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FACULDADE SANTA MARCELINA
UNIDADE ITAQUERA
BACHARELADO EM ENFERMAGEM
BIOÉTICA E O PROCESSO DE JUDICIALIZAÇÃO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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integrantes
ANDREA DE FREITAS DA SILVA
ELIANA SOUSA ALMEIDA DA SILVA
FATIMA APARECIDA COUTINHO DA SILVA
INGRID WELTREN DO NASCIMENTO NOGUEIRA
VALDIRENE VIEIRA MEDEIROS
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INTRODUÇÃO
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	A bioética se destaca como uma área fundamental na sociedade contemporânea, abordando a interseção entre os avanços científicos, as práticas médicas e os valores humanos. Com o rápido desenvolvimento de inovações tecnológicas e biomédicas, a bioética se torna uma ferramenta indispensável para orientar as decisões médicas, assegurando que respeitem a dignidade, a autonomia e os direitos dos pacientes.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	Nesse contexto, a judicialização da saúde no Brasil apresenta um desafio significativo. Esse fenômeno reflete a busca por justiça e acesso a tratamentos por meio do sistema judiciário, evidenciando as lacunas na prestação de serviços de saúde e a complexidade do direito à saúde, que é reconhecido como um direito humano fundamental. O envolvimento do Judiciário nas questões de saúde levanta questões éticas e legais que exigem uma análise cuidadosa, pois as decisões judiciais podem impactar tanto a autonomia médica quanto a responsabilidade do Estado em garantir os serviços de saúde necessários.
	Assim, a bioética torna-se um pilar essencial para a prática da enfermagem e a gestão da saúde, promovendo um debate crítico sobre os direitos e deveres envolvidos nas decisões clínicas, especialmente em um ambiente onde a judicialização pode criar tensões entre a legislação, a ética e as necessidades dos pacientes. A reflexão ética é indispensável para a construção de um sistema de saúde mais justo e equitativo, capaz de responder adequadamente às demandas da população.
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BIOÉTICA
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	A ética, campo que examina o comportamento humano com base em princípios morais, remonta à antiguidade. Filósofos gregos como Sócrates, Platão e Aristóteles foram pioneiros na exploração de questões éticas, discutindo o que seria virtuoso e moralmente aceitável. Ao longo dos séculos, diferentes culturas e tradições religiosas ajudaram a moldar uma diversidade de sistemas éticos (SILVA, 2024).
	Na saúde, a ética avançou a partir do juramento hipocrático e de códigos de conduta específicos para a prática médica. Com o crescimento e a complexidade da sociedade moderna, tornou-se essencial desenvolver abordagens éticas adaptadas a diversas áreas, especialmente na saúde (MIZIARA, 2018).
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	A bioética surgiu em resposta às novas questões éticas trazidas pela era moderna, marcada por avanços rápidos na biomedicina e na tecnologia. O termo, criado pelo biólogo Van Rensselaer Potter nos anos 1970, ressalta a relação entre biologia, medicina e ética (PESSIN, 2013).
	Essa área busca analisar as consequências morais das inovações científicas e tecnológicas, promovendo uma reflexão ética sobre temas como pesquisas genéticas, transplantes de órgãos, reprodução assistida e outros progressos na medicina. Com o crescimento acelerado do conhecimento científico, a bioética convida a sociedade a reavaliar os valores e princípios que orientam as práticas médicas e as decisões sobre vida e saúde (GOES, 2023).
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	A bioética exerce um papel fundamental na prática da enfermagem, oferecendo uma estrutura ética que auxilia os profissionais a enfrentar questões complexas relacionadas à saúde e ao cuidado. Com os constantes avanços da tecnologia médica, surgem dilemas éticos que muitas vezes entram em conflito com os princípios do cuidado centrado no paciente, como a tomada de decisões no final da vida, o consentimento informado, a justiça distributiva e a privacidade do paciente. Esses desafios ressaltam a importância da bioética na orientação das ações dos enfermeiros (DUSILEK, s.d).
