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<p>DESCOBRINDO OS MACHADO DEASSIS DA CASA VERDE 0 MISTÉRIO DA Ao decidir transformar em clube a Casa Verde, um casarão abandonado que abrigara um antigo hospicio da cidade de Itaguai, Arturzinho e seus CASA VERDE amigos com um grande Para MOACYR SCLIAR resolve a turma acaba recorrendo a leitura de O alienista, de Machado de Assis, inspirado em fatos sucedidos propria Casa Verde, muitos anos antes Mas como é que um texto publicado no XTX pode ajudar a compreender um mistério do presente? E que OS rapazes vao descobrir ao longo de uma historia em que não faltam suspense, amor e aventura. Em O mistério da Casa Verde, um enredo original e vibrante leva leitor atual a conhecer um dos maiores clássicos da literatura brasileira. O alienista um conto de Machado de Assis em 1882 no livro Papeis Avulsos. Esse sobre loucura e a sociedade tornou se tão importante e popular que foi publicado vezes, participou de diversas antologias, virou peça de teatro e até mesmo historia em quadrinhos. ISBN 978-85-08-12066-6</p><p>MISTÉRIOS DE ONTEM E DE HOJE NO ASILO MAIS FAMOSO DA LITERATURA BRASILEIRA Ivan Jaf, 2001 Editora-chefe Claudia Morales Editor Fabricio Waltrick Editores assistentes Carmen Lucia Campos Otacílio Nunes Preparadora Lizete Mercadante Machado Coordenadora de revisão Ivany Picasso Batista Estagiária Fabiane Zorn ARTE Na falta de outro lugar, Arturzinho resolveu criar um clu- Diagramadora Thatiana Kalaes Editoração eletrônica Estúdio O.L.M. be para sua turma num antigo casarão abandonado, que é len- Ilustrações Gonzalo Cárcamo Ilustração de Machado de Assis Samuel Casal dário na pequena cidade de Itaguaí, no Rio de Janeiro. Ali, na chamada Casa Verde, cerca de dois séculos antes, havia fun- CIP-BRASIL. SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS. RJ cionado um asilo para doentes mentais, cuja história inspirou escritor Machado de Assis a escrever um de seus contos mais S434m 2.ed. O alienista. Scliar, Moacyr, 1937- Reunindo sua turma Pedro Bola, André Catavento e mistério da casa verde / Scliar ilustrações de Gonzalo Cárcamo. 2.ed. São Paulo Ática, 2008. 88p. il. -(Descobrindo os clássicos) Leo rapaz organiza uma expedição à Casa Verde, para dar início ao projeto. Mas os quatro vão ter que abrir uma en- Apêndice Acompanhado de suplemento de leitura trada na parede dos fundos da casa, já que as portas e janelas ISBN 978-85-08-12066-6 originais foram emparedadas há muitos anos. No interior som- 1. Assis, Machado de, Alienista. Literatura infanto-juvenil. I. Cárcamo, III. Série. brio do casarão, uma primeira surpresa: ambiente está com- 08-4140. CDD: pletamente limpo, não se encontra nem um sinal de sujeira, CDU: 087.5 que deveria ter se acumulado ali com passar dos anos. ISBN 978 85 08 12066-6 (aluno) ISBN 978 85 08 12067-3 (professor) Porém, outra surpresa maior espera os rapazes atrás de 2009 uma porta fechada, onde um letreiro exibe a palavra "Direc- edição impressão tor". Um enigma que, para ser decifrado, levará Arturzinho, Impressão e acabamento: Cherma Indústria da Arte Gráfica André, Pedro e Leo a tomar contato com próprio conto de Todos os direitos reservados pela Editora Ática, 2000 Av. Otaviano Alves de Lima, 4400 CEP 02909-900- São Paulo. SP Machado de Assim, os quatro descobrem O alienista, Atendimento ao 0800-115152 Fax: www.atica.com.br um texto curto, bem-humorado e gostoso de ler, na opinião deles mesmos, e ao mesmo tempo uma obra que faz uma re- IMPORTANTE: Ao comprar um livro, você remunera e reconhece o trabalho do autor e o de muitos outros profissionais envolvidos na produção editorial e na comercialização das obras: editores, revisores, dia- flexão profunda sobre a autoridade e O poder. Mas de que gramadores, ilustradores, gráficos, divulgadores, distribuidores, livreiros entre outros. Ajude-nos a combater a cópia ilegal! Ela gera desemprego, prejudica a difusão da cultura e encarece os livros que você compra.</p><p>modo um texto literário, escrito há mais de cem anos, pode ajudar a explicar os fatos presentes? Contando uma trama marcada pelo mistério, que acaba SUMÁRIO por envolver quatro jovens da de hoje numa aventu- ra fantástica, Moacyr Scliar - um dos mais importantes es- critores brasileiros da atualidade - reconta O alienista, um "clássico" da literatura brasileira. Proporciona, assim, um du- plo prazer para o leitor: a oportunidade de conhecer um con- to fascinante de um dos maiores autores brasileiros de todos 1 No qual Arturzinho e seus amigos bolam um os tempos e também a história de um grupo de adolescentes ousado plano para entrar na Casa Verde 11 que, batalhando pelos seus objetivos, descobrem a solidarie- dade e enriquecem suas vidas. 2 No qual, mais calmos, eles tentam decifrar mistério da Casa Verde 21 Os editores 3 No qual eles se apresentam ao hóspede da Casa Verde 26 4 No qual as coisas começam a se esclarecer 36 5 No qual Arturzinho descobre quem é a garota misteriosa 50 6 No qual Arturzinho recebe uma ajuda inesperada 56 No qual a situação se complica 61 8 No qual as coisas se precipitam e tomam rumo imprevisto 65 9 No qual suposto alienista deixa de ser alienado 72 10 No qual os fantasmas revivem 75 Outros olhares sobre O alienista 81</p><p>1 No qual Arturzinho e seus amigos bolam um ousado plano para entrar na Casa Verde Sob muitos aspectos, em nada difere de outras pequenas cidades brasileiras. As mesmas disputas entre dois tradicionais times de futebol, o Itaguaiense e Conquista, as mesmas brigas políticas entre governo e oposição, as fofocas no "Vespeiro", o largo que fica no centro, ao lado da prefei- tura e que serve de ponto de reunião no fim da tarde. Contudo, há uma peculiaridade: é uma cidade histórica, antiga. Chegou a ser importante à época do Império e nas primeiras décadas do século XX. Aos poucos foi perdendo importân- cia, à medida que, por causa do desmatamento acelerado, ia desaparecendo a principal fonte de riqueza da região, a ex- portação de madeira. Desse passado restam poucas lembran- chafariz da praça, em bronze, importado da Europa, vetusto prédio da prefeitura velha (há uma nova), alguns ob- jetos conservados no pequeno museu da cidade, pouco fre- quentado; as ruelas sinuosas do Lavradio, bairro antigo, onde agora funciona pequeno comércio do centro composto de lojinhas de artigos populares. Mas, diferente de outras pequenas cidades, tinha até há pouco tempo um mistério. Este mistério era represen- 9</p><p>tado por um lúgubre casarão situado no meio de um grande tempo. Sabia-se e daí teria se originado a obra de Machado terreno, na rua Nova. Apesar do nome, a rua Nova era das que ali funcionara, em outros tempos, um hospício, um lu- mais antigas da cidade e, em outros tempos, tinha sido a mais gar para loucos. A tal aludia dístico gravado sobre frontis- bela. Com tempo, porém, a rua Nova se fora deteriorando; pício: "São veneráveis os loucos: Deus tirou-lhes juízo para as antigas mansões estavam em ruínas, desabitadas ou então não pecarem". Entre parênteses, nome do suposto autor, o ocupadas por mendigos. papa Benedito VIII. De fato, a frase era do Corão, o livro sa- O casarão mencionado era conhecido como Casa Verde. grado dos a menção ao papa era para evitar con- O nome aludia à cor das janelas numerosas, cinquenta de flitos com os católicos. cada lado mas a pintura de há muito se fora. Na verdade, Um lugar para loucos, certo; mas isto não explicava nem janelas existiam mais: para evitar que lugar fosse inva- temor que nos itaguaienses despertava a Casa Verde. Antigos dido, algum prefeito mandara murá-las. Murada fora também hospícios existem em muitas cidades, e alguns deles seguem a porta de entrada, que dava ao local um ar ainda mais funcionando, e apesar da aparência em geral sombria, não fantasmagórico. Os moradores das redondezas evitavam. chegam a inspirar temor. Não, a razão forçosamente seria outra. Preferiam até atravessar a rua a passar na frente da casa. Havia Qualquer que fosse a causa, a má fama da Casa Verde era ali- razões para tal temor: em todos diziam que a cente- mentada por constantes rumores: não faltava quem garantis- nária Casa Verde era mal-assombrada. As mães, quando que- se ter ouvido ali, à noite, gritos e gemidos. riam ameaçar os filhos porque não comiam, porque recu- savam ir para a cama recorriam a uma tradicional ameaça: Olha que eu botar você na Casa Verde, e de lá vo- Nem todo mundo, em Itaguaí, partilhava de tais temo- cê nunca mais sai. res. Arturzinho era um deles. Conhecido como Xereta os Era que bastava para que as crianças imediatamente se amigos diziam que se metia em tudo -, sempre tivera uma comportassem como anjinhos. Com a Casa Verde ninguém enorme curiosidade em relação ao local, que conhecia desde brincava. Apesar de ela ter sido celebrada por Machado de criança: uma tia morava não longe dali, e quando convida- Assis em O alienista, ou talvez até por causa disso, muitos ita- va para passar fim de semana com ela Arturzinho não se guaienses achavam que era melhor evitar O assunto. Que era fazia de rogado. Passava horas rondando soturno lugar. objeto de polêmica. A professora Isaura, por exemplo, que Crivava a tia de perguntas a respeito; a boa senhora persigna- lecionava no segundo grau da Escola era uma entu- va-se e pedia que mudassem de assunto: aquilo não era coi- siasta defensora da obra do grande escritor. É preciso ler O sa sobre a qual gostasse de falar. Melhor, dizia, era deixar as alienista, sustentava, para entendermos passado de nossa assombrações em paz; que o sobrinho esquecesse a Casa e cidade, e para desfazer as lendas sobre a Casa Verde. Outras parasse de ir até lá, sob pena de criar confusão. pessoas discordavam. Achavam que a obra havia prejudica- Esquecer, porém, não era um verbo muito usado no vo- do a imagem de e que melhor era esquecê-la. cabulário de Arturzinho, que não costumava desistir facilmen- Por que se dizia que a Casa Verde era mal-assombrada? te das coisas. Perseguia seus objetivos com tenacidade, mesmo Nunca ficou bem claro: as origens da lenda perdiam-se no que envolvessem confusão. Melhor dito: principalmente se 10 11</p><p>envolviam alguma confusão. Arturzinho adorava envolver-se do Marcolino, cujo dono, um calabrês de pitoresco sotaque, em situações difíceis, arriscadas até para depois sair delas, era conhecido por sua tolerância em relação à zoeira dos que, felizmente, sempre conseguia. Aos dezesseis anos jovens frequentadores que às vezes até ganhavam desconto (mas, alto e forte, aparentava mais), já passara por muitas especial. aventuras. Por exemplo: uma vez escondera-se no comparti- Quando Arturzinho chegou os outros já estavam lá: O mento de carga de um caminhão e viajara até Porto Alegre, Pedro, conhecido como Pedro Bola, um gordinho risonho deixando os pais, que não sabiam de seu paradeiro, quase quase tão agitado quanto Artur; André Catavento, alto, boa- malucos. -pinta, igualmente safado; e Leo, intelectual da turma, ra- paz de óculos, ar melancólico, que andava sempre com um livro sob braço. Os quatro estavam sempre juntos sob a Quando esta história começa, Arturzinho estava às vol- chefia de Arturzinho, líder nato. Uma liderança não muito pa- tas com um outro projeto, não tão arrojado, mas ainda assim cífica: não escondia a inveja que sentia de Arturzinho, complicado. Esse projeto nascera de um problema. Arturzinho, cujo sucesso com garotas era um fato bem conhecido. E foi cara popular, tinha uma turma, razoavelmente grande, de ra- justamente André que interpelou recém-chegado: pazes e moças que gostavam de ouvir rock a todo volume, Então? O que é que você está inventando agora? Fale gostavam de dançar, gostavam de tocar instrumentos musi- logo, porque tenho um grande programa para esta noite e não cais. Nada de especial, nada diferente de outros jovens-mas, posso perder tempo. onde ouvir e fazer música, onde dançar? O pai de Arturzinho, Já conto Arturzinho gostava de um suspense, e gos- um médico que trabalhava muito e prezava O seu descanso, tava ainda mais de incomodar O rival. Mas primeiro vamos proibira qualquer tipo de zoeira em casa. Os pais dos seus comer, porque estou morrendo de fome. amigos e amigas haviam adotado a mesma atitude: barulho, E, apesar dos resmungos de André, pediu aquilo que não, era a palavra de ordem. Nos bares, a consumação era um obstáculo. No clube da cidade não podiam entrar: tinham ba- Marcolino chamava de megapizza oitenta centímetros de tido boca com gerente. Enfim: sentiam-se como refugiados diâmetro. Devoraram-na até a última migalha Pedro Bola, que país nenhum quer aceitar. E era esse O problema que vi- que fazia jus ao apelido, comendo boa parte da quota do Leo. nha incomodando Arturzinho, e que chegava até a lhe tirar Quando terminaram, voltou à carga: sono: onde se reunir com a turma? Onde encontrar um lo- Então, Xereta, que é que você está aprontando? cal adequado para uma diversão que, se não fosse barulhen- Em outras circunstâncias Arturzinho teria se irritado: de- ta, não teria graça? Até que um dia, caminhando pela rua, te- testava apelido, como André sabia muito bem. Naquele mo- ve uma inspiração, uma ideia dessas que fazem a pessoa ficar mento, contudo, optou por fingir que não tinha ouvido e foi de respiração suspensa, pensando: que coisa genial! direto ao assunto: Correu para casa, telefonou