamadas Grandes Navegações, o princípio da globalização que levou os europeus a</p><p>se depararem com distintos povos em diferentes continentes, o que gerou a colonização</p><p>e teve, como consequência, um trauma irreparável à história mundial.</p><p>Os personagens que melhor definem os heróis modernos são Hamlet, de</p><p>Shakespeare, e Don Quixote, de Cervantes, personagens cravejados de dúvidas: dúvidas</p><p>quanto ao passado, ao presente e ao futuro (no caso de Hamlet), e quanto à própria</p><p>experiência da realidade, no caso de Quixote.</p><p>Questionar se tornou, portanto, a chave dialética que movimentou a Idade</p><p>Moderna, que a jogou para frente. Tendo o início entendido a partir da conquista de</p><p>Constantinopla, pelos turcos otomanos, em 1453, e o fim decretado pela Revolução</p><p>Francesa, de 1789, a Idade Moderna (a qual, de maneira alguma, limita-se a essa</p><p>marca cronológica) iniciou e terminou com questionamentos definitivos de autoridade:</p><p>tomadas de posição de um herói moderno, errando ou acertando.</p><p>Acadêmico, você pode aproveitar o filme de 2015, do diretor</p><p>Justin Kurzel, o qual aborda a história shakespeareana</p><p>Macbeth, filmado de forma a mimificar elementos cênicos</p><p>teatrais: https://www.youtube.com/watch?v=K9UIG3qfvTw.</p><p>DICA</p><p>96</p><p>2.2 TEATRO COMO MEIO DE ASSIMILAÇÃO DA</p><p>MODERNIDADE</p><p>A poesia dramática, por sua vez, em meio a essa chuva de questionamentos</p><p>quanto às ideias, e em um contexto de mudanças fundamentais da sociedade, fez um</p><p>movimento breve de retorno:</p><p>um resgate do classicismo foi empreendido em alguns</p><p>países, como Itália e França. No entanto, seguindo o espírito da época, já não existia</p><p>a possibilidade de se manter cem por cento fiel aos temas clássicos. A modernidade</p><p>invadiu o texto e a cena neoclássica, fazendo com que houvesse uma torção na</p><p>percepção geral do drama, um retorno à tragédia e à comédia.</p><p>Molinari (2010, p. 119) chega a afirmar que o contexto havia se alterado de tal maneira</p><p>que as tragédias escritas nesse período não tiveram reverberação social, considerando os</p><p>espaços nos quais passaram a ser representadas. Favorecia-se a comédia:</p><p>[...] Se é verdade que, no decorrer do século [XVI], escreveram-se</p><p>inúmeras tragédias (como Aristóteles havia dito que a tragédia é o mais</p><p>elevado dos gêneros literários, assim, nenhum letrado digno do nome</p><p>acreditava poder se eximir de escrever uma), só as comédias tiveram</p><p>sucesso no campo da representação. Isso se devia, provavelmente,</p><p>a vários motivos. Como as representações dramáticas eram, quase</p><p>sempre, encenadas no âmbito de festas mundanas, a tragédia não se</p><p>enquadrava, facilmente, na alegre atmosfera celebrativa; a comédia,</p><p>a qual tratava de assuntos comuns e ambientes burgueses, era,</p><p>mais facilmente, actualizável; as encenações ferrarenses dos textos</p><p>de Plauto e de Terêncio, traduzidas para o italiano, demonstraram a</p><p>“agilidade” espetacular da comédia clássica.</p><p>Essa afirmação carrega uma relação íntima com o pensamento de que o contexto</p><p>social informa as práticas artísticas, e, de certa maneira, vice-versa: o prevalecimento</p><p>da comédia como gênero teatral, nesse retorno a formas clássicas, deu uma dica</p><p>da necessidade popular, de não mais interagir com questões ditas elevadas, mas de</p><p>assimilar os questionamentos que, de todos os lados, apresentavam-se.</p><p>O drama começou a funcionar, na Idade Moderna, mais como uma forma de</p><p>processar os avanços que circundavam, mais do que como uma forma de propor uma</p><p>leitura moral a ser seguida. A propensão à escolha, a qual marcou os heróis modernos,</p><p>foi entregue, também, ao público moderno, em forma de uma tradução dos costumes e</p><p>de assimilação das formas mutantes do convívio social.</p><p>3 EBULIÇÃO CULTURAL EUROPEIA E INTERPRETAÇÕES</p><p>Esse questionamento que permaneceu tensionando todas as interpretações</p><p>culturais do continente europeu, na Idade Moderna, geraram uma variada gama de</p><p>interpretações possíveis. Além do retorno ao classicismo, várias sociedades passam</p><p>a desenvolver a própria forma de retornar à instituição dramática, cada uma muito</p><p>informada pelo contexto social no qual se inseria.</p><p>97</p><p>Sobre as diferentes interpretações que nos debruçaremos a partir de agora,</p><p>entendendo como cada uma dessas formações interage com o próprio contexto, com</p><p>o contexto europeu e como elas plantam o terreno para a dramaturgia contemporânea.</p><p>3.1 COMMEDIA DELL’ARTE</p><p>O que conhecemos, hoje, como Comédia Dell’Arte, teve o momento de</p><p>formação em meados do século XVI. Define-se como “[...] o tipo de comédia na qual</p><p>intervêm personagens mascaradas, chamadas “máscaras” tout court, representadas</p><p>por atores profissionais que improvisam, e não decoram os papéis” (MOLINARI, 2010, p.</p><p>142). Essa forma teatral germinou da atmosfera de retorno ao clássico, mas a subverteu,</p><p>com uma estrutura que fugia dos padrões greco-romanos.</p><p>As máscaras são elementos cênicos que, por sua presença, dão a entender a</p><p>expressão da personagem caracterizada. São fixadas em quatro: “as dos dois velhos,</p><p>Pantelão, o mercador veneziano, e o doutor bolonhês (Gaziano ou Balanzone), e as dos</p><p>dois Zanni, ou servidores, Arlequim e Briguela” (MOLINARI, 2010, p. 143).</p><p>Os atores as transferem para a cena, tirando-as do mundo sarapintado</p><p>e multiforme do Carnaval, no qual, segundo alguns, sintetizam símbolos,</p><p>já pouco legíveis no Renascimento, as forças das religiões ctônicas</p><p>do mundo camponês: Zanni, com a larga veste branca, evocaria as</p><p>almas dos mortos que regressariam benignas; Pantaleão, embainhado</p><p>no aderente fato vermelho, seria o demônio infernal; ao passo que</p><p>o fato multicolor do Arlequim simbolizaria “a grande variação dos</p><p>ramos florescentes”, isto é, o eterno reflorescer da primavera.</p><p>A Commedia Dell’Arte funcionava como um contraponto da erudição. O jogo dela,</p><p>pautado sobre o improviso, era inserir o público em um tipo de percepção imediatista da</p><p>realidade, ao mesmo tempo em que, por meio das máscaras, reforçava uma relação de</p><p>outrora com o contexto apresentado.</p><p>FIGURA 3 – ILUSTRAÇÃO MÁSCARAS, DA COMMEDIA DELL’ARTE</p><p>FONTE: <http://twixar.me/JgNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>Arlequin Pantalone Pulcinella Dottore</p><p>98</p><p>3.2 TEATRO ELISABETANO</p><p>O teatro elisabetano, que tem, em Shakespeare, o maior e melhor exemplo,</p><p>elevou a confluência de tragédia e de comédia no drama ao máximo. Existia, ali, um</p><p>posicionamento que burlava as regras gerais de representação, e dava, ao ator, a mesma</p><p>posição da personagem, a de ser responsável, inteiramente, pelo efeito que causava no</p><p>público a partir do texto representado.</p><p>Para melhor observarmos essas características, atente-se a um trecho da obra</p><p>Hamlet, de William Shakespeare:</p><p>Um quarto no castelo de Elsenor.</p><p>Entram o REI, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p><p>O REI</p><p>Há, nele, alguma cousa que me desagrada, e creio que haveria</p><p>perigo para nós em não vigiar a sua loucura; façam pois todos os</p><p>preparativos de viagem. Vou dar as ordens, e quero que parta sem</p><p>demora, para a Inglaterra, acompanhado pelos senhores. O interesse</p><p>da nossa coroa me veda o exporme aos contínuos perigos com que a</p><p>sua demência me ameaça.</p><p>GUILDENSTERN</p><p>Vamo-nos preparar. É um receio santo e salutar o que tem por objecto</p><p>assegurar a salvação de inúmeras existências, que depende da vida</p><p>de Vossa Majestade.</p><p>ROSENCRANTZ</p><p>É um dever que toca cada um na sua esfera individual, o aplicar todas</p><p>as suas forças e toda a energia para defender a própria vida contra</p><p>qualquer ataque; quanto mais obrigado a fazê-lo é aquele de cuja</p><p>vida dependem tantas existências! Quando um rei morre, não morre</p><p>só, é um turbilhão que atrai tudo quanto encontra no caminho, ou lhe</p><p>fica próximo: roda colossal fixada no cume de uma elevada montanha,</p><p>cujos gigantescos raios estão carregados de inúmeros acessórios, e</p><p>cuja queda os impele forçosamente a um desastre comum. Quando</p><p>o rei padece, padecem todos.</p><p>O REI</p><p>Preparem-se, peço-lho, para uma partida imediata, porque estamos</p><p>resolvidos a pôr um termo às causas de inquietação que demasiado</p><p>livremente se dão neste país.</p><p>AMBOS</p><p>Não nos faremos esperar. (Saem.)</p><p>Entra POLÓNIO</p><p>99</p><p>POLÓNIO</p><p>Senhor, Hamlet entrou agora para o quarto de sua mãe; ocultar-</p><p>me-ei cuidadosamente para ouvir a sua conversa. Asseguro a Vossa</p><p>Majestade que a rainha o vai repreender severamente. É conveniente,</p><p>como el-rei muito bem disse, que outros ouvidos que não sejam os</p><p>de mãe, naturalmente propensos à indulgência, ouçam o que se</p><p>disserem mutuamente. Adeus, meu senhor; virei aos seus quartos</p><p>antes que Vossa Majestade se recolha, e o rei será sabedor de tudo</p><p>quanto se passou.</p><p>O REI</p><p>Obrigado, Polónio! (Polónio sai.)</p><p>O REI (só)</p><p>O meu crime já não tem perdão no Céu, está marcado pelo estigma</p><p>da maldição divina, como o foi o primeiro fratricida. Apesar de todos</p><p>os meus desejos, não posso orar; pareço um homem que duas</p><p>ocupações reclamam, e que, não sabendo por qual optar, não escolhe</p><p>nenhuma. Pois que, quando sobre esta mão maldita se formasse</p><p>uma crosta de sangue mais espessa que a própria mão, não teria o</p><p>Céu bastante misericórdia para que a onda da sua graça a purificasse</p><p>e a tornasse branca como a neve? Para que serve a bondade divina,</p><p>senão para remir as nossas culpas? De que vale a oração, se não tem</p><p>a dupla virtude de prevenir a nossa queda, ou obter o perdão depois</p><p>dela? Dirijamos as nossas súplicas ao Céu, já que não podemos</p><p>evitar o crime consumado. Mas, infeliz, como hei-de orar? Perdoai-</p><p>me, Senhor, o meu crime nefando. Não posso, pois que possuo os</p><p>objectos que me induziram ao assassínio, coroa, trono e consorte.</p><p>Poder-se-á obter o perdão, quando se conservam os frutos do crime?</p><p>Neste mundo corrompido, a iniquidade pode a preço de oiro desviar</p><p>o curso da justiça, e com o produto do crime comprar a impunidade;</p><p>mas o Céu é justo, todo o subterfúgio é inútil; ali os nossos actos são</p><p>justamente avaliados e os nossos crimes conhecidos. Que devo fazer?</p><p>Nada me resta. Tentemos o arrependimento. Grande é a sua eficácia;</p><p>mas que pode naquele a quem mesmo o arrepender-se é vedado?</p><p>Oh! Deplorável condição, oh! consciência negra como a morte, oh!</p><p>minha alma, não tens perdão, e quanto mais te esforçares por obtê-</p><p>lo, mais agravas a tua situação. Anjos do Céu, vinde em meu auxílio,</p><p>tentai um esforço supremo. Dobrai-vos, joelhos rebeldes. E tu, meu</p><p>coração, que as tuas fibras de aço voltem ao estado primitivo das do</p><p>recém-nascido. Ainda me resta esta última esperança. (Retira-se a</p><p>um lado da cena, ajoelha e ora.)</p><p>Entra HAMLET.</p><p>HAMLET (vendo o rei)</p><p>A ocasião é propícia, está orando. Coragem, Hamlet. Sim, mas salvar-</p><p>se-ia a sua alma, e não é essa a minha vingança desejada. Reflictamos;</p><p>um celerado assassina meu pai, e eu, seu filho único, abro as portas</p><p>do Céu a esse infame! Seria uma recompensa e não um castigo.</p><p>Assassinou meu pai, entregue às preocupações da carne, quando</p><p>seus pecados mais vivazes estavam, como as flores na Primavera; e</p><p>quem sabe, a não ser o Céu, que contas daria ao Criador? as penas</p><p>100</p><p>eternas, decerto, não o pouparam. Seria uma vingança imolar este</p><p>celerado, quando a sua alma deve estar pura, quando está preparado</p><p>para a sua última viagem? Não! Entra na tua bainha, minha espada,</p><p>e espera para ferir, golpe mais terrível e justo. Quando estiver ébrio</p><p>ou adormecido, ou encolerizado, ou imerso nos prazeres de um leito</p><p>incestuoso, ou absorvido pelo jogo, ou blasfemando, ou praticando</p><p>algum acto contrário à salvação da sua alma, então fere, que as</p><p>penas do Inferno serão poucas para um tal crime. (Olhando para o</p><p>rei.) Prolonga ainda os teus dias enfermos: adiar não é desistir. (Sai.)</p><p>O REI</p><p>Sobem as minhas palavras, o pensamento não, e as palavras sem</p><p>o pensamento não chegam ao Céu (Sai.) (SHAKESPEARE, 2015, p.</p><p>121-124).</p><p>A cena anterior aconteceu logo depois de, planejando uma peça que trataria do</p><p>assassinato do rei, Hamlet descobrir a culpa do próprio tio (o atual Rei, Claudio) perante</p><p>o assassinato do pai (o antigo rei). Muito dessa cena expressa, de maneira aguda, o</p><p>teatro shakespeareano, pois, na medida em que, justamente, por causa de uma escolha</p><p>de Hamlet, a de não assassinar Claudio enquanto este orava, há o fim trágico da peça. A</p><p>escolha do herói teve consequências palpáveis para o desenrolar dramático. Se Hamlet</p><p>não tivesse adiado a vingança, o banho de sangue que concluiu o drama do príncipe da</p><p>Dinamarca poderia ter sido evitado.</p><p>O drama elisabetano usava o texto para comentar os acontecimentos políticos da</p><p>Inglaterra. Era uma maneira de se produzir assimilação ao mesmo tempo em que se traduzia</p><p>uma possibilidade de mobilização política. Não por acaso, os textos shakespeareanos são</p><p>todos cravejados de referências ao cenário político no qual se inserem.</p><p>FIGURA 4 – TELA DE EUGENE DELACROIX, HAMLET E HORÁCIO NO CEMITÉRIO, 1839</p><p>FONTE: <http://twixar.me/tgNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>101</p><p>3.3 SÉCULO DE OURO E BARROCO ESPANHOL</p><p>O Barroco se define como um gênero artístico que coaduna, em si, a dúvida que</p><p>marcava o tempo da modernidade. A tentativa de assimilação do claro e do escuro, na</p><p>pintura de Caravaggio, por exemplo, é um ótimo exemplo dessa tendência. Massaud</p><p>Moisés comenta a respeito das características formais do Barroco, no Dicionário de</p><p>Termos Literários:</p><p>[...] O jogo do claro-escuro, da luz e da sombra, a assimetria, o</p><p>contraste, a abundância de pormenores, o retorcido da sintaxe,</p><p>as inversões desconcertantes e cerebrinas, o rebuscamento das</p><p>metáforas, a euforia dos sentidos em jatos sinestésicos sucessivos,</p><p>a recusa do vocabulário “fácil”, popular, o aristrocacismo, o</p><p>amaneiramento (MOISÉS, 2013, p. 54).</p><p>Já quanto ao conteúdo, o autor afirma que o Barroco prezava por provocar “[...]</p><p>a obscuridade, o sensualismo (especialmente, o visual), a tensão entre a fé e a razão,</p><p>o misticismo e o erotismo, entre o apolíneo e o dionisíaco, entre a aventura e a ordem,</p><p>entre a miséria da carne e a transcendência do espírito, entre a racionalidade e a fantasia</p><p>etc.” (MOISÉS, 2013, p. 54).</p><p>O século de ouro do teatro espanhol, dessa forma, foi, absolutamente, barroco,</p><p>na medida em que foi escrito em uma posição de assimilação incomum de contrários, e</p><p>tinha, como temática e como resultado prático, justamente, esse tensionamento dúbio</p><p>universal.</p><p>Não apenas a Igreja participou, na Espanha, da efervescência do século de ouro,</p><p>também, produzia peças profanas, além das que tinham, como tema, o sagrado. De fato,</p><p>os mesmos dramaturgos que passaram a ser sinônimos do período, Lope de Vega, Tirso</p><p>de Molina e Pedro Calderon de la Barca, escreviam ambas as formas dramáticas.</p><p>O século de ouro ficou conhecido como um período em que se empenhou</p><p>em, pela dramaturgia, habilitar a Igreja Católica, de maneira que ela não fosse vista</p><p>como tirana frente às imposições ideológicas. Apesar de os textos profanos do mesmo</p><p>período terem uma relação temática íntima com a ideia de herói moderno e a tomada</p><p>de decisões, o período, hoje, aviva mais as memórias dos autos sacramentais e da</p><p>reverberação da moral cristã.</p><p>102</p><p>FIGURA 5 – TELA JUDITE E HOLOFERNES (1599), DO PINTOR ITALIANO MICHELANGELO CARAVAGGIO,</p><p>É CONSIDERADA UM EXEMPLO DO JOGO DE CLARO ESCURO COMO TÉCNICA BARROCA</p><p>FONTE <http://twixar.me/8gNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>3.4 NASCIMENTO DA ÓPERA</p><p>A ópera é um gênero dramático que abarca o texto dramático e a música. É um</p><p>gênero, portanto, que remonta às primeiras formações dramáticas da Grécia antiga, e</p><p>que se atualizou pelo texto e pelo contexto da Idade Moderna. O surgimento aconteceu</p><p>por volta do século XVII, na Itália.</p><p>Nascida na Itália, em meados do século XVI, teve, como parte fundamental</p><p>da produção catártica, a referência a uma história conhecida. Dessa forma, muitos</p><p>dos libretos textuais das óperas eram histórias folclóricas ou clássicas que remetiam</p><p>o espectador a algo já conhecido. Esse subterfúgio se fez necessário pois, muitas</p><p>vezes, pelo excesso de informação estética proposto em um espetáculo de ópera, as</p><p>informações textuais eram sombreadas pelas proezas técnicas no palco.</p><p>FIGURA 6 – UMA CENA OPERAICA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/BgNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>103</p><p>3.5 RESGATE FRANCÊS</p><p>O teatro francês, na modernidade, teve dois momentos fundamentais. O</p><p>primeiro foi um resgate da tradição clássica. Nele, os temas, as demandas e a estrutura</p><p>dos dramas eram, todos, retirados da antiguidade greco-romana. No entanto, a própria</p><p>natureza contextual, como inserir um texto trágico na Idade Moderna, modificava</p><p>a percepção do público. Devido a essa característica, o teatro francês passou a se</p><p>aproximar do próprio contexto e a conversar, intimamente, com os ares revolucionários</p><p>que perpassavam o país. Isso foi chamado de Grand Siecle.</p><p>O teatro começava a espelhar o novo público; a aristocracia da corte</p><p>mascarava o gosto vulgar pela intriga amorosa por trás do polido e</p><p>apaixonado cortejamento das damas, o que fingia renunciar com o</p><p>coração dilacerado, em nome de um ideal mais nobre, e um amor já</p><p>obsoleto (na corte de Luís XIV, o Rei-Sol, os problemas de Estado, da</p><p>hierarquia e os do coração estavam, profundamente, interligados).</p><p>A sublimação</p><p>poética dessa sociedade foi obra de Jean Racine</p><p>(1639-1699); o dilema das personagens, obrigadas a escolher entre</p><p>as razões do amor e do dever, da honra, do Estado, torna-se uma</p><p>intensa consumição interior, e a tomada de consciência não se</p><p>esgota na mera enunciação, gera o desesperado remexer nos</p><p>recessos da alma, o que desemboca na morte (Fedra), ou no, ainda,</p><p>mais doloroso sacrifício da partida, como na exemplar Berenice. Sem</p><p>que, praticamente, nada aconteça, é narrada a separação da rainha</p><p>oriental do imperador Tito. Naturalmente, é a expressão direta dos</p><p>sentimentos que prevalece, donde o constante lirismo do tom dessas</p><p>tragédias (MOLINARI, 2010, p. 168).</p><p>O drama, aqui, começou a dar o tom, os importantes acontecimentos políticos</p><p>que surgiam. Existia, no drama moderno francês, uma partícula em germe que trazia</p><p>à tona a revolução, isto é, o entendimento do sujeito como um indivíduo capaz de</p><p>tomar as próprias escolhas e de viver com as consequências delas, sejam boas ou não.</p><p>Essa centralidade do sujeito e das emoções dele, a qual muito informa o romantismo</p><p>característico da época, é uma peça fundamental na construção do discurso político e</p><p>das movimentações ocorridas.</p><p>3.6 ALEMANHA E EFEITOS</p><p>Na Alemanha, devido aos inúmeros conflitos que informavam a terra durante</p><p>o correr da Idade Moderna, o teatro teve, como cenário, uma incerteza ainda maior do</p><p>que nos países que cercavam aquele território. Por causa disso, no entanto, a Alemanha</p><p>passou a ser um lugar de efervescência, com distintas interpretações do drama.</p><p>O teatro alemão, no período entre meados do século XVI e meados</p><p>do século XVIII, apresenta características, definitivamente, anômalas,</p><p>quer do ponto de vista dramatúrgico, quer do ponto de vista</p><p>espetacular e organizativo: uma situação complexa e, em certa</p><p>medida, caótica, a qual corresponde à pesquisa levada a cabo na</p><p>Alemanha, a respeito da individualidade cultural e dos difíceis e</p><p>104</p><p>complicados sistemas político e religioso de um país, efetivamente,</p><p>dividido, embora, nominalmente, unido pela grande e antiga estrutura</p><p>imperial, permanentemente, atravessado por guerras recorrentes,</p><p>dentre as quais a interminável Guerra dos Trinta Anos, que o deixará</p><p>arrasado e empobrecido (MOLINARI, 2010, p. 236).</p><p>Essas características específicas do território alemão fizeram, dele, o que</p><p>Molinari denomina de uma “terra de conquista”: a importância fulcral da Alemanha do</p><p>período para a história do teatro europeu, o que permitiu a grande prosperidade da</p><p>época romântica, além da originalidade. Com isso, o autor quer dizer que as influências</p><p>de todo o território europeu se infiltravam na produção alemã. Dessa forma, a ópera foi</p><p>popularizada e desenvolvida no drama alemão, o herói moderno tomou um espaço de</p><p>direito nas representações dramáticas, o Barroco se instaurou como uma possibilidade</p><p>estética, e assim por diante.</p><p>Nesse ínterim, desenvolveu-se o romantismo alemão, uma escola teórica e</p><p>estética que tinha, como ideia, o desvio das estruturas políticas da época. A movimentação</p><p>em direção a uma república, a valorização da individualidade e da liberdade, a crítica</p><p>aguda aos modos de ser da aristocracia, tudo isso informava um espírito alemão que</p><p>tinha a arte dramática como um dos meios de divulgação.</p><p>Pensemos, por um momento, na peça Os Bandoleiros, de Friedrich Schiller. Nela,</p><p>o irmão mais novo, Franz, engana o próprio pai, um aristocrata, para que este deserde</p><p>o irmão mais velho, Klaus. Klaus, sem saber do plano do caçula, recebe uma carta de</p><p>condenação (escrita por Franz, mas, supostamente, assinada pelo pai, Maximillian).</p><p>Influenciado por um grupo de amigos, decide entrar para uma vida do crime, e junta,</p><p>então, os bandoleiros. Apesar de Klaus ser um criminoso, Schiller o retrata sob uma bela</p><p>luz, pois ele luta contra as partes corruptas da sociedade estabelecida, é o perfeito anti-</p><p>herói moderno, aquele que se posiciona sobre as decisões e aceita as consequências.</p><p>Franz tem ânsias de tomar o poder do condado de Moor, onde o pai reina, e o plano tem,</p><p>esse, como o objetivo maior. A representação textual de Franz dá a entender a vilania dele,</p><p>pois não possui a beleza e a bondade do irmão, nem a liberdade, por isso, é um tirano.</p><p>Não é difícil lermos essa peça como uma alegoria da situação alemã da época,</p><p>uma forma de propagandear o descontentamento perante a situação. Essa peça,</p><p>e muitas outras, focavam no poder de mudança do indivíduo, e resumiam bem não</p><p>apenas o romantismo alemão, mas, também, a própria ideia de posicionamento dos</p><p>personagens, dos heróis, os quais povoavam o imaginário da Idade Moderna.</p><p>4 EFEITOS POSTERIORES</p><p>Acadêmico, caminhando, agora, para o fim da sua segunda unidade, estudaremos,</p><p>apenas um pouco, aquilo que, da Idade Moderna, fez marca, com uma tradição bem</p><p>estabelecida na dramaturgia contemporânea. Assim, é possível preparar o terreno para</p><p>a próxima unidade do seu livro didático, a qual focará no drama contemporâneo.</p><p>105</p><p>4.1 MUDANÇA NA PERSPECTIVA DA AÇÃO DRAMÁTICA</p><p>Durante o desenvolvimento e o relacionamento da dramaturgia com o público,</p><p>muitas coisas são modificadas, restauradas, institucionalizadas e, então, novamente,</p><p>quebradas. Quanto a isso, é, sempre, interessante notar como a unidade da ação</p><p>dramática, muito cara à dramaturgia aristotélica, foi se modificando com o tempo, com</p><p>uma forte quebra da tradição na Idade Moderna.</p><p>A partir da análise do teatro elisabetano, Molinari (2010, p. 212) retrata um</p><p>dos pontos reestruturados na Idade Moderna, e que sobrevivem como perspectiva</p><p>performática contemporaneamente:</p><p>Do ponto de vista da estrutura dramática, poder-se-á dizer que os</p><p>dramas de Shakespeare, em particular, as histories, são constituídos</p><p>por rasgos de iluminação que surgem ora neste, ora naquele</p><p>momento da ação, que, assim, desenrola-se através de paralelismos</p><p>e contrastes para lá de toda a sequencialidade cronológica. As</p><p>unidades de tempo e de lugar são negadas mesmo quando a ação</p><p>se desenrola substancialmente, no mesmo âmbito local e temporal;</p><p>os diferentes pontos do castelo de Elsinore são tão distantes entre si</p><p>quanto as diversas cidades da França, onde se arrasta o fatigado e</p><p>vitorioso exército de Henrique IV.</p><p>Essa reformulação, do entendimento das unidades temporais e espaciais,</p><p>sobrevive, contemporaneamente, pela forma como amplifica as possibilidades da ação</p><p>dramática, e aumenta o escopo das possibilidades visuais de uma apresentação. Esse</p><p>tipo de característica germina, fortemente, no cinema e na teledramaturgia.</p><p>4.2 HERÓI MODERNO</p><p>Como vimos anteriormente, o herói moderno tem, na essência dele, o</p><p>questionamento, a dúvida. Colocado de frente a um contexto de tensionamentos</p><p>sociais, esse herói tem a escolha como o estandarte dele.</p><p>A invenção do herói moderno tem raízes no enfrentamento do destino como</p><p>inescapável, como se percebia na antiguidade clássica e sobrevive contemporaneamente,</p><p>pois abre um leque que possibilita aumentar as perspectivas de cada personagem e da</p><p>própria percepção subjetiva de universo.</p><p>No livro O Hércules Moderno, os editores Alastair J. L. Blanshard e Emma</p><p>Stafford afirmam que o herói moderno é “um reflexo das esperanças e dos medos da</p><p>humanidade coletiva” (BLANSHAR; STAFFORD, 2013, p. 204). Essa é uma característica</p><p>fundamental para a diversificação da representação dramática do contexto, na medida</p><p>em que as modulações propostas no texto dramático são, imediatamente, assimiladas</p><p>pelo coletivo humano externo, através do texto e da performance.</p><p>106</p><p>4.3 CONFLITOS EM SUSPENSÃO</p><p>A Idade Moderna, portanto, encapsulou uma quantidade enorme de conflitos.</p><p>Começando e terminando com o derramamento de sangue,</p><p>2.4 ENCENANDO A LUTA POLÍTICA ............................................................................................146</p><p>3 DESDOBRAMENTOS DE MÍDIAS DA DRAMATURGIA ............................................150</p><p>3.1 CINEMA ENTRA EM CENA ........................................................................................................151</p><p>3.2 TELEDRAMATURGIA E EFEITOS HOJE ...............................................................................152</p><p>4 POLÍTICAS DAS CENAS: DRAMA COMO ELEMENTO DE</p><p>METAMORFOSE SOCIAL ......................................................................................... 153</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 ...............................................................................................154</p><p>AUTOATIVIDADE ........................................................................................................ 155</p><p>TÓPICO 2 — PERFORMANCE: CORPO EM CENA E RAZÕES DE SER........................ 157</p><p>1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 157</p><p>2 PERFORMANCE E DESENVOLVIMENTO NO SÉCULO XX ......................................158</p><p>3 CONTEMPORÂNEO COMO ESPAÇO DE RESGATES HISTÓRICOS E</p><p>TENSIONAMENTOS ESTÉTICOS .............................................................................161</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2 ............................................................................................... 162</p><p>AUTOATIVIDADE ........................................................................................................163</p><p>TÓPICO 3 — COMO O DRAMA ENSINA? ..................................................................... 165</p><p>1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 165</p><p>2 DIDÁTICA DE AGIR, DIDÁTICA DE INVENTAR ........................................................ 165</p><p>3 TEATRO E ESCOLA ..................................................................................................168</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR ....................................................................................... 170</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 ............................................................................................... 175</p><p>AUTOATIVIDADE ........................................................................................................ 176</p><p>REFERÊNCIAS ............................................................................................................ 177</p><p>1</p><p>UNIDADE 1 —</p><p>OS ELEMENTOS DE</p><p>COMPOSIÇÃO DA</p><p>DRAMATURGIA</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• compreender as raízes históricas do gênero dramático;</p><p>• identificar as características que constituem esse gênero;</p><p>• discernir os diferentes elementos que compõem um texto dramático;</p><p>• entender os conceitos fundamentais do fazer teatral;</p><p>• extrapolar as criações teatrais e os possíveis comentários sociais;</p><p>• compreender os valores culturais da dramaturgia como prática.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará</p><p>autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – UNIDADES DRAMÁTICAS E DESENVOLVIMENTOS</p><p>TÓPICO 2 – POÉTICA DA CENA E CONSTRUÇÃO DRAMÁTICA</p><p>TÓPICO 3 – GÊNEROS, TIPOS E INTERPRETAÇÕES</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure</p><p>um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>2</p><p>CONFIRA</p><p>A TRILHA DA</p><p>UNIDADE 1!</p><p>Acesse o</p><p>QR Code abaixo:</p><p>3</p><p>UNIDADES DRAMÁTICAS E</p><p>DESENVOLVIMENTOS</p><p>TÓPICO 1 — UNIDADE 1</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Desde que os seres humanos passaram a se organizar em grupos sociais, toda a</p><p>organização comunitária construída por eles teve, como traço partilhado, a necessidade de</p><p>contar histórias. A dramaturgia, como prática artística e narrativa, nasce como forma de</p><p>dar vazão a essa pulsão que é tão humana. Contudo, o que seria, de fato, a “dramaturgia”?