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	A bioética fornece diretrizes e princípios que auxiliam os profissionais de enfermagem a equilibrar as considerações éticas enquanto oferecem cuidados de qualidade. Ela promove a autonomia do paciente, assegura a justiça na distribuição dos recursos de saúde e incentiva a reflexão contínua sobre os dilemas éticos enfrentados na prática clínica.
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	A aplicação da bioética na enfermagem não só garante que os profissionais estejam atentos às questões éticas que surgem, mas também fortalece a confiança entre a equipe de saúde, os pacientes e suas famílias. Ao integrar os princípios bioéticos em suas decisões cotidianas, os enfermeiros reafirmam seu compromisso ético com a integridade, o respeito e a dignidade do paciente. Essa abordagem ética é fundamental para construir relacionamentos sólidos e promover um ambiente de cuidado mais colaborativo e eficaz.
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Desafios éticos, morais e legaise a judicialização da saúde no Brasil
	Em poucas décadas, os cientistas conseguiram decifrar a base química do código genético, estabelecendo os fundamentos da Biologia Molecular e da Engenharia Genética. Hoje, a humanidade possui a capacidade de modificar informações genéticas para diversos fins práticos, inclusive interferindo em sua própria natureza como espécie. Esse aspecto é, sem dúvida, um dos mais inquietantes do ponto de vista da Bioética.
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	A Bioética precisa valorizar os benefícios trazidos pelos avanços científicos, enquanto se mantém vigilante em relação aos riscos e perigos associados a essas inovações. Embora esses progressos possam oferecer novas e promissoras maneiras de erradicar doenças que afligem a humanidade há muito tempo, eles também suscitam preocupações legítimas. Essas preocupações incluem os efeitos indesejados e o uso indevido da manipulação genética, o ressurgimento de doutrinas eugenéticas — agora com um arsenal de ferramentas sofisticadas à disposição — e a realização de experimentos genéticos em populações vulneráveis (LUGARINHO, 2004).
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	A comunidade científica expressa perplexidade e rejeição em relação à manipulação de células germinais realizada pela equipe de pesquisadores liderada. Essa ação ocorreu apesar da moratória estabelecida pela Sociedade Internacional de Pesquisa de Células-Mãe (ISSCR) para tentativas de edição genética em embriões humanos (LIANG, 2015).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	Os defensores da modificação genética argumentam que essa técnica poderia possibilitar a eliminação de doenças como Beta Talassemia, Síndrome de Down, Doença de Parkinson, entre outras, antes mesmo do nascimento da pessoa. Por outro lado, os críticos alertam que a destruição de uma enfermidade antes do desenvolvimento da vida pode acarretar consequências genéticas inesperadas, possivelmente até mais graves do que as condições atuais. Além disso, ressaltam que a técnica ainda não apresenta segurança comprovada e levanta questões éticas significativas (NATURE, 2015).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	O surgimento da Bioética está intimamente ligado ao clamor coletivo gerado pelos horrores da Segunda Guerra Mundial, culminando na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. A Bioética tem como objetivo central o princípio humanista que valoriza a primazia do ser humano, defendendo sua dignidade e liberdade, elementos essenciais que decorrem do simples fato de pertencer à espécie humana. Isso se torna ainda mais relevante em um contexto em constante transformação e evolução nas ciências da vida (LUGARINHO, 2004).
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	Além de sua importância fundamental, a Bioética se destaca por sua natureza multidisciplinar e interdisciplinar. Para enfrentar os novos desafios científicos que se apresentam — desafios para os quais a ética tradicional se mostra insuficiente — busca-se estabelecer um diálogo entre as Ciências Naturais e Sociais. Cada área, com suas metodologias e perspectivas próprias, é convocada a colaborar,promovendo a integração do conhecimento que abrange campos como medicina, filosofia, biologia, sociologia, antropologia e direito (LUGARINHO, 2004).
