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MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 1 APG 32: “O ÚLTIMO ZUMBI” OBJETIVO 1: COMPRENDER A EPIDEMIOLOGIA, ETIOLOGIA, FORMAS DE TRANSMISSÃO, CICLO BIOLÓGICO, FISIOPATOLOGIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA LEISHMANIOSE. INTRODUÇÃO Leishmanioses são doenças causadas por protozoários do gênero Leishmania, que são transmitidos pela picada de flebotomíneos do gênero Phlebotomus ou Lutzomyia. Pelo menos 20 espécies de Leishmania causam doença em humanos. Leishmânias infectam células do sistema fagocitário mononuclear e causam lesões na pele e em mucosas (leishmaniose tegumentar) ou em órgãos internos (leishmaniose visceral). Na maioria dos casos, a doença é uma zoonose, exceto as causadas pela L. donovani e pela L. tropica, na Ásia e na África, que são antroponoses. As lesões da leishmaniose tegumentar são destrutivas, às vezes progressivas, e manifestam-se com úlceras ou nódulos na pele e nas mucosas nasal e oral, ocasionando danos estéticos e funcionas na face, sobretudo no nariz e na boca. A leishmaniose visceral compromete órgãos internos e manifesta-se por emagrecimento, hepatomegalia, esplenomegalia e disfunção da medula óssea, com anemia, neutropenia e hemorragias. A apresentação clínica das leishmanioses varia de acordo com a espécie de leishmânia infectante e da resposta imunitária do hospedeiro. EPIDEMIOLOGIA De acordo com “Patologia de Bogliolo”, nas formas graves, a letalidade da leishmaniose visceral no Brasil é em torno de 6%, mesmo com tratamento específico. As duas formas de leishmaniose (tegumentar e visceral) estão presentes em todos os continentes, exceto na Oceania. Estima-se que no mundo haja de 12 a 15 milhões de pessoas infectadas e que ocorram 1,5 a 2 milhões de novos casos a cada ano. Entre os 25 países com maior prevalência de leishmaniose, o Brasil é o único com alta prevalência das duas formas da doença, a tegumentar e a visceral. As leishmanioses estão em expansão no Brasil e no mundo. Até a década de 1980, no Brasil as leishmanioses tegumentar e visceral eram consideradas enfermidades rurais. Nos últimos anos, a doença adquiriu também caráter urbano, sendo encontrada em cidades de médio e grande portes de quase todos os estados brasileiros. As leishmanioses (visceral e tegumentar americana) são doenças tropicais, que representam um complexo de doenças com importante espectro clínico e diversidade epidemiológica, endêmicas no Distrito Federal (DF) e entorno, em expansão geográfica, necessitando da atenção contínua da vigilância epidemiológica e que se não forem diagnosticadas e tratadas oportunamente podem evoluir a óbito ou deixar sequelas. LEISHMANIOSE VISCERAL HUMANA De acordo com o Boletim Epidemiológico de 2021, a LVH é endêmica em 76 países e, no continente americano, está descrita em pelo menos 12. Dos casos registrados na América Latina, 90% ocorrem no Brasil sendo a doença endêmica nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Na região Nordeste brasileira compreende a maior incidência de LVH, especialmente nos estados de Piauí e Maranhão, seguida pela região Sudeste, principalmente no estado de Minas Gerais. A doença, é descrita em vários municípios brasileiros, apresentando mudanças importantes no padrão de transmissão, inicialmente predominando em ambientes silvestres e rurais e mais recentemente em centros urbanos. Em média, cerca de 3.500 casos são registrados anualmente e o coeficiente de incidência é de 2,0 casos/100.000 habitantes. Nos últimos anos, a letalidade vem aumentando gradativamente. No estado de Mato Grosso do Sul, entre 2011 e julho de 2020, foram confirmados 1.741 casos de LVH e 124 óbitos. A LVH é uma zoonose de evolução crônica, com acometimento sistêmico e, se não tratada, pode levar a óbito até 90% dos casos. LEGENDA: Número de casos confirmados de leishmaniose visceral, segundo Unidade Federada provável de infecção. Distrito Federal, 2022. LEISHMANIOSE TEGUMENTAR HUMANA Em relação à leishmaniose tegumentar americana – LTA, até a SE 13, foram confirmados sete casos, quatro em residentes do DF, e três em residente de outras Unidades Federadas, não sendo registrado óbito. No tocante à faixa etária, as maiores proporções foram registradas em indivíduos de 50 a 59 anos, e 60 a 69 anos, com dois casos cada, respectivamente. No mesmo período em 2021, foram confirmados 13 casos, sendo nove em residentes do DF e MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 2 quatro em residentes de outras Unidades Federadas. LEGENDA: Número de casos de leishmaniose tegumentar americana confirmados, segundo local de residência e faixa etária. Distrito Federal, 2022. LEGENDA: Número de casos confirmados de leishmaniose tegumentar americana, segundo Unidade Federada provável de infecção. Distrito Federal, 2022. LEGENDA: Número de casos confirmados de leishmaniose tegumentar americana, segundo Unidade Federada provável de infecção. Distrito Federal, 2022. PADRÕES EPIDEMIOLÓGICOS Atualmente, pode-se dizer que, no Brasil, a LT apresenta três padrões epidemiológicos característicos: a) Silvestre – Neste padrão, a transmissão ocorre em área de vegetação primária e é fundamentalmente uma zoonose de animais silvestres, que pode acometer o ser humano quando este entra em contato com o ambiente silvestre, onde esteja ocorrendo a enzootia. b) Ocupacional e lazer – Este padrão de transmissão está associado à exploração desordenada da floresta e à derrubada de matas para construção de estradas, usinas hidrelétricas, instalação de povoados, extração de madeira, desenvolvimento de atividades agropecuárias e de treinamentos militares e