para os amigos mais chega- Como vocês estão carecas de saber, precisamos de um dos dizendo que tinha algo muito importante a comunicar. E lugar para nossas reuniões proclamou, em tom veemente. marcou, para aquela mesma noite, uma reunião na pizzaria Um lugar em que a gente possa ouvir música sem que nin- 12 13</p><p>guém nos incomode, um lugar para dançar, para bater papo. Criarão caso - replicou Arturzinho - se virem a gen- Enfim, nosso próprio clube. te entrar. Mas eu já pensei nisso. Fez uma pausa dramática e concluiu: Pegou um lápis e um papel e desenhou um retângulo: E eu tenho esse lugar. Isto aqui é a Casa Verde. Aqui está a rua e a porta de É? - André Catavento, mal contendo despeito. entrada. Que, como sabemos, agora está murada, bem como E que lugar é esse, pode-se saber? as janelas. É que as pessoas veem: porta murada, janelas Nova pausa. Arturzinho sorriu, misterioso e superior: muradas. Pensam que não há ninguém lá dentro. Agora: se A Casa Verde. nós abrirmos uma outra porta, bem pequena, aqui... estão Os outros se olharam, espantados, e Pedro Bola protestou: vendo?. na parede dos fundos, poderemos entrar e sair sem Essa não, Arturzinho. A Casa Verde é um lugar mal- que ninguém perceba, mesmo porque mato ali está muito -assombrado, todo O mundo sabe disso. Está cheio de fantas- crescido. mas dos malucos que morreram lá. Mesmo que a gente consiga entrar - ainda não Exatamente replicou Arturzinho. estava convencido como fica com resto? Com a luz, por Exatamente quê? - André, cada vez mais irritado. exemplo? Exatamente: a Casa Verde tem fama de ser mal-assom- Para que luz? Usamos velas ou lampiões. É muito mais brada. E é por isso que vamos tomar conta do local. Lá, nin- bonito. De mais a mais, temos em casa um gerador pequeno, guém nos incomodará. A gente limpa aquilo, a gente arruma, que posso usar quando quiser. traz umas mesas, umas cadeiras, uns sofás, um som legal, e Não sei - André estava mesmo a fim de pronto, temos O nosso clube, lugar de onde ninguém vai Acho que isso tem tudo para dar errado. Porque se a gente... nos mandar embora. Sabe de uma coisa? interrompeu Arturzinho. - A não ser as almas penadas riu Pedro Bola. É Arturzinho, irônico. - As almas penadas. Se vo- Vamos votar. A maioria decide. Cada um escreve num pedaço cê acredita nessas coisas... de papel "sim" ou "não". E pronto: a questão estará resolvida. Não sei - respondeu Pedro, meio desconcertado. Uma jogada muito hábil. Arturzinho sabia que podia Tanta gente fala nisso... contar com O voto do silencioso Leo, que sempre apoiava. É superstição interveio Leo. Essa história não Quanto a Pedro Bola, no fundo tímido e respei- passa de superstição. tava os corajosos, os destemidos. Falando grosso, Arturzinho Leo falava pouco, mas quando afirmava algo, era defi- conquistava seu respeito. De fato, quando abriram os votos, nitivo. Os outros respeitavam, porque Leo lia muito, sabia constataram: três "sim", um "não". das coisas. Arturzinho, sua autoridade agora reforçada, vol- Está decidido - proclamou Arturzinho, triunfante. tou à carga: Amanhã vamos até lá, tomar conta do nosso clube. Além disso, a Casa Verde não tem dono. Podemos fi- car lá O tempo que quisermos. Mas pessoal das redondezas não vai pon- nove da noite seguinte - uma noite escura, de céu derou Pedro Bola. - São capazes de criar caso. carregado, portanto muito conveniente para uma operação 14 15</p><p>secreta encontraram-se na ruazinha ao lado da Casa Verde. Você está é assustado - cortou Arturzinho. Mas Arturzinho foi o último a chegar; vinha carregando com es- não tem importância: deixa que eu na frente, vocês me forço uma grande bolsa plástica. seguem. Já não era sem tempo - reclamou André, que não Lanterna de mão acesa, introduziu-se pela abertura. De- perdia ocasião para implicar com rival. pois de alguma hesitação, os outros foram atrás. Desculpem. Eu me atrasei porque tive de pegar ma- terial na casa do irmão da nossa empregada, que é pedreiro. Abriu a bolsa e mostrou marretas e talhadeiras. Era realmente um lugar tétrico, aquela Casa Verde, como O quê! Pedro Bola, surpreso. - Não me diga que constataram logo ao entrar. Viam-se numa vasta sala vazia, nós vamos ter de fazer trabalho. gradeada; das paredes, pendiam velhas correntes enferruja- E quem mais faria? - Arturzinho, bem-humorado. - das, ali presas por argolas. Vamos lá, gordo. Pelo menos uma vez na vida você vai dar duro. Aqui decerto era onde eles prendiam os loucos furio- Embrenharam-se pelo verdadeiro matagal que existia nos SOS disse Arturzinho. E, querendo animar os companhei- fundos Casa Verde. Lanterna na mão, Arturzinho procura- ros, E aqui nós podemos fazer um lugar para va um bom lugar para a futura porta, enquanto os outros, as- dançar. sustados, olhavam ao redor. De repente: Danceteria Loucura - resmungou irônico Ouvi um barulho sussurrou Pedro Bola, os olhos Escuta, gente, agora que já vimos como é lugar por den- arregalados. Gente, juro que ouvi um barulho aí dentro. tro. que tal ir embora? Eu não gosto disso aqui. Deixe de ser medroso replicou Arturzinho. Isso Não, vamos explorar resto comandou Arturzinho. deve ser a sua imaginação. Lanterna na mão, saiu pela porta daquela espécie de grande Ou então um rato - ponderou Leo. jaula e avançou pelo corredor. À direita e à esquerda, salas Não sei que é pior - gemeu Pedro Bola. - Tenho gradeadas, umas menores, outras maiores. pavor de ratos. Estranho murmurou Leo. Deixa pra lá. Olhem, acho que aqui a porta vai ficar Estranho quê? - Pedro Bola, numa VOZ esganiçada bem. Arturzinho abriu a bolsa, distribuiu as ferramentas. que traía medo. Vamos começar. Dois trabalham, dois descansam. Depois A limpeza. Isto aqui está perfeitamente limpo. Não há a gente troca. sujeira no chão, não há teia de aranha... Abrir a espessa parede não foi tão difícil quanto parecia: E você queria sujeira? - Pedro Bola, assombrado. com tempo, material perdera a solidez. Antes da meia-noi- E teias de aranha? Era só que faltava, Leo! te a tarefa foi concluída. Não estou dizendo isso. Estou me perguntando é Muito bem - disse Arturzinho, ainda ofegante. Até mo este lugar ficou limpo depois de tantos anos de abandono. aqui, tudo bem. Agora vamos entrar. Sabe que você tem razão? Pedro Bola, intrigado. Não sei... Pedro Bola, numa VOZ trêmula. - Acho Está muito limpo, isto aqui. A não ser que prefeito tenha man- que vou embora. Já é tarde, amanhã tem aula... dado fazer uma faxina. Ele tem mania de limpeza, você sabe... 16 17</p><p>E por onde entraram os faxineiros? Pergunta para a qual Pedro Bola não tinha resposta. Mas que era intrigante a limpeza do local, isso era. Sala após sala, todas muito limpas. 2 Chegavam ao fim do corredor - na verdade, o início de- le, grande vestíbulo de entrada. À esquerda, havia uma sala, No qual, mais calmos, eles tentam esta não gradeada, com uma porta comum, fechada. Afixado decifrar mistério da Casa Verde nela, um antiquíssimo letreiro: "Director". Pelo jeito aqui era a sala da direção disse Arturzinho. E, num tom de gozação: Este pode ser o lugar para os en- contros mais reservados.. Vamos entrar? Sem esperar a resposta dos amigos, abriu a porta. E no instante seguinte estavam ali, olhos arregalados, paralisados de susto. Por algum tempo ficaram ali, ofegantes, sem poder falar. Finalmente, André bradou, apontando a Arturzinho um dedo acusador: No meio da sala, sentado em uma grande cadeira e de frente para eles, estava um homem. Um homem estranhíssimo: Eu disse, cara! Eu disse que essa história ia terminar desgrenhada cabeleira grisalha, imensa barba, e os olhos mal! Todo mundo sabe que essa tal de Casa Verde é mal-as- que olhos, aqueles! De sob as espessas sobrancelhas, miravam sombrada e que a gente não deveria passar nem perto. Mas fixo os garotos, com um brilho verdadeiramente hipnótico. você tinha de inventar essa coisa de clube. Porque você pen- Durante um instante os quatro ficaram ali, petrificados de sa que é maior, que sabe tudo. Viu, cara? Viu no que deu? terror. Depois, e como que obedecendo a um comando, deram Arturzinho não teve como responder: aparentemente meia-volta e dispararam pelo corredor. Ao chegar ao buraco André tinha razão. Pedro Bola, então, não tinha dúvida: era um de saída, novo momento de pânico: queriam sair ao mesmo fantasma, aquilo que eles haviam visto. Leo, porém, discordava: tempo, não conseguiam, embolavam-se até que finalmente Para mim não era fantasma. emergiram dali, Arturzinho e André na frente, Pedro Bola atrás, André olhou-o, assombrado com aquela audácia. Desde Leo, ainda meio atarantado, por último. Atravessaram o mata- quando baixinho ousava contrariá-lo? Mas Leo repetiu: gal, lanhando-se nos galhos, e correndo como malucos pela Não era fantasma coisa alguma. rua chegaram finalmente a um lugar seguro - a casa de André, a mais próxima dali. Ah, não André, irônico, a custo contendo-se: a von- tade que tinha era de dar um tabefe no outro. Não era fan- tasma. E que era, então? Diga, você que sabe tudo, que era aquilo? Uma visão, por acaso? Nós quatro tivemos, ao mesmo tempo, uma visão? Foi isso? 18 19</p><p>Não. Não era uma visão Leo, no mesmo tom sur- Admiração sincera, mas não partilhada por todos. Pedro preendentemente calmo. Bola achava Leo um garoto encolhido, insignificante. Já Ah, não. E que era? Pode o amiguinho nos dizer, André o invejava: Leo era o melhor aluno da classe, tirava sem- por favor? Estamos ansiosos por ouvi-lo, senhor professor pre notas excelentes. Sempre que podia, debochava doutor Leo. dele, tentava ridicularizá-lo. O que deixava Arturzinho indig- Leo optou por ignorar a gozação. nado. Sabia que Leo tinha uma existência sofrida. Órfão de Era uma pessoa. Um homem. Alguém de carne e os- pai, fazia que podia para ajudar a mãe, costureira pobre, a so, como nós. sustentar a casa; além disso, cuidava de uma irmã inválida. E Essa não protestou Pedro Bola. A Casa Verde es- mesmo assim conseguia ler e estudar, O que a Arturzinho pa- tá completamente fechada, ninguém poderia ter entrado recia uma coisa heroica. Além disso, como é que você sabe que era uma pessoa? Você Mas esperem um pouco disse Pedro Bola, intriga- tocou homem, por acaso? do. De fantasma eu não entendo, mas de banana entendo, Não. Não toquei. e muito: como meia dúzia todos os dias. Como é que aquelas E então? De onde é que você tirou a certeza de que bananas foram parar lá? Sei que não tem nenhuma banancira era alguém como nós? por perto, uma vez andei olhando aquela área. Logo, ho- Por causa das bananas. mem deve ter comprado. Mas se comprou em algum lugar... Bananas? Pedro Bola não estava entendendo mais ele seria uma figura conhecida completou Leo. nada. Que bananas, cara? De que você está falando? Ninguém poderia esquecer aquele tipo. Vocês repararam Estou falando continuou Leo, no mesmo tom cal- nas roupas dele? mo de um prato com bananas que estava sobre aquela me- Ninguém tinha reparado. Todos se lembravam da feroz sinha ao lado do homem. expressão do desconhecido, mas nas roupas não tinham Os outros se olharam, perplexos: ninguém tinha visto ba- atentado. nana alguma. Mas Leo insistiu: Ele estava vestido continuou Leo como um ca- Havia, sim, um prato com bananas maduras. Tenho valheiro do século XIX: casaca preta, camisa branca, gravata certeza absoluta. de laço. Seria impossível uma figura assim andar por aí sem Muito bem disse André, irônico. Então havia ali chamar a atenção. Principalmente numa cidade pequena um prato com bananas. E daí, espertinho? mo a nossa. Daí que fantasma não come banana. Você quer dizer Arturzinho, intrigado que ho- Os outros calaram-se, estarrecidos. mem nunca sai da Casa Verde? Pensando bem admitiu Arturzinho Leo tem ra- É que eu acho disse Leo. Inclusive por causa zão. Fantasma não come banana. Aliás, que eu saiba, fantas- de um outro detalhe: eu nunca vi um sujeito tão pálido. Aquela ma não come coisa alguma. Logo, aquele homem que nós vi- cara não vê sol há muito tempo. Aposto que ele... mos lá não era um fantasma. E para Leo: Você tem uma Não interessa interrompeu André. Eu não que- grande cabeça, cara. ro nada com esse cara. Fantasma ou não, ele já ocupou a Casa 20 21</p><p>Verde. De modo que a ideia do Arturzinho foi para O espaço. Tirou do bolso uma moeda, jogou-a para ar, apanhou- Podemos esquecer esse tal de clube. -a, mostrou-a a todos: cara. Talvez não - disse O Arturzinho. Puxa vida, Arturzinho - disse André, despeitado. Como não? Você não gosta de seu apelido, mas cá entre nós, só um xere- Estamos partindo da hipótese - continuou Arturzinho ta como você para ter a ideia de procurar homem, hein? Eu tive a ideia Arturzinho, triunfante -, mas quem que esse homem quer ficar sozinho, que ele não quer ver decidiu foi destino. Você viu. ninguém. Mas será que é assim mesmo? Não sei. Vi concedeu André. - Mas ainda acho que vamos Como? André não percebia aonde outro queria fazer uma bobagem. chegar. - Ora - disse Arturzinho. Na pior das hipóteses, va- Nós não sabemos - continuou Arturzinho. - Ele não mos ter de correr de novo. Mas no mínimo é uma aventura. disse nada. Nem nós. Não sabemos que tipo de homem ele é. Você não gosta de aventuras? Você que só vê filmes de ação? De repente, é um cara até legal... esquisito, mas legal, um ca- Faça de conta que está num filme: O mistério da Casa Verde. ra que não se importará se a gente fizer nosso clube numa - Desde que a gente não leve um tiro... suspirou Pedro das salas, e que até gostará disso... quem sabe a gente con- Bola. vida para ser uma espécie de presidente de honra? Eu acho Não vamos levar tiro algum - garantiu que temos de bater um papo com sujeito, descobrir quem Vamos ficar amigos daquele homem. E ele ainda vai cuidar é, porque se veste daquela maneira... Enfim, temos de ficar do clube para a gente, vocês vão ver. amigos dele. Combinaram um encontro para a noite seguinte, à mes- Essa não! bradou Pedro Bola, indignado. - Bater ma hora. E separaram-se. Arturzinho foi para a confortável ca- um papo com aquele tipo? De jeito nenhum. Eu estou fora. sa em que morava com os pais e dois irmãos mais velhos. Não volto lá nem amarrado. permaneceu ali, no apartamento de andar inteiro, do Espere um pouco - disse Leo. - Essa ideia eu não qual - filho único que era - tinha um quarto enorme. Pedro acho de todo má. Arturzinho tem razão: cara não mandou Bola também morava num apartamento com a mãe, divorciada, uma irmã e uma tia. Leo era que tinha de percorrer um tra- a gente embora. Aliás, nem falou. Só nos olhou. É, só nos olhou - disse André Catavento. - Agora: jeto maior: morava numa casa modesta, num bairro afastado. Quando se deitaram, já madrugada, os quatro pensavam se olhar matasse, já estaríamos mortos. na mesma coisa: no estranho homem da Casa Verde. Isso é a sua impressão - disse Arturzinho. É a minha também - acrescentou Pedro Bola. Bem disse Arturzinho-, parece que temos um empa- te de votos. Vamos decidir no cara ou coroa. Cara: nós vamos lá, falar com o homem. Descobrimos quem ele é, O que está fa- zendo na Casa Verde, perguntamos se topa a ideia do clube. Coroa: esquecemos tudo, fazemos de conta que nada vimos. 