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Desdobramentos para Políticas Sociais

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Izabel Cristina Dias Lira
Janaína Carvalho Barros
Ruteléia C. de Souza Silva
Organizadoras
desdobramentos para as
políticas sociais e o
Serviço Social
QUESTÕES E TENDÊNCIAS
CONTEMPORÂNEAS DO
CAPITALISMO
desdobramentos para as
políticas sociais e o
Serviço Social
QUESTÕES E TENDÊNCIAS
CONTEMPORÂNEAS DO
CAPITALISMO
C O M I T Ê E D I T O R I A L
Prof. Dr. André Ricardo de Souza
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Profa. Dra. Denise de Freitas
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Prof. Dr. Gabriel de Santis Feltran
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Isabel Georgina Patronis Dominguez
Especialista em Educação Ambiental pelo CRHEA/USP
Prof. Dr. Jacob Carlos Lima
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Prof. Dr. Jaime Giolo
Universidade Federal da Fronteira Sul
Dra. Semíramis Biasoli
Fundo Brasileiro de Educação Ambiental (FunBEA)
Prof. Dr. Valdemar Sguissardi
Professor Titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
S ÃO C A R LO S , 2020São Carlos, 2020
Izabel Cristina Dias Lira
Janaína Carvalho Barros
Ruteléia C. de Souza Silva
Organizadoras
desdobramentos para as
políticas sociais e o
Serviço Social
QUESTÕES E TENDÊNCIAS
CONTEMPORÂNEAS DO
CAPITALISMO
© Das organizadoras.
REVISÃO DE TEXTO
Karin Elizabeth Rees Azevedo
PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO
Diagrama Editorial
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD
Q5 Questões e tendências contemporâneas do capitalismo [re-
curso eletrônico]: desdobramentos para as políticas sociais e 
o serviço social / organizado por Izabel Cristina Dias Lira, 
Janaína Carvalho Barros, Ruteléia C. de Souza Silva. - São Car-
los, SP : Diagrama Editorial, 2020.
 300 p. ; PDF ; 2,4 MB. 
	 Inclui	bibliografia	e	anexo.
 ISBN: 978-65-86512-10-6
1. Capitalismo. 2. Política social. 3. Serviço social. I. Lira, 
Izabel Cristina Dias. II. Barros, Janaína Carvalho. III. Silva, 
Ruteléia C. de Souza. IV. Título.
2020-3273 CDD 330.122 
 CDU 330.342.14
Elaborado por Odilio Hilario Moreira Junior - CRB-8/9949 
Índice para catálogo sistemático:
 1. Capitalismo 330.122
 2. Capitalismo 330.342.14
A reprodução não autorizada desta publicação, por qualquer meio, seja total ou parcial, 
constitui violação da Lei nº 9.610/ 98.
A aceitação das alterações textuais e de normalização bibliográfica sugeridas pelo revisor 
são uma decisão do autor/organizador.
Rua XV de Novembro, 2190, Centro
13560-240 - São Carlos, SP
Fone: 16 3413-9142
www.diagramaeditorial.com.br
Financiamento
5
PREFÁCIO
A publicação da coletânea Questões e tendências contemporâneas 
do capitalismo: desdobramentos para as políticas sociais e o Serviço So-
cial organizada por Izabel Cristina Dias Lira, Janaína Carvalho Barros 
e Ruteléia C. de Souza Silva, professoras da Universidade Federal do 
Mato Grosso com reconhecida competência, veio em boa hora.
O lançamento de um livro ou coletânea acadêmica sempre pode ser 
considerado oportuno ao ampliar o conhecimento sobre os fenôme-
nos analisados, além de evidenciar o esforço, individual ou coletivo, 
despendido em estudos e pesquisas. Esta coletânea, porém, contém 
dimensões que lhe conferem relevância especial para os estudiosos e 
pesquisadores das Ciências Sociais e, especialmente, para o Serviço So-
cial, por várias razões.
Sem pretender esgotar as análises realizadas, quero compartilhar 
algumas dessas razões com os leitores. A primeira decorre, inegavel-
mente, das crises do momento atual, em função do agravamento das 
várias faces das desigualdades, da questão migratória, da violência ru-
ral e urbana, pois, como já afirmavam Dardot e Laval, em 2016, “[...] o 
acúmulo de tensões e problemas não resolvidos, o reforço de tendên-
cias desigualitárias e desequilíbrios especulativos preparam dias cada 
vez mais difíceis para as populações” (p. 8)1.
A pertinência dessa observação, infelizmente, vem se confirmando 
nos últimos anos, na América Latina, e mesmo em países de capitalis-
mo central e com maior possibilidade de anteparo e manejo das crises 
estruturais do capital, ampliando a precariedade histórica dos sistemas 
de proteção social em nosso Continente. Os impactos sobre as políticas 
sociais são analisados, em suas várias dimensões, evidenciando como 
as tendências do novo ordenamento da proteção social não se limi-
tam ao desfinanciamento ou a uma simples questão gerencial, como 
bem enfocados no decorrer dos textos. Contrapõem-se frontalmente 
a uma linha de estudos que trata a desigualdade e a pobreza isoladas 
dos conflitos de classes. Os estudos mais evidentes na literatura atual, 
pautados em críticas ao modelo de organização societária nos mol-
6
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
des capitalistas, assumem uma feição periférica e ganham destaque os 
textos acadêmicos sobre políticas sociais financiados pelos organismos 
internacionais, tecnicamente elaborados, mas assépticos e acríticos.
Focados em análises centradas na relação custo-benefício, desapa-
rece a noção de igualdade social, desconsiderando ser a pobreza decor-
rente do tipo de relação capital/trabalho no capitalismo, agravada pelo 
modelo neoliberal. Há uma redução brutal dos investimentos públicos 
para o desenvolvimento econômico que tenham como norte a criação 
de um mercado de trabalho com garantias de proteção social, mesmo 
que à custa de seu potencial de resistência. No plano da ação, as re-
formas trabalhistas dos últimos anos configuram uma precarização na 
raiz, ou seja, em sua origem.
A eclosão da pandemia coloca em evidência a debilidade do merca-
do de trabalho, a pobreza e suas consequências, a fragilidade dos siste-
mas de saúde, tópicos tratados com competência na coletânea. Traz à 
tona a urgência de ser e pensar o papel do Estado, nas palavras da pro-
fessora Laura Carvalho (2020, p. 121)2, alertando para o risco de “[...] 
um mundo mais desigual, e com riscos maiores para a democracia”.
A segunda razão se encontra na pertinência das análises sobre as 
tendências contemporâneas contidas na coletânea, as quais colaboram 
para reconhecer o movimento de reorganização geopolítica e ideo-
lógica nos países latino-americanos, com ênfase no Brasil. Ao longo 
dos capítulos, os autores tornam evidente a difícil tarefa da busca pela 
emancipação humana, ao discorrerem sobre as nuances das relações 
cada vez mais radicais entre capital e trabalho e as resistências à ló-
gica avassaladora do capital e dos processos de refuncionalização das 
suas crises econômicas cíclicas. A crise financeira mundial de 2008 não 
abalou os fundamentos do neoliberalismo; pelo contrário, fortaleceu 
suas bases políticas internacionais via desqualificação de instituições 
regionais, expandido a subordinação ao sistema global.
La mayor subordinación al sistema mundial y a su principal po-
tencia que vemos reponerse en los años más recientes se hace en 
nombre de la ‘integración al mundo’ – tal como repiten como 
2 CARVALHO, Laura. Curto-circuito: o vírus e a volta do Estado. São Paulo: Todavia, 2020. 
7
VERA MARIA RIBEIRO NOGUEIRA 
muletilla los presidentes de Argentina y Brasil – pero abando-
nando, en los hechos, la integración regional y desarticulando, 
también, a las instituciones que empezaban a darle alguna forta-
leza (GRASSI, 2020, p. 12)3.
Como exemplo paradigmático se pode constatar a posição contra-
ditória do Governo brasileiro, ora desqualificando o Mercosul, ora te-
cendo elogios em função do interesse do mercado no acordo comercial 
com a União Europeia. No plano econômico, aos países como o Brasil 
cabe uma integração econômica periférica, participando do mercado 
mundial via exportação de bens primários e de baixo valor agregado, 
além de altamente destrutivos, causando danos tanto à natureza quan-
to às formas de vida dos povos tradicionais, quilombolas e indígenas. 
São as causas das queimadas na Amazônia e no cerrado que, a despeito 
da péssima repercussão internacional, não têm sensibilizado o Execu-
tivo Federal, tema bem explorado em um dosbrasileiro, as políticas 
sociais e, em especial, a Assistência Social tem limites e constrangi-
mentos muito claros, de ordem estrutural, que agravam sua baixa efe-
tividade. Isso porque na árdua e lenta trajetória rumo a sua efetivação 
como política de direitos, permanece na Assistência Social brasileira 
uma imensa fratura entre o anúncio do direito e sua efetiva possibili-
dade de reverter o caráter cumulativo das injustiças, que permeiam a 
vida de seus usuários.
Não se pode esquecer, no entanto, que estas políticas expandem Di-
reitos Sociais, permitem o acesso a recursos e serviços sociais, criam 
possibilidades de interlocução entre a esfera governamental e a socie-
dade civil e, sobretudo, abrem espaços para o protagonismo e para a 
ação coletiva de atores políticos, que lutam pela realização do caráter 
público nas Políticas Sociais.
39
MARIA CARMELITA YAzBEK 
◀ Voltar ao sumário
Os trabalhadores do SUAS são interpelados e desafiados pela ne-
cessidade de construir mediações políticas e ideológicas expressas, so-
bretudo, por ações de resistência e de alianças estratégicas no jogo da 
política em suas múltiplas dimensões, por dentro dos espaços institu-
cionais e, especialmente, no contexto das lutas sociais.
Como avançar nessa construção? Que dimensões considerar?
A primeira reflexão é sobre a importância de interrogar, de buscar 
elementos para a inteligibilidade da realidade, de abrir dimensões não 
explicitadas desta crise e das atuais perplexidades do pensamento e 
da ação, buscando decifrar as lógicas do capitalismo contemporâneo 
em suas dimensões éticas, políticas, culturais de uma sociedade em 
mudança acelerada.
No entanto, o mais importante é desenvolver práticas cotidianas de 
contestação e de resistência buscando construir experiências concretas 
de fortalecimento dos interesses e projetos de superação da condição 
subalterna. Também por dentro dos espaços institucionais, em que 
atuam profissionalmente se pode desenvolver iniciativas de resistência, 
buscar novas práticas que se esboçam como alternativa. Esse é outro 
caminho a ser procurado, considerando as variadas lutas e propostas 
de resistência.
Há espaços a ocupar e fortalecer: Fóruns, Conselhos, Movimen-
tos. Precisa-se apoiar as resistências cotidianas das classes subalternas 
na sociedade. As rebeldias têm que se encontrar a partir de baixo, da 
participação de todos, de todos os dias, substituindo relações de po-
der por relações e responsabilidades partilhadas. E, quando se refere 
às relações de poder não se pode excluir as relações dos profissionais 
com a população. É o poder das triagens das elegibilidades, das gover-
nabilidades, das concessões dos laudos, das visitas controladoras, das 
definições de quem fica e quem não fica, de quem pode participar de 
um Programa etc.
Em diferentes situações é preciso expressar que se caminha profis-
sionalmente junto aos usuários, levando em conta o papel estratégico 
da comunicação e da informação para mostrar que não se está só na 
luta.
40
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Para finalizar, se gostaria de lembrar que “a sociedade civil organi-
zada dá mostras de que não assistirá passivamente ao desmanche da 
Política de Assistência Social, após uma trajetória de lutas e construção 
da Proteção Social não contributiva como campo de direito em nosso 
País”. Observa-se a resistência imediata frente à interferência autori-
tária do Governo Federal no CNAS, que levou ao cancelamento da 
Conferência Nacional de Assistência Social, que havia sido aprovada 
democraticamente por aquele colegiado, para sua realização em de-
zembro de 2019, coroando o ciclo de conferências municipais e esta-
duais que a antecederiam, como tem sido realizado desde a 1ª Confe-
rência Nacional em 1995, no então Governo FHC.
O movimento de luta em defesa do SUAS, composto por entidades e 
organizações da sociedade civil, chamou para si a tarefa de convocação 
da Conferência Nacional, com o tema “Assistência Social: direito do 
povo, com financiamento público e participação social”, conclamando 
Estados e Municípios a participarem dessa ampla mobilização nacio-
nal, realizando também conferências estaduais e municipais, nas quais 
foi significativa a participação da população usuária dos serviços dessa 
Política Pública de Direitos.
Referências
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41
MARIA CARMELITA YAzBEK 
◀ Voltar ao sumário
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42
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
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vista Ciência & Saúde Coletiva, v. 23. Associação Brasileira de Saúde Cole-
tiva (ABRASCO). Rio de Janeiro: ABRASCO, 2018, p. 2315-2325. Disponível 
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YAZBEK, M. C. A Educação Permanente e a Política de Assistência Social: 
o papel da academia e os desafios para o Serviço Social. In: CRUS Ferreira 
José et al. Gestão do Trabalho e Educação Permanente no SUAS. Ministério 
do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Brasília: MDF, 2014.
43
MARIA CARMELITA YAzBEK 
◀ Voltar ao sumário
YAZBEK, M. C.; RAICHELIS, R. O sistema único de Assistência Social no 
Brasil. In: ANAIS... XVI Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço So-
cial (ENPESS). Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social 
(ABEPSS). Vitória-ES, 02 a 07 de dezembro de 2018. Disponível em: https://
www.periodicos.ufes.br/abepss/article/view/22059/14639. Acesso em: 20 mai. 
2020.
44◀ Voltar ao sumário
CAPÍTULO 2
Crise, Estado e precarização do 
trabalho
Jaime Hillesheim
Ricardo Lara
Introdução
Ainda que pareça lugar comum é preciso afirmar que não é possível 
vislumbrar processos de emancipação social com programáticas que se 
pautam em ajustes econômicos impostos pela lógica da sociabilidade 
do capital. A história mostra que todas as tentativas de conduzir a luta 
da classe trabalhadora mirando esse horizonte, de caráter reformista, 
em curto e médio prazos, se tornaram travas ao avanço da própria 
consciência dos(as) trabalhadores(as) como classe em face do capital. 
E, especialmente, nos momentos de intensificação de crise da forma 
social capitalista, velhos projetos políticos ressurgem como se novos 
fossem. É verdade que nesses mesmos momentos, a possibilidade de 
retomada ou de recuperação de projetos efetivamente revolucionários 
também se coloca. Contudo, para identificar essa possibilidade há que 
se apropriar do acervo teórico produzido e das diretrizes elaboradas 
por importantes intelectuais, que conjugaram dialeticamente a tarefa 
do pensar e do agir revolucionários com vistas a extinção da sociedade 
baseada na divisão de classes e na propriedade privada dos meios de 
produção.
Nesse sentido, pensar a dinâmica de produção e de reprodução das 
relações sociais capitalistas no contexto de crise estrutural do capital e 
identificar como essa processualidade determina as relações entre Es-
tado e sociedade, na perspectiva que aqui se assume, só é possível à luz 
45
JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
das contribuições teóricas e políticas que foram deixadas como legado 
por intelectuais, como: Karl Marx, Friedrich Engels, Vladimir Ilyich 
Ulianov – Lênin, György Lukács, István Mészáros, bem como por Ruy 
Mauro Marini, Florestan Fernandes, Jacob Gorender, Clóvis Moura, 
entre outros. Uns analisaram o modo de produção capitalista, em sua 
totalidade, outros, no rastro dessas contribuições, se preocuparam em 
pensar as particularidades das economias periféricas e dependentes, 
como as da América Latina. É nesse campo teórico marxista que se 
localiza para apresentar reflexões sobre o Estado como mediação do 
capital para induzir as políticas de precarização do trabalho na realida-
de brasileira nos anos recentes.
Por certo, essas reflexões, ainda que assentadas em uma perspectiva 
de totalidade, encontram limites muito objetivos, tendo em vista as rá-
pidas mudanças que se processam no sociometabolismo do capital em 
face da sua crise estrutural (MÉSZÁROS, 2000), complexificadas, no 
tempo presente, pela existência de uma situação emergencial de saúde 
pública em todo o Planeta, ocasionada pela propagação da COVID-19. 
Essa questão, como se verá, teve e tem impactos sobre as condições 
e relações de trabalho, impondo aos(às) trabalhadores(as) inúmeros 
prejuízos em relação ao acervo de direitos historicamente conquistado, 
mas não só isso.
No contexto da pandemia, os detentores dos meios de produção 
escancaram os valores e a lógica da sociabilidade burguesa na medida 
em que a vida dos trabalhadores é relegada a um segundo plano diante 
da defesa da necessidade de manutenção das atividades produtivas, o 
que requer que grandes contingentes de trabalhadores(as) se subme-
tam aos riscos do contágio e da morte prematura. Isso, de um lado, 
evidencia um fato sempre encoberto pelos capitalistas: o de que sem o 
acionamento da força de trabalho não se produz absolutamente nada. 
Por outro, mostra aos(às) trabalhadores(as) que a negação da relação 
de troca da força de trabalho na forma de mercadoria, ou seja, que a 
abstenção da venda dessa força àqueles que detêm os meios para pro-
duzir põe em colapso o modo de produção capitalista.
A necessidade de problematizar a função mediadora do Estado, na 
relação entre capital e trabalho, como indutor de políticas, que fazem 
46
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
avançar a precarização das condições e relações de trabalho é o que 
motiva a expor, aqui, algumas reflexões que se têm formulado em face 
dos estudos sobre o trabalho, considerando especialmente a realidade 
daquelas condições e relações no Brasil, com o advento da “reforma” 
trabalhista de 2017. A hipótese de trabalho é que o Estado capitalista, 
enquanto mediação na relação entre capital e trabalho, ao se deparar 
com os limites objetivos impostos pelo processo de desenvolvimento 
dessa forma social e histórica, caracterizadores da crise sociometa-
bólica do capital (MÉSZÁROS, 2000), encontra na intensificação da 
precarização do trabalho uma forma de se contrapor à queda das ta-
xas de lucro e, nesse intento, contraria pressupostos da programática 
neoliberal.
Em sendo assim, do ponto de vista metodológico, aqui, se fará uso 
do acervo teórico da tradição marxista a partir de estudos das produ-
ções de um conjunto de autores(as) afiliados a essa tradição, bem como 
de dados de fontes secundárias que permitem fazer algumas análises 
sobre a atuação do Estado, na relação entre capital e trabalho, como 
indutor de políticas que fazem avançar na precarização das condições 
e relações de trabalho no Brasil.
Assim, no presente artigo, em um primeiro momento, são apresen-
tadas algumas questões teóricas com o objetivo de pensar a relação 
entre Estado e sociedade no contexto de crise estrutural. Nesse intento, 
procura-se apontar alguns elementos que revelam essa dinâmica na 
realidade brasileira. Na sequência são apresentados dados e fatos que 
demonstram a função indutora no Estado no processo de precarização 
do trabalho, tendo como observatório as condições e relações laborais 
no Brasil, com ênfase nos períodos que se seguiram a aprovação da 
contrarreforma trabalhista de 2017. Por derradeiro, se expõe ao leitor 
algumas sínteses, à guisa de conclusão.
47
JAIME hILLEShEIME RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
1 As relações entre Estado e sociedade em 
face da crise estrutural do capital: os 
“pressupostos” neoliberais em questão
Não se pretende, aqui, discorrer sobre a crise do capital, haja vis-
ta que se toma como pressuposto que não há capitalismo sem crise. 
Contudo, coaduna-se com as análises de Mészáros (2011), para quem 
se está enfrentando uma crise estrutural, cuja severidade impõe ao ca-
pital se deparar com seus próprios limites. Trata-se de uma crise geral 
e duradoura1, material e ideológica, que afeta toda a humanidade e faz 
escancarar as contradições insuperáveis do sistema do capital, que co-
locam em questão sua viabilidade. É nesse bojo que os preceitos demo-
cráticos (ainda que de espectro burguês) aparecem como obstáculos às 
respostas que o sistema do capital precisa formular para enfrentar essa 
crise de natureza estrutural.
Mészáros (2002), ao analisar o tripé que sustenta o sociometabo-
lismo do capital, afirma que o capital não possui mais a força expan-
sionista que gozou durante o século XX, em busca do crescente mais-
-valor. O trabalho assalariado, a força de trabalho como mercadoria 
especial se encontra em uma crescente precarização estrutural em que 
a proteção social reduziu a poucos assalariados. O Estado, pelas orien-
tações neoliberais, está quase totalmente privatizado, o que comprova 
que os direitos sociais e trabalhistas são agendas que não cabem mais 
no século XXI.
Nas palavras de Hirsch (2010, p. 96), é importante ter em conta que 
o “[...] nexo entre capitalismo, Estado [...] e democracia é mesmo es-
treito, porém de nenhum modo lógico e estruturalmente necessário. 
1 Lukács, em sua obra Para uma ontologia do ser social, adverte que a partir dos anos 1960, a 
humanidade entrou em uma “situação mundial de crise geral e duradoura”, um momento 
da história humana em que são utilizados todos os meios (ideologias) possíveis de nega-
ção da compreensão do ser e, por conseguinte, da emancipação humana. Para o filósofo 
húngaro, a tendência geral desta época, em última análise, “pretende a eliminação definiti-
va de todos os critérios objetivos de verdade, procurando substituí-los por procedimentos 
que possibilitem uma manipulação ilimitada” (LUKÁCS, 2012, p. 42-43). 
48
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Ele permanece altamente contraditório e controverso”. Ao encontro 
dessa advertência, a análise de Harvey (2014) também ensina:
Tal como no passado, o poder do Estado é com frequência usado 
para impor [...] processos mesmo contrariando a vontade popu-
lar. A regressão dos estatutos regulatórios destinados a proteger 
o trabalho e o ambiente da degradação tem envolvido a perda de 
direitos. A devolução de direitos comuns de propriedade obtidos 
graças a anos de dura luta de classes (o direito a uma aposenta-
doria paga pelo Estado, ao bem-estar social, a um sistema nacio-
nal de cuidados médicos) ao domínio privado tem sido uma das 
mais flagrantes políticas de espoliação implantadas em nome da 
ortodoxia neoliberal (HARVEY, 2014, p. 123).
O Estado, por meio de suas estruturas jurídico-políticas, que fun-
cionam sob a hegemonia do capital, é uma mediação essencial para se 
compreender a dinâmica das relações sociais. Essas estruturas burgue-
sas são usadas para elaborar, traduzir, operacionalizar e até fiscalizar 
a aplicação de um conjunto de regras que, no processo de complexifi-
cação social, parece ter uma autonomia absoluta da base material, da 
dinâmica econômica. Por isso, em um primeiro momento, parece que 
as relações entre capital e trabalho são subordinadas às normativas le-
gais editadas por meio do aparato estatal e não que estas sejam deter-
minadas por aquelas, considerando aí a dominação do capital sobre 
o trabalho no âmbito da produção e, também, e por consequência da 
esfera política. Contudo, essas relações são marcadas pelo antagonis-
mo de interesses entre esses dois polos. E, em momentos de intensifi-
cação dos efeitos das crises capitalistas, o que importa ao capital é eco-
nomizar nas condições de trabalho à custa dos(as) trabalhadores(as) 
(MARX, 2017).
Ademais, a produção e a reprodução do capital não existem sem que 
essas condições, em geral, sejam sempre as mais aviltantes possíveis, a 
despeito dos avanços científicos e tecnológicos observados ao longo 
do processo civilizatório que, em tese, poderiam amenizá-las. Em uma 
das passagens, em que aborda as condições de trabalho, Marx é cate-
49
JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
górico ao afirmar que a produção capitalista é “[...] uma dissipadora 
de seres humanos, de trabalho vivo, uma dissipadora não só de carne 
e sangue, mas também de nervos e cérebro” (MARX, 2017, p. 116). E, 
ao avançar em sua análise, conclui que é a forma social e histórica do 
trabalho engendrada pela sociabilidade do capital que “[...] gera essa 
dissipação de vida e de saúde dos trabalhadores” (MARX, 2017, p. 116). 
Isso, contudo, nem sempre é suportado pela classe trabalhadora que, 
ao se perceber como classe diante do capital se põe em lutas defenden-
do pautas políticas e econômicas com vistas a responder suas necessi-
dades sociais.
Nesse sentido, pressiona o Estado para agir sobre suas demandas, 
inclusive, naquelas relacionadas às condições e relações de trabalho. 
Sem ilusões sobre a natureza dessa preocupação estatal com a “prote-
ção” à classe trabalhadora, Marx (2013, p. 373-374, grifo do autor) asse-
vera que:
Para ‘se proteger’ contra a serpente de suas aflições, os traba-
lhadores têm de se unir e, como classe, forçar a aprovação de 
uma lei, uma barreira social intransponível que os impeça a si 
mesmos de, por meio de um contrato voluntário com o capital, 
vender a si e a suas famílias à morte e à escravidão. No lugar do 
pomposo catálogo dos ‘direitos humanos inalienáveis’, tem-se a 
modesta Magna Charta de uma jornada de trabalho legalmen-
te limitada, que ‘afinal deixa claro quando acaba o tempo que o 
trabalhador vende e quando começa o tempo que lhe pertence’. 
Quantum mutatus ab illo! [Quanto se mudou do que era!].
A despeito das importantes conquistas dos trabalhadores ao longo 
da história, em diferentes contextos, o que essa mesma história mostra 
é que essas conquistas limitadas aos parâmetros determinados pelas 
relações sociais de produção capitalistas, nunca são perenes porque 
não corroem, definitivamente, a razão primeira da existência da pró-
pria luta: a propriedade privada dos meios de produção. E, por mais 
que se possa imaginar avanços dentro do espectro da emancipação 
política nos marcos da sociedade burguesa, no processo de complexi-
50
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
ficação social há algo que não se altera quando as lutas dos(as) traba-
lhadores(as) miram somente uma melhor distribuição da riqueza ou a 
justiça social.
Como diz Marx (2008, p. 253), a distribuição, antes de ser efetiva-
mente distribuição de produtos, é distribuição dos meios e dos instru-
mentos da própria produção. Portanto, nessa perspectiva, a riqueza só 
pode ser distribuída de maneira equânime – de acordo com as neces-
sidades humanas – quando for destruída a propriedade privada dos 
meios de produção e as relações sociais da ordem do capital2. Ademais, 
conforme já indicava Engels, ao estudar a situação da classe trabalha-
dora na Inglaterra, nas primeiras décadas do século XIX, ao burguês:
[...] não lhe causa mossa que seus operários morram ou não de 
fome, desde que ganhe dinheiro. Todas as relações humanas são 
subordinadas ao imperativo do lucro e aquilo que não propicia 
ganhos é visto como algo insensato, inoportuno e irrealista (EN-
GELS, 2010, 308).
No decurso histórico da forma social capitalista, dada sua natureza, 
os interesses antagônicos entre capital e trabalho sempre colocaram 
esses dois polos da relação em disputa. É por isso que o acesso dos(as) 
trabalhadores(as) à riqueza socialmente produzida sempre foi prece-
didopor processos de mobilização e organização, de confronto com 
os interesses do capital. E, nesta relação, o Estado sempre se põe como 
mediação necessária que, ao se mostrar como o espaço da vontade uni-
versal e acima dos interesses particulares das classes, tem o poder de 
dizer o direito dos indivíduos e das coletividades. Esse direito é, por-
2 Marx (2012, p. 28) é enfático nas condições em que proporcionam às autênticas necessida-
des humanas: “Numa fase superior da sociedade comunista, quando tiver sido eliminada 
a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, a oposição 
entre trabalho intelectual e manual; quando o trabalho tiver deixado de ser mero meio de 
vida e tiver se tornado a primeira necessidade vital; quando, juntamente com o desenvol-
vimento multifacetado dos indivíduos, suas forças produtivas também tiverem crescido e 
todas as fontes da riqueza coletiva jorrarem em abundância, apenas então o estreito hori-
zonte jurídico burguês poderá ser plenamente superado e a sociedade poderá escrever em 
sua bandeira: De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!”.
51
JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
tanto, um direito burguês e, como tal, ao fim e ao cabo, sempre atende 
aos interesses da classe econômica e politicamente dominante. Para 
Lukács (2013, p. 233): “[...] o direito, surgido em virtude da existência 
da sociedade de classes, é por sua essência necessariamente um direito 
de classe: um sistema ordenador para a sociedade que corresponde aos 
interesses e ao poder da classe dominante”.
Quando se pensa, especificamente, no ordenamento edificado para 
regular as relações entre capital e trabalho, os chamados direitos traba-
lhistas, tem que ter em mente que, de um lado, tais direitos significam a 
incorporação de inegáveis necessidades dos trabalhadores como parte 
do substrato da cidadania burguesa, mas, por outro, também signi-
ficam, segundo Bernard Edelman (2016), a captura do potencial re-
volucionário da classe obreira. Pode-se dizer que, em grande medida, 
a incorporação das demandas dos trabalhadores nas malhas da insti-
tucionalidade burguesa possibilita um maior controle sobre a classe, 
por meio da judiciarização e da judicialização dos conteúdos das lutas 
dos trabalhadores o que, não raras vezes, culminam em processos des-
mobilizadores e em reformismos que travam o avanço no processo de 
construção da consciência de classe.
Esse processo de “legalização” da classe trabalhadora, nos termos 
usados por Eldeman (2016), reconhece a sua existência em face do 
capital, mas coloca parâmetros para o exercício de seus direitos, ao 
mesmo tempo, em que preserva o poder repressivo do Estado, quando 
essa classe age fora desses parâmetros. Assim, seguindo os rastros das 
sínteses construídas por Eldeman (2016), pode-se dizer que o direito 
do trabalho é um direito burguês como qualquer outro, mas que faz 
referência a determinados regramentos de relações de trabalho no âm-
bito da sociabilidade regida pelo capital, materializados em contratos 
de trabalho. Não é, portanto, um direito que pertence ao trabalho, por-
que é um direito que expressa relações de produção hegemônicas nesta 
ordem social. Sua tarefa central, do ponto de vista do capital, é promo-
ver a integração dos trabalhadores ao modo de produção capitalista e 
de suas respectivas legalidades. Nas palavras do mesmo autor, muitas 
vezes, o direito do trabalho – tratado por ele também como “direito 
operário” – é concebido como se “[...] não fosse o direito burguês para 
52
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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o operário! E como se, [...] milagrosamente, o direito do trabalho fosse 
uma zona juridicamente ‘protegida’!” (EDELMAN, 2016, p. 19, grifo 
do autor).
Nessa direção, Edelman assevera que:
[...] se por um lado podemos nos orgulhar do ‘poder’ jurídico 
que a classe operária conquistou, por outro podemos pergun-
tar de que natureza é esse poder, visto que é jurídico. Dito de 
outro modo, se a lei (burguesa) dá ‘poder’ à classe operária, de 
que poder exatamente se trata? [...] só pode tratar-se do ‘poder 
burguês’, outorgado por um ‘direito burguês’; porque concorda-
mos facilmente que o direito burguês não pode dar nada além 
do ‘poder burguês’, isto é, uma forma específica de organização e 
de representação, estruturada pelo direito, precisamente, e que o 
reproduz (EDELMAN, 2016, p. 19, grifo do autor).
No corolário dessa precisa análise sobre os limites do direito na 
sociedade capitalista, não se despreza ou menospreza a importância 
do direito do trabalho como tática de luta para uma estratégia rumo 
à construção de outra sociabilidade, especialmente em um contexto 
caracterizado por uma economia periférica e dependente, como a bra-
sileira. Ainda que nos quadrantes de uma luta defensiva, a problema-
tização da recente contrarreforma trabalhista não parece uma tarefa 
menor no espectro da luta de classes. Não por acaso, a mais recente 
contrarreforma trabalhista levada a cabo no Brasil se pauta no argu-
mento ideológico-político de que a luta de classes não existe3 e que não 
se coaduna com os “novos tempos”, marcados por relações de parce-
rias entre trabalhadores e capitalistas. Sob a égide do discurso de con-
ciliação de classes, os trabalhadores brasileiros passaram a enfrentar 
3 Conforme alega Rogério Marinho, ideólogo e relator da “reforma” trabalhista que desca-
racterizou o direito do trabalho, “Os amantes da ideia venenosa da luta de classes, certa-
mente, não verão com bons olhos a modernização. Ora, a visão negativa sobre o empre-
gador dificulta geração de empregos e cria custos com burocracia e processos judiciais 
desnecessários” (MARINHO, 2018, p. 43).
53
JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
mais intensamente um processo de desmonte do sistema de proteção 
social, em particular no âmbito do direito do trabalho.
A ofensiva do capital sobre o trabalho caminhou a passos largos, es-
pecialmente, a partir do golpe jurídico-parlamentar ocorrido em 2016, 
quando após a instalação do Governo de Michel Temer, as proposições 
de desmonte da legislação laboral ganharam materialidade. A política 
de austeridade imposta aos trabalhadores desde então tem implicado 
a conformação de um novo modelo de Estado, no qual não têm espa-
ço as garantias fundamentais pactuadas nos períodos precedentes ca-
racterizados pelo processo de democratização da sociedade brasileira, 
ainda que tal processo tenha sido marcado por um transformismo que, 
em parte, ajuda a explicar a fragilidade da capacidade de manutenção 
de tais garantias.
2 A mediação essencial do Estado na 
precarização do trabalho no Brasil
O avanço do capital sobre os direitos laborais, nos períodos mais 
recentes da história brasileira, mostra cabalmente que nessa ordem so-
cial as conquistas da classe trabalhadora não são perenes. A cada novo 
ciclo de crise econômica essas são desmontadas como forma de criar 
contratendências para minimizar a queda das taxas de lucro do capital, 
o que resulta em intensos processos de precarização das condições de 
vida e de trabalho. Esse processo ganhou contornos mais perversos 
quando, pela mediação do Estado, a pandemia da COVID-19, no Bra-
sil (e no Mundo) serviu para justificar o avanço do capital sobre os 
direitos laborais, como se verá.
No que se refere à reforma trabalhista de 2017, instituída especial-
mente pelas Leis nº 13.429 (que autorizou a chamada terceirização 
plena) e nº 13.467 (que alterou significativamente a Consolidação das 
Leis do Trabalho – CLT), os críticos a essa “reforma” afirmam que essa, 
além de modificar intensamente o direito laboral positivado, também 
repercutiu enormemente no campo ideológico e até psicológico:
54
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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[...] passando a ideia de que o trabalhador já não precisa de pro-
teção, e reforçando a falsa tese de que o Direito do Trabalho pre-
judicao Direito ao Trabalho. Por essas e por outras, e tal como 
acontece, hoje, no plano das armas, o Poder Público autoriza 
tacitamente o empregador a praticar mais violências ainda, des-
cumprindo ainda mais a lei (VIANA; KREIN, 2019, p. 15-16).
Em grande síntese, concorda-se com Jorge Luiz Souto Maior (2018, 
p. 3), para quem a “reforma” trabalhista de 2017:
[...] nos conduz ao caos social para a satisfação econômica ime-
diata de alguns poucos e, sobretudo, do capital estrangeiro. Ten-
ta-se superar a crise do capitalismo nos países centrais, aumen-
tando a extração de ganhos sobre o trabalho nas periferias. E, 
para isso é imprescindível rebaixar – e até eliminar – a rede de 
proteção social alcançada nos poucos anos em que, em alguns 
desses países, experimentou, mesmo que precariamente, uma 
democracia social.
Por isso, o direito laboral só pode ser entendido no âmbito das re-
lações de classes e, na particularidade brasileira, há que se considerar 
a condição de uma economia dependente e periférica, que subjuga os 
trabalhadores a relações de trabalho ainda mais precárias com vistas 
a compensar as perdas da burguesia com as remessas de mais-valor 
para os países centrais, conforme indicam estudos desenvolvidos por 
Marini (2000); Valencia (2008) e Bambirra (2013).
Um dos mais fortes argumentos para levar a cabo a “reforma” tra-
balhista idealizada sob o princípio da prevalência do “negociado sobre 
o legislado” era o de que, ao desonerar a folha de pagamento e tornar 
as normas mais flexíveis, inúmeros empregos poderiam ser criados. 
Contudo, não foi o que se verificou nos períodos que se seguiram4. De 
4 Mudando significativamente o discurso, os intelectuais orgânicos ao capital logo começa-
ram a ter que contra-argumentar as críticas que vieram do movimento sindical dos tra-
balhadores. E, nesse sentido, é ilustrativa a declaração do sociólogo José Pastore, assessor 
da Confederação Nacional da Indústria (CNI): “É desnecessário teorizar sobre o óbvio. A 
55
JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 
(PENAD Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e 
Estatística (IBGE), os níveis de desemprego, nos dois primeiros anos, 
após a contrarreforma trabalhista, não se alteraram positivamente, 
mantendo-se praticamente nos mesmos patamares, conforme se pode 
constatar nos dados sistematizados:
Tabela  – Taxa de desemprego, por trimestre, entre 2017 e 2020
ANO
TRIMESTRES
JAN/MAR ABR/JUN JUL/SET OUT/DEZ
2015 7,9 8,3 8,9 8,9
2016 10,9 11,3 11,8 12
2017 13,7 13 12,4 11,8
2018 13,1 12,4 11,9 11,6
2019 12,7 12 11,8 11
2020 12,2 - - -
Fonte: PNAD Contínua (IBGE). Elaboração: Jaime Hillesheim e Ricardo Lara (2020).
De acordo com os dados da PENAD, no último trimestre de 2019 
havia, no Brasil mais de 11,6 milhões de pessoas desempregadas e mais 
outras 65,4 milhões fora da força de trabalho, sendo essa compreen-
dida por aquelas pessoas desalentadas, subocupadas, etc.. Os estudos 
também mostram que a taxa de informalidade, no ano de 2019, alcan-
çou o patamar de 41,1%, superior aos anos imediatamente precedentes: 
39% (2006), 40,2 (2017) e 40,8 (2018). Em onze unidades da federação 
geração de emprego depende basicamente do crescimento econômico e dos investimentos 
públicos e privados. É exatamente o contrário do que ocorreu no Brasil no período de 
2015-2018. O grave desequilíbrio das contas públicas esterilizou a capacidade do Governo 
de investir em vários setores, em especial em infraestrutura, que, como se sabe, é fonte de 
muitos empregos diretos e indiretos. [...] [A] recessão devastou o Brasil e derrubou todos 
os indicadores sociais. E não há sinais de retomada no curto prazo. As expectativas para 
o aumento do PIB em 2018 caíram de 3% em janeiro para 1,3% atualmente. A economia 
brasileira perdeu sua vitalidade, com exceção do setor agropecuário, que continua dinâmi-
co, mas que gera poucos novos empregos. Tudo isso se refletiu no mercado de trabalho. A 
reforma trabalhista não tem nada que ver com o desemprego e a informalidade reinantes” 
(PASTORE, 2018, p. 1).
56
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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essa taxa foi superior a 50% da população ocupada. As taxas de in-
formalidade repercutem diretamente no percentual de trabalhadores 
contribuintes da Previdência Social que, no mesmo ano de 2019, ficou 
em 62,9%. Desde o ano de 2016, o Brasil vem registrando uma queda 
do número de contribuintes em relação à totalidade da população ocu-
pada5.
Além disso, conforme demonstram estudos desenvolvidos6 por es-
tes autores, os processos de negociações tabulados em face da preva-
lência do negociado sobre as regras laborais instituídas pela legislação 
significaram a precarização das relações e condições de trabalho por 
inúmeras razões, entre as quais se podem destacar: prevalência dos 
acordos coletivos de trabalho sobre as convenções coletivas de traba-
lho, estímulo à negociação individual e criação de mecanismos para 
tal, extinção da ultratividade de normas coletivas, entre outras. O pa-
tronato, com o advento da contrarreforma, passou a pautar demandas 
prejudiciais aos(às) trabalhadores(as) relativas à composição da jor-
nada de trabalho (especialmente, redução do intervalo intrajornada), 
fracionamento de férias, acordos individuais, instituição de contratos 
de trabalho intermitente, bem como de trabalho por tempo parcial, de 
teletrabalho e de autônomo exclusivo. Além disso, os empregadores 
pautaram, de maneira significativa, a terceirização de atividades. Os 
estudos referidos, realizados no âmbito do Estado catarinense, eviden-
ciam outra questão bastante presente nos instrumentos coletivos de 
negociação que diz respeito à rescisão contratual. Neste particular, a 
pressão é para que as homologações não sejam mais acompanhadas 
pelas entidades sindicais dos trabalhadores.
Em estudo realizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), 
no primeiro semestre de 2018, os pesquisadores apontavam que, em 
5 Dados disponíveis em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-a-
gencia-de-noticias/noticias/26913-desemprego-cai-em-16-estados-em-2019-mas-
-20-tem-informalidade-recorde. Acesso em: 11 mai. 2020.
6 Trata-se de pesquisa que vem sendo realizada desde o ano de 2018 sobre o acompanha-
mento de negociações coletivas no Estado de Santa Catarina, a partir de empresas e/ou 
setores econômicos selecionados sob o título: As novas bases legais das relações trabalhis-
tas: um estudo de convenções e acordos coletivos de trabalho celebrados em Santa Catarina a 
partir de 2017. 
57
JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
55% das negociações coletivas analisadas, os(as) trabalhadores(as) não 
conquistaram nenhuma cláusula por eles(as) propostas7. Esse dado 
corrobora para o argumento que a partir da contrarreforma trabalhista 
de 2017 as negociações coletivas passaram a ter um caráter predomi-
nantemente regressivo para a classe trabalhadora.
As novas modalidades de contratos de trabalho trazidas pela con-
trarreforma são, do ponto de vista dos trabalhadores, marcadas pela 
precarização já em sua gênese. Apontados como alternativas capazes 
de enfrentar os altos índices de informalidade e ampliar as possibili-
dades de empregabilidade, os contratos de trabalho intermitente, autô-
nomo exclusivo, por tempo parcial e remoto logo passaram a substituir 
e/ou precarizar, ainda mais, a espécie até então típica de contratação 
– por tempo indeterminado.
Ao se analisarem os dados da Relação Anual de Informações Sociais 
(RAIS) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CA-
GED), a partir de 2017 se percebe o aumento das novas modalidades 
de contrato. Aqui se destacam os índices de contratos de trabalho in-
termitente e por tempo parcial:
Tabela  – Frequência de contratos de trabalho intermitente e parcial entre os anos de 2017 e 2019
ANO
MODALIDADES DE CONTRATO
TOTAL
INTERMITENTE PARCIAL
FREQ.% FREQ. % FREQ. %
2017 7.367 0,02 141.257 0,31 46.281.590 100
2018 54.883 0,12 162.175 0,35 46.702.668 100
2019 136.180 0,29 181.069 0,38 47.262.294 100
Taxa a.a (%) 329,9 - 13,2 - 1,1 -
Fontes: RAIS (2018) e CAGED (2020). Crescimento estimado com base no estoque da RAIS de 2017 e saldos anuais do CAGED de 2018 e 2019. 
Sistematização: Vicente L. Heinen (NECAT/UFSC).
Os dados compilados mostram o exponencial crescimento das for-
mas precárias de contratação da força de trabalho a partir do momento 
7 Ver pesquisa: Acompanhamento das negociações coletivas pós reforma trabalhista, 2018. 
Relatório disponível em: file:///C:/Users/Usuario/Downloads/acompanhamento-das-ne-
gociacoes-coletivas-pos-reforma-trabalhista.pdf. Acesso em: 12 mai. 2020. 
58
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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em que essas foram instituídas. Há que se observar que esses tipos de 
usos da mercadoria de força de trabalho já eram observados na rea-
lidade fática. O trabalho em tempo parcial já tinha previsão legal no 
ordenamento jurídico brasileiro e, com a contrarreforma trabalhista 
de 2017, foi significativamente ampliado. Já o contrato de trabalho in-
termitente, de certa maneira, existia travestido de contrato de trabalho 
“por empreitada”, “por safra”, “por tarefa”, “por peça”, todos positivados. 
O que fez o Estado por meio do seu poder de jurisdição, portanto, foi 
legitimar formas precárias de trabalho para conferir mais “segurança 
jurídica” em favor do capital.
Em direção contrária às promessas anunciadas pelo Governo e pelo 
empresariado, a contrarreforma trabalhista de 2017 não reduziu o de-
semprego e nem aumentou o grau de formalização. Os períodos que se 
seguiram foram evidenciando que a referida contrarreforma foi usada 
como mecanismo para construir contratendências à queda das taxas 
de lucro. E, quando no final de 2019 e início do ano de 2020 a crise 
capitalista foi amplificada em virtude da pandemia da COVID-19, a 
classe trabalhadora no Mundo e, particularmente no Brasil, teve, mais 
uma vez, seu já frágil acervo de direitos atacado pelo capital e mediado 
pelo Estado que, na defesa dos interesses do capital, desconsidera o 
pressuposto neoliberal da não intervenção.
A não concretização das promessas que deram sustentação para a 
narrativa da necessidade de modernização das relações laborais mate-
rializada na contrarreforma trabalhista fez com que o capital, por meio 
da força política, que ocupa o Poder Executivo Federal a partir de 2019, 
lançasse mão de mais uma tática nefasta. Com a edição da Medida 
Provisória (MP) 905, de 11 de novembro de 2019, foi instituído o “con-
trato de trabalho verde e amarelo”8. De iniciativa do Governo Bolsona-
ro, essa MP tinha a pretensão de facilitar a abertura de novos postos de 
8 Essa MP perdeu a validade quando da publicação da MP 955, de 20 de abril de 2020, em 
virtude das dificuldades de o Governo pactuar acordos no âmbito do Senado (na Câmara 
dos Deputados já havia sido aprovado) que pudessem viabilizar a votação no prazo legal 
para a continuidade de sua vigência. Apesar disso, por meio do Ministro da Economia, 
Paulo Guedes, desde logo o Governo anunciou que mandaria brevemente ao Congresso 
nova proposta com o mesmo teor. 