ecoturismo. c) Rural e periurbano em áreas de colonização – Este padrão está relacionado ao processo migratório, à ocupação de encostas e aos aglomerados em centros urbanos associados a matas secundárias ou residuais. Logo, a leishmaniose possui caráter de doença tropical negligenciada, que se justifica devido a existência de estratégias para sua erradicação, além de possuir prioridade em seu controle e prevenção, estando inserida em programas de vigilância de vários países, dentre eles o Brasil. Para minimizar o impacto da doença e proporcionar a adoção rápida de medidas de controle e prevenção, ações de vigilância epidemiológica devem ser realizadas. ETIOLOGIA LEISHMANIOSE VISCERAL HUMANA Os agentes etiológicos da leishmaniose visceral são protozoários tripanosomatídeos do gênero Leishmania, parasita intracelular obrigatório das células do sistema fagocítico mononuclear, com uma forma flagelada ou promastigota, encontrada no tubo digestivo do inseto vetor e outra aflagelada ou amastigota nos tecidos dos vertebrados. LEGENDA: Leishmania – Forma flagelada ou promastigota. LEGENDA: Leishmania – Forma aflagelada ou amastigota VETOR Os vetores da leishmaniose visceral são insetos denominados flebotomíneos, conhecidos popularmente como mosquito palha, tatuquiras, birigui, entre outros. No Brasil, duas espécies, até o momento, estão relacionadas com a transmissão da doença Lutzomyia longipalpis e Lutzomyia cruzi. A primeira espécie é considerada a principal espécie transmissora da L. (L.) chagasi no Brasil e, recentemente, L. cruzi foi incriminada como vetora no Estado de Mato Grosso do Sul. No Brasil, a distribuição geográfica de L. longipalpis é ampla e parece estar em expansão. Esta espécie é MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 3 encontrada em quatro das cinco regiões geográficas: Nordeste, Norte, Sudeste e Centro-Oeste. MODO DE TRANSMISSÃO No Brasil, a forma de transmissão é através da picada dos vetores - L. longipalpis ou L. cruzi – infectados pela Leishmania (L.) chagasi. Alguns autores admitem a hipótese da transmissão entre a população canina através da ingestão de carrapatosinfectados e mesmo através de mordeduras, cópula, ingestão de vísceras contaminadas, porém não existem evidências sobre a importância epidemiológica destes mecanismos de transmissão para humanos ou na manutenção da enzootia. Não ocorre transmissão direta da LV de pessoa a pessoa. A transmissão ocorre enquanto houver o parasitismo na pele ou no sangue periférico do hospedeiro. PERÍODO DE INCUBAÇÃO O período de incubação é bastante variável tanto para o homem como para o cão: • No homem: 10 dias a 24 meses, com média entre 2 a 6 meses. • No cão: bastante variável, de 3 meses a vários anos com média de 3 a 7 meses. LEISHMANIOSE TEGUMENTAR HUMANA No Brasil, já foram identificadas sete espécies, sendo seis do subgênero Viannia e uma do subgênero Leishmania. As três principais espécies são: L. (V.) braziliensis, L.(V.) guyanensis e L.(L.) amazonensis E, mais recentemente, as espécies: L. (V.) lainsoni, L. (V.) naiffi, L. (V.) lindenberg e L. (V.) shawi foram identificadas em estados das regiões Norte e Nordeste. VETOR Os vetores da LT são insetos denominados flebotomíneos, pertencentes à Ordem Díptera, Família Psychodidae, Subfamília Phlebotominae, Gênero Lutzomyia, conhecidos popularmente, dependendo da localização geográfica, como mosquito-palha, tatuquira, birigui, entre outros. LEGENDA: Fêmea de flebotomíneo ingurgitada (foto ampliada). MODO DE TRANSMISSÃO No Brasil, as principais espécies envolvidas na transmissão da LT são: Lutzomyia flaviscutellata, Lu. whitmani, Lu. umbratilis, Lu. intermedia, Lu. wellcomei e Lu. Migonei. Essas espécies de flebotomíneos foram definidas como vetoras por atenderem aos critérios que atribuem a uma espécie a competência vetorial. Embora ainda não tenha sido comprovado o papel da Lu. neivai e Lu. fischeri como vetores da LT, estas espécies têm sido encontradas com frequência em ambientes domiciliares em áreas de transmissão da doença. O modo de transmissão é por meio da picada de insetos transmissores infectados. Não há transmissão de pessoa a pessoa. PERÍODO DE INCUBAÇÃO O período de incubação da doença no ser humano é, em média, de dois a três meses, podendo variar de duas semanas a dois anos. CICLO BIOLÓGICO O ciclo biológico da Leishmania é heteroxeno (digenético), com dois hospedeiros, um vertebrado e outro invertebrado. O hospedeiro invertebrado, a fêmea do flebotomíneo, durante o repasto sanguíneo em animal infectado, ingere sangue contendo macrófagos com as formas amastigotas. Durante a passagem pelo intestino do vetor, ocorre a diferenciação em promastigotas e a multiplicação por divisão binária. O processo de metaciclogênese culmina na formação das promastigotas metacíclicas, que representam a forma infectante do parasito. Ao picar um hospedeiro suscetível, o vetor infectado poderá regurgitar os promastigotas metacíclicos, os quais, por fagocitose, são internalizados pelos macrófagos, reduzem de tamanho, perdem o flagelo e se transformam em amastigotas. Estes se multiplicam até o rompimento dos macrófagos, quando podem infectar outras células ou serem ingeridos pelo flebotomíneo, viabilizando a manutenção e o prosseguimento do ciclo. MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 4 FISIOPATOLOGIA A infecção por diferentes espécies de Leishmania estimula um padrão de resposta imune que é diretamente dependente da virulência da cepa e dos fatores associados ao hospedeiro. O espectro imunológico observado em pacientes com leishmaniose varia de indivíduos que apresentam uma resposta de células Th1 mais evidente, caracterizada