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<p>FUNDAMENTOS PSICANALÍTICOS 133</p><p>Os Mandamentos</p><p>do Superego</p><p>O termo superego foi introduzido por Freud</p><p>(com o nome original, em alemão, de Uber-Ich) e</p><p>aparece pela primeira vez na literatura psicanalíti-</p><p>ca no seu clássico trabalho de 1923, O ego e o id,</p><p>integrando a segunda teoria do aparelho psíquico,</p><p>ou seja, a teoria estrutural. Nessa publicação, Freud</p><p>descreve o superego como uma instância psíquica</p><p>que se separou do ego – encarregou-se das funções</p><p>de um juiz representante da moral, legislador de</p><p>leis e proibidor das transgressões dessas leis – e</p><p>passou à condição de poder dominar ao próprio</p><p>ego que lhe deu origem, como demonstram os es-</p><p>tados de melancolia em que o indivíduo é criticado</p><p>por uma parte, sua, que emite mandamentos que</p><p>provêm desde dentro dele próprio.</p><p>Antes disso, em 1914, no seu célebre Uma in-</p><p>trodução ao narcisismo, Freud empregou a expres-</p><p>são ideal do ego (Ichideal) para designar uma for-</p><p>mação intrapsíquica relativamente autônoma, que</p><p>é uma substituta do narcisismo perdido do sujeito</p><p>e que lhe serve de referência para apreciar as reali-</p><p>zações de seus próprios ideais. Em 1921, no traba-</p><p>lho Psicologia das massas e análise do ego, Freud</p><p>voltou a empregar o termo “ideal do ego” como</p><p>sendo uma formação nitidamente separada do ego,</p><p>o que lhe permitiu explicar a “submissão dos gru-</p><p>pos ao líder” – como pode ser o comandante de</p><p>uma tropa militar – ou Jesus Cristo para os religio-</p><p>sos, os quais são idealizados coletivamente, e em</p><p>quem os indivíduos depositam os seus próprios</p><p>“ideais de ego”.</p><p>Nesse mesmo trabalho de 1914, Freud também</p><p>utiliza o termo ego ideal (Idealich), com o qual ele</p><p>designava os mesmos conceitos contidos em “ideal</p><p>do ego”.</p><p>Na verdade, ao longo da obra de Freud, os alu-</p><p>didos três termos – superego, ideal de ego e ego</p><p>ideal – aparecem virtualmente como sinônimos,</p><p>sendo que as conceituações a eles atribuídas nem</p><p>sempre são uniformes, de modo que tudo isso co-</p><p>mumente contribui para uma, nada incomum, con-</p><p>fusão semântica, que fica muito mais complicada</p><p>pelo fato de que importantes autores pósteros a</p><p>Freud, utilizando essa mesma terminologia, fize-</p><p>ram distintas concepções e ampliações de signifi-</p><p>cados. Por essas razões, cabe tentar fazer uma ne-</p><p>cessária discriminação conceitual entre os três ter-</p><p>mos referidos e mais alguns outros correlatos, além</p><p>de igualmente tentar discriminar as fontes oriun-</p><p>das de distintos autores.</p><p>Como marco referencial neste artigo, vou se-</p><p>guir aqueles autores que convencionam chamar</p><p>“superego” a uma estrutura do conjunto, que com-</p><p>preende diversas subestruturas, como são, entre</p><p>outras, o “ego ideal” e o “ideal do ego”, além da-</p><p>quelas outras que lhe são próximas, comumente</p><p>conhecidas como “ego auxiliar”, “alter ego” e ou-</p><p>tras afins, que guardam cada um deles, significa-</p><p>dos específicos.</p><p>Destarte, apresenta-se a seguir um esboço para</p><p>definir, atualizadamente, cada um desses termos,</p><p>de início, de forma genérica e unicamente para es-</p><p>tabelecer um ponto de partida semântico e concei-</p><p>tual, sendo que no curso deste capítulo eles serão</p><p>especificamente melhor explicitados.</p><p>• Superego. Alude a uma estrutura composta</p><p>por objetos internalizados, aos quais geral-</p><p>mente atribui-se um caráter persecutório, de</p><p>intensidade maior ou menor e que, por meio</p><p>de mandamentos, opõe-se às pulsões do id,</p><p>faz ameaças e um boicote às funções do ego,</p><p>distorce a realidade exterior e, ao mesmo</p><p>tempo, submete-se a ela, cumprindo as de-</p><p>terminações sobre o que o sujeito deve e o</p><p>que não deve fazer, o que sempre provoca</p><p>nele um estado mental de culpas, acompa-</p><p>nhado de medo e atitude defensiva.</p><p>• Ego auxiliar. Trata-se de uma expressão que</p><p>não é muito empregada, porém ela é muito</p><p>útil na medida em que nos ajuda a discrimi-</p><p>nar que, nem sempre, os objetos superegói-</p><p>cos são introjetados de forma tirânica e amea-</p><p>çadora. Pelo contrário, quando os objetos</p><p>internalizados se organizam como aliados do</p><p>ego, no sentido de auxiliar a estabelecer os</p><p>necessários limites e a imposição de valores</p><p>morais e éticos, cabe considerar a denomi-</p><p>nação de “ego auxiliar” como equivalente ao</p><p>que seria um “superego amistoso e benéfi-</p><p>co”.