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	A Bioética despertou uma consciência global que está contribuindo para a concretização dos ideais de justiça mundial, por meio das iniciativas dos Comitês de Ética nacionais e dos Comitês de Bioética hospitalares, além de sua influência no ensino e na pesquisa. É importante destacar que, com poucas exceções, as escolas médicas começaram a integrar a Bioética em seus currículos, evidenciando seu papel fundamental na prática médica (OMS, 2013).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	Nesse contexto, códigos, normas e protocolos relacionados à Bioética foram adotados em diversas instituições, sendo reconhecidos pela UNESCO como essenciais para a criação de um espaço para reflexões e debates, como o Comitê Internacional de Bioética.
	Conforme aponta Bobbio (1992), a questão central em relação aos direitos não reside tanto em sua justificativa, mas sim em sua proteção. Embora reconheça a crise nos fundamentos filosóficos desses direitos, ele enfatiza que nossa tarefa atual, embora modesta, é também mais desafiadora. Isso envolve a busca por diferentes fundamentos em cada situação concreta. Esse processo deve ser acompanhado por uma análise das condições, meios e contextos nos quais cada direito pode ser efetivamente exercido, sem dissociar a questão dos fins da questão dos meios. 
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	O direito à saúde é formalmente reconhecido como um direito humano fundamental, essencial para a preservação da vida e da dignidade humana. Nesse sentido, existe um amplo consenso entre as legislações internacionais e nacionais e a moralidade comum sobre a importância desse direito. Assim, acredita-se que o respeito e a proteção ao direito à vida e à saúde deveriam ser obrigações morais e legais de fácil cumprimento. 
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	No entanto, como observa Bobbio (1992), essa tarefa é extremamente complexa, pois a aparente unanimidade em relação aos direitos humanos pode levar à falsa impressão de que esses direitos possuem um valor absoluto, o que não é verdade. A natureza genérica, abrangente e heterogênea dos direitos à saúde possibilita uma relativização que gera dificuldades teóricas e práticas em sua efetivação. 
	Essas dificuldades se manifestam em várias dimensões—filosófica, política, jurídica, social, econômica, cultural e técnico-científica. A falta de articulação entre esses elementos e a dificuldade em estabelecer acordos sobre o conteúdo e os métodos de garantia dos direitos resultam em um abismo entre o que está previsto nas leis e o que é vivenciado na prática por milhões de pessoas em todo o mundo.
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	A elevada intensidade da demanda judicial no setor da saúde evidencia a busca pela efetividade desse direito, particularmente no que diz respeito ao acesso aos recursos necessários para sua realização. No contexto brasileiro, o Estado assume a responsabilidade central, acumulando deveres legais tanto na proteção da saúde em níveis individual e coletivo quanto na provisão dos meios para garantir o cuidado a todos os cidadãos (VENTURA et al., 2010).
	Os estudos sobre a judicialização da saúde no Brasil evidenciam diversas deficiências e limitações tanto do sistema de saúde quanto do sistema judicial em atender adequadamente suas responsabilidades sanitárias. Pesquisas empíricas indicam que a principal demanda judicial no setor saúde se concentra em pedidos—individuais e coletivos—de medicamentos. 
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	Esses pedidos judiciais são frequentemente respaldados por prescrições médicas e pela alegada urgência em obter um determinado insumo, realizar um exame diagnóstico ou um procedimento que seja considerado capaz de resolver uma necessidade ou um problema de saúde. A opção pela via judicial pode resultar da pressão para a inclusão do medicamento ou procedimento no Sistema Único de Saúde (SUS) ou da falta ou insuficiência dos serviços prestados pelo Estado (TRAVASSOS; MARTINS, 2004).
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	Nessa última circunstância, a judicialização da saúde reflete problemas de acesso à saúde em sua acepção mais ampla, sendo uma dimensão do desempenho dos sistemas de saúde relacionada à oferta de serviços. Assim, esse fenômeno pode ser visto como um recurso legítimo para reduzir o abismo entre o direito formalmente estabelecido e o direito efetivamente vivenciado.
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	Essa postura do Judiciário tem gerado uma intensa tensão e debate sobre a legitimidade e a competência técnica ou legal do poder judicial em decidir sobre o conteúdo e a forma como a prestação estatal deve ser realizada pelo Executivo da Saúde. Inicialmente, essa deliberação é responsabilidade dos Poderes Executivos, em conjunto com as instâncias deliberativas da gestão administrativa do SUS, levando em consideração as implicações orçamentárias e técnicas que envolvem a incorporação de tecnologias—especialmente as novas tecnologias—na assistência à saúde, tanto individual quanto coletiva (VENTURA et al., 2010).