pela hipersensibilidade do tipo tardia (DTH) associada a altas concentrações de interferona-gama (IFN-γ). Para indivíduos que são incapazes de apresentar DTH, mas que respondem com elevadas concentrações de anticorpos e uma resposta polarizada do tipo Th2. Geralmente, a DTH está associada ao baixo parasitismo nas lesões, uma vez que os parasitos são eliminados pelos macrófagos ativados por IFN-γ. Por outro lado, a resposta humoral é ineficiente para controlar a infecção, não havendo neutralização do parasito pelos anticorpos. Na ausência de uma resposta imune celular modulada, formas graves da doença podem ocorrer. Quando a resposta é polarizada para Th2, a doença pode evoluir para a Leishmaniose cutânea localizada (LCD), e uma resposta celular (Th1) exacerbada pode culminar na evolução mucosa da doença. A abordagem da fisiopatologia da LT tem como ponto central o mecanismo da relação parasito-hospedeiro que estimula a resposta imune específica. No intestino dos insetos vetores, as formas promastigotas passam por um processo denominado metaciclogênese, que é o processo pelo qual estas formas deixam de se reproduzir e se tornam infectantes (promastigotas metacíclicas). Durante a metaciclogênese, as promastigotas sofrem modificações bioquímicas em sua superfície, perdendo assim sua capacidade de adesão ao epitélio do intestino médio do flebótomo. Após a inoculação, as promastigotas precisam sobreviver aos mecanismos inatos de defesa do hospedeiro. As mudanças bioquímicas ocorridas durante a metaciclogênese conferem às promastigotas uma resistência aumentada à lise pelo complemento. Substâncias presentes na saliva dos flebotomíneos também favorecem a infecção. Quando as promastigotas são introduzidas na pele, encontram neste local algumas células do sistema imune (linfócitos T e B, macrófagos residentes, células de Langerhans, mastócitos), que formam um compartimento bastante específico denominado sistema imune da pele. No interior das células de drenagem, as partículas antigênicas do parasito serão apresentadas às células do sistema imune. Estas, uma vez estimuladas, dirigem-se ao sítio da infecção, auxiliando na formação do processo inflamatório. Nos macrófagos, os parasitos internalizados ficam dentro de um vacúolo parasitóforo (fagolisossoma), que os separa do citoplasma celular. Embora os macrófagos sejam células fagocitárias especializadas no combate a agentes infecciosos, as Leishmanias desenvolvem mecanismos de defesa capazes de subverter sua capacidade microbicida, conseguindo sobreviver neste ambiente potencialmente tóxico, e multiplicam-se até a ruptura da célula, quando são liberadas para infectar outros macrófagos, propagando a infecção. Este processo leva à liberação de partículas antigênicas que serão apresentadas ao sistema imune, gerando a resposta específica. Aquelas formas promastigotas que não forem internalizadas serão destruídas no meio extracelular pela resposta inata, e as partículas antigênicas produzidas neste processo também poderão ser utilizadas pelas células apresentadoras de antígeno no processo de reconhecimento antigênico. A localização das amastigotas no interior de macrófagos faz com que o controle da infecção seja dependente da resposta imune mediada por células. MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 5 A principal célula efetora da eliminação das amastigotas é o próprio macrófago, após sua ativação por linfócitos T auxiliadores (helper). As células do sistema imune comunicam-se por meio da secreção de mediadores solúveis denominados citocinas. As citocinas produzidas por linfócitos recebem o nome de linfocinas. Linfócitos T ativam macrófagos, tornando-os capazes de destruir amastigotas, por meio da secreção da linfocina denominada interferon-gama (IFN-γ). Os mecanismos de eliminação das amastigotas pelos macrófagos ativados envolvem a síntese de intermediários tóxicos de oxigênio e nitrogênio, como o óxido nítrico. Na fisiopatogenia das leishmanioses, os macrófagos são ao mesmo tempo células hospedeiras, apresentadoras de antígeno para o sistema imune e efetoras para a destruição do parasito. As células Thelper CD4+ têm uma função central no sistema imune, promovendo respostas adaptativas adequadas a patógenos específicos. De acordo com as linfocinas que produzem após estimulação antigênica, estas células podem ser separadas em duas sub-populações: T helper 1 (Th1) e T helper 2 (Th2). As células Th1 produzem IFN-γ e são associadas à proteção contra os patógenos intracelulares, como as Leishmanias, enquanto que as células Th2 produzem interleucina (IL)-4, IL-5 e IL-10 e estão envolvidas nos processos alérgicos e na proteção contra agentes extracelulares. No caso das infecções por microrganismos intracelulares, a ativação das células Th2 leva ao agravamento. Para o controle da infecção, é necessária a predominância da resposta imune celular com características de tipo 1, envolvendo linfócitos CD4 e CD8 e citocinas como IL-12, IFN-γ, fator de necrose tumoral-alfa (TNF-α), linfotoxina e algumas quimiocinas produzidas por macrófagos. Esta resposta tem como resultado a ativação de macrófagos, tornando-os capazes de eliminar o parasito, controlando a infecção. Dentro desta perspectiva, a diminuição do número de parasitos leva a uma redução do estímulo da resposta imune pelo menor aporte de antígenos. Com isto, a cicatrização inicia-se por meio do controle do processo inflamatório (morte de células efetoras não estimuladas), aumento da função de fibroblastos, com produção de fibrose e tecido de cicatrização. LEISHMANIOSE VISCERAL/CALAZAR Moléculas de superfície de leishmânias, como LPG, gp63 e glicoproteínas