</p><p>C A P Í T U L O</p><p>11</p><p>134 DAVID E. ZIMERMAN</p><p>• Ego ideal. Esta subestrutura, aparentada com</p><p>o superego, é considerada como uma her-</p><p>deira direta do narcisismo original, ou seja,</p><p>os mandamentos internos obrigam o sujeito</p><p>a corresponder, na vida real, às demandas</p><p>provindas de seus próprios ideais, geralmente</p><p>impregnados de ilusões narcisistas inalcan-</p><p>çáveis e, por isso mesmo, determinam no in-</p><p>divíduo um estado mental que se caracteriza</p><p>por uma facilidade para sentir depressão e</p><p>humilhação diante dos inevitáveis fracassos</p><p>daquelas ilusões.</p><p>• Ideal do ego. Também esta subestrutura está</p><p>diretamente conectada com o conceito da</p><p>estrutura do superego, sendo que ela resulta</p><p>dos ideais do próprio “ego ideal” da crian-</p><p>ça, que são projetados e altamente idealiza-</p><p>dos nos pais e que se somam aos originais</p><p>mandamentos provindos do “ego ideal” de</p><p>cada um desses pais. Dessa forma, o sujeito</p><p>fica submetido às aspirações dos outros so-</p><p>bre o que ele deve ser e ter, e daí resulta que</p><p>o seu estado mental prevalente é o de um</p><p>permanente sobressalto e o fácil acometi-</p><p>mento de sentimento de vergonha quando ele</p><p>não consegue corresponder às expectativas</p><p>dos outros, que passam a ser também as suas.</p><p>• Alter ego. Esse termo já esteve muito em</p><p>voga no jargão psicanalítico, depois prati-</p><p>camente desapareceu e, na atualidade, volta</p><p>a comparecer com alguma regularidade na</p><p>literatura da psicanálise, com o significado</p><p>da existência de um duplo do sujeito. Ou seja,</p><p>por meio de identificações projetivas maci-</p><p>ças dos seus superegóicos objetos internos</p><p>em alguém, o sujeito constrói uma duplica-</p><p>ção dele, uma espécie de um “gêmeo imagi-</p><p>nário”. Vale acrescentar que o fenômeno do</p><p>“duplo”, especialmente a partir de Lacan, que</p><p>descreveu a própria imagem da criança, vis-</p><p>ta por ela mesma no espelho, está recebendo</p><p>uma significativa importância nos textos de</p><p>muitos autores contemporâneos. Este tema</p><p>foi inicialmente estudado por O. Rank (O</p><p>duplo, 1914) e por Freud (O sobrenatural,</p><p>também traduzido por O sinistro –, 1919, v.</p><p>17).</p><p>• Contra-ego. Peço que os leitores relevem a</p><p>minha, talvez excessiva, pretensão de pro-</p><p>por este termo que não existe em psicanáli-</p><p>se, porém que me parece adequado para sig-</p><p>nificar a existência de uma organização pa-</p><p>tológica (termo de J. Steiner, 1981), a qual,</p><p>desde dentro do próprio ego, qual uma</p><p>gangue narcisista (termo de Rosenfeld,</p><p>1971) sabota o crescimento do ego sadio.</p><p>Esse aspecto referente a tal organização pa-</p><p>tológica, que faz uma inconsciente sabota-</p><p>gem e boicote contra o crescimento das par-</p><p>tes sadias do sujeito, vem ganhando uma</p><p>crescente importância na psicanálise.</p><p>• Supra-ego. Proponho esse termo (o prefixo</p><p>“supra” significa “acima de tudo”) para de-</p><p>signar a conceituação de Bion relativa à exis-</p><p>tência de um super-superego, que alude a</p><p>uma subestrutura constante da “parte psicó-</p><p>tica da personalidade”, pela qual o sujeito</p><p>cria uma moral própria e, onipotentemente,</p><p>pretende impô-la aos demais.</p><p>ORIGEM E FUNÇÕES DO SUPEREGO</p><p>Em Freud</p><p>Origem. No que se refere à gênese do supere-</p><p>go, Freud correlacionou a sua origem à dissolução</p><p>do complexo de Édipo, o que ficou consubstanciado</p><p>na sua famosa frase: o superego é o herdeiro direto</p><p>do complexo de Édipo. Segundo Freud, isso acon-</p><p>tece porque quando a criança supera, com mais ou</p><p>com menos êxito, a sua conflitiva edípica, ele en-</p><p>contra uma solução para as angústias acompanhan-</p><p>tes desse conflito, pela interiorização dos seus pais</p><p>dentro de si. Isto é, a criança identifica-se com eles</p><p>e, assim, internaliza as interdições deles. No en-</p><p>tanto, essa identificação não é completa, porquan-</p><p>to a criança pode identificar-se com certos aspec-</p><p>tos dos pais e não com outros, de acordo com esse</p><p>mandamento interno: “deves ser assim...(como teu</p><p>pai)”, mas também abarca a proibição “não deves</p><p>ser assim... (como o teu pai; não podes fazer tudo o</p><p>que ele faz; muitas coisas são prerrogativas exclu-</p><p>sivas dele; ai de ti se o desobedeceres...”.