22 23</p><p>fechada com tábuas. Colocadas sem dúvida pelo estranho morador. Está certo observou Arturzinho. O homem tem direito de se proteger. 3 Experimentou as tábuas: não estavam fixas. Sem muito No qual eles se apresentam esforço, conseguiu afastá-las, empurrando-as junto com os tijo- ao hóspede da Casa Verde los que as Leo olhava-o, sem dizer nada. Arturzinho hesitou; agora também ele estava obviamente apreensivo. Mas não era de desistir: Que diabos - gritou -, já que chegamos até aqui va- mos em frente. E meteu-se pelo buraco na parede. Leo seguiu-o. De novo viram-se na sala gradeada, com as correntes na dia seguinte foi difícil para os quatro. Pedro Bola foi um instante: nada. Não SC ouvia um som. tirado da cama à força pelo irmão mais velho, mas adorme- Avançaram cautelosamente pelo corredor, chegaram à porta ceu de novo na mesa do café. Arturzinho cochilou três vezes do "Director". Estava entreaberta. Detiveram-se, olharam-se à nas aulas da manhã e teve de ser advertido pelos professores. luz fraca da lanterna: entramos ou não entramos? Mas então: André movia-se como um zumbi. Mesmo O dedicado Leo te- Entrai disse uma VOZ vinda lá de dentro, uma ve dificuldade em fazer exame de inglês, no qual habitual- grossa, profunda. mente se saía bem. Por tudo isso, quando se encontraram, à De puro susto, Arturzinho quase deixou cair a lanterna. noite, estavam num péssimo humor. Pedro Bola queria mes- O convite (ou a ordem?) repetiu-se: mo desistir daquela história: é muito trabalho para arranjar Entrai. um clube. Além disso, a ideia de enfrentar de novo O maluco Depois de uma pequena hesitação, Arturzinho finalmen- seu diagnóstico já estava feito - não lhe agradava em na- te abriu a porta. Entraram, ambos. E ali estava homem, na da. Em vão Arturzinho tentava animar os companheiros. Leo, mesma posição da noite anterior, a mirá-los, fixamente. ainda que cansado, acompanharia. Mas Pedro Bola e André, Eu já vos esperava disse por fim, numa VOZ grossa, irritados, relutavam em entrar na casa. Por fim Arturzinho saiu- rouca. -se com uma fórmula conciliadora: De novo, Arturzinho e Leo estremeceram. Mas agora já Eu e O Leo entramos, vocês esperam aqui. Se tudo der não sentiam tanto medo. Tendo falado, homem parecia-lhes certo com homem, chamamos vocês, continuamos com nos- mais próximo do normal do que na noite anterior; esquisito, SO plano. Se não der certo, desistimos. decerto, mas já não tão aterrorizante. Todos de acordo, Arturzinho e Leo embrenharam-se de Vós sois persistentes ele. novo no matagal. Quando chegaram aos fundos da casa, uma "Vós sois"? Arturzinho jamais ouvira alguém falando da- surpresa: a abertura que tinham feito na noite anterior estava quela maneira. Contudo, a questão era secundária. O impor- 24 25</p><p>tante era que o homem estava iniciando um diálogo. Com o coisa séria, que merece ser tratada com seriedade. Portanto, que se revelava, se não amistoso, pelo menos não tão hostil. nada tendes a fazer aqui. De modo que resolveu ir em frente: Mas escute uma começou a dizer Arturzinho. Desculpe, mas... o senhor nos conhece? (A rigor, O homem levantou-se, os olhos brilhando de fúria: deveria optar por um "Desculpai...", mas isto exigiria muito Não me interrogueis! Não vos concedi esse privilégio! esforço em sua capacidade de conjugar verbos.) Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo O homem esboçou um pálido e desdenhoso sorriso. aos mestres e a Deus! Se vos conheço? Pessoalmente, não. Mas posso dizer E, transtornado, apontou a porta: tudo a vosso respeito. Posso penetrar em vossos corações, Fora! Fora daqui, insanos! posso percorrer os sombrios corredores de vossa mente. Arturzinho ainda tentou acalmá-lo, que é isto, meu se- Posso fazer tudo isto, e mais ainda, sabeis por quê? Porque nhor, nós somos amigos, estamos aqui em missão de paz sou alienista. E alienista reconhece de imediato os lou- mas aí O homem passou a mão numa barra de ferro. Os dois Como vós. amigos precipitaram-se pelo corredor, passaram pelo buraco Arturzinho arregalou os olhos, de espanto. e se viram fora da casa, diante de Pedro Bola e que, es- Loucos, sim prosseguiu homem, tranquilamente. pantados, os olhavam. Estranhais que estou dizendo? Não é de admirar: os lou- Durante uns bons minutos, ficaram ali, ofegantes, sem sempre estranham que é normal, que é sábio. Foi o poder falar. que constatei depois de estudar muitos anos a loucura. Já sei disse André, sem disfarçar o sorriso de triun- Conheço-a os seus diversos graus, os casos fo. O cara correu vocês lá de dentro. Bem feito, Xereta. Eu em que se pode classificar. Sou um cientista, como vedes. E, disse que essa história não ia terminar bem. Ah, mas você ti- baseado na ciência, posso garantir que sois loucos. nha de insistir. Porque você é espertinho, você é O cara que Sorriu, desdenhoso: sabe tudo, O cara que ia convencer maluco a fazer parte do A bem da verdade, nem era preciso ser alienista para nosso clube. Bem feito, cara. Pena que sujeito não te deu diagnosticá-lo. Vossas esquisitas vestimentas, esdrúxu- uma surra. lo penteado, as estranhas palavras que usais, tudo isto apre- Arturzinho, a respiração opressa, não ouvia. goa aos quatro ventos a vossa insanidade, a vossa alienação. Deus, que cara estranho disse, por fim. Que ca- Calou-se um instante, e continuou: ra estranho. Sei que pretendeis: quereis refugiar-vos aqui, na Casa Ainda ofegante, voltou-se para Leo: Verde, como muitos outros doentes mentais que vos prece- Hein, Leo? Que é que você diz? Não é um bicho mui- deram e que ocuparam estas dependências. Em verdade, to- to louco, sujeito? dos foram por mim admitidos. Até momento em que, pela É disse Leo, numa VOZ sumida. Muito estranho. quantidade de gente aqui confinada, dei-me conta: o lugar de Mas afinal Pedro Bola, agora curioso que acon- loucos, como vós, é lá fora. O mundo é um hospício, VOSSO teceu lá dentro? O cara falou com vocês, Arturzinho? hospício. A Casa Verde é meu reduto, o reduto da ciência, Falou. 26 27</p><p>- E que ele disse? Claro. E acho que sei por onde começar. Vejam bem: Arturzinho pensou um pouco: como Leo disse, esse homem deve ter contato com alguém Sabe que eu não sei, cara? Falou uns negócios muito aqui de fora. Quem é que lhe leva a comida? Aquelas bana- complicados. E jeito que ele falava! Vós sois isto, vós sois nas, por exemplo, quem trouxe? Temos de descobrir quem é aquilo. Ah, sim, nos chamou de loucos. essa pessoa. Ela pode nos esclarecer quem é esse tal de alie- Loucos? Pedro Bola, deliciado. - Essa é ótima. Nós nista, e que ele está fazendo aí dentro. Essa pessoa pode somos os loucos. E ele é o quê? nos dizer quem ele é. E pode servir de contato também. O alienista - disse Leo. Ficaram todos em silêncio, pensativos. Alienista? O que é isso? Uma coisa que eu não entendo disse Pedro Bola, Alienista - explicou Leo - era nome dos doutores por fim. É: se existe essa tal pessoa, como é que entra na que tratavam malucos. Eu acho... casa? A porta lá na frente está murada. As janelas também. A Interrompeu-se. única abertura é essa que nós fizemos.. Acha quê? André, impaciente. - Desembucha, Quem disse que é a única? perguntou Leo. cara. O que é que você acha? Como? Pedro Bola não estava entendendo. Acho continuou Leo - que temos uma pista para Nós achamos que é a única abertura - disse Leo. - descobrir quem é esse homem. Será que é mesmo? Será que não existe uma outra? Temos uma pista, protestou André. - Você pode Os outros olhavam-no, surpresos. Aquela possibilidade ter uma pista, cara, mas a mim não interessa. Porque eu não não tinha ocorrido a ninguém. quero descobrir coisa alguma. Já estou com saco cheio dessa Só há uma maneira de saber - concluiu Arturzinho. história. E acho que Pedro Bola também. Não é, Pedro Bola? É procurando. Vamos procurar essa tal de abertura. Bem... começou Pedro Bola. Ao contrário do ami- Um momento protestou André. - Não me digam go, estava obviamente interessado no assunto. que vocês querem mais confusão. Já não chega susto que a Já sei suspirou -, vocês estão todos contra gente levou? Pô, gente, vamos esquecer essa tal de Casa Verde, mim. Está bom, vamos em frente. Diga, Leo: que pista é essa isso aí dá azar. que você descobriu? Vamos votar propôs Arturzinho. Quem acha que Eu acho que sei do que homem está falando. Uma a gente deve continuar investigando, levanta a mão. pausa. - Mas não tenho certeza. Tenho de fazer uma pesqui- André voltou-se para Pedro Bola, fez-lhe um apelo: sa na biblioteca. Amanhã eu conto mais. Por favor, cara. Não vai atrás do Xereta, cara, você vai André não disse nada. Pesquisa era uma palavra que lhe se dar mal. Por favor... dava alergia, e da qual não queria nem ouvir falar. Voltou-se Mas Pedro Bola já estava de mão levantada: para Arturzinho: Desculpa, cara, mas agora estou gostando da história, E você, cara? Também quer descobrir quem é isso aqui já está parecendo até aqueles filmes de aventura.. homem? Me desculpa, mas eu you em frente. 28 29</p><p>Se você quiser cair fora, Arturzinho, irônico Cuidadosamente, Arturzinho tentou abrir a porta. Não não se constranja: nós entendemos. Coragem não é coisa conseguiu: estava fechada por dentro. para qualquer um. Mas tudo bem, depois nós convidaremos Não estou entendendo - disse André. - Se é por aqui você para fazer parte do Clube da Casa Verde. que entra a pessoa de fora, como é que ela avisa para sujei- Está bem, está bem - resmungou André. - Eu fico. to abrir a porta? Agora, uma coisa eu vou dizer: para mim, maluco não é só Leo mostrou um orifício na porta, através do qual emer- aquele cara lá dentro. Eu acho que vocês pegaram a loucura gia um cordel com uma argola na ponta. dele. Pelo jeito, único aqui com a cabeça no lugar sou eu. Isto aí deve estar amarrado a uma sineta lá dentro. Voltaram à casa e puseram-se a procurar a entrada secre- Provavelmente na sala em que cara está. ta. Começaram pela própria parede dos fundos. Nada. Ali, só Pedro Bola já ia puxar o cordel, Arturzinho deteve-o: buraco que haviam feito - de novo fechado com as tábuas: Está maluco, cara? Se você fizer isso, homem saberá realmente o cara lá dentro não queria nada com aqueles que que conhecemos o segredo. E aí perderemos a chance de des- chamara de loucos. Exploraram em seguida, e sem resultado, cobrir quem vem aqui. uma das paredes laterais. Na outra parede também não havia Verdade disse Pedro Bola, - E nada, a não ser as janelas muradas. mo vamos descobrir quem vem aqui? Estranho disse Pedro Bola. Parece que cara es- Vigiando - disse Arturzinho. tá mesmo incomunicável aí dentro. Como, vigiando? André, atônito. - Vamos ficar Quem sabe a abertura está no telhado? perguntou aqui, esperando que apareça alguém? André. Claro que não. A gente se reveza, compreendeu? E aí ficamos escondidos. Pouco provável disse Arturzinho. A pessoa teria Apontou uma árvore próxima, de grosso tronco: de colocar escadas, teria de subir, talvez com pacotes Não, Atrás daquela árvore, por exemplo. Somos quatro. a abertura não deve ser no telhado. Cada um faz um turno de seis horas. Nesse momento, Leo, que se metera no matagal para Não acredito incrédulo diante daquela pro- fazer xixi chamou-os: posta que lhe parecia maior dos absurdos. Não acredito Venham cá ver uma coisa. que ficar de guarda seis horas atrás daquela árvore. Correram para lá. Arturzinho não pôde conter uma ex- Qual é o problema? Arturzinho, bem-humorado. clamação: à luz da lanterna, que eles viam, muito bem dis- Você não faz nada, mesmo, pode passar umas horas vigian- farçado pela vegetação abundante, era uma espécie