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<p>ESTRESSE DO PONTO DE VISTA DA DASEINSANALYSE MARIA DE FÁTIMA DE ALMEIDA PRADO Resumo Este texto investiga o fenômeno do estresse. Heidegger em seu livro Seminários de Zollikon examina o fenômeno do estresse e o no- meia como um existencial. É nosso interesse desenvolver um estudo para aprofundar a compreensão deste fenômeno, que é tão frequente e comum hoje em dia que se pode até imaginar que já tenha sido total- mente discutido e aparentemente conhecido, inclusive no campo da medicina. Uma vez que Heidegger o definiu como um existencial pare- ce-nos necessária uma nova reflexão fundamentada na compreensão heideggeriana do ser humano. Heidegger assinala que estresse significa: solicitação excessiva endereçada a alguém; ser ou estar oprimido; des-opressão também pode ser uma forma de estresse. Por outro lado, estresse é algo que preserva a vida. O estresse pertence à constituição do ser humano existente e está em relação com o fenômeno da queda descrito no livro Ser e tempo. Este estudo aproxima o fenômeno, especialmente através do exa- me de casos clínicos, baseado na descrição feita por Heidegger do ser humano existente, focando o estresse como um existencial, que também é determinado pelo ser lançado, pela compreensão e pela linguagem. Palavras-chave: Daseinsanalyse, existencial, estresse, queda, an- gústia, época da técnica. Abstract This essay investigates the phenomenon of stress. Heidegger in his book Zollikon Seminars, examined the phenomenon of stress and named it an existenciale It is in our interest to develop studies in order to deepen the understanding about this phenomenon, which is SO frequent and common nowadays that one can feel that it is totally discussed and apparently known, including in the medical field. Since 69</p><p>Heidegger named it an existentiale [Existenzial], it seems to deserves understanding of the human based being. us that the it a new reflexion upon Heidegger`s insights on Heidegger points out that stress signifies to have a claim made oneself and to be burdened as well as unburdening can also be a form On of stress. On the other hand stress is something that preserves life. The estresse belongs to the constitution of the existing human being and is related to the phenomenon of "falling", described in the book "Being and Time". This essay approaches this phenomenon particularly through the examination of some clinical cases based on the constitution of human existence described by Heidegger focusing on the existentiale of the stress, which is also determined by thrownness, by understanding, and language. Key-words: Daseinsanalyse, existentiale, stress, anguish, falling, technological epoch. Introdução Este trabalho teve sua origem na nossa participação no V Fórum de Daseinsanalyse, vida cotidiana Viena. perturbações". proposto para em O tema estudo e reflexão foi "A e suas Ao refletir sobre este tema mais geral e a partir de nosso interesse em questões que surgem justamente na clínica cotidiana, pareceu-nos importante o estudo de um fenômeno que tem sido muito e que nos desafia constantemente, o fenômeno do estresse. Iniciaremos citando alguns exemplos extraídos do atendi- mento de pacientes; posteriormente, apresentaremos alguns aspectos do fenômeno estresse sob o ponto de vista da medicina. Em seguida desen- volveremos algumas reflexões sobre a época atual, a época da técnica, e a contribuição da Daseinsanalyse para uma compreensão fenomenológica dos casos clínicos e do fenômeno estresse. Algumas situações clínicas Alguns pacientes têm chegado para terapia com o diagnóstico de estresse. Eles vêm encaminhados por médicos ou psicólogos, com algu- mas queixas em comum: depressão, ansiedade, insônia, falta de ânimo, hipertensão arterial. Os casos que me chamaram mais a atenção relata- vam especialmente os sintomas físicos, que constituíam suas queixas principais. 