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	A resposta judicial, de maneira geral, tem se restringido a determinar que os gestores de saúde cumpram as solicitações feitas pelos requerentes, apoiadas em prescrições médicas individuais. No entanto, nem sempre o insumo ou procedimento solicitado está alinhado com os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) estabelecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ou faz parte das listas de medicamentos financiados pelo sistema público (SANT'ANA, 2009).
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	Há um consenso relativo sobre a possibilidade de exigir judicialmente que o administrador implemente ou adeque políticas públicas conforme as diretrizes, princípios e conteúdos previstos na Constituição Federal e em leis infraconstitucionais. No entanto, persistem dúvidas e divergências quanto à forma específica como o Estado deve cumprir essas obrigações genéricas, bem como aos limites e meios legais e éticos para exigir seu cumprimento, caso as normas não sejam atendidas.
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	Essa demanda judicial evidencia uma tensão no sistema de assistência à saúde, especialmente entre a autonomia do médico em sua prescrição ao paciente — incluindo médicos do sistema público de saúde — e os regulamentos, normas sanitárias e Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDTs). No ordenamento jurídico brasileiro, o médico é pessoalmente responsável por eventuais danos ou “perda de chance de cura” causados ao paciente (ROSÁRIO, 2008).
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	O ente público também pode ser responsabilizado, mas as responsabilidades individuais e institucionais possuem distinções legais e éticas. A responsabilidade dos profissionais de saúde é subjetiva, exigindo que o reclamante comprove que o profissional não seguiu boas práticas, cometendo erro, imperícia ou negligência que resultou em dano. Por outro lado, a responsabilidade do Estado é objetiva, e o reclamante precisa apenas demonstrar o nexo causal entre a ação ou omissão do ente público e o dano sofrido. Cabe ao Estado, para eximir-se de culpa, comprovar que o dano não poderia ter sido evitado ou reduzido.
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A bioética e a judicialização
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	O direito à saúde está assegurado pela Constituição Federal de 1988. O art. 6º define a saúde como um direito social, enquanto o art. 196 estabelece que esse direito será garantido por meio de políticas sociais e econômicas implementadas pelo Estado. Essas políticas públicas buscam organizar a prestação coletiva de serviços de saúde, atendendo às principais necessidades da população e promovendo a justiça distributiva (VENTURA et al., 2010).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	O Poder Judiciário, ao atuar sob a perspectiva da justiça comutativa — ou micro-justiça do caso concreto, como Amaral (2001) define —, enfrenta o desafio de incorporar as políticas públicas de saúde em suas decisões. Isso é fundamental para que a jurisprudência avance na compatibilização entre a justiçacomutativa, em cada processo individual, e a justiça distributiva, representada pelas decisões coletivas e normativas que orientam a política de assistência à saúde, emanadas dos Poderes Legislativo e Executivo.
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	Vieira e Zucchi (2007) destacam o crescimento exponencial de ações judiciais individuais que exigem do Estado a provisão de serviços e medicamentos. Campilongo (2002), fundamentado na Teoria dos Sistemas de Niklas Luhmann, explica que ocorre uma "judicialização" da política quando o Poder Judiciário, principal entidade do sistema jurídico, ultrapassa seus limites institucionais, utilizando mecanismos próprios do sistema político, função que ele não está estruturado para cumprir. 
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	Assim, o Judiciário passa a desempenhar um papel que cabe exclusivamente ao sistema político: a tomada de decisões coletivamente vinculantes, o que resulta na sobreposição das decisões judiciais ao marco normativo definido politicamente.
	Conforme Messeder et al. (2005), esses estudos, que analisam casos em nível regional, não permitem conclusões de validade nacional, uma vez que são limitados a contextos específicos. Além disso, não há dados precisos sobre a representatividade dos grupos envolvidos nesses processos judiciais, especialmente quanto ao apoio de associações. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	A influência de tais associações, financiadas por indústrias farmacêuticas interessadas na comercialização de determinados medicamentos, levanta preocupações sobre uma possível manipulação das demandas judiciais em favor desses interesses.