</p><p>Em relação a esse aspecto referente às identifi-</p><p>cações que formam o superego, Freud acentuou a</p><p>diferença entre a evolução no menino e na menina.</p><p>No rapaz, o complexo edípico defronta-se inevita-</p><p>velmente com as ameaças de castração e, diz Freud,</p><p>um “superego rigoroso é o seu sucessor”, enquan-</p><p>to na menina, pelo contrário, a angústia de castra-</p><p>ção diante da mãe é que a empurra para o pai, as-</p><p>FUNDAMENTOS PSICANALÍTICOS 135</p><p>sim forjando o complexo de Édipo e o conseqüen-</p><p>te superego. Ademais, forma-se um aparente para-</p><p>doxo, segundo Freud: o superego constitui-se como</p><p>herdeiro do complexo de Édipo, ao mesmo tempo</p><p>em que ele contribui para a dissolução desse mes-</p><p>mo complexo por meio de interdições e ameaças.</p><p>Em seus últimos trabalhos, Freud (1933) con-</p><p>siderou que o superego surge como uma estrutura</p><p>que engloba três funções: “auto-observação”,</p><p>“consciência moral” (responsável pela formação de</p><p>culpas) e a de “ideal” (responsável pelo “sentimento</p><p>de inferioridade”), quando os ideais não são atin-</p><p>gidos.</p><p>Conquanto o início da formação do superego,</p><p>segundo Freud, seja fundamentalmente devido à</p><p>renúncia aos desejos edipianos amorosos e hostis,</p><p>ele também é reforçado por mais dois fatores: 1) A</p><p>severidade do superego, também provinda da pró-</p><p>pria hostilidade da criança voltada contra si mes-</p><p>ma (e, por isso, obriga o psiquismo a se proteger</p><p>com uma instância fiscalizadora). 2) As posterio-</p><p>res influências e exigências sociais, morais, educa-</p><p>cionais e culturais.</p><p>Nessa linha de pensamento muitos outros auto-</p><p>res aventaram a hipótese de que o começo da exis-</p><p>tência do superego, pela internalização das inter-</p><p>dições, precede o declínio do complexo de Édipo.</p><p>Serve como exemplo a postulação de Abraham</p><p>(1925) acerca da “moral dos esfíncteres”, no qual</p><p>ele enfatiza que os preceitos da educação esfincte-</p><p>riana são adotados desde muito antes da conflitiva</p><p>edípica, tal como era concebida na época por Freud.</p><p>Uma outra contribuição importante por parte</p><p>da escola freudiana consiste na concepção de Anna</p><p>Freud (1936) sobre o mecanismo de “identificação</p><p>com o agressor”, que de certa forma complementa</p><p>uma afirmativa de Freud de que “o superego da</p><p>criança não se forma à imagem dos pais, mas sim</p><p>à imagem do próprio superego desses pais, de</p><p>modo que essa criança torna-se o representante</p><p>da tradição, de todos os juízos de valor que sub-</p><p>sistem, assim, através das gerações” (1933).</p><p>Uma crítica que costuma ser feita à forma como</p><p>Freud concebeu e divulgou a noção de superego</p><p>consiste em que ele enfatizou o termo “superego”</p><p>quase que exclusivamente com um significado</p><p>persecutório e sádico, sem levar muito em conta a</p><p>existência de outros aspectos positivos, protetores</p><p>e estruturantes para o desenvolvimento mental do</p><p>indivíduo. Aliás, uma das poucas vezes em que</p><p>Freud se refere ao superego com características po-</p><p>sitivas e bondosas aparece em seu trabalho O hu-</p><p>mor.</p><p>As mencionadas críticas feitas a Freud reme-</p><p>tem-nos a uma velha questão: quando um processo</p><p>de introjeção contribui para a formação do ego (no</p><p>caso, do “ego auxiliar”) e quando ele contribui para</p><p>a formação do superego? A resposta é que o resul-</p><p>tado será decidido pela qualidade emocional com</p><p>que a criança realiza as introjeções. Assim, por</p><p>exemplo, se durante o ato de introjeção o principal</p><p>interesse da criança estiver centralizado na inteli-</p><p>gência do pai (função intelectual do ego) ou na</p><p>habilidade manual da mãe para a manipulação de</p><p>certas coisas (função motora), a parte introjetada</p><p>ficará incorporada ao ego. Entretanto, se a criança</p><p>introjetar o seu objeto parental na vigência de um</p><p>ambivalente conflito de amor versus ódio, e se o</p><p>interesse do filho estiver mais voltado para os as-</p><p>pectos éticos do objeto, então o objeto introjetado</p><p>passará a fazer parte do superego, sendo que, no</p><p>caso em que a introjeção fizer-se com a predomi-</p><p>nância do ódio, a probabilidade é de que o supere-</p><p>go adquira características persecutórias. A propó-</p><p>sito, cabe lembrar que no quinto capítulo de O ego</p><p>e o id (1923, vol. 19) Freud estuda detidamente a</p><p>importância dos “sentimentos de culpa” na teoria,</p><p>psicopatologia e técnica da psicanálise, como, por</p><p>exemplo, na relação direta que ele estabelece entre</p><p>as culpas determinadas pelo superego e o impor-</p><p>tantíssimo problema do eventual surgimento da te-</p><p>mível “reação terapêutica negativa”.