</p><p>Quais são as práticas que a informam? Quais são as estruturas que a sustentam? Talvez,</p><p>mais importante do que isso, existe uma dramaturgia ideal ou as definições dela se</p><p>desdobram em questões várias? Por essas e outras questões que, juntos, navegaremos</p><p>ao longo do presente tópico. Compreender não só o que é dramaturgia, mas as</p><p>ferramentas que ela proporciona como prática humana é parte fundamental do que</p><p>será proposto. Para nos aclimatar ao que está por vir, nesta introdução, colocaremos em</p><p>voga algumas das questões que constituem, ou melhor, compõem, o caminho à frente.</p><p>O gênero dramático, como se entende hoje, data da Grécia clássica, tem como</p><p>o primeiro estudioso, o filósofo Aristóteles. Na obra dele Poética, Aristóteles tenta</p><p>pensar nas implicações dos gêneros poéticos do tempo dele, assim, aprofunda-se</p><p>nos desdobramentos presentes na chamada “poesia dramática”. Acompanhados de</p><p>Aristóteles, voltar-nos-emos ao princípio desse gênero criativo para compreender a</p><p>diferença instituída pelo texto dramático em relação a outros gêneros poéticos.</p><p>O que faz, de um texto, um texto dramático, e não um poema lírico? O que difere</p><p>a dramaturgia do poema épico ou narrativo? Essas são algumas das questões sobre as</p><p>quais nos debruçaremos no presente tópico. O texto dramático, as características dele,</p><p>os personagens, o criador e o entorno são os pontos cruciais deste primeiro tópico do</p><p>seu livro didático. É a partir do entendimento de como um texto teatral se destaca de</p><p>outros gêneros poéticos que se pode melhor compreender a forma através da qual esse</p><p>gênero incorpora o espírito de seu tempo como nenhum outro o faz.</p><p>4</p><p>2 ORIGEM DO GÊNERO DRAMÁTICO</p><p>A origem do gênero dramático é tida de maneira polêmica no meio acadêmico</p><p>internacional. Para entender como essa questão se desdobra, é preciso conhecer</p><p>as diferentes linhas que permeiam o que causou a mudança de direção, da forma</p><p>de expressão cultural da Grécia Antiga, dos gêneros poéticos líricos e épicos para o</p><p>gênero dramático. Então, antes que possamos destacar o ponto central da polêmica, é</p><p>importante que possamos analisar o que são esses outros gêneros poéticos e como eles</p><p>diferem do gênero dramático.</p><p>O mais famoso discípulo de Platão, Aristóteles, construiu, ao longo da vida</p><p>dele, uma obra riquíssima, a qual pensou, de maneira aprofundada, nos mais diversos</p><p>temas: desde a matemática, passando pela política, e, é claro, detendo-se, também, às</p><p>expressões artístico-culturais do povo. É em uma obra na qual Aristóteles se debruça</p><p>sobre a arte grega, a partir da qual podemos encontrar a melhor discriminação entre</p><p>os diferentes gêneros poéticos. Nessa obra aristotélica, intitulada de Poética, o filósofo</p><p>define, diferencia e analisa os gêneros poéticos lírico, épico e dramático.</p><p>O gênero lírico, para o filósofo, caracterizava-se pela representação (mimese)</p><p>de emoções em uma métrica musical definida, como em um canto. Já o gênero épico,</p><p>também, conhecido como epopeia, ou gênero narrativo, tinha, como enfoque de</p><p>representação, uma história a se contar, da mesma maneira feita no gênero dramático.</p><p>Aristóteles passou a maior parte da sua Poética refletindo, justamente, a respeito da</p><p>diferenciação entre esses dois gêneros. Na medida em que ambos contavam uma</p><p>história, o que os diferiria? Para o filósofo grego, a forma era a principal diferença entre</p><p>as duas. Ele nos diz que “a epopeia acompanha a tragédia até o ponto de ser a mimese</p><p>de homens de caráter elevado, por meio da linguagem metrificada, mas se diferencia</p><p>por ter, a epopeia, uma métrica uniforme, e por ser uma narrativa” (ARISTÓTELES, 2015,</p><p>p. 69). Assim, ressalta-se que o gênero dramático, aqui, representado pela tragédia,</p><p>constrói-se a partir de uma métrica não uniforme (na apresentação dos diálogos) e por</p><p>ser uma dramatização.</p><p>O que causou o deslizamento cultural</p><p>essa época da história</p><p>humana desenvolveu alguns dos maiores avanços percebidos na contemporaneidade.</p><p>O que sobrou dela, no entanto, foi a falta de resolução para esses conflitos, mantendo a</p><p>história em constante suspensão. Espera-se, da Idade Moderna, um desenlace que não</p><p>chega, ou melhor, que se anuncia para a era contemporânea.</p><p>A era contemporânea e a idade das revoluções e das guerras que se estenderam</p><p>do fim do século XVIII até o século XXI serão estudadas na próxima unidade do seu</p><p>livro didático. Como a arte dramática se modifica e prepara o público para assimilar</p><p>esses grandes eventos históricos? Quais novas formas performáticas são criadas para</p><p>que essa assimilação possa vir a acontecer? O que podem, o teatro, a dramaturgia e a</p><p>performance, ensinar-nos a respeito de como lidar com um mundo que diversificou os</p><p>conflitos de tal maneira que, mesmo as escolhas do herói moderno, passam a ser objeto</p><p>de questionamento?</p><p>107</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>AS INOVAÇÕES NO TEATRO DE SHAKESPEARE</p><p>Carolina Cunha</p><p>No século 16, na Inglaterra, no período da rainha Elizabeth, um grupo de jovens</p><p>escritores começou a escrever peças e deu início ao chamado teatro elisabetano, o</p><p>qual se tornou muito popular. Em 1591, o jovem William Shakespeare decidiu sair da</p><p>cidadezinha de Stratford-upon-Avon e se mudou para Londres, onde assimilou o que</p><p>já havia sido feito no teatro e potencializou a criação. Tornou-se ator, escreveu peças e</p><p>virou diretor do Teatro Globe, o mais prestigiado da capital. A trupe dele era considerada a</p><p>número 1 da cidade, e se apresentava para todo tipo de plateia, conseguindo entreter, ao</p><p>mesmo tempo, os nobres e o povo.</p><p>Filho de um comerciante, Shakespeare nasceu em abril de 1564, e morreu</p><p>aos 52 anos de idade. Foi autor de 38 peças (entre históricas, comédias e tragédias),</p><p>como Hamlet, Romeu e Julieta, Otelo, Macbeth, Sonho de Uma Noite de Verão, Ricardo</p><p>III, Rei Lear, A Megera Domada, A Tempestade, dentre outras. Shakespeare se tornou o</p><p>dramaturgo mais conhecido de todos os tempos, tendo influenciado toda a produção</p><p>teatral que viria depois dele. Fora dos palcos, escreveu 154 sonetos e uma variedade de</p><p>outros poemas.</p><p>No mês no qual se comemoram os 450 anos do nascimento do bardo inglês,</p><p>o Almanaque Saraiva das inovações do teatro shakespeariano que, até hoje, estão</p><p>presentes nas produções teatrais. Como o próprio Shakespeare dizia: “O mundo é um</p><p>palco, e todos os homens e as mulheres são meros atores”.</p><p>RUPTURA DA TRAGÉDIA CLÁSSICA</p><p>Considerado o berço do teatro ocidental, a antiga Grécia produziu o drama</p><p>trágico. Estabelecida a partir de Aristóteles, a lei das três unidades – ação, espaço,</p><p>tempo – é considerada a regra obrigatória para a encenação da tragédia clássica, mas</p><p>Shakespeare rompeu essa lei em peças dramáticas, como Hamlet (escrita entre 1599 e</p><p>1601) e Otelo (escrita por volta de 1603), e foi criador do conceito da cena moderna.</p><p>A unidade do lugar é a que se rompe com mais evidência. Enquanto as peças</p><p>gregas e latinas, até então, desenvolviam-se em um único espaço, normalmente, em</p><p>frente a um palácio, em Shakespeare, os cenários são múltiplos. Com a unidade de</p><p>ação, a ruptura, também, é clara: enquanto no drama grego a ação deve ser centrada</p><p>no personagem principal – rei, rainha ou outra figura nobre –, na dramaturgia de</p><p>Shakespeare, personagens secundários têm autonomia de confabular e determinar</p><p>novos rumos. Cai, por terra, também, a unidade de tempo. Na tragédia grega, desenvolve-</p><p>se a trama no período de um dia, porque está centrada na solução do conflito”, observa</p><p>Paula Mathenhauer Guerreiro, pesquisadora em Artes da Cena, da Unicamp.</p><p>108</p><p>MESTRE DAS COMÉDIAS E DO AMOR</p><p>No teatro elizabetano, os autores, também, começaram a explorar novos</p><p>gêneros, como as comédias românticas e as tragicomédias. Um dos maiores talentos</p><p>de Shakespeare era escrever cenas cômicas. Ele era dono de um humor sagaz e irônico,</p><p>com diálogos engraçados que surgiam, muitas vezes, em meio à desgraça alheia.</p><p>“Antes de Shakespeare, principalmente, no teatro grego, você tem a tragédia</p><p>e a comédia sendo tratadas de formas separadas. O que Shakespeare faz é observar</p><p>que, na vida, a comédia e a tragédia não andam separadamente, mas são simultâneas.</p><p>Por exemplo, em um velório, enquanto uns choram sobre o caixão, outros podem estar</p><p>na sala ao lado contando anedotas – essa é a realidade da vida. Shakespeare coloca</p><p>essa realidade lado a lado no palco”, diz Ronaldo Marin, professor do Instituto de Artes e</p><p>Multimeios da Unicamp, e diretor do Instituto Shakespeare Brasil.</p><p>As idas e vindas das paixões, também, interessavam o bardo. Shakespeare</p><p>gostava de fazer piadas com temas, como o amor e o casamento. As peças A Megera</p><p>Domada, Sonho de Uma Noite de Verão e Muito Barulho por Nada, escritas no final dos</p><p>anos 1590, trazem casais que se desencontram e sonham em viver felizes para sempre.</p><p>São as ancestrais das atuais comédias românticas do cinema.</p><p>UM INVENTOR DE NOVAS PALAVRAS</p><p>“Em se tratando de invenção, o que Shakespeare foi, mesmo, foi um grande</p><p>construtor de neologismos. Quando ele precisava de uma palavra e ela não existia, ele,</p><p>simplesmente, a inventava”, comenta Marin.</p><p>Shakespeare usava um vocabulário muito vasto. Naquele tempo, a língua inglesa,</p><p>ainda, estava em formação, e contava com cerca de 150 mil palavras. O dramaturgo</p><p>usou, nos textos dele, quase 20 mil palavras, e cunhou mais de três mil novos termos.</p><p>Até Machado de Assis reconheceu os méritos do vocabulário shakespeareano,</p><p>não só na criação de palavras, mas na forma de falar dos personagens. “O Império</p><p>Britânico passará, a república Norte-Americana passará, mas Shakespeare permanecerá.</p><p>Quando não se falar mais inglês, falaremos Shakespeare”, comentou, certa vez, o escritor</p><p>brasileiro.</p><p>“A grande variedade de estilos marca Shakespeare. Ele provocou muitas</p><p>inovações na linguagem. Introduziu palavras novas na língua inglesa, adaptou palavras</p><p>de dialeto e usou várias formas da linguagem popular. Em muitas peças, ele usa palavras</p><p>muito chulas, com muitas referências sexuais e insultos, mas, também, produziu uma</p><p>linguagem pomposa e diálogos com poesia de altíssima qualidade”, diz John Milton,</p><p>professor de Literatura Inglesa, da USP.</p><p>109</p><p>Para o professor, o inglês daquela época, hoje, pode soar rebuscado. “As peças</p><p>são difíceis com a linguagem arcaica. Muita gente abre Shakespeare e não consegue</p><p>entender nada. Por isso, as adaptações podem ser uma boa porta de entrada para o</p><p>universo dele, mas ele, ainda, continua atual. Apesar de as peças terem sido escritas</p><p>há séculos, ainda, são muito pertinentes e trazem temas que nos preocupam até hoje”.</p><p>PERSONAGENS HUMANIZADOS</p><p>A dramaturgia shakespeariana é conhecida pela extensa galeria de personagens</p><p>emblemáticos, como Hamlet, Ofélia, Otelo, Iago, Cleópatra, Rei Lear, Macbeth, Desdê-</p><p>mona, Rosalinda, dentre outros.</p><p>Shakespeare criou mais de mil personagens, muitos dotados de uma dimensão</p><p>interior nunca vista antes nas histórias. Da pena do autor, saíram diálogos que discutem</p><p>temas da filosofia, da teologia, da metafísica.</p><p>Os personagens vão do desespero à felicidade, em tramas que falam de amor,</p><p>de loucura, de guerra, de disputa pelo poder, de política e de liberdade. Shakespeare</p><p>criou alguns dos primeiros anti-heróis da literatura, protagonistas que não possuem</p><p>vocação heroica, têm um quê de malvado, podendo realizar a justiça por motivações</p><p>egoístas.</p><p>“Todos os grandes heróis trágicos dele têm falhas com as quais podemos nos</p><p>associar, como o ciúme de Otelo, a ambição de Macbeth, a atração pelo poder de Ricardo</p><p>III, a procrastinação de Hamlet, e, na tragédia de Cleópatra, Marco Antônio é um homem</p><p>poderoso que larga tudo por amor. Todos os personagens têm essas características</p><p>muito humanas”, diz Milton.</p><p>UM MARCO</p><p>DA MODERNIDADE</p><p>O mundo de Shakespeare era um mundo em transição, transformado</p><p>pelo Renascimento, pelas Grandes Navegações, pela filosofia de Maquiavel e pelo</p><p>heliocentrismo de Copérnico. Segundo o crítico norte-americano Harold Bloom, as</p><p>criações do dramaturgo expressaram o conhecimento e o espírito da época moderna, o</p><p>que definiu a condição humana como a entendemos hoje.</p><p>Para Marin, “os personagens deixam de ser guiados pelo sobrenatural e assumem</p><p>uma atitude crítica diante das próprias vidas. Shakespeare foi pioneiro neste profundo</p><p>mergulho no abismo dos mistérios da alma humana. Nem mesmo o teatro grego atingiu</p><p>tamanha profundidade, pois, nele, os seres humanos são comandados pela vontade dos</p><p>deuses e do destino. Em Shakespeare, não. O homem é o responsável pela construção</p><p>do próprio destino. Nada mais moderno. Essencialmente, o ser humano permanece o</p><p>mesmo, por isso, Shakespeare permanece tão atual”.</p><p>110</p><p>Em Hamlet, por exemplo, o príncipe Hamlet encontra o fantasma do pai, o qual</p><p>clama por vingança contra o seu assassinato, pelas mãos do próprio irmão, Cláudio,</p><p>o novo ocupante do trono da Dinamarca e do coração da rainha. O jovem príncipe</p><p>mergulha em profunda melancolia, e, para provar a culpa do rei, decide se passar por</p><p>louco e fazer uma trupe de atores encenar a morte de seu pai diante de toda a corte.</p><p>“Ser ou não ser, eis a questão”, diz Hamlet, manifestando a angústia com a</p><p>existência, alguém que não sabe para onde ir e nem o quer. A peça é uma tragédia</p><p>de vingança, e a tensão gira em torno de um tormento pessoal. Na trama, a reflexão</p><p>supera a ação e temas, como a solidão do homem, o autoconhecimento e o indivíduo</p><p>que toma consciência de si, aparecem pela primeira vez. O conflito hamletiano destoa</p><p>das tradicionais peças do gênero que eram encenadas até então, refletindo uma nova</p><p>maneira do homem de se relacionar com o mundo.</p><p>Marin lembra, ainda, da primeira frase da peça: “Quem está aí?”. “Dessa forma,</p><p>ele inaugura todo o pensamento da modernidade, que persiste na busca deste eu</p><p>interior: “quem está aí? Quem é esse ser que pensa, sente e fala? Quem sou eu?” Não</p><p>sem motivo, para Freud, Shakespeare é o autor do grande teatro da mente”.</p><p>Para Paula, o legado de Shakespeare é inegável, mas é difícil definir, com exatidão,</p><p>a influência dele na produção contemporânea. “Em se tratando de uma tradição à qual</p><p>sempre se retorna, ainda que seja para se reinventar, Shakespeare influencia o teatro</p><p>que se faz em qualquer época. Pontuar essas influências, no entanto, é muito difícil no</p><p>contexto híbrido e plural da cena contemporânea”.</p><p>FRASES QUE ENTRARAM PARA A HISTÓRIA</p><p>Shakespeare articulou pensamentos e diversas frases proferidas pelos</p><p>personagens dele que se tornaram senso comum e ditos populares. Conheça algumas</p><p>das frases que saíram da boca dos personagens, as quais ficaram famosas e são comuns</p><p>no dia a dia:</p><p>“O amor é cego”</p><p>“Até tu, Brutus”</p><p>“Meu reino por um cavalo”</p><p>“Há algo de podre no reino da Dinamarca”</p><p>“Isso parece grego pra mim”</p><p>“Nem tudo o que reluz é ouro”</p><p>“Colocar o carro na frente dos bois”</p><p>“O que não tem remédio, remediado está”</p><p>“Mais pra lá do que pra cá”</p><p>“Sem pregar o olho”</p><p>“Dias melhores virão”</p><p>FONTE: CUNHA, C. As inovações no teatro de Shakespeare. 2014. Disponível em: https://blog.saraiva.</p><p>com.br/as-inovacoes-do-teatro-de-shakespeare/. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>111</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• O herói da Idade Moderna, assim como a própria essência desse período, era um</p><p>questionador. A construção passou pela dúvida daquilo que a definia e pelo</p><p>questionamento quanto à caracterização de herói, como sujeito heroico.</p><p>• A Idade Moderna começou e terminou em episódios de forte conflito. Essa tônica</p><p>informou todas as formas culturais que aconteceram em meio à modernidade, na</p><p>medida em que as mudanças propostas por um grupo cada vez maior de pessoas</p><p>desafiavam uma hegemonia absoluta e colocava os sujeitos sob esse conflito em</p><p>espaço de dúvida essencial. O teatro, portanto, na modernidade, passou a ser um meio</p><p>de assimilação das questões que cercavam a população comum, e funcionou como um</p><p>meio de tentar fazer sentido no confronto com uma sociedade que se movimentava</p><p>com base em um conflito dialético (da mesma forma que um texto dramático).</p><p>• Commedia Dell`Arte, Teatro Elisabetano, Século de Ouro espanhol, Neoclassicismo</p><p>francês e Romantismo alemão foram algumas das formas teatrais nascidas na Idade</p><p>Moderna, para tentar dar conta das ebulições sociais e das mudanças subjetivas</p><p>da população</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>112</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 A Commedia Dell’Arte introduziu, no arsenal dramático da Idade Moderna, algumas</p><p>características que transgrediram o funcionamento canônico das formas teatrais</p><p>e que informaram as muitas formas práticas que sobreviveram no jogo dramático</p><p>contemporâneo. Nesse contexto, assinale a alternativa CORRETA a respeito da</p><p>Commedia Dell’Arte:</p><p>a) ( ) Tinha, como elemento fundamental, as personagens denominadas de Máscaras.</p><p>b) ( ) Os atores decoravam o texto perfeitamente, e não utilizavam o improviso.</p><p>c) ( ) As máscaras tiveram origem na própria Commedia Dell’Arte.</p><p>d) ( ) De acordo com Cesare Molinari, a máscara Arlequim representa um demônio</p><p>infernal.</p><p>2 O teatro, na Idade Moderna, traduzia, assimilava e preparava o público para as</p><p>mudanças rápidas e bruscas que aconteciam na sociedade da época. Nesse contexto,</p><p>a modernidade se apresentava nas artes dramáticas, de maneira a modificar as</p><p>estratégias representativas usadas. Acerca do Tópico 3 e da relação de mudança nos</p><p>modos de fazer e de apresentar as artes dramáticas durante a Idade Moderna, analise</p><p>as sentenças a seguir:</p><p>I- Um dos elementos fundamentais de diversificação da modernidade, em relação ao</p><p>classicismo, foi a possibilidade de quebra com as unidades dramáticas.</p><p>II- O herói moderno é preso pelo destino.</p><p>III- A personagem Hamlet desafia a ideia de um herói moderno.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>d) ( ) Somente a sentença I está correta.</p><p>3 Durante a Idade Moderna, diferentes interpretações dramáticas foram inventadas em</p><p>distintos territórios para dar conta de ler, de interpretar e de assimilar a realidade</p><p>de conflitos e de mudanças, incluindo um número grande de novas estratégias</p><p>performáticas. A partir disso, com relação a essas diferentes formas dramáticas,</p><p>classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas:</p><p>113</p><p>( ) A ideia de conflito, entre contrários do Barroco, era fundamental para a formação</p><p>cultural do Século de Ouro espanhol.</p><p>( ) O romantismo alemão aconteceu como uma forma de expressar o descontentamento</p><p>com a aristocracia.</p><p>( ) A ópera se originou na Alemanha.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – F – F.</p><p>b) ( ) V – V – F.</p><p>c) ( ) F – V – F.</p><p>d) ( ) F – F – V.</p><p>4 Leia o texto de Hamlet (vendo o rei):</p><p>A ocasião é propícia, está orando. Coragem, Hamlet. Sim, mas salvar-</p><p>se-ia a sua alma, e não é essa a minha vingança desejada. Reflictamos;</p><p>um celerado assassina meu pai, e eu, seu filho único, abro as portas</p><p>do Céu a esse infame! Seria uma recompensa e não um castigo.</p><p>Assassinou meu pai, entregue às preocupações da carne, quando</p><p>seus pecados mais vivazes estavam, como as flores na Primavera; e</p><p>quem sabe, a não ser o Céu, que contas daria ao Criador? as penas</p><p>eternas, decerto, não o pouparam. Seria uma vingança imolar este</p><p>celerado, quando a sua alma deve estar pura, quando está preparado</p><p>para a sua última viagem? Não! Entra na tua bainha, minha espada,</p><p>e espera para</p><p>ferir, golpe mais terrível e justo. Quando estiver ébrio</p><p>ou adormecido, ou encolerizado, ou imerso nos prazeres de um leito</p><p>incestuoso, ou absorvido pelo jogo, ou blasfemando, ou praticando</p><p>algum acto contrário à salvação da sua alma, então fere, que as</p><p>penas do Inferno serão poucas para um tal crime. (Olhando para o</p><p>rei.) Prolonga ainda os teus dias enfermos: adiar não é desistir. (Sai.)</p><p>(SHAKESPEARE, 2015, p. 124).</p><p>Explique como essa fala de Hamlet reflete um ponto crucial de distinção entre o herói</p><p>moderno e o herói clássico.</p><p>5 O teatrólogo Cesare Molinari (2010) descreveu a Alemanha como uma país essencial</p><p>para a efervescência do teatro na Idade Moderna, e a denominou como uma terra de</p><p>conquista. Mencione a razão dessas afirmações.</p><p>114</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ARISTÓFANES. Um deus chamado dinheiro. Tradução: Mario da Gama Cury. Rio de</p><p>Janeiro: Zahar, 1995.</p><p>ARISTÓTELES. Poética. Tradução: Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2015.</p><p>BLANSHAR, A. J. L.; STAFFORD, E. The modern Hercules: images of the hero from</p><p>the nineteenth to the early twenty-first century. Boston: Brill, 2013.</p><p>EURIPEDES. Medeia. 2015. Disponível em: https://artedramaticacep.files.wordpress.</p><p>com/2015/07/medeia.pdf. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>MOISÉS, M. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 2013.</p><p>MOLINARI, C. História do teatro. Tradução: Sandra Escobar. Lisboa: Edições 70, 2010.</p><p>PIDAL, R. M. Poesia juglaresca y juglares. Buenos Aires/México: Espasa-Calpe, 1945.</p><p>SHAKESPEARE, W. Hamlet. Tradução: D. Luis I. São Paulo: Projecto Adamastor, 2015.</p><p>115</p><p>DRAMATURGIA</p><p>CONTEMPORÂNEA: A</p><p>PERFORMANCE, O CORPO E</p><p>A DIDÁTICA</p><p>UNIDADE 3 —</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• compreender as diferentes apresentações performáticas que se desenvolveram do</p><p>fim da Idade Moderna até os dias atuais;</p><p>• mobilizar os conhecimentos que englobam o teatro e a educação aplicados à teoria</p><p>dramática, para concretizar a sua própria prática didática;</p><p>• desenvolver um pensamento crítico acerca do contexto que informa o desenvolvimento</p><p>das artes dramáticas contemporaneamente;</p><p>• articular as diferentes formas de dramaturgia e de performance em relação à história</p><p>da poesia dramática.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará</p><p>autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – TEATRO E VANGUARDAS</p><p>TÓPICO 2 – PERFORMANCE: CORPO EM CENA E RAZÕES DE SER</p><p>TÓPICO 3 – COMO O DRAMA ENSINA</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure</p><p>um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>116</p><p>CONFIRA</p><p>A TRILHA DA</p><p>UNIDADE 3!</p><p>Acesse o</p><p>QR Code abaixo:</p><p>117</p><p>TÓPICO 1 —</p><p>TEATRO E VANGUARDAS</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>A Idade Moderna acabou a partir do acontecimento da resolução de um conflito.</p><p>Como vimos na unidade anterior do seu livro didático, com a tomada da Bastilha, na</p><p>França, os historiadores, a posteriori, definiram que a Idade Moderna tinha chegado ao</p><p>fim. Essa data não foi escolhida por acaso, mas por conter, em si, o desenlace de um</p><p>conjunto de linhas de tensão que pareciam se movimentar pelo tempo desde a tomada</p><p>de Constantinopla, pelos turcos otomanos.</p><p>Para entender como as artes dramáticas foram afetadas pelo acontecimento</p><p>da Tomada da Bastilha, pela Revolução Francesa, e como elas se articularam em meio</p><p>a isso, precisamos, primeiramente, retornar ao que eram as linhas de tensão que</p><p>informaram as revoltas. Para tanto, será válido relembrarmos, apenas um pouco, o que</p><p>vimos na unidade anterior, como a relação com o herói moderno e o poder da escolha</p><p>e da consequência no pensamento.</p><p>O herói moderno toma decisões: é assim, mais famosamente, que acontece</p><p>com Hamlet, mas, também, com o bandoleiro Karl de Schiller, com o fidalgo Don Quixote</p><p>de Cervantes e com inúmeros outros personagens, fundamentalmente, modernos, os</p><p>quais tinham, em si, a representação do conflito dialético daquele tempo. Não existe</p><p>modernidade sem dúvida, e não existe dúvida sem o movimento constante que faz</p><p>com que ela se estabeleça: céu ou inferno, bem ou mal, religião ou ciência, e assim por</p><p>diante.</p><p>As dúvidas, de fato, pautaram todo o decorrer dos séculos que informaram</p><p>a Idade Moderna, e as formas de interpretação, desenvolvidas para, com elas, lidar,</p><p>sobreviveriam por mais da metade do século XIX. Depois dessas formações que</p><p>estudamos na unidade anterior que novas interpretações de conflitos foram necessárias,</p><p>na medida em que o século XIX, movimentando-se em direção ao XX, foi provando que</p><p>as formas usuais de assimilação social da forma artística já não davam mais conta do</p><p>que se apresentava historicamente.</p><p>Se, durante o século XIX, o que vimos, como desenvolvimento das artes</p><p>dramáticas, foi uma simples continuação de estéticas do século anterior, como do</p><p>romantismo e do melodrama, parece que tudo isso significava nada mais que um respiro,</p><p>já que o século XX, o século das vanguardas, logo, chegaria com distinções várias para</p><p>nos desafiar. Falaremos dessas distinções e desses desafios no presente tópico.</p><p>118</p><p>2 SÉCULO XIX E NECESSIDADE DE UMA NOVA CENA</p><p>Como princípio da Idade Contemporânea, o século XIX parecia funcionar como</p><p>um preâmbulo, um movimento de embasamento para o que viria a ocorrer no século</p><p>XX. Os conflitos que se iniciaram no século XIX funcionaram, em larga medida, como</p><p>estopim dos acontecimentos definidores do século XX. Portanto, é importante que</p><p>conheçamos um pouco do paradigma histórico desse século em necessidade de uma</p><p>nova cena.</p><p>De fato, o século XIX pode ser pensado no momento no qual a modernidade</p><p>apresentou o desenlace, assim, a partir daí, várias questões se levantaram, e um espaço</p><p>de questionamento a respeito do que aconteceria nas relações sociais foi deixado em</p><p>aberto: as conquistas napoleônicas para o desenvolvimento crítico da teoria dialética</p><p>de Hegel, com a publicação de, primeiramente, O Manifesto Comunista, de Karl Marx</p><p>e Friedrich Engels, e, depois, da obra O Capital: Crítica da Economia Política, de Marx,</p><p>formas de fazer sentido quanto ao que foram a modernidade e o curso da história. Nas</p><p>artes dramáticas, isso não foi diferente.</p><p>Acadêmico! Com relação aos acontecimentos que marcaram</p><p>o século XIX, seria interessante participar da discussão que</p><p>trata do método de análise histórica, empreendido por esses</p><p>três autores, nas obras Fenomenologia do Espírito, de Hegel</p><p>(um texto que é muito beneficiado se acompanhado da</p><p>leitura de Introdução à Leitura de Hegel, de Alexandre Kojève);</p><p>no Manifesto Comunista, de Marx e Engels; e na obra O Capital,</p><p>de Karl Marx. As discussões que englobam a importância</p><p>do movimento dialético para o desenvolvimento histórico</p><p>são de suma importância dentro da evolução das artes e da</p><p>dramaturgia, especificamente, no princípio do século XX.</p><p>FONTE: <http://twixar.me/gwNm>; <http://twixar.me/ywNm>;</p><p><http://twixar.me/wwNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>NOTA</p><p>As formas de interpretação dramática que predominaram durante o século XIX</p><p>foram o Melodrama e o Romantismo. O Realismo e o Naturalismo foram correntes literárias</p><p>despontadas perto do fim do século, e prepararam o terreno para a movimentação</p><p>vanguardista observada no início do século seguinte. É importante que nos atentemos</p><p>para o significado dessas formas ter permanecido nesse recuo marítimo histórico antes</p><p>do tsunami, conhecido como as interpretações estéticas do início do século XX.</p><p>119</p><p>O teatrólogo Cesare Molinari informa que o melodrama, como gênero literário,</p><p>[...] desenvolveu-se na França a partir da evolução, em sentido</p><p>popular, do drama burguês, na forma que lhe havia sido dada por</p><p>Louis-Sébastien Mercier: uma ação rica em golpes de teatro,</p><p>premente, conduzida por personagens e com uma psicologia</p><p>elementar, sem nuances, investida de uma mensagem moral simples</p><p>e, muitas vezes, de uma viva sensibilidade em relação à problemática</p><p>social (MOLINARI, 2010, p. 274).</p><p>Da mesma forma, o Romantismo explorava o avanço da subjetividade burguesa</p><p>em alguns países, como na Alemanha, de maneira a desenvolver um espírito de tomada</p><p>de posição contra a hegemonia aristocrática, reverberando a movimentação que levara</p><p>às revoltas burguesas. Em suma, o século XIX compunha uma cena de assimilação e de</p><p>reverberação do contexto social, e marcava, de maneira latente, a vitória da burguesia</p><p>no conflito no fim do século anterior.</p><p>2.1 O QUE É TEATRO DE VANGUARDA?</p><p>Molinari conta, em História do Teatro (2010), que, para serem entendidos os</p><p>movimentos de vanguarda com relação à dramaturgia, é, primeiramente, preciso</p><p>compreender o que foi o movimento naturalista, na medida em que as vanguardas</p><p>pareciam estar se colocando como oposição ao que o naturalismo, como forma teórico-</p><p>prática, propunha.</p><p>Faz-se necessária uma olhada ao contexto geral do Naturalismo. Bebendo, de</p><p>maneira profunda, na fonte da escola de pensamento positivista que dominava a área</p><p>científica da época, o Naturalismo tinha, como proposta estética, o retrato fiel do ser</p><p>humano natural, em todas as linhas turvas que marcavam a personalidade humana.