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Conteudista: Prof.ª M.ª Maria Cristina Natel Revisão Textual: Caique Oliveira dos Santos Material Teórico Material Complementar Referências Desenvolvimento da Dinâmica Grupal nas Diferentes Instituições Grupo Contexto Na empresa, um gerente diz: “Pessoal, nossa e�ciência operacional não está correspondendo à demanda de vendas. Temos que mudar esse quadro. Veri�quem o que está acontecendo! Teremos a assessoria de um psicopedagogo, junto ao setor de Recursos Humanos”. Na escola, na sala do café, os professores discutem sobre a informação que receberam do coordenador ao término da reunião pedagógica: o início de uma assessoria psicopedagógica prevista para a semana seguinte. 1 / 3 Material Teórico Objetivos da Unidade: De�nir grupo; Conhecer os fundamentos sobre grupo – dinâmica e papéis; Entender a dinâmica grupal na intervenção psicopedagógica institucional; Conceituar grupo operativo; Conhecer a técnica do grupo operativo. Algumas re�exões: Até que ponto as pessoas estão preparadas para lidar com a mudança, compreendendo seus papéis? O que acontece nos grupos de trabalho a partir de “notícias” que envolvem mudanças? Por que, muitas vezes, as pessoas são reativas? Como se desenvolve a dinâmica grupal? Na vivência em grupo, as pessoas experimentam diferentes sentimentos e reagem segundo seu mundo interno, em relação a sua história. Diante da nova vivência, mas parecida com uma vivida anteriormente sem “se dar conta”, a pessoa tende a repetir comportamentos e atitudes. Figura 1 Mudança na Empresa, Mudança na Escola Os tempos e espaços educacionais se modi�caram, ampliaram, alterando profundamente os papéis e impondo desa�os aos membros da instituição escola. Entre os desa�os, situa-se a formação continuada do professor como uma necessidade de mudança do paradigma de ensino, a necessidade de olhar as coisas de outra forma, a �m de considerar novas perspectivas, para que seja possível adotar posturas mais abertas e mais compreensivas em relação ao trabalho docente. A permanência – e sobrevivência – da organização na atualidade, época em que transformações ocorrem continuamente, tornando o ambiente cada vez mais complexo, exige cada vez mais inovação por parte das organizações e dos indivíduos. Nesse sentido, Carbone (2009, p. 38) a�rma que: Como intervir? Como orientar grupos em processos de mudança? Como levar os membros do grupo a perceber que mudar atitudes é fruto de um processo interacional que ocorre no cotidiano da escola ou da empresa? Nesse contexto, justi�ca-se a intervenção psicopedagógica no âmbito institucional a �m de orientar grupos em processo de mudança, dando-lhes subsídios para elaborar o acontecer grupal em um processo de formação continuada. - CARBONE, 2009, p. 38 “[...] entra em cena o conhecimento humano, aplicado no contexto empresarial visando à oferta de soluções para problemas concretos, e que não se desgasta com o uso, mas que se renova e se potencializa, o que permite a geração dinâmica de inovações.” Barbosa (2001, p. 214) expõe que a visão de operatividade, veiculada pelo trabalho de Pichon- Rivière (1988), pode contribuir e instrumentalizar aqueles que fazem parte do processo de ensinar/aprender. Atitude operativa é aquela assumida por uma pessoa diante de seus interlocutores de maneira que os provoque a desenvolver a operatividade da resolução de um problema, encontrando soluções mais adequadas. O fato de criar, manter e fomentar a comunicação dos membros de um grupo, levando-os à “clareza do todo” e a se desenvolverem progressivamente (como grupo) para a realização da tarefa, pode ser compreendido como a atitude operativa do psicopedagogo (BARBOSA, 2001). O psicopedagogo desenvolve essa atitude quando: concebe a aprendizagem do grupo em seus aspectos objetivos – ligados diretamente àquilo que se quer cumprir – e subjetivos – ligados aos vínculos afetivos que se estabelecem com as situações de aprendizagem; lê as ansiedades básicas que se tornam obstáculos à aprendizagem quando: reconhece nos grupos o comportamento dependente, com necessidade da aprovação e receio de errar; identi�ca as condutas defensivas – colocar a culpa do seu fracasso no outro, por exemplo – como impeditivas de uma ação compartilhada; aprende a ler, em comportamentos/condutas depressivas, uma reação ao “novo” – medo de perder o que já sabe, perder um vínculo já integrado com as situações de aprendizagem. Ao desenvolver e adotar uma atitude operativa, faz