70</p><p>Um jovem executivo, por volta de 40 anos, fez uma carreira bri- e. ao chegar a uma posição de destaque é diretor da empresa - , coração começou a apresentar problemas. Durante nossa primeira seu detalhou exaustivamente certos sintomas: alterações nos entrevista. cardíacos que haviam sido investigadas por seu cardiologista batimentos não apresentavam nenhuma alteração orgânica correspondente. e que pessoa acordava com o coração disparado, apavorado. pensando Esta estava tendo um enfarte. Mais de uma vez, procurou atendimento que um hospital. ouviu que "não tinha nada" e foi mandado de volta para em casa. máximo que lhe deram foi um calmante para voltar a dormir. Esta atitude dos médicos o deixava irritado e perplexo. que estava acontecendo? Muitas vezes, durante o dia, media sua pressão e prestava atenção aos batimentos cardíacos à espreita de qualquer alteração. Me- dia também sua temperatura corporal, que também variava um pouco. Além desse desagradável sintoma, não identificava mais nada em sua vida que o perturbasse. Muito ao contrário, via-se como uma pessoa muito bem-sucedida, profissional e socialmente. Dizia que seu trabalho era interessante e não mais estressante que outros. Seu médico o convenceu a usar um aparelho do tipo "Holter", para medir as alterações cardíacas durante um período de 24 horas, e anotar suas diversas atividades durante o dia. Quando ele se encontrava con- centrado em seu trabalho como, por exemplo, estudando as informações de mercado ou estudando uma campanha publicitária, seu coração tinha um ritmo calmo e harmonioso. Um pouco antes da reunião com seu presidente, seu coração apresentava alterações, embora ele ainda não as notasse. Ao final da reunião em que seu chefe lhe disse, de forma abrup- ta e grosseira, que seus estudos tinham sido inúteis, seu coração ficou perigosamente acelerado, e lhe tomou algum tempo, após sair da sala de reuniões, para recuperar o fôlego e respirar normalmente. Isto foi sufici- ente para seu cardiologista determinar a importância de seu "emocio- nal" sobre o problema, e o encaminhou para psicoterapia, além de fazer outras recomendações de praxe: prática de esporte, cuidados com ali- mentação e sono. Receitou-lhe também um antidepressivo e um remé- dio para Após algumas conversas percebemos que seu ambiente de traba- lho era bem Especialmente seu chefe, era uma pessoa fria e Os colegas de trabalho também eram críticos e competitivos. 71</p><p>Durante nossos encontros, começou a perceber que também em seu relacionamento familiar estava insatisfeito. Sentia-se oprimido e triste. Sua esposa havia perdido recentemente a mãe, após tê-la acompanhado durante todo o processo de sua que a tornara carente e, ao mes- mo tempo. extremamente exigente. Parecia nunca estar satisfeita, embora ele se esforçasse muito para agradá-la. Ele estava oprimido, seus desejos ou qualquer iniciativa mais própria pareciam-lhe completamente estra- nhos, uma vez que ele vivia em função do dever, daquilo que "é certo". Outra situação que chamou minha atenção foi a de uma jovem, que trabalhava para uma grande empresa multinacional em uma área que a solicitava muito, trabalhando com prazos exíguos. Ela dizia que tinha sempre a sensação de que estava por mais que se esforçasse. Paralelamente, ela passava por um treinamento de liderança para geren- oferecido pela própria empresa, pois estava sendo preparada para assumir uma nova posição. Esse treinamento foi conduzido por uma psicóloga experiente que identificou diversos sintomas de estresse na paciente e a encaminhou para psicoterapia. Ela se queixava de insônia, tristeza, desânimo com o projeto no qual vinha trabalhando e de alguns problemas de relacionamento com a família. Procurou um médico para exames e ouviu o diagnóstico: "a senho- ra está estressada". O médico receitou-lhe um sugeriu que ela praticasse algum esporte e recomendou que seguisse o conselho da psicóloga e procurasse psicoterapia. Ela é filha única de uma família de classe média e se esforçou muito para estudar e trabalhar. A família está atualmente bem financeiramente. mas já passou por muitas dificuldades, especialmente quando o pai