do glicocálice (GIPL), são as que primeiro estimulam a imunidade inata. Por parte do hospedeiro, o reconhecimento da agressão é feito por meio de toll-like receptors (TLR), presentes em células dendríticas, macrófagos, neutrófilos e linfócitos T e B. Células dendríticas são potentes apresentadoras de antígenos e ativam linfócitos T, que produzem IL-12, citocina crucial para a montagem de resposta protetora. A imunidade inata atua também por meio de células NK, que se associam a bom prognóstico na LV por produzirem IFN-γ. Esta é a citocina-chave no combate às leishmânias, porque ativa macrófagos a produzirem radicais livres de O2 e de NO, que matam os parasitos internalizados. A imunidade adaptativa é decisiva para a resolução da infecção. Mediada preferencialmente por linfócitos T, tem dois padrões de reação. A resposta do tipo Th1 é protetora por meio, sobretudo, da produção de IL-12 por células apresentadoras de antígeno e por macrófagos. Em consequência, há estimulação de linfócitos T CD4+ e sua diferenciação em células produtoras de IFN-γ. Ao mesmo tempo, há síntese de várias outras citocinas, como TNF, IL-1, IL-18, IL-23 e IL-17. A destruição das formas amastigotas de por macrófagos é feita especialmente por TNF, com interação CD40/CD40L. A resposta do tipo Th2 associa-se a suscetibilidade e exacerbação da doença. Tal resposta é mediada pela liberação de IL-4, que reduz a expressão de IFN-γ e a ativação de macrófagos. Há também produção de outras citocinas anti-inflamatórias (desativadoras), sobretudo IL-10, IL-13, TGF-β, e síntese de anticorpos, que não são capazes de destruir os parasitos e ainda medeiam suscetibilidade à infecção. As leishmânias dispõem de numerosas estratégias de evasão dos mecanismos de defesa do hospedeiro, como escape do sistema complemento, disfarce antigênico, alterações na produção de óxido nítrico e de citocinas, indução de apoptose de células do sistema imunitário e ativação policlonal de células linfoides. A sabotagem dos mecanismos de morte dos parasitos é feita por meio de manipulação sofisticada dos padrões de sinalização intracelular. COMPROMETIMENTO DE ÓRGÃOS E SISTEMAS As lesões morfológicas são semelhantes em diferentes regiões endêmicas do mundo, embora existam particularidades relacionadas com as características dos diferentes ecossistemas. Leishmaniose visceral é uma doença que se caracteriza primordialmente por comprometimento do sistema fagocitário mononuclear (SFM), no qual os parasitos permanecem, multiplicam-se e disseminam-se. Frente ao parasitismo, o SFM exibe hipertrofia e hiperplasia. O interstício dos diferentes órgãos participa também de maneira importante no processo com modificações de seus componentes celulares, fibrilares e da matriz extracelular, que se associam a infiltrado inflamatório e reatividade vascular. MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 6 Os sinais e sintomas mais exuberantes da doença plenamente manifesta relacionam-se justamente com o acometimento de órgãos ricos em SFM, como fígado, baço e medula óssea. LEISHMANIOSE CUTÂNEA/TEGUMENTAR Os principais mecanismos de defesa do organismo e as possíveis formas de aparecimento das lesões são: SISTEMA COMPLEMENTO Moléculas da superfície do parasito, como lipofosfatidilglicano (LPG), ativam o sistema complemento do hospedeiro, representando este o primeiro mecanismo de defesa contra a infecção, por causar lise parasitária. No entanto, parte das formas promastigotas inoculadas pelo flebótomo é resistente à lise pelo complemento. Fragmentos do complemento, como o C3b, contudo, ligam- se à leishmânia e funcionam como opsoninas, facilitando o englobamento do parasito por células fagocitárias. Assim, as promastigotas de leishmânia são fagocitadas por macrófagos recém-chegados à área de inoculação e por células de Langerhans da pele, por meio de um processo que envolve a interação de moléculas MAC-1 (CD11b/CD18) na superfície de macrófagos com C3b na superfície da leishmânia. NEUTRÓFILOS Neutrófilos atuam de várias formas na infecção por leishmânias. De um lado, fagocitam parasitos, sofrem apoptose e são internalizados por macrófagos. Além de levarem parasitos para o interior de macrófagos, tornam estes mais permissivos à infecção, por induzirem aumento de citocinas anti- inflamatórias, como IL-10 e TGF-β. FAGOCITOSE Fagocitose é um mecanismo comum e importante de defesa contra infecções por microrganismos. Ao englobarem os parasitos, os fagócitos produzem radicais livres de oxigênio e óxido nítrico, que são normalmente utilizados por células de mamíferos na eliminação de patógenos. No entanto, leishmânias conseguem sobreviver e proliferar no interior do vacúolo fagocitário de macrófagos por meio da produção de tipanotiois, que inibem a síntese de óxido nítrico e a defesa por mecanismos oxidativos. Dependendo do tipo de arginase expressa pelo hospedeiro, o fagócito sintetiza óxido nítrico, que é tóxico para leishmânia, ou L-ornitina, que favorece a sobrevida e a proliferação dos parasitos. Infecções com alta carga parasitária inibem vários sistemas de sinalização de macrófagos, o que resulta em resposta inadequada de citocinas protetoras e inativação de macrófagos frente ao patógeno. Dessa forma, além de escapar dos mecanismos celulares de defesa do hospedeiro, os parasitos no interior de macrófagos encontram-se protegidos da resposta imunitária humoral (anticorpos e complemento). Nessa infecção, a fagocitose, que é importante mecanismo de defesa, é transformada em um mecanismo de proteção para o parasito. CITOCINAS IL-12, IL-17 e IL-23 atuam nas fases iniciais da resposta do hospedeiro. IL-17 e IL-23 são importantes no recrutamento