Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA
EDUARDA QUEIROZ OBERG
A EDUCAÇÃO COMO FERRAMENTA DE LIBERTAÇÃO
A Luta de Malala e as Realidades das Meninas
Rio de Janeiro, 2024.
 A luta pelo acesso à educação para meninas é uma questão global e urgente, personificada na trajetória de Malala Yousafzai. Nascida no Paquistão, Malala se destacou por sua defesa ao direito à educação, especialmente em uma região onde o extremismo talibã impôs severas restrições à vida das mulheres. Em 2012, sua coragem em falar publicamente sobre a importância da educação a tornou alvo de um ataque brutal, mas, em vez de silenciá-la, essa experiência a impulsionou a se tornar uma voz ainda mais forte na luta pelos direitos das meninas. Vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2014, Malala simboliza a resiliência e a determinação de milhões de jovens ao redor do mundo que, assim como ela, enfrentam barreiras culturais e sociais para conquistar seu direito à educação.
 O desafio do acesso à educação para meninas é uma realidade, especialmente em regiões onde normas culturais e condições econômicas limitam suas oportunidades. Dados da UNESCO indicam que cerca de 122 milhões de meninas no mundo estão fora da escola, muitas delas em países onde a educação para mulheres é restringida ou onde a pobreza força o abandono escolar. Malala, por exemplo, só teve seu acesso ao estudo garantido desde cedo pelo fato de seu pai ser um dos administradores de uma escola para meninas. 
 No Brasil, embora a educação para meninas seja legalmente permitida e incentivada, aspectos culturais e socioeconômicos em várias regiões ainda levam muitas a interromperem seus estudos. Em diversas comunidades, é comum que meninas abandonem a escola para se dedicarem a tarefas domésticas, ao cuidado de familiares ou até mesmo para se casarem jovens. Segundo um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 11% de um grupo de 877 mil mulheres entre 20 e 24 anos até os 15 anos já estavam casadas, escancarando uma realidade preocupante que afeta diretamente seu direito à educação. Essa situação expõe um contraste entre o que é socialmente permitido e o que é culturalmente naturalizado, perpetuando ciclos de desigualdade de gênero. Como afirmou Paulo Freire, "se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda" (FREIRE, 2000, p. 67). 
 As relações de poder entre homens e mulheres refletem uma desigualdade estrutural que limita a autonomia feminina em diversos setores. No Ocidente, embora o movimento feminista tenha conquistado avanços significativos nos direitos das mulheres, a violência de gênero e a disparidade de oportunidades ainda são obstáculos. Em contrapartida, em algumas regiões do Oriente, as restrições às mulheres permanecem extremamente severas até hoje, fruto de normas culturais e religiosas que perpetuam a subordinação feminina. Essa restrição ao conhecimento reflete o controle masculino sobre o desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres, perpetuando sua posição de dependência. Como afirma Almeida em "Em busca de novas abordagens para a violência de gênero: a desconstrução da vítima", "a manutenção da vítima em uma posição de subalternidade reforça a ideia de que a violência é um fardo exclusivamente feminino" (ALMEIDA, 2013, p. 58). O mesmo ocorre com a educação: a negação do direito ao estudo é, em si, uma forma de violência que sustenta a subordinação das mulheres e perpetua a desigualdade nas relações de poder.
 Na psicanálise, a posição da mulher na cultura foi inicialmente desenvolvida por Freud, que introduziu o conceito de "inveja do pênis” em seu texto "Algumas Consequências Psíquicas da Diferença Anatômica entre os Sexos" (1925), afirmando que a menina "percebe que lhe falta um órgão que ela muito valoriza e sente-se gravemente prejudicada, formando, daí por diante, um sentimento de inferioridade" (FREUD, 1925, p. 252). Essa visão freudiana contribuiu para naturalizar a opressão de gênero, ao sugerir que a inferiorização da mulher seria algo inerente ao desenvolvimento psíquico humano, reforçando dinâmicas de submissão feminina como uma consequência inevitável das diferenças biológicas entre os sexos. No entanto, teóricas como Melanie questionaram essa perspectiva, enfatizando a importância da relação da menina com a mãe na formação do eu, deslocando a centralidade do "falo". A psicanálise contemporânea reconhece que gênero e sexualidade são construções sociais, passíveis de transformação, e essa visão compreende que as desigualdades e opressões de gênero não são intrínsecas à natureza humana, mas, sim, sustentadas por estruturas culturais que podem e devem ser questionadas.
 Diante das opressões que afetam as mulheres, é claro que a busca pela igualdade exige mudanças profundas. No Brasil, as práticas que forçam meninas a abandonarem os estudos refletem estruturas de poder que historicamente naturalizaram a inferioridade feminina. No entanto, com a evolução do pensamento crítico e o reconhecimento das influências culturais, é evidente que essa desigualdade não é imutável. A transformação social é necessária, e a educação deve ser central nesse processo, capacitando meninas e mulheres a reescreverem suas histórias.
Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2010.
FREUD, Sigmund. Algumas Consequências Psíquicas da Diferença Anatômica entre os Sexos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. 
KLEIN, Melanie. A Psicanálise da Criança. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
CERRUTTI, M. Q.; ROSA, M. D. Em busca de novas abordagens para a violência de gênero: a desconstrução da vítima. Revista Mal-Estar e Subjetividade, v. 8, p. 1047-1060, 2014. Disponível em: . Acesso em: 22 de set. de 2024.
VAZ, Leticia de Lucena. Resenha do livro “Eu sou Malala”. CSVM – UFG, 2018. Disponível em: Acesso em: 21 de set. de 2024.
ANDRADE, Naara Inácio. A Luta Feminina no Oriente Médio. Meon, 2023. Disponível em: https://www.meon.com.br/meonjovem/alunos/a-luta-feminina-no-oriente-medio-empoderamento-e-desafios-em-busca-da-igualdade-de-genero. Acesso em: 21 de set. de 2024.
UNESCO diz que já 122 milhões de meninas sem acesso à escola. Agência Brasil, 2023. Disponível em: . Acesso em: 21 de set. de 2024.
Educação de gênero pode evitar casamento na infância e adolescência. Agência Brasil, 2015. Disponível em: . Acesso em: 21 de set. de 2024.

Mais conteúdos dessa disciplina