de alça- do. De qualquer jeito, é só até aparecer a pessoa. Não vai le- pão, construído em alvenaria, com uma pequena, mas muito var muito tempo. O cara lá dentro precisa comer, não precisa? sólida porta. André limitou-se a suspirar. Ali mesmo Arturzinho orga- Está aqui a resposta disse Leo. Aposto que este nizou a escala de plantão para as próximas vinte e quatro ho- alçapão dá num túnel. E aposto que este túnel leva até a Casa ras. E, para dar o exemplo, ofereceu-se para ser primeiro. Verde. Deve ser por aí que levam comida para ele. Passavam alguns minutos da meia-noite; ficaria, pois, até as 30 31</p><p>seis da manhã, quando Leo, sorteado para ser o segundo, de lá saiu, agora sem as sacolas. Arturzinho consultou re- substituiria. Foi até um orelhão próximo, ligou aos pais, disse lógio. Um quarto para as seis. Dentro em breve, Leo deveria que iria dormir na casa de Depois, despediu-se dos aparecer para substituí-lo. Mas não tinha tempo para esperar, amigos, que foram para casa, e instalou-se em seu posto, atrás para contar que havia acontecido. A moça já se afastava, da árvore. apressadamente. Sem hesitar, Arturzinho foi atrás dela. Foi uma longa noite, aquela. Com frio, com fome, Artur- Segui-la sem ser visto, àquela hora em que as ruas ainda zinho muitas vezes pensou em desistir será que o clube estavam desertas, não foi fácil, mas Arturzinho não teve de valia tanto sacrifício? Foi com alívio que viu o dia clarear: tudo andar muito. A moça entrou numa casa modesta de um bair- que queria era um banho e cama. Já estava se preparando ro próximo. Arturzinho anotou endereço e se mandou. para ir embora eram cinco e meia quando ouviu um barulho: alguém caminhava pelo matagal. Cuidadosamente, espiou. Era uma garota - quinze, dezesseis anos. Dois detalhes lhe chamaram imediatamente a atenção. O primeiro: a manei- ra como estava vestida. Parecia ter saído de um filme sobre o século XIX, com seu vestido longo, severo. O segundo de- talhe era mais importante: a garota era linda. Linda, não, lin- díssima. Morena, longos cabelos, alta, corpo perfeito. Deus, gemeu Arturzinho, de onde é que saiu esta maravilha? A jovem, que carregava várias sacolas de pano prova- velmente com alimentos ou roupas -, aproximou-se do al- Tal como Arturzinho esperava, puxou a argola. Tal CO- mo imaginara, depois de alguns segundos a portinhola se abriu. A jovem desapareceu. Arturzinho estava desnorteado. Quem seria a moça? Ele, que se gabava de conhecer todo mundo, todas as garotas que frequentavam os bares, os cinemas, as reuniões sociais, nunca a vira. Provavelmente a jovem era, portanto, uma re- clusa. Agora qual seria a relação dela com o homem da Casa Verde? Ali estava uma coisa para ser investigada. Enquanto pen- sava no que fazer, a portinhola do alçapão se abriu, e a moça 32 33</p><p>Só há uma maneira de descobrir disse Arturzinho, decidido. Vamos falar com ela. Contamos o nosso projeto, pedimos a sua ajuda. Já pensei até na proposta que faremos. 4 É assim: ele nos cede uma sala para nosso clube. Em com- pensação, a gente ajuda o homem, na limpeza da casa, na No qual as coisas conservação e em outras coisas. Se ele quiser uma pizza, por começam a se esclarecer exemplo, a gente traz a pizza. Não precisa ficar dependendo só da garota. Estava tão entusiasmado que Leo teve de contê-lo: Calma, Arturzinho, calma. Você está indo longe de- mais. Você nem sabe qual será a reação dessa garota... Quanto a isso, você pode deixar comigo. Modéstia à Voltando para a Casa Verde, Arturzinho encontrou, junto parte, eu sei falar com uma menina. E estou ansioso por falar à arvore, um preocupado Leo: com ela. Onde é que você se meteu, Arturzinho? Cheguei aqui, Você parece muito interessado - disse Leo, irônico. não encontrei você, me apavorei... achei que o homem tinha E não é só por causa do homem ou da Casa Verde... sequestrado você... Arturzinho teve de admitir que estava, sim, impressiona- Sequestrado, nada! Arturzinho, excitadíssimo. do com a garota: Eu estava dando uma de detetive, cara! E você não imagina Ela é linda, Leo. E não tenho a menor ideia de quem que aconteceu! seja. E eu achava que conhecia todo mundo em ima- Um instante de suspense, e revelou, triunfante: gina só. Mas isso não será problema: sei onde ela mora, é só Descobri quem traz a comida para o maluco. É uma ir até lá. garota, e lindíssima, cara! Disparado a garota mais bonita da Olhou relógio: cidade! Mas todas essas coisas nós vamos fazer depois. Agora Não diga! Leo, encantado. Bom, eu achava que eu you dormir. Estou podre, cara. Essa de passar a noite acor- alguém deveria existir... E você diz que é uma garota? Será a dado foi de matar... E você também pode ir. Avise o e filha dele? Pedro Bola que eles não precisam vir. E marque um encon- Não sei - disse Arturzinho. Uma coisa me chamou tro para as seis, na pizzaria do Marcolino. a atenção: estava vestida à moda antiga, com um vestido com- Foi para casa, encontrou o pai, que estava saindo para prido, mangas longas... hospital, e que o mirou com estranheza: Interessante disse Leo. Provavelmente uma rou- Onde é que você andou, pa da mesma época daquela que o homem usa. Será que ela Na casa do onde mais? Eu avisei que ia dormir quer manter o cara na sua ilusão? E por que faria isso? lá, não avisei? 34 35</p><p>Avisou. Só que, quando você dorme na casa dos seus Mostrou livro que tinha sob braço. O desenho da ca- amigos, não volta antes do meio-dia. E agora são sete da ma- pa mostrava um homem de expressão feroz, cabeleira e bar- nhã. Você não está aprontando alguma, está? ba grisalhas. Usava pincenê, casaca e uma gravata de laço, e Não estou. Riu. - E se estivesse? De vez em quan- apontava para provável leitor um dedo ameaçador. do a gente precisa viver uma aventura, não é mesmo? Mas é igual ao homem da Casa Verde! disse Pedro É suspirou pai. Bem, agora vá descansar um Bola, assombrado. pouco. Você está um caco, rapaz. Vá dormir. O que não é de estranhar disse Leo. - Olhem Arturzinho entrou, foi direto à geladeira, estava morren- nome do livro. do de fome. Comeu quatro sanduíches, tomou meio litro de O alienista - disse Arturzinho. Espera um pouco, leite e então foi se deitar: naquele dia, havia reunião dos Leo: alienista... O maluco lá não falou nisso? Não disse que professores, as aulas tinham sido suspensas. Cansado, dormiu era um alienista? a sono solto. Acordou sobressaltado: seis e quinze da tarde. Disse. E é por isso que este livro vai nos esclarecer Que horror! O pessoal lá me esperando e eu aqui, muito sobre ele. dormindo! Mas que um alienista? quis saber André. Correu até a pizzaria, e, de fato, os amigos já estavam lá, Era O nome que se usava antigamente para médico à espera. que cuidava dos loucos. Leo contou que você tem grandes novidades - disse Espera um pouco: cara disse que é um médico que André, não sem uma ponta de despeito, que Arturzinho pre- cuida de loucos? Mas ele tem mais cara de maluco do que de feriu ignorar: médico... Verdade. Acho que temos como descobrir segredo Um pouco como O personagem do livro ponderou da Casa Verde disse, e em seguida contou O que acontecera. Leo. Quer dizer que tudo depende dessa garota - concluiu Pedro Bola olhava a capa interessado: André. - E como é ela? É do Machado de Assis - - Esse eu conheço, Um avião - disse Arturzinho. Uma das meninas a professora Isaura falou nele. Não prestei muita atenção, mas mais bonitas que já vi. é um cara do século passado, não é isso? É? André, os olhos brilhando. É disse Leo. - Este livro é de 1882. Calma, André protestou Arturzinho. - O negócio Espere um pouco - protestou André. - Você quer não é namorar. O nosso negócio é fazer um clube na Casa me dizer que um livro de mil oitocentos e tantos vai explicar Verde. porque maluco se meteu na Casa Verde? Uma coisa não impede a outra - observou André, Explicar, talvez não. Mas acho que vai ajudar a enten- com um sorriso safado. der O que está se passando. Inclusive porque ele conta a his- Escuta, começou Arturzinho, mas antes que tória da Casa Verde. aquilo se transformasse num bate-boca, Leo resolveu intervir: Mas como é que a gente não sabia desse livro? per- Eu também tenho novidades. guntou Arturzinho. 36 37</p><p>A gente, não corrigiu Leo. Você não sabia. Como época estavam em moda teorias racistas sustentando que os Pedro Bola disse, está na lista dos livros indicados pela mulatos eram inferiores. Quer dizer: sofreu muito, ele. Mas professora Isaura. Aliás, uma grande indicação: livro é mui- foi em frente, tornou-se jornalista e escritor. to bom. E a troco de quê escreveu um livro sobre loucura? Mas você já leu? - Pedro Bola, assombrado. Esse era um tema que interessava muito. Já havia Já. O livro é curto. E é ótimo de ler. O Machado de aparecido em outros livros, como Quincas Mas nesta Assis sabe contar uma boa história em poucas páginas. obra é o tema central. Então dê uma de Machado propôs André, que não Pediu livro ao Leo, abriu-o. era muito chegado a livros. - Conte para nós que você leu. O Machado de Assis começa assim: "As crônicas da Vamos fazer uma coisa melhor: vamos conversar com vila de dizem que em tempos remotos vivera ali um a professora Isaura sobre livro. Ela disse que está à nossa certo médico, doutor Simão Bacamarte, filho da nobreza da disposição no colégio. Estava em reunião, mas, assim que ter- terra e maior dos médicos do Brasil, Portugal e das Espanhas". minasse, poderia nos atender. Bacamarte. Bacamarte.. Não é uma arma antiga? E que estamos esperando? disse perguntou Pedro Bola. Vamos lá. É. Mas vocês já vão ver que Machado escolheu esse nome de propósito para doutor. Depois de estudar na Europa. naquele tempo Brasil era governado por Portugal... A reunião estava no fim quando chegaram. A professora ele veio para a vila de Itaguaí, casou com uma moça chama- veio ao encontro deles. Baixinha, morena, olhos da Evarista e começou a trabalhar. Aos poucos, foi-se interes- Isaura era extremamente popular entre os alunos. incon- sando pela doença mental. Não era um assunto muito popu- dicional de Machado de Assis, não perdia uma oportunidade lar, digamos assim. Conta Machado: "A vereança de para falar aos alunos (ou a quem quisesse ouvir) sobre as obras entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha do escritor: de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco fu- Vamos lá, pessoal. Estou à disposição de vocês. rioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e não cu- Foram para uma sala vazia, sentaram-se todos. rado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do Muito bem disse ela. O Leo me contou que benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua". O grupo de vocês está interessado em saber mais sobre O alie- doutor Bacamarte então teve a ideia de construir um lugar pa- nista, do Machado de Assis, é isso? ra os malucos. Para isso, ele pretendia conseguir verba da câ- É confirmou Arturzinho. Essa coisa da Casa Ver- mara de vereadores. de, a gente tem discutido muito sobre aquele lugar. E os itaguaienses, que disseram? perguntou Pedro Então vamos lá. Primeiro vamos falar um pouco sobre Bola. Machado de Assis, que é tão importante para a cidade. Ficaram curiosos, mas não gostaram muito da ideia. Ele morou aqui em quis saber Arturzinho. Diz o Machado: "A ideia de meter os loucos na mesma casa, Não, Machado era do Rio de Janeiro. Criou-se lá, no vivendo em comum, pareceu em si mesma sinal de subúrbio, menino pobre. Além disto era mulato, e naquela Até vigário sugeriu à dona Evarista, mulher do Bacamarte: 38 39</p><p>"Veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro". Tinha mandou que ela fosse passar uns tempos no Rio de Janeiro. esperança de que, com a viagem, alienista mudasse de ideia. Podia fazer isso, porque estava ganhando muito dinheiro. Mas doutor era persistente. Foi à câmara, defendeu o pro- homem era fogo, então disse Era mesmo. Muito pior foi quando ele começou a achar jeto, conseguiu até um imposto especial: quem quisesse colo- que em Itaguai havia muito mais loucos do que parecia no iní- car penachos decorativos nos carros funerários teria de pagar cio. Como disse ao farmacêutico Crispim Soares: "A loucura, uma quantia. E começou a construção da casa dos loucos. objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no A Casa Verde... oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente". É. A Casa Verde. "Inaugurou-se com imensa pompa; Ele queria "ampliar território da loucura". Para isso, era pre- de todas as vilas e povoações vizinhas, e até remotas, e da ciso separar a razão da maluquice: "A razão é perfeito equi- própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às líbrio de todas as faculdades: fora insânia. insânia e só cerimônias, que duraram sete dias." Logo começaram a che- E a partir foi recolhendo as pessoas à Casa O gar os doentes. "Eram furiosos, eram mansos, eram mono- primeiro foi Costa, pessoa estimada em Itaguai. Rico, que maníacos, era toda a família dos deserdados do O acabou empobrecido: emprestava dinheiro a todos, sem juros; doutor Bacamarte estudava cada caso. O objetivo dele era, muitos simplesmente ficavam devendo. O doutor Bacamarte achou que esse comportamento era anormal, coisa de louco, diz Machado, estudar profundamente a loucura, os seus e trancou Costa na Casa Verde. Uma prima do homem veio diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a cau- procurá-lo com uma explicação para caso: o dinheiro não sa do fenômeno e remédio universal". durava porque pai do Costa tinha sido por um Espere um pouco interrompeu Arturzinho. Que homem a quem negara um pouco d'água. O doutor Bacamarte história é essa, "remédio universal"? Quer dizer que doutor ouviu a história e não teve dúvida: recolheu a prima do Costa Bacamarte queria um remédio que curasse todos os tipos de também. doenças mentais? Será que cara não estava exagerando? E pessoal da cidade? perguntou Arturzinho. Estava. Agora: ele acreditava no que fazia. Machado Qual foi a reação deles? conta que o homem se dedicava mesmo: analisava os há- A primeira versão foi que se tratava de vingança: alienista teria tido uma paixão secreta pela tal prima, que o bitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as sim- rejeitara, com apoio do indignado Costa. Mas a versão não patias, as palavras, os gestos, as tendências". Trabalhava tan- pegou, porque, diz Machado, a austeridade do alienista, a to, que a mulher, a dona Evarista, se chateou. Diz Machado: vida de estudos que ele levava, pareciam desmentir uma tal "A ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a mais des- hipótese". Depois disso, outra pessoa conhecida foi interna- graçada das mulheres; caiu em profunda melancolia, ficou da: Mateus, um homem muito rico, que construíra uma be- amarela, magra, comia pouco, e suspirava a cada canto. Não la casa, e que tinha costume de ficar na janela, com "atitu- ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche, porque res- de senhoril", como se quisesse ser admirado. Ouvindo falar peitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada, e de- da história, alienista foi até a casa de Mateus, "viu-o à jane- finhava a olhos vistos". O doutor Bacamarte simplesmente la, passou cinco, seis vezes por diante, devagar, parando, exa- 41 40</p><p>minando as atitudes, as expressões do rosto". Com isso, fez Ficou. Fez um pronunciamento: "Meus amigos, lute- diagnóstico: Mateus foi recolhido à Casa Verde. mos até fim! A salvação de está em vossas mãos dig- Mas era um pavor, aquilo!-Pedro Bola, impressionado. nas e heroicas. Destruamos cárcere de vossos filhos e pais, Era. O pânico foi crescendo. Conta Machado: "O ter- de vossas mães e irmãs, de VOSSOS parentes e amigos, e de ror acentuou-se. Não se sabia quem estava são, nem quem es- mesmos. Ou morrereis a pão e água, talvez a chicote, na mas- tava doido. As mulheres, quando os maridos saíam, mandavam morra daquele indigno". Mas objetivo dele não era só des- acender uma lamparina a Nossa Senhora; e nem todos os ma- truir a Casa Verde. Ou seja: não era mocinho da história, as- ridos eram valorosos, alguns não andavam fora sem um ou sim como alienista não era bandido. Os personagens de dois capangas. Positivamente terror. Quem podia emigrava". Machado são seres humanos, complexos como todas as pes- E os caras da vila? Não faziam nada? soas. Diz ele: "Foi nesse momento decisivo que barbeiro Bem, lá pelas tantas eles se rebelaram. Quem coman- sentiu despontar em si a ambição do governo; pareceu-lhe dou a revolta foi barbeiro Porfírio Caetano das Neves. E ti- então que, demolindo a Casa Verde e derrocando a influên- nha muita gente no movimento. O que eles queriam era bo- cia do alienista, chegaria a apoderar-se da câmara, dominar tar abaixo a Casa Verde. Ouçam "O barbeiro declarou que as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguai". iam dali levantar a bandeira da rebelião, e destruir a Casa O homem era um ditador em potencial comentou Verde; que não podia continuar a servir de cadáver Leo. aos estudos e experiências de um déspota; que muitas pes- Verdade. E movimento crescia. Cresceu tanto que as soas estimáveis, algumas distintas, outras humildes mas dig- autoridades tiveram de enviar à vila um destacamento militar. nas de apreço, jaziam nos cubículos da Casa Verde.. Mas na hora do enfrentamento os soldados começaram a pas- E alienista? perguntou Arturzinho. Fugiu? sar para lado dos revoltosos. O barbeiro foi até a câmara e Que nada. O homem era teimoso. Enfrentou aquela lá assumiu poder: os vereadores foram direto para a cadeia. multidão, fez um discurso. Ouçam só O que ele disse: "Meus Porfírio se proclamou "Protetor da vila em nome de Sua senhores, a ciência é coisa séria e merece ser tratada com se- Majestade, e do povo". Lançou uma proclamação contra a riedade. Não dou razão de meus atos de alienista a ninguém, mara corrupta e violenta" e foi muito aplaudido. O barbeiro salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administra- então foi à casa do alienista, que recebeu e disse que não ção da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis tinha meios de resistir à rebelião: "Só uma coisa pedia, é que que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia não constrangesse a assistir pessoalmente à destruição da convidar alguns de vós em comissão dos outros a vir ver comigo Casa Verde". Agora: que acham vocês que O barbeiro fez? os loucos reclusos; mas não faço, porque seria dar-vos razão Expulsou O Bacamarte disse Pedro Bola. do meu sistema, que não farei a leigos nem a rebeldes". Mandou prendê-lo sugeriu André. O barbeiro deve ter ficado por conta - observou Nada disso. Ele veio com um papo conciliador: "En- André. gana-se Vossa Senhoria em atribuir ao governo intenções van- 42 43</p><p>dálicas" quer dizer, intenções de destruir coisas. E conti- já estavam na Casa Verde. Mas de novo alienista surpreen- nuou: "Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior par- deu a todos. Mandou soltar todos os internados. te dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo, mas Mas por quê? estranhou Pedro Bola. governo reconhece que a questão é puramente científica". Ele disse O seguinte: se número de loucos era tão Questão científica: exatamente como dizia alienista! grande, normal era ser maluco. Como explicou na carta que mandou à se devia admitir como normal e exemplar admirou-se Arturzinho. desequilíbrio das faculdades", ou seja, das faculdades men- Exatamente como dizia alienista. O barbeiro que- tais, da mente. Para a Casa Verde só iriam as pessoas "que se ria doutor Bacamarte como aliado. achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades men- O negócio dele era político.. tais". E doutor trataria dessas pessoas. O objetivo era fazer Era. O alienista também é isso, uma fábula política. com que ficassem perturbadas. para voltar à normalidade. is- Mas, continuando: com apoio do barbeiro, que agora to é, à maluquice. Machado um exemplo: "Suponhamos mandava Itaguaí, doutor Bacamarte não perdeu tempo, con- um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir- tinuou metendo mais gente na Casa Verde. Isso provocou gran- -lhe sentimento oposto". Medicação aí não é injeção ou com- de indignação. Os itaguaienses pensavam que estavam livres primido: vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabe- do alienista, mas, ao contrário, viram que ele estava com mais leira, uma bengala para restituir a razão ao alienado". Quer di- poder. E protestaram. barbeiro quis voltar atrás, fechando zer: com enfeites, cara ficava curado da modéstia. E aí não O hospício e mandando embora doutor, mas já era tarde. Foi precisava ficar na Casa Verde. Que, no fim de cinco meses e deposto, aliás por outro barbeiro, João Pina, que acusou de meio estava vazia: todos "curados", entre aspas. estar "vendido ao ouro de Simão Bacamarte". Nisso, conta Então alienista conseguiu que queria? pergun- Machado, chegou uma força enviada pelo vice-rei e restabe- tou André. leceu a ordem, acabando com a revolta. A partir de então, Aparentemente sim. Mas então se deu conta de que, doutor Simão Bacamarte tinha poder nas mãos. Começou na verdade, aquelas pessoas já eram perturbadas antes: "Os internando barbeiro Porfírio e vários outros rebeldes. Depois cérebros bem organizados que ele acabava de curar eram de- foi presidente da câmara de vereadores. Foi "uma coleta de- sequilibrados como os outros". O único que era cem por cen- senfreada", diz Machado. Acabou metendo a própria mulher, to sadio era ele, alienista. "Simão Bacamarte achou em si os a dona Evarista, no hospício. O padre Lopes, assustado, per- característicos do perfeito equilíbrio mental e emocional"; ele guntou ao alienista que tinha acontecido. Simão Bacamarte era inteligente, paciente, leal, tolerante. Chegou a reunir um contou que a mulher tinha uma dúvida: não sabia que colar conselho de amigos, perguntou se tinha algum vício, algum usar no baile da câmara: "Alta noite, seria hora e meia, acor- defeito. Não, foi a resposta unânime, ele era perfeito. Portanto, do e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a ele era único que tinha de ir para a Casa Verde. Foi que diante dos dois colares ensaiando-os ao espelho, ora um ora fez, apesar dos pedidos da mulher e dos amigos. Conta outro. Era evidente a recolhi-a logo". E a Evarista Machado: "Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao es- não foi sozinha: àquela altura quatro quintos dos itaguaienses tudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele mor- 44 45</p><p>reu a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou". dois se estendia às garotas, e mais de uma vez tinham briga- E aí termina a história. do por causa disso. André suspeitou de algo: Sorriu: Está bem, sabidinho. Mas aposto um CD como você Agora vocês já sabem por que muita gente aqui em não consegue. não gosta da Casa Verde. Arturzinho topou. Combinaram novo encontro para daí a três dias, no mesmo lugar. Você já sabe - avisou André. Ou traz a resposta Os garotos agradeceram à professora Isaura e saíram. Tão ou traz um CD. Que eu escolher. impressionados estavam, que ficaram parados na frente do Não: você é que vai comprar CD que eu escolher. E colégio, por uns bons cinco minutos, sem dizer palavra. pode ir preparando a grana, porque não será barato. Que coisa - murmurou Pedro Bola, por fim. - Que Feito desafio, separaram-se. e Pedro Bola que- coisa. O alienista trancando todo mundo na Casa Verde... riam voltar à pizzaria. Mas Arturzinho alegou que precisava Parece história de terror. Pode ser inventada, mas está muito dormir cedo. Tinha um compromisso na seguinte. bem contada. Muito bem disse André. Nós temos a história do Machado de Assis, e que eu, aliás, estou ansioso para ler. E is- eu que não sou de muita leitura, hein? Mas é que fiquei cu- rioso... Agora: o nosso homem lá da Casa Verde... gente, esse cara também deve ter uma história muito estranha. Acho que nem o Machado de Assis imaginaria um tipo desses. Vocês vi- ram, a história dele termina quando alienista morre. Como é que ia imaginar um cara se trancando na Casa Verde tantos anos depois? E a troco de quê sujeito pensa que é doutor Simão Bacamarte? Isso eu não consigo entender. Podem deixar comigo - Arturzinho, misterioso. Em dois dias garanto a vocês que tenho a resposta para esta pergunta. Ah, é? André, debochado. E como, pode-se sa- ber? Consultando um adivinho? Isso eu resolvo. Tenho os meus métodos. Piscou o olho para Leo, que limitou-se a sorrir. Sabia mui- to bem por que Arturzinho não queria falar da garota: tinha medo de que corresse atrás dela. A rivalidade entre os 46 47</p><p>que ficou claramente perturbada. Mesmo assim, não conse- guiu disfarçar um sorriso, que deixou Arturzinho animado. Resolveu optar pela audácia. Quando ela saiu da mercearia, 5 carregando várias sacolas plásticas, ele saiu também, empa- relhou passo com ela: No qual Arturzinho descobre Desculpa, mas eu vi que você estava muito carrega- quem é a garota misteriosa da.. Posso ajudar você com as sacolas? A cantada era tão velha, que ela teve de rir e ele tam- bém. O que teve a vantagem de quebrar o gelo: Eu sou Arturzinho disse, apresentando-se. E acres- centou, com uma desenvoltura que surpreendeu a ele mes- mo: Meus amigos me apelidaram de Xereta. Eu não gosto desse apelido, mas você agora deve achar que eles têm razão, Oculto atrás de uma árvore, próximo à casa em que mo- que eu sou metido mesmo... rava a garota, Arturzinho estava irritado: eram nove horas da Ela riu de novo, disse que se chamava Lúcia. ele estava ali desde as seis. Tinha acordado cedíssi- E não tenho apelido acrescentou. mo, para grande surpresa do pai, que encontrara na cozi- Foram caminhando devagar, conversando. Ela contou que nha, tomando café caiu da cama, Arturzinho? e estava estava cursando o segundo grau numa escola ali perto; que gos- morrendo de sono. Já pensara em desistir, em voltar para ca- tava de música e de cinema; que jogava vôlei no time do colé- sa. Mas não faria por nada neste mundo. A verdade é que a gio... Enfim, uma garota como qualquer outra. O que deixava menina impressionara profundamente. Estava ali por causa Arturzinho ainda mais intrigado. Aquela era a mesma moça que do homem da Casa Verde, decerto, mas também, e principal- ele avistara, usando um vestido antiquado, entrar na Casa Verde? mente, por causa dela. Havia um mistério ali. Nada perguntou, porém, sobre que vi- Perto das dez a sua paciência foi, finalmente, recom- ra na madrugada anterior; afoito que era, soube, entretanto, pensada. A porta se abriu e ela apareceu sozinha, como conter-se. Não era momento. Arturzinho queria. Já não