</p><p>Existia, de fato, uma tendência naturalista para o retrato do ser humano como um sujeito</p><p>patológico, muito informada por uma lógica determinista do pensamento positivista.</p><p>No Brasil, a escola teve um ótimo funcionamento na literatura, com Aluísio</p><p>Azevedo, o qual publicou, em 1890, o romance O Cortiço, considerado uma obra</p><p>seminal do naturalismo. É interessante notar que, antes de ser escritor, Azevedo era</p><p>um caricaturista, algo que parece combinar, essencialmente, com a proposta estética</p><p>do Naturalismo. Em História Concisa da Literatura Brasileira, Alfredo Bosi diz, a respeito</p><p>de Azevedo, o seguinte: “O hábil tracejador de caricaturas nas folhas políticas do Rio</p><p>precedeu o autor de Mulato, e lhe ensinou a arte da linha grossa, a qual deforma o corpo</p><p>e o gesto e perfaz a técnica do tipo, inerente à concepção naturalista de personagem”</p><p>(BOSI, 2015, p. 411). Os personagens “tipos” marcaram uma relação paradigmática entre</p><p>o sujeito e o social, melhor definida como contrária ao ideal romântico: um retrato das</p><p>taras e das perversões que a sociedade impunha ao sujeito.</p><p>120</p><p>Na dramaturgia europeia, o nome que impulsionou o naturalismo, que, de</p><p>certa maneira, informou a criação literária de Azevedo no Brasil, e que, quase que,</p><p>sem intenção, conseguiu predizer o movimento das vanguardas foi o do teórico e</p><p>dramaturgo Emile Zola (1840-1902). Zola acreditava que era necessário um despir da</p><p>cena e do ator no palco, de maneira a melhor naturalizar a interpretação daquilo que era</p><p>proposto no texto. De maneira simples, a abordagem dele era a de tornar, o mais natural,</p><p>a interpretação no palco. Molinari fala das propostas estéticas de Zola nos seguintes</p><p>termos:</p><p>Tal como o romance deveria ser uma espécie de relatório científico, o</p><p>espetáculo teatral deveria se apresentar como uma fiel reconstrução</p><p>de um ambiente e de um acontecimento: o progresso no teatro</p><p>consiste, sustentava Zola, na progressiva eliminação dos elementos</p><p>convencionais que o mantêm distante da realidade efetiva (MOLINARI,</p><p>2010, p. 327).</p><p>Uma tendência que, depois, seria exacerbada nas vanguardas históricas,</p><p>nasceu nessa proposta de Zola, a de começar a dissolver as perspectivas de ação, de</p><p>tempo e de espaço clássicas. As unidades começaram a ser desmontadas, mas, não</p><p>no naturalismo, esse desmontar tomou o centro do palco. Na teoria naturalista, o que</p><p>foi colocado à frente foi a separação da cena e do público, a proposta da quarta parede</p><p>como algo que separaria os espaços real e cênico, na medida em que, dentro de cena,</p><p>os atores se comportariam como se estivessem na vida cotidiana deles, interpretando</p><p>um quadro deslocado, mas, ainda assim, verossímil da realidade social na qual o texto</p><p>se inscrevia.</p><p>Como observamos nas unidades anteriores deste livro didático, o que se propõe,</p><p>como estética de um tempo, invariavelmente, conversa com o espírito desse tempo.</p><p>Tal informação, com valor de verdade, pode nos levar a questionar o que, exatamente,</p><p>o Naturalismo, como uma proposta estética, poderia vir a nos dizer a respeito do fim do</p><p>século XIX, tempo em que se estruturou.</p><p>Mais do que a estética, despida de elementos que não promovam o confundir</p><p>de cena e de vida, o Naturalismo falou do tempo dele com a marca que deixou. Como</p><p>uma estética de fim de século, a marca que ficou, e permaneceu com o Naturalismo, é</p><p>a de uma patologização do ser humano. Esse entender do homem como, invariavelmente,</p><p>capaz das piores coisas, foi o que saltou aos olhos quando se tocava no assunto da</p><p>estética naturalista.</p><p>Entendendo o ser humano como um sujeito determinado pelo meio e pela</p><p>biologia dele, a partir de uma tendência negativa, a estética naturalista fez uma cama</p><p>que parecia firmar, no ser humano, a própria possibilidade para o fim da humanidade,</p><p>para o limite dele. Nessa linha, a leitura naturalista, a marca que a estética deixou é a</p><p>de que é necessária e fundamental a atenção para o ser humano e o meio em que vive, para</p><p>as possibilidades de atitudes extremas, taradas, perversas desses sujeitos quando levados</p><p>ao limite daquilo que é natural a eles.</p><p>121</p><p>Uma outra escola estética que, também, percebia, a partir da leitura de</p><p>perspectiva, os questionamentos que englobavam as ações humanas, mas que diminuía</p><p>o tom determinista, e, talvez, exatamente por isso, é lembrada como uma estética muito</p><p>mais complexa, é a do Realismo – ou Realismo Psicológico.</p><p>Molinari (2010, 2010, p. 329-330) apresenta o realismo a partir do dramaturgo</p><p>russo Stanislavski, com a inspiração vinda do projeto Meininger, ao dizer que,</p><p>desde os tempos nos quais se dedicava ao teatro, suportando,</p><p>pessoalmente, grande parte das despesas dos espetáculos</p><p>encenados na Sociedade Moscovita de Arte e Literatura, Konstantin</p><p>Alexeev, conhecido pelo nome artístico Stanislavski (1863-1928),</p><p>ficara, fortemente, impressionado com as perfeitas mise-en-scène</p><p>da companhia dos Meininger. Por isso, foi, perfeitamente, natural, que</p><p>as primeiras representações do Teatro de Arte de Moscovo, por ele</p><p>fundado, e com o escritor Vladimir Nemirovitch Dantchenko, em 1898,</p><p>tivessem em vista os mesmos valores de reconstrução arqueológica</p><p>e de movimentos de conjunto complexos e, aparentemente, casuais,</p><p>mas, na verdade, perfeitamente, ordenados.</p><p>Ainda, lembra da relação de Stanislavski com Anton Tchecov, para o</p><p>desenvolvimento do realismo:</p><p>[...] O evento mais significativo da sua “vida na arte” foi, certamente, o</p><p>encontro com Anton Tchecov (1860-1904). A experiência tchecoviana</p><p>significou, para Stanislavski, o esclarecimento definitivo do significado</p><p>e dos valores fundamentais do teatro (na realidade do seu teatro): o</p><p>minucioso realismo cênico e cenográfico permanece, mas com outro</p><p>fim, ou seja, a revelação psicológica da personagem (MOLINARI, 2010,</p><p>p. 330).</p><p>A proposta presente dos russos Stanislavski e Tchecov é a de, da melhor maneira</p><p>possível, introduzir, no agir da personagem, o escopo espectral complexo das emoções</p><p>humanas possíveis a cada situação.</p><p>No Brasil, o realismo psicológico teve, como principal expoente, o escritor</p><p>Machado de Assis, o qual, principalmente, com as obras no campo literário, conseguiu</p><p>sumarizar, com perfeição, a proposta de representação da complexidade das emoções,</p><p>das ações e das reações humanas já propostas por Stanislavski e Tchecov. Podemos,</p><p>mesmo, notar isso no seguinte trecho de uma das mais contundentes obras do escritor,</p><p>Memórias Póstumas de Brás Cubas, na qual o narrador conta a relação dele com o</p><p>ensino superior no capítulo intitulado Bacharelo-me:</p><p>Um grande futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido,</p><p>devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago. Uma</p><p>ideia expelia outra, a ambição desmontava Marcela. Um grande</p><p>futuro? Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político</p><p>ou até bispo, — bispo</p><p>que fosse, — uma vez que fosse um cargo,</p><p>uma preeminência, uma grande reputação, uma posição superior.</p><p>A ambição, dado que fosse águia, quebrou nessa ocasião o ovo,</p><p>122</p><p>e desvendou a pupila fulva e penetrante. Adeus, amores! adeus,</p><p>Marcela! dias de delírio, joias sem preço, vida sem regime, adeus. Cá me</p><p>vou às fadigas e à glória; deixo-vos com as calcinhas da primeira idade.</p><p>E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A</p><p>universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-</p><p>as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel;</p><p>deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela</p><p>festa que me encheu de orgulho e de saudades, — principalmente de</p><p>saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada</p><p>de folião; era um acadêmico estroina, superficial, tumultuário</p><p>e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e</p><p>liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das</p><p>constituições escritas. No dia em que a universidade me atestou, em</p><p>pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no</p><p>cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que</p><p>orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me</p><p>dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardeio, deixei as</p><p>margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas</p><p>sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar</p><p>os outros, de influir, de gozar, de viver, — de prolongar a universidade</p><p>pela vida adiante [...] (ASSIS, 1881, p. 21).</p><p>O trecho mostra, com rara clareza, a força de um texto realista, pois despe os</p><p>motivos e os pensamentos por detrás das ações de certos personagens. No caso de</p><p>Brás Cubas, vemos que ele toma o amor como cálculo, algo que seria impensável a</p><p>partir de uma representação romântica, por exemplo, e propõe uma leitura cínica entre</p><p>as relações de valores de uma relação interpessoal com uma relação profissional ou</p><p>de status social.</p><p>Na obra de Machado, Brás Cubas compreende o mundo como uma relação de</p><p>troca, algo simples. Com o fim de um romance que o deixa entristecido com uma mulher</p><p>que é interessada no dinheiro dele, Marcela, o personagem se desloca à Coimbra em</p><p>busca de um diploma, mesmo que não interesse, de fato, a ele, a formação que aquele</p><p>diploma representa.</p><p>A crítica machadiana é voraz. Coloca a burguesia do Rio de Janeiro, espelhada</p><p>em Brás Cubas, sob uma lente de aumento potente que não deixa escapar as sutis</p><p>futilidades que informam aquela classe e os interesses dela. Também, a partir desse olhar</p><p>crítico, o autor consegue construir uma perspectiva verossímil do psicológico humano</p><p>com singularidade. O distanciamento é importante, na medida em que o personagem</p><p>machadiano, o personagem realista, apresenta-se como uma perspectiva possível,</p><p>tendo uma visão particular – importante, aqui, é a forma através da qual a história</p><p>é narrada pelo personagem-título. Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura</p><p>Brasileira (2015), aponta essa relação bonita no texto machadiano, ao mencionar que</p><p>quando o romancista assumiu, naquele livro-capital, o foco narrativo,</p><p>na verdade, passou, ao defunto-autor Machado-Brás Cubas, a</p><p>delegação para exibir, com o despejo dos que já nada mais temiam, as</p><p>peças de cinismo e de indiferença com as quais havia sido montada</p><p>a história dos homens. A revolução dessa obra [...] foi uma revolução</p><p>123</p><p>ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações</p><p>românticas e ferindo, no cerne, o mito do narrador onisciente, que tudo</p><p>vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e</p><p>incoerente. O que restou foram as memórias de um homem igual a</p><p>tantos outros, o cauto e desfrutador Brás Cubas (BOSI, 2015, p. 388).</p><p>No teatro, a forma de se colocar essa perspectiva de singularidade é diferente,</p><p>mas o efeito desejado é o mesmo. O grande influenciador da teoria teatral do realismo</p><p>psicológico de Stanislavski, Tchekhov, por sua vez, fornece, na obra Três Irmãs, um dos</p><p>melhores exemplos desse jogo proposto pelo teórico, uma maneira aguda de ler o fim</p><p>do século XIX e as sementes em forma de mentes humanas que este deixava para o</p><p>sucessor.</p><p>Na história, três irmãs russas desistem da esperança de uma vida idealizada,</p><p>resignando-se a uma mediocridade comum. Tchekhov toma, como princípio, as mesmas</p><p>ideias nas quais se baseia Machado de Assis, as de que as relações humanas, tomadas</p><p>em sua materialidade psicológica, não podem ser idealizadas. A vida e os percalços</p><p>possuem certos entraves que a pura força de vontade não consegue sobrepor, assim,</p><p>deve-se aprender com eles durante a vida. No caso de As Três Irmãs, esse fazer com os</p><p>percalços se transforma em uma resignação com a mediocridade, e, no caso de Brás</p><p>Cubas, torna-se uma resignação com o inefável da vida.</p><p>AS TRÊS IRMÃS</p><p>ANTON TCHEKHOV</p><p>QUARTO ATO O VELHO JARDIM DOS PROZOROV. UMA LONGA ALAMEDA DE ABETOS</p><p>EM CUJA EXTREMIDADE SE DIVISA O RIO. DO OUTRO LADO DO RIO, UM BOSQUE.</p><p>À DIREITA, O TERRAÇO DA CASA, ONDE HÁ GARRAFAS E TAÇAS SOBRE A MESA,</p><p>INDICANDO QUE SE ACABOU DE TOMAR CHAMPANHE. É MEIO-DIA. VINDOS DA</p><p>RUA DE QUANDO EM QUANDO TRANSEUNTES SE DIRIGEM APRESSADOS RUMO</p><p>AO RIO; CINCO SOLDADOS CRUZAM O PALCO A PASSOS RÁPIDOS. TCHEBUTIKIN,</p><p>DE EXCELENTE HUMOR – QUE NÃO O ABANDONARÁ DURANTE TODO O ATO – ESTÁ</p><p>SENTADO NUMA CADEIRA DE BRAÇOS NO JARDIM, À ESPERA QUE O CONVIDEM;</p><p>ESTÁ DE QUEPE E COM UM BASTÃO. NO TERRAÇO ESTÃO IRINA, KULIGUIN, QUE</p><p>RASPOU O BIGODE E OSTENTA NO PEITO UMA CONDECORAÇÃO, E TUZENBACH;</p><p>OS TRÊS SE DESPEDEM DE FEDOTIK E DE RODE, QUE DESCEM PELA ESCADARIA.</p><p>OS DOIS OFICIAIS VESTEM UNIFORME DE CAMPANHA.</p><p>TUZENBACH: (TROCA BEIJOS COM FEDOTIK) Você é um bom sujeito, sempre gostei</p><p>de você... (BEIJA RODE) Mais uma vez, adeus, garotão...</p><p>IRINA: Até a vista.</p><p>FEDOTIK: Até a vista, não... Adeus para sempre. Nunca mais nos veremos.</p><p>124</p><p>KULIGUIN: Quem sabe? (ENXUGA OS OLHOS SORRINDO) Olhe, eu também já estou</p><p>chorando...</p><p>IRINA: Talvez, ainda nos encontremos.</p><p>FEDOTIK: Daqui a dez ou quinze anos, mas, então, mal nos reconheceremos, e nos</p><p>saudaremos com frieza. (TIRA UMA FOTO) Quietos. Mais uma última.</p><p>RODE: (ABRAÇA TUZENBACH) Não nos veremos mais! (BEIJA A MÃO DE IRINA)</p><p>Obrigado por tudo, por tudo, mesmo!</p><p>FEDOTIK: (ABORRECIDO) Espere!</p><p>TUZENBACH: Se Deus quiser, nos encontraremos. Mas escrevam, não deixem de</p><p>escrever.</p><p>RODE: (OBSERVA O JARDIM) Adeus, árvores! (GRITA) Ohôoo! (PAUSA) Adeus a você</p><p>também eco, adeus!</p><p>KULIGUIN: Quem sabe vocês acabarão se casando lá na Polônia. As mulheres polonesas</p><p>lhes dirão ao abraçá-los: “Kokhane!” (RI)</p><p>FEDOTIK: (CONSULTA O RELÓGIO) Mal nos resta uma hora. De toda a bateria apenas</p><p>Solionii vai de navio, nós iremos com a nossa unidade. Hoje partirão três unidades,</p><p>amanhã mais três – a cidade ficará silenciosa, muito silenciosa e tranquila.</p><p>TUZENBACH: E terrivelmente monótona.</p><p>RODE: Onde está Maria Serguêievna?</p><p>KULIGUIN: A minha Macha está no jardim.</p><p>FEDOTIK: Gostaria de me despedir dela.</p><p>RODE: Adeus, vamos embora, senão eu acabo chorando... (DÁ UM RÁPIDO ABRAÇO</p><p>EM TUZENBACH E EM KULIGUIN, BEIJA A MÃO DE IRINA) Como fomos felizes aqui!</p><p>FEDOTIK: (A KULIGUIN) Isto é para o senhor, como recordação. É uma caderneta. Com</p><p>lápis. Daqui iremos ao rio...</p><p>PARTEM; AMBOS OLHAM PARA TRÁS.</p><p>RODE: Ohôoo!</p><p>125</p><p>KULIGUIN: (GRITA) Adeus!</p><p>NO FUNDO DA CENA, MACHA SE ENCONTRA COM FEDOTIK E RODE; DESPEDEM-</p><p>SE E MACHA SAI JUNTO COM ELES.</p><p>IRINA: Pronto, se foram... (SENTA-SE NO DEGRAU MAIS BAIXO DA ESCADARIA)</p><p>TCHEBUTIKIN: Esqueceram-se de se despedir de mim.</p><p>IRINA: E o senhor?</p><p>TCHEBUTIKIN: Na verdade, também me esqueci. Mas logo os verei de novo, pois viajo</p><p>amanhã. Sim. Ainda me resta um dia. Daqui a um ano me aposento, e então voltarei aqui,</p><p>e passarei os últimos anos da minha vida junto de vocês. Mais um ano e me aposento</p><p>(GUARDA O JORNAL NO BOLSO E PUXA OUTRO). Voltarei para cá, para junto de vocês,</p><p>e começarei uma vida nova. Serei um homem tranquilo, brando e</p><p>muito generoso...</p><p>IRINA: Sim, querido doutor, tem de mudar de vida, de algum modo....</p><p>TCHEBUTIKIN: Sim, eu também sinto isso. (CANTAROLA BAIXINHO UMA CANÇÃO</p><p>DE PÂNDEGOS) “Tarara-tchin-bum. Agarrei-me num poste...”.</p><p>KULIGUIN: Esse novo Ivan Romanitch é mesmo um pícaro incorrigível! Um pícaro</p><p>incorrigível!</p><p>TCHEBUTIKIN: Oh, se frequentasse a sua escola, logo me corrigiria.</p><p>IRINA: Fiodor tirou o bigode. Não consigo olhar para ele!</p><p>KULIGUIN: Mas por que não?</p><p>TCHEBUTIKIN: Eu poderia dizer-lhe com o que a sua cara se parece agora, mas prefiro</p><p>me calar.</p><p>KULIGUIN: E o que isso tem de demais? Assim se faz, é o modus vivendi. O senhor diretor</p><p>não usa bigode, pois então eu também tirei o meu ao tornar-me inspetor. Ninguém</p><p>gosta, mas não me importo. Estou feliz. Com o bigode ou sem bigode, eu estou feliz.</p><p>(SENTA-SE. NO FUNDO, ANDREI EMPURRA UM CARRINHO ONDE DORME O BEBÊ)</p><p>IRINA: Querido Ivan Romanitch, estou muito preocupada. O senhor estava ontem na</p><p>praça; conte-me o que aconteceu?</p><p>TCHEBUTIKIN: O que aconteceu? Nada. Bobagem. (LÊ O JORNAL) Nada de importante!</p><p>126</p><p>KULIGUIN: Dizem que Solionii provocou o barão ontem se encontraram defronte ao</p><p>teatro e...</p><p>TUZENBACH: Pare! Para que falar disso? (FAZ UM GESTO IMPACIENTE E ENTRA NA</p><p>CASA)</p><p>KULIGUIN: Defronte ao teatro... Solionii provocou o barão, o barão perdeu a calma e</p><p>disse-lhe algo ofensivo...</p><p>TCHEBUTIKIN: Eu não sei de nada. Tudo isso é disparate.</p><p>KULIGUIN: Conta-se que certa vez o professor anotou no trabalho de um aluno a</p><p>palavra “disparate” e o aluno leu “dispercit” – pensou que fosse alguma palavra latina...</p><p>(RI) É muito engraçado. Dizem que Solionii está apaixonado por Irina e por isso odeia o</p><p>barão. O que é compreensível. Irina é uma moça muito bonita. Parece-se com Macha,</p><p>perde-se igualmente em reflexões. Só que você, Irina. É mais suave. Isso na verdade não</p><p>significa que Macha não tenha também um bom caráter. Eu amo Macha. (DO FUNDO DO</p><p>JARDIM, ATRÁS DO PALCO: “OHÔOO!”)</p><p>IRINA: (ESTREMECENDO) Hoje, tudo me assusta. (PAUSA) Já está tudo preparado;</p><p>de tarde despacharei as bagagens. Caso-me com o barão amanhã e amanhã mesmo</p><p>viajaremos até a olaria; depois de amanhã já estarei dando aulas, uma vida nova</p><p>começará. Que Deus me ajude! Quando obtive o diploma de professora chorei de alegria,</p><p>de emoção... (PAUSA) Daqui a pouco, chega o carroceiro para buscar as coisas.</p><p>KULIGUIN: Tudo isso é bonito, mas não muito sério. Apenas ideias, sem muita seriedade.</p><p>De qualquer modo, desejo-lhe boa sorte, do fundo do coração.</p><p>TCHEBUTIKIN: (EMOCIONADO) Minha boa menina, minha querida. Foi para longe, já</p><p>não a alcanço mais; fiquei para trás, como esses pássaros migrantes que envelheceram</p><p>e não podem mais voar. Voem, meus queridos, voem. Que Deus os acompanhe! (PAUSA)</p><p>Fidor Ilitch, o senhor tirou o bigode à toa.</p><p>KULIGUIN: Ora deixe disso! (SUSPIRA) Os soldados vão embora hoje e tudo voltará a</p><p>ser como antes. Digam o que quiserem, Macha é uma mulher decente; eu a amo muito, e</p><p>dou graças ao destino. O destino das pessoas é diverso... na coletoria trabalha um certo</p><p>Kozirev. Fomos colegas no ginásio, e na quinta série ele foi expulso, pois era incapaz de</p><p>aprender o que era ut consecutivum. Agora ele vive na miséria, está doente, e quando</p><p>nos encontramos, sempre o cumprimento assim: “Olá, ut consecutivum! É isso mesmo”,</p><p>ele diz, “consecutivum...” e tosse... Para mim, entretanto, a sorte sorriu a vida inteira.</p><p>Sou feliz, fui até agraciado com o segundo grau da ordem de Stanislaw, e ensino aos</p><p>outros o ut consecutivum. Naturalmente, sou, também, um homem inteligente, mais</p><p>inteligente eu muitos outros, mas a felicidade não reside nisso.</p><p>127</p><p>DENTRO DA CASA, OUVE-SE ALGUÉM TOCAR AO PIANO A ORAÇÃO DA VIRGEM.</p><p>IRINA: E amanhã à noite não mais ouvirei a Oração da Virgem, não mais encontrarei</p><p>esse Protopopov. (PAUSA) Está sentado lá na sala. Veio hoje também...</p><p>KULIGUIN: A nossa diretorinha não está aqui?</p><p>IRINA: Não está, mas já mandei chamá-la. Ai, se soubessem como a vida é difícil sem a</p><p>Olga aqui. Esse cargo de diretora do ginásio a ocupa o dia todo; e eu fico sozinha, sem</p><p>nada para fazer, me entedio, e odeio o quarto onde moro... Mas me resignei; se não</p><p>vou para Moscou, decerto 58 esse é o meu destino. O que posso fazer? É a vontade de</p><p>Deus... Pois é... Nikolai Lvovitch, pediu-me em casamento... E agora? Eu refleti muito e</p><p>me decidi. Ele é um bom homem, espantosamente bom... E de repente senti minha alma</p><p>criar assas, a alegria me invadindo o coração está mais leve, e recordei a vontade de</p><p>trabalhar... Mas ontem aconteceu alguma coisa. Algum segredo paira sobre mim agora.</p><p>TCHEBUTIKIN: Bobagem.</p><p>NATACHA: (DA JANELA) A diretorinha chegou!</p><p>KULIGUIN: A diretorinha chegou! Então vamos entrar! (ENTRA NA CASA JUNTO COM</p><p>IRINA)</p><p>TCHEBUTIKIN: (LÊ O JORNAL E CANTAROLA BAIXINHO) “Tarará-tchim-bum...</p><p>Agarrei num poste...”.</p><p>MACHA: (MACHA SE APROXIMA DE TCHEBUTIKIN; NO FUNDO, ANDREI EMPURRA</p><p>O CARRINHO DE BEBÊ) O senhor aqui, sentadinho...</p><p>TCHEBUTIKIN: E o que tem isso?</p><p>MACHA: (SENTA-SE) Nada... (PAUSA) Amava minha mãe?</p><p>TCHEBUTIKIN: Muito.</p><p>MACHA: E ela o amava também?</p><p>TCHEBUTIKIN: (DEPOIS DE UMA PAUSA) Já não me lembro disso.</p><p>MACHA: O “meu” está aqui? Era assim que Marfa, a cozinheira, chamava antigamente o</p><p>seu policial, o “meu”. O “meu” está aqui?</p><p>TCHEBUTIKIN: Ainda não chegou.</p><p>128</p><p>MACHA: Quando alguém recebe a felicidade de longe em longe, aos pouquinhos, depois</p><p>a perde, como eu, acaba se tornado duro e amargo. (APONTA PARA O CORAÇÃO)</p><p>Aqui dentro ferve algo... (OLHA O IRMÃO, ANDREI QUE EMPURRA O CARRINHO DE</p><p>BEBÊ) Veja o Andrei, nosso irmão. Todas as nossas esperanças foram em vão. Milhares</p><p>e milhares de homens se empenharam para levantar um sino, gastou-se muito esforço</p><p>e dinheiro, e então o sino de repente despencou e rachou. Sem mais nem menos. Pois</p><p>esse é o caso de Andrei...</p><p>ANDREI: Quando é que finalmente a tranquilidade voltará a reinar nesta casa? Quanto</p><p>barulho!</p><p>TCHEBUTIKIN: Logo, logo. (CONSULTA O RELÓGIO) Tenho um relógio à moda antiga;</p><p>ele bate as horas... (DÁ CORDA NO RELÓGIO, QUE, ENTÃO, DÁ BATIDAS) A primeira, a</p><p>segunda e a quinta baterias sairão a uma em ponto (PAUSA), e eu, amanhã.</p><p>ANDREI: Para sempre?</p><p>TCHEBUTIKIN: Não sei. Talvez volte dentro de um ano. Sabe lá o diabo... Tanto faz...</p><p>DE LONGE, CHEGA O SOM DE UMA HARPA E DE UM VIOLINO.</p><p>ANDREI: A cidade vai ficar vazia. Como se a cobrissem com uma enorme redoma de</p><p>vidro. (PAUSA) Ontem aconteceu algo diante do teatro. Todos estão comentando, só eu</p><p>não sei de nada.</p><p>TCHEBUTIKIN: Não aconteceu nada... Bobagem. De novo Solionii provocou o barão,</p><p>que perdeu a calma e o ofendeu. Então, Solionii teve de desafiá-lo para um duelo...</p><p>(CONSULTA O RELÓGIO) Já tenho de ir... Ao meio-dia no bosque estadual, daqui dá</p><p>para ver... Do outro lado do rio... pif-paf (RI) Solionii imagina que é Lemontov, faz até</p><p>versos! Brincadeiras à parte, esse já é o seu terceiro duelo.</p><p>MACHA: De quem?</p><p>TCHEBUTIKIN: De Solionii.</p><p>MACHA: E o barão?</p><p>TCHEBUTIKIN: Que barão? (PAUSA)</p><p>MACHA: Tudo está confuso na minha cabeça... Eu quis dizer que isso não devia ser</p><p>permitido. Pois ele poderá ferir o barão, ou talvez até matá-lo.</p><p>TCHEBUTIKIN: O barão é uma boa pessoa, mas um barão a mais, um barão a menos...</p><p>tanto faz! Deixem! Tanto faz! (DE LONGE, OUVE-SE UM GRITO: “EI!”) Não tenha tanta</p><p>pressa. É Skvortzov, o padrinho. Já está sentado no barco. (PAUSA)</p><p>129</p><p>ANDREI: Na minha opinião, participar de um duelo ou apenas comparecer mesmo que</p><p>seja na qualidade de médico, é simplesmente imoral.</p><p>TCHEBUTIKIN: É só aparência. Nós nem existimos, nada no mundo existe, apenas</p><p>parece existir... Tanto faz como tanto fez!</p><p>MACHA: O dia inteiro é assim... Só dizendo essas coisas... (COMEÇA A ANDAR) Ter de</p><p>viver num clima desses, temendo que no minuto seguinte comece a nevar, e ainda por</p><p>cima ouvindo essas conversas... (DETÉM-SE) Não vou entrar na casa, não posso... Se</p><p>Verchinin chegar, me avisem. (DIRIGE-SE PARA A ALAMEDA)</p><p>E os pássaros migrantes</p><p>já estão seguindo para o sul. (OLHA PARA O CÉU) São cisnes ou gansos? Oh, queridos,</p><p>vocês são felizardos... (SAI)</p><p>ANDREI: A casa ficará vazia, os oficiais viajarão o senhor viajará, minha irmã vai se casar</p><p>e eu ficarei sozinho na casa.</p><p>TCHEBUTIKIN: E sua esposa?</p><p>ENTRA FERAPONT COM CARTAS PARA ASSINAR.</p><p>ANDREI: A esposa é a esposa. Ela é uma mulher boa, honrada, bastante decente, mas</p><p>algo nela a torna mesquinha, miúda e cega, algo animalesco. Não, ela não é humana.</p><p>Digo-lhe isso como a um amigo, a única pessoa a quem posso abrir o coração. Amo</p><p>Natacha, sim, amo-a, mas às vezes acho que ela é assombrosamente vulgar, e então</p><p>fico desconcertado, não compreendo o porquê e por que a amo, ou pelo menos a amei</p><p>algum dia...</p><p>TCHEBUTIKIN: (LEVANTA-SE) Eu, amiguinho, viajarei amanhã; talvez não nos vejamos</p><p>mais, assim dou-lhe um bom conselho. Sabe de uma coisa? Pegue o seu chapéu, a</p><p>bengala, e vá embora. Vá andando, andando, sem olhar para trás. E quanto mais longe</p><p>você for, melhor será.</p><p>AO FUNDO, PASSA SOLIONII ACOMPANHADO DE DOIS OFICIAIS; AO VER</p><p>TCHEBUTIKIN, APROXIMA-SE DELE. OS OFICIAIS SEGUEM ANDANDO.</p><p>SOLIONII: Doutorzinho, está na hora, já é meio-dia e meia.</p><p>SOLIONII E ANDREI SE CUMPRIMENTAM.</p><p>TCHEBUTIKIN: Já vou. Como todos me entediam! (A ANDREI) Se me procurarem,</p><p>Andriuchka, diga que voltarei logo. (SUSPIRA) Ai, ai...</p><p>SOLIONII: “Volta-se e estarrecido só diz, ai: era um urso que o seguia...” (ACOMPANHA-O)</p><p>Por que suspira, velho?</p><p>130</p><p>TCHEBUTIKIN: Ora!</p><p>SOLIONII: Como vai a saúde?</p><p>TCHEBUTIKIN: (RANZINZA) Não é da sua conta!</p><p>SOLIONII: Não precisa temer, velho. Não vou maltratá-lo, apenas matá-lo como a uma</p><p>perdiz. (TIRA DO BOLSO O VIDRINHO DE PERFUME E REGA AS MÃOS) Derrubei</p><p>quase o vidro inteiro nas mãos e elas continuam fedendo. Cheiram a defunto... (PAUSA)</p><p>Sim... Recorda estes versos de Lermontov? “E o rebelde busca a tormenta. Como se lá</p><p>residisse a paz...”</p><p>TCHEBUTIKIN: Sim... “E volta-se e estarrecido só diz, ai: era um urso que o seguia”.</p><p>SAEM OS DOIS. OUVE-SE UM GRITO “EI”. ENTRAM ANDREI E FERAPONT.</p><p>FERAPONT: Tem de assinar estes papéis...</p><p>ANDREI: Deixe-me em paz! Deixe-me! Suplico-lhe! (SAI COM O CARRINHO DE BEBÊ)</p><p>FERAPONT: O papel existe para ser assinado. (VAI PARA OS FUNDOS DA CENA)</p><p>ENTRAM IRINA E TUZENBACH; ESTE USA UM CHAPÉU DE PALHA. KULIGUIN</p><p>ATRAVESSA A CENA E GRITA: “OI, MACHA, OI!”</p><p>TUZENBACH: Acho que ele é a única pessoa na cidade que está feliz porque os soldados</p><p>vão embora.</p><p>IRINA: É compreensível. (PAUSA) A cidade ficará às moscas.</p><p>TUZENBACH: Minha querida, voltarei logo.</p><p>IRINA: Aonde você vai?</p><p>TUZENBACH: Tenho de ir à cidade... acompanhar os camaradas...</p><p>IRINA: Isso não é verdade... Nicolai, por que você está perturbado hoje? (PAUSA) O que</p><p>aconteceu ontem diante do teatro?</p><p>TUZENBACH: (COM GESTO IMPACIENTE) Daqui a uma hora estou de volta, para ficar</p><p>de novo com você. (BEIJA-LHE A MÃO) Meu amor... (CONTEMPLA-LHE O ROSTO)</p><p>Amo-a já há cinco anos, mas ainda não me acostumei com isso, e você a cada dia</p><p>está mais bonita. Como os seus cabelos são maravilhosos, divinos! E os olhos! Amanhã,</p><p>viajaremos, vamos trabalhar, enriqueceremos, e os meus sonhos se tornarão realidade.</p><p>Você será feliz. Só há um problema: você não me ama!</p><p>131</p><p>IRINA: Isso não depende de mim! Serei sua mulher fiel e obediente, mas não estou</p><p>apaixonada, e não tenho culpa disso! (CHORA) Nunca na vida me apaixonei. Apenas</p><p>sonhava com o amor, sonho há muito tempo, dia e noite, mas meu coração é como</p><p>um piano caro que está trancado e cuja chave se perdeu. (PAUSA) Como você está</p><p>inquieto!</p><p>TUZENBACH: Passei a noite em claro. Em minha vida nada há de terrível, de preocupante,</p><p>apenas a chave perdida me atormenta a alma. É isso que me impede de pegar no sono.</p><p>Diga-me algo... (PAUSA) Diga-me algo...</p><p>IRINA: O que quer que eu lhe diga?</p><p>TUZENBACH: Qualquer coisa.</p><p>IRINA: Chega! Chega! (PAUSA)</p><p>TUZENBACH: Na vida, às vezes coisas à-toa, coisas insignificantes, sem mais nem</p><p>menos adquirem importância. Rimos delas, como sempre fizemos, considerando-as</p><p>idiotices, e, no entanto continuamos a andar e sentimos como se estivéssemos sem</p><p>forças para parar. Oh, não vamos falar disso! Estou alegre! Como se visse esses pinheiros,</p><p>carvalhos e bétulas pela primeira vez. Tudo me olha com curiosidade e expectativa.</p><p>Como essas árvores são bonitas, e como seria maravilhoso viver junto delas. (GRITO:</p><p>“EI!”) Tenho a impressão de que mesmo se morresse continuaria a participar da vida de</p><p>alguma maneira. Adeus, querida! (BEIJA-LHE AS MÃOS) Os papéis que me entregou</p><p>estão sobre a mesa, debaixo do calendário.</p><p>IRINA: Vou com você.</p><p>TUZENBACH: (ALARMADO) Não, de modo algum. (SAI APRESSADO, PÁRA NA</p><p>ALAMEDA) Irina!</p><p>IRINA: O quê?</p><p>TUZENBACH: (NÃO ENCONTRA O QUE DIZER) Sabe, hoje eu nem tomei café... Peça</p><p>para me prepararem um.</p><p>SAI RAPIDAMENTE. IRINA PERMANECE PARADA, PENSATIVA, DEPOIS SE DIRIGE</p><p>AO FUNDO DA CENA E SE SENTA NO BALANÇO. ENTRA ANDREI COM O CARRINHO</p><p>DE BEBÊ. APARECE FERAPONT.</p><p>FERAPONT: Andrei... Esses documentos não são meus, pertencem à repartição. Não fui</p><p>eu que os inventei.</p><p>132</p><p>ANDREI: Oh, onde está o passado, quando eu ainda era jovem, alegre e inteligente?</p><p>Quando pensamentos e sonhos nobres me guiavam e a minha esperança iluminava</p><p>o presente e o futuro? Por que será que mal começamos a vida e já nos tornamos</p><p>enfadonhos, cinzentos, sem interesse, preguiçoso, indiferentes, imprestáveis,</p><p>infelizes... A nossa cidade tem já duzentos anos, conta cem mil habitantes, mas não</p><p>há um único ser que não se assemelhe aos demais, nunca houve um único herói, no</p><p>passado e nem no presente, não há nenhum sábio, um único artista sequer, não há uma</p><p>só pessoa merecedora de um mínimo de atenção, capaz de despertar a inveja ou um</p><p>desejo apaixonado de imitá-la... Elas se limitam apenas a comer, beber, dormir... Depois</p><p>morrem... Nascem outras, que também comem, bebem dormem, e para impedir que</p><p>o tédio as destrua diversificam a vida dedicando-se a mexericos venenosos, à vodka,</p><p>às cartas e aos processos litigiosos, as esposas traem o marido e os maridos mentem,</p><p>fingem não ver nem ouvir nada, e esse ambiente vulgar arruína as crianças; a centelha</p><p>divina apaga e elas se convertem em cadáveres miseráveis, semelhantes entre si, como</p><p>foram seus pais. (A FERAPONT, IRRITADO) Que diabo você quer?