teve um problema de saúde. que o obrigou a uma aposentadoria precoce. Logo na primeira entrevista, a paciente contou que estava pensan- de do em sair de casa e morar sozinha. Os pais diziam não se opor, mas. diversas maneiras, mostravam estar inseguros, enciumados e, até certo ponto. faziam alguma chantagem com a filha, no sentido de fazê-la sen- tir-se culpada caso algo acontecesse com os "velhos". Após um certo tempo de terapia, ela conheceu um rapaz e, numa Seu sessão, relatou um sonho: ela dera à luz um bebê, uma menina. comentário me Ela disse: "Devo estar louca mesmo! Ima- gina, ter filho... preciso solidificar minha carreira e construir um 72</p><p>Preocupada e interessada em casos como estes, iniciei minhas pes- quisas sobre o fenômeno do estresse. o estresse sob o ponto de vista médico Do ponto de vista médico estresse é definido como "a soma das reações biológicas a qualquer estímulo adverso físicos, mentais ou internos ou externos que tende a perturbar a homeostase do organismo, sendo que, se essas reações compensatórias forem inade- quadas ou inapropriadas, poderão levar a doenças. Este termo também é usado para designar o estímulo que elicia estas reações". 32 Segundo o psiquiatra dr. David a dimensão dos problemas ligados ao estresse na sociedade ocidental entre os quais a depressão e a ansiedade - é bem conhecida. Os números são alarmantes: estudos clínicos sugerem que 50 a 75% de todas as con- sultas médicas são motivadas sobretudo por estresse, e que em termos de mortalidade, o estresse é um fator de risco mais grave que o tabaco, chegando a ser responsabilizado até por cardiopatias, entre as quais o enfarte. Dr. Schereiber informa que, dentre os medicamentos mais utili- zados nos países ocidentais, a maioria visa ao tratamento de proble- mas ligados ao estresse: os antidepressivos, os ansiolíticos e soníferos, os antiácidos para as azias e úlceras de estômago, os remédios para pressão alta (anti-hipertensores) e os remédios para diminuir o Os grandes avanços nas neurociências precisam ser considerados. As investigações sobre o funcionamento cerebral, os sistemas límbico e cortical e suas diferentes funções; o conceito de inteligência emocional e as diversas técnicas de mensuração através de aparelhos que confir- mam a influência de sentimentos e emoções sobre o ritmo cardíaco têm feito médicos e pesquisadores se deterem diante de fenômenos que, an- tes, eram considerados apenas estranhas coincidências. Por exemplo. a maneira popular de expressar que algumas pessoas "morrem de triste- Hoje, a importância dos estados emocionais, como na depressão, na recuperação de cirurgias e enfartes não pode ser negada. Medical Dictionary. published at the Dept of Medical University of Newcastle upon Tyme. Editions Robert David (2003) Guérir le estresse, et la dépression sans medicaments 73</p><p>Dr. em seu livro, nos dá um exemplo de alguém mun- dialmente conhecido: o maestro Herbert von Karajan. Certa vez, von Karajan disse que vivia apenas pela e para a música. Nem ele mesmo sabia até que ponto isto era verdade. Ele morreu exatamente no ano em que se aposentou, depois de trinta anos à frente da Orquestra ca de Berlim. Mas o mais segundo Dr. Schereiber, é que dois psicólogos austríacos poderiam ter previsto este fato. Doze anos antes, eles haviam estudado a maneira como o coração do maestro rea- gia durante suas diversas atividades. Eles haviam registrado as maiores variações enquanto ele dirigia uma passagem especialmente carregada de emoções da abertura de Lenora 3, de Beethoven. Na verdade, mesmo quando ele apenas escutava outra vez esta passagem era possível obser- var praticamente a mesma aceleração no seu ritmo cardíaco. Nessa obra há ainda outras passagens que exigem muito, fisicamente, de um maestro. No entanto, para Karajan, elas apenas provocavam uma pequena acelera- ção no ritmo cardíaco. No que dizia respeito a suas outras atividades, Karajan parecia obter muito menos prazer, elas não "faziam seu coração bater". Fosse ao aterrissar com seu jato particular