	Em uma perspectiva ampla e contemporânea, entende-se que a saúde é principalmente uma questão de cidadania e justiça social, transcendendo o conceito de estado biológico isolado do contexto social e individual. Principais documentos nacionais e internacionais definem a saúde como um estado completo de bem-estar, não limitado à ausência de doenças, mas também influenciado pelas condições de vida e trabalho dos indivíduos, pela situação socioeconômica, política e cultural de cada país, além de aspectos legais e institucionais relacionados à organização dos sistemas de saúde e valores individuais e coletivos sobre o que significa viver bem (CAMARGO JÚNIOR, 2007).
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	Essa definição abrangente e positiva de saúde responde às críticas dirigidas às abordagens unicamente curativas nas práticas e políticas de saúde, que frequentemente se concentram no uso de tecnologias para diagnóstico e limitam o tratamento à prescrição medicamentosa. Além disso, evita a naturalização e a criação de necessidades de saúde que acabam por se converter em demandas de saúde, promovendo uma visão mais holística e equitativa do bem-estar humano.
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	O principal problema dessa visão reducionista é o processo de reificação da doença, em que o foco médico se desloca do indivíduo doente para a doença-coisa – uma entidade naturalizada que reduz as demandas de saúde a meros bens de consumo integrados ao processo (CAMARGO JÚNIOR, 2007). Dessa forma, o acesso às tecnologias de saúde passa a ser considerado o meio principal, ou até único, para que o indivíduo alcance o bem-estar associado à saúde.
	Uma estratégia essencial para a legitimação e expansão das oportunidades de intervenção dos diversos agentes do Complexo Médico-Industrial (CMI), inclusive os alternativos, é o estabelecimento de necessidades de saúde. Essas necessidades, apesar de constantemente em expansão, são apresentadas como naturalmente existentes, o que reforça a demanda por intervenções técnicas.
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	As críticas a esse modelo reducionista, contudo, não desconsideram a importância de oferecer uma gama de técnicas, equipamentos e insumos para atender às questões de saúde, nem minimizam o papel do gestor de saúde em identificar e solucionar demandas, definir prioridades e alocar recursos. No entanto, ele defende que a verdadeira compreensão do conceito de saúde exige políticas e ações amplas que assegurem o bem-estar de todos (SCLIAR, 2007). Outras análises também enfatizam a necessidade de construir novas abordagens para os conceitos de saúde e doença, visando uma perspectiva mais integral.
	As dificuldades enfrentadas na compreensão de saúde e doença podem ser categorizadas em três principais ordens: a indefinição conceitual, o reducionismo biológico presente na biomedicina e a reificação dessas noções, que se manifestam de maneira evidente nas políticas públicas de saúde.
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	O direito à saúde é reconhecido, tanto em legislações nacionais quanto em convenções internacionais, como um direito fundamental que deve ser assegurado pelos Estados aos seus cidadãos. Isso se dá por meio de políticas e ações públicas que garantam o acesso de todos aos recursos necessários para seu bem-estar. O direito à saúde envolve, portanto, prestações positivas, que incluem a oferta de serviços e insumos de assistência à saúde, assumindo, assim, a natureza de um direito social. 
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	Essa natureza comporta tanto uma dimensão individual quanto uma coletiva em sua efetivação. A trajetória do reconhecimento do direito à saúde, em relação à dignidade humana, bem como sua incorporação nas legislações, políticas públicas e jurisprudências, reflete as tensões e as diferentes percepções sobre as definições de saúde e doença, os caminhos para alcançar esse estado de bem-estar e os direitos e responsabilidades tanto dos cidadãos quanto dos Estados.
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	Outro desafio importante é a escolha dos meios para alcançar a saúde, considerando os aspectos previamente mencionados relacionados à reificação da saúde e da doença, assim como a força simbólica desse processo na percepção das pessoas e nas práticas de saúde. Atualmente, existe uma ampla gama de recursos científicos e tecnológicos disponíveis para intervenções na saúde e na vida humana. 