</p><p>FERAPONT: O quê? São os papéis; tem de assiná-los.</p><p>ANDREI: Estou farto de você.</p><p>FERAPONT: (ENTREGA-LHE OS PAPÉIS) O porteiro da Secretaria de Finanças me disse</p><p>agora mesmo que no inverno em São Petersburgo fez duzentos graus abaixo de zero.</p><p>ANDREI: O presente é repugnante, mas apesar disso quando penso no futuro se</p><p>transforma! Fica tudo tão leve, tão espaçoso; se ao longe rompe uma luz, vejo a liberdade,</p><p>vejo a mim e a meus filhos nos livramos do ócio, do kvas, do ganso e do repolho, da</p><p>sesta, da abjeta falta do que fazer...</p><p>FERAPONT: Ele diz que ficaram congeladas mais de duzentas pessoas. O povo morria</p><p>de medo... Foi em São Petersburgo ou em Moscou, já não sei mais...</p><p>ANDREI: (COMOVE-SE) Oh, minhas irmãs queridas, minhas irmãs encantadoras... (COM</p><p>LÁGRIMAS NOS OLHOS) Macha, minha irmãzinha querida.</p><p>NATACHA: (DA JANELA) Quem está falando tão alto? É você, Andrei? Você vai acordar</p><p>Sofotchka. Il ne faut pas faire du bruit, la Sopie este dormée déjà. Vous êtes un ours.</p><p>(IRRITADA) Se quiser gritar, passe o carrinho para alguém. Ferapont, tome o carrinho</p><p>do patrão!</p><p>FERAPONT: Sim, senhora. (PEGA O CARRINHO)</p><p>ANDREI: (DESCONCERTADO) Estou falando baixinho.</p><p>NATACHA: (DA JANELA, ACARICIANDO O FILHO) Bobik! Seu malandrinho! Seu</p><p>desaforado!</p><p>133</p><p>ANDREI: (FOLHEIA OS DOCUMENTOS) Está bem, vou revisá-los, assiná-los, e depois</p><p>você pode vir buscá-los.</p><p>ENTRA NA CASA FOLHEANDO OS PAPÉIS; FERAPONT SE DIRIGE AO FUNDO,</p><p>EMPURRANDO O CARRINHO.</p><p>NATACHA: (NA JANELA) Bobik, diga: mamãe! Queridinho! E esta, quem é? É tia Olga!</p><p>Diga: Alô, tia! (ENTRAM DOIS MÚSICOS AMBULANTES, UM HOMEM E UMA MOÇA;</p><p>TOCAM VIOLINO E</p><p>HARPA. SAEM DA CASA VERCHININ, OLGA E ANFISSA; POR UM</p><p>MINUTO, ESCUTAM-NOS EM SILÊNCIO; IRINA SE JUNTA A ELES)</p><p>OLGA: Nosso jardim parece uma estrada, todos passam por aqui. Babá, dê algo a esses</p><p>músicos.</p><p>ANFISSA: (DÁ-LHES DINHEIRO) Deus os abençoe, pobrezinhos! (A DUPLA DE</p><p>MÚSICOS AGRADECE E SAI) Gente triste, não faz isso por diversão. (A IRINA) Bom dia,</p><p>Aricha! (BEIJA-A) Oh, minha criança, você não imagina a boa vida que estou levando!</p><p>No ginásio, num apartamento do Estado, junto com Olia, Deus cuidou de mim na velhice.</p><p>Eu, pobre pecadora, nunca vivi assim... É um apartamento grande, do Estado, e eu tenho</p><p>um quarto inteiro para mim e cama. Tudo é do Estado. Acordo no meio da noite e – Oh,</p><p>Virgem Santíssima, não há no mundo pessoa mais feliz que eu!</p><p>VERCHININ: (CONSULTA O RELÓGIO) Logo, partiremos, Olga, tenho de ir. (PAUSA)</p><p>Desejo-lhe tudo... tudo... Onde está Maria Serguêievna?</p><p>IRINA: Está no jardim. Vou buscá-la.</p><p>VERCHININ: Por favor. Estou com pressa.</p><p>ANFISSA: Eu vou procurá-la também. (GRITA) Machenka! (DIRIGE-SE AO JARDIM</p><p>ACOMPANHANDO IRINA) Ôoo!</p><p>VERCHININ: Tudo tem seu fim. Agora vamos às despedidas. (CONSULTA O RELÓGIO)</p><p>A cidade nos ofereceu um lanche, tomamos champanhe também, e o prefeito falou.</p><p>Eu comia e ouvia em silêncio, mas a minha alma estava aqui entre vocês. (PASSA OS</p><p>OLHOS PELO JARDIM) Acostumei-me muito a esta casa.</p><p>OLGA: Voltaremos a nos ver um dia?</p><p>VERCHININ: Provavelmente, não. (PAUSA) Minha esposa e minhas duas filhas ainda</p><p>permanecerão aqui por mais dois meses. Peço-lhe que se acontecer alguma cosia, ou</p><p>se elas precisarem...</p><p>OLGA: É claro. Pode ficar tranquilo. (PAUSA) Amanhã, não restará um único soldado na</p><p>cidade, tudo se transformará em lembrança, e para nós, naturalmente, começará uma</p><p>134</p><p>vida nova... (PAUSA) Nem tudo acontece como nós gostaríamos. Não quis ser diretora,</p><p>no entanto acabei sendo. Eu certamente não irei a Moscou...</p><p>VERCHININ: Bem... Agradeço por tudo... Perdoe-me se, porventura, algo... Falei muito...</p><p>Demasiado... Me perdoe por isso, e não me queira mal.</p><p>OLGA: (ENXUGA OS OLHOS) Onde está Macha?</p><p>VERCHININ: Que mais posso dizer como despedida? Filosofar sobre o quê (RI) A vida</p><p>é difícil. A muitos parece ser sem sentido, mas devemos reconhecer que a cada dia</p><p>ela se torna mais clara e leve, e parece já não estar muito longe o momento em que</p><p>ela se tornará totalmente clara... (CONSULTA O RELÓGIO) Tenho de ir, está na hora.</p><p>Antes a humanidade vivia em função das guerras, toda a sua existência era ocupada</p><p>com marchas, assaltos, vitórias. Agora que isso acabou, ficou um enorme espaço</p><p>vazio que ainda não sabemos como preencher; a humanidade busca com ardor, e</p><p>naturalmente encontrará aquilo que procura. Oh, que seja o quanto antes! (PAUSA)</p><p>Sabe, se a dedicação ao trabalho se juntar à cultura, e se a cultura se juntar à dedicação</p><p>ao trabalho... (CONSULTA O RELÓGIO) Porém, já está na hora...</p><p>OLGA: Ela está chegando.</p><p>ENTRA MACHA.</p><p>VERCHININ: Vim me despedir.</p><p>OLGA SE AFASTA UM POUCO PARA NÃO ATRAPALHAR A DESPEDIDA.</p><p>MACHA: (OLHA-O NO ROSTO) Adeus... (LONGO BEIJO)</p><p>OLGA: Já chega...</p><p>MACHA SOLUÇA CONVULSIVAMENTE.</p><p>VERCHININ: Escreva-me... Não se esqueça de mim... Deixe-me... Tenho de ir... Olga,</p><p>leve-a daqui, eu já... Tenho de ir... Estou atrasado...</p><p>BEIJA, COMOVIDO, AS MÃOS DE OLGA, ABRAÇA MACHA MAIS UMA VEZ E SAI</p><p>RAPIDAMENTE.</p><p>OLGA: Não chore, Macha, não chore... Querida... (ENTRA KULIGUIN)</p><p>KULIGUIN: (EMBARAÇADO) Deixe-a chorar... Deixe... Minha boa e querida Macha,</p><p>você é minha mulher e eu estou feliz apesar de tudo... Não me queixo e nem lhe farei</p><p>recriminações... Olga é testemunha... Recomeçaremos a nossa vidinha de antigamente</p><p>e não lhe direi uma única palavra, não farei a menor alusão, nunca...</p><p>135</p><p>MACHA: (REPRIME OS SOLUÇOS) “À beira-mar há um carvalho... uma corrente de ouro</p><p>pende de seus galhos... uma corrente de ouro pende de seus galhos...” “Vou enlouquecer!</p><p>À beira-mar... há... um... carvalho...”.</p><p>OLGA: Acalme-se, Macha... Acalme-se. Dê-lhe água!</p><p>MACHA: Já não choro.</p><p>KULIGUIN: Ela já não chora. É uma boa mulher.</p><p>UM TIRO AO LONGE.</p><p>MACHA: À beira-mar, há um carvalho. Uma corrente de ouro pende de seus galhos...</p><p>À beira-mar, a corrente de ouro... O carvalho... Estou louca! (BEBE ÁGUA) Ai, que vida</p><p>infeliz é a minha... Já não quero mais nada... Logo me acalmarei... Tanto faz... Por que</p><p>esses versos me atormentam? Meus pensamentos se confundem.</p><p>ENTRA IRINA.</p><p>OLGA: Acalme-se, Macha... Assim. Agora você está sendo inteligente... Vamos para o</p><p>quarto.</p><p>MACHA: (IRADA) Não vou entrar. (SOLUÇA, MAS SE CONTÉM NA MESMA HORA) Não</p><p>entrarei mais nesta casa.</p><p>IRINA: Vamos nos sentar, e, pelo menos, fiquemos em silêncio juntas, pois amanhã eu</p><p>viajo... (PAUSA)</p><p>KULIGUIN: Ontem, tomei de um aluno malcomportado de terceira série esta barba e</p><p>estes bigodes. (COLOCA-OS NO ROSTO) Pareço o professor de alemão. (RI) Como são</p><p>malandros esses alunos, não é mesmo?</p><p>MACHA: Olhe só, não é que parece mesmo como professor de alemão?</p><p>OLGA: (RI) Sem tirar nem pôr.</p><p>MACHA CHORA.</p><p>IRINA: Não chore, Macha.</p><p>KULIGUIN: Igualzinho.</p><p>ENTRA NATACHA.</p><p>136</p><p>NATACHA: (À CRIADA) Entendeu? O senhor Protopopov ficará com Sofotchka e Andrei irá</p><p>levar Bobik para passear. Quanto aborrecimento causa uma criança... (A IRINA) Irina... Você</p><p>viaja amanhã que pena! Fique pelo menos mais uma semana. (REPARA EM KULIGUIN</p><p>E SOLTA UM GRITO; ESTE RI E TIRA O BIGODE E A BARBA) Ai, como me assustou!</p><p>(A IRINA) Acostumei-me com você e não me será fácil a separação. Colocarei Andrei</p><p>no seu quarto, lá ele poderá tocar violino à vontade. E o quarto dele será de Sofotchka.</p><p>É uma menina encantadora. Ela me olhou hoje com aqueles olhinhos e disse: mamãe!</p><p>KULIGUIN: De fato, é uma ótima criança.</p><p>NATACHA: Então, amanhã estarei sozinha aqui. (SUSPIRA) Antes de mais nada</p><p>mandarei cortar os abetos da alameda, depois esse álamo aqui... À noite, são tão feios...</p><p>(A IRINA) Querida, esse conto não lhe fica bem... É simplesmente de mau gosto. Devia</p><p>usar algo mais claro. E aqui plantarei flores por toda parte, flores bonitas e perfumadas.</p><p>(EM TOM SEVERO) Quem deixou esse garfo aqui no banco... Pergunto eu? (ENTRA NA</p><p>CASA; À CRIADA) O que faz o garfo no banco? (GRITA) Cale a boca!</p><p>KULIGUIN: Já começou!</p><p>DA RUA, CHEGA O SOM DE UMA BANDA MILITAR. TODOS FICAM ESCUTANDO.</p><p>OLGA: Estão indo embora.</p><p>ENTRA TCHEBUTIKIN.</p><p>MACHA: Os nossos vão embora. O que se pode fazer... Boa viagem! (AO MARIDO) Vamos</p><p>para casa... Onde está meu chapéu e o casaco?</p><p>KULIGUIN: Levei-os para dentro da casa... Já lhe trago.</p><p>OLGA: Sim, já está na hora de ir para casa.</p><p>TCHEBUTIKIN: Olga Serguêievna!</p><p>OLGA: O que é (PAUSA) O que é?</p><p>TCHEBUTIKIN: Não é nada... Não sei como dizer... (SEGREDA-LHE ALGO NO OUVIDO)</p><p>OLGA: (Aterrorizada) Não é possível!</p><p>TCHEBUTIKIN: É isso... Uma história idiota... Estou cansado e enjoado e não quero dizer</p><p>mais nada. (ZANGADO) Mesmo porque tanto faz!</p><p>MACHA: O que aconteceu?</p><p>OLGA: (ABRAÇA IRINA) Que dia terrível, hoje. Não sei como lhe dizer, querida...</p><p>137</p><p>IRINA: O que é? Digam-me depressa: o que aconteceu? Santo Deus! (DESATA A CHORAR)</p><p>TCHEBUTIKIN: O barão acaba de morrer num duelo.</p><p>IRINA: (CHORA BAIXINHO) Eu sabia, eu sabia...</p><p>TCHEBUTIKIN: (SENTA-SE NUM BANCO FUNDO) Estou cansado. (RETIRA DO BOLSO</p><p>UM JORNAL) Que chore... (CANTAROLA EM VOZ BAIXA) Trarará-tchim-bum... Além do</p><p>mais, tanto faz!</p><p>AS TRÊS IRMÃS, DE PÉ, ABRAÇAM-SE.</p><p>MACHA: Oh, como soa a música! Eles vão embora, um já se foi completamente...</p><p>Completamente e para sempre. E nós ficaremos sozinhas, e recomeçaremos a vida. É</p><p>preciso viver... É preciso viver...</p><p>IRINA: (INCLINA A CABEÇA SOBRE O PEITO DE OLGA) Chegará o dia em que todos</p><p>saberemos o porquê de tudo isso, por que todo esse sofrimento, e então não haverá</p><p>mais mistério... Porém, até então, temos de 69 viver e trabalhar. Trabalhar sempre!</p><p>Amanhã viajarei sozinha... Irei à escola, ensinarei e dedicarei a vida àqueles que talvez</p><p>precisem dela. Estamos</p><p>no outono; logo chegará o inverno, a neve cobrirá tudo, e eu</p><p>seguirei trabalhando, trabalhando sempre...</p><p>OLGA: (ABRAÇA AS DUAS IRMÃS) A música está tão alegre, tão animada, me dá</p><p>uma vontade imensa de viver! Ai meus Deus! O tempo vai passando, nós partiremos, e</p><p>seremos esquecidos para sempre. Esquecerão nosso rosto, nossa voz e também quantos</p><p>éramos, porem o nosso sofrimento se transformará em alegria para aqueles que virão</p><p>depois de nós, a felicidade e a paz reinarão sobre a terra, e as pessoas se lembrarão</p><p>com gratidão daqueles que vivem agora, e os abençoarão. Oh, queridas irmãzinhas, a</p><p>nossa vida ainda não chegou ao fim. Viveremos! A música soa tão alegre, tão cheia de</p><p>felicidade! E parece-me que logo saberemos por que vivemos, por que sofremos... Ai, se</p><p>soubéssemos o porquê... Se soubéssemos o porquê...</p><p>A MÚSICA VAI DIMINUINDO CADA VEZ MAIS. KULIGUIN, SORRIDENTE E ALEGRE,</p><p>TRAZ O CHAPÉU E O CASACO, ANDREI EMPURRA O CARRINHO DE BEBÊ ONDE</p><p>BOBIK ESTÁ SENTADO.</p><p>TCHEBUTIKIN: (CANTA À MEIA VOZ) “Trarará-tchim-bum... agarrei-me num poste...”</p><p>(LÊ O JORNAL). Tanto faz! Tanto faz!</p><p>OLGA: Se soubéssemos o porquê... Se soubéssemos o porquê!</p><p>CORTINA</p><p>(TCHEKHOV, 2021, p. 54-69)</p><p>138</p><p>Como podemos ver, existe um elemento de realidade crua, de morte das</p><p>idealizações românticas que toma o último ato da peça de Tchekhov, e, de maneira</p><p>geral, não só a proposta do realismo psicológico, como todo o fim do século XIX. Era</p><p>um momento de atenção para o sujeito humano, um momento de tensão quanto</p><p>às consequências possíveis dos atos, e, nesse ínterim, existia uma dificuldade de se</p><p>sustentarem grandes ideias que envolviam o que era o ser humano. Só o que se podia</p><p>fazer era aceitar a realidade, a falta de controle generalizada sobre aquilo que nos</p><p>aconteceu.</p><p>Outra coisa que salta aos olhos, no trecho da peça tchekhoviana, é a quantidade</p><p>de rubricas externas propostas pelo autor. Inserindo-se, constantemente, na ação,</p><p>o autor parece deslocar o quadro do que deve ser visto-lido na peça dele. A cena</p><p>demonstra possuir um maestro já aí, com as unidades clássicas de tempo, de espaço e</p><p>de ação, completamente, abandonadas.</p><p>Quanto às unidades clássicas e à relação com a cena, podemos pensar, de uma</p><p>maneira mais geral, nas vanguardas como um conjunto, na medida em que a única</p><p>coisa que, realmente, une-as, é a proposta de uma dissolução crítica do previamente</p><p>estabelecido.</p><p>A primeira formação literária que se opôs ao realismo e ao naturalismo foi o</p><p>Simbolismo. Teve o princípio simbólico marcado pela publicação da obra As Flores do</p><p>Mal, do poeta francês Charles Baudelaire. Em contraposição ao cientificismo positivista</p><p>do Naturalismo, e, mesmo, ao realismo psicológico cru, o simbolismo tinha, como ideia</p><p>fundamental, uma exploração da subjetividade e da metafísica para as movimentações</p><p>espiritual e sugestiva. A força da obra simbolista estava em não definir o objeto, mas</p><p>sugeri-lo.</p><p>A partir da exploração da sugestão contra a narrativa explícita, poetas, como</p><p>Rimbaud, Verlaine e Mallarmé, avançaram com essa estética na poesia francesa, da</p><p>mesma maneira que o poeta Cruz e Sousa tentou fazer no Brasil. Durante o surgimento,</p><p>o simbolismo se atentou a um sintoma interessante do momento das vanguardas,</p><p>o de que as formas estéticas pareciam se mesclar e deixar de funcionar com um</p><p>autonomismo. Dessa maneira, a referência à música foi constante na poesia simbolista,</p><p>e muitas outras formas estéticas assumiram uma similar construção poética, como foi</p><p>o caso do Impressionismo.</p><p>139</p><p>FIGURA 1 – OBRA IMPRESSÃO NASCER DO SOL (1872) – TELA IMPRESSIONISTA, DO PINTOR CLAUDE</p><p>MONET, QUE SE RELACIONA, TEMATICAMENTE, COM O SIMBOLISMO NA LITERATURA E NA DRAMATURGIA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/RwNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>No teatro, o simbolismo deu força a uma nova figura, à do encenador – um</p><p>coordenador de cena –, na medida em que jogou com o desmontar de elementos</p><p>tradicionais da montagem cênica. “A revalorização da arte face à ciência, em nome de</p><p>um conhecimento mais nobre, que não o do mundo empírico, ou seja, do conhecimento</p><p>da realidade espiritual que se alcança, apenas, com a intuição poética” é o que “constitui,</p><p>igualmente, uma crítica aos valores de uma sociedade utilitarista que ameaça aniquilar</p><p>tudo o que há de livre e de sublime no homem” (MOLINARI, 2010, p. 335). O teórico nos</p><p>lembra que, com esse objetivo em mente, a proposta estética deveria “renunciar a tudo</p><p>o que é atinente à realidade material das coisas”, formando-se, assim, uma alegoria do</p><p>movimento espiritual (seguindo essa linha que Molinari lembra que, para os parnasianos,</p><p>o ideal da arte poderia se recuperar na escultura, e, para os simbolistas, na música</p><p>(“música acima de tudo”, escrevia Verlaine)).</p><p>Nesse ínterim, o teatro tinha mais dificuldade, em comparação a outras formas</p><p>poéticas, de adaptação às premissas estéticas propostas pelo simbolismo, na medida</p><p>em que, evidentemente, o corpo do ator tinha um peso de “realidade material” contido</p><p>em si mesmo, de tal forma que “o ator, com o peso da própria presença física, só pode</p><p>nos reconduzir à anedota do mundo empírico”. Justamente, por causa desse impasse</p><p>teórico-prático, pensa o teatrólogo, muitos teóricos do simbolismo “polemizaram contra</p><p>a presença do ator em palco”. Na noção simbolista,</p><p>O teatro, apenas, pode ser harmonia de movimentos, de gestos,</p><p>de cores, de sons orientados para um símbolo. Assim, argumenta</p><p>Gordon Craig, essa harmonia só pode nascer da intuição de um</p><p>único criador, precisamente, do artista de teatro, do encenador, não</p><p>o pintor, nem o músico, nem mesmo é intérprete de um texto, mas</p><p>o cultor de uma arte que tem as próprias leis e os próprios valores: o</p><p>teatro (MOLINARI, 2010, p. 336).</p><p>140</p><p>O teatro passou, no Simbolismo, portanto, a funcionar como uma arte a ser</p><p>pensada a partir do efeito dos elementos constitutivos, como palco, ator, cenário, texto,</p><p>cena etc., além dos sentidos da narrativa representada. Nascia uma forma de olhar para</p><p>o teatro que tomava, como fundamento, a decomposição das formas estabelecidas:</p><p>formava-se, por fim, o teatro de vanguarda.</p><p>2.2 VANGUARDAS HISTÓRICAS EUROPEIAS</p><p>As vanguardas históricas, como são conhecidas as diferentes propostas</p><p>estéticas que tomaram a Europa no início do século XX, e que tinham, como objetivo, um</p><p>tentar fazer sentido para o tempo no qual nasciam, espalharam-se por uma variedade</p><p>de formas artísticas de diferentes maneiras. É importante que observemos, por um</p><p>momento, as principais apresentações, à medida que, através da forma dialogada entre</p><p>as diferentes formas estéticas que as vanguardas principiaram, foi feito com que toda</p><p>forma artística estivesse implicada na outra, com que as artes visuais se inclinassem em</p><p>direção à música, e que esta fosse aproximada da poesia, a qual formava um laço com</p><p>a dança, e assim sucessivamente.</p><p>A primeira grande formação vanguardista ficou conhecida como Expressionismo.</p><p>Teve o princípio marcado por volta de 1905, na Alemanha. Na arte expressionista, muito</p><p>inspirada pelas obras de Edvard Munch e de Vincent Van Gogh, os traços funcionavam</p><p>como uma fluidez que unia o fundo e a frente da imagem, e se jogava com a perspectiva</p><p>tão cara aos clássicos. No teatro, a reprodução da realidade deu lugar a uma metaforização</p><p>da vivência e a um exagero das formas de interpretação. A ideia era não mais sugerir,</p><p>como fizera o teatro simbolista, mas, agora, aumentar as perspectivas subjetivas e deixar</p><p>que o impacto fosse a mensagem.</p><p>FIGURA 2 – OBRA O GRITO (1893) – TELA QUE INSPIROU O MOVIMENTO EXPRESSIONISTA</p><p>E POSSUI AS ESTÉTICAS DE EXAGERO SUBJETIVO E DE DILUIÇÃO DAS FORMAS,</p><p>ALMEJADA PELO MOVIMENTO VANGUARDISTA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/7wNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>141</p><p>Outro movimento vanguardista que é digno de nota foi o movimento que ficou</p><p>conhecido como Fauvismo. Nascido por volta de 1905, o Fauvismo foi uma estética</p><p>que tinha, como objetivo fundamental, na pintura, a simplificação. Simplificação das</p><p>cores utilizadas,</p><p>simplificação dos traços feitos, simplificação dos temas abordados. O</p><p>Fauvismo, diante do jogo com as cores e da despretensão em relação à realidade dos</p><p>retratos, no sentido estrito do desenho das formas, foi criticado. O título vem do termo</p><p>“fauve”, ou “feras”, utilizado, pela crítica daquele tempo, para diminuí-lo, no entanto,</p><p>poucas escolas estéticas conseguem expressar, de forma tão bela, os princípios que</p><p>unificam a movimentação de vanguarda: a necessidade de reler aquilo que passa pelos</p><p>nossos sentidos.</p><p>FIGURA 3 – OBRA A DANÇA (1910), CRIADA PELO ARTISTA HENRI MATISSE,</p><p>PINTOR FUNDAMENTAL DO MOVIMENTO FAUVISTA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/swNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>O Cubismo, muito conhecido a partir da obra de Pablo Picasso, talvez, esteja entre</p><p>as vanguardas mais populares que aconteceram no princípio do século XX. A geometri-</p><p>zação das formas tinha, também, a força de denotar o cansaço frente à representação</p><p>habitual das formas: exigia-se, ali, uma outra construção, uma perspectiva nova.</p><p>FIGURA 4 – OBRA LES DEMOISELLES D’AVINGNON (1907), CRIADA PELO ARTISTA</p><p>PABLO PICASSO - TELA QUE MARCA O PONTO DE PARTIDA DO MOVIMENTO CUBISTA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/cwNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>142</p><p>O Futurismo, proposto por Fillipo Marinetti (1876-1944), em 1909, apresentava,</p><p>como o centro das questões, a exaltação da tecnologia e do movimento de progresso,</p><p>além da velocidade e das máquinas. Bebia muito na fonte da recente Revolução Industrial</p><p>e tomava, como fundamental, o entendimento das tecnologias daquele tempo.</p><p>FIGURA 5 – OBRA VELOCIDADE DE AUTOMÓVEL (1913), CRIADA PELO ARTISTA GIACOMO BALLA,</p><p>PINTOR DO MOVIMENTO FUTURISTA</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3Pi8P65>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>Já o Dadaísmo, iniciado em 1916, em noites festivas de Zurique, buscava um</p><p>outro entendimento do mundo, a partir da ilogicidade, do nonsense, e, até mesmo, dessa</p><p>ideia da boemia. O entendimento de uma falta de sentido para a realidade levava os</p><p>dadaístas a uma produção que considerava fundamental o instante da criação, assim,</p><p>produzia-se uma interessantíssima crítica do momento.</p><p>FIGURA 6 – OBRA A FONTE (1917), CRIADA PELO ARTISTA MARCEL DUCHAMP - OBRA</p><p>MARCANTE DO MOVIMENTO DADAÍSTA E SIGNO FUNDAMENTAL DAS VANGUARDAS</p><p>FONTE: <https://static.todamateria.com.br/upload/af/on/afontedadaismo.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>143</p><p>A forma ilógica, através da qual o Dadaísmo encarava a realidade, não deixou de</p><p>marcar presença nas ideias estéticas propostas por André Breton (1896-1966), quando</p><p>ele pensava no Surrealismo, por volta de 1924. Formado a partir de um entendimento</p><p>de ideias de Sigmund Freud (1856-1939) e mobilizado por um contexto político caótico, o</p><p>Surrealismo buscava a resposta para os problemáticos cortes traumáticos da sociedade</p><p>em uma produção onírica, inventada a partir da fantasia de uma sociedade sintomática.</p><p>FIGURA 7 – OBRA A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA (1931), CRIADA PELOA ARTISTA</p><p>SALVADOR DALÍ - TELA EXEMPLAR DO SURREALISMO</p><p>FONTE: <https://static.todamateria.com.br/upload/ap/er/apersistenciadamemoria-cke.jpg>.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>O século XX começou, portanto, buscando um jogo estético que não só fizesse</p><p>sentido aos acontecimentos traumáticos que se avizinhavam, como a Primeira Guerra</p><p>Mundial e os conflitos que levaram a ela, mas que demonstrasse, também, o sem sentido</p><p>desses traumas.</p><p>No livro Teoria da Vanguarda (2017), o teórico alemão Peter Bürger define o</p><p>acontecimento das vanguardas como um “estágio de autocrítica” do meio artístico.</p><p>[...] Com os movimentos históricos de vanguarda, o subsistema social</p><p>da arte entra no estágio da autocrítica. O Dadaísmo, o mais radical</p><p>dentre os movimentos da vanguarda europeia, não exerce mais</p><p>uma crítica às tendências artísticas precedentes, mas à instituição</p><p>arte e aos rumos tomados pelo desenvolvimento dela na sociedade</p><p>burguesa. Com o conceito de instituição arte, devem ser designados</p><p>os aparelhos produtor e distribuidor de arte e as noções predominantes</p><p>em um certo período, o que, essencialmente, determina a recepção</p><p>das obras. A vanguarda se volta contra ambos, contra o aparelho</p><p>distribuidor, ao qual está submetida a obra de arte, e contra o</p><p>status da arte na sociedade burguesa, descrito com o conceito</p><p>de autonomia. Só depois de a arte, no Esteticismo, ter se livrado,</p><p>inteiramente, de todos os laços com a práxis vital, o estético pôde se</p><p>desdobrar “de forma pura”, o que, por outro lado, tornou reconhecível</p><p>a outra face da autonomia, a inconsequência social. O protesto</p><p>144</p><p>vanguardista, cujo objetivo é reconduzir a arte à práxis vital, revela</p><p>a conexão entre autonomia e inconsequência. A assim principiada</p><p>autocrítica do subsistema social da arte possibilita a “compreensão</p><p>objetiva” das fases passadas de desenvolvimento. Enquanto, por</p><p>exemplo, no período do Realismo, o desenvolvimento da arte foi</p><p>construído segundo o ponto de vista da aproximação crescente</p><p>da representação em direção à realidade, hoje, uma tal construção</p><p>pode ser reconhecida na sua unilateralidade. O Realismo aparece,</p><p>agora, não mais como o princípio da criação artística, tornando-</p><p>se compreensível como soma de determinados procedimentos</p><p>de época. A totalidade do processo de desenvolvimento da arte</p><p>só se torna clara no estágio da autocrítica. Só depois de a arte,</p><p>efetivamente, libertar-se, por inteiro, de todas as relações com a</p><p>práxis vital, tornam-se reconhecíveis o progressivo deslocamento da</p><p>arte dos contextos da práxis vital e a decorrente cristalização de uma</p><p>esfera particular da experiência (isto é, o estético) como princípio de</p><p>desenvolvimento na sociedade burguesa (BÜRGER, 2017, p. 56-57).</p><p>De fato, podemos pensar nas vanguardas, a partir da reflexão de Bürger (2017),</p><p>como um acontecimento de crítica estrutural generalizada, na medida em que as</p><p>formas estéticas conversavam com o meio político. O diagnóstico da necessidade de</p><p>autocrítica não se assentou, única e exclusivamente, no meio artístico, mas se estendeu</p><p>ao que informava esse meio: a sociedade do início do século XX.</p><p>2.3 TEATRO EM VANGUARDA</p><p>No teatro, as vanguardas apareciam com uma tendência para a mesma</p><p>tensão crítica, como nos lembra Cesare Molinari (2010), em História do Teatro, quando</p><p>menciona o desenvolvimento dele durante aquele período. De maneira sintética, o</p><p>teatro foi dissolvido quase que, integralmente, nas vanguardas. Assim, é difícil pensar</p><p>nele unicamente, mas, sempre, relacionado com uma outra proposição artística.</p><p>“Em uma dissolução deles e em uma provocação direta aos espectadores”</p><p>(MOLINARI, 2010, p. 355). De fato, nos encontros dadaístas, promovidos por Tristan</p><p>Tzara, Hugo Ball e companhia, em Zurique, o autor afirma que “[...] os dadaístas se</p><p>apresentavam ao público em primeira pessoa, ou seja, sem a mediação de atores</p><p>externos ao grupo: o espetáculo, se é que é legítimo o chamar assim, podia se esgotar</p><p>com a leitura de poesias, com a apresentação de programas e de manifestos, e com</p><p>afirmações polêmicas” (MOLINARI, 2010, p. 355).</p><p>No jogo dramático proposto pelos dadaístas, “as intenções subversivas da</p><p>lógica teatral são claras” (MOLINARI, 2010, p. 355), e toma a peça Aventuras Celestes</p><p>do Senhor Antipirina, do escritor Tristan Tzara, para exemplificar:</p><p>[...] Havendo oito atores para uma só personagem, esta perde a</p><p>função unitária dela, essencial da ficção cênica, além de que o</p><p>discurso absurdo, o qual se desenrola a partir de várias vozes,</p><p>não permite nenhuma identificação de caráter sociológico ou</p><p>145</p><p>psicológico; a cenografia se dissolve em poucos elementos sem</p><p>sentido nem função, mas identificáveis por serem coisas reais. Não</p><p>cria ambientação, mas filtra e, vagamente, impede a visão dos atores.</p><p>Desse modo, precisamente, em virtude de a ação se desenrolar em</p><p>um palco, explicita-se a subversão das relações lógicas que o palco,</p><p>até então, comportara (MOLINARI, 2010, p. 355).</p><p>O objetivo era a pura dissolução da cena, do palco, das personagens, da própria</p><p>instituição teatral.</p><p>grego que foi da predominância dos</p><p>gêneros épico e lírico para uma apreciação mais profunda do gênero dramático? Qual</p><p>foi a origem dessa mudança de foco cultural?</p><p>A historiadora do teatro, Jennifer Wise, dedicou a obra dela, intitulada de Dionísio</p><p>Escreve: A Invenção do Teatro na Grécia Antiga, a apresentar uma leitura de como o</p><p>gênero dramático passou a predominar na sociedade grega a partir do século 6 a.C. De</p><p>acordo com a autora (WISE, 1998), o desenvolvimento da escrita, durante o correr do</p><p>século anterior, foi o fator determinante para que se instituísse como o gênero poético</p><p>hegemônico na comunidade grega. O que ela nos diz se acrescenta à ideia da origem do</p><p>teatro ritual religioso, e propõe que, apesar de as formas dramáticas possuírem muitos</p><p>laços com a religião e os rituais na Grécia antiga, foram as possibilidades de escrita, de</p><p>ensaio e de repetição da palavra poética que deram vazão ao teatro, para que ele, assim,</p><p>viesse a tomar forma como uma prática artística comum.</p><p>5</p><p>A possibilidade de escrita, de congelar o texto poético de maneira que ele</p><p>pudesse ser dramatizado por qualquer pessoa que se dedicasse ao ensaio do escrito,</p><p>popularizou e fundamentou o teatro grego, de maneira que o ponto de origem, em</p><p>rituais de louvor ao deus Dionísio, pudesse ser interpretado e passasse a povoar o</p><p>imaginário social do dia a dia, incluindo outras formas de dramatização. A partir daí,</p><p>houve um crescimento do interesse popular pelas produções dramáticas que, cada vez</p><p>mais, conectavam-se com o espírito da época grego, e que usavam as características</p><p>próprias dele para melhor falar do mundo que se apresentava.</p><p>Quais seriam as características citadas? Como o texto se estrutura de maneira</p><p>a criar esses laços com o público? O que acontece em uma peça? Conversaremos mais</p><p>a seguir.</p><p>O conceito de mimese (representação) é muito discutido no campo</p><p>da Teoria Literária. Para um melhor aprofundamento da questão,</p><p>é interessante observar a forma como Massaud Moisés explora o</p><p>conceito no Dicionário de Termos Literários.</p><p>FONTE: MOISÉS, M. Dicionário de termos literários. São Paulo:</p><p>Cultrix, 2013.