ou decolar em situações de emergência, seu coração parecia mal se dar conta, isto é, mostrava poucas alterações. O coração de Karajan estava inteiramente em sua mú- sica. E quando o maestro a abandonou, seu coração não o acompanhou. É claro que nós todos conhecemos vários casos semelhantes. Nós entende- mos muito claramente que o sentido da vida se perdeu, e as neurociências se esforçam para provar isto de modo científico-natural. Nossa época Parece que esta sensação de estresse tornou-se familiar para nós: insônia, dores nas costas, no pescoço (região cervical), uma correria contra o tempo e uma ansiedade enorme com os resultados. Sabemos, cada vez mais, graças aos estudos desenvolvidos na medicina como e o que devemos fazer para combater o estresse. Conhecemos também o círculo vicioso de acumular atividades que combatam in à e que se tornam, por sua vez, motivo de mais estresse: "tenho que que academia". "tenho que meditar", "tenho que dormir "tenho fazer um "tenho que ter prazer", e assim sucessivamente. Vivemos em uma época em que a palavra estresse, entendida como solicitação excessiva, Quantas solicitações nos são endereçadas 74</p><p>em uma tal profusão que já não esperamos mais poder às Também com relação à Informação: já nos corresponder alguma clareza que não é possível assimilar a quantidade dizemos com que nos são bombardeadas diariamente. O nível de es- de informações e de conhecimento específico em qualquer área é tal que pecialização nos dedicássemos exclusivamente à sua atualização estaría- mesmo condenados que ao fracasso e à frustração de uma tarefa de Sísifo, isto mos impossível de ser concluída. avanços tecnológicos são fascinantes: fazemos coisas com auxí- Os e computadores até a bem pouco tempo inimagináveis. lio de distâncias máquinas são superadas numa velocidade incrível e o mundo todo está As alcance via internet. Fazemos mais e mais coisas, embora tenha- a nosso a sensação de ter cada vez menos tempo. A velocidade tecnológica está mos sendo transportada para nosso ritmo biológico: queremos resolver tudo em um piscar de olhos ou a um clique de nosso mouse. Estamos em constante estado de alerta e mais impacientes do que nunca. A época da Técnica Heidegger em sua conferência de 1953, A questão da técnica, já alertava para o fato de que vivemos e somos lançados em uma época de grande perigo. Este perigo refere-se a uma ameaça à própria essência do homem. A ameaça de que nos fala Heidegger é extremamente sutil, isto é, veio se entranhando no próprio modo de pensar e ser do homem ao O longo de toda a história do pensamento ocidental, de Platão até hoje. modo de pensar que veio se transformando ao longo do tempo também inclui o modo de compreender os entes em geral, a natureza e o Dasein. o domínio de nossa vontade. Para Heidegger a técnica de há muito Isto não é algo que foi feito pelo homem, nem algo que possa estar sob já não é somente um meio, um recurso para atingirmos ou fabricarmos como a que quer que seja. Técnica, no seu sentido é um modo verdade se desvela ou se manifesta para o homem. Segundo apreendidos o filósofo, os modos como a verdade se desvela nos chegam e são a cada qual em sua época como envios do Na época moderna época da técnica moderna o homem, a natureza e todos os entes são endida, apreendidos desvelada como e estoques. descoberta Isto como quer uma dizer reserva que a de natureza energia é estocada compre- e estocável para nosso uso e serventia. A natureza, neste sentido, é desafiada 75</p><p>neste modo de desvelar (os entes) que inclui mazenar e distribuir a própria natureza. Os homens também são ar- tendidos, desvelados e descobertos como esse material humano à en- sição como força de trabalho, como reserva ou estoque para dispo- uso serventia. Nem sempre nos damos conta disso e, muito ao contrário, e arrogamos domínio e controle da natureza e de todos os nos ca em nossa história fomos tão a técnica planetária e a cia possibilitam ao homem acesso a conhecimentos sobre qualquer assunto. No entanto, diz Heidegger, o homem