</p><p>M. Klein</p><p>Fundamentada em suas observações nas análi-</p><p>ses com crianças, algumas de tenra idade, M. Klein</p><p>postulou que a origem da formação do superego</p><p>era muito mais precoce do que a que foi concebida</p><p>por Freud, e que essa origem se baseava na intro-</p><p>jeção dos objetos parciais, o seio da mãe, ao qual o</p><p>bebê atribui poderes extremos de bondade e de mal-</p><p>dade, de proteção e de perseguição, de fonte de</p><p>prazer e de dor. Para acompanhar Freud (até por</p><p>razões políticas), M. Klein também postulou que o</p><p>superego se formaria com a dissolução do comple-</p><p>xo edípico e a respectiva internalização dos pais –</p><p>carregada com as fantasias de perigo de vir a per-</p><p>der esses objetos parentais –, porém ela conside-</p><p>rou que o complexo de Édipo seria muito mais pri-</p><p>mitivo que o sustentado por Freud, situando-o por</p><p>volta do sexto mês da vida do bebê.</p><p>Quando começou a analisar crianças pequenas,</p><p>M. Klein já havia assinalado que um dos fenôme-</p><p>nos mais inesperados que ela encontrou foi um su-</p><p>perego muito precoce e cruel, e, partindo daí, ela</p><p>136 DAVID E. ZIMERMAN</p><p>descreveu os arcaicos “precursores do superego”,</p><p>anteriores ao Édipo, considerando que a severida-</p><p>de do superego decorria da “fase máxima” do sa-</p><p>dismo da criança. Esse sadismo viria acompanha-</p><p>do de sentimentos de culpa decorrentes das fanta-</p><p>sias orais-sádicas de devorar a mãe, sobretudo o</p><p>seu interior, cheio de “tesouros”, e os seios, cheios</p><p>de um leite nutridor que a criança inveja, e quer,</p><p>todo ele, exclusivamente para si. Ao serem inter-</p><p>nalizadas, essas imagos da mãe atacada, tornam-se</p><p>fortemente vingativas, cruéis, ameaçando a crian-</p><p>ça de ela ser destruída, envenenada, devorada...</p><p>Todos conhecemos bem a extraordinária impor-</p><p>tância que a escola kleiniana sempre atribuiu aos</p><p>objetos superegóicos persecutórios, os quais per-</p><p>sistem no paciente enquanto ele estiver funcionan-</p><p>do na vigência da “posição esquizoparanóide”; daí</p><p>que uma análise exitosa consistiria justamente em</p><p>conseguir levar o paciente a transitar para a “posi-</p><p>ção depressiva”, o que é possibilitado por meio do</p><p>acesso aos aspectos do analisando relativo ao seu</p><p>ódio, com as conseqüentes culpas (e derivados,</p><p>como medo, etc.), seguidas, na instalação da posi-</p><p>ção depressiva, de uma responsabilização por es-</p><p>sas culpas e da obtenção de uma capacidade para</p><p>fazer reparações.</p><p>Bion</p><p>Embora conservando os princípios essenciais</p><p>de Freud e M. Klein acerca do superego, Bion</p><p>(1962) distinguiu-se, em parte, deles ao evoluir para</p><p>uma abordagem original, que está contida no que</p><p>ele prefere denominar como “super”-ego (às ve-</p><p>zes, aparece com a grafia de super-superego, sen-</p><p>do que, creio, talvez o nome mais apropriado fosse</p><p>o de supra-ego). Esse “superego” faz parte do que</p><p>Bion chama de “parte psicótica da personalidade”,</p><p>de modo que, indo além das proibições e das no-</p><p>ções do certo e errado, do bem e do mal, aprova-</p><p>ção ou condenação, etc., que são inerentes ao con-</p><p>ceito clássico de superego, essa concepção de Bion</p><p>consiste em uma “forma psicótica de pensar”, a qual</p><p>se opõe a todo desenvolvimento em bases científi-</p><p>cas e às leis inevitáveis da natureza humana, e, as-</p><p>sim, ele rege-se por uma moralidade – “sem mo-</p><p>ral” –, criada pelo próprio sujeito, que ele insiste</p><p>em impor aos outros e, igualmente, quer reger o</p><p>mundo com normas e valores próprios que são fir-</p><p>mados a partir de uma afirmação de sua superiori-</p><p>dade destrutiva.</p><p>Assim, o “superego”, tal como foi concebido</p><p>por Bion, mostra-se como um objeto superior, ofus-</p><p>ca as funções do seu ego, afirma sua superioridade</p><p>pelo denegrimento dos outros, achando falhas em</p><p>tudo que não coincidir com o que ele crê, opondo-</p><p>se tenazmente a qualquer</p><p>aprendizado com a expe-</p><p>riência e devotando um ódio a toda verdade dife-</p><p>rente da dele, impedindo, logo, qualquer tendência</p><p>a uma evolução psíquica, como se essa represen-</p><p>tasse um inimigo que deve ser eliminado. Resu-</p><p>mindo, o sujeito com essas características psicóticas</p><p>do “superego”, crente de que ele tudo sabe, pode,</p><p>controla e condena, substitui a capacidade de pen-</p><p>sar pela onipotência, “o aprendizado pela experi-</p><p>ência” cede lugar à onisciência, o reconhecimento</p><p>da fragilidade e dependência é substituído pela</p><p>prepotência, a capacidade de discriminação entre</p><p>o verdadeiro e o falso fica borrada por um radica-</p><p>lismo arrogante, e assim por diante.