a leitura dos processos de adaptação ativa (aspectos objetivos e subjetivos) e das ansiedades básicas, assim como favorece o grupo quanto à realização da tarefa. Atitudes Operativas O psicopedagogo, quando adota uma atitude operativa, utiliza diferentes recursos para provocar o movimento interno dos membros do grupo, tais como: Mudar – a partir do momento em que uma ação se torna automática a ponto de não se re�etir mais sobre ela e interferir na tarefa grupal, não adianta repetir “a explicação”, repetir “o comando”: surpreender, com a mudança de situação, pode mobilizar o grupo a “buscar outra rota”, outra solução para a tarefa. Informar – diante das perguntas e das dúvidas do grupo, em vez de dar a informação, a “solução pronta e acabada”, que inibe a autoria de pensamento, estimular a busca pela resposta em recursos próprios: o movimento é do grupo e para o grupo que vivencia o processo da aprendizagem, pois, como diz Pichon-Rivière, mais vale um erro seu do que um acerto do outro. Acrescentar – o acréscimo de elementos à modalidade de aprendizagem do grupo amplia o repertório e valoriza o conhecimento prévio: em vez de dizer “não é assim”, que inibe o pensar, dizer “considerem mais esse aspecto” – essa forma de pensar oferece a possibilidade de complementação ou de reformulação do repertório inicial. Propor alternativas múltiplas – o modelo de alternativas múltiplas é indicado para “tirar o grupo” do comportamento de espera e passivo da resposta pronta. Além de estimular o pensamento crítico, apresenta opções que levam o grupo a pensar, re�etir e testar antes de decidir pela estratégia adequada. Mostrar – na realização de uma tarefa, a sinalização de algo que não foi observado durante a execução contribui para o aperfeiçoamento desta. Mostrar é um recurso não verbal e�ciente que favorece a revisão, sem que haja necessidade de corrigir o outro dizendo “está errado, ou você errou!”. Viver con�itos, em vez de evitá-los – para evitar a ansiedade natural diante do desconhecido, o grupo solicita a reposta, solicita que se “mostre” como faz. A vivência de certa ansiedade e de certo con�ito cognitivo possibilita a motivação necessária para a escolha dos “passos a seguir”, dos comportamentos a serem adotados para o cumprimento da tarefa. Problematizar – grupos de pessoas diante de situações novas “�cam confusos” e dependentes de alguém que os ajude. A problematização aproxima o grupo, que passa a formular hipóteses, a testar e a con�rmá-las, a �m de solucionar a tarefa, motivando o grupo na continuidade dela. É importante mencionar que mudar, informar, acrescentar, dar alternativas, mostrar, viver con�itos e problematizar são recursos propostos por Jorge Visca (1987), fundamentados na pedagogia, promovendo atitudes operativas. Figura 2 – Capital humano Saiba mais Há também recursos fundamentados na psicologia, que exige um estudo sobre o conceito de conduta, proposto por Bleger (1984), que o entende como respostas �siológicas, motoras, verbais ou mentais que o ser humano produz para equilibrar as tensões motivadas por determinadas ações. Esse teórico de�ne conduta como “todas as manifestações do ser humano, quaisquer que sejam suas características de apresentação” (BLEGER, 1984, p. 25), e “toda aprendizagem é uma conduta, mas nem toda conduta é uma aprendizagem”, como a�rma Ferreira (2010, p. 45). Fonte: Getty Images Figura 3 – Formação continuada Fonte: Getty Images Figura 4 – O papel do líder de mudança Fonte: Getty Images Grupose Técnica de Grupo Operativo Grupo é um conjunto de pessoas, ligadas entre si por constantes de tempo e espaço e articuladas por sua mútua representação interna, que se propõe, de forma explícita e implícita, a uma tarefa que constitui sua �nalidade, interatuando por meio de complexos mecanismos de assunção e atribuição de papéis (PICHON-RIVIÈRE, 1988). Glossário Assunção: no sentido de aceitação de uma responsabilidade, tem como Por sua vez, grupo operativo é uma técnica que tem como conceito fundamental a tarefa, “uma tarefa especí�ca que dê sentido a sua existência”, nos dizeres de Dowbor (2007, p. 77), construída a partir da qualidade do vínculo entre seus membros – não se incentiva o destaque de nenhum indivíduo isoladamente, já que se concebe o grupo como unidade funcional, e não apenas um agregado de sujeitos. As pessoas, em conjunto, com um objetivo comum caracterizam o grupo operativo, que possui boa rede de comunicação e se desenvolve e�cazmente em sua tarefa. Cada