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Técnicas de Pesquisa, 
Entrevista e Reportagem
Material Teórico
Responsável pelo Conteúdo:
Prof.ª Me. Flavia Daniela Pereira Delgado
Revisão Textual:
Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin
Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo
• Jornalismo e Literatura: Um Pouco de História;
• O Conceito de Literariedade;
• O que é Livro Reportagem;
• Tipos de Livro Reportagem.
• Dotar discentes sobre as possibilidades literárias do Livro Reportagem como 
experiência de ampliação da notícia e aprofundamento do Relato Jornalístico 
para além da Reportagem tradicional.
OBJETIVO DE APRENDIZADO
Livro Reportagem: Liberdade e 
Literariedade no Jornalismo
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem 
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua 
formação acadêmica e atuação profissional, siga 
algumas recomendações básicas: 
Assim:
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte 
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e 
horário fixos como seu “momento do estudo”;
Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma 
alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;
No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos 
e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você 
também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão 
sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;
Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o 
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e 
de aprendizagem.
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte 
Mantenha o foco! 
Evite se distrair com 
as redes sociais.
Mantenha o foco! 
Evite se distrair com 
as redes sociais.
Determine um 
horário fixo 
para estudar.
Aproveite as 
indicações 
de Material 
Complementar.
Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma 
Não se esqueça 
de se alimentar 
e de se manter 
hidratado.
Aproveite as 
Conserve seu 
material e local de 
estudos sempre 
organizados.
Procure manter 
contato com seus 
colegas e tutores 
para trocar ideias! 
Isso amplia a 
aprendizagem.
Seja original! 
Nunca plagie 
trabalhos.
UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo
Jornalismo e Literatura: Um Pouco de História
Sejam bem vindos(as) a mais uma Unidade de nossa Disciplina!
Desta vez, vamos mergulhar no universo dos Livros Reportagem e para isso 
precisamos entender as relações entre Jornalismo e Literatura.
Tal como a Literatura, também o Jornalismo é um fenômeno indispensável na 
Cultura dos povos. Ambos desempenham papéis históricos e sociais e interferem 
na formação das consciências coletivas.
Ao tratarmos sobre Livros Reportagem, nós nos depararemos com o entrelaça-
mento desses gêneros.
Ao estabelecer relação entre o Texto Jornalístico e o Literário, corre-se sempre o 
risco de embarcar numa contradição. Afinal, o Jornalismo lida com a apresentação 
objetiva dos fatos e a Literatura é o campo da pura invenção, em que o real pode 
ser um mero pretexto, ou nem isso.
A obra de ficção transfigura o mundo das aparências, do senso comum, do 
empirismo, da Ciência e propõe novas realidades possíveis ou imaginadas.
Por exemplo: para uma Reportagem, qualquer distorção dos acontecimentos é ina-
ceitável, pois o jornalista tem um compromisso ético com a verdade. Sua função é in-
formar o leitor de modo claro, isento e objetivo, registrando o ocorrido com exatidão.
O escritor, por outro lado, tem objeti-
vos mais ambíguos, de ordem estética e 
seu trabalho necessita de uma participa-
ção ativa do leitor na decodificação dos 
jogos de Linguagem que manipula.
Há distâncias, por vezes abissais, entre 
um Texto Literário e um Jornalístico. E há 
também textos que são exemplares, tanto 
no Jornalismo quanto na Literatura.
Quem sabe o tempo seja um excelente 
parâmetro: no Jornalismo, o circunstan-
cial, o histórico, o episódico, por vezes, é 
a força-motriz da matéria jornalística; na 
Literatura, o detalhe desnecessário, a força 
da Linguagem, o colorido da descrição, as 
contradições psicológicas de uma persona-
gem podem bastar para uma narrativa.
Figura 1
Fonte: iStock/Getty Images
8
9
Além de apresentarem características profundamente distintas entre os fins a 
que se destinam no Processo de Comunicação e suas maneiras de abordar os dados 
históricos, as próprias estruturas dos textos jornalísticos e literários também são 
muito diversas, talvez antagônicas.
O imediatismo, a precisão e a imparcialidade, que são essenciais na Imprensa 
não fazem parte dos mecanismos de formatação de um texto de ficção.
A redação de uma notícia segue padrões muitas vezes rígidos, definidos por 
cada veículo – Jornal, Revista, Internet, Televisão, Rádio – para uniformizar sua 
Linguagem diante de um leitor hipotético, formado a partir de uma média estatística 
ou de uma Pesquisa de Mercado.
No terreno ficcional, vale a singularidade do discurso, a originalidade na constru-
ção de situações e personagens e até mesmo certo estranhamento. Mas, no dia a 
dia de jornalistas e escritores, tais divisas não são tão definitivas e há um intercâm-
bio que “contamina” ambos, de forma enriquecedora.