</p><p>Da mesma forma como aparece em Freud e M.</p><p>Klein, também o “superego” de Bion está impreg-</p><p>nado de sentimentos de culpa. No entanto, o sujei-</p><p>to não toma conhecimento deles, mercê de um uso</p><p>excessivo – não só na quantidade, mas também na</p><p>qualidade de onipotência mágica – de identifica-</p><p>ções projetivas, as quais são “evacuadas” preferen-</p><p>temente sob a forma de actings, e a de enfiar-se</p><p>dentro da mente de um outro – como pode ser a do</p><p>seu analista – levando este a sentir-se culpado.</p><p>RESUMO DAS DIVERSAS VERTENTES</p><p>Como vemos, são várias as vertentes concei-</p><p>tuais que se complementam para o entendimento</p><p>da formação da instância psíquica “superego”, sen-</p><p>do que uma síntese delas permite destacar os se-</p><p>guintes fatores:</p><p>• Uma herança filogenética (lembra a noção</p><p>de Jung de “arquétipos”). Trata-se de um</p><p>conceito muito discutível na psicanálise.</p><p>• Como herdeiro direto do complexo de Édipo</p><p>(conforme Freud alude à forma de como fo-</p><p>ram introjetadas as figuras parentais – mais</p><p>exatamente, o respectivo superego próprio</p><p>de cada um dos pais envolvidos na conflitiva</p><p>edípica).</p><p>• Pulsão de morte agindo desde o nascimen-</p><p>to (assim obrigando a pulsão de vida à for-</p><p>mação de uma instância psíquica proibitiva,</p><p>que consiga conter as fantasias destrutivas e</p><p>terroríficas, diminua a ansiedade de aniqui-</p><p>lamento e preserve a vida, embora, secun-</p><p>dariamente, tais precursores do superego tor-</p><p>FUNDAMENTOS PSICANALÍTICOS 137</p><p>nem-se ameaçadores contra o ego e os obje-</p><p>tos internos).</p><p>• Projeção das pulsões agressivas, seguida da</p><p>reintrojeção das mesmas, constituindo os ob-</p><p>jetos persecutórios e/ou idealizados que ha-</p><p>bitam o superego.</p><p>• Introjeção do discurso superegóico dos pais.</p><p>• Introjeção do código de valores sociocultu-</p><p>rais vigentes.</p><p>• Assunção de papéis designados e que de-</p><p>vem ser compulsivamente cumpridos (por</p><p>exemplo, um superego tirânico pode impor</p><p>ao ego do sujeito um mandamento para que</p><p>ele assuma na vida um papel de vítima, eter-</p><p>no fracassado, bode expiatório, etc.</p><p>• Assunção de “culpas emprestadas” (Freud,</p><p>1923, assinalou essa vertente que consiste</p><p>no fato de os pais atribuirem à criança uma</p><p>culpa, indevida, que deveria ser deles, ou a</p><p>de algum irmão, etc.).</p><p>• Introjeção de figuras mortas, que em situa-</p><p>ções melancólicas podem constituir-se como</p><p>objetos “cujas sombras recaem sobre o ego”</p><p>(Freud, 1917), onde elas são configuradas</p><p>como vítimas, exigindo reparos, sob amea-</p><p>ças de vingança e muitas vezes obrigando o</p><p>sujeito a seguir o mesmo destino funesto</p><p>deles.</p><p>• Uma idealização da pulsão de morte pode</p><p>determinar um superego perverso, que faci-</p><p>lita ações heterodestrutivas, ao mesmo tem-</p><p>po em que emana mandamentos autodestru-</p><p>tivos.</p><p>• Um maciço ataque às funções egóicas de</p><p>perceber, pensar, discriminar e conhecer as</p><p>verdades penosas, pode determinar a cons-</p><p>trução de um “superego”, nos termos des-</p><p>critos por Bion.</p><p>NA PRÁTICA ANALÍTICA</p><p>É evidente que as funções do ego ideal, do ideal</p><p>do ego, do contra-ego e do superego propriamente</p><p>dito não são estanques; pelo contrário, eles imbri-</p><p>cam-se entre si, aparecem confundidos na literatu-</p><p>ra psicanalítica e compõem a totalidade do supere-</p><p>go. Não obstante isso, incluo-me entre aqueles que</p><p>julgam ser de grande utilidade na prática clínica</p><p>discriminar cada um deles separadamente, tal como</p><p>aparecem nas distintas situações analíticas de cada</p><p>analisando em particular. Assim:</p><p>1. As clássicas manifestações da existência de</p><p>um superego tirânico aparecem na situa-</p><p>ção analítica sob a forma de uma facilida-</p><p>de do paciente para assumir culpas (fre-</p><p>qüentemente indevidas), atos masoquistas,</p><p>boicotes e sabotagens contra qualquer pos-</p><p>sibilidade de um crescimento seu que seja</p><p>expressivo; cavilações obsessivas e estéreis</p><p>ações compulsivas; quadros melancólicos;</p><p>dificuldades sexuais e proibição de obter</p><p>uma completude orgástica e, assim por</p><p>diante, com outras manifestações equiva-</p><p>lentes. O superego, inconscientemente, é</p><p>conjugado no pretérito perfeito: “Vou ser</p><p>punido porque transgredi tal norma ou man-</p><p>damento; portanto, eu fui; logo, sou, “mau”.