da era da técnica "justa- mente já não encontra mais a si mesmo, isto é, não encontra mais sua 34 (Heidegger, 1977, p.27) Diz Heidegger: "A técnica não é mal, mas contém o mistério" (idem p. 28). Trata-se, então, de refletir sobre esse mistério e sobre a essência da técnica. Este é destino do homem se quiser se contrapor ao extremo perigo avistado por Heidegger. Meditar sobre a nossa época e sobre a essência do humano são, para Heidegger, grandes tarefas do pensamento. O estresse sob ponto de vista da Daseinsanalyse Nos famosos encontros de Zollikon, tal reflexão também se deu. Juntos, o grande pensador e o médico e psicoterapeuta, doutor Medard Boss, buscaram um novo fundamento para a Medicina e, com isto, uma nova compreensão dos fenômenos humanos. Nos Seminários de Heidegger faz ver aos médicos que, para sua prática, é prioritária a com- preensão dos fundamentos da ciência médica, e com isso, pensar a épo- ca da técnica. Esta proposta deixou os médicos perplexos, especialmen- te no início dos encontros. De que modo pensar os fundamentos filosó- ficos da ciência poderia ajudar no "fazer" médico? (Para que serviria isso?) Com base nestes debates, Heidegger discute inclusive a Psicaná- lise em sua relação com a metafísica moderna. Pode-se ver como as ciências humanas estão inseridas no projeto de Galilei e Newton Tal projeto é adequado para as ciências da natureza e busca a explicação dos fenômenos e suas causas. Estes princípios e modelos são perfeitamente adequados para a Física e a Matemática, mas falham desastrosamente na compreensão do ser humano, do Dasein. Martin The Question Concerning Technology and Other 1977. Inc. 76</p><p>Pacientemente Heidegger conduzia os médicos nessa nova refle- xão. insistindo que não se tratava de adquirir novos conhecimentos e mas de uma nova maneira de ver os fenômenos. Uma vez o fenômeno e/ou o modo de pensar fenomenológico não podem mais ser esquecidos. Heidegger também esclareceu a diferença entre a analítica do Dasein e da Daseinsanalyse. Tal diferenciação é importante para a compreensão e possível desenvolvimento de uma ciência do ho- mem que não seja mais baseada na mensurabilidade e previsibilidade dos processos da natureza, e onde o homem não seja mais objetivado e compreendido como um entre outros entes. Heidegger diz: "Na hipótese de que a cientificidade de uma ciência possa não ser medida dogmática e unilateralmente pelo caráter da Física mo- derna, então surge a questão em que sentido e de que maneira a es- sência da ciência pode ser determinada. Poder-se-ia perguntar, em seguida, por qual caminho poderia ser construída uma ciência do ho- mem que pudesse servir de fundamento suficiente para uma Psiquia- tria e um embasamento teórico para uma práxis (Heidegger 2001, p. 162) Heidegger, nos Seminários de 1 a 3 de março de 1969, examina uma pesquisa feita sobre o estresse, em que o homem foi pesquisado sob o ponto de vista da ciência moderna. Ele buscava distinguir a ciência moderna, fundamentada na previsibilidade e na mensurabilidade, de uma outra espécie de ciência a ciência do homem. Ele diz: "Então, como se deve proceder para tornar acessível a pluralidade do significado de estresse? Estresse significa solicitação excessiva, opres- são e mesmo a desopressão que pode ser uma opressão. Em que é fun- damentado fato de que uma certa medida de opressão atua de modo a preservar a vida? Isto se fundamenta na relação Ela é uma estrutura fundamental do Nela fundamenta-se aquela aber- tura de acordo com a qual o homem sempre é interpelado pelo ente que ele No mesmo não é. Sem este ser interpelado o homem não poderia existir. sentido deste ser interpelado necessário, os "encargos" são aquilo que mantém a "vida". Enquanto representarmos o homem como um eu sem mundo, a necessidade vital dos encargos não pode ser entendida. Martin (2001) Seminários de Educ. ABD 77</p><p>Os encargos, assim entendidos, isto é, estresse, fazem parte da tuição da essência do homem De acordo com a consti- de Ser e tempo, é um existencial [Existenzial] e tem