Fundamental é nos lembrarmos de suas raízes, voltar ao ponto em que news 
(notícias) e novels (romances) se separam, dando origem a campos diferentes 
da Linguagem.
Difícil precisar quando surge a definição da Literatura como um discurso exclu-
sivamente ficcional, origem do modelo de romance moderno. Segundo Raymond 
Williams (1985), o processo de especialização literária é quem vai provocar uma 
distinção de outros tipos de escrita – Filosofia, Ensaio, História e Jornalismo.
Mas é possível afirmarmos que o Jornalismo verdadeiramente “desgarrou-se” 
das Letras ao redor do século XVIII, na Europa, coincidindo com a aparição dos 
primeiros jornais organizados como empreendimentos capitalistas, no mesmo pe-
ríodo em que são definidas as características modernas do Jornalismo: periodicida-
de, atualidade, universalidade e publicidade (GROTH, 2011).
É nessa época que o espaço no Jornal Diário – porta-voz da burguesia, então 
ascendente – ganhou prestígio e passou a influenciar a opinião pública.
O conceito de liberdade de pensamento se desdobrou no exercício pleno da 
divulgação de informações e críticas, ampliando o interesse da sociedade pela ati-
vidade jornalística.
Os jornais viraram referência obrigatória para a tomada de decisões e para a 
formação do cidadão que vivia nas cidades. Era o único meio de comunicação e 
tinha um papel decisivo para o sucesso ou não de transmissão de informações so-
cialmente relevantes.
Escritores famosos como o inglês William Defoe (1660-1731), autor do clássico 
Robinson Crusoé e Victor Hugo (1802-1885), autor de Os Miseráveis, militaram 
na imprensa como polemistas, críticos e intelectuais engajados em causas sociais.
9
UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo
Outros escritores tarimbados na Literatu-
ra brasileira e mundial também trabalharam 
como jornalistas e tiveram suas obras ficcio-
nais publicadas nos jornais, aos fragmentos.
Eram os chamados romances-folhetim. 
As histórias publicadas por episódios no 
espaço de rodapé dos periódicos, os cha-
mados feuilleton foi uma invenção de um 
editor francês para aumentar a vendagem 
dos jornais no século XIX.
Honoré de Balzac publicou sua célebre co-
letânea de costumes A Comédia Humana 
em folhetim. Em língua portuguesa, destaca-
-se também Eça de Queiroz e Machado de 
Assis, que também publicaram suas obras pri-
meiro em jornais e depois em forma de livro.
Figura 2
Fonte: iStock/Getty Images
No Brasil, a incursão de literatospelas redações foi constante a partir do século 
XIX. Mesmo num contexto de baixa alfabetização da população da época, a 
Imprensa se tornou uma poderosa instituição política, temida e cortejada pelas 
elites e seus governantes. Os grandes autores da época escreveram regularmente 
na imprensa: José de Alencar, Machado de Assis, Raul Pompeia, Lima Barreto, 
Olavo Bilac e Euclides da Cunha.
Aliás, Os Sertões (1902) – resultado de uma longa reportagem de Euclides da 
Cunha como enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo sobre a Guerra de 
Canudos1 – é para muitos críticos não só a obra fundadora da Literatura brasileira 
contemporânea, como da nossa própria identidade cultural, além de configurar 
como o primeiro Livro Reportagem brasileiro, pois transcendeu o registro suposta-
mente imediatista do noticiário.
A tradição do escritor-jornalista se consolidou no Brasil no século XX: João do 
Rio, Graciliano Ramos, Carlos Drummond Andrade, João Cabral de Melo Neto, 
Rubem Braga, Otto Lara Resende, Carlos Heitor Cony, Antônio Callado (que 
cobriu a Segunda Guerra Mundial e quase 20 anos depois assinou reportagens de 
impacto como em uma cobertura de Guerra do Vietnã para o Jornal do Brasil), 
por exemplo, tiveram participação destacada na Imprensa, não só especificamente 
como repórteres, mas também como editorialistas, cronistas, críticos etc.
1 A chamada Guerra de Canudos, Revolução de Canudos ou Insurreição de Canudos foi o confronto entre um movi-
mento popular de fundo sociorreligioso capitaneado por Antônio Conselheiro e o Exército da República, que durou 
de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia, no Brasil. O episódio foi fruto 
de uma série de fatores como a grave crise econômica e social em que encontrava a região à época, historicamente 
caracterizada pela presença de latifúndios improdutivos, situação essa agravada pela ocorrência de secas cíclicas, de 
desemprego crônico; pela crença numa salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flage-
los do clima e da exclusão econômica e social (Disponível em: .)
10
11
A lista na Literatura Mundial é imensa: George 
Orwell, Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marques, 
Marcio Vargas Llosa, Ernest Hemingway.