</p><p>Ninguém contesta a importância de o ana-</p><p>lista trabalhar com os aspectos tirânicos,</p><p>proibitivos, punitivos e muitas vezes cruéis</p><p>do superego de certos pacientes. No entan-</p><p>to, isso não é feito unicamente por meio de</p><p>interpretações transferenciais adequadas,</p><p>porquanto essas pouco adiantarão, se o pró-</p><p>prio analista mantiver uma postura exces-</p><p>sivamente superegóica no curso da análi-</p><p>se.</p><p>2. A presença de um ego ideal pode ser cla-</p><p>ramente comprovada na situação analítica</p><p>com pacientes portadores de uma forte</p><p>estruturação narcisística, de acordo com a</p><p>conceituação de que “o ego ideal é o her-</p><p>deiro do narcisismo primário”. Dessa for-</p><p>ma, o ego ideal funciona predominantemen-</p><p>te no plano do imaginário, não há uma di-</p><p>mensão sólida de futuro, nem planos ou</p><p>projetos estáveis e, pelo contrário, o ego</p><p>ideal aparece conjugado no presente do</p><p>indicativo (eu sou!), alicerçado na fantasia</p><p>onipotente, ilusória, própria da persistên-</p><p>cia da primitiva fusão diádica com a mãe,</p><p>na qual “ter” é igual a “ser” e que, por isso,</p><p>o indivíduo sempre espera o máximo de si</p><p>mesmo.</p><p>Como a maioria desses ideais é inalcançável, o</p><p>sujeito vive num permanente estado de frustração,</p><p>maquinando novos planos e saídas por meio de</p><p>defesas maníacas. As identificações desses pa-</p><p>138 DAVID E. ZIMERMAN</p><p>cientes aparecem como primárias, do tipo incons-</p><p>tante, adesivo ou imitativo e o sentimento de iden-</p><p>tidade resultante é o de “falsidade”. Para manter a</p><p>integração do self, esse paciente necessita recorrer</p><p>a defesas de forte negação, como as “renegações”,</p><p>mais próprias dos estados narcisistas parciais –</p><p>como nas perversões – ou o recurso da “forclusão”,</p><p>que é mais própria dos estados narcisistas totais,</p><p>caso das psicoses.</p><p>O analista deve estar atento ao fato de que a</p><p>forma de pensar desses pacientes obedece a uma</p><p>lógica binária, ou seja, para eles não existe um</p><p>meio-termo: ou o sujeito julga-se o melhor ou o</p><p>pior, etc. Embora eles sejam extremamente sensí-</p><p>veis às frustrações – que vivenciam com o senti-</p><p>mento predominante de raiva e humilhação – é de-</p><p>ver do terapeuta promover uma gradativa “desilu-</p><p>são das ilusões”, de sorte a aproximar cada vez mais</p><p>o “ego ideal” do “ego real”.</p><p>3. O ideal do ego, por sua vez, pode ser con-</p><p>siderado “o herdeiro do ego ideal”, o qual,</p><p>projetado nos pais e acrescido das aspira-</p><p>ções e expectativas próprias desses últimos,</p><p>costuma determinar no sujeito um constante</p><p>sobressalto diante do terror de não cum-</p><p>prir com os mandamentos idealizados,</p><p>oriundos dos pais – e nele depositados des-</p><p>de a infância – e assim vir a perder o amor</p><p>das pessoas significativas. Essa situação</p><p>psíquica pode propiciar a formação de um</p><p>falso self, pela razão de que o sujeito está,</p><p>acima de tudo, preocupado com a necessi-</p><p>dade de corresponder, ou aparentar, aquilo</p><p>que os outros esperam dele.</p><p>Dentro desse paciente, o ideal do ego é conju-</p><p>gado no futuro e condicional (“eu deverei ser as-</p><p>sim, senão...”), sendo que isso representa tanto uma</p><p>possibilidade de uma desvantagem – quando, en-</p><p>tão, pode condicionar a construção de uma perso-</p><p>nalidade tímida, submissa, fóbica ou um falso self</p><p>–, como também pode ser muito vantajoso, quan-</p><p>do então funciona como um pólo de ânimo e vitali-</p><p>dade para atingir metas e ambições possíveis de</p><p>serem alcançadas (com uma posição tipo “ainda</p><p>não sou, mas posso vir a ser...”).</p><p>As identificações,</p><p>ao contrário do que se passa no “ego ideal”, já são</p><p>secundárias e triádicas, porém ainda não se consti-</p><p>tuíram com uma constância objetal, nem com uma</p><p>coesão do self e um sentimento de identidade bem</p><p>definido.