de neutrófilos e na sua ativação. Enquanto IL-12 atua favorecendo resposta linfocitária com produção de IFN-γ, resposta imunoinflamatória antiparasitária. Quando esses mecanismos atuam de modo desregulado, surgem lesões teciduais, às vezes desproporcionais à intensidade da infecção. Na maioria dos casos, a produção de IFN-γ por linfócitos ativa macrófagos. Macrófagos ativados produzem TNF, que, em sinergia com IFN-γ, induz a produção de radicais livres de oxigênio e óxido nítrico, que destroem os parasitos.RESPOSTA IMUNITÁRIA O perfil da resposta imunitária tem grande importância na evolução da infecção por leishmânias. Na leishmaniose visceral, a polarização da resposta imunitária celular parece mais clara do que na leishmaniose tegumentar. Nas pessoas que adoecem, a resposta imunitária pende para um nítido padrão Th2, com produção exacerbada de IL-4, IL-3, IL-5, IL-10 e TGF-β, associada a estimulação de linfócitos B e hiperprodução de anticorpos antileishmânia. Os indivíduos que, apesar de infectados, não desenvolvem doença ou dela se recuperam apresentam resposta celular do tipo Th1, com predomínio da produção de IL-2 e IFN-α. IMUNIDADE PROTETORA Tanto na leishmaniose tegumentar quanto na leishmaniose visceral, indivíduos que se recuperam da infecção ganham certa proteção contra reinfecção. Tal proteção, no entanto, não significa imunidade esterilizante, pois podem persistir alguns poucos parasitos. Indivíduos que se afastam de área endêmica podem, muitos anos depois e caso tenham alguma forma de imunodeficiência, apresentar outra vez manifestações de leishmaniose, mostrando que parasito e hospedeiro estabelecem uma relação de equilíbrio que pode ser rompido. Muito desse equilíbrio depende da manutenção de populações celulares e da produção adequada de citocinas. Distúrbios na produção de citocinas, que podem resultar de fatores do parasito (moléculas relacionadas com a invasão tecidual, evasão do sistema imunitário e indutores de lesão tecidual), do hospedeiro (desnutrição, imunodeficiência, constituição gênica) e do flebótomo (substâncias MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 7 vasoativas, imunossupressoras e imunogênicas), resultam no desenvolvimento de doença. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS LEISHMANIOSE VISCERAL/CALAZAR Febre intermitente com semanas de duração. Fraqueza. Perda de apetite. Emagrecimento. Anemia. Palidez. Aumento do baço e do fígado. Comprometimento da medula óssea. Problemas respiratórios. Diarreia. Sangramentos na boca e nos intestinos. PERÍODO INICIAL Esta fase da doença, também chamada de “aguda” por alguns autores, caracteriza o início da sintomatologia que pode variar de paciente para paciente, mas na maioria dos casos inclui febre com duração inferior a quatro semanas, palidez cutâneo-mucosa e hepatoesplenomegalia. O estado geral do paciente está preservado, o baço geralmente não ultrapassa a 5 cm do rebordo costal esquerdo. Vale destacar que durante o exame clínico, em crianças, a manobra estetoacústica é bastante útil para verificar a presença de hepatoesplenomegalia. PERÍODO DE ESTADO Caracteriza-se por febre irregular, geralmente associada a emagrecimento progressivo, palidez cutâneo-mucosa e aumento da hepatoesplenomegalia. Apresenta um quadro clínico arrastado geralmente com mais de dois meses de evolução, na maioria das vezes associado a comprometimento do estado geral. PERÍODO FINAL Caso não seja feito o diagnóstico e tratamento, a doença evolui progressivamente para o período final, com febre contínua e comprometimento mais intenso do estado geral. Instala-se a desnutrição (cabelos quebradiços, cílios alongados e pele seca), edema dos membros inferiores que pode evoluir para anasarca. Outras manifestações importantes incluem hemorragias (epistaxe, gengivorragia e petéquias), icterícia e ascite. Nestes pacientes, o óbito geralmente é determinado por infecções bacterianas e/ou sangramentos. LEISHMANIOSE CUTÂNEA/TEGUMENTAR As manifestações clínicas da LTA têm caráter espectral e dependem da espécie do parasito e da resposta imunitária do hospedeiro. Em indivíduos capazes de montar resposta efetora mediada por linfócitos T, considerado o polo responsivo (reativo, hiperérgico), a doença manifesta-se como leishmaniose cutânea (LC) ou leishmaniose mucocutânea (LMC). Em pacientes incapazes de montar resposta imunitária celular (anergia) do tipo Th1, que induz a síntese de IFN-γ, infecção por L. amazonensis resulta na leishmaniose cutânea difusa (LCD). Esses dois polos da doença, hiperérgico e anérgico, diferem nos aspectos clínicos, histopatológicos e de resposta terapêutica. O espectro da LTA é, de certa forma, semelhante ao descrito na hanseníase e, como nesta, as lesões correlacionam-se com a resposta imunitária. Duas a três semanas após a picada pelo flebótomo aparece uma pequena pápula (elevação da pele) avermelhada, que vai aumentando de tamanho até formar uma ferida recoberta por crosta ou secreção purulenta, bordas avermelhadas, que demoram para cicatrizar. MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 8 A doença também pode se manifestar como lesões inflamatórias nas mucosas do nariz ou da boca. Outra forma da doença é a mucocutânea, em geral transmitida pelo Leishmania braziliensis. A ferida primária tem as mesmas características da cutânea simples. A diferença é que, ao mesmo tempo, ou meses depois, surgem metástases nas mucosas da nasofaringe que destroem a cartilagem do nariz e do palato provocando deformações graves. A presença de nódulos espalhados pelo corpo, sobretudo nos membros, é a principal característica da leishmaniose cutânea difusa. Já na leishmaniose