Nos Estados Unidos, em meados do século XX, 
um movimento de reação às amarras do forma-
lismo jornalístico ganhou fôlego com o nome de 
New Journalism.
O objetivo era dar um enfoque mais imaginativo e 
lírico à reportagem, permitindo ao jornalista inserir-
-se na narrativa, sem alterar a realidade da notícia.
Assim, o jornal não seria mais um mero observa-
dor e transmissor “frio” dos fatos, um seguidor de re-
gras de Manuais de Redação, mas até mesmo um per-
sonagem nas situações que descreve, que explora a 
sensibilidade do estilo próprio ao transmitir a notícia.
Figura 3 – Cap a do livro reportagem 
de Antônio Callado, resultado de uma 
serie de reportagens como enviado 
especial do Jornal do Brasil ao 
confl ito no sudeste asiático em 1968
É preciso entender o contexto em que surge esse movimento. Na época, a 
televisão nos EUA era um veículo emergente e os jornais enfrentavam essa con-
corrência e experimentavam queda nas vendagens. O jornalismo impresso, então, 
precisava buscar um diferencial. Além disso, o movimento é contemporâneo da 
contracultura e de todas as suas quebras de paradigmas comportamentais.
Para alguns críticos2, a obra que inaugura o movimento é A Sangue Frio, do 
jornalista Truman Capote, publicada em 1965, e que conta a história da chacina 
de uma família no Kansas, interior dos Estados Unidos.
Capote decidiu escrever sobre o assunto ao ler no jornal a notícia do assassinato 
da família, em 1959. A história foi publicada anos depois, em quatro partes, na 
revista The New Yorker.
Além de narrar o extermínio do fazendeiro Herbert Clutter, de sua esposa Bonnie 
e dos filhos Nancy e Kenyon – uma típica família americana dos anos 1950, pacata 
e integrada à comunidade – o livro reconstitui a trajetória dos assassinos, que 
planejaram o crime acreditando que roubariam uma fortuna, mas não encontraram 
praticamente nada. Presos e condenados, ambos morreram na forca, em 1965. 
A Sangue Frio, rapidamente, tornou-se um sucesso por conta da intensa rela-
ção que Capote estabeleceu com suas fontes. Além de passar mais de um ano na 
região de Holcomb, investigando e conversando com moradores, ele se aproximou 
dos criminosos e conquistou a confiança dos dois “meninos”, como costumava 
chamar os criminosos.
2 A origem do new journalism é bastante polêmica e inexata. Alguns afirmam que foi Truman Capote quem inaugurou 
o gênero, outros dizem que foi Gay Talese o inventor da “escola”, ao publicar, em 1960, uma série de reportagens 
na revista Esquire.
11
UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo
Por seu estilo, que combina a precisão fac-
tual com a força emotiva da criação artística, 
A sangue frio é um marco na história do Jor-
nalismo e da Literatura dos Estados Unidos.
Reflexão sutil sobre as ambiguidades do Sis-
tema Judicial do país, o texto revela também o 
lado obscuro do chamado “sonho americano”.
Em resumo: embora configurem gêneros 
textuais pertencentes a universos distintos e 
lancem mão de estratégias de comunicação 
específicas e, até mesmo, à primeira vista, 
diametralmente opostas (o texto jornalístico 
baseado na concisão, clareza e na objetivida-
de dos fatos reais e a ficção, imersa na poéti-
ca da linguagem, na fruição do imaginário e 
da fantasia), mirando de perto, talvez existam 
mais aproximações entre o Romance e Re-
portagem do que se imagina.
Figura 4 – O jornalista Truman 
Capote, em foto de 1959
Fonte: Wikimedia Commons
Bulhões (2006) lembra que mesmo que sejam diferentes em sua essência, o 
desenvolvimento histórico do romance, em determinado ponto de sua evolução, 
encontrou um caminho de afinidades típicas do Jornalismo:
Se desde a sua imprecisa gênese que remonta ao período medieval, o 
romance foi exclusivamente associado à frivolidade, à evasão, e à inve-
rossimilhança narrativa, a partir de meados do século XIX seu estatuto 
se ampliará e se retificará, pois boa parte de suas realizações penetrará 
as camadas concretas, adversas e contemporâneas da vida social. Ao se 
transformar no século XIX em gênero ocupado com a concretude social e 
com o tempo em que ele é produzido, o romance demonstra um sentido 
de afinidade com a faina jornalística (BULHOES, 2006, p. 42). 
Um pouco mais sobre a discussão a respeito do limite entre Jornalismo e Literatura:
https://youtu.be/qkVhbyGrV3IEx
pl
or
O Conceito de Literariedade
Um dos maiores atributos dos Jornalistas é o de serem testemunhas dos fatos e 
“tradutores” dos acontecimentos à Sociedade, por meio da imprensa.