59
JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA
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trabalho para jovens entre 18 e 29 anos de idade. Seriam estes, segundo 
esta normativa, trabalhadores de “segunda categoria”, não merecedo-
res da proteção trabalhista instituída constitucionalmente, haja vista 
que esta modalidade de contrato poderia ser adotada para o recru-
tamento, por até 24 meses, de trabalhadores cujo salário não poderia 
ser superior a 1,5 salários nacional, com percentual de depósitos do 
Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) reduzido (2%), par-
celamento do 13º salário ao longo do ano, 20% de multa sobre o FGTS 
em virtude de rescisão contratual (e não 40%), poder de negociação 
individual sobre questões objetos de pactuação coletivas, restrições ao 
direito de indenização em caso de acidente de trabalho, entre outras 
cláusulas que corroboram para o processo de desfiguração do direito 
laboral brasileiro, intentado principalmente a partir do golpe jurídico-
-parlamentar de 2016.
Nessa mesma direção, com uma realidade ainda mais complexa em 
face de uma crise sanitária decorrente da pandemia da COVID-19, o 
Estado brasileiro, novamente fazendo uso da sua prerrogativa de dizer 
o direito, por meio da MP 927, de 22 de março de 2020, instituiu regras 
flexibilizadoras que, segundo as autoridades governamentais, teriam 
o condão de preservar os empregos e a renda dos trabalhadores no 
período da referida pandemia. Essa MP autorizou a pactuação de acor-
dos individuais escritos entre trabalhadores e os empregadores, tendo 
estes predominância sobre quaisquer outros instrumentos normativos, 
legais e negociais. Além disso, com o advento dessa MP, os emprega-
dores puderam fazer uso de um conjunto importante de mecanismos 
flexibilizadores de regras trabalhistas sob o auspício de manutenção 
dos empregos e da renda dos trabalhadores: o teletrabalho (trabalho 
remoto ou qualquer outro tipo de trabalho realizado a distância); a an-
tecipação de férias individuais; a concessão de férias coletivas; o apro-
veitamento e a antecipação de feriados; o banco de horas; a suspen-
são de exigências administrativas em segurança e saúde no trabalho; 
o direcionamento do trabalhador para qualificação; e o diferimento 
do recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), 
conforme disposto no art. 3º da norma supracitada (BRASIL, 2020a).
60
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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Na sequência foi editada a MP 936, de 1º de abril de 2020, que insti-
tuiu o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda. 
De acordo com a disposição do art. 3º da referida MP, para garantir 
os objetivos do programa as medidas a serem implementadas com-
preendiam: o pagamento de Benefício Emergencial de Preservação do 
Emprego e da Renda; a redução proporcional de jornada de trabalho e 
de salários; e a suspensão temporária do contrato de trabalho (BRASIL, 
2020b).
Ao se analisar criticamente essas medidas, ainda que de forma mui-
to breve, entende-se que o conteúdo dessas permite evidenciar exata-
mente o papel do Estado burguês. Este, que deveria estar presente para 
preservar o direito à vida, especialmente, daqueles que são hipossufi-
cientes nas relações de trabalho, em face de uma crise humanitária de 
proporções só vistas nos períodos pós-guerras, socorre o lado mais 
forte dessa relação: o capital. Essa proteção unilateral aos proprietários 
dos meios de produção chegou a ser tão violenta que na MP 927, em 
sua redação original, em seu art. 18, havia a previsão para que o empre-
gador pudesse suspender os contratos de trabalho por até 4 meses, sem 
a contraprestação pecuniária (salário) ao(à) trabalhador(a), salvo se o 
empregador quisesse lhe oferecer algum valor a título de “auxílio”!9. A 
despeito da sua revogação, fato é que essa possibilidade já estava asse-
gurada pelo art. 2º da MP 927, já que autorizava a realização de acordos 
individuais entre trabalhadores e empregadores. E, como disse Marx 
(2013, p. 309) “[e]ntre direitos iguais, quem decide é a força” e, no caso, 
a força é o poder econômico.
No fim das contas, essas prerrogativas legais delegadas ao capital 
pela mediação do Estado demonstram que o preceito neoliberal da 
não interferência estatal nas relações sociais, nas quais se inscrevem as 
relações de produção, só são proclamadas quando as ações são volta-
das para a proteção social da classe trabalhadora, fruto da luta política 
dessa classe. Contudo, o Estado capitalista é, como sempre foi, instân-
cia essencialmente necessária para a reprodução do capital, a despeito 
daquele preceito. Essa política de desfiguração dos direitos laborais se 
9 Esse dispositivo foi revogado no dia seguinte à publicação da MP 927 pela MP 928.
61
JAIME hILLEShEIME RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
articula a determinações mais amplas que pavimentam o caminho para 
a continuidade e expansão da acumulação capitalista. E, nesse sentido, 
a atuação do Estado brasileiro demarca seu caráter neoliberal na me-
dida em que promove as reformas defendidas por esta programática, a 
despeito das contradições que fragilizam seus próprios fundamentos.
Para Fontes (2010), o neoliberalismo pode ser compreendido como 
uma fase ou um período de transição para o que a autora denomina de 
capital-imperialismo. A autora afirma que os países da periferia capi-
talista se colocam em uma posição de subalternidade, mas em parce-
ria com o grande capital internacional, e sofrem processos intensos de 
expropriações primárias e secundárias, o que garante a recomposição 
das taxas de lucro das principais potências que integram as economias 
centrais.
Se o neoliberalismo tem demonstrado seu fracasso do ponto de vis-
ta econômico, do ponto de vista político-ideológico, esta programática 
tem demonstrado fôlego e garantido a implementação de estratégias 
anticíclicas de crise do capital, que têm na re-regulamentação da prote-
ção social e, particularmente, das conquistas jurídicas laborais a prin-
cipal forma de enfrentamento das quedas das taxas de lucro. No Brasil, 
esse processo vem ocorrendo desde os anos de 1990 e seu ritmo variou 
de acordo com as forças políticas que ocuparam o poder, mas todos os 
Governos desde a chamada democratização do país se alinharam às 
orientações dos organismos internacionais pautadas na política neoli-
beral. Contudo, como já mencionado, com o golpe jurídico-parlamen-
tar de 2016, os ataques ao acervo de direitos dos trabalhadores têm se 
mostrado muito mais intenso e perverso.
Portanto, as contrarreformas em curso no Brasil levadas a cabo 
sob a hegemonia do capital financeiro têm viabilidade, porque outras 
pretéritas criaram as condições para isso. Essa processualidade histó-
rica estabelece a relação entre neoliberalismo e capital-imperialismo 
(FONTES, 2010). Assim, a política neoliberal é uma fase na qual o 
capital-imperialismo se impõe diante das conquistas da classe traba-
lhadora, por meio de processos de expropriações econômicas, sociais 
e políticas. E, os agentes dessas formas de expropriações, novamen-
62
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
te encontram no Estado capitalista uma mediação indispensável para 
realizá-las.
Considerações finais
De acordo com as exposições se pode dizer que no horizonte da so-
ciabilidade do capital, os trabalhadores não poderão vislumbrar “tem-
pos melhores”, o que repõe a tarefa revolucionária anunciada por Marx 
à classe trabalhadora. Os indicadores publicados em pleno contexto 
da crise sanitária e política (e econômica) no Brasil mostram que as 
dificuldades de manutenção da vida para os trabalhadores serão ainda 
muito maiores. De acordo com os números, vem crescendo o número 
de desempregados e estão em ascensão as subcontratações, a informa-
lidade e o trabalho autônomo, este último estimulado pela narrativa 
falaciosa do empreendedorismo. Setores importantes da economia es-
tão em franca retração, como é o caso da indústria de transformação, 
construção civil, serviços domésticos e alojamento e alimentação. Isso 
tudo em um contexto de recessão que é reconhecido pelo próprio Fun-
do Monetário Internacional (FMI) como o mais intenso desde os anos 
de 1929. De acordo com esse mesmo órgão, o Produto Interno Bruto 
(PIB) do Brasil deverá, em 2020, sofrer uma queda de aproximada-
mente 6%. Essa é a maior queda desse indicador desde 1901.
Projeções mostram que as taxas de desemprego serão bastante ele-
vadas. Dados da PNAD Contínua mostram que, no 1º trimestre de 
2019, a taxa de desemprego era de 12,7% e no mesmo trimestre, em 
2020, essa taxa era de 12,2%, o que à primeira vista desmonta os argu-
mentos. Contudo, como já demonstrado, mesmo após a aprovação da 
contrarreforma trabalhista em 2017, que teria o condão de criar empre-
gos, nos anos imediatamente subsequentes, isso não ocorreu e, conco-
mitantemente, os empregos gerados o foram com base em condições e 
relações de trabalho mais precárias. De todo modo, no Nordeste, no 1º 
trimestre de 2020, a taxa de desemprego chegou ao patamar de 15,6% 
e o Sudeste em 12,4%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e 
63
JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
Estatística (IBGE, 2020)10. Além disso, esses dados dizem respeito à 
realidade do mercado de trabalho brasileiro no contexto pré-pandê-
mico. Projeções com base em pedidos de Seguro Desemprego no mês 
de abril de 2020 indicavam que as taxas de desocupação no Brasil, em 
2020, atingirão o patamar de 18% da força de trabalho11.
Por fim, nesse cenário, o Governo Federal, por meio das políticas 
de Estado, adota uma tática que pouco atende as necessidades dos tra-
balhadores, pois os recursos e medidas adotadas, mais uma vez, socor-
rem o grande capital. Isso restou claro quando, em reunião ministerial 
polêmica, o Ministro da Economia Paulo Guedes afirmou que o Go-
verno perderia dinheiro salvando pequenas empresas12. Essa não foi a 
programática adotada, por exemplo, no velho Continente. A Comissão 
Europeia passou a orientar os países da União Europeia a flexibilizarem 
as regras orçamentárias até então seguidas, bem como aquelas relativas 
aos auxílios estatais. Para proteger os empregos, a referida Comissão 
propôs um novo instrumento de solidariedade chamado SURE13, com 
vistas a manter o rendimento dos trabalhadores e prestar socorro às 
empresas em dificuldades. Por meio do SURE, a União Europeia des-
tinou cerca de 100 milhões de euros para que seus objetivos fossem 
alcançados14. De todo modo, tanto lá como cá se constata a interven-
10 Dados disponíveis em: https://www.ibge.gov.br/explica/desemprego.php. Acesso em: 14 
mai. 2020. 
11 Dados disponíveis em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/05/10/desemprego-
-pode-ser-o-maior-dos-ultimos-25-anos-preveem-analistas.ghtml. Acesso em: 20 mai. 
2020. 
12 É importante destacar que, segundo dados do CAGED, são as pequenas empresas as maio-
res geradoras de postos de trabalho no Brasil. Em 2019, as micro e pequenas empresas 
foram responsáveis pela abertura de aproximadamente 731 mil vagas formais. Já as médias 
e grandes empresas, no mesmo ano, fecharam 88 mil postos com carteira assinada. Mais, 
ao se ampliar o lastro histórico desses indicadores se chega a números bastante dispares. 
Tomando como referência o período entre 2007 a 2019, as pequenas empresas criaram 12,4 
milhões de vagas. No mesmo lapso de tempo, as médias e grandes empresas fecharam 1,5 
milhão de postos de trabalho. Disponível em: https://spbancarios.com.br/05/2020/o-des-
prezo-de-paulo-guedes-pelo-banco-do-brasil-e-pelas-pequenas-empresas. Acesso em: 15 
mai. 2020. 
13 Esta iniciativa integra a chamada Comissão Especial sobre os Desafios Políticos e os Re-
cursos Orçamentais para uma União Europeia Sustentável (SURE), existente desde 2013.
14 Informações disponíveis em: https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/pt/
IP_20_582. Acesso em: 21 mai. 2020. 
64
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
ção forte e direta do Estado para salvaguardar os interesses do capital, 
sempre orientada para flexibilizar e/ou suprimir direitos sociais, que 
compõem a herança da luta dos trabalhadores pelo acesso à riqueza 
por eles próprios produzida.
Referências
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as medidas trabalhistas para enfrentamento do estado de calamidade públi-
ca reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, e da 
emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do 
Coronavírus (COVID-19), e dá outras providências. Disponível em: http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/Mpv/mpv927.htm. Aces-
so em: 13 mai. 2020.
__________. Medida Provisória n.º 936, de 1º de abril de 2020b. Institui o 
Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda e dispõe so-
bre medidas trabalhistas complementares para enfrentamento do estado de 
calamidade pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de mar-
ço de 2020, e da emergência de saúde pública de importância internacional 
decorrente do Coronavírus (COVID-19), de que trata a Lei nº 13.979, de 6 
de fevereiro de 2020, e dá outras providências. Disponível em: https://www.
youtube.com/watch?v=FMr21Zoq_RM. Acesso em: 13 mai. 2020.
__________. Medida Provisória n.º 905, de 11 de novembro de 2019. Institui 
o Contrato de Trabalho Verde e Amarelo, altera a legislação trabalhista, e dá 
65
JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA
◀ Voltar ao sumário
outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_
ato2019-2022/2019/Mpv/mpv905.htm. Acesso em: 11 mai. 2020.
__________. Lei n.º 13.429, de 31 de março de 2017a. Altera dispositivos da 
Lei n.º 6.019, de 3 de janeiro de 1974, que dispõe sobre o trabalho temporário 
nas empresas urbanas e dá outras providências; e dispõe sobre as relações 
de trabalho na empresa de prestação de serviços a terceiros. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13429.htm. 
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__________. Lei n.º 13.467, de 13 de julho de 2017b. Altera a Consolidação das 
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1943, e as Leis n.º 6.019, de 3 de janeiro de 1974, 8.036, de 11 de maio de 1990, 
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66
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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67◀ Voltar ao sumário
CAPÍTULO 3
Os efeitos da pandemia do novo 
Coronavírus e as imposições 
mundiais sobre a América Latina1
Ruteléia Cândida de Souza Silva
Suzana Przybyszewski Barros
Apontamentos Iniciais
Se a crise que assolou o Mundo capitalista em 2008 era, inegavel-
mente, a mais forte desde a Grande Depressão e as consequências de 
sua natureza ainda mais devastadoras, a sociedade foi surpreendida, 
em 2020, com a inesperada crise da COVID-19 (ou Sars-CoV-2)2. E se 
as crises registradas na história recente – em especial, as de 1929 e 2008 
– foram crises econômicas próprias do capital, a atual se coloca em um 
campo distinto, uma vez que o detonador desta não tem origem a par-
tir dos fundamentos da economia capitalista.
Embora existam profundas e estruturais vinculações e seus efeitos 
devastadores possam superar, no campo econômico e social, o que ha-
1 Os dados e análises contidas neste ensaio fazem parte dos estudos realizados no âmbito da 
pesquisa Trabalho, pobreza e desigualdade social na atual geopolítica latino-americana, sob 
a coordenação da Professora Ruteléia Cândida de Souza Silva.
2 Sars-CoV-2 significa: severe acute respiratory syndrome coronavirus 2. Em tradução livre: 
Síndrome Respiratória Aguda Grave do Coronavírus 2. Nome oficial escolhido pela Orga-
nização Mundial da Saúde (OMS) para identificar em estudos científicos a COVID-19 ou 
o Coronavírus 2: doença infecciosa causada por um novo agente do Coronavírus – não 
identificado anteriormente em humanos – que causa graves infecções respiratórias. Des-
coberta em dezembro de 2019, após casos registrados na China, ainda está submetida a 
pesquisas científicas para detalhamento, identificação e comprovação de possíveis trata-
mentos e vacinação.
68
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
via ocorrido anteriormente em períodos de crises econômico-finan-
ceiras. Apenas para exemplificar, mesmo que os Estados Unidos (EUA) 
tenham recriado 9.279 milhões de postos de trabalho entre os meses de 
maio, junho e julho de 2020 – número muito acima das expectativas e 
que reduziu a projeção da taxa desemprego de 14,7% para 10,2% –, en-
tre as semanas de 14 de março e 15 de agosto de 2020 foram registrados 
57,4 milhões de desempregados(as), que solicitaram auxílio-desempre-
go, média de 2,49 milhões de pedidos por semana.
O fato é que a COVID-19, além da gravidade sobre a vida huma-
na, considerando seu potencial de contágio e elevadaletalidade, tem 
causado impactos econômicos e sociais imediatos, que já se mostram 
irreversíveis, como a elevação das taxas de desemprego e, por extensão, 
o aprofundamento da pobreza e da desigualdade. E ainda não se sabe 
se, após o período de maior turbulência, serão processadas mudanças 
nas grandes cadeias produtivas globais, ou até mesmo se avanços na 
proteção social serão registrados.
No entanto, apesar de todo o cenário pessimista que se avizinha, 
o mais presumível é que não sejam registradas grandes rupturas. Ao 
contrário, o que se mostra provável é a intensificação das mudanças 
já em curso desde as últimas décadas do século passado, com apro-
fundamento da ordem ultraliberal, do hegemonismo norte-americano, 
da influência econômica chinesa e do conservadorismo, que vem se 
alastrando nas décadas iniciais do século XXI.
O que se tem desenhado, com maior clareza, está relacionado aos 
países periféricos que aprofundam sua submissão aos organismos in-
ternacionais e ao seu receituário baseado em políticas de austeridade 
fiscal e nas medidas de ajuste diante das dívidas imediatas da pandemia, 
ou seja, nesses países, além de toda gravidade sanitária, certamente, a 
conta do enfrentamento do Coronavírus aprofundará ainda mais as 
investidas sobre o trabalho, a miséria e a desigualdade social, enquanto 
todos os esforços se voltam para manter intocada a taxa de lucro do ca-
pital. Condições essas que, na América Latina, são agravadas pelo seu 
caráter de dependência, pelos sistemas regressivos de proteção social 
e pela transferência do fundo público para os grandes conglomerados 
econômicos e financeiros.
69
RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
◀ Voltar ao sumário
E a América Latina já amarga alguns dos efeitos avassaladores dessa 
pandemia, com destaque para os números expressivos de vítimas fatais e 
de contaminados pelo Sars-CoV-2, com destaque para Brasil, Peru, Mé-
xico, Colômbia, Chile, Argentina, Bolívia e Equador. E o mais previsível 
é que mesmo em plena pandemia da COVID-19 – cuja velocidade de sua 
expansão tem sido acompanhada pela rápida elevação das taxas de desem-
prego – e diante da necessidade de intervenção estatal, os Governos ultra-
liberais continuem reforçando a pressão para avançar nas reformas admi-
nistrativas, tributárias e trabalhistas, de modo a desonerar empresas, em 
especial, os grandes conglomerados empresariais e o sistema financeiro.
Um exemplo são as medidas adotadas pelo Governo brasileiro no 
combate aos efeitos dessa pandemia: enquanto o Auxílio Emergencial3 
tem previsão de pagamento de 05 (cinco) parcelas de R$ 600,00 (seis-
centos reais), alcançando, aproximadamente, um total de R$ 254 bi-
lhões4; enquanto o socorro aos bancos já anunciado pelo Banco Cen-
tral supera a casa de R$ 1.216 trilhão, o que representa em torno de 
16,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Ao mesmo tempo que 
o Ministro da Economia tem ampliado a sua defesa para a retomada 
das discussões em torno das reformas administrativa e tributária5, e 
3 Benefício financeiro destinado aos(às) trabalhadores(as) informais, microempreendedo-
res(as) individuais (MEIs), autônomos(as) e desempregados(as) durante a pandemia da 
COVID-19, maiores de 18 anos, ou mães com menos de 18 anos, pertencentes à famílias 
com renda mensal por pessoa de até meio salário mínimo (R$ 522,50), ou renda familiar 
total de até três salários mínimos (R$ 3.135,00). Sendo inelegíveis aqueles(as): com empre-
go formal ativo; pertences à famílias com renda familiar mensal superior a três salários mí-
nimos ou a meio salário mínimo por pessoa; que estejam recebendo seguro desemprego, 
benefícios previdenciários, assistenciais ou de transferência monetária federal, exceto o 
Programa Bolsa Família; com rendimentos tributáveis na declaração do Imposto de Renda 
de 2018 acima de R$ 28.559,70. A mulher provedora de família monoparental tem o direito 
de receber o valor do Auxílio em dobro, R$ 1.200,00, mesmo que a família tenha outro(a) 
trabalhador(a) elegível.
4 E mesmo com a ampliação do número de parcelas, com redução do valor de R$ 600,00 
(seiscentos reais) para R$ 300,00 (trezentos reais), muito provavelmente o recurso total 
não ultrapassará a casa dos 400 bilhões. 
5 A primeira com efeitos regressivos para o conjunto de servidores públicos e a última que 
pode aprofundar e facilitar ainda mais a concentração de renda. Um exemplo é que o 
Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 45/2019 da reforma tributária, que tramita no 
Congresso Nacional brasileiro, sequer aponta para a construção de um sistema tributário 
progressivo, que prioriza a tributação da renda e do patrimônio. 
70
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
encaminhado um conjunto de Medidas Provisórias, que aprofundam 
a precarização das leis trabalhistas.
Sob tais condições, a dominação imperialista tem intensificado a 
luta violenta pela supremacia do capitalismo em si mesmo, constituin-
do uma realidade destrutiva, sobretudo, no âmbito de destituição de 
direitos sociais e da superexploração do trabalho, que produz e repro-
duz desigualdades, violências e pobreza. E se está fazendo referência 
a uma dinâmica de sociedade que produz incessantemente a máxima 
desigualdade e que, em tempos de pandemia do novo Coronavírus, em 
todos os quadrantes, já impõem resultados catastróficos para as mas-
sas trabalhadoras e o conjunto das classes subalternas.
E diante do espectro que passa a circundar a vida de milhões de 
trabalhadores(as) – medo do desemprego, da precarização e, em es-
pecial, medo de não suprir as condições necessárias para sua sobre-
vivência e de sua família –, o capital encontra as condições propícias 
para forçar esses(as) trabalhadores(as) a aceitar, não apenas a inten-
sificação dos ritmos de produção, como também todo tipo de recuo, 
aniquilamento e mercantilização de direitos e garantias sociais. Como 
essas características já eram intensificadas na América Latina, diante 
do alastramento do conservadorismo e do ultraliberalismo econômico; 
agora, mediante o confronto com uma pandemia de proporções incal-
culáveis, segmentos populacionais, que já se encontravam em extrema 
penúria, são lançados em um completo abismo.
O que se agrava porque essa região segue sendo apresentada pelos 
diferentes organismos internacionais como aquela que tem a pior dis-
tribuição de renda do mundo, superando o Sul da Ásia e a África Sub-
sariana. E enquanto há uma grande concentração de riqueza nas mãos 
de uma minoria – detentora de bens e capital –, parcela majoritária 
da população permanece destituída da riqueza socialmente produzida, 
naturalizando nessa região a relação contraditória entre socialização 
da produção e apropriação privada da riqueza produzida.
Diante dessa complexidade, pensar o futuro que se avizinha para 
essa região, após a pandemia do novo Coronavírus, não é uma tarefa 
fácil, sobretudo, para não incorrer no risco de alcançar meras espe-
culações. Considerando esse desafio, o exercício teórico que se pro-
71
RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
◀ Voltar ao sumário
põe ao longo deste ensaio parte de uma discussão que, para além de 
elementos consagrados na leitura bibliográfica do passado, apresenta 
informações atuais que possam dar pistas sobre a grande incógnita que 
paira sobre a América Latina, tanto no que diz respeito à dominação 
capitalista sobre essa região, como também sobre o aprofundamento 
da pobreza e da desigualdade, a geopolítica latino-americana e a pola-
rização das potências mundiais.
Nesse sentido, o momento que segue a esta parte introdutória se 
dedica ao debate sobre o hegemonismo norte-americano e a influência 
econômica externa sobre os países da América Latina. Para, em segui-
da, debater sobre alguns dados relativos aos efeitos da pandemia da 
COVID-19 nessa região, considerando algumas medidas interestatais 
e a dinâmica capitalista que se impõe ao conjunto de países latino-a-mericanos.
1 O hegemonismo norte-americano e o 
poderio econômico chinês: faces da 
dominação capitalista na América Latina 
no século XXI
A crise que tem assolado o mundo capitalista nos anos 2000 conduz 
a uma longa viagem no tempo, uma vez que essa se gestou vinculada 
a uma das mais importantes viradas das últimas décadas: o poderio 
econômico, político e ideológico que se desenhou a partir da crise dos 
anos de 1970. Como registra o historiador Lundestad:
In the 1960s the United States was having difficulties with its ba-
lance of payments, in the 1970s with its balance of trade – for 
the first time since 1883 – and in the mid 1980s, the US in fact 
became a net debtor country. […]. In fact in its period of impe-
rial greatness, America’s economic growth slipped behind that 
of almost every major Western powers. In 1950, Canada, France, 
West Germany, Italy and Japan had economies corresponding to 
respectively 6, 11, 11, 6, and 7% of the US gross national product. 
72
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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In 1975 these percentages had increased to 10, 16, 19, 9 and 23. 
Only that old imperial power, Britain, experienced slower gro-
wth than the United States. (The British GNP constituted 14% of 
the US GNP in 1950; in 1975 this had fallen to 12) (LUNDESTAD, 
1986, p. 273-274).6
De acordo com as análises do historiador norueguês (LUNDESTAD, 
1986), desde a década de 1970 o declínio da liderança dos EUA sobre 
outras potências não ocorre somente no campo militar, mas alcança, 
particularmente, a esfera econômica. O que demandou dos Estados 
Unidos a redefinição de suas relações econômicas. Desde essa época 
foram definidas as novas políticas e regras responsáveis pela elevação 
exponencial da riqueza e do poder norte-americano, que deixa a con-
dição de um dos principais credores internacionais, para a condição de 
grandes devedores da economia mundial.
E por mais contraditório que possa se apresentar, a dívida e a capa-
cidade de endividamento transformaram os Estados Unidos no motor 
da economia mundial desde aquela década, ou seja, dotado de uma 
compulsividade desenfreada, transformou-se em uma verdadeira má-
quina de acumulação de riqueza e poder. E todo esse cenário ganhou 
propulsão com o fim do acordo de Bretton Woods7, quando se consa-
6 Tradução livre: “Nos anos 1960, os Estados Unidos estavam tendo dificuldades com o seu 
balanço de pagamentos, na década de 1970 com o seu balanço comercial – pela primeira 
vez desde 1883 – e em meados da década de 1980, os Estados Unidos já haviam se tornado 
um devedor líquido. […]. De fato, mesmo durante o seu período de grandeza imperial, o 
crescimento econômico da América ficou abaixo do crescimento de quase todas as prin-
cipais potências Ocidentais. Em 1950, Canadá, França, Alemanha Ocidental, Itália e Japão 
correspondiam respectivamente a 6, 11, 11, 6 e 7% do Produto Nacional Bruto [PNB] dos 
Estados Unidos. Em 1975, esses percentuais aumentaram para 10, 16, 19, 9 e 23. Apenas a 
antiga potência imperial, a Grã-Bretanha, experimentava um crescimento mais lento do 
que os Estados Unidos. (O PNB Britânico correspondia a 14% do PNB dos EUA em 1950; 
em 1975, esse número havia caído para 12)”.
7 Nome dado ao Acordo assinado em 1944, na cidade homônima nos Estados Unidos, pelos 
países aliados que definiram as bases que regeriam a política econômica global após a Se-
gunda Guerra Mundial. Esse Acordo foi responsável por estabelecer o sistema de gerencia-
mento econômico internacional, definindo regras para as relações comerciais e financeiras 
entre os países industrializados e ações para recuperação e expansão do comércio interna-
cional, seja por meio de concessão de empréstimos – simplificando a transferência de di-
73
RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
◀ Voltar ao sumário
grou a substituição do padrão dólar-ouro pelo novo sistema monetário 
internacional de dólar flexível, cujo lastro se concentra, em última ins-
tância, no poder financeiro estadunidense diante da sobrevalorização 
do dólar, e em seus títulos da dívida pública. Assim como pela adoção 
de políticas de desregulação dos mercados financeiros anglo-america-
nos, líderes do processo de globalização financeira do final do século 
passado.
Data também dessa época que os Estados Unidos e China, à sombra 
da derrota norte-americana no Vietnã em 1973, negociaram uma nova 
parceria econômica (incluindo a compra de títulos da dívida pública 
dos EUA pelos chineses), parceria esta que se transformou na gran-
de locomotiva da economia mundial no início do século atual (XXI). 
Logo, o que poderia sinalizar para uma grande derrocada norte-ame-
ricana serviu de alavanca, contribuindo para que o Mundo assistisse 
uma mudança profunda da economia mundial, com o aumento expo-
nencial do poder estadunidense.
A China também desponta como importante centro da economia 
internacionalizada e, se no início dos anos 1990, a sua participação no 
PIB mundial era irrisória, a partir dos anos 2000, a China assume o 
papel de fábrica do Mundo, alcançando taxas de crescimento do PIB na 
casa dos dois dígitos anuais, com média de crescimento de 10,4% entre 
os anos 2000 e 20088. E graças ao dinamismo e a extensão de seu mer-
cado interno, assume a condição de articulador das demais economias 
mundiais, expandindo sua influência sobre os países periféricos, como 
parte de suas estratégias econômico-políticas.
nheiro entre as nações –, seja por meio da utilização dos fundos. Também estabeleceu um 
reordenamento que se materializou sob a égide absoluta da supremacia norte-americana, 
além de: firmar um compromisso putativo de convertibilidade do ouro em dólar a um 
preço fixo, ou seja, taxas de câmbio fixo, mas ajustáveis, tendo como referência o valor de 
US$ 35 por onça de ouro; estabelecer o controle dos fluxos de capital internacional; traçar 
as diretrizes de criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Internacional 
para Reconstrução e Desenvolvimento (Banco Mundial) e do Acordo Geral sobre Tarifas e 
Comércio (GATT) que, desde 1994, passou a chamar Organização Mundial do Comércio. 
Com o fim desse Acordo, o padrão dólar-ouro dá lugar ao padrão dólar-flexível, criando 
as condições propicias para a supremacia das finanças em sua face fictícia. 
8 Somente as exportações chinesas cresceram a uma taxa média anual de 20,0% entre os 
anos 2000 e 2007.
74
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Pinto (2011) registra que a expansão econômica chinesa, associada 
ao seu processo de industrialização e de modernização, e ao aumento 
da parcela da renda mundial, afetou diretamente a economia em todo 
o Globo, tanto no que se refere à oferta quanto à demanda em esca-
la mundial. O que fez com que a China passasse a desempenhar um 
novo papel na dinâmica global. Além de se tornar a fábrica do Mundo, 
ganhando destaque como o principal produtor e exportador mundial 
de produtos de tecnologia da informação e de bens de consumo in-
dustrial – com uso intensivo de força de trabalho e tecnologia voltada, 
principalmente, aos mercados americano e europeu; a China se tornou 
um grande mercado consumidor: de máquinas e de equipamentos de 
alta tecnologia e produtos acabados vindos da Alemanha, Japão e Co-
reia do Sul; e de produtos básicos ou commodities (petróleo, minerais, 
produtos agrícolas, entre outros) vindo de países africanos, latino-a-
mericanos e asiáticos. Atuando no campo da oferta e da demanda, a 
China provocou transformações significativas na economia mundial, 
de modo mais incisivo a partir dos anos 2000, como o: aumento sig-
nificativo nos preços internacionais de commodities; pequena elevação 
nos preços de produtos manufaturados; melhoria nos termos de troca 
dos países exportadores de produtos primários.
Com a chegada deste novo século (XXI), Estados Unidos e China 
assumem, definitivamente, a dianteira da dinâmica econômica global, 
mantendo forte grau de interconexãoartigos.
No debate sobre a recuperação econômica, após a possível saída da 
crise pós-pandemia, a perspectiva é desanimadora, como apontam de-
talhadamente alguns capítulos. Os economistas mais críticos sinalizam 
para uma recuperação que, metaforicamente, pode ser comparada à 
letra K, com a parte inferior significando uma lenta recuperação para 
os segmentos empobrecidos e a superior, uma rápida e ampliada re-
composição da situação financeira pré-pandemia para os segmentos 
da elite empresarial e, principalmente, financeira.
No plano político, o principal e assustador fato é o reconhecimento 
de não se tratar de uma crise entre posições de esquerda e direita dentro 
de um quadro democrático, ainda que frágil e não consolidado, em al-
guns países, mas sim uma crise da própria democracia, anunciada por 
Dardot e Laval (2016) e reconhecida e analisada por Adam Przeworski 
(2020)4. E a crise do século XXI apresenta particularidades distintas de 
3 GRASSI, Estela. Prólogo. In: MINTEGUIAGA, Analía; AGUILAR, Paula Lucia. La dispu-
ta por el bienestar en América Latina en tiempos de asedio neoliberal. Ciudad Autóno-
ma de Buenos Aires: CLACSO, 2020, p. 09-20.
4 PREZWORSKI, Adam. Crises da democracia. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. 
8
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
outras anteriores pelo fato de ocorrer dentro das instituições tradicio-
nais, justamente as responsáveis pelas garantias constitucionais.
Esse comportamento institucional é acertadamente denominado 
por Przeworski como “autoritarismo furtivo”, ganhando espaços as re-
formas incrementais pouco visíveis, e menos ainda reconhecidas pela 
população em geral. Ainda que se considere a fragilidade persistente 
das instituições e dos ritos democráticos, o autor alerta para a fragili-
dade de análises que desconsideram as distinções entre os países. Pr-
zeworski e Wallerstein5, em 1988, já prenunciavam a encruzilhada do 
capitalismo pós-queda do muro de Berlin, ou seja, ou o capitalismo 
cumpriria suas promessas originais de igualdade ou seria capturado 
por crises constantes e incontroláveis. Até o momento, as crises vêm 
sendo frequentes, embora controláveis a partir da concentração expo-
nencial da renda e sob pena de expansão das desigualdades sociais e 
das ameaças ambientais e geopolíticas. O que os autores não previram 
foi a ameaça que surgiria exatamente dentro de forças políticas alheias 
ao mainstrean dos países Ocidentais democráticos e capitalistas. São os 
líderes populistas, que acabam sendo eleitos com uma narrativa supos-
tamente antiestado, autoritários e intolerantes, modelando um futuro 
incerto para as nações.
A terceira, mas não menos importante, razão a qualificar a coletâ-
nea se localiza no trânsito entre as abordagens sobre as críticas fun-
dantes da desigualdade e o seu afunilamento para o Serviço Social, 
em duas vertentes: as políticas sociais setoriais e o impacto sobre a di-
mensão do trabalho em si e na cultura profissional. Nós, assistentes 
sociais, estamos vivendo um momento de retrocesso civilizatório no 
Brasil que, até certo ponto ingenuamente, acreditávamos tivesse sido 
superado, ou seja, após o período de possibilidades de expansão de 
direitos sociais com a instituição de sistemas tendentes a ampliar os 
sistemas universais de saúde e assistência social e as medidas protetivas 
para segmentos populacionais, muitas vezes, invisíveis para a socieda-
de em geral, como as populações originárias, LGBT, moradores de rua 
e vítimas de violência doméstica e racial, retorna-se à concepção de 
5 PREZWORSKI, Adam; WALLERSTEIN, Michael. Capitalismo democrático na encruzi-
lhada. São Paulo: CEBRAP: Novos Estudos, 1988.
9
VERA MARIA RIBEIRO NOGUEIRA 
intervenção estatal de início do século XX. O pacto social que orien-
tou a Constituição brasileira de 1988, embora tenha criado as bases 
para uma intervenção estatal compatíveis com os ideais de democra-
cia, justiça e igualdade desejáveis à época perdeu sua força instituin-
te. A conformação subsequente do aparelho estatal, e das instituições 
responsáveis pela implementação das deliberações constitucionais não 
foram e não estão sendo suficientes para barrar as medidas autoritárias 
e retrógradas em todos os setores do Governo atual.
E ao trabalho profissional fica a tarefa de responder às demandas 
populacionais e institucionais decorrentes desse novo cenário. Os tex-
tos finais da coletânea apontam perspectivas para se pensar a profissão, 
a partir das condições objetivas de trabalho dos assistentes sociais, na 
formulação e gestão das políticas sociais e os impactos na cultura po-
lítica. Torna-se, assim, importante refletir sobre a ação profissional no 
ciclo possível das políticas sociais em sua dinâmica de concretização, 
materializada em serviços, ações e programas. Esta afirmação decor-
re do debate recente sobre a implementação das decisões políticas ao 
indicar que esse momento não pode ser visto como um resultado li-
near das grandes decisões. Atores políticos responsáveis pela imple-
mentação das políticas, face a diversidade de interesses no plano local 
modelam, em parte, a materialização das propostas programáticas das 
políticas setoriais.
A consideração acima, aliada à compreensão de ação profissional se 
constituir em trabalho em serviços, com as particularidades e o poten-
cial, que essa apreensão acarreta, pode ser um caminho para aprofundar 
a competência profissional em três vertentes: a primeira, na formula-
ção correta das possibilidades, ainda que restritas, de intervenção nesse 
cenário desolador; a segunda, no recorte de novos objetos de estudo 
sobre as consequências perversas das programáticas governamentais; 
e a terceira, em manter a chama do projeto ético-político via respos-
tas coletivas. Na atual conjuntura brasileira, com o rompimento incre-
mental do círculo virtuoso posto pela Constituição Federal, pautado 
na cidadania e garantia de direitos, é crucial fortalecer as competências 
profissionais no campo da implementação e análise das políticas.
10
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
Este preâmbulo dá a medida da contribuição da Coletânea que hora 
chega ao público e se constituí em um alento em tempos sombrios, e 
instigante para a busca de caminhos profissionais a serem trilhados.
Vera Maria Ribeiro Nogueira
Outubro de 2020
SUMÁRIO
Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Autoras(es) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
CAPÍTULO 1 
Crise do capital, restauração conservadora, 
ultraneoliberal e desfinanciamento dos Direitos 
Sociais: a Assistência Social em questão . . . . . . . . . . . . . . . 24
Maria Carmelita Yazbek
CAPÍTULO 2
Crise, Estado e precarização do trabalho . . . . . . . . . . . . . . . 44
Jaime Hillesheim
Ricardo Lara
CAPÍTULO 3
Os efeitos da pandemia do novo Coronavírus e 
as imposições mundiais sobre a América Latina . . . . . . . . 67
Ruteléia Cândida de Souza Silva
Suzana Przybyszewski Barros
CAPÍTULO 4
Agronegócio: salvação da economia latino-
americana em tempos de pandemia? . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
Márcia Cristina Verdego Gonçalves
Ruteléia Cândida de Souza Silva
CAPÍTULO 5
Da grande epopeia capitalista à pandemia e ao 
pandemônio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
Renato Tadeu Veroneze
CAPÍTULO 6
Notas sobre a relação entre cidade e Estado na 
contemporaneidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
Betina Ahlert
CAPÍTULO 7
Lucro acima de tudo, repressão para cima de 
todos: tendências para as políticas sociais no 
Brasil após crise de 2008 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .entre suas economias. E após o 
fracasso das guerras do Afeganistão e do Iraque, acompanhada pela 
desvalorização do dólar mediante a crise financeira de 2007 e de 2008, 
mais uma vez voltou a se cogitar o “colapso” e a “crise final” da hege-
monia norte-americana, os resultados apresentados apontaram que se 
está longe da derrocada dos Estados Unidos da liderança capitalista. E 
o maior sinal do poderio norte-americano é que durante a segunda dé-
cada do século XXI, sua economia elevou a participação no PIB mun-
dial, de 23% para 25%, enquanto seu mercado de capitais cresceu 250%.
Como afirmam Pinto e Gonçalves (2014), ainda que o crescimen-
to da economia da China tenha sido associado ao desenvolvimento 
de sua indústria e ao seu rápido processo de modernização, parte do 
seu dinamismo decorre da integração da produção entre este país e os 
75
RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
◀ Voltar ao sumário
Estados Unidos no eixo sino-americano. Embora o desenvolvimento 
da economia chinesa tenha sido responsável por efeitos significativos 
no desempenho da economia mundial, sendo protagonista de um dos 
eixos estruturantes da globalização, essa economia não substitui os Es-
tados Unidos como locomotiva da economia global. Ao contrário, o 
que se registra é a crescente interdependência entre as duas principais 
potências mundiais.
Ainda, segundo Pinto e Gonçalves (2014), as análises não deixam 
dúvidas: se, por um lado se tem o aumento do poder econômico da 
China; por outro se tem a manutenção de um alto poder econômico 
estadunidense, mesmo após os efeitos da crise de 2008. Desse modo, 
os Estados Unidos ainda estão na dianteira da indústria de processa-
mento; controlam a moeda internacional; e possuem um mercado in-
terno com forte poder de compra. Enquanto a China, embora tenha 
vivenciado, nesse novo século, o ápice de sua fase de modernização, 
também se deparou no momento após crise de 2008, com o esgarça-
mento gradual de seu modelo econômico, reduzindo, para níveis cada 
vez maiores, a sua taxa de crescimento, passando de 13% em 2007 para 
6,9% em 2019.
Os anos 2000 também colocaram em evidência as tensões regis-
tradas em torno da disputa acirrada entre China e os Estados Unidos, 
que se agrava nos dias atuais diante do posicionamento do presidente 
Donaldo Trump de declará-la como seu principal rival estratégico. E 
no centro dessa disputa, os EUA também se viram forçados a alterar o 
conjunto de sua política econômica, passando a incentivar a exporta-
ção de capital; a exercer sua influência em Continentes e Regiões como 
a África e a América Latina; e constituir um mercado interno ainda 
mais forte, capaz de promover maior estabilidade e autonomia, e alçar 
o país à condição de novo elo da cadeia imperialista.
E com essas tensões se avolumando e que colocam declaradamente 
esses dois países em polos opostos de uma intensa e declarada guerra 
comercial, os EUA elevaram, em 2018, a tarifa de importação de apro-
ximadamente mil produtos chineses – cereais, químicos, combustíveis 
e materiais de construção, entre outros –, de 10% para 25%. Em re-
presália, a China impôs retaliações, aplicando o mesmo percentual de 
76
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
tarifas sobre produtos agrícolas e maquinários norte-americanos. O 
que favoreceu as relações comerciais entre China e os países da Amé-
rica Latina. No entanto, ainda que em curto prazo, a relação comercial 
entre China e os países latino-americanos tenha se intensificado diante 
dessa guerra comercial – em especial com a Argentina e o Brasil –, os 
preços da soja, do cobre, do minério de ferro e de outras matérias-pri-
mas, sofreram grande retração diante da baixa demanda chinesa.
E a consequência não poderia ser outra: ao invés de crescimento ex-
pressivo, as maiores economias latino-americanas se depararam com 
quedas ou, no máximo, com resultados insignificantes em 2019. O que 
aconteceu não apenas com Brasil e Argentina, mas também com Chile, 
Peru, Colômbia e México. Apenas a título de exemplificação, o PIB em 
2019: cresceu na Colômbia, 3,3%; no Peru, 2,16%; no Brasil e no Chile, 
1,1%; enquanto o México registrou queda de 0,1% e a Argentina queda 
de 2,2%.
Por outro lado, o hegemonismo norte-americano tem se imposto 
à América Latina, como nos demais estágios do imperialismo, a partir 
de relações internacionais de poder que se apropriam de instrumentos, 
como a violência econômica direta:
[...] a corrupção, a subversão e a guerra. E o principal instru-
mento político é sempre a instalação de um governo local pró-
-imperialista. A colaboração das elites do país dominado é fun-
damental, bem como, no capitalismo contemporâneo, a ação 
de instituições internacionais, como a Organização do Tratado 
Atlântico Norte (OTAN), o Fundo Monetário Internacional 
(FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio 
(OMC). Economicamente, o objetivo dessa dominação é a extra-
ção de ‘excedentes’ pela imposição de preços baixos aos recursos 
naturais e investimentos no exterior, seja ele em bolsa ou o in-
vestimento externo direto (DUMÉNIL; LÉVY, 2014, p. 19, grifos 
dos autores).
Como resultado desse novo padrão de reprodução do capital vi-
gente na América Latina se tem o reforço de suas particularidades e 
77
RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
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determinações históricas marcadas pelo desenvolvimento desigual e 
o caráter dependente frente às economias centrais, o que também tem 
acentuado a superexploração da força de trabalho e exigido, mais uma 
vez, a readequação do Estado latino-americano a esse novo padrão de 
reprodução do capital. No âmbito da América Latina, todo esse cená-
rio se enquadra em um movimento de retomada da valorização do 
capital que tem imposto para essa região:
[...] um ajuste estrutural que fez com que a economia voltasse a 
um padrão de inserção na divisão internacional do trabalho 
caracterizado pela especialização de sua estrutura produtiva, 
e da pauta exportadora, em produtos primários, baseados em 
recursos naturais, com baixas produtividades, em média, e ainda 
com forte presença de capital estrangeiro. Em poucas palavras, 
um tripé que acentua os mecanismos de transferência de valor e, 
portanto, a dependência de nossas economias (CARCANHOLO, 
2014, p. 14, grifos nossos).
No interior da dinâmica apresentada por Carcanholo (2014), fra-
ções das burguesias internas, entrelaçadas ao processo internacional 
de concentração de capital – dinâmica essa que Fontes (2010) nomina 
de formas de capital pornograficamente entrelaçadas – passam a contar 
com o apoio estatal para impulsionar “[...] processos de internaciona-
lização de capitais a partir de suas próprias bases locais, mesmo incor-
porando significativa presença de capitais forâneos9” (FONTES, 2010, 
p. 206). E como já havia afirmado Fernand Braudel (1987, p. 43): “O 
capitalismo só triunfa quando se identifica com o Estado, quando é o 
Estado”.
Não bastasse estar submetida a esse novo padrão de reprodução do 
capital, às tensões entre seus maiores parceiros comerciais, ao hegemo-
nismo norte-americano, e à influência econômica chinesa, a América 
Latina, como as demais regiões do Globo, é arrastada para o centro 
de um tsumani chamado Sars-CoV-2, cujos impactos se traduzem em 
9 Estrangeiro.
78
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
números estratosféricos de contaminados e, em mais mortes, mais de-
semprego, mais pobreza e mais desigualdade. Para agravar, conta com 
países como o Brasil – na pessoa do Presidente Jair Messias Bolsonaro10 
– e a Nicarágua – com o Presidente Daniel Ortega11 –, que encabeçam o 
quarteto de negacionistas da pandemia, ao lado do Turquemenistão12 
– país da Ásia Central – e da Belarus (a outrora Bielo-Rússia, no Leste 
europeu)13.
No entanto, será que diante da extensão e da profundidade da crise 
resultante da pandemia da COVID-19, se está diantedo “começo do 
fim”? Ainda que a pandemia esteja provocando efeitos arrasadores so-
bre a economia, a política, a dinâmica social e às condições de vida e de 
trabalho em todo Mundo, o que se tem desenhado até aqui revela que 
esta crise também não será a terminal do capitalismo. Isto é, ainda não 
se anuncia grandes rupturas geopolíticas, econômicas, sociais e políti-
cas dentro do sistema mundial. Não sendo provável, portanto, que se 
esteja no momento final do capitalismo.
No entanto, aprofunda-se uma dinâmica cada vez mais conflituo-
sa, de nacionalismo econômico, protecionismo, corrida tecnológica e 
10 O seu negacionismo científico tem reduzido a pandemia à gripezinha, resfriadinho e à 
histeria da imprensa. Quando não minimiza seus efeitos a partir de afirmações como: “E 
daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, como ocorreu no dia 28 de abril, quando o Brasil 
registrou o recorde diário (à época) de 474 óbitos, ultrapassando o número total de casos 
da China. Tomando o caos como método, além de radicalizar a banalização do conheci-
mento, procura, a qualquer custo, minimizar os efeitos da pandemia. E faz uso da mesma 
estratégia de Joseph Goebbels (1897-1945), ministro da Propaganda e da Informação Públi-
ca da Alemanha Nazista – de que uma mentira contada mil vezes, torna-se verdade –, assim, 
disseminando a desinformação procura forjar a qualquer custo a “verdade” pregada pelo 
seu negacionismo científico.
11 Considera que a pandemia não passa de um exagero. Afirma que está protegido por Deus 
e a principal medida adotada contra o novo Coronavírus foi uma manifestação que reuniu 
dezenas de milhares de seus militantes contra a expansão da pandemia. Encontra apoio da 
vice-presidente (que também é sua esposa), Rosario Murillo, que acredita que a Nicarágua 
tem uma arma climática e que o Coronavírus não chega ao país, por causa do calor.
12 O presidente Gurbanguly Berdymukhamedov proibiu a população citar as palavras Co-
ronavírus e COVID-19; e a fazer uso de máscaras, podendo ser preso(a) aquele(a) que for 
encontrado(a) usando uma. Também proibiu a divulgação de informações relativas ao 
assunto em todo território nacional.
13 O presidente Aleksander Grigórevich Lukashenko defende o uso de vodka e gelo para 
curar a Covid-19. 
79
RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
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científica, um novo que pode se agravar, sobretudo, pela possibilidade 
de: reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos; aprofundamento 
da guerra comercial com a China; e fortalecimento de Governos anti-
democráticos de ultradireita, que legitimam cada vez mais aquele Esta-
do de exceção, capitaneado por Governos declaradamente de direita no 
campo político e liberal na esfera econômica e, alguns destes, também 
terrivelmente conservadores.
2 Entre incertezas e o medo: os efeitos 
da pandemia do novo Coronavírus e as 
imposições mundiais sobre a América 
Latina
Em 07 de março de 2020, com o registro na Argentina da primei-
ra vítima fatal do novo Coronavírus no Continente latino-americano, 
certamente, o prognóstico mais pessimista não dava conta da catástro-
fe que marcaria os próximos meses. Até porque, os países da América 
Latina detinham a vantagem de vivenciar a pandemia com atraso em 
relação à Ásia e à Europa. No entanto, rapidamente, pode-se consta-
tar que tal vantagem em nada adiantaria diante da tamanha fragili-
dade dos sistemas sanitários e das instituições, sobretudo, as políticas, 
aquelas protagonizadas por Governos oportunisticamente totalitários. 
Situação que tem se agravado diante da extensão da pobreza e da de-
sigualdade, que assola essa região e que coloca uma parcela expressi-
va da população à mercê de comportamentos, direcionamentos e, em 
alguns casos, desprezo de algumas autoridades nacionais às medidas 
sanitárias e orientações científicas. E, em meio à pandemia, qualquer 
ganho ainda existente em termos de proteção social – fruto da árdua 
luta de trabalhadores(as) – deteriora-se.
O fato é que o epicentro da pandemia se deslocou da Europa para 
os Estados Unidos e, desde junho de 2020, se estendeu para países la-
tino-americanos, com maior gravidade em terras brasileiras. As cifras 
oficiais retratam um cenário em que o Brasil, mesmo com o Governo 
insistindo na estratégia da subnotificação e ocultação dos dados, ocu-
80
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
pa a segunda posição no ranking de país com maior registro de infec-
tados em todo o Mundo, com 3.505.097 casos confirmados, segundo 
dados consolidados pelos veículos e pelo consórcio de veículos de im-
prensa em 20 de agosto de 202014. Enquanto o número de óbitos chega 
a 112.423, ocupando a segunda posição entre os países com maior nú-
mero de vítimas fatais. O que coloca o país apenas atrás dos EUA, que 
registram nessa mesma data, mais de 5.574.000 casos confirmados e 
174.255 óbitos, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.
A título de exemplificação, a Tabela 1 apresenta síntese comparativa 
dos países da América Latina, elaborada a partir dos dados compila-
dos pela Universidade Johns Hopkins, traçando o percurso do novo 
Coronavírus desde a sua fase inicial15:
14 No Brasil, em razão de mudanças na metodologia e das limitações impostas pelo Ministé-
rio da Saúde na divulgação dos dados da COVID-19, os veículos de imprensa G1, O Globo, 
Extra, Estadão, Folha e UOL formaram uma parceria e passaram a coletar esses dados jun-
to às Secretarias Estaduais de Saúde para divulgação conjunta em vários boletins diários, 
desde o dia 08 de junho. 
15 Realizado por meio de um sistema – Dashboard by the Center for Systems Science and En-
gineering (Painel do Centro de Ciência e Engenharia de Sistemas) – que contabiliza dados 
de todos os países a partir das mesmas e/ou equivalentes fontes de informações, como: 
a Organização Mundial da Saúde (OMS); o Centers for Disease Control and Prevention 
(Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos, mais conhecido pela 
sigla CDC; a National Health Commission of the People`s Replubic of China (Comissão 
Nacional de Saúde da República Popular da China), conhecida pela sigla NHC-PRC; e 
Departamentos/Ministérios de Saúde Nacionais.
81
RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
◀ Voltar ao sumário
Tabela  – Síntese comparativa da COVID-19 na América Latina, a partir de dados compilados pela Universida-
de Johns Hopkins, no período de 30 dias, entre 20 de março e 20 de agosto de 202016
PAÍS
CASOS CONFIRMADOS NÚMERO DE ÓBITOS
20/
03
20/
04
20/
05
20/
06
20/
07
20/
08
20/
03
20/
04
20/
05
20/
06
20/
07
20/
08
Brasil17 793 40.743 291.579 1.068.000 2.119.000 3.502.000 11 2.587 18.859 49.976 80.120 112.304
Peru 234 16.325 104.020 251.338 357.681 552.420 03 445 3.020 7.861 13.384 26.834
México 203 8.772 56.594 175.202 349.396 543.806 02 712 6.090 20.781 39.485 59.106
Colômbia 128 3.977 17.687 63.454 204.005 513.719 0 189 630 2.148 6.929 16.183
Chile 434 10.507 53.617 236.748 333.029 391.849 0 139 544 4.295 8.633 10.671
Argentina 129 2.941 9.283 41.204 130.774 320.884 03 142 403 992 2.373 6.517
Bolívia 15 564 4.919 23.512 60.991 106.065 0 34 199 740 2.218 4.305
Equador 367 10.128 34.854 49.731 74.620 105.508 07 507 2.888 4.156 5.318 6.200
República 
Dominicana
72 4.964 13.477 25.778 53.956 89.010 02 235 446 655 993 1.505
Panamá 137 4.467 9.977 25.222 54.426 83.855 01 136 287 493 1.127 1.844
Guatemala 12 289 2.265 12.755 39.039 65.983 01 07 45 514 1.502 2.506
Honduras 24 477 2./955 12.306 34.611 52.819 0 42 151 358 935 1.619
Venezuela 42 256 824 3.789 12.334 37.567 0 09 10 33 116 311
Costa Rica 89 662 897 2.127 11.534 31.075 02 06 10 12 66 333
El Salvador 01 218 1.571 4.475 12.207 23.964 0 07 32 93 344 640
Paraguai 13 208 833 1.362 3.748 11.817 01 08 11 13 33 170
Haiti 02 57 596 4.980 7.053 7.949 0 03 22 88 146 196
Paraguai 13 208 833 1.362 3.748 11.817 01 08 11 13 33 170
Nicarágua 01 10 254 1.823 3.174 4.311 0 02 08 64 99 133
Cuba16 1.087 1.900 2.309 2.446 3.565 01 36 79 85 87 88
Uruguai 110 535 746 859 1.064 1.506 0 10 20 25 33 41
Total 2.822 107.187 605.893 1.971.887 3.868.836 6.461.489 34 5.253 33.754 93.382 163.974 251.676
Fonte: elaboração própria a partir de dados compilados e publicados pela Universidade Johns Hopkins (2020), em sua homepage: https://
coronavirus.jhu.edu/map.html. 
16 Foram considerados os dados a partir do dia 20 de março, uma vez que nessa data todos 
os países já registravam casos confirmados da doença e, a grande maioria, pelo menos um 
óbito.
17 Os dados do Brasil podem apontar variações entre os dados compilados a partir dos dados 
das Secretarias Estaduais de Saúde e divulgados pelo consórcio de veículos de comunica-
ção e os dados disponibilizados pela Universidade Johns Hopkins, em função da metodo-
logia distinta utilizada. No caso dos dados divulgados pelo consórcio, estes são atualizados 
diretamente junto às Secretarias Estaduais de Saúde em três momentos do dia: às 08h, 13h 
e 20 horas; enquanto a Universidade Johns Hopkins atualiza os dados a partir das infor-
mações disponibilizadas pelo Ministério da Saúde. 
82
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Ainda que os dados publicados pela Universidade Johns Hopkins 
partam de informações oficiais, é preciso considerar a elevada subnoti-
ficação desses, sobretudo, diante da baixa aplicação de testes de detec-
ção e de controle da doença no Continente latino-americano. De qual-
quer forma, os dados apresentados, por si só, revelam a extensão da 
pandemia no Continente latino-americano, embora a gravidade dessa 
pandemia na América Latina não tenha sido ainda registrada em sua 
totalidade. Projeções acumulativas do Institute for Health Metrics and 
Evaluation18 (IHME), uma das principais instituições produtoras de 
estatísticas em saúde do mundo, vinculada à Universidade de Wash-
ington, apontavam um total de 165.960 (intervalo estimado de 113.673 
a 253.131) mortes por COVID-19 no Brasil até o dia 4 de agosto de 2020 
(IHME, 2020).
E ainda que os registros oficiais não tenham alcançado a projeção 
do IHME, uma vez que o Brasil fechou o dia 04 de agosto com 96.096 
óbitos pelo novo Coronavírus, a curva epidêmica do Brasil seguiu um 
padrão ascendente que se manteve até o final de agosto de 2020, o que 
colocou o país no topo do ranking como um dos países mais afetados e 
mais letal do mundo pelo novo Coronavírus, considerado o tamanho 
de sua população19. Um fator importante desse agravamento, segundo 
o IHME (2020), é a baixa aplicação de testes em todo o Brasil, o que, 
18 Tradução livre: Instituto de Métrica e Avaliação em Saúde. Esse Instituto tem como prin-
cipal fonte de dados os registros da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e par-
ceiros e colaboradores na Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Cuba, República 
Dominicana, Equador, Egito, Honduras, Israel, Japão, Malásia, México, Moldávia, Panamá, 
Peru, Filipinas, Rússia, Sérvia, Coréia do Sul, Turquia e Ucrânia por seu apoio e consulto-
ria especializada; e aos incansáveis esforços de coleta de dados de indivíduos e instituições 
em todo o mundo. As projeções desenvolvidas pelo Instituto têm considerado dados dos 
EUA (nacionalmente) e 50 Estados, além do Distrito de Columbia, Porto Rico, quatro 
províncias no Canadá, países do Espaço Econômico Europeu (EEA) e Suíça, Argentina, 
27 locais no Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Cuba, República Dominicana, Equador, Egi-
to, Honduras, Israel, Japão, Malásia, 32 localizações no México, Moldávia, Panamá, Peru, 
Filipinas, Rússia, Sérvia, Coréia do Sul, Turquia e Ucrânia. Além de três países do EEE 
– Alemanha, Itália e Espanha – contarem com estimativas subnacionais no primeiro nível 
administrativo.
19 Os EUA têm o próximo número mais alto de mortes por COVID-19 até 20 de agosto de 
2020, com 174.255 mortes cumulativas, tendo cerca de 100 milhões a mais de pessoas do 
que o Brasil.
83
RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
◀ Voltar ao sumário
provavelmente, contribuiu para dificultar a rápida identificação e res-
posta às infecções por COVID-19.
As projeções do IHME (2020) apontaram ainda que o número acu-
mulado de mortes no México poderia alcançar até agosto de 2020, 
51.912 (intervalo estimado de 37.397 a 75.516), o que se concretizou, 
visto que até 20 de agosto foram registrados 59.106 óbitos por CO-
VID-19. De acordo com os dados da projeção apresentada, em 05 de 
junho, a Cidade do México já apresentava uma das maiores taxas de 
mortalidade pela COVID-19 do México, com 36,1 mortes por 100.000 
pessoas (intervalo estimado de 35,5 a 36,8). E as projeções alertavam, 
ainda, que: caso não fossem adotadas respostas epidêmicas mais efe-
tivas e medidas mais restritivas de isolamento, vários Estados do país 
poderiam atingir taxas cumulativas de mortes superiores a 90 mortes 
por 100.000 pessoas, como pode acontecer com Nayarit, Durango e 
Sinaloa.
O fato é que a pandemia está em um dos momentos mais críticos 
para o Continente latino-americano, concentrando mais de seis mi-
lhões de infectados e mais de 251.000 mortos pela COVID-19, a maio-
ria no Brasil, Peru, México, Colômbia, Chile, Argentina, Bolívia e 
Equador (6.036.251 infectados e 242.120 óbitos, quando considerados 
os dados desse conjunto de países em 20 de agosto de 2020). E o au-
mento do número de novos contágios alçou a América Latina para a 
alarmante condição de região do Mundo que, sozinha, reúne quase um 
terço do total de casos do novo Coronavírus no Mundo. E essa situação 
se agrava quando se considera que essa região, embora diversa, con-
verge uma multiplicidade de questões relativas à pobreza, às enormes 
desigualdades e aos precários mecanismos de proteção social, entre 
esses os de saúde pública e de saneamento.
No entanto, o que tem assustado ainda mais o mercado, os Gover-
nos e os organismos internacionais é a possibilidade de uma segunda 
onda da COVID-19, o que elevaria em mais um ponto percentual a 
queda do PIB, que já aflige as três maiores economias latino-america-
nas (Brasil, Argentina e México), segundo dados da Organização para 
a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Relatório 
Perspectivas Econômicas, a OCDE aponta que Argentina e Brasil se-
84
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
riam os países mais afetados, com seus PIBs retrocedendo 10% e 9,1% 
respectivamente, enquanto o do México cairia 8,6% (OCDE, 2020a).
Com resultados negativos dos mercados nacionais, no primeiro tri-
mestre, e com projeções alarmantes para o tempo futuro, Chile e Peru 
juntamente com México e Colômbia já recorreram ao Fundo Monetá-
rio Internacional (FMI), buscando recursos junto a Linha de Crédito 
Flexível (LCF). Esses países foram contemplados com a aprovação, no 
mês de maio, de recursos que totalizaram US$ 107 bilhões em financia-
mento quando quiserem20, o que equivale ao limite de crédito de US$ 
61 bilhões para o México; US$ 24 bilhões para o Chile; e Peru e Colôm-
bia com US$ 11 bilhões cada. Resta agora saber a qual custo.
E se a economia preocupa, o que está por vir quanto às condições 
de vida e de trabalho e à efetivação dos direitos e das políticas sociais é 
ainda mais alarmante. Até mesmo os cálculos apresentados, em maio 
de 2020, pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe 
(CEPAL) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) apon-
tam que a crise da COVID-19 atingirá fortemente os mercados de tra-
balho da América Latina e do Caribe, com mais de 11,5 milhões de 
trabalhadores(as) passando a engrossar as fileiras de desempregados 
na região. E se os dados de 2019 não foram nada otimistas, com 26,1 
milhões de desempregados(as); em 2020, esse número poderá subir 
para 37,6 milhões, o que representa um crescimento da taxa de desem-
prego de 8,1% para 11,5% (CEPAL; OIT, 2020). O que, certamente, apro-
fundará os níveis de pobreza e de desigualdade da região, sobretudo, se 
consideradoque esses números não computam o grande contingente 
populacional na informalidade.
Os dados sobre o mercado de trabalho, portanto, retratam proje-
ções apenas de uma das pontas de um enorme e robusto iceberg. E se 
o Panorama Social da América Latina 2019, publicado em 2020, pela 
CEPAL, aponta a América Latina como a região do Planeta que con-
centra as maiores desigualdades e na qual os mais ricos recebem maior 
proporção de renda, contando com 191 (cento e noventa e um) milhões 
de pessoas em situação de pobreza, o que representou um aumento de 
20 O que equivale a cerca de um décimo da capacidade total de empréstimo do Fundo.
85
RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
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0,7% em 2019, em relação ao percentual apresentado por essa Comis-
são no ano de 2018 (CEPAL, 2020). As projeções atuais estimam que o 
número de pessoas em situação de pobreza subirá para 214,7 milhões, 
ou seja, mais de 20 milhões do que em 2019; e em condição de pobreza 
extrema 83,4 milhões de pessoas, o que representa 13% da população 
dessa região (CEPAL; OIT, 2020).
E essas condições são agravadas: a) pela instabilidade política re-
gistrada em diversos países da região; b) pelo sistema de saúde que, 
em seu conjunto, já é extremamente precário, a exemplo do registrado 
no México, quando um número expressivo de doentes foi a óbito sem 
ter acesso a uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ou mesmo a um 
leito com respirador; e também no Equador, quando um grande nú-
mero de pessoas foi a óbito – algumas vítimas da COVID-19 e, outras, 
vítimas de doenças diversas – sem terem acesso ao sistema de saúde; c) 
pelas condições de infraestrutura de saneamento, uma vez que parcela 
expressiva da população latino-americana sequer conta com acesso à 
água potável e à rede de esgoto. E o pior, tais condições explícitas nas 
regiões periféricas do meio urbano se ampliam para as zonas rurais, 
sobretudo, quando se considera o acesso aos equipamentos de saúde 
pública e ao conjunto de condições sanitárias.
A sociedade está diante de uma pandemia que escancara os cortes 
nos gastos sociais, as expropriações de direitos trabalhistas, os ataques 
à previdência social e a falta de investimento na saúde e em saneamen-
to. Agora, não se pode mais esconder que nos hospitais faltam leitos, 
equipamentos de saúde e equipamentos de proteção individual (EPIs); 
que as equipes estão reduzidas, mal remuneradas e expostas ao desca-
so que a política de saúde, historicamente, tem sido submetida.
Como respostas, os diferentes organismos internacionais têm am-
plamente defendido para a América Latina a implementação de medi-
das de transferências monetárias equivalente à linha de pobreza de cada 
país, nominada de renda básica universal e/ou proteção social universal, 
nos moldes do Auxílio Emergencial de R$ 600,00 proposto pelo Brasil. 
O mesmo, cuja bancarização e informatização do processo de conces-
são, no início, obrigou trabalhadores(as) a formar gigantescas filas nas 
agências da Caixa Econômica Federal, gerando aglomerações e vio-
86
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
lando as regras de isolamento social. O mesmo Auxílio que o Gover-
no divulgou um rigoroso sistema de cruzamento de dados para evitar 
fraudes, mas não impediu que milhões de pessoas, que atendiam aos 
critérios estabelecidos, tivessem o benefício negado, enquanto milha-
res de servidores públicos ativos e inativos, pensionistas e militares das 
Forças Armadas tivessem a liberação e o pagamento de suas parcelas.
O fato é que os organismos internacionais, apoiados na explica-
ção simplificada e desvirtuada de seus Relatórios, têm incentivado os 
Governos dessa região a conceder auxílios nominados de renda bási-
ca universal e/ou proteção social universal e de enfrentamento à fome. 
Uma síntese das respostas dos Governos latino-americanos é apresen-
tada no Informe COVID-19 publicado pela CEPAL, juntamente com 
a Organização das Nações Unidas para a Alimentação da Agricultura 
(FAO), conforme detalhado no Quadro 1 a seguir:
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Quadro 1 – Resposta dos Governos latino-americanos frente à pandemia (abril de 2020)
PAÍS
AUXÍLIO ALIMENTA-
ÇÃO EM ESPÉCIE
PROGRAMAS DE 
ALIMENTAÇÃO 
ESCOLAR
TRANSFERÊNCIAS 
MONETÁRIAS
Argentina
Brasil
Chile
Colombia
Costa Rica
Equador
El Salvador
Guatemala
Haití
Honduras
México
Panamá
Paraguai
República Dominicana
Uruguai
Venezuela
Manutenção das medidas existentes
Medidas Ampliadas
Novas medidas
Fonte: CEPAL/FAO (2020), com adaptações.
Em grande parte, as medidas descritas no Quadro 1 estão concen-
tradas nos Programas de Alimentação Escolar e de Transferências Mo-
netárias e sem alterações diante do quadro da pandemia, com exceção 
da Argentina, que ampliou as ações de alimentação escolar e o Brasil 
que ampliou as ações de alimentação escolar e a transferência mone-
tária. Também há registro de ampliação de ações auxílio alimentação 
em espécie na Argentina, Colômbia, El Salvador e Paraguai; e registro 
de novas medidas de auxílio alimentação em espécie no Chile, Costa 
88
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Rica e Equador, Haiti, Honduras e Venezuela, e de alimentação escolar 
no Panamá.
Outra visão geral das medidas adotadas por alguns países é forne-
cida pelo Relatório da OCDE (2020b), COViD-19 in Latin America 
and the Caribbean: An overview of government responses to the crisis21, 
quando apresenta o conjunto de medidas de política social implemen-
tadas pelos países latino-americanos em resposta à crise da COVID-19. 
Em sua maioria, são medidas de transferências monetárias, destinadas 
a grupos específicos, de modo a garantir a reabilitação da população 
pobre às atividades econômicas, ou melhor, dada a breve extensão, de 
modo a não incentivar uma classe a ficar ociosa, preguiçosa (TOC-
QUEVILLE, 1991) e/ou perigosa, mas garantir a manutenção dos be-
neficiários no circuito do mercado e o controle social dessa população.
Trata-se, portanto, de um conjunto de medidas residuais e paliativas 
de administração da pobreza – alinhadas aos interesses do capital – que 
apenas procuram amenizar os efeitos mais emergenciais da atual crise, 
sem romper com o minimalismo orientador do sistema de proteção 
social latino-americano e que, por sua vez, aprofunda ainda mais a 
desigualdade instalada nessa região.
E diante o discurso de ameaça contínua de aprofundamento da cri-
se, esta tem sido apropriada para justificar a supressão de direitos, a 
expropriação de novas parcelas da vida humana e social, impondo a 
própria crise como modo de Governo. E como não há muros e nem 
tempo definido para a COVID-19 – apenas o rastro de medo e incerte-
zas – o que se tem como certo é o que sempre acontece nas grandes cri-
ses: as grandes potências sairão na frente na retomada do crescimento 
econômico e, provavelmente, começando pela China e pelos Estados 
Unidos, enquanto, os demais países periféricos vão amargar o ônus de 
toda a crise.
21 Tradução livre: COVID-19 na América Latina e no Caribe: uma visão geral das respostas do 
governo à crise.
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Um convite a novas reflexões ...
O conjunto de países que compõem a América Latina tem passado 
por mudanças que aprofundam os níveis de concentração de riqueza e 
da propriedade, na mesma proporção em que se intensificam a supe-
rexploração da força de trabalho, o crescimento do trabalho desprote-
gido, o subemprego e o desemprego em níveis nunca antes vistos. Ao 
mesmo tempo que as características históricas da formação e de desen-
volvimento do Continente latino-americano têm sido exponenciadas e 
atualizadas, de maneira que se mostram redimensionadas no presente. 
Redimensionamento este que tem acirrado, ainda mais, a relação de 
dominação dos países de capitalismo central sobrea América Latina, 
com a captura dos Estados, que reforçam as formas de domínio, de 
subordinação e de exploração desses países ao capital internacional.
Refletindo as contradições próprias das particularidades e determi-
nações de sua herança histórica, as funções do Estado são reorgani-
zadas de modo a garantir a manutenção da reprodução ampliada do 
capital, como também os interesses das frações burguesas internas, do-
minantes em cada país. O que significa afirmar que o Estado, na atuali-
dade latino-americana, tem atuado para reforçar o vínculo com o capi-
tal exterior, acentuando ainda mais o caráter dependente dessa região, 
além de aprofundar a superexploração da força de trabalho. Como 
resultado, políticas governamentais favorecedoras da esfera financeira 
e do grande capital produtivo passaram a conviver com a ampliação 
da regressão social, do retrocesso no emprego, da não distribuição de 
renda, da ampliação da pobreza e da desigualdade.
E em uma região marcada por essas particularidades, em 2020, o 
confronto com a pandemia da COVID-19, de proporções incalculá-
veis até o momento, tem aprofundado o abismo em que se encontram 
grandes segmentos populacionais. O que, seguramente, vai demandar 
um sistema de proteção de social para além daquele formulado duran-
te o século XX e daquele alicerçado em políticas de austeridade e de 
ajuste. Embora se estejam certos de que, a qualquer momento, políti-
cas monetaristas e de austeridade fiscal serão apropriadas com todo 
vigor, sob o pretexto de salvar os países em crise.
90
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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Basta recordar que a reação inicial dos Governos no enfrentamen-
to à crise de 2008 foi de apoiar a adoção medidas de incentivo fiscal, 
endividamento público na adoção de algumas políticas sociais, mas 
pouco a pouco, as políticas de austeridade ortodoxa ganharam novo 
fôlego, sendo adotadas por muitos Governos22, nos últimos anos, como 
método inquestionável para a superação dos males da crise econômica. 
Contudo, essas políticas, em vez de recuperar a economia, aprofunda-
ram as desigualdades e a pobreza, sobretudo, nos países da periferia 
do capitalismo, como a América Latina. Além de solapar os parcos 
sistemas de proteção social ainda existentes.
E para quem pensou que o pior já havia passado com a crise de 2008, 
não imaginava a magnitude do que aconteceria em 2020 e não sabia 
que, mais uma e outra vez, o pior estava por vir. O fato é que, se não é 
simples pensar o futuro, pensar o futuro diante da dura e devastado-
ra pandemia da COVID-19 coloca a sociedade diante de um mar de 
incertezas, sobretudo, quando o que está em disputa não é apenas o 
futuro, mas a sobrevivência no presente.
Certamente, não se está falando da crise final do capitalismo, ape-
nas de mais um momento em que a produção capitalista terá que ul-
trapassar algumas barreiras que já se mostram inevitáveis, mas não 
intransponíveis. Basta saber a qual preço e sobre quem recairá o ônus 
de mais essa crise. Sobre quem, a resposta parece ser óbvia: a grande 
maioria destituída da riqueza socialmente produzida. A qual preço? 
Não há dúvida de que o remédio será muito mais amargo do que os 
precedentes já registrados na história. Fica apenas a certeza de que, em 
um cenário tão sombrio, o caminho é não deixar de lado a luta de clas-
ses e a organização política de atores comprometidos com a defesa do 
acesso e alargamento dos direitos, na direção da emancipação humana, 
em contraposição à dominação e exploração capitalista.
Referências
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22 E incentivadas por diversos organismos internacionais, como o Banco Mundial.
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RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS
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93◀ Voltar ao sumário
CAPÍTULO 4
Agronegócio: salvação da 
economia latino-americana em 
tempos de pandemia?1
Márcia Cristina Verdego Gonçalves
Ruteléia Cândida de Souza Silva
Introdução
Os primeiros seis meses de 2020 foram marcados por profundas 
alterações, a maioria destas, decorrentes da pandemia do novo Co-
ronavírus (Sars-CoV-2/COVID-192). Espalhando-se rapidamente da 
China para o restante do Mundo, em poucos meses, essa pandemia já 
contaminou mais de 09 milhões de pessoas em todo Mundo, vitiman-
do fatalmente mais de 482 mil, segundo dados da Universidade Johns 
Hopkins, publicados em 25 de junho de 2020. Entre as vítimas fatais, 
mais de 120 mil foram registradas pela maior potência capitalista do 
Planeta, os Estados Unidos da América (EUA), sendo, em sua maio-
ria, trabalhadores(as) pobres e negros(as), negligenciados(as) por um 
sistema de saúde excludente e indiferente às condições sanitárias da 
maioria da população.
1 Os dados e análises contidas neste ensaio fazem parte dos estudos realizados no âmbito da 
pesquisa Trabalho, pobreza e desigualdade social na atual geopolítica latino-americana, sob 
a coordenação da Professora Ruteléia Cândida de Souza Silva.
2 Sars-CoV-2 significa Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (Síndrome Res-
piratória Aguda Grave do Coronavírus 2) e é o nome oficial escolhido pela Organização 
Mundial da Saúde (OMS) para facilitar a identificação da doença infecciosa Covid-19 e/ou 
do novo Coronavírus em estudos científicos. 
94
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
E ainda que o cenário já se mostre avassalador por causa da veloci-
dade de expansão dessa pandemia, muitas de suas consequências são 
incalculáveis até o momento, sobretudo, quando se considera que se-
quer foram decifradas a origem (data e localidade), mutações, imuni-
dade/possibilidade de recidivas, desenvolvimentos de respostas medi-
camentosas e vacinas. E se as primeiras análises apontaram que a atual 
crise não deriva da dinâmica própria da produção e da reprodução 
capitalista, mas da própria vida humana; já existem alguns estudos que 
associam a invasão orquestrada pela dinâmica do capital aos habitats 
silvestres e a sua consequente degradação, como responsáveis por criar 
as condições propícias para a pandemia do novo Coronavírus.
O fato é que essa pandemia trouxe consigo um cenário de muitas 
incertezas, causando uma série de suposições de como isso será refle-
tido no mercado, em especial, na periferia capitalista, como nos países 
da América Latina, cujos contornos são muito particulares: trata-se de 
uma região significativamente populosa, com mais de 613 milhões de 
habitantes e constituída por países que, em sua maioria, têm a profun-
da desigualdade social como herança histórica.
E se ao longo do último século, a sociedade capitalista, incluindo o 
Continente latino-americano, se deparou com crises variadas, a exem-
plo das crises de 1929 e 2008. A atual crise se apresenta de forma distin-
ta das demais, podendo apresentar resultados ainda mais avassaladores 
em termos econômicos e sociais, sobretudo, para o conjunto de traba-
lhadores(as). E diante de tantas incertezas, o medo e a imprevisibilida-
de do que está por vir se generaliza, restando como certo apenas espe-
culações em torno da grandeza de seus impactos econômicos e sociais, 
em especial, aqueles imediatos que recaem sobre a precária condição 
sanitária, de equipamentos de saúde e de saneamento; e sobre as taxas 
de desemprego, desigualdade e pobreza que já se mostravam elevadas.
O certo apenas é que a pandemia do Sars-CoV-2 e seus impactos 
sobre a vida humana, econômica e social têm jogado as projeções de 
crescimento de quase todo o Mundo para o terreno negativo. Além de 
impactar violentamente a vida de milhares de trabalhadores(as) pelo 
Mundo, com demissões em massa, que engrossam a fileira do desem-
prego. Em resposta, tanto os Estados quanto os diferentes organismos 
95
MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA
◀ Voltar ao sumário
internacionais têm buscado liberar pacotes trilionários ao capital e a 
liberação de rendas básicas emergenciais, buscando minimizar os efei-
tos negativos na demanda em uma economia em crescente colapso e 
sem perspectiva de recuperação.
E como não há perspectivas claras sobre o final dessa violenta pan-
demia, que não só expõe as contradições do capitalismo como também 
as agrava, uma das formas mais adotadas pelos países para o combate 
à pandemia e o não colapso de seus respectivos sistemas de saúde, tem 
sido a suspensão de inúmeras atividades econômicas e a imposição de 
quarentena e isolamento social em larga escala. O que acelerou a che-
gada de mais uma crise capitalista, cujos sinais e indícios já mostram 
que seus efeitos ainda são incalculáveis.
No entanto, um setor tem representado a esperança para a retoma-
da do crescimento no pós-pandemia, com expectativas de crescimento 
expressivo: o agronegócio. É por essa importância que este capítulo 
procura estabelecer um debate sobre o papel atribuído ao agronegócio 
em tempos de pandemia do novo Coronavírus. Partindo de um diálo-
go bibliográfico, embasado em produções teóricas, e em dados anali-
sados em Relatórios de diversos organismos internacionais, o diálogo 
estabelecido se constrói a partir dessa parte introdutória, seguida de 
uma breve discussão sobre a guerra comercial entre China e Estados 
Unidos e os impactos sobre o agronegócio latino-americano no século 
XXI e, por fim, sobre o que se espera do agronegócio latino-americano 
em tempos de pandemia.
1 A guerra comercial no século XXI e os 
impactos sobre o agronegócio latino-
americano
Conforme apontado por Pinto e Gonçalves (2014), nas últimas duas 
décadas do século XX, o processo de globalização econômica avançou, 
significativamente, e trouxe profundas transformações estruturais na 
economia mundial, imprimindo mudanças significativas entre os paí-
ses que se colocavam na dianteira da economia mundial. E se essas 
96
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
transformações não alteraram os altos níveis de poder econômico dos 
Estados Unidos – mesmo com certa retração após a crise de 2008 –, 
a ascensão da China como potência econômica se apresentou como 
novidade.
Esse movimento tem como ponto de partida a liberalização finan-
ceira iniciada na década de 1970 e que permitiu, segundo Pinto e Gon-
çalves (2014), a livre circulação e a melhoria dos fluxos financeiros em 
escala ascendente e uma estreita integração dos mercados e maior acu-
mulação financeira. Além de permitir a redução das restrições encon-
tradas pelas empresas para alcançar resultados positivos de produção, 
ao mesmo tempo que favoreceu as aplicações financeiras em detrimen-
to dos investimentos produtivos. E esse processo foi iniciado a partir 
das decisões políticas tomadas pelo Governo dos Estados Unidos, em 
sua compulsividade desenfreada para abrir espaços de circulação de 
seu capital, em particular no setor bancário e financeiro, garantindo 
às instituições financeiras a sua capacidade de gerenciar o mercado 
financeiro e a moeda de referência global: o dólar americano.
Por outro lado, a abertura comercial intensificou a competição en-
tre empresas nacionais e multinacionais, reforçando a busca por maior 
produtividade e menores custos em diversos espaços de produção. Do 
mesmo modo que o processo de integração produtiva em escala global 
em andamento desde o início dos anos 1980 e generalizado durante 
nos anos 2000, organizou a chamada cadeia produtiva global, espe-
cialmente, contando com a participaçãode países em desenvolvimento 
da Ásia articulados em torno da China (PINTO; GONÇALVES, 2014). 
Já em dezembro de 1978, na terceira sessão plenária do 11º Comitê 
Central do Partido Comunista da China, os membros desse partido 
referendaram a proposta de reforma econômica formulada por Deng 
Xiaoping. Defendendo que a economia, e não o dogma determinasse 
o destino da China, Xiaoping propôs a abertura da economia chinesa 
para o Mundo, o que foi fundamental não apenas para o desenvolvi-
mento dessa economia, mas também para que a China alcançasse as 
primeiras décadas do século XXI, como uma das principais lideranças 
econômicas mundiais.
97
MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA
◀ Voltar ao sumário
A China, desde então, vem se apresentando como economia moder-
na, pautada na indústria e no setor de serviços, galgando estágios mais 
avançados da cadeia produtiva, o que se mantém até 20083, quando a 
China também passa a sentir os efeitos da crise por meio da queda de 
suas exportações. Desde 2008, a China passou a adotar como estraté-
gia de alavancagem um crescimento pautado em taxas baixas de cres-
cimento do Produto Interno Bruto (PIB), o chamado New Normal4. 
Para isso, adotou um padrão de crescimento industrial sustentado pelo 
Estado, responsável por promover grandes transformações no país.
Entretanto, também buscou enquanto estratégia, a expansão de 
Investimentos Externos aliada aos grandes projetos da era Xi Jinping, 
como o One Belt One Road (OBOR) ou Belt and Road Initiative (Ini-
ciativa do Cinturão e Rota), iniciativa que expressa a disposição chi-
nesa em se projetar externamente. O Projeto OBOR é um ambicioso 
plano de infraestrutura anunciado, em 2013, e que envolve mais de 
sessenta países, entre estes asiáticos, europeus e africanos. Financiado 
por um Fundo criado em 2014 – com investimentos de bancos estatais, 
como o State Administration of Foreign Exchange, o China Investment 
Corporations, o EximBank e o China Development Bank – , o OBOR, 
segundo o discurso do Governo, tem como objetivos: promover a coo-
peração regional; fortalecer as trocas comerciais; e elevar a prosperida-
de econômica.
Recentemente, o presidente Xi Jingping tem apelado ao fortaleci-
mento de um Mundo multipolar e de ampliação da globalização eco-
nômica com cooperação regional e integração dos mercados. O proje-
to, em termos geopolíticos, representa uma postura de política externa, 
cuja estratégia é fortalecer sua posição com relação aos países vizinhos 
e de regiões estratégicas na Ásia Central e África, bem como ampliar 
seus espaços de influência, incluindo a América Latina. Como par-
3 Quando alcançou média de crescimento do PIB de 10,4% entre 2000 e 2008. Entre os anos 
2000 e 2007, somente as exportações cresceram a uma taxa média anual de 20,0%. E no 
pós-crise de 2008 passa sofrer os rebatimentos da crise, com redução expressiva da sua 
taxa de crescimento, de 13% em 2007 para 6,9% em 2019.
4 Tradução livre: Novo Normal. Termo relacionado às condições financeiras da China após 
a crise de 2007-2008.
98
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
te dessa estratégia se tem o aumento da aquisição de terras na África 
Subsaariana, na América Latina e na Austrália, conduzida por meio 
de: fundos privados internacionais; fundos soberanos e conglomera-
dos industriais de natureza estatal; pela atuação direta de Estados; pelo 
capital privado, sobretudo, o nacional por meio de joint ventures for-
mado por empresas localizadas em regiões estratégicas do ponto de 
vista do acesso a alimentos e recursos minerais. Além da atuação de 
grupos como a Shanghai Pengxin Group Co. Ltd. e pela COMPLANT 
(NAKATANI et al., 2014).
Segundo levantamento realizado por Nakatani et al. (2014, p. 65), 
a Shanghai Pengxin Group tem anunciado a compra de terras no Bra-
sil, Bolívia (via Argentina) e na Nova Zelândia (via Índia), enquanto a 
COMPLANT tem anunciado a aquisição de terras na Jamaica (via Ar-
gentina), em Madagascar (via EUA), em Serra Leoa (via Portugal) e em 
Benin (via Arábia Saudita). Todas as operações anunciadas contaram, 
predominantemente, com: “[...] capital chinês (privado e público, res-
pectivamente), em uma estratégia explícita, principalmente, por parte 
da COMPLANT, de garantir a China fontes estratégicas para o abaste-
cimento de gêneros alimentícios e recursos minerais [...]”.
De acordo com Pinto e Gonçalves (2014), é inquestionável o au-
mento do poder econômico da China. No entanto, ao mesmo tempo, o 
crescimento chinês não foi suficiente para abalar o poderio econômico 
estadunidense, mantendo os Estados Unidos como locomotiva da eco-
nomia global, mesmo após a crise de 2008. Muito embora tenha sido 
suficiente para acirrar uma disputa hegemônica entre esses dois países, 
com os EUA declarando a China como seu principal rival estratégico 
e sendo forçados a alterar o conjunto de sua política econômica, es-
tendendo sua influência em Continentes e regiões como a África e a 
América Latina.
No centro de uma guerra comercial entre essas duas potências 
econômicas e após intensas disputas tarifárias, as exportações de soja 
americana, carne de porco, trigo e outros produtos para a China dimi-
nuíram drasticamente. Isso porque Pequim também impôs tarifas em 
resposta ao protecionismo do presidente Donald Trump. O resultado 
foi o cancelamento de inúmeros contratos lucrativos com produtores 
99
MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA
◀ Voltar ao sumário
dos EUA, enquanto os chineses passaram a buscar produtos em outros 
países, como Brasil e Canadá. Por certo, este foi um duro golpe para o 
agronegócio americano. Prova disso é que as exportações agrícolas dos 
EUA para a China caíram de US$ 24 bilhões, em 2014, para US $ 9,1 
bilhões, em 2019. O que exigiu, por parte do Governo americano, uma 
ajuda financeira de US$ 28 bilhões ao agronegócio5.
E o resultado não poderia ser melhor para o agronegócio latino-a-
mericano, em especial para países como Argentina, Brasil, Chile, Co-
lômbia, México e Peru, sobretudo, em 2018, mas essa possibilidade de 
crescimento se manteve por pouco tempo e, ainda, em 2019 esses paí-
ses já sentiram o peso da retração dos preços das commodities e outras 
matérias-primas, acarretada pela baixa demanda chinesa. E ao invés de 
crescimento expressivo, esses países se depararam com quedas signifi-
cativas no PIB em 2019.
No entanto, mesmo em meio às incertezas e desafios dessa guerra 
comercial, o agronegócio na América Latina tem mantido os resul-
tados positivos, que têm registrado desde a década de 1960, quando 
se tornou responsável pelo crescimento da economia mundial, com 
grande propulsão na década de 1990, quando também ganhou grande 
importância política e intelectual nessa região. E esse debate tem as-
sumido, sobretudo, na atual geopolítica latino-americana, um caráter 
pragmático, em particular, na defesa irrestrita do agronegócio como 
fonte do crescimento econômico, sem, com isso, realizar um esforço de 
apreendê-lo a partir da sujeição financeira dos países desse Continente 
à dinâmica de acumulação e reprodução do capital na periferia. Nessas 
condições, o agronegócio no século XXI se consolida como parte da 
5 O agronegócio é o novo nome de desenvolvimento econômico da agropecuária capitalista, 
cuja origem remonta ao sistema de plantation, quando grandes propriedades são utiliza-
das na produção voltada para exportação. No entanto, “[a] palavra agronegócio [...] é tam-
bém uma construção ideológica para tentar mudar a imagem latifundista da agricultura 
capitalista. [...] A imagem do agronegócio foi construída para renovar a imagem da agri-
cultura capitalista, para ‘modernizá-la’. É uma tentativa de ocultar o caráter concentrador, 
predador, expropriatório e excludente para relevar somente o caráter produtivista. Houve 
o aperfeiçoamento do processo, mas não a solução dos problemas: o latifúndio efetua a 
exclusão pela improdutividade, o agronegóciopromove a exclusão pela intensa produtivi-
dade” (FERNANDES, 2010, p. 140, grifo do autor). 
100
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
ofensiva do capital internacional, por meio de parcerias político-eco-
nômicas, a exemplo da intensa negociação com a República Popular da 
China, muitas dessas firmadas através da China National Agricultural 
Development Group Corporation. Como resultado se tem o aprofunda-
mento do consumo das riquezas naturais e, consequente, expropriação 
da terra e deterioração das condições de reprodução da vida.
A expropriação da terra é tamanha que a OXFAM, Confederação 
Internacional que realiza estudos sobre a pobreza e a desigualdade 
em mais de 90 países, em Relatório publicado, em 2019, sob o título 
Terra, Poder e Desigualdade na América Latina, compara o cenário de 
concentração das propriedades rurais em 15 países dessa região, com 
destaque para o Brasil. Partindo da análise dos Censos Agropecuários 
locais, o estudo aponta que apenas 1% das fazendas ou estabelecimen-
tos rurais na América Latina concentra mais da metade (ou 51,19%) de 
toda a superfície agrícola da região (OXFAM, 2019).
O que, segundo esse Relatório, está atrelado: à expansão do agrone-
gócio que não ocorre dissociado do processo de acumulação e concen-
tração de capital, terra e poder; ao modelo de desenvolvimento basea-
do na exploração extrema dos recursos naturais; e ao favorecimento da 
concentração da maior parte das terras nas mãos de um seleto grupo 
de produtores, sobretudo, os de commodities, enquanto a maioria das 
famílias fica limitada às pequenas porções de terra (OXFAM, 2019). 
Ainda que a agricultura familiar – baseada em pequenas porções de 
terra – seja responsável por 60% da produção de alimentos na América 
Latina, respondendo por 70% dos empregos gerados pelo setor agrí-
cola, conforme aponta o Relatório da Organização das Nações Uni-
das para a Alimentação e a Agricultura (FAO), sob o título Agricultura 
Familiar en América Latina y el Caribe: Recomendaciones de Política 
(Agricultura Familiar na América Latina e no Caribe: Recomendações 
de Política) (FAO, 2014).
No entanto, o discurso recorrente é que o agronegócio tem garan-
tido parcela expressiva do crescimento econômico desse conjunto de 
países, mas o que não se registra é o resultado da cruzada expansio-
nista do agronegócio que se traduz, entre outras consequências: na 
destruição dos recursos naturais, desencadeadas pelos desmatamentos 
101
MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA
◀ Voltar ao sumário
e queimadas, erosão dos solos, contaminação da água por agrotóxi-
cos, poluição dos rios, entre outras; e na extração e a apropriação de 
mais-valor, em níveis cada vez mais elevados. E essas condições têm 
se intensificado desde os anos de 1980, quando não apenas os valores 
baixos da terra, mas também os altos índices de produtividade – os 
melhores do mundo, graças ao excedente de recursos naturais, como 
solo, clima, água –, têm tornado o agronegócio na América Latina al-
tamente rentável e atrativo. Sob essas condições, o crescimento do PIB 
dos países tem sido acompanhado pelo aumento do desmatamento, da 
destruição da natureza e do trabalho não pago, realizador de sobretra-
balho, como fonte de extração de mais-valor e realização do lucro.
E essas particularidades se vinculam, segundo Fernandes (1975), a 
um modelo de capitalismo que reproduz na América Latina as for-
mas de apropriação e expropriação inerentes ao capitalismo moderno. 
Nesse modelo, esclarece Marini (2011), a economia dessa região se vê 
subordinada à política do capital, que determina as regras de sua in-
serção – de caráter dependente – e define as regras de troca de mer-
cadorias entre a periferia e o centro, o que ocorre de forma desigual. 
Essa subordinação permite aos países imperialistas se apropriar do 
valor produzido na periferia mediante a transferência de valor para 
as economias do centro capitalista. Além de impor um componente 
adicional específico e típico: a expansão das economias imperialistas e 
dos setores sociais dominantes em cada país, ou seja, a acumulação de 
capital ao se institucionalizar promove, ao mesmo tempo, a expansão 
dos núcleos hegemônicos externos e internos.
E o agronegócio, pautado na lógica mercadológica, cai como luva 
no interior dessa dinâmica, adequando-se, de forma ampla e crescen-
te, à lógica do centro capitalismo. Como aponta Fernandes (2007), a 
lógica do agronegócio é permeada por uma complexidade que incide 
na diversidade, ou seja, utiliza-se da produção para viabilizar novos 
empreendimentos e, consequentemente, mascarar o controle da terra 
e do capital. E no interior dessa dinâmica, o Estado se transformou em 
um importante agente, atuando por meio de políticas territoriais e de 
incentivos fiscais, de modo a garantir o aumento da produção, princi-
palmente, para o mercado externo.
102
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
O resultado é o estímulo da produção voltada à produção de merca-
dorias altamente lucrativas, quase sempre commodities, como é o caso 
da soja, pecuária e cana-de-açúcar, exportada para países como EUA e 
China, em detrimento à produção de alimentos voltados à subsistência 
interna, ou seja, são medidas adotadas não ao estímulo à produção 
agrícola destinada à alimentação de subsistência, mas para atender a 
produção agroindustrial dentro e fora de seus territórios, tendo seus 
preços controlados pelo mercado de futuros nas bolsas de valores de 
todo o mundo, tornando-se:
[...] o centro regulador dos preços mundiais das commodities. 
Na Bolsa de Chicago se decide os preços da soja, milho, trigo, 
farelo e óleo de soja. Na Bolsa de Londres são definidos os pre-
ços do açúcar, cacau, café, etc. Na Bolsa de Nova York correm as 
cotações do algodão, açúcar, cacau, café e suco de laranja, etc. No 
Brasil, não tem sido diferente, a BM&F Bovespa atua no merca-
do futuro de soja, milho, café, etanol e boi gordo. Na Bovespa es-
tão as ações da SLC Agrícola, Brasil Agro, BRF-Brasil Foods, JBS, 
Marfrig, Minerva, Cosan, São Martinho, Tereos, Fibria, Suzano, 
Klabin, Duratex, Eucatex e Ecodiesel (OLIVEIRA, 2012, p. 06).
Com tais medidas, o Estado se coloca como escudo dos grandes 
empreendimentos agropecuários, segundo os interesses do capital 
financeiro, deixando de lado o pequeno produtor, responsável pela 
agricultura familiar, a mesma que responde por 60% da produção de 
alimentos para consumo interno, o que ocorre tanto na América La-
tina, como também em outros países como Estados Unidos e Canadá. 
No entanto, no caso específico dos países latino-americanos, desde a 
década de 1990 tem se construído uma nova forma de gestão do Esta-
do sob o comando de organismos internacionais6, como a Comissão 
Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a Organização 
6 E ainda que Governos conservadores de ultradireita tenham rechaçado a atuação desses 
organismos sob o discurso ideológico contrário ao globalismo, essa influência se mantém 
forte, sobretudo, em termos econômicos e de dominação capitalista na América Latina.
103
MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA
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das Nações Unidas (ONU), Fundo Monetário Internacional (FMI) e o 
Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Forma de gestão essa que expressa a completa sujeição do campo 
aos interesses imperialistas em que se tem, de um lado, a hegemonia 
do agronegócio e, do outro, um cenário desalentador para a humani-
dade: em que se legaliza a apropriação monopólica dos recursos natu-
rais e minerais, alguns destes não reproduzíveis, e o aprofundamento 
das desigualdades de classe juntamente com a ameaça à sobrevivência 
da humanidade diante da crise gerada pela COVID-19.
2 Em tempos de pandemia: o que se espera 
do agronegócio na América Latina?
E a despeito das incertezas provocadas pelos impactos da pande-
mia do novo Coronavírus, o agronegóciotem sido apresentado como 
possível tábua de salvação para a economia, em um cenário em que 
a Organização Mundial do Comércio (OMC) estima que o comércio 
mundial pode sofrer retração entre 13% e 32% neste ano. As estimativas 
apontam que as regiões mais afetadas serão as Américas do Norte e do 
Sul e a Europa, e em setores de produtos eletrônicos e automotivos, de 
turismo e de logística e transporte.
Na contramão, diversas projeções têm apontando que o agronegó-
cio está em uma direção contrária ao da economia em geral, alcançan-
do desempenho satisfatório, sobretudo, a agropecuária. Nesse senti-
do, essa é apresentada como uma atividade que continua altamente 
rentável e com previsão de retomada de crescimento acelerado após 
a estabilização da pandemia. Um exemplo é o caso brasileiro que, nas 
primeiras semanas de abril de 2020, mesmo diante da crise econômica 
provocada pela pandemia, o agronegócio foi o setor responsável pelo 
superávit de US$ 5,061 bilhões da balança comercial, com as exporta-
ções do agronegócio, registrando crescimento de US$ 119,74 milhões 
(62,4%) em comparação com o ano de 2019, enquanto que as importa-
ções recuaram em US$ 1,24 milhão (-6,3%).
E a dependência do país quanto aos resultados do agronegócio é ta-
manha que no mês de abril de 2020, o Governo brasileiro sancionou a 
104
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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Medida Provisória do Agronegócio (Lei no 13.986, de 07 de abril), am-
pliando o acesso ao financiamento agrícola, expandindo recursos e re-
duzindo taxas de juros. Entre as principais medidas, essa Lei: a) institui 
o Fundo Garantidor Solidário (FGS), em substituição às garantias nas 
operações de crédito realizadas por produtores rurais junto às empre-
sas, bancos e tradings; b) institui a modalidade Patrimônio Rural em 
Afetação, que permite ao proprietário rural submeter seu imóvel rural 
ou fração dele ao regime de afetação, destinado a prestar garantias por 
meio da emissão de Cédula de Produto Rural (CPR), de que trata a Lei 
nº 8.929, de 22 de agosto de 1994, ou em operações financeiras contra-
tadas pelo proprietário por meio de Cédula Imobiliária Rural (CIR); 
e c) equalizar as taxas de juros para instituições financeiras privadas, 
entre outras operações.
Essa normatização encontra respaldo no discurso dos organismos 
internacionais que, diante do crescimento global da crise da COVID-19, 
têm convocado o Estado a adotar medidas de socorro, sobretudo, na 
implementação de políticas macroeconômicas e setoriais para estabi-
lizar a economia e apoiar os setores produtivos. Para a cadeia agrí-
cola têm sido priorizadas medidas de: refinanciamento das empresas 
agrícola; adoção de novos protocolos com medidas de biossegurança; 
capacitação da força de trabalho; ajuste do nível de funcionamento nas 
plantas agroindustriais; reprogramação da semeadura e mudança na 
escolha da cultura a ser cultivada (nos casos dos cultivos anuais), entre 
outras.
Essas medidas devem ser acompanhadas também por outras, de 
financiamento, disponibilizadas por bancos de desenvolvimento em 
apoio ao setor agropecuário, como as que vêm sendo adotadas por di-
versos países da América Latina e exemplificadas no Quadro 1:
Quadro  – Medidas adotadas por Bancos de Desenvolvimento em apoio ao setor agropecuário da América 
Latina
País Banco Medidas
Brasil Banco Nacional de Desenvolvimen-
to Econômico e Social (BNDES)
Expansão da oferta de capital de giro.
Continua ▶
105
MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA
◀ Voltar ao sumário
Quadro  – Medidas adotadas por Bancos de Desenvolvimento em apoio ao setor agropecuário da América 
Latina
País Banco Medidas
Colômbia Fondo para el Financiamiento del 
Sector Agropecuario (FINAGRO)
Linha de crédito para produtores agrícolas, participantes 
do FINAGRO, 410 milhões de dólares.
Costa Rica Fondo Nacional para el Desarrollo 
(FONADE)
Perdão das obrigações financeiras de primeiro nível de 
2.705 microprodutores e pequenos e médios produtores 
agrícolas dos diferentes áreas agrícolas do país com o 
FONADE.
Sistema de Banca para el Desar-
rollo (SBD)
Moratória sobre pagamento do valor principal e juros 
por até 6 meses em créditos com recursos do SBD para 
empresas com grande impacto econômico.
Carência de até 12 meses no pagamento principal de 
operações financiadas com recursos do SBD para empresas 
com impacto econômico médio.
Refinanciamento de operações de crédito com recursos do 
SBD para capital de giro.
Capital de giro de emergência.
Canalização de recursos do imposto banca de maletín para 
a prevenção, resgate, recuperação e reativação econômica 
de atividades de negócios e produção.
Fundos não reembolsáveis para 200 pequenas e médias 
empresas (PME).
Plataforma de comércio eletrônico.
Cuba Banco Central de Cuba Moratória sobre pagamento de juros e valor principal dos 
clientes cuja atividade foi total ou parcialmente suspensa.
El Salvador Banco de Desarrollo de El Salvador 
(BANDESAL)
Flexibilização de créditos vigentes.
Banco de Fomento Agropecuario 
(BFA)
Flexibilização de créditos vigentes.
Guatemala BANRURAL Flexibilização de créditos vigentes.
Honduras Banco Hondureño de la Producción 
y la Vivienda (BANHPROVI)
Flexibilização de créditos vigentes (de primeira e segunda 
linha).
México Fideicomisos Instituidos en Rela-
ción con la Agricultura (FIRA)
Flexibilidade de créditos vigentes.
Financiamento adicional para reativar operações.
Redução de taxas em novos empréstimos.
Garantias para produtores e empresas credenciadas.
Linhas de crédito e garantias para entidades financeiras.
Financeira Nacional Agropecuária 
(FINAGRO)
Crédito.
Cobertura de preços.
Seguro de renda.
Panamá Banco de Desarrollo Agropecuario 
(BDA)
Empréstimos para atividades agropecuárias com juros de 
0% (Plan Panamá Agro Solidario).
Peru Agrobanco Reprogramação das dívidas dos agricultores por 6 meses, 
sem juros.
Continua ▶
106
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Quadro  – Medidas adotadas por Bancos de Desenvolvimento em apoio ao setor agropecuário da América 
Latina
País Banco Medidas
República 
Dominicana
Banco Agrícola de la República 
Dominicana (BAGRICOLA)
Flexibilidade de crédito vigente.
Reestruturação de empréstimos vencidos.
Fonte: CEPAL/FAO (2020).
Esse conjunto de ações se vincula à defesa dos organismos interna-
cionais de que os Governos da América Latina precisam adotar medi-
das para enfrentar a crise de saúde resultante da pandemia, mas tam-
bém mitigar os efeitos negativos em setores estratégicos da economia, 
sobretudo, os comandados por grandes grupos econômicos nacionais 
produtores e exportadores de commodities. E embora essa defesa faça 
menção à importância da adoção de medidas no campo do mercado 
laboral e do acesso aos serviços sociais, os grandes investimentos estão 
voltados para as grandes atividades econômicas e ao comércio interna-
cional. Dentro do alcance dessas medidas, o agronegócio tem recebido 
atenção prioritária, uma vez que tem sido visto como uma possibilida-
de de alavancar os resultados da economia, durante e após a pandemia.
E embora algumas medidas adotadas – e apresentadas no Quadro 1 
– sejam destinados a outros segmentos da economia, o objeto prioritá-
rio do protagonismo do Estado em tempos de pandemia se volta, em 
especial, através das instituições financeiras estatais, ao atendimento 
dos interesses de grandes grupos econômicos nacionais produtores e 
exportadores de commodities, entre estes o agronegócio, e em conso-
nância com os interesses fundamentais do capital financeiro. A expec-
tativa, segundo reportagem da Agência Reuters (2020a), é que a China 
importe mais carne suína em 2020, após a pandemia de Coronavírus e 
os impactos da Peste Suína Africana (PSA), com estimativa de cresci-
mento de 2,8 milhões de toneladas, o que representa variação de 32,7% 
na comparação anual.
Em outra reportagem, essa mesma Agência aponta que as exporta-
ções brasileirasdo agronegócio avançaram 18% em maio, quando com-
parado ao mesmo período de 2019, o que configura um incremento 
de 10,9 bilhões de dólares, recorde para o mês, com destaque para a 
comercialização de soja, de carne bovina e de açúcar para a China. Na 
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MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA
◀ Voltar ao sumário
liderança da pauta de exportação brasileira, a soja alcançou 5,2 bilhões 
de dólares em vendas externas; seguida pela receita com exportação 
de carne bovina, que alcançou 780 milhões de dólares; e pela comer-
cialização de açúcar, que totalizou 767 milhões de dólares. Dos produ-
tos comercializados do agronegócio, o mercado chinês – ainda que as 
importações da China em seu conjunto tenham registrado queda de 
16,7% em maio, em comparativo com o ano anterior – foi responsá-
vel pela aquisição de 44,9% do total exportado pelo Brasil, somando 
4,91 bilhões de dólares em aquisições (+50,4%) (AGÊNCIA REUTERS, 
2020b).
No entanto, algumas preocupações têm rondado o agronegócio 
diante da pandemia da COVID-19, como sinalizado por Stephenson e 
Shutske (2020): o impacto em preços e mercados; a lentidão e escassez 
nas cadeias de suprimentos; a saúde dos produtores e de suas famílias; 
eventuais baixas na força de trabalho; segurança para os (as) trabalha-
dores(as) e falta de equipamento de proteção individual; e outras in-
terrupções e desafios que moradores de áreas rurais possam enfrentar 
diante do avanço da pandemia.
O fato é que as estimativas de impacto no crescimento do PIB, em 
geral, no ano de 2020, não são nada favoráveis, embora o agronegócio 
tenha registrado números favoráveis no primeiro semestre. Por en-
quanto, ainda é cedo para precisar a dimensão dos impactos reais. O 
que é possível precisar até o momento é que os efeitos da pandemia so-
bre o conjunto da sociedade são de proporções incalculáveis. O que já 
é possível afirmar é que grandes segmentos populacionais serão lança-
dos no abismo do desemprego, da informalidade, de extrema pobreza 
e/ou completa penúria.
Um desenho dessa realidade já foi estimado pela Organização Inter-
nacional do Trabalho (OIT), ao revelar que cerca de 53% do mercado 
de trabalho na América Latina é formado pelo trabalhador informal, 
e o sistema de saúde não está preparado como os países da Europa e 
EUA para uma pandemia. Por isso, estima que os impactos sanitários 
e econômicos serão maiores (CEPAL; OIT, 2020).
E com a estimativa de resultados negativos dos mercados nacionais, 
em curto prazo, e com projeções alarmantes para o tempo futuro, dife-
108
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
rentes organismos internacionais têm projetado retrocessos históricos 
para o Continente latino-americano. Estimativas da Organização para 
a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que a 
Argentina e o Brasil terão queda em seus PIBs em 10% e 9,1% respecti-
vamente, e o do México em 8,6% (OCDE, 2020).
Tamanha é a gravidade do tempo presente que até mesmo os orga-
nismos internacionais, que em suas análises se baseiam em uma me-
todologia relativizante, que mantêm intocadas as bases estruturais das 
desigualdades e da pobreza, bem como a lógica de exploração da força 
de trabalho pelo capital (SILVA, 2018), apresentam projeções alarman-
tes para o momento atual. Entre estas: o encolhimento de 5,3% no PIB 
regional, pior desempenho na história da América Latina; taxa de de-
semprego regional em 11,5%, um aumento de 3,4 pontos percentuais 
em relação a 2019, com o número de desempregados chegando a 37,7 
milhões de pessoas; taxa de pobreza crescendo 4,4 pontos percentuais 
em 2020, chegando a 34,7% da população, ou seja, mais 29 milhões de 
pessoas em situação de pobreza; e o aumento da pobreza extrema de 
2,5 pontos percentuais, indo de 11% para 13,5%, com crescimento de 16 
milhões de pessoas nessa condição (CEPAL; OIT, 2020).
O fato é que se está diante de uma paralisação simultânea da produ-
ção e da circulação de mercadorias em diversos países e, muito distan-
tes de uma estabilização e, mais ainda de uma solução definitiva para 
a pandemia, com dezenas de milhares de casos surgindo ou se agra-
vando a cada dia pelo mundo. O efeito mais evidente dessa pandemia 
é uma queda brutal da economia, ao mesmo tempo que coloca sobre 
todos os holofotes os descaminhos e consequentes mazelas acarretadas 
pela dinâmica e contradições próprias da produção e reprodução capi-
talista, sobretudo, em sua face financeirizada.
Considerações finais
Enquanto estratégia do capital, mediante a parceria do grande ca-
pital interno e internacional, a expansão do agronegócio ocorreu em 
consonância com o processo de ordenamento espaço-temporal do ca-
pitalismo contemporâneo, em sua busca para (re)produzir e sobreviver 
109
MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA
◀ Voltar ao sumário
diante das crises de acumulação. Processo esse que teve início com a 
incorporação do território às teias do capitalismo mundializado, por 
meio da expansão da fronteira agrícola. O que vem sendo (re)produ-
zido e ampliado por meio de uma produção agropecuária altamente 
modernizada e capitalizada, voltada para atender a lógica do mercado 
globalizado. Está-se falando aqui de um agronegócio glamourizado e 
que se coloca como responsável pela geração de riqueza para o país e 
pela elevada produtividade do campo.
Sob os domínios desse discurso, o agronegócio procura ocultar suas 
contradições por meio de formulações pautadas na ideia de progres-
so, de crescimento econômico, de produtividade e de combate à fome7. 
Dessa forma, o agronegócio tem servido para ocultar os conflitos exis-
tentes no espaço na luta pela posse da propriedade da terra, além de 
ocultar a superexploração; o trabalho degradante; a concentração de 
poder e riqueza; a criminalização dos movimentos sociais no campo; e 
impedir o avanço e até mesmo a compreensão da importância da luta 
pela reforma agrária. Além de degradar os diversos recursos naturais 
e minerais: matando rios; erodindo o solo; envenenando pessoas com 
o uso indiscriminado de agrotóxicos; e desmatando florestas. Sem dei-
xar de mencionar que também assalta o fundo público por meio de 
incentivos milionários, do não pagamento de impostos, da prática de 
sonegação fiscal, entre outras.
No entanto, ao invés de rechaçado, o agronegócio, reiteradamente, 
tem sido exaltado como salvação, sobretudo, nesse momento de pan-
demia, desconsiderando suas características históricas de uma agricul-
tura capitalista, realizada seguindo práticas produzidas e reproduzidas 
no campo, com o favorecimento econômico e político da dominância 
financeira e, por extensão, da burguesia interna aliada aos capitais es-
trangeiros e ao imperialismo. O que na história da América Latina é 
um fato recorrente, parte de sua herança histórica.
Nesse sentido, em tempos de pandemia, mesmo que o Mundo já te-
nha decretado que a sociedade nunca mais será a mesma – e no modo 
7 Embora seja recorrente o uso do termo combate à fome, considera-se que as medidas ado-
tadas se enquadram, de fato, em uma perspectiva que procura administrar a fome e a 
pobreza. 
110
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
de viver, provavelmente, não será –, as heranças históricas estruturais 
seguirão bastante no mesmo. E como já dito por Martins (1994, p. 30): 
o novo se manterá como desdobramento do velho.
Referências
AGÊNCIA REUTERS. China vê importações de soja e carne suína maiores 
em 2020. Matéria Jornalística publicada por Hallie Gu e Emily Chow na 
seção Negócios em 20 de abril de 2020. Brasil: REUTERS, 2020a. Disponível 
em: https://br.reuters.com/article/businessNews/idBRKBN2221LS-OBRBS. 
Acesso em: 20 mai. 2020.
AGÊNCIA REUTERS. Receita de exportação do agronegócio do Brasil cres-
ce 18% em maio com compras chinesas. Matéria Jornalística publicada por 
Nayara Figueiredo na seção Negócios em 10 de junho de 2020. Brasil: REU-
TERS, 2020b.. . . . . . . . 151
Lélica Elis Pereira de Lacerda
CAPÍTULO 8
O processo de reestruturação da Política de 
Assistência Social: as transformações do Estado 
e os desafios na atualidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 168
Liliam dos Reis Souza Santos
Miriam de Souza Leão Albuquerque
CAPÍTULO 9
A extensão universitária no Brasil e os impasses 
da Meta 12 do PNE e da RES . CNE/CES nº 7/2018 . . . . . . 184
Jaime Giolo
CAPÍTULO 10
Neoconservadorismo, Estado penal e violação 
de direitos humanos de LGBT em situação de prisão . . 214
Patrícia Cristina Bachega
Imar Domingos Queiróz
CAPÍTULO 11
Envelhecimento e Velhice: o pensamento liberal 
e neoliberal sobre proteção social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236
Liliane Capilé Charbel Novais
Delaine Regina Bertoldi
CAPÍTULO 12
As condições de trabalho dos assistentes sociais 
nas políticas sociais: aproximações para o debate . . . . . 256
Mabel Mascarenhas Torres
Tânia Mara da Silva Backschat
CAPÍTULO 13
Serviço Social e cultura profissional: 
aproximação a partir dos fundamentos do 
Serviço Social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275
Carina Berta Moljo
13◀ Voltar ao sumário
APRESENTAÇÃO
A Coletânea Questões e tendências contemporâneas do capitalis-
mo: desdobramentos para as políticas sociais e o Serviço Social parte 
da iniciativa institucional no âmbito do Programa de Pós-Graduação 
em Política Social (PPGPS) da Universidade Federal de Mato Grosso 
(UFMT), para socializar a sua produção docente, discente e de egres-
sos, juntamente com a contribuição de pesquisadoras(es) de diversas 
Instituições de Ensino Superior (públicas e privadas) do país, vincu-
ladas(os) à área da política social e outras afins. E em meio a conjun-
tura atual de crise econômica e sanitária mundial, esse conjunto de 
pesquisadoras(es) se dispôs a construir reflexões sobre o movimento 
do capital e expor análises sobre as questões e tendências, que surgem 
no movimento dessas mudanças no capitalismo, no Estado e na socie-
dade, bem como seus reflexos nas políticas sociais e no Serviço Social 
brasileiro.
O resultado é uma Coletânea integrada por treze capítulos, distri-
buídos em duas partes complementares. Na primeira, intitulada Capi-
talismo e Estado em tempos de crise do capital, os capítulos expõem 
as mudanças macrossocietárias do capitalismo no contexto de crise 
estrutural do capital, a partir da década de 1970, momento inaugura-
do por um novo regime de acumulação do capital, com ações intrin-
secamente concatenadas com a dinâmica da reestruturação produti-
va (ANTUNES, 2009)1, com novas formas de dominância de espaço 
temporal (HARVEY, 2005)2 e mudanças monetárias e financeiras, que 
reforçam o caminho da centralização e concentração do capital. Além 
daquelas concatenadas com processos simultâneos de concentração 
territorial do poder militar, político e ideológico, e da riqueza mun-
dial, ao mesmo tempo que se intensificam, sobretudo, na periferia do 
sistema mundial: a pauperização de grandes massas; e as investidas 
contra o trabalho e contra jovens, pobres, negros, indígenas, mulheres, 
grupos LGBT e outras minorias, acompanhadas por longos períodos 
de supressão, de intolerância e de ataques aos direitos.
14
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Esse conjunto de medidas implementadas pelo capital tem como 
propósito recuperar os níveis de acumulação e de reprodução do ca-
pital, impondo mudanças que incidem seriamente nos processos de 
trabalho, nas configurações geográficas e geopolíticas, e subordina o 
Estado para alcançar suas metas em relação ao domínio político e à 
acumulação, o que agrava o quadro de barbarização da vida social tão 
naturalizado pela ideologia dominante (NETTO, 2012)3.
No interior dessa dinâmica, a relação entre Estado e capital se torna 
necessária e primordial à continuidade e existência do segundo, re-
lação esta que continuamente também passa por alterações. Segundo 
Mészáros (1999)4, o suporte político do Estado procura complementar 
o sistema do capital, criando condições para a manutenção e a repro-
dução do sistema. Isto é importante, porque para prosseguir com sua 
expansão impulsionada pela acumulação, o sistema do capital pressu-
põe a subordinação da sociedade a seus objetivos, nas “funções produ-
tivas, distributivas”.
Ainda, de acordo com Mészáros (1999), o sistema do capital apre-
senta falhas estruturais, como a: separação entre produção e seu con-
trole, e a oposição entre esses; cisão entre produção e consumo, que 
passa a ter existência e independência um do outro; e a necessidade do 
sistema do capital de criar formas para viabilizar sua circulação global 
e ampliar sua atividade por todo o Planeta, sem empecilhos ou restri-
ções jurídicas ou de qualquer outra natureza.
O papel do Estado tem como pano de fundo uma nova fase do acir-
ramento das contradições do capitalismo. E, ao passo que procura ga-
rantir as condições para sua acumulação, gera um grau cada vez mais 
elevado de exploração, de expropriação, de exclusão e de desigualda-
des sociais. O que, por sua vez, ameaça a própria continuidade deste 
sistema, pressionando o Estado a intervir, não mais através de políticas 
de caráter universalista e sob o viés da cidadania, mas por meio de 
políticas ainda mais focalizadas e seletivas.
3 NETTO, José Paulo. Crise do Capital e consequências societárias. In: Revista Serviço So-
cial e Sociedade, n° 111. São Paulo: Cortez, 2012, p. 413-429.
4 MÉSZÀROS, István. A ordem do capital no metabolismo social da reprodução. In: En-
saios Ad Hominem. Tomo I. São Paulo: Estudos e Edições Ad Hominem, 1999.
15
IzABEL CRISTINA DIAS L IRA, JANAíNA CAR VALhO BARROS E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA 
◀ Voltar ao sumário
E em países, cujas particularidades e determinações históricas são 
marcadas pelo desenvolvimento desigual e o caráter dependente fren-
te às economias centrais, como é o caso da América Latina, tem se 
acentuado a superexploração da força de trabalho e exigido, mais uma 
vez, a readequação do Estado a esse novo padrão de reprodução do 
capital. O que se apresenta vinculado ao redesenho do mapa geopolíti-
co, mediante a competição entre os Estados pelo poder e pela riqueza 
mundial. O fato é que a grande transformação das últimas décadas 
do século passado e seu impacto sobre a periferia do sistema mundial, 
com maior intensidade no após-década de 1990, se alinham ao ajus-
te estrutural e à estabilização dessas economias impostas pela agenda 
neoliberal.
Não é que essas ideias sejam novas, uma vez que têm seus funda-
mentos derivados do liberalismo clássico, econômico e político, com 
reforço da crença em um capitalismo sem fronteiras e gerido por Esta-
dos nacionais reduzidos as suas funções mais elementares. Não à toa, 
esses países têm suas prescrições formuladas/impostas pelos organis-
mos financeiros internacionais como o Fundo Monetário Internacio-
nal e o Banco Mundial, que priorizam a estabilidade econômica em 
detrimento do social, por meio de privatizações de sistemas previden-
ciários, que levam à capitalização individual, bem como expansão de 
programas focalizados e assistenciais, que reforçam o caráter cliente-
lista; e a restrições no acesso da população às políticas sociais. Além 
de serem acompanhadas pelo falacioso discurso de que a desregulação 
dos mercados e a liberalização das economias nacionais promoveria, 
em médio prazo, a convergência da riqueza das nações e a redução das 
desigualdades sociais.
Para agravar, no contexto atual, além do acirramento da crise eco-
nômica, política, cultural e ideológica, as perdas sublinhadas vêm sen-
do intensificadas e complexificadas, exponencialmente, com a crise 
sanitária causada pelo Coronavírus, SARS-CoV-2, causador da pande-
mia da COVID-19, que expõe e põe em destaque as mais profundas 
desigualdadesDisponível em: https://br.reuters.com/article/businessNews/
idBRKBN23H3GB-OBRBS. Acesso em: 20 mai. 2020.
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111
MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA
◀ Voltar ao sumário
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113◀ Voltar ao sumário
CAPÍTULO 5
Da grande epopeia capitalista à 
pandemia e ao pandemônio
Renato Tadeu Veroneze
Introdução
Vive-se em um período atípico em toda a história do capitalismo. 
A crise causada pela pandemia da COVID-19 vem produzindo reper-
cussões nefastas não só apenas de ordem biomédica e epidemiológica 
em escala global, mas também repercutindo e impactando todos os 
setores sociais, econômicos, políticos, culturais e históricos dos últi-
mos tempos.
Depois de um período de profunda recessão econômica e crises po-
líticas, em diversos países, causadas, sobretudo, pela crise imobiliária 
dos Estados Unidos e da crise do Euro, na Europa, em 2008, o Mundo 
foi sacudido por mobilizações sociais e populares em larga escala, es-
pelhando a insatisfação da população com as condições de vida e de 
trabalho que têm sido cada vez mais precarizadas e subalternizadas 
frente ao resultado que o capitalismo tem causado de tempos em tem-
pos com crises cíclicas e estruturais do capital.
Contudo, uma mutação de um vírus (Coronavírus), um micro-or-
ganismo de fácil propagação, conseguiu parar o Mundo e acionar um 
sinal de alerta para questões que até então estavam adormecidas. A 
estimativa de infectados e mortos em todo o Mundo concorre dire-
tamente com o impacto sobre os sistemas de saúde, com a exposição 
de populações e grupos vulneráveis, com a sustentação econômica do 
sistema financeiro e com a saúde física e mental de milhares de pessoas, 
exigindo o confinamento social, as mudanças de comportamentos e ao 
114
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
temor de serem as próximas vítimas a serem infectadas, adoecendo ou 
morrendo.
Em meio ao caos que tomou conta do Mundo, presencia-se diaria-
mente e, em tempo real, as fragilidades que a humanidade está sub-
metida, diante de um problema que, até então, não tem previsão para 
a sua solução. O acesso aos bens essenciais como alimentação, medi-
camentos, transporte e atendimento de saúde tem sido comprometido, 
expondo populações inteiras a uma fragilidade sem precedente.
A economia tão importante para a manutenção do capitalismo tem 
sofrido ameaças na direção de um caos generalizado e global, colocan-
do em alerta toda a população mundial para os rumos que o capitalis-
mo estava tomando. Além do mais, a devastação da natureza poderia 
gerar uma situação de catástrofe mundial, colocando em risco a vida 
do Planeta.
A necessidade de ações de contenção da mobilidade social por con-
ta do isolamento e a velocidade e urgência com que o vírus se propaga 
têm feito com que as pessoas se reinventem, mudem seus hábitos,to-
mem consciência da realidade e despertem para valores até então des-
considerados. Medicamentos e vacinas evidenciam o descaso de mui-
tos Governos em relação às pesquisas e à produção de conhecimento, 
evidenciando implicações éticas e de direitos humanos que merecem 
ser valoradas.
Responder parcialmente a estas situações não é uma tarefa fácil, até 
mesmo por não se ter respostas e por se estar assentados em incertezas 
e prudência. A história irá mostrar como se reagiu a tudo isso, mas 
o importante é visualizar as suas consequências. Uma coisa é certa: a 
epopeia capitalista tem complicado muito as relações sociais, políticas, 
econômicas, culturais e até as espirituais. Por isso, torna-se urgente 
repensar os valores, as crenças, as posturas, enfim, a vida perante este 
tipo de sociabilidade.
Este artigo não pretende fazer uma análise conjuntural sobre a pan-
demia, que assola a humanidade, mas tecer algumas reflexões sobre 
os últimos anos, centralizando as análises no Brasil, no sentido de 
apontar para as mudanças que têm ocorrido na sociedade atual e suas 
consequências, de modo a evidenciar a barbárie que as artimanhas do 
115
RENATO TADEU VERONEzE
◀ Voltar ao sumário
capitalismo colocou no momento presente, principalmente, e em re-
lação à crise política que tem estampado um cenário de horror e de 
indignação de um navio que enfrenta problemas e que pode estar à 
deriva nessa epopeia.
1 Uma nau à deriva
A partir de 2008, uma nova crise começa a despontar nos Estados 
Unidos e na Europa. Ao mesmo tempo, um número considerável de 
manifestações populares e sociais começaram a eclodir em várias par-
tes do Globo, causadas, sobretudo, pelo agravamento das condições de 
vida provocada pelos ajustes fiscais e financeiros para a manutenção 
do poder hegemônico do capital. Além disso, uma série de políticas 
neoliberais e neoconservadoras passaram a ser a mola mestra do cli-
ma de efervescência e descontentamento generalizado (VERONEZE, 
2019; 2017).
No Brasil, políticas de recessão, de criminalização dos movimen-
tos e das manifestações sociais e políticas de austeridade impostas por 
Governos estaduais, sob a chancela do Governo Federal, mantinham 
o status quo da hegemonia do capital sobre a vida social, massacran-
do impiedosamente a população trabalhadora, principalmente, nos 
grandes centros urbanos, nos quais as condições de vida e de trabalho, 
na maioria das vezes, são mais pauperizadas e precarizadas, principal-
mente, para uma população periférica.
A partir de 2012 cresce o número de greves de várias categorias de 
trabalhadores, assim como mobilizações por moradia, terra, ocupação 
de fábricas falidas e escolas, por demarcações das terras indígenas e 
quilombolas, entre outras, sofrendo, na maioria das vezes, austeridade 
pelos poderes públicos constituídos, sobretudo, pelas forças militares 
(MARCONSIN; ABRAMIDES, 2019).
Na sequência, os anos de 2013 e 2014 foram marcados por diversas 
manifestações populares e sociais que mobilizaram o país, desenca-
deadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), formadas, em sua maioria, 
por jovens estudantis e organizadas por meio de ciberespaços. Inicial-
mente, o motivo desencadeador havia sido o aumento do preço das 
116
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
passagens de ônibus, mas ao longo do tempo foram ganhando força 
e novas reivindicações começaram a fazer parte dessas mobilizações, 
tais como: melhorias nos serviços públicos, educação, saúde, moradia, 
precarização da vida e do trabalho, meio ambiente, contra os megae-
ventos e, principalmente, contra os mega esquemas de corrupção, que 
assolavam o país, notando-se uma insatisfação generalizada, mas que, 
naquele momento, não eram acompanhadas por uma grau de cons-
ciências política do ponto de vista classista.
Enquanto uma massa de indignados tomava as ruas ao redor do país 
em prol do direito à cidadania, à democracia, à liberdade e ao “direito 
a ter direitos”, por um lado, na outra ponta, uma onda conservado-
ra, reacionária, separativista e fundamentalista da burguesia direitista, 
que teima em ser reconhecida e se manter no poder, mostrava a sua 
cara.
Esse movimento de caráter sociopolítico e cultural-ideológico, 
constituído pelos mais diferentes atores sociais, pertencentes às dife-
rentes classes e camadas sociais, reivindicava diferentes temáticas, em 
um pluralismo que se misturou ao sentimento de participação, heroís-
mo, revolta e paixão. Segundo Gohn (2007), essa “massa” de indigna-
dos se apresentava sobre distintas formas de se organizar e de expressar 
suas demandas e reivindicações.
Essa nova modalidade de organização e de mobilização social esta-
va visível em todo o Mundo, por meio das grandes marchas de protes-
tos, que tomaram as ruas naquele período, expressando sua insatisfa-
ção política e social, na busca de confrontos com os atuais governantes 
ou, até mesmo, na derrubada de regimes autoritários ou de pressão às 
políticas de ajuste fiscal, financeiro e de perda de direitos como, por 
exemplo, no caso brasileiro.
Essas manifestações populares apresentavam características singu-
lares: o despertar político de jovens1, sobretudo da classe média, a com-
preensão do empoderamento social frente aos Governos corruptos e 
levando em conta o custo de vida nos grandes centros urbanos, de 
1 Gohn (2014) aponta que a grande maioria desses jovens possuía diplomas universitários 
(cerca de 77%) e menos de 25 anos (53%), segundo pesquisas realizadas em tempo real.
117
RENATO TADEU VERONEzE
◀ Voltar ao sumário
modo a demonstrar certa indignação com a diminuição dos gastos nas 
políticas públicas e com a promoção de megaeventos no Brasil.
Entretanto, essas manifestações foram perdendo força no decorrer 
do segundo semestre de 2013, desaparecendo das ruas como movimen-
to de massa. Contudo, uma nova forma de manifestação despontou no 
horizonte:
[...] O que os motivam é um sentimento de descontentamento, 
desencantamento e indignação contra a conjuntura ético-polí-
tica dos dirigentes e representantes civis eleitos nas estruturas 
de poder estatal, as prioridades selecionadas pelas administra-
ções públicas e os efeitos das políticas econômicas na sociedade 
(GOHN, 2014, p. 13).
Em 2014, os gastos com os megaeventos, em detrimento das políti-
cas públicas e sociais, passaram a ser denunciados pela grande mídia 
nacional, o que gerou outra onda de manifestações populares e sociais, 
com forte repressão das forças militares aos movimentos sociais. A in-
satisfação política, sobretudo de uma classe média em ascensão, prin-
cipalmente, em decorrência das medidas de ajustes fiscais a serviço do 
grande capital financeiro, o aumento das taxas de desemprego e dos 
juros bancários culminaram com ajustes na redução de recursos às po-
líticas públicas e sociais, abrindo debate para a reforma da previdência 
social, com várias perdas para a classe trabalhadora.
Estes fatores culminaram com o impeachment da presidente Dilma 
Rousseff, subindo ao poder Michel Temer, fruto de um casuísmo jurí-
dico e manobras institucionais e midiáticas orquestradas pela extrema 
direita da grande burguesia, estabelecendo, assim, o aprofundamento 
de uma crise política no país em favor do grande capital. Em tempos 
de crise política e econômica que implicaram uma devassa da devassa2 
2 Devassa é um termo jurídico que implica a pesquisa de provas, a observação, a inquirição 
de testemunhas e a sindicância para averiguação de ato criminoso. O mesmo pode ser 
utilizado para indicar uma mulher vulgar, que se corrompeu ou se prostituiu, em outras 
palavras, que não tem moral. Ambas as definições se encaixam na crise política brasileira 
desse período (VERONEZE, 2018).
118
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
de investigações para apurar crimes de políticos corruptos, que desvia-
ram bilhões de reais dos cofres públicos, estabeleceu-se um período 
tenso em âmbito nacional e internacional.
O Partidodos Trabalhadores (PT), no poder desde 2002, sangrou 
não somente pelos seus erros, mas pelas alianças que fez para chegar 
ao poder, se afastando basicamente daquilo que foi ou o que se propu-
nha quando assumiu o poder. Por mais que o governo petista tenha 
ampliado o acesso aos direitos sociais, ficou muito distante de suas 
bases militantes mais sofridas: os trabalhadores. Suas bases continua-
ram no chão de fábrica, nas ruas, inseridas no mundo do trabalho e na 
militância política, e não se coadunaram com os quadros políticos que 
foram para os gabinetes (VERONEZE, 2017, p. 356).
Nessa direção, tudo conspirou para um golpe político do Partido do 
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), partido de Michel Te-
mer em conluio com a grande burguesia aliada à extrema direita, para 
com o Partido dos Trabalhadores (PT), mostrando a sua cara de parti-
do coadjuvante, mesquinho, interesseiro e egoísta, como sempre foi. O 
golpe político foi muito bem arquitetado, contribuindo para a vitória 
das lideranças políticas ultraconservadoras. Infelizmente, o país não 
tem uma esquerda organizada e uma cultura política que desse conta 
desse processo, mas apesar de alguns avanços nessa direção, hoje o 
povo brasileiro é mais empoderado e tem reagido com mais veemência 
ao desmonte das políticas públicas e aos direitos arduamente conquis-
tados (VERONEZE, 2017; 2018).
O projeto Temer, que se dizia salvador da pátria, gerou mais ins-
tabilidade política e desmonte das políticas públicas. Ainda, o 
poder da justiça definiu os contornos do golpe e deu capa de le-
galidade com omissões, protelações e permissividades. Contra as 
medidas impopulares os estudantes e alguns movimento sociais 
ainda resistiram assombrados pela ditadura Michel Temer, con-
tudo, têm sido reprimidos com extrema violência e truculência 
policial e pelo avanço do neoliberalismo ultraconservador (VE-
RONEZE, 2017, p. 357).
119
RENATO TADEU VERONEzE
◀ Voltar ao sumário
As perdas para a classe trabalhadora, nesse período, foram substan-
ciais. Temer acabou com os Ministérios ligados aos direitos humanos, 
deu prioridade para as medidas neoliberais e à desconstrução das con-
quistas sociais, congelou os gastos públicos em relação às políticas so-
ciais, o que favorece os grandes empresários, deu sequência à Reforma 
da Previdência, diminuiu os gastos com as políticas habitacionais, re-
trocedeu direitos historicamente conquistados e garantidos pela Cons-
tituição Federal de 1988, enfim, implementou planos e medidas duras e 
antidemocráticas em um claro desmonte da Seguridade Social.
No entanto, nessa epopeia, o pior estava por vir. A eleição de um 
presidente miliciano, em 2018, foi o golpe de misericórdia da demo-
cracia brasileira. O candidato eleito da ultradireita, Jair Messias Bolso-
naro, tem desempenhado o seu papel como um presidente centraliza-
dor, com uma retórica que afronta os direitos humanos e a democracia 
deste país, em uma governança que mais parece uma “pantomina de 
indignação” (IASI, 2020).
Segundo Iasi (2020, p. 3):
[...] o que se esconde por trás da manobra diversionista é uma 
complexa relação de forças entre dois segmentos – a direita e a 
extrema direita – que medem forças como pugilistas no início de 
uma luta. Temos trabalhado com a hipótese que há um segmento 
das classes dominantes que pensou em utilizar Bolsonaro como 
alternativa para derrotar o petismo para implementar a agenda 
mais dura do capital em crise. Esse segmento acredita que po-
dia controlar o miliciano, deixando-o com suas proezas bizarras 
enquanto se ocupava do essencial: as reformas contra a classe 
trabalhadora.
O processo em pauta no país reproduz exatamente isso. O termo 
mais significativo da citação de Iasi é exatamente “bizarro”, isso traduz 
este Governo. O que se tem visto é o aprofundamento da crise política, 
econômica e social, principalmente, agora com o avanço da pandemia 
da COVID-19, que já soma milhares de mortes no país e um caos na 
saúde pública.
120
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Iasi (2020, p. 3-4) faz uma ótima análise de conjuntura que não se 
pode desconsiderar. Tanto o miliciano como os seus eleitores/segui-
dores creem que ele é a personificação do messias, de um mito, um 
salvador que veio livrar o país da “ameaça comunista”, em uma: “[...] 
cruzada contra as esquerdas e os inimigos da Pátria e da família”, em 
uma fantasiosa guerra entre o bem e o mal.
A retórica deste Governo não esconde os fatores fascistas, ideologi-
camente funcionalista e fundamentalista, que se mostram em um jogo 
de tentativa e erro, enquanto o povo fica a sua mercê e a vida humana 
é desprezada sem qualquer cerimônia.
Há uma fração das classes dominantes que, apesar de perceber 
o inconveniente da figura e seus riscos, acredita que ele é um 
mal menor. Afinal, o fundamental são as reformas e a retomada 
das taxas e lucros a patamares aceitáveis. Se o preço a pagar é a 
destruição do país e uma aventura fascista, esses senhores estão 
dispostos a pagá-lo – como já fizeram no passado, diga-se de 
passagem. Creio que aqui está a chave do enigma da conjuntura: 
o miliciano ainda não caiu porque as classes dominantes estão 
divididas quanto à necessidade de tirá-lo e as consequências que 
daí viriam. A Rede Globo não está sendo contraditória ao de-
nunciar falcatruas e depois elogiar a política econômica, apenas 
expressa, com isso, a divisão interna de seus verdadeiros man-
dantes (IASI, 2020, p. 4).
Em seus discursos prosodianos, o presidente Bolsonaro tem uma 
retórica pouco fluídica e instantânea, centralizadora e carregada de 
embates aos seus “inimigos”, que, na maioria das vezes, são a oposição, 
alguns governadores e prefeitos ou mesmo a grande impressa. Em seus 
pronunciamentos e em diversas falas aos jornalistas, Bolsonaro exalta 
um clima de terror assombrado pelo fantasma da crise econômica e 
aos “divórcios consensuais” com a sua equipe e com os poderes cons-
tituídos.
Além disso, exalta sempre a sua figura egoica, discursando o tempo 
todo para a sua base eleitoral, ou seja, grupos de “filisteus patriotas 
121
RENATO TADEU VERONEzE
◀ Voltar ao sumário
tementes a Deus”, apoiadores da sua figura messiânica. Estes discur-
sos têm por centralidade a sua própria figura, em um propagandismo 
exacerbado de si mesmo (eu), enquanto militar, cristão e presidente da 
República, em detrimento à nação, ao povo, às instituições públicas e 
às ações políticas universais, o que demonstra o seu direcionamento 
ou para quem ele está falando.
O momento é de muita cautela e problematizar o movimento de 
mudança no Estado burguês e na sociedade, a partir das condições e 
contradições inerentes à dinâmica da produção e reprodução das rela-
ções capitalistas no contexto da crise do capital, neste momento, não é 
uma tarefa fácil, mas se pode pensar e problematizar como agir depois 
do período de isolamento social por conta da pandemia, que assola a 
humanidade.
Muito mais que pensar em questões políticas, necessita-se pensar 
nos problemas globais, como, por exemplo, a sobrevivência do Planeta. 
Questões como: poluição, desmatamento, devastação, extração exacer-
bada dos elementos naturais, aumento da produção e do consumo, en-
fim, uma série de mudanças de comportamentos e outros fenômenos 
que afetam diretamente as leis gerais da natureza.
O capitalismo está fundado no modo de produção de valor exce-
dente, na acumulação de capital, na luta de classes e no trabalho assa-
lariado. O aumento progressivo e o desenvolvimento das forças pro-
dutivas requerem, sobremaneira, que o círculo de consumo se amplie 
no interior da circulação de modo que também se alargue o círculo 
produtivo (MARX, 2011).
Marx (2011) apontava que a ampliação quantitativa do consumo im-
plicaria, concomitantemente, a criação e a ampliação de novas necessi-
dades e de novos valores de uso. Contudo, esse aumento desenfreado e 
irracional cria uma “[...] ameaça permanente à dinâmica da acumula-
ção contínua, gerandofrequentes períodos de crises” (HARVEY, 2014, 
p. 363).
Desse modo, Mészáros (2015) aponta que somente mudanças radi-
cais nas bases substantivas e estruturais do sistema e da lógica do ca-
pital, na direção de uma proposta socialista, de modo a criar a “neces-
122
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
sidade radical”3 de derrubar este sistema é que podem evitar o colapso 
do Planeta. Essa crescente inadequação do desenvolvimento produti-
vo, nos dizeres de Marx (2011), manifesta-se em agudas contradições, 
crises, convulsões e destruição violenta pelo capital. A dinâmica do 
sistema capitalista está sujeita à lógica destrutiva das crises cíclicas4 e 
periódicas do capital (VERONEZE, 2018).
2 O poder do dinheiro
Os momentos de crises e efervescências sociais e de massas reme-
tem a muitas figuras importantes. No campo da música, por exemplo, 
houve um grande compositor, dramaturgo e, talvez, filósofo que, por 
meio de seus escritos, de sua música e de seus ideais, pretendia revolu-
cionar a sociedade.
Revolucionário convicto, mas assombrado pelas suas necessidades, 
sobretudo as financeiras, Richard Wagner (1813-1883) foi um nome con-
troverso, tanto pela forma de viver excentricamente, como pela forma 
de expressão musical. Assombrado pelas suas necessidades financeiras, 
pela humilhação artística e pela falta de esperança, sua obra foi um 
produto do seu tempo. Profundamente poética, expressava a sua ge-
nialidade, mas também os fantasmas que o assombravam. O seu estilo 
3 Necessidades radicais são todas aquelas que nascem na sociedade capitalista como conse-
quência do desenvolvimento da sociedade civil, e que não podem ser satisfeitas dentro dos 
limites da mesma, o que implica em fatores que possam levar a superação do capitalismo, 
da relação de assalariamento, da concentração da propriedade privada, da luta de classes 
e ao definhamento do Estado burguês. Somente sobre essas bases, de uma sociabilidade 
inteiramente nova, é que acreditamos que os indivíduos sociais possam se desenvolver ple-
namente (“por inteiro e inteiramente”), na qual trabalho, sociabilidade, consciência, liber-
dade, ética, arte, filosofia, tempo verdadeiramente livre e ócio estejam em conformidade 
com as aspirações mais autênticas suscitadas no interior da vida cotidiana e na valoração 
do sentimento de comunidade enquanto valor ontológico-social (VERONEZE, 2018). 
4 Entende-se que os momentos de crises do capital não implicam, necessariamente, o fim do 
capitalismo, mas a busca de soluções bruscas para o restabelecimento da normalidade do 
próprio sistema que volta ao seu eixo destrutivo e contraditório. Em outras palavras, Marx 
já apontava que os momentos de crises criam condições para um novo processo, muitas 
vezes, mais avassalador de acumulação de capital e de exploração do sobretrabalho. Tal 
movimento implica o caráter cíclico dessas crises. 
123
RENATO TADEU VERONEzE
◀ Voltar ao sumário
dramático-musical revelava dramas, epopeias musicais e teatrólogas 
que expunham o herói, a batalha, a liberdade, a vitória e o fracasso.
As sagas de Wagner popularizaram as lendas pagãs, místicas e reli-
giosas dos povos nórdicos, salvaguardando o blasfemador do eterno 
prazer. Revolucionário desde a mocidade e republicano convicto, ele 
era acolhido nas rodas anarquistas e socialistas de sua época.
Em 1849, Richard Wagner escreve um célebre ensaio intitulado A 
arte e a revolução, no qual a tese central gira em torno da complemen-
tariedade entre a revolução estética e a revolução social. Partindo da 
crítica da separação das artes, Wagner dará um salto qualitativo para 
chegar à crítica da sociedade separada pelo dinheiro. O capitalismo 
criou todas as condições para que os sonhos e as esperanças se tornas-
sem realidades, mas criou, também, e ao mesmo tempo, a desilusão.
Essa pequena exposição permite ter uma ideia do que pensava e 
desejava Richard Wagner, um revolucionário de sua época, muito dis-
tante de seu grande admirador Adolf Hitler, do nazismo alemão e da 
cinematografia hollywoodiana de Apocalipse Now, um filme épico de 
guerra norte-americano, de 1979, dirigido por Francis Ford Cappola e 
escrito por John Milius, sobre a guerra do Vietnã. Nesse filme, uma das 
obras do Anel de Nibelungo, a Cavalgada das Valquírias, é tocada pelos 
alto-falantes dos helicópteros em meio a um ataque aéreo.
Esta referência a Richard Wagner nada tem a ver com esses fatos, 
pura deturpação, fruto do irracionalismo humano, mas a situação em 
que Wagner se colocava enquanto dependente de salários para dar 
conta de suas necessidades e produzir a sua arte. Wagner (1990, p. 77) 
acreditava que: “[...] quando não subsiste a possibilidade de todos os 
homens serem igualmente livres e felizes, todos os homens se tornam 
igualmente escravos e miseráveis” (grifos do autor). Essa condição de 
“escravos e miseráveis” tem para Wagner dois fatores principais: o capi-
talismo e o cristianismo.
O primeiro escraviza grande parte de homens e mulheres à condi-
ção de assalariados e os coloca à mercê de suas necessidades; o segun-
do, por sua vez, aconselha a maioria das pessoas a serem subservien-
tes aos desígnios de Deus, para ganhar na vida espiritual uma melhor 
condição. Enquanto isso, capitalistas burgueses, banqueiros, proprie-
124
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
tários e a própria igreja (seja essa de qual denominação religiosa for) 
ensinam que todos devem ganhar o pão de cada dia por meio do suor 
de seu rosto, enquanto os mesmos vivem à custa do trabalho de seus 
“escravos”: “[...] O deus do nosso tempo é o dinheiro, tal como a nossa 
religião é o lucro” (WAGNER, 1990, p. 78).
Para Wagner, o poder corruptor do dinheiro, a propriedade como 
sinônimo de roubo, a opressão estatal e a arbitrariedade do poder eram 
formas de corrupção da generalidade humana, e atribuía ao dinheiro 
um poder maléfico, corruptor, capaz de adulterar toda e qualquer ati-
vidade. Acreditava e defendia um tipo de organização coletiva da vida 
que conduzisse o gênero humano a um desenvolvimento harmonioso. 
Morreu apontando o Estado, a propriedade, o poder do dinheiro, o 
militarismo, a legislação opressora, o centralismo prussiano e o pan-
germanismo como causas principais da miséria humana (WAGNER, 
1990).
Nada obstante, o dinheiro é uma categoria unitária que interiori-
za duas funções: representa valor (valor de uso e valor de troca) e é 
medida de valor. Tudo na vida social foi reduzido a um valor que pu-
desse ser medido por certa quantidade de dinheiro. O dinheiro é uma 
mercadoria especial, na qual todas as outras mercadorias expressam 
o seu valor e têm como funções servir de equivalência geral, meio de 
troca, meio de acumulação (ou entesouramento) e meio de pagamento 
universal.
O dinheiro se cristalizou como uma mercadoria de troca, que toma 
a forma de mercadoria-dinheiro. Apesar de encobrir as origens do va-
lor, no tempo socialmente necessário para a produção de mercadorias, 
é utilizado como simples meio para a movimentação e circulação de 
mercadorias. Contudo, o dinheiro em si não é bom ou mau, não é esse 
que assola a humanidade, mas o valor que lhe é dado e às coisas.
Nessas condições, o capitalismo na atualidade tem levado à barbá-
rie as últimas consequências. Crises estruturais de toda ordem assolam 
a humanidade e a natureza a resultados devastadores, não apenas na 
economia, mas também na política, na cultura e no social. De modo 
geral, as crises geradas pelo capital se traduzem em crises no mundo 
125
RENATO TADEU VERONEzE
◀ Voltar ao sumário
do trabalho, na esfera econômica e no interior do Estado burguês, e 
os seus resultados afetam, sobremaneira, a vida cotidiana das pessoas.
O capitalismo se alimenta das crises que provoca, e, ao mesmo tem-
po, as cria, de modo que não há capitalismo sem crise. No momento 
presente se está experimentando mais um momento de crise sistêmica, 
só que dessa vez há novas características envolvendoo conjunto das 
instituições próprias da burguesia, o que tem levado à universalização 
da barbárie.
No debate sobre os rumos da economia mundial, nesta segunda dé-
cada do século XXI, a incerteza parece ter se tornado consenso entre 
os analistas. As crises cíclicas têm se tornado mais periódicas, impre-
visíveis e severas, principalmente, para os países em desenvolvimento. 
Harvey (2011; 2016) mostra que o epicentro da produção tem se deslo-
cado para os países em desenvolvimento, enquanto os países industria-
lizados estão se desindustrializando.
Harvey (2011; 2016) aponta, ainda, que nos últimos trinta anos boa 
parte dos investimentos não têm ido para a produção, mas para ati-
vos e para a valorização de ativos, como aluguéis de terras, preços de 
imóveis e até mesmo para o mercado de arte. O setor financeiro tem 
inventado novas maneiras de expandir, já que as áreas de expansão têm 
ficado cada vez mais escassas. Hoje, se ganha dinheiro jogando com o 
próprio dinheiro.
Esse mercado especulativo é muito propenso às crises financeiras, 
mas também se tem visto que esse propicia crises políticas e crise entre 
as nações, tendo como objetivo expandir o capital, seja através de ter-
ritórios ou mesmo pela guerra. Essas crises, em sua grande maioria, se 
vinculam aos valores fictícios e aos espaços urbanos, pois grande parte 
dos investimentos urbanos são fictícios.
Os problemas atuais começaram a ser sentidos nos anos de 1980 e 
1990, porque o capital não encontrava mais áreas para a sua expansão. 
Esses fatores levam à “necessidade radical” de expansão e, ao mesmo 
tempo, de falência do capitalismo, o que afeta significativamente a 
“classe-que-vive-do-trabalho” e o cotidiano das pessoas, principalmen-
te as classes mais subalternizadas.
126
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Wagner defendia que a arte e os artistas não poderiam estar subor-
dinados ao dinheiro. Para ele:
[...] o assalariado interessa-se apenas pelo objetivo dos seus es-
forços, pela utilidade que possa colher do seu trabalho; a ativida-
de que pratica não lhe traz satisfação, constitui tão-somente um 
fardo, uma necessidade incontornável, que de bom grado entre-
garia a uma máquina. O trabalho só o prende por obrigação e é 
por isso que o assalariado tem o espírito ausente daquilo que faz 
e passa o tempo a pensar noutros objetivos que pretende atingir 
tão depressa quanto possível. Se o objetivo imediato do traba-
lhador for a satisfação de uma necessidade pessoal, por exemplo, 
construir uma casa, produzir os seus próprios instrumentos de 
trabalho ou confeccionar as suas roupas, então, juntamente com 
o prazer nos objetos úteis que vai tendo ao seu dispor, há de ir 
crescendo a tendência para trabalhar os respectivos materiais se-
gundo imperativos do seu gosto pessoal (WAGNER, 1990, p. 72).
Além disso, dizia ele que se o: “[...] trabalhador aliena o produto do 
seu trabalho, resta-lhe apenas o valor abstrato do dinheiro, e a sua ati-
vidade, não podendo elevar-se acima da produtividade mecânica, re-
presenta somente esforço, trabalho triste e amargo” (WAGNER, 1990, 
p. 73). O trabalho contínuo, nessas condições, quase destituído de ob-
jetivos, destrói os corpos e o espírito humano.
No capitalismo, a inserção na divisão sociotécnica do trabalho e a 
venda da força de trabalho – que reduz o trabalhador ao assalariamen-
to – é condição sine qua non para sua própria sobrevivência e a de sua 
prole, o que produz um antagonismo entre duas classes sociais: de um 
lado estão aqueles que detêm o capital e os meios de produção, e do 
outro aqueles que somente têm a força de trabalho e a vendem para 
sobreviverem.
Dessa forma, o trabalhador é visto como mera mercadoria. As re-
lações de trabalho, no contexto do empobrecimento, da instabilidade 
e de desregulamentação se transmutam em relações mercadológicas e 
de exploração, apartando o trabalhador do processo de produção e do 
127
RENATO TADEU VERONEzE
◀ Voltar ao sumário
fruto do seu trabalho, causando, assim, sua alienação e o estranhamen-
to, cabendo-lhe somente a condição de assalariamento.
No processo de produção e reprodução da situação coisal e obje-
tual, os trabalhadores são vistos como uma mercadoria comprada no 
mercado para a produção de mercadorias e que trabalham em troca 
de uma mercadoria-dinheiro, que serve para comprar outras merca-
dorias, que irão sanar suas carências e necessidades físicas, psíquicas, 
sociais, culturais e espirituais. E até mesmo o tempo de não-trabalho 
se reduz à compra de mercadorias (VERONEZE, 2018).
Nesse processo de alienação e estranhamento, o operário acaba as-
sumindo características inferiores a própria condição humano-genéri-
ca ou até mesmo passa a expressar sentimentos, atitudes, hábitos, de-
sejos, costumes, culturas, formas de expressões estranhas à sua própria 
natureza (VERONEZE, 2013).
Essa relação sociometabólica do capital faz com que a vida social, o 
Estado e as relações sociais estejam a serviço do capital, ultrapassando, 
assim, o mundo do trabalho, atingindo as outras esferas heterogêneas 
da vida cotidiana. Em outras palavras, condicionados pela lógica do 
capital, as relações sociais da vida cotidiana ficam impregnadas de va-
lores capitalistas, individualistas e mercantis. Assim, desde o momento 
do nascimento até o fim da vida, os indivíduos sociais estão inseridos 
nessa relação de compra e venda, desde as coisas mais primárias para a 
sua sobrevivência até as necessidades mais subjetivas e espirituais.
Nesse sentido, a violência e a barbárie tendem a ser naturalizadas, 
de modo a despolitizar e individualizar as questões sociais, tendo 
como consequência a abstração das determinações sociais. Por outro 
lado, os meios de comunicação, a mídia e as Redes Sociais, por meio 
da capilarização de suas ideologias e tecnologias, falseiam a história, 
naturalizam as desigualdades, moralizando a “questão social”, incitam 
a população às práticas fascistas, nas quais o uso da força, da pena de 
morte, do armamento, dos linchamentos, da xenofobia, do preconcei-
to, das discriminações, entre outras formas de violências são naturali-
zadas e defendidas (BARROCO, 2011).
Nesse estágio de condicionamento, as relações sociais e consigo 
mesmo, em sua grande maioria, tendem a se mostrarem como rela-
128
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
ções entre coisas, imbuídas por um alto grau de alienação e reificação, 
como também fetichizadas, ou seja, impregnadas pelo “caráter místico” 
e fantasmagórico da coisa-mercadoria, de modo que os direitos huma-
nos e sociais são diretamente violados pelo processo de massificação, 
de exploração, de flexibilização e de precarização das condições de tra-
balho e de vida, impondo aos trabalhadores, principalmente, a obriga-
toriedade de se inserirem nesse mercado nefasto para sobreviverem, já 
que não têm outros meios para alterarem essa situação. Por outro lado, 
uma massa de lumpemproletários ficam entregues a sua própria sorte, 
muitas vezes, ocupando os espaços públicos ou incorporando-se ao 
setor de serviços, única alternativa para sua sobrevivência.
Enfim, a inquietação que paira no ar não permite mais ficar de bra-
ços cruzados. Esta equação ainda está longe de ser resolvida e só se ob-
terá uma mudando quando as suas incógnitas puderem ser resolvidas, 
se é que há uma solução plausível.
Contudo, o Mundo foi surpreendido por um problema de propor-
ções históricas. Na contramão do acúmulo de contradições e crises 
da epopeia capitalista, uma grande tempestade pandêmica colocou o 
Mundo em estado de suspensão. Com um potencial avassalador em 
ceifar vidas por todo o Planeta, uma mutação viral acelerou, significa-
tivamente, os processos de crises políticas, econômicas e sociais.
Da pandemia ao pandemônio
Estima-se que a pandemia, que tem assolado a humanidade, pode 
provocar um colapso nos sistemas financeiros de todo o Mundo su-
perior ao da queda da Bolsa de Nova York, em 1929. Emum esforço 
coletivo global e humanitário, seguindo arisca as orientações da Or-
ganização Mundial de Saúde, todos os países se viram em uma situa-
ção nunca vista até então. A sociedade foi colocada em quarentena e 
isolamento social, o setor produtivo foi obrigado a parar parcialmente, 
fronteiras foram fechadas e Governos foram obrigados a colocar em 
ação planos emergenciais para atender o grande número de doentes/
contaminados e mortos pala COVID-19.
129
RENATO TADEU VERONEzE
◀ Voltar ao sumário
O medo, a angústia e as incertezas tomaram conta de todas as 
pessoas frente a esta nova realidade inesperada e desconhecida. Nes-
sa situação, o Brasil, que já enfrentava graves problemas políticos e 
econômicos, se viu em uma situação ainda mais complicada. A con-
taminação viral alastrou rápida e descontroladamente, enfrentando o 
colapso iminente do sistema de saúde em todo o país. O número de 
mortos vem crescendo vertiginosamente, hoje já afetando as periferias, 
as populações ribeirinhas, as comunidades indígenas, as populações 
pobres e em situação de maior vulnerabilidade.
As medidas de distanciamento social, o uso obrigatório de máscaras 
e álcool gel têm tido um efeito imediato, mas ainda a situação está mui-
to longe de ser controlada. As condições de desigualdade e de vulne-
rabilidade social fazem com que a população mais pobre tenha menos 
condições de atendimento, de tratamento, de prevenção e de acesso 
aos hospitais que, em algumas capitais, estão com a sua capacidade 
máxima de atendimento.
Junto a este cenário desolador, o Brasil enfrenta ainda uma crise 
política e econômica interna e externa sem precedentes, talvez, uma 
das maiores em toda a história nacional. Frente a irracionalidade de 
um Governo com feições fascistas e bonapartistas, o Brasil tem ser-
vido no cenário internacional como modelo do que não se deve fazer. 
Sendo considerado uma das dez maiores economias do Mundo e com 
grande influência no cenário latino-americano, hoje, o país tem tido a 
sua imagem manchada por conta de um Governo irracional e que tem 
mostrado que está mais interessado em manter os setores econômicos 
funcionando e rendendo do que as vidas humanas, se rendendo aos 
anseios do capital e às manobras políticas de visibilidade para as pró-
ximas eleições.
As inflexões políticas do atual Governo, principalmente, do presi-
dente da República, frente ao isolamento social e ao número crescen-
te de mortes é de alto risco. Busca minimizar os efeitos da pandemia, 
atacar governadores e a mídia falada e escrita, condenar as medidas 
de isolamento social, adotar uma linha de confronto grotesco a todo o 
momento, adotando uma prosódia que espalha terror para uma crise 
econômica, que é estrutural.
130
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
O momento é de tensão frente às divisões políticas, afastamentos, 
demissões e desligamentos do Governo. Pela primeira vez, a ala da 
grande burguesia dá sinais de fragilidade, arquitetando uma ofensiva 
tradicionalmente direitista para recuperar o espaço político, de modo 
a buscar uma nova alternativa burguesa para as próximas eleições.
Nesse circo de horrores, se assim se puder referir ou, em outras 
palavras, nesse vale de lágrimas da epopeia capitalista que cria, gesta, 
pare e alimenta figuras tão perversas como o miliciano histérico, que 
ocupa a cadeira da presidência da República e uma geração de filisteus 
apaixonados, súditos e cumprisses dessa irracionalidade, não há lugar 
para autopiedade nem espaço para o medo, parafraseando a escritora 
Toni Morrison, que registrou estas palavras em um ensaio após a elei-
ção de Trump, nos Estados Unidos, afirmando que se vive em tempos 
sombrios e que mais do que nunca os artistas não devem ficar calados. 
Nas palavras da escritora: “Este é o momento em que os artistas preci-
sam trabalhar. Não há tempo para desespero ou silêncio. Nós falamos, 
nós escrevemos, nós criamos linguagens. É assim que as civilizações se 
curam” (LOURENÇO, 2017). Hoje, todos são artistas e, portanto, não 
podem ser calados.
Este é o momento de resistência e de politização da sociedade. Acre-
dita-se que somente uma ação mobilizadora dos movimentos sociais e 
da sociedade civil organizada, em uma proposta socialista democrática, 
é que pode alavancar novas mudanças, contudo, as lutas sociais devem 
estar focadas em uma perspectiva anticapitalista, anti-imperialista e 
de supressão da lógica do capital, enfatizando que os trabalhadores 
assumam o seu papel de sujeitos revolucionários.
Termina-se este artigo com as palavras de Lukács (2009, p. 242): 
“[...] abrir caminho significa criar condições materiais necessárias e um 
campo de possibilidades para a livre utilização de si”. E continua: “o 
homem deve conquistar sua própria liberdade através de sua própria 
ação. Mas ele só pode fazê-lo porque sua atividade já contém, como 
parte constitutiva necessária, também um momento de liberdade”.
131
RENATO TADEU VERONEzE
◀ Voltar ao sumário
Referências
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GOHN, M. G. (Org.). Movimentos sociais no início do século XXI: antigos 
e novos atores sociais. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2007.
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Revisão Técnica Pedro Paulo Zahluth Bastos. São Paulo: Boitempo, 2016.
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LORENÇO, J. A importância de resistir. In: Plataforma FFW – Fashion For-
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LUKÁCS, G. O joven Marx e outros escritos de filosofia. Organização, apre-
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MÉSZÁROS, I. A montanha que devemos conquistar: reflexões acerca do 
Estado. Trad. Maria Izabel Lagoa. Rev. Nélio Schneider São Paulo: Boitempo, 
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132
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
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VERONEZE, R. Agnes Heller, indivíduoe ontologia social: fundamentos para 
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Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). São Paulo: PPGSS/
PUCSP, 2013.
WAGNER, R. A arte e a revolução (1849). Trad. José M. Justo. Lisboa: Antí-
gona, 1990.
133◀ Voltar ao sumário
CAPÍTULO 6
Notas sobre a relação 
entre cidade e Estado na 
contemporaneidade
Betina Ahlert
Introdução
Este capítulo tem como objetivo adensar o debate sobre a relação 
entre o Estado e a cidade, buscando discutir o papel desenvolvido pelo 
Poder Público na regulação e produção do espaço urbano. Historica-
mente, essa relação se institui de diferentes formas e coaduna com a 
transformação da cidade em elemento fundamental para a acumula-
ção capitalista.
Na formação sócio-histórica brasileira, o Estado passou a construir 
uma relação mais direta na formação das cidades, a partir da Revo-
lução de 1930. Esta possibilitou o estabelecimento da nova burguesia 
nacional e o crescimento da indústria alicerçada à ideia de desenvol-
vimento. Em uma realidade de produção agrária e de concentração 
de poder, pelas oligarquias rurais, houve o redirecionamento de ações 
do Estado na destinação do excedente gerado no campo para a cida-
de. Isso ocorreu na mediação das relações do trabalho industrial e no 
investimento de infraestrutura, que geraram o crescimento urbano e 
a consequente regulação das relações, que se estabelecem nas cidades 
(OLIVEIRA, 1982).
Parte dessas atribuições estatais históricas destacadas por Oliveira 
(1982) se mantém, somadas a outras e readaptadas no capitalismo na 
era das finanças. Entre essas, ainda tem destaque a mediação das rela-
134
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
ções do trabalho, agora em um novo momento em que há um aumento 
da informalidade e do desmonte dos direitos trabalhistas. Além disso, 
segue a promulgação de leis que fazem a regulação e o controle da ocu-
pação do solo urbano e a criação e manutenção do aparelhamento para 
a sua implementação. Destacam-se também as políticas públicas, entre 
essas as urbanas e as sociais que, inclusive, têm caráter territorial. Cabe 
mencionar também a construção de infraestrutura, que teve destaque 
nos anos 2000, no Brasil, através do Programa de Aceleração do Cres-
cimento e dos megaeventos esportivos. Existe, também, nessa relação, 
um afastamento do Estado no provimento a garantia do direito à cida-
de, que deve ser acessado, via mercado, e o controle e criminalização 
das classes populares e suas resistências.
Oliveira (1982) considera que é fundamental refletir sobre as carac-
terísticas do Estado, que se constitui e infere na sociedade urbana, já 
que, historicamente, no Brasil, esse se aproxima do mercado e se afasta 
da sociedade civil. Isso acaba por diminuir seu caráter de árbitro nas 
relações de classe, mas não o seu caráter de poder. Além disso, para o 
autor, é o Estado que toma as decisões em torno do excedente produzi-
do, sendo responsável pela criação de um abismo entre classes. Soma-
-se a isso o fato de que é o Estado quem direciona os gastos da urbani-
zação para atender às elites, reforçando a desigualdade socioterritorial.
Com a crise do capital e o avanço do neoliberalismo, a mundializa-
ção da economia e a financeirização, a cidade é colocada em um novo 
patamar na busca da acumulação. Para Harvey (2005), a dimensão es-
pacial e o território são fundamentais para sua perpetuação. No plano 
de gestão das cidades, marcadas pelo capitalismo dependente e os ajus-
tes estruturais, o Estado se afasta de suas funções sociais e cria meca-
nismos que promovem a “cidade mercadoria”, através do planejamento 
estratégico e da privatização dos territórios urbanos. Outro aspecto 
que merece destaque são as características de expansão do Estado Pe-
nal, no contexto de inflexão ultraliberal, no âmbito do neoconserva-
dorismo. Com base nesse aspecto, parte-se da ideia de que o avanço 
do Estado Penal, em substituição ao Estado Social (no caso do Brasil, 
almejado na Constituição Federal de 1988), tem impactos singulares e 
importantes na produção do espaço urbano na atualidade.
135
BE TINA AhLER T
◀ Voltar ao sumário
Para atender ao objetivo proposto, este texto traz, inicialmente, 
apontamentos sobre o Estado neoliberal e sua relação com a cidade, 
que se institui como ‘cidade mercadoria’. Posteriormente, esclarece o 
que se entende como Estado Penal para apresentar notas sobre a mate-
rialização deste na cidade contemporânea.
1 Relações entre o estado neoliberal e a 
cidade
O Estado neoliberal é resultante da crise do capital que se instala 
no Mundo, a partir da década de 1970, após os anos de estabilidade 
econômica e pleno emprego. Esse período foi resultante da combi-
nação entre taylorismo, fordismo e keynesianismo e na implantação 
do Estado de Bem-Estar Social nos países de capitalismo central. O 
conjunto formado pelo neoliberalismo, mundialização do capital e a 
financeirização da economia trouxe mudanças substanciais no papel 
do Estado. Os mecanismos colocados em prática para a readaptação 
do capitalismo implicaram na maior exploração da força de trabalho – 
com destaque para o seu endividamento –, e na imposição do projeto 
neoliberal aos países de capitalismo dependente. Isso feito através dos 
ajustes estruturais nas políticas públicas e na esfera do Estado (DURI-
GUETTO, 2017). No Brasil, essas implicações acontecem a partir de 
1990, em contraposição às então recentes garantias sociais instituídas 
na Constituição Federal de 1988.
Sob a justificativa de que o Estado era o cerne do problema da crise 
emergem as propostas de “Reforma” que, em realidade, tratam de uma 
opção política e uma estratégia de inserção passiva do país na dinâmi-
ca internacional. Caracterizada como contrarreforma, “é o movimento 
pelo qual o capital tenta anular os novos atores políticos e tampar ou-
tra vez a caixa de Pandora da desarrumação da relação de domina-
ção” (BEHRING, 2008, p. 17). Em relação ao papel do Estado, Behring 
(2008, p. 23) destaca que esse “ocupa uma posição mais distante de me-
diador vislumbrado pelos clássicos da política [...] passando a cuidar 
prioritariamente das condições gerais de reprodução do capital e dos 
excessos cometidos, no cenário de barbárie que se instaura”.
136
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
A transição da “Reforma” do Estado estava estruturada em três di-
reções: a mudança da legislação, a introdução de uma cultura geren-
cial e a adoção de práticas gerenciais, permeadas por estratégias de 
reforma da administração pública centradas nos servidores públicos 
e na Previdência Social. Entre as ações visando diminuição da partici-
pação do Estado na regulação da economia, nas relações trabalhistas 
e na prestação de políticas sociais para abertura da livre circulação do 
capital e facilitação do fluxo global de mercadorias e dinheiro estão as 
privatizações e desestatizações, a redução de investimento de recurso 
público nas áreas sociais e o programa de publicização, responsável 
pelo avanço do Terceiro Setor (BEHRING, 2008).
As implicações e as restrições à soberania nacional também mere-
cem destaque com a mundialização do capital, marcadas pela desregu-
lamentação para a livre movimentação de forças do mercado, que des-
consideram impactos sociais e ambientais negativos. Implicam, assim, 
em questões ligadas às diferentes escalas, nacionais e locais (CHES-
NAIS, 1996). É nesse ínterim, que contextos locais passam a ser alvo 
de investimentos internacionais, tornando as cidades mercadorias à 
venda e “[...] polos centrais de atração de investimentos e desenvol-
vimento econômico” (DURIGUETTO, 2017, p. 114). Isso faz com que 
passem a desenvolver papel fundamental para a acumulação capita-
lista em decorrência de suas possibilidades de meganegócios, obras e 
edificações (MARICATO, 2014).Diante desse cenário, “[...] dar deter-
minada imagem à cidade através da organização e de espaços urbanos 
espetaculares se tornou um meio de atrair capital e pessoas (do certo 
tipo) em um período [...] de competição interurbana e de empreendi-
mentismo urbanos intensificados” (HARVEY, 1989, p. 92).
A competição das cidades na busca pela acumulação de capital está 
estruturada sobre algumas características. O que determina as ações é 
a ideia do ‘crescimento em primeiro lugar’, ou seja, a produtividade so-
brepõe os aspectos sociais. Assim como a lógica mercantil penetra no 
urbano, a política urbana deve funcionar como os mercados competi-
tivos. Também os empréstimos das agências de financiamento ocor-
rem, de forma individual, de maneira que ações como privatização e 
desregulamentação são constantes. E o neoliberalismo condiciona que 
137
BE TINA AhLER T
◀ Voltar ao sumário
Estados e elites locais tenham uma postura agressiva na tentativa de 
monitorar e conseguir as melhores oportunidades; apesar dos discur-
sos da inovação e da aprendizagem (e da parceria), que obviam reper-
tórios baseados em subsídios para o capital. Portanto, existe ainda uma 
lógica institucional de punição para as cidades que não cumprem os 
acordos com organismos internacionais. Para finalizar, as cidades se 
encontram na linha de frente da resistência ao neoliberalismo (PECK; 
TICKELL, 2002).
A relação entre a adaptação dos países à globalização e à reestru-
turação do Estado foi acompanhada, no plano urbano, pela ideia de 
cidade global e pelo Planejamento Estratégico (FIX, 2011), superando 
os planos do Modernismo, que tinham por base a racionalidade e o 
zoneamento. Agora o objetivo é a requalificação urbana através de um 
plano estratégico, “capaz de gerar respostas competitivas aos desafios 
da globalização [...], e isto a cada oportunidade [...] de renovação ur-
bana que porventura se apresente na forma de uma possível vantagem 
comparativa a ser criada” (ARANTES, 2000, p. 12).
O planejamento estratégico das cidades é, assim, pensado e de-
senvolvido ante os ditames da mundialização, que subordinam 
as cidades à criação de instrumentos voltados para incrementar 
sua competitividade e para ofertá-las no mercado global, que 
integre a organização dos espaços urbano-regionais e os inves-
timentos públicos nos circuitos de valorização do capital e de 
atratividade para os grupos econômicos privados (DURIGUET-
TO, 2017, p. 114).
O planejamento estratégico assumiu um lugar central na gestão 
das cidades, combinando perfeitamente com o ideário neoliberal. Isso 
ocorreu por meio das ideias de cidade-corporativa, cidade-pátria, ci-
dade-mercadoria, cidade-empresa. Assim, além da lógica empresarial, 
há o retorno ao civismo e ao patriotismo, tendo a cultura lugar central 
pelo reforço dos projetos de revitalização urbana (ARANTES; VAI-
NER; MARICATO, 2000). Soma-se a isso a lógica empresarial que en-
tende que a cidade deve ser gerida como uma empresa, assim como 
138
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
a ideia do gerenciamento e empreendedorismo urbano que transfor-
mam as cidades em laboratórios de marketing urbano, mediante zonas 
especiais de promoção econômicas e megaprojetos globais. A cidade é 
vista como uma “[...] máquina urbana de produzir renda” (ROLNIK, 
2015, p. 20).
Uma das principais estratégias engendradas, no contexto do em-
preendedorismo urbano, são as Parcerias Público Privadas (PPPs), ca-
racterizadas como uma ação conjunta entre Governos e empresas, que 
buscam atingir objetivos políticos e econômicos imediatos, de forma 
que seu o foco não está na busca pelo desenvolvimento econômico 
(HARVEY, 1989). Essas estratégias estão baseadas na justificativa da 
incapacidade do Estado, mas na prática, os recursos e riscos ainda são 
estatais (HARVEY, 1989), ou seja, a dita inovação na capacidade do 
setor privado está menos nas possibilidades desse promover recursos 
para investir no urbano e mais na viabilização do Estado em executar 
projetos, que sejam capazes de extrair renda da terra através das loca-
lizações, seja através de sua criação, ou de sua revalorização (RODRI-
GUEZ; SWYNGEDOUW; MOULAERT, 2005). Apresentam implica-
ções importantes para a gestão da governança urbana, porque indicam 
uma nova lógica de produção da cidade com a participação dos fundos 
de investimento privado, ou seja, uma nova forma de deslocalização na 
era das finanças (ROLNIK, 2015).
No contexto dessas transformações se percebe que também na re-
lação entre o Estado e o urbano são sentidos os impactos das deter-
minações, que acontecem em escala global. Essas se materializam nos 
territórios locais através dos mecanismos acionados para acumulação 
de capital na cidade mercadoria. Nesse movimento – marcado pela 
relação de proximidade do Estado com o capital privado e afastamento 
da ideia de universalidade de políticas sociais, emprego, renda e qua-
lidade de vida urbana – emerge uma inflexão ultraliberal e ultracon-
servadora, evidenciada na eleição presidencial de 2018. Essa inflexão 
reforça, no cotidiano da cidade, o controle, a penalização seletiva, a 
criminalização de movimentos sociais e o irracionalismo na condução 
de ações. Isso mostra a substituição da ideia de Estado Social por um 
Estado Penal (ARANTES, 2000; BRISOLA, 2012).
139
BE TINA AhLER T
◀ Voltar ao sumário
2 O Estado penal e a cidade
Com a crise mundial do capital existe um redirecionamento no pa-
pel do Estado que, no campo social, é percebido por meio do desin-
vestimento nas políticas sociais em detrimento da hipertrofia de um 
Estado Penal. A formação sócio-histórica brasileira torna complexa a 
materialidade desse fenômeno, já que carrega uma herança de desi-
gualdades de todo tipo, sendo um país no qual não se vivenciou a uni-
versalidade dos direitos sociais e o pleno emprego.
As ações no âmbito de um o Estado Penal têm se efetivado através do 
controle, da repressão e da punição, atreladas às práticas de abuso colo-
cadas a cabo pelo Estado (SINHORETTO, 2016) na administração das 
expressões da questão social. Isso se aplica tanto para as desigualdades 
quanto para a resistências – o que demonstra a existência histórica de 
exploração e dominação (DURIGUETTO, 2017), que tem se instituído 
como opção do Estado e das elites “[...] para conter as tensões geradas 
pelo desemprego em massa, pela imposição do trabalho precário e pela 
retração da Proteção Social do Estado” (BRISOLA, 2012, p. 131).
Dessa forma, essas são, portanto, formas de controle de classe que 
se instituem principalmente sobre a força de trabalho não incorpo-
rada no mercado formal. Em outras palavras, “[...] constituem ações 
sócio-políticas orquestradas pelo Estado, nas variadas formações so-
cioeconômicas, como respostas às expressões das dificuldades sociais 
acentuadas pelas ofensivas do capital para recuperação dos processos 
de expansão e valorização” (DURIGUETTO, 2017, p. 105). Para sua efe-
tivação ganham destaque o aparato policial, o Judiciário e o redirecio-
namento de recursos públicos para a área da segurança, em detrimen-
to de sua destinação para áreas como a saúde e a educação.
Nesse processo existe uma dupla associação tida como “natural”, da 
qual decorre a criminalização da pobreza, dos movimentos sociais e 
suas lideranças políticas. Por um lado, os crimes estão naturalmente 
vinculados à pobreza (e aos pobres, sua raça, seu local de moradia); 
e por outro lado, os movimentos, as organizações e as pessoas que 
questionam as desigualdades instituídas são criminosas (assim como 
os pobres). A resposta instituída, portanto, para ambas as situações, 
140
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
reside na punição individual, no encarceramento e, para, além disso, 
na banalização e naturalização dos assassinatos e mortes, sejam esses 
perpetrados pelo próprio Estado (através de ações policiais, por exem-
plo), sejam pelo mercado (como as situações ligadas à disputade terras 
no agronegócio e aos movimentos de luta pela terra e indígenas). Essa 
forma de tratamento estatal tem por base o direito penal que entende 
as desigualdades como de ordem individual e moral e que, portanto, 
assim devem ser tratadas. Ao mesmo tempo, não existe a preocupação 
ou a intenção de fazer proposições ou mudanças de questões estrutu-
rais, que sustentam essas desigualdades (SINHORETTO, 2016).
Esses processos de criminalização não são fenômenos novos, mas 
são perpassados por novas mediações na atualidade. Entre essas se 
destaca a centralidade que a cidade assume como local de moradia, 
de trabalho, de espaço de reprodução das relações sociais e, ao mes-
mo tempo, como mecanismo de acumulação capitalista. Para entender 
isso se tem a hipótese de que o Estado Penal traz implicações concretas, 
que se materializam no espaço urbano através da reatualização de prá-
ticas estatais históricas, imbricadas com determinantes contemporâ-
neos. Para Brizola (2012), duas práticas empreendidas pelos segmentos 
dominantes sustentam o Estado Penal na atualidade:
1. a utilização da mídia para imprimir na consciência da popula-
ção estímulos imediatos sobre a escalada da violência e quem 
seriam seus responsáveis, “associando a prática da violência às 
condições de pobreza, etnia e território [...] ou seja, além dos 
pobres e negros produzirem a violência, seriam responsáveis 
ainda pela produção e organização do lugar no qual tudo isso 
é gestado: o território habitado” (BRISOLA, 2012, p. 144, grifo 
nosso);
2. as formas com que são fomentados os sentimentos de medo, de 
insegurança e de desamparo, “exigindo do Estado [capturado 
pelo capital] a contenção da violência e de seus supostos prati-
cantes” (BRISOLA, 2012, p. 145), gerando ações características 
de um Estado Penal. Assim, observa-se que, entre as formas de 
141
BE TINA AhLER T
◀ Voltar ao sumário
tratamento das expressões da questão social, estão o cárcere, o 
extermínio e o assistencialismo (DURIGUETTO, 2017).
São vários aspectos que perpassam essas duas práticas que cum-
prem a função de base do Estado Penal na atualidade e, em decorrên-
cia de sua importância, merecem estudos mais aprofundados. Neste 
texto se busca destacar duas questões centrais, que estão interligadas e 
que têm relação direta com a estruturação das cidades: a primeira des-
sas é que o Estado Penal é exercido sobre um perfil seletivo de pessoas 
através da violência. Possui, portanto, um componente racial e etário, 
e tem como alvos preferenciais, na lógica da criminalização, os jovens 
pobres, negros e moradores de periferias urbanas, a população de rua 
e os movimentos sociais (BRISOLA, 2012). A segunda questão é que a 
efetivação do Estado Penal está baseada em uma lógica territorial, ou 
seja, sobre um espaço habitado - o que possui centralidade na análise 
aqui proposta.
3 O Estado penal e o território habitado
A dimensão espacial e o território tomam importância na teoria 
social crítica através da constatação de que a dinâmica capitalista se 
apropria do espaço e do território tanto para sua reprodução quanto 
para superação de crises e ampliação de suas ações. Esse movimento 
de expansão, que ocorre através da ampliação técnica e organizacional, 
em diferentes escalas, somado à distinção geográfica existente. Esse 
gera desigualdades geográficas que determinam relações de poder, de 
lutas de classes, entre outros (DAMMER, 2010). É relevante, na análise 
sobre o território, a cidade mercadoria, que se torna central enquanto 
gerador de renda fundiária. Nesse sentido, a “[...] apropriação do espa-
ço e do território é funcional ao capital na medida em que este exerce 
o controle sobre o valor da terra, sobre os equipamentos disponibiliza-
dos, serviços e, sobretudo, sobre a população” (BRISOLA, 2012, p. 143).
Na análise da relação entre Estado e urbano, a questão do território 
ganha destaque por meio de ações que reforçam ou não a segregação 
socioespacial e, ainda, nas políticas públicas. Isso “[...] se (re)atualiza 
142
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
nas políticas de saúde, habitação e assistência social, fato que requer 
exame crítico, sobretudo dos trabalhadores sociais, no sentido de não 
contribuir com a lógica perversa da segregação, à qual o capital intenta 
construir/manter” (BRISOLA, 2012, p. 143).
No Estado Penal, o território também assume centralidade, confor-
me já indicado neste texto, e as suas ações, especialmente as policiais, 
acontecem sobre um espaço definido (SINHORETTO, 2016). Para Si-
nhoretto (2016), como o Estado-Nação teve o seu papel de controle so-
bre as fronteiras enfraquecido – por exemplo, nas situações de tráfico 
de drogas, armas e pessoas –, esse passa a ocorrer sobre determinados 
territórios locais. O exemplo mais claro é a intervenção sobre as favelas 
através de ações da polícia ostensiva e da militarização.
Pontua-se, dessa forma, que existem duas implicações sobre os ter-
ritórios que permitem refletir sobre a relação entre a produção do es-
paço urbano e o Estado Penal. A primeira é importância que os terri-
tórios da cidade possuem no modo de produção capitalista; a segunda 
é a forma com que ocorrem as ações estatais de controle e punição. 
Sobre a segunda se consideram algumas notas sobre a forma com que 
se materializam no cotidiano da cidade.
A primeira nota se refere às ações estatais que tratam da lógica penal 
e estão presentes no controle de ocupação de áreas centrais das cida-
des e no tratamento dado às pessoas em situação de rua. Essas áreas 
urbanas possuem diferentes valorações na história e, na cidade mer-
cadoria, tendo sido alvos, muitas vezes, de programas de revitalização 
urbana1, ao mesmo tempo em que mantêm certa centralidade, como 
o acesso ao trabalho, ao recebimento de auxílios, a proximidade de 
uma rede de comércios e acesso a recursos. Por esses motivos, costu-
meiramente, se concentram as pessoas em situação de rua. O número 
de sujeitos nessas condições aumentou drasticamente, no Brasil, em 
decorrência do aumento da pobreza e da desigualdade social nos anos 
recentes2, somado e/ou ocasionado pelo desmonte de programas so-
ciais e da política habitacional.
1 Por exemplo, o Porto Maravilha no Rio de Janeiro/RJ e a Orla do Rio Guaíba, em Porto 
Alegre/RS.
2 Conforme FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS (2019).
143
BE TINA AhLER T
◀ Voltar ao sumário
Em decorrência das possibilidades de renda da terra, a existência de 
pessoas em situação de rua passa a ser vista como um problema que 
recai sobre o Estado. Para reagir, esse lança mão de práticas higienis-
tas, tais como: remoções, expulsões, limpezas de ruas com produtos 
químicos fortes, compra de passagens para outras cidades, além do 
controle através do policiamento e das guardas municipais. Não é a 
expressão da pobreza que está em pauta, até porque essa é entendida, 
por muitos gestores e parte da população, como natural e resultado de 
merecimento.
Por trás desse tratamento à população em situação de rua se soma 
todo um controle de ocupação de espaços públicos nas cidades, que 
tem acontecido através do cercamento de praças e parques, da regula-
ção de manifestações reivindicatórias e, ainda, da regulação da arte na 
rua, do trabalho ambulante e da circulação de catadores de materiais 
recicláveis. Os Governos têm o desejo de passar a imagem da inexis-
tência de conflitos no território que governam (AHLERT, 2017). As 
manifestações evidenciam a complexidade e as desigualdades sociais 
e têm sido reguladas através de legislação. Entre essas se destaca a Lei 
Antiterrorismo, que encontrou brechas para ser promulgada na prepa-
ração dos megaeventos esportivos, em um contexto de expansão das 
manifestações de rua (DURIGUETTO, 2017). Também a promulgação 
de leis municipais3, que possuem o mesmo sentido. O discurso da inse-
gurança, assaltos e roubos nesses territórios são fórmulas que as elites 
adotam para manter longe de si aqueles que lhes são diferentes, pelos 
quaisreproduzem sentimentos de repulsa, de nojo e de medo (CAL-
DEIRA, 2000).
Outro aspecto que evidencia a lógica do Estado Penal na relação 
com as cidades é a vinculação das favelas e ocupações urbanas com 
a ideia de terra sem lei, espaço nos quais nasce o crime, local insa-
lubre e promíscuo e privilegiado de propagação do tráfico de dro-
3 Em Porto Alegre, por exemplo, foram promulgadas: a Lei nº 832/2018 (Lei Antivanda-
lismo), que prevê o enquadramento de manifestantes de rua como vândalos; a Lei nº 
10.531/2008, que proíbe a circulação de carrinheiros e carroceiros que trabalham com o 
recolhimento de material reciclável na região central; e a Lei n° 11.586/2014 que visa regular 
as manifestações artísticas na rua. 
144
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
gas. Essa justifica formas de intervenção estatal que estão para além 
de acordos estabelecidos através dos direitos sociais e acontecem, por 
exemplo, por meio das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e da 
militarização, da polícia ostensiva e do extermínio. Soma-se, aqui, a 
ideia da tolerância zero, da diminuição da maioridade penal e da tor-
tura (DURIGUETTO, 2017). Em relação ao tráfico de drogas e armas, 
Brisola (2012) demonstra o descaso com que essa questão é tratada 
pelos Governos há décadas, agravada pelo envolvimento de crianças, 
de mulheres e de adolescentes com a prática do tráfico.
A construção desse discurso tem justificado ações extremamente 
violentas, por parte do aparato policial, posto que tem respaldo e acei-
tação por parte da população brasileira. Essas ações têm caracterizado 
práticas de genocídio e extermínio da população negra e moradora 
das favelas e ao, mesmo tempo, escancarado as limitações da crise do 
sistema penitenciário brasileiro.
A própria Política Habitacional tem afirmado a lógica do Estado 
Penal quando constrói conjuntos habitacionais distantes de áreas 
centrais nas cidades, reproduzindo a lógica do estigma e culpabilizan-
do as pessoas por sua condição precária de moradia (BRISOLA, 2012). 
O reassentamento de famílias por meio do Estado no Brasil é, histori-
camente, marcado pela exclusão socioterritorial, já que os espaços des-
tinados aos pobres têm sido afastados e desprovidos de infraestrutura 
urbana. O Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) não conse-
guiu romper com essa característica, e construiu casas sem a implan-
tação de serviços públicos, sobrecarregando os poucos existentes e ne-
gando o direito à cidade, mesmo quando atendeu o direito à moradia: 
como afirma Brisola (2012, p. 142), a partir do trabalho do sociólogo L. 
Wacquant, essa “[...] é uma nova forma de criminalizar os moradores 
que são penalizados e, em geral, culpabilizados e desqualificados, ten-
do seus fracassos associados à pobreza e aos pertencimentos étnicos”.
Nesses processos de reassentamento alguns problemas são reitera-
dos constantemente, mesmo que conhecidos pelo Poder Público. Des-
tacam-se: a distância do local de trabalho, a impossibilidade de paga-
mento das contas, a ausência de uma rede de serviços e infraestrutura 
que impossibilita a permanência na nova moradia. Mesmo que a casa 
145
BE TINA AhLER T
◀ Voltar ao sumário
própria tenha sido o sonho da família, os condomínios facilmente so-
frem com a degradação e são muitos os relatos de que esses são assumi-
dos pelo tráfico de drogas [e em alguns lugares pela milícia] (AHLERT, 
2017), mantendo o estigma que já existia na ocupação em que mora-
vam anteriormente (BRISOLA, 2012).
Outra nota sobre as ações estatais, que reiteram a lógica penal, nos 
territórios urbanos, destaca a função desempenhada pelas remoções 
de famílias. Essas podem ser as forçadas, executadas pelos Governos, 
ou expulsões que têm implicações diretas do mercado, nas quais o Es-
tado se isenta de proporcionar segurança de posse às famílias. Assim, 
reitera-se a lógica de criminalização dos ocupantes de áreas considera-
das informais (DURIGUETTO, 2017).
As características de um Estado Penal estão presentes também na 
postura do sistema judiciário, que autoriza reintegrações de posse sem 
a garantia do direito à moradia; no aparato policial que executa essas 
reintegrações – muitas vezes, de forma violenta; na fiscalização osten-
siva e demolição de casas em áreas de risco – que nem sempre levam 
em considerações a posse necessária; na não retirada de entulhos de 
demolição dos locais, o que gera acúmulo de lixo, criação de animais 
peçonhentos e seus consequentes problemas de insalubridade; na coa-
ção de lideranças comunitárias e negociações – através de favores e 
favorecimentos pessoais; na compra de passagens para as famílias para 
outras cidades sem a garantia de moradia após a saída, entre outras.
Midiaticamente se constrói a ideia de que os moradores das áreas 
de ocupação são criminosos, já que vivem em local que não lhes per-
tence formalmente e que, portanto, as famílias devem aceitar qualquer 
forma de indenização. É a criminalização daqueles que habitam áreas 
estratégicas para valorização do capital, licenciadas, principalmente, 
através do discurso de bem comum e do desenvolvimento urbano, ou 
ainda da propriedade privada.
Para além disso, existem remoções que são executadas pelo merca-
do. Por exemplo, quando as famílias não podem permanecer nos seus 
bairros de origem, porque a valorização imobiliária aumenta também 
os custos de vida no local. O papel desenvolvido pelo Estado é de au-
sência na regulação do mercado imobiliário. Isso acontece apesar da 
146
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
previsão legal de diversos instrumentos no Estatuto da Cidade, o que 
mantém as famílias em constante insegurança de posse.
Essas são algumas formas que manifestam as ações estatais na cida-
de, na atualidade, sob a lógica de um Estado Penal e que escamoteiam 
o papel dos territórios como fundamentais à manutenção do sistema 
capitalista. Por isso, esse Estado criminaliza os movimentos sociais, já 
que buscam demonstrar os limites do sistema na construção de uma 
cidade para todos. O conflito passa a ocupar lugar na arena jurídica, 
na qual a garantia do direito de propriedade se sobrepõe as demais for-
mas de ocupação (DURIGUETTO, 2017). Estudos demonstram que 
as ocupações urbanas eram a principal estratégia de mobilização dos 
movimentos para chamar a atenção na luta pela terra e nos limites 
da propriedade privada. Contudo, com o aumento dos processos de 
criminalização e de violência perpetrada pelo atual Governo, os es-
tudos demonstram que as ocupações urbanas e rurais têm diminuído 
(SORAGGI; ARAGÃO; CORRÊA, 2019; COMISSÃO PASTORAL DA 
TERRA, 2020).
Para além da criminalização dos movimentos sociais, no Estado 
Penal, o sistema prisional é um grande mercado, constantemente cer-
cado de tentativas de privatização. Duriguetto (2017) aponta que, para 
Wacquant, esse sistema se torna a aposta do Estado através das PPPs, 
da contratação de agentes e da lógica da tolerância zero. Tem a ver, 
portanto, com o desmonte do Estado tão enfatizado no neoliberalismo.
No campo das políticas sociais, o Estado Penal tem como caracte-
rística o assistencialismo e, nesse sentido, tem um casamento perfeito 
com o neoliberalismo através da diminuição de recursos financeiros, 
na ascensão de uma política focalizada, o que tem implicado também 
na política urbana. Esse caráter se materializa, principalmente, nos 
programas de transferência de renda e, no campo da política habitacio-
nal, por exemplo, nos programas de concessão de bolsa auxílio aluguel 
social e na transformação do PMCMV em fornecimento de vouchers4.
4 A proposta é que o PMCMV não aconteça mais através da construção de moradias, mas 
que sejam fornecidos às famílias vouchers para compra, reforma ou construção. Sob o dis-
curso de que as pessoas terão mais liberdade, essa mudança descaracteriza o caráter social 
do programa e reforça sua lógica mercantil. 
147
BE TINA AhLER T
◀ Voltar ao sumário
Considerações Finaissociais e a pobreza, o que leva milhares de pessoas a não 
terem acesso às necessidades vitais de sobrevivência e pertencimento. 
16
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
E a agudização dos processos de precarização social do trabalho e da 
vida.
Nessas condições já indicadas e, ainda, com a continuidade do reor-
denamento do Estado, as mudanças operadas no campo da proteção 
social, que se manifestam na política social, têm desdobramentos para 
o Serviço Social, não apenas pelo fato de incidirem diretamente no ló-
cus de intervenção profissional, como também sobre os determinantes 
das condições de trabalho e de vida dos usuários dos serviços sociais.
O trato dessas questões é o foco da segunda parte desta Coletânea, 
intitulada Política Social e Serviço Social, momento em que são apre-
sentadas análises sobre as repercussões do ajuste estrutural no campo 
das políticas sociais no Brasil, cujo desenvolvimento historicamente 
não foi de caráter universalista e baseada na experiência de Estado So-
cial vivenciada por alguns países de capitalismo central. E desde os 
anos 1990, com a incorporação das prescrições neoliberais e de um 
conjunto de mudanças macroestruturais se têm inviabilizado o tar-
dio modelo de proteção social inscrito na Constituição de 1988, com 
a implementação de sucessivas contrarreformas do Estado, que redu-
zem Direitos Sociais, trabalhistas e sindicais. Ao mesmo tempo que se 
associa ao novo regime fiscal sob a vigência da Emenda Constitucio-
nal n° 95, de 15 de dezembro de 2016, que reduz os gastos públicos no 
decorrer de vinte anos, reforçam-se estruturas tributárias fortemente 
regressivas e a expropriação privada dos recursos produzidos pela for-
ça do trabalho social, favorecendo acúmulo e concentração de capital 
pela burguesia nacional e internacional.
Essas medidas têm resultado na agudização das desigualdades so-
ciais e nos altos níveis de pobreza em descompasso com o aumento e a 
concentração da riqueza; a regressão dos Direitos Sociais, trabalhistas, 
e a apropriação do fundo público pelas frações do capital. O que in-
tensifica a exploração da força de trabalho; a criminalização dos movi-
mentos sociais; a expansão do neoconservadorismo e da ultradireita; e 
o avanço da destruição da natureza como ecossistema vital do Planeta.
São muitas as ofensivas do capital no capitalismo periférico e de-
pendente que provocam a regressão das políticas sociais e dos direitos 
conquistados pelos trabalhadores. No entanto, a realidade, apesar de 
17
IzABEL CRISTINA DIAS L IRA, JANAíNA CAR VALhO BARROS E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA 
◀ Voltar ao sumário
adversa, sempre está em movimento. Portanto, é preciso considerar as 
possibilidades criadas pelas contraditoriedades inerentes ao sistema 
do capital, bem como pelas articulações no campo da política, para 
que sejam gestadas condições de reação, de luta e de resistência para 
reverter o quadro perverso de dominação capitalista, que se aprofun-
dam mediante a prevalência de políticas de ajustes ultraliberais, sob a 
influência ideopolítica do pensamento conservador.
Esperamos que as contribuições dos(as) autores(as) possam servir 
ao Serviço Social e áreas afins, como instrumento de análise crítica, e 
de aporte à construção de novas formas de resistência.
Agradecemos a todos(as) os(as) autores(as) pelo empenho, e tra-
balho minucioso e crítico na produção de conhecimento contido em 
cada capítulo, que resultou na qualidade que ora apresentamos neste 
livro.
Também merece um agradecimento especial, a contribuição de Ja-
queline Dayane da Silva Medeiros, egressa do PPGPS da UFMT, pre-
sente em todo o processo de revisão desta Coletânea.
Registramos ainda nosso agradecimento à Coordenação de Aper-
feiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio do Pro-
grama de Apoio à Pós-Graduação (PROAP); à Pró-Reitoria de Pós-
-Graduação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); e ao 
Programa de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS/UFMT). 
Izabel Cristina Dias Lira
Janaína Carvalho Barros
Ruteléia Cândida de Souza Silva
(Organizadoras)
18◀ Voltar ao sumário
AUTORAS(ES)
Betina Ahlert Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina 
(UFSC). Mestra e Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade 
Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Professora do Departamento 
de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da 
Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Endereço Lattes: http://
lattes.cnpq.br/9809171485283786. E-mail: asbetinaa@gmail.com. Orcid: 
https://orcid.org/0000-0002-3858-7092. 
Carina Berta Moljo Graduada em Serviço Social pela Universidade Nacional de Rosario, (Argen-
tina). Mestre, Doutora e Pós-Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Uni-
versidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Pós-Doutora em Serviço Social 
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Associada 
da Faculdade de Serviço Social (Graduação e Programa de Pós-Graduação 
em Serviço Social) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Membro 
do Grupo de Pesquisa Serviço Social, Movimentos Sociais e Políticas Públi-
cas (FSS/UFJF/CNPq). Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvi-
mento Científico e Tecnológico (CNPq). Editora da Revista Libertas. Endere-
ço Lattes: http://lattes.cnpq.br/3960109794312109. E-mail: carinamoljo@
uol.com.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0248-5617. 
Delaine Regina 
Bertoldi
Graduada em Serviço Social da Universidade Federal de Mato Grosso 
(UFMT). Mestre em Política Social pela Universidade Federal de Mato Gros-
so e Residência Multiprofissional em Saúde do Adulto Idoso com Ênfase em 
Atenção Cardiovascular (PRIMISCAV/HUJM/UFMT). Endereço Lattes: http://
lattes.cnpq.br/5460336265118789. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-
0866-3699. 
Imar Domingos 
Queiróz
Graduada em Serviço Social da Universidade Federal de Mato Grosso 
(UFMT). Mestre em Educação pela UFMT. Doutora em Sociologia Política 
pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora Asso-
ciada do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Gradua-
ção em Política Social da UFMT. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.
br/4408681712025275. E-mail: imarqueiroz@hotmail.com. Orcid: https://
orcid.org/0000-0003-0747-7947. 
19
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
Izabel Cristina Dias 
Lira
Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco 
(UFPE). Mestre em Serviço Social pela UFPE e Doutora em Serviço Social 
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professora 
Associada do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Gra-
duação em Política Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). 
Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/6008725493517609. E-mail: icdli-
ra@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4841-6246. 
Jaime Giolo Graduado em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo (UPF/RS). Mestre 
em História e Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica 
de São Paulo (PUC-SP). Doutor em História e Filosofia da Educação pela 
Universidade de São Paulo e Pós-Doutor em Educação Superior Brasileira 
pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professor Associado 
da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Endereço Lattes: http://
lattes.cnpq.br/6481846779381796. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-
7698-8957. 
Jaime Hillesheim Graduado em Serviço Social pela Universidade Regional de Blumenau 
(FURB) e em Direito pela Universidade de Cuiabá. Mestre em Serviço Social 
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutor em Ser-
viço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da 
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Pós-Doutor pelo Progra-
ma de Pós-Graduação em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica 
do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Professor Associado do Departamento de 
Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Serviço SocialBusca-se trazer ao debate algumas notas sobre a relação entre Esta-
do e cidade na atualidade. Os aspectos são, em sua totalidade, muito 
amplos e, por isso, impossíveis de serem tratados em um capítulo. Por 
isso, opta-se por apresentar reflexões de como a lógica do Estado Penal, 
reforçada na atualidade do neoconservadorismo, reforça ações de re-
gulação sobre o território habitado. Trata-se de uma forma de controle 
social que sempre foi usada, contudo, com elementos contemporâneos. 
Materializa-se não somente nas atitudes que estão contra a lei, mas nas 
subjetividades que precisam ser combatidas e nas formas de existência 
que são tidas como ilegítimas (na associação entre os ditos bandidos, 
os ocupantes, os pobres).
Observa-se que existe o privilégio, no Estado Penal, da circulação 
de riqueza e não da proteção da vida. Esses discursos escamoteiam a 
naturalização da propriedade privada e relações de classe na sociedade. 
Nesse sentido, além de existirem poucos espaços de controle social da 
população sobre as ações estatais, a lógica da criminalização dos mo-
vimentos sociais tem rebatido nos processos de resistência e luta pelo 
direito à cidade.
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PARTE II
POLÍTICA SOCIAL 
E SERVIÇO SOCIAL
151◀ Voltar ao sumário
CAPÍTULO 7
Lucro acima de tudo, repressão 
para cima de todos: tendências 
para as políticas sociais no Brasil 
após crise de 2008
Lélica Elis Pereira de Lacerda
Introdução
Este capítulo está pautado na compreensão das políticas sociais en-
quanto mediação social de segunda ordem do capital, desenvolvida 
em tese desta autora (LACERDA, 2017), agora exercitada como uma 
mediação de segunda ordem do capitalismo dependente sob crise do 
capital.
Quer-se chamar atenção para o tempo de transição histórica que 
se tem vivido, em que a Nova República, fundada pela Constituição 
Federal de 1988 (CF/1988), entra em estado terminal a partir de 2013; e 
a ruptura institucional de 2016 inicia o processo de superação da Carta 
magna. Isto para evidenciar a profundidade e perenidade das mudan-
ças do porvir.
Neste estudo bibliográfico, pautado na teoria marxista da depen-
dência e nos estudos descoloniais, se tem por objetivo delinear as ten-
dências das Políticas sociais brasileiras após crise de 2008. Por meio de 
autores clássicos do marxismo-leninismo, como Marx (2011), Lukács 
(2013) e Mészáros (2009; 2016); autores dos estudos descoloniais com 
Quijano (2020) e Williams (apud HONOR, 2015); e do capitalismo de-
pendente – Marini (2000) e Fernandes (2005), se buscará denotar: 1. 
152
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
as particularidades das políticas sociais como mediação de segunda 
ordem do capitalismo dependente brasileiro; 2. as elementares trans-
formações do capital e as tendências que imprimem às políticas sociais; 
3. como estas tendências se expressam na sociabilidade brasileira após 
crise de 2008.
1 As políticas sociais enquanto mediação de 
segunda ordem do capital1
Do ponto de vista ontológico da reprodução social, as políticas so-
ciais são mediações de gestão das necessidades sociais coletivas que se 
materializam por meio de serviços e benefícios sociais; sob a hegemo-
nia do capital, funciona como mediação de segunda ordem do capital, 
socializando parte da riqueza social (material e espiritual), mantendo 
intacto o trabalho assalariado e a propriedade dos meios de produção 
(LACERDA, 2017).
Assim, as políticas sociais são mecanismos institucionais (escolas, 
hospitais, quadras esportivas, etc,; verdadeiros patrimônios da huma-
nidade) que portam a natureza socializante reivindicada pela luta da 
classe trabalhadora, mas o faz materializando direitos, conforme o 
contexto da luta de classes. Sob a hegemonia do capital, materializa-
-se o direito burguês dos cidadãos individualizados, passivos que os 
vivenciam enquanto força de trabalho (ABREU, 2008), moldando-os 
(seu tempo, hábitos, rotinas, valores, etc.) a sua função na divisão hie-
rárquica do trabalho, reproduzindo a desigualdade ampliada, porque 
submetida à lógica do capital.
Mészáros (2009) chama atenção para a constituição da sociedade 
capitalista, a formação socioeconômica mais complexa já constituída 
pela humanidade, que possui um complexo mecanismo de funciona-1 Este tópico se refere à produção em tese de doutorado “Era só mais um Silva: fundamentos 
e defesa do exercício profissional crítico” (LACERDA, 2017), na qual se vislumbra o debate 
acerca do exercício profissional, enquanto práxis de segunda ordem. Debate-se a natureza 
do trabalho da assistente social e das políticas sociais para desenvolver um conceito pau-
tado na crítica radical da sociabilidade capitalista. O presente debate está dentro da seção 
3, que debate a natureza das Políticas Sociais.
153
LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA
◀ Voltar ao sumário
mento, um verdadeiro sociometabolismo constituído por mediações 
de segunda ordem do capital2 movidas pela gana de autoexpansão. As 
políticas sociais, sob hegemonia do capital, também serão moldadas 
por esta gana3.
A partir da base da sociedade capitalista - trabalho assalariado e 
propriedade privada dos meios de produção – se erguem outras me-
diações de segunda ordem do capital, que são a forma histórica de 
promover as mediações necessárias para a humanidade se perpetuar, 
enquanto espécie.
A argumentação é a de que as políticas sociais funcionam enquanto 
mediação de segunda ordem do capital no bojo do Estado burguês, 
que molda seu núcleo socializante à dinâmica do capital para socializar 
riqueza de forma pontual, buscando dar viabilidade à reprodução do 
capital.
Quando o Estado vai cumprir a mediação primária de “[...] aloca-
ção racional dos recursos materiais e humanos disponíveis, lutando 
contra a tirania da escassez [...]” (MÉSZÁROS, 2009, p. 192), o faz en-
quanto mediação de segunda ordem do capital, mantendo intacta a 
relação exploratória de extração de mais-valia no campo da produção, 
atendendo às necessidades imediatas do trabalhador, enquanto força 
2 Retira-se o conceito de mediação de segunda ordem do capital de Mészáros (2009). Se-
gundo o autor, para Marx, a humanidade enquanto espécie precisa realizar algumas ati-
vidades para se manter viva, como, por exemplo, manter-se em constante contato com a 
transformação da natureza para retirar dessa o que necessita, constituir formas de dis-
tribuição da riqueza produzida, etc. nenhum desses imperativos mediadores primários 
implica o estabelecimento de hierarquias estruturais de dominação e subordinação como 
estrutura necessária da reprodução sociometabólica. As mediações de segunda ordem do 
capital, ao contrário, funcionam como um círculo vicioso se sustentando reciprocamente, 
tornando impossível impedir a força alienante e paralisante de qualquer um desses toma-
dos isoladamente (MÉSZÁROS, 2009).
 A argumentação é a de que as políticas sociais funcionam enquanto mediação de segunda 
ordem do capital no bojo do Estado burguês, quando seu núcleo socializante é amoldado 
à dinâmica do capital para socializar riqueza de forma pontual buscando dar viabilidade à 
reprodução do capital.
3 Por se tratar de uma mediação de reprodução social, a base econômica dita seus traços 
fundamentais, o que quer dizer sua dinâmica depende da luta de classes. Sob hegemonia 
socialista, se torna uma mediação de segunda ordem socialista. Esta discussão se encontra 
mais bem desenvolvida em Lacerda (2017).
154
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
de trabalho e no campo político-ideológico manipula as expressões 
mais superficiais e agudas desta relação de exploração/opressão que 
colocariam em xeque a coesão social entorno do projeto burguês.
A luta por maior acesso à riqueza social coloca em questão os ru-
mos da humanidade, culminando em alguns momentos na revolução 
socialista, em outros em reformismo, ou ainda, processos de contrar-
reforma. Seja como for, a política social é instrumento de gestão de 
necessidades coletivas e, portanto, se refere ao direcionamento dos ru-
mos coletivos e, por isso, ao mundo da política: ampliar ou reduzir o 
acesso da classe trabalhadora à previdência social, saúde, educação, etc. 
são meios de gerir as necessidades sociais coletivas dos trabalhadores.
É impossível dar uma definição em termos de pensamento formal, 
em que começa e termina a política. Normalmente, essa se refere aos 
problemas que estão vinculados diretamente ou de forma íntima com 
o destino de toda a sociedade e se distinguem com nitidez das ações e 
relações do homem singular. A política é uma esfera da vida da socie-
dade nitidamente diferente daquela que – como o direito – é delimita-
da diante da divisão do trabalho como tal e munida dos especialistas 
necessários. Essa é um complexo universal da totalidade social, só que 
é um complexo da práxis, mais precisamente, uma práxis mediada que, 
por isso, de modo algum tem a possibilidade de ter uma universali-
dade tão identicamente espontânea e permanente como a linguagem 
(LUKÁCS, 2013).
A escolha do rumo coletivo, portanto, é um processo a ser cons-
truído por meio da práxis política e perpassa a cada um situado em 
uma estrutura social: os proprietários na condição de governantes e os 
trabalhadores na condição de governados. Este tipo de práxis é, em úl-
tima análise, direcionada à totalidade da sociedade de tal maneira que 
põe em marcha, de modo imediato, o mundo fenomênico social como 
terreno do ato de mudar, conservar ou destruir o existente.
Dentro dos limites do capital e enquanto parte constituinte do 
Estado burguês, as políticas sociais, embora possuam um núcleo so-
cializante, que lhes garante importante papel na agenda socialista, foi 
subsumida à dinâmica do capital, servindo para organizar a esfera fe-
nomênica da economia (naturaliza o assalariamento, a intermediação 
155
LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA
◀ Voltar ao sumário
do mercado para o acesso aos valores de uso que sanem necessidades, 
etc.) enquanto repõe a essencialidade das relações capitalistas, confor-
me alertava Luxemburgo (2014, p. 27):
[...] o regime capitalista tem uma característica particular; todos 
os elementos da sociedade futura, ao progredirem, em vez de 
se orientarem para o socialismo, pelo contrário, afastam-se[...] 
no seio das quais os antagonismos capitalistas, a exploração, a 
opressão da força de trabalho, se exasperam ao extremo [...]Para 
libertar o núcleo socialista da ganga capitalista, é preciso que o 
proletariado conquiste o poder político e que o sistema capitalis-
ta seja totalmente destruído.
Sem a ruptura com o capital, a tendência é que a sociedade se com-
plexifique, que suas contradições se aprofundem tornando tanto mais 
complexas e numerosas as mediações que se tornam necessárias para 
manter normalmente o processo de reprodução. A base material pau-
tada na exploração de classe não pode ter uma estrutura geral histori-
camente sustentável. É necessário que o sistema submeta tais unidades 
centrífugas sob algum tipo de controle geral, que precisa estar separa-
do/alienado (MÉSZÁROS, 2016).
Assim, os diversos tipos de Estado se constituem como estrutura de 
comando geral do sistema acima dos trabalhadores para lidar com tais 
questões sem tocar em suas causas (na verdade, repondo-as de forma 
ampliada), brincando com as consequências (MÉSZÁROS, 2011). O 
processo econômico de reprodução, a partir de determinado estágio, 
não poderia funcionar se a formação de campos não-econômicos, que 
possibilitem ontologicamente o desenrolar deste processo. Neste pon-
to se está falando do âmbito da superestrutura, da ideologia.
As contradições oriundas das tendências de desenvolvimento do ca-
pitalismo geram a condição concreta de vida, que demanda resposta 
dos trabalhadores, que pode ser tanto a luta individual por sobrevi-
vência, quanto a luta coletiva por transformação social, a depender da 
forma como o trabalhador entende o conflito.
156
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
A cada necessidade social coletiva que o Estado burguês responde, 
via política social, sob os marcos do capital, esse burocratiza e dirime 
um conflito social em prol dos interesses do capital. A Política social 
se revela, simultaneamente, do campo econômico(porque distribui ri-
queza material e espiritual) e política.
O campo de ação criado em cada caso pelo respectivo desen-
volvimento das forças produtivas é o único cenário existente, o 
único mundo objetivo realmente possível para a práxis do ho-
mem. Está claro, portanto, que as atividades não econômicas, 
mais organizadoras da sociedade, cuja soma e sistema compõem 
a superestrutura [...] devem se ligar diretamente ao mundo fe-
nomênico da esfera econômica (LUKÁCS, 2013, p. 397-398).
As políticas sociais, ao mesmo tempo em que respondem ao mun-
do das necessidades (ou seja, ao mundo econômico), quando socializa 
riqueza (material e espiritual), reforça formas de dirimir conflitos so-
ciais sem tocar em sua base de sustentação (a extração de mais-valia e 
propriedade privada dos meios de produção). Ao sanar necessidades 
imediatas e pontuais ocultando suas causas, as políticas sociais coesio-
nam politicamente a sociedade entorno do projeto burguês, repondo 
a exploração de classe no campo econômico e atuando também no 
campo ideológico, entendendo a ideologia como a forma ideal elabo-
rada a partir da realidade, que serve para tornar a práxis social humana 
consciente e capaz de agir.
Assim, as políticas sociais se referem tanto à base econômica (das 
necessidades) quanto à ideológica (ideias que subsidiam respostas dos 
indivíduos e os rumos coletivos).  Esta ligação é tão estreita que se tor-
na difícil diferenciar quando os conteúdos dos pores teleológicos, que 
daí surgem, são de natureza econômica e quando a ultrapassam.
157
LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA
◀ Voltar ao sumário
2 Política social brasileira como mediação de 
segunda ordem do capitalismo dependente
Se as políticas sociais são mediação de segunda ordem de repro-
dução do capital, as particularidades da dinâmica de produção e de 
reprodução do capitalismo dependente hão de lhe atribuir traços par-
ticulares. Ao se afirmar que é a partir da base da sociedade capitalista 
- trabalho assalariado e propriedade privada dos meios de produção – 
que se erguem as demais mediações de segunda ordem do capital, pen-
sar nas particularidades do trabalho e da propriedade privada brasilei-
ra permite perceber as particularidades das políticas sociais no Brasil.
O país se insere no Mundo moderno com o processo de coloniza-
ção empreendido pelos europeus. Para Quijano (2020), a fundação da 
ideia de América se constitui concomitante e em contraponto com a 
ideia de Europa; os europeus civilizados e conquistadores em um pro-
cesso de expansão de sua forma mercantil de vida; os americanos como 
“os outros”, primitivos, não-civilizados a serem conquistados, sofrendo 
invasões para a imposição de um modo de vida com o qual os povos 
originários do Continente não tinham qualquer afinidade. Foi neste 
processo violento que essa sociedade se submeteu e que jamais supe-
rou o que Quijano (2020) denominou de colonialidade do poder que 
constrói a ideia de raça funcionando como a justificação da “conquista” 
europeia; revelando-a como o mais durável e eficaz instrumento de do-
minação universal, forma fundamental de distribuição da população 
mundial nos níveis e papéis na estrutura de poder da sociedade.
Quando Marx (2011) trata da acumulação primitiva, deixa evidente 
que o desenvolvimento da forma industrial mercantil de produção foi 
financiado pelas riquezas oriundas das colônias. Na gênese do capi-
talista industrial se situa o tráfico negreiro, a pilhagem das riquezas 
das Américas e a dívida pública. Não desenvolve, porém, o papel do 
processo colonial na emersão do capital.
Nesse sentido, Williams (apud HONOR, 2015) afirma que o di-
nheiro acumulado pelos bancos internacionais de hoje é oriundo do 
sequestro e venda de africanos como escravos; e a compra de maté-
158
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
rias-primas barateadas pela intensa exploração de pessoas escraviza-
das, para manufaturar e revender a altos preços às colônias. Seus cofres 
estão, portanto, abarrotados de ouro, prata e sangue dos povos latino-
-americanos e Africanos.
Gorender (2018), por sua vez, afirma que a transição capitalista no 
Brasil não ocorreu da servidão ao capitalismo, mas do escravismo co-
lonial ao capitalismo. Ressalta o autor (idem, 2018) que o projeto co-
lonial se pautava no latifúndio, na monocultura e no trabalho escravo 
constituindo uma economia agroexportadora. Isto porque, conforme 
explica, o Brasil se conecta ao mercado mundial através do escravis-
mo patriarcal/colonial, que produzia matérias-primas barateadas pela 
intensificação da exploração do trabalho escravo. Ressalta o autor, em 
conformidade com Williams (apud Honor, 2015), que os africanos 
escravizados eram formalmente tidos como meros instrumentos de 
trabalho falantes, excluídos de sua condição de humanidade, em uma 
sociedade estruturada por meio do trabalho penoso, açoites que impu-
nham esta forma de trabalho em troca de comida.
Quijano (2020) afirma que a globalização de hoje é a culminação 
da colonização das Américas e a hegemonia do moderno capitalismo 
eurocentrado. Nesse processo, todas as formas de produção não-capi-
talistas, em seus diferentes espaços e tempos, foram atreladas à dinâ-
mica do capital enquanto totalidade. Nesse processo, a colonialidade 
do poder institui a distribuição racista do trabalho, processo que se 
instaura desde a colonização e jamais foi superado.
O assalariamento se coloca como uma relação em que um ser, reco-
nhecido em sua humanidade, vende parte do tempo de uso de suas ca-
pacidades físicas e mentais de trabalho como mercadoria em troca de 
salário. Aos não-brancos é negada a sua condição humana, reduzidos 
a instrumentos de trabalho, cabe o trabalho não remunerado. Nas co-
lônias, o assalariamento se restringia-se apenas àqueles considerados 
como humanos (pessoas brancas). Assim, a cada raça se destina um 
lugar no trabalho e poder, o que evidencia a raça como uma nova tec-
nologia de dominação/exploração pautada na articulação raça-classe.
Assim, a colonialidade do poder (idem, ano) impõe ao Mundo uma 
divisão racial do trabalho em que, nos países centrais, se desenvolve a 
159
LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA
◀ Voltar ao sumário
indústria que transforma os europeus e brancos em mercadoria de for-
ça de trabalho, que provê sua vida pela venda de sua força de trabalho; 
aos não-brancos na periferia do capitalismo, por sua vez, prepondera a 
produção de matérias-primas por meio de trabalho não-remunerado 
de pessoas em um patamar secundário de humanidade.
Sem rupturas fundamentais com o colonialismo, a revolução bur-
guesa no Brasil, segundo Fernandes (2005), irá fundar uma tímida 
burguesia industrial, que não rompe com a elite latifundiária (escra-
vista). Esta vê na transição capitalista uma forma de modernizar seus 
negócios; e o mercado de trabalho se fundará marcado pela profunda 
estratificação colonial em que os não-brancos terão sua condição hu-
mana rebaixada e seu trabalho sempre tendendo ao não remunerado 
por dinheiro; cabendo, majoritariamente, aos brancos a condição de 
um humano que vende como mercadoria sua força de trabalho nos 
melhores postos de trabalhos remunerados (embora seja verdade que 
nunca tão bons quanto da aristocracia proletária do centro do capita-
lismo).
Mesmo com o desenvolvimento do capitalismo, o Brasil se mantém 
como economia agroexportadora de commodities que por meio da in-
tensificação da exploração do trabalho barateia as matérias-primas das 
indústrias centrais e os salários da aristocracia proletária. Em uma eco-
nomia agroexportadora, segundo o autor, quebra-se o ciclo de produ-
ção, circulação e consumo. Aqui o trabalhador participa da economia 
apenas na dimensão da produção, na qual quanto mais é explorado 
mais beneficia o capital, mas não como consumidor, dimensão na qual 
sua capacidade de consumo influi na reprodução do capital (MARINI, 
2005). Isso coloca, estruturalmente, um processo de superexploração 
do trabalho4, emque toda a economia está estruturada para a produ-
ção e envio do valor para fora, negando as necessidades dos trabalha-
dores brasileiros.
4 Por trabalho superexplorado o autor entende um trabalho em que se recebe na forma de 
salário menos que o necessário para a reprodução da força de trabalho; em um trabalho 
de jornada de trabalho mais intensa e explorada, sob vínculos empregatícios precários 
(MARINI, 2005).
160
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Fala-se, portanto, de trabalhadores em condições bastante diferen-
tes dos assalariados do centro do capital. São trabalhadores de uma 
sociedade profundamente estratificada pelo racismo, cuja condição 
humana é inferiorizada. O rebaixamento da condição humana leva à 
compressão do reconhecimento e da vivência das necessidades. Isto 
porque as necessidades humanas estão submetidas às necessidades das 
elites nacionais e internacionais; e da aristocracia proletária que pôde 
vivenciar direitos no centro do Mundo.
A inferiorização do reconhecimento das necessidades deste traba-
lhador leva ao rebaixamento do tipo de política social que se tende a 
instituir. Aos trabalhadores fadados ao trabalho superexplorado serve 
um Bolsa Família que subsidie o salário insuficiente, mas jamais caberá 
a distribuição de terras e casas; aos idosos, uma aposentadoria que ga-
ranta a velhice dos menos espoliados, que conseguem completar mais 
de 65 anos; aos pobres, negros e periféricos, o trabalho até a morte 
precoce banalizada em nome da gana de lucros dos banqueiros.
Esta naturalização do sacrifício das necessidades dos povos latino-a-
mericanos, pela preponderância das necessidades das elites internacio-
nais, nacionais e aristocracia proletária promovida pelo poder colonial 
dentro de um pacto tácito da supremacia branca permite, ainda, a na-
turalização da pilhagem moderna – a dívida pública. Não escandaliza 
ninguém saber que a condição sub-humana de moradia, de educação, 
de saúde, etc. de povos de Continentes inteiros é fruto da priorização 
absoluta do pagamento de juros a meia dúzia de banqueiros.
Marx já chamava a atenção para a dívida pública, enquanto medida 
de acumulação primitiva, e essa vai tomando centralidade na subju-
gação entre países imperialistas e dependentes. Lênin (2014) mostra 
que na transição do século XIX para XX, a crise do capital leva ao 
aparecimento dos primeiros cartéis. Ocorre a fusão de capital bancário 
e industrial, fundando o capital financeiro aglutinado em meia dúzia 
de banqueiros, que passam a deter o domínio sobre o mercado global.
Essas oligarquias financeiras, a partir do domínio do setor produ-
tivo, constituem o mercado financeiro, cuja maior alavanca para ex-
tração de mais-valia são os juros. A exportação de capitais, via dívi-
da pública, passa a ser seu maior negócio e seu melhor cliente são os 
161
LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA
◀ Voltar ao sumário
países dependentes, dos quais consegue exportar capital a juros eleva-
díssimos, modernizando o método de pilhagem de riquezas pelos fios 
invisíveis do mercado.
A forma como se produz valor no Brasil, portanto, inviabiliza que 
parte da riqueza social seja investida no interior do país e isto aniquila 
(desde sempre e muito pior no contexto atual) qualquer sonho de Es-
tado de Bem-estar social no Brasil.
No entanto, nem tudo é determinação meramente econômica. No 
plano político, as elites autoritárias não permitem disputas. Segundo 
Fernandes (2005), enquanto na Revolução Francesa o Estado era alvo 
de disputa das classes, no Brasil, a burguesia nascente processou o re-
volucionamento da base econômica brasileira para o capitalismo por 
dentro do Estado, tornando-o impermeável às disputas dos trabalha-
dores. Trata-se de uma democracia restrita a plutocracia.
É preciso entender que se fala de um Estado forjado por elites que, 
conforme Ianni (1984), adotam postura de conquistadores sem qual-
quer identificação com os trabalhadores, regidas pelas necessidades de 
lucros de elites estrangeiras, suas sócias majoritárias (todas famílias 
brancas oriundas das metrópoles europeias). Um Estado que organiza 
a exploração estrangeira neste território, mediada pelas elites nacio-
nais, que operacionalizam a produção do valor para fora e que preci-
sam neutralizar toda demanda dos de dentro.
Segundo Almeida (2018), esta forma exploratória de gerir o poder 
é oriunda do colonialismo. Segundo esse autor, o colonialismo dá ao 
Mundo um novo modelo de administração, que tem base no exercício 
da morte, sobre formas de ceifar a vida ou colocá-la em constante con-
tato com a morte. Por isso, no Brasil, a coerção pesa sempre mais que 
a coesão; a força sempre foi mais usada que o consenso, até porque se 
fala de uma elite herdeira do escravismo que jamais deixou de açoitar 
seus trabalhadores; apenas desenvolveu formas mais modernas e com-
plexas, institucionais e falsamente impessoais.
Estes traços coloniais presentes na constituição do capitalismo no 
Brasil determinam serviços sociais precários, tanto pelo rebaixamento 
do reconhecimento de fato de necessidades, quanto pela escassez de 
recursos disponíveis e que, portanto, reproduzirão a profunda desi-
162
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
gualdade do trabalho racial e sexual, no plano econômico, naturali-
zando tais relações no plano ideopolítico. Essas são a complexificação 
da base colonial do trabalho penoso em troca de comida, regulado 
pelo açoite, como apontado por Gorender (2018), mas sob a égide das 
oligarquias financeiras. Em virtude desta estrutura estrangulada, será 
pouco permeável ao controle social, com abrangência bastante limita-
da, superficial e fragmentada; restrita a mecanismo de controle e na-
turalização do trabalho superexplorado. Qualquer idealização de um 
Estado de bem-estar social voltado às necessidades dos trabalhadores 
brasileiros requer sonhar com a ruptura dos limites do capitalismo de-
pendente neste país.
3 As transformações do capital e seus 
desdobramentos sobre as Políticas Sociais
O que cabe enfatizar nestas breves linhas é que a dinâmica que o 
capital assume diante de suas crises delineia tendências gerais às políti-
cas sociais, que funcionam enquanto sua mediação de segunda ordem 
(LACERDA, 2017).
Harvey (1992) pontua que diante da crise de superprodução de 1929 
se buscou fomentar o consumo para enfrentar a superprodução. A cri-
se foi solucionada, portanto, no setor produtivo, por meio da organiza-
ção fordista da produção e, no plano político, pelo Estado de bem-estar 
social, que se utilizou das políticas sociais como subsídio para o consu-
mo para reduzir o tempo de giro do capital.
Disto, o que interessa assinalar é que não foi por uma faceta hu-
manista do capital que se constituiu o Estado de bem-estar social nos 
países centrais. Foi, por um lado, uma resposta do capital aos traba-
lhadores insurgentes das revoluções socialistas do século XX; de outro, 
uma necessidade de funcionar como medida de fomento ao consumo, 
como contratendência de queda da taxa de lucro.
No entanto, a crise de 1970 irá sepultar o Estado de Bem-estar social, 
já que o cerne do enfrentamento desta crise ocorrerá, prioritariamente, 
na esfera financeira. A precarização das relações trabalhista irá permi-
tir, no âmbito da produção, a intensificação da extração de mais-valia 
163
LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA
◀ Voltar ao sumário
como mecanismo de ampliar lucros; e o Estado irá abrir ao mercado 
todo setor que possa ser rentável.
Se a mercantilização das políticas sociais abrem importantes nichos 
de mercado, o maior negócio de todos está na dívida pública, para a 
qual vai todo o montante de dinheiro cortado das políticas sociais pe-
las políticas de austeridade. Conforme Marx (2011), a dívida pública é 
o negócio mais certo e lucrativo e que prescinde de investimento em 
capital fixo ou variável e a partir da hegemonia do capital fetiche passa 
a ser o mais poderoso instrumento de dominaçãopolítica e econômica 
moderno do imperialismo aos países dependentes.
O que se quer delinear é que a partir da década de 1970 se imprime 
no Mundo a tendência de perda de direitos trabalhistas e sociais e a 
apropriação do fundo público pelos bancos na amortização de juros 
da dívida pública.
Dentro destas breves anotações, por fim cumpre ressaltar que, em 
2008, explode nova crise de superprodução no coração do sistema fi-
nanceiro estadunidense. A partir de então se intensifica a polarização 
global da luta de classes, em que os EUA abandonam a postura de na-
ção portadora do progresso civilizatório para se colocar como aberta-
mente conquistadora (HARVEY, 2014).
Neste cenário, não há margem para a conciliação de classes e a 
agenda ultraliberal se torna imperiosa: a perda de direitos é imposta ao 
Mundo custe o que custar. Abre-se, então, em âmbito mundial, a ten-
dência de uma escalada autoritária, sustentada, ideologicamente, pelo 
neoconservadorismo e manipulação irracionalista. Além disso, o autor 
assinala a ativação da tendência de acumulação via espoliação5; inten-
sificando sua ação predatória sobre o meio ambiente e os trabalhado-
res de todo o Mundo, portanto, o seu poder colonial sobre o Mundo.
5 Harvey (2014) identifica na dinâmica imperialista a continuidade do processo de acumu-
lação primitiva de Marx. Segundo o autor, por se tratar de um estudo sobre o processo 
constitutivo do capital, Marx denominou de acumulação primitiva. Ele, por sua vez, por 
tratar de um aspecto constitutivo do capital, mudará o nome de acumulação primitiva 
para acumulação via espoliação.
164
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
4 Tendência das políticas sociais no Brasil 
Contemporâneo
Diante dos efeitos da crise de 2008, o reconhecimento formal de di-
reitos pela CF/1988 passou a ser incompatível aos projetos imperialis-
tas para o Brasil de rebaixamento de condições de vida para ampliação 
de seus lucros. Então, em 2016 há ruptura com a institucionalidade da 
democracia brasileira, em que Dilma Roussef (PT) é deposta e em seu 
lugar assume Temer (PMDB).
Assim, a agenda ultraliberal começa a ser imposta, sendo aprovada 
a Emenda Constitucional 95/2016, que congelou desde 2018 e por 20 
anos o financiamento das políticas sociais, tornando-se a maior me-
dida de austeridade do Mundo. É aprovada também a contrarrefor-
ma trabalhista, que faz retroceder a proteção ao trabalho, reforçando a 
tendência de restrição do trabalho-salário aos brancos. É a serviço da 
dívida pública que, em 2019, sob o governo Bolsonaro, que foi aprova-
da a contrarreforma da Previdência Social, que na prática impele os 
idosos pobres (em sua maioria não-brancos) a trabalharem até a morte.
O estrangulamento da fonte de financiamento das políticas sociais 
promovido pelos bancos, através destas contrarreformas, tem por ob-
jetivo desmontar o sistema de proteção social da CF/1988 e reforça os 
traços coloniais brasileiros ao retirar da ordem do dia a qualquer res-
ponsabilidade estatal de superação do abismo social. Sob as exclusivas 
leis de mercado, os direitos sociais se tornam mercadorias acessíveis a 
quem consegue pagar; enquanto a precarização do mundo do trabalho 
reforça, no Brasil, a tendência de relações capital-salário exclusiva aos 
brancos.
Nesse contexto, as políticas sociais se desconectam dos valores 
emancipatórios que imbuíam a luta dos trabalhadores quando da con-
quista dos direitos sociais e essas tendem a colapsar, não apenas no 
sentido econômico de não possuírem condições de atender às neces-
sidades imediatas do público usuário e se aponta, também, a possibili-
dade de sua falência do ponto de vista ideo-político. Nesse contexto de 
recrudescimento das condições de vida da classe trabalhadora tende a 
165
LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA
◀ Voltar ao sumário
surgir revolta; a principal forma de trato da “questão social” não será a 
coesão política, mas a violência e a manipulação, que já têm caminha-
do juntas.
Para que um levante popular não ocorra, é preciso, como se tem 
acompanhado, a naturalização da barbárie, o que requererá, no plano 
ideológico, o aprofundamento do irracionalismo e do conservadoris-
mo (conformando o papel ideo-político das políticas sociais), sendo 
a manipulação fascista uma tendência que ascende em conformidade 
com o acirramento da crise do capital.
Sem rupturas com a hegemonia do capital, a criminalização da po-
breza (e tudo o que não é hegemonia branca/patriarcal) e a ideologia 
de segurança nacional tendem a substituir a concepção de proteção 
social, que inspirou as políticas sociais sob a luz da CF/1988, acarretan-
do-lhes caráter punitivo, policialesco e conservador.
No entanto, para o futuro não existe apenas a possibilidade histó-
rica da barbárie! A precariedade dos serviços sociais pode levar ao 
questionamento do pagamento da dívida pública e, quem sabe, levar 
a cobrança da dívida histórica!6 A radicalização das necessidades cria 
a possibilidade de crítica radical da formação do Estado no capital vir 
à tona. O Estado em falência pode pôr em perigo o processo de repro-
dução social (MÉSZÁROS, 2015), abrindo caminhos históricos para 
radicais transformações. Deve-se seguir disputando as políticas sociais 
no bojo da luta de classes!
Considerações Finais
Apontou-se que as políticas sociais não são estáticas. São mediações 
de reprodução do capital, moldadas, portanto, pela dinâmica da luta 
de classes que determinam a forma que o capital adquiriu por meio de 
6 Não há momento mais pedagógico do que em meio a uma pandemia que matará milhares, 
mas que o Estado prima pelo pagamento de juros da dívida pública a bancos, em vez do 
SUS para mostrar aos trabalhadores que são as fortunas dos grandes bancos oriundas da 
superexploração dos trabalhadores latino-americanos e africanos que devem custear os 
sistemas de saúde e outros sistemas de proteção social robustos o suficiente para erradicar 
a COVID-19.
166
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
suas crises. Sobre o Brasil se delinearam traços coloniais que marcam 
a constituição do capitalismo no brasileiro e, consequentemente, suas 
mediações de segunda ordem (incluindo o Estado autoritário e as Po-
líticas Sociais rebaixadas).
Em relação à conjuntura se evidencia quais são as atuais tendências 
de fora (do imperialismo estadunidense), que conformam a dinâmica 
de dentro (Brasil). Assinala-se, então, a imposição da agenda ultrali-
beral, implementada pelo autoritarismo e sustentada ideologicamente 
pelo conservadorismo e irracionalismo.
Traçou-se este percurso para demonstrar que, neste contexto, já não 
cabe mais ao Brasil declarar direitos a seu povo e isso significa o rebai-
xamento do padrão de sociabilidade enfatizando suas marcas coloniais. 
Isto para expressar a tendência das políticas sociais se conformarem, 
no plano econômico, a promover se reduzir a gestão coercitiva da bar-
bárie; enquanto no ideológico, se calcar no conservadorismo e irracio-
nalismo, reforçando seus traços elitista, racista e patriarcal.
No entanto, a história é um campo aberto em disputa. Há também 
a possibilidade histórica de pautar os direitos como expressão da so-
lidariedade de classe que organiza mecanismos coletivos (de tomada 
do poder e da propriedade dos meios fundamentais de produção). Isto 
permitiria destravar as políticas sociais da gana de lucros que as im-
pedem de coletivamente sanar as necessidades da classe (raça e sexo). 
Este é o único caminho contrário viável para reconectar o avanço das 
forças produtivas com o avanço civilizatório bloqueado pelo processo 
capitalista/colonial.
Referências
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derno. Rio de Janeiro. Editora URRJ, 2008.
FERNANDES, F. A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de interpretação 
sociológica. 5 ed. São Paulo: Globo, 2005.
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dança cultural. São Paulo:Loyola, 1992.
__________. O Novo Imperialismo. 8ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.
167
LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA
◀ Voltar ao sumário
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Revista História e Estudos Culturais, v. 12, ano XII. Núcleo de Estudos em 
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(NEHAC-UFU). Uberlândia-MG: NEHAC-UFU, jan-jun, 2015, p. 01-07. Dis-
ponível em: https://www.revistafenix.pro.br/PDF35/Resenha_3_Andre_Ca-
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Profissional Crítico. Tese (Doutorado em Serviço Social). 2017. Programa de 
Pós-Graduação em Serviço Social (PPGPS). Centro de Estudos Sociais e Eco-
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CLACSO, 2005. Disponível em: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-
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168◀ Voltar ao sumário
CAPÍTULO 8
O processo de reestruturação da 
Política de Assistência Social: as 
transformações do Estado e os 
desafios na atualidade
Liliam dos Reis Souza Santos
Miriam de Souza Leão Albuquerque
Introdução
Este texto reflete sobre o desmonte da política de Assistência Social 
na conjuntura contemporânea brasileira, a partir de uma análise sobre 
as particularidades do Estado brasileiro, fundamentada na tradição 
marxista. Aborda as principais características do Estado, com ênfase 
em sua configuração no contexto de redemocratização da década de 
1980 que, a partir das lutas sociais, adotou, na Carta Magna de 1988, 
os direitos sociais e a perspectiva da proteção social assegurada na Se-
guridade Social, pautados nos princípios do Direito e da Democracia 
burgueses, o que lhe imprimiu um contorno social.
Contudo, a implementação das medidas sociais pelo Estado tem 
sido inviabilizada pela hegemonia da política macroeconômica neoli-
beral, já que políticas sociais que compõem a dimensão social do Es-
tado têm sido negligenciadas a favor de um padrão de acumulação 
capitalista centrado no mercado.
Esse cenário de ataque aos poucos avanços sociais se agravou com a 
crise econômica, acirrada a partir de 2015, e está na base do reaciona-
rismo burguês que desencadeou o golpe de 2016 e a chegada ao poder 
169
LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE
◀ Voltar ao sumário
de Jair Bolsonaro, representante da extrema direita. Nesse contexto, se 
vivencia o desmonte de várias políticas sociais, destacando-se aqui a 
Assistência Social que, a partir das contrarreformas neoliberais, sofre 
com as restrições do orçamento e desqualificação dos seus serviços.
Tais processos se acirram no contexto da crise sanitária com a CO-
VID-19, que tem promovido um quadro de barbárie social, aprofun-
dando o número de desempregados no país e a superlotação dos pre-
cários serviços de saúde sem, contudo, dispor de uma proteção social 
pública mais abrangente, já que a pauta do Governo Federal se volta à 
manutenção da política macroeconômica neoliberal. 
1 Estado e políticas sociais no Brasil: 
particularidades e modificações recentes
Políticas sociais, como a Assistência Social, se configuram como 
mediação reguladora do Estado frente aos efeitos sociais mais nefas-
tos do capitalismo, como a pauperização e a miséria, produzida não 
por iniciativa exclusiva do Estado, nem pelas exclusivas lutas da classe 
trabalhadora, mas pelas próprias contradições do sistema que, para se 
reproduzir, tem que atender demandas tanto do capital quanto do tra-
balho (GOUGH, 1982).
Na realidade brasileira, ainda que a política de Assistência Social 
tenha histórica vinculação com a sociedade civil e com o voluntariado, 
sempre foi um tema imbricado ao Estado. Trata-se esta política de uma 
mediação estatal movida por imperativos de acumulação do capital e 
das lutas de classe daí decorrentes. Desse modo, urge a necessidade 
de fundamentar as transformações vivenciadas pela política de Assis-
tência Social com o debate sobre o Estado, mais precisamente sobre as 
particularidades do Estado brasileiro.
É consenso na tradição marxista a natureza de classe e de contra-
dição do Estado, ou seja, apesar de ter uma aparência neutra frente 
a interesses distintos, o Estado, essencialmente, vincula-se a classe 
dominante e, portanto, tem uma índole dominadora. Contudo, ainda 
que predomine sua natureza de classe e de dominação, não é corre-
to atribuir uma compreensão reducionista e unilateral, que o vincula 
170
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
aos interesses estritos da classe dominante, já que o Estado também 
tem caráter, fundamentalmente, contraditório, atendendo também às 
demandas das classes subalternas em prol da legitimação do sistema 
vigente (MARX, 1844; GRAMSCI, V. III, C. 06, 2017; POULANTZAS, 
1980; GOUGH, 1982).
Nesse sentido, considera-se o Estado como uma relação social atra-
vessada pelas lutas de classes, exigindo interação com essas (POU-
LANTZAS, 1980). Esta interação, por sua vez, impede o Estado de ser 
uma instituição engessada, mas flexível e moldada por essas disputas, 
ainda que se limite à manutenção do capitalismo. As lutas de classes, 
portanto, exercem uma importante mediação nas ações e conduções 
do Estado. Contudo, a ampliação da dimensão relacional do Estado e a 
sua permeabilidade às lutas de classe corresponde à ampliação de prin-
cípios democráticos e de cidadania. Esses, por sua vez, correspondem 
às particularidades de cada formação social.
No Brasil, a configuração das classes sociais e do Estado remonta 
aspectos particulares da formação social e da estrutura do trabalho 
neste país, cujas heranças foram transplantadas às classes sociais que 
eclodiram com as relações de produção capitalista. Tais particularida-
des correspondem à formação de uma classe dominante, forjada pela 
estrutura latifundiária e pela cultura escravagista e mandonista que, no 
contexto da industrialização, no século XX, formou uma classe bur-
guesa heterogênea associada a um modelo capitalista dependente que 
a impediu de preencher funções sociais construtivas e progressistas, 
restringindo-a a uma classe acentuadamente exploradora, dominado-
ra e ávida pela garantia de uma rede de privilégios. Estes elementos 
desenharam um perfil de Estado socialmente dominador, coercitivo e 
punitivo, inclinado às demandas econômicas das classes dominantes, 
ao invés de se pautar por medidas sociais conciliatórias, que ampliasse 
seu leque relacional.
Consequentemente, foram forjadas “[...] condições estruturais que 
restringem diretamente a participação econômica e, indiretamente, a 
participação sociocultural e política dos trabalhadores” (FERNAN-
DES, 1975, p. 71). Esses elementos dificultaram a formação de uma 
consciência de classe, visto que “[...] as poucas classes sociais parcial 
171
LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE
◀ Voltar ao sumário
ou completamente integradas não se [viam] como classes e [negavam] 
esse caráter às demaiscategorias sociais” (FERNANDES, 1975, p. 38).
Em função disso, as políticas sociais no Brasil, ao contrário do que 
aconteceu em países capitalistas centrais, não decorreram sumaria-
mente de uma demanda organizada da classe trabalhadora sindicaliza-
da e de uma clara consciência de classe, mas se atrelaram a uma tática 
governamental populista de controle da classe trabalhadora em con-
traposição a sua organização sindical autônoma. Esses fatores fazem 
com que o conformismo das massas não seja uma opção consciente, 
mas fruto dessas relações que desgastam “[...] a classe trabalhadora e 
suas frações de classe restringindo as possibilidades de mudanças e 
transformações sociais” (FERNANDES, 1975, p. 103).
Esse fato, contudo, não retira a importância das legislações sociais 
e trabalhistas para a classe trabalhadora. Isto porque, a despeito dessas 
normas também terem sido utilizadas como estratégias de despolitiza-
ção e cooptação das classes subalternas, responderam a necessidades 
concretas dessas classes e romperam com o assistencialismo e o po-
pulismo nas relações de trabalho e de proteção social, ao se pautarem 
pelo estatuto cívico do direito.
Uma baliza histórica importante para as lutas sociais e na configu-
ração do Estado brasileiro de tônica social foi o processo de redemo-
cratização da década de 1980 e a promulgação da Constituição Federal 
de 1988, que superou o quadro de cidadania regulado e corporativo 
ao estender o princípio da universalidade aos direitos sociais e ao res-
ponsabilizar o Estado com o financiamento e execução desses direitos, 
o que significou um ganho social enorme no âmbito da correlação de 
forças entre a classe trabalhadora e o Estado pela possibilidade de se 
colocarem freios ao padrão de dominação de classe no Brasil. Por isso, 
a Constituição Federal de 1988, ainda vigente, constitui um grande e 
simbólico marco das lutas de classe no Brasil e pode ser considerada 
uma das maiores vitórias da classe trabalhadora sobre as classes domi-
nantes, além de um importante avanço na redução do grau de priva-
tização do Estado capitalista brasileiro, possibilitando a ampliação da 
sua dimensão relacional.
172
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Tal ganho social representou um empecilho aos interesses das clas-
ses dominantes brasileiras e, principalmente, ao padrão de acumula-
ção centralizado no mercado, a partir de 1990, que teve que dividir o 
espaço estatal com as classes subalternas e lidar com as legítimas pres-
sões e cobranças sociais para que o Estado pudesse garantir o direito 
legal à proteção social previsto na Carta Magna.
Contudo, a prioridade dos Governos neoliberais foi o atendimento 
das demandas do mercado, assegurando que a maior parte do fundo 
público fosse destinada ao capital e suas frações de classe. Para tanto, 
foi implementada a Desvinculação das Receitas da União, o Plano Di-
retor da Reforma do Estado, a contenção dos gastos sociais e do orça-
mento público, em favor do superávit primário e de ajustes fiscais que 
reservam e transferem recursos públicos para o capital.
Com esta primazia do mercado, as demandas sociais foram redire-
cionadas, assumindo poucas possibilidades efetivas de desenvolvimen-
to e inclusão social. A opção governamental em favor da centralidade 
do ajuste econômico colocou a política social em posição periférica, 
com sucessivos contingenciamentos orçamentários, inaugurando uma 
nova fase de desfiguração dos direitos sociais e das políticas sociais. 
Dessa forma, a perspectiva social do atual Estado brasileiro tem sido, 
cada vez mais, substituída pela lógica do Estado regulador mínimo na 
prestação direta de serviços e políticas sociais, ao mesmo tempo em 
que o princípio da universalização é suplantado pelo da focalização 
(FAGNANI, 2005, p. 390).
Envolvidas por esse processo, as políticas sociais foram sendo cap-
turadas pelo mercado e oferecidas como serviços aos setores sociais 
que podem pagar. Este cometimento fez com que políticas sociais 
como saúde, educação e previdência fossem abarcadas por grandes 
grupos nacionais e internacionais vinculados ao mercado financeiro, 
transformando-se em um importante meio de acumulação do capital.
Em contraposição, este movimento fez com que as políticas sociais, 
implementadas pelo Estado, se quedassem focalizadas em setores vin-
culados à extrema pobreza, selecionadas por meio de critérios rígidos 
de elegibilidade, além de serem marcadas pelo subfinanciamento, bai-
xa qualidade e pela parceria público-privada, que introduziram mé-
173
LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE
◀ Voltar ao sumário
todos de gestão privados aos serviços públicos, além de transferir as 
atividades públicas de proteção social para famílias e a sociedade civil.
Este quadro social sofreu algumas mudanças com a chegada ao 
poder do Partido dos Trabalhadores, em 2003, e que, ainda que não 
expressasse a hegemonia de um projeto da classe trabalhadora e uma 
plena consciência de classe em prol de um projeto revolucionário, asse-
gurou importantes avanços e ganhos sociais, ampliando a participação 
social no espaço estatal e mexendo, assim, na histórica privatização do 
espaço público a serviço dos interesses do capital.
Contudo, esses avanços ocorreram nos limites das diretrizes da ma-
croeconomia neoliberal, já que os Governos petistas foram ausentes 
de rupturas com o capital financeiro e com o mercado das dívidas pú-
blicas, uma vez que mantiveram as políticas econômicas e dispositivos 
fiscais do seu antecessor – o Governo de Fernando Henrique Cardoso 
(FHC).
Portanto, no âmbito das disputas de classe sobre o fundo público, 
os Governos petistas foram mais abertos às necessidades sociais, visto 
que avançaram na implementação dos direitos sociais garantidos na 
Constituição de 1988, ampliando os investimentos em políticas sociais 
e, assim, fortaleceram o Sistema Único de Saúde, estruturaram e im-
plementaram a política de assistência social por meio do Sistema Úni-
co de Assistência Social; melhoraram o poder de compra do salário 
mínimo; e revigoraram as universidades públicas. Essas medidas não 
foram isentas de traços focalistas e de parceria público-privada, mes-
clando interesses sociais com os do mercado.
Estas mudanças demonstram que a ampliação da correlação de for-
ças sobre o Estado redefiniu o seu papel não apenas em favor do capi-
tal, embora a desproporção dos ganhos entre capital e trabalho tenha 
sido considerável. Por isso, tais medidas sociais, apesar de importantes 
para a classe trabalhadora, não estiveram isentas do viés dominador e 
classista do Estado frente às classes subalternas. Isto porque essas se 
configuraram como estratégias políticas, que buscavam promover uma 
conciliação de classes, o que reforçou um perfil passivo e colaborativo 
às lutas trabalhistas, produzindo refluxo dos movimentos sociais e sin-
dicais e na ausência de consciência de classe.
174
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Com o golpe parlamentar de 2016, justificado pela crise econômica 
de 2015, que se mostrou, até então, como uma das maiores recessões da 
história brasileira (ALVES, 2018), a disputa pelo fundo público e pelo 
espaço estatal se ampliou e, com isso, retomou com toda força o pro-
jeto neoliberal mais ortodoxo e a restauração do bloco de poder ofus-
cado pelos Governos petistas e seus pequenos avanços sociais. Esse 
reacionarismo promoveu, e continua promovendo, um verdadeiro ata-
que à classe trabalhadora, alavancando “[...] de modo veloz, reformas 
estruturais voltadas para aumentar a taxa de exploração da força de 
trabalho” (ALVES, 2018, p. 08).
Entre as medidas neoliberais mais agressivas cabe destacar a refor-
ma trabalhista sancionada em 2017, que altera a Consolidação das Leis 
Trabalhistas (CLT), com vista a adequá-la às novas condições de traba-
lho, ampliando a precarização e a flexibilização das relações de traba-
lho, contribuindo para a denominadauberização do trabalho. A refor-
ma trabalhista consagrou o desmonte da CLT, que já vinha sofrendo 
ataques desde a Ditadura Militar, acentuando o histórico quadro de 
precarização e flexibilização das relações de trabalho no Brasil, dimi-
nuindo os custos do trabalho e ampliando a acumulação do capital.
Além disso, foram criadas outras formas de favorecimento do ca-
pital financeiro na disputa pelo fundo público, estabelecendo, com a 
Emenda Constitucional nº 95/2016, um novo regime fiscal. Este institui 
um congelamento de recursos públicos, como medidas de ajuste fiscal, 
em prol do mercado das dívidas públicas, transferindo os seus custos 
para a grande massa social, que tem os seus direitos sociais contingen-
ciados pelo fundo público que é transferido para o grande capital.
Nesse cenário de crise e de acirramento da opressão da classe do-
minante sobre a classe dominada, o Estado tem reduzido a sua função 
mediadora e relacional por meio de políticas e funções sociais e adota-
do ações mais punitivas e repressivas como forma de manter o controle 
social.
Todos estes processos constituem, assim, a latente luta de classes, 
que não é uma novidade do Brasil e nem dessa conjuntura, mas inte-
gra a ofensiva impiedosa do capital sobre o trabalho e tem por base o 
enfraquecimento dos sindicatos na tarefa de mobilização e consciência 
175
LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE
◀ Voltar ao sumário
de classe, a fragmentação dos partidos de esquerda, os altos índices de 
conservadorismo social e o investimento da burguesia em construir 
um consenso ativo das classes subalternas em torno dos seus projetos.
Esse cenário se tornou muito mais complexo e nefasto com a crise 
sanitária desencadeada pela pandemia da COVID-19 que, no seio da 
crise estrutural do capital, se desenvolve em um contexto social re-
gressivo, expondo as mais bárbaras expressões da questão social, seja 
pela ausência de assistência digna à saúde, que tem gerado a morte de 
milhares de pessoas, seja pela falta de trabalho e de renda de milhares 
de brasileiros à margem do mercado formal de trabalho. Esta crise de 
saúde, que tem mobilizado respostas públicas do Estado, por grande 
parte de líderes mundiais, no Brasil, tem sido desqualificada e menos-
prezada pelo Governo Federal que, ao invés de promover medidas as-
sistenciais de fortalecimento do Sistema público de saúde, tem optado 
pela preterição às orientações científicas e medidas sanitárias.
Assim se vivencia, na atualidade, um processo acentuado de pri-
vatização do espaço público a favor da acumulação do capital e do 
fundamentalismo do mercado, o que faz com que o Estado reforce a 
sua dimensão penal e dominadora. E o resultado social de um sistema 
produtivo como este é o agravamento da desigualdade social e do ca-
pitalismo selvagem, um traço sempre presente na realidade da classe 
dominada no Brasil.
2 Assistência Social no Brasil recente: árduo 
caminho de construção e reestruturação 
constante
A Constituição Federal brasileira de 1988 proporciona à Assistência 
Social o status de política pública de Estado, destinada aos que dessa 
necessitar (arts. 203 e 204), com abrangência em todo o território na-
cional. Com a regulamentação da Lei Orgânica da Assistência Social 
(LOAS), em 1993, atualizada pela Lei nº 12.435, de 06 de julho de 2011, 
o Estado assume a responsabilidade com a proteção social sem contri-
buição prévia, bem como o compartilhamento da provisão dessa pro-
176
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
teção com os entes federados, baseado no Pacto Federativo Constitu-
cional, e a partir de uma rede socioassistencial que inovou nos campos 
da gestão, da execução e do planejamento, incorporando o controle 
social por meio dos conselhos gestores.
Desse modo, estabelece-se um novo marco jurídico e normativo 
com um acervo de portarias e resoluções ministeriais que põe fim à 
antiga forma de se fazer assistência social, pautadas em práticas assis-
tencialistas, superficiais e preconceituosas que não contemplavam os 
interesses das classes trabalhadoras, financeiramente fragilizadas.
Com a implementação da Política Nacional de Assistência Social 
(PNAS/2004) e com Sistema Único de Assistência Social (SUAS/2005) 
foram observadas mudanças subjetivas e objetivas de difíceis mensu-
rações na vida da população atendida, como avanços na diminuição 
do número de famílias em situação de extrema vulnerabilidade social.
Estruturado no primeiro Governo Lula, o Sistema Único de As-
sistência Social se mostrou como um importante avanço no campo 
da organização dos serviços e benefícios que compõem a política de 
Assistência Social. Incorporou a perspectiva da proteção voltada para 
minimizar e equalizar as diferenças regionais do país, com o fortale-
cimento do financiamento, da gestão, de controle social e monitora-
mento, com ênfase à gestão do trabalho e a relevância da educação 
permanente para os trabalhadores do SUAS.
Organizado em níveis de proteção básica e especial e com base na 
matricialidade sociofamiliar, na territorialização, no controle social, 
entre outros, o SUAS conta, atualmente, com uma rede socioassis-
tencial pública de mais de 10.000 mil centros de referência básicos e 
especializados, conforme Censo SUAS 2018, sendo: 8.360 Centros de 
Referência de Assistência Social (CRAS); 2.644 Centros de Referência 
Especializado em Assistência Social (CREAS); 226 Centros POP; 1.460 
Centros Dia; 8.468 Centros de Convivência e 5.797 Unidades de Aco-
lhimento. Além disso, mais de 18 mil entidades de Assistência Social 
integram essa rede.
O SUAS já ultrapassou o atendimento de mais de 1,9 milhões de 
famílias que são cotidianamente acompanhadas, assistidas e apoiadas 
pelas equipes de referências de proteção social dos serviços socioas-
177
LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE
◀ Voltar ao sumário
sistenciais. Com relação aos profissionais, que atuam nessa política, o 
Sistema conta com, aproximadamente, 600 mil trabalhadores (rede 
pública e rede privada), em todo o território nacional, proporcionando, 
ainda o fortalecimento dos espaços de controle social e de negociação 
dos trabalhadores, já que é orientado pelos princípios da gestão demo-
crática.
Contudo, a estruturação da política de Assistência Social não foi 
isenta de contradições, haja vista que os Governos de Luís Inácio Lula 
da Silva (2003/2006 – 2007/2011) e o da Dilma Rousseff (2011/2014 
-2014/2016) primaram pelas estratégias de valorização do capital, prio-
rizando um conjunto de medidas que favoreciam e protegiam os gru-
pos financeiros, em detrimento dos interesses da classe trabalhado-
ra. A opção pela política macroeconômica neoliberal impediu que a 
proposta original da Assistência Social articulada à Seguridade Social 
fosse viabilizada no Brasil. Isto porque a implementação desta política 
ocorreu articulada à criação de critérios rígidos de acessibilidade, e 
focalizado na extrema pobreza e com ênfase em medidas de transfe-
rência de renda.
O processo de precarização da Política de Assistência Social se tor-
nou mais agressivo a partir de 2016, com o impeachment da presidente 
Dilma Rousseff, que se revelou um golpe midiático, parlamentar e jurí-
dico. O novo contexto socioeconômico e político do Governo Michel 
Temer priorizou medidas de superávit primário, como forma de man-
ter recursos para o pagamento da dívida pública e, como consequên-
cia, a necessária destruição dos direitos sociais, através da redução do 
financiamento público e a diminuição do papel da gestão dos entes 
federados.
Houve o acirramento dos critérios de concessão e revisão do Pro-
grama Bolsa Família (PBF) e do Benefício de Prestação Continuada 
(BPC), dificultando o acesso de milhões de pessoas a estes benefícios 
sociais. Aliado a isso, vigorou desprezo pelos princípios da gestão de-
mocrática com a desconsideração de esferas de deliberação e de pac-
tuação como as Comissões Intergestores Bipartitee Tripartites (CIB e 
CIT), que são instâncias de composição paritária que objetiva a articu-
lação e a pactuação nas esferas estaduais e federal.
178
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
O Governo Temer também ousou em criar programas paralelos ao 
SUAS, como o Programa Criança Feliz, que fez ressurgir o primeiro-
-damismo1 no campo da assistência social, com a esposa do presiden-
te assumindo a condução deste programa. Desse modo, desloca-se a 
PNAS para o campo do assistencialismo, do clientelismo e, portanto, 
da negação do direito social.
No entanto, um dos principais marcos do desmonte da PNAS foi a 
aprovação da Emenda Constitucional 95, conhecida como “Teto dos 
Gastos” instituindo o novo regime fiscal da Seguridade Social, con-
gelando os gastos sociais públicos com políticas sociais por 20 (vinte) 
anos. Além disso, esta emenda alterou a relação do Governo Federal 
com o conjunto de Estados e municípios brasileiros, promovendo a 
fragmentação do pacto federativo, sobrepondo-se aos governadores, 
prefeitos, órgãos de controle social, trabalhadores e aos sindicatos.
No Governo Bolsonaro, a Política de Assistência Social ficou alo-
cada no Ministério da Cidadania. Em 2019, este ministério publicou 
a Portaria nº 2362, de 20 de dezembro, estabelecendo procedimentos 
a serem adotados no âmbito do SUAS, decorrente do monitoramento 
da execução financeira e orçamentária realizado pelo Fundo Nacional 
de Assistência Social (FNAS) para promover a equalização do cofinan-
ciamento federal do SUAS à Lei de Diretrizes Orçamentárias e à Lei 
Orçamentária Anual.
O Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social 
(CONGEMAS) publicou uma nota chamando atenção da sociedade 
para as consequências da referida Portaria, alegando que os critérios 
sobre a adequação dos repasses dos recursos e da redução dos repasses 
por meio de “equalização” resultarão no fechamento de equipamentos 
públicos, como os CRAS e CREAS, principalmente, nos municípios de 
porte 1, que dependem do cofinanciamento federal para a manutenção 
dos serviços públicos à população.
Com a pandemia da COVID-19, as mazelas sociais do modelo eco-
nômico ultraconservador se acentuaram, exigindo medidas de pro-
1 O resgate da figura de primeira-dama retoma elementos históricos que reafirmam proces-
sos conservadores que atingem toda classe trabalhadora com a negação do direito social, a 
desprofissionalização das políticas sociais e a condição subalterna da mulher. 
179
LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE
◀ Voltar ao sumário
teção social em função do aumento da pobreza, do desemprego, do 
trabalho precário e das perdas de direito da população. Diante deste 
contexto, o Governo Federal, pressionado pela sociedade civil organi-
zada e pela própria pandemia, deflagrou relevância e a necessidade de 
se garantir recursos para a PAS. Em razão disso, editou as portarias nº 
369, de 29 de abril de 2020 e a Portaria nº 378, de 7 de maio de 2020, 
aportando recursos para o enfrentamento da pandemia que vão desde 
a compra de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), compra de 
Alimentos e o valor de 2.550.000 bilhões para a estruturação e manu-
tenção dos serviços e equipamentos do SUAS.
Ademais, uma das principais medidas que o Governo Federal ado-
tou, como medida protetiva para camada popular, em vulnerabilidade 
social, foi o auxílio emergencial2, por meio do Decreto nº 10.316, de 07 
de abril de 2020. Entretanto, as medidas adotadas pelo Governo, mes-
mo com aporte financeiro, ocorreram de forma descompassada com o 
SUAS. O decreto reconhece que compete ao Ministério da Cidadania 
gerir o auxílio emergencial e ressalta a importância de compartilhar 
a base de dados de famílias beneficiadas do Programa Bolsa Família, 
assim como a base de dados do Cadastro Único, mas, em momento 
algum, faz menção ao uso dos equipamentos do SUAS para viabilizar a 
execução do auxílio em pauta.
O auxílio emergencial, além de ofertar um valor abaixo do salário-
-mínimo e, portanto, ineficiente frente às necessidades concretas da 
população que desse depende, apresentou diversas falhas em sua im-
plementação. O processo de cadastro e o pagamento do auxílio têm 
mostrado, mais uma vez, as dificuldades de gerenciamento da pande-
mia pelo Governo Federal, que tem trabalhado com número subnotifi-
cado de pessoas que teriam acesso ao auxílio.
2 O auxílio emergencial foi criado em abril de 2020, por um esforço da bancada de oposição 
da Câmara dos Deputados, inicialmente, a proposta do Governo Federal era pagar um 
valor de R$ 200,00 com a pressão dos Deputados Federais, o auxílio emergencial foi ins-
tituído no valor R$ 600,00 para ajudar trabalhadores sem carteira assinada, autônomos, 
microempreendedores individuais (MEIs) e desempregados durante a crise gerada pela 
pandemia do Coronavírus. 
180
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
A Caixa Econômica Federal foi indicada para gerenciar o cadastra-
mento e pagamento das pessoas, desenvolvendo um aplicativo para 
cadastramento, contudo, o número de pessoas solicitando o auxílio 
emergencial foi muito maior. Como resultado, o banco enfrentou mui-
tas dificuldades de viabilização dos pagamentos, o que gerou aglome-
rações de pessoas, contrariando as regras de isolamento defendidas 
para o controle da pandemia.
Além disso, os gestores desse benefício mostraram desconhecimen-
to da realidade social brasileira, uma vez que as estratégias, desenvolvi-
das pelo Governo Federal, particularmente, a opção por meios digitais 
como o aplicativo, ignoraram as dificuldades e as desigualdades sociais 
que cercam a população beneficiária do auxilio, pois a maioria não têm 
acesso à internet, não tem celular, computador, e até mesmo documen-
tos obrigatórios, como o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), obrigando 
a aglomeração de milhares de pessoas em frente às unidades da Receita 
Federal para tirar o documento.
A opção pelo não uso da infraestrutura e da rede de serviços so-
cioassistenciais, municipais e estaduais do SUAS, na viabilização do 
auxílio implicou no agravamento das condições sociais da população 
beneficiária, haja vista a demora no tempo de análise dos pedidos. 
Considerando a emergência e urgência dos recursos, trabalhadores 
desempregados continuam sem receber o auxílio. E, para aqueles que 
foram aprovados na análise, o recebimento do auxílio acarretou o au-
mento do risco de contágio pela COVID-19, ocasionado pelas filas gi-
gantescas na porta das agências da Caixa em todo o país.
A escolha pelo pagamento do auxílio emergencial evidencia, mais 
uma vez, a centralidade das políticas de transferência de renda no en-
frentamento das desigualdades sociais brasileiras, ao invés do fortale-
cimento de uma rede de proteção social articulada com outras políti-
cas, como de saúde, visto que a opção pelo auxílio ocorreu atrelada à 
negação das evidências científicas sobre a epidemia e a falta de estru-
turação de serviços de assistência à saúde, por meio do Sistema Único 
de Saúde (SUS).
O auxílio emergencial, como principal política pública do Governo 
Federal frente aos efeitos econômicos da pandemia da COVID-19 ex-
181
LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE
◀ Voltar ao sumário
pressa o descaso do atual Governo com as políticas sociais, pois apesar 
de sua importância diante do caos social presente no país, mostra-se 
como uma medida política imprevisível, com fortes indícios e ameaças 
de redução do valor e até mesmo a extinção pela equipe econômica do 
Governo, em pleno pico de pandemia. Esses elementos evidenciam o 
lado mais perverso do ideário neoliberal.
Considerações Finais
O tempo histórico atual é marcado por forte ofensiva do capital so-
bre os parcos avanços sociais conquistados no Brasil com Constituição 
Federal de 1988 que, assentados em princípios democráticos e de cida-
dania, ampliou a dimensão relacional do Estado, permitindo ganhossociais historicamente negados às classes subalternas brasileiras.
No rol desses ataques se encontra a fragilização da capacidade de 
proteção social por meio da política de Assistência Social. O desmonte 
desta política tem por base a redução do seu financiamento que, con-
sequentemente, implica na desestruturação dos serviços, programas e 
projetos do SUAS; a diminuição das políticas de transferência de ren-
da, via o Programa Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada, 
com o endurecimento dos critérios de acesso a esses benefícios; e o re-
torno às iniciativas de filantropia e solidariedade via Programas como 
Criança Feliz, Brasil Pátria Voluntária, entre outros.
Atrelado a este desmonte se vivencia um contexto social marcado 
pelo aprofundamento da desigualdade social, processo acentuado com 
a crise sanitária desencadeada pela COVID-19 que deflagrou as mais 
bárbaras expressões da questão social, seja pela ausência de assistência 
à saúde, seja pela falta de trabalho e de renda para milhares de brasilei-
ros. Esta conjuntura, ao invés de receber resposta estatal, socialmente 
responsável com a proteção social, tem sido enfrentada com desprezo 
pelas iniciativas científicas e a defesa da economia e dos lucros acima 
das vidas humanas.
As parcas medidas sociais ofertadas pelo Estado, por meio da pres-
são social, como o auxílio emergencial, ocorreram, em parte, desatre-
ladas da política de Assistência Social, já que a oferta deste benefício 
182
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
social foi desarticulada das estruturas e serviços do SUAS, e de todo o 
seu avanço no levantamento e seleção da população beneficiária dessa 
política.
Verifica-se, portanto, que, agressivamente, a política de Assistência 
Social brasileira vem sendo desconstruída, cedendo lugar a ações filan-
trópicas, clientelistas, focalizadas e pontuais. Tal processo não expressa 
somente a perda de uma política social, mas demonstra o enfraqueci-
mento e desconstrução de um perfil de Estado responsável por políti-
cas e direitos sociais.
Referências
ALVES, G. O golpe de 2016 no contexto de crise do capitalismo neoliberal. 
Blog da Boitempo. São Paulo, 8 de junho de 2016. Disponível em: https:// 
blogdaboitempo.com.br/2016/06/08o-golpe-de-2016-no-contexto-da-crise-
-do-capitalismo-neoliberal. Acesso em 29/04/2020.
__________. Desmedida do valor, Estado de “mal-estar” social e crise do 
capitalismo global: reflexões críticas sobre o fardo do tempo histórico. 2018. 
Coluna - Blog da Boitempo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.
br/2018/02/01/d. Acesso em: 27 set. 2018, 20:54:30.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 1988.
__________. Lei nº 12.435, de 6 de julho de 2011. Lei do Suas. Altera a Lei nº 
8.742, de 7 de dezembro de 1993, que dispõe sobre a organização da Assistên-
cia Social. Diário Oficial da União, 2011ª.
__________. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Se-
cretaria Nacional de Assistência Social. Política Nacional de Assistência So-
cial – PNAS/2004. Brasília, 2005.
__________. Emenda Constitucional nº 95. PEC 55. Diário Oficial da União. 
ISSN 1677-7042. Sessão 1. Nº 241, sexta-feira, 16 de dezembro de 2016. Dis-
ponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?jor-
nal=1&pagina=2&data=16/12/2016. Acesso em 12/05/2020.
__________. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Lei Orgânica da Assis-
tência Social (LOAS). Dispõe sobre a organização da assistência social e dá 
outras providências. Diário Oficial da União, 1993.
183
LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE
◀ Voltar ao sumário
__________. Decreto nº 10.282/2020. Regulamenta a Lei nº 13.979, de 6 de 
fevereiro de 2020, para definir os serviços públicos e as atividades essenciais.
__________. Ministério da Cidadania. Portaria 2362 de 20 de dezembro de 
2019. Dispõe sobre o acompanhamento do cofinanciamento do Sistema Úni-
co da Assistência Social- SUAS.
__________. Ministério da Cidadania. Portaria nº 369, de 29 de abril de 2020. 
Dispõe sobre recursos federais para equipamentos de proteção individual 
(EPIs), alimentos e serviços socioassistenciais.
__________. Ministério da Cidadania. Portaria nº 378 de 7 de maio de 2020. 
Dispõe sobre repasse de recurso extraordinário de financiamento federal do 
SUAS para incremento temporário na execução de ações socioassistenciais 
nos Estados, Distrito Federal e municípios devido à situação de Emergência 
em Saúde Pública de Importância Internacional decorrente do Coronavírus 
(COVID-19).
__________. Decreto nº 10.316, de 7 de abril de 2020. Regulamenta a Lei Nº 
13.982 de 2 de abril de 2020, que estabelece medidas excepcionais de proteção 
social a serem adotadas durante o período de enfrentamento da emergência 
de saúde pública.
FAGNANI, E. Política Social no Brasil (1964-2002): Entre a Cidadania e a 
Caridade. Tese (doutorado). Campinas. 2005.
FERNANDES, F. Capitalismo Dependente e as Classes Sociais na América 
Latina. 2ª Edição. Rio de janeiro: Zahar, 1975.
GOUGH, I. Economia política del Estado del bienestar. Trad. De Gregório 
Rodriguez. Madri: H. Blume Ediciones, 1982.
GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere, vol. 3, edição e tradução, Carlos Nelson 
Coutinho; coedição, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. – 8ª 
ed. – Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2017.
MARX, K. Glosas Críticas Marginais ao Artigo “O Rei da Prússia e a Refor-
ma Social”. De um Prussiano. 1844. Tradução de Ivo Tonet. Disponível em: 
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma000012.pdf. Acesso 
em: 27 set. 2018.
POULANTZAS, N. O Estado, o poder, o socialismo. Edições Graal. RJ. 1980.
184◀ Voltar ao sumário
CAPÍTULO 9
A extensão universitária no Brasil 
e os impasses da Meta 12 do PNE 
e da RES . CNE/CES nº 7/2018
Jaime Giolo
Introdução
A extensão universitária, no Brasil, é um conceito que traduz uma 
realidade múltipla e imprecisa, embora tenha granjeado legitimidade e 
impacto institucional progressivos. Sua história foi construída à som-
bra do ensino e da pesquisa, ganhando maioridade na Constituição Ci-
dadã de 1988, que, no artigo 207, estabelece: “As universidades gozam 
de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira 
e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre 
ensino, pesquisa e extensão”. Pesquisas específicas poderão demonstrar 
o quanto a legislação educacional brasileira e a prática institucional 
conseguiram nivelar o tripé universitário no mesmo patamar de im-
portância. O bordão de que a extensão é a prima pobre das funções 
estritamente acadêmicas, que serviu como ferramenta de disputas (e 
de conquistas), ainda soa forte em determinados setores da academia.
A tese defendida aqui é de que esse bordão está, já, bastante de-
safinado e ultrapassado, seja do ponto de vista da legislação, seja do 
ponto de vista do volume de trabalho institucional. Todas as barrei-
ras substanciais, que atravessaram o caminho da extensão foram su-
peradas, faltando-lhe somente, talvez, acertar o ritmo do seu andar e 
definir melhor (será isto possível?) o escopo de sua ação. O presente 
texto apresentará, em termos esquemáticos, a trajetória da extensão no 
185
JAIME GIOLO 
◀ Voltar ao sumário
ordenamento legal da nação e a performance da prática institucional. 
Aparecerão, também, alguns dados que mostram o volume de sua pre-
sença prática. Finalmente, se fará uma apreciação crítica da Estratégia 
12.7, da Meta 12, do Plano Nacional de Educação (PNE), e de sua regu-
lamentação, feita pela Resolução CNE/CES nº 7, de 18 de dezembro de 
2018, do Conselho Nacional de Educação (CNE).
1 A presença da extensão no aparato legal 
brasileiro
A primeira regulamentação geral da Educação Superior brasileira 
veio a lume em 1931, por meio do Decreto nº 19.851, de 11 de abril de 
1931, conhecido como Estatuto das Universidades Brasileiras. Nesse 
decreto não se utiliza,da Uni-
versidade Federal de Santa Catarina. Membro pesquisador do Núcleo de Es-
tudos e Pesquisas: Trabalho, Questão Social e América Latina, vinculado ao 
PPGSS/UFSC. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/5960974102571301.
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2798-6418. 
Janaína Carvalho 
Barros
Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso 
(UFMT). Mestre em Política Social pela Universidade de Brasília (UnB). Dou-
tora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 
Professora Associada do Departamento de Serviço Social e do Programa 
de Pós-Graduação em Política Social da UFMT. Endereço Lattes: http://
lattes.cnpq.br/5452610376459339. E-mail: jan-cars@hotmail.com. Orcid: 
https://orcid.org/0000-0002-4075-4080. 
Lélica Elis Pereira 
de Lacerda
Graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina. Mes-
tre e Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catari-
na (UFSC). Professora do Departamento de Serviço Social e do Programa de 
Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal de Mato Grosso. 
Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/4039266815703189. E-mail: leli-
caelis@yahoo.com.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6156-7823. 
20
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
Liliam dos Reis 
Souza Santos
Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Pará (UFPA). 
Mestre em Serviço Social pelo Programa de Pós-graduação em Serviço So-
cial da UFPA. Doutora em Política Social pelo Programa de Pós-Graduação 
em Política Social da Universidade de Brasília (UnB). Professora Adjunta do 
Departamento de Serviço Social da UnB. Vice-líder do Grupo de Estudos 
Político-sociais (POLITIZA), do Programa de Pós-Graduação em Política So-
cial da UnB e do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política Social (NEPPOS/
CEAM/UnB). Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/5572601411996066. 
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6410-6371.
Liliane Capilé 
Charbel Novais
Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso 
(UFMT). Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraí-
ba (UFPB). Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio 
de Janeiro (UFRJ). Pós-Doutora em História pela UFMT. Professora As-
sociada do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Gra-
duação em Política Social da UFMT. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.
br/2662755913656148. E-mail: lcharbel@terra.com.br. Orcid: https://
orcid.org/0000-0002-9989-2349. 
Mabel Mascare-
nhas Torres
Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro 
(UFRJ). Mestre e Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade 
Católica de São Paulo (PUC-SP). Professora Associada do Departamento 
de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Vice-Coor-
denadora da Rede de Estudos sobre o Trabalho do Assistente Social (RE-
TAS). Coordenadora do Grupo de Serviço Social: fundamentos e trabalho do 
assistente social nas políticas públicas e sociais (GEFTAS), certificado pela 
CAPES. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/6311274886128201. E-mail: 
mabeltorres2009@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2644-
8255. 
Márcia Cristina Ver-
dego Gonçalves
Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso 
(UFMT) e em Psicologia pela Faculdade de Cuiabá (FAUC). Mestre em Políti-
ca Social pela Universidade Federal de Mato Grosso. Técnico Educacional da 
Superintendência de Políticas da Educação Básica da Secretaria de Estado 
de Educação (SEDUC), do Estado de Mato Grosso. Endereço Lattes: http://
lattes.cnpq.br/1362039798482259. E-mail: marciaverdego@hotmail.com. 
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2357-8118. 
Maria Carmelita 
Yazbek
Mestre e Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica 
de São Paulo (PUC-SP). Pós-Doutora em Ciências Políticas pelo Instituto 
de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Professora do 
Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da PUC-SP e Pesquisadora 
do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) 
A1. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/3793698817577507. E-mail: 
mcyaz@uol.com.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4785-472X.
21
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
Miriam de Souza 
Leão Albuquerque
Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco 
(UFPE). Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNI-
CAMP). Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambu-
co. Professora Adjunta do Departamento de Serviço Social da Universidade 
de Brasília (UnB). Membro do Grupo de Pesquisa, Trabalho, Educação e 
Discriminação (TEDIs) do Programa de Pós-Graduação em Política Social 
da UnB e Tutora do Programa de Educação Tutorial do MEC-PET. Endere-
ço Lattes: http://lattes.cnpq.br/0453320920363053. Orcid: https://orcid.
org/0000-0001-5925-7300. 
Patrícia Cristina 
Bachega
Graduada em Direito pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNE-
MAT). Especialista em Ciências Penais pela UNIDERP, em Direito Civil e Pro-
cesso Civil pela Escola dos Servidores do Tribunal de Justiça do Estado de 
Mato e em Direito Civil Contemporâneo pela Universidade Federal de Mato 
Grosso (UFMT). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Política So-
cial da Universidade Federal de Mato Grosso. Analista Judiciária do Tribunal 
de Justiça do Estado de Mato Grosso. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.
br/0802899350741011. E-mail: pbachega@gmail.com. 
Renato Tadeu 
Veroneze
Graduado em Serviço Social pelo Centro Universitário da Fundação Educa-
cional Guaxupé (UNIFEG). Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Serviço Social 
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro do 
Comitê Científico de Serviço Social do Centro de Investigação de Estudos 
Transdisciplinares (CET) Latino-Americano da Bolívia e Membro do Núcleo 
de Estudos e Pesquisa sobre Identidade (NEPI) da PUC-SP. Endereço Lattes: 
http://lattes.cnpq.br/7199738796552398. E-mail: rtveroneze@hotmail.
com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9404-448X.
Ricardo Lara Graduado em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de 
Mesquita Filho (UNESP). Mestre e Doutor em Serviço Social pela Universi-
dade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Pesquisador Bolsa Produti-
vidade CNPq. Editor Chefe da Revista Katálysis. Coordenador de Pesquisa 
do Centro Socioeconômico (CSE/UFSC). Membro do Conselho Editorial do 
Projeto Editorial Práxis. Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas: 
trabalho, “questão social” e América Latina (Brasil/NEPTQSAL). Pesquisa-
dor do Grupo de Estudos: capital, trabalho e educação (Brasil/GECATE); do 
Grupo de Investigação: História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais 
(Portugal/IHC/UNL) e do Observatório para as Condições de Trabalho e 
Vida (Portugal/OCTV). Professor Associado do Departamento de Serviço 
Social e do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universida-
de Federal de Santa Catarina (UFSC). Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.
br/4258606293149889.Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1631-8227. 
22
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
Ruteléia Cândida 
de Souza Silva
Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Espírito Santo. 
Mestre e Doutora em Política Social pela Universidade Federal do Espírito 
Santo. Professora Adjunta do Departamento de Serviço Social e no Progra-
ma de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal de Mato 
Grosso (UFMT). Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/4393932625470768. 
E-mail: rute.as@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1833-
9040. 
Suzana Przybysze-
wski Barros
Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso 
(UFMT). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Política Social 
da Universidade Federal de Mato Grosso. Assistente Social da Prefeitu-
ra Municipal de Tangará da Serra. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.
br/2914518903076216. E-mail: suzypki@gmail.com. Orcid: https://orcid.em nenhum momento, o termo indissociabi-
lidade, mas se fala de ensino, de pesquisa e, também, de extensão. A 
pesquisa, além de ocupar mais espaço (o termo pesquisa aparece 12 
vezes no texto, enquanto o termo extensão figura 7 vezes), obtém, ali, 
maior prestígio e privilégios. A pesquisa é definida como busca de co-
nhecimentos originais, aproveitando “aptidões e inclinações, não só 
do corpo docente e discente, como de quaisquer outros pesquisadores 
estranhos à própria Universidade” (art. 46). No decreto, a pesquisa é 
critério para a seleção de professores (art. 53, II); junto com o ensino, 
é uma das atribuições do professor catedrático (art. 61), que, também, 
poderá obter da Congregação do Instituto licença para, pelo período 
de um ano, dedicar-se, exclusivamente, a essa (art. 62); e é facultada 
também aos professores livres, aos professores auxiliares e aos profes-
sores contratados (art. 68 e art. 71). Além disso, o professor catedrático 
terá tempo semanal para atendimento de alunos e orientação de suas 
pesquisas (art. 63)1. A extensão, por seu turno, nesse Estatuto, se res-
tringe a “cursos e conferências” (art. 23, XVII) e “demonstrações práti-
1 No que diz respeito aos professores livres - os substitutos naturais dos professores catedrá-
ticos - previu-se um controle de desempenho, realizado de cinco em cinco anos, no qual 
se averiguasse, entre outros elementos, as publicações derivadas de pesquisa. Em função 
dessa verificação, o professor, cujo desempenho fosse considerado insatisfatório, seria ex-
cluído do quadro docente (art. 77). 
186
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
cas” (art. 109), oferecidos com o propósito de “prolongar, em benefício 
coletivo, a atividade técnica e científica dos institutos universitários” 
(art. 35), difundindo “conhecimentos filosóficos, artísticos, literários e 
científicos” (art. 109). Essas atividades terão “caráter educacional ou 
utilitário” (art. 42).
No ano seguinte ao da publicação do Estatuto das Universidades 
Brasileiras foi lançado o famoso Manifesto dos Pioneiros da Educação 
Nova de 1932, sob o título A Reconstrução Educacional no Brasil. Nes-
se documento, os signatários explicitam a tríplice função da Educação 
Superior, nos seguintes termos: “A educação superior ou universitária, 
a partir dos 18 anos, inteiramente gratuita como as demais, deve tender, 
de fato, não somente à formação profissional e técnica, no seu máximo 
desenvolvimento, como à formação de pesquisadores, em todos os ra-
mos de conhecimentos humanos. Ela deve ser organizada de maneira 
que possa desempenhar a tríplice função que lhe cabe de elaborado-
ra ou criadora de ciência (investigação), docente ou transmissora de 
conhecimentos (ciência feita) e de vulgarizadora ou popularizadora, 
pelas instituições de extensão universitária, das ciências e das artes”.
Em que pesem as pequenas diferenças redacionais, o conceito de 
extensão nos dois documentos é idêntico e bastante preciso: trata-se 
de atividades (o Decreto as especifica: cursos, conferências e demons-
trações práticas) que a Instituição de Educação Superior (IES) realiza 
para educar um público mais vasto do que seu corpo discente regular, 
difundindo para a sociedade externa o conhecimento e a tecnologia 
típicos da comunidade acadêmica. Extensão é, pois, o ato de estender, 
ampliar, espraiar a ação formadora das IES. O Manifesto fala de vulga-
rização ou popularização do conhecimento produzido e ensinado no 
seio da Universidade. Os dois documentos entendem que, na essência, 
esse movimento deveria realizar, mutatis mutandis, fora dos muros da 
academia, a mesma tarefa ensinadora desempenhada em relação a seu 
público interno (atividade semelhante para destinatários diferentes).
O Estatuto, entretanto, não é claro em um aspecto: o caráter utili-
tário da extensão. Esse fala do caráter educacional da extensão e sobre 
isso não pairam dúvidas, mas quanto ao caráter utilitário é impossível 
intuir o sentido exato do termo. Talvez, o Estatuto estivesse se referin-
187
JAIME GIOLO 
◀ Voltar ao sumário
do à difusão de artefatos técnicos ou serviços sem nenhuma finalidade 
educativa inerente, mas não é possível ter certeza quanto a isso. É certo, 
porém, que, mais tarde, a extensão incorporará, com entusiasmo, esse 
sentido não educacional.
O Manifesto, por sua vez, é mais enfático do que o Estatuto no apon-
tar a tripla função da Educação Superior: ensino, pesquisa e extensão. 
Não se fala, ainda, de indissociabilidade, mas parece estar ali o nasce-
douro dessa tese que demorará várias décadas para se consolidar, pois 
se tratava de um manifesto, assinado por 26 educadores e intelectuais, 
e não de um dispositivo legal ou de um programa de Governo.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1961 (Lei nº 4.024, 
de 20 de dezembro de 1961) não sentiu necessidade de regulamentar 
a extensão e nem de reformular lhe o conceito, embora lhe restrinja 
o espectro das atividades, se comparada aos documentos precedentes. 
Refere-se apenas aos cursos de extensão. O único dispositivo que trata 
do tema diz: “Nos estabelecimentos de Ensino Superior podem ser mi-
nistrados os seguintes cursos: [...] c) de especialização, aperfeiçoamen-
to e extensão, ou quaisquer outros, a juízo do respectivo instituto de 
ensino abertos a candidatos com o preparo e os requisitos que vierem 
a ser exigidos” (art. 69).
Em outras partes da lei, fala-se também de “conferências” e “semi-
nários”, mas sem qualificá-los como atividades de extensão. Em relação 
aos cursos de extensão, importa sublinhar dois aspectos: 1º) A LDB 
delega às IES a responsabilidade de delimitar os cursos de extensão e 
definir, inclusive, o perfil dos destinatários; 2º) a extensão é uma ati-
vidade opcional dos estabelecimentos de Ensino Superior, não sendo 
contada entre os seus objetivos institucionais. É diferente, por exemplo, 
o que ocorre com a pesquisa. Esta, ao lado do desenvolvimento das 
Ciências, Letras e Artes, e da formação de profissionais de nível uni-
versitário, integra explicitamente os objetivos do Ensino Superior (art. 
66). A ideia do tripé defendida pelo Manifesto de 1932 não se conso-
lidou ainda. Por ora, a Educação Superior segue com apenas dois pés: 
ensino e pesquisa.
Tendo em vista o debate sobre a responsabilidade social da univer-
sidade e o volume das atividades de extensão que algumas instituições 
188
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
já haviam alcançado ao final dos anos de 1950, é, de certa forma, in-
compreensível o quase silêncio da LDB sobre o tema da extensão. O 
movimento em prol da reforma da Educação Superior, iniciado em 
seguida, talvez tivesse conduzido a questão para melhores paragens, 
mas o Golpe Militar deu um destino sui generis à Educação brasilei-
ra. Sendo assim, a Reforma Universitária dos militares, iniciada pelo 
Decreto-Lei nº 53, de 18 de novembro de 1966, complementada pelo 
Decreto-Lei nº 252, de 28 de fevereiro de 19672, e finalizada pela Lei nº 
5.540, de 28 de novembro de 1968, pouco alterou o tema da extensão se 
comparada às disposições anteriores.
O Decreto-Lei nº 252, com efeito, trata da extensão nos seguintes 
termos: “A Universidade, em sua missão educativa, deverá estender à 
comunidade, sob a forma de cursos e serviços, as atividades de ensino 
e pesquisa que lhe são inerentes. Parágrafo único. Os cursos e servi-
ços de extensão universitária podem ter coordenação própria [...]” (art. 
10). A extensão adquire, aqui, um horizonte um pouco mais amplo do 
que aquele que lhe foi traçado pela LDB de 1961: passa a integrar cursos 
e serviços. Trata-se de ações de caráter educativo e entendidas como 
canais destinados a levar para fora das instituições (“estender à comu-
nidade”) aquilo que é específico dessas: o ensino e a pesquisa. Nada de 
novo até aqui em relação ao caráter da extensão, pois essa forma de 
concebê-la já estava dada desde o Estatuto de 1931. O que há de novo 
no Decreto nº 252,org/0000-0002-9267-199X. 
Tânia Mara da Silva 
Backschat
Graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). 
Mestre e Doutoranda em Serviço Social e Política Social pela Universidade 
Estadual de Londrina. Assistente Social da Prefeitura Municipal de Campo 
Mourão. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/3779677286168584. 
PARTE I
CAPITALISMO 
E ESTADO EM 
TEMPOS DE CRISE 
DO CAPITAL
24◀ Voltar ao sumário
CAPÍTULO 1 
Crise do capital, restauração 
conservadora, ultraneoliberal e 
desfinanciamento dos Direitos 
Sociais: a Assistência Social em 
questão1
Maria Carmelita Yazbek
Introdução
As reflexões que se seguem têm como suporte uma grande pesquisa 
realizada sobre a Política de Assistência Social na particularidade da 
situação brasileira, no contexto de crise do capital, enfatizando a rela-
ção entre as mudanças em andamento na ordem capitalista, a questão 
social e as políticas sociais contemporâneas. O estudo, financiado pelo 
CNPq e realizado entre os anos de 2014 e 2018 envolveu cinco uni-
versidades brasileiras (Federais do Pará, Maranhão, Ceará, PUCRS e 
PUCSP) e se centrou no processo de implementação do Sistema Único 
de Assistência Social (SUAS), em nível nacional, considerando a arti-
culação entre os três níveis de Governo e destes com a sociedade.
A pesquisa de campo se apoiou em uma amostra intencional de Es-
tados e municípios brasileiros representativos de cada Região do país, 
sendo um Estado da Região Norte (Pará); o Distrito Federal, represen-
tando a Região Centro-Oeste; dois Estados da Região Nordeste (Ma-
1 Texto elaborado a partir de pronunciamento realizado 16º Congresso Brasileiro de Assis-
tentes Sociais (2019).
25
MARIA CARMELITA YAzBEK 
◀ Voltar ao sumário
ranhão e Ceará); dois Estados da Região Sudeste (São Paulo e Minas 
Gerais); e dois Estados da Região Sul (Rio Grande do Sul e Paraná), 
totalizando sete Estados e o Distrito Federal. Em cada um desses Es-
tados foram selecionados seis municípios, de diversos portes e carac-
terísticas, com a participação de gestores e técnicos locais, totalizando 
quarenta municípios nos quais o estudo foi desenvolvido em profun-
didade1 em cinquenta e sete Centros de Referência de Assistência So-
cial (CRAS), oito Centros de Referência Especializado de Assistência 
Social (CREAS) e oito Centros Pop.
De modo geral, a pesquisa revelou, no processo de implementação 
do SUAS, um cenário de graves contradições, caracterizado por pro-
funda crise política, econômica, social e civilizatória, “agravada pelo 
golpe parlamentar de 2016, que levou à radicalização da agenda neoli-
beral e ao ataque sem precedentes à Seguridade Social brasileira” (RAI-
CHELIS, 2019, p. 453-454). Em uma conjuntura de contrarreformas se 
impõe para essa política, em processo de consolidação, o retrocesso, a 
redução de direitos, o desmanche e rupturas em suas bases organiza-
tivas.
Como base estruturante dessa conjuntura se têm os processos de 
globalização neoliberal, o avanço do capital financeiro e uma regressão 
conservadora, que se expressa no crescimento contínuo do irraciona-
lismo, caracterizado por um crescente obscurantismo, pela naturaliza-
ção da desigualdade, pelo acirramento dos preconceitos, do racismo, 
da homofobia, do feminicídio e da criminalização dos pobres e pretos 
e dos movimentos sociais.
1 Para realização da pesquisa de campo foram aplicados os seguintes procedimentos: Obser-
vação Sistemática dos CRAS, CREAS e Centros POP in loco; entrevistas semiestruturadas 
com gestores estaduais, municipais e conselheiros, e Grupo Focal com técnicos, usuários e 
conselheiros. Os resultados desta pesquisa estão publicados no livro: O Sistema Único de 
Assistência Social no Brasil, disputas e resistências em movimento. Organizado por Raquel 
Raichelis, Maria Ozanira da Silva e Silva, Berenice Rojas Couto e Maria Carmelita Yazbek. 
São Paulo, Cortez, 2019.
26
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
1 Crise do Capital, restauração conservadora 
e ultraneoliberal
Como se sabe, a desigualdade e a concentração de renda que se in-
tensificam, nas atuais formas de acumulação capitalista, resultam de 
mudanças no âmbito da reestruturação produtiva, associadas à nova 
hegemonia liberal-financeira e trazem como consequência a radicali-
zação da questão social. Efetivamente, em especial, nas últimas décadas, 
o capital financeiro assumiu o comando no processo de acumulação de 
“forma que o campo de sua acumulação não mais apresenta fronteiras 
de qualquer ordem” (MARQUES, 2018, p.110). Sem dúvida, a centrali-
dade do capital financeiro e seu domínio sobre o capital produtivo traz 
consequências graves para a “classe que vive do trabalho” com a ma-
nutenção de taxas elevadas de desemprego, insegurança e instabilidade 
nos empregos, crescimento do trabalho informal e precário, redução 
de salários, precarização das relações de trabalho, incluindo terceiriza-
ções e contratos por prazos determinados, entre outros aspectos.
Essas profundas transformações, em andamento no capitalismo 
contemporâneo, alcançaram o mundo do Trabalho, a esfera da Polí-
tica e das Políticas Sociais que se tornam cada vez mais focalizadas, 
seletivas e condicionadas, como se pode observar nos dezenove Pro-
gramas de transferência de Renda na América Latina. Obviamente, a 
crise de 2008 trouxe novo suporte para tornar hegemônicas essas po-
líticas. Como se sabe, foi no âmbito do enfrentamento das consequên-
cias indesejáveis do novo regime de acumulação e quando políticas de 
ajuste que se faziam sentir sobre a grande maioria da população, que 
a política social “foi transformada total ou parcialmente em políticas 
focalizadas contra a pobreza, principalmente nos países da periferia do 
capitalismo” (LAVINAS, 2014, p. 3).
“Esse processo vem contando com a formulação decisiva das ins-
tituições multilaterais (FMI e Banco Mundial) e necessitou de uma 
operação político-ideológica” (FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007, p. 
97), que passou a abordar a pobreza fora dos confrontos entre capital e 
trabalho. Exemplarmente, de modo geral, na Política Social do Conti-
27
MARIA CARMELITA YAzBEK 
◀ Voltar ao sumário
nente, a luta contra a pobreza “tomou o lugar” da luta de classes. Desse 
modo, ocultou a “questão social” como questão de classes, com suas 
mediações de raça, de etnia e de gênero. Nas palavras de Singer (2018, 
p. 21), um “traço peculiar desta sociedade é o limbo, do qual os pobres 
podem sair (e no qual podem voltar a cair) individualmente, mas nun-
ca como classe”. Em termos globais, não por acaso, para a Organização 
das Nações Unidas (ONU), a erradicação da pobreza é o desafio pri-
mordial dos objetivos do milênio.
Nesse contexto, não é tarefa fácil pensar as políticas sociais e, espe-
cialmente, as políticas protetivas como a Assistência Social, pois a crise 
estrutural do capital avança continuamente, em seu caráter predatório 
e na banalização da vida. São tempos que, como lembra Antunes, ca-
racterizam “uma nova era de devastação, uma espécie de fase ainda 
mais destrutiva da barbárie neoliberal e financista que almeja a com-
pleta corrosão dos direitos do trabalho em escala global” (ANTUNES, 
2018, p. 10).
Tempos de crescimento do conservadorismo de traços fascistas e de 
exposição da face hiperautoritária do neoliberalismo (cf. DARDOT; 
LAVAL, 2016). Para entender esse contexto de devastações, a tarefa 
primeira é desvendar a matriz, decifrar, ainda que sumariamente, a 
crise estrutural do capital, e seus impactos no caráter dependente do 
capitalismo periférico, para entender o seu ataque contra a política e 
contra as políticas sociais, em relação às quais a conclusão que se chega 
é que não interessa a esse “capital manter políticas sociais organiza-
das e financiadas pelo Estado” (MARQUES, 2018, p. 110). Desse modo, 
pode-se entender que o avanço do capital sobre a política e sobre as 
políticas sociais é uma característica do capitalismo contemporâneo 
globalmente, como anunciavaMarques em 2015, “Nesse quadro, o lu-
gar das políticas sociais está em um ‘Não Lugar’, pois não faz parte da 
agenda desse tipo de capital” (MARQUES, 2015, p. 18, grifos da autora).
Para Mészáros (2009), nessa crise estrutural, o colapso do sistema 
financeiro de 2008 não foi a causa, mas uma manifestação endêmica, 
cumulativa, crônica e permanente da crise, cujos principais resulta-
dos foram (e são) o desemprego estrutural, a destruição ambiental e 
as guerras permanentes em condições que mantém o mundo na es-
28
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
tagnação econômica e sem solução visível em curto prazo. Para esse 
autor, o neoliberalismo e a globalização recrudesceram os problemas 
econômicos, sociais, políticos, ecológicos e culturais do Planeta e o que 
se observa nos anos recentes é a combinação de uma nova crise cíclica 
com uma crise sistêmica, que ameaça levar o mundo a uma situação 
sem precedentes.
Alguns resultados dessa crise são facilmente observáveis: como a 
imensa concentração de riqueza e poder ao lado da tragédia da po-
breza, da fome, da exclusão (não apenas de bens materiais) expres-
sa no crescimento das massas descartáveis sobrantes e sem proteção 
em um mundo desumanizado e marcado pelo individualismo e pela 
competição, configurando um profundo agravamento da “questão so-
cial” e a recomposição das políticas sociais, que se tornam cada vez 
mais focalizadas, seletivas e condicionadas. Traz-se aqui a referência 
à questão social que, fundamentalmente expressa a divisão da socie-
dade em classes, cujos confrontos se agudizam e que nos contraditóri-
os tempos presentes assumem novas configurações e expressões, que 
conforme Iamamoto:
[....] condensam múltiplas desigualdades mediadas por dispari-
dades nas relações de gênero, características étnico-raciais, mo-
bilidades espaciais, formações regionais e disputas ambientais, 
colocando em causa amplos segmentos da sociedade no acesso 
aos bens da civilização. Dispondo de uma dimensão estrutural 
– a enraizada na produção social contraposta a apropriação pri-
vada do trabalho –, a ‘questão social’ atinge visceralmente a vida 
dos sujeitos numa luta aberta e surda pela cidadania, no embate 
pelo respeito aos direitos civis, sociais e políticos e aos direitos 
humanos (IAMAMOTO, 2018, p.72, grifos da autora).
Cabe lembrar, ainda, que uma análise crítica da “questão social”, no 
tempo presente, exige que sejam considerados os processos de forma-
ção do país, desde a colonização com a construção de uma economia 
composta de senhores e escravos, na qual as marcas do patrimonialis-
mo-paternalista vão plasmar a sociedade brasileira. “O par senhor-es-
29
MARIA CARMELITA YAzBEK 
◀ Voltar ao sumário
cravo assentou as bases de uma estrutura social bipolar, que formou a 
maior parte da nação. A casa grande e a senzala são o brasão dessa so-
ciedade” (OLIVEIRA, 2018, p. 29). O traço dessa formação social bra-
sileira, de conjugação do “avanço” com o “atraso” assegurou o sucesso 
da dominação burguesa desde sempre, e assim sendo, se está diante 
de uma sociedade estruturalmente desigual, em que a presença dos 
“pobres” no tratamento dos conflitos classistas tem sido uma constante 
e deixou, sem dúvida, suas marcas na história do país e implantou ba-
ses importantes na construção da lógica, que vem presidindo a expan-
são do capitalismo dependente na periferia, em tempos mais recentes, 
bem como as características próprias da questão social brasileira e das 
estratégias para seu enfrentamento.
Assim, as marcas da cultura colonial permanecem presentes nas 
relações sociais, características do capitalismo periférico, neste Conti-
nente, moldando as expressões e configurações da questão social, que 
se reformula e se redefine, mas permanece substantivamente a mes-
ma por se tratar de uma questão estrutural, constitutiva das relações 
capitalistas, de sua divisão da sociedade em classes e da disputa pela 
riqueza socialmente construída, cuja apropriação é profundamente 
desigual no capitalismo. Supõe a consciência dessa desigualdade e a 
resistência à opressão por parte da “classe que vive do trabalho” (cf. 
YAZBEK, 2004, p. 33).
Nesse contexto, altera-se a esfera da Política marcada, nos dias atuais, 
por uma nova racionalidade, por sua desqualificação, despolitização e 
a esfera da Política Social, que se torna cada vez menos universal e 
mais focalizada, altera-se, ainda, a esfera da Sociabilidade, pois o capi-
talismo financeirizado necessita de subjetividades, que se amoldem ao 
mercado. Essa sociabilidade se expressa por uma moral conservadora, 
igrejista e familiarista, imprescindíveis para o capitalismo financeiro 
global.
Do ponto de vista político se vive uma era na qual estão em questão 
os sentidos da política. As últimas eleições revelaram campos inconci-
liáveis do conflito de interesses e das lutas sociais, reforçaram o braço 
repressivo do Estado, e um Governo que vem confrontando valores 
democráticos e eliminando direitos conquistados, que revelaram tam-
30
QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
bém alienação e esgarçamento na disputa entre democratização no ho-
rizonte dos direitos e zonas de sombra que colocam as pessoas diante 
dos velhos fantasmas do autoritarismo.
A nova política e a nova sociabilidade que são inscritas na agenda 
neoliberal vêm provocando metamorfoses no campo da subjetividade, 
expressas no individualismo competitivo exacerbado, preconceituo-
so, pressionado pelo consumo e que vive com um grau de incerteza e 
ansiedade sem precedentes. Nesse processo se reativa o pensamento 
conservador, restaurador e defensor da ordem instituída, e o pensa-
mento reacionário e irracional, que confronta valores democráticos e 
propõe eliminação de direitos. Nesse processo emergem novas formas 
de gestão dos serviços públicos e das políticas sociais, marcadas pelo 
gerencialismo e voltadas à “fabricação do sujeito neoliberal”. Processos 
que embaralham o setor público e o privado (cf. DARDOT; LAVAL, 
2016, p. 321).
Este quadro vem implicando em uma ruptura do histórico pacto 
entre capital e trabalho, que configurou, no Mundo desenvolvido, o 
Estado de Bem-Estar Social e, na periferia do capitalismo, algumas 
melhorias nas políticas sociais.
Nesse contexto de avanço do capital sobre as políticas sociais, que 
é uma característica do capitalismo global contemporâneo, a questão 
social se radicaliza e, aliada à nova morfologia do mundo do trabalho 
com o aumento brutal da taxa de exploração, o desemprego, a redução 
de salários e precarização do trabalho, e ausência de direitos, que têm 
como resultado a ampliação de situações de trabalho desprotegido, e 
de outras formas de desproteção, o aumento da pobreza, aqui entendi-
da como condição de classe, e o desmonte da proteção social. Situações 
que vêm no bojo da crise, cujos impactos dramáticos nos orçamentos 
públicos das economias desenvolvidas e dos países dependentes amea-
çam de imediato os sistemas de proteção social vigentes. Em síntese, as 
atuais transformações societárias, que alcançam a política e a sociabi-
lidade capitalista, aliadas às consequências da crise do capital, colocam 
em questão o princípio básico de proteção social que é dissociar a re-
produção das condições de vida e bem-estar das condições de mercado.
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MARIA CARMELITA YAzBEK 
◀ Voltar ao sumário
A novidade inquietante é que frente aos enormes constrangimentos, 
que degradam o trabalho e a vida, até as políticas sociais, que pode-
riam minimizar os impactos da crise, passaram a ser alvo de processos 
de desmanches. Por outro lado, depara-se nesse tempo com:
[...] a ampliação da demanda por serviços e benefícios da assis-
tência social num contexto de aprofundamento do desemprego 
estrutural, de precarização do trabalho e de insegurança social 
face à redução das proteções sociais do trabalho (vide as legisla-
ções trabalhista e previdenciária) decorrentes da sua nova mor-
fologia, expressaspela tríade flexibilização, informalização e ter-
ceirização do trabalho (cf. ANTUNES, 2013).
Obviamente, esses processos de desmonte da proteção social obser-
vados no Mundo inteiro não são homogêneos, até porque geram pro-
fundas resistências, novos antagonismos, expressando a capacidade de 
luta e de resistência da “classe que vive do trabalho”.
Nesse quadro tão adverso como se coloca a Assistência Social?
Lembra-se, inicialmente, e é fundamental não esquecer, que com a 
Constituição de 1988 tem início a construção de uma nova matriz para 
a Assistência Social brasileira, inserida na Seguridade, como política 
social não contributiva, direito dos que dessa necessitarem.
Passados mais de trinta anos, apesar das adversidades e da obscu-
ridade a que foi relegada a perspectiva integrada de Seguridade So-
cial, não se pode deixar de reconhecer, desde a Carta Constitucional, 
mudanças significativas no que concerne à proteção social no Brasil, 
particularmente para a Assistência Social, sobretudo, no que se refere 
a sua concepção, organização e gestão.
Como política de Estado, a Assistência Social passou a ser um espa-
ço para a defesa e atenção dos interesses e necessidades sociais dos seg-
mentos mais empobrecidos da sociedade, configurando-se, também, 
como estratégia fundamental para o combate à pobreza, aqui abordada 
como condição de classe, à discriminação e à subalternidade econômi-
ca, cultural e política em que vive grande parte da população brasileira.
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QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
Sem dúvida, nessa nova matriz estão colocadas mudanças substan-
tivas na concepção da assistência social, um avanço que deveria per-
mitir sua passagem do assistencialismo e de sua tradição de não políti-
ca para o campo da política pública.
Cabe, por exemplo, lembrar que o Plano decenal 2016-2026 apre-
senta prioridades para consolidar a Assistência Social brasileira, no 
âmbito da ampliação de sua cobertura, universalizando o Benefício de 
Prestação Continuada (BPC), mantendo-o vinculado ao salário-míni-
mo, sinalizando para a universalização do SUAS em todas as regiões do 
país, respeitadas suas especificidades, o que deveria significar mais ser-
viços com qualidade, mais trabalhadores, mais benefícios e reajustes 
nos próximos anos. A perspectiva do Plano é a ampliação das inegáveis 
conquistas que asseguraram a 4,5 milhões de brasileiros o BPC, a 13,5 
milhões de Brasileiros o Bolsa Família, lembrando que, em média, a 
renda do BPC constitui 79% do orçamento das famílias beneficiadas e 
em quarenta e sete dos casos é a única renda.
No entanto, o que aponta a realidade da pesquisa realizada entre 
2014 e 2018 em todas as regiões do país e outros estudos recentes acerca 
da Assistência Social?
Destaca-se aqui o trabalho de muitos outros autores e militantes, 
que vêm acompanhando de perto a Assistência Social, nos dias atuais, 
e que observam para essa política, nos tempos recentes, uma tendência 
regressiva, uma situação de retrocessos e desmanches, que colocam 
em risco as bases do SUAS e os direitos socioassistenciais alcançados. 
Como afirma Jucimeri Silveira (2017), correm risco de regressão bene-
fícios e serviços disponibilizados a mais de trinta milhões de famílias 
referenciadas nos CRAS, exatamente nessa conjuntura de recessão e 
de avanço da pobreza, quando mais se amplia a demanda pela univer-
salização da Seguridade Social pública. Se fosse possível reduzir a situ-
ação a algumas palavras, seriam essas: desmanche, desconfiguração, 
regressão, risco.
Sabe-se que as Reformas Trabalhista e da Previdência ampliarão, 
sem dúvida, o número de demandantes da Assistência Social e, espe-
cialmente, a Reforma da Previdência ao interferir no BPC (pela tenta-
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MARIA CARMELITA YAzBEK 
◀ Voltar ao sumário
tiva de desconectá-lo do salário-mínimo e alterar o teto de idade) que 
ampliarão a pobreza de idosos e deficientes.
São destacadas a seguir algumas características do quadro atual da 
Assistência Social observadas nesta pesquisa e em outros estudos re-
centes:
1. Permanecem na Assistência Social tendências históricas, não su-
peradas, da assistência social como o lugar destinado às ações dirigi-
das aos “pobres” – dispositivo que estigmatiza e discrimina os estratos 
subalternizados, descola da condição de classe, que está na gênese da 
condição de pobreza e provoca uma cisão entre pobres e trabalhadores. 
Cresce o número de trabalhadores com carteira de trabalho, precariza-
dos, quarteirizados, que buscam atendimento para suas necessidades 
sociais no âmbito do SUAS. A permanência da assistência social como 
moeda de troca política entre dominantes e dominados retoma seu lon-
go caminho no país “cordial” da sociabilidade do favor, agora trans-
mutada na “[...] sociabilidade do grande capital que toma de assalto o 
fundo público e desconstrói décadas de luta pela constituição da esfera 
pública no Brasil” (RAICHELIS; YAZBEK, 2018).
No âmbito da pesquisa realizada, uma observação geral sobre os 
usuários participantes dos grupos focais leva a identificar, ao menos 
nesta amostragem, nas áreas urbanas a presença predominante de 
idosos, com maioria de mulheres, população em situação de rua, com 
maior presença masculina e adolescentes negros de ambos os sexos. E 
nas áreas rurais, a presença de populações ribeirinhas, quilombolas e 
indígenas, especialmente, mas não exclusivamente nas regiões Norte e 
Nordeste, e de famílias de trabalhadores sem-teto e sem-terra, espalha-
das pelas diferentes regiões e cidades brasileiras.
2. Um segundo aspecto: sabe-se que desde seu início, o SUAS está 
permeado de valores e tendências, tanto conservadoras como emanci-
patórias. É um espaço em disputa e, assim sendo, é fundamental todo o 
tempo fortalecer aquelas que operam a formulação da Assistência So-
cial como Política Pública regida pelos princípios universais dos direit-
os e da cidadania. Por que se está lembrando esses aspectos? Primeiro, 
porque o campo e tempo presente é fértil para regressões moralizantes 
e meritocráticas. Cresce nesta sociedade o pensamento conservador e 
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QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
◀ Voltar ao sumário
reacionário que estigmatiza o pobre por sua pobreza. Também porque 
no processo de construção e de consolidação do SUAS, esses valores 
e tendências estão se confrontando, especialmente, com os processos 
privatizadores. Não se pode esquecer que o pensamento conservador 
e reacionário, que se revigora na atual sociedade, resultante do quadro 
político, traz em seu bojo o ressurgimento de práticas classistas, racis-
tas, homofóbicas, feminicidas, entre outros aspectos, nesse contexto.
3. O terceiro aspecto para ao qual se gostaria de chamar a atenção 
é o “desfinanciamento” da política de assistência social, que tenderá a 
se agravar crescentemente, como resultado da Emenda Constitucional 
95/18, que desqualifica os direitos e impossibilita os serviços de manter 
a cobertura atual, ao propor o congelamento (com o teto das despesas 
de 2016 corrigido) das despesas sociais por vinte anos, o que terá forte 
impacto no desempenho da Política de Assistência Social, situação que 
só se agrava com atrasos de repasse e contingenciamento. Sem dúvida, 
a limitação financeira para custear o SUAS trará graves consequências.
Como lembra Sposati (2018, p. 2316):
[...] atenções públicas prestadas em serviços, ou benefícios, ten-
dem a ser vistas, pelos conservadores, pelos que detém o poder 
como benesse de cunho esmolar. [Como ação religiosa, carita-
tiva ou filantrópica, acrescento eu.] Sua insignificância de valor 
monetário é dirigida a quem tem menos. Diversa é a conduta 
para os que têm mais e se aproximam da identidade de classe 
no poder A esses benefícios, substantivos em valores monetários, 
isentos de imposto de renda e sem qualquer condicionalidade, 
ou restrição, são distribuídos a magistrados, legisladores, milita-
res e governantes. Não raro, se estendem a seus filhos, cuja idade 
de dependênciaé de 24 anos, em contraponto aos mais pobres, 
onde cai para 14 anos.
Maria Ozanira da Silva e Silva (2018), em texto produzido no âm-
bito desta pesquisa demonstra que a Assistência Social foi uma das 
políticas mais atingidas pelos cortes de recursos em 2018:
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MARIA CARMELITA YAzBEK 
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[...] paralisando uma trajetória orçamentária ascendente desde 
2004 e que havia alcançado 4.5 milhões de brasileiros no BPC, 
p.ex. A redução orçamentária é alarmante, passando de 2.1 bi-
lhões em 2016 para os serviços socioassistenciais para 1.5 bilhões 
em 2019; de 45 bilhões para o BPC em 2016, para 30 bilhões em 
2019; de 28.8 bilhões para o Bolsa Família em 2016 para 23 bilhões 
em 2019. Além disso prevê-se a interrupção do atendimento de 
17 mil serviços socioassistenciais, ofertados nos CRAS, CREAS, 
CENTRO-POP e Unidades de Acolhimento Institucional que 
atuam diretamente em situações de ocorrência de abuso sexual, 
abandono, situação de dependência, violência doméstica, maus 
tratos físicos e/ou psíquicos, situação de trabalho infantil, situa-
ção de rua, cumprimento de medidas socioeducativas, entre ou-
tras situações de violação dos direitos (SILVA E SILVA, 2018).
Assim como em 2018, a Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 
de 2019 sofreu redução significativa na área da Assistência Social, en-
viada pelo Executivo ao Congresso Nacional com 57,39% de corte no 
Benefício de Prestação Continuada à Pessoa Idosa  e 44% no Benefí-
cio de Prestação Continuada à Pessoa com Deficiência, além de cor-
tes nos Serviços Socioassistenciais na ordem de 49,48%. Esses cortes 
inviabilizarão a oferta de serviços, de programas e de projetos para as 
famílias e indivíduos apontando para uma conjuntura de desmanche e 
desconstrução do SUAS, em um embate em que são confrontados dois 
projetos de proteção social no Brasil: um referenciado às promessas 
constitucionais de cidadania e direitos na perspectiva de um Sistema 
de Proteção Social público, universal e de afirmação de direitos; e ou-
tro, que se configura em seu “oposto”, que reduz a Proteção Social em 
reiteração de práticas, que remetem sob novas formas à seletividade e 
focalização meritocrática no sistema protetivo.
Basta lembrar que o Programa “Criança Feliz”, criado no Governo 
Temer, ganhou mais centralidade do que o próprio SUAS, com orça-
mento para 2018 de um milhão de reais, superior aos recursos desti-
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QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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nados aos CRAS, de R$ 800 mil2. Um Programa dessa natureza vem 
reforçando a presença na Assistência Social brasileira, de concepções 
conservadoras e práticas assistencialistas, clientelistas, primeiro da-
mistas e patrimonialistas. Basta observar que o Programa repõe em 
cena a figura da primeira-dama, a desprofissionalização das políticas 
sociais e a condição subalterna da mulher (CFESS, 2016; 2017). Pro-
grama criado por meio de um Decreto presidencial (8.869/2016), no 
Governo Temer, apresenta um conteúdo que não afiança as garantias 
legais instituídas para proteção integral à criança e não esclarece o re-
sultado desse investimento estatal em tempos de cortes orçamentários.
4. O quarto ponto a destacar são os constrangimentos do geren-
cialismo, que alcançam a gestão do SUAS que, como aponta Jucimeri 
Silveira, na:
[...] conjugação perversa entre cultura patrimonialista, reprodu-
tora de assimetrias nas relações de poder sob os efeitos da ideo-
logia do mando e do favor, e cultura gerencialista, incorporada 
na formulação das políticas públicas, a partir da racionalidade 
instrumental do mercado configura uma feição de Estado com 
as seguintes dimensões: a) na dimensão social penalizadora da 
população em situação de pobreza e toda forma de insurgência 
que represente ameaça à dominação institucionalizada; b) na di-
mensão econômica gerencialista dos interesses do capital (SIL-
VEIRA, 2017, p. 490).
5. Por outro lado, estudos têm demonstrado, e a pesquisa em alguns 
municípios evidenciou que a judicialização da assistência social tem 
ocorrido, principalmente, em relação ao BPC, único benefício cons-
titucionalizado dessa área, processo que ao mesmo tempo em que re-
conhece o demandante deste benefício assistencial – o pobre – como 
2 O Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) publicou no Diário Oficial da União, 
em 20/09/2018, a Resolução nº 20/2018, solicitando a recomposição da dotação orçamen-
tária de 2018 e o aumento dos valores na proposta orçamentária da Assistência Social para 
o exercício de 2019, conforme os limites aprovados pelo Conselho Nacional por meio da 
Resolução CNAS nº 16/2018. 
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MARIA CARMELITA YAzBEK 
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sujeito de direito, o faz pela via da individualização do acesso ao di-
reito, o que expõe o traço marcante de sociedades do tipo mercantil-
-escravagista, subordinadas ao capitalismo central dominante, como a 
brasileira.
6. Como sexto ponto se gostaria de apontar algumas questões rela-
tivas à gestão do trabalho.
Sabe-se que a questão dos recursos humanos vem se constituindo 
em um enorme desafio para a administração pública brasileira, situa-
ção que se complexifica na assistência social marcada pela tradição de 
não política e de um histórico de desprofissionalização, que tende a 
crescer. O quadro profissional é, em geral, insuficiente e com grandes 
defasagens atendendo simultaneamente diferentes municípios.
Para Raichelis (2013, p. 619-620):
[...] a dinâmica societária desencadeada pela crise contemporâ-
nea [...] atinge a totalidade dos processos produtivos e dos ser-
viços, alterando perfis profissionais e espaços de trabalho das 
diferentes profissões, e dessa forma, também alcança os traba-
lhadores da Assistência Social, que tem na prestação de serviços 
sociais seu campo de intervenção privilegiado e nas instituições 
sociais públicas e privadas seu espaço ocupacional. Os traba-
lhadores da Assistência Social, sofrem as consequências dessas 
mudanças e se vêm, submetidos a constrangimentos diante dos 
processos de intensificação e precarização do trabalho assalaria-
do nos espaços institucionais onde desenvolvem seu trabalho.
Observa-se que para os trabalhadores da Assistência Social, essas 
estratégias vão sendo incorporadas gradativa e sutilmente e, talvez, 
ainda não estejam claramente perceptíveis para esses trabalhadores. 
No entanto, ganham concretude no ritmo e na velocidade do trabalho, 
nas cobranças e exigências de produtividade, no maior volume de ta-
refas, nas características do trabalho demandado, no peso da responsa-
bilidade e “[...] na ponta observamos profissionais esvaídos de decisão, 
cumprindo metas e resultados imediatos, com falta de perspectivas de 
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QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO
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progressão e ascensão na carreira e de políticas continuadas de capaci-
tação profissional, entre outros aspectos” (YAZBEK, 2014, p. 140 ).
Quanto à precarização se observa que esta alcança os vínculos tra-
balhistas, com salários insuficientes, adoção de formas flexíveis de tra-
balho informal, parcial, temporário, terceirizado, contratação por tare-
fas, por pregão eletrônico e outros aspectos. Para avançar, entende-se 
que o escopo da análise deve ser ampliado alcançando a perspectiva da 
construção da identidade coletiva do trabalhador da Assistência Social, 
no conjunto da classe trabalhadora.
Entende-se que enfrentar esses desafios é operar em um processo 
contraditório, no qual sempre estão em “disputa os sentidos da socie-
dade”. Assim sendo, os rumos e a politização desse debate é que permi-
tirão que o SUAS se coloque (ou não) na perspectiva de forjar formas 
de resistência e defesa da cidadania de seus usuários, ou apenas reiterar 
práticas conservadoras e assistencialistas. Isso em todos os níveis de 
funcionamento do sistema. Incluindo relações profissionais.
Considerações finais
Para finalizar se gostaria de assinalar que diante das desigualdades 
e da subalternidade a que é submetido o povo

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