relação terminologia com meno que é explanado no sob título "Queda". "(Heidegger o 163) p. Dasein existe cotidianamente caído no mundo, absorvido e envol- vido nas tarefas, nas ocupações com os entes intramundanos e na cupação com os outros. Este se empenhar e estar junto a preo- o caráter de perder-se na publicidade do impessoal (a gente). O empenho na convivência significa decair no A convi- vência, por sua vez, é conduzida pelo falatório, pela curiosidade e ambi- Dasein existe em seu cotidiano de modo impróprio ou inautêntico, em que ele justamente não é ele mesmo. Este não-ser ele mesmo significa o modo mais próximo de ser de cada Dasein, isto é, o modo em que, na maioria das vezes, ele se mantém No entanto, é importante lembrar que no fenômeno da queda mostra-se um modo existencial de ser-no-mundo. Heidegger descreve neste parágrafo a movimentação de Dasein entregue a seu ser cotidiano e solicitado pelo mundo por este modo de ser-no-mundo em que, constantemente, Dasein não é si mesmo. Dasein caído no mundo, absorvido em suas atividades cotidianas, esquecido e anestesiado em relação às suas possibilidades mais própri- as, seu poder morrer, seu ser-mortal estressa-se, exige-se, esquece-se de seus limites. Pois poder conhecer seus limites é reconhecer-se como mortal, como finito. Nossa absorção e entrega ao mundo público e impessoal do nin- guém pode se manifestar como um adiar, que posterga uma reflexão ou um posicionamento mais autêntico em relação ao próprio existir. Este abandono, diz Heidegger, é sempre muito sedutor, porque é compreen- dido como "realização" e "vida real e concreta". O estresse, entendido como existencial, é uma entrega ao mundo e às solicitações que gera um estranhamento que pode surgir como um sofrimento ou uma manifesta- ção corporal. Tal estranheza ou sofrimento pode ser uma espécie de ape- lo, um chamado da consciência ao poder-ser mais próprio de Dasein. No estresse, este chamado parece ser mais distante que o apelo provocado Martin (1927) Ser e tempo. Vozes. 78</p><p>pela angústia, este, sim, um modo privilegiado em que Dasein é arran- cado do "mundo". Ou seja, na angústia Dasein sofre uma espécie de uma retração do mundo e um evidenciar-se do si mesmo; o estresse, inversamente. é uma retração de si mesmo e uma prevalência ou pre- ponderância do mundo. Ao apontar para a possibilidade de uma ciência do homem, uma Daseinsanalyse que possa descrever os fenômenos relativos ao Dasein, que em Ser e tempo não foram descritos porque extrapolavam o escopo do trabalho filosófico e ontológico, podemos supor que a compreensão do fenômeno do estresse, apontada nos Seminários de Zollikon, seja de grande utilidade para os terapeutas e médicos em nosso contato diário com pacientes. Não bastam os grandes avanços da ciência da neurologia para explicar o que se passa. Hoje podemos detectar através de apare- lhos, como tomografias e ressonância magnética, alterações que ocor- rem no cérebro quando uma pessoa está sob determinadas condições. Podemos desenvolver medicamentos que estimulem ou sedem apenas determinadas partes do cérebro a fim de obter um bem-estar específico. Encontramos em programas de treinamento em grandes empresas a busca do desenvolvimento do conceito de resiliência, um conceito também tirado da Física, que se refere à capacidade de um material vol- tar a seu estado normal depois de ter sofrido uma pressão. Adaptado às ciências humanas, significa a capacidade de um indivíduo de possuir uma conduta sã num ambiente insano, ou seja, a capacidade do indiví- duo sobrepor-se e construir-se positivamente frente às adversidades. Entretanto, se pudermos compreender como o Dasein está sempre solicitado e que esta solicitação tem que ser compreendida como modo de ser e corresponder, talvez possamos abrir para nossos pacientes não apenas técnicas de administrar o estresse, mas meios que possibilitem uma verdadeira busca de si mesmo. Trata-se então de compreendermos, em cada caso, como podemos corresponder a uma solicitação do mundo, dos outros e de nós mesmos, de modo mais próprio. Heidegger diz: "Isto torna claro que a solicitação (o estresse entendido correta- mente), deve ser medida de modo completamente diferente por medidas completamente e diferentes, isto é, pelo modo pelo qual correspondemos conseguimos corresponder a priori a uma solicitação, isto é, de que 79</p><p>forma a nossa relação existente com mundo, com os outros e conosco é determinada. A redução do estresse a estímulos sen- soriais é aparentemente uma pesquisa cientificamente concreta do estresse, mas na verdade é uma abstração arbitrária e violenta, que perde de vista totalmente ser humano existente". A compreensão daseinsanalítica do estresse nos casos clínicos Assim, voltamos aos nossos exemplos iniciais, uma vez que nosso objetivo é apontar caminhos para a compreensão do fenômeno do estresse na clínica Daseinsanalítica. Pudemos observar que são os sintomas cor- porais num primeiro momento, tiram nossos pacientes da alienação e abrigo da queda e que surgem como uma preocupação com eles mes- mos. Tal inquietação não se configura propriamente como angústia, nem mesmo como a angústia neurótica descrita por Medard Boss em Angústia, culpa e libertação (Boss, 1977). É importante ressaltar que os sintomas descritos como a doença estresse podem ser entendidos como uma espécie de "chamado" para ser si mesmo, isto é, chama a atenção de alguém para seu próprio existir. Diferentemente da an- gústia que o arranca do mundo e faz surgir a questão de qual é o sentido da sua vida, o estresse aponta para algo que está errado na própria vida, ou melhor, na maneira como a pessoa está vivendo. Muitas tal problema é atribuído ao trabalho, à família ou à falta de dinheiro. Tais circunstâncias são vistas como externas, do mundo, da sociedade, e não da pessoa mesma. Será um trabalho psicoterápico que poderá questio- nar junto com essa pessoa, qual é o seu envolvimento com estas tarefas e circunstâncias, e despertar, assim, um questionamento que visa a bus- ca do sentido particular que tem tal maneira de viver. No caso daquela pessoa que tinha alterações no ritmo cardíaco. foram necessárias algumas sessões para que ele pudesse se dar conta de que algumas situações de sua vida tinham a ver com essa ansiedade e ou estresse. Ele se descobriu vivendo em função do dever e da obrigação, descobriu que devia, na verdade, a si mesmo. Ele estava em débito com modo seu autêntico poder-ser, uma vez que estava aprisionado em um de ser que procurava agradar aos outros, não escandalizar e não agredir não importava em que situações estivesse. Tal aprisionamento fechava- lhe todas as possibilidades de ser ele mesmo, de reconhecer seus própri- os desejos, suas emoções, de ter prazer e alcançar uma verdadeira realiza- 80</p><p>Seus relacionamentos eram pautados pelo corresponder ao desejo alheio. tornando-o submisso em algumas situações ou distante em outras. Após alguns meses de psicoterapia. após uma sessão em que conver- samos sobre esse modo de ser tão educado, ele relatou um sonho em que teve uma briga horrorosa com alguém. O sonho o impressionou. porque nunca havia se visto em uma situação sequer parecida em sua vida. Foi a primeira vez em que ele teve contato com algo agressivo nele mesmo. Logo depois relatou um sonho em que uma usina nuclear estava explodin- do, pegando fogo. Em seguida, ele contou que ainda teve os sintomas desagradáveis de taquicardia e descompasso cardíaco em algumas noites. Podemos pensar sobre o significado desta "usina nuclear": ela fala de uma ameaça, de algo com um poder destruidor enorme. Curioso que ela é também um símbolo do que tecnicamente o homem pode desen- volver com base na ciência: o poder de que dispõe o homem de destruir inúmeras vezes o planeta. Claro que também pode apontar para o que angustia o Dasein, isto é, seu poder não estar mais aí, seu poder morrer. Este sonho ficou, de uma certa forma, como um aviso. Há ameaças rondando sua vida. Os sintomas diminuíram e já não o colocam em pânico como an- tes, mas são incômodos. Ele relata como admira