</p><p>DICA</p><p>3 CARACTERÍSTICAS DO GÊNERO DRAMÁTICO</p><p>O gênero dramático, como forma literária, possui algumas características</p><p>próprias que o diferem de outras apresentações poéticas. A ideia de “drama” (em grego,</p><p>Δράμα), na Grécia antiga, deu nome ao gênero poético que discutimos, aqui, com a ideia</p><p>de “ação”, ou seja, drama é ação. A partir dessa compreensão, todas as características</p><p>do gênero dramático se tornam simples de entender, na medida em que elas existem</p><p>para dar uma melhor mobilidade para a ação narrativa do texto.</p><p>3.1 ESTRUTURA TEXTUAL</p><p>O gênero dramático é composto através de diálogos. Apesar de um diálogo não,</p><p>necessariamente, fazer um drama, essa é uma característica que fundamenta o gênero</p><p>desde o princípio, e, combinada com algumas outras particularidades, constrói o gênero</p><p>poético em questão. O diálogo possui a característica de colocar em jogo, na cena teatral,</p><p>a multiplicidade de perspectivas incorporadas pelos diferentes personagens. Ainda,</p><p>possibilita uma forte mobilidade narrativa da ação dramática. De fato, de acordo com a</p><p>dramaturga brasileira Renata Pallottini, no livro Introdução à Dramaturgia, o diálogo,</p><p>6</p><p>para ser dramático, deve conter, em si, o avanço dialético da ação, ou seja, deve alterar</p><p>algo no universo da ação do texto. Podemos ver um exemplo de diálogo dramático na</p><p>cena da peça Antígona, do autor grego Sófocles:</p><p>Cenário O frontispício do palácio real, na ágora de Tebas, onde reina</p><p>CREONTE.</p><p>Nasce o dia seguinte à derrota dos argivos comandados por</p><p>POLINICES, que haviam iniciado a fuga na noite expirante.</p><p>Estão em cena ANTÍGONA e ISMENE.</p><p>ANTÍGONA</p><p>Minha querida Ismene, irmã do mesmo sangue,</p><p>conheces um só mal entre os herdados de Édipo</p><p>que Zeus não jogue sobre nós enquanto vivas?</p><p>Não há, de fato, dor alguma, ou maldição,</p><p>afronta ou humilhação que eu não esteja vendo 5</p><p>no rol das tuas desventuras e das minhas.</p><p>Já tens conhecimento do decreto novo</p><p>que o rei, segundo dizem, promulgou agora</p><p>e mandou publicar pela cidade inteira?</p><p>Já te falaram dele, ou tu não vês ainda 10</p><p>os males que ameaçam os amigos nossos,</p><p>premeditados pelos nossos inimigos?</p><p>ISMENE</p><p>Sobre os amigos não ouvi notícia alguma,</p><p>Antígona, fosse agradável, fosse triste,</p><p>desde que nos levaram nossos dois irmãos 15</p><p>mortos no mesmo dia um pela mão do outro.</p><p>Já desapareceram os soldados de Argos</p><p>durante a noite recém-finda, e mais não sei,</p><p>nem mesmo se sou mais feliz ou infeliz.</p><p>ANTÍGONA</p><p>Eu já previa e te chamei aqui por isso; 20</p><p>apenas tu irás ouvir-me e mais ninguém.</p><p>ISMENE</p><p>Que há? Estás inquieta com as más notícias?</p><p>ANTÍGONA</p><p>Pois não ditou Creonte que se desse a honra</p><p>da sepultura a um de nossos dois irmãos</p><p>enquanto a nega ao outro? Dizem que mandou 25</p><p>proporcionarem justos funerais a Etéocles</p><p>com a intenção de assegurar-lhe no além-túmulo</p><p>a reverência da legião dos mortos; dizem,</p><p>também, que proclamou a todos os tebanos</p><p>a interdição de sepultarem ou sequer 30</p><p>chorarem o desventurado Polinices:</p><p>sem uma lágrima, o cadáver insepulto</p><p>irá deliciar as aves carniceiras</p><p>7</p><p>que hão de banquetear-se no feliz achado.</p><p>Esse é o decreto imposto pelo bom Creonte 35</p><p>a mim e a ti (melhor dizendo: a mim somente);</p><p>vê-lo-ás aparecer dentro de pouco tempo</p><p>a fim de alardear o edito claramente</p><p>a quem ainda o desconhece. Ele não dá</p><p>pouca importância ao caso: impõe aos transgressores 40</p><p>a pena de apedrejamento até a morte</p><p>perante o povo todo. Agora sabes disso</p><p>e muito breve irás tu mesma demonstrar</p><p>se és bem-nascida ou filha indigna de pais nobres.</p><p>ISMENE</p><p>Mas, nessas circunstâncias, infeliz irmã, 45</p><p>teria eu poderes para te ajudar</p><p>a desfazer ou a fazer alguma coisa?</p><p>ANTÍGONA</p><p>Decide se me ajudarás em meu esforço.</p><p>ISMENE</p><p>Em que temeridade? Qual a tua ideia?</p><p>ANTÍGONA</p><p>Ajudarás as minhas mãos a erguer o morto? 50</p><p>ISMENE</p><p>Vais enterrá-lo contra a interdição geral?</p><p>ANTÍGONA</p><p>Ainda que não queiras ele é teu irmão</p><p>e meu; e quanto a mim, jamais o trairei.</p><p>ISMENE</p><p>Atreves-te a enfrentar as ordens de Creonte?</p><p>ANTÍGONA</p><p>Ele não pode impor que eu abandone os meus. 55</p><p>ISMENE</p><p>Pobre de mim! Pensa primeiro em nosso pai,</p><p>em seu destino, abominado e desonrado,</p><p>cegando os próprios olhos com as frementes mãos</p><p>ao descobrir os seus pecados monstruosos;</p><p>também, valendo-se de um laço retorcido, 60</p><p>matou-se a mãe e esposa dele — era uma só —</p><p>e, num terceiro golpe, nossos dois irmãos</p><p>num mesmo dia entremataram-se (coitados!),</p><p>fraternas mãos em ato de extinção recíproca.</p><p>8</p><p>Agora que restamos eu e tu, sozinhas, 65</p><p>pensa na morte inda pior que nos aguarda</p><p>se contra a lei desacatarmos a vontade</p><p>do rei e a sua força. E não nos esqueçamos</p><p>de que somos mulheres e, por conseguinte,</p><p>não poderemos enfrentar, só nós, os homens. 70</p><p>Enfim, somos mandadas por mais poderosos</p><p>e só nos resta obedecer a essas ordens</p><p>e até a outras inda mais desoladoras.</p><p>Peço indulgência aos nossos mortos enterrados</p><p>mas obedeço, constrangida, aos governantes; 75</p><p>ter pretensões ao impossível é loucura.</p><p>ANTÍGONA</p><p>Não mais te exortarei e, mesmo que depois</p><p>quisesses me ajudar, não me satisfarias,</p><p>Procede como te aprouver; de qualquer modo 80</p><p>hei de enterrá-lo e será belo para mim</p><p>morrer cumprindo esse dever: repousarei</p><p>ao lado dele, amada por quem tanto amei</p><p>e santo é o meu delito, pois terei de amar</p><p>aos mortos muito, muito tempo mais que aos vivos.</p><p>Eu jazerei eternamente sob a terra 85</p><p>e tu, se queres, foge à lei mais cara aos deuses.</p><p>ISMENE</p><p>Não fujo a ela; sou assim por natureza;</p><p>não quero opor-me a todos os concidadãos.</p><p>ANTÍGONA</p><p>Alega esses pretextos, mas não deixarei</p><p>sem sepultura o meu irmão muito querido. 90</p><p>ISMENE</p><p>Ah! Infeliz! Quanta preocupação me causas!</p><p>ANTÍGONA</p><p>Não deves recear por mim; cuida de ti!</p><p>ISMENE</p><p>Ao menos não reveles</p><p>O Surrealismo, por outro lado, seguia uma lógica distinta, ainda</p><p>que muito informada pelos experimentalismos Dadá: a retomada da forma narrativa</p><p>ficcional. Contava-se uma história, no entanto, era informada pelo fantástico, pelo</p><p>impossível e pelo absurdo. A quebra com a lógica não estava na total dissolução de</p><p>todas as estruturas, mas da possibilidade de um entendimento generalizado da proposta</p><p>artística. “A ordem dos vários episódios é ilógica, ou os episódios se concluem em si</p><p>mesmos, as personagens são incoerentes e as situações imotivadas ou impossíveis”</p><p>(MOLINARI, 2010, p. 356).</p><p>Os futuristas, por sua vez, viram, no teatro, mais um “instrumento de propaganda</p><p>da ideologia vitalista, nacionalista e tecnocrata” (MOLINARI, 2010, p. 356) do que uma</p><p>forma artística que incorporasse, em si, os elementos vitais das propostas. O teatro tomou,</p><p>no Futurismo, mais explicitamente, esse lugar que vinha tomando, na verdade, desde o</p><p>Simbolismo: de espaço do pensamento, de alegoria das formas estéticas da vida.</p><p>De fato, a partir dessa lógica, um personagem importante para o pensar teatral</p><p>se colocou a fazê-lo: Antonin Artaud. Para o escritor, poeta e teórico francês, o teatro era</p><p>“uma operação mágica, ou seja, cultura em ação, interessada” (MOLINARI, 2010, p. 358).</p><p>Artaud é, de fato, apontado por Molinari (2010), como um dos pensadores fundamentais</p><p>para o desenvolvimento não só do teatro modernista, mas para os desenvolvimentos</p><p>dramático e espetacular que nos acompanham até o contemporâneo.</p><p>Para Artaud, as funções do teatro são as seguintes:</p><p>[...] Fazer explodir os abcessos coletivos e trazer à tona todo mal, toda</p><p>imundície do indivíduo e da sociedade, sendo, por isso, negro e cruel.</p><p>Contudo, a sua crueldade consiste, igualmente, na exteriorização do</p><p>drama essencial, em nos fazer sentir, fisicamente, a nossa submissão</p><p>às leis da necessidade metafísica, e, portanto, o constante perigo das</p><p>nossas vidas física e moral (MOLINARI, 2010, p. 358-359).</p><p>Para conseguir expor tal perigo, e fazer saltarem, aos olhos, o mal e a imundície</p><p>da sociedade e do indivíduo, Molinari (2010, p. 359-360) cita que o termo fundamental</p><p>da teoria dramática de Artaud era o “envolvimento”:</p><p>O público deixou de estar fora da ação, e passou a estar, agora, no</p><p>interior dela. Os atores atuam e falam entre os espectadores; institui-</p><p>se, entre uns e outros, uma relação física, direta. O espetáculo</p><p>deixa de ter uma visão longínqua, o teatro larga, no limite, de ser</p><p>um espetáculo, se o termo for entendido, segundo o significado</p><p>etimológico de contemplação. A obra de arte completa e, portanto,</p><p>146</p><p>intangível e emoldurada, a qual encontrava um lugar ideal no teatro à</p><p>italiana, no qual o arco cênico fornecia, precisamente, uma moldura,</p><p>intransponível diafragma, entra em crise.</p><p>A obra de Samuel Beckett (1906-1989), no teatro contemporâneo, conversava,</p><p>intimamente, com a dissolução proposta por Artaud. De certa maneira, Beckett levou o</p><p>envolvimento do público à última potência, até o momento em que o diluiu em silêncio.</p><p>Em Beckett e a Implosão da Cena, o teórico Luiz Marfuz comenta a respeito do término</p><p>do silêncio na obra de Beckett:</p><p>[...] Uma das experiências mais radicais de Beckett, no território do</p><p>silêncio, é Respiração, que se resume a um palco coberto de detritos,</p><p>luz débil, som gravado de vagido de recém-nascido, uma única</p><p>inspiração, uma única expiração e pausas controladas. A duração</p><p>total da peça chega a 35 segundos. Não há personagens no palco,</p><p>exceto detritos. A última indicação é: “Silêncio, manter por cinco</p><p>segundos”. O silêncio é início e fim, único e incomparável (MARFUZ,</p><p>2013, p. 32).</p><p>Marfuz (2013) completa o raciocínio, ao dizer que, em Beckett, “a ação não</p><p>se mostra de modo completo (nem no formato clássico, nem no moderno), mas cava</p><p>buracos que denunciam a própria ineficácia, embutindo-se nas brechas da situação,</p><p>no sentido de que essa melhor traduz a condição na qual se circunscreve uma cena às</p><p>avessas” (MARFUZ, 2013, p. 33).</p><p>De fato, por fim, é possível pensar em Beckett como um herdeiro dessa tradição</p><p>vanguardista, o qual tinha, no âmago da radicalidade dele, a relação de dissolução</p><p>fundamental das estruturas formativas da cena. Beckett carrega consigo, justamente,</p><p>essa força de destituição, ou, para usar o termo de Marfuz (2013), de implosão da cena</p><p>tradicional: faz-se, do drama, um ato outro. Contudo, essa não era a única forma de</p><p>apresentação crítica que se desenvolveu na época modernista. Existiu uma formação</p><p>dramática que tinha a luta política como fundamento, a qual será tratada a seguir.</p><p>2.4 ENCENANDO A LUTA POLÍTICA</p><p>Uma forma distinta que o drama incorporou durante o princípio do século</p><p>XX foi a de uma proposta não de dissolução basal das estruturas cênicas, mas de</p><p>um remanejamento crítico dessas estruturas, a fim de se formar um conhecimento</p><p>político revolucionário. Era uma crítica que Bürger (1936-2017) leu, de maneira aguda,</p><p>nas vanguardas estéticas, para a própria instituição. Podemos entendê-la como algo</p><p>amplo à sociedade burguesa, que a informava, passando a ser bem mais direcionada,</p><p>alimentada pela revolução russa e pela fundação da URSS.</p><p>O maior expoente dessa forma dramática foi o dramaturgo alemão Bertold</p><p>Brecht (1898-1956). O teatro épico, proposto por Brecht, tinha, como fundamentação,</p><p>a construção de um conhecimento revolucionário na sociedade. Brecht demonstrava,</p><p>147</p><p>como proposta, um teatro dialético, que pudesse dar a ver uma transformação que</p><p>passasse dos palcos para vida. Para isso, a principal estratégia era algo visto como uma</p><p>ideia, diametralmente, oposta à de Antonin Artaud, pois este propunha o envolvimento,</p><p>já aquele pensava no distanciamento. De fato, uma cena distanciada é uma parte fulcral</p><p>do que forma a ideia de uma peça didática na linguagem brechtiana, aquele que inspira</p><p>a experiência de uma verdadeira construção de conhecimento pelo espectador.</p><p>Nos dramas didáticos, esclarece-se, também, o conceito fundamental</p><p>da prática cênica brechtiana: “o distanciamento”, sobretudo, em A</p><p>Decisão. Quatro ativistas comunistas contam, encarnando, cada um</p><p>na sua vez, uma personagem, como e porque é que tiveram de matar</p><p>um companheiro deles. Com efeito, representar, de forma distanciada,</p><p>significa não fazer nenhum esforço para se identificar com a</p><p>personagem deve interpretar, mas acusá-la e julgá-la, digamos assim,</p><p>assumindo, sob juízo, um ponto de vista determinado, ou vários. Gera-</p><p>se uma representação essencial, a qual não reproduz, realisticamente,</p><p>todos os gestos que dada personagem executa ou pode executar,</p><p>só os gestos essenciais à compreensão dos motivos que levam a</p><p>personagem a agir de determinado modo, ou necessários para uma</p><p>análise do problema em questão (MOLINARI, 2010, p. 370-371).</p><p>Entretanto, não apenas os atores têm que fazer uma representação distanciada</p><p>quanto ao personagem. Também, dos espectadores, na proposta brechtiana, espera-se</p><p>um distanciamento crítico. Dessa forma, os que prestigiam</p><p>[...] continuam a estar, perfeitamente, conscientes no teatro: não</p><p>assistir, não sendo vistos [...], mas assistir à reprodução de um</p><p>acontecimento realizado em laboratório. O prazer que daí resulta,</p><p>conceito introduzido por Brecht no Breviário de Estética Teatral,</p><p>só em 1948, depois de a experiência dos dramas didáticos estar,</p><p>totalmente, concluída, é o prazer mais próprio do homem moderno,</p><p>do homem que vive em uma era científica: o prazer do conhecimento.</p><p>Com efeito, o distanciamento do espectador se dá não só porque,</p><p>faltando a identificação do ator com a personagem, ele não pode, por</p><p>sua vez, com uma típica transferência psicológica, identificar-se com</p><p>o protagonista, o herói, o bom, mas, também, porque os elementos</p><p>que constituem o espetáculo são alheios uns aos outros: as canções</p><p>se sobrepõem ao texto falado, a cenografia, à mímica, e por aí vai.</p><p>O espetáculo brechtiano, épico, é feito de contrastes dialéticos, aos</p><p>quais o espectador, sempre, lucidamente racional, é convidado a</p><p>tomar posição (MOLINARI, 2010, p. 272-273).</p><p>A estratégia brechtiana era produzir uma diferença perspectiva, formar o</p><p>conhecimento, desenvolver uma crítica generalizada da sociedade que não assentasse</p><p>na afirmação do dramaturgo, de que havia algo de errado, mas que colocasse o</p><p>questionamento ao próprio espectador, inserindo, nele, a necessidade de investigação</p><p>da realidade material que o cercava. Assim, o distanciamento se tornou a chave</p><p>fundamental para uma fundamentação crítica dentro da dramaturgia, no princípio do</p><p>século XX, e a própria existência dessa necessidade representava, e muito, os sintomas</p><p>daquele momento no mundo, afinal de contas, a revolução russa já ocorrera, a Primeira</p><p>Guerra Mundial acabara sem que houvesse a mínima resolução factual dos conflitos que</p><p>148</p><p>a geraram, e a Segunda Guerra Mundial estava às portas. O teatro épico de Brecht, como</p><p>as vanguardas, as quais eram as contemporâneas dele, nada mais significava do que</p><p>as tentativas estéticas de se (de)formarem novas leituras, de se tentar diagnosticar os</p><p>problemas de um presente ao mesmo tempo em que se tentava semear uma diferença</p><p>para o futuro.</p><p>O conceito de “distanciamento”, na obra de Bertold Brecht, tem,</p><p>em si, contida uma ideia contextual que leva em consideração a</p><p>distância necessária para o desenvolvimento dialético do conhecimento.</p><p>Não se confunde com a prática de “manter distância”, mas propõe</p><p>uma perspectiva dramático-narrativa, a partir da qual o que é</p><p>apresentado em cena dispõe de uma distância de perspectiva do</p><p>ator que interpreta a personagem e do público em relação à cena.</p><p>NOTA</p><p>FIGURA 8 – ENCENAÇÃO BRASILEIRA DE UMA DAS PEÇAS SEMINAIS DE BRECHT: A VIDA DE GALILEU</p><p>FONTE: <http://twixar.me/j9Nm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>A força política das propostas de distanciamento, de didática revolucionária e</p><p>de uma dialética crítica a respeito do meio social, propostas por Brecht, teve eco nas</p><p>produções dramáticas do Brasil do século XX.</p><p>Dentre as formações estéticas e as proposições acontecidas aqui, no nosso</p><p>país, e que tiverem alguma relação temática com as propostas do dramaturgo alemão,</p><p>pode-se destacar, principalmente, o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, além do</p><p>Teatro Experimental do Negro, proposto, inicialmente, por Abdias do Nascimento.</p><p>149</p><p>O Teatro Experimental do Negro foi uma companhia teatral fundada por Abdias</p><p>do Nascimento, a qual durou de 1944 a 1961. Apesar de não afirmar a relação direta</p><p>que tinha com a obra de Brecht, apresentava, como fundamento, o posicionamento</p><p>dialético frente à opressão racial percebida no país. A forma crítica de disposição cênica</p><p>parecia beber na fonte das propostas de desenvolvimento dialético da obra brechtiana.</p><p>FIGURA 9 – MONTAGEM DE ANJO NEGRO, PELO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO</p><p>FONTE: <http://www.palmares.gov.br/wp-content/uploads/2016/01/Ten-a.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>Já o Teatro do Oprimido, idealizado por Augusto Boal, nos anos de 1960, tinha,</p><p>na poética brechtiana, uma clara inspiração. Tomou as diferentes estratégias teatrais</p><p>a partir de uma leitura do que ele diagnosticou, no Teatro do Oprimido e Outras</p><p>Poéticas Políticas, como a “poética marxista” (BOAL, 1983, p. 114), de Bertold Brecht.</p><p>Podemos pensar no Teatro do Oprimido como um tipo de proposta prática que unia,</p><p>simultaneamente, em si, uma disposição estética, pedagógica e política.</p><p>Na estética, Boal propôs um variado número de atividades, como o Teatro-Jornal,</p><p>o qual consistia na encenação daquilo que faltava das notícias divulgadas à população;</p><p>o Teatro Invisível, o que funcionava como uma encenação da possibilidade de uma cena</p><p>cotidiana fora dos palcos, inventado como uma crítica à retirada, pela ditadura argentina,</p><p>da atividade de encenação teatral; o Teatro-Imagem, com todo o sentido escrito da cena</p><p>transposto em imagens corporais concretas, de maneira a facilitar uma comunicação</p><p>inviável, pensada, por Boal, em um esforço de comunicação com tribos indígenas do</p><p>Chile etc. No fim, culminavam, todas, em uma participação crítica-dialética, pode-se</p><p>dizer, partindo da relação teórica com o teatro épico brechtiano – público e corpo. Os</p><p>exercícios, os jogos e as técnicas, para avançar com o funcionamento crítico e a relação</p><p>interpessoal do Teatro do Oprimido, tinham, como função, uma forte democratização</p><p>dos “meios de produção teatral”. Esse funcionamento bebia, fortemente, em uma veia</p><p>(para a qual o teatro parecia ter uma tendência natural) pedagógica.</p><p>150</p><p>De fato, muito se comentou a respeito da relação que o Teatro do Oprimido,</p><p>de Augusto Boal, construía com a Pedagogia do Oprimido, pensada por Paulo Freire.</p><p>No artigo Paulo Freire e Augusto Boal: Diálogos Entre Educação e Teatro, a professora</p><p>Cilene Canda traça um paralelo entre os dois autores e as propostas deles, ao nos dizer</p><p>que Paulo Freire pensou na “Educação Libertadora” “por meio da participação política</p><p>em lutas e em movimentos sociais, enquanto oposição à educação bancária; o princípio</p><p>de libertação social é resultante do processo permanente de conscientização, por parte</p><p>dos sujeitos, do papel deles para a transformação da vida e das relações de opressão”</p><p>(CANDA, 2012, p. 189), e que “Augusto Boal construiu uma trajetória artístico-educativa</p><p>de fortalecimento das potencialidades dos sujeitos nos atos de criação estética,</p><p>reflexão e conscientização política” (CANDA, 2012, p. 189). A percepção do teatro, como</p><p>ferramenta de transformação social, por Boal, parecia se sintonizar com as propostas</p><p>freirianas, na medida em que o título Teatro do Oprimido foi dado em homenagem às</p><p>propostas pedagógicas de Paulo Freire. Nessa linha, Canda relembra a tese de doutorado</p><p>de Tânia Teixeira, Dimensões Socioeducativas do Teatro do Oprimido: Paulo Freire e</p><p>Augusto Boal. A pedagoga menciona que ambos, Boal e Freire,</p><p>defendem a educação como ato dialógico, destacando a necessidade</p><p>de uma razão dialógica comunicativa. Reconhecem que os atos de</p><p>conhecer e de pensar estão, diretamente, ligados à relação com o</p><p>outro. O conhecimento precisa de expressão e de comunicação. Não</p><p>é um ato solitário, e se estabelece na dimensão dialógica (TEIXEIRA,</p><p>2007, p. 12).</p><p>A elaboração estética, pela via pedagógica, no Teatro do Oprimido, portanto,</p><p>direcionou-se para uma existência dialógica, a qual levava em consideração as tensões</p><p>estruturais de uma sociedade na qual um precisava, sempre, conviver com o outro,</p><p>e na qual existia uma relação de opressão alimentada pela própria estrutura, e, por</p><p>conseguinte, política.</p><p>Dessa forma, o Teatro do Oprimido se colocou como um elemento de mobilização</p><p>social, como um conjunto de práticas e de invenções cênicas que tinha, como objetivos,</p><p>a tomada de consciência de classe e a mobilização estrutural de discursos e de forças</p><p>em favor da classe oprimida.</p><p>3 DESDOBRAMENTOS DE MÍDIAS DA DRAMATURGIA</p><p>O século XX, no entanto, não desenvolveu a dramaturgia, apenas, nos palcos,</p><p>como fizeram os séculos anteriores. Nasceram e se desenvolveram o cinema e a</p><p>televisão, e, com eles, novas técnicas dramáticas. A seguir, observaremos, brevemente,</p><p>as condições que geraram essas diferentes formas de aplicação dramática, e</p><p>tentaremos entender o que essas variações da cena do palco causaram no status da</p><p>poesia dramática contemporaneamente.</p><p>151</p><p>3.1 CINEMA ENTRA EM CENA</p><p>O cinema teve origem no experimento criado em 1895, pelos Irmãos Lumière,</p><p>com o cinematógrafo.</p><p>O aparelho desenvolvido por eles, filhos de um fotógrafo e proprietário de uma</p><p>indústria de filmes e de papéis fotográficos, é o ancestral da filmadora. Era movido</p><p>à manivela e utilizava negativos perfurados. Como era leve, o instrumento facilitava</p><p>filmagens externas, e, ao longo dos anos, os irmãos usaram a câmera para fazer mais</p><p>de mil curtas-metragens, a maioria dos quais retratava cenas da vida cotidiana. Dessa</p><p>maneira, o invento dos irmãos franceses superou os concorrentes e se transformou no</p><p>aparelho preferido daqueles que desejavam registrar imagens em movimento.</p><p>O primeiro</p><p>filme exibido foi A Saída da Fábrica Lumière em Lyon, gravado pelos</p><p>irmãos. Contudo, no princípio do século XX, por volta de 1902, as primeiras histórias</p><p>narrativas começaram a ser filmadas por alguns visionários, como Alice Guy e Georges</p><p>Méliès.</p><p>O cinema foi se desenvolvendo com diferentes técnicas narrativas e imagéticas,</p><p>colocadas à frente por nomes conhecidos, como D. W Griffith, nos EUA, com a montagem</p><p>dialética; pelos expressionistas da Alemanha; pelo Surrealismo da Espanha, com obras,</p><p>como O Cão Andaluz, de Luis Buñuel (1900-1983) e Salvador Dalí (1904-1989); e pelos</p><p>desenvolvimentos narrativo e dialético do cinema soviético, com exemplos seminais,</p><p>como Sergei Eisenstein e o Encouraçado Potemkim.</p><p>FIGURA 10 – CENA DE UM CÃO ANDALUZ, FILME DE LUIS BUÑUEL E SALVADOR DALÍ, CONSIDERADO UMA</p><p>DAS OBRAS QUE MAIS AVANÇARAM COM AS TÉCNICAS CINEMATOGRÁFICAS E NARRATIVAS DO MEIO</p><p>FONTE: <planocritico.com/wp-content/uploads/2020/02/1928-Un-Chien-Andalou-um-cao-andaluz.jpg>.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>152</p><p>A primeira metade do século XX desenvolveu a narrativa cinematográfica,</p><p>de maneira que cristalizou as bases para o que é, hoje, uma das maiores indústrias</p><p>do mundo. Contemporaneamente, Hollywood controla uma quantidade imensa de</p><p>produções cinematográficas, e o cinema existe como uma forma de colocar em</p><p>evidência uma narrativa de propaganda do American Way Of Life, a qual foi, inicialmente,</p><p>proposta, ainda, durante o período da Guerra Fria, entre Estados Unidos da América e</p><p>União Soviética.</p><p>Herança desse período, o cinema é, atualmente, uma máquina importante não</p><p>só para o desenvolvimento de uma sociedade que preze pelo status quo, mas, também,</p><p>para a produção de uma crítica a este, na medida em que, tendo em vista a importância</p><p>dada à imagem e à circulação no mundo contemporâneo, a narrativa imagética do</p><p>cinema tem grandes possibilidades de penetrar em audiências variadas e de reelaborar</p><p>discursos, por vezes, cimentados.</p><p>FIGURA 11 – CENA DE O ENCOURAÇADO POTEMKIM,</p><p>OBRA SEMINAL DO CINEASTA SOVIÉTICO SERGEI EISENSTEIN</p><p>FONTE: <http://twixar.me/k9Nm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>A teledramaturgia se popularizou por volta dos anos de 1930, nos Estados Unidos</p><p>da América. A princípio, teve um caráter experimental, com as narrativas circulares,</p><p>e não se preocupou muito com o desenvolvimento das personagens, no entanto,</p><p>o caráter serial já está ali presente. Na América do Norte, apenas, por volta dos anos</p><p>de 1980, passou-se a se importar, um pouco mais, com o desenvolvimento de um</p><p>arco dramático, e foi tomado, como parte importante, o retrato mais ou menos fiel do</p><p>mundo social.</p><p>3.2 TELEDRAMATURGIA E EFEITOS HOJE</p><p>153</p><p>No Brasil, a teledramaturgia, popularizada por volta dos anos de 1950, ganhou</p><p>força e se tornou o produto televisivo mais consumido no país até os dias atuais. As</p><p>novelas brasileiras são um fenômeno da cultura popular, caracterizadas por um texto</p><p>relacional que bebe em jorros românticos, por parte das idealizações narrativa e realista.</p><p>Com a caracterização do meio retratado, o texto foge de uma complexidade maior frente ao</p><p>interesse de manter interessado o enorme público que acompanha a narrativa.</p><p>A simplificação gera muitas críticas quanto à profundidade das narrativas</p><p>apresentadas, críticas que deixam de levar em conta o escopo do fenômeno cultural</p><p>que é a teledramaturgia brasileira. Com histórias de romance e de aventura, de dramas</p><p>adolescentes a narrativas de época que retratavam períodos históricos, as histórias</p><p>conseguem plantar a possibilidade de uma mudança de perspectiva a um público</p><p>imenso, ainda que uma leitura crítica seja diluída pela necessidade de uma formatação</p><p>narrativa.</p><p>4 POLÍTICAS DAS CENAS: DRAMA COMO ELEMENTO DE</p><p>METAMORFOSE SOCIAL</p><p>O historiador Eric Hobbsbawn afirmava que o século XX fora curto. No entanto, o</p><p>mesmo historiador reconhecia a explosividade desse curto período. A existência das</p><p>vanguardas históricas, o nascimento do cinema e o desenvolvimento da teledramaturgia</p><p>acontecerem no século XX, como forma de fazer sentido a um momento que forçou</p><p>as barreiras de significado desse termo. O sem sentido parecia a regra e a arte,</p><p>invariavelmente, em diálogo com o social. Nada se fazia, além de dialogar com essa</p><p>própria falta de senso.</p><p>Desde a primeira unidade deste livro didático, conversamos a respeito de como</p><p>a arte fala com o social e do poder de mudança da poesia dramática. De fato, cada vez</p><p>mais, a dramaturgia ganha uma força fenomenal para movimentar as estruturas, na</p><p>medida em que, hoje, o cinema é uma das maiores indústrias existentes no mundo, o</p><p>braço forte de um programa imperialista midiático e fundamento de muitas lutas de</p><p>resistência.</p><p>Entender o caminho que nos trouxe até aqui é poder criar um pensamento</p><p>crítico para o que vem a seguir. É necessário esse pensamento crítico, além da</p><p>compreensão dos efeitos da dramaturgia. Ainda, torna-se imprescindível o entendimento</p><p>das estratégias, possivelmente, inclusas nesse meio. O texto dramático, nos dias</p><p>atuais, invade as casas e povoa as mentes, marca presença na internet e não deixa um</p><p>espaço inexplorado. Assim, os profissionais dedicados a lidar com as especificidades do</p><p>drama precisam abarcar a força e a sutileza brutal envolvidas em trabalhar com a cena</p><p>contemporânea.</p><p>154</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• O século XIX foi um período de suspensão quanto ao desenvolvimento de propostas</p><p>teatrais, tendo, o romantismo, dominado mais da metade do decorrer dele. No fim do</p><p>século, as escolas distintas começaram a despontar como o Naturalismo, o Realismo</p><p>e o Simbolismo.</p><p>• As escolas literárias formadas no fim do século XIX pareciam ter uma certa descrença</p><p>no ser humano, e apresentavam isso de diferentes maneiras: era patologizado no</p><p>Naturalismo, proposta uma desesperança cínica no Realismo e escapado da realidade</p><p>material no Simbolismo.</p><p>• O século XX começou com uma quantidade imensa de novas propostas estéticas,</p><p>as quais ficaram conhecidas como vanguardas históricas. Nelas, as estruturas que</p><p>compuseram as artes e a sociedade, até então, eram questionadas, dissolvidas</p><p>e reelaboradas para a tentativa de construir algum tipo de discurso, com ou sem</p><p>sentido, para os acontecimentos contextuais do período.</p><p>• O cinema e a teledramaturgia, também, foram fruto do século XX, e funcionaram de</p><p>maneiras distintas: o cinema foi um braço do vanguardismo, e funcionou como uma</p><p>estrutura propagandística importante da Guerra Fria, e a televisão infiltrou um tipo de</p><p>anestesia nas populações.