Para isso, a Reportagem demanda a necessidade de um repórter, no palco das 
ações dos acontecimentos, isto é, é necessária uma atitude individualizada, centra-
da na figura do “eu” que reporta o que insinua a presença de marcas de pessoali-
dade (subjetividade?) nessa forma expressiva:
12
13
É o que permite circunscrever a reportagem na viabilidade da realização 
de um estilo, ou seja, de uma forma verbal que comporta a marca da indi-
vidualidade. Daí dizer-se que a reportagem é o ambiente mais inventivo da 
textualidade informativa. Na dilatação do evento noticioso, a reportagem 
pode estender-se como uma realização descritiva, na composição astucio-
sa de um personagem ou na coloração de um cenário. Ou desdobrar-se 
plenamente na narratividade, em que estão implicados personagens em 
processo de mudança de estado. É desse modo que ela ensaia alguma 
proximidade com as realizações da prosa de ficção ou transporta marcas 
da própria literariedade (BULHÕES, 2006, p. 44).
Entenda-se por literariedade, então, o conjunto de “marcas” do que é literário, 
que tem como padrões constituintes os seguintes elementos – que, veremos, não 
estão presentes no dia a dia do Jornalismo Informativo,mas encontramos nos 
Livros Reportagens, que “flertam” com a Literatura, que lançam mão de alguns 
recursos narrativos da ficção:
1. Subjetividade: não é proibido o “eu” do autor ou a primeira pessoa notar-
se na narrativa;
2. Conotação poética: uso de fi guras de linguagem permitido em nome da 
riqueza do texto;
3. A criatividade acentuada: não há as mesmas amarras do texto objetivo 
exigido para construir o texto sob a forma de pirâmide invertida;
4. Estruturas gramaticais singulares: representações inovadoras na conca-
tenação de ideias;
5. Imaginário ativado com tênues fronteiras entre fi cção e realidade: 
usado em alguns livros reportagens.
Veremos que o Livro Reportagem constitui um tipo diferente de Jornalismo – 
feito de maneira mais aprofundada e crítica, mas também mais livre das amarras da 
objetividade do cotidiano do modelo das redações de veículos diários.
Figura 5
Fonte: iStock/Getty Images
13
UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo
As marcas de literariedade acima elencadas podem ser encontradas, portanto, 
nesse suporte.
Vamos entender mais a respeito?
O que é Livro Reportagem
Avançar as fronteiras do Jornalismo para além dos limites convencionais que ele 
próprio impõe. É assim que Edvaldo Pereira Lima, no livro O que é livro reporta-
gem, define esse produto jornalístico.
Para Eduardo Belo, emprega exatamente o mesmo padrão técnico e de condu-
ta, como se fosse outro meio jornalístico.
E conceitua que:
Livro reportagem é um instrumento aperiódico de difusão de informação 
de caráter jornalístico. Por suas características, não substitui nenhum meio 
de comunicação, mas serve como complemento a todos. É o veículo no 
qual se pode reunir a maior massa de informação organizada e contextuali-
zada sobre um assunto e representa, também, a mídia mais rica – com ex-
ceção possível do documentário audiovisual – em possibilidades para a ex-
perimentação, uso da técnica jornalística, aprofundamento de abordagem 
e construção da narrativa (...). Tirando o fato temporal, já que em geral o 
veículo não comporta temas de caráter efêmero, todos os demais princípios 
podem ser aplicados e explorados intensamente. Forma, conteúdo e, em 
especial, dimensão consistem no conjunto de características que diferencia 
o jornalismo em livro praticado em outros meios (BELO, 2006, p. 41).
O autor propõe, ainda, três características para essa modalidade:
1. Mergulho profundo nos fatos, personagens, situações: porque é o tipo 
de reportagem que tem sempre a pretensão de esgotar um assunto ou, ao 
menos, chegar muito perto disso. Por exemplo, Elio Gaspari e sua série so-
bre os anos da Ditadura no Brasil (A Ditadura Envergonhada, A Ditadura 
Escancarada, A Ditadura Encurralada, A Ditadura Derrotada) levou 
quase 20 anos para ser produzida, já que o autor consultou uma infinidade 
de documentos no Brasil e nos EUA, além de centenas de entrevistas;
2. Caráter não perecível, pelo menos de maior durabilidade do assunto: 
por não ser tão imediatista quanto à cobertura midiática, o Livro Reporta-
gem normalmente abre espaço para abordagens diferentes, originais, cria-
tivas, menos urgentes e mais aprofundadas. Biografias, temas históricos, 
perfis, memórias e relatos de grandes acontecimentos são os temas deste 
tipo de publicação. Por exemplo: biografias escritas por Ruy Castro (Anjo 
Pornográfico, Chega de Saudade, A noite do meu bem, Estrