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Izabel Cristina Dias Lira Janaína Carvalho Barros Ruteléia C. de Souza Silva Organizadoras desdobramentos para as políticas sociais e o Serviço Social QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO desdobramentos para as políticas sociais e o Serviço Social QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO C O M I T Ê E D I T O R I A L Prof. Dr. André Ricardo de Souza Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Profa. Dra. Denise de Freitas Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Prof. Dr. Gabriel de Santis Feltran Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Isabel Georgina Patronis Dominguez Especialista em Educação Ambiental pelo CRHEA/USP Prof. Dr. Jacob Carlos Lima Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Prof. Dr. Jaime Giolo Universidade Federal da Fronteira Sul Dra. Semíramis Biasoli Fundo Brasileiro de Educação Ambiental (FunBEA) Prof. Dr. Valdemar Sguissardi Professor Titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) S ÃO C A R LO S , 2020São Carlos, 2020 Izabel Cristina Dias Lira Janaína Carvalho Barros Ruteléia C. de Souza Silva Organizadoras desdobramentos para as políticas sociais e o Serviço Social QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO © Das organizadoras. REVISÃO DE TEXTO Karin Elizabeth Rees Azevedo PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Diagrama Editorial Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD Q5 Questões e tendências contemporâneas do capitalismo [re- curso eletrônico]: desdobramentos para as políticas sociais e o serviço social / organizado por Izabel Cristina Dias Lira, Janaína Carvalho Barros, Ruteléia C. de Souza Silva. - São Car- los, SP : Diagrama Editorial, 2020. 300 p. ; PDF ; 2,4 MB. Inclui bibliografia e anexo. ISBN: 978-65-86512-10-6 1. Capitalismo. 2. Política social. 3. Serviço social. I. Lira, Izabel Cristina Dias. II. Barros, Janaína Carvalho. III. Silva, Ruteléia C. de Souza. IV. Título. 2020-3273 CDD 330.122 CDU 330.342.14 Elaborado por Odilio Hilario Moreira Junior - CRB-8/9949 Índice para catálogo sistemático: 1. Capitalismo 330.122 2. Capitalismo 330.342.14 A reprodução não autorizada desta publicação, por qualquer meio, seja total ou parcial, constitui violação da Lei nº 9.610/ 98. A aceitação das alterações textuais e de normalização bibliográfica sugeridas pelo revisor são uma decisão do autor/organizador. Rua XV de Novembro, 2190, Centro 13560-240 - São Carlos, SP Fone: 16 3413-9142 www.diagramaeditorial.com.br Financiamento 5 PREFÁCIO A publicação da coletânea Questões e tendências contemporâneas do capitalismo: desdobramentos para as políticas sociais e o Serviço So- cial organizada por Izabel Cristina Dias Lira, Janaína Carvalho Barros e Ruteléia C. de Souza Silva, professoras da Universidade Federal do Mato Grosso com reconhecida competência, veio em boa hora. O lançamento de um livro ou coletânea acadêmica sempre pode ser considerado oportuno ao ampliar o conhecimento sobre os fenôme- nos analisados, além de evidenciar o esforço, individual ou coletivo, despendido em estudos e pesquisas. Esta coletânea, porém, contém dimensões que lhe conferem relevância especial para os estudiosos e pesquisadores das Ciências Sociais e, especialmente, para o Serviço So- cial, por várias razões. Sem pretender esgotar as análises realizadas, quero compartilhar algumas dessas razões com os leitores. A primeira decorre, inegavel- mente, das crises do momento atual, em função do agravamento das várias faces das desigualdades, da questão migratória, da violência ru- ral e urbana, pois, como já afirmavam Dardot e Laval, em 2016, “[...] o acúmulo de tensões e problemas não resolvidos, o reforço de tendên- cias desigualitárias e desequilíbrios especulativos preparam dias cada vez mais difíceis para as populações” (p. 8)1. A pertinência dessa observação, infelizmente, vem se confirmando nos últimos anos, na América Latina, e mesmo em países de capitalis- mo central e com maior possibilidade de anteparo e manejo das crises estruturais do capital, ampliando a precariedade histórica dos sistemas de proteção social em nosso Continente. Os impactos sobre as políticas sociais são analisados, em suas várias dimensões, evidenciando como as tendências do novo ordenamento da proteção social não se limi- tam ao desfinanciamento ou a uma simples questão gerencial, como bem enfocados no decorrer dos textos. Contrapõem-se frontalmente a uma linha de estudos que trata a desigualdade e a pobreza isoladas dos conflitos de classes. Os estudos mais evidentes na literatura atual, pautados em críticas ao modelo de organização societária nos mol- 6 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO des capitalistas, assumem uma feição periférica e ganham destaque os textos acadêmicos sobre políticas sociais financiados pelos organismos internacionais, tecnicamente elaborados, mas assépticos e acríticos. Focados em análises centradas na relação custo-benefício, desapa- rece a noção de igualdade social, desconsiderando ser a pobreza decor- rente do tipo de relação capital/trabalho no capitalismo, agravada pelo modelo neoliberal. Há uma redução brutal dos investimentos públicos para o desenvolvimento econômico que tenham como norte a criação de um mercado de trabalho com garantias de proteção social, mesmo que à custa de seu potencial de resistência. No plano da ação, as re- formas trabalhistas dos últimos anos configuram uma precarização na raiz, ou seja, em sua origem. A eclosão da pandemia coloca em evidência a debilidade do merca- do de trabalho, a pobreza e suas consequências, a fragilidade dos siste- mas de saúde, tópicos tratados com competência na coletânea. Traz à tona a urgência de ser e pensar o papel do Estado, nas palavras da pro- fessora Laura Carvalho (2020, p. 121)2, alertando para o risco de “[...] um mundo mais desigual, e com riscos maiores para a democracia”. A segunda razão se encontra na pertinência das análises sobre as tendências contemporâneas contidas na coletânea, as quais colaboram para reconhecer o movimento de reorganização geopolítica e ideo- lógica nos países latino-americanos, com ênfase no Brasil. Ao longo dos capítulos, os autores tornam evidente a difícil tarefa da busca pela emancipação humana, ao discorrerem sobre as nuances das relações cada vez mais radicais entre capital e trabalho e as resistências à ló- gica avassaladora do capital e dos processos de refuncionalização das suas crises econômicas cíclicas. A crise financeira mundial de 2008 não abalou os fundamentos do neoliberalismo; pelo contrário, fortaleceu suas bases políticas internacionais via desqualificação de instituições regionais, expandido a subordinação ao sistema global. La mayor subordinación al sistema mundial y a su principal po- tencia que vemos reponerse en los años más recientes se hace en nombre de la ‘integración al mundo’ – tal como repiten como 2 CARVALHO, Laura. Curto-circuito: o vírus e a volta do Estado. São Paulo: Todavia, 2020. 7 VERA MARIA RIBEIRO NOGUEIRA muletilla los presidentes de Argentina y Brasil – pero abando- nando, en los hechos, la integración regional y desarticulando, también, a las instituciones que empezaban a darle alguna forta- leza (GRASSI, 2020, p. 12)3. Como exemplo paradigmático se pode constatar a posição contra- ditória do Governo brasileiro, ora desqualificando o Mercosul, ora te- cendo elogios em função do interesse do mercado no acordo comercial com a União Europeia. No plano econômico, aos países como o Brasil cabe uma integração econômica periférica, participando do mercado mundial via exportação de bens primários e de baixo valor agregado, além de altamente destrutivos, causando danos tanto à natureza quan- to às formas de vida dos povos tradicionais, quilombolas e indígenas. São as causas das queimadas na Amazônia e no cerrado que, a despeito da péssima repercussão internacional, não têm sensibilizado o Execu- tivo Federal, tema bem explorado em um dosbrasileiro, as políticas sociais e, em especial, a Assistência Social tem limites e constrangi- mentos muito claros, de ordem estrutural, que agravam sua baixa efe- tividade. Isso porque na árdua e lenta trajetória rumo a sua efetivação como política de direitos, permanece na Assistência Social brasileira uma imensa fratura entre o anúncio do direito e sua efetiva possibili- dade de reverter o caráter cumulativo das injustiças, que permeiam a vida de seus usuários. Não se pode esquecer, no entanto, que estas políticas expandem Di- reitos Sociais, permitem o acesso a recursos e serviços sociais, criam possibilidades de interlocução entre a esfera governamental e a socie- dade civil e, sobretudo, abrem espaços para o protagonismo e para a ação coletiva de atores políticos, que lutam pela realização do caráter público nas Políticas Sociais. 39 MARIA CARMELITA YAzBEK ◀ Voltar ao sumário Os trabalhadores do SUAS são interpelados e desafiados pela ne- cessidade de construir mediações políticas e ideológicas expressas, so- bretudo, por ações de resistência e de alianças estratégicas no jogo da política em suas múltiplas dimensões, por dentro dos espaços institu- cionais e, especialmente, no contexto das lutas sociais. Como avançar nessa construção? Que dimensões considerar? A primeira reflexão é sobre a importância de interrogar, de buscar elementos para a inteligibilidade da realidade, de abrir dimensões não explicitadas desta crise e das atuais perplexidades do pensamento e da ação, buscando decifrar as lógicas do capitalismo contemporâneo em suas dimensões éticas, políticas, culturais de uma sociedade em mudança acelerada. No entanto, o mais importante é desenvolver práticas cotidianas de contestação e de resistência buscando construir experiências concretas de fortalecimento dos interesses e projetos de superação da condição subalterna. Também por dentro dos espaços institucionais, em que atuam profissionalmente se pode desenvolver iniciativas de resistência, buscar novas práticas que se esboçam como alternativa. Esse é outro caminho a ser procurado, considerando as variadas lutas e propostas de resistência. Há espaços a ocupar e fortalecer: Fóruns, Conselhos, Movimen- tos. Precisa-se apoiar as resistências cotidianas das classes subalternas na sociedade. As rebeldias têm que se encontrar a partir de baixo, da participação de todos, de todos os dias, substituindo relações de po- der por relações e responsabilidades partilhadas. E, quando se refere às relações de poder não se pode excluir as relações dos profissionais com a população. É o poder das triagens das elegibilidades, das gover- nabilidades, das concessões dos laudos, das visitas controladoras, das definições de quem fica e quem não fica, de quem pode participar de um Programa etc. Em diferentes situações é preciso expressar que se caminha profis- sionalmente junto aos usuários, levando em conta o papel estratégico da comunicação e da informação para mostrar que não se está só na luta. 40 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Para finalizar, se gostaria de lembrar que “a sociedade civil organi- zada dá mostras de que não assistirá passivamente ao desmanche da Política de Assistência Social, após uma trajetória de lutas e construção da Proteção Social não contributiva como campo de direito em nosso País”. Observa-se a resistência imediata frente à interferência autori- tária do Governo Federal no CNAS, que levou ao cancelamento da Conferência Nacional de Assistência Social, que havia sido aprovada democraticamente por aquele colegiado, para sua realização em de- zembro de 2019, coroando o ciclo de conferências municipais e esta- duais que a antecederiam, como tem sido realizado desde a 1ª Confe- rência Nacional em 1995, no então Governo FHC. O movimento de luta em defesa do SUAS, composto por entidades e organizações da sociedade civil, chamou para si a tarefa de convocação da Conferência Nacional, com o tema “Assistência Social: direito do povo, com financiamento público e participação social”, conclamando Estados e Municípios a participarem dessa ampla mobilização nacio- nal, realizando também conferências estaduais e municipais, nas quais foi significativa a participação da população usuária dos serviços dessa Política Pública de Direitos. Referências ANTUNES, R. Prefácio. 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CFESS diz não ao Programa Criança Feliz. Nota que afirma que programa vai na contramão do que o Serviço Social brasileiro entende e defende como Política de Assistência Social. Brasília: CFESS, 07 mar. 2017. Disponível em: http://www.cfess.org.br/ visualizar/noticia/cod/1347. Acesso em: 10 mai. 2020. DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo. Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. FILGUEIRAS, L.; GONÇALVES, R. A economia Política do governo Lula. São Paulo: Contraponto, 2007. IAMAMOTO, M. Serviço Social. “Questão Social” e Trabalho em tempo de Capital Fetiche. In: RAICHELIS, R.; VICENTE, D.; ALBUQUERQUE, V. (Orgs.). A nova Morfologia do Trabalho no Serviço Social. São Paulo: Cor- tez, 2018, p. 66-87. IAMAMOTO, M. V. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital fi- nanceiro, trabalho e questão social. São Paulo: Cortez, 2011. LAVINAS, L. Na contramão dos Direitos Universais. Notas para reflexão. Plataforma Social. Cadernos Temáticos 1. 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Acesso em: 20 mai. 2020. 44◀ Voltar ao sumário CAPÍTULO 2 Crise, Estado e precarização do trabalho Jaime Hillesheim Ricardo Lara Introdução Ainda que pareça lugar comum é preciso afirmar que não é possível vislumbrar processos de emancipação social com programáticas que se pautam em ajustes econômicos impostos pela lógica da sociabilidade do capital. A história mostra que todas as tentativas de conduzir a luta da classe trabalhadora mirando esse horizonte, de caráter reformista, em curto e médio prazos, se tornaram travas ao avanço da própria consciência dos(as) trabalhadores(as) como classe em face do capital. E, especialmente, nos momentos de intensificação de crise da forma social capitalista, velhos projetos políticos ressurgem como se novos fossem. É verdade que nesses mesmos momentos, a possibilidade de retomada ou de recuperação de projetos efetivamente revolucionários também se coloca. Contudo, para identificar essa possibilidade há que se apropriar do acervo teórico produzido e das diretrizes elaboradas por importantes intelectuais, que conjugaram dialeticamente a tarefa do pensar e do agir revolucionários com vistas a extinção da sociedade baseada na divisão de classes e na propriedade privada dos meios de produção. Nesse sentido, pensar a dinâmica de produção e de reprodução das relações sociais capitalistas no contexto de crise estrutural do capital e identificar como essa processualidade determina as relações entre Es- tado e sociedade, na perspectiva que aqui se assume, só é possível à luz 45 JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário das contribuições teóricas e políticas que foram deixadas como legado por intelectuais, como: Karl Marx, Friedrich Engels, Vladimir Ilyich Ulianov – Lênin, György Lukács, István Mészáros, bem como por Ruy Mauro Marini, Florestan Fernandes, Jacob Gorender, Clóvis Moura, entre outros. Uns analisaram o modo de produção capitalista, em sua totalidade, outros, no rastro dessas contribuições, se preocuparam em pensar as particularidades das economias periféricas e dependentes, como as da América Latina. É nesse campo teórico marxista que se localiza para apresentar reflexões sobre o Estado como mediação do capital para induzir as políticas de precarização do trabalho na realida- de brasileira nos anos recentes. Por certo, essas reflexões, ainda que assentadas em uma perspectiva de totalidade, encontram limites muito objetivos, tendo em vista as rá- pidas mudanças que se processam no sociometabolismo do capital em face da sua crise estrutural (MÉSZÁROS, 2000), complexificadas, no tempo presente, pela existência de uma situação emergencial de saúde pública em todo o Planeta, ocasionada pela propagação da COVID-19. Essa questão, como se verá, teve e tem impactos sobre as condições e relações de trabalho, impondo aos(às) trabalhadores(as) inúmeros prejuízos em relação ao acervo de direitos historicamente conquistado, mas não só isso. No contexto da pandemia, os detentores dos meios de produção escancaram os valores e a lógica da sociabilidade burguesa na medida em que a vida dos trabalhadores é relegada a um segundo plano diante da defesa da necessidade de manutenção das atividades produtivas, o que requer que grandes contingentes de trabalhadores(as) se subme- tam aos riscos do contágio e da morte prematura. Isso, de um lado, evidencia um fato sempre encoberto pelos capitalistas: o de que sem o acionamento da força de trabalho não se produz absolutamente nada. Por outro, mostra aos(às) trabalhadores(as) que a negação da relação de troca da força de trabalho na forma de mercadoria, ou seja, que a abstenção da venda dessa força àqueles que detêm os meios para pro- duzir põe em colapso o modo de produção capitalista. A necessidade de problematizar a função mediadora do Estado, na relação entre capital e trabalho, como indutor de políticas, que fazem 46 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário avançar a precarização das condições e relações de trabalho é o que motiva a expor, aqui, algumas reflexões que se têm formulado em face dos estudos sobre o trabalho, considerando especialmente a realidade daquelas condições e relações no Brasil, com o advento da “reforma” trabalhista de 2017. A hipótese de trabalho é que o Estado capitalista, enquanto mediação na relação entre capital e trabalho, ao se deparar com os limites objetivos impostos pelo processo de desenvolvimento dessa forma social e histórica, caracterizadores da crise sociometa- bólica do capital (MÉSZÁROS, 2000), encontra na intensificação da precarização do trabalho uma forma de se contrapor à queda das ta- xas de lucro e, nesse intento, contraria pressupostos da programática neoliberal. Em sendo assim, do ponto de vista metodológico, aqui, se fará uso do acervo teórico da tradição marxista a partir de estudos das produ- ções de um conjunto de autores(as) afiliados a essa tradição, bem como de dados de fontes secundárias que permitem fazer algumas análises sobre a atuação do Estado, na relação entre capital e trabalho, como indutor de políticas que fazem avançar na precarização das condições e relações de trabalho no Brasil. Assim, no presente artigo, em um primeiro momento, são apresen- tadas algumas questões teóricas com o objetivo de pensar a relação entre Estado e sociedade no contexto de crise estrutural. Nesse intento, procura-se apontar alguns elementos que revelam essa dinâmica na realidade brasileira. Na sequência são apresentados dados e fatos que demonstram a função indutora no Estado no processo de precarização do trabalho, tendo como observatório as condições e relações laborais no Brasil, com ênfase nos períodos que se seguiram a aprovação da contrarreforma trabalhista de 2017. Por derradeiro, se expõe ao leitor algumas sínteses, à guisa de conclusão. 47 JAIME hILLEShEIME RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário 1 As relações entre Estado e sociedade em face da crise estrutural do capital: os “pressupostos” neoliberais em questão Não se pretende, aqui, discorrer sobre a crise do capital, haja vis- ta que se toma como pressuposto que não há capitalismo sem crise. Contudo, coaduna-se com as análises de Mészáros (2011), para quem se está enfrentando uma crise estrutural, cuja severidade impõe ao ca- pital se deparar com seus próprios limites. Trata-se de uma crise geral e duradoura1, material e ideológica, que afeta toda a humanidade e faz escancarar as contradições insuperáveis do sistema do capital, que co- locam em questão sua viabilidade. É nesse bojo que os preceitos demo- cráticos (ainda que de espectro burguês) aparecem como obstáculos às respostas que o sistema do capital precisa formular para enfrentar essa crise de natureza estrutural. Mészáros (2002), ao analisar o tripé que sustenta o sociometabo- lismo do capital, afirma que o capital não possui mais a força expan- sionista que gozou durante o século XX, em busca do crescente mais- -valor. O trabalho assalariado, a força de trabalho como mercadoria especial se encontra em uma crescente precarização estrutural em que a proteção social reduziu a poucos assalariados. O Estado, pelas orien- tações neoliberais, está quase totalmente privatizado, o que comprova que os direitos sociais e trabalhistas são agendas que não cabem mais no século XXI. Nas palavras de Hirsch (2010, p. 96), é importante ter em conta que o “[...] nexo entre capitalismo, Estado [...] e democracia é mesmo es- treito, porém de nenhum modo lógico e estruturalmente necessário. 1 Lukács, em sua obra Para uma ontologia do ser social, adverte que a partir dos anos 1960, a humanidade entrou em uma “situação mundial de crise geral e duradoura”, um momento da história humana em que são utilizados todos os meios (ideologias) possíveis de nega- ção da compreensão do ser e, por conseguinte, da emancipação humana. Para o filósofo húngaro, a tendência geral desta época, em última análise, “pretende a eliminação definiti- va de todos os critérios objetivos de verdade, procurando substituí-los por procedimentos que possibilitem uma manipulação ilimitada” (LUKÁCS, 2012, p. 42-43). 48 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Ele permanece altamente contraditório e controverso”. Ao encontro dessa advertência, a análise de Harvey (2014) também ensina: Tal como no passado, o poder do Estado é com frequência usado para impor [...] processos mesmo contrariando a vontade popu- lar. A regressão dos estatutos regulatórios destinados a proteger o trabalho e o ambiente da degradação tem envolvido a perda de direitos. A devolução de direitos comuns de propriedade obtidos graças a anos de dura luta de classes (o direito a uma aposenta- doria paga pelo Estado, ao bem-estar social, a um sistema nacio- nal de cuidados médicos) ao domínio privado tem sido uma das mais flagrantes políticas de espoliação implantadas em nome da ortodoxia neoliberal (HARVEY, 2014, p. 123). O Estado, por meio de suas estruturas jurídico-políticas, que fun- cionam sob a hegemonia do capital, é uma mediação essencial para se compreender a dinâmica das relações sociais. Essas estruturas burgue- sas são usadas para elaborar, traduzir, operacionalizar e até fiscalizar a aplicação de um conjunto de regras que, no processo de complexifi- cação social, parece ter uma autonomia absoluta da base material, da dinâmica econômica. Por isso, em um primeiro momento, parece que as relações entre capital e trabalho são subordinadas às normativas le- gais editadas por meio do aparato estatal e não que estas sejam deter- minadas por aquelas, considerando aí a dominação do capital sobre o trabalho no âmbito da produção e, também, e por consequência da esfera política. Contudo, essas relações são marcadas pelo antagonis- mo de interesses entre esses dois polos. E, em momentos de intensifi- cação dos efeitos das crises capitalistas, o que importa ao capital é eco- nomizar nas condições de trabalho à custa dos(as) trabalhadores(as) (MARX, 2017). Ademais, a produção e a reprodução do capital não existem sem que essas condições, em geral, sejam sempre as mais aviltantes possíveis, a despeito dos avanços científicos e tecnológicos observados ao longo do processo civilizatório que, em tese, poderiam amenizá-las. Em uma das passagens, em que aborda as condições de trabalho, Marx é cate- 49 JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário górico ao afirmar que a produção capitalista é “[...] uma dissipadora de seres humanos, de trabalho vivo, uma dissipadora não só de carne e sangue, mas também de nervos e cérebro” (MARX, 2017, p. 116). E, ao avançar em sua análise, conclui que é a forma social e histórica do trabalho engendrada pela sociabilidade do capital que “[...] gera essa dissipação de vida e de saúde dos trabalhadores” (MARX, 2017, p. 116). Isso, contudo, nem sempre é suportado pela classe trabalhadora que, ao se perceber como classe diante do capital se põe em lutas defenden- do pautas políticas e econômicas com vistas a responder suas necessi- dades sociais. Nesse sentido, pressiona o Estado para agir sobre suas demandas, inclusive, naquelas relacionadas às condições e relações de trabalho. Sem ilusões sobre a natureza dessa preocupação estatal com a “prote- ção” à classe trabalhadora, Marx (2013, p. 373-374, grifo do autor) asse- vera que: Para ‘se proteger’ contra a serpente de suas aflições, os traba- lhadores têm de se unir e, como classe, forçar a aprovação de uma lei, uma barreira social intransponível que os impeça a si mesmos de, por meio de um contrato voluntário com o capital, vender a si e a suas famílias à morte e à escravidão. No lugar do pomposo catálogo dos ‘direitos humanos inalienáveis’, tem-se a modesta Magna Charta de uma jornada de trabalho legalmen- te limitada, que ‘afinal deixa claro quando acaba o tempo que o trabalhador vende e quando começa o tempo que lhe pertence’. Quantum mutatus ab illo! [Quanto se mudou do que era!]. A despeito das importantes conquistas dos trabalhadores ao longo da história, em diferentes contextos, o que essa mesma história mostra é que essas conquistas limitadas aos parâmetros determinados pelas relações sociais de produção capitalistas, nunca são perenes porque não corroem, definitivamente, a razão primeira da existência da pró- pria luta: a propriedade privada dos meios de produção. E, por mais que se possa imaginar avanços dentro do espectro da emancipação política nos marcos da sociedade burguesa, no processo de complexi- 50 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário ficação social há algo que não se altera quando as lutas dos(as) traba- lhadores(as) miram somente uma melhor distribuição da riqueza ou a justiça social. Como diz Marx (2008, p. 253), a distribuição, antes de ser efetiva- mente distribuição de produtos, é distribuição dos meios e dos instru- mentos da própria produção. Portanto, nessa perspectiva, a riqueza só pode ser distribuída de maneira equânime – de acordo com as neces- sidades humanas – quando for destruída a propriedade privada dos meios de produção e as relações sociais da ordem do capital2. Ademais, conforme já indicava Engels, ao estudar a situação da classe trabalha- dora na Inglaterra, nas primeiras décadas do século XIX, ao burguês: [...] não lhe causa mossa que seus operários morram ou não de fome, desde que ganhe dinheiro. Todas as relações humanas são subordinadas ao imperativo do lucro e aquilo que não propicia ganhos é visto como algo insensato, inoportuno e irrealista (EN- GELS, 2010, 308). No decurso histórico da forma social capitalista, dada sua natureza, os interesses antagônicos entre capital e trabalho sempre colocaram esses dois polos da relação em disputa. É por isso que o acesso dos(as) trabalhadores(as) à riqueza socialmente produzida sempre foi prece- didopor processos de mobilização e organização, de confronto com os interesses do capital. E, nesta relação, o Estado sempre se põe como mediação necessária que, ao se mostrar como o espaço da vontade uni- versal e acima dos interesses particulares das classes, tem o poder de dizer o direito dos indivíduos e das coletividades. Esse direito é, por- 2 Marx (2012, p. 28) é enfático nas condições em que proporcionam às autênticas necessida- des humanas: “Numa fase superior da sociedade comunista, quando tiver sido eliminada a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, a oposição entre trabalho intelectual e manual; quando o trabalho tiver deixado de ser mero meio de vida e tiver se tornado a primeira necessidade vital; quando, juntamente com o desenvol- vimento multifacetado dos indivíduos, suas forças produtivas também tiverem crescido e todas as fontes da riqueza coletiva jorrarem em abundância, apenas então o estreito hori- zonte jurídico burguês poderá ser plenamente superado e a sociedade poderá escrever em sua bandeira: De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!”. 51 JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário tanto, um direito burguês e, como tal, ao fim e ao cabo, sempre atende aos interesses da classe econômica e politicamente dominante. Para Lukács (2013, p. 233): “[...] o direito, surgido em virtude da existência da sociedade de classes, é por sua essência necessariamente um direito de classe: um sistema ordenador para a sociedade que corresponde aos interesses e ao poder da classe dominante”. Quando se pensa, especificamente, no ordenamento edificado para regular as relações entre capital e trabalho, os chamados direitos traba- lhistas, tem que ter em mente que, de um lado, tais direitos significam a incorporação de inegáveis necessidades dos trabalhadores como parte do substrato da cidadania burguesa, mas, por outro, também signi- ficam, segundo Bernard Edelman (2016), a captura do potencial re- volucionário da classe obreira. Pode-se dizer que, em grande medida, a incorporação das demandas dos trabalhadores nas malhas da insti- tucionalidade burguesa possibilita um maior controle sobre a classe, por meio da judiciarização e da judicialização dos conteúdos das lutas dos trabalhadores o que, não raras vezes, culminam em processos des- mobilizadores e em reformismos que travam o avanço no processo de construção da consciência de classe. Esse processo de “legalização” da classe trabalhadora, nos termos usados por Eldeman (2016), reconhece a sua existência em face do capital, mas coloca parâmetros para o exercício de seus direitos, ao mesmo tempo, em que preserva o poder repressivo do Estado, quando essa classe age fora desses parâmetros. Assim, seguindo os rastros das sínteses construídas por Eldeman (2016), pode-se dizer que o direito do trabalho é um direito burguês como qualquer outro, mas que faz referência a determinados regramentos de relações de trabalho no âm- bito da sociabilidade regida pelo capital, materializados em contratos de trabalho. Não é, portanto, um direito que pertence ao trabalho, por- que é um direito que expressa relações de produção hegemônicas nesta ordem social. Sua tarefa central, do ponto de vista do capital, é promo- ver a integração dos trabalhadores ao modo de produção capitalista e de suas respectivas legalidades. Nas palavras do mesmo autor, muitas vezes, o direito do trabalho – tratado por ele também como “direito operário” – é concebido como se “[...] não fosse o direito burguês para 52 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário o operário! E como se, [...] milagrosamente, o direito do trabalho fosse uma zona juridicamente ‘protegida’!” (EDELMAN, 2016, p. 19, grifo do autor). Nessa direção, Edelman assevera que: [...] se por um lado podemos nos orgulhar do ‘poder’ jurídico que a classe operária conquistou, por outro podemos pergun- tar de que natureza é esse poder, visto que é jurídico. Dito de outro modo, se a lei (burguesa) dá ‘poder’ à classe operária, de que poder exatamente se trata? [...] só pode tratar-se do ‘poder burguês’, outorgado por um ‘direito burguês’; porque concorda- mos facilmente que o direito burguês não pode dar nada além do ‘poder burguês’, isto é, uma forma específica de organização e de representação, estruturada pelo direito, precisamente, e que o reproduz (EDELMAN, 2016, p. 19, grifo do autor). No corolário dessa precisa análise sobre os limites do direito na sociedade capitalista, não se despreza ou menospreza a importância do direito do trabalho como tática de luta para uma estratégia rumo à construção de outra sociabilidade, especialmente em um contexto caracterizado por uma economia periférica e dependente, como a bra- sileira. Ainda que nos quadrantes de uma luta defensiva, a problema- tização da recente contrarreforma trabalhista não parece uma tarefa menor no espectro da luta de classes. Não por acaso, a mais recente contrarreforma trabalhista levada a cabo no Brasil se pauta no argu- mento ideológico-político de que a luta de classes não existe3 e que não se coaduna com os “novos tempos”, marcados por relações de parce- rias entre trabalhadores e capitalistas. Sob a égide do discurso de con- ciliação de classes, os trabalhadores brasileiros passaram a enfrentar 3 Conforme alega Rogério Marinho, ideólogo e relator da “reforma” trabalhista que desca- racterizou o direito do trabalho, “Os amantes da ideia venenosa da luta de classes, certa- mente, não verão com bons olhos a modernização. Ora, a visão negativa sobre o empre- gador dificulta geração de empregos e cria custos com burocracia e processos judiciais desnecessários” (MARINHO, 2018, p. 43). 53 JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário mais intensamente um processo de desmonte do sistema de proteção social, em particular no âmbito do direito do trabalho. A ofensiva do capital sobre o trabalho caminhou a passos largos, es- pecialmente, a partir do golpe jurídico-parlamentar ocorrido em 2016, quando após a instalação do Governo de Michel Temer, as proposições de desmonte da legislação laboral ganharam materialidade. A política de austeridade imposta aos trabalhadores desde então tem implicado a conformação de um novo modelo de Estado, no qual não têm espa- ço as garantias fundamentais pactuadas nos períodos precedentes ca- racterizados pelo processo de democratização da sociedade brasileira, ainda que tal processo tenha sido marcado por um transformismo que, em parte, ajuda a explicar a fragilidade da capacidade de manutenção de tais garantias. 2 A mediação essencial do Estado na precarização do trabalho no Brasil O avanço do capital sobre os direitos laborais, nos períodos mais recentes da história brasileira, mostra cabalmente que nessa ordem so- cial as conquistas da classe trabalhadora não são perenes. A cada novo ciclo de crise econômica essas são desmontadas como forma de criar contratendências para minimizar a queda das taxas de lucro do capital, o que resulta em intensos processos de precarização das condições de vida e de trabalho. Esse processo ganhou contornos mais perversos quando, pela mediação do Estado, a pandemia da COVID-19, no Bra- sil (e no Mundo) serviu para justificar o avanço do capital sobre os direitos laborais, como se verá. No que se refere à reforma trabalhista de 2017, instituída especial- mente pelas Leis nº 13.429 (que autorizou a chamada terceirização plena) e nº 13.467 (que alterou significativamente a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT), os críticos a essa “reforma” afirmam que essa, além de modificar intensamente o direito laboral positivado, também repercutiu enormemente no campo ideológico e até psicológico: 54 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário [...] passando a ideia de que o trabalhador já não precisa de pro- teção, e reforçando a falsa tese de que o Direito do Trabalho pre- judicao Direito ao Trabalho. Por essas e por outras, e tal como acontece, hoje, no plano das armas, o Poder Público autoriza tacitamente o empregador a praticar mais violências ainda, des- cumprindo ainda mais a lei (VIANA; KREIN, 2019, p. 15-16). Em grande síntese, concorda-se com Jorge Luiz Souto Maior (2018, p. 3), para quem a “reforma” trabalhista de 2017: [...] nos conduz ao caos social para a satisfação econômica ime- diata de alguns poucos e, sobretudo, do capital estrangeiro. Ten- ta-se superar a crise do capitalismo nos países centrais, aumen- tando a extração de ganhos sobre o trabalho nas periferias. E, para isso é imprescindível rebaixar – e até eliminar – a rede de proteção social alcançada nos poucos anos em que, em alguns desses países, experimentou, mesmo que precariamente, uma democracia social. Por isso, o direito laboral só pode ser entendido no âmbito das re- lações de classes e, na particularidade brasileira, há que se considerar a condição de uma economia dependente e periférica, que subjuga os trabalhadores a relações de trabalho ainda mais precárias com vistas a compensar as perdas da burguesia com as remessas de mais-valor para os países centrais, conforme indicam estudos desenvolvidos por Marini (2000); Valencia (2008) e Bambirra (2013). Um dos mais fortes argumentos para levar a cabo a “reforma” tra- balhista idealizada sob o princípio da prevalência do “negociado sobre o legislado” era o de que, ao desonerar a folha de pagamento e tornar as normas mais flexíveis, inúmeros empregos poderiam ser criados. Contudo, não foi o que se verificou nos períodos que se seguiram4. De 4 Mudando significativamente o discurso, os intelectuais orgânicos ao capital logo começa- ram a ter que contra-argumentar as críticas que vieram do movimento sindical dos tra- balhadores. E, nesse sentido, é ilustrativa a declaração do sociólogo José Pastore, assessor da Confederação Nacional da Indústria (CNI): “É desnecessário teorizar sobre o óbvio. A 55 JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PENAD Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os níveis de desemprego, nos dois primeiros anos, após a contrarreforma trabalhista, não se alteraram positivamente, mantendo-se praticamente nos mesmos patamares, conforme se pode constatar nos dados sistematizados: Tabela – Taxa de desemprego, por trimestre, entre 2017 e 2020 ANO TRIMESTRES JAN/MAR ABR/JUN JUL/SET OUT/DEZ 2015 7,9 8,3 8,9 8,9 2016 10,9 11,3 11,8 12 2017 13,7 13 12,4 11,8 2018 13,1 12,4 11,9 11,6 2019 12,7 12 11,8 11 2020 12,2 - - - Fonte: PNAD Contínua (IBGE). Elaboração: Jaime Hillesheim e Ricardo Lara (2020). De acordo com os dados da PENAD, no último trimestre de 2019 havia, no Brasil mais de 11,6 milhões de pessoas desempregadas e mais outras 65,4 milhões fora da força de trabalho, sendo essa compreen- dida por aquelas pessoas desalentadas, subocupadas, etc.. Os estudos também mostram que a taxa de informalidade, no ano de 2019, alcan- çou o patamar de 41,1%, superior aos anos imediatamente precedentes: 39% (2006), 40,2 (2017) e 40,8 (2018). Em onze unidades da federação geração de emprego depende basicamente do crescimento econômico e dos investimentos públicos e privados. É exatamente o contrário do que ocorreu no Brasil no período de 2015-2018. O grave desequilíbrio das contas públicas esterilizou a capacidade do Governo de investir em vários setores, em especial em infraestrutura, que, como se sabe, é fonte de muitos empregos diretos e indiretos. [...] [A] recessão devastou o Brasil e derrubou todos os indicadores sociais. E não há sinais de retomada no curto prazo. As expectativas para o aumento do PIB em 2018 caíram de 3% em janeiro para 1,3% atualmente. A economia brasileira perdeu sua vitalidade, com exceção do setor agropecuário, que continua dinâmi- co, mas que gera poucos novos empregos. Tudo isso se refletiu no mercado de trabalho. A reforma trabalhista não tem nada que ver com o desemprego e a informalidade reinantes” (PASTORE, 2018, p. 1). 56 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário essa taxa foi superior a 50% da população ocupada. As taxas de in- formalidade repercutem diretamente no percentual de trabalhadores contribuintes da Previdência Social que, no mesmo ano de 2019, ficou em 62,9%. Desde o ano de 2016, o Brasil vem registrando uma queda do número de contribuintes em relação à totalidade da população ocu- pada5. Além disso, conforme demonstram estudos desenvolvidos6 por es- tes autores, os processos de negociações tabulados em face da preva- lência do negociado sobre as regras laborais instituídas pela legislação significaram a precarização das relações e condições de trabalho por inúmeras razões, entre as quais se podem destacar: prevalência dos acordos coletivos de trabalho sobre as convenções coletivas de traba- lho, estímulo à negociação individual e criação de mecanismos para tal, extinção da ultratividade de normas coletivas, entre outras. O pa- tronato, com o advento da contrarreforma, passou a pautar demandas prejudiciais aos(às) trabalhadores(as) relativas à composição da jor- nada de trabalho (especialmente, redução do intervalo intrajornada), fracionamento de férias, acordos individuais, instituição de contratos de trabalho intermitente, bem como de trabalho por tempo parcial, de teletrabalho e de autônomo exclusivo. Além disso, os empregadores pautaram, de maneira significativa, a terceirização de atividades. Os estudos referidos, realizados no âmbito do Estado catarinense, eviden- ciam outra questão bastante presente nos instrumentos coletivos de negociação que diz respeito à rescisão contratual. Neste particular, a pressão é para que as homologações não sejam mais acompanhadas pelas entidades sindicais dos trabalhadores. Em estudo realizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), no primeiro semestre de 2018, os pesquisadores apontavam que, em 5 Dados disponíveis em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-a- gencia-de-noticias/noticias/26913-desemprego-cai-em-16-estados-em-2019-mas- -20-tem-informalidade-recorde. Acesso em: 11 mai. 2020. 6 Trata-se de pesquisa que vem sendo realizada desde o ano de 2018 sobre o acompanha- mento de negociações coletivas no Estado de Santa Catarina, a partir de empresas e/ou setores econômicos selecionados sob o título: As novas bases legais das relações trabalhis- tas: um estudo de convenções e acordos coletivos de trabalho celebrados em Santa Catarina a partir de 2017. 57 JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário 55% das negociações coletivas analisadas, os(as) trabalhadores(as) não conquistaram nenhuma cláusula por eles(as) propostas7. Esse dado corrobora para o argumento que a partir da contrarreforma trabalhista de 2017 as negociações coletivas passaram a ter um caráter predomi- nantemente regressivo para a classe trabalhadora. As novas modalidades de contratos de trabalho trazidas pela con- trarreforma são, do ponto de vista dos trabalhadores, marcadas pela precarização já em sua gênese. Apontados como alternativas capazes de enfrentar os altos índices de informalidade e ampliar as possibili- dades de empregabilidade, os contratos de trabalho intermitente, autô- nomo exclusivo, por tempo parcial e remoto logo passaram a substituir e/ou precarizar, ainda mais, a espécie até então típica de contratação – por tempo indeterminado. Ao se analisarem os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CA- GED), a partir de 2017 se percebe o aumento das novas modalidades de contrato. Aqui se destacam os índices de contratos de trabalho in- termitente e por tempo parcial: Tabela – Frequência de contratos de trabalho intermitente e parcial entre os anos de 2017 e 2019 ANO MODALIDADES DE CONTRATO TOTAL INTERMITENTE PARCIAL FREQ.% FREQ. % FREQ. % 2017 7.367 0,02 141.257 0,31 46.281.590 100 2018 54.883 0,12 162.175 0,35 46.702.668 100 2019 136.180 0,29 181.069 0,38 47.262.294 100 Taxa a.a (%) 329,9 - 13,2 - 1,1 - Fontes: RAIS (2018) e CAGED (2020). Crescimento estimado com base no estoque da RAIS de 2017 e saldos anuais do CAGED de 2018 e 2019. Sistematização: Vicente L. Heinen (NECAT/UFSC). Os dados compilados mostram o exponencial crescimento das for- mas precárias de contratação da força de trabalho a partir do momento 7 Ver pesquisa: Acompanhamento das negociações coletivas pós reforma trabalhista, 2018. Relatório disponível em: file:///C:/Users/Usuario/Downloads/acompanhamento-das-ne- gociacoes-coletivas-pos-reforma-trabalhista.pdf. Acesso em: 12 mai. 2020. 58 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário em que essas foram instituídas. Há que se observar que esses tipos de usos da mercadoria de força de trabalho já eram observados na rea- lidade fática. O trabalho em tempo parcial já tinha previsão legal no ordenamento jurídico brasileiro e, com a contrarreforma trabalhista de 2017, foi significativamente ampliado. Já o contrato de trabalho in- termitente, de certa maneira, existia travestido de contrato de trabalho “por empreitada”, “por safra”, “por tarefa”, “por peça”, todos positivados. O que fez o Estado por meio do seu poder de jurisdição, portanto, foi legitimar formas precárias de trabalho para conferir mais “segurança jurídica” em favor do capital. Em direção contrária às promessas anunciadas pelo Governo e pelo empresariado, a contrarreforma trabalhista de 2017 não reduziu o de- semprego e nem aumentou o grau de formalização. Os períodos que se seguiram foram evidenciando que a referida contrarreforma foi usada como mecanismo para construir contratendências à queda das taxas de lucro. E, quando no final de 2019 e início do ano de 2020 a crise capitalista foi amplificada em virtude da pandemia da COVID-19, a classe trabalhadora no Mundo e, particularmente no Brasil, teve, mais uma vez, seu já frágil acervo de direitos atacado pelo capital e mediado pelo Estado que, na defesa dos interesses do capital, desconsidera o pressuposto neoliberal da não intervenção. A não concretização das promessas que deram sustentação para a narrativa da necessidade de modernização das relações laborais mate- rializada na contrarreforma trabalhista fez com que o capital, por meio da força política, que ocupa o Poder Executivo Federal a partir de 2019, lançasse mão de mais uma tática nefasta. Com a edição da Medida Provisória (MP) 905, de 11 de novembro de 2019, foi instituído o “con- trato de trabalho verde e amarelo”8. De iniciativa do Governo Bolsona- ro, essa MP tinha a pretensão de facilitar a abertura de novos postos de 8 Essa MP perdeu a validade quando da publicação da MP 955, de 20 de abril de 2020, em virtude das dificuldades de o Governo pactuar acordos no âmbito do Senado (na Câmara dos Deputados já havia sido aprovado) que pudessem viabilizar a votação no prazo legal para a continuidade de sua vigência. Apesar disso, por meio do Ministro da Economia, Paulo Guedes, desde logo o Governo anunciou que mandaria brevemente ao Congresso nova proposta com o mesmo teor. 59 JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário trabalho para jovens entre 18 e 29 anos de idade. Seriam estes, segundo esta normativa, trabalhadores de “segunda categoria”, não merecedo- res da proteção trabalhista instituída constitucionalmente, haja vista que esta modalidade de contrato poderia ser adotada para o recru- tamento, por até 24 meses, de trabalhadores cujo salário não poderia ser superior a 1,5 salários nacional, com percentual de depósitos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) reduzido (2%), par- celamento do 13º salário ao longo do ano, 20% de multa sobre o FGTS em virtude de rescisão contratual (e não 40%), poder de negociação individual sobre questões objetos de pactuação coletivas, restrições ao direito de indenização em caso de acidente de trabalho, entre outras cláusulas que corroboram para o processo de desfiguração do direito laboral brasileiro, intentado principalmente a partir do golpe jurídico- -parlamentar de 2016. Nessa mesma direção, com uma realidade ainda mais complexa em face de uma crise sanitária decorrente da pandemia da COVID-19, o Estado brasileiro, novamente fazendo uso da sua prerrogativa de dizer o direito, por meio da MP 927, de 22 de março de 2020, instituiu regras flexibilizadoras que, segundo as autoridades governamentais, teriam o condão de preservar os empregos e a renda dos trabalhadores no período da referida pandemia. Essa MP autorizou a pactuação de acor- dos individuais escritos entre trabalhadores e os empregadores, tendo estes predominância sobre quaisquer outros instrumentos normativos, legais e negociais. Além disso, com o advento dessa MP, os emprega- dores puderam fazer uso de um conjunto importante de mecanismos flexibilizadores de regras trabalhistas sob o auspício de manutenção dos empregos e da renda dos trabalhadores: o teletrabalho (trabalho remoto ou qualquer outro tipo de trabalho realizado a distância); a an- tecipação de férias individuais; a concessão de férias coletivas; o apro- veitamento e a antecipação de feriados; o banco de horas; a suspen- são de exigências administrativas em segurança e saúde no trabalho; o direcionamento do trabalhador para qualificação; e o diferimento do recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), conforme disposto no art. 3º da norma supracitada (BRASIL, 2020a). 60 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Na sequência foi editada a MP 936, de 1º de abril de 2020, que insti- tuiu o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda. De acordo com a disposição do art. 3º da referida MP, para garantir os objetivos do programa as medidas a serem implementadas com- preendiam: o pagamento de Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda; a redução proporcional de jornada de trabalho e de salários; e a suspensão temporária do contrato de trabalho (BRASIL, 2020b). Ao se analisar criticamente essas medidas, ainda que de forma mui- to breve, entende-se que o conteúdo dessas permite evidenciar exata- mente o papel do Estado burguês. Este, que deveria estar presente para preservar o direito à vida, especialmente, daqueles que são hipossufi- cientes nas relações de trabalho, em face de uma crise humanitária de proporções só vistas nos períodos pós-guerras, socorre o lado mais forte dessa relação: o capital. Essa proteção unilateral aos proprietários dos meios de produção chegou a ser tão violenta que na MP 927, em sua redação original, em seu art. 18, havia a previsão para que o empre- gador pudesse suspender os contratos de trabalho por até 4 meses, sem a contraprestação pecuniária (salário) ao(à) trabalhador(a), salvo se o empregador quisesse lhe oferecer algum valor a título de “auxílio”!9. A despeito da sua revogação, fato é que essa possibilidade já estava asse- gurada pelo art. 2º da MP 927, já que autorizava a realização de acordos individuais entre trabalhadores e empregadores. E, como disse Marx (2013, p. 309) “[e]ntre direitos iguais, quem decide é a força” e, no caso, a força é o poder econômico. No fim das contas, essas prerrogativas legais delegadas ao capital pela mediação do Estado demonstram que o preceito neoliberal da não interferência estatal nas relações sociais, nas quais se inscrevem as relações de produção, só são proclamadas quando as ações são volta- das para a proteção social da classe trabalhadora, fruto da luta política dessa classe. Contudo, o Estado capitalista é, como sempre foi, instân- cia essencialmente necessária para a reprodução do capital, a despeito daquele preceito. Essa política de desfiguração dos direitos laborais se 9 Esse dispositivo foi revogado no dia seguinte à publicação da MP 927 pela MP 928. 61 JAIME hILLEShEIME RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário articula a determinações mais amplas que pavimentam o caminho para a continuidade e expansão da acumulação capitalista. E, nesse sentido, a atuação do Estado brasileiro demarca seu caráter neoliberal na me- dida em que promove as reformas defendidas por esta programática, a despeito das contradições que fragilizam seus próprios fundamentos. Para Fontes (2010), o neoliberalismo pode ser compreendido como uma fase ou um período de transição para o que a autora denomina de capital-imperialismo. A autora afirma que os países da periferia capi- talista se colocam em uma posição de subalternidade, mas em parce- ria com o grande capital internacional, e sofrem processos intensos de expropriações primárias e secundárias, o que garante a recomposição das taxas de lucro das principais potências que integram as economias centrais. Se o neoliberalismo tem demonstrado seu fracasso do ponto de vis- ta econômico, do ponto de vista político-ideológico, esta programática tem demonstrado fôlego e garantido a implementação de estratégias anticíclicas de crise do capital, que têm na re-regulamentação da prote- ção social e, particularmente, das conquistas jurídicas laborais a prin- cipal forma de enfrentamento das quedas das taxas de lucro. No Brasil, esse processo vem ocorrendo desde os anos de 1990 e seu ritmo variou de acordo com as forças políticas que ocuparam o poder, mas todos os Governos desde a chamada democratização do país se alinharam às orientações dos organismos internacionais pautadas na política neoli- beral. Contudo, como já mencionado, com o golpe jurídico-parlamen- tar de 2016, os ataques ao acervo de direitos dos trabalhadores têm se mostrado muito mais intenso e perverso. Portanto, as contrarreformas em curso no Brasil levadas a cabo sob a hegemonia do capital financeiro têm viabilidade, porque outras pretéritas criaram as condições para isso. Essa processualidade histó- rica estabelece a relação entre neoliberalismo e capital-imperialismo (FONTES, 2010). Assim, a política neoliberal é uma fase na qual o capital-imperialismo se impõe diante das conquistas da classe traba- lhadora, por meio de processos de expropriações econômicas, sociais e políticas. E, os agentes dessas formas de expropriações, novamen- 62 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário te encontram no Estado capitalista uma mediação indispensável para realizá-las. Considerações finais De acordo com as exposições se pode dizer que no horizonte da so- ciabilidade do capital, os trabalhadores não poderão vislumbrar “tem- pos melhores”, o que repõe a tarefa revolucionária anunciada por Marx à classe trabalhadora. Os indicadores publicados em pleno contexto da crise sanitária e política (e econômica) no Brasil mostram que as dificuldades de manutenção da vida para os trabalhadores serão ainda muito maiores. De acordo com os números, vem crescendo o número de desempregados e estão em ascensão as subcontratações, a informa- lidade e o trabalho autônomo, este último estimulado pela narrativa falaciosa do empreendedorismo. Setores importantes da economia es- tão em franca retração, como é o caso da indústria de transformação, construção civil, serviços domésticos e alojamento e alimentação. Isso tudo em um contexto de recessão que é reconhecido pelo próprio Fun- do Monetário Internacional (FMI) como o mais intenso desde os anos de 1929. De acordo com esse mesmo órgão, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deverá, em 2020, sofrer uma queda de aproximada- mente 6%. Essa é a maior queda desse indicador desde 1901. Projeções mostram que as taxas de desemprego serão bastante ele- vadas. Dados da PNAD Contínua mostram que, no 1º trimestre de 2019, a taxa de desemprego era de 12,7% e no mesmo trimestre, em 2020, essa taxa era de 12,2%, o que à primeira vista desmonta os argu- mentos. Contudo, como já demonstrado, mesmo após a aprovação da contrarreforma trabalhista em 2017, que teria o condão de criar empre- gos, nos anos imediatamente subsequentes, isso não ocorreu e, conco- mitantemente, os empregos gerados o foram com base em condições e relações de trabalho mais precárias. De todo modo, no Nordeste, no 1º trimestre de 2020, a taxa de desemprego chegou ao patamar de 15,6% e o Sudeste em 12,4%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e 63 JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário Estatística (IBGE, 2020)10. Além disso, esses dados dizem respeito à realidade do mercado de trabalho brasileiro no contexto pré-pandê- mico. Projeções com base em pedidos de Seguro Desemprego no mês de abril de 2020 indicavam que as taxas de desocupação no Brasil, em 2020, atingirão o patamar de 18% da força de trabalho11. Por fim, nesse cenário, o Governo Federal, por meio das políticas de Estado, adota uma tática que pouco atende as necessidades dos tra- balhadores, pois os recursos e medidas adotadas, mais uma vez, socor- rem o grande capital. Isso restou claro quando, em reunião ministerial polêmica, o Ministro da Economia Paulo Guedes afirmou que o Go- verno perderia dinheiro salvando pequenas empresas12. Essa não foi a programática adotada, por exemplo, no velho Continente. A Comissão Europeia passou a orientar os países da União Europeia a flexibilizarem as regras orçamentárias até então seguidas, bem como aquelas relativas aos auxílios estatais. Para proteger os empregos, a referida Comissão propôs um novo instrumento de solidariedade chamado SURE13, com vistas a manter o rendimento dos trabalhadores e prestar socorro às empresas em dificuldades. Por meio do SURE, a União Europeia des- tinou cerca de 100 milhões de euros para que seus objetivos fossem alcançados14. De todo modo, tanto lá como cá se constata a interven- 10 Dados disponíveis em: https://www.ibge.gov.br/explica/desemprego.php. Acesso em: 14 mai. 2020. 11 Dados disponíveis em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/05/10/desemprego- -pode-ser-o-maior-dos-ultimos-25-anos-preveem-analistas.ghtml. Acesso em: 20 mai. 2020. 12 É importante destacar que, segundo dados do CAGED, são as pequenas empresas as maio- res geradoras de postos de trabalho no Brasil. Em 2019, as micro e pequenas empresas foram responsáveis pela abertura de aproximadamente 731 mil vagas formais. Já as médias e grandes empresas, no mesmo ano, fecharam 88 mil postos com carteira assinada. Mais, ao se ampliar o lastro histórico desses indicadores se chega a números bastante dispares. Tomando como referência o período entre 2007 a 2019, as pequenas empresas criaram 12,4 milhões de vagas. No mesmo lapso de tempo, as médias e grandes empresas fecharam 1,5 milhão de postos de trabalho. Disponível em: https://spbancarios.com.br/05/2020/o-des- prezo-de-paulo-guedes-pelo-banco-do-brasil-e-pelas-pequenas-empresas. Acesso em: 15 mai. 2020. 13 Esta iniciativa integra a chamada Comissão Especial sobre os Desafios Políticos e os Re- cursos Orçamentais para uma União Europeia Sustentável (SURE), existente desde 2013. 14 Informações disponíveis em: https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/pt/ IP_20_582. Acesso em: 21 mai. 2020. 64 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário ção forte e direta do Estado para salvaguardar os interesses do capital, sempre orientada para flexibilizar e/ou suprimir direitos sociais, que compõem a herança da luta dos trabalhadores pelo acesso à riqueza por eles próprios produzida. Referências ALEGRETTI, L. PIB do Brasil vai cair cinco vezes mais que média dos emer- gentes em 2020, prevê FMI. BBC News Brasil em Londres, em 14 abr. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52282293. Acesso em: 13 mai. 2020. AMARAL, M. S.; CARCANHOLO, M. D. Superexploração da força de tra- balho e transferência de valor: fundamentos da reprodução do capitalismo dependente. In: FERREIRA, C.; OSORIO, J.; LUCE, M. (org.). Padrão de re- produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2012. BAMBIRRA,V. O capitalismo dependente latino-americano. 2.ed. Floria- nópolis: Insular, 2013. BRASIL. Medida Provisória n.º 927, de 22 de março de 2020a. Dispõe sobre as medidas trabalhistas para enfrentamento do estado de calamidade públi- ca reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, e da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do Coronavírus (COVID-19), e dá outras providências. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/Mpv/mpv927.htm. Aces- so em: 13 mai. 2020. __________. Medida Provisória n.º 936, de 1º de abril de 2020b. Institui o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda e dispõe so- bre medidas trabalhistas complementares para enfrentamento do estado de calamidade pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de mar- ço de 2020, e da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do Coronavírus (COVID-19), de que trata a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, e dá outras providências. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=FMr21Zoq_RM. Acesso em: 13 mai. 2020. __________. Medida Provisória n.º 905, de 11 de novembro de 2019. Institui o Contrato de Trabalho Verde e Amarelo, altera a legislação trabalhista, e dá 65 JAIME hILLEShEIM E RICARDO LARA ◀ Voltar ao sumário outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2019-2022/2019/Mpv/mpv905.htm. Acesso em: 11 mai. 2020. __________. Lei n.º 13.429, de 31 de março de 2017a. Altera dispositivos da Lei n.º 6.019, de 3 de janeiro de 1974, que dispõe sobre o trabalho temporário nas empresas urbanas e dá outras providências; e dispõe sobre as relações de trabalho na empresa de prestação de serviços a terceiros. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13429.htm. Acesso em: 23 out. 2019. __________. Lei n.º 13.467, de 13 de julho de 2017b. Altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei n.º 5.452, de 1º de maio de 1943, e as Leis n.º 6.019, de 3 de janeiro de 1974, 8.036, de 11 de maio de 1990, e 8.212, de 24 de julho de 1991, a fim de adequar a legislação às novas relações de trabalho. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2017/lei/L13467.htm. Acesso em: 23 out. 2019. EDELMAN, B. A legalização da classe operária. São Paulo: Boitempo, 2016. ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boi- tempo, 2010. FERNANDES, F. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 5. ed. São Paulo: Globo, 2005. FONTES, V. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. 2ª ed. Rio de Janeiro: EPSJV/Editora UFRJ, 2010. LARA, R. História e Práxis Social: introdução aos complexos categoriais do ser social. Bauru: Canal 6, 2017. (Projeto Editorial Práxis). LUKÁCS, G. Para uma ontologia do ser social II. São Paulo: Boitempo, 2013. 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Londrina: Práxis; Bauru: Canal 6, 2008. 67◀ Voltar ao sumário CAPÍTULO 3 Os efeitos da pandemia do novo Coronavírus e as imposições mundiais sobre a América Latina1 Ruteléia Cândida de Souza Silva Suzana Przybyszewski Barros Apontamentos Iniciais Se a crise que assolou o Mundo capitalista em 2008 era, inegavel- mente, a mais forte desde a Grande Depressão e as consequências de sua natureza ainda mais devastadoras, a sociedade foi surpreendida, em 2020, com a inesperada crise da COVID-19 (ou Sars-CoV-2)2. E se as crises registradas na história recente – em especial, as de 1929 e 2008 – foram crises econômicas próprias do capital, a atual se coloca em um campo distinto, uma vez que o detonador desta não tem origem a par- tir dos fundamentos da economia capitalista. Embora existam profundas e estruturais vinculações e seus efeitos devastadores possam superar, no campo econômico e social, o que ha- 1 Os dados e análises contidas neste ensaio fazem parte dos estudos realizados no âmbito da pesquisa Trabalho, pobreza e desigualdade social na atual geopolítica latino-americana, sob a coordenação da Professora Ruteléia Cândida de Souza Silva. 2 Sars-CoV-2 significa: severe acute respiratory syndrome coronavirus 2. Em tradução livre: Síndrome Respiratória Aguda Grave do Coronavírus 2. Nome oficial escolhido pela Orga- nização Mundial da Saúde (OMS) para identificar em estudos científicos a COVID-19 ou o Coronavírus 2: doença infecciosa causada por um novo agente do Coronavírus – não identificado anteriormente em humanos – que causa graves infecções respiratórias. Des- coberta em dezembro de 2019, após casos registrados na China, ainda está submetida a pesquisas científicas para detalhamento, identificação e comprovação de possíveis trata- mentos e vacinação. 68 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário via ocorrido anteriormente em períodos de crises econômico-finan- ceiras. Apenas para exemplificar, mesmo que os Estados Unidos (EUA) tenham recriado 9.279 milhões de postos de trabalho entre os meses de maio, junho e julho de 2020 – número muito acima das expectativas e que reduziu a projeção da taxa desemprego de 14,7% para 10,2% –, en- tre as semanas de 14 de março e 15 de agosto de 2020 foram registrados 57,4 milhões de desempregados(as), que solicitaram auxílio-desempre- go, média de 2,49 milhões de pedidos por semana. O fato é que a COVID-19, além da gravidade sobre a vida huma- na, considerando seu potencial de contágio e elevadaletalidade, tem causado impactos econômicos e sociais imediatos, que já se mostram irreversíveis, como a elevação das taxas de desemprego e, por extensão, o aprofundamento da pobreza e da desigualdade. E ainda não se sabe se, após o período de maior turbulência, serão processadas mudanças nas grandes cadeias produtivas globais, ou até mesmo se avanços na proteção social serão registrados. No entanto, apesar de todo o cenário pessimista que se avizinha, o mais presumível é que não sejam registradas grandes rupturas. Ao contrário, o que se mostra provável é a intensificação das mudanças já em curso desde as últimas décadas do século passado, com apro- fundamento da ordem ultraliberal, do hegemonismo norte-americano, da influência econômica chinesa e do conservadorismo, que vem se alastrando nas décadas iniciais do século XXI. O que se tem desenhado, com maior clareza, está relacionado aos países periféricos que aprofundam sua submissão aos organismos in- ternacionais e ao seu receituário baseado em políticas de austeridade fiscal e nas medidas de ajuste diante das dívidas imediatas da pandemia, ou seja, nesses países, além de toda gravidade sanitária, certamente, a conta do enfrentamento do Coronavírus aprofundará ainda mais as investidas sobre o trabalho, a miséria e a desigualdade social, enquanto todos os esforços se voltam para manter intocada a taxa de lucro do ca- pital. Condições essas que, na América Latina, são agravadas pelo seu caráter de dependência, pelos sistemas regressivos de proteção social e pela transferência do fundo público para os grandes conglomerados econômicos e financeiros. 69 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário E a América Latina já amarga alguns dos efeitos avassaladores dessa pandemia, com destaque para os números expressivos de vítimas fatais e de contaminados pelo Sars-CoV-2, com destaque para Brasil, Peru, Mé- xico, Colômbia, Chile, Argentina, Bolívia e Equador. E o mais previsível é que mesmo em plena pandemia da COVID-19 – cuja velocidade de sua expansão tem sido acompanhada pela rápida elevação das taxas de desem- prego – e diante da necessidade de intervenção estatal, os Governos ultra- liberais continuem reforçando a pressão para avançar nas reformas admi- nistrativas, tributárias e trabalhistas, de modo a desonerar empresas, em especial, os grandes conglomerados empresariais e o sistema financeiro. Um exemplo são as medidas adotadas pelo Governo brasileiro no combate aos efeitos dessa pandemia: enquanto o Auxílio Emergencial3 tem previsão de pagamento de 05 (cinco) parcelas de R$ 600,00 (seis- centos reais), alcançando, aproximadamente, um total de R$ 254 bi- lhões4; enquanto o socorro aos bancos já anunciado pelo Banco Cen- tral supera a casa de R$ 1.216 trilhão, o que representa em torno de 16,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Ao mesmo tempo que o Ministro da Economia tem ampliado a sua defesa para a retomada das discussões em torno das reformas administrativa e tributária5, e 3 Benefício financeiro destinado aos(às) trabalhadores(as) informais, microempreendedo- res(as) individuais (MEIs), autônomos(as) e desempregados(as) durante a pandemia da COVID-19, maiores de 18 anos, ou mães com menos de 18 anos, pertencentes à famílias com renda mensal por pessoa de até meio salário mínimo (R$ 522,50), ou renda familiar total de até três salários mínimos (R$ 3.135,00). Sendo inelegíveis aqueles(as): com empre- go formal ativo; pertences à famílias com renda familiar mensal superior a três salários mí- nimos ou a meio salário mínimo por pessoa; que estejam recebendo seguro desemprego, benefícios previdenciários, assistenciais ou de transferência monetária federal, exceto o Programa Bolsa Família; com rendimentos tributáveis na declaração do Imposto de Renda de 2018 acima de R$ 28.559,70. A mulher provedora de família monoparental tem o direito de receber o valor do Auxílio em dobro, R$ 1.200,00, mesmo que a família tenha outro(a) trabalhador(a) elegível. 4 E mesmo com a ampliação do número de parcelas, com redução do valor de R$ 600,00 (seiscentos reais) para R$ 300,00 (trezentos reais), muito provavelmente o recurso total não ultrapassará a casa dos 400 bilhões. 5 A primeira com efeitos regressivos para o conjunto de servidores públicos e a última que pode aprofundar e facilitar ainda mais a concentração de renda. Um exemplo é que o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 45/2019 da reforma tributária, que tramita no Congresso Nacional brasileiro, sequer aponta para a construção de um sistema tributário progressivo, que prioriza a tributação da renda e do patrimônio. 70 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário encaminhado um conjunto de Medidas Provisórias, que aprofundam a precarização das leis trabalhistas. Sob tais condições, a dominação imperialista tem intensificado a luta violenta pela supremacia do capitalismo em si mesmo, constituin- do uma realidade destrutiva, sobretudo, no âmbito de destituição de direitos sociais e da superexploração do trabalho, que produz e repro- duz desigualdades, violências e pobreza. E se está fazendo referência a uma dinâmica de sociedade que produz incessantemente a máxima desigualdade e que, em tempos de pandemia do novo Coronavírus, em todos os quadrantes, já impõem resultados catastróficos para as mas- sas trabalhadoras e o conjunto das classes subalternas. E diante do espectro que passa a circundar a vida de milhões de trabalhadores(as) – medo do desemprego, da precarização e, em es- pecial, medo de não suprir as condições necessárias para sua sobre- vivência e de sua família –, o capital encontra as condições propícias para forçar esses(as) trabalhadores(as) a aceitar, não apenas a inten- sificação dos ritmos de produção, como também todo tipo de recuo, aniquilamento e mercantilização de direitos e garantias sociais. Como essas características já eram intensificadas na América Latina, diante do alastramento do conservadorismo e do ultraliberalismo econômico; agora, mediante o confronto com uma pandemia de proporções incal- culáveis, segmentos populacionais, que já se encontravam em extrema penúria, são lançados em um completo abismo. O que se agrava porque essa região segue sendo apresentada pelos diferentes organismos internacionais como aquela que tem a pior dis- tribuição de renda do mundo, superando o Sul da Ásia e a África Sub- sariana. E enquanto há uma grande concentração de riqueza nas mãos de uma minoria – detentora de bens e capital –, parcela majoritária da população permanece destituída da riqueza socialmente produzida, naturalizando nessa região a relação contraditória entre socialização da produção e apropriação privada da riqueza produzida. Diante dessa complexidade, pensar o futuro que se avizinha para essa região, após a pandemia do novo Coronavírus, não é uma tarefa fácil, sobretudo, para não incorrer no risco de alcançar meras espe- culações. Considerando esse desafio, o exercício teórico que se pro- 71 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário põe ao longo deste ensaio parte de uma discussão que, para além de elementos consagrados na leitura bibliográfica do passado, apresenta informações atuais que possam dar pistas sobre a grande incógnita que paira sobre a América Latina, tanto no que diz respeito à dominação capitalista sobre essa região, como também sobre o aprofundamento da pobreza e da desigualdade, a geopolítica latino-americana e a pola- rização das potências mundiais. Nesse sentido, o momento que segue a esta parte introdutória se dedica ao debate sobre o hegemonismo norte-americano e a influência econômica externa sobre os países da América Latina. Para, em segui- da, debater sobre alguns dados relativos aos efeitos da pandemia da COVID-19 nessa região, considerando algumas medidas interestatais e a dinâmica capitalista que se impõe ao conjunto de países latino-a-mericanos. 1 O hegemonismo norte-americano e o poderio econômico chinês: faces da dominação capitalista na América Latina no século XXI A crise que tem assolado o mundo capitalista nos anos 2000 conduz a uma longa viagem no tempo, uma vez que essa se gestou vinculada a uma das mais importantes viradas das últimas décadas: o poderio econômico, político e ideológico que se desenhou a partir da crise dos anos de 1970. Como registra o historiador Lundestad: In the 1960s the United States was having difficulties with its ba- lance of payments, in the 1970s with its balance of trade – for the first time since 1883 – and in the mid 1980s, the US in fact became a net debtor country. […]. In fact in its period of impe- rial greatness, America’s economic growth slipped behind that of almost every major Western powers. In 1950, Canada, France, West Germany, Italy and Japan had economies corresponding to respectively 6, 11, 11, 6, and 7% of the US gross national product. 72 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário In 1975 these percentages had increased to 10, 16, 19, 9 and 23. Only that old imperial power, Britain, experienced slower gro- wth than the United States. (The British GNP constituted 14% of the US GNP in 1950; in 1975 this had fallen to 12) (LUNDESTAD, 1986, p. 273-274).6 De acordo com as análises do historiador norueguês (LUNDESTAD, 1986), desde a década de 1970 o declínio da liderança dos EUA sobre outras potências não ocorre somente no campo militar, mas alcança, particularmente, a esfera econômica. O que demandou dos Estados Unidos a redefinição de suas relações econômicas. Desde essa época foram definidas as novas políticas e regras responsáveis pela elevação exponencial da riqueza e do poder norte-americano, que deixa a con- dição de um dos principais credores internacionais, para a condição de grandes devedores da economia mundial. E por mais contraditório que possa se apresentar, a dívida e a capa- cidade de endividamento transformaram os Estados Unidos no motor da economia mundial desde aquela década, ou seja, dotado de uma compulsividade desenfreada, transformou-se em uma verdadeira má- quina de acumulação de riqueza e poder. E todo esse cenário ganhou propulsão com o fim do acordo de Bretton Woods7, quando se consa- 6 Tradução livre: “Nos anos 1960, os Estados Unidos estavam tendo dificuldades com o seu balanço de pagamentos, na década de 1970 com o seu balanço comercial – pela primeira vez desde 1883 – e em meados da década de 1980, os Estados Unidos já haviam se tornado um devedor líquido. […]. De fato, mesmo durante o seu período de grandeza imperial, o crescimento econômico da América ficou abaixo do crescimento de quase todas as prin- cipais potências Ocidentais. Em 1950, Canadá, França, Alemanha Ocidental, Itália e Japão correspondiam respectivamente a 6, 11, 11, 6 e 7% do Produto Nacional Bruto [PNB] dos Estados Unidos. Em 1975, esses percentuais aumentaram para 10, 16, 19, 9 e 23. Apenas a antiga potência imperial, a Grã-Bretanha, experimentava um crescimento mais lento do que os Estados Unidos. (O PNB Britânico correspondia a 14% do PNB dos EUA em 1950; em 1975, esse número havia caído para 12)”. 7 Nome dado ao Acordo assinado em 1944, na cidade homônima nos Estados Unidos, pelos países aliados que definiram as bases que regeriam a política econômica global após a Se- gunda Guerra Mundial. Esse Acordo foi responsável por estabelecer o sistema de gerencia- mento econômico internacional, definindo regras para as relações comerciais e financeiras entre os países industrializados e ações para recuperação e expansão do comércio interna- cional, seja por meio de concessão de empréstimos – simplificando a transferência de di- 73 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário grou a substituição do padrão dólar-ouro pelo novo sistema monetário internacional de dólar flexível, cujo lastro se concentra, em última ins- tância, no poder financeiro estadunidense diante da sobrevalorização do dólar, e em seus títulos da dívida pública. Assim como pela adoção de políticas de desregulação dos mercados financeiros anglo-america- nos, líderes do processo de globalização financeira do final do século passado. Data também dessa época que os Estados Unidos e China, à sombra da derrota norte-americana no Vietnã em 1973, negociaram uma nova parceria econômica (incluindo a compra de títulos da dívida pública dos EUA pelos chineses), parceria esta que se transformou na gran- de locomotiva da economia mundial no início do século atual (XXI). Logo, o que poderia sinalizar para uma grande derrocada norte-ame- ricana serviu de alavanca, contribuindo para que o Mundo assistisse uma mudança profunda da economia mundial, com o aumento expo- nencial do poder estadunidense. A China também desponta como importante centro da economia internacionalizada e, se no início dos anos 1990, a sua participação no PIB mundial era irrisória, a partir dos anos 2000, a China assume o papel de fábrica do Mundo, alcançando taxas de crescimento do PIB na casa dos dois dígitos anuais, com média de crescimento de 10,4% entre os anos 2000 e 20088. E graças ao dinamismo e a extensão de seu mer- cado interno, assume a condição de articulador das demais economias mundiais, expandindo sua influência sobre os países periféricos, como parte de suas estratégias econômico-políticas. nheiro entre as nações –, seja por meio da utilização dos fundos. Também estabeleceu um reordenamento que se materializou sob a égide absoluta da supremacia norte-americana, além de: firmar um compromisso putativo de convertibilidade do ouro em dólar a um preço fixo, ou seja, taxas de câmbio fixo, mas ajustáveis, tendo como referência o valor de US$ 35 por onça de ouro; estabelecer o controle dos fluxos de capital internacional; traçar as diretrizes de criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Banco Mundial) e do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) que, desde 1994, passou a chamar Organização Mundial do Comércio. Com o fim desse Acordo, o padrão dólar-ouro dá lugar ao padrão dólar-flexível, criando as condições propicias para a supremacia das finanças em sua face fictícia. 8 Somente as exportações chinesas cresceram a uma taxa média anual de 20,0% entre os anos 2000 e 2007. 74 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Pinto (2011) registra que a expansão econômica chinesa, associada ao seu processo de industrialização e de modernização, e ao aumento da parcela da renda mundial, afetou diretamente a economia em todo o Globo, tanto no que se refere à oferta quanto à demanda em esca- la mundial. O que fez com que a China passasse a desempenhar um novo papel na dinâmica global. Além de se tornar a fábrica do Mundo, ganhando destaque como o principal produtor e exportador mundial de produtos de tecnologia da informação e de bens de consumo in- dustrial – com uso intensivo de força de trabalho e tecnologia voltada, principalmente, aos mercados americano e europeu; a China se tornou um grande mercado consumidor: de máquinas e de equipamentos de alta tecnologia e produtos acabados vindos da Alemanha, Japão e Co- reia do Sul; e de produtos básicos ou commodities (petróleo, minerais, produtos agrícolas, entre outros) vindo de países africanos, latino-a- mericanos e asiáticos. Atuando no campo da oferta e da demanda, a China provocou transformações significativas na economia mundial, de modo mais incisivo a partir dos anos 2000, como o: aumento sig- nificativo nos preços internacionais de commodities; pequena elevação nos preços de produtos manufaturados; melhoria nos termos de troca dos países exportadores de produtos primários. Com a chegada deste novo século (XXI), Estados Unidos e China assumem, definitivamente, a dianteira da dinâmica econômica global, mantendo forte grau de interconexãoartigos. No debate sobre a recuperação econômica, após a possível saída da crise pós-pandemia, a perspectiva é desanimadora, como apontam de- talhadamente alguns capítulos. Os economistas mais críticos sinalizam para uma recuperação que, metaforicamente, pode ser comparada à letra K, com a parte inferior significando uma lenta recuperação para os segmentos empobrecidos e a superior, uma rápida e ampliada re- composição da situação financeira pré-pandemia para os segmentos da elite empresarial e, principalmente, financeira. No plano político, o principal e assustador fato é o reconhecimento de não se tratar de uma crise entre posições de esquerda e direita dentro de um quadro democrático, ainda que frágil e não consolidado, em al- guns países, mas sim uma crise da própria democracia, anunciada por Dardot e Laval (2016) e reconhecida e analisada por Adam Przeworski (2020)4. E a crise do século XXI apresenta particularidades distintas de 3 GRASSI, Estela. Prólogo. In: MINTEGUIAGA, Analía; AGUILAR, Paula Lucia. La dispu- ta por el bienestar en América Latina en tiempos de asedio neoliberal. Ciudad Autóno- ma de Buenos Aires: CLACSO, 2020, p. 09-20. 4 PREZWORSKI, Adam. Crises da democracia. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. 8 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO outras anteriores pelo fato de ocorrer dentro das instituições tradicio- nais, justamente as responsáveis pelas garantias constitucionais. Esse comportamento institucional é acertadamente denominado por Przeworski como “autoritarismo furtivo”, ganhando espaços as re- formas incrementais pouco visíveis, e menos ainda reconhecidas pela população em geral. Ainda que se considere a fragilidade persistente das instituições e dos ritos democráticos, o autor alerta para a fragili- dade de análises que desconsideram as distinções entre os países. Pr- zeworski e Wallerstein5, em 1988, já prenunciavam a encruzilhada do capitalismo pós-queda do muro de Berlin, ou seja, ou o capitalismo cumpriria suas promessas originais de igualdade ou seria capturado por crises constantes e incontroláveis. Até o momento, as crises vêm sendo frequentes, embora controláveis a partir da concentração expo- nencial da renda e sob pena de expansão das desigualdades sociais e das ameaças ambientais e geopolíticas. O que os autores não previram foi a ameaça que surgiria exatamente dentro de forças políticas alheias ao mainstrean dos países Ocidentais democráticos e capitalistas. São os líderes populistas, que acabam sendo eleitos com uma narrativa supos- tamente antiestado, autoritários e intolerantes, modelando um futuro incerto para as nações. A terceira, mas não menos importante, razão a qualificar a coletâ- nea se localiza no trânsito entre as abordagens sobre as críticas fun- dantes da desigualdade e o seu afunilamento para o Serviço Social, em duas vertentes: as políticas sociais setoriais e o impacto sobre a di- mensão do trabalho em si e na cultura profissional. Nós, assistentes sociais, estamos vivendo um momento de retrocesso civilizatório no Brasil que, até certo ponto ingenuamente, acreditávamos tivesse sido superado, ou seja, após o período de possibilidades de expansão de direitos sociais com a instituição de sistemas tendentes a ampliar os sistemas universais de saúde e assistência social e as medidas protetivas para segmentos populacionais, muitas vezes, invisíveis para a socieda- de em geral, como as populações originárias, LGBT, moradores de rua e vítimas de violência doméstica e racial, retorna-se à concepção de 5 PREZWORSKI, Adam; WALLERSTEIN, Michael. Capitalismo democrático na encruzi- lhada. São Paulo: CEBRAP: Novos Estudos, 1988. 9 VERA MARIA RIBEIRO NOGUEIRA intervenção estatal de início do século XX. O pacto social que orien- tou a Constituição brasileira de 1988, embora tenha criado as bases para uma intervenção estatal compatíveis com os ideais de democra- cia, justiça e igualdade desejáveis à época perdeu sua força instituin- te. A conformação subsequente do aparelho estatal, e das instituições responsáveis pela implementação das deliberações constitucionais não foram e não estão sendo suficientes para barrar as medidas autoritárias e retrógradas em todos os setores do Governo atual. E ao trabalho profissional fica a tarefa de responder às demandas populacionais e institucionais decorrentes desse novo cenário. Os tex- tos finais da coletânea apontam perspectivas para se pensar a profissão, a partir das condições objetivas de trabalho dos assistentes sociais, na formulação e gestão das políticas sociais e os impactos na cultura po- lítica. Torna-se, assim, importante refletir sobre a ação profissional no ciclo possível das políticas sociais em sua dinâmica de concretização, materializada em serviços, ações e programas. Esta afirmação decor- re do debate recente sobre a implementação das decisões políticas ao indicar que esse momento não pode ser visto como um resultado li- near das grandes decisões. Atores políticos responsáveis pela imple- mentação das políticas, face a diversidade de interesses no plano local modelam, em parte, a materialização das propostas programáticas das políticas setoriais. A consideração acima, aliada à compreensão de ação profissional se constituir em trabalho em serviços, com as particularidades e o poten- cial, que essa apreensão acarreta, pode ser um caminho para aprofundar a competência profissional em três vertentes: a primeira, na formula- ção correta das possibilidades, ainda que restritas, de intervenção nesse cenário desolador; a segunda, no recorte de novos objetos de estudo sobre as consequências perversas das programáticas governamentais; e a terceira, em manter a chama do projeto ético-político via respos- tas coletivas. Na atual conjuntura brasileira, com o rompimento incre- mental do círculo virtuoso posto pela Constituição Federal, pautado na cidadania e garantia de direitos, é crucial fortalecer as competências profissionais no campo da implementação e análise das políticas. 10 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO Este preâmbulo dá a medida da contribuição da Coletânea que hora chega ao público e se constituí em um alento em tempos sombrios, e instigante para a busca de caminhos profissionais a serem trilhados. Vera Maria Ribeiro Nogueira Outubro de 2020 SUMÁRIO Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 Autoras(es) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 CAPÍTULO 1 Crise do capital, restauração conservadora, ultraneoliberal e desfinanciamento dos Direitos Sociais: a Assistência Social em questão . . . . . . . . . . . . . . . 24 Maria Carmelita Yazbek CAPÍTULO 2 Crise, Estado e precarização do trabalho . . . . . . . . . . . . . . . 44 Jaime Hillesheim Ricardo Lara CAPÍTULO 3 Os efeitos da pandemia do novo Coronavírus e as imposições mundiais sobre a América Latina . . . . . . . . 67 Ruteléia Cândida de Souza Silva Suzana Przybyszewski Barros CAPÍTULO 4 Agronegócio: salvação da economia latino- americana em tempos de pandemia? . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 Márcia Cristina Verdego Gonçalves Ruteléia Cândida de Souza Silva CAPÍTULO 5 Da grande epopeia capitalista à pandemia e ao pandemônio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113 Renato Tadeu Veroneze CAPÍTULO 6 Notas sobre a relação entre cidade e Estado na contemporaneidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133 Betina Ahlert CAPÍTULO 7 Lucro acima de tudo, repressão para cima de todos: tendências para as políticas sociais no Brasil após crise de 2008 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .entre suas economias. E após o fracasso das guerras do Afeganistão e do Iraque, acompanhada pela desvalorização do dólar mediante a crise financeira de 2007 e de 2008, mais uma vez voltou a se cogitar o “colapso” e a “crise final” da hege- monia norte-americana, os resultados apresentados apontaram que se está longe da derrocada dos Estados Unidos da liderança capitalista. E o maior sinal do poderio norte-americano é que durante a segunda dé- cada do século XXI, sua economia elevou a participação no PIB mun- dial, de 23% para 25%, enquanto seu mercado de capitais cresceu 250%. Como afirmam Pinto e Gonçalves (2014), ainda que o crescimen- to da economia da China tenha sido associado ao desenvolvimento de sua indústria e ao seu rápido processo de modernização, parte do seu dinamismo decorre da integração da produção entre este país e os 75 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário Estados Unidos no eixo sino-americano. Embora o desenvolvimento da economia chinesa tenha sido responsável por efeitos significativos no desempenho da economia mundial, sendo protagonista de um dos eixos estruturantes da globalização, essa economia não substitui os Es- tados Unidos como locomotiva da economia global. Ao contrário, o que se registra é a crescente interdependência entre as duas principais potências mundiais. Ainda, segundo Pinto e Gonçalves (2014), as análises não deixam dúvidas: se, por um lado se tem o aumento do poder econômico da China; por outro se tem a manutenção de um alto poder econômico estadunidense, mesmo após os efeitos da crise de 2008. Desse modo, os Estados Unidos ainda estão na dianteira da indústria de processa- mento; controlam a moeda internacional; e possuem um mercado in- terno com forte poder de compra. Enquanto a China, embora tenha vivenciado, nesse novo século, o ápice de sua fase de modernização, também se deparou no momento após crise de 2008, com o esgarça- mento gradual de seu modelo econômico, reduzindo, para níveis cada vez maiores, a sua taxa de crescimento, passando de 13% em 2007 para 6,9% em 2019. Os anos 2000 também colocaram em evidência as tensões regis- tradas em torno da disputa acirrada entre China e os Estados Unidos, que se agrava nos dias atuais diante do posicionamento do presidente Donaldo Trump de declará-la como seu principal rival estratégico. E no centro dessa disputa, os EUA também se viram forçados a alterar o conjunto de sua política econômica, passando a incentivar a exporta- ção de capital; a exercer sua influência em Continentes e Regiões como a África e a América Latina; e constituir um mercado interno ainda mais forte, capaz de promover maior estabilidade e autonomia, e alçar o país à condição de novo elo da cadeia imperialista. E com essas tensões se avolumando e que colocam declaradamente esses dois países em polos opostos de uma intensa e declarada guerra comercial, os EUA elevaram, em 2018, a tarifa de importação de apro- ximadamente mil produtos chineses – cereais, químicos, combustíveis e materiais de construção, entre outros –, de 10% para 25%. Em re- presália, a China impôs retaliações, aplicando o mesmo percentual de 76 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário tarifas sobre produtos agrícolas e maquinários norte-americanos. O que favoreceu as relações comerciais entre China e os países da Amé- rica Latina. No entanto, ainda que em curto prazo, a relação comercial entre China e os países latino-americanos tenha se intensificado diante dessa guerra comercial – em especial com a Argentina e o Brasil –, os preços da soja, do cobre, do minério de ferro e de outras matérias-pri- mas, sofreram grande retração diante da baixa demanda chinesa. E a consequência não poderia ser outra: ao invés de crescimento ex- pressivo, as maiores economias latino-americanas se depararam com quedas ou, no máximo, com resultados insignificantes em 2019. O que aconteceu não apenas com Brasil e Argentina, mas também com Chile, Peru, Colômbia e México. Apenas a título de exemplificação, o PIB em 2019: cresceu na Colômbia, 3,3%; no Peru, 2,16%; no Brasil e no Chile, 1,1%; enquanto o México registrou queda de 0,1% e a Argentina queda de 2,2%. Por outro lado, o hegemonismo norte-americano tem se imposto à América Latina, como nos demais estágios do imperialismo, a partir de relações internacionais de poder que se apropriam de instrumentos, como a violência econômica direta: [...] a corrupção, a subversão e a guerra. E o principal instru- mento político é sempre a instalação de um governo local pró- -imperialista. A colaboração das elites do país dominado é fun- damental, bem como, no capitalismo contemporâneo, a ação de instituições internacionais, como a Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Economicamente, o objetivo dessa dominação é a extra- ção de ‘excedentes’ pela imposição de preços baixos aos recursos naturais e investimentos no exterior, seja ele em bolsa ou o in- vestimento externo direto (DUMÉNIL; LÉVY, 2014, p. 19, grifos dos autores). Como resultado desse novo padrão de reprodução do capital vi- gente na América Latina se tem o reforço de suas particularidades e 77 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário determinações históricas marcadas pelo desenvolvimento desigual e o caráter dependente frente às economias centrais, o que também tem acentuado a superexploração da força de trabalho e exigido, mais uma vez, a readequação do Estado latino-americano a esse novo padrão de reprodução do capital. No âmbito da América Latina, todo esse cená- rio se enquadra em um movimento de retomada da valorização do capital que tem imposto para essa região: [...] um ajuste estrutural que fez com que a economia voltasse a um padrão de inserção na divisão internacional do trabalho caracterizado pela especialização de sua estrutura produtiva, e da pauta exportadora, em produtos primários, baseados em recursos naturais, com baixas produtividades, em média, e ainda com forte presença de capital estrangeiro. Em poucas palavras, um tripé que acentua os mecanismos de transferência de valor e, portanto, a dependência de nossas economias (CARCANHOLO, 2014, p. 14, grifos nossos). No interior da dinâmica apresentada por Carcanholo (2014), fra- ções das burguesias internas, entrelaçadas ao processo internacional de concentração de capital – dinâmica essa que Fontes (2010) nomina de formas de capital pornograficamente entrelaçadas – passam a contar com o apoio estatal para impulsionar “[...] processos de internaciona- lização de capitais a partir de suas próprias bases locais, mesmo incor- porando significativa presença de capitais forâneos9” (FONTES, 2010, p. 206). E como já havia afirmado Fernand Braudel (1987, p. 43): “O capitalismo só triunfa quando se identifica com o Estado, quando é o Estado”. Não bastasse estar submetida a esse novo padrão de reprodução do capital, às tensões entre seus maiores parceiros comerciais, ao hegemo- nismo norte-americano, e à influência econômica chinesa, a América Latina, como as demais regiões do Globo, é arrastada para o centro de um tsumani chamado Sars-CoV-2, cujos impactos se traduzem em 9 Estrangeiro. 78 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário números estratosféricos de contaminados e, em mais mortes, mais de- semprego, mais pobreza e mais desigualdade. Para agravar, conta com países como o Brasil – na pessoa do Presidente Jair Messias Bolsonaro10 – e a Nicarágua – com o Presidente Daniel Ortega11 –, que encabeçam o quarteto de negacionistas da pandemia, ao lado do Turquemenistão12 – país da Ásia Central – e da Belarus (a outrora Bielo-Rússia, no Leste europeu)13. No entanto, será que diante da extensão e da profundidade da crise resultante da pandemia da COVID-19, se está diantedo “começo do fim”? Ainda que a pandemia esteja provocando efeitos arrasadores so- bre a economia, a política, a dinâmica social e às condições de vida e de trabalho em todo Mundo, o que se tem desenhado até aqui revela que esta crise também não será a terminal do capitalismo. Isto é, ainda não se anuncia grandes rupturas geopolíticas, econômicas, sociais e políti- cas dentro do sistema mundial. Não sendo provável, portanto, que se esteja no momento final do capitalismo. No entanto, aprofunda-se uma dinâmica cada vez mais conflituo- sa, de nacionalismo econômico, protecionismo, corrida tecnológica e 10 O seu negacionismo científico tem reduzido a pandemia à gripezinha, resfriadinho e à histeria da imprensa. Quando não minimiza seus efeitos a partir de afirmações como: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, como ocorreu no dia 28 de abril, quando o Brasil registrou o recorde diário (à época) de 474 óbitos, ultrapassando o número total de casos da China. Tomando o caos como método, além de radicalizar a banalização do conheci- mento, procura, a qualquer custo, minimizar os efeitos da pandemia. E faz uso da mesma estratégia de Joseph Goebbels (1897-1945), ministro da Propaganda e da Informação Públi- ca da Alemanha Nazista – de que uma mentira contada mil vezes, torna-se verdade –, assim, disseminando a desinformação procura forjar a qualquer custo a “verdade” pregada pelo seu negacionismo científico. 11 Considera que a pandemia não passa de um exagero. Afirma que está protegido por Deus e a principal medida adotada contra o novo Coronavírus foi uma manifestação que reuniu dezenas de milhares de seus militantes contra a expansão da pandemia. Encontra apoio da vice-presidente (que também é sua esposa), Rosario Murillo, que acredita que a Nicarágua tem uma arma climática e que o Coronavírus não chega ao país, por causa do calor. 12 O presidente Gurbanguly Berdymukhamedov proibiu a população citar as palavras Co- ronavírus e COVID-19; e a fazer uso de máscaras, podendo ser preso(a) aquele(a) que for encontrado(a) usando uma. Também proibiu a divulgação de informações relativas ao assunto em todo território nacional. 13 O presidente Aleksander Grigórevich Lukashenko defende o uso de vodka e gelo para curar a Covid-19. 79 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário científica, um novo que pode se agravar, sobretudo, pela possibilidade de: reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos; aprofundamento da guerra comercial com a China; e fortalecimento de Governos anti- democráticos de ultradireita, que legitimam cada vez mais aquele Esta- do de exceção, capitaneado por Governos declaradamente de direita no campo político e liberal na esfera econômica e, alguns destes, também terrivelmente conservadores. 2 Entre incertezas e o medo: os efeitos da pandemia do novo Coronavírus e as imposições mundiais sobre a América Latina Em 07 de março de 2020, com o registro na Argentina da primei- ra vítima fatal do novo Coronavírus no Continente latino-americano, certamente, o prognóstico mais pessimista não dava conta da catástro- fe que marcaria os próximos meses. Até porque, os países da América Latina detinham a vantagem de vivenciar a pandemia com atraso em relação à Ásia e à Europa. No entanto, rapidamente, pode-se consta- tar que tal vantagem em nada adiantaria diante da tamanha fragili- dade dos sistemas sanitários e das instituições, sobretudo, as políticas, aquelas protagonizadas por Governos oportunisticamente totalitários. Situação que tem se agravado diante da extensão da pobreza e da de- sigualdade, que assola essa região e que coloca uma parcela expressi- va da população à mercê de comportamentos, direcionamentos e, em alguns casos, desprezo de algumas autoridades nacionais às medidas sanitárias e orientações científicas. E, em meio à pandemia, qualquer ganho ainda existente em termos de proteção social – fruto da árdua luta de trabalhadores(as) – deteriora-se. O fato é que o epicentro da pandemia se deslocou da Europa para os Estados Unidos e, desde junho de 2020, se estendeu para países la- tino-americanos, com maior gravidade em terras brasileiras. As cifras oficiais retratam um cenário em que o Brasil, mesmo com o Governo insistindo na estratégia da subnotificação e ocultação dos dados, ocu- 80 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário pa a segunda posição no ranking de país com maior registro de infec- tados em todo o Mundo, com 3.505.097 casos confirmados, segundo dados consolidados pelos veículos e pelo consórcio de veículos de im- prensa em 20 de agosto de 202014. Enquanto o número de óbitos chega a 112.423, ocupando a segunda posição entre os países com maior nú- mero de vítimas fatais. O que coloca o país apenas atrás dos EUA, que registram nessa mesma data, mais de 5.574.000 casos confirmados e 174.255 óbitos, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. A título de exemplificação, a Tabela 1 apresenta síntese comparativa dos países da América Latina, elaborada a partir dos dados compila- dos pela Universidade Johns Hopkins, traçando o percurso do novo Coronavírus desde a sua fase inicial15: 14 No Brasil, em razão de mudanças na metodologia e das limitações impostas pelo Ministé- rio da Saúde na divulgação dos dados da COVID-19, os veículos de imprensa G1, O Globo, Extra, Estadão, Folha e UOL formaram uma parceria e passaram a coletar esses dados jun- to às Secretarias Estaduais de Saúde para divulgação conjunta em vários boletins diários, desde o dia 08 de junho. 15 Realizado por meio de um sistema – Dashboard by the Center for Systems Science and En- gineering (Painel do Centro de Ciência e Engenharia de Sistemas) – que contabiliza dados de todos os países a partir das mesmas e/ou equivalentes fontes de informações, como: a Organização Mundial da Saúde (OMS); o Centers for Disease Control and Prevention (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos, mais conhecido pela sigla CDC; a National Health Commission of the People`s Replubic of China (Comissão Nacional de Saúde da República Popular da China), conhecida pela sigla NHC-PRC; e Departamentos/Ministérios de Saúde Nacionais. 81 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário Tabela – Síntese comparativa da COVID-19 na América Latina, a partir de dados compilados pela Universida- de Johns Hopkins, no período de 30 dias, entre 20 de março e 20 de agosto de 202016 PAÍS CASOS CONFIRMADOS NÚMERO DE ÓBITOS 20/ 03 20/ 04 20/ 05 20/ 06 20/ 07 20/ 08 20/ 03 20/ 04 20/ 05 20/ 06 20/ 07 20/ 08 Brasil17 793 40.743 291.579 1.068.000 2.119.000 3.502.000 11 2.587 18.859 49.976 80.120 112.304 Peru 234 16.325 104.020 251.338 357.681 552.420 03 445 3.020 7.861 13.384 26.834 México 203 8.772 56.594 175.202 349.396 543.806 02 712 6.090 20.781 39.485 59.106 Colômbia 128 3.977 17.687 63.454 204.005 513.719 0 189 630 2.148 6.929 16.183 Chile 434 10.507 53.617 236.748 333.029 391.849 0 139 544 4.295 8.633 10.671 Argentina 129 2.941 9.283 41.204 130.774 320.884 03 142 403 992 2.373 6.517 Bolívia 15 564 4.919 23.512 60.991 106.065 0 34 199 740 2.218 4.305 Equador 367 10.128 34.854 49.731 74.620 105.508 07 507 2.888 4.156 5.318 6.200 República Dominicana 72 4.964 13.477 25.778 53.956 89.010 02 235 446 655 993 1.505 Panamá 137 4.467 9.977 25.222 54.426 83.855 01 136 287 493 1.127 1.844 Guatemala 12 289 2.265 12.755 39.039 65.983 01 07 45 514 1.502 2.506 Honduras 24 477 2./955 12.306 34.611 52.819 0 42 151 358 935 1.619 Venezuela 42 256 824 3.789 12.334 37.567 0 09 10 33 116 311 Costa Rica 89 662 897 2.127 11.534 31.075 02 06 10 12 66 333 El Salvador 01 218 1.571 4.475 12.207 23.964 0 07 32 93 344 640 Paraguai 13 208 833 1.362 3.748 11.817 01 08 11 13 33 170 Haiti 02 57 596 4.980 7.053 7.949 0 03 22 88 146 196 Paraguai 13 208 833 1.362 3.748 11.817 01 08 11 13 33 170 Nicarágua 01 10 254 1.823 3.174 4.311 0 02 08 64 99 133 Cuba16 1.087 1.900 2.309 2.446 3.565 01 36 79 85 87 88 Uruguai 110 535 746 859 1.064 1.506 0 10 20 25 33 41 Total 2.822 107.187 605.893 1.971.887 3.868.836 6.461.489 34 5.253 33.754 93.382 163.974 251.676 Fonte: elaboração própria a partir de dados compilados e publicados pela Universidade Johns Hopkins (2020), em sua homepage: https:// coronavirus.jhu.edu/map.html. 16 Foram considerados os dados a partir do dia 20 de março, uma vez que nessa data todos os países já registravam casos confirmados da doença e, a grande maioria, pelo menos um óbito. 17 Os dados do Brasil podem apontar variações entre os dados compilados a partir dos dados das Secretarias Estaduais de Saúde e divulgados pelo consórcio de veículos de comunica- ção e os dados disponibilizados pela Universidade Johns Hopkins, em função da metodo- logia distinta utilizada. No caso dos dados divulgados pelo consórcio, estes são atualizados diretamente junto às Secretarias Estaduais de Saúde em três momentos do dia: às 08h, 13h e 20 horas; enquanto a Universidade Johns Hopkins atualiza os dados a partir das infor- mações disponibilizadas pelo Ministério da Saúde. 82 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Ainda que os dados publicados pela Universidade Johns Hopkins partam de informações oficiais, é preciso considerar a elevada subnoti- ficação desses, sobretudo, diante da baixa aplicação de testes de detec- ção e de controle da doença no Continente latino-americano. De qual- quer forma, os dados apresentados, por si só, revelam a extensão da pandemia no Continente latino-americano, embora a gravidade dessa pandemia na América Latina não tenha sido ainda registrada em sua totalidade. Projeções acumulativas do Institute for Health Metrics and Evaluation18 (IHME), uma das principais instituições produtoras de estatísticas em saúde do mundo, vinculada à Universidade de Wash- ington, apontavam um total de 165.960 (intervalo estimado de 113.673 a 253.131) mortes por COVID-19 no Brasil até o dia 4 de agosto de 2020 (IHME, 2020). E ainda que os registros oficiais não tenham alcançado a projeção do IHME, uma vez que o Brasil fechou o dia 04 de agosto com 96.096 óbitos pelo novo Coronavírus, a curva epidêmica do Brasil seguiu um padrão ascendente que se manteve até o final de agosto de 2020, o que colocou o país no topo do ranking como um dos países mais afetados e mais letal do mundo pelo novo Coronavírus, considerado o tamanho de sua população19. Um fator importante desse agravamento, segundo o IHME (2020), é a baixa aplicação de testes em todo o Brasil, o que, 18 Tradução livre: Instituto de Métrica e Avaliação em Saúde. Esse Instituto tem como prin- cipal fonte de dados os registros da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e par- ceiros e colaboradores na Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Cuba, República Dominicana, Equador, Egito, Honduras, Israel, Japão, Malásia, México, Moldávia, Panamá, Peru, Filipinas, Rússia, Sérvia, Coréia do Sul, Turquia e Ucrânia por seu apoio e consulto- ria especializada; e aos incansáveis esforços de coleta de dados de indivíduos e instituições em todo o mundo. As projeções desenvolvidas pelo Instituto têm considerado dados dos EUA (nacionalmente) e 50 Estados, além do Distrito de Columbia, Porto Rico, quatro províncias no Canadá, países do Espaço Econômico Europeu (EEA) e Suíça, Argentina, 27 locais no Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Cuba, República Dominicana, Equador, Egi- to, Honduras, Israel, Japão, Malásia, 32 localizações no México, Moldávia, Panamá, Peru, Filipinas, Rússia, Sérvia, Coréia do Sul, Turquia e Ucrânia. Além de três países do EEE – Alemanha, Itália e Espanha – contarem com estimativas subnacionais no primeiro nível administrativo. 19 Os EUA têm o próximo número mais alto de mortes por COVID-19 até 20 de agosto de 2020, com 174.255 mortes cumulativas, tendo cerca de 100 milhões a mais de pessoas do que o Brasil. 83 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário provavelmente, contribuiu para dificultar a rápida identificação e res- posta às infecções por COVID-19. As projeções do IHME (2020) apontaram ainda que o número acu- mulado de mortes no México poderia alcançar até agosto de 2020, 51.912 (intervalo estimado de 37.397 a 75.516), o que se concretizou, visto que até 20 de agosto foram registrados 59.106 óbitos por CO- VID-19. De acordo com os dados da projeção apresentada, em 05 de junho, a Cidade do México já apresentava uma das maiores taxas de mortalidade pela COVID-19 do México, com 36,1 mortes por 100.000 pessoas (intervalo estimado de 35,5 a 36,8). E as projeções alertavam, ainda, que: caso não fossem adotadas respostas epidêmicas mais efe- tivas e medidas mais restritivas de isolamento, vários Estados do país poderiam atingir taxas cumulativas de mortes superiores a 90 mortes por 100.000 pessoas, como pode acontecer com Nayarit, Durango e Sinaloa. O fato é que a pandemia está em um dos momentos mais críticos para o Continente latino-americano, concentrando mais de seis mi- lhões de infectados e mais de 251.000 mortos pela COVID-19, a maio- ria no Brasil, Peru, México, Colômbia, Chile, Argentina, Bolívia e Equador (6.036.251 infectados e 242.120 óbitos, quando considerados os dados desse conjunto de países em 20 de agosto de 2020). E o au- mento do número de novos contágios alçou a América Latina para a alarmante condição de região do Mundo que, sozinha, reúne quase um terço do total de casos do novo Coronavírus no Mundo. E essa situação se agrava quando se considera que essa região, embora diversa, con- verge uma multiplicidade de questões relativas à pobreza, às enormes desigualdades e aos precários mecanismos de proteção social, entre esses os de saúde pública e de saneamento. No entanto, o que tem assustado ainda mais o mercado, os Gover- nos e os organismos internacionais é a possibilidade de uma segunda onda da COVID-19, o que elevaria em mais um ponto percentual a queda do PIB, que já aflige as três maiores economias latino-america- nas (Brasil, Argentina e México), segundo dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Relatório Perspectivas Econômicas, a OCDE aponta que Argentina e Brasil se- 84 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário riam os países mais afetados, com seus PIBs retrocedendo 10% e 9,1% respectivamente, enquanto o do México cairia 8,6% (OCDE, 2020a). Com resultados negativos dos mercados nacionais, no primeiro tri- mestre, e com projeções alarmantes para o tempo futuro, Chile e Peru juntamente com México e Colômbia já recorreram ao Fundo Monetá- rio Internacional (FMI), buscando recursos junto a Linha de Crédito Flexível (LCF). Esses países foram contemplados com a aprovação, no mês de maio, de recursos que totalizaram US$ 107 bilhões em financia- mento quando quiserem20, o que equivale ao limite de crédito de US$ 61 bilhões para o México; US$ 24 bilhões para o Chile; e Peru e Colôm- bia com US$ 11 bilhões cada. Resta agora saber a qual custo. E se a economia preocupa, o que está por vir quanto às condições de vida e de trabalho e à efetivação dos direitos e das políticas sociais é ainda mais alarmante. Até mesmo os cálculos apresentados, em maio de 2020, pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) apon- tam que a crise da COVID-19 atingirá fortemente os mercados de tra- balho da América Latina e do Caribe, com mais de 11,5 milhões de trabalhadores(as) passando a engrossar as fileiras de desempregados na região. E se os dados de 2019 não foram nada otimistas, com 26,1 milhões de desempregados(as); em 2020, esse número poderá subir para 37,6 milhões, o que representa um crescimento da taxa de desem- prego de 8,1% para 11,5% (CEPAL; OIT, 2020). O que, certamente, apro- fundará os níveis de pobreza e de desigualdade da região, sobretudo, se consideradoque esses números não computam o grande contingente populacional na informalidade. Os dados sobre o mercado de trabalho, portanto, retratam proje- ções apenas de uma das pontas de um enorme e robusto iceberg. E se o Panorama Social da América Latina 2019, publicado em 2020, pela CEPAL, aponta a América Latina como a região do Planeta que con- centra as maiores desigualdades e na qual os mais ricos recebem maior proporção de renda, contando com 191 (cento e noventa e um) milhões de pessoas em situação de pobreza, o que representou um aumento de 20 O que equivale a cerca de um décimo da capacidade total de empréstimo do Fundo. 85 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário 0,7% em 2019, em relação ao percentual apresentado por essa Comis- são no ano de 2018 (CEPAL, 2020). As projeções atuais estimam que o número de pessoas em situação de pobreza subirá para 214,7 milhões, ou seja, mais de 20 milhões do que em 2019; e em condição de pobreza extrema 83,4 milhões de pessoas, o que representa 13% da população dessa região (CEPAL; OIT, 2020). E essas condições são agravadas: a) pela instabilidade política re- gistrada em diversos países da região; b) pelo sistema de saúde que, em seu conjunto, já é extremamente precário, a exemplo do registrado no México, quando um número expressivo de doentes foi a óbito sem ter acesso a uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ou mesmo a um leito com respirador; e também no Equador, quando um grande nú- mero de pessoas foi a óbito – algumas vítimas da COVID-19 e, outras, vítimas de doenças diversas – sem terem acesso ao sistema de saúde; c) pelas condições de infraestrutura de saneamento, uma vez que parcela expressiva da população latino-americana sequer conta com acesso à água potável e à rede de esgoto. E o pior, tais condições explícitas nas regiões periféricas do meio urbano se ampliam para as zonas rurais, sobretudo, quando se considera o acesso aos equipamentos de saúde pública e ao conjunto de condições sanitárias. A sociedade está diante de uma pandemia que escancara os cortes nos gastos sociais, as expropriações de direitos trabalhistas, os ataques à previdência social e a falta de investimento na saúde e em saneamen- to. Agora, não se pode mais esconder que nos hospitais faltam leitos, equipamentos de saúde e equipamentos de proteção individual (EPIs); que as equipes estão reduzidas, mal remuneradas e expostas ao desca- so que a política de saúde, historicamente, tem sido submetida. Como respostas, os diferentes organismos internacionais têm am- plamente defendido para a América Latina a implementação de medi- das de transferências monetárias equivalente à linha de pobreza de cada país, nominada de renda básica universal e/ou proteção social universal, nos moldes do Auxílio Emergencial de R$ 600,00 proposto pelo Brasil. O mesmo, cuja bancarização e informatização do processo de conces- são, no início, obrigou trabalhadores(as) a formar gigantescas filas nas agências da Caixa Econômica Federal, gerando aglomerações e vio- 86 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário lando as regras de isolamento social. O mesmo Auxílio que o Gover- no divulgou um rigoroso sistema de cruzamento de dados para evitar fraudes, mas não impediu que milhões de pessoas, que atendiam aos critérios estabelecidos, tivessem o benefício negado, enquanto milha- res de servidores públicos ativos e inativos, pensionistas e militares das Forças Armadas tivessem a liberação e o pagamento de suas parcelas. O fato é que os organismos internacionais, apoiados na explica- ção simplificada e desvirtuada de seus Relatórios, têm incentivado os Governos dessa região a conceder auxílios nominados de renda bási- ca universal e/ou proteção social universal e de enfrentamento à fome. Uma síntese das respostas dos Governos latino-americanos é apresen- tada no Informe COVID-19 publicado pela CEPAL, juntamente com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação da Agricultura (FAO), conforme detalhado no Quadro 1 a seguir: 87 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário Quadro 1 – Resposta dos Governos latino-americanos frente à pandemia (abril de 2020) PAÍS AUXÍLIO ALIMENTA- ÇÃO EM ESPÉCIE PROGRAMAS DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR TRANSFERÊNCIAS MONETÁRIAS Argentina Brasil Chile Colombia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Haití Honduras México Panamá Paraguai República Dominicana Uruguai Venezuela Manutenção das medidas existentes Medidas Ampliadas Novas medidas Fonte: CEPAL/FAO (2020), com adaptações. Em grande parte, as medidas descritas no Quadro 1 estão concen- tradas nos Programas de Alimentação Escolar e de Transferências Mo- netárias e sem alterações diante do quadro da pandemia, com exceção da Argentina, que ampliou as ações de alimentação escolar e o Brasil que ampliou as ações de alimentação escolar e a transferência mone- tária. Também há registro de ampliação de ações auxílio alimentação em espécie na Argentina, Colômbia, El Salvador e Paraguai; e registro de novas medidas de auxílio alimentação em espécie no Chile, Costa 88 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Rica e Equador, Haiti, Honduras e Venezuela, e de alimentação escolar no Panamá. Outra visão geral das medidas adotadas por alguns países é forne- cida pelo Relatório da OCDE (2020b), COViD-19 in Latin America and the Caribbean: An overview of government responses to the crisis21, quando apresenta o conjunto de medidas de política social implemen- tadas pelos países latino-americanos em resposta à crise da COVID-19. Em sua maioria, são medidas de transferências monetárias, destinadas a grupos específicos, de modo a garantir a reabilitação da população pobre às atividades econômicas, ou melhor, dada a breve extensão, de modo a não incentivar uma classe a ficar ociosa, preguiçosa (TOC- QUEVILLE, 1991) e/ou perigosa, mas garantir a manutenção dos be- neficiários no circuito do mercado e o controle social dessa população. Trata-se, portanto, de um conjunto de medidas residuais e paliativas de administração da pobreza – alinhadas aos interesses do capital – que apenas procuram amenizar os efeitos mais emergenciais da atual crise, sem romper com o minimalismo orientador do sistema de proteção social latino-americano e que, por sua vez, aprofunda ainda mais a desigualdade instalada nessa região. E diante o discurso de ameaça contínua de aprofundamento da cri- se, esta tem sido apropriada para justificar a supressão de direitos, a expropriação de novas parcelas da vida humana e social, impondo a própria crise como modo de Governo. E como não há muros e nem tempo definido para a COVID-19 – apenas o rastro de medo e incerte- zas – o que se tem como certo é o que sempre acontece nas grandes cri- ses: as grandes potências sairão na frente na retomada do crescimento econômico e, provavelmente, começando pela China e pelos Estados Unidos, enquanto, os demais países periféricos vão amargar o ônus de toda a crise. 21 Tradução livre: COVID-19 na América Latina e no Caribe: uma visão geral das respostas do governo à crise. 89 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário Um convite a novas reflexões ... O conjunto de países que compõem a América Latina tem passado por mudanças que aprofundam os níveis de concentração de riqueza e da propriedade, na mesma proporção em que se intensificam a supe- rexploração da força de trabalho, o crescimento do trabalho desprote- gido, o subemprego e o desemprego em níveis nunca antes vistos. Ao mesmo tempo que as características históricas da formação e de desen- volvimento do Continente latino-americano têm sido exponenciadas e atualizadas, de maneira que se mostram redimensionadas no presente. Redimensionamento este que tem acirrado, ainda mais, a relação de dominação dos países de capitalismo central sobrea América Latina, com a captura dos Estados, que reforçam as formas de domínio, de subordinação e de exploração desses países ao capital internacional. Refletindo as contradições próprias das particularidades e determi- nações de sua herança histórica, as funções do Estado são reorgani- zadas de modo a garantir a manutenção da reprodução ampliada do capital, como também os interesses das frações burguesas internas, do- minantes em cada país. O que significa afirmar que o Estado, na atuali- dade latino-americana, tem atuado para reforçar o vínculo com o capi- tal exterior, acentuando ainda mais o caráter dependente dessa região, além de aprofundar a superexploração da força de trabalho. Como resultado, políticas governamentais favorecedoras da esfera financeira e do grande capital produtivo passaram a conviver com a ampliação da regressão social, do retrocesso no emprego, da não distribuição de renda, da ampliação da pobreza e da desigualdade. E em uma região marcada por essas particularidades, em 2020, o confronto com a pandemia da COVID-19, de proporções incalculá- veis até o momento, tem aprofundado o abismo em que se encontram grandes segmentos populacionais. O que, seguramente, vai demandar um sistema de proteção de social para além daquele formulado duran- te o século XX e daquele alicerçado em políticas de austeridade e de ajuste. Embora se estejam certos de que, a qualquer momento, políti- cas monetaristas e de austeridade fiscal serão apropriadas com todo vigor, sob o pretexto de salvar os países em crise. 90 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Basta recordar que a reação inicial dos Governos no enfrentamen- to à crise de 2008 foi de apoiar a adoção medidas de incentivo fiscal, endividamento público na adoção de algumas políticas sociais, mas pouco a pouco, as políticas de austeridade ortodoxa ganharam novo fôlego, sendo adotadas por muitos Governos22, nos últimos anos, como método inquestionável para a superação dos males da crise econômica. Contudo, essas políticas, em vez de recuperar a economia, aprofunda- ram as desigualdades e a pobreza, sobretudo, nos países da periferia do capitalismo, como a América Latina. Além de solapar os parcos sistemas de proteção social ainda existentes. E para quem pensou que o pior já havia passado com a crise de 2008, não imaginava a magnitude do que aconteceria em 2020 e não sabia que, mais uma e outra vez, o pior estava por vir. O fato é que, se não é simples pensar o futuro, pensar o futuro diante da dura e devastado- ra pandemia da COVID-19 coloca a sociedade diante de um mar de incertezas, sobretudo, quando o que está em disputa não é apenas o futuro, mas a sobrevivência no presente. Certamente, não se está falando da crise final do capitalismo, ape- nas de mais um momento em que a produção capitalista terá que ul- trapassar algumas barreiras que já se mostram inevitáveis, mas não intransponíveis. Basta saber a qual preço e sobre quem recairá o ônus de mais essa crise. Sobre quem, a resposta parece ser óbvia: a grande maioria destituída da riqueza socialmente produzida. A qual preço? Não há dúvida de que o remédio será muito mais amargo do que os precedentes já registrados na história. Fica apenas a certeza de que, em um cenário tão sombrio, o caminho é não deixar de lado a luta de clas- ses e a organização política de atores comprometidos com a defesa do acesso e alargamento dos direitos, na direção da emancipação humana, em contraposição à dominação e exploração capitalista. Referências BRAUDEL, F. A Dinâmica do Capitalismo. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. 22 E incentivadas por diversos organismos internacionais, como o Banco Mundial. 91 RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA E SUzANA PRzYBYSzE wSKI BARROS ◀ Voltar ao sumário CARCANHOLO, M. D. Desafios e perspectivas para a América Latina do Século XXI. In: Argumentum, v. 6, n. 2. Programa de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS). Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Vi- tória: PPGPS/UFES, dez. 2014, p. 6-25. Disponível em: http://periodicos.ufes. br/argumentum/article/view/8207/6206. Acesso em: 24 mai. 2020. CEPAL. Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. Panorama social de América Latina 2019. 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O eixo sino-americano e as transformações do sistema mun- dial: tensões e complementaridades comerciais, produtivas e financeiras. In: LEÃO, R. P. F.; PINTO, E. C.; ACIOLY, L. (Orgs.). A China na nova configu- ração global: impactos políticos e econômicos. Instituto de Pesquisa Econô- mica Aplicada (IPEA). Brasília: IPEA, 2011, p. 19-77. Disponível em: https:// www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livro_achinaglobal.pdf. Acesso em: 10 mai. 2020. PINTO, E. C.; GONÇALVES, R. Les transformations mondiales et le nou- veau rôle de la Chine. In: Revue Tiers Monde. n° 219. Liège-France: CAIRN, juillet-septembre 2014, p. 19-37. Disponível em: https://www.cairn.info/re- vue-tiers-monde-2014-3-page-19.htm. Acesso em: 10 mai. 2020. TOCQUEVILLE, A. Oeuvres. Tome I. Ed. JARDIN, A.;MÉLONIO, F.; QUEFFÉLEC, L. Paris: Gallimard, 1991. (Collection Bibliothèque de la Pléia- de). UNIVERSIDADE JOHNS HOPKINS. 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Entre as vítimas fatais, mais de 120 mil foram registradas pela maior potência capitalista do Planeta, os Estados Unidos da América (EUA), sendo, em sua maio- ria, trabalhadores(as) pobres e negros(as), negligenciados(as) por um sistema de saúde excludente e indiferente às condições sanitárias da maioria da população. 1 Os dados e análises contidas neste ensaio fazem parte dos estudos realizados no âmbito da pesquisa Trabalho, pobreza e desigualdade social na atual geopolítica latino-americana, sob a coordenação da Professora Ruteléia Cândida de Souza Silva. 2 Sars-CoV-2 significa Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (Síndrome Res- piratória Aguda Grave do Coronavírus 2) e é o nome oficial escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para facilitar a identificação da doença infecciosa Covid-19 e/ou do novo Coronavírus em estudos científicos. 94 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário E ainda que o cenário já se mostre avassalador por causa da veloci- dade de expansão dessa pandemia, muitas de suas consequências são incalculáveis até o momento, sobretudo, quando se considera que se- quer foram decifradas a origem (data e localidade), mutações, imuni- dade/possibilidade de recidivas, desenvolvimentos de respostas medi- camentosas e vacinas. E se as primeiras análises apontaram que a atual crise não deriva da dinâmica própria da produção e da reprodução capitalista, mas da própria vida humana; já existem alguns estudos que associam a invasão orquestrada pela dinâmica do capital aos habitats silvestres e a sua consequente degradação, como responsáveis por criar as condições propícias para a pandemia do novo Coronavírus. O fato é que essa pandemia trouxe consigo um cenário de muitas incertezas, causando uma série de suposições de como isso será refle- tido no mercado, em especial, na periferia capitalista, como nos países da América Latina, cujos contornos são muito particulares: trata-se de uma região significativamente populosa, com mais de 613 milhões de habitantes e constituída por países que, em sua maioria, têm a profun- da desigualdade social como herança histórica. E se ao longo do último século, a sociedade capitalista, incluindo o Continente latino-americano, se deparou com crises variadas, a exem- plo das crises de 1929 e 2008. A atual crise se apresenta de forma distin- ta das demais, podendo apresentar resultados ainda mais avassaladores em termos econômicos e sociais, sobretudo, para o conjunto de traba- lhadores(as). E diante de tantas incertezas, o medo e a imprevisibilida- de do que está por vir se generaliza, restando como certo apenas espe- culações em torno da grandeza de seus impactos econômicos e sociais, em especial, aqueles imediatos que recaem sobre a precária condição sanitária, de equipamentos de saúde e de saneamento; e sobre as taxas de desemprego, desigualdade e pobreza que já se mostravam elevadas. O certo apenas é que a pandemia do Sars-CoV-2 e seus impactos sobre a vida humana, econômica e social têm jogado as projeções de crescimento de quase todo o Mundo para o terreno negativo. Além de impactar violentamente a vida de milhares de trabalhadores(as) pelo Mundo, com demissões em massa, que engrossam a fileira do desem- prego. Em resposta, tanto os Estados quanto os diferentes organismos 95 MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário internacionais têm buscado liberar pacotes trilionários ao capital e a liberação de rendas básicas emergenciais, buscando minimizar os efei- tos negativos na demanda em uma economia em crescente colapso e sem perspectiva de recuperação. E como não há perspectivas claras sobre o final dessa violenta pan- demia, que não só expõe as contradições do capitalismo como também as agrava, uma das formas mais adotadas pelos países para o combate à pandemia e o não colapso de seus respectivos sistemas de saúde, tem sido a suspensão de inúmeras atividades econômicas e a imposição de quarentena e isolamento social em larga escala. O que acelerou a che- gada de mais uma crise capitalista, cujos sinais e indícios já mostram que seus efeitos ainda são incalculáveis. No entanto, um setor tem representado a esperança para a retoma- da do crescimento no pós-pandemia, com expectativas de crescimento expressivo: o agronegócio. É por essa importância que este capítulo procura estabelecer um debate sobre o papel atribuído ao agronegócio em tempos de pandemia do novo Coronavírus. Partindo de um diálo- go bibliográfico, embasado em produções teóricas, e em dados anali- sados em Relatórios de diversos organismos internacionais, o diálogo estabelecido se constrói a partir dessa parte introdutória, seguida de uma breve discussão sobre a guerra comercial entre China e Estados Unidos e os impactos sobre o agronegócio latino-americano no século XXI e, por fim, sobre o que se espera do agronegócio latino-americano em tempos de pandemia. 1 A guerra comercial no século XXI e os impactos sobre o agronegócio latino- americano Conforme apontado por Pinto e Gonçalves (2014), nas últimas duas décadas do século XX, o processo de globalização econômica avançou, significativamente, e trouxe profundas transformações estruturais na economia mundial, imprimindo mudanças significativas entre os paí- ses que se colocavam na dianteira da economia mundial. E se essas 96 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário transformações não alteraram os altos níveis de poder econômico dos Estados Unidos – mesmo com certa retração após a crise de 2008 –, a ascensão da China como potência econômica se apresentou como novidade. Esse movimento tem como ponto de partida a liberalização finan- ceira iniciada na década de 1970 e que permitiu, segundo Pinto e Gon- çalves (2014), a livre circulação e a melhoria dos fluxos financeiros em escala ascendente e uma estreita integração dos mercados e maior acu- mulação financeira. Além de permitir a redução das restrições encon- tradas pelas empresas para alcançar resultados positivos de produção, ao mesmo tempo que favoreceu as aplicações financeiras em detrimen- to dos investimentos produtivos. E esse processo foi iniciado a partir das decisões políticas tomadas pelo Governo dos Estados Unidos, em sua compulsividade desenfreada para abrir espaços de circulação de seu capital, em particular no setor bancário e financeiro, garantindo às instituições financeiras a sua capacidade de gerenciar o mercado financeiro e a moeda de referência global: o dólar americano. Por outro lado, a abertura comercial intensificou a competição en- tre empresas nacionais e multinacionais, reforçando a busca por maior produtividade e menores custos em diversos espaços de produção. Do mesmo modo que o processo de integração produtiva em escala global em andamento desde o início dos anos 1980 e generalizado durante nos anos 2000, organizou a chamada cadeia produtiva global, espe- cialmente, contando com a participaçãode países em desenvolvimento da Ásia articulados em torno da China (PINTO; GONÇALVES, 2014). Já em dezembro de 1978, na terceira sessão plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China, os membros desse partido referendaram a proposta de reforma econômica formulada por Deng Xiaoping. Defendendo que a economia, e não o dogma determinasse o destino da China, Xiaoping propôs a abertura da economia chinesa para o Mundo, o que foi fundamental não apenas para o desenvolvi- mento dessa economia, mas também para que a China alcançasse as primeiras décadas do século XXI, como uma das principais lideranças econômicas mundiais. 97 MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário A China, desde então, vem se apresentando como economia moder- na, pautada na indústria e no setor de serviços, galgando estágios mais avançados da cadeia produtiva, o que se mantém até 20083, quando a China também passa a sentir os efeitos da crise por meio da queda de suas exportações. Desde 2008, a China passou a adotar como estraté- gia de alavancagem um crescimento pautado em taxas baixas de cres- cimento do Produto Interno Bruto (PIB), o chamado New Normal4. Para isso, adotou um padrão de crescimento industrial sustentado pelo Estado, responsável por promover grandes transformações no país. Entretanto, também buscou enquanto estratégia, a expansão de Investimentos Externos aliada aos grandes projetos da era Xi Jinping, como o One Belt One Road (OBOR) ou Belt and Road Initiative (Ini- ciativa do Cinturão e Rota), iniciativa que expressa a disposição chi- nesa em se projetar externamente. O Projeto OBOR é um ambicioso plano de infraestrutura anunciado, em 2013, e que envolve mais de sessenta países, entre estes asiáticos, europeus e africanos. Financiado por um Fundo criado em 2014 – com investimentos de bancos estatais, como o State Administration of Foreign Exchange, o China Investment Corporations, o EximBank e o China Development Bank – , o OBOR, segundo o discurso do Governo, tem como objetivos: promover a coo- peração regional; fortalecer as trocas comerciais; e elevar a prosperida- de econômica. Recentemente, o presidente Xi Jingping tem apelado ao fortaleci- mento de um Mundo multipolar e de ampliação da globalização eco- nômica com cooperação regional e integração dos mercados. O proje- to, em termos geopolíticos, representa uma postura de política externa, cuja estratégia é fortalecer sua posição com relação aos países vizinhos e de regiões estratégicas na Ásia Central e África, bem como ampliar seus espaços de influência, incluindo a América Latina. Como par- 3 Quando alcançou média de crescimento do PIB de 10,4% entre 2000 e 2008. Entre os anos 2000 e 2007, somente as exportações cresceram a uma taxa média anual de 20,0%. E no pós-crise de 2008 passa sofrer os rebatimentos da crise, com redução expressiva da sua taxa de crescimento, de 13% em 2007 para 6,9% em 2019. 4 Tradução livre: Novo Normal. Termo relacionado às condições financeiras da China após a crise de 2007-2008. 98 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário te dessa estratégia se tem o aumento da aquisição de terras na África Subsaariana, na América Latina e na Austrália, conduzida por meio de: fundos privados internacionais; fundos soberanos e conglomera- dos industriais de natureza estatal; pela atuação direta de Estados; pelo capital privado, sobretudo, o nacional por meio de joint ventures for- mado por empresas localizadas em regiões estratégicas do ponto de vista do acesso a alimentos e recursos minerais. Além da atuação de grupos como a Shanghai Pengxin Group Co. Ltd. e pela COMPLANT (NAKATANI et al., 2014). Segundo levantamento realizado por Nakatani et al. (2014, p. 65), a Shanghai Pengxin Group tem anunciado a compra de terras no Bra- sil, Bolívia (via Argentina) e na Nova Zelândia (via Índia), enquanto a COMPLANT tem anunciado a aquisição de terras na Jamaica (via Ar- gentina), em Madagascar (via EUA), em Serra Leoa (via Portugal) e em Benin (via Arábia Saudita). Todas as operações anunciadas contaram, predominantemente, com: “[...] capital chinês (privado e público, res- pectivamente), em uma estratégia explícita, principalmente, por parte da COMPLANT, de garantir a China fontes estratégicas para o abaste- cimento de gêneros alimentícios e recursos minerais [...]”. De acordo com Pinto e Gonçalves (2014), é inquestionável o au- mento do poder econômico da China. No entanto, ao mesmo tempo, o crescimento chinês não foi suficiente para abalar o poderio econômico estadunidense, mantendo os Estados Unidos como locomotiva da eco- nomia global, mesmo após a crise de 2008. Muito embora tenha sido suficiente para acirrar uma disputa hegemônica entre esses dois países, com os EUA declarando a China como seu principal rival estratégico e sendo forçados a alterar o conjunto de sua política econômica, es- tendendo sua influência em Continentes e regiões como a África e a América Latina. No centro de uma guerra comercial entre essas duas potências econômicas e após intensas disputas tarifárias, as exportações de soja americana, carne de porco, trigo e outros produtos para a China dimi- nuíram drasticamente. Isso porque Pequim também impôs tarifas em resposta ao protecionismo do presidente Donald Trump. O resultado foi o cancelamento de inúmeros contratos lucrativos com produtores 99 MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário dos EUA, enquanto os chineses passaram a buscar produtos em outros países, como Brasil e Canadá. Por certo, este foi um duro golpe para o agronegócio americano. Prova disso é que as exportações agrícolas dos EUA para a China caíram de US$ 24 bilhões, em 2014, para US $ 9,1 bilhões, em 2019. O que exigiu, por parte do Governo americano, uma ajuda financeira de US$ 28 bilhões ao agronegócio5. E o resultado não poderia ser melhor para o agronegócio latino-a- mericano, em especial para países como Argentina, Brasil, Chile, Co- lômbia, México e Peru, sobretudo, em 2018, mas essa possibilidade de crescimento se manteve por pouco tempo e, ainda, em 2019 esses paí- ses já sentiram o peso da retração dos preços das commodities e outras matérias-primas, acarretada pela baixa demanda chinesa. E ao invés de crescimento expressivo, esses países se depararam com quedas signifi- cativas no PIB em 2019. No entanto, mesmo em meio às incertezas e desafios dessa guerra comercial, o agronegócio na América Latina tem mantido os resul- tados positivos, que têm registrado desde a década de 1960, quando se tornou responsável pelo crescimento da economia mundial, com grande propulsão na década de 1990, quando também ganhou grande importância política e intelectual nessa região. E esse debate tem as- sumido, sobretudo, na atual geopolítica latino-americana, um caráter pragmático, em particular, na defesa irrestrita do agronegócio como fonte do crescimento econômico, sem, com isso, realizar um esforço de apreendê-lo a partir da sujeição financeira dos países desse Continente à dinâmica de acumulação e reprodução do capital na periferia. Nessas condições, o agronegócio no século XXI se consolida como parte da 5 O agronegócio é o novo nome de desenvolvimento econômico da agropecuária capitalista, cuja origem remonta ao sistema de plantation, quando grandes propriedades são utiliza- das na produção voltada para exportação. No entanto, “[a] palavra agronegócio [...] é tam- bém uma construção ideológica para tentar mudar a imagem latifundista da agricultura capitalista. [...] A imagem do agronegócio foi construída para renovar a imagem da agri- cultura capitalista, para ‘modernizá-la’. É uma tentativa de ocultar o caráter concentrador, predador, expropriatório e excludente para relevar somente o caráter produtivista. Houve o aperfeiçoamento do processo, mas não a solução dos problemas: o latifúndio efetua a exclusão pela improdutividade, o agronegóciopromove a exclusão pela intensa produtivi- dade” (FERNANDES, 2010, p. 140, grifo do autor). 100 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário ofensiva do capital internacional, por meio de parcerias político-eco- nômicas, a exemplo da intensa negociação com a República Popular da China, muitas dessas firmadas através da China National Agricultural Development Group Corporation. Como resultado se tem o aprofunda- mento do consumo das riquezas naturais e, consequente, expropriação da terra e deterioração das condições de reprodução da vida. A expropriação da terra é tamanha que a OXFAM, Confederação Internacional que realiza estudos sobre a pobreza e a desigualdade em mais de 90 países, em Relatório publicado, em 2019, sob o título Terra, Poder e Desigualdade na América Latina, compara o cenário de concentração das propriedades rurais em 15 países dessa região, com destaque para o Brasil. Partindo da análise dos Censos Agropecuários locais, o estudo aponta que apenas 1% das fazendas ou estabelecimen- tos rurais na América Latina concentra mais da metade (ou 51,19%) de toda a superfície agrícola da região (OXFAM, 2019). O que, segundo esse Relatório, está atrelado: à expansão do agrone- gócio que não ocorre dissociado do processo de acumulação e concen- tração de capital, terra e poder; ao modelo de desenvolvimento basea- do na exploração extrema dos recursos naturais; e ao favorecimento da concentração da maior parte das terras nas mãos de um seleto grupo de produtores, sobretudo, os de commodities, enquanto a maioria das famílias fica limitada às pequenas porções de terra (OXFAM, 2019). Ainda que a agricultura familiar – baseada em pequenas porções de terra – seja responsável por 60% da produção de alimentos na América Latina, respondendo por 70% dos empregos gerados pelo setor agrí- cola, conforme aponta o Relatório da Organização das Nações Uni- das para a Alimentação e a Agricultura (FAO), sob o título Agricultura Familiar en América Latina y el Caribe: Recomendaciones de Política (Agricultura Familiar na América Latina e no Caribe: Recomendações de Política) (FAO, 2014). No entanto, o discurso recorrente é que o agronegócio tem garan- tido parcela expressiva do crescimento econômico desse conjunto de países, mas o que não se registra é o resultado da cruzada expansio- nista do agronegócio que se traduz, entre outras consequências: na destruição dos recursos naturais, desencadeadas pelos desmatamentos 101 MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário e queimadas, erosão dos solos, contaminação da água por agrotóxi- cos, poluição dos rios, entre outras; e na extração e a apropriação de mais-valor, em níveis cada vez mais elevados. E essas condições têm se intensificado desde os anos de 1980, quando não apenas os valores baixos da terra, mas também os altos índices de produtividade – os melhores do mundo, graças ao excedente de recursos naturais, como solo, clima, água –, têm tornado o agronegócio na América Latina al- tamente rentável e atrativo. Sob essas condições, o crescimento do PIB dos países tem sido acompanhado pelo aumento do desmatamento, da destruição da natureza e do trabalho não pago, realizador de sobretra- balho, como fonte de extração de mais-valor e realização do lucro. E essas particularidades se vinculam, segundo Fernandes (1975), a um modelo de capitalismo que reproduz na América Latina as for- mas de apropriação e expropriação inerentes ao capitalismo moderno. Nesse modelo, esclarece Marini (2011), a economia dessa região se vê subordinada à política do capital, que determina as regras de sua in- serção – de caráter dependente – e define as regras de troca de mer- cadorias entre a periferia e o centro, o que ocorre de forma desigual. Essa subordinação permite aos países imperialistas se apropriar do valor produzido na periferia mediante a transferência de valor para as economias do centro capitalista. Além de impor um componente adicional específico e típico: a expansão das economias imperialistas e dos setores sociais dominantes em cada país, ou seja, a acumulação de capital ao se institucionalizar promove, ao mesmo tempo, a expansão dos núcleos hegemônicos externos e internos. E o agronegócio, pautado na lógica mercadológica, cai como luva no interior dessa dinâmica, adequando-se, de forma ampla e crescen- te, à lógica do centro capitalismo. Como aponta Fernandes (2007), a lógica do agronegócio é permeada por uma complexidade que incide na diversidade, ou seja, utiliza-se da produção para viabilizar novos empreendimentos e, consequentemente, mascarar o controle da terra e do capital. E no interior dessa dinâmica, o Estado se transformou em um importante agente, atuando por meio de políticas territoriais e de incentivos fiscais, de modo a garantir o aumento da produção, princi- palmente, para o mercado externo. 102 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário O resultado é o estímulo da produção voltada à produção de merca- dorias altamente lucrativas, quase sempre commodities, como é o caso da soja, pecuária e cana-de-açúcar, exportada para países como EUA e China, em detrimento à produção de alimentos voltados à subsistência interna, ou seja, são medidas adotadas não ao estímulo à produção agrícola destinada à alimentação de subsistência, mas para atender a produção agroindustrial dentro e fora de seus territórios, tendo seus preços controlados pelo mercado de futuros nas bolsas de valores de todo o mundo, tornando-se: [...] o centro regulador dos preços mundiais das commodities. Na Bolsa de Chicago se decide os preços da soja, milho, trigo, farelo e óleo de soja. Na Bolsa de Londres são definidos os pre- ços do açúcar, cacau, café, etc. Na Bolsa de Nova York correm as cotações do algodão, açúcar, cacau, café e suco de laranja, etc. No Brasil, não tem sido diferente, a BM&F Bovespa atua no merca- do futuro de soja, milho, café, etanol e boi gordo. Na Bovespa es- tão as ações da SLC Agrícola, Brasil Agro, BRF-Brasil Foods, JBS, Marfrig, Minerva, Cosan, São Martinho, Tereos, Fibria, Suzano, Klabin, Duratex, Eucatex e Ecodiesel (OLIVEIRA, 2012, p. 06). Com tais medidas, o Estado se coloca como escudo dos grandes empreendimentos agropecuários, segundo os interesses do capital financeiro, deixando de lado o pequeno produtor, responsável pela agricultura familiar, a mesma que responde por 60% da produção de alimentos para consumo interno, o que ocorre tanto na América La- tina, como também em outros países como Estados Unidos e Canadá. No entanto, no caso específico dos países latino-americanos, desde a década de 1990 tem se construído uma nova forma de gestão do Esta- do sob o comando de organismos internacionais6, como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a Organização 6 E ainda que Governos conservadores de ultradireita tenham rechaçado a atuação desses organismos sob o discurso ideológico contrário ao globalismo, essa influência se mantém forte, sobretudo, em termos econômicos e de dominação capitalista na América Latina. 103 MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário das Nações Unidas (ONU), Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Forma de gestão essa que expressa a completa sujeição do campo aos interesses imperialistas em que se tem, de um lado, a hegemonia do agronegócio e, do outro, um cenário desalentador para a humani- dade: em que se legaliza a apropriação monopólica dos recursos natu- rais e minerais, alguns destes não reproduzíveis, e o aprofundamento das desigualdades de classe juntamente com a ameaça à sobrevivência da humanidade diante da crise gerada pela COVID-19. 2 Em tempos de pandemia: o que se espera do agronegócio na América Latina? E a despeito das incertezas provocadas pelos impactos da pande- mia do novo Coronavírus, o agronegóciotem sido apresentado como possível tábua de salvação para a economia, em um cenário em que a Organização Mundial do Comércio (OMC) estima que o comércio mundial pode sofrer retração entre 13% e 32% neste ano. As estimativas apontam que as regiões mais afetadas serão as Américas do Norte e do Sul e a Europa, e em setores de produtos eletrônicos e automotivos, de turismo e de logística e transporte. Na contramão, diversas projeções têm apontando que o agronegó- cio está em uma direção contrária ao da economia em geral, alcançan- do desempenho satisfatório, sobretudo, a agropecuária. Nesse senti- do, essa é apresentada como uma atividade que continua altamente rentável e com previsão de retomada de crescimento acelerado após a estabilização da pandemia. Um exemplo é o caso brasileiro que, nas primeiras semanas de abril de 2020, mesmo diante da crise econômica provocada pela pandemia, o agronegócio foi o setor responsável pelo superávit de US$ 5,061 bilhões da balança comercial, com as exporta- ções do agronegócio, registrando crescimento de US$ 119,74 milhões (62,4%) em comparação com o ano de 2019, enquanto que as importa- ções recuaram em US$ 1,24 milhão (-6,3%). E a dependência do país quanto aos resultados do agronegócio é ta- manha que no mês de abril de 2020, o Governo brasileiro sancionou a 104 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Medida Provisória do Agronegócio (Lei no 13.986, de 07 de abril), am- pliando o acesso ao financiamento agrícola, expandindo recursos e re- duzindo taxas de juros. Entre as principais medidas, essa Lei: a) institui o Fundo Garantidor Solidário (FGS), em substituição às garantias nas operações de crédito realizadas por produtores rurais junto às empre- sas, bancos e tradings; b) institui a modalidade Patrimônio Rural em Afetação, que permite ao proprietário rural submeter seu imóvel rural ou fração dele ao regime de afetação, destinado a prestar garantias por meio da emissão de Cédula de Produto Rural (CPR), de que trata a Lei nº 8.929, de 22 de agosto de 1994, ou em operações financeiras contra- tadas pelo proprietário por meio de Cédula Imobiliária Rural (CIR); e c) equalizar as taxas de juros para instituições financeiras privadas, entre outras operações. Essa normatização encontra respaldo no discurso dos organismos internacionais que, diante do crescimento global da crise da COVID-19, têm convocado o Estado a adotar medidas de socorro, sobretudo, na implementação de políticas macroeconômicas e setoriais para estabi- lizar a economia e apoiar os setores produtivos. Para a cadeia agrí- cola têm sido priorizadas medidas de: refinanciamento das empresas agrícola; adoção de novos protocolos com medidas de biossegurança; capacitação da força de trabalho; ajuste do nível de funcionamento nas plantas agroindustriais; reprogramação da semeadura e mudança na escolha da cultura a ser cultivada (nos casos dos cultivos anuais), entre outras. Essas medidas devem ser acompanhadas também por outras, de financiamento, disponibilizadas por bancos de desenvolvimento em apoio ao setor agropecuário, como as que vêm sendo adotadas por di- versos países da América Latina e exemplificadas no Quadro 1: Quadro – Medidas adotadas por Bancos de Desenvolvimento em apoio ao setor agropecuário da América Latina País Banco Medidas Brasil Banco Nacional de Desenvolvimen- to Econômico e Social (BNDES) Expansão da oferta de capital de giro. Continua ▶ 105 MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário Quadro – Medidas adotadas por Bancos de Desenvolvimento em apoio ao setor agropecuário da América Latina País Banco Medidas Colômbia Fondo para el Financiamiento del Sector Agropecuario (FINAGRO) Linha de crédito para produtores agrícolas, participantes do FINAGRO, 410 milhões de dólares. Costa Rica Fondo Nacional para el Desarrollo (FONADE) Perdão das obrigações financeiras de primeiro nível de 2.705 microprodutores e pequenos e médios produtores agrícolas dos diferentes áreas agrícolas do país com o FONADE. Sistema de Banca para el Desar- rollo (SBD) Moratória sobre pagamento do valor principal e juros por até 6 meses em créditos com recursos do SBD para empresas com grande impacto econômico. Carência de até 12 meses no pagamento principal de operações financiadas com recursos do SBD para empresas com impacto econômico médio. Refinanciamento de operações de crédito com recursos do SBD para capital de giro. Capital de giro de emergência. Canalização de recursos do imposto banca de maletín para a prevenção, resgate, recuperação e reativação econômica de atividades de negócios e produção. Fundos não reembolsáveis para 200 pequenas e médias empresas (PME). Plataforma de comércio eletrônico. Cuba Banco Central de Cuba Moratória sobre pagamento de juros e valor principal dos clientes cuja atividade foi total ou parcialmente suspensa. El Salvador Banco de Desarrollo de El Salvador (BANDESAL) Flexibilização de créditos vigentes. Banco de Fomento Agropecuario (BFA) Flexibilização de créditos vigentes. Guatemala BANRURAL Flexibilização de créditos vigentes. Honduras Banco Hondureño de la Producción y la Vivienda (BANHPROVI) Flexibilização de créditos vigentes (de primeira e segunda linha). México Fideicomisos Instituidos en Rela- ción con la Agricultura (FIRA) Flexibilidade de créditos vigentes. Financiamento adicional para reativar operações. Redução de taxas em novos empréstimos. Garantias para produtores e empresas credenciadas. Linhas de crédito e garantias para entidades financeiras. Financeira Nacional Agropecuária (FINAGRO) Crédito. Cobertura de preços. Seguro de renda. Panamá Banco de Desarrollo Agropecuario (BDA) Empréstimos para atividades agropecuárias com juros de 0% (Plan Panamá Agro Solidario). Peru Agrobanco Reprogramação das dívidas dos agricultores por 6 meses, sem juros. Continua ▶ 106 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Quadro – Medidas adotadas por Bancos de Desenvolvimento em apoio ao setor agropecuário da América Latina País Banco Medidas República Dominicana Banco Agrícola de la República Dominicana (BAGRICOLA) Flexibilidade de crédito vigente. Reestruturação de empréstimos vencidos. Fonte: CEPAL/FAO (2020). Esse conjunto de ações se vincula à defesa dos organismos interna- cionais de que os Governos da América Latina precisam adotar medi- das para enfrentar a crise de saúde resultante da pandemia, mas tam- bém mitigar os efeitos negativos em setores estratégicos da economia, sobretudo, os comandados por grandes grupos econômicos nacionais produtores e exportadores de commodities. E embora essa defesa faça menção à importância da adoção de medidas no campo do mercado laboral e do acesso aos serviços sociais, os grandes investimentos estão voltados para as grandes atividades econômicas e ao comércio interna- cional. Dentro do alcance dessas medidas, o agronegócio tem recebido atenção prioritária, uma vez que tem sido visto como uma possibilida- de de alavancar os resultados da economia, durante e após a pandemia. E embora algumas medidas adotadas – e apresentadas no Quadro 1 – sejam destinados a outros segmentos da economia, o objeto prioritá- rio do protagonismo do Estado em tempos de pandemia se volta, em especial, através das instituições financeiras estatais, ao atendimento dos interesses de grandes grupos econômicos nacionais produtores e exportadores de commodities, entre estes o agronegócio, e em conso- nância com os interesses fundamentais do capital financeiro. A expec- tativa, segundo reportagem da Agência Reuters (2020a), é que a China importe mais carne suína em 2020, após a pandemia de Coronavírus e os impactos da Peste Suína Africana (PSA), com estimativa de cresci- mento de 2,8 milhões de toneladas, o que representa variação de 32,7% na comparação anual. Em outra reportagem, essa mesma Agência aponta que as exporta- ções brasileirasdo agronegócio avançaram 18% em maio, quando com- parado ao mesmo período de 2019, o que configura um incremento de 10,9 bilhões de dólares, recorde para o mês, com destaque para a comercialização de soja, de carne bovina e de açúcar para a China. Na 107 MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário liderança da pauta de exportação brasileira, a soja alcançou 5,2 bilhões de dólares em vendas externas; seguida pela receita com exportação de carne bovina, que alcançou 780 milhões de dólares; e pela comer- cialização de açúcar, que totalizou 767 milhões de dólares. Dos produ- tos comercializados do agronegócio, o mercado chinês – ainda que as importações da China em seu conjunto tenham registrado queda de 16,7% em maio, em comparativo com o ano anterior – foi responsá- vel pela aquisição de 44,9% do total exportado pelo Brasil, somando 4,91 bilhões de dólares em aquisições (+50,4%) (AGÊNCIA REUTERS, 2020b). No entanto, algumas preocupações têm rondado o agronegócio diante da pandemia da COVID-19, como sinalizado por Stephenson e Shutske (2020): o impacto em preços e mercados; a lentidão e escassez nas cadeias de suprimentos; a saúde dos produtores e de suas famílias; eventuais baixas na força de trabalho; segurança para os (as) trabalha- dores(as) e falta de equipamento de proteção individual; e outras in- terrupções e desafios que moradores de áreas rurais possam enfrentar diante do avanço da pandemia. O fato é que as estimativas de impacto no crescimento do PIB, em geral, no ano de 2020, não são nada favoráveis, embora o agronegócio tenha registrado números favoráveis no primeiro semestre. Por en- quanto, ainda é cedo para precisar a dimensão dos impactos reais. O que é possível precisar até o momento é que os efeitos da pandemia so- bre o conjunto da sociedade são de proporções incalculáveis. O que já é possível afirmar é que grandes segmentos populacionais serão lança- dos no abismo do desemprego, da informalidade, de extrema pobreza e/ou completa penúria. Um desenho dessa realidade já foi estimado pela Organização Inter- nacional do Trabalho (OIT), ao revelar que cerca de 53% do mercado de trabalho na América Latina é formado pelo trabalhador informal, e o sistema de saúde não está preparado como os países da Europa e EUA para uma pandemia. Por isso, estima que os impactos sanitários e econômicos serão maiores (CEPAL; OIT, 2020). E com a estimativa de resultados negativos dos mercados nacionais, em curto prazo, e com projeções alarmantes para o tempo futuro, dife- 108 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário rentes organismos internacionais têm projetado retrocessos históricos para o Continente latino-americano. Estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que a Argentina e o Brasil terão queda em seus PIBs em 10% e 9,1% respecti- vamente, e o do México em 8,6% (OCDE, 2020). Tamanha é a gravidade do tempo presente que até mesmo os orga- nismos internacionais, que em suas análises se baseiam em uma me- todologia relativizante, que mantêm intocadas as bases estruturais das desigualdades e da pobreza, bem como a lógica de exploração da força de trabalho pelo capital (SILVA, 2018), apresentam projeções alarman- tes para o momento atual. Entre estas: o encolhimento de 5,3% no PIB regional, pior desempenho na história da América Latina; taxa de de- semprego regional em 11,5%, um aumento de 3,4 pontos percentuais em relação a 2019, com o número de desempregados chegando a 37,7 milhões de pessoas; taxa de pobreza crescendo 4,4 pontos percentuais em 2020, chegando a 34,7% da população, ou seja, mais 29 milhões de pessoas em situação de pobreza; e o aumento da pobreza extrema de 2,5 pontos percentuais, indo de 11% para 13,5%, com crescimento de 16 milhões de pessoas nessa condição (CEPAL; OIT, 2020). O fato é que se está diante de uma paralisação simultânea da produ- ção e da circulação de mercadorias em diversos países e, muito distan- tes de uma estabilização e, mais ainda de uma solução definitiva para a pandemia, com dezenas de milhares de casos surgindo ou se agra- vando a cada dia pelo mundo. O efeito mais evidente dessa pandemia é uma queda brutal da economia, ao mesmo tempo que coloca sobre todos os holofotes os descaminhos e consequentes mazelas acarretadas pela dinâmica e contradições próprias da produção e reprodução capi- talista, sobretudo, em sua face financeirizada. Considerações finais Enquanto estratégia do capital, mediante a parceria do grande ca- pital interno e internacional, a expansão do agronegócio ocorreu em consonância com o processo de ordenamento espaço-temporal do ca- pitalismo contemporâneo, em sua busca para (re)produzir e sobreviver 109 MáRCIA CRISTINA VERDEGO GONçALVES E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário diante das crises de acumulação. Processo esse que teve início com a incorporação do território às teias do capitalismo mundializado, por meio da expansão da fronteira agrícola. O que vem sendo (re)produ- zido e ampliado por meio de uma produção agropecuária altamente modernizada e capitalizada, voltada para atender a lógica do mercado globalizado. Está-se falando aqui de um agronegócio glamourizado e que se coloca como responsável pela geração de riqueza para o país e pela elevada produtividade do campo. Sob os domínios desse discurso, o agronegócio procura ocultar suas contradições por meio de formulações pautadas na ideia de progres- so, de crescimento econômico, de produtividade e de combate à fome7. Dessa forma, o agronegócio tem servido para ocultar os conflitos exis- tentes no espaço na luta pela posse da propriedade da terra, além de ocultar a superexploração; o trabalho degradante; a concentração de poder e riqueza; a criminalização dos movimentos sociais no campo; e impedir o avanço e até mesmo a compreensão da importância da luta pela reforma agrária. Além de degradar os diversos recursos naturais e minerais: matando rios; erodindo o solo; envenenando pessoas com o uso indiscriminado de agrotóxicos; e desmatando florestas. Sem dei- xar de mencionar que também assalta o fundo público por meio de incentivos milionários, do não pagamento de impostos, da prática de sonegação fiscal, entre outras. No entanto, ao invés de rechaçado, o agronegócio, reiteradamente, tem sido exaltado como salvação, sobretudo, nesse momento de pan- demia, desconsiderando suas características históricas de uma agricul- tura capitalista, realizada seguindo práticas produzidas e reproduzidas no campo, com o favorecimento econômico e político da dominância financeira e, por extensão, da burguesia interna aliada aos capitais es- trangeiros e ao imperialismo. O que na história da América Latina é um fato recorrente, parte de sua herança histórica. Nesse sentido, em tempos de pandemia, mesmo que o Mundo já te- nha decretado que a sociedade nunca mais será a mesma – e no modo 7 Embora seja recorrente o uso do termo combate à fome, considera-se que as medidas ado- tadas se enquadram, de fato, em uma perspectiva que procura administrar a fome e a pobreza. 110 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário de viver, provavelmente, não será –, as heranças históricas estruturais seguirão bastante no mesmo. E como já dito por Martins (1994, p. 30): o novo se manterá como desdobramento do velho. Referências AGÊNCIA REUTERS. China vê importações de soja e carne suína maiores em 2020. Matéria Jornalística publicada por Hallie Gu e Emily Chow na seção Negócios em 20 de abril de 2020. Brasil: REUTERS, 2020a. Disponível em: https://br.reuters.com/article/businessNews/idBRKBN2221LS-OBRBS. Acesso em: 20 mai. 2020. AGÊNCIA REUTERS. Receita de exportação do agronegócio do Brasil cres- ce 18% em maio com compras chinesas. Matéria Jornalística publicada por Nayara Figueiredo na seção Negócios em 10 de junho de 2020. Brasil: REU- TERS, 2020b.. . . . . . . . 151 Lélica Elis Pereira de Lacerda CAPÍTULO 8 O processo de reestruturação da Política de Assistência Social: as transformações do Estado e os desafios na atualidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 168 Liliam dos Reis Souza Santos Miriam de Souza Leão Albuquerque CAPÍTULO 9 A extensão universitária no Brasil e os impasses da Meta 12 do PNE e da RES . CNE/CES nº 7/2018 . . . . . . 184 Jaime Giolo CAPÍTULO 10 Neoconservadorismo, Estado penal e violação de direitos humanos de LGBT em situação de prisão . . 214 Patrícia Cristina Bachega Imar Domingos Queiróz CAPÍTULO 11 Envelhecimento e Velhice: o pensamento liberal e neoliberal sobre proteção social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236 Liliane Capilé Charbel Novais Delaine Regina Bertoldi CAPÍTULO 12 As condições de trabalho dos assistentes sociais nas políticas sociais: aproximações para o debate . . . . . 256 Mabel Mascarenhas Torres Tânia Mara da Silva Backschat CAPÍTULO 13 Serviço Social e cultura profissional: aproximação a partir dos fundamentos do Serviço Social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275 Carina Berta Moljo 13◀ Voltar ao sumário APRESENTAÇÃO A Coletânea Questões e tendências contemporâneas do capitalis- mo: desdobramentos para as políticas sociais e o Serviço Social parte da iniciativa institucional no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), para socializar a sua produção docente, discente e de egres- sos, juntamente com a contribuição de pesquisadoras(es) de diversas Instituições de Ensino Superior (públicas e privadas) do país, vincu- ladas(os) à área da política social e outras afins. E em meio a conjun- tura atual de crise econômica e sanitária mundial, esse conjunto de pesquisadoras(es) se dispôs a construir reflexões sobre o movimento do capital e expor análises sobre as questões e tendências, que surgem no movimento dessas mudanças no capitalismo, no Estado e na socie- dade, bem como seus reflexos nas políticas sociais e no Serviço Social brasileiro. O resultado é uma Coletânea integrada por treze capítulos, distri- buídos em duas partes complementares. Na primeira, intitulada Capi- talismo e Estado em tempos de crise do capital, os capítulos expõem as mudanças macrossocietárias do capitalismo no contexto de crise estrutural do capital, a partir da década de 1970, momento inaugura- do por um novo regime de acumulação do capital, com ações intrin- secamente concatenadas com a dinâmica da reestruturação produti- va (ANTUNES, 2009)1, com novas formas de dominância de espaço temporal (HARVEY, 2005)2 e mudanças monetárias e financeiras, que reforçam o caminho da centralização e concentração do capital. Além daquelas concatenadas com processos simultâneos de concentração territorial do poder militar, político e ideológico, e da riqueza mun- dial, ao mesmo tempo que se intensificam, sobretudo, na periferia do sistema mundial: a pauperização de grandes massas; e as investidas contra o trabalho e contra jovens, pobres, negros, indígenas, mulheres, grupos LGBT e outras minorias, acompanhadas por longos períodos de supressão, de intolerância e de ataques aos direitos. 14 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Esse conjunto de medidas implementadas pelo capital tem como propósito recuperar os níveis de acumulação e de reprodução do ca- pital, impondo mudanças que incidem seriamente nos processos de trabalho, nas configurações geográficas e geopolíticas, e subordina o Estado para alcançar suas metas em relação ao domínio político e à acumulação, o que agrava o quadro de barbarização da vida social tão naturalizado pela ideologia dominante (NETTO, 2012)3. No interior dessa dinâmica, a relação entre Estado e capital se torna necessária e primordial à continuidade e existência do segundo, re- lação esta que continuamente também passa por alterações. Segundo Mészáros (1999)4, o suporte político do Estado procura complementar o sistema do capital, criando condições para a manutenção e a repro- dução do sistema. Isto é importante, porque para prosseguir com sua expansão impulsionada pela acumulação, o sistema do capital pressu- põe a subordinação da sociedade a seus objetivos, nas “funções produ- tivas, distributivas”. Ainda, de acordo com Mészáros (1999), o sistema do capital apre- senta falhas estruturais, como a: separação entre produção e seu con- trole, e a oposição entre esses; cisão entre produção e consumo, que passa a ter existência e independência um do outro; e a necessidade do sistema do capital de criar formas para viabilizar sua circulação global e ampliar sua atividade por todo o Planeta, sem empecilhos ou restri- ções jurídicas ou de qualquer outra natureza. O papel do Estado tem como pano de fundo uma nova fase do acir- ramento das contradições do capitalismo. E, ao passo que procura ga- rantir as condições para sua acumulação, gera um grau cada vez mais elevado de exploração, de expropriação, de exclusão e de desigualda- des sociais. O que, por sua vez, ameaça a própria continuidade deste sistema, pressionando o Estado a intervir, não mais através de políticas de caráter universalista e sob o viés da cidadania, mas por meio de políticas ainda mais focalizadas e seletivas. 3 NETTO, José Paulo. Crise do Capital e consequências societárias. In: Revista Serviço So- cial e Sociedade, n° 111. São Paulo: Cortez, 2012, p. 413-429. 4 MÉSZÀROS, István. A ordem do capital no metabolismo social da reprodução. In: En- saios Ad Hominem. Tomo I. São Paulo: Estudos e Edições Ad Hominem, 1999. 15 IzABEL CRISTINA DIAS L IRA, JANAíNA CAR VALhO BARROS E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário E em países, cujas particularidades e determinações históricas são marcadas pelo desenvolvimento desigual e o caráter dependente fren- te às economias centrais, como é o caso da América Latina, tem se acentuado a superexploração da força de trabalho e exigido, mais uma vez, a readequação do Estado a esse novo padrão de reprodução do capital. O que se apresenta vinculado ao redesenho do mapa geopolíti- co, mediante a competição entre os Estados pelo poder e pela riqueza mundial. O fato é que a grande transformação das últimas décadas do século passado e seu impacto sobre a periferia do sistema mundial, com maior intensidade no após-década de 1990, se alinham ao ajus- te estrutural e à estabilização dessas economias impostas pela agenda neoliberal. Não é que essas ideias sejam novas, uma vez que têm seus funda- mentos derivados do liberalismo clássico, econômico e político, com reforço da crença em um capitalismo sem fronteiras e gerido por Esta- dos nacionais reduzidos as suas funções mais elementares. Não à toa, esses países têm suas prescrições formuladas/impostas pelos organis- mos financeiros internacionais como o Fundo Monetário Internacio- nal e o Banco Mundial, que priorizam a estabilidade econômica em detrimento do social, por meio de privatizações de sistemas previden- ciários, que levam à capitalização individual, bem como expansão de programas focalizados e assistenciais, que reforçam o caráter cliente- lista; e a restrições no acesso da população às políticas sociais. Além de serem acompanhadas pelo falacioso discurso de que a desregulação dos mercados e a liberalização das economias nacionais promoveria, em médio prazo, a convergência da riqueza das nações e a redução das desigualdades sociais. Para agravar, no contexto atual, além do acirramento da crise eco- nômica, política, cultural e ideológica, as perdas sublinhadas vêm sen- do intensificadas e complexificadas, exponencialmente, com a crise sanitária causada pelo Coronavírus, SARS-CoV-2, causador da pande- mia da COVID-19, que expõe e põe em destaque as mais profundas desigualdadesDisponível em: https://br.reuters.com/article/businessNews/ idBRKBN23H3GB-OBRBS. Acesso em: 20 mai. 2020. CEPAL, Comisión Económica para América Latina y el Caribe; FAO, Organi- zación de las Naciones Unidas para la Alimentación y la Agricultura. Cómo evitar que la crisis del COVID-19 se transforme en una crisis alimentaria Acciones urgentes contra el hambre en América Latina y el Caribe. Infor- me COVID-19 CEPAL-FAO. Santiago: Naciones Unidas, 2020. Disponível em: https://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/45702/4/S2000393_ es.pdf. Acesso em: 20 mai. 2020. 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Acesso em: 10 mai. 2020. 113◀ Voltar ao sumário CAPÍTULO 5 Da grande epopeia capitalista à pandemia e ao pandemônio Renato Tadeu Veroneze Introdução Vive-se em um período atípico em toda a história do capitalismo. A crise causada pela pandemia da COVID-19 vem produzindo reper- cussões nefastas não só apenas de ordem biomédica e epidemiológica em escala global, mas também repercutindo e impactando todos os setores sociais, econômicos, políticos, culturais e históricos dos últi- mos tempos. Depois de um período de profunda recessão econômica e crises po- líticas, em diversos países, causadas, sobretudo, pela crise imobiliária dos Estados Unidos e da crise do Euro, na Europa, em 2008, o Mundo foi sacudido por mobilizações sociais e populares em larga escala, es- pelhando a insatisfação da população com as condições de vida e de trabalho que têm sido cada vez mais precarizadas e subalternizadas frente ao resultado que o capitalismo tem causado de tempos em tem- pos com crises cíclicas e estruturais do capital. Contudo, uma mutação de um vírus (Coronavírus), um micro-or- ganismo de fácil propagação, conseguiu parar o Mundo e acionar um sinal de alerta para questões que até então estavam adormecidas. A estimativa de infectados e mortos em todo o Mundo concorre dire- tamente com o impacto sobre os sistemas de saúde, com a exposição de populações e grupos vulneráveis, com a sustentação econômica do sistema financeiro e com a saúde física e mental de milhares de pessoas, exigindo o confinamento social, as mudanças de comportamentos e ao 114 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário temor de serem as próximas vítimas a serem infectadas, adoecendo ou morrendo. Em meio ao caos que tomou conta do Mundo, presencia-se diaria- mente e, em tempo real, as fragilidades que a humanidade está sub- metida, diante de um problema que, até então, não tem previsão para a sua solução. O acesso aos bens essenciais como alimentação, medi- camentos, transporte e atendimento de saúde tem sido comprometido, expondo populações inteiras a uma fragilidade sem precedente. A economia tão importante para a manutenção do capitalismo tem sofrido ameaças na direção de um caos generalizado e global, colocan- do em alerta toda a população mundial para os rumos que o capitalis- mo estava tomando. Além do mais, a devastação da natureza poderia gerar uma situação de catástrofe mundial, colocando em risco a vida do Planeta. A necessidade de ações de contenção da mobilidade social por con- ta do isolamento e a velocidade e urgência com que o vírus se propaga têm feito com que as pessoas se reinventem, mudem seus hábitos,to- mem consciência da realidade e despertem para valores até então des- considerados. Medicamentos e vacinas evidenciam o descaso de mui- tos Governos em relação às pesquisas e à produção de conhecimento, evidenciando implicações éticas e de direitos humanos que merecem ser valoradas. Responder parcialmente a estas situações não é uma tarefa fácil, até mesmo por não se ter respostas e por se estar assentados em incertezas e prudência. A história irá mostrar como se reagiu a tudo isso, mas o importante é visualizar as suas consequências. Uma coisa é certa: a epopeia capitalista tem complicado muito as relações sociais, políticas, econômicas, culturais e até as espirituais. Por isso, torna-se urgente repensar os valores, as crenças, as posturas, enfim, a vida perante este tipo de sociabilidade. Este artigo não pretende fazer uma análise conjuntural sobre a pan- demia, que assola a humanidade, mas tecer algumas reflexões sobre os últimos anos, centralizando as análises no Brasil, no sentido de apontar para as mudanças que têm ocorrido na sociedade atual e suas consequências, de modo a evidenciar a barbárie que as artimanhas do 115 RENATO TADEU VERONEzE ◀ Voltar ao sumário capitalismo colocou no momento presente, principalmente, e em re- lação à crise política que tem estampado um cenário de horror e de indignação de um navio que enfrenta problemas e que pode estar à deriva nessa epopeia. 1 Uma nau à deriva A partir de 2008, uma nova crise começa a despontar nos Estados Unidos e na Europa. Ao mesmo tempo, um número considerável de manifestações populares e sociais começaram a eclodir em várias par- tes do Globo, causadas, sobretudo, pelo agravamento das condições de vida provocada pelos ajustes fiscais e financeiros para a manutenção do poder hegemônico do capital. Além disso, uma série de políticas neoliberais e neoconservadoras passaram a ser a mola mestra do cli- ma de efervescência e descontentamento generalizado (VERONEZE, 2019; 2017). No Brasil, políticas de recessão, de criminalização dos movimen- tos e das manifestações sociais e políticas de austeridade impostas por Governos estaduais, sob a chancela do Governo Federal, mantinham o status quo da hegemonia do capital sobre a vida social, massacran- do impiedosamente a população trabalhadora, principalmente, nos grandes centros urbanos, nos quais as condições de vida e de trabalho, na maioria das vezes, são mais pauperizadas e precarizadas, principal- mente, para uma população periférica. A partir de 2012 cresce o número de greves de várias categorias de trabalhadores, assim como mobilizações por moradia, terra, ocupação de fábricas falidas e escolas, por demarcações das terras indígenas e quilombolas, entre outras, sofrendo, na maioria das vezes, austeridade pelos poderes públicos constituídos, sobretudo, pelas forças militares (MARCONSIN; ABRAMIDES, 2019). Na sequência, os anos de 2013 e 2014 foram marcados por diversas manifestações populares e sociais que mobilizaram o país, desenca- deadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), formadas, em sua maioria, por jovens estudantis e organizadas por meio de ciberespaços. Inicial- mente, o motivo desencadeador havia sido o aumento do preço das 116 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário passagens de ônibus, mas ao longo do tempo foram ganhando força e novas reivindicações começaram a fazer parte dessas mobilizações, tais como: melhorias nos serviços públicos, educação, saúde, moradia, precarização da vida e do trabalho, meio ambiente, contra os megae- ventos e, principalmente, contra os mega esquemas de corrupção, que assolavam o país, notando-se uma insatisfação generalizada, mas que, naquele momento, não eram acompanhadas por uma grau de cons- ciências política do ponto de vista classista. Enquanto uma massa de indignados tomava as ruas ao redor do país em prol do direito à cidadania, à democracia, à liberdade e ao “direito a ter direitos”, por um lado, na outra ponta, uma onda conservado- ra, reacionária, separativista e fundamentalista da burguesia direitista, que teima em ser reconhecida e se manter no poder, mostrava a sua cara. Esse movimento de caráter sociopolítico e cultural-ideológico, constituído pelos mais diferentes atores sociais, pertencentes às dife- rentes classes e camadas sociais, reivindicava diferentes temáticas, em um pluralismo que se misturou ao sentimento de participação, heroís- mo, revolta e paixão. Segundo Gohn (2007), essa “massa” de indigna- dos se apresentava sobre distintas formas de se organizar e de expressar suas demandas e reivindicações. Essa nova modalidade de organização e de mobilização social esta- va visível em todo o Mundo, por meio das grandes marchas de protes- tos, que tomaram as ruas naquele período, expressando sua insatisfa- ção política e social, na busca de confrontos com os atuais governantes ou, até mesmo, na derrubada de regimes autoritários ou de pressão às políticas de ajuste fiscal, financeiro e de perda de direitos como, por exemplo, no caso brasileiro. Essas manifestações populares apresentavam características singu- lares: o despertar político de jovens1, sobretudo da classe média, a com- preensão do empoderamento social frente aos Governos corruptos e levando em conta o custo de vida nos grandes centros urbanos, de 1 Gohn (2014) aponta que a grande maioria desses jovens possuía diplomas universitários (cerca de 77%) e menos de 25 anos (53%), segundo pesquisas realizadas em tempo real. 117 RENATO TADEU VERONEzE ◀ Voltar ao sumário modo a demonstrar certa indignação com a diminuição dos gastos nas políticas públicas e com a promoção de megaeventos no Brasil. Entretanto, essas manifestações foram perdendo força no decorrer do segundo semestre de 2013, desaparecendo das ruas como movimen- to de massa. Contudo, uma nova forma de manifestação despontou no horizonte: [...] O que os motivam é um sentimento de descontentamento, desencantamento e indignação contra a conjuntura ético-polí- tica dos dirigentes e representantes civis eleitos nas estruturas de poder estatal, as prioridades selecionadas pelas administra- ções públicas e os efeitos das políticas econômicas na sociedade (GOHN, 2014, p. 13). Em 2014, os gastos com os megaeventos, em detrimento das políti- cas públicas e sociais, passaram a ser denunciados pela grande mídia nacional, o que gerou outra onda de manifestações populares e sociais, com forte repressão das forças militares aos movimentos sociais. A in- satisfação política, sobretudo de uma classe média em ascensão, prin- cipalmente, em decorrência das medidas de ajustes fiscais a serviço do grande capital financeiro, o aumento das taxas de desemprego e dos juros bancários culminaram com ajustes na redução de recursos às po- líticas públicas e sociais, abrindo debate para a reforma da previdência social, com várias perdas para a classe trabalhadora. Estes fatores culminaram com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, subindo ao poder Michel Temer, fruto de um casuísmo jurí- dico e manobras institucionais e midiáticas orquestradas pela extrema direita da grande burguesia, estabelecendo, assim, o aprofundamento de uma crise política no país em favor do grande capital. Em tempos de crise política e econômica que implicaram uma devassa da devassa2 2 Devassa é um termo jurídico que implica a pesquisa de provas, a observação, a inquirição de testemunhas e a sindicância para averiguação de ato criminoso. O mesmo pode ser utilizado para indicar uma mulher vulgar, que se corrompeu ou se prostituiu, em outras palavras, que não tem moral. Ambas as definições se encaixam na crise política brasileira desse período (VERONEZE, 2018). 118 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário de investigações para apurar crimes de políticos corruptos, que desvia- ram bilhões de reais dos cofres públicos, estabeleceu-se um período tenso em âmbito nacional e internacional. O Partidodos Trabalhadores (PT), no poder desde 2002, sangrou não somente pelos seus erros, mas pelas alianças que fez para chegar ao poder, se afastando basicamente daquilo que foi ou o que se propu- nha quando assumiu o poder. Por mais que o governo petista tenha ampliado o acesso aos direitos sociais, ficou muito distante de suas bases militantes mais sofridas: os trabalhadores. Suas bases continua- ram no chão de fábrica, nas ruas, inseridas no mundo do trabalho e na militância política, e não se coadunaram com os quadros políticos que foram para os gabinetes (VERONEZE, 2017, p. 356). Nessa direção, tudo conspirou para um golpe político do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), partido de Michel Te- mer em conluio com a grande burguesia aliada à extrema direita, para com o Partido dos Trabalhadores (PT), mostrando a sua cara de parti- do coadjuvante, mesquinho, interesseiro e egoísta, como sempre foi. O golpe político foi muito bem arquitetado, contribuindo para a vitória das lideranças políticas ultraconservadoras. Infelizmente, o país não tem uma esquerda organizada e uma cultura política que desse conta desse processo, mas apesar de alguns avanços nessa direção, hoje o povo brasileiro é mais empoderado e tem reagido com mais veemência ao desmonte das políticas públicas e aos direitos arduamente conquis- tados (VERONEZE, 2017; 2018). O projeto Temer, que se dizia salvador da pátria, gerou mais ins- tabilidade política e desmonte das políticas públicas. Ainda, o poder da justiça definiu os contornos do golpe e deu capa de le- galidade com omissões, protelações e permissividades. Contra as medidas impopulares os estudantes e alguns movimento sociais ainda resistiram assombrados pela ditadura Michel Temer, con- tudo, têm sido reprimidos com extrema violência e truculência policial e pelo avanço do neoliberalismo ultraconservador (VE- RONEZE, 2017, p. 357). 119 RENATO TADEU VERONEzE ◀ Voltar ao sumário As perdas para a classe trabalhadora, nesse período, foram substan- ciais. Temer acabou com os Ministérios ligados aos direitos humanos, deu prioridade para as medidas neoliberais e à desconstrução das con- quistas sociais, congelou os gastos públicos em relação às políticas so- ciais, o que favorece os grandes empresários, deu sequência à Reforma da Previdência, diminuiu os gastos com as políticas habitacionais, re- trocedeu direitos historicamente conquistados e garantidos pela Cons- tituição Federal de 1988, enfim, implementou planos e medidas duras e antidemocráticas em um claro desmonte da Seguridade Social. No entanto, nessa epopeia, o pior estava por vir. A eleição de um presidente miliciano, em 2018, foi o golpe de misericórdia da demo- cracia brasileira. O candidato eleito da ultradireita, Jair Messias Bolso- naro, tem desempenhado o seu papel como um presidente centraliza- dor, com uma retórica que afronta os direitos humanos e a democracia deste país, em uma governança que mais parece uma “pantomina de indignação” (IASI, 2020). Segundo Iasi (2020, p. 3): [...] o que se esconde por trás da manobra diversionista é uma complexa relação de forças entre dois segmentos – a direita e a extrema direita – que medem forças como pugilistas no início de uma luta. Temos trabalhado com a hipótese que há um segmento das classes dominantes que pensou em utilizar Bolsonaro como alternativa para derrotar o petismo para implementar a agenda mais dura do capital em crise. Esse segmento acredita que po- dia controlar o miliciano, deixando-o com suas proezas bizarras enquanto se ocupava do essencial: as reformas contra a classe trabalhadora. O processo em pauta no país reproduz exatamente isso. O termo mais significativo da citação de Iasi é exatamente “bizarro”, isso traduz este Governo. O que se tem visto é o aprofundamento da crise política, econômica e social, principalmente, agora com o avanço da pandemia da COVID-19, que já soma milhares de mortes no país e um caos na saúde pública. 120 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Iasi (2020, p. 3-4) faz uma ótima análise de conjuntura que não se pode desconsiderar. Tanto o miliciano como os seus eleitores/segui- dores creem que ele é a personificação do messias, de um mito, um salvador que veio livrar o país da “ameaça comunista”, em uma: “[...] cruzada contra as esquerdas e os inimigos da Pátria e da família”, em uma fantasiosa guerra entre o bem e o mal. A retórica deste Governo não esconde os fatores fascistas, ideologi- camente funcionalista e fundamentalista, que se mostram em um jogo de tentativa e erro, enquanto o povo fica a sua mercê e a vida humana é desprezada sem qualquer cerimônia. Há uma fração das classes dominantes que, apesar de perceber o inconveniente da figura e seus riscos, acredita que ele é um mal menor. Afinal, o fundamental são as reformas e a retomada das taxas e lucros a patamares aceitáveis. Se o preço a pagar é a destruição do país e uma aventura fascista, esses senhores estão dispostos a pagá-lo – como já fizeram no passado, diga-se de passagem. Creio que aqui está a chave do enigma da conjuntura: o miliciano ainda não caiu porque as classes dominantes estão divididas quanto à necessidade de tirá-lo e as consequências que daí viriam. A Rede Globo não está sendo contraditória ao de- nunciar falcatruas e depois elogiar a política econômica, apenas expressa, com isso, a divisão interna de seus verdadeiros man- dantes (IASI, 2020, p. 4). Em seus discursos prosodianos, o presidente Bolsonaro tem uma retórica pouco fluídica e instantânea, centralizadora e carregada de embates aos seus “inimigos”, que, na maioria das vezes, são a oposição, alguns governadores e prefeitos ou mesmo a grande impressa. Em seus pronunciamentos e em diversas falas aos jornalistas, Bolsonaro exalta um clima de terror assombrado pelo fantasma da crise econômica e aos “divórcios consensuais” com a sua equipe e com os poderes cons- tituídos. Além disso, exalta sempre a sua figura egoica, discursando o tempo todo para a sua base eleitoral, ou seja, grupos de “filisteus patriotas 121 RENATO TADEU VERONEzE ◀ Voltar ao sumário tementes a Deus”, apoiadores da sua figura messiânica. Estes discur- sos têm por centralidade a sua própria figura, em um propagandismo exacerbado de si mesmo (eu), enquanto militar, cristão e presidente da República, em detrimento à nação, ao povo, às instituições públicas e às ações políticas universais, o que demonstra o seu direcionamento ou para quem ele está falando. O momento é de muita cautela e problematizar o movimento de mudança no Estado burguês e na sociedade, a partir das condições e contradições inerentes à dinâmica da produção e reprodução das rela- ções capitalistas no contexto da crise do capital, neste momento, não é uma tarefa fácil, mas se pode pensar e problematizar como agir depois do período de isolamento social por conta da pandemia, que assola a humanidade. Muito mais que pensar em questões políticas, necessita-se pensar nos problemas globais, como, por exemplo, a sobrevivência do Planeta. Questões como: poluição, desmatamento, devastação, extração exacer- bada dos elementos naturais, aumento da produção e do consumo, en- fim, uma série de mudanças de comportamentos e outros fenômenos que afetam diretamente as leis gerais da natureza. O capitalismo está fundado no modo de produção de valor exce- dente, na acumulação de capital, na luta de classes e no trabalho assa- lariado. O aumento progressivo e o desenvolvimento das forças pro- dutivas requerem, sobremaneira, que o círculo de consumo se amplie no interior da circulação de modo que também se alargue o círculo produtivo (MARX, 2011). Marx (2011) apontava que a ampliação quantitativa do consumo im- plicaria, concomitantemente, a criação e a ampliação de novas necessi- dades e de novos valores de uso. Contudo, esse aumento desenfreado e irracional cria uma “[...] ameaça permanente à dinâmica da acumula- ção contínua, gerandofrequentes períodos de crises” (HARVEY, 2014, p. 363). Desse modo, Mészáros (2015) aponta que somente mudanças radi- cais nas bases substantivas e estruturais do sistema e da lógica do ca- pital, na direção de uma proposta socialista, de modo a criar a “neces- 122 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário sidade radical”3 de derrubar este sistema é que podem evitar o colapso do Planeta. Essa crescente inadequação do desenvolvimento produti- vo, nos dizeres de Marx (2011), manifesta-se em agudas contradições, crises, convulsões e destruição violenta pelo capital. A dinâmica do sistema capitalista está sujeita à lógica destrutiva das crises cíclicas4 e periódicas do capital (VERONEZE, 2018). 2 O poder do dinheiro Os momentos de crises e efervescências sociais e de massas reme- tem a muitas figuras importantes. No campo da música, por exemplo, houve um grande compositor, dramaturgo e, talvez, filósofo que, por meio de seus escritos, de sua música e de seus ideais, pretendia revolu- cionar a sociedade. Revolucionário convicto, mas assombrado pelas suas necessidades, sobretudo as financeiras, Richard Wagner (1813-1883) foi um nome con- troverso, tanto pela forma de viver excentricamente, como pela forma de expressão musical. Assombrado pelas suas necessidades financeiras, pela humilhação artística e pela falta de esperança, sua obra foi um produto do seu tempo. Profundamente poética, expressava a sua ge- nialidade, mas também os fantasmas que o assombravam. O seu estilo 3 Necessidades radicais são todas aquelas que nascem na sociedade capitalista como conse- quência do desenvolvimento da sociedade civil, e que não podem ser satisfeitas dentro dos limites da mesma, o que implica em fatores que possam levar a superação do capitalismo, da relação de assalariamento, da concentração da propriedade privada, da luta de classes e ao definhamento do Estado burguês. Somente sobre essas bases, de uma sociabilidade inteiramente nova, é que acreditamos que os indivíduos sociais possam se desenvolver ple- namente (“por inteiro e inteiramente”), na qual trabalho, sociabilidade, consciência, liber- dade, ética, arte, filosofia, tempo verdadeiramente livre e ócio estejam em conformidade com as aspirações mais autênticas suscitadas no interior da vida cotidiana e na valoração do sentimento de comunidade enquanto valor ontológico-social (VERONEZE, 2018). 4 Entende-se que os momentos de crises do capital não implicam, necessariamente, o fim do capitalismo, mas a busca de soluções bruscas para o restabelecimento da normalidade do próprio sistema que volta ao seu eixo destrutivo e contraditório. Em outras palavras, Marx já apontava que os momentos de crises criam condições para um novo processo, muitas vezes, mais avassalador de acumulação de capital e de exploração do sobretrabalho. Tal movimento implica o caráter cíclico dessas crises. 123 RENATO TADEU VERONEzE ◀ Voltar ao sumário dramático-musical revelava dramas, epopeias musicais e teatrólogas que expunham o herói, a batalha, a liberdade, a vitória e o fracasso. As sagas de Wagner popularizaram as lendas pagãs, místicas e reli- giosas dos povos nórdicos, salvaguardando o blasfemador do eterno prazer. Revolucionário desde a mocidade e republicano convicto, ele era acolhido nas rodas anarquistas e socialistas de sua época. Em 1849, Richard Wagner escreve um célebre ensaio intitulado A arte e a revolução, no qual a tese central gira em torno da complemen- tariedade entre a revolução estética e a revolução social. Partindo da crítica da separação das artes, Wagner dará um salto qualitativo para chegar à crítica da sociedade separada pelo dinheiro. O capitalismo criou todas as condições para que os sonhos e as esperanças se tornas- sem realidades, mas criou, também, e ao mesmo tempo, a desilusão. Essa pequena exposição permite ter uma ideia do que pensava e desejava Richard Wagner, um revolucionário de sua época, muito dis- tante de seu grande admirador Adolf Hitler, do nazismo alemão e da cinematografia hollywoodiana de Apocalipse Now, um filme épico de guerra norte-americano, de 1979, dirigido por Francis Ford Cappola e escrito por John Milius, sobre a guerra do Vietnã. Nesse filme, uma das obras do Anel de Nibelungo, a Cavalgada das Valquírias, é tocada pelos alto-falantes dos helicópteros em meio a um ataque aéreo. Esta referência a Richard Wagner nada tem a ver com esses fatos, pura deturpação, fruto do irracionalismo humano, mas a situação em que Wagner se colocava enquanto dependente de salários para dar conta de suas necessidades e produzir a sua arte. Wagner (1990, p. 77) acreditava que: “[...] quando não subsiste a possibilidade de todos os homens serem igualmente livres e felizes, todos os homens se tornam igualmente escravos e miseráveis” (grifos do autor). Essa condição de “escravos e miseráveis” tem para Wagner dois fatores principais: o capi- talismo e o cristianismo. O primeiro escraviza grande parte de homens e mulheres à condi- ção de assalariados e os coloca à mercê de suas necessidades; o segun- do, por sua vez, aconselha a maioria das pessoas a serem subservien- tes aos desígnios de Deus, para ganhar na vida espiritual uma melhor condição. Enquanto isso, capitalistas burgueses, banqueiros, proprie- 124 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário tários e a própria igreja (seja essa de qual denominação religiosa for) ensinam que todos devem ganhar o pão de cada dia por meio do suor de seu rosto, enquanto os mesmos vivem à custa do trabalho de seus “escravos”: “[...] O deus do nosso tempo é o dinheiro, tal como a nossa religião é o lucro” (WAGNER, 1990, p. 78). Para Wagner, o poder corruptor do dinheiro, a propriedade como sinônimo de roubo, a opressão estatal e a arbitrariedade do poder eram formas de corrupção da generalidade humana, e atribuía ao dinheiro um poder maléfico, corruptor, capaz de adulterar toda e qualquer ati- vidade. Acreditava e defendia um tipo de organização coletiva da vida que conduzisse o gênero humano a um desenvolvimento harmonioso. Morreu apontando o Estado, a propriedade, o poder do dinheiro, o militarismo, a legislação opressora, o centralismo prussiano e o pan- germanismo como causas principais da miséria humana (WAGNER, 1990). Nada obstante, o dinheiro é uma categoria unitária que interiori- za duas funções: representa valor (valor de uso e valor de troca) e é medida de valor. Tudo na vida social foi reduzido a um valor que pu- desse ser medido por certa quantidade de dinheiro. O dinheiro é uma mercadoria especial, na qual todas as outras mercadorias expressam o seu valor e têm como funções servir de equivalência geral, meio de troca, meio de acumulação (ou entesouramento) e meio de pagamento universal. O dinheiro se cristalizou como uma mercadoria de troca, que toma a forma de mercadoria-dinheiro. Apesar de encobrir as origens do va- lor, no tempo socialmente necessário para a produção de mercadorias, é utilizado como simples meio para a movimentação e circulação de mercadorias. Contudo, o dinheiro em si não é bom ou mau, não é esse que assola a humanidade, mas o valor que lhe é dado e às coisas. Nessas condições, o capitalismo na atualidade tem levado à barbá- rie as últimas consequências. Crises estruturais de toda ordem assolam a humanidade e a natureza a resultados devastadores, não apenas na economia, mas também na política, na cultura e no social. De modo geral, as crises geradas pelo capital se traduzem em crises no mundo 125 RENATO TADEU VERONEzE ◀ Voltar ao sumário do trabalho, na esfera econômica e no interior do Estado burguês, e os seus resultados afetam, sobremaneira, a vida cotidiana das pessoas. O capitalismo se alimenta das crises que provoca, e, ao mesmo tem- po, as cria, de modo que não há capitalismo sem crise. No momento presente se está experimentando mais um momento de crise sistêmica, só que dessa vez há novas características envolvendoo conjunto das instituições próprias da burguesia, o que tem levado à universalização da barbárie. No debate sobre os rumos da economia mundial, nesta segunda dé- cada do século XXI, a incerteza parece ter se tornado consenso entre os analistas. As crises cíclicas têm se tornado mais periódicas, impre- visíveis e severas, principalmente, para os países em desenvolvimento. Harvey (2011; 2016) mostra que o epicentro da produção tem se deslo- cado para os países em desenvolvimento, enquanto os países industria- lizados estão se desindustrializando. Harvey (2011; 2016) aponta, ainda, que nos últimos trinta anos boa parte dos investimentos não têm ido para a produção, mas para ati- vos e para a valorização de ativos, como aluguéis de terras, preços de imóveis e até mesmo para o mercado de arte. O setor financeiro tem inventado novas maneiras de expandir, já que as áreas de expansão têm ficado cada vez mais escassas. Hoje, se ganha dinheiro jogando com o próprio dinheiro. Esse mercado especulativo é muito propenso às crises financeiras, mas também se tem visto que esse propicia crises políticas e crise entre as nações, tendo como objetivo expandir o capital, seja através de ter- ritórios ou mesmo pela guerra. Essas crises, em sua grande maioria, se vinculam aos valores fictícios e aos espaços urbanos, pois grande parte dos investimentos urbanos são fictícios. Os problemas atuais começaram a ser sentidos nos anos de 1980 e 1990, porque o capital não encontrava mais áreas para a sua expansão. Esses fatores levam à “necessidade radical” de expansão e, ao mesmo tempo, de falência do capitalismo, o que afeta significativamente a “classe-que-vive-do-trabalho” e o cotidiano das pessoas, principalmen- te as classes mais subalternizadas. 126 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Wagner defendia que a arte e os artistas não poderiam estar subor- dinados ao dinheiro. Para ele: [...] o assalariado interessa-se apenas pelo objetivo dos seus es- forços, pela utilidade que possa colher do seu trabalho; a ativida- de que pratica não lhe traz satisfação, constitui tão-somente um fardo, uma necessidade incontornável, que de bom grado entre- garia a uma máquina. O trabalho só o prende por obrigação e é por isso que o assalariado tem o espírito ausente daquilo que faz e passa o tempo a pensar noutros objetivos que pretende atingir tão depressa quanto possível. Se o objetivo imediato do traba- lhador for a satisfação de uma necessidade pessoal, por exemplo, construir uma casa, produzir os seus próprios instrumentos de trabalho ou confeccionar as suas roupas, então, juntamente com o prazer nos objetos úteis que vai tendo ao seu dispor, há de ir crescendo a tendência para trabalhar os respectivos materiais se- gundo imperativos do seu gosto pessoal (WAGNER, 1990, p. 72). Além disso, dizia ele que se o: “[...] trabalhador aliena o produto do seu trabalho, resta-lhe apenas o valor abstrato do dinheiro, e a sua ati- vidade, não podendo elevar-se acima da produtividade mecânica, re- presenta somente esforço, trabalho triste e amargo” (WAGNER, 1990, p. 73). O trabalho contínuo, nessas condições, quase destituído de ob- jetivos, destrói os corpos e o espírito humano. No capitalismo, a inserção na divisão sociotécnica do trabalho e a venda da força de trabalho – que reduz o trabalhador ao assalariamen- to – é condição sine qua non para sua própria sobrevivência e a de sua prole, o que produz um antagonismo entre duas classes sociais: de um lado estão aqueles que detêm o capital e os meios de produção, e do outro aqueles que somente têm a força de trabalho e a vendem para sobreviverem. Dessa forma, o trabalhador é visto como mera mercadoria. As re- lações de trabalho, no contexto do empobrecimento, da instabilidade e de desregulamentação se transmutam em relações mercadológicas e de exploração, apartando o trabalhador do processo de produção e do 127 RENATO TADEU VERONEzE ◀ Voltar ao sumário fruto do seu trabalho, causando, assim, sua alienação e o estranhamen- to, cabendo-lhe somente a condição de assalariamento. No processo de produção e reprodução da situação coisal e obje- tual, os trabalhadores são vistos como uma mercadoria comprada no mercado para a produção de mercadorias e que trabalham em troca de uma mercadoria-dinheiro, que serve para comprar outras merca- dorias, que irão sanar suas carências e necessidades físicas, psíquicas, sociais, culturais e espirituais. E até mesmo o tempo de não-trabalho se reduz à compra de mercadorias (VERONEZE, 2018). Nesse processo de alienação e estranhamento, o operário acaba as- sumindo características inferiores a própria condição humano-genéri- ca ou até mesmo passa a expressar sentimentos, atitudes, hábitos, de- sejos, costumes, culturas, formas de expressões estranhas à sua própria natureza (VERONEZE, 2013). Essa relação sociometabólica do capital faz com que a vida social, o Estado e as relações sociais estejam a serviço do capital, ultrapassando, assim, o mundo do trabalho, atingindo as outras esferas heterogêneas da vida cotidiana. Em outras palavras, condicionados pela lógica do capital, as relações sociais da vida cotidiana ficam impregnadas de va- lores capitalistas, individualistas e mercantis. Assim, desde o momento do nascimento até o fim da vida, os indivíduos sociais estão inseridos nessa relação de compra e venda, desde as coisas mais primárias para a sua sobrevivência até as necessidades mais subjetivas e espirituais. Nesse sentido, a violência e a barbárie tendem a ser naturalizadas, de modo a despolitizar e individualizar as questões sociais, tendo como consequência a abstração das determinações sociais. Por outro lado, os meios de comunicação, a mídia e as Redes Sociais, por meio da capilarização de suas ideologias e tecnologias, falseiam a história, naturalizam as desigualdades, moralizando a “questão social”, incitam a população às práticas fascistas, nas quais o uso da força, da pena de morte, do armamento, dos linchamentos, da xenofobia, do preconcei- to, das discriminações, entre outras formas de violências são naturali- zadas e defendidas (BARROCO, 2011). Nesse estágio de condicionamento, as relações sociais e consigo mesmo, em sua grande maioria, tendem a se mostrarem como rela- 128 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário ções entre coisas, imbuídas por um alto grau de alienação e reificação, como também fetichizadas, ou seja, impregnadas pelo “caráter místico” e fantasmagórico da coisa-mercadoria, de modo que os direitos huma- nos e sociais são diretamente violados pelo processo de massificação, de exploração, de flexibilização e de precarização das condições de tra- balho e de vida, impondo aos trabalhadores, principalmente, a obriga- toriedade de se inserirem nesse mercado nefasto para sobreviverem, já que não têm outros meios para alterarem essa situação. Por outro lado, uma massa de lumpemproletários ficam entregues a sua própria sorte, muitas vezes, ocupando os espaços públicos ou incorporando-se ao setor de serviços, única alternativa para sua sobrevivência. Enfim, a inquietação que paira no ar não permite mais ficar de bra- ços cruzados. Esta equação ainda está longe de ser resolvida e só se ob- terá uma mudando quando as suas incógnitas puderem ser resolvidas, se é que há uma solução plausível. Contudo, o Mundo foi surpreendido por um problema de propor- ções históricas. Na contramão do acúmulo de contradições e crises da epopeia capitalista, uma grande tempestade pandêmica colocou o Mundo em estado de suspensão. Com um potencial avassalador em ceifar vidas por todo o Planeta, uma mutação viral acelerou, significa- tivamente, os processos de crises políticas, econômicas e sociais. Da pandemia ao pandemônio Estima-se que a pandemia, que tem assolado a humanidade, pode provocar um colapso nos sistemas financeiros de todo o Mundo su- perior ao da queda da Bolsa de Nova York, em 1929. Emum esforço coletivo global e humanitário, seguindo arisca as orientações da Or- ganização Mundial de Saúde, todos os países se viram em uma situa- ção nunca vista até então. A sociedade foi colocada em quarentena e isolamento social, o setor produtivo foi obrigado a parar parcialmente, fronteiras foram fechadas e Governos foram obrigados a colocar em ação planos emergenciais para atender o grande número de doentes/ contaminados e mortos pala COVID-19. 129 RENATO TADEU VERONEzE ◀ Voltar ao sumário O medo, a angústia e as incertezas tomaram conta de todas as pessoas frente a esta nova realidade inesperada e desconhecida. Nes- sa situação, o Brasil, que já enfrentava graves problemas políticos e econômicos, se viu em uma situação ainda mais complicada. A con- taminação viral alastrou rápida e descontroladamente, enfrentando o colapso iminente do sistema de saúde em todo o país. O número de mortos vem crescendo vertiginosamente, hoje já afetando as periferias, as populações ribeirinhas, as comunidades indígenas, as populações pobres e em situação de maior vulnerabilidade. As medidas de distanciamento social, o uso obrigatório de máscaras e álcool gel têm tido um efeito imediato, mas ainda a situação está mui- to longe de ser controlada. As condições de desigualdade e de vulne- rabilidade social fazem com que a população mais pobre tenha menos condições de atendimento, de tratamento, de prevenção e de acesso aos hospitais que, em algumas capitais, estão com a sua capacidade máxima de atendimento. Junto a este cenário desolador, o Brasil enfrenta ainda uma crise política e econômica interna e externa sem precedentes, talvez, uma das maiores em toda a história nacional. Frente a irracionalidade de um Governo com feições fascistas e bonapartistas, o Brasil tem ser- vido no cenário internacional como modelo do que não se deve fazer. Sendo considerado uma das dez maiores economias do Mundo e com grande influência no cenário latino-americano, hoje, o país tem tido a sua imagem manchada por conta de um Governo irracional e que tem mostrado que está mais interessado em manter os setores econômicos funcionando e rendendo do que as vidas humanas, se rendendo aos anseios do capital e às manobras políticas de visibilidade para as pró- ximas eleições. As inflexões políticas do atual Governo, principalmente, do presi- dente da República, frente ao isolamento social e ao número crescen- te de mortes é de alto risco. Busca minimizar os efeitos da pandemia, atacar governadores e a mídia falada e escrita, condenar as medidas de isolamento social, adotar uma linha de confronto grotesco a todo o momento, adotando uma prosódia que espalha terror para uma crise econômica, que é estrutural. 130 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário O momento é de tensão frente às divisões políticas, afastamentos, demissões e desligamentos do Governo. Pela primeira vez, a ala da grande burguesia dá sinais de fragilidade, arquitetando uma ofensiva tradicionalmente direitista para recuperar o espaço político, de modo a buscar uma nova alternativa burguesa para as próximas eleições. Nesse circo de horrores, se assim se puder referir ou, em outras palavras, nesse vale de lágrimas da epopeia capitalista que cria, gesta, pare e alimenta figuras tão perversas como o miliciano histérico, que ocupa a cadeira da presidência da República e uma geração de filisteus apaixonados, súditos e cumprisses dessa irracionalidade, não há lugar para autopiedade nem espaço para o medo, parafraseando a escritora Toni Morrison, que registrou estas palavras em um ensaio após a elei- ção de Trump, nos Estados Unidos, afirmando que se vive em tempos sombrios e que mais do que nunca os artistas não devem ficar calados. Nas palavras da escritora: “Este é o momento em que os artistas preci- sam trabalhar. Não há tempo para desespero ou silêncio. Nós falamos, nós escrevemos, nós criamos linguagens. É assim que as civilizações se curam” (LOURENÇO, 2017). Hoje, todos são artistas e, portanto, não podem ser calados. Este é o momento de resistência e de politização da sociedade. Acre- dita-se que somente uma ação mobilizadora dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada, em uma proposta socialista democrática, é que pode alavancar novas mudanças, contudo, as lutas sociais devem estar focadas em uma perspectiva anticapitalista, anti-imperialista e de supressão da lógica do capital, enfatizando que os trabalhadores assumam o seu papel de sujeitos revolucionários. Termina-se este artigo com as palavras de Lukács (2009, p. 242): “[...] abrir caminho significa criar condições materiais necessárias e um campo de possibilidades para a livre utilização de si”. E continua: “o homem deve conquistar sua própria liberdade através de sua própria ação. Mas ele só pode fazê-lo porque sua atividade já contém, como parte constitutiva necessária, também um momento de liberdade”. 131 RENATO TADEU VERONEzE ◀ Voltar ao sumário Referências BARROCO, M. L. S. Barbárie e neoconservadorismo: os desafios do projeto ético-político. 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Dissertação (Mestrado em Ser- viço Social). 2013. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). São Paulo: PPGSS/ PUCSP, 2013. WAGNER, R. A arte e a revolução (1849). Trad. José M. Justo. Lisboa: Antí- gona, 1990. 133◀ Voltar ao sumário CAPÍTULO 6 Notas sobre a relação entre cidade e Estado na contemporaneidade Betina Ahlert Introdução Este capítulo tem como objetivo adensar o debate sobre a relação entre o Estado e a cidade, buscando discutir o papel desenvolvido pelo Poder Público na regulação e produção do espaço urbano. Historica- mente, essa relação se institui de diferentes formas e coaduna com a transformação da cidade em elemento fundamental para a acumula- ção capitalista. Na formação sócio-histórica brasileira, o Estado passou a construir uma relação mais direta na formação das cidades, a partir da Revo- lução de 1930. Esta possibilitou o estabelecimento da nova burguesia nacional e o crescimento da indústria alicerçada à ideia de desenvol- vimento. Em uma realidade de produção agrária e de concentração de poder, pelas oligarquias rurais, houve o redirecionamento de ações do Estado na destinação do excedente gerado no campo para a cida- de. Isso ocorreu na mediação das relações do trabalho industrial e no investimento de infraestrutura, que geraram o crescimento urbano e a consequente regulação das relações, que se estabelecem nas cidades (OLIVEIRA, 1982). Parte dessas atribuições estatais históricas destacadas por Oliveira (1982) se mantém, somadas a outras e readaptadas no capitalismo na era das finanças. Entre essas, ainda tem destaque a mediação das rela- 134 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário ções do trabalho, agora em um novo momento em que há um aumento da informalidade e do desmonte dos direitos trabalhistas. Além disso, segue a promulgação de leis que fazem a regulação e o controle da ocu- pação do solo urbano e a criação e manutenção do aparelhamento para a sua implementação. Destacam-se também as políticas públicas, entre essas as urbanas e as sociais que, inclusive, têm caráter territorial. Cabe mencionar também a construção de infraestrutura, que teve destaque nos anos 2000, no Brasil, através do Programa de Aceleração do Cres- cimento e dos megaeventos esportivos. Existe, também, nessa relação, um afastamento do Estado no provimento a garantia do direito à cida- de, que deve ser acessado, via mercado, e o controle e criminalização das classes populares e suas resistências. Oliveira (1982) considera que é fundamental refletir sobre as carac- terísticas do Estado, que se constitui e infere na sociedade urbana, já que, historicamente, no Brasil, esse se aproxima do mercado e se afasta da sociedade civil. Isso acaba por diminuir seu caráter de árbitro nas relações de classe, mas não o seu caráter de poder. Além disso, para o autor, é o Estado que toma as decisões em torno do excedente produzi- do, sendo responsável pela criação de um abismo entre classes. Soma- -se a isso o fato de que é o Estado quem direciona os gastos da urbani- zação para atender às elites, reforçando a desigualdade socioterritorial. Com a crise do capital e o avanço do neoliberalismo, a mundializa- ção da economia e a financeirização, a cidade é colocada em um novo patamar na busca da acumulação. Para Harvey (2005), a dimensão es- pacial e o território são fundamentais para sua perpetuação. No plano de gestão das cidades, marcadas pelo capitalismo dependente e os ajus- tes estruturais, o Estado se afasta de suas funções sociais e cria meca- nismos que promovem a “cidade mercadoria”, através do planejamento estratégico e da privatização dos territórios urbanos. Outro aspecto que merece destaque são as características de expansão do Estado Pe- nal, no contexto de inflexão ultraliberal, no âmbito do neoconserva- dorismo. Com base nesse aspecto, parte-se da ideia de que o avanço do Estado Penal, em substituição ao Estado Social (no caso do Brasil, almejado na Constituição Federal de 1988), tem impactos singulares e importantes na produção do espaço urbano na atualidade. 135 BE TINA AhLER T ◀ Voltar ao sumário Para atender ao objetivo proposto, este texto traz, inicialmente, apontamentos sobre o Estado neoliberal e sua relação com a cidade, que se institui como ‘cidade mercadoria’. Posteriormente, esclarece o que se entende como Estado Penal para apresentar notas sobre a mate- rialização deste na cidade contemporânea. 1 Relações entre o estado neoliberal e a cidade O Estado neoliberal é resultante da crise do capital que se instala no Mundo, a partir da década de 1970, após os anos de estabilidade econômica e pleno emprego. Esse período foi resultante da combi- nação entre taylorismo, fordismo e keynesianismo e na implantação do Estado de Bem-Estar Social nos países de capitalismo central. O conjunto formado pelo neoliberalismo, mundialização do capital e a financeirização da economia trouxe mudanças substanciais no papel do Estado. Os mecanismos colocados em prática para a readaptação do capitalismo implicaram na maior exploração da força de trabalho – com destaque para o seu endividamento –, e na imposição do projeto neoliberal aos países de capitalismo dependente. Isso feito através dos ajustes estruturais nas políticas públicas e na esfera do Estado (DURI- GUETTO, 2017). No Brasil, essas implicações acontecem a partir de 1990, em contraposição às então recentes garantias sociais instituídas na Constituição Federal de 1988. Sob a justificativa de que o Estado era o cerne do problema da crise emergem as propostas de “Reforma” que, em realidade, tratam de uma opção política e uma estratégia de inserção passiva do país na dinâmi- ca internacional. Caracterizada como contrarreforma, “é o movimento pelo qual o capital tenta anular os novos atores políticos e tampar ou- tra vez a caixa de Pandora da desarrumação da relação de domina- ção” (BEHRING, 2008, p. 17). Em relação ao papel do Estado, Behring (2008, p. 23) destaca que esse “ocupa uma posição mais distante de me- diador vislumbrado pelos clássicos da política [...] passando a cuidar prioritariamente das condições gerais de reprodução do capital e dos excessos cometidos, no cenário de barbárie que se instaura”. 136 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário A transição da “Reforma” do Estado estava estruturada em três di- reções: a mudança da legislação, a introdução de uma cultura geren- cial e a adoção de práticas gerenciais, permeadas por estratégias de reforma da administração pública centradas nos servidores públicos e na Previdência Social. Entre as ações visando diminuição da partici- pação do Estado na regulação da economia, nas relações trabalhistas e na prestação de políticas sociais para abertura da livre circulação do capital e facilitação do fluxo global de mercadorias e dinheiro estão as privatizações e desestatizações, a redução de investimento de recurso público nas áreas sociais e o programa de publicização, responsável pelo avanço do Terceiro Setor (BEHRING, 2008). As implicações e as restrições à soberania nacional também mere- cem destaque com a mundialização do capital, marcadas pela desregu- lamentação para a livre movimentação de forças do mercado, que des- consideram impactos sociais e ambientais negativos. Implicam, assim, em questões ligadas às diferentes escalas, nacionais e locais (CHES- NAIS, 1996). É nesse ínterim, que contextos locais passam a ser alvo de investimentos internacionais, tornando as cidades mercadorias à venda e “[...] polos centrais de atração de investimentos e desenvol- vimento econômico” (DURIGUETTO, 2017, p. 114). Isso faz com que passem a desenvolver papel fundamental para a acumulação capita- lista em decorrência de suas possibilidades de meganegócios, obras e edificações (MARICATO, 2014).Diante desse cenário, “[...] dar deter- minada imagem à cidade através da organização e de espaços urbanos espetaculares se tornou um meio de atrair capital e pessoas (do certo tipo) em um período [...] de competição interurbana e de empreendi- mentismo urbanos intensificados” (HARVEY, 1989, p. 92). A competição das cidades na busca pela acumulação de capital está estruturada sobre algumas características. O que determina as ações é a ideia do ‘crescimento em primeiro lugar’, ou seja, a produtividade so- brepõe os aspectos sociais. Assim como a lógica mercantil penetra no urbano, a política urbana deve funcionar como os mercados competi- tivos. Também os empréstimos das agências de financiamento ocor- rem, de forma individual, de maneira que ações como privatização e desregulamentação são constantes. E o neoliberalismo condiciona que 137 BE TINA AhLER T ◀ Voltar ao sumário Estados e elites locais tenham uma postura agressiva na tentativa de monitorar e conseguir as melhores oportunidades; apesar dos discur- sos da inovação e da aprendizagem (e da parceria), que obviam reper- tórios baseados em subsídios para o capital. Portanto, existe ainda uma lógica institucional de punição para as cidades que não cumprem os acordos com organismos internacionais. Para finalizar, as cidades se encontram na linha de frente da resistência ao neoliberalismo (PECK; TICKELL, 2002). A relação entre a adaptação dos países à globalização e à reestru- turação do Estado foi acompanhada, no plano urbano, pela ideia de cidade global e pelo Planejamento Estratégico (FIX, 2011), superando os planos do Modernismo, que tinham por base a racionalidade e o zoneamento. Agora o objetivo é a requalificação urbana através de um plano estratégico, “capaz de gerar respostas competitivas aos desafios da globalização [...], e isto a cada oportunidade [...] de renovação ur- bana que porventura se apresente na forma de uma possível vantagem comparativa a ser criada” (ARANTES, 2000, p. 12). O planejamento estratégico das cidades é, assim, pensado e de- senvolvido ante os ditames da mundialização, que subordinam as cidades à criação de instrumentos voltados para incrementar sua competitividade e para ofertá-las no mercado global, que integre a organização dos espaços urbano-regionais e os inves- timentos públicos nos circuitos de valorização do capital e de atratividade para os grupos econômicos privados (DURIGUET- TO, 2017, p. 114). O planejamento estratégico assumiu um lugar central na gestão das cidades, combinando perfeitamente com o ideário neoliberal. Isso ocorreu por meio das ideias de cidade-corporativa, cidade-pátria, ci- dade-mercadoria, cidade-empresa. Assim, além da lógica empresarial, há o retorno ao civismo e ao patriotismo, tendo a cultura lugar central pelo reforço dos projetos de revitalização urbana (ARANTES; VAI- NER; MARICATO, 2000). Soma-se a isso a lógica empresarial que en- tende que a cidade deve ser gerida como uma empresa, assim como 138 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário a ideia do gerenciamento e empreendedorismo urbano que transfor- mam as cidades em laboratórios de marketing urbano, mediante zonas especiais de promoção econômicas e megaprojetos globais. A cidade é vista como uma “[...] máquina urbana de produzir renda” (ROLNIK, 2015, p. 20). Uma das principais estratégias engendradas, no contexto do em- preendedorismo urbano, são as Parcerias Público Privadas (PPPs), ca- racterizadas como uma ação conjunta entre Governos e empresas, que buscam atingir objetivos políticos e econômicos imediatos, de forma que seu o foco não está na busca pelo desenvolvimento econômico (HARVEY, 1989). Essas estratégias estão baseadas na justificativa da incapacidade do Estado, mas na prática, os recursos e riscos ainda são estatais (HARVEY, 1989), ou seja, a dita inovação na capacidade do setor privado está menos nas possibilidades desse promover recursos para investir no urbano e mais na viabilização do Estado em executar projetos, que sejam capazes de extrair renda da terra através das loca- lizações, seja através de sua criação, ou de sua revalorização (RODRI- GUEZ; SWYNGEDOUW; MOULAERT, 2005). Apresentam implica- ções importantes para a gestão da governança urbana, porque indicam uma nova lógica de produção da cidade com a participação dos fundos de investimento privado, ou seja, uma nova forma de deslocalização na era das finanças (ROLNIK, 2015). No contexto dessas transformações se percebe que também na re- lação entre o Estado e o urbano são sentidos os impactos das deter- minações, que acontecem em escala global. Essas se materializam nos territórios locais através dos mecanismos acionados para acumulação de capital na cidade mercadoria. Nesse movimento – marcado pela relação de proximidade do Estado com o capital privado e afastamento da ideia de universalidade de políticas sociais, emprego, renda e qua- lidade de vida urbana – emerge uma inflexão ultraliberal e ultracon- servadora, evidenciada na eleição presidencial de 2018. Essa inflexão reforça, no cotidiano da cidade, o controle, a penalização seletiva, a criminalização de movimentos sociais e o irracionalismo na condução de ações. Isso mostra a substituição da ideia de Estado Social por um Estado Penal (ARANTES, 2000; BRISOLA, 2012). 139 BE TINA AhLER T ◀ Voltar ao sumário 2 O Estado penal e a cidade Com a crise mundial do capital existe um redirecionamento no pa- pel do Estado que, no campo social, é percebido por meio do desin- vestimento nas políticas sociais em detrimento da hipertrofia de um Estado Penal. A formação sócio-histórica brasileira torna complexa a materialidade desse fenômeno, já que carrega uma herança de desi- gualdades de todo tipo, sendo um país no qual não se vivenciou a uni- versalidade dos direitos sociais e o pleno emprego. As ações no âmbito de um o Estado Penal têm se efetivado através do controle, da repressão e da punição, atreladas às práticas de abuso colo- cadas a cabo pelo Estado (SINHORETTO, 2016) na administração das expressões da questão social. Isso se aplica tanto para as desigualdades quanto para a resistências – o que demonstra a existência histórica de exploração e dominação (DURIGUETTO, 2017), que tem se instituído como opção do Estado e das elites “[...] para conter as tensões geradas pelo desemprego em massa, pela imposição do trabalho precário e pela retração da Proteção Social do Estado” (BRISOLA, 2012, p. 131). Dessa forma, essas são, portanto, formas de controle de classe que se instituem principalmente sobre a força de trabalho não incorpo- rada no mercado formal. Em outras palavras, “[...] constituem ações sócio-políticas orquestradas pelo Estado, nas variadas formações so- cioeconômicas, como respostas às expressões das dificuldades sociais acentuadas pelas ofensivas do capital para recuperação dos processos de expansão e valorização” (DURIGUETTO, 2017, p. 105). Para sua efe- tivação ganham destaque o aparato policial, o Judiciário e o redirecio- namento de recursos públicos para a área da segurança, em detrimen- to de sua destinação para áreas como a saúde e a educação. Nesse processo existe uma dupla associação tida como “natural”, da qual decorre a criminalização da pobreza, dos movimentos sociais e suas lideranças políticas. Por um lado, os crimes estão naturalmente vinculados à pobreza (e aos pobres, sua raça, seu local de moradia); e por outro lado, os movimentos, as organizações e as pessoas que questionam as desigualdades instituídas são criminosas (assim como os pobres). A resposta instituída, portanto, para ambas as situações, 140 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário reside na punição individual, no encarceramento e, para, além disso, na banalização e naturalização dos assassinatos e mortes, sejam esses perpetrados pelo próprio Estado (através de ações policiais, por exem- plo), sejam pelo mercado (como as situações ligadas à disputade terras no agronegócio e aos movimentos de luta pela terra e indígenas). Essa forma de tratamento estatal tem por base o direito penal que entende as desigualdades como de ordem individual e moral e que, portanto, assim devem ser tratadas. Ao mesmo tempo, não existe a preocupação ou a intenção de fazer proposições ou mudanças de questões estrutu- rais, que sustentam essas desigualdades (SINHORETTO, 2016). Esses processos de criminalização não são fenômenos novos, mas são perpassados por novas mediações na atualidade. Entre essas se destaca a centralidade que a cidade assume como local de moradia, de trabalho, de espaço de reprodução das relações sociais e, ao mes- mo tempo, como mecanismo de acumulação capitalista. Para entender isso se tem a hipótese de que o Estado Penal traz implicações concretas, que se materializam no espaço urbano através da reatualização de prá- ticas estatais históricas, imbricadas com determinantes contemporâ- neos. Para Brizola (2012), duas práticas empreendidas pelos segmentos dominantes sustentam o Estado Penal na atualidade: 1. a utilização da mídia para imprimir na consciência da popula- ção estímulos imediatos sobre a escalada da violência e quem seriam seus responsáveis, “associando a prática da violência às condições de pobreza, etnia e território [...] ou seja, além dos pobres e negros produzirem a violência, seriam responsáveis ainda pela produção e organização do lugar no qual tudo isso é gestado: o território habitado” (BRISOLA, 2012, p. 144, grifo nosso); 2. as formas com que são fomentados os sentimentos de medo, de insegurança e de desamparo, “exigindo do Estado [capturado pelo capital] a contenção da violência e de seus supostos prati- cantes” (BRISOLA, 2012, p. 145), gerando ações características de um Estado Penal. Assim, observa-se que, entre as formas de 141 BE TINA AhLER T ◀ Voltar ao sumário tratamento das expressões da questão social, estão o cárcere, o extermínio e o assistencialismo (DURIGUETTO, 2017). São vários aspectos que perpassam essas duas práticas que cum- prem a função de base do Estado Penal na atualidade e, em decorrên- cia de sua importância, merecem estudos mais aprofundados. Neste texto se busca destacar duas questões centrais, que estão interligadas e que têm relação direta com a estruturação das cidades: a primeira des- sas é que o Estado Penal é exercido sobre um perfil seletivo de pessoas através da violência. Possui, portanto, um componente racial e etário, e tem como alvos preferenciais, na lógica da criminalização, os jovens pobres, negros e moradores de periferias urbanas, a população de rua e os movimentos sociais (BRISOLA, 2012). A segunda questão é que a efetivação do Estado Penal está baseada em uma lógica territorial, ou seja, sobre um espaço habitado - o que possui centralidade na análise aqui proposta. 3 O Estado penal e o território habitado A dimensão espacial e o território tomam importância na teoria social crítica através da constatação de que a dinâmica capitalista se apropria do espaço e do território tanto para sua reprodução quanto para superação de crises e ampliação de suas ações. Esse movimento de expansão, que ocorre através da ampliação técnica e organizacional, em diferentes escalas, somado à distinção geográfica existente. Esse gera desigualdades geográficas que determinam relações de poder, de lutas de classes, entre outros (DAMMER, 2010). É relevante, na análise sobre o território, a cidade mercadoria, que se torna central enquanto gerador de renda fundiária. Nesse sentido, a “[...] apropriação do espa- ço e do território é funcional ao capital na medida em que este exerce o controle sobre o valor da terra, sobre os equipamentos disponibiliza- dos, serviços e, sobretudo, sobre a população” (BRISOLA, 2012, p. 143). Na análise da relação entre Estado e urbano, a questão do território ganha destaque por meio de ações que reforçam ou não a segregação socioespacial e, ainda, nas políticas públicas. Isso “[...] se (re)atualiza 142 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário nas políticas de saúde, habitação e assistência social, fato que requer exame crítico, sobretudo dos trabalhadores sociais, no sentido de não contribuir com a lógica perversa da segregação, à qual o capital intenta construir/manter” (BRISOLA, 2012, p. 143). No Estado Penal, o território também assume centralidade, confor- me já indicado neste texto, e as suas ações, especialmente as policiais, acontecem sobre um espaço definido (SINHORETTO, 2016). Para Si- nhoretto (2016), como o Estado-Nação teve o seu papel de controle so- bre as fronteiras enfraquecido – por exemplo, nas situações de tráfico de drogas, armas e pessoas –, esse passa a ocorrer sobre determinados territórios locais. O exemplo mais claro é a intervenção sobre as favelas através de ações da polícia ostensiva e da militarização. Pontua-se, dessa forma, que existem duas implicações sobre os ter- ritórios que permitem refletir sobre a relação entre a produção do es- paço urbano e o Estado Penal. A primeira é importância que os terri- tórios da cidade possuem no modo de produção capitalista; a segunda é a forma com que ocorrem as ações estatais de controle e punição. Sobre a segunda se consideram algumas notas sobre a forma com que se materializam no cotidiano da cidade. A primeira nota se refere às ações estatais que tratam da lógica penal e estão presentes no controle de ocupação de áreas centrais das cida- des e no tratamento dado às pessoas em situação de rua. Essas áreas urbanas possuem diferentes valorações na história e, na cidade mer- cadoria, tendo sido alvos, muitas vezes, de programas de revitalização urbana1, ao mesmo tempo em que mantêm certa centralidade, como o acesso ao trabalho, ao recebimento de auxílios, a proximidade de uma rede de comércios e acesso a recursos. Por esses motivos, costu- meiramente, se concentram as pessoas em situação de rua. O número de sujeitos nessas condições aumentou drasticamente, no Brasil, em decorrência do aumento da pobreza e da desigualdade social nos anos recentes2, somado e/ou ocasionado pelo desmonte de programas so- ciais e da política habitacional. 1 Por exemplo, o Porto Maravilha no Rio de Janeiro/RJ e a Orla do Rio Guaíba, em Porto Alegre/RS. 2 Conforme FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS (2019). 143 BE TINA AhLER T ◀ Voltar ao sumário Em decorrência das possibilidades de renda da terra, a existência de pessoas em situação de rua passa a ser vista como um problema que recai sobre o Estado. Para reagir, esse lança mão de práticas higienis- tas, tais como: remoções, expulsões, limpezas de ruas com produtos químicos fortes, compra de passagens para outras cidades, além do controle através do policiamento e das guardas municipais. Não é a expressão da pobreza que está em pauta, até porque essa é entendida, por muitos gestores e parte da população, como natural e resultado de merecimento. Por trás desse tratamento à população em situação de rua se soma todo um controle de ocupação de espaços públicos nas cidades, que tem acontecido através do cercamento de praças e parques, da regula- ção de manifestações reivindicatórias e, ainda, da regulação da arte na rua, do trabalho ambulante e da circulação de catadores de materiais recicláveis. Os Governos têm o desejo de passar a imagem da inexis- tência de conflitos no território que governam (AHLERT, 2017). As manifestações evidenciam a complexidade e as desigualdades sociais e têm sido reguladas através de legislação. Entre essas se destaca a Lei Antiterrorismo, que encontrou brechas para ser promulgada na prepa- ração dos megaeventos esportivos, em um contexto de expansão das manifestações de rua (DURIGUETTO, 2017). Também a promulgação de leis municipais3, que possuem o mesmo sentido. O discurso da inse- gurança, assaltos e roubos nesses territórios são fórmulas que as elites adotam para manter longe de si aqueles que lhes são diferentes, pelos quaisreproduzem sentimentos de repulsa, de nojo e de medo (CAL- DEIRA, 2000). Outro aspecto que evidencia a lógica do Estado Penal na relação com as cidades é a vinculação das favelas e ocupações urbanas com a ideia de terra sem lei, espaço nos quais nasce o crime, local insa- lubre e promíscuo e privilegiado de propagação do tráfico de dro- 3 Em Porto Alegre, por exemplo, foram promulgadas: a Lei nº 832/2018 (Lei Antivanda- lismo), que prevê o enquadramento de manifestantes de rua como vândalos; a Lei nº 10.531/2008, que proíbe a circulação de carrinheiros e carroceiros que trabalham com o recolhimento de material reciclável na região central; e a Lei n° 11.586/2014 que visa regular as manifestações artísticas na rua. 144 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário gas. Essa justifica formas de intervenção estatal que estão para além de acordos estabelecidos através dos direitos sociais e acontecem, por exemplo, por meio das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e da militarização, da polícia ostensiva e do extermínio. Soma-se, aqui, a ideia da tolerância zero, da diminuição da maioridade penal e da tor- tura (DURIGUETTO, 2017). Em relação ao tráfico de drogas e armas, Brisola (2012) demonstra o descaso com que essa questão é tratada pelos Governos há décadas, agravada pelo envolvimento de crianças, de mulheres e de adolescentes com a prática do tráfico. A construção desse discurso tem justificado ações extremamente violentas, por parte do aparato policial, posto que tem respaldo e acei- tação por parte da população brasileira. Essas ações têm caracterizado práticas de genocídio e extermínio da população negra e moradora das favelas e ao, mesmo tempo, escancarado as limitações da crise do sistema penitenciário brasileiro. A própria Política Habitacional tem afirmado a lógica do Estado Penal quando constrói conjuntos habitacionais distantes de áreas centrais nas cidades, reproduzindo a lógica do estigma e culpabilizan- do as pessoas por sua condição precária de moradia (BRISOLA, 2012). O reassentamento de famílias por meio do Estado no Brasil é, histori- camente, marcado pela exclusão socioterritorial, já que os espaços des- tinados aos pobres têm sido afastados e desprovidos de infraestrutura urbana. O Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) não conse- guiu romper com essa característica, e construiu casas sem a implan- tação de serviços públicos, sobrecarregando os poucos existentes e ne- gando o direito à cidade, mesmo quando atendeu o direito à moradia: como afirma Brisola (2012, p. 142), a partir do trabalho do sociólogo L. Wacquant, essa “[...] é uma nova forma de criminalizar os moradores que são penalizados e, em geral, culpabilizados e desqualificados, ten- do seus fracassos associados à pobreza e aos pertencimentos étnicos”. Nesses processos de reassentamento alguns problemas são reitera- dos constantemente, mesmo que conhecidos pelo Poder Público. Des- tacam-se: a distância do local de trabalho, a impossibilidade de paga- mento das contas, a ausência de uma rede de serviços e infraestrutura que impossibilita a permanência na nova moradia. Mesmo que a casa 145 BE TINA AhLER T ◀ Voltar ao sumário própria tenha sido o sonho da família, os condomínios facilmente so- frem com a degradação e são muitos os relatos de que esses são assumi- dos pelo tráfico de drogas [e em alguns lugares pela milícia] (AHLERT, 2017), mantendo o estigma que já existia na ocupação em que mora- vam anteriormente (BRISOLA, 2012). Outra nota sobre as ações estatais, que reiteram a lógica penal, nos territórios urbanos, destaca a função desempenhada pelas remoções de famílias. Essas podem ser as forçadas, executadas pelos Governos, ou expulsões que têm implicações diretas do mercado, nas quais o Es- tado se isenta de proporcionar segurança de posse às famílias. Assim, reitera-se a lógica de criminalização dos ocupantes de áreas considera- das informais (DURIGUETTO, 2017). As características de um Estado Penal estão presentes também na postura do sistema judiciário, que autoriza reintegrações de posse sem a garantia do direito à moradia; no aparato policial que executa essas reintegrações – muitas vezes, de forma violenta; na fiscalização osten- siva e demolição de casas em áreas de risco – que nem sempre levam em considerações a posse necessária; na não retirada de entulhos de demolição dos locais, o que gera acúmulo de lixo, criação de animais peçonhentos e seus consequentes problemas de insalubridade; na coa- ção de lideranças comunitárias e negociações – através de favores e favorecimentos pessoais; na compra de passagens para as famílias para outras cidades sem a garantia de moradia após a saída, entre outras. Midiaticamente se constrói a ideia de que os moradores das áreas de ocupação são criminosos, já que vivem em local que não lhes per- tence formalmente e que, portanto, as famílias devem aceitar qualquer forma de indenização. É a criminalização daqueles que habitam áreas estratégicas para valorização do capital, licenciadas, principalmente, através do discurso de bem comum e do desenvolvimento urbano, ou ainda da propriedade privada. Para além disso, existem remoções que são executadas pelo merca- do. Por exemplo, quando as famílias não podem permanecer nos seus bairros de origem, porque a valorização imobiliária aumenta também os custos de vida no local. O papel desenvolvido pelo Estado é de au- sência na regulação do mercado imobiliário. Isso acontece apesar da 146 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário previsão legal de diversos instrumentos no Estatuto da Cidade, o que mantém as famílias em constante insegurança de posse. Essas são algumas formas que manifestam as ações estatais na cida- de, na atualidade, sob a lógica de um Estado Penal e que escamoteiam o papel dos territórios como fundamentais à manutenção do sistema capitalista. Por isso, esse Estado criminaliza os movimentos sociais, já que buscam demonstrar os limites do sistema na construção de uma cidade para todos. O conflito passa a ocupar lugar na arena jurídica, na qual a garantia do direito de propriedade se sobrepõe as demais for- mas de ocupação (DURIGUETTO, 2017). Estudos demonstram que as ocupações urbanas eram a principal estratégia de mobilização dos movimentos para chamar a atenção na luta pela terra e nos limites da propriedade privada. Contudo, com o aumento dos processos de criminalização e de violência perpetrada pelo atual Governo, os es- tudos demonstram que as ocupações urbanas e rurais têm diminuído (SORAGGI; ARAGÃO; CORRÊA, 2019; COMISSÃO PASTORAL DA TERRA, 2020). Para além da criminalização dos movimentos sociais, no Estado Penal, o sistema prisional é um grande mercado, constantemente cer- cado de tentativas de privatização. Duriguetto (2017) aponta que, para Wacquant, esse sistema se torna a aposta do Estado através das PPPs, da contratação de agentes e da lógica da tolerância zero. Tem a ver, portanto, com o desmonte do Estado tão enfatizado no neoliberalismo. No campo das políticas sociais, o Estado Penal tem como caracte- rística o assistencialismo e, nesse sentido, tem um casamento perfeito com o neoliberalismo através da diminuição de recursos financeiros, na ascensão de uma política focalizada, o que tem implicado também na política urbana. Esse caráter se materializa, principalmente, nos programas de transferência de renda e, no campo da política habitacio- nal, por exemplo, nos programas de concessão de bolsa auxílio aluguel social e na transformação do PMCMV em fornecimento de vouchers4. 4 A proposta é que o PMCMV não aconteça mais através da construção de moradias, mas que sejam fornecidos às famílias vouchers para compra, reforma ou construção. Sob o dis- curso de que as pessoas terão mais liberdade, essa mudança descaracteriza o caráter social do programa e reforça sua lógica mercantil. 147 BE TINA AhLER T ◀ Voltar ao sumário Considerações Finaissociais e a pobreza, o que leva milhares de pessoas a não terem acesso às necessidades vitais de sobrevivência e pertencimento. 16 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário E a agudização dos processos de precarização social do trabalho e da vida. Nessas condições já indicadas e, ainda, com a continuidade do reor- denamento do Estado, as mudanças operadas no campo da proteção social, que se manifestam na política social, têm desdobramentos para o Serviço Social, não apenas pelo fato de incidirem diretamente no ló- cus de intervenção profissional, como também sobre os determinantes das condições de trabalho e de vida dos usuários dos serviços sociais. O trato dessas questões é o foco da segunda parte desta Coletânea, intitulada Política Social e Serviço Social, momento em que são apre- sentadas análises sobre as repercussões do ajuste estrutural no campo das políticas sociais no Brasil, cujo desenvolvimento historicamente não foi de caráter universalista e baseada na experiência de Estado So- cial vivenciada por alguns países de capitalismo central. E desde os anos 1990, com a incorporação das prescrições neoliberais e de um conjunto de mudanças macroestruturais se têm inviabilizado o tar- dio modelo de proteção social inscrito na Constituição de 1988, com a implementação de sucessivas contrarreformas do Estado, que redu- zem Direitos Sociais, trabalhistas e sindicais. Ao mesmo tempo que se associa ao novo regime fiscal sob a vigência da Emenda Constitucio- nal n° 95, de 15 de dezembro de 2016, que reduz os gastos públicos no decorrer de vinte anos, reforçam-se estruturas tributárias fortemente regressivas e a expropriação privada dos recursos produzidos pela for- ça do trabalho social, favorecendo acúmulo e concentração de capital pela burguesia nacional e internacional. Essas medidas têm resultado na agudização das desigualdades so- ciais e nos altos níveis de pobreza em descompasso com o aumento e a concentração da riqueza; a regressão dos Direitos Sociais, trabalhistas, e a apropriação do fundo público pelas frações do capital. O que in- tensifica a exploração da força de trabalho; a criminalização dos movi- mentos sociais; a expansão do neoconservadorismo e da ultradireita; e o avanço da destruição da natureza como ecossistema vital do Planeta. São muitas as ofensivas do capital no capitalismo periférico e de- pendente que provocam a regressão das políticas sociais e dos direitos conquistados pelos trabalhadores. No entanto, a realidade, apesar de 17 IzABEL CRISTINA DIAS L IRA, JANAíNA CAR VALhO BARROS E RUTELéIA CÂNDIDA DE SOUzA SILVA ◀ Voltar ao sumário adversa, sempre está em movimento. Portanto, é preciso considerar as possibilidades criadas pelas contraditoriedades inerentes ao sistema do capital, bem como pelas articulações no campo da política, para que sejam gestadas condições de reação, de luta e de resistência para reverter o quadro perverso de dominação capitalista, que se aprofun- dam mediante a prevalência de políticas de ajustes ultraliberais, sob a influência ideopolítica do pensamento conservador. Esperamos que as contribuições dos(as) autores(as) possam servir ao Serviço Social e áreas afins, como instrumento de análise crítica, e de aporte à construção de novas formas de resistência. Agradecemos a todos(as) os(as) autores(as) pelo empenho, e tra- balho minucioso e crítico na produção de conhecimento contido em cada capítulo, que resultou na qualidade que ora apresentamos neste livro. Também merece um agradecimento especial, a contribuição de Ja- queline Dayane da Silva Medeiros, egressa do PPGPS da UFMT, pre- sente em todo o processo de revisão desta Coletânea. Registramos ainda nosso agradecimento à Coordenação de Aper- feiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio do Pro- grama de Apoio à Pós-Graduação (PROAP); à Pró-Reitoria de Pós- -Graduação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); e ao Programa de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS/UFMT). Izabel Cristina Dias Lira Janaína Carvalho Barros Ruteléia Cândida de Souza Silva (Organizadoras) 18◀ Voltar ao sumário AUTORAS(ES) Betina Ahlert Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestra e Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Professora do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Endereço Lattes: http:// lattes.cnpq.br/9809171485283786. E-mail: asbetinaa@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3858-7092. Carina Berta Moljo Graduada em Serviço Social pela Universidade Nacional de Rosario, (Argen- tina). Mestre, Doutora e Pós-Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Uni- versidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Pós-Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Associada da Faculdade de Serviço Social (Graduação e Programa de Pós-Graduação em Serviço Social) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Membro do Grupo de Pesquisa Serviço Social, Movimentos Sociais e Políticas Públi- cas (FSS/UFJF/CNPq). Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvi- mento Científico e Tecnológico (CNPq). Editora da Revista Libertas. Endere- ço Lattes: http://lattes.cnpq.br/3960109794312109. E-mail: carinamoljo@ uol.com.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0248-5617. Delaine Regina Bertoldi Graduada em Serviço Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mestre em Política Social pela Universidade Federal de Mato Gros- so e Residência Multiprofissional em Saúde do Adulto Idoso com Ênfase em Atenção Cardiovascular (PRIMISCAV/HUJM/UFMT). Endereço Lattes: http:// lattes.cnpq.br/5460336265118789. Orcid: https://orcid.org/0000-0002- 0866-3699. Imar Domingos Queiróz Graduada em Serviço Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mestre em Educação pela UFMT. Doutora em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora Asso- ciada do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Gradua- ção em Política Social da UFMT. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq. br/4408681712025275. E-mail: imarqueiroz@hotmail.com. Orcid: https:// orcid.org/0000-0003-0747-7947. 19 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO Izabel Cristina Dias Lira Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mestre em Serviço Social pela UFPE e Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professora Associada do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Gra- duação em Política Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/6008725493517609. E-mail: icdli- ra@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4841-6246. Jaime Giolo Graduado em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo (UPF/RS). Mestre em História e Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutor em História e Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo e Pós-Doutor em Educação Superior Brasileira pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professor Associado da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Endereço Lattes: http:// lattes.cnpq.br/6481846779381796. Orcid: https://orcid.org/0000-0001- 7698-8957. Jaime Hillesheim Graduado em Serviço Social pela Universidade Regional de Blumenau (FURB) e em Direito pela Universidade de Cuiabá. Mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutor em Ser- viço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Pós-Doutor pelo Progra- ma de Pós-Graduação em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Professor Associado do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Serviço SocialBusca-se trazer ao debate algumas notas sobre a relação entre Esta- do e cidade na atualidade. Os aspectos são, em sua totalidade, muito amplos e, por isso, impossíveis de serem tratados em um capítulo. Por isso, opta-se por apresentar reflexões de como a lógica do Estado Penal, reforçada na atualidade do neoconservadorismo, reforça ações de re- gulação sobre o território habitado. Trata-se de uma forma de controle social que sempre foi usada, contudo, com elementos contemporâneos. Materializa-se não somente nas atitudes que estão contra a lei, mas nas subjetividades que precisam ser combatidas e nas formas de existência que são tidas como ilegítimas (na associação entre os ditos bandidos, os ocupantes, os pobres). Observa-se que existe o privilégio, no Estado Penal, da circulação de riqueza e não da proteção da vida. Esses discursos escamoteiam a naturalização da propriedade privada e relações de classe na sociedade. Nesse sentido, além de existirem poucos espaços de controle social da população sobre as ações estatais, a lógica da criminalização dos mo- vimentos sociais tem rebatido nos processos de resistência e luta pelo direito à cidade. Referências AHLERT, B. 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PARTE II POLÍTICA SOCIAL E SERVIÇO SOCIAL 151◀ Voltar ao sumário CAPÍTULO 7 Lucro acima de tudo, repressão para cima de todos: tendências para as políticas sociais no Brasil após crise de 2008 Lélica Elis Pereira de Lacerda Introdução Este capítulo está pautado na compreensão das políticas sociais en- quanto mediação social de segunda ordem do capital, desenvolvida em tese desta autora (LACERDA, 2017), agora exercitada como uma mediação de segunda ordem do capitalismo dependente sob crise do capital. Quer-se chamar atenção para o tempo de transição histórica que se tem vivido, em que a Nova República, fundada pela Constituição Federal de 1988 (CF/1988), entra em estado terminal a partir de 2013; e a ruptura institucional de 2016 inicia o processo de superação da Carta magna. Isto para evidenciar a profundidade e perenidade das mudan- ças do porvir. Neste estudo bibliográfico, pautado na teoria marxista da depen- dência e nos estudos descoloniais, se tem por objetivo delinear as ten- dências das Políticas sociais brasileiras após crise de 2008. Por meio de autores clássicos do marxismo-leninismo, como Marx (2011), Lukács (2013) e Mészáros (2009; 2016); autores dos estudos descoloniais com Quijano (2020) e Williams (apud HONOR, 2015); e do capitalismo de- pendente – Marini (2000) e Fernandes (2005), se buscará denotar: 1. 152 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário as particularidades das políticas sociais como mediação de segunda ordem do capitalismo dependente brasileiro; 2. as elementares trans- formações do capital e as tendências que imprimem às políticas sociais; 3. como estas tendências se expressam na sociabilidade brasileira após crise de 2008. 1 As políticas sociais enquanto mediação de segunda ordem do capital1 Do ponto de vista ontológico da reprodução social, as políticas so- ciais são mediações de gestão das necessidades sociais coletivas que se materializam por meio de serviços e benefícios sociais; sob a hegemo- nia do capital, funciona como mediação de segunda ordem do capital, socializando parte da riqueza social (material e espiritual), mantendo intacto o trabalho assalariado e a propriedade dos meios de produção (LACERDA, 2017). Assim, as políticas sociais são mecanismos institucionais (escolas, hospitais, quadras esportivas, etc,; verdadeiros patrimônios da huma- nidade) que portam a natureza socializante reivindicada pela luta da classe trabalhadora, mas o faz materializando direitos, conforme o contexto da luta de classes. Sob a hegemonia do capital, materializa- -se o direito burguês dos cidadãos individualizados, passivos que os vivenciam enquanto força de trabalho (ABREU, 2008), moldando-os (seu tempo, hábitos, rotinas, valores, etc.) a sua função na divisão hie- rárquica do trabalho, reproduzindo a desigualdade ampliada, porque submetida à lógica do capital. Mészáros (2009) chama atenção para a constituição da sociedade capitalista, a formação socioeconômica mais complexa já constituída pela humanidade, que possui um complexo mecanismo de funciona-1 Este tópico se refere à produção em tese de doutorado “Era só mais um Silva: fundamentos e defesa do exercício profissional crítico” (LACERDA, 2017), na qual se vislumbra o debate acerca do exercício profissional, enquanto práxis de segunda ordem. Debate-se a natureza do trabalho da assistente social e das políticas sociais para desenvolver um conceito pau- tado na crítica radical da sociabilidade capitalista. O presente debate está dentro da seção 3, que debate a natureza das Políticas Sociais. 153 LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA ◀ Voltar ao sumário mento, um verdadeiro sociometabolismo constituído por mediações de segunda ordem do capital2 movidas pela gana de autoexpansão. As políticas sociais, sob hegemonia do capital, também serão moldadas por esta gana3. A partir da base da sociedade capitalista - trabalho assalariado e propriedade privada dos meios de produção – se erguem outras me- diações de segunda ordem do capital, que são a forma histórica de promover as mediações necessárias para a humanidade se perpetuar, enquanto espécie. A argumentação é a de que as políticas sociais funcionam enquanto mediação de segunda ordem do capital no bojo do Estado burguês, que molda seu núcleo socializante à dinâmica do capital para socializar riqueza de forma pontual, buscando dar viabilidade à reprodução do capital. Quando o Estado vai cumprir a mediação primária de “[...] aloca- ção racional dos recursos materiais e humanos disponíveis, lutando contra a tirania da escassez [...]” (MÉSZÁROS, 2009, p. 192), o faz en- quanto mediação de segunda ordem do capital, mantendo intacta a relação exploratória de extração de mais-valia no campo da produção, atendendo às necessidades imediatas do trabalhador, enquanto força 2 Retira-se o conceito de mediação de segunda ordem do capital de Mészáros (2009). Se- gundo o autor, para Marx, a humanidade enquanto espécie precisa realizar algumas ati- vidades para se manter viva, como, por exemplo, manter-se em constante contato com a transformação da natureza para retirar dessa o que necessita, constituir formas de dis- tribuição da riqueza produzida, etc. nenhum desses imperativos mediadores primários implica o estabelecimento de hierarquias estruturais de dominação e subordinação como estrutura necessária da reprodução sociometabólica. As mediações de segunda ordem do capital, ao contrário, funcionam como um círculo vicioso se sustentando reciprocamente, tornando impossível impedir a força alienante e paralisante de qualquer um desses toma- dos isoladamente (MÉSZÁROS, 2009). A argumentação é a de que as políticas sociais funcionam enquanto mediação de segunda ordem do capital no bojo do Estado burguês, quando seu núcleo socializante é amoldado à dinâmica do capital para socializar riqueza de forma pontual buscando dar viabilidade à reprodução do capital. 3 Por se tratar de uma mediação de reprodução social, a base econômica dita seus traços fundamentais, o que quer dizer sua dinâmica depende da luta de classes. Sob hegemonia socialista, se torna uma mediação de segunda ordem socialista. Esta discussão se encontra mais bem desenvolvida em Lacerda (2017). 154 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário de trabalho e no campo político-ideológico manipula as expressões mais superficiais e agudas desta relação de exploração/opressão que colocariam em xeque a coesão social entorno do projeto burguês. A luta por maior acesso à riqueza social coloca em questão os ru- mos da humanidade, culminando em alguns momentos na revolução socialista, em outros em reformismo, ou ainda, processos de contrar- reforma. Seja como for, a política social é instrumento de gestão de necessidades coletivas e, portanto, se refere ao direcionamento dos ru- mos coletivos e, por isso, ao mundo da política: ampliar ou reduzir o acesso da classe trabalhadora à previdência social, saúde, educação, etc. são meios de gerir as necessidades sociais coletivas dos trabalhadores. É impossível dar uma definição em termos de pensamento formal, em que começa e termina a política. Normalmente, essa se refere aos problemas que estão vinculados diretamente ou de forma íntima com o destino de toda a sociedade e se distinguem com nitidez das ações e relações do homem singular. A política é uma esfera da vida da socie- dade nitidamente diferente daquela que – como o direito – é delimita- da diante da divisão do trabalho como tal e munida dos especialistas necessários. Essa é um complexo universal da totalidade social, só que é um complexo da práxis, mais precisamente, uma práxis mediada que, por isso, de modo algum tem a possibilidade de ter uma universali- dade tão identicamente espontânea e permanente como a linguagem (LUKÁCS, 2013). A escolha do rumo coletivo, portanto, é um processo a ser cons- truído por meio da práxis política e perpassa a cada um situado em uma estrutura social: os proprietários na condição de governantes e os trabalhadores na condição de governados. Este tipo de práxis é, em úl- tima análise, direcionada à totalidade da sociedade de tal maneira que põe em marcha, de modo imediato, o mundo fenomênico social como terreno do ato de mudar, conservar ou destruir o existente. Dentro dos limites do capital e enquanto parte constituinte do Estado burguês, as políticas sociais, embora possuam um núcleo so- cializante, que lhes garante importante papel na agenda socialista, foi subsumida à dinâmica do capital, servindo para organizar a esfera fe- nomênica da economia (naturaliza o assalariamento, a intermediação 155 LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA ◀ Voltar ao sumário do mercado para o acesso aos valores de uso que sanem necessidades, etc.) enquanto repõe a essencialidade das relações capitalistas, confor- me alertava Luxemburgo (2014, p. 27): [...] o regime capitalista tem uma característica particular; todos os elementos da sociedade futura, ao progredirem, em vez de se orientarem para o socialismo, pelo contrário, afastam-se[...] no seio das quais os antagonismos capitalistas, a exploração, a opressão da força de trabalho, se exasperam ao extremo [...]Para libertar o núcleo socialista da ganga capitalista, é preciso que o proletariado conquiste o poder político e que o sistema capitalis- ta seja totalmente destruído. Sem a ruptura com o capital, a tendência é que a sociedade se com- plexifique, que suas contradições se aprofundem tornando tanto mais complexas e numerosas as mediações que se tornam necessárias para manter normalmente o processo de reprodução. A base material pau- tada na exploração de classe não pode ter uma estrutura geral histori- camente sustentável. É necessário que o sistema submeta tais unidades centrífugas sob algum tipo de controle geral, que precisa estar separa- do/alienado (MÉSZÁROS, 2016). Assim, os diversos tipos de Estado se constituem como estrutura de comando geral do sistema acima dos trabalhadores para lidar com tais questões sem tocar em suas causas (na verdade, repondo-as de forma ampliada), brincando com as consequências (MÉSZÁROS, 2011). O processo econômico de reprodução, a partir de determinado estágio, não poderia funcionar se a formação de campos não-econômicos, que possibilitem ontologicamente o desenrolar deste processo. Neste pon- to se está falando do âmbito da superestrutura, da ideologia. As contradições oriundas das tendências de desenvolvimento do ca- pitalismo geram a condição concreta de vida, que demanda resposta dos trabalhadores, que pode ser tanto a luta individual por sobrevi- vência, quanto a luta coletiva por transformação social, a depender da forma como o trabalhador entende o conflito. 156 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário A cada necessidade social coletiva que o Estado burguês responde, via política social, sob os marcos do capital, esse burocratiza e dirime um conflito social em prol dos interesses do capital. A Política social se revela, simultaneamente, do campo econômico(porque distribui ri- queza material e espiritual) e política. O campo de ação criado em cada caso pelo respectivo desen- volvimento das forças produtivas é o único cenário existente, o único mundo objetivo realmente possível para a práxis do ho- mem. Está claro, portanto, que as atividades não econômicas, mais organizadoras da sociedade, cuja soma e sistema compõem a superestrutura [...] devem se ligar diretamente ao mundo fe- nomênico da esfera econômica (LUKÁCS, 2013, p. 397-398). As políticas sociais, ao mesmo tempo em que respondem ao mun- do das necessidades (ou seja, ao mundo econômico), quando socializa riqueza (material e espiritual), reforça formas de dirimir conflitos so- ciais sem tocar em sua base de sustentação (a extração de mais-valia e propriedade privada dos meios de produção). Ao sanar necessidades imediatas e pontuais ocultando suas causas, as políticas sociais coesio- nam politicamente a sociedade entorno do projeto burguês, repondo a exploração de classe no campo econômico e atuando também no campo ideológico, entendendo a ideologia como a forma ideal elabo- rada a partir da realidade, que serve para tornar a práxis social humana consciente e capaz de agir. Assim, as políticas sociais se referem tanto à base econômica (das necessidades) quanto à ideológica (ideias que subsidiam respostas dos indivíduos e os rumos coletivos). Esta ligação é tão estreita que se tor- na difícil diferenciar quando os conteúdos dos pores teleológicos, que daí surgem, são de natureza econômica e quando a ultrapassam. 157 LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA ◀ Voltar ao sumário 2 Política social brasileira como mediação de segunda ordem do capitalismo dependente Se as políticas sociais são mediação de segunda ordem de repro- dução do capital, as particularidades da dinâmica de produção e de reprodução do capitalismo dependente hão de lhe atribuir traços par- ticulares. Ao se afirmar que é a partir da base da sociedade capitalista - trabalho assalariado e propriedade privada dos meios de produção – que se erguem as demais mediações de segunda ordem do capital, pen- sar nas particularidades do trabalho e da propriedade privada brasilei- ra permite perceber as particularidades das políticas sociais no Brasil. O país se insere no Mundo moderno com o processo de coloniza- ção empreendido pelos europeus. Para Quijano (2020), a fundação da ideia de América se constitui concomitante e em contraponto com a ideia de Europa; os europeus civilizados e conquistadores em um pro- cesso de expansão de sua forma mercantil de vida; os americanos como “os outros”, primitivos, não-civilizados a serem conquistados, sofrendo invasões para a imposição de um modo de vida com o qual os povos originários do Continente não tinham qualquer afinidade. Foi neste processo violento que essa sociedade se submeteu e que jamais supe- rou o que Quijano (2020) denominou de colonialidade do poder que constrói a ideia de raça funcionando como a justificação da “conquista” europeia; revelando-a como o mais durável e eficaz instrumento de do- minação universal, forma fundamental de distribuição da população mundial nos níveis e papéis na estrutura de poder da sociedade. Quando Marx (2011) trata da acumulação primitiva, deixa evidente que o desenvolvimento da forma industrial mercantil de produção foi financiado pelas riquezas oriundas das colônias. Na gênese do capi- talista industrial se situa o tráfico negreiro, a pilhagem das riquezas das Américas e a dívida pública. Não desenvolve, porém, o papel do processo colonial na emersão do capital. Nesse sentido, Williams (apud HONOR, 2015) afirma que o di- nheiro acumulado pelos bancos internacionais de hoje é oriundo do sequestro e venda de africanos como escravos; e a compra de maté- 158 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário rias-primas barateadas pela intensa exploração de pessoas escraviza- das, para manufaturar e revender a altos preços às colônias. Seus cofres estão, portanto, abarrotados de ouro, prata e sangue dos povos latino- -americanos e Africanos. Gorender (2018), por sua vez, afirma que a transição capitalista no Brasil não ocorreu da servidão ao capitalismo, mas do escravismo co- lonial ao capitalismo. Ressalta o autor (idem, 2018) que o projeto co- lonial se pautava no latifúndio, na monocultura e no trabalho escravo constituindo uma economia agroexportadora. Isto porque, conforme explica, o Brasil se conecta ao mercado mundial através do escravis- mo patriarcal/colonial, que produzia matérias-primas barateadas pela intensificação da exploração do trabalho escravo. Ressalta o autor, em conformidade com Williams (apud Honor, 2015), que os africanos escravizados eram formalmente tidos como meros instrumentos de trabalho falantes, excluídos de sua condição de humanidade, em uma sociedade estruturada por meio do trabalho penoso, açoites que impu- nham esta forma de trabalho em troca de comida. Quijano (2020) afirma que a globalização de hoje é a culminação da colonização das Américas e a hegemonia do moderno capitalismo eurocentrado. Nesse processo, todas as formas de produção não-capi- talistas, em seus diferentes espaços e tempos, foram atreladas à dinâ- mica do capital enquanto totalidade. Nesse processo, a colonialidade do poder institui a distribuição racista do trabalho, processo que se instaura desde a colonização e jamais foi superado. O assalariamento se coloca como uma relação em que um ser, reco- nhecido em sua humanidade, vende parte do tempo de uso de suas ca- pacidades físicas e mentais de trabalho como mercadoria em troca de salário. Aos não-brancos é negada a sua condição humana, reduzidos a instrumentos de trabalho, cabe o trabalho não remunerado. Nas co- lônias, o assalariamento se restringia-se apenas àqueles considerados como humanos (pessoas brancas). Assim, a cada raça se destina um lugar no trabalho e poder, o que evidencia a raça como uma nova tec- nologia de dominação/exploração pautada na articulação raça-classe. Assim, a colonialidade do poder (idem, ano) impõe ao Mundo uma divisão racial do trabalho em que, nos países centrais, se desenvolve a 159 LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA ◀ Voltar ao sumário indústria que transforma os europeus e brancos em mercadoria de for- ça de trabalho, que provê sua vida pela venda de sua força de trabalho; aos não-brancos na periferia do capitalismo, por sua vez, prepondera a produção de matérias-primas por meio de trabalho não-remunerado de pessoas em um patamar secundário de humanidade. Sem rupturas fundamentais com o colonialismo, a revolução bur- guesa no Brasil, segundo Fernandes (2005), irá fundar uma tímida burguesia industrial, que não rompe com a elite latifundiária (escra- vista). Esta vê na transição capitalista uma forma de modernizar seus negócios; e o mercado de trabalho se fundará marcado pela profunda estratificação colonial em que os não-brancos terão sua condição hu- mana rebaixada e seu trabalho sempre tendendo ao não remunerado por dinheiro; cabendo, majoritariamente, aos brancos a condição de um humano que vende como mercadoria sua força de trabalho nos melhores postos de trabalhos remunerados (embora seja verdade que nunca tão bons quanto da aristocracia proletária do centro do capita- lismo). Mesmo com o desenvolvimento do capitalismo, o Brasil se mantém como economia agroexportadora de commodities que por meio da in- tensificação da exploração do trabalho barateia as matérias-primas das indústrias centrais e os salários da aristocracia proletária. Em uma eco- nomia agroexportadora, segundo o autor, quebra-se o ciclo de produ- ção, circulação e consumo. Aqui o trabalhador participa da economia apenas na dimensão da produção, na qual quanto mais é explorado mais beneficia o capital, mas não como consumidor, dimensão na qual sua capacidade de consumo influi na reprodução do capital (MARINI, 2005). Isso coloca, estruturalmente, um processo de superexploração do trabalho4, emque toda a economia está estruturada para a produ- ção e envio do valor para fora, negando as necessidades dos trabalha- dores brasileiros. 4 Por trabalho superexplorado o autor entende um trabalho em que se recebe na forma de salário menos que o necessário para a reprodução da força de trabalho; em um trabalho de jornada de trabalho mais intensa e explorada, sob vínculos empregatícios precários (MARINI, 2005). 160 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Fala-se, portanto, de trabalhadores em condições bastante diferen- tes dos assalariados do centro do capital. São trabalhadores de uma sociedade profundamente estratificada pelo racismo, cuja condição humana é inferiorizada. O rebaixamento da condição humana leva à compressão do reconhecimento e da vivência das necessidades. Isto porque as necessidades humanas estão submetidas às necessidades das elites nacionais e internacionais; e da aristocracia proletária que pôde vivenciar direitos no centro do Mundo. A inferiorização do reconhecimento das necessidades deste traba- lhador leva ao rebaixamento do tipo de política social que se tende a instituir. Aos trabalhadores fadados ao trabalho superexplorado serve um Bolsa Família que subsidie o salário insuficiente, mas jamais caberá a distribuição de terras e casas; aos idosos, uma aposentadoria que ga- ranta a velhice dos menos espoliados, que conseguem completar mais de 65 anos; aos pobres, negros e periféricos, o trabalho até a morte precoce banalizada em nome da gana de lucros dos banqueiros. Esta naturalização do sacrifício das necessidades dos povos latino-a- mericanos, pela preponderância das necessidades das elites internacio- nais, nacionais e aristocracia proletária promovida pelo poder colonial dentro de um pacto tácito da supremacia branca permite, ainda, a na- turalização da pilhagem moderna – a dívida pública. Não escandaliza ninguém saber que a condição sub-humana de moradia, de educação, de saúde, etc. de povos de Continentes inteiros é fruto da priorização absoluta do pagamento de juros a meia dúzia de banqueiros. Marx já chamava a atenção para a dívida pública, enquanto medida de acumulação primitiva, e essa vai tomando centralidade na subju- gação entre países imperialistas e dependentes. Lênin (2014) mostra que na transição do século XIX para XX, a crise do capital leva ao aparecimento dos primeiros cartéis. Ocorre a fusão de capital bancário e industrial, fundando o capital financeiro aglutinado em meia dúzia de banqueiros, que passam a deter o domínio sobre o mercado global. Essas oligarquias financeiras, a partir do domínio do setor produ- tivo, constituem o mercado financeiro, cuja maior alavanca para ex- tração de mais-valia são os juros. A exportação de capitais, via dívi- da pública, passa a ser seu maior negócio e seu melhor cliente são os 161 LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA ◀ Voltar ao sumário países dependentes, dos quais consegue exportar capital a juros eleva- díssimos, modernizando o método de pilhagem de riquezas pelos fios invisíveis do mercado. A forma como se produz valor no Brasil, portanto, inviabiliza que parte da riqueza social seja investida no interior do país e isto aniquila (desde sempre e muito pior no contexto atual) qualquer sonho de Es- tado de Bem-estar social no Brasil. No entanto, nem tudo é determinação meramente econômica. No plano político, as elites autoritárias não permitem disputas. Segundo Fernandes (2005), enquanto na Revolução Francesa o Estado era alvo de disputa das classes, no Brasil, a burguesia nascente processou o re- volucionamento da base econômica brasileira para o capitalismo por dentro do Estado, tornando-o impermeável às disputas dos trabalha- dores. Trata-se de uma democracia restrita a plutocracia. É preciso entender que se fala de um Estado forjado por elites que, conforme Ianni (1984), adotam postura de conquistadores sem qual- quer identificação com os trabalhadores, regidas pelas necessidades de lucros de elites estrangeiras, suas sócias majoritárias (todas famílias brancas oriundas das metrópoles europeias). Um Estado que organiza a exploração estrangeira neste território, mediada pelas elites nacio- nais, que operacionalizam a produção do valor para fora e que preci- sam neutralizar toda demanda dos de dentro. Segundo Almeida (2018), esta forma exploratória de gerir o poder é oriunda do colonialismo. Segundo esse autor, o colonialismo dá ao Mundo um novo modelo de administração, que tem base no exercício da morte, sobre formas de ceifar a vida ou colocá-la em constante con- tato com a morte. Por isso, no Brasil, a coerção pesa sempre mais que a coesão; a força sempre foi mais usada que o consenso, até porque se fala de uma elite herdeira do escravismo que jamais deixou de açoitar seus trabalhadores; apenas desenvolveu formas mais modernas e com- plexas, institucionais e falsamente impessoais. Estes traços coloniais presentes na constituição do capitalismo no Brasil determinam serviços sociais precários, tanto pelo rebaixamento do reconhecimento de fato de necessidades, quanto pela escassez de recursos disponíveis e que, portanto, reproduzirão a profunda desi- 162 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário gualdade do trabalho racial e sexual, no plano econômico, naturali- zando tais relações no plano ideopolítico. Essas são a complexificação da base colonial do trabalho penoso em troca de comida, regulado pelo açoite, como apontado por Gorender (2018), mas sob a égide das oligarquias financeiras. Em virtude desta estrutura estrangulada, será pouco permeável ao controle social, com abrangência bastante limita- da, superficial e fragmentada; restrita a mecanismo de controle e na- turalização do trabalho superexplorado. Qualquer idealização de um Estado de bem-estar social voltado às necessidades dos trabalhadores brasileiros requer sonhar com a ruptura dos limites do capitalismo de- pendente neste país. 3 As transformações do capital e seus desdobramentos sobre as Políticas Sociais O que cabe enfatizar nestas breves linhas é que a dinâmica que o capital assume diante de suas crises delineia tendências gerais às políti- cas sociais, que funcionam enquanto sua mediação de segunda ordem (LACERDA, 2017). Harvey (1992) pontua que diante da crise de superprodução de 1929 se buscou fomentar o consumo para enfrentar a superprodução. A cri- se foi solucionada, portanto, no setor produtivo, por meio da organiza- ção fordista da produção e, no plano político, pelo Estado de bem-estar social, que se utilizou das políticas sociais como subsídio para o consu- mo para reduzir o tempo de giro do capital. Disto, o que interessa assinalar é que não foi por uma faceta hu- manista do capital que se constituiu o Estado de bem-estar social nos países centrais. Foi, por um lado, uma resposta do capital aos traba- lhadores insurgentes das revoluções socialistas do século XX; de outro, uma necessidade de funcionar como medida de fomento ao consumo, como contratendência de queda da taxa de lucro. No entanto, a crise de 1970 irá sepultar o Estado de Bem-estar social, já que o cerne do enfrentamento desta crise ocorrerá, prioritariamente, na esfera financeira. A precarização das relações trabalhista irá permi- tir, no âmbito da produção, a intensificação da extração de mais-valia 163 LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA ◀ Voltar ao sumário como mecanismo de ampliar lucros; e o Estado irá abrir ao mercado todo setor que possa ser rentável. Se a mercantilização das políticas sociais abrem importantes nichos de mercado, o maior negócio de todos está na dívida pública, para a qual vai todo o montante de dinheiro cortado das políticas sociais pe- las políticas de austeridade. Conforme Marx (2011), a dívida pública é o negócio mais certo e lucrativo e que prescinde de investimento em capital fixo ou variável e a partir da hegemonia do capital fetiche passa a ser o mais poderoso instrumento de dominaçãopolítica e econômica moderno do imperialismo aos países dependentes. O que se quer delinear é que a partir da década de 1970 se imprime no Mundo a tendência de perda de direitos trabalhistas e sociais e a apropriação do fundo público pelos bancos na amortização de juros da dívida pública. Dentro destas breves anotações, por fim cumpre ressaltar que, em 2008, explode nova crise de superprodução no coração do sistema fi- nanceiro estadunidense. A partir de então se intensifica a polarização global da luta de classes, em que os EUA abandonam a postura de na- ção portadora do progresso civilizatório para se colocar como aberta- mente conquistadora (HARVEY, 2014). Neste cenário, não há margem para a conciliação de classes e a agenda ultraliberal se torna imperiosa: a perda de direitos é imposta ao Mundo custe o que custar. Abre-se, então, em âmbito mundial, a ten- dência de uma escalada autoritária, sustentada, ideologicamente, pelo neoconservadorismo e manipulação irracionalista. Além disso, o autor assinala a ativação da tendência de acumulação via espoliação5; inten- sificando sua ação predatória sobre o meio ambiente e os trabalhado- res de todo o Mundo, portanto, o seu poder colonial sobre o Mundo. 5 Harvey (2014) identifica na dinâmica imperialista a continuidade do processo de acumu- lação primitiva de Marx. Segundo o autor, por se tratar de um estudo sobre o processo constitutivo do capital, Marx denominou de acumulação primitiva. Ele, por sua vez, por tratar de um aspecto constitutivo do capital, mudará o nome de acumulação primitiva para acumulação via espoliação. 164 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário 4 Tendência das políticas sociais no Brasil Contemporâneo Diante dos efeitos da crise de 2008, o reconhecimento formal de di- reitos pela CF/1988 passou a ser incompatível aos projetos imperialis- tas para o Brasil de rebaixamento de condições de vida para ampliação de seus lucros. Então, em 2016 há ruptura com a institucionalidade da democracia brasileira, em que Dilma Roussef (PT) é deposta e em seu lugar assume Temer (PMDB). Assim, a agenda ultraliberal começa a ser imposta, sendo aprovada a Emenda Constitucional 95/2016, que congelou desde 2018 e por 20 anos o financiamento das políticas sociais, tornando-se a maior me- dida de austeridade do Mundo. É aprovada também a contrarrefor- ma trabalhista, que faz retroceder a proteção ao trabalho, reforçando a tendência de restrição do trabalho-salário aos brancos. É a serviço da dívida pública que, em 2019, sob o governo Bolsonaro, que foi aprova- da a contrarreforma da Previdência Social, que na prática impele os idosos pobres (em sua maioria não-brancos) a trabalharem até a morte. O estrangulamento da fonte de financiamento das políticas sociais promovido pelos bancos, através destas contrarreformas, tem por ob- jetivo desmontar o sistema de proteção social da CF/1988 e reforça os traços coloniais brasileiros ao retirar da ordem do dia a qualquer res- ponsabilidade estatal de superação do abismo social. Sob as exclusivas leis de mercado, os direitos sociais se tornam mercadorias acessíveis a quem consegue pagar; enquanto a precarização do mundo do trabalho reforça, no Brasil, a tendência de relações capital-salário exclusiva aos brancos. Nesse contexto, as políticas sociais se desconectam dos valores emancipatórios que imbuíam a luta dos trabalhadores quando da con- quista dos direitos sociais e essas tendem a colapsar, não apenas no sentido econômico de não possuírem condições de atender às neces- sidades imediatas do público usuário e se aponta, também, a possibili- dade de sua falência do ponto de vista ideo-político. Nesse contexto de recrudescimento das condições de vida da classe trabalhadora tende a 165 LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA ◀ Voltar ao sumário surgir revolta; a principal forma de trato da “questão social” não será a coesão política, mas a violência e a manipulação, que já têm caminha- do juntas. Para que um levante popular não ocorra, é preciso, como se tem acompanhado, a naturalização da barbárie, o que requererá, no plano ideológico, o aprofundamento do irracionalismo e do conservadoris- mo (conformando o papel ideo-político das políticas sociais), sendo a manipulação fascista uma tendência que ascende em conformidade com o acirramento da crise do capital. Sem rupturas com a hegemonia do capital, a criminalização da po- breza (e tudo o que não é hegemonia branca/patriarcal) e a ideologia de segurança nacional tendem a substituir a concepção de proteção social, que inspirou as políticas sociais sob a luz da CF/1988, acarretan- do-lhes caráter punitivo, policialesco e conservador. No entanto, para o futuro não existe apenas a possibilidade histó- rica da barbárie! A precariedade dos serviços sociais pode levar ao questionamento do pagamento da dívida pública e, quem sabe, levar a cobrança da dívida histórica!6 A radicalização das necessidades cria a possibilidade de crítica radical da formação do Estado no capital vir à tona. O Estado em falência pode pôr em perigo o processo de repro- dução social (MÉSZÁROS, 2015), abrindo caminhos históricos para radicais transformações. Deve-se seguir disputando as políticas sociais no bojo da luta de classes! Considerações Finais Apontou-se que as políticas sociais não são estáticas. São mediações de reprodução do capital, moldadas, portanto, pela dinâmica da luta de classes que determinam a forma que o capital adquiriu por meio de 6 Não há momento mais pedagógico do que em meio a uma pandemia que matará milhares, mas que o Estado prima pelo pagamento de juros da dívida pública a bancos, em vez do SUS para mostrar aos trabalhadores que são as fortunas dos grandes bancos oriundas da superexploração dos trabalhadores latino-americanos e africanos que devem custear os sistemas de saúde e outros sistemas de proteção social robustos o suficiente para erradicar a COVID-19. 166 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário suas crises. Sobre o Brasil se delinearam traços coloniais que marcam a constituição do capitalismo no brasileiro e, consequentemente, suas mediações de segunda ordem (incluindo o Estado autoritário e as Po- líticas Sociais rebaixadas). Em relação à conjuntura se evidencia quais são as atuais tendências de fora (do imperialismo estadunidense), que conformam a dinâmica de dentro (Brasil). Assinala-se, então, a imposição da agenda ultrali- beral, implementada pelo autoritarismo e sustentada ideologicamente pelo conservadorismo e irracionalismo. Traçou-se este percurso para demonstrar que, neste contexto, já não cabe mais ao Brasil declarar direitos a seu povo e isso significa o rebai- xamento do padrão de sociabilidade enfatizando suas marcas coloniais. Isto para expressar a tendência das políticas sociais se conformarem, no plano econômico, a promover se reduzir a gestão coercitiva da bar- bárie; enquanto no ideológico, se calcar no conservadorismo e irracio- nalismo, reforçando seus traços elitista, racista e patriarcal. No entanto, a história é um campo aberto em disputa. Há também a possibilidade histórica de pautar os direitos como expressão da so- lidariedade de classe que organiza mecanismos coletivos (de tomada do poder e da propriedade dos meios fundamentais de produção). Isto permitiria destravar as políticas sociais da gana de lucros que as im- pedem de coletivamente sanar as necessidades da classe (raça e sexo). Este é o único caminho contrário viável para reconectar o avanço das forças produtivas com o avanço civilizatório bloqueado pelo processo capitalista/colonial. Referências ABREU, H. Para Além dos Direitos. Cidadania e Hegemonia no Mundo Mo- derno. Rio de Janeiro. Editora URRJ, 2008. FERNANDES, F. A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 5 ed. São Paulo: Globo, 2005. HARVEY, D. Condição Pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mu- dança cultural. São Paulo:Loyola, 1992. __________. O Novo Imperialismo. 8ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014. 167 LéLICA ELIS PEREIRA DE LACERDA ◀ Voltar ao sumário HONOR, A. C. A Base do Conceito de Escravidão na Historiografia Brasi- leira: Eric Williams e sua Obra Seminal Capitalismo e Escravidão. In: Fênix. Revista História e Estudos Culturais, v. 12, ano XII. Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura da Universidade Federal de Uberlândia (NEHAC-UFU). Uberlândia-MG: NEHAC-UFU, jan-jun, 2015, p. 01-07. Dis- ponível em: https://www.revistafenix.pro.br/PDF35/Resenha_3_Andre_Ca- bral_Honor_Fenix_Jan_Jun_2015.pdf. Acesso em: 03 mai. 2020. LACERDA, L. E. P. Era Só mais Um Silva fundamentos e defesa do Exercício Profissional Crítico. Tese (Doutorado em Serviço Social). 2017. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGPS). Centro de Estudos Sociais e Eco- nômicos (CSE). Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2017. LÊNIN, I. L. Imperialismo: Fase Superior do capital. Disponível em https:// pcb.org.br/portal/docs/oimperialismo.pdf. Acesso em: 6 ago. 2014 LUKÁCS, G. Para uma ontologia do Ser Social II. São Paulo: Boitempo, 2013. MARINI, R. M. Dialética da Dependência. In: TRASPADINI, R.; STEDILE, J. P. (Orgs.). “Ruy Mauro Marini: Vida e Obra”. São Paulo: Expressão Popular, 2005. MARX, K. O Capital: Crítica da Economia Política. Rio de Janeiro: Civiliza- ção Brasileira, 2011, Livro 1, v 2. MÉSZÁROS, I. Estrutura Social e Formas de Consciência. São Paulo, Boi- tempo. 2009. __________. Para Além do Capital: Por uma teoria da transição. São Paulo, Boitempo. 2011. QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO). Buenos Aires: CLACSO, 2005. Disponível em: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur- -sur/20100624103322/12_Quijano.pdf. Acesso em: 03 mai. 2020. 168◀ Voltar ao sumário CAPÍTULO 8 O processo de reestruturação da Política de Assistência Social: as transformações do Estado e os desafios na atualidade Liliam dos Reis Souza Santos Miriam de Souza Leão Albuquerque Introdução Este texto reflete sobre o desmonte da política de Assistência Social na conjuntura contemporânea brasileira, a partir de uma análise sobre as particularidades do Estado brasileiro, fundamentada na tradição marxista. Aborda as principais características do Estado, com ênfase em sua configuração no contexto de redemocratização da década de 1980 que, a partir das lutas sociais, adotou, na Carta Magna de 1988, os direitos sociais e a perspectiva da proteção social assegurada na Se- guridade Social, pautados nos princípios do Direito e da Democracia burgueses, o que lhe imprimiu um contorno social. Contudo, a implementação das medidas sociais pelo Estado tem sido inviabilizada pela hegemonia da política macroeconômica neoli- beral, já que políticas sociais que compõem a dimensão social do Es- tado têm sido negligenciadas a favor de um padrão de acumulação capitalista centrado no mercado. Esse cenário de ataque aos poucos avanços sociais se agravou com a crise econômica, acirrada a partir de 2015, e está na base do reaciona- rismo burguês que desencadeou o golpe de 2016 e a chegada ao poder 169 LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE ◀ Voltar ao sumário de Jair Bolsonaro, representante da extrema direita. Nesse contexto, se vivencia o desmonte de várias políticas sociais, destacando-se aqui a Assistência Social que, a partir das contrarreformas neoliberais, sofre com as restrições do orçamento e desqualificação dos seus serviços. Tais processos se acirram no contexto da crise sanitária com a CO- VID-19, que tem promovido um quadro de barbárie social, aprofun- dando o número de desempregados no país e a superlotação dos pre- cários serviços de saúde sem, contudo, dispor de uma proteção social pública mais abrangente, já que a pauta do Governo Federal se volta à manutenção da política macroeconômica neoliberal. 1 Estado e políticas sociais no Brasil: particularidades e modificações recentes Políticas sociais, como a Assistência Social, se configuram como mediação reguladora do Estado frente aos efeitos sociais mais nefas- tos do capitalismo, como a pauperização e a miséria, produzida não por iniciativa exclusiva do Estado, nem pelas exclusivas lutas da classe trabalhadora, mas pelas próprias contradições do sistema que, para se reproduzir, tem que atender demandas tanto do capital quanto do tra- balho (GOUGH, 1982). Na realidade brasileira, ainda que a política de Assistência Social tenha histórica vinculação com a sociedade civil e com o voluntariado, sempre foi um tema imbricado ao Estado. Trata-se esta política de uma mediação estatal movida por imperativos de acumulação do capital e das lutas de classe daí decorrentes. Desse modo, urge a necessidade de fundamentar as transformações vivenciadas pela política de Assis- tência Social com o debate sobre o Estado, mais precisamente sobre as particularidades do Estado brasileiro. É consenso na tradição marxista a natureza de classe e de contra- dição do Estado, ou seja, apesar de ter uma aparência neutra frente a interesses distintos, o Estado, essencialmente, vincula-se a classe dominante e, portanto, tem uma índole dominadora. Contudo, ainda que predomine sua natureza de classe e de dominação, não é corre- to atribuir uma compreensão reducionista e unilateral, que o vincula 170 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário aos interesses estritos da classe dominante, já que o Estado também tem caráter, fundamentalmente, contraditório, atendendo também às demandas das classes subalternas em prol da legitimação do sistema vigente (MARX, 1844; GRAMSCI, V. III, C. 06, 2017; POULANTZAS, 1980; GOUGH, 1982). Nesse sentido, considera-se o Estado como uma relação social atra- vessada pelas lutas de classes, exigindo interação com essas (POU- LANTZAS, 1980). Esta interação, por sua vez, impede o Estado de ser uma instituição engessada, mas flexível e moldada por essas disputas, ainda que se limite à manutenção do capitalismo. As lutas de classes, portanto, exercem uma importante mediação nas ações e conduções do Estado. Contudo, a ampliação da dimensão relacional do Estado e a sua permeabilidade às lutas de classe corresponde à ampliação de prin- cípios democráticos e de cidadania. Esses, por sua vez, correspondem às particularidades de cada formação social. No Brasil, a configuração das classes sociais e do Estado remonta aspectos particulares da formação social e da estrutura do trabalho neste país, cujas heranças foram transplantadas às classes sociais que eclodiram com as relações de produção capitalista. Tais particularida- des correspondem à formação de uma classe dominante, forjada pela estrutura latifundiária e pela cultura escravagista e mandonista que, no contexto da industrialização, no século XX, formou uma classe bur- guesa heterogênea associada a um modelo capitalista dependente que a impediu de preencher funções sociais construtivas e progressistas, restringindo-a a uma classe acentuadamente exploradora, dominado- ra e ávida pela garantia de uma rede de privilégios. Estes elementos desenharam um perfil de Estado socialmente dominador, coercitivo e punitivo, inclinado às demandas econômicas das classes dominantes, ao invés de se pautar por medidas sociais conciliatórias, que ampliasse seu leque relacional. Consequentemente, foram forjadas “[...] condições estruturais que restringem diretamente a participação econômica e, indiretamente, a participação sociocultural e política dos trabalhadores” (FERNAN- DES, 1975, p. 71). Esses elementos dificultaram a formação de uma consciência de classe, visto que “[...] as poucas classes sociais parcial 171 LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE ◀ Voltar ao sumário ou completamente integradas não se [viam] como classes e [negavam] esse caráter às demaiscategorias sociais” (FERNANDES, 1975, p. 38). Em função disso, as políticas sociais no Brasil, ao contrário do que aconteceu em países capitalistas centrais, não decorreram sumaria- mente de uma demanda organizada da classe trabalhadora sindicaliza- da e de uma clara consciência de classe, mas se atrelaram a uma tática governamental populista de controle da classe trabalhadora em con- traposição a sua organização sindical autônoma. Esses fatores fazem com que o conformismo das massas não seja uma opção consciente, mas fruto dessas relações que desgastam “[...] a classe trabalhadora e suas frações de classe restringindo as possibilidades de mudanças e transformações sociais” (FERNANDES, 1975, p. 103). Esse fato, contudo, não retira a importância das legislações sociais e trabalhistas para a classe trabalhadora. Isto porque, a despeito dessas normas também terem sido utilizadas como estratégias de despolitiza- ção e cooptação das classes subalternas, responderam a necessidades concretas dessas classes e romperam com o assistencialismo e o po- pulismo nas relações de trabalho e de proteção social, ao se pautarem pelo estatuto cívico do direito. Uma baliza histórica importante para as lutas sociais e na configu- ração do Estado brasileiro de tônica social foi o processo de redemo- cratização da década de 1980 e a promulgação da Constituição Federal de 1988, que superou o quadro de cidadania regulado e corporativo ao estender o princípio da universalidade aos direitos sociais e ao res- ponsabilizar o Estado com o financiamento e execução desses direitos, o que significou um ganho social enorme no âmbito da correlação de forças entre a classe trabalhadora e o Estado pela possibilidade de se colocarem freios ao padrão de dominação de classe no Brasil. Por isso, a Constituição Federal de 1988, ainda vigente, constitui um grande e simbólico marco das lutas de classe no Brasil e pode ser considerada uma das maiores vitórias da classe trabalhadora sobre as classes domi- nantes, além de um importante avanço na redução do grau de priva- tização do Estado capitalista brasileiro, possibilitando a ampliação da sua dimensão relacional. 172 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Tal ganho social representou um empecilho aos interesses das clas- ses dominantes brasileiras e, principalmente, ao padrão de acumula- ção centralizado no mercado, a partir de 1990, que teve que dividir o espaço estatal com as classes subalternas e lidar com as legítimas pres- sões e cobranças sociais para que o Estado pudesse garantir o direito legal à proteção social previsto na Carta Magna. Contudo, a prioridade dos Governos neoliberais foi o atendimento das demandas do mercado, assegurando que a maior parte do fundo público fosse destinada ao capital e suas frações de classe. Para tanto, foi implementada a Desvinculação das Receitas da União, o Plano Di- retor da Reforma do Estado, a contenção dos gastos sociais e do orça- mento público, em favor do superávit primário e de ajustes fiscais que reservam e transferem recursos públicos para o capital. Com esta primazia do mercado, as demandas sociais foram redire- cionadas, assumindo poucas possibilidades efetivas de desenvolvimen- to e inclusão social. A opção governamental em favor da centralidade do ajuste econômico colocou a política social em posição periférica, com sucessivos contingenciamentos orçamentários, inaugurando uma nova fase de desfiguração dos direitos sociais e das políticas sociais. Dessa forma, a perspectiva social do atual Estado brasileiro tem sido, cada vez mais, substituída pela lógica do Estado regulador mínimo na prestação direta de serviços e políticas sociais, ao mesmo tempo em que o princípio da universalização é suplantado pelo da focalização (FAGNANI, 2005, p. 390). Envolvidas por esse processo, as políticas sociais foram sendo cap- turadas pelo mercado e oferecidas como serviços aos setores sociais que podem pagar. Este cometimento fez com que políticas sociais como saúde, educação e previdência fossem abarcadas por grandes grupos nacionais e internacionais vinculados ao mercado financeiro, transformando-se em um importante meio de acumulação do capital. Em contraposição, este movimento fez com que as políticas sociais, implementadas pelo Estado, se quedassem focalizadas em setores vin- culados à extrema pobreza, selecionadas por meio de critérios rígidos de elegibilidade, além de serem marcadas pelo subfinanciamento, bai- xa qualidade e pela parceria público-privada, que introduziram mé- 173 LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE ◀ Voltar ao sumário todos de gestão privados aos serviços públicos, além de transferir as atividades públicas de proteção social para famílias e a sociedade civil. Este quadro social sofreu algumas mudanças com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores, em 2003, e que, ainda que não expressasse a hegemonia de um projeto da classe trabalhadora e uma plena consciência de classe em prol de um projeto revolucionário, asse- gurou importantes avanços e ganhos sociais, ampliando a participação social no espaço estatal e mexendo, assim, na histórica privatização do espaço público a serviço dos interesses do capital. Contudo, esses avanços ocorreram nos limites das diretrizes da ma- croeconomia neoliberal, já que os Governos petistas foram ausentes de rupturas com o capital financeiro e com o mercado das dívidas pú- blicas, uma vez que mantiveram as políticas econômicas e dispositivos fiscais do seu antecessor – o Governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Portanto, no âmbito das disputas de classe sobre o fundo público, os Governos petistas foram mais abertos às necessidades sociais, visto que avançaram na implementação dos direitos sociais garantidos na Constituição de 1988, ampliando os investimentos em políticas sociais e, assim, fortaleceram o Sistema Único de Saúde, estruturaram e im- plementaram a política de assistência social por meio do Sistema Úni- co de Assistência Social; melhoraram o poder de compra do salário mínimo; e revigoraram as universidades públicas. Essas medidas não foram isentas de traços focalistas e de parceria público-privada, mes- clando interesses sociais com os do mercado. Estas mudanças demonstram que a ampliação da correlação de for- ças sobre o Estado redefiniu o seu papel não apenas em favor do capi- tal, embora a desproporção dos ganhos entre capital e trabalho tenha sido considerável. Por isso, tais medidas sociais, apesar de importantes para a classe trabalhadora, não estiveram isentas do viés dominador e classista do Estado frente às classes subalternas. Isto porque essas se configuraram como estratégias políticas, que buscavam promover uma conciliação de classes, o que reforçou um perfil passivo e colaborativo às lutas trabalhistas, produzindo refluxo dos movimentos sociais e sin- dicais e na ausência de consciência de classe. 174 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Com o golpe parlamentar de 2016, justificado pela crise econômica de 2015, que se mostrou, até então, como uma das maiores recessões da história brasileira (ALVES, 2018), a disputa pelo fundo público e pelo espaço estatal se ampliou e, com isso, retomou com toda força o pro- jeto neoliberal mais ortodoxo e a restauração do bloco de poder ofus- cado pelos Governos petistas e seus pequenos avanços sociais. Esse reacionarismo promoveu, e continua promovendo, um verdadeiro ata- que à classe trabalhadora, alavancando “[...] de modo veloz, reformas estruturais voltadas para aumentar a taxa de exploração da força de trabalho” (ALVES, 2018, p. 08). Entre as medidas neoliberais mais agressivas cabe destacar a refor- ma trabalhista sancionada em 2017, que altera a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), com vista a adequá-la às novas condições de traba- lho, ampliando a precarização e a flexibilização das relações de traba- lho, contribuindo para a denominadauberização do trabalho. A refor- ma trabalhista consagrou o desmonte da CLT, que já vinha sofrendo ataques desde a Ditadura Militar, acentuando o histórico quadro de precarização e flexibilização das relações de trabalho no Brasil, dimi- nuindo os custos do trabalho e ampliando a acumulação do capital. Além disso, foram criadas outras formas de favorecimento do ca- pital financeiro na disputa pelo fundo público, estabelecendo, com a Emenda Constitucional nº 95/2016, um novo regime fiscal. Este institui um congelamento de recursos públicos, como medidas de ajuste fiscal, em prol do mercado das dívidas públicas, transferindo os seus custos para a grande massa social, que tem os seus direitos sociais contingen- ciados pelo fundo público que é transferido para o grande capital. Nesse cenário de crise e de acirramento da opressão da classe do- minante sobre a classe dominada, o Estado tem reduzido a sua função mediadora e relacional por meio de políticas e funções sociais e adota- do ações mais punitivas e repressivas como forma de manter o controle social. Todos estes processos constituem, assim, a latente luta de classes, que não é uma novidade do Brasil e nem dessa conjuntura, mas inte- gra a ofensiva impiedosa do capital sobre o trabalho e tem por base o enfraquecimento dos sindicatos na tarefa de mobilização e consciência 175 LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE ◀ Voltar ao sumário de classe, a fragmentação dos partidos de esquerda, os altos índices de conservadorismo social e o investimento da burguesia em construir um consenso ativo das classes subalternas em torno dos seus projetos. Esse cenário se tornou muito mais complexo e nefasto com a crise sanitária desencadeada pela pandemia da COVID-19 que, no seio da crise estrutural do capital, se desenvolve em um contexto social re- gressivo, expondo as mais bárbaras expressões da questão social, seja pela ausência de assistência digna à saúde, que tem gerado a morte de milhares de pessoas, seja pela falta de trabalho e de renda de milhares de brasileiros à margem do mercado formal de trabalho. Esta crise de saúde, que tem mobilizado respostas públicas do Estado, por grande parte de líderes mundiais, no Brasil, tem sido desqualificada e menos- prezada pelo Governo Federal que, ao invés de promover medidas as- sistenciais de fortalecimento do Sistema público de saúde, tem optado pela preterição às orientações científicas e medidas sanitárias. Assim se vivencia, na atualidade, um processo acentuado de pri- vatização do espaço público a favor da acumulação do capital e do fundamentalismo do mercado, o que faz com que o Estado reforce a sua dimensão penal e dominadora. E o resultado social de um sistema produtivo como este é o agravamento da desigualdade social e do ca- pitalismo selvagem, um traço sempre presente na realidade da classe dominada no Brasil. 2 Assistência Social no Brasil recente: árduo caminho de construção e reestruturação constante A Constituição Federal brasileira de 1988 proporciona à Assistência Social o status de política pública de Estado, destinada aos que dessa necessitar (arts. 203 e 204), com abrangência em todo o território na- cional. Com a regulamentação da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), em 1993, atualizada pela Lei nº 12.435, de 06 de julho de 2011, o Estado assume a responsabilidade com a proteção social sem contri- buição prévia, bem como o compartilhamento da provisão dessa pro- 176 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário teção com os entes federados, baseado no Pacto Federativo Constitu- cional, e a partir de uma rede socioassistencial que inovou nos campos da gestão, da execução e do planejamento, incorporando o controle social por meio dos conselhos gestores. Desse modo, estabelece-se um novo marco jurídico e normativo com um acervo de portarias e resoluções ministeriais que põe fim à antiga forma de se fazer assistência social, pautadas em práticas assis- tencialistas, superficiais e preconceituosas que não contemplavam os interesses das classes trabalhadoras, financeiramente fragilizadas. Com a implementação da Política Nacional de Assistência Social (PNAS/2004) e com Sistema Único de Assistência Social (SUAS/2005) foram observadas mudanças subjetivas e objetivas de difíceis mensu- rações na vida da população atendida, como avanços na diminuição do número de famílias em situação de extrema vulnerabilidade social. Estruturado no primeiro Governo Lula, o Sistema Único de As- sistência Social se mostrou como um importante avanço no campo da organização dos serviços e benefícios que compõem a política de Assistência Social. Incorporou a perspectiva da proteção voltada para minimizar e equalizar as diferenças regionais do país, com o fortale- cimento do financiamento, da gestão, de controle social e monitora- mento, com ênfase à gestão do trabalho e a relevância da educação permanente para os trabalhadores do SUAS. Organizado em níveis de proteção básica e especial e com base na matricialidade sociofamiliar, na territorialização, no controle social, entre outros, o SUAS conta, atualmente, com uma rede socioassis- tencial pública de mais de 10.000 mil centros de referência básicos e especializados, conforme Censo SUAS 2018, sendo: 8.360 Centros de Referência de Assistência Social (CRAS); 2.644 Centros de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS); 226 Centros POP; 1.460 Centros Dia; 8.468 Centros de Convivência e 5.797 Unidades de Aco- lhimento. Além disso, mais de 18 mil entidades de Assistência Social integram essa rede. O SUAS já ultrapassou o atendimento de mais de 1,9 milhões de famílias que são cotidianamente acompanhadas, assistidas e apoiadas pelas equipes de referências de proteção social dos serviços socioas- 177 LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE ◀ Voltar ao sumário sistenciais. Com relação aos profissionais, que atuam nessa política, o Sistema conta com, aproximadamente, 600 mil trabalhadores (rede pública e rede privada), em todo o território nacional, proporcionando, ainda o fortalecimento dos espaços de controle social e de negociação dos trabalhadores, já que é orientado pelos princípios da gestão demo- crática. Contudo, a estruturação da política de Assistência Social não foi isenta de contradições, haja vista que os Governos de Luís Inácio Lula da Silva (2003/2006 – 2007/2011) e o da Dilma Rousseff (2011/2014 -2014/2016) primaram pelas estratégias de valorização do capital, prio- rizando um conjunto de medidas que favoreciam e protegiam os gru- pos financeiros, em detrimento dos interesses da classe trabalhado- ra. A opção pela política macroeconômica neoliberal impediu que a proposta original da Assistência Social articulada à Seguridade Social fosse viabilizada no Brasil. Isto porque a implementação desta política ocorreu articulada à criação de critérios rígidos de acessibilidade, e focalizado na extrema pobreza e com ênfase em medidas de transfe- rência de renda. O processo de precarização da Política de Assistência Social se tor- nou mais agressivo a partir de 2016, com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que se revelou um golpe midiático, parlamentar e jurí- dico. O novo contexto socioeconômico e político do Governo Michel Temer priorizou medidas de superávit primário, como forma de man- ter recursos para o pagamento da dívida pública e, como consequên- cia, a necessária destruição dos direitos sociais, através da redução do financiamento público e a diminuição do papel da gestão dos entes federados. Houve o acirramento dos critérios de concessão e revisão do Pro- grama Bolsa Família (PBF) e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), dificultando o acesso de milhões de pessoas a estes benefícios sociais. Aliado a isso, vigorou desprezo pelos princípios da gestão de- mocrática com a desconsideração de esferas de deliberação e de pac- tuação como as Comissões Intergestores Bipartitee Tripartites (CIB e CIT), que são instâncias de composição paritária que objetiva a articu- lação e a pactuação nas esferas estaduais e federal. 178 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário O Governo Temer também ousou em criar programas paralelos ao SUAS, como o Programa Criança Feliz, que fez ressurgir o primeiro- -damismo1 no campo da assistência social, com a esposa do presiden- te assumindo a condução deste programa. Desse modo, desloca-se a PNAS para o campo do assistencialismo, do clientelismo e, portanto, da negação do direito social. No entanto, um dos principais marcos do desmonte da PNAS foi a aprovação da Emenda Constitucional 95, conhecida como “Teto dos Gastos” instituindo o novo regime fiscal da Seguridade Social, con- gelando os gastos sociais públicos com políticas sociais por 20 (vinte) anos. Além disso, esta emenda alterou a relação do Governo Federal com o conjunto de Estados e municípios brasileiros, promovendo a fragmentação do pacto federativo, sobrepondo-se aos governadores, prefeitos, órgãos de controle social, trabalhadores e aos sindicatos. No Governo Bolsonaro, a Política de Assistência Social ficou alo- cada no Ministério da Cidadania. Em 2019, este ministério publicou a Portaria nº 2362, de 20 de dezembro, estabelecendo procedimentos a serem adotados no âmbito do SUAS, decorrente do monitoramento da execução financeira e orçamentária realizado pelo Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS) para promover a equalização do cofinan- ciamento federal do SUAS à Lei de Diretrizes Orçamentárias e à Lei Orçamentária Anual. O Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (CONGEMAS) publicou uma nota chamando atenção da sociedade para as consequências da referida Portaria, alegando que os critérios sobre a adequação dos repasses dos recursos e da redução dos repasses por meio de “equalização” resultarão no fechamento de equipamentos públicos, como os CRAS e CREAS, principalmente, nos municípios de porte 1, que dependem do cofinanciamento federal para a manutenção dos serviços públicos à população. Com a pandemia da COVID-19, as mazelas sociais do modelo eco- nômico ultraconservador se acentuaram, exigindo medidas de pro- 1 O resgate da figura de primeira-dama retoma elementos históricos que reafirmam proces- sos conservadores que atingem toda classe trabalhadora com a negação do direito social, a desprofissionalização das políticas sociais e a condição subalterna da mulher. 179 LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE ◀ Voltar ao sumário teção social em função do aumento da pobreza, do desemprego, do trabalho precário e das perdas de direito da população. Diante deste contexto, o Governo Federal, pressionado pela sociedade civil organi- zada e pela própria pandemia, deflagrou relevância e a necessidade de se garantir recursos para a PAS. Em razão disso, editou as portarias nº 369, de 29 de abril de 2020 e a Portaria nº 378, de 7 de maio de 2020, aportando recursos para o enfrentamento da pandemia que vão desde a compra de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), compra de Alimentos e o valor de 2.550.000 bilhões para a estruturação e manu- tenção dos serviços e equipamentos do SUAS. Ademais, uma das principais medidas que o Governo Federal ado- tou, como medida protetiva para camada popular, em vulnerabilidade social, foi o auxílio emergencial2, por meio do Decreto nº 10.316, de 07 de abril de 2020. Entretanto, as medidas adotadas pelo Governo, mes- mo com aporte financeiro, ocorreram de forma descompassada com o SUAS. O decreto reconhece que compete ao Ministério da Cidadania gerir o auxílio emergencial e ressalta a importância de compartilhar a base de dados de famílias beneficiadas do Programa Bolsa Família, assim como a base de dados do Cadastro Único, mas, em momento algum, faz menção ao uso dos equipamentos do SUAS para viabilizar a execução do auxílio em pauta. O auxílio emergencial, além de ofertar um valor abaixo do salário- -mínimo e, portanto, ineficiente frente às necessidades concretas da população que desse depende, apresentou diversas falhas em sua im- plementação. O processo de cadastro e o pagamento do auxílio têm mostrado, mais uma vez, as dificuldades de gerenciamento da pande- mia pelo Governo Federal, que tem trabalhado com número subnotifi- cado de pessoas que teriam acesso ao auxílio. 2 O auxílio emergencial foi criado em abril de 2020, por um esforço da bancada de oposição da Câmara dos Deputados, inicialmente, a proposta do Governo Federal era pagar um valor de R$ 200,00 com a pressão dos Deputados Federais, o auxílio emergencial foi ins- tituído no valor R$ 600,00 para ajudar trabalhadores sem carteira assinada, autônomos, microempreendedores individuais (MEIs) e desempregados durante a crise gerada pela pandemia do Coronavírus. 180 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário A Caixa Econômica Federal foi indicada para gerenciar o cadastra- mento e pagamento das pessoas, desenvolvendo um aplicativo para cadastramento, contudo, o número de pessoas solicitando o auxílio emergencial foi muito maior. Como resultado, o banco enfrentou mui- tas dificuldades de viabilização dos pagamentos, o que gerou aglome- rações de pessoas, contrariando as regras de isolamento defendidas para o controle da pandemia. Além disso, os gestores desse benefício mostraram desconhecimen- to da realidade social brasileira, uma vez que as estratégias, desenvolvi- das pelo Governo Federal, particularmente, a opção por meios digitais como o aplicativo, ignoraram as dificuldades e as desigualdades sociais que cercam a população beneficiária do auxilio, pois a maioria não têm acesso à internet, não tem celular, computador, e até mesmo documen- tos obrigatórios, como o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), obrigando a aglomeração de milhares de pessoas em frente às unidades da Receita Federal para tirar o documento. A opção pelo não uso da infraestrutura e da rede de serviços so- cioassistenciais, municipais e estaduais do SUAS, na viabilização do auxílio implicou no agravamento das condições sociais da população beneficiária, haja vista a demora no tempo de análise dos pedidos. Considerando a emergência e urgência dos recursos, trabalhadores desempregados continuam sem receber o auxílio. E, para aqueles que foram aprovados na análise, o recebimento do auxílio acarretou o au- mento do risco de contágio pela COVID-19, ocasionado pelas filas gi- gantescas na porta das agências da Caixa em todo o país. A escolha pelo pagamento do auxílio emergencial evidencia, mais uma vez, a centralidade das políticas de transferência de renda no en- frentamento das desigualdades sociais brasileiras, ao invés do fortale- cimento de uma rede de proteção social articulada com outras políti- cas, como de saúde, visto que a opção pelo auxílio ocorreu atrelada à negação das evidências científicas sobre a epidemia e a falta de estru- turação de serviços de assistência à saúde, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). O auxílio emergencial, como principal política pública do Governo Federal frente aos efeitos econômicos da pandemia da COVID-19 ex- 181 LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE ◀ Voltar ao sumário pressa o descaso do atual Governo com as políticas sociais, pois apesar de sua importância diante do caos social presente no país, mostra-se como uma medida política imprevisível, com fortes indícios e ameaças de redução do valor e até mesmo a extinção pela equipe econômica do Governo, em pleno pico de pandemia. Esses elementos evidenciam o lado mais perverso do ideário neoliberal. Considerações Finais O tempo histórico atual é marcado por forte ofensiva do capital so- bre os parcos avanços sociais conquistados no Brasil com Constituição Federal de 1988 que, assentados em princípios democráticos e de cida- dania, ampliou a dimensão relacional do Estado, permitindo ganhossociais historicamente negados às classes subalternas brasileiras. No rol desses ataques se encontra a fragilização da capacidade de proteção social por meio da política de Assistência Social. O desmonte desta política tem por base a redução do seu financiamento que, con- sequentemente, implica na desestruturação dos serviços, programas e projetos do SUAS; a diminuição das políticas de transferência de ren- da, via o Programa Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada, com o endurecimento dos critérios de acesso a esses benefícios; e o re- torno às iniciativas de filantropia e solidariedade via Programas como Criança Feliz, Brasil Pátria Voluntária, entre outros. Atrelado a este desmonte se vivencia um contexto social marcado pelo aprofundamento da desigualdade social, processo acentuado com a crise sanitária desencadeada pela COVID-19 que deflagrou as mais bárbaras expressões da questão social, seja pela ausência de assistência à saúde, seja pela falta de trabalho e de renda para milhares de brasilei- ros. Esta conjuntura, ao invés de receber resposta estatal, socialmente responsável com a proteção social, tem sido enfrentada com desprezo pelas iniciativas científicas e a defesa da economia e dos lucros acima das vidas humanas. As parcas medidas sociais ofertadas pelo Estado, por meio da pres- são social, como o auxílio emergencial, ocorreram, em parte, desatre- ladas da política de Assistência Social, já que a oferta deste benefício 182 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário social foi desarticulada das estruturas e serviços do SUAS, e de todo o seu avanço no levantamento e seleção da população beneficiária dessa política. Verifica-se, portanto, que, agressivamente, a política de Assistência Social brasileira vem sendo desconstruída, cedendo lugar a ações filan- trópicas, clientelistas, focalizadas e pontuais. Tal processo não expressa somente a perda de uma política social, mas demonstra o enfraqueci- mento e desconstrução de um perfil de Estado responsável por políti- cas e direitos sociais. Referências ALVES, G. O golpe de 2016 no contexto de crise do capitalismo neoliberal. Blog da Boitempo. São Paulo, 8 de junho de 2016. Disponível em: https:// blogdaboitempo.com.br/2016/06/08o-golpe-de-2016-no-contexto-da-crise- -do-capitalismo-neoliberal. Acesso em 29/04/2020. __________. Desmedida do valor, Estado de “mal-estar” social e crise do capitalismo global: reflexões críticas sobre o fardo do tempo histórico. 2018. Coluna - Blog da Boitempo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com. br/2018/02/01/d. Acesso em: 27 set. 2018, 20:54:30. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 1988. __________. Lei nº 12.435, de 6 de julho de 2011. Lei do Suas. Altera a Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, que dispõe sobre a organização da Assistên- cia Social. Diário Oficial da União, 2011ª. __________. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Se- cretaria Nacional de Assistência Social. Política Nacional de Assistência So- cial – PNAS/2004. Brasília, 2005. __________. Emenda Constitucional nº 95. PEC 55. Diário Oficial da União. ISSN 1677-7042. Sessão 1. Nº 241, sexta-feira, 16 de dezembro de 2016. Dis- ponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?jor- nal=1&pagina=2&data=16/12/2016. Acesso em 12/05/2020. __________. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Lei Orgânica da Assis- tência Social (LOAS). Dispõe sobre a organização da assistência social e dá outras providências. Diário Oficial da União, 1993. 183 LIL IAM DOS REIS SOUzA SANTOS E MIRIAM DE SOUzA LEÃO ALBUQUERQUE ◀ Voltar ao sumário __________. Decreto nº 10.282/2020. Regulamenta a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, para definir os serviços públicos e as atividades essenciais. __________. Ministério da Cidadania. Portaria 2362 de 20 de dezembro de 2019. Dispõe sobre o acompanhamento do cofinanciamento do Sistema Úni- co da Assistência Social- SUAS. __________. Ministério da Cidadania. Portaria nº 369, de 29 de abril de 2020. Dispõe sobre recursos federais para equipamentos de proteção individual (EPIs), alimentos e serviços socioassistenciais. __________. Ministério da Cidadania. Portaria nº 378 de 7 de maio de 2020. Dispõe sobre repasse de recurso extraordinário de financiamento federal do SUAS para incremento temporário na execução de ações socioassistenciais nos Estados, Distrito Federal e municípios devido à situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Internacional decorrente do Coronavírus (COVID-19). __________. Decreto nº 10.316, de 7 de abril de 2020. Regulamenta a Lei Nº 13.982 de 2 de abril de 2020, que estabelece medidas excepcionais de proteção social a serem adotadas durante o período de enfrentamento da emergência de saúde pública. FAGNANI, E. Política Social no Brasil (1964-2002): Entre a Cidadania e a Caridade. Tese (doutorado). Campinas. 2005. FERNANDES, F. Capitalismo Dependente e as Classes Sociais na América Latina. 2ª Edição. Rio de janeiro: Zahar, 1975. GOUGH, I. Economia política del Estado del bienestar. Trad. De Gregório Rodriguez. Madri: H. Blume Ediciones, 1982. GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere, vol. 3, edição e tradução, Carlos Nelson Coutinho; coedição, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. – 8ª ed. – Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2017. MARX, K. Glosas Críticas Marginais ao Artigo “O Rei da Prússia e a Refor- ma Social”. De um Prussiano. 1844. Tradução de Ivo Tonet. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma000012.pdf. Acesso em: 27 set. 2018. POULANTZAS, N. O Estado, o poder, o socialismo. Edições Graal. RJ. 1980. 184◀ Voltar ao sumário CAPÍTULO 9 A extensão universitária no Brasil e os impasses da Meta 12 do PNE e da RES . CNE/CES nº 7/2018 Jaime Giolo Introdução A extensão universitária, no Brasil, é um conceito que traduz uma realidade múltipla e imprecisa, embora tenha granjeado legitimidade e impacto institucional progressivos. Sua história foi construída à som- bra do ensino e da pesquisa, ganhando maioridade na Constituição Ci- dadã de 1988, que, no artigo 207, estabelece: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Pesquisas específicas poderão demonstrar o quanto a legislação educacional brasileira e a prática institucional conseguiram nivelar o tripé universitário no mesmo patamar de im- portância. O bordão de que a extensão é a prima pobre das funções estritamente acadêmicas, que serviu como ferramenta de disputas (e de conquistas), ainda soa forte em determinados setores da academia. A tese defendida aqui é de que esse bordão está, já, bastante de- safinado e ultrapassado, seja do ponto de vista da legislação, seja do ponto de vista do volume de trabalho institucional. Todas as barrei- ras substanciais, que atravessaram o caminho da extensão foram su- peradas, faltando-lhe somente, talvez, acertar o ritmo do seu andar e definir melhor (será isto possível?) o escopo de sua ação. O presente texto apresentará, em termos esquemáticos, a trajetória da extensão no 185 JAIME GIOLO ◀ Voltar ao sumário ordenamento legal da nação e a performance da prática institucional. Aparecerão, também, alguns dados que mostram o volume de sua pre- sença prática. Finalmente, se fará uma apreciação crítica da Estratégia 12.7, da Meta 12, do Plano Nacional de Educação (PNE), e de sua regu- lamentação, feita pela Resolução CNE/CES nº 7, de 18 de dezembro de 2018, do Conselho Nacional de Educação (CNE). 1 A presença da extensão no aparato legal brasileiro A primeira regulamentação geral da Educação Superior brasileira veio a lume em 1931, por meio do Decreto nº 19.851, de 11 de abril de 1931, conhecido como Estatuto das Universidades Brasileiras. Nesse decreto não se utiliza,da Uni- versidade Federal de Santa Catarina. Membro pesquisador do Núcleo de Es- tudos e Pesquisas: Trabalho, Questão Social e América Latina, vinculado ao PPGSS/UFSC. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/5960974102571301. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2798-6418. Janaína Carvalho Barros Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mestre em Política Social pela Universidade de Brasília (UnB). Dou- tora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Associada do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da UFMT. Endereço Lattes: http:// lattes.cnpq.br/5452610376459339. E-mail: jan-cars@hotmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4075-4080. Lélica Elis Pereira de Lacerda Graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina. Mes- tre e Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catari- na (UFSC). Professora do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal de Mato Grosso. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/4039266815703189. E-mail: leli- caelis@yahoo.com.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6156-7823. 20 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO Liliam dos Reis Souza Santos Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestre em Serviço Social pelo Programa de Pós-graduação em Serviço So- cial da UFPA. Doutora em Política Social pelo Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade de Brasília (UnB). Professora Adjunta do Departamento de Serviço Social da UnB. Vice-líder do Grupo de Estudos Político-sociais (POLITIZA), do Programa de Pós-Graduação em Política So- cial da UnB e do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política Social (NEPPOS/ CEAM/UnB). Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/5572601411996066. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6410-6371. Liliane Capilé Charbel Novais Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraí- ba (UFPB). Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pós-Doutora em História pela UFMT. Professora As- sociada do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Gra- duação em Política Social da UFMT. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq. br/2662755913656148. E-mail: lcharbel@terra.com.br. Orcid: https:// orcid.org/0000-0002-9989-2349. Mabel Mascare- nhas Torres Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre e Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professora Associada do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Vice-Coor- denadora da Rede de Estudos sobre o Trabalho do Assistente Social (RE- TAS). Coordenadora do Grupo de Serviço Social: fundamentos e trabalho do assistente social nas políticas públicas e sociais (GEFTAS), certificado pela CAPES. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/6311274886128201. E-mail: mabeltorres2009@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2644- 8255. Márcia Cristina Ver- dego Gonçalves Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e em Psicologia pela Faculdade de Cuiabá (FAUC). Mestre em Políti- ca Social pela Universidade Federal de Mato Grosso. Técnico Educacional da Superintendência de Políticas da Educação Básica da Secretaria de Estado de Educação (SEDUC), do Estado de Mato Grosso. Endereço Lattes: http:// lattes.cnpq.br/1362039798482259. E-mail: marciaverdego@hotmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2357-8118. Maria Carmelita Yazbek Mestre e Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pós-Doutora em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Professora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da PUC-SP e Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) A1. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/3793698817577507. E-mail: mcyaz@uol.com.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4785-472X. 21 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO Miriam de Souza Leão Albuquerque Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNI- CAMP). Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambu- co. Professora Adjunta do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB). Membro do Grupo de Pesquisa, Trabalho, Educação e Discriminação (TEDIs) do Programa de Pós-Graduação em Política Social da UnB e Tutora do Programa de Educação Tutorial do MEC-PET. Endere- ço Lattes: http://lattes.cnpq.br/0453320920363053. Orcid: https://orcid. org/0000-0001-5925-7300. Patrícia Cristina Bachega Graduada em Direito pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNE- MAT). Especialista em Ciências Penais pela UNIDERP, em Direito Civil e Pro- cesso Civil pela Escola dos Servidores do Tribunal de Justiça do Estado de Mato e em Direito Civil Contemporâneo pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Política So- cial da Universidade Federal de Mato Grosso. Analista Judiciária do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq. br/0802899350741011. E-mail: pbachega@gmail.com. Renato Tadeu Veroneze Graduado em Serviço Social pelo Centro Universitário da Fundação Educa- cional Guaxupé (UNIFEG). Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro do Comitê Científico de Serviço Social do Centro de Investigação de Estudos Transdisciplinares (CET) Latino-Americano da Bolívia e Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Identidade (NEPI) da PUC-SP. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/7199738796552398. E-mail: rtveroneze@hotmail. com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9404-448X. Ricardo Lara Graduado em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Mestre e Doutor em Serviço Social pela Universi- dade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Pesquisador Bolsa Produti- vidade CNPq. Editor Chefe da Revista Katálysis. Coordenador de Pesquisa do Centro Socioeconômico (CSE/UFSC). Membro do Conselho Editorial do Projeto Editorial Práxis. Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas: trabalho, “questão social” e América Latina (Brasil/NEPTQSAL). Pesquisa- dor do Grupo de Estudos: capital, trabalho e educação (Brasil/GECATE); do Grupo de Investigação: História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais (Portugal/IHC/UNL) e do Observatório para as Condições de Trabalho e Vida (Portugal/OCTV). Professor Associado do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universida- de Federal de Santa Catarina (UFSC). Endereço Lattes: http://lattes.cnpq. br/4258606293149889.Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1631-8227. 22 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO Ruteléia Cândida de Souza Silva Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Espírito Santo. Mestre e Doutora em Política Social pela Universidade Federal do Espírito Santo. Professora Adjunta do Departamento de Serviço Social e no Progra- ma de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/4393932625470768. E-mail: rute.as@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1833- 9040. Suzana Przybysze- wski Barros Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal de Mato Grosso. Assistente Social da Prefeitu- ra Municipal de Tangará da Serra. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq. br/2914518903076216. E-mail: suzypki@gmail.com. Orcid: https://orcid.em nenhum momento, o termo indissociabi- lidade, mas se fala de ensino, de pesquisa e, também, de extensão. A pesquisa, além de ocupar mais espaço (o termo pesquisa aparece 12 vezes no texto, enquanto o termo extensão figura 7 vezes), obtém, ali, maior prestígio e privilégios. A pesquisa é definida como busca de co- nhecimentos originais, aproveitando “aptidões e inclinações, não só do corpo docente e discente, como de quaisquer outros pesquisadores estranhos à própria Universidade” (art. 46). No decreto, a pesquisa é critério para a seleção de professores (art. 53, II); junto com o ensino, é uma das atribuições do professor catedrático (art. 61), que, também, poderá obter da Congregação do Instituto licença para, pelo período de um ano, dedicar-se, exclusivamente, a essa (art. 62); e é facultada também aos professores livres, aos professores auxiliares e aos profes- sores contratados (art. 68 e art. 71). Além disso, o professor catedrático terá tempo semanal para atendimento de alunos e orientação de suas pesquisas (art. 63)1. A extensão, por seu turno, nesse Estatuto, se res- tringe a “cursos e conferências” (art. 23, XVII) e “demonstrações práti- 1 No que diz respeito aos professores livres - os substitutos naturais dos professores catedrá- ticos - previu-se um controle de desempenho, realizado de cinco em cinco anos, no qual se averiguasse, entre outros elementos, as publicações derivadas de pesquisa. Em função dessa verificação, o professor, cujo desempenho fosse considerado insatisfatório, seria ex- cluído do quadro docente (art. 77). 186 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário cas” (art. 109), oferecidos com o propósito de “prolongar, em benefício coletivo, a atividade técnica e científica dos institutos universitários” (art. 35), difundindo “conhecimentos filosóficos, artísticos, literários e científicos” (art. 109). Essas atividades terão “caráter educacional ou utilitário” (art. 42). No ano seguinte ao da publicação do Estatuto das Universidades Brasileiras foi lançado o famoso Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, sob o título A Reconstrução Educacional no Brasil. Nes- se documento, os signatários explicitam a tríplice função da Educação Superior, nos seguintes termos: “A educação superior ou universitária, a partir dos 18 anos, inteiramente gratuita como as demais, deve tender, de fato, não somente à formação profissional e técnica, no seu máximo desenvolvimento, como à formação de pesquisadores, em todos os ra- mos de conhecimentos humanos. Ela deve ser organizada de maneira que possa desempenhar a tríplice função que lhe cabe de elaborado- ra ou criadora de ciência (investigação), docente ou transmissora de conhecimentos (ciência feita) e de vulgarizadora ou popularizadora, pelas instituições de extensão universitária, das ciências e das artes”. Em que pesem as pequenas diferenças redacionais, o conceito de extensão nos dois documentos é idêntico e bastante preciso: trata-se de atividades (o Decreto as especifica: cursos, conferências e demons- trações práticas) que a Instituição de Educação Superior (IES) realiza para educar um público mais vasto do que seu corpo discente regular, difundindo para a sociedade externa o conhecimento e a tecnologia típicos da comunidade acadêmica. Extensão é, pois, o ato de estender, ampliar, espraiar a ação formadora das IES. O Manifesto fala de vulga- rização ou popularização do conhecimento produzido e ensinado no seio da Universidade. Os dois documentos entendem que, na essência, esse movimento deveria realizar, mutatis mutandis, fora dos muros da academia, a mesma tarefa ensinadora desempenhada em relação a seu público interno (atividade semelhante para destinatários diferentes). O Estatuto, entretanto, não é claro em um aspecto: o caráter utili- tário da extensão. Esse fala do caráter educacional da extensão e sobre isso não pairam dúvidas, mas quanto ao caráter utilitário é impossível intuir o sentido exato do termo. Talvez, o Estatuto estivesse se referin- 187 JAIME GIOLO ◀ Voltar ao sumário do à difusão de artefatos técnicos ou serviços sem nenhuma finalidade educativa inerente, mas não é possível ter certeza quanto a isso. É certo, porém, que, mais tarde, a extensão incorporará, com entusiasmo, esse sentido não educacional. O Manifesto, por sua vez, é mais enfático do que o Estatuto no apon- tar a tripla função da Educação Superior: ensino, pesquisa e extensão. Não se fala, ainda, de indissociabilidade, mas parece estar ali o nasce- douro dessa tese que demorará várias décadas para se consolidar, pois se tratava de um manifesto, assinado por 26 educadores e intelectuais, e não de um dispositivo legal ou de um programa de Governo. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1961 (Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961) não sentiu necessidade de regulamentar a extensão e nem de reformular lhe o conceito, embora lhe restrinja o espectro das atividades, se comparada aos documentos precedentes. Refere-se apenas aos cursos de extensão. O único dispositivo que trata do tema diz: “Nos estabelecimentos de Ensino Superior podem ser mi- nistrados os seguintes cursos: [...] c) de especialização, aperfeiçoamen- to e extensão, ou quaisquer outros, a juízo do respectivo instituto de ensino abertos a candidatos com o preparo e os requisitos que vierem a ser exigidos” (art. 69). Em outras partes da lei, fala-se também de “conferências” e “semi- nários”, mas sem qualificá-los como atividades de extensão. Em relação aos cursos de extensão, importa sublinhar dois aspectos: 1º) A LDB delega às IES a responsabilidade de delimitar os cursos de extensão e definir, inclusive, o perfil dos destinatários; 2º) a extensão é uma ati- vidade opcional dos estabelecimentos de Ensino Superior, não sendo contada entre os seus objetivos institucionais. É diferente, por exemplo, o que ocorre com a pesquisa. Esta, ao lado do desenvolvimento das Ciências, Letras e Artes, e da formação de profissionais de nível uni- versitário, integra explicitamente os objetivos do Ensino Superior (art. 66). A ideia do tripé defendida pelo Manifesto de 1932 não se conso- lidou ainda. Por ora, a Educação Superior segue com apenas dois pés: ensino e pesquisa. Tendo em vista o debate sobre a responsabilidade social da univer- sidade e o volume das atividades de extensão que algumas instituições 188 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário já haviam alcançado ao final dos anos de 1950, é, de certa forma, in- compreensível o quase silêncio da LDB sobre o tema da extensão. O movimento em prol da reforma da Educação Superior, iniciado em seguida, talvez tivesse conduzido a questão para melhores paragens, mas o Golpe Militar deu um destino sui generis à Educação brasilei- ra. Sendo assim, a Reforma Universitária dos militares, iniciada pelo Decreto-Lei nº 53, de 18 de novembro de 1966, complementada pelo Decreto-Lei nº 252, de 28 de fevereiro de 19672, e finalizada pela Lei nº 5.540, de 28 de novembro de 1968, pouco alterou o tema da extensão se comparada às disposições anteriores. O Decreto-Lei nº 252, com efeito, trata da extensão nos seguintes termos: “A Universidade, em sua missão educativa, deverá estender à comunidade, sob a forma de cursos e serviços, as atividades de ensino e pesquisa que lhe são inerentes. Parágrafo único. Os cursos e servi- ços de extensão universitária podem ter coordenação própria [...]” (art. 10). A extensão adquire, aqui, um horizonte um pouco mais amplo do que aquele que lhe foi traçado pela LDB de 1961: passa a integrar cursos e serviços. Trata-se de ações de caráter educativo e entendidas como canais destinados a levar para fora das instituições (“estender à comu- nidade”) aquilo que é específico dessas: o ensino e a pesquisa. Nada de novo até aqui em relação ao caráter da extensão, pois essa forma de concebê-la já estava dada desde o Estatuto de 1931. O que há de novo no Decreto nº 252,org/0000-0002-9267-199X. Tânia Mara da Silva Backschat Graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Mestre e Doutoranda em Serviço Social e Política Social pela Universidade Estadual de Londrina. Assistente Social da Prefeitura Municipal de Campo Mourão. Endereço Lattes: http://lattes.cnpq.br/3779677286168584. PARTE I CAPITALISMO E ESTADO EM TEMPOS DE CRISE DO CAPITAL 24◀ Voltar ao sumário CAPÍTULO 1 Crise do capital, restauração conservadora, ultraneoliberal e desfinanciamento dos Direitos Sociais: a Assistência Social em questão1 Maria Carmelita Yazbek Introdução As reflexões que se seguem têm como suporte uma grande pesquisa realizada sobre a Política de Assistência Social na particularidade da situação brasileira, no contexto de crise do capital, enfatizando a rela- ção entre as mudanças em andamento na ordem capitalista, a questão social e as políticas sociais contemporâneas. O estudo, financiado pelo CNPq e realizado entre os anos de 2014 e 2018 envolveu cinco uni- versidades brasileiras (Federais do Pará, Maranhão, Ceará, PUCRS e PUCSP) e se centrou no processo de implementação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), em nível nacional, considerando a arti- culação entre os três níveis de Governo e destes com a sociedade. A pesquisa de campo se apoiou em uma amostra intencional de Es- tados e municípios brasileiros representativos de cada Região do país, sendo um Estado da Região Norte (Pará); o Distrito Federal, represen- tando a Região Centro-Oeste; dois Estados da Região Nordeste (Ma- 1 Texto elaborado a partir de pronunciamento realizado 16º Congresso Brasileiro de Assis- tentes Sociais (2019). 25 MARIA CARMELITA YAzBEK ◀ Voltar ao sumário ranhão e Ceará); dois Estados da Região Sudeste (São Paulo e Minas Gerais); e dois Estados da Região Sul (Rio Grande do Sul e Paraná), totalizando sete Estados e o Distrito Federal. Em cada um desses Es- tados foram selecionados seis municípios, de diversos portes e carac- terísticas, com a participação de gestores e técnicos locais, totalizando quarenta municípios nos quais o estudo foi desenvolvido em profun- didade1 em cinquenta e sete Centros de Referência de Assistência So- cial (CRAS), oito Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e oito Centros Pop. De modo geral, a pesquisa revelou, no processo de implementação do SUAS, um cenário de graves contradições, caracterizado por pro- funda crise política, econômica, social e civilizatória, “agravada pelo golpe parlamentar de 2016, que levou à radicalização da agenda neoli- beral e ao ataque sem precedentes à Seguridade Social brasileira” (RAI- CHELIS, 2019, p. 453-454). Em uma conjuntura de contrarreformas se impõe para essa política, em processo de consolidação, o retrocesso, a redução de direitos, o desmanche e rupturas em suas bases organiza- tivas. Como base estruturante dessa conjuntura se têm os processos de globalização neoliberal, o avanço do capital financeiro e uma regressão conservadora, que se expressa no crescimento contínuo do irraciona- lismo, caracterizado por um crescente obscurantismo, pela naturaliza- ção da desigualdade, pelo acirramento dos preconceitos, do racismo, da homofobia, do feminicídio e da criminalização dos pobres e pretos e dos movimentos sociais. 1 Para realização da pesquisa de campo foram aplicados os seguintes procedimentos: Obser- vação Sistemática dos CRAS, CREAS e Centros POP in loco; entrevistas semiestruturadas com gestores estaduais, municipais e conselheiros, e Grupo Focal com técnicos, usuários e conselheiros. Os resultados desta pesquisa estão publicados no livro: O Sistema Único de Assistência Social no Brasil, disputas e resistências em movimento. Organizado por Raquel Raichelis, Maria Ozanira da Silva e Silva, Berenice Rojas Couto e Maria Carmelita Yazbek. São Paulo, Cortez, 2019. 26 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário 1 Crise do Capital, restauração conservadora e ultraneoliberal Como se sabe, a desigualdade e a concentração de renda que se in- tensificam, nas atuais formas de acumulação capitalista, resultam de mudanças no âmbito da reestruturação produtiva, associadas à nova hegemonia liberal-financeira e trazem como consequência a radicali- zação da questão social. Efetivamente, em especial, nas últimas décadas, o capital financeiro assumiu o comando no processo de acumulação de “forma que o campo de sua acumulação não mais apresenta fronteiras de qualquer ordem” (MARQUES, 2018, p.110). Sem dúvida, a centrali- dade do capital financeiro e seu domínio sobre o capital produtivo traz consequências graves para a “classe que vive do trabalho” com a ma- nutenção de taxas elevadas de desemprego, insegurança e instabilidade nos empregos, crescimento do trabalho informal e precário, redução de salários, precarização das relações de trabalho, incluindo terceiriza- ções e contratos por prazos determinados, entre outros aspectos. Essas profundas transformações, em andamento no capitalismo contemporâneo, alcançaram o mundo do Trabalho, a esfera da Polí- tica e das Políticas Sociais que se tornam cada vez mais focalizadas, seletivas e condicionadas, como se pode observar nos dezenove Pro- gramas de transferência de Renda na América Latina. Obviamente, a crise de 2008 trouxe novo suporte para tornar hegemônicas essas po- líticas. Como se sabe, foi no âmbito do enfrentamento das consequên- cias indesejáveis do novo regime de acumulação e quando políticas de ajuste que se faziam sentir sobre a grande maioria da população, que a política social “foi transformada total ou parcialmente em políticas focalizadas contra a pobreza, principalmente nos países da periferia do capitalismo” (LAVINAS, 2014, p. 3). “Esse processo vem contando com a formulação decisiva das ins- tituições multilaterais (FMI e Banco Mundial) e necessitou de uma operação político-ideológica” (FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007, p. 97), que passou a abordar a pobreza fora dos confrontos entre capital e trabalho. Exemplarmente, de modo geral, na Política Social do Conti- 27 MARIA CARMELITA YAzBEK ◀ Voltar ao sumário nente, a luta contra a pobreza “tomou o lugar” da luta de classes. Desse modo, ocultou a “questão social” como questão de classes, com suas mediações de raça, de etnia e de gênero. Nas palavras de Singer (2018, p. 21), um “traço peculiar desta sociedade é o limbo, do qual os pobres podem sair (e no qual podem voltar a cair) individualmente, mas nun- ca como classe”. Em termos globais, não por acaso, para a Organização das Nações Unidas (ONU), a erradicação da pobreza é o desafio pri- mordial dos objetivos do milênio. Nesse contexto, não é tarefa fácil pensar as políticas sociais e, espe- cialmente, as políticas protetivas como a Assistência Social, pois a crise estrutural do capital avança continuamente, em seu caráter predatório e na banalização da vida. São tempos que, como lembra Antunes, ca- racterizam “uma nova era de devastação, uma espécie de fase ainda mais destrutiva da barbárie neoliberal e financista que almeja a com- pleta corrosão dos direitos do trabalho em escala global” (ANTUNES, 2018, p. 10). Tempos de crescimento do conservadorismo de traços fascistas e de exposição da face hiperautoritária do neoliberalismo (cf. DARDOT; LAVAL, 2016). Para entender esse contexto de devastações, a tarefa primeira é desvendar a matriz, decifrar, ainda que sumariamente, a crise estrutural do capital, e seus impactos no caráter dependente do capitalismo periférico, para entender o seu ataque contra a política e contra as políticas sociais, em relação às quais a conclusão que se chega é que não interessa a esse “capital manter políticas sociais organiza- das e financiadas pelo Estado” (MARQUES, 2018, p. 110). Desse modo, pode-se entender que o avanço do capital sobre a política e sobre as políticas sociais é uma característica do capitalismo contemporâneo globalmente, como anunciavaMarques em 2015, “Nesse quadro, o lu- gar das políticas sociais está em um ‘Não Lugar’, pois não faz parte da agenda desse tipo de capital” (MARQUES, 2015, p. 18, grifos da autora). Para Mészáros (2009), nessa crise estrutural, o colapso do sistema financeiro de 2008 não foi a causa, mas uma manifestação endêmica, cumulativa, crônica e permanente da crise, cujos principais resulta- dos foram (e são) o desemprego estrutural, a destruição ambiental e as guerras permanentes em condições que mantém o mundo na es- 28 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário tagnação econômica e sem solução visível em curto prazo. Para esse autor, o neoliberalismo e a globalização recrudesceram os problemas econômicos, sociais, políticos, ecológicos e culturais do Planeta e o que se observa nos anos recentes é a combinação de uma nova crise cíclica com uma crise sistêmica, que ameaça levar o mundo a uma situação sem precedentes. Alguns resultados dessa crise são facilmente observáveis: como a imensa concentração de riqueza e poder ao lado da tragédia da po- breza, da fome, da exclusão (não apenas de bens materiais) expres- sa no crescimento das massas descartáveis sobrantes e sem proteção em um mundo desumanizado e marcado pelo individualismo e pela competição, configurando um profundo agravamento da “questão so- cial” e a recomposição das políticas sociais, que se tornam cada vez mais focalizadas, seletivas e condicionadas. Traz-se aqui a referência à questão social que, fundamentalmente expressa a divisão da socie- dade em classes, cujos confrontos se agudizam e que nos contraditóri- os tempos presentes assumem novas configurações e expressões, que conforme Iamamoto: [....] condensam múltiplas desigualdades mediadas por dispari- dades nas relações de gênero, características étnico-raciais, mo- bilidades espaciais, formações regionais e disputas ambientais, colocando em causa amplos segmentos da sociedade no acesso aos bens da civilização. Dispondo de uma dimensão estrutural – a enraizada na produção social contraposta a apropriação pri- vada do trabalho –, a ‘questão social’ atinge visceralmente a vida dos sujeitos numa luta aberta e surda pela cidadania, no embate pelo respeito aos direitos civis, sociais e políticos e aos direitos humanos (IAMAMOTO, 2018, p.72, grifos da autora). Cabe lembrar, ainda, que uma análise crítica da “questão social”, no tempo presente, exige que sejam considerados os processos de forma- ção do país, desde a colonização com a construção de uma economia composta de senhores e escravos, na qual as marcas do patrimonialis- mo-paternalista vão plasmar a sociedade brasileira. “O par senhor-es- 29 MARIA CARMELITA YAzBEK ◀ Voltar ao sumário cravo assentou as bases de uma estrutura social bipolar, que formou a maior parte da nação. A casa grande e a senzala são o brasão dessa so- ciedade” (OLIVEIRA, 2018, p. 29). O traço dessa formação social bra- sileira, de conjugação do “avanço” com o “atraso” assegurou o sucesso da dominação burguesa desde sempre, e assim sendo, se está diante de uma sociedade estruturalmente desigual, em que a presença dos “pobres” no tratamento dos conflitos classistas tem sido uma constante e deixou, sem dúvida, suas marcas na história do país e implantou ba- ses importantes na construção da lógica, que vem presidindo a expan- são do capitalismo dependente na periferia, em tempos mais recentes, bem como as características próprias da questão social brasileira e das estratégias para seu enfrentamento. Assim, as marcas da cultura colonial permanecem presentes nas relações sociais, características do capitalismo periférico, neste Conti- nente, moldando as expressões e configurações da questão social, que se reformula e se redefine, mas permanece substantivamente a mes- ma por se tratar de uma questão estrutural, constitutiva das relações capitalistas, de sua divisão da sociedade em classes e da disputa pela riqueza socialmente construída, cuja apropriação é profundamente desigual no capitalismo. Supõe a consciência dessa desigualdade e a resistência à opressão por parte da “classe que vive do trabalho” (cf. YAZBEK, 2004, p. 33). Nesse contexto, altera-se a esfera da Política marcada, nos dias atuais, por uma nova racionalidade, por sua desqualificação, despolitização e a esfera da Política Social, que se torna cada vez menos universal e mais focalizada, altera-se, ainda, a esfera da Sociabilidade, pois o capi- talismo financeirizado necessita de subjetividades, que se amoldem ao mercado. Essa sociabilidade se expressa por uma moral conservadora, igrejista e familiarista, imprescindíveis para o capitalismo financeiro global. Do ponto de vista político se vive uma era na qual estão em questão os sentidos da política. As últimas eleições revelaram campos inconci- liáveis do conflito de interesses e das lutas sociais, reforçaram o braço repressivo do Estado, e um Governo que vem confrontando valores democráticos e eliminando direitos conquistados, que revelaram tam- 30 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário bém alienação e esgarçamento na disputa entre democratização no ho- rizonte dos direitos e zonas de sombra que colocam as pessoas diante dos velhos fantasmas do autoritarismo. A nova política e a nova sociabilidade que são inscritas na agenda neoliberal vêm provocando metamorfoses no campo da subjetividade, expressas no individualismo competitivo exacerbado, preconceituo- so, pressionado pelo consumo e que vive com um grau de incerteza e ansiedade sem precedentes. Nesse processo se reativa o pensamento conservador, restaurador e defensor da ordem instituída, e o pensa- mento reacionário e irracional, que confronta valores democráticos e propõe eliminação de direitos. Nesse processo emergem novas formas de gestão dos serviços públicos e das políticas sociais, marcadas pelo gerencialismo e voltadas à “fabricação do sujeito neoliberal”. Processos que embaralham o setor público e o privado (cf. DARDOT; LAVAL, 2016, p. 321). Este quadro vem implicando em uma ruptura do histórico pacto entre capital e trabalho, que configurou, no Mundo desenvolvido, o Estado de Bem-Estar Social e, na periferia do capitalismo, algumas melhorias nas políticas sociais. Nesse contexto de avanço do capital sobre as políticas sociais, que é uma característica do capitalismo global contemporâneo, a questão social se radicaliza e, aliada à nova morfologia do mundo do trabalho com o aumento brutal da taxa de exploração, o desemprego, a redução de salários e precarização do trabalho, e ausência de direitos, que têm como resultado a ampliação de situações de trabalho desprotegido, e de outras formas de desproteção, o aumento da pobreza, aqui entendi- da como condição de classe, e o desmonte da proteção social. Situações que vêm no bojo da crise, cujos impactos dramáticos nos orçamentos públicos das economias desenvolvidas e dos países dependentes amea- çam de imediato os sistemas de proteção social vigentes. Em síntese, as atuais transformações societárias, que alcançam a política e a sociabi- lidade capitalista, aliadas às consequências da crise do capital, colocam em questão o princípio básico de proteção social que é dissociar a re- produção das condições de vida e bem-estar das condições de mercado. 31 MARIA CARMELITA YAzBEK ◀ Voltar ao sumário A novidade inquietante é que frente aos enormes constrangimentos, que degradam o trabalho e a vida, até as políticas sociais, que pode- riam minimizar os impactos da crise, passaram a ser alvo de processos de desmanches. Por outro lado, depara-se nesse tempo com: [...] a ampliação da demanda por serviços e benefícios da assis- tência social num contexto de aprofundamento do desemprego estrutural, de precarização do trabalho e de insegurança social face à redução das proteções sociais do trabalho (vide as legisla- ções trabalhista e previdenciária) decorrentes da sua nova mor- fologia, expressaspela tríade flexibilização, informalização e ter- ceirização do trabalho (cf. ANTUNES, 2013). Obviamente, esses processos de desmonte da proteção social obser- vados no Mundo inteiro não são homogêneos, até porque geram pro- fundas resistências, novos antagonismos, expressando a capacidade de luta e de resistência da “classe que vive do trabalho”. Nesse quadro tão adverso como se coloca a Assistência Social? Lembra-se, inicialmente, e é fundamental não esquecer, que com a Constituição de 1988 tem início a construção de uma nova matriz para a Assistência Social brasileira, inserida na Seguridade, como política social não contributiva, direito dos que dessa necessitarem. Passados mais de trinta anos, apesar das adversidades e da obscu- ridade a que foi relegada a perspectiva integrada de Seguridade So- cial, não se pode deixar de reconhecer, desde a Carta Constitucional, mudanças significativas no que concerne à proteção social no Brasil, particularmente para a Assistência Social, sobretudo, no que se refere a sua concepção, organização e gestão. Como política de Estado, a Assistência Social passou a ser um espa- ço para a defesa e atenção dos interesses e necessidades sociais dos seg- mentos mais empobrecidos da sociedade, configurando-se, também, como estratégia fundamental para o combate à pobreza, aqui abordada como condição de classe, à discriminação e à subalternidade econômi- ca, cultural e política em que vive grande parte da população brasileira. 32 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário Sem dúvida, nessa nova matriz estão colocadas mudanças substan- tivas na concepção da assistência social, um avanço que deveria per- mitir sua passagem do assistencialismo e de sua tradição de não políti- ca para o campo da política pública. Cabe, por exemplo, lembrar que o Plano decenal 2016-2026 apre- senta prioridades para consolidar a Assistência Social brasileira, no âmbito da ampliação de sua cobertura, universalizando o Benefício de Prestação Continuada (BPC), mantendo-o vinculado ao salário-míni- mo, sinalizando para a universalização do SUAS em todas as regiões do país, respeitadas suas especificidades, o que deveria significar mais ser- viços com qualidade, mais trabalhadores, mais benefícios e reajustes nos próximos anos. A perspectiva do Plano é a ampliação das inegáveis conquistas que asseguraram a 4,5 milhões de brasileiros o BPC, a 13,5 milhões de Brasileiros o Bolsa Família, lembrando que, em média, a renda do BPC constitui 79% do orçamento das famílias beneficiadas e em quarenta e sete dos casos é a única renda. No entanto, o que aponta a realidade da pesquisa realizada entre 2014 e 2018 em todas as regiões do país e outros estudos recentes acerca da Assistência Social? Destaca-se aqui o trabalho de muitos outros autores e militantes, que vêm acompanhando de perto a Assistência Social, nos dias atuais, e que observam para essa política, nos tempos recentes, uma tendência regressiva, uma situação de retrocessos e desmanches, que colocam em risco as bases do SUAS e os direitos socioassistenciais alcançados. Como afirma Jucimeri Silveira (2017), correm risco de regressão bene- fícios e serviços disponibilizados a mais de trinta milhões de famílias referenciadas nos CRAS, exatamente nessa conjuntura de recessão e de avanço da pobreza, quando mais se amplia a demanda pela univer- salização da Seguridade Social pública. Se fosse possível reduzir a situ- ação a algumas palavras, seriam essas: desmanche, desconfiguração, regressão, risco. Sabe-se que as Reformas Trabalhista e da Previdência ampliarão, sem dúvida, o número de demandantes da Assistência Social e, espe- cialmente, a Reforma da Previdência ao interferir no BPC (pela tenta- 33 MARIA CARMELITA YAzBEK ◀ Voltar ao sumário tiva de desconectá-lo do salário-mínimo e alterar o teto de idade) que ampliarão a pobreza de idosos e deficientes. São destacadas a seguir algumas características do quadro atual da Assistência Social observadas nesta pesquisa e em outros estudos re- centes: 1. Permanecem na Assistência Social tendências históricas, não su- peradas, da assistência social como o lugar destinado às ações dirigi- das aos “pobres” – dispositivo que estigmatiza e discrimina os estratos subalternizados, descola da condição de classe, que está na gênese da condição de pobreza e provoca uma cisão entre pobres e trabalhadores. Cresce o número de trabalhadores com carteira de trabalho, precariza- dos, quarteirizados, que buscam atendimento para suas necessidades sociais no âmbito do SUAS. A permanência da assistência social como moeda de troca política entre dominantes e dominados retoma seu lon- go caminho no país “cordial” da sociabilidade do favor, agora trans- mutada na “[...] sociabilidade do grande capital que toma de assalto o fundo público e desconstrói décadas de luta pela constituição da esfera pública no Brasil” (RAICHELIS; YAZBEK, 2018). No âmbito da pesquisa realizada, uma observação geral sobre os usuários participantes dos grupos focais leva a identificar, ao menos nesta amostragem, nas áreas urbanas a presença predominante de idosos, com maioria de mulheres, população em situação de rua, com maior presença masculina e adolescentes negros de ambos os sexos. E nas áreas rurais, a presença de populações ribeirinhas, quilombolas e indígenas, especialmente, mas não exclusivamente nas regiões Norte e Nordeste, e de famílias de trabalhadores sem-teto e sem-terra, espalha- das pelas diferentes regiões e cidades brasileiras. 2. Um segundo aspecto: sabe-se que desde seu início, o SUAS está permeado de valores e tendências, tanto conservadoras como emanci- patórias. É um espaço em disputa e, assim sendo, é fundamental todo o tempo fortalecer aquelas que operam a formulação da Assistência So- cial como Política Pública regida pelos princípios universais dos direit- os e da cidadania. Por que se está lembrando esses aspectos? Primeiro, porque o campo e tempo presente é fértil para regressões moralizantes e meritocráticas. Cresce nesta sociedade o pensamento conservador e 34 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário reacionário que estigmatiza o pobre por sua pobreza. Também porque no processo de construção e de consolidação do SUAS, esses valores e tendências estão se confrontando, especialmente, com os processos privatizadores. Não se pode esquecer que o pensamento conservador e reacionário, que se revigora na atual sociedade, resultante do quadro político, traz em seu bojo o ressurgimento de práticas classistas, racis- tas, homofóbicas, feminicidas, entre outros aspectos, nesse contexto. 3. O terceiro aspecto para ao qual se gostaria de chamar a atenção é o “desfinanciamento” da política de assistência social, que tenderá a se agravar crescentemente, como resultado da Emenda Constitucional 95/18, que desqualifica os direitos e impossibilita os serviços de manter a cobertura atual, ao propor o congelamento (com o teto das despesas de 2016 corrigido) das despesas sociais por vinte anos, o que terá forte impacto no desempenho da Política de Assistência Social, situação que só se agrava com atrasos de repasse e contingenciamento. Sem dúvida, a limitação financeira para custear o SUAS trará graves consequências. Como lembra Sposati (2018, p. 2316): [...] atenções públicas prestadas em serviços, ou benefícios, ten- dem a ser vistas, pelos conservadores, pelos que detém o poder como benesse de cunho esmolar. [Como ação religiosa, carita- tiva ou filantrópica, acrescento eu.] Sua insignificância de valor monetário é dirigida a quem tem menos. Diversa é a conduta para os que têm mais e se aproximam da identidade de classe no poder A esses benefícios, substantivos em valores monetários, isentos de imposto de renda e sem qualquer condicionalidade, ou restrição, são distribuídos a magistrados, legisladores, milita- res e governantes. Não raro, se estendem a seus filhos, cuja idade de dependênciaé de 24 anos, em contraponto aos mais pobres, onde cai para 14 anos. Maria Ozanira da Silva e Silva (2018), em texto produzido no âm- bito desta pesquisa demonstra que a Assistência Social foi uma das políticas mais atingidas pelos cortes de recursos em 2018: 35 MARIA CARMELITA YAzBEK ◀ Voltar ao sumário [...] paralisando uma trajetória orçamentária ascendente desde 2004 e que havia alcançado 4.5 milhões de brasileiros no BPC, p.ex. A redução orçamentária é alarmante, passando de 2.1 bi- lhões em 2016 para os serviços socioassistenciais para 1.5 bilhões em 2019; de 45 bilhões para o BPC em 2016, para 30 bilhões em 2019; de 28.8 bilhões para o Bolsa Família em 2016 para 23 bilhões em 2019. Além disso prevê-se a interrupção do atendimento de 17 mil serviços socioassistenciais, ofertados nos CRAS, CREAS, CENTRO-POP e Unidades de Acolhimento Institucional que atuam diretamente em situações de ocorrência de abuso sexual, abandono, situação de dependência, violência doméstica, maus tratos físicos e/ou psíquicos, situação de trabalho infantil, situa- ção de rua, cumprimento de medidas socioeducativas, entre ou- tras situações de violação dos direitos (SILVA E SILVA, 2018). Assim como em 2018, a Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2019 sofreu redução significativa na área da Assistência Social, en- viada pelo Executivo ao Congresso Nacional com 57,39% de corte no Benefício de Prestação Continuada à Pessoa Idosa e 44% no Benefí- cio de Prestação Continuada à Pessoa com Deficiência, além de cor- tes nos Serviços Socioassistenciais na ordem de 49,48%. Esses cortes inviabilizarão a oferta de serviços, de programas e de projetos para as famílias e indivíduos apontando para uma conjuntura de desmanche e desconstrução do SUAS, em um embate em que são confrontados dois projetos de proteção social no Brasil: um referenciado às promessas constitucionais de cidadania e direitos na perspectiva de um Sistema de Proteção Social público, universal e de afirmação de direitos; e ou- tro, que se configura em seu “oposto”, que reduz a Proteção Social em reiteração de práticas, que remetem sob novas formas à seletividade e focalização meritocrática no sistema protetivo. Basta lembrar que o Programa “Criança Feliz”, criado no Governo Temer, ganhou mais centralidade do que o próprio SUAS, com orça- mento para 2018 de um milhão de reais, superior aos recursos desti- 36 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário nados aos CRAS, de R$ 800 mil2. Um Programa dessa natureza vem reforçando a presença na Assistência Social brasileira, de concepções conservadoras e práticas assistencialistas, clientelistas, primeiro da- mistas e patrimonialistas. Basta observar que o Programa repõe em cena a figura da primeira-dama, a desprofissionalização das políticas sociais e a condição subalterna da mulher (CFESS, 2016; 2017). Pro- grama criado por meio de um Decreto presidencial (8.869/2016), no Governo Temer, apresenta um conteúdo que não afiança as garantias legais instituídas para proteção integral à criança e não esclarece o re- sultado desse investimento estatal em tempos de cortes orçamentários. 4. O quarto ponto a destacar são os constrangimentos do geren- cialismo, que alcançam a gestão do SUAS que, como aponta Jucimeri Silveira, na: [...] conjugação perversa entre cultura patrimonialista, reprodu- tora de assimetrias nas relações de poder sob os efeitos da ideo- logia do mando e do favor, e cultura gerencialista, incorporada na formulação das políticas públicas, a partir da racionalidade instrumental do mercado configura uma feição de Estado com as seguintes dimensões: a) na dimensão social penalizadora da população em situação de pobreza e toda forma de insurgência que represente ameaça à dominação institucionalizada; b) na di- mensão econômica gerencialista dos interesses do capital (SIL- VEIRA, 2017, p. 490). 5. Por outro lado, estudos têm demonstrado, e a pesquisa em alguns municípios evidenciou que a judicialização da assistência social tem ocorrido, principalmente, em relação ao BPC, único benefício cons- titucionalizado dessa área, processo que ao mesmo tempo em que re- conhece o demandante deste benefício assistencial – o pobre – como 2 O Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) publicou no Diário Oficial da União, em 20/09/2018, a Resolução nº 20/2018, solicitando a recomposição da dotação orçamen- tária de 2018 e o aumento dos valores na proposta orçamentária da Assistência Social para o exercício de 2019, conforme os limites aprovados pelo Conselho Nacional por meio da Resolução CNAS nº 16/2018. 37 MARIA CARMELITA YAzBEK ◀ Voltar ao sumário sujeito de direito, o faz pela via da individualização do acesso ao di- reito, o que expõe o traço marcante de sociedades do tipo mercantil- -escravagista, subordinadas ao capitalismo central dominante, como a brasileira. 6. Como sexto ponto se gostaria de apontar algumas questões rela- tivas à gestão do trabalho. Sabe-se que a questão dos recursos humanos vem se constituindo em um enorme desafio para a administração pública brasileira, situa- ção que se complexifica na assistência social marcada pela tradição de não política e de um histórico de desprofissionalização, que tende a crescer. O quadro profissional é, em geral, insuficiente e com grandes defasagens atendendo simultaneamente diferentes municípios. Para Raichelis (2013, p. 619-620): [...] a dinâmica societária desencadeada pela crise contemporâ- nea [...] atinge a totalidade dos processos produtivos e dos ser- viços, alterando perfis profissionais e espaços de trabalho das diferentes profissões, e dessa forma, também alcança os traba- lhadores da Assistência Social, que tem na prestação de serviços sociais seu campo de intervenção privilegiado e nas instituições sociais públicas e privadas seu espaço ocupacional. Os traba- lhadores da Assistência Social, sofrem as consequências dessas mudanças e se vêm, submetidos a constrangimentos diante dos processos de intensificação e precarização do trabalho assalaria- do nos espaços institucionais onde desenvolvem seu trabalho. Observa-se que para os trabalhadores da Assistência Social, essas estratégias vão sendo incorporadas gradativa e sutilmente e, talvez, ainda não estejam claramente perceptíveis para esses trabalhadores. No entanto, ganham concretude no ritmo e na velocidade do trabalho, nas cobranças e exigências de produtividade, no maior volume de ta- refas, nas características do trabalho demandado, no peso da responsa- bilidade e “[...] na ponta observamos profissionais esvaídos de decisão, cumprindo metas e resultados imediatos, com falta de perspectivas de 38 QUESTÕES E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DO CAPITALISMO ◀ Voltar ao sumário progressão e ascensão na carreira e de políticas continuadas de capaci- tação profissional, entre outros aspectos” (YAZBEK, 2014, p. 140 ). Quanto à precarização se observa que esta alcança os vínculos tra- balhistas, com salários insuficientes, adoção de formas flexíveis de tra- balho informal, parcial, temporário, terceirizado, contratação por tare- fas, por pregão eletrônico e outros aspectos. Para avançar, entende-se que o escopo da análise deve ser ampliado alcançando a perspectiva da construção da identidade coletiva do trabalhador da Assistência Social, no conjunto da classe trabalhadora. Entende-se que enfrentar esses desafios é operar em um processo contraditório, no qual sempre estão em “disputa os sentidos da socie- dade”. Assim sendo, os rumos e a politização desse debate é que permi- tirão que o SUAS se coloque (ou não) na perspectiva de forjar formas de resistência e defesa da cidadania de seus usuários, ou apenas reiterar práticas conservadoras e assistencialistas. Isso em todos os níveis de funcionamento do sistema. Incluindo relações profissionais. Considerações finais Para finalizar se gostaria de assinalar que diante das desigualdades e da subalternidade a que é submetido o povo