vestia aquela roupa antiquada Quando chegaram à casa dela uma casa comum, mo- estava com uma blusa e calças jeans que modelavam seu desta, parecida às outras da rua, ele perguntou se ela não gos- corpo perfeito. taria de ir ao cinema naquela noite. Para sua surpresa, grata Consultou o relógio e pôs-se a caminhar, apressada. Como surpresa, ela disse que sim. da outra vez, Arturzinho a seguiu. Ela dobrou à direita, de- pois à esquerda, chegou a uma avenida e entrou numa mer- cearia. Arturzinho hesitou, depois entrou também. Enquanto Por uma dessas coincidências, era um filme de mistério. ela escolhia frutas e verduras, ele pôde observá-la. De perto, História intrigante: uma casa que adquiria vida própria, por era ainda mais linda, e ele não podia tirar os olhos de seu ros- assim dizer, e que queria expulsar os moradores. Quando saí- to. O que ela acabou percebendo. Pelo jeito, era tímida, por- ram do cinema, Lúcia tinha mudado. Não queria falar, recu- 48 49</p><p>sou convite dele para comerem qualquer coisa, disse que homem solitário, que precisava ser ajudado. Ele acabou se precisava ir para casa. Foram andando, em silêncio. Quando apaixonando por ela. Tiveram um filho, mas disso ele não chegaram à rua dela, já às dez da noite, Arturzinho resolveu ficou sabendo, porque morreu antes. Os pais de Ana ficaram arriscar: furiosos com ela; expulsaram-na de casa. Ela teve de criar Eu sei por que o filme incomodou tanto você. filho sozinha, que conseguiu: era uma moça muito valoro- E contou que a vira entrar na Casa Verde pelo alçapão. sa. O filho cresceu, tornou-se empregado de uma loja, casou, Falou do homem que lá tinham visto enfim, relatou tudo teve seus próprios filhos... Mas a história do doutor Bacamarte que acontecera. ficou um segredo da família, um segredo que ninguém reve- Ela baixou a cabeça e começou a chorar. Chorou muito lava, e que pessoal da cidade acabou esquecendo. tempo, um pranto silencioso, sentido. Consternado, Arturzinho Suspirou. não sabia que dizer. Finalmente, ela falou: O único que não conseguia esquecer era meu pai. Aquele homem que você viu lá dentro da Casa Verde... Desde pequeno ele era considerado esquisito, um menino Aquele homem estranho. Aquele homem é meu pai. que falava pouco, que fugia das pessoas, e que gostava de fi- Arturzinho estremeceu. Era pai dela, maluco? Deus, em car no porão da casa dos pais. A figura do doutor Bacamarte que confusão ele fora se meter. Mas ela já continuava e estava sempre presente na lembrança dele. Leu O alienista agora falava com menos dificuldade, como se estivesse alivia- não sei quantas vezes, chegava a recitar livro dormindo. da por poder partilhar segredo com alguém. Apesar disso tudo, conseguiu ir levando a vida: abriu uma lo- Ele é bisneto do doutor Simão Bacamarte. Com certe- jinha de material de escritório, casou. Tiveram uma única fi- za você ouviu falar nesse homem. lha, eu. Posso te garantir, Arturzinho, que era um pai maravi- O alienista... lhoso. Um pouco distante, às vezes, mas muito dedicado. É. O alienista. Aquele, que inspirou Machado de Assis. Brincava comigo, e gostava muito de me contar histórias na Mas espere um pouco Arturzinho, surpreso. Se hora de dormir. Eu tinha medo do escuro, mas quando ele eu me lembro bem da história, doutor Bacamarte não teve sentava a meu lado, no quarto, abria um livro e lia uma histó- filhos. ria, aquilo para mim era um conforto, eu às vezes nem escu- Não teve filhos com a dona Evarista, a mulher dele. tava final, adormecia embalada pela dele. Mas, você me Mas você deve recordar que, no fim da vida, ele ficou dezes- perguntará, quando é que ele ficou doente? Não sei. Só sei sete meses encerrado na Casa Verde, até falecer... que foi ficando cada vez mais quieto, mais voltado para den- Verdade. tro de si mesmo. Não falava com ninguém, mas às vezes fica- Nesse período, ele não teve contato com ninguém, a va horas resmungando coisas. Lá pelas tantas já não ia traba- não ser com a mulher que tomava conta do lugar, uma por- lhar minha mãe teve de tomar conta da loja passava tuguesa chamada Ana. Essa moça tinha muita pena do dou- dia em casa, lendo o livro do Machado E aí come- tor; cuidava dele, alimentava-o, vestia-o. Para ela, o doutor çou a rondar a Casa Verde. Ficava horas naquele matagal em Bacamarte não era alienista.. nem doente; era um infeliz, um que você se escondeu, olhando lugar. Um dia sumiu. Minha 50 51</p><p>mãe e eu procuramos por toda parte, até que ela se deu con- Há meio ano. Nós não contamos nada para ninguém. ta: ele deveria estar na Casa Verde. Por sorte, encontramos en- Os vizinhos pensam que ele simplesmente nos abandonou, e tre suas coisas uma planta do lugar, feita por ele mesmo, e não estranham, porque sempre acharam maluco. E minha mãe prefere que pensem assim. que mostrava a entrada do Mas por que vocês não pediram ajuda a alguém? Foi ele quem construiu esse Pensamos nisso, Arturzinho. Mas meu pai nos amea- Não, alçapão já existia. Não sabemos quem cons- çou: se trouxermos uma pessoa de fora ele nunca mais fala truiu. É possível que a casa tenha tido outros moradores clan- conosco. Eu queria ir em frente assim mesmo, consultar um destinos, no passado. Não sei. De qualquer modo, era anti- psiquiatra, mas minha mãe teve medo: ela acha que é melhor go, esse Alguém fechara com argamassa, que meu ir levando, esperando que ele melhore.. pai removeu, e assim teve acesso à Casa Verde. Decidimos Arturzinho não sabia O que dizer. Ficaram em silêncio al- usar mesmo Naquela mesma noite fomos até lá, gum tempo. Por fim, ela disse que precisava entrar, tinha au- abrimos a portinhola. Havia uns degraus, e depois uma espé- la na manhã seguinte. Arturzinho pegou-lhe a mão: cie de túnel muito estreito, e de novo uns degraus, pelos quais Posso ver você de novo? subimos. Levantamos a tampa de um outro alçapão e aí che- Ela sorriu: gamos a uma sala... demos com papai. Pode. Começou a chorar de novo. Deu-lhe número do telefone, ele se despediu e foi pa- Foi um choque, Arturzinho. Um choque. Nos guarda- ra casa. Tão excitado estava, tão emocionado, que não se con- dos da família ele tinha arranjado aquela roupa do século pas- teve: ligou para Leo, contou-lhe que tinha acontecido. sado, e estava lá, sentado numa cadeira velha, à luz de uma E agora, Leo? O que é que a gente faz? vela, naquele lugar imundo, com sujeira por toda parte, e até Leo, inteligente e sábio Leo, não tinha resposta para es- ratos mortos no chão. Ele nos olhava fixo, sem dizer nada sa pergunta. Mas prometeu pensar a respeito. Marcaram um Minha mãe agarrou-se a ele, implorou que saísse dali, que vol- encontro para daí a dois dias, na pizzaria. tasse conosco para casa. Ele, quieto, imóvel. Finalmente fa- Leve livro disse Arturzinho. Eu preciso ler O alienista. Preciso mesmo. lou... para dizer que não, que não sairia dali, que mundo estava cheio de loucos, e que ele, alienista, teria de ficar na Casa Verde. como doutor Simão Bacamarte. Não houve maneira de convencê-lo. A única coisa que permitiu foi que, em diante, local, que lhe lavásse- mos a roupa e levássemos comida. Mas na primeira vez em que fui fazer isso, ele me expulsou: disse que eu era louca, que estava vestida como os loucos. Tive de arranjar aquele vestido antigo, que você viu, e aí, sim, ele me deixa entrar. E quando começou isso? 52 53</p><p>Vamos conversar com um colega meu, um psiquiatra. Ele pode nos dizer O que fazer. Pegou telefone, ligou: Alô, Eduardo? Bom que peguei você em casa. Escuta: 6 O meu filho, Arturzinho, quer falar contigo. Como? Não, ele No qual Arturzinho recebe não está com nenhum problema... Melhor: ele quer ajudar uma ajuda inesperada umas pessoas a resolver um problema. Quando é que ele po- de ir ao teu consultório? Hoje à noite? Ótimo. Desligou. O Eduardo vai conversar contigo. Ele é um excelente profissional, e um bom amigo. Acho que você vai gostar des- se encontro. Você anda meio estranho - disse O pai, na seguinte. Estavam só os dois na mesa do café; a mãe de Arturzinho passou dia muito ansioso. Queria contar a Arturzinho, professora de inglês, já saíra para a aula. alguém O que estava acontecendo. Lúcia? Taivez. Mas temia Estranho, como? O que é que você notou de estranho que ela achasse metido. Não, melhor seria procurá-la com em mim? sugestões concretas. E os amigos? Não seria caso de levá- - Várias coisas. Para começar: você quase não comeu. -los junto para a conversa com O psiquiatra? Depois de pen- Nem parece Arturzinho que toda manhã devora frutas, san- cereal. Além disso, você está muito quieto. Quando sar um pouco resolveu ir sozinho: talvez O doutor não gostas- você era menor, e ficava calado desse jeito, eu dizia à sua mãe: se de ver grupo todo entrando em seu consultório. Optou esse garoto está aprontando alguma. Mas agora acho que não por avisar apenas Leo. é O caso. Melhor dizendo: você até pode estar aprontando, À hora marcada, oito da noite, lá estavam eles, no con- mas não é só isso. Algo está acontecendo, filho Você não quer sultório. O doutor Eduardo, colega do pai de Arturzinho, era me contar? Quem sabe eu posso ajudar em alguma coisa... um homem alto e elegante, com barba e cabelos grisalhos. Arturzinho hesitou. Depois, num repente, contou tudo: Recebeu-os, convidou-os a sentar, pediu que contassem a his- a história com a Casa Verde, O homem que tinham encontra- tória, O que Arturzinho fez. Quando terminou, doutor ficou do ali, relato que Lúcia lhe fizera. O pai ouviu em silêncio. um instante em silêncio. Bem - disse, por fim. Você falou muitas coisas, A julgar pelo que você contou disse, por fim es- mas acho que O principal é esse assunto do homem que se se homem tem uma identificação doentia, com alienista. trancou na Casa Verde. Pelo jeito, ele está sofrendo e a famí- Acho que vocês sabem O que é um lia está sofrendo com ele. Talvez a gente possa ajudá-lo. Sabemos disse Arturzinho. A nossa professora, Pensou um pouco: a Isaura, contou-nos toda a história. Impressionante. Só não 54 55</p><p>entendo uma coisa: como é que esses tais de alienistas tinham Mas, afinal, que faziam eles pelos pacientes? per- tanto poder? guntou Leo. Já responder a essa pergunta. Mas antes, é preci- Não muito. Estavam mais preocupados em dar nomes SO que vocês saibam uma coisa: loucura é um conceito que às doenças, em classificar os pacientes em diversos tipos. Na- mudou com tempo. Na Idade Média, por exemplo, se al- quela época não se sabia muito sobre a mente humana. Foi guém ouvia vozes ou tinha visões, esse alguém não era con- quando surgiu um homem chamado Sigmund Freud, com siderado necessariamente um maluco: podia ser um santo, umas ideias revolucionárias. Ele disse que em todos nós exis- recebendo mensagens do céu. E muitos loucos viviam com tem mecanismos capazes de provocar problemas emocionais. suas famílias, nas aldeias, sem que ninguém se preocupasse Os conflitos que a gente vive, especialmente na infância, po- com eles. Só mais tarde é que surgiu o hospício. O objetivo dem se manifestar mais tarde sob a forma de perturbação men- era tratar os doentes mentais, claro, mas também tirá-los das tal. Mais tarde surgiram também muitos medicamentos que ruas: perturbavam e além disso davam mau exemplo, por- não chegam a curar as doenças, mas ajudam as pessoas a vi- que não trabalhavam, não consumiam... Os loucos não só ver melhor. eram recolhidos, mas eram também acorrentados, como se Nova pausa. fossem animais ferozes. Na época da Revolução Francesa es- Mas não é só disso que Machado fala no livro. A lou- sa situação melhorou um pouco: um médico chamado Pinel, cura nem seja aspecto mais importante da obra. Na que fazia parte do governo, tomou a iniciativa de libertar verdade, Machado de Assis está falando em poder, em pes- aquela pobre gente. soas que dominam as outras por uma razão qualquer: porque Abriu livro e mostrou duas gravuras antigas. Numa, teoricamente sabem mais como no caso do alienista ou viam-se os doentes mentais presos por pesadas correntes; na porque têm mais dinheiro, ou porque têm armas. Os doentes outra, estava Pinel, ordenando a libertação dos enfermos. mentais sempre foram vítimas do poder, exatamente porque Mas continuou médico hospício continuou são doentes, pessoas desamparadas. Vocês devem lembrar existindo. A loucura agora chamava-se alienação mental. que lá pelas tantas ocorre uma revolta contra O alienista, mas Alienado quer dizer desligado, estranho. O líder da revolta não conseguiu afastá-lo: doutor Bacamarte Teve um filme chamado Alien.. representava a ciência e O poder precisa da ciência. É isso mesmo. Referia-se a seres de outras galáxias, Fantástico disse Leo, que ouvira fascinado a expli- não é? Pois os loucos eram considerados mais ou menos isso, cação do médico. criaturas estranhas, de outras galáxias. E O lugar do alienado Arturzinho tinha outras preocupações, mais práticas: era no hospício. Vocês falaram no Machado de Assis. Não é E O que é que a gente pode fazer por aquele homem de admirar que ele tenha escrito sobre assunto. Muitos hos- da Casa Verde? perguntou. pícios surgiram, no Brasil, na época dele: Dom Pedro II no Aquele Como é nome dele? perguntou Rio de Janeiro, São João de Deus, em Salvador, Juqueri, médico. em São Paulo, São Pedro, em Porto Alegre. A figura mais O nome dele? Arturzinho, assombrado. importante lá era alienista. É. Como se chama esse homem? 