</p><p>Nestes pacientes, o sentimento de vergonha cos-</p><p>tuma prevalecer sobre o de culpa, sendo que a prin-</p><p>cipal função do analista é ajudar o paciente a dis-</p><p>criminar entre duas possibilidades: a) a de que se</p><p>trate de metas impossíveis de atingir por serem por</p><p>demais grandiosas, ou porque elas representam tão</p><p>somente as expectativas dos pais internalizados,</p><p>mas não as dele mesmo; b) são ambições que, ape-</p><p>sar da possibilidade dessas serem provindas dos</p><p>pais, o analisando possui condições para alcançá-</p><p>las, mercê de seus dotes potenciais, de uma boa</p><p>identificação com os seus pais e uma satisfatória</p><p>adaptação ao princípio da realidade. No primeiro</p><p>caso, a tarefa do analista consiste em facilitar a</p><p>“desidentificação” do paciente com essas caracte-</p><p>rísticas expectantes dos pais (que estão introjetadas</p><p>como sendo dele próprio), de modo a que ele al-</p><p>cance o insight, de que, para “dizer sim ao seu ego,</p><p>ele deve reunir condições para dizer não ao seu</p><p>ideal do ego”. No segundo caso, conservando o</p><p>cuidado para que o próprio analista não funcione</p><p>como um “ideal de ego” (o que não é nada raro de</p><p>acontecer), é importante que ele reconheça e alie-</p><p>se às capacidades latentes desse seu paciente ambi-</p><p>cioso.</p><p>4. É importante que se observe a relação que</p><p>existe no paciente entre o seu “ego ideal”,</p><p>o “ideal de ego” e o “ego real”. Assim, na-</p><p>quelas costumeiras depressões que se su-</p><p>cedem a conquistas obtidas, é possível per-</p><p>ceber que na euforia inicial da conquista</p><p>prevalece o ego ideal, e o ideal de ego fica</p><p>exacerbado e excitado para novas conquis-</p><p>tas futuras; no entanto, à medida que vai</p><p>havendo uma distância entre o que foi</p><p>exageradamente idealizado e o que é real</p><p>(por exemplo, a aprovação para ser admi-</p><p>tido em uma determinada instituição é mo-</p><p>tivo de intenso júbilo, o qual perdura so-</p><p>mente até que o sujeito perceba que inú-</p><p>meras outras pessoas também foram apro-</p><p>vadas e admitidas), sobrevém uma depres-</p><p>são do tipo narcisista, porquanto toda a</p><p>distância que separa o ego ideal do ego</p><p>real é vivida como um colapso narcisista.</p><p>Um outro aspecto clínico comum consiste</p><p>em que muitas depressões que surgem na</p><p>velhice podem ser entendidas pela razão</p><p>de que começa a falta de um “projeto de</p><p>ideais” a serem alcançados, e isso dá lugar</p><p>a um conformismo depressivo. Também é</p><p>interessante consignar que no estado de</p><p>“paixão”, no seu grau máximo, o ego ideal,</p><p>FUNDAMENTOS PSICANALÍTICOS 139</p><p>o ideal do ego e o ego real estão confundi-</p><p>dos. Há a sensação de uma absoluta com-</p><p>pletude, o apaixonado sente-se iluminado</p><p>pelo “brilho do objeto que cai sobre o seu</p><p>ego”, de sorte que a sua lógica gira em tor-</p><p>no da órbita de que “não existe nada que o</p><p>futuro possa me dar, que o presente já não</p><p>esteja me dando” (Hornstein, 1983) e as-</p><p>sim por diante, existem muitas outras situa-</p><p>ções equivalentes.</p><p>5. A presença de um contra-ego no psiquismo</p><p>do paciente adquire uma importância espe-</p><p>cialíssima na psicanálise atual, porquanto</p><p>ela esclarece-nos uma das razões porque</p><p>muitas análises fracassam, apesar de que o</p><p>psicanalista tenha trabalhado adequada-</p><p>mente bem. Essa organização patológica</p><p>que sabota o crescimento de uma outra par-</p><p>te do próprio paciente pode originar-se de</p><p>fontes distintas, sendo que a mais freqüen-</p><p>temente descrita é aquela que resulta da</p><p>presença no self de uma gangue narcisista</p><p>(conceito de Rosenfeld, 1971). Nesse caso,</p><p>determinados objetos reunidos intrapsi-</p><p>quicamente e que são radicalmente contra</p><p>a possibilidade do reconhecimento da fra-</p><p>gilidade do sujeito e da sua dependência</p><p>dos outros (no fundo, porque estão escal-</p><p>dados com primitivas e humilhatórias ex-</p><p>periências emocionais frustrantes e dolo-</p><p>rosas), fazem de tudo para preservar uma</p><p>“posição narcisista” (capítulo 13), desde o</p><p>suborno, com a promessa de uma vida me-</p><p>lhor que essa posição ilusória permite, até</p><p>ameaças de uma debacle total, caso “ele der</p><p>ouvidos ao seu terapeuta”.