disseminada, o paciente apresenta inúmeras lesões ulceradas espalhadas por todo o corpo, que surgem de repente e podem vir acompanhadas de febre, calafrios e mal-estar. OBJETIVO 2: ENTENDER AS ESTRATÉGIAS DIAGNÓSTICAS DA LEISHMANIOSE. LEISHMANIOSE VISCERAL/CALAZAR O diagnóstico clínico da leishmaniose visceral deve ser suspeitado quando o paciente apresentar: febre e esplenomegalia associado ou não à hepatomegalia. Do ponto de vista didático e considerando a evolução clínica da leishmaniose visceral, optou-se em dividi-la em períodos: período inicial, período de estado e período final. O Anexo 3 apresenta um quadro comparativo da evolução clínica da leishmaniose visceral. DIAGNÓSTICO IMUNOLÓGICO O exame imunológico mais utilizado no Brasil é a imunofluorescência indireta (RIFI) e os ensaios imunoenzimáticos. O resultado da imunofluorescência indireta é normalmente expresso em diluições. Aceita-se como positivas diluições a partir de 1:80. Nos títulos iguais a 1:40, recomenda-se a solicitação de uma nova amostra em 30 dias. O teste ELISA tem o seu resultado expresso em unidades de absorvância a um raio de luz, em uma reação com diluições fixas ou mais comumente, apenas como reagente ou não. Na presença de dados clínicos e laboratoriais, um teste sorológico reagente, reforça o diagnóstico de leishmaniose visceral. Entretanto, um teste reagente, na ausência de manifestações clínicas sugestivas de leishmaniose visceral, não autoriza o início do tratamento. A intradermorreação de Montenegro, ou teste de leishmanina, ao contrário do que ocorre na leishmaniose MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 9 tegumentar, é sempre negativo durante o período de estado da doença, não sendo assim, utilizado para o diagnóstico. Ele torna-se positivo após a cura clínica na maioria dos pacientes em um período de seis meses a três anos após o término do tratamento. DIAGNÓSTICO PARASITOLÓGICO A punção aspirativa esplênica é o método que oferece maior sensibilidade (90-95%) para demonstração do parasita (porém apresenta restrições quanto ao procedimento), seguida pelo o aspirado de medula óssea, biópsia hepática e a aspiração de linfonodos. Por ser um procedimento mais seguro, recomenda-se a punção aspirativa da medula óssea. O material aspirado deverá ser examinado segundo a sequência seguinte. EXAME DIRETO Uma gota do material aspirado é colocada em uma das extremidades da lâmina previamente limpa, e o material firmemente dispersado na outra direção. Após secagem, o esfregaço deverá ser fixadoem álcool metílico e corado. Recomenda-se pelo menos quatro lâminas. Formas amastigotas do parasita podem ser visualizadas pelas colorações de Giemsa ou Wright, Leishman, Panóptico. O encontro de parasitas no material examinado depende do número de campos observados (200 campos devem ser examinados antes de se considerar uma lâmina como negativa). ISOLAMENTO EM MEIO DE CULTURA (IN VITRO) Formas amastigotas do parasita, inoculadas em meios de cultura especiais, contendo agar e sangue de coelho, transformam-se em formas promastigotas. O clássico meio de NNN é o mais comumente empregado. A utilização de meio líquido sobre o NNN, como o meio LIT ou de Schneider, aumenta e acelera a positividade da cultura. Uma gota do material aspirado deve ser diluído em 0,5 ml de solução salina (PBS ou NaCl a 0,9%) na própria seringa. Em seguida, 0,1 ml desta solução deve ser inoculada em condições estéreis, em dois tubos de cultivo. As culturas devem ser mantidas entre 24-26°C e observadas em microscopia óptica comum ou invertida, semanalmente, até quatro semanas. Os tubos positivos devem ser encaminhados para laboratórios de referência para identificação da espécie. ISOLAMENTO EM ANIMAIS SUSCEPTÍVEIS (IN VIVO) A inoculação experimental em hamsters (Mesocricetus spp), de amostras de tecidos de pacientes com suspeita de leishmaniose visceral, não tem valor prático no diagnóstico da doença devido ao seu tempo de positividade (1 a 3 meses). MÉTODOS DE DIAGNÓSTICOS O método do PCR (amplificação do DNA do parasita) constitui-se em uma nova perspectiva para o diagnóstico da LV, pois apresenta 94% de sensibilidade. Entretanto, os 26 seus resultados dependem de algumas variáveis envolvidas, entre elas temos: área endêmica; o tipo de amostra; o alvo do DNA utilizado para amplificação; o método de extração do DNA, etc. Os exames sorológicos, Imunofluorescência Indireta (IFI) e Ensaio Imunoenzimático (ELISA) são invariavelmente reativos e a Intradermorreação de Montenegro (IDRM) negativa. O aspirado de medula óssea e do baço geralmente mostram presença de formas amastigotas do parasita. Na forma oligossintomática, a punção aspirativa de medula óssea pode ou não mostrar a presença da Leishmania, não sendo, a princípio, indicada a sua realização; a IDRM pode estar positiva e a sorologia é, invariavelmente, reagente. Os títulos de anticorpos específicos anti- Leishmania são elevados e a intradermorreação de Montenegro é negativa. Neste período evolutivo da doença, as formas amastigotas do parasita são demonstráveis em esfregaço de aspirado de medula óssea, baço, fígado e linfonodos. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL COMPLEMENTAR Os exames complementares evidenciam anemia, trombocitopenia, leucopenia com predominância acentuada de células linfomonocitárias e inversão da relação albumina/ globulina. As alterações bioquímicas podem estar presentes e incluem elevação dos níveis das aminotransferases (duas a três vezes os valores normais), das bilirrubinas e aumento discreto dos níveis de ureia e creatinina. LEISHMANIOSE CUTÂNEA/TEGUMENTAR Na ocorrência de lesões sugestivas de leishmaniose, o diagnóstico presuntivo pode ser baseado em critérios clínicos e epidemiológicos. Entretanto, o diagnóstico clínico-epidemiológico deve ser complementado por pesquisa direta ou IDRM e, eventualmente, pela prova terapêutica. A utilização de métodos de diagnóstico laboratorial visa não somente à confirmação dos achados clínicos, mas pode fornecer importantes informações epidemiológicas, como a identificação da espécie de Leishmania circulante, para orientar quanto às medidas a serem adotadas para o controle do agravo. O diagnóstico de certeza de um processo infeccioso é feito pelo encontro do parasito, ou de seus produtos, nos tecidos ou fluidos biológicos dos hospedeiros. Portanto, recomenda-se a confirmação do diagnóstico por método parasitológico antes do início do tratamento, especialmente naqueles casos com evolução clínica fora do habitual e/ou má resposta ao tratamento anterior. Nesses casos, também está indicado investigar coinfecção pelo HIV. MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 10 A sensibilidade de cada método de diagnóstico pode variar de acordo com a experiência de cada serviço, a qualidade do equipamento e dos insumos utilizados, o tempo de evolução das lesões, as formas clínicas e as diferentes espécies de Leishmania envolvidas. O diagnóstico laboratorial da leishmaniose constitui-se fundamentalmente de quatro grupos de exames: EXAMES IMUNOLÓGICOS TESTE INTRADÉRMICO (INTRADERMOREAÇÃO DE MONTENEGRO OU DA LEISHMANIA) Fundamenta-se na resposta de hipersensibilidade celular retardada, podendo ser negativa nas primeiras quatro a seis semanas após o surgimento da lesão cutânea. Após esse período, a IDRM costuma ser positiva em mais de 90% dos pacientes. Uma IDRM negativa em pacientes com lesões com mais de seis semanas de evolução indica a necessidade de outras provas diagnósticas para LT e diagnóstico diferencial. Pacientes com LM costumam apresentar IDRM exacerbada, com vários centímetros de induração e presença de vesiculação no centro da reação, podendo ocorrer ulceração e necrose local. Na leishmaniose cutânea difusa, a IDRM costuma ser negativa. A repetição da IDRM com poucas semanas de intervalo, com finalidade de diagnóstico ou inquéritos epidemiológicos, pode induzir um “efeito reforço”. Nessas situações, os resultados devem ser interpretados com cuidado. Após a cura clínica (espontânea ou por tratamento), a IDRM pode permanecer positiva durante vários anos, sendo de limitado valor para o diagnóstico de eventual reativação da LT nesses pacientes. Alternativamente, a IDRM pode negativar, principalmente, nos indivíduos fraco-reatores e nos oportunamente tratados. Em áreas endêmicas, a IDRM positiva pode ser interpretada como leishmaniose anterior ou mesmo aplicação anterior de antígeno de IDRM, exposição ao parasito sem doença (infecção), alergia ao diluente do teste ou reação cruzada com outras doenças (doença de Chagas, esporotricose, hanseníase virchowiana, tuberculose, cromomicose, entre outras). Nas populações de área endêmica, na ausência de lesão ativa ou cicatriz, a positividade varia entre 20% e 30%. EXAMES PARASITOLÓGICOS A demonstração do parasito é feita por meio de exames direto e indireto. DEMONSTRAÇÃO DIRETA DO PARASITO É o procedimento de primeira escolha por ser mais rápido, de menor custo e de fácil execução. A probabilidade de encontro do parasito é inversamente proporcional ao tempo de evolução da lesão cutânea, sendo rara após um ano. A infecção secundária contribui para diminuir a sensibilidade do método; dessa forma, deve ser tratada previamente. Para a pesquisa direta, são utilizados os seguintes procedimentos: escarificação do bordo da lesão, biópsia com impressão do fragmento cutâneo em lâmina por aposição e punção aspirativa. A sensibilidade desta técnica poderá ser aumentada pela repetição do exame e a leitura de várias lâminas. ISOLAMENTO EM CULTIVO IN VITRO (MEIOS DE CULTIVO) É um método de confirmação da presença do agente etiológico que permite a posterior identificação da espécie de Leishmania envolvida. Os fragmentos cutâneos ou de mucosa obtidos por biópsia da borda da úlcera são inoculados em meios de cultivo agar sangue modificado – Neal, Novy e Nicolle (NNN) e Liver Infusion Triptose (LIT), entre 24ºC e 26ºC, nos quais o parasito cresce relativamente bem. Após o quinto dia, já podem ser encontradas formas promastigotas do parasito. Entretanto, a cultura deve ser mantida até um mês sob observação antes da liberação do resultado negativo. Opcionalmente, pode-se utilizar material obtido diretamente das úlceras por punção comtubo selado a vácuo (vacutainer®) contendo meio de cultura. ISOLAMENTO IN VIVO (INOCULAÇÕES ANIMAIS) O material obtido por biópsia ou raspado de lesão é triturado em solução salina estéril e inoculado via intradérmica, no focinho e/ou patas de hamster (Mesocricetus auratus); as lesões no hamster em geral desenvolvem-se tardiamente, a partir de um mês. Esses animais devem ser acompanhados por três a seis meses. Pela complexidade e pelo alto custo, esse método é pouco utilizado, apesar de apresentar elevada sensibilidade entre os demais métodos parasitológicos. REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE (PCR) A PCR é um método utilizado no diagnóstico das leishmanioses que se baseia na amplificação do DNA do parasito em diferentes tipos de amostras, tais como pele e mucosa. É um método considerado de alta sensibilidade e especificidade e utiliza diversos alvos moleculares, sendo alguns gênero-específicos e outros espécie-específicos. Uma das principais vantagens do uso da PCR é a possibilidade de detecção de DNA do parasito mesmo quando há baixa carga