quem consegue se defender e impor limites aos outros sem se estressar. Ele diz que não briga justamente para não se estressar, e espanta-se quando digo que talvez o que faça falta é poder brigar ou reagir quando desrespeitado ou provocado, esta também, uma autêntica possibilidade humana. Quanto à paciente que sonhava em sair de casa: preocupada com sua vida, organizou sua agenda, procurou velhos amigos e iniciou um namoro com o rapaz que ela havia encontrado. Tem conseguido conver- sar com seus pais e discutir seu projeto sem se sentir culpada por seguir sua própria vida, compreendendo que poderá estar disponível para seus pais, caso eles precisem. Agora ela dorme melhor, não chora tanto e mostra-se animada com seus próprios projetos. Parece que ela está mais próxima de seus própri- os desejos e procura descobrir o que de fato é importante em sua vida. Inscreveu-se em um curso de mestrado (MBA) e parece gozar de ener- gia para novos projetos. Ela sorri e os antigos sintomas de insônia, depressão. cansaço e desânimo desapareceram, embora seu trabalho continue em ritmo acele- 81</p><p>rado. Suas responsabilidades aumentaram com sua promoção e, no en- tanto, ela tem conseguido sair em um horário razoável, que lhe permite desenvolver outros interesses em sua vida. Vejo-a sorridente e disposta. Nunca antes em sua vida ela teve tem- po para pensar em si. Conta que mesmo quando adolescente, em procurava cursos e trabalho para ajudar sua família com as despesas, Ela sempre foi extremamente responsável e determinada. O trabalho e os estudos tinham prioridade sobre o lazer desde muito jovem. Conclusão Podemos pensar que a psicoterapia abre um âmbito de reflexão para esses pacientes sobre seu poder ser mais próprio. Cada um, a seu modo, está buscando compreender que a "doença" estresse refere-se a um modo de ser e viver, refere-se a escolhas que puderam ou tiveram que fazer em um determinado momento de suas vidas. Estas "escolhas" podem ser re-pensadas e re-direcionadas, e não programadas como algumas pessoas querem crer. Combater o estresse com uma nova "programação" de vida sem que o sentido da entrega ao mundo possa ser explicitado ocasionará apenas mudanças transitórias ou novas fontes de estresse e frustração. Abandonar um determinado modo de ser, muitas vezes, é tarefa demorada e penosa. Gostaria de encerrar com as palavras de Medard Boss em sua "car- ta ao amigo", por ocasião do octogésimo aniversário de Martin Heidegger (Heidegger 2001, p. 311). Penso que Boss descreve ali, de modo muito feliz, a contribuição da Daseinsanalyse para a compreensão das doenças modernas, entre elas o estresse. Diz ele: "Por outro lado, com esta determinação da 0 senhor retornou ao âmbito da medicina se considerarmos de maneira suficientemente ampla a arte de curar. Como iluminador do espírito téc- nico o senhor também é fundador de uma Medicina preventiva eficaz. Pois a esmagadora maioria de todos os males modernos pertence doenças do homem que, de forma infeliz, são denominadas Todas elas têm, finalmente, sua origem numa relação não resolvida, de uma maneira digna ao homem, do doente com a moder- na sociedade industrial de nossos dias. A primeira premissa de uma ção preventiva de tal relacionamento social patogênico é a clara na verdadeira essência da técnica que determina esta sociedade."</p><p>BIBLIOGRAFIA Martin 1988 { 1927 Ser e tempo. Petrópolis, Vozes. 1977 { 1954} : The Question Concerning Techonology and other essays. New York, Harper&Row Publishers, Inc. 2001 { 1987}: Seminários de Zollikon. Petrópolis, Vozes, ABD. BOSS, Medard 1977: Angústia, culpa e libertação. (2. ed.) São Paulo, Editora Duas Cidades. SERVAN-SCHEREIBER, David 2003: Guérir le estresse, l'anxiété et la dépression sans médicaments ni psychanalyse. Paris, Editions Robert Laffont. INTERNET http://www.medicinet.com/script/main/art?li 26/2/03 http://www.geocities.com/HotSprings/Oasis/8478/estresse.html 20/2/03 http://www.teschhealth.com/dealwith.html 17/5/03 83</p>

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