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>155</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 O Naturalismo nasceu no fim do século XIX, como uma proposta estética que tinha,</p><p>em seu seio, uma leitura científica do ser humano. A partir dessa leitura, as teses</p><p>naturalistas pintavam uma figura bem específica do homem. Assim, assinale a</p><p>alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) De acordo com o determinismo naturalista, o homem era, naturalmente, perverso.</p><p>b) ( ) Era parte fundamental, da cena naturalista, o se despir de tudo o que era supérfluo.</p><p>c) ( ) O ator naturalista deveria agir como se estivesse na própria casa.</p><p>d) ( ) Foi o pensador Emile Zola que melhor difundiu a estética teatral naturalista na</p><p>Europa.</p><p>2 O Realismo, ou realismo psicológico, desenvolveu-se quase que, simultaneamente,</p><p>com o Naturalismo, no entanto, a leitura mais sóbria, e pouco explícita, dos desarranjos</p><p>das relações sociais humanos, deu, ao Realismo, uma sobrevida maior nas tradições</p><p>literária e dramática. Acerca das características do Realismo, analise as sentenças a</p><p>seguir:</p><p>I- Era uma escola estética que valorizava as idealizações do futuro e do homem.</p><p>II- Tinha, como intuito, a leitura lúdica da sociedade, evitando tecer críticas ácidas.</p><p>III- A partir da realidade material, traçava-se uma abordagem dos personagens, o que</p><p>levava em consideração as implicações psicológicas possíveis.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está</p><p>correta.</p><p>c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>d) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>3 O Simbolismo se iniciou na França, com a publicação de Charles Baudelaire, muito</p><p>próximo do fim do século XIX. Acerca das características e das implicações estéticas</p><p>do Simbolismo, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças</p><p>falsas:</p><p>( ) O Simbolismo era uma escola literária baseada na ciência.</p><p>( ) No Simbolismo, a metafísica, o espiritual e a arte estavam acima da materialidade</p><p>imediata.</p><p>( ) No teatro, as ideias simbolistas eram de tal ordem que as consequências finais</p><p>seriam a abolição do ator. Nesse sentido, dentro dessa proposta estética, o trabalho</p><p>do encenador, no teatro, ganhou força.</p><p>156</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – F – F.</p><p>b) ( ) V – F – V.</p><p>c) ( ) F – V – F.</p><p>d) ( ) F – V – V.</p><p>4 Uma linha que uniu as diferentes apresentações estéticas das vanguardas, na</p><p>Europa, foi a preocupação com a dissolução das estruturas cimentadas até o início</p><p>do século XX. A respeito dessa questão, aponte o que fez com que, a posteriori, o</p><p>teórico Peter Bürger tenha conseguido afirmar que o Dadaísmo foi o mais radical</p><p>dentre as vanguardas.</p><p>5 Em contraponto ao envolvimento proposto por Antonin Artaud, Bertold Brecht</p><p>propunha o distanciamento. Explique o que diferenciava um do outro.</p><p>157</p><p>PERFORMANCE:</p><p>CORPO EM CENA E RAZÕES DE SER</p><p>UNIDADE 3 TÓPICO 2 —</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Pensar na contemporaneidade é pensar na performance. Os estudos</p><p>performáticos, campo acadêmico nascido dentro da tradição pós-estruturalista,</p><p>em meados dos anos 1970, têm, em si, um grande escopo de disciplinas, na medida</p><p>em que a performance não é vista, única e exclusivamente, como um jogo de cena</p><p>possível em um palco, mas como um agir sobre a vida. Dessa maneira, variados ramos</p><p>das ciências humanas se debruçam sobre os estudos do viver performático, do agir no</p><p>mundo social como uma ação performática. A própria ideia de performance, extrapolada</p><p>para uma leitura social, dentro dos estudos performáticos, tem o germe nas artes</p><p>performáticas, e em como elas reorganizam a cena possível a partir dos corpos e da</p><p>ação. A arte performática é o despir da poesia dramática em direção àquilo que, já no</p><p>início, era a essência dela (mesmo etimológica): a ação.</p><p>Podemos rastrear o nascimento da arte da performance nos serões dadaístas,</p><p>em 1916. A dissolução da cena era de tal ordem que a simples ação era levada em</p><p>consideração como essência cênica: era importante o agir ao ler um poema, ao se dirigir</p><p>ao público, ao produzir chistes para os companheiros, ou seja, a ação era fundamental,</p><p>mas, a organização, opcional.</p><p>Apesar de ter se iniciado na década de 1910, a partir das performances dadaístas</p><p>e futuristas (como acompanhamos no tópico anterior), com o desenvolvimento de um</p><p>discurso crítico, voltado para a generalização perceptiva das artes performáticas, estas</p><p>passaram a tomar o centro do discurso artístico. Por volta de 1960, diversos grupos</p><p>da neovanguarda estadunidense começaram a focar no desenvolvimento das artes</p><p>performáticas como forma de produzir uma crítica, diretamente, àquele tempo.</p><p>A arte performática envolve quatro elementos básicos: tempo, espaço, corpo</p><p>e ação, ou gesto do artista diante de quem experiencia a performance. A seguir,</p><p>observaremos alguns dos mais importantes grupos performáticos do século XX e como</p><p>esses elementos conversavam com as respectivas ações estéticas.</p><p>158</p><p>O pós-estruturalismo foi uma escola filosófica iniciada mais para</p><p>os fins da década de 1960. Tinha uma proposta de pensar no</p><p>mundo para além das grandes estruturas que pautaram todo o</p><p>pensamento da primeira metade do século XX.</p><p>NOTA</p><p>2 PERFORMANCE E DESENVOLVIMENTO NO SÉCULO XX</p><p>O primeiro grupo que chamou atenção durante o crescimento das artes</p><p>performáticas, nos anos de 1960, foi o Acionismo Vienense, muito criticado, na</p><p>época, devido às performances chocantes e excessivas. Esse grupo ficou conhecido</p><p>pela estética grotesca aplicada nas apresentações e pela forma através da qual parecia</p><p>ter a intenção de colocar a natureza humana exposta aos instintos mais basais. Ainda,</p><p>influenciou, grandemente, o mundo performático contemporâneo. O artista expoente</p><p>desse time foi o austríaco Hermann Nitsch. Nitsch pensou, por volta de 1962, nas ideias</p><p>fundamentais do Teatro Orgíaco de Mistérios. Nessa proposta estética, os horrores dos</p><p>massacres, do sangue e da dor estavam relacionados a um pano de fundo religioso,</p><p>o que parecia mesclar uma crítica simultânea à dor do cotidiano com a culpa moral</p><p>generalizada do sagrado.</p><p>FIGURA 12 – PERFORMANCE DO GRUPO ACIONISMO VIENENSE</p><p>FONTE: <https://d16kd6gzalkogb.cloudfront.net/magazine_images/197-4.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>Nos Estados Unidos da América, um variado número de artistas, também,</p><p>por volta dos anos de 1960, começou a se interessar pelas possibilidades da arte</p><p>performática. Em Nova Iorque, o Living Theatre almejava compreender o teatro como</p><p>uma forma de vida, uma ética pessoal. A performance dele se espelhava muito no teatro</p><p>épico de Bertold Brecht. No entanto, muito dentro da lógica de envolvimento proposta</p><p>159</p><p>por Artaud, o Living Theatre tinha uma proposta de participação da audiência. Na famosa</p><p>performance Paradise Now, os artistas interagiam com o público, enquanto colocavam,</p><p>em ação, o jogo performático.</p><p>FIGURA 13 – PERFORMANCE PARADISE NOW, DE THE LIVING THEATRE</p><p>FONTE: <https://i.pinimg.com/originals/dd/c8/ab/ddc8ab5f34d3abfb219386c8252e5974.jpg>.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>Outro grupo importante, que marcou presença durante os anos de 1960, nos</p><p>Estados Unidos, foi o Fluxus. O grupo Fluxus se desdobrava através de diversas formas</p><p>artísticas, tendo, a música, a literatura e a dança, como os pontos fundamentais de</p><p>desconstrução. O nome mais influente e impactante envolvido foi o do multiartista John</p><p>Cage. A proposta de Cage, com o Fluxus, era a de reelaborar a linguagem artística, de</p><p>maneira a indefinir os pontos de contato entre as diferentes formas estéticas.</p><p>Além dos grupos citados, a arte performática, nos anos de 1960, desenvolveu</p><p>duas novas formas artísticas que se popularizaram em seguida: a Process Art,</p><p>que objetivava desenvolver o processo artístico como uma performance em si; e o</p><p>Happening, um acontecimento performático, uma ação definida no tempo e no espaço,</p><p>e com o objetivo da experiência do instante, destituída de regras, mas, usualmente,</p><p>também, de roteiros e de elaborações cênicas clássicas. No Happening, as unidades</p><p>clássicas da dramaturgia, as quais já tinham sido diluídas durante as vanguardas,</p><p>finalmente, foram, propositalmente, abandonadas em detrimento de uma única ação,</p><p>de um acontecimento a ser experienciado.</p><p>Nos anos de 1970, duas outras formas de arte performática forma adicionadas ao</p><p>repertório artístico possível: a Performance em Vídeo e a Endurance Art. Na primeira,</p><p>a ação era, previamente, gravada, e, então, exposta, visualmente, em um espaço definido.</p><p>O corpo, o tempo e o espaço, necessários para a performance, foram, aqui, reimaginados:</p><p>o tempo, capturado; o corpo, deslocado; e, o espaço; randomizado. Já a Endurance Art</p><p>desejava explorar os limites do corpo. A maior expoente dessa forma de performance foi</p><p>a artista sérvia Marina Abramovic, que, com as diversas performances, levou, às últimas</p><p>consequências, as consequências físicas e psicológicas da possibilidade e do afeto da</p><p>160</p><p>mente humana. Na obra Rest Energy, por exemplo, performada com o companheiro</p><p>dela, na época, Ulay Abramovic, fica à mercê de Ulay, que segura a corda de um arco</p><p>com uma flecha apontada para o peito da companheira. Em Ritmo 0, Abramovic oferece,</p><p>aos espectadores, um número de objetos, e se senta imóvel, convidando o público a</p><p>fazer o que quiser com ela e com os itens. Essa obra, a mais famosa de Abramovic,</p><p>conversa, intimamente, com o potencial para a violência do ser humano, muito celebrada</p><p>pela crítica.</p><p>FIGURA 14 – OBRA</p><p>REST ENERGY, MARINA ABRAMOVIC</p><p>FONTE: <http://twixar.me/BJNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>FIGURA 14 – OBRA MESA DA PERFORMANCE RITMO 0, DE MARINA ABRAMOVIC</p><p>FONTE: <https://live.staticflickr.com/8524/29634770212_df6a9ef6fe_b.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>161</p><p>A arte da performance foi utilizada em diversas circunstâncias, e característica</p><p>desconstrutiva fez, dela, uma forma artística que, em si, continha uma crítica às</p><p>estruturas que a formavam. O poder de politizar uma ação tinha tamanha potência que a</p><p>ideia da performance como uma forma de ética política crítica se difundia, e, hoje, é uma</p><p>constante no meio acadêmico. Tudo isso nasceu da relação que as artes performáticas</p><p>construíram, intimamente, com a poesia dramática, uma relação dialética, de uma</p><p>superação sintética. Sob essa égide de diluidora de estruturas e de questionadora</p><p>social, a arte da performance entrou no século XXI, e, de certa maneira, inaugurou o</p><p>contemporâneo.</p><p>3 CONTEMPORÂNEO COMO ESPAÇO DE RESGATES</p><p>HISTÓRICOS E TENSIONAMENTOS ESTÉTICOS</p><p>O crítico de arte estadunidense Hal Foster, na obra O Retorno do Real, defendeu</p><p>que a neovanguarda é formada, de maneira similar, como a vanguarda, e que, nela,</p><p>existe um processo de reelaboração histórica. Nas palavras de Foster (2017, p. 45), a</p><p>vanguarda histórica e a neovanguarda são constituídas de maneira</p><p>semelhante, como um processo contínuo de protensão e de</p><p>retenção, uma complexa alternância de futuros antecipados e</p><p>passados reconstruídos – em suma, a partir de um efeito a posteriori</p><p>que descarta qualquer esquema simples de antes e depois, causa e</p><p>efeito, origem e repetição.</p><p>Com relação ao cenário atual das artes dramáticas, assemelha-se a isso: uma</p><p>formação interessante que se constrói de maneira a aglutinar tendências e estéticas</p><p>históricas e a reorganizar as prioridades das estruturas narrativas, dramáticas e cênicas.</p><p>O cinema e as séries televisivas, assim como as novelas do Brasil, tomaram</p><p>grande parte do que é o impacto do drama nos mundos social e artístico hoje, no</p><p>entanto, não o fazem só. O traço histórico e a marcação feita pelas artes dramáticas e</p><p>pelos pensadores delas, desde a antiguidade clássica, passando pela Idade Média, pela</p><p>Era Moderna e pelos modernismos, até chegar no contemporâneo, fundamentam, e</p><p>muito, as tendências da dramaturgia contemporânea, seja ela uma herdeira do realismo</p><p>psicológico, das dissoluções surrealistas ou uma performance à moda acionismo</p><p>vienense. Invariavelmente, o que a cena dramática nunca perde é a íntima relação dela</p><p>com o mundo, com a linguagem que a constrói, com as pessoas que a informam. A</p><p>partir daí a dramaturgia necessita, sempre, ser pensada.</p><p>162</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A origem da arte performática pode ser traçada de volta aos dadaístas, no Cabaret</p><p>Voltaire, em Zurique, por volta de 1916. No entanto, apenas nos anos de 1960, com</p><p>o desenvolvimento de uma teoria crítica que se conectava com a arte performática,</p><p>essa começou a ganhar força e popularidade.</p><p>• A forma da arte performática tem, como principal ponto, o despir, do drama, de tudo.</p><p>É a proposta da dissolução cênica das vanguardas levada à última consequência:</p><p>apenas ação.</p><p>• De 1960 em diante, vários grupos performáticos nasceram pelo mundo e se engajaram</p><p>em diferentes formas de desenvolver a arte dramática, os quais passavam por atos</p><p>políticos, encenações grotescas e investigações psicológicas.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>163</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 Vimos que os dadaístas, em 1916, foram considerados os criadores das artes</p><p>performáticas. A respeito dessa afirmação, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Os dadaístas cunharam o termo arte performática em meados da década de 1910.</p><p>b) ( ) O escritor dadaísta Tristan Tzara foi o primeiro a propor chamar aquilo que era</p><p>feito nos encontros dadaístas de arte performática</p><p>c) ( ) O surrealista André Breton afirmou que aquilo que os dadaístas faziam não era</p><p>teatro, mas, sim, uma “arte Performática”</p><p>d) ( ) A proposta de dissolução das estruturas dramáticas, feita pelos dadaístas, da</p><p>maneira mais radical, é o que faz muitos críticos poderem afirmar que, já naquela</p><p>época, a arte performática estava nascendo.</p><p>2 O Acionismo Vienense é visto com maus olhos, por muitos dos críticos, à performance,</p><p>por causa dos métodos crus de apresentação. Acerca das características dele, que</p><p>foi um dos grupos pioneiros da arte performática, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- O Acionismo Vienense tinha, como principal característica, a proposta do choque</p><p>com o grotesco do humano. Utilizava a perturbação como ferramenta.</p><p>II- O maior expoente do Acionismo Vienense, Hermann Nitsch, fundou uma escola</p><p>teatral intitulada de Teatro Orgíaco de Mistérios, a qual tinha, em seu cerne, uma</p><p>crítica profana às dores da humanidade.</p><p>III- Apesar de muito comentado, contemporaneamente, pela herança deixada para as</p><p>artes performáticas, o grupo não teve críticas contundentes na época.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>d) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>3 A partir da década de 1960, um variado número de grupos de artes performáticas</p><p>começou a se tornar popular pelo mundo. A respeito desses grupos e das características</p><p>dele, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas:</p><p>( ) O Acionismo Vienense, apesar de chocante, não teve grande influência no</p><p>desenvolvimento das artes performáticas para além da década de 1960.</p><p>( ) O grupo Fluxos, que tinha, como grande expoente, o multiartista John Cage,</p><p>objetivava mesclar diferentes meios artísticos na busca pela criação de uma nova</p><p>linguagem.</p><p>164</p><p>( ) O Living Theatre trabalhava a partir de uma herança que, simultaneamente,</p><p>baseava-se na didática do distanciamento brechtiano e na força participativa do</p><p>envolvimento de Antonin Artaud.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – F – F.</p><p>b) ( ) F – V – V.</p><p>c) ( ) F – V – F.</p><p>d) ( ) F – F – V.</p><p>4 A arte da performance parece querer fazer valer o mais essencial do termo “Drama”:</p><p>a ação nua. Explique como o Happening se relacionava com essa proposta.</p><p>5 A artista Marina Abramovic é uma das maiores expoentes da arte performática no</p><p>mundo. Durante muito tempo, ela se dedicou ao que é chamado de Endurance Art, à</p><p>arte do suportar. Disserte a respeito da performance Rest Energy, de Abramovic, com</p><p>o companheiro Ulay, e dos possíveis efeitos dessa ação.</p><p>165</p><p>TÓPICO 3 —</p><p>COMO O DRAMA ENSINA?</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Paulo Freire, a partir do esforço dele para a criação de uma pedagogia que</p><p>levasse em consideração não a imposição, mas a construção do conhecimento, pensou</p><p>na proposta pedagógica como dialógica. A ideia do diálogo, na pedagogia dialógica de</p><p>Freire, é a superação de um sistema de educação bancário no qual existe uma lógica</p><p>hierárquica na relação entre conhecimentos (do mestre para o aluno). Freire propõe, a</p><p>partir do diálogo, que a educação seja uma construção conjunta de conhecimentos, e</p><p>que o estudante possui uma agência no ensino.</p><p>O teatro, pela forma como existe, é composto, fundamentalmente, de um</p><p>desenvolvimento dialético, construído por diálogos, para, naturalmente, tender para</p><p>essa forma de construção de conhecimento pensada e colocada à frente por Freire.</p><p>Não é à toa, portanto, que muitas dinâmicas de ensino levem em consideração</p><p>a construção de um panorama dramático, de uma dialogicidade, de uma invenção</p><p>narrativa a ser representada com o intuito de ensinar algo. A dramaturgia e a encenação,</p><p>aqui, serviriam como fundamentos para o desenvolver do conhecimento, pois colocam,</p><p>em cena, a possibilidade de se incorporarem diferentes perspectivas que, juntas,</p><p>disponibilizam diferentes saberes possíveis.</p><p>Neste tópico, abarcaremos, por um momento, a importância pedagógica do</p><p>drama e como ele pode auxiliar na educação.</p><p>2 DIDÁTICA DE</p><p>AGIR, DIDÁTICA DE INVENTAR</p><p>Se refletimos a respeito da potência principal que o teatro pode desenvolver</p><p>em qualquer contexto educacional, a primeira coisa que, certamente, vem em mente,</p><p>é o estímulo do drama à imaginação. É uma potência de invenção possível a partir não</p><p>só do texto dramático, coisa que, também, existe e é bem percebida na relação com a</p><p>literatura, mas, fundamentalmente, na relação de ação que a interpretação possibilita.</p><p>Com relação ao assunto, a doutora e teórica Marcia Azevedo Coelho fala dessa</p><p>capacidade do teatro em ligação com a educação, a partir da teoria das múltiplas</p><p>inteligências. Tal teoria, defendida Howard Gardner, defende que “os seres humanos</p><p>166</p><p>normais têm condições de desenvolver, pelo menos, sete habilidades interdependentes,</p><p>que se relacionam e auxiliam na resolução criativa de problemas” (COELHO, 2014, s.p.).</p><p>Gardner define as diferentes inteligências da seguinte maneira:</p><p>A inteligência linguística é o tipo de capacidade exibida em sua</p><p>forma mais completa, talvez, pelos poetas. A inteligência lógico-</p><p>matemática, como o nome implica, é a capacidade lógica e</p><p>matemática, assim como a capacidade científica. [...] A inteligência</p><p>espacial é a capacidade de formar um modelo mental de um mundo</p><p>espacial, além de ser capaz de manobrar e de operar, utilizando</p><p>esse modelo. Marinheiros, engenheiros, cirurgiões, escultores e</p><p>pintores, citando, apenas, alguns exemplos, todos eles possuem</p><p>uma inteligência espacial altamente desenvolvida. A inteligência</p><p>musical é a quarta categoria de capacidade identificada por nós:</p><p>Leonard Bernstein a possuía em alto grau; Mozart, presumivelmente,</p><p>ainda mais. A inteligência corporal-cinestésica é a capacidade</p><p>de resolver problemas ou de elaborar produtos, utilizando o corpo</p><p>inteiro, ou partes do corpo. Dançarinos, atletas, cirurgiões e artistas,</p><p>todos apresentam uma inteligência corporal-cinestésica altamente</p><p>desenvolvida. Finalmente, eu proponho duas formas de inteligência</p><p>pessoal – não muito bem compreendidas, difíceis de estudar, mas,</p><p>imensamente, importantes. A inteligência interpessoal é a capacidade</p><p>de compreender outras pessoas: o que as motiva, como elas</p><p>trabalham, como trabalhar, cooperativamente, com elas. Vendedores,</p><p>políticos, professores, clínicos (terapeutas) e líderes religiosos bem-</p><p>sucedidos, todos, provavelmente, são indivíduos com altos graus de</p><p>inteligência interpessoal. A inteligência intrapessoal, um sétimo tipo</p><p>de inteligência, é a capacidade correlativa, voltada para dentro. É a</p><p>capacidade de formar um modelo acurado e verídico de si mesmo,</p><p>além de utilizar esse modelo para ser operado, efetivamente, na vida</p><p>(GARDNER, 1995, p. 15).</p><p>A partir desse pensamento, proposto por Gardner, que Coelho passa a pensar</p><p>no teatro e na educação. Para a autora, o teatro atua como um recurso importante para</p><p>a formação comportamental do indivíduo. Ela menciona que, “por meio de jogos teatrais</p><p>e do trabalho no palco, é possível acionar, sem muito esforço, as sete inteligências,</p><p>além de desenvolver as habilidades a elas relacionadas” (COELHO, 2014, s.p.). Defende</p><p>que a expressão e a resolução de problemas, utilizando o corpo, algo introdutório no</p><p>ensino teatral, desenvolvem a inteligência cinestésica, enquanto o mecanismo das</p><p>improvisações dá conta de uma procura pela inteligência interpessoal, pois um corpo</p><p>“contracena com outro sem texto prévio, e necessita desenvolver as capacidades de</p><p>entender e de responder, adequadamente, a estímulos e a intenções reveladas no jogo</p><p>de cena” (COELHO, 2014, s.p.).</p><p>A inteligência espacial é trabalhada em decorrência do jogo de cena e de palco.</p><p>Os integrantes dominam técnicas de composição e de equilíbrio de corpo, de objetos e</p><p>de palco, e, por meio das coreografias, do ritmo de cena, da textura dos timbres vocais,</p><p>e da utilização de instrumentos para a sonoplastia, estimula-se a inteligência musical.</p><p>167</p><p>O trabalho da inteligência linguística se dá a partir da escolha do texto e do</p><p>trabalho da linguagem a ser encenada, assim como a possibilidade de construção</p><p>criativa do texto representado pode funcionar como uma mobilização da inteligência</p><p>intrapessoal. Coelho (2014, s.p.) cita que “é certo que a inteligência intrapessoal tem</p><p>um ambiente propício para o próprio desenvolvimento nas artes cênicas, em função do</p><p>caráter simbólico desse tipo de atividade”. Conclui com o seguinte:</p><p>Por isso, o teatro, na educação, investe mais no processo do que</p><p>no resultado. Diferentemente do teatro profissional, ele não vive do</p><p>ou para o público, mas da e para a educação e o desenvolvimento</p><p>das diversas habilidades dos alunos, os quais, por sua vez, não</p><p>se encontram sob a tutela de um diretor de teatro, mas de um</p><p>coordenador de processos. Dessa forma, é desejável que, no teatro</p><p>pedagógico, o aluno cuide do cenário, do figurino, da trilha, da</p><p>sonoplastia e de tantas outras funções quantas forem necessárias</p><p>para que o resultado seja a afirmação da autoria dos integrantes.</p><p>Em virtude disso, o teatro, enquanto prática pedagógica, insere-se</p><p>como uma atividade, fundamentalmente, coletiva, a qual prima pelo</p><p>respeito aos integrantes e pelo aperfeiçoamento das inteligências</p><p>do indivíduo e do grupo. De maneira similar ao que defende Howard</p><p>Gardner, tendo, como foco, os estudos direcionados à psicologia,</p><p>podemos afirmar que o processo do teatro-educação parte do</p><p>princípio de que todos os indivíduos normais têm a possibilidade de</p><p>desenvolver todas as inteligências, ainda que de forma vertical, ou</p><p>seja, ainda que em graus diferenciados de desenvolvimento.</p><p>Nessa prática, que tem a encenação como o fechamento de um</p><p>ciclo de trabalho, o grau de desenvolvimento de cada integrante</p><p>é respeitado. É comum um aluno pleitear, inicialmente, um</p><p>personagem protagonista, e, no decorrer do processo, abrir mão do</p><p>papel em função das próprias limitações naquele momento. Quem</p><p>define os papéis, no teatro pedagógico, são, a princípio, os próprios</p><p>membros, e, posteriormente, o processo. O professor não é o único</p><p>responsável pelo resultado, mas o coordenador de um grupo que,</p><p>com os integrantes, responsabiliza-se pelo êxito total ou parcial da</p><p>proposta que moveu um determinado ciclo (COELHO, 2014, s.p.).</p><p>Dessa forma, a partir dos argumentos da professora Coelho (2014), percebe-</p><p>se que o teatro serve, fundamentalmente, na educação, como uma ferramenta de</p><p>desenvolvimento das possibilidades relacionais do sujeito. É uma proposta pedagógica</p><p>que toma, como ponto central, o desenvolvimento de habilidades diversas desde a</p><p>infância, uma coisa que é mais bem propiciada pela dramatização, na medida em que o</p><p>teatro reforça a capacidade de invenção do sujeito, de estar em uma situação distinta</p><p>daquela experienciada comumente. Essa força de deslocamento de perspectiva,</p><p>inerente à prática da representação teatral, é um dos elementos fundamentais para se</p><p>pensar na força do teatro como uma ferramenta educacional.</p><p>Na sua Dissertação de Mestrado em Teatro, a educadora Heloise Vidor pensou</p><p>nas ideias do drama e da educação teatral, e propôs que “a disciplina do Teatro é uma</p><p>disciplina que proporciona a aquisição do conhecimento ao aluno” (VIDOR, 2008, p.</p><p>114). Para ela,</p><p>168</p><p>“o drama apresenta aspectos positivos evidentes para a contribuição</p><p>com o processo de ensino-aprendizado do teatro, pois é uma criação</p><p>coletiva que incorpora a voz individual e a do grupo, além de incluir</p><p>texto escrito e desenvolver as expressões oral e corporal do aluno”</p><p>(VIDOR, 2008, p. 114).</p><p>Trata-se de uma forma de dizer que o ensino teatral supera o ensino do teatro, e</p><p>coloca, à disposição, a construção de ferramentas para lidar com a própria aprendizagem,</p><p>vinda das diversas formas de ensino.</p><p>3 TEATRO E ESCOLA</p><p>Pensar no teatro e na escola é fundamental, pois a escola é um espaço de troca</p><p>e de construção subjetiva. Na instituição de ensino, existe a formação básica de um</p><p>sujeito, não do zero, pois as formas de socialização e de interação com a linguagem, fora</p><p>da educação formal,</p><p>são muito importantes para a formação subjetiva, mas, ainda assim,</p><p>de forma impactante. O teatro, como uma forma de arte, inerentemente, empática, no</p><p>tocante aos sentimentos de outrem, toma lugar de destaque nessa formação subjetiva,</p><p>pois propõe novas formas de ver e de viver a vida, não aquela, cotidianamente,</p><p>experimentada, como expõe o autor Claudio Damaso: “O teatro, no processo de formação</p><p>da criança, cumpre não só a função integradora, mas dá a oportunidade para que ela se</p><p>aproprie, crítica e construtivamente, dos conteúdos sociais e culturais da comunidade</p><p>na qual se insere, mediante as trocas com os grupos” (DAMASO, 2021).</p><p>O teatro, de fato, toma o lugar de desenvolvimento de um jogo, de uma</p><p>brincadeira, e promove o desenrolar de um saber distinto quanto às estruturas dadas</p><p>As regras pressupõem relações sociais. Ao respeitar as regras de</p><p>um jogo, percebe-se a Zona de Desenvolvimento Proximal, o que</p><p>nada mais é que aquilo que a criança já sabe, já é capaz de realizar</p><p>sozinha, pois, nessa atividade, a criança ultrapassa o nível com o</p><p>qual está habituada, fazendo com que pareça maior que é. O jogo</p><p>exige isso da criança, esse nível a mais, e as capacidades que a</p><p>criança tem de crescer, de avançar, de desafiar os próprios limites,</p><p>as ações e os pensamentos. Além disso, o jogo possibilita, à criança,</p><p>o preenchimento das necessidades dela, as quais, ainda, não se</p><p>realizam. Assim, para o desenvolvimento, a brincadeira, o jogo traz</p><p>vantagens sociais, cognitivas e afetivas, apresentando características</p><p>que favorecem esse desenvolvimento: a imaginação, a imitação e a</p><p>regra (DAMASO, 2021, s.p.).</p><p>A conclusão do artigo, intitulado de A Criança e o Teatro na Escola, de Damaso,</p><p>é a de que “o teatro, dentro da escola, consegue trazer vários benefícios, principalmente,</p><p>quando usado para alfabetizar. Além disso, o teatro, também, ajuda na socialização e</p><p>no desenvolvimento das linguagens oral e corporal da criança” (DAMASO, 2021, s.p.). Ainda,</p><p>169</p><p>“o uso do teatro, em sala de aula, facilita o entendimento das atividades, tornando-as</p><p>mais acessíveis e interessantes. O aluno, construindo o saber dele, de forma coletiva,</p><p>aprende a ser crítico, a memorizar os passos das atividades, a observar a sequência e o</p><p>resultado final, a coordenar as atividades propostas” (DAMASO, 2021, s.p.).</p><p>O teatro, como ferramenta educacional, é uma forma de desenvolver a mente</p><p>infantil, e, de fato, se lembrarmos dos tópicos anteriores e da proposta didática de</p><p>Bertold Brecht, por exemplo, não é, apenas, a mente infantil que pode ser semeada pela</p><p>força pedagógica do teatro.</p><p>Na medida em que a arte teatral é uma forma de construção do conhecimento</p><p>coletivo, o que engloba o corpo e a mente em relação entre sujeitos, a possibilidade</p><p>de teatro, se equacionado com a didática, é bem grande. Tendo isso em vista, a</p><p>responsabilidade de quem maneja essa arte cresce: se a arte é, sempre, no mínimo, um</p><p>comentário a respeito do meio, a arte dramática e a ação dela parecem estar um passo</p><p>à frente disso, no lugar da mobilização das engrenagens que formam a nossa estrutura</p><p>social: um comentário e um movimento, o teatro tem muito a ensinar desde a origem, e,</p><p>até mesmo, o que está por vir.