parasitária. As desvantagens das técnicas moleculares são relacionadas ao seu custo elevado, à necessidade de infraestrutura laboratorial especializada e ao risco de contaminação durante a realização dos exames. MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 11 As técnicas estão disponíveis atualmente em laboratórios de instituições de pesquisa e, se houver indicação para a sua realização, o laboratório de referência mais próximo deve ser consultado. EXAMES HISTOPATOLÓGICOS O quadro histopatológico típico da LT é uma dermatite granulomatosa difusa ulcerada. Os granulomas vistos na maioria dos casos são classificados como “tuberculoides”, com infiltrado inflamatório linfoplasmocitário associado e, ocasionalmente, necrose. Entretanto, granulomas malformados, constituídos de agregados mal delimitados de macrófagos ativados, chamados de “clareiras de Montenegro”, também são considerados característicos. Quando há representação da borda da úlcera, nota-se hiperplasia de epitélio escamoso da epiderme ou de anexos cutâneos. Do mesmo modo que o quadro clínico, os achados do exame microscópico podem apresentar alguma variabilidade, supostamente relacionada a fatores como o tempo de evolução e o aspecto macroscópico (clínico) da lesão, a amostra tecidual e o status imunológico do paciente, entre outros. Outras doenças não infecciosas que podem se assemelhar clinicamente à LT, como neoplasias, doenças inflamatórias e doenças vasculares, apresentam achados histopatológicos distintos. Nesses casos, o aspecto histopatológico pode ser suficiente para descartar LT e para estabelecer o diagnóstico definitivo. No caso de outras doenças infecciosas, cujo aspecto histopatológico também seja de dermatite granulomatosa difusa, como micoses, tuberculose e outras micobacterioses, a visualização do agente etiológico no próprio exame histopatológico (com o emprego de técnicas histoquímicas especiais de demonstração de microrganismos), por imunohistoquímica, por cultura ou outro método microbiológico, permite alcançar o diagnóstico de certeza. O diagnóstico da LT deve ser orientado pelos fluxogramas descritos a seguir: CASO SUSPEITO DE LT CUTÂNEA: indivíduo com presença de lesões de pele ulceradas ou não com 3 semanas ou mais de evolução em paciente residente ou exposto à área de transmissão. CASO SUSPEITO DE LT MUCOSA: indivíduo com presença de lesão de mucosa de vias aéreas superiores, principalmente nasal, em paciente residente ou exposto à área de transmissão. OBJETIVO 3: DIFERENCIAR AS LEISHMANIOSES TEGUMENTAR E VISCERAL. A leishmaniose tegumentar caracteriza-se por feridas na pele que se localizam com maior frequência nas partes descobertas do corpo. Tardiamente, podem surgir feridas nas mucosas do nariz, da boca e da garganta. Essa forma de leishmaniose é conhecida como “ferida brava”. É uma doença polimorfa da pele e das mucosas, caracterizada pela presença de lesões ulcerativas. A leishmaniose visceral é uma doença sistêmica, pois, acomete vários órgãos internos, principalmente o fígado, o baço e a medula óssea. Esse tipo de leishmaniose acomete essencialmente crianças de até dez anos; após esta idade se torna menos frequente. É uma doença de evolução longa, podendo durar alguns meses ou até ultrapassar o período de um ano. É uma doença generalizada de evolução crônica, que atinge as vísceras: baço, fígado, medula óssea, entre outras. MONICK LEBRÃO- MED XIV (FASAVIC) 12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Filho, Geraldo B. Bogliolo - Patologia. Disponível em: Minha Biblioteca, (10th edição). Grupo GEN, 2021. Murray, Patrick. Microbiologia Médica. Disponível em: Minha Biblioteca, (8th edição). Grupo GEN, 2017. Siqueira-Batista, Rodrigo. Parasitologia - Fundamentos e Prática Clínica. Disponível em: Minha Biblioteca, Grupo GEN, 2020. FORMA CLÍNICA DISTRIBUIÇÃO PARASITOS CARACTERÍSTICAS SOROLOGIA REAÇÃO DE MONTENEGRO ISOLAMENTO DO PARASITO CUTÂNEA LOCALIZADA (LCL) Novo Mundo: do sul dos EUA ao norte da Argentina e Velho Mundo L. amazonensis, L. braziliensis, L. guyanensis, L. lainsoni, L. mexicana (L. pifanoi), L. naiffi, L. panamensis, L. peruviana, L. shawi, L. venezuelensis; L. aethiopica, L. donovani, L. infantum, L. killicki, L. major, L. tropica. Úlceras solitárias ou múltiplas com infiltrado inflamatório crônico pleomórfico, poucos parasitos, podendo haver granulomas. Fraca a moderada intensidade. Usualmente positiva, pode ser negativa nos primeiros meses da doença. Inconstante. Punção de linfonodo- satélite (fases iniciais) e inoculação em animal (lesões mais antigas) são recomendáveis. MUCOCUTÂNEA (LMC) Novo Mundo e Velho Mundo L. amazonensis, L. braziliensis, L. panamensis, L. guyanensis, L. mexicana; L. major. Úlceras na região nasal, podendo atingir o palato, com infiltrado inflamatório pleomórfico e raros parasitos, podendo haver granulomas. Fraca a moderada intensidade. Frequentemente positiva. Raro. Inoculação em animais é recomendável. CUTÂNEA DIFUSA (LCD) Novo Mundo e Velho Mundo L. amazonensis, L. mexicana. L. aethiopica, L. major. Nódulos disseminados na pele, constituídos por infiltrado inflamatório monomórfico de macrófagos com vacúolos grandes contendo muitos parasitos. Forte. Usualmente negativa, pode tornar-se positiva com a remissão. Frequente. VISCERAL (LV) Novo Mundo e Velho Mundo L. infantum, L. amazonenses. L. infantum, L. donovani. Hepatoesplenomegalia, infiltrado inflamatório com quantidade variável de macrófagos contendo amastigotas, no baço, fígado, linfonodos, medula óssea e pulmões. Uma forma cutânea pós- calazar é vista em infecções com L. donovani. Forte. Usualmente negativa, torna- se positiva com a cura. Frequente.