membro tem papel especí�co atribuído, porém com grau de plasticidade tal que lhe permita assumir outros papéis funcionais (DOWBOR, 2007, p. 78). O grupo operativo como uma técnica de trabalho requer do psicopedagogo o conhecimento sobre seus pressupostos básicos – os elementos que o compõem, os conceitos relativos a essa técnica, para poder trabalhar com grupo de pessoas, seja na escola, seja na empresa. Três momentos caracterizam o desenvolvimento do trabalho de um grupo operativo: 1. Pré-tarefa: todo movimento que uma pessoa – ou pessoas – de um grupo faz antes de entrar na atividade propriamente dita. 2. Tarefa: o envolvimento da pessoa – ou pessoas – de um grupo com a tarefa; dito de outro modo, é uma construção conjunta que viabiliza objetivos comuns. 3. Projeto: a aprendizagem é interiorizada, por meio da tarefa, e há a mudança de conduta. sinônimos “aceitação”, “acolhimento”, “admissão”, “aprovação”, “assentimento”. Fonte: ASSUNÇÃO. In: DICIONÁRIO DE SINÔNIMOS. Disponível em: https://www.sinonimos.com.br/assuncao/. Acesso em: 28/07/2021. https://www.sinonimos.com.br/assuncao/ No grupo operativo, constrói-se paulatinamente um esquema referencial grupal, que é o que realmente possibilita a sua atuação como equipe, com unidade e coerência. Isso não quer dizer que todos pensem igual, a unidade inclui e implica a existência de opostos em seu seio (BLEGER, 1998 apud FERREIRA, 2020, p. 108). A construção do esquema referencial grupal se baseia no “denominador comum dos diferentes esquemas referenciais individuais dos membros”, (DOWBOR, 2007, p. 79), que, ao terem oportunidade de falar de si, de se posicionar e dar as suas contribuições, têm assegurada a sua individualidade e podem contribuir com o grupo. Os esquemas referenciais individuais, isto é, a história de cada um – que é a referência –, foram denominados por Pichon-Rivière (2005), conforme citado por Ferreira (2020, p. 104), de Ecro – Esquema Conceitual, Referencial e Operativo. Dowbor (2007), por sua vez, denomina essa construção de Esquema Referencial Comum do Grupo – ERCG e a considera como condição básica para que exista um processo de comunicação entre seus membros. Figura 5 – Grupo trabalhando Fonte: Getty Images Outros aspectos sobre o grupo merecem ser compreendidos. Relativos às leis que regem seu funcionamento, são eles: a dinâmica, a comunicação, o vínculo e os papéis. Vejamos mais detalhes de cada um deles: Dinâmica – pode ser: visível – aquilo que é falado e explicado pelo grupo “no que se refere à tarefa”, e não a outro assunto; invisível – a multiplicação das di�culdades de cada um, ao não ser falada/enfrentada, �ca como “um segredo”, nas entrelinhas, revela-se em forma de resistência à realização da tarefa. Comunicação – pode ser: verbal – um diz para o outro, que expressa seu entendimento sobre o que foi dito; não verbal – olhares, gestos, ruídos na comunicação. Vínculo – trata-se de relação estabelecida entre as pessoas para realizar a tarefa ou o trabalho; constitui-se um compromisso conjunto para a realização de determinada tarefa. Papéis – refere-se às funções que cada um dos membros vai “assumindo” e expressando durante a execução das tarefas, conforme os vínculos estabelecidos; não são papéis �xos e predeterminados, as posições podem se alternar no decorrer da execução das tarefas. Existem papéis que estruturam um grupo, quais sejam: 1. porta-voz – tem como característica a capacidade de captar o que ocorre no grupo e, com a sensibilidade apurada, consegue expressar, verbalizar o “não dito”, dar forma aos sentimentos e con�itos – as ansiedades do grupo – que, muitas vezes, estão latentes no discurso do grupo. O porta-voz, quando fala, não está a falar sozinho; traz, na sua fala, o dizer grupal (DOWBOR, 2007, p. 84); 2. líder da mudança – é quem encoraja o grupo a levar adiante a tarefa, enfrentando con�itos, buscando soluções, sempre “está aberto” ao novo; 3. líder de resistência – é quem “puxa” o grupo para trás, freia avanços, sabota as tarefas e poucas vezes as cumpre; representa o contraponto do líder de mudança, tenta paralisar o envolvimento do grupo e sempre quer retornar ao que já foi acertado; 4. bode expiatório – é quem assume as culpas do grupo. Serve de depositário dos conteúdos do grupo, livrando-o do que lhe provoca mal-estar, medo, ansiedade. Nas Uma consequência da dinâmica invisível é a formação de subgrupos. palavras de Ferreira (2020, p. 109), é colocado como recipiente para receber o lixo advindo do trabalho, sendo culpado pela ine�ciência do grupo; 5. representantes do silêncio – são aqueles que assumem as di�culdades dos demais para estabelecer comunicação, fazendo com que o resto do grupo se sinta obrigado a falar. O desenvolvimento de um grupo não ocorre de forma linear: as pessoas articuladas entre si fazem acontecer o processo grupal, aprendem a produzir conjuntamente. Seu funcionamento pressupõe a presença de vetores/indicadores de produtividade grupal: 1. Filiação/Pertença – enquanto a �liação estabelece determinada distância, sem se incluir totalmente no grupo, a pertença envolve mais con�ança e maior integração ao grupo. 2. Pertinência – as pessoas centradas na tarefa e no esclarecimento desta; a capacidade criativa para executar a atividade e o esforço para explorar a pré- tarefa são indicativos da força deste vetor. 3. Cooperação – contribuição pelos papéis. 4. Comunicação – como e quem diz as mensagens por meio de conteúdos simbólicos (ideias, crenças e valores), conteúdos verbalizados e gestos. 5. Aprendizagem – surge na troca de informações que revelam como os membros do grupo estão reconhecendo e apreendendo a realidade. 6. Tele – é a predisposição positiva ou negativa para trabalhar como integrante de um grupo = vínculo. É necessário um exercício apurado de observação e leitura sobre o que os “silenciosos falam”. Os vetores sentimento de pertença, pertinência e cooperação indicam a força (positiva ou negativa) com que as ações se realizam; por seu turno, os vetores comunicação, aprendizagem e tele são qualitativos e indicam a e�ciência ou não da comunicação e da troca de informações (FERREIRA, 2020). A reação das pessoas diante do novo é diversa, manifesta-se, por exemplo, por uma atitude de resistência à mudança, que tem por objetivo neutralizar a ansiedade, o medo, mas que pode ser superada pela transformação, pelo “enfrentamento do novo” e pela capacidade inovadora de envolver-se com a realidade (GAYOTTO, 1996). O psicopedagogo como um assessor institucional – escola ou empresa – pode colaborar com essa transformação. Tele, em grego, quer dizer “longe”, como na palavra televisão = visão de longe. Para aprender ou realizar uma tarefa, é importante estabelecer uma distância. Figura 6 – Aprendendo por outros caminhos Fonte: Getty Images Consideração Final Coordenar um grupo de pessoas implica, inevitavelmente, deparar-se com motivações diversas, diferentes pensamentos e distintas formas de agir quecirculam em um grupo de trabalho. O desenvolvimento das habilidades para a assessoria de grupos, quando fundamentado em um referencial teórico-prático – grupos e técnica de grupo operativo –, possibilita ao psicopedagogo a compreensão do movimento grupal tanto para melhorar a e�cácia das intervenções quanto para investigar e estimular o potencial do próprio grupo. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos A carroça – trabalho em equipe! Quem faz parte da tua rede? Ecro 2 / 3 Material Complementar A Carroça - Trabalho em equipa! Quem faz parte da tua rede ? ECRO https://www.youtube.com/watch?v=D5Rqj13lASA https://www.youtube.com/watch?v=MNGxekhMFXs Motivacional: trabalho em equipe – juntos fazemos mais e melhor! Os grupos operativos de Pichon-Rivière ECRO Motivacional - Trabalho em equipe - Juntos fazemos mais e melh… OS GRUPOS OPERATIVOS DE PICHON RIVIÈRE M J ti i https://www.youtube.com/watch?v=MNGxekhMFXs https://www.youtube.com/watch?v=twg9SCt76UE https://www.youtube.com/watch?v=cN7K1outATY OS GRUPOS OPERATIVOS DE PICHON RIVIÈRE - Marcos Justiniano https://www.youtube.com/watch?v=cN7K1outATY 3 / 3 Referências BARBOSA, L. M. S. A psicopedagogia no âmbito da instituição escolar. Curitiba: Expoente, 2001. ________. Psicopedagogia no âmbito grupal. In: ZENICOLA, A. M; BARBOSA, L. M. S.; CARLBERG, S. Psicopedagogia: saberes / olhares / fazeres. São José dos Campos: Pulso Editorial, 2007. BLEGER, J. Psicologia da Conduta. Porto Alegre: Artes Medicas, 1984. CARBONE, Pedro Paulo et al. Gestão por competências e gestão do conhecimento. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2009. DOWBOR, F. F. Quem educa marca o corpo do outro. São Paulo: Cortez Editora, 2007. FERREIRA, L. F. Psicopedagogia e Teoria Epistemologia Convergente- novas contribuições. Curitiba: Inter Saberes, 2020. GAYOTTO, M. L. C.; DOMINGUES, I. Liderança: aprenda a mudar em grupo. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1996. PICHON-RIVIÈRE, E. Teoria do vínculo. São Paulo: Martins Fontes, 1988.