56 57</p><p>Pois sabe que eu não sei? Não sei mesmo. O médico sorriu: Mas a palavra mais importante para uma pessoa é nome dela, não é verdade? Se você não sabe nome do ho- 7 mem, isso quer dizer que você não está pensando nele como uma pessoa, está pensando nele como um maluco, como um No qual a situação alienado, como um "alien". E isso é a primeira coisa que pre- se complica cisa mudar. E senhor pode nos ajudar? Posso. Mas é preciso que ele esteja de acordo. Ou que, pelo menos, a esposa e a filha solicitem a minha ajuda. Vejam bem: ele não está atacando não está ninguém. E se estivesse fazendo isso, vocês teriam de avisar as autoridades do município, não a mim. Não é caso, mas quatro da tarde do dia seguinte, Arturzinho bateu à eu poderei ajudar, se a família quiser. porta da casa de Lúcia. A própria Lúcia abriu. Surpresa: Arturzinho e Leo agradeceram e saíram. Pensei que nosso encontro era E agora? perguntou Arturzinho. - O que é que a Era. Mas preciso falar com você. gente faz? Convidou-a para uma pizza no Marcolino o que seria, Eu acho sugeriu Leo - que você deveria falar com a Lúcia. Afinal, é a filha dele, e, como disse O doutor, a famí- como logo descobriu, um erro. Entraram, sentaram a uma me- sa no fundo, e Arturzinho foi logo contando a conversa com lia é que tem de opinar. Arturzinho achou boa a ideia. E resolveu antecipar en- doutor Eduardo. contro com a garota. Ele pode ajudar seu pai, Lúcia. Mas é preciso que você e sua mãe aceitem a ajuda dele. Uma sombra de tristeza, de angústia toldou rosto dela. Não sei, Arturzinho. Sinceramente, não sei. Não ima- gino como O papai reagiria. Mas seu pai... - Aí Arturzinho lembrou-se do que psiquiatra tinha falado: Como é mesmo nome dele? Jorge. Pois é: Jorge, teu pai, pode melhorar muito. O doutor Eduardo disse que hoje em dia a psiquiatria mudou, não é mais como na época dos alienistas. Por que vocês não tentam? Ela vacilava, ainda. 58 59</p><p>Prometa, pelo menos, que você vai pensar no assun- Quando Arturzinho viu quem era, tratava-se to disse do Ildefonso, locutor da Rádio Itaguaí, conhecidíssimo por Lúcia suspirou: seu programa "Fofocas da Cidade". Ninguém escapava à sua Está bem, Arturzinho. Vou pensar no assunto. Desde língua afiada. Era terror de esse homem ainda jo- já quero lhe dizer uma coisa: estou muito grata a você, pelo vem, meio calvo, óculos de lentes grossas, um cigarro sem- interesse, pela ajuda. - Consultou relógio: - Vou indo. pre a pender do canto da boca. Tenho aula de computação. Não, não se incomode, você não Posso sentar? perguntou, e antes que Arturzinho precisa me acompanhar. É aqui perto. dissesse qualquer coisa, já estava confortavelmente abanca- Levantou-se, pegou a bolsa. do à mesa. Olhou rapaz, curioso: Você é Arturzinho, Espere aí, garota. - Era Catavento, que chega- não é? O filho do doutor Rodrigues Eu conheço você desde va, sorridente. Estou vendo que () Arturzinho está esconden- pequenino. Ainda O chamam de Xereta? do você dos amigos. Que feio, né? Isso não se faz. Apresenta Riu: a moça pra gente, Não leve a mal. Para mim, chamar alguém de Xereta não Lucia, constrangida, não sabia que dizer. Arturzinho ofensa. É que eu sou, sabe? Um xereta. Estou sempre me irritou-se: metendo onde não sou chamado. Mas que posso fazer? É a Agora não é O momento, cara. Ela está com pressa, VO- minha profissão, você sabe. E é que eu gosto de Aliás, cê não está vendo? Deixe-a ir. é por isso que vim falar com você. Eu ouvi bate-boca entre André soltou O braço de Lúcia que, sem uma palavra, foi- vocês dois. E uma coisa me chamou a atenção. -se apressada. Arturzinho estremeceu de novo, adivinhando O que es- Você é um grosso, mesmo disse Arturzinho, furio- tava por vir. Não deu outra: SO. Onde é que se viu, tratar a garota desse jeito? O seu amigo falou num maluco da Casa Verde. Que E você retrucou André é um safado. Para enfren- história é essa, Arturzinho? Que eu saiba, na Casa Verde não tar maluco da Casa Verde você nos chama. Mas para apre- mora ninguém há muitas décadas. Ou mora? Estou engana- sentar uma garota, aí você não conhece ninguém. Quem pen- do, Arturzinho? sa você que é? Deus? Arturzinho gaguejou qualquer coisa: maluco da Casa altura já estava gritando. Muitas pessoas- a pizza- Verde era um amigo deles, Leo, que estava sempre falando ria estava cheia - voltavam-se para ver O que se passava. no assunto: André deu-se conta de que tinha passado dos limites. Resmun- Por causa do livro do Machado de Assis, você sabe... gou mais alguns desaforos e foi embora. O Arturzinho ficou sentado. Estava aborrecido, muito abor- Ah. O alienista. Sei. Ildefonso não parecia nem recido. Conhecia André, sabia de seu gênio difícil - mas po- um pouco convencido. Mirava Arturzinho com um olhar tão deria ter evitado aquele bate-boca. Agora era tarde. desconfiado e zombeteiro que rapaz chegou a se engasgar. Com licença disse alguém a seu lado. Mas jornalista optou por não insistir: 60 61</p><p>Bem, desculpe pela intromissão. Se souber qualquer coisa sobre a Casa Verde, você me avisa? Qualquer história a respeito daquele lugar dará uma grande matéria. Despediu-se, levantou-se e saiu. Arturzinho respirou fundo. De momento, tinha se safa- 8 do. Mas algo lhe dizia que aquele risco não estava inteiramen- No qual as coisas se precipitam te afastado. Um receio que veio a se confirmar, e mais cedo e tomam rumo imprevisto do que ele esperava. Arturzinho dormiu muito mal naquela noite. Estava apreensivo com papo do jornalista - e chateado com a dis- cussão que tivera com Certo, de vez em quando os dois se estranhavam, mas afinal eram amigos de infância, e faziam parte de um grupo. De cedo resolveu telefo- nar. André atendeu. Ríspido: Estou indo para a escola. O que você quer? Queria reunir a turma. Acho que temos coisas para conversar... Você topa? Na verdade, não se tratava só de uma proposta, tratava- -se de uma reconciliação. André entendeu; depois de um ins- tante de vacilação, aceitou convite. Está bem. No Marcolino, às quatro. Eu aviso O Pedro Bola. E eu aviso Leo. - Arturzinho desligou, aliviado: de momento, ao menos, a briga com parecia superada. Desceu para café, encontrou pai na cozinha. Bom dia, Arturzinho. Mirou-o, atento: - Vejo que você não dormiu bem de novo. Ainda é a história da Casa Verde? Mais ou menos. 62 63</p><p>A propósito, você falou com Eduardo? Sentou-se, ainda aparvalhado: Falei. A filha do maluco! Quem diria! E o que ele disse? Pois é continuou Arturzinho. Como você pode Disse que pode ajudar. Desde que a família, quer di- imaginar, essa garota não tem uma vida fácil. Ela é quem leva zer, a esposa e a filha do homem, lhe peçam isto. Conversei a comida para pai, a roupa lavada. E tem de fazer isso de com a Lúcia. Mas ela... madrugada, escondida. Era disso que estávamos falando, e Espere um pouco - interrompeu médico. Quem eu estava tentando ajudá-la. Aí chega você com umas brinca- é a Lúcia? É a filha? deiras sem graça... Me desculpe, mas você cometeu um erro. É. A Lúcia... Bem, se é assim disse O outro, sem jeito acho Estou começando a desconfiar - pai, com um sor- que sou quem deve pedir desculpas. riso cúmplice que seu interesse não está na Casa Verde... Deixa pra lá - disse Arturzinho, estendendo-lhe a Ora, papai... mão. Somos amigos, e amigos brigam de vez em quando. Está bom, deixa pra lá. Eu acho que O Eduardo tem ra- Faz parte. Ele fazer alguma coisa alguém pedir, pa- Apertaram-se as mãos, comovidos. ciente ou a família. E imagino que para a família não seja uma Mas então prosseguiu André como é que a gen- decisão fácil. Talvez você tenha de dar um tempo, te fica? Estou vendo que aquela sua ideia do clube está cada Pelo jeito, não há nada urgente aí, certo? vez mais complicada.. Errado: havia, sim, urgência. Mas isso Arturzinho só des- Clube? altura Arturzinho pouco pensava no clu- cobriria depois. be. Pensava em Lúcia, sim. Pensava O tempo todo. Estaria apai- Foi para a escola, mas, cansado e ansioso, não conseguia xonado? Provavelmente sim, mas sentia que a garota não es- prestar atenção em nada. Também não conseguiu almoçar - tava em condições de lhe corresponder: aquela coisa do pai que lhe valeu uma reclamação da mãe: você não está CO- encerrado na Casa Verde monopolizava toda a sua atenção, mendo nada, Arturzinho, desse jeito vai ficar pele e OSSO. todas as suas emoções. Fez os trabalhos da escola e, às três e meia, voou para a Pois é - suspirou. Eu acho que clube agora fi- pizzaria. Foi, naturalmente, primeiro a chegar. Depois veio cou em segundo plano. O negócio é a gente fazer alguma coi- O Leo e, um pouco mais tarde, André Catavento - de cara sa por aquele homem. Estivemos conversando com um psi- ainda fechada: quiatra, colega do meu pai.. Conta pra ele, Leo. Que sacanagem você me fez ontem, hein, Arturzinho? Leo relatou papo com médico, que ouviu de Sacanagem, mesmo! Quem era aquela garota, afinal? testa franzida: Esta era a pergunta que você deveria ter se feito on- Deus, é complicado mesmo. E que foi que ele disse... tem replicou Arturzinho. Ela se chama Lúcia. É a filha Interrompeu-se. Pedro Bola entrava correndo, esbaforido: do homem da Casa Verde. Gente, vocês nem sabem que está acontecendo! Tem O quê! - não podia acreditar no que estava ou- uma multidão na frente da Casa Verde. Está todo mundo lá, vindo. - É a filha do maluco? Aquela garota bonérrima? a polícia, prefeito... 65 64</p><p>Mas que houve? Arturzinho, alarmado. esperavam a ordem do prefeito, que ali estava, para O Ildefonso, aquele da rádio, sabe?, está apresentan- rem os tijolos que bloqueavam a velha porta. do programa dele da rua. Diz que daqui a pouco vai reve- Senhor prefeito disse Arturzinho em VOZ baixa, trê- lar segredo da Casa Verde... mula senhor não pode permitir que isso aconteça. Arturzinho ficou pálido. Teria Ildefonso descoberto tu- Por quê? perguntou surpreso prefeito, um homem do? Mas como? Pedro Bola tinha a explicação: gordo e calvo, com grandes bigodes. Esta casa está aban- Ele botou uns garotos pra vigiarem a casa, como nós. donada há anos. O Ildefonso está dizendo que não, que há E aí descobriram essa moça, que vai lá levar comida para O uma pessoa morando aí. Nós vamos tirar isso a limpo, abrin- maluco. Ildefonso concluiu que tem alguém lá dentro. Daqui do a porta. Qual problema? a pouco eles vão abrir a antiga porta... Arturzinho vacilou um instante: Arturzinho saltou O problema é que tem ai dentro. Temos de impedi-los gritou. Leo, você vai telefo- Um homem, um doente mental. E essa confusão toda vai fa- nar para a Lúcia e para doutor Eduardo. Peça para eles irem zer muito mal a ele. imediatamente Casa E vocês dois, venham Bom... O prefeito, confuso, não sabia que dizer. Seguiram correndo para a Casa Verde que Itaguaí sen- Ildefonso já se aproximava: do uma pequena não ficava muito longe Quando Então, senhor prefeito? Chegou momento tão espe- chegaram, Arturzinho assustou-se: de fato, havia pelo menos rado. Dê a ordem, por favor. umas trezentas pessoas no lugar. Ali estava Ildefonso, com mi- Não façam isso - disse alguém. Todos se voltaram crofone na mão e fones no ouvido, fazendo uma transmissão para O recém-chegado. Era doutor Eduardo, que acabara de direta. Quando avistou Arturzinho, seus olhos brilharam: desembarcar de seu carro. Nesse momento, esbaforida, che- E olhem quem acaba de chegar, senhoras e senhores! jovem itaguaiense que foi O primeiro a descobrir segre- gava também Lúcia. do da Casa Verde! Justiça lhe seja feita, ele foi discreto e não O senhor não é doutor Eduardo? perguntou pre- quis contar nada. Mas para O nosso programa, para "Fofocas feito. O psiquiatra? da Cidade", não existem segredos, senhoras e senhores! Foi Eu mesmo. E como médico estou lhe dando O meu só questão de um ou dois dias. A nossa investigação mostra parecer: não é prudente abrir a Casa, ainda mais na frente que há alguma coisa nessa centenária casa, tão temida pela dessa Será uma violência contra O homem que está cidade. Mas dentro de mais alguns minutos, e com consen- aí dentro. timento do senhor prefeito, esse segredo será revelado! Fale Mas espere aí - disse Ildefonso, irritado com aquela aqui para os nossos ouvintes, Arturzinho! Conte como você intromissão que ameaçava estragar prometido desfecho. desvendou mistério, diga como está se sentindo agora! Esse homem... ele é seu paciente? Mas Arturzinho recusou-se a falar. Em vez disso, e sem- É disse Lúcia. A partir de agora, homem que pre seguido por André Catavento e Pedro Bola, dirigiu-se pa- está aí dentro, meu pai, será tratado pelo doutor Eduardo. Mi- ra a entrada, ainda murada. Dois operários, com ferramentas, nha mãe e eu estamos de acordo nisto. 