</p><p>170</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>A PROMESSA FEMINISTA DE UM TEATRO REVOLUCIONÁRIO</p><p>Bárbara Santos</p><p>O mês de março é, especialmente, simbólico para quem luta contra a opressão</p><p>e acredita que a construção de um outro mundo é possível. É o mês da celebração das</p><p>conquistas históricas dos movimentos feministas e da ratificação da luta das mulheres</p><p>pela igualdade de direitos. A cada ano, no dia 8 de março, milhões de mulheres realizam</p><p>protestos, marchas e atividades diversas para a incansável busca pela superação da</p><p>opressão de gênero e pelo fim da violência machista.</p><p>Nesse mesmo mês, no dia 16, em uma centena de países, nos cinco continentes,</p><p>estudantes, artistas, ativistas e grupos teatrais, em sua grande maioria, formados por</p><p>mulheres, celebram a obra e a memória de um brasileiro em particular: Augusto Boal, o</p><p>teatrólogo que sistematizou o Teatro do Oprimido. A data de nascimento dele se tornou</p><p>o Dia Mundial do Teatro do Oprimido, um dos métodos teatrais mais praticados no</p><p>mundo, o qual propõe a eliminação da fronteira entre palco e plateia para a instauração</p><p>de um diálogo horizontal entre artistas, espectadores e espectadoras, com a análise da</p><p>situação encenada e a busca de alternativas para o desfecho apresentado.</p><p>O método representa o projeto mais impactante da carreira de Augusto Boal, o</p><p>qual, por essa preciosa contribuição, foi indicado ao Nobel da Paz, em 2008, e nomeado,</p><p>em 27 de março de 2009, pela UNESCO, Embaixador Mundial do Teatro, na comemoração</p><p>do Dia Mundial do Teatro. A honraria foi recebida pelo teatrólogo em Paris, na sede da</p><p>instituição. Essa foi a última viagem internacional de Boal, que viria a falecer em 2 de</p><p>maio do mesmo ano, no Rio de Janeiro. Por uma coincidência histórica, no mesmo dia,</p><p>doze anos antes (1997), morria o professor Paulo Freire, autor da Pedagogia do Oprimido</p><p>e amigo de Augusto Boal.</p><p>O contexto histórico-social que produziu a trajetória de mais de cinco décadas do</p><p>Teatro do Oprimido é fundamental para entender a essência revolucionária da proposta, a</p><p>impressionante força da difusão internacional e os desafios que a continuidade enfrenta.</p><p>171</p><p>Teatro engajado na luta de classes</p><p>Homem branco, filho de imigrantes portugueses, do ramo da panificação,</p><p>Augusto Boal nasceu em uma família de classe média, no bairro da Penha, subúrbio</p><p>do Rio de Janeiro, em 1931. Durante a adolescência, conviveu, cotidianamente, com</p><p>operários, os quais faziam, da padaria dos pais dele, um ponto de encontro, antes</p><p>de seguirem o caminho para o trabalho. As conversas matinais entre e com esses</p><p>trabalhadores influenciaram a construção da percepção do jovem Boal a respeito da</p><p>realidade brasileira.</p><p>Como estudante de química, foi Diretor Cultural do Diretório Acadêmico,</p><p>responsável pela promoção de eventos culturais. Graças ao cargo, teve a oportunidade</p><p>de conhecer Nelson Rodrigues, e ter vários dos textos dele comentados pelo experiente</p><p>diretor. Outra figura que teria uma influência significativa para Augusto Boal foi Abdias</p><p>Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro, com quem trabalhou e por</p><p>meio de quem pôde conhecer pessoas e espaços de produção de cultura negra.</p><p>Boal estreou como diretor profissional no Teatro de Arena de São Paulo, em 1956,</p><p>mesmo ano da morte do poeta e dramaturgo Bertolt Brecht. Apesar de ter tido pouca</p><p>experiência na produção de espetáculos de Brecht, Boal se declarava, especialmente,</p><p>influenciado pelas reflexões e propostas do diretor alemão.</p><p>A trupe do Teatro de Arena criava histórias com uma visão crítica do contexto</p><p>político, sendo, os protagonistas, integrantes da classe trabalhadora. A encenação</p><p>teatral tinha, como objetivo, romper com a relação tradicional entre palco e plateia, a</p><p>qual entendia estar limitada à condição de mera consumidora da mensagem oferecida.</p><p>Pretendia estimular o público a analisar e a criticar a sociedade apresentada durante a</p><p>encenação, e a pensar nas transformações necessárias na realidade.</p><p>Peças, como Eles não Usam Black-Tie (1958), de Gianfrancesco Guarnieri,</p><p>Chapetuba Futebol Clube (1959), de Oduvaldo Vianna Filho, Fogo Frio (1960), de Benedito</p><p>Ruy Barbosa, Revolução na América do Sul (1960), de Augusto Boal, e o ciclo de musicais</p><p>Arena Conta Zumbi (1965), Arena Canta Bahia (1965) e Arena Conta Tiradentes (1967) são</p><p>exemplos da potência e do impacto transformador desse processo produtivo. O Teatro</p><p>de Arena de São Paulo se tornou referência nacional pela inovação no fazer teatral.</p><p>Com a montagem de A Exceção e A Regra, de Bertolt Brecht, Boal trabalhou,</p><p>pela primeira vez, com não atores, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista, com</p><p>um elenco composto, exclusivamente, por operários.</p><p>A experiência com o Teatro-Jornal, em São Paulo, realizada pelo Núcleo 2,</p><p>do Teatro de</p><p>Arena, em 1971, o que gerou a sistematização de técnicas variadas e a</p><p>organização de dezenas de coletivos em um ambiente de resistências cultural e política, é</p><p>identificada, por Augusto Boal, como o marco de fundação do Teatro do Oprimido.</p><p>172</p><p>Ditadura, exílio e internacionalização do método</p><p>Com o exílio do teatrólogo, o método se desenvolve, em outros países latino-</p><p>americanos, por meio de técnicas, como Teatro-Imagem, Teatro-Invisível e Teatro-</p><p>Fórum, as quais propõem a análise da estrutura social através de histórias particulares.</p><p>Era preciso a primeira pessoa do singular avançar em direção à primeira pessoa do</p><p>plural, para alcançar o contexto social e investigar as alternativas de transformação.</p><p>Criar uma trajetória de análise e de luta do micro em direção ao macro, a convicção</p><p>de que problemas singulares estão vinculados a questões estruturais, e, a partir</p><p>disso, a superação dos desafios da vida cotidiana guardam interdependência com a</p><p>transformação do sistema político.</p><p>Em consequência dos sucessivos golpes militares na América Latina, em 1976, o</p><p>teatrólogo parte para a Europa: primeiramente, Portugal, e, depois, França, onde funda</p><p>o Centro de Teatro do Oprimido, CTO-Paris, em 1979. O método avança no contexto</p><p>europeu com as técnicas do Arco-íris do Desejo, nas quais as opressões internalizadas</p><p>se tornam o núcleo da análise. Instaura-se a tendência a uma abordagem individualizada</p><p>do conflito, o que influencia a produção de cenas que retratam os desafios pessoais,</p><p>sem considerar ou evidenciar os aspectos estruturais.</p><p>O projeto do Teatro-Legislativo, iniciado em 1993, no Rio de Janeiro, por iniciativa</p><p>do mandato do vereador Augusto Boal (eleito pelo PT, em 1992), estabelece-se como</p><p>tentativa de superação desse viés individualista, o qual se tornou recorrente na prática</p><p>do método internacionalmente.</p><p>Na última década de vida dele, com a equipe do Centro de Teatro do Oprimido, do</p><p>Rio de Janeiro, Augusto Boal desenvolve processos criativos que dão origem à Estética</p><p>do Oprimido, título do livro lançado em 2009, meses depois da morte.</p><p>Apesar de possuir fundamentos teóricos que podem ser considerados feministas,</p><p>o Teatro do Oprimido carecia de antídotos antipatriarcais eficientes. As estratégias</p><p>patriarcais que naturalizam o machismo, o sexismo e a violência machista são difundidas</p><p>e praticadas nos mais diversos espaços sociais, inclusive, em ambientes considerados</p><p>progressistas e com perspectivas de esquerda. No mundo de praticantes do Teatro do</p><p>Oprimido, isso não era (e ainda não é) diferente, com o agravante de que a sofisticação</p><p>dessas estratégias dificultava (e segue a dificultar) a identificação e o combate.</p><p>Nesse contexto, apesar de as mulheres serem a maioria entre as pessoas</p><p>oprimidas, constituíam a minoria absoluta entre facilitadores de processos de</p><p>trabalho, lideranças de grupos e referências metodológicas. Além disso, era evidente</p><p>a escassez de espaço para os temas considerados prioritários pelas mulheres, além da</p><p>insatisfação delas com a abordagem de temas considerados caros nas peças de Teatro-</p><p>Fórum dirigidas por homens. Eram feitas produções teatrais nas quais as oprimidas</p><p>173</p><p>eram convertidas em vítimas do destino, responsáveis e culpadas pela injustiça que</p><p>enfrentavam, e, frequentemente, convidadas a se justificar diante dos opressores.</p><p>Faltavam grupos de mulheres, facilitados por elas, que refletissem e pesquisassem</p><p>formas de representar as opressões vivenciadas.</p><p>Atualidade feminista do Teatro do Oprimido</p><p>Em 2010, no Brasil, iniciamos laboratórios teatrais, cujo objetivo era investigar</p><p>as especificidades das opressões enfrentadas pelas mulheres por serem mulheres.</p><p>Buscamos formas de representação teatral que evitassem a culpabilização das oprimidas</p><p>e que desenvolvessem uma abordagem contextual do problema. Essa iniciativa,</p><p>batizada de Laboratório Madalena, foi multiplicada, entre 2010 e 2011, na Argentina,</p><p>Uruguai, Guiné-Bissau, Moçambique, Alemanha, Portugal, Espanha (Catalunha e País</p><p>Basco), Áustria e Índia, com grupos de artistas-ativistas, em parceria com movimentos</p><p>feministas, organizações de defesa dos direitos das mulheres e associações</p><p>socioculturais. A rápida ampliação do processo de multiplicação deu origem à Rede Ma-</p><p>g-dalena Internacional de Teatro das Oprimidas, composta por grupos feministas da</p><p>América Latina, da África e da Europa.</p><p>Na nossa abordagem, a opressão deixa de ser entendida como fracasso</p><p>particular da oprimida para ser trabalhada como consequência da injustiça social que,</p><p>muitas vezes, independe das escolhas e dos comportamentos dela. Por isso, não nos</p><p>perguntamos o que a oprimida poderia ter feito de diferente, individualmente, para</p><p>evitar ou para resolver o problema que enfrenta. Perguntamo-nos, coletivamente, que</p><p>estratégias podemos inventar, desenvolver e usar, desde os nossos distintos lugares/</p><p>condições sociais, em relação ao problema analisado, para atacar ou fragilizar os</p><p>mecanismos de funcionamento da opressão ali implicados.</p><p>Certa vez, quando questionado se faria uma peça feminista, Augusto Boal teria</p><p>respondido que não. O teatrólogo, pessoa ciente do próprio lugar social no mundo, dos</p><p>privilégios e das limitações que este lhe impunha, teria dito que, ao alcance dele, estaria</p><p>a possibilidade de fazer peças antimachistas e antipatriarcais, mas que peça feministas</p><p>deveriam ser tarefa para dramaturgas feministas.</p><p>Descobrir-se feminista é um processo árduo, lento, que precisa de espaço e</p><p>de tempo, especialmente para mulheres que estiveram, por décadas, entupidas pelo</p><p>lixo antifeminista, largamente, disseminado na sociedade, com os objetivos de ocultar,</p><p>de confundir e de escamotear a necessidade óbvia de uma atitude feminista diante de</p><p>tamanha injustiça de gênero.</p><p>Nesse sentido, o Teatro das Oprimidas nasceu de um feminismo intuitivo,</p><p>desfocado, genérico, sem suporte teórico evidente. Processo que foi sendo construído</p><p>por meio da própria construção de uma perspectiva feminista na vida das pessoas que</p><p>o construíam como alternativa concreta. O Teatro das Oprimidas surgiu da necessidade e</p><p>174</p><p>do desejo de ampliar as possibilidades de atuação, da consciência concreta de olhar</p><p>para os lados e ver corpos masculinos brancos ocupando quase todos os espaços de</p><p>visibilidade, de prestígio e de poder.</p><p>O Teatro das Oprimidas surgiu como resultado de urgência para desenvolver</p><p>processos de representação teatral que não culpabilizassem as mulheres, nem</p><p>individualizassem a encenação dos conflitos que as desafiam. O Teatro das Oprimidas</p><p>é um processo estético investigativo que valoriza a perspectiva subjetiva dos problemas</p><p>para explicitar a complexidade das personagens e das situações vividas por estas, e, ao</p><p>mesmo tempo, prioriza a contextualização do problema para revelar os mecanismos de</p><p>opressão.</p><p>Trata-se de uma metodologia de trabalho que surgiu de dentro de uma outra</p><p>metodologia de trabalho para aprofundá-la, ampliá-la, e, também, para questioná-</p><p>la. No Teatro das Oprimidas, não problematizamos, apenas, a singularidade e a</p><p>masculinidade “do Oprimido”, buscamos superar o individualismo da abordagem cênica,</p><p>evitar a responsabilização da protagonista pelas opressões que enfrenta, e considerar a</p><p>estrutura social que limita (e, muitas vezes, impede) as escolhas pessoais. Concentramo-</p><p>nos na compreensão dos mecanismos de opressão, e não no comportamento de</p><p>cada personagem dentro da encenação, apesar de valorizarmos cada subjetividade.</p><p>Trabalhamos para desenvolver uma Estética das Oprimidas e avançar para estabelecer</p><p>Estéticas Feministas.</p><p>A experiência dessa última década está registrada no livro Teatro das Oprimidas:</p><p>Estéticas Feministas para Poéticas Políticas, lançado na FLIP, em Paraty, em 2019, e</p><p>a versão em espanhol, em Buenos Aires, em 2020. A publicação oferece exemplos</p><p>concretos e instrumentos eficazes para a reflexão crítica, a produção artística para</p><p>intervenções sociais e a atuação política articulada em redes. Um livro para todas as</p><p>pessoas</p><p>interessadas na superação do patriarcado.</p><p>Nesse mundo de retrocessos políticos promovidos por uma extrema direita</p><p>populista, fascista, machista, arrogante, ignorante, heteronormativa e hipócrita, a qual</p><p>prolifera propostas de ódio para estabelecer uma supremacia branca e masculina,</p><p>as feministas voltam ao topo da lista como inimigas. Contudo, por toda parte, são</p><p>elas, somos nós, as feministas, que estão, que estamos nos diversos fronts de lutas,</p><p>mostrando que a revolução só pode ser feminista.</p><p>FONTE: <https://jacobin.com.br/2021/03/a-promessa-feminista-de-um-teatro-revolucionario/>.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>175</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• O teatro é uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento de um sujeito.</p><p>• A partir da possibilidade de uma mobilização subjetiva, contida na estética performática</p><p>das artes dramáticas, que coloque um ser sob as emoções de um outro, que incentive</p><p>a imaginação a partir de uma outra perspectiva, o teatro funciona como um elemento</p><p>desenvolvedor de um número grande de habilidades distintas no sujeito. De fato,</p><p>pode-se argumentar que a relação do teatro com o ensino desenvolve todas as sete</p><p>diferentes inteligências propostas pelo psicólogo Howard Gardner.</p><p>• A introdução do teatro na formação educacional, na infância, possibilita o entendimento</p><p>de diferentes formas de organização social, o que, por sua vez, aumenta a capacidade</p><p>de socialização, de adaptação do sujeito.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>176</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 O psicólogo Howard Gardner postula a existência de diferentes tipos de inteligência</p><p>no ser humano. Assinale a alternativa CORRETA quanto ao nome e ao número dessas</p><p>inteligências propostas:</p><p>a) ( ) Lógico-matemática; Linguística; Musical; e Espacial.</p><p>b) ( ) Lógico-matemática; Espacial; Corporal-cinestésica; e Musical.</p><p>c) ( ) Lógico-matemática; Linguística, Espacial; Musical; Corporal-Cinestésica; e</p><p>Interpessoal.</p><p>d) ( ) Linguística; Espacial; Interpessoal; Corporal-Cinestésica; Lógico-matemática;</p><p>Intrapessoal; e Musical.</p><p>2 A professora e doutora Márcia Azevedo Coelho (2014) afirma que o teatro é de suma</p><p>importância para o desenvolvimento educacional. Com base nas afirmações da</p><p>professora, contidas no Tópico 3, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- Os jogos teatrais possibilitam o acesso a todas as diferentes inteligências postuladas</p><p>por Howard Gardner.</p><p>II- Apesar de muito informativo e estimulante, Coelho não afirma o desenvolvimento</p><p>da inteligência interpessoal a partir do teatro.</p><p>III- Para Coelho (2014), o teatro, na educação, leva mais em consideração o processo do</p><p>que o resultado.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>d) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>3 Dentro da teoria do conhecimento, existem diferentes maneiras de se observar</p><p>como se desenvolve a inteligência humana; no tópico anterior, observamos, mais a</p><p>fundo, uma dessas teorias. Sabendo disso, discorra a respeito das diferentes formas</p><p>de inteligência propostas por Howard Gardner e como o teatro, na educação, pode</p><p>auxiliar a desenvolvê-las.</p><p>4 No tópico anterior, estudamos como arte teatral parece funcionar de maneira a</p><p>propor uma didática natural, na medida em que existe calcada, fundamentalmente,</p><p>em um desenvolvimento dialético das personagens. Sabendo disso, explique como</p><p>essa relação entre o drama e a educação pode se efetuar.</p><p>177</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ASSIS, M de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1881. Disponível em: http://www.</p><p>dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2038.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>BOAL, A. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização</p><p>Brasileira, 1983.</p><p>BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2015.</p><p>BÜRGER, P. Teoria da vanguarda. Tradução: João Pedro Antunes. São Paulo: UBU</p><p>Editora, 2017.</p><p>CANDA, C. N. Paulo Freire e Augusto Boal: diálogos entre educação e teatro. Revista</p><p>HOLOS, v. 4, n. 28, p. 1, 2012.</p><p>COELHO, M. A. Teatro na escola: uma possibilidade de educação efetiva. Revista:</p><p>Questões Contemporâneas, v. 13, n. 2, p. 1, 2014.</p><p>DAMASO, C. A criança e o teatro na escola. 2021. Disponível em: https://meuartigo.</p><p>brasilescola.uol.com.br/artes/a-crianca-teatro-na-escola.htm. Acesso em: 24 abr.</p><p>2021.</p><p>FOSTER, H. O retorno do real. Tradução: Celia Euvaldo. São Paulo: UBU Editora, 2017.</p><p>GARDNER, H. Inteligências – múltiplas perspectivas. São Paulo: Artmed, 1995.</p><p>MARFUZ, L. Beckett e a implosão da cena. São Paulo: Perspectiva, 2013.</p><p>MOLINARI, C. História do teatro. Tradução: Sandra Escobar. Lisboa: Edições 70, 2010.</p><p>TCHEKHOV, A. As três irmãs. 2021. Disponível em: http://twixar.me/qJNm. Acesso</p><p>em: 24 abr. 2021.</p><p>TEIXEIRA, T. M. B. Dimensões socioeducativas do teatro do oprimido: Paulo Freire</p><p>e Augusto Boal. Barcelona: Universidad Autônoma de Barcelona, 2007.</p><p>VIDOR, H. B. Drama e teatralidade: experiências com o professor no papel e o</p><p>professor-personagem e suas possibilidades para o ensino do teatro na escola.</p><p>Florianópolis: Universidade Estadual de Santa Catarina, 2008.</p><p>a ninguém teus planos;</p><p>oculta-os bem contigo e eu farei o mesmo.</p><p>ANTÍGONA</p><p>Não faças isso! Denuncia-os! Se calares, 95</p><p>se não contares minhas intenções a todos,</p><p>meu ódio contra ti será maior ainda!</p><p>9</p><p>ISMENE</p><p>Ferve o teu coração pelo que faz gelar!</p><p>ANTÍGONA</p><p>Mas dou satisfação àqueles que, bem sei,</p><p>tenho o dever de, mais que a todos, agradar. 100</p><p>ISMENE</p><p>Se houvesse meios… Mas desejas o impossível.</p><p>ANTÍGONA</p><p>Quando sentir faltar-me a força, pararei.</p><p>ISMENE</p><p>Mas o impossível não se deve nem tentar.</p><p>ANTÍGONA</p><p>Falando dessa forma ganharás meu ódio</p><p>e te exporás a ser odiada pelo morto 105</p><p>eterna e justamente. Deixa-me enfrentar,</p><p>nesta loucura apenas minha, esses perigos;</p><p>assim me livro de morrer envergonhada.</p><p>ISMENE</p><p>Se crês que deves, vai, mas parte com a certeza</p><p>de que apesar de agires insensatamente 110</p><p>és verdadeira amiga para teus amigos.</p><p>Saem ANTÍGONA e ISMENE em direções opostas (SÓFOCLES, 1990,</p><p>p. 201-205).</p><p>Na cena, Antígona, filha de Édipo e irmã de Etéocles, Polinices e Ismene,</p><p>depois de saber da morte de ambos os irmãos dela, em guerra um contra o outro, tenta</p><p>convencer a sua outra irmã a ir contra o decreto do rei Creonte, de maneira que possa</p><p>dar um enterro digno ao irmão Polinices. Ismene e Antígona finalizam o diálogo em</p><p>posições distintas das que começaram: Ismene fica incrédula e preocupada com a irmã,</p><p>na medida em que Antígona fica indignada e resoluta a resolver a questão sozinha.</p><p>Renata Pallottini (1988, p. 18) comenta a respeito desse diálogo dramático da seguinte</p><p>maneira:</p><p>Falar dramaticamente (dialogar, modificando) é, sem dúvida, agir</p><p>dramaticamente. Supondo-se que o diálogo contenha elementos</p><p>que modifiquem os interlocutores, deve-se concluir que, pela troca</p><p>de palavras, o personagem A, que estava na posição 1, passou para</p><p>a posição 2, e o personagem B, que estava na posição 3, passou</p><p>para a posição 4 (por exemplo). Ora, se houve mudança de posição,</p><p>houve movimento. Se houve movimento, houve ação. Se tudo isso</p><p>estava carregado de subjetividade (de sentimentos, paixões, opinião,</p><p>vontade), houve ação dramática.</p><p>10</p><p>FIGURA 1 – REPRESENTAÇÃO DRAMÁTICA DE ANTÍGONA, REALIZADA POR MEMBROS DO PROJETO ART</p><p>FRENCH SPRING, NO TEATRO DNIPRO OPERA E BALLE, UCRÂNIA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/xlNm>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>A filósofa estadunidense Judith Butler empreende um grandioso</p><p>estudo a respeito do poder da voz e do corpo contra as normas</p><p>no texto O Clamor de Antígona: Parentesco entre a Vida e a Morte.</p><p>Um texto que seria muito interessante para complementar o nosso</p><p>estudo neste tópico.</p><p>FONTE: <https://bit.ly/38iZ4nN>. Acesso em: 24 abr. 2021.</p><p>NOTA</p><p>O diálogo, no teatro, portanto, tem, como característica, colocar, em movimento,</p><p>a narrativa em questão. Funciona em função da ação dramática, ação que, também, é</p><p>informada por alguns outros elementos textuais importantes, como pelo “ato” e pela “cena”.</p><p>Quando pensamos na organização geral de uma peça de teatro, podemos dizer</p><p>que os diálogos são montados dentro das estruturas fundamentais de uma peça, as</p><p>quais são o “ato” e a “cena”. No trecho exposto de Antígona, foi representada a primeira</p><p>cena do primeiro (e único) ato, mas o que difere esses dois elementos?</p><p>Os atos são uma quantidade de cenas que estão sustentadas por um mesmo</p><p>tema. Já as Cenas são acontecimentos estendidos até alguma fragmentação da ação</p><p>no texto, ou seja, quando há uma mudança no número de personagens, de cenários,</p><p>de unidade temporal, e assim por diante. Dessa forma, quando, ao fim do trecho citado,</p><p>afirma-se que “SAEM Antígona e Ismene em direções opostas”, faz-se a marcação do</p><p>fim da cena.</p><p>11</p><p>Os atos e as cenas, os quais variam em quantidade, de acordo com a peça</p><p>dramática em questão, são, com os diálogos, ferramentas da narrativa dramática para</p><p>colocar, em movimento, de maneira coerente, a sequência dramática de uma peça, mas</p><p>eles não são os únicos. Outros elementos internos e externos compõem a unidade da</p><p>ação dramática.</p><p>3.2 DRAMATURGO EM CENA</p><p>O trabalho do dramaturgo é o de criar a história, é o de construir um universo</p><p>narrativo, de maneira a passar adiante a mensagem inspirada durante a escrita. Em</p><p>ordem de fazê-lo da melhor maneira possível, ao dramaturgo, foi dada a possibilidade</p><p>de se inserir de fora para dentro do texto dramático. O nome dessa inserção é “rubrica”.</p><p>A rubrica teatral é uma forma de dar uma contextualização à ação dramática.</p><p>Possui uma importância enorme, na medida em que, a partir dela, o espaço cênico é</p><p>construído. A existência é a inserção corpórea do dramaturgo na construção dos atos e</p><p>das cenas, e possibilita criar uma atmosfera dramática para os diálogos. O dramaturgo</p><p>Luiz Fernando Ramos, no texto A Rubrica como Literatura da Teatralidade: Modelos</p><p>Textuais & Poéticas da Cena, afirma que</p><p>a rubrica projeta, no plano literário, uma certa materialidade cênica.</p><p>É um território privilegiado de convívio entre duas dimensões do</p><p>fenômeno teatral, a princípio, incomunicáveis: a cena imaginária,</p><p>virtual, projetada pelo autor, e a cena concreta, matéria tridimensional</p><p>que ocupa o espaço físico e se desenvolve, temporalmente, diante</p><p>de espectadores, em um espetáculo (RAMOS, 2001, p. 9).</p><p>No trecho de Antígona, apresentado anteriormente, acompanhamos uma</p><p>primeira rubrica, a qual anuncia as localizações espacial e temporal da cena da seguinte</p><p>maneira:</p><p>Cenário O frontispício do palácio real, na ágora de Tebas, onde reina</p><p>CREONTE.</p><p>Nasce o dia seguinte à derrota dos argivos comandados por</p><p>POLINICES, que</p><p>haviam iniciado a fuga na noite expirante.</p><p>Estão em cena ANTÍGONA e ISMENE (SÓFOCLES, 1990, p. 201).</p><p>Sófocles, o dramaturgo grego que idealiza a peça, então, orienta, simultaneamente,</p><p>a todos os elementos do encontro dramático, que a cena acontece ao nascer do dia, em</p><p>frente ao palácio real, na ágora de Tebas, após a derrota do irmão de Antígona, Polinices,</p><p>entregando, assim, o contexto temporal da cena, com a apresentação das personagens</p><p>que fazem parte do diálogo dramático: Antígona e Ismene. Simultaneamente, Sófocles</p><p>(2001) localiza a cena “virtual” da narrativa e expressa uma necessidade de ação do</p><p>espaço físico do espetáculo.</p><p>12</p><p>A rubrica, portanto, serve de alicerce das cenas e dos atos, providencia uma</p><p>rede semântica para o que se desenrola no decorrer da cena e dá, aos elementos físicos,</p><p>indicações de como se movimentar. De certa maneira, ela denota a maneira através da</p><p>qual aquela peça foi pensada. A função dela, como pensa o dramaturgo Luiz Fernando</p><p>Ramos (2001), é a de fazer, do texto dramático, uma peça literária de escrita, além de</p><p>possibilitar a incorporação da ideia teatral pelos atores. É um elemento que, em sintonia</p><p>com a proposta de Jennifer Wise (1998), já observada neste tópico, pode vir a acontecer</p><p>a partir do advento da escrita na Grécia antiga, o que possibilitou, assim, a popularização</p><p>da poesia dramática como gênero artístico.</p><p>3.3 DESENVOLVIMENTO DA AÇÃO DRAMÁTICA</p><p>No interior dos atos e das cenas, e através dos diálogos, informados pelas rubricas</p><p>do dramaturgo, uma peça pode construir os elementos que fazem se desenvolver a</p><p>narrativa. O desenvolvimento dramático de uma peça, normalmente, é observado da</p><p>seguinte maneira: exposição, conflito, clímax e resolução.</p><p>Apesar de não ser uma ordem fechada, e de ela ter sido desconstruída</p><p>com o tempo, a partir dela, parte-se para pensar na ação dramática. Desse modo, é</p><p>importante que saibamos o que cada um desses termos carrega consigo: A “exposição”</p><p>é a apresentação dos personagens, e tem, como intuito, introduzir o espectador/</p><p>leitor à narrativa, fazendo com que haja alguma familiaridade entre a cena, o palco e o</p><p>público. A “exposição”, usualmente, tem fim quando se apresenta o “conflito”. O “conflito”</p><p>nada mais é que aquilo que dá a razão de ser para a história contada. No conflito, os</p><p>personagens</p><p>retratados devem se pautar para entrar em movimento, para marchar na</p><p>direção de uma resolução, para agir (dramatizar). O “clímax” é o ponto alto da história, é</p><p>o momento de confronto entre os personagens, apresentados durante a “exposição”, e</p><p>que entraram em movimento por causa do “conflito”. Por fim, a “resolução” é o momento</p><p>de fechamento, quando as ações dos personagens, em relação ao “conflito”, geram as</p><p>consequências, e a história pode se finalizar. Em Poética, Aristóteles fala do “enlace” e</p><p>do “desenlace” de uma tragédia. Podemos entender o que ele chama de “enlace” como</p><p>o que é, para nós, a “exposição” e o “conflito”, na medida em que o que ele chama de</p><p>“desenlace” aborda todo o “clímax” e a “resolução”.</p><p>Em toda tragédia, há o enlace e o desenlace. Os acontecimentos</p><p>que acontecem fora do entrecho dramático, e alguns que se</p><p>desenrolam no interior, constituem, com frequência, o enlace; o</p><p>resto é o desenlace. Digo que o “enlace” é o desenvolvimento que</p><p>se estende desde o início [a “exposição”], até aquela parte extrema</p><p>na qual ocorre a “modificação” da ação para a prosperidade ou para</p><p>a adversidade [o “conflito”]; o “desenlace” é o desenvolvimento que</p><p>se estende do início da modificação até o fim (ARISTÓTELES, 2015,</p><p>p. 147-149).</p><p>13</p><p>Aristóteles define a necessidade das três unidades, isto é, a unidade da ação</p><p>dramática, a unidade do tempo dramático e a unidade do espaço dramático, e afirma</p><p>que todos os elementos apresentados no texto devem existir em função da história</p><p>contada, e que o tempo e o espaço representados não devem se estender para além do</p><p>aqui e agora, com apresentação em cena. Ele nos diz que as partes, que fazem parte</p><p>dos acontecimentos ocorridos, precisam ser compostas de tal modo que a reunião ou a</p><p>exclusão de uma delas diferencie e modifique a ordem do todo.</p><p>As características do texto dramático elencadas funcionam como a estrutura</p><p>de uma peça teatral, como elementos-chave que embasam a produção. Partindo dessa</p><p>estrutura básica, pode-se entender o que aconteceu, acontece e acontecerá dentro do</p><p>campo dos estudos dramatúrgicos, desde a Grécia antiga até a contemporaneidade, e,</p><p>mesmo, até o futuro. Em volta dessas características basais, existem certos elementos</p><p>de um texto dramático que vão além do texto, os quais compõem a observação crítica</p><p>do contexto, como veremos a seguir.</p><p>4 ELEMENTOS DO TEXTO DRAMÁTICO</p><p>A partir de agora, exploraremos, juntos, os elementos que compõem o universo</p><p>de um texto dramático, o que quer dizer que conheceremos os elementos que vivem</p><p>em relação com aquilo que estudamos no tópico anterior. Aqui, olharemos para três</p><p>elementos principais que interagem entre si e que têm um impacto fundamental</p><p>em coisas cruciais, como os atos, as cenas, a unidade da ação, e assim por diante: a</p><p>personagem, o coro e o público. Comecemos pela personagem.