</p><p>Uma outra possibilidade de formação de um</p><p>“contra-ego” consiste naquela introjeção, antes alu-</p><p>dida, da “sombra de objetos mortos que caem so-</p><p>bre o ego”, desde onde eles forçam aquilo que eu</p><p>proponho chamar de identificação com a vítima,</p><p>tendo em vista que esses objetos se configuram</p><p>como tendo sido vítimas de presumíveis ataques</p><p>que esse nosso paciente teria feito contra eles. Por</p><p>meio desse argumento – e funcionando como um</p><p>contra-ego – esses objetos não só proíbem a obten-</p><p>ção de êxitos, lazeres e satisfações (“como é que tu</p><p>podes estar feliz, se eu estou penando no escuro,</p><p>debaixo da terra...?”), como ainda obrigam o pa-</p><p>ciente a, forçosamente, ter que seguir a mesma saga</p><p>de infortúnios de sua vida.</p><p>Classicamente, os casos de surgimento no cur-</p><p>so da análise de graves impasses psicanalíticos, ou</p><p>pior, da ocorrência de uma reação terapêutica ne-</p><p>gativa, muitas vezes irreversível, são entendidas</p><p>(logo, manejadas) por meio de três vértices: 1) A</p><p>de que um êxito analítico evoque um – proibido –</p><p>triunfo edípico, com as respectivas culpas e medos</p><p>(conforme Freud). 2) Como um ataque invejoso que</p><p>o paciente desfere contra o analista, porque este</p><p>está sendo bem-sucedido “às suas custas” (M.</p><p>Klein). 3) Como uma forma extrema de evitar en-</p><p>trar em contato com os objetos mortos e moribun-</p><p>dos que jazem na, subjacente, depressão do pa-</p><p>ciente (J. Rivière).</p><p>Penso que podemos acrescentar mais uma ver-</p><p>tente: a que é devido à ação do contra-ego, não só</p><p>pelo aspecto antes assinalado, de obrigá-lo a se-</p><p>guir um destino funesto, como também quando este</p><p>impõe um determinado papel a ser cumprido por</p><p>toda vida. Pode servir como exemplo disso, a fre-</p><p>qüente situação de uma mãe simbiótica que, sob</p><p>forma de doutrinação e chantagem afetiva, impôs</p><p>ao seu filho – nosso paciente de hoje – o papel de</p><p>ele manter-se infantilizado para que nunca possa</p><p>prescindir dela, e ser o seu companheiro eterno;</p><p>neste caso, todo êxito de uma mudança analítica</p><p>que implicaria na aquisição de uma emancipação,</p><p>pode esbarrar nesse contra-ego que o acusaria de</p><p>um crime de alta infidelidade, traição e ingratidão.</p><p>Portanto, ao lado de o terapeuta trabalhar, como</p><p>normalmente faz, com todos os importantes aspec-</p><p>tos superegóicos que surgem na análise sob varia-</p><p>das facetas, cabe alertar para a necessidade de o</p><p>analista dedicar uma atenção especial para a orga-</p><p>nização patológica contra-egóica em certos casos</p><p>que, contrariando as nossas naturais expectativas,</p><p>não estão respondendo exitosamente no que tange</p><p>à obtenção de verdadeiras mudanças psíquicas de</p><p>certos aspectos da personalidade do paciente.</p><p>6. Ainda em relação ao manejo das manifes-</p><p>tações das diversas formas do superego no</p><p>curso da análise, vale apontar mais dois as-</p><p>pectos: um consiste no risco de o analista</p><p>ficar contra-identificado com os aspectos</p><p>dos objetos internos superegóicos que o</p><p>paciente deposita dentro dele, o que deter-</p><p>minaria uma contratransferência patológi-</p><p>ca, ou seja, o terapeuta se comportaria com</p><p>o paciente de forma análoga a como com-</p><p>portaram-se aquelas imagos proibidoras e</p><p>atemorizadoras, de molde a vir a reforçá-</p><p>los, e assim impossibilitar qualquer outra</p><p>saída para o analisando.</p><p>140 DAVID E. ZIMERMAN</p><p>O segundo aspecto a ser enfatizado é o que diz</p><p>respeito às interpretações do analista, porquanto</p><p>não é nada rara a possibilidade de que, disfarçada</p><p>sob a aparência de “interpretação”, o analista pos-</p><p>sa estar doutrinando, catequisando, julgando, acu-</p><p>sando, exigindo, colocando expectativas, decep-</p><p>cionando-se, aconselhando, conluiando, etc.</p><p>7. Em síntese, a tarefa maior do terapeuta é</p><p>auxiliar seu paciente a encontrar uma liber-</p><p>dade interna e uma autenticidade naqueles</p><p>freqüentes casos em que fica evidente que</p><p>se trata de um sujeito que está sujeitado a</p><p>uma ordem de mandamentos internos e</p><p>desconhecidos sob a forma de ameaças,</p><p>ordens, proibições, expectativas e crenças</p><p>ilusórias.</p><p>Tudo isso faz crescer de importância</p><p>a análise</p><p>dos aspectos relativos ao superego, não só os clás-</p><p>sicos, mas também todos os demais correlatos a</p><p>ele, de tal modo que, do ponto de vista da “estrutu-</p><p>ra tripartite”, ganha maior relevância na atualidade</p><p>a clássica afirmativa de Freud (1933) de que, onde</p><p>houver id (e superego, como transparece nitida-</p><p>mente nas entrelinhas de alguns de seus textos), o</p><p>ego deve ficar!</p>