66 67</p><p>Ildefonso voltou-se para prefeito, que, visivelmente Gorilão não podia acreditar no que estava ouvindo. Quem contrafeito, teve de admitir que doutor tinha razão: im- era aquele que ousava enfrentá-lo? portante era proteger uma pessoa enferma. Diante disto, ra- Sai da frente, cara - rosnou. - Sai da frente ou te des- dialista não teve outra saída: mancho junto com os tijolos. Senhoras e senhores - anunciou ao microfone -, in- Novo momento de tensão, mas aí: felizmente, e por motivos de força maior, teremos de adiar a Olha lá gritou alguém, apontando para um canto sensacional revelação prometida para hoje. da casa. Todos se voltaram para aquele ponto. A reação geral foi de desapontamento. E as pessoas já Ali estava, aquela estranha figura, na sua casaca e sua gra- vata de fita: O recluso da Casa Verde. iam embora, quando de repente alguém Nada disso! Quero ver O que tem aí dentro! Ato contínuo, alguém irrompeu da Ao vê-lo, todo mundo se afastou. Era um rapaz conhecido como Gorilão. O apelido fazia jus ao tipo físico: baixo, atarracado, fortíssimo, era conhecido como um brutamontes sempre pron- to a comprar uma encrenca. Nos fins de não cram poucos os que iam parar no pronto-socorro, a cara amassada pelos murros dele. Andava sempre acompanhado por três ou quatro capangas, tão sinistros quanto ele. Ao vê-los, Ildefonso tremeu. Gorilão arrebatou a marreta de um dos operários da prefeitura: Se vocês não vão botar esses tijolos abaixo, deixem que eu faço. Que história é essa? gritou prefeito, irritado. Largue essa marreta, Gorilão. Largue já isso. Voltou-se, procurando um policial. Não foi preciso: ho- mem já se aproximava, a mão no coldre do revólver. A ten- são era grande. Mas então Arturzinho interveio - e com uma audácia e uma desenvoltura que depois até a ele próprio surpreenderiam. Colocou-se na frente do Gorilão, pediu-lhe calma: Você ouviu que O doutor disse, Gorilão. Há um doen- te aí dentro, e O que você quer fazer pode ser um desastre para ele. 68 69</p><p>Ah. Por isso. Mas eu não estava incomodando nin- guém, estava? Não, papai. - Lágrimas nos olhos, Lúcia sorria. 9 Você não estava incomodando ninguém. Eu não queria incomodar ninguém - continuou Jorge, No qual suposto alienista no mesmo tom baixo, contido. Só queria ficar sozinho. deixa de ser alienado Como alienista. Eu sei. As pessoas, ao redor, ouviam aquele diálogo sem enten- der muito. Gorilão impacientou-se: aquele era mistério da Casa Verde? Aquele homenzinho estranho? Vamos gente, disse aos amigos, estamos perdendo nosso tempo aqui. Ildefonso, porém, resolveu não perder a oportunidade. Adian- Depois do assombro inicial, Lúcia correu para O pai, rapidamente abraçou-o. Para surpresa dela - e de todos que estavam ali, Eu queria ouvir algumas palavras do senhor.. Arturzinho principalmente - homem correspondeu ao abra- indignada, tentou afastar radialista, mas pai a Parecia surpreso, assustado mesmo, com aquela agitação impediu: mas em nada lembrava tipo soturno que aterrorizara os Pode deixar, filha. O homem quer me fazer apenas al- garotos poucas noites antes. Piscando muito (pelo visto, esta- gumas perguntas, que mal tem? Vamos lá, senhor. Como é va desacostumado à luz do dia) mirou, intrigado, a multidão: mesmo seu nome? Diga, filha, que está fazendo toda esta gente aqui? Ildefonso. Lúcia hesitou. Em busca de socorro, olhou doutor Eduar- Ildefonso. Pode perguntar, senhor Ildefonso. do que acenou afirmativamente, como a indicar: diga a ver- O senhor há pouco afirmou, senhor Jorge, que nada há de misterioso no que senhor faz. Mas parece que se- dade. O que Lúcia fez: nhor passou um longo tempo trancado aí na Casa Verde.. Eles vieram saber qual mistério da Casa Verde. Pode-se saber que senhor estava fazendo? É? - Ele franziu a testa. - E qual mistério da Casa Eu? Jorge hesitou. - Eu estava.. como posso di- Verde? pensando.. Você - disse Lúcia. Pensando? Eu? ele, surpreso. - Eu sou mistério da Casa É. Pensando. Verde? E por quê? E... as suas roupas? Porque - Lúcia escolhia cuidadosamente as palavras, Jorge mirou-se: com medo da reação do pai - você ficou tanto tempo lá Que é que têm as minhas roupas? dentro... Parecem um pouco antigas. 70 71</p><p>São antigas. Foram do meu sabe? O alienista A minha família guardava, como recordação. Quando eu fui para a Casa Verde resolvi usá-las. O senhor acha que está mal? Não - Ildefonso, contrafeito. Não está. Mas diga- 10 -me: senhor pretende continuar morando na Casa Verde? Ele ficou um instante em silêncio, pensando: No qual os fantasmas Não - disse por fim. De momento, não. De mo- revivem mento quero voltar para casa, com a minha mulher e a minha filha. E agora, se senhor me dá licença, me retirar... E assim, ouvintes, foi esclarecido mistério da Casa Verde - proclamou Ildefonso. Meio decepcionado, contudo: esperava revelações sensacionais. De qualquer modo, porém, O programa estava no fim, de modo que ele se despediu e foi embora. As pessoas se dispersaram também. Ficaram ali Lúcia Jorge estava curado, milagrosamente curado? Não: essas e pai, Arturzinho e seus amigos, e mais o doutor Eduardo. coisas, como explicou depois doutor Eduardo, não aconte- Quem é esse senhor? perguntou Jorge à filha. cem. Ele uma melhora, verdade que providencial. Deixe que eu me apresente disse médico. - Eu Mas nos dias que se seguiram, voltou a ficar estranho; manti- sou Eduardo, psiquiatra. nha-se quieto num canto, olhar parado. O psiquiatra ia vê-lo Psiquiatra? Jorge sorriu, pela primeira vez. - Uma todos os dias, conversava com ele, receitou-lhe medicamen- espécie de alienista, então... Um pouco diferente. Os tempos mudaram, senhor tos. O tratamento funcionou. Ele podia ir à loja, por exemplo, sabe. Eu gostaria de conversar com senhor... e atender as pessoas. Continuava muito calado, mas ocasio- Conversar comigo? Jorge, surpreso. - Tanta gente nalmente falava sobre período que passara na Casa Verde. querendo conversar comigo... Mas está bem, se senhor quer No começo, dizia, fora horrível, aquela solidão, os ratos cor- conversar comigo, eu estou à sua disposição. rendo pelos corredores. Em seus sonhos, agitados, alienista Voltou-se para a filha, perguntou se podiam ir. aparecia frequentemente, perguntava O que estava fazendo Vamos disse Lúcia. Voltou-se para Arturzinho, mi- ali, mandava-o embora. Mas ele queria ficar. Mais que isso: rou-o bem nos olhos: - Obrigada, Arturzinho. Você e seus queria, ele próprio, tornar-se um alienista. E então a transfor- amigos foram ótimos. mação foi total: E, sob aplauso de André, Pedro Bola e Leo, beijou-o no Eu já não vivia mais no presente, eu estava na rosto. Depois, pegou a mão do pai e foram para casa. daquela época, falava com boticário, com barbeiro... Aos poucos, acostumara-se com a Casa Verde e com a SO- lidão. Era como se ali se sentisse protegido de um mundo que muitas vezes lhe parecera hostil; mais que isso, parecia-lhe 72 73</p><p>que estava aplacando a figura que perseguia em imaginação: A Casa Verde dizia, em altos brados é símbolo alienista. Mas não tinha saudades desse período; ao contrário, de uma época ultrapassada, uma época em que os doentes sentia que agora estava se libertando desse penoso passado. mentais eram tratados como É uma mancha ver- gonhosa no passado de nossa cidade. Não admira que as pes- soas aqui não gostassem de ler O alienista. Machado de Assis Arturzinho e Lúcia começaram a namorar, claro, como nos colocou no mapa do Brasil, sim, mas de que forma? Nossa era de esperar. Ele estava muito feliz. Mas não desistia da ideia cidade passou a ser um símbolo de atraso, e a Casa Verde era do clube, coisa que agora parecia difícil. Afinal a Casa Verde a imagem viva desse atraso. Bota abaixo! não era mais um lugar misterioso; muitas pessoas iam lá, mo- Não faltava quem aplaudisse. Gorilão, por exemplo, es- vidas pela curiosidade. Uma grande discussão passou a ani- tava deliciado: deixa comigo, garantia, eu arraso aquilo tudo em meia hora. mar todas as rodas pequena que com lu- gar? O radialista Ildefonso dedicou uma série de programas No final, porém, ganhou a proposta defendida por um ao assunto. Todos os dias entrevistava dez, doze pessoas. As grupo de professores escolas municipais, comandados opiniões eram as mais diversas, tão diversas que O prefeito pela incansável professora Isaura: a Casa Verde foi dividida em duas partes. Numa delas a antiga sala gradeada dos fun- resolveu realizar um debate público, em que propostas se- dos funciona clube de jovens com que Arturzinho sonha- riam apresentadas. Na noite aprazada, centenas de pessoas va: um lugar para música e dança, com bom isolamento acús- concentraram-se no Clube Comercial: até Gorilão e sua tur- tico, naturalmente. A outra parte da Casa é a sede do Centro ma compareceram. Como disse Gorilão a uma senhora que Cultural Machado de Assis. Uma sala foi transformada em bi- estranhou a presença deles: blioteca, outra em sala de vídeo, numa terceira funciona a Todo O mundo aqui é cidadão. Todo mundo tem di- oficina de artes. Mas a grande atração de Centro Cultural é reito a um palpite. Museu do Alienista, organizado pelo doutor Eduardo, com a A expectativa era grande. As propostas eram muitas e va- ajuda de Arturzinho e seus amigos. Trata-se de uma sala que riadas. Uma delas era, no mínimo, curiosa: Everardo, dono foi preservada como estava, com as grades e tudo. Ali estão de uma lanchonete, queria transformar lugar num grande documentos antigos, encontrados num velho armário. Entre restaurante chamado "O Alienista", que ele administraria. Para eles, uma preciosidade: diário que O doutor Simão Bacamarte isso já tinha até elaborado um modelo de cardápio, que mos- manteve nos dezessete meses em que lá passou, trancado. trava com orgulho. Haveria uma salada chamada "Maluquice" Gravuras e textos, selecionados pelo doutor Eduardo, e um "Ensopadinho Esquizofrênico", sem falar no sorvete mostram como mudou tratamento da doença mental atra- "Delírios e Alucinações". Mas O Everardo tinha pouca chance vés dos tempos. de conseguir apoio: Itaguaí não era terra de gurmês, e os no- mes dos pratos pareciam de mau gosto. Algumas pessoas achavam que O casarão deveria ser sim- Mas esta não é a maior atração da Sala Simão Bacamarte. plesmente demolido esta era a posição do vereador Araújo: A maior atração é outra coisa, uma encenação que se realiza 74 75</p><p>todas as sextas-feitas à noite e que atrai até gente de outros Verde. Comecei a suspeitar que a loucura não era apenas uma estados os ingressos são disputados semanas antes. ilha perdida no oceano da razão, era um continente. Para on- sextas-feiras à noite as pessoas que vão à Casa Verde de eu me voltava, via loucos. E comecei a mandar todos eles têm um encontro marcado com O alienista. Que é Jorge, pai para a Casa Verde. de Lúcia. Aos poucos ele foi se descobrindo como um exce- E monólogo prossegue: Simão Bacamarte enfrentando lente ator amador. E O que ele apresenta, às sextas-feiras à a rebelião da vila, Simão Bacamarte recuperando sua autori- noite, é um monólogo intitulado "O Alienista na Casa Verde", dade, Simão Bacamarte mudando subitamente de ideia e ex- extraído da obra de Machado de Assis. As pessoas vão entran- pulsando todos os internos da Casa Verde, Simão Bacamarte do, e sentam em bancos e no chão, enquanto ele, usando a recolhendo-se ao hospício. E aí vem um momento lírico: O casaca escura, a gravata de fita e O pincenê as roupas que momento em que ele se apaixona pela portuguesa Ana, aque- herdou de sua família circula por ali, consultando livros, la que tomava conta do lugar e do próprio Simão abrindo arquivos. Quando todos estão acomodados, ele se O alienista faz-lhe ardentes declarações de amor. Mas essa volta para público e declara, em tom imperioso: paixão não dura muito: doente, ele vem a morrer. A cena da A ciência é meu emprego único; Itaguai e O meu morte impressionante: deitado num catre, à luz de uma ve- universo. la, O alienista se despede da moça: Começa então a narrar a sua história: os estudos em Dirão de mim, Ana, que eu morri louco como sempre Coimbra e Pádua, a volta ao Brasil, O casamento com dona fui. Não é verdade, Ana. Aqui aprendi muita coisa. Sou agora melhor pessoa do que era quando aqui entrei. Não foram os Evarista: Feia? Sim. Mas tinha condições anatômicas e fisiológi- livros que me ensinaram a viver, Ana, foste tu. cas de primeira ordem: digeria com facilidade, dormia regu- Muitos espectadores até soluçam. Mas então as luzes se acendem: a encenação terminou. Todos aplaudem. Jorge é larmente, tinha visão excelente. Resolvido problema conjugal, a busca do caminho sempre muito cumprimentado. Não falta quem diga que ele faria sucesso no teatro ou na tevê. Modesto, ele diz que não profissional: aspira a tanto: tudo que quer é viver, a cada semana, a tra- Descobri que não havia no reino nenhum especialista jetória do doutor Simão Bacamarte, seu em doença mental. O que me surpreendeu: a saúde da alma Isso me ajuda a entender aquele homem garante. é a ocupação mais digna do médico. A ela resolvi, pois, me Em geral terminam a noite na pizzaria do Marcolino, ba- dedicar. Para isto precisava de um lugar onde pudesse inter- tendo papo. As luzes da Casa de Cultura se apagam e só O seu nar os doentes, a fim de observá-los e estudá-los. E aí surgiu Armindo, O velho zelador, lá fica. Ele e seus fantasmas: garan- a Casa Verde: este local em que agora estais representa a ma- te que muitas vezes já encontrou, no corredor deserto, um ho- terialização dos meus sonhos. Foi inaugurada com imensa mem imponente, usando casaca e gravata de fita. Mas O seu pompa: de todas as vilas e povoações próximas, e até remo- Armindo não se assusta. Até gosta. O que seria de per- tas, e da cidade do Rio de Janeiro acorreu gente para assistir gunta, se não tivesse uma Casa Verde mal-assombrada? às cerimônias, que duraram sete dias. E aí. torrentes de lou- COS. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa 76 77</p>

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