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	Uma primeira dificuldade ética na identificação da saúde como um bem a ser protegido pelo Direito reside na necessidade de estabelecer critérios universalizáveis que definam esse bem, assim como os benefícios ou necessidades que se aplicam a uma pessoa ou comunidade. Essa definição depende de uma valoração específica que varia conforme os diferentes contextos morais e sociais, especialmente em sociedades pluralistas.
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	O acesso a essas inovações é frequentemente considerado um instrumento indispensável para a ampliação da liberdade pessoal e a melhoria das condições de vida, pois oferece alternativas para a prevenção de doenças e para a superação de deficiências orgânicas e desconfortos físicos. No entanto, ainda pairam muitas dúvidas sobre se o uso dessas novas alternativas pode ser benéfico ou prejudicial, tanto no que se refere à proteção da integridade física e psíquica dos indivíduos quanto ao respeito pela dignidade da pessoa humana.
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	Nesse contexto, a problemática central que emerge para o Direito e a Saúde—e que se manifesta no fenômeno da judicialização da saúde—diz respeito a como o Estado, nos âmbitos do Poder Executivo, Legislativo ou Judiciário, deve proteger as pessoas dos riscos associados às novidades oferecidas pelo mercado de saúde, que frequentemente cria necessidades para comercializar soluções. Simultaneamente, o Estado deve cumprir seu dever de assistência, promovendo o acesso igualitário aos avanços biotecnocientíficos que podem realmente beneficiar o processo terapêutico e o bem-estar das pessoas, assegurando que isso ocorra sem discriminação de qualquer espécie.
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	Dificuldade na transição da saúde para o direito à saúde reside no fato de que a efetivação desse direito abrange tanto uma dimensão individual ou privada, que requer o respeito às subjetividades, direitos e liberdades pessoais, quanto uma dimensão coletiva, que busca garantir o bem-estar individual a todos, dentro de um custo aceitável para a sociedade. Na articulação dos interesses individuais e sociais, e no cumprimento dosdeveres do Estado de proteger a saúde de todos e de cada indivíduo, pode haver a necessidade de impor restrições à liberdade de alguns em prol do bem-estar coletivo ou para a promoção de um determinado bem ou interesse social.
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CONCLUSÃO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	A bioética desempenha um papel crucial na interseção entre saúde, ciência e moralidade, especialmente em um mundo marcado por avanços tecnológicos e científicos rápidos. Historicamente enraizada em princípios éticos que datam da antiguidade, sua evolução foi impulsionada pela necessidade de lidar com dilemas emergentes na prática médica contemporânea. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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A bioética não apenas aborda questões complexas que surgem com inovações, mas também oferece diretrizes que ajudam profissionais de saúde, como enfermeiros, a equilibrar a ética com a qualidade do cuidado, promovendo a autonomia do paciente e a justiça na saúde.
	
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Entretanto, a crescente judicialização da saúde no Brasil evidencia tensões significativas entre direitos reconhecidos e sua efetividade prática. Apesar do direito à saúde estar garantido constitucionalmente, a realidade é marcada por desafios que refletem falhas no sistema de saúde e na articulação entre suas dimensões sociais, políticas e econômicas.
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	A judicialização surge como um mecanismo de busca por justiça, revelando as lacunas entre o que é prometido e o que é acessível, destacando a responsabilidade tanto do Estado quanto dos profissionais de saúde.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	Nesse contexto, a bioética deve continuar a ser uma lente crítica através da qual as implicações éticas das decisões em saúde sejam avaliadas. À medida que a sociedade avança e os desafios éticos se tornam mais complexos, o diálogo interdisciplinar se torna vital para garantir que as práticas de saúde respeitem a dignidade humana e promovam o bem-estar coletivo. A integração de princípios bioéticos nas práticas de saúde não só é desejável, mas essencial para construir um sistema de saúde mais justo e equitativo.
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REFERÊNCIAS
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Obrigada!!!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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