</p><p>4.1 PERSONAGENS E TIPOS</p><p>O teatro não existe sem personagens. São os elementos dentro (e fora) do</p><p>texto teatral que embasam o movimento da ação dramática. São os personagens que</p><p>são apresentados na “exposição”, os quais divergem no “conflito”, que se provam no</p><p>“clímax” e que produzem a “resolução”. Renata Pallottini, em Dramaturgia: A Construção</p><p>da Personagem, elucida esse mesmo ponto, dizendo “que a personagem é uma</p><p>determinante da ação, que é, portanto, um resultado da existência e da forma como se</p><p>apresenta. A personagem é o ser humano (ou ser humanizado, ou antropormofizado)</p><p>recriado, na cena, por um artista-autor, e por um artista-ator” (PALLOTTINI, 2015, p. 24).</p><p>De fato, o personagem existe em função daquilo que, anteriormente, definimos</p><p>como “ação dramática”. Durante a construção, estão fatores externos e internos ao</p><p>texto teatral, assim, ele incorpora o desenvolvimento e é definido pelo entorno. Dessa</p><p>maneira, entender como um personagem se constrói passa por entender os motivos de</p><p>época, o espírito do tempo expresso no texto e as relações dos seres humanos quando</p><p>em contato um com o outro.</p><p>14</p><p>O personagem de uma peça teatral tem, em si, uma particularidade sobre</p><p>outros gêneros poéticos, na medida em que ele é escrito para ser incorporado, para</p><p>receber corpo pelo ator, assim, nessa relação de seres (o ator, corpo físico e concreto,</p><p>o personagem, corpo imaginário), uma composição de cena é criada. O personagem</p><p>se confunde com quem dá corpo a ele, da mesma maneira que se confunde com o</p><p>desenvolvimento da ação dramática. Lembremos Aristóteles: todo elemento de uma</p><p>peça deve contribuir para a unidade da ação, então, a partir disso, o personagem se</p><p>constitui como um ser que sempre “poderia ser”, mas, não necessariamente, é. O</p><p>personagem é um exemplo, um tipo, uma forma de vida em razão da narrativa exposta.</p><p>No trabalho de criação de um ser humano, que se adapte aos</p><p>objetivos, mas que, obviamente, toque e convença o público, o autor,</p><p>tendo selecionado os traços que deve usar no desenho, aplica-se ao</p><p>espaço da criação dramática. Cabe, a ele, criar um ser ficcional que,</p><p>através da imitação, fale, movimente-se, mostre os sentimentos e</p><p>as emoções, dê vazão ao fluxo de ideias, tudo isso obedecendo a um</p><p>plano de trabalho que se baseia na evolução da ação dramática, e</p><p>que conduz a um fim, a um alvo, à meta final que o autor se propôs e</p><p>propôs às personagens, condutoras de todo o processo (PALLOTTINI,</p><p>2015, p. 26).</p><p>Dentro de uma peça, a ação gira em torno do “protagonista”, isto é, do</p><p>personagem que incorpora o espírito que o autor julga necessário expor. O “antagonista”</p><p>é aquele personagem que funciona como contraponto às visões e aos conceitos do</p><p>protagonista, ele é quem, via de regra, instaura, na ação dramática, o conflito. Em</p><p>Antígona, a protagonista é a personagem-título, enquanto o rei “Creonte” é o antagonista,</p><p>o qual encarna os costumes e as ideias contra os quais Antígona se posiciona. Além</p><p>do “protagonista” e do “antagonista”, a peça, ainda, possui personagens-satélites,</p><p>denominados de “coadjuvantes”, os quais existem em razão de desenvolver as relações</p><p>propostas dentro da unidade dramática. A interação, entre si, modula a mensagem geral</p><p>de uma peça. É, apenas, entendendo como um personagem vive, no mundo criado</p><p>pelo autor, como ele se relaciona com os coadjuvantes, como ele se posiciona contra o</p><p>antagonista, que podemos compreender, a fundo, as motivações, e, assim, construir um</p><p>entendimento a respeito da mensagem do texto teatral que consumimos.</p><p>Como podemos notar, o personagem é um fio condutor fundamental para a</p><p>ação dramática, na medida em que, de forma literal, ela dá corpo ao texto e faz fluírem,</p><p>pelo corpo do que Pallottini (2015) chamou de “artista-ator”, as emoções que estão</p><p>presentes na dramaturgia. Além dos personagens corpóreos denominados na peça, a</p><p>dramaturgia grega nos relegou a ideia de um outro “personagem-tipo”, o qual existe</p><p>para dar voz aos anseios morais que povoam um texto dramático. Tem o nome de “Coro”,</p><p>e, apesar da existência dele, como elemento textual, ter caído em desuso no teatro</p><p>moderno, a função permanece fundamental.</p><p>15</p><p>4.2 CORO</p><p>O coro é a moralidade extratextual que permeia a narrativa dramática. Funciona</p><p>como um personagem extra na peça, formado por um número variado de atores.</p><p>Expressa, em palavras, algumas das reações principais que são retiradas da ação que</p><p>acaba de ocorrer, e serve como um localizador (de tempo, de espaço e em razão da</p><p>sensação causada pela cena). Após a cena do diálogo de Antígona e Ismene, no início</p><p>da peça Antígona, o “Coro” aparece dizendo o seguinte:</p><p>CORO</p><p>Raio de sol, mais bela claridade</p><p>já vista em Tebas, a sete portas,</p><p>brilhaste finalmente, olho do dia,</p><p>pairando sobre o manancial de Dirce. 115</p><p>Puseste em fuga o célere guerreiro</p><p>De escudo branco, que viera de Argos</p><p>Com toda a sua presunção marcial</p><p>Disposto a conquistar nossa terra;</p><p>Persuadido pela fala ambígua 120</p><p>De Polinices, como se águia fora</p><p>Precipitou-se em direção à terra</p><p>Gritando forte e assustadoramente,</p><p>Coberto com plumagem cor de neve,</p><p>Profusamente armado e protegido 125</p><p>Com o elmo ornado de ondulante crina.</p><p>Sobrevoou hiante as nossas casas</p><p>E corvejou no umbral das sete portas</p><p>Brandindo espadas ávidas de morte,</p><p>Mas teve que voltar sem que as mandíbulas 130</p><p>Fartasse em nosso sangue e que os archotes</p><p>Resinosos de Hefesto consumissem</p><p>A coroa de torres da cidade,</p><p>Tão pavoroso foi em suas costas</p><p>O estrondo de Ares, oponente invicto 135</p><p>Dos inimigos do dragão tebano.</p><p>Zeus, em verdade, odeia mais que tudo</p><p>A presunção das línguas atrevidas</p><p>E ao vê-los vir, numa torrente imensa,</p><p>Na ostentação de suas muitas armas 140</p><p>Douradas, fulminou com labaredas</p><p>Aquele que se imaginava prestes</p><p>A proclamar vitória em sua meta</p><p>– o topo das muralhas da cidade.</p><p>Golpeado, ele se projetou no chão 145</p><p>Estrepitosamente, segurando</p><p>Ainda a tocha acesa em sua mão,</p><p>Ele que havia pouco, delirante</p><p>De ardor insano se precipitara</p><p>Impetuosamente contra nós, 150</p><p>Movido por seu ódio tormentoso.</p><p>Seus golpes, todavia, não trouxeram</p><p>Os resultados esperados; antes,</p><p>A cada um dos outros inimigos</p><p>16</p><p>O deus da guerra, sempre ao nosso lado, 155</p><p>Impôs o seu destino, semeando</p><p>Em torno deles todo o extermínio.</p><p>Nas sete portas, enfrentando os nossos,</p><p>Seus sete chefes foram derrotados,</p><p>Deixando as armas de maciço bronze 160</p><p>Como tributo a Zeus – árbitro único</p><p>Da decisão de todas as batalhas –,</p><p>Exceto aqueles dois infortunados</p><p>Nascidos de um só pai e uma só mãe,</p><p>Que um contra o outro ergueram as espadas, 165</p><p>Ambos irresistíveis, para enfim</p><p>Compartilharem uma mesma morte.</p><p>Mas a Vitória de glorioso nome</p><p>Está conosco agora e rejubila-se</p><p>Com Tebas, dona de incontáveis carros; 170</p><p>Hoje devemos esquecer a guerra</p><p>Apenas finda; visitemos logo,</p><p>Em meio a danças que entrem pela noite,</p><p>Os templos, um por um, de nossos deuses.</p><p>E seja Baco o nosso condutor, 175</p><p>Ele, que faz tremer o chão de Tebas (SÓFOCLES, 1990, p. 205-207).</p><p>Como podemos notar, o Coro, aqui, localiza a história. De maneira similar à</p><p>rubrica inicial de Sófocles (que vinha de fora para dentro do texto, como vimos), existe,</p><p>nessa longa fala do Coro, um posicionamento da ação dramática (quando ele conta a</p><p>história da derrota de Polinices, e afirma a superioridade marcial de Tebas), mas, nela,</p><p>também, aparece um posicionamento moral: o Coro incorpora os cidadãos de Tebas que</p><p>se rejubilam com a vitória na guerra, e, ao mesmo tempo em que dá o tom da atmosfera</p><p>dessa fictícia Tebas, oferece um auxílio quanto às práticas exigidas dos cidadãos em tais</p><p>circunstâncias (como a visita dos templos e o festejar).</p><p>Apesar de o “coro”, como personagem onipresente, ter sido, quase que,</p><p>completamente, abandonado na dramaturgia moderna, ainda, aparece em traços</p><p>quando nos deparamos com um narrador de um filme ou de uma série de televisão,</p><p>ou, mesmo, com uma presença diluída em diferentes personagens coadjuvantes que</p><p>incorporam o espírito moral da época retratada em cena. O “Coro”, podemos pensar,</p><p>é um elemento que é, simultaneamente, intra e extratextual, justamente, porque</p><p>conversa, diretamente, com quem assiste (ou lê) ao espetáculo. É um ponto importante</p><p>de conexão com o “público”, outro elemento fundamental para o texto teatral, o qual</p><p>abordaremos a seguir.</p><p>4.3 PÚBLICO</p><p>Em Dramaturgia: A Construção da Personagem, Renata Pallottini, comentando</p><p>a respeito da importância do ator nessa construção, afirma que “ele se apodera do</p><p>papel de autor e cria, a partir de roteiros básicos. Ele quase consegue concentrar, em</p><p>si, todo o fenômeno teatro [...]. O que, no entanto, o ator não pode é suprir a ausência</p><p>17</p><p>do público. Sem público, o teatro não acontece” (PALLOTTINI, 2015, p. 24). O público</p><p>é, portanto, um dos elementos constituintes do teatro, mesmo que seja extratextual.</p><p>Isso acontece porque o gênero dramático aparece como um comentário a eventos</p><p>vários de uma sociedade. Como vimos, a partir do personagem, o autor pensa nele em</p><p>ordem de dar vazão a alguma mensagem interna da narrativa, assim, é tido para colocar,</p><p>em movimento, a ação. Disso, surge uma pergunta: qual é a função da “ação”? A ação</p><p>dramática, o texto dramatúrgico, tem a função de pautar uma proposta social, de dar,</p><p>ao público, uma perspectiva crítica acerca de algumas das estruturas que compõem</p><p>cada sociedade. Dessa forma, o público é essencial para o teatro, na medida em que</p><p>a ação desenvolvida e a função social só se realizam, de fato, quando entram em</p><p>contato com as consciências espectadoras do espetáculo. O apreciador consome uma</p><p>invenção imaginária incorporada em um mundo no qual ele mesmo vive, e, a partir dessa</p><p>experiência, pode, então, agir de maneira consciente, a partir de reflexões advindas da</p><p>própria realidade.</p><p>Quais são as estratégias dramáticas que afetam o público? Como fazer essa</p><p>observação crítica ressoar com as ideias de uma sociedade? Conversaremos mais no</p><p>próximo tópico.</p><p>18</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• O gênero dramático começou a ganhar força na Grécia antiga, por volta do século V</p><p>a.C., com o advento da escrita, o que possibilitou o ensaio e a preparação dramática.</p><p>• O gênero dramático convivia, na Grécia antiga, com o gênero subjetivo, lírico, e o</p><p>gênero épico, narrativo.</p><p>• Aristóteles definiu três unidades obrigatórias para a tragédia grega: a de ação (tudo</p><p>deve contribuir para o avanço dramático da história), a de tempo (o drama não deve</p><p>abranger mais que o tempo real da performance), e a de espaço (toda a ação deve</p><p>acontecer em um espaço definido).</p><p>• A rubrica é a forma através da qual o dramaturgo se insere na cena, de maneira a</p><p>programar alguns dos acontecimentos dramáticos.</p><p>• O personagem se constrói em razão da unidade da ação e serve como motor do</p><p>desenvolvimento.</p><p>• Coro é um elemento que conversa, ao mesmo tempo, com o intratextual e com o</p><p>extratextual, pois a construção dele, simultaneamente, é informada pela moralidade</p><p>da época e pela unidade da ação dramática.</p><p>• O público é essencial para a dramaturgia, na medida em que é o alvo da mensagem</p><p>principal.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>19</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 Com base nos conceitos apresentados no tópico anterior, assinale a alternativa</p><p>CORRETA, quanto às afirmações da historiadora do teatro Jennifer Wise em relação</p><p>à ascensão do gênero dramático:</p><p>a) ( ) O gênero dramático tomou a frente das interpretações artísticas na Grécia antiga,</p><p>pois os gêneros lírico e épico estavam desgastados, e não falavam mais com a</p><p>população grega.</p><p>b) ( ) Com o advento da escrita e a possibilidade de retrabalhar com o texto teatral,</p><p>o gênero dramático ganhou popularidade a partir da possibilidade de que mais</p><p>pessoas poderiam participar da performance.</p><p>c) ( ) O gênero dramático, como gênero ritualístico, sempre foi o mais popular gênero</p><p>poético da Grécia antiga.</p><p>d) ( ) O gênero dramático começou a se desenvolver e a crescer, no imaginário popular</p><p>grego, no século IV.</p><p>2 A estrutura textual do gênero dramático, na Grécia antiga, possuía características</p><p>bem marcadas. Quanto a essas características, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- O gênero dramático se caracterizou por ser composto por diálogos. Portanto, todo</p><p>texto composto dessa maneira é um texto dramatúrgico.</p><p>II- O diálogo, em um texto dramático, deve funcionar para avançar a unidade da ação</p><p>dramática, causando algum tipo de modificação nos personagens envolvidos.</p><p>III- Os “atos” são constituídos de um conjunto de “cenas”.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) As sentenças II e III estão corretas.</p><p>d) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>3 Aristóteles pensa, em sua Poética, na</p><p>ação dramática a partir de uma estruturação</p><p>bem definida, que tem relação com a potencialização catártica da tragédia. Quanto</p><p>ao desenvolvimento da ação dramática, assinale V para as sentenças verdadeiras e</p><p>F para as sentenças falsas:</p><p>( ) É composto de “exposição”, “conflito”, “clímax” e “resolução”.</p><p>( ) O “conflito” é aquilo que mobiliza o protagonista durante a jornada.</p><p>( ) Aristóteles, em Poética, define o desenvolvimento da ação dramática a partir dos</p><p>termos “enlace” e “desenlace”: o “enlace” engloba “exposição”, “conflito” e “clímax”,</p><p>enquanto o “desenlace” dá conta da “resolução”.</p><p>20</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – F – V.</p><p>b) ( ) V – V – F.</p><p>c) ( ) V – V – V.</p><p>d) ( ) F – F – F.</p><p>4 O “coro” é um elemento importante do texto dramático grego, ainda que não</p><p>sobreviva, exatamente, como tal, contemporaneamente. Explique a função do “Coro”</p><p>no drama grego e a forma através da qual ele pode ser percebido quando não está,</p><p>textualmente, presente na obra.</p><p>5 A rubrica é um elemento do texto dramático que está simultaneamente fora e dentro</p><p>do texto. Disserte sobre este importante elemento do gênero dramático.</p><p>21</p><p>POÉTICA DA CENA E</p><p>CONSTRUÇÃO DRAMÁTICA</p><p>UNIDADE 1 TÓPICO 2 —</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Acadêmico, neste Tópico 2, estudaremos os conceitos que permeiam a ação</p><p>dramática e a relação dela com o público e com o meio social no qual se insere. Nossa</p><p>conversa sairá, um pouco, das origens da ação dramática, e explorará a forma através da</p><p>qual esses conceitos foram desdobrados ao longo da história da dramaturgia. Dessa forma,</p><p>assim como expomos a “ação” como conceito geral da dramaturgia, também, falaremos da</p><p>ideia de “catarse”, pensada desde Aristóteles até as performances contemporâneas.</p><p>Entender como os conceitos se deslocam, historicamente, é importante, pois,</p><p>estrategicamente, a partir deles, a ação dramática se torna uma narrativa de corpos, ou</p><p>seja, uma forma artística que incorpora os valores estéticos em uma cena, em um palco</p><p>e para um público durante a interpretação de cada obra.</p><p>Para melhor apresentar as diversas formas através das quais esses conceitos</p><p>se desdobram pelos diferentes meios da dramaturgia, traremos exemplos variados que</p><p>se expandem desde o palco até a tela (de cinema ou de televisão), explorando o fato de</p><p>que a interação cena-público, hoje, dá-se de maneiras distintas.</p><p>Para começar, surge uma pergunta: “Como age um drama?”</p><p>2 COMO AGE UM DRAMA?</p><p>O conceito de “ação”, é, talvez, o mais importante dentro dos estudos</p><p>dramatúrgicos. A discussão começou na Poética, de Aristóteles quando o filósofo afirma</p><p>que tudo, em uma tragédia, deve servir à unidade da ação dramática. A partir desse</p><p>pensamento aristotélico, muitos pensadores posteriores se inclinaram sobre a ideia de</p><p>ação com o intuito de definir o que seria esse “agir” dramático, o que faz com que haja</p><p>“ação”, e, o mais importante, qual é a importância dessa ação?</p><p>Passando pelas diversas leituras que se propõem a abarcar a ideia de “ação”</p><p>dramática, sejam as de Aristóteles, Hegel, Schlegel ou Brunetière, o que fica conosco é</p><p>que o drama se faz na ação, e que a ação é a tomada de posição de um personagem,</p><p>o desenvolvimento dialético que esse personagem se propõe a fazer frente ao conflito que</p><p>sobre ele despenca.</p><p>22</p><p>O agir de um drama é o agir da tomada de responsabilidade do personagem.</p><p>Ferdinand Brunetière diferenciava a “ação” da “agitação”, ao mencionar que a “ação” só</p><p>poderia acontecer quando houvesse, em cena, uma vontade consciente de si. A dialética é</p><p>o movimento de reconhecimento de si, o entender-se como atuante na própria vida, algo</p><p>que a ação de um drama busca proporcionar. Por essa linha da ação, como ferramenta</p><p>de tomada de posição, o gênero dramático permeia os afetos do público com o qual</p><p>interage. Se “ação” é diferente de “agitação”, na medida em que a “ação” é o movimento</p><p>consciente na direção de um objetivo, então, o drama serve como alicerce para uma</p><p>tomada de posição do público. Para fazê-lo, é preciso que esse público se entenda</p><p>como parte formadora da ação, sinta-se afetado por ela, enfim, reconheça-se nela.</p><p>3 EXPLORANDO AS SENSIBILIDADES ENTRE CENA E</p><p>PÚBLICO</p><p>A atmosfera afetiva entre público e cena deve ser a de uma única respiração. As</p><p>emoções apresentadas no palco devem ressoar pela plateia, e, ao fazê-lo, precisam ser</p><p>absorvidas pelos espectadores de maneira profunda. O drama é composto por diálogos.</p><p>Esses diálogos internos que montam as cenas dão lugar, em extrapolação, a um outro</p><p>diálogo: o diálogo de cena e público. É necessária uma interação fina entre público e</p><p>cena para que um espetáculo reverbere, assim, no reverberar de um espetáculo, podem</p><p>morar as mais diversas consequências.</p><p>Se um dramaturgo se inspira em um espírito de uma época para compor os</p><p>personagens, e se esses personagens, então, entram em contato com o público que</p><p>compõe essa época, é possível pensarmos que o diálogo, ali, é de fina sintonia, pois</p><p>existe algo importante sendo dito e a mensagem é entregue na narrativa de maneira</p><p>sutil, mas marcante. Ao falar da ação dramática em Poética, Aristóteles atenta para o</p><p>fato de que as personagens devem agir pelo caráter e pelo pensamento. É, justamente,</p><p>nessa linha, que a relação com o público se dá: pelo caráter e pelo pensamento de uma</p><p>possibilidade de mudança. Está aí a função da ação dramática, como ponto de diálogo</p><p>com o público: ensaiar ideias para a vida, agir sobre os problemas reais em um espaço</p><p>fictício e mobilizar afetos corporais.</p><p>Diferenciando a “poesia” da “história”, Aristóteles nos diz que</p><p>a tarefa do poeta não é dizer o que, de fato, ocorreu, mas o que é</p><p>possível e poderia ter ocorrido segundo a verossimilhança e a</p><p>necessidade. Com efeito, o historiador e o poeta diferem entre si não</p><p>por descreverem os eventos em versos ou em prosa [...], mas porque</p><p>um se refere aos eventos que, de fato, ocorreram, enquanto o outro</p><p>aos que poderiam ter ocorrido. Eis porque a poesia é mais filosófica</p><p>e mais nobre do que a história: a poesia se refere, de preferência, ao</p><p>universal; a história, ao particular (ARISTÓTELES, 2015, p. 97).</p><p>É dentro desse “poderia ter ocorrido” que a cena melhor se relaciona com o</p><p>público e faz ecoar o texto em seu contexto.</p><p>23</p><p>3.1 GÊNERO DRAMÁTICO E EFEITOS ALÉM DO PALCO</p><p>O filme Anônimo, dirigido por Roland Emmerich, explora uma obscura teoria</p><p>a respeito das peças de William Shakespeare. No filme, Shakespeare nada mais é que</p><p>um ator, contratado pelo conde de Oxford, Edward de Vere, para assinar às peças. De</p><p>Vere tem um objetivo muito explícito quando escreve e financia as peças para serem</p><p>apresentadas no teatro de William, o de mudar os rumos da história elisabetana.</p><p>Apesar de o filme não se sustentar como biografia (como história, lembremos</p><p>Aristóteles, como “o que aconteceu”), ele faz um belo argumento que engloba o poder</p><p>da cena além do palco. No filme, podemos observar cenas de revoltas populares,</p><p>diretamente, relacionadas a histórias representadas nos palcos shakespeareanos. A</p><p>ideia que parece sustentar o filme é a de que as histórias, quando colocadas para agir</p><p>dramaticamente, mobilizam afetos de maneiras que vão do sutil ao gritante. Ainda,</p><p>podem gerar uma verdadeira mudança nas engrenagens sociais.</p><p>O poder de alteração de uma atmosfera social que a dramaturgia pode apresentar</p><p>já foi demonstrado historicamente: durante as revoltas populares burguesas da França,</p><p>da Alemanha e da Itália, o teatro, muitas vezes, funcionou como o vetor de ideias</p><p>ensaiadas para a mobilização social. Na Alemanha, o Romantismo, representado por</p><p>alguns nomes, como Goethe, Schiller, Hegel, entre outros, utilizou a dramaturgia como</p><p>ferramenta para explorar ideias e minar a percepção social da aristocracia. No Brasil,</p><p>no século XX, o Teatro Experimental</p><p>do Negro e o Teatro do Oprimido serviram como</p><p>mobilizadores de discussões que saíram das páginas e dos palcos para tomar as ruas</p><p>e os parlamentos. Durante a preparação para a Revolução Russa de 1917, dramaturgos,</p><p>como Vladimir Maiakóvski, foram fundamentais para preparar o terreno discursivo da</p><p>revolução que se aproximava, e assim por diante.</p><p>O gênero dramático, através da característica corporal, pela forma como faz a</p><p>poesia agir em corpos vivos, muitas vezes, reverbera ideias nascentes de uma sociedade</p><p>para os corpos que nela vivem. A relação entre público e cena, e a sintonia de caráter</p><p>e de reconhecimento que gera um espetáculo, são, muitas vezes, a faísca necessária</p><p>para colocar, em movimento, um ar de mudança social. O motor que propulsiona a ação</p><p>dramática de uma peça é o conflito social. Nisso, ecoam-se as teorias sociais de que</p><p>o conflito é o motor da história, e é colocando esses conflitos em cena que o gênero</p><p>dramático se constrói como uma das mais importantes instâncias artísticas das quais</p><p>temos conhecimento.</p><p>24</p><p>Acadêmico, que tal assistir ao filme Anônimo, de Roland Emmerich,</p><p>para complementar o entendimento?</p><p>FONTE: <https://www.adorocinema.com/filmes/filme-178493/>.</p><p>DICA</p><p>4 EFEITOS E AFETOS NA AÇÃO DRAMÁTICA: OS</p><p>DESDOBRAMENTOS DA CATARSE</p><p>Ao pensar na tragédia, o filósofo Aristóteles se apoia em alguns conceitos</p><p>fundamentais: a “verossimilhança”, a “reviravolta”, o “reconhecimento”, o “pavor” e a</p><p>“compaixão”. Cada uma dessas palavras compõe o que o filósofo julgava ser um ponto</p><p>de tensão fundamental que diferenciava a poesia trágica das semelhantes “lírica” e</p><p>“épica”. São termos que carregam, consigo, a possibilidade de efetuar uma mobilização</p><p>de afetos no público. Cada um deles faz parte de uma ideia, mais geral, de dentro do</p><p>pensamento poético de Aristóteles, uma ideia que é carregada ao longo da história da</p><p>dramaturgia até a contemporaneidade, a “catarse”. O que seria a “catarse”?</p><p>4.1 CATARSE GREGA</p><p>Dentro da Poética, de Aristóteles, e da obra dos subsequentes comentadores,</p><p>talvez, o conceito mais importante seja aquele de “catarse”. Para entender o que</p><p>seria, é importante que, primeiramente, debrucemo-nos sobre as palavras-chave que</p><p>constituem tal efeito. Comecemos pela “Verossimilhança”.</p><p>Aristóteles afirma que</p><p>Na caracterização das personagens e na trama dos fatos, é preciso,</p><p>sempre, procurar o necessário ou o verossímil, de tal modo que</p><p>tal personagem diga ou faça tais coisas por necessidade ou por</p><p>verossimilhança, e que isso se realize após aquilo, também, por</p><p>necessidade ou por verossimilhança (ARISTÓTELES, 2015, p. 129).</p><p>A verossimilhança nada mais é que a coerência interna de uma peça. Ela não</p><p>se confunde com a realidade dos fatos, por exemplo (é possível que existam fadas</p><p>voadoras em uma peça, desde que isso não fira a coerência interna do universo</p><p>estabelecido), mas impõe, sobre a ação dramática, a necessidade de seguir uma</p><p>ordem lógica racional frente ao estabelecido. Nesse espírito, Aristóteles afirma que</p><p>“nada deve haver de irracional nos acontecimentos dramáticos” (ARISTÓTELES, 2015,</p><p>p. 13), na medida em que o encadeamento da ação precisa parecer fluido e verossímil,</p><p>dentro das regras estabelecidas no próprio texto dramático. Dessa forma, quando, por</p><p>25</p><p>exemplo, Sófocles escreve a respeito do embate de mentes, em Édipo Rei, entre Édipo</p><p>e a Esfinge (personagem mitológico), a obra não fere o princípio da verossimilhança,</p><p>pois já é estabelecida a realidade textual dos mitos gregos, dentro daquele universo,</p><p>logo no início, quando é apresentado o Oráculo de Delfos, o qual prevê a sina do</p><p>protagonista Édipo.</p><p>O princípio da verossimilhança sobrevive, hoje, também, na ideia de “suspensão</p><p>de descrença”, quando o público acata as regras de uma história de maneira a não</p><p>se desconectar dela. Um bom exemplo é o de filmes com super-heróis: apesar de</p><p>superpoderes não existirem na nossa realidade, em uma obra desse tipo, eles são</p><p>bem estabelecidos como parte do universo, e o que nos resta, como público, é aceitar</p><p>as regras desses poderes presentes no texto. A verossimilhança serve para que,</p><p>independentemente das regras estabelecidas, o público possa se relacionar com os</p><p>personagens, pois percebe que o desenvolvimento da ação dramática segue a linha de</p><p>atitudes frente a conflitos. De certa maneira, seja qual for a história contada, as emoções</p><p>e as ações humanas são representadas, e o princípio aristotélico da verossimilhança</p><p>funciona para que essa realidade não se perca perante o público.</p><p>Além da necessidade da “verossimilhança” para construir uma relação com</p><p>o espectador, Aristóteles pensa nos conceitos de “reviravolta” e de “reconhecimento”</p><p>como elementos internos da catarse. Diante da tragédia do personagem Édipo (que se</p><p>casa com a própria mãe e mata o próprio pai), diz que</p><p>Reviravolta [...] é a modificação que determina a inversão das ações, e</p><p>esta deve se dar, retomando nossa fórmula, segundo o verossímil ou</p><p>o necessário. Como ocorre no Édipo: o mensageiro chega pensando</p><p>que vai reconfortar Édipo e libertá-lo do pavor que sente em face da</p><p>sua mãe, mas, à medida que revela quem, de fato, era Édipo, produz,</p><p>justamente, o inverso (ARISTÓTELES, 2015, p. 105).</p><p>A reviravolta gera um espanto na medida em que vira o correr das ações de</p><p>cabeça para baixo. Aristóteles afirma que o melhor uso da reviravolta é quando ela vem</p><p>associada ao reconhecimento:</p><p>O reconhecimento, como o próprio nome indica, é a modificação que</p><p>faz passar da ignorância ao conhecimento, modificação que ocorre</p><p>na direção da amizade ou da hostilidade, envolvendo a distinção</p><p>entre o que diz respeito à prosperidade ou à adversidade. A mais</p><p>bela modalidade de reconhecimento é a que se dá com a reviravolta,</p><p>como ocorre no Édipo (ARISTÓTELES, 2015, p. 107).</p><p>A associação desses dois acontecimentos dramáticos gera, para o filósofo, uma</p><p>sensação fundamental da tragédia, que é a de instigar a “compaixão” ou o “pavor” como</p><p>um elemento de conexão entre a ação dramática e o público. Ele afirma que, “de fato,</p><p>tal combinação entre reconhecimento e reviravolta nos conduzirá à compaixão ou ao</p><p>pavor” (ARISTÓTELES, 2015, p. 107).</p><p>26</p><p>O “pavor” e a “compaixão”, usados por Aristóteles, como as emoções primordiais</p><p>a serem geradas por uma tragédia, são o ponto alto da catarse, que nada mais é</p><p>que a experiência das emoções representadas no palco/texto pelo público/leitor. Ao</p><p>se compadecer ou se apavorar com o desenrolar de uma ação, ao experienciar uma</p><p>emoção genuína de reconhecimento de si no texto dramatizado, o próprio público vive</p><p>essa emoção, e, dela, pode retirar as próprias consequências. Apesar de Aristóteles falar</p><p>apenas de “pavor” e de “compaixão”, por estar se referindo à tragédia, a catarse pode</p><p>ser extrapolada para a experiência compartilhada de qualquer emoção representada, e</p><p>ela é a parte fundamental do que faz a experiência de um espetáculo ser tão poderosa,</p><p>pois coloca o público em contato com as emoções e os conflitos apresentados em cena,</p><p>faz o espectador se observar como um ser humano de emoções, como um personagem</p><p>daquele drama.</p><p>4.2 EXPLORANDO HISTÓRIAS: O PODER DA IMAGINAÇÃO</p><p>TEATRAL</p><p>O escritor e jornalista argentino, Juan José Saer, no texto O Conceito de Ficção,</p><p>afirma que a ficção seria uma “antropologia especulativa” (SAER, 2012, p. 6). Pensar na</p><p>ficção dessa maneira é entendê-la como um profundo estudo imaginário a respeito</p><p>do que o homem (antropos) poderia fazer, sentir, conquistar, dadas as circunstâncias</p><p>inventadas em um texto. É, também, colocar, sobre ela, um certo poder: o poder de</p><p>dizer, antes, aquilo que vem, de imaginar à frente, de criar futuros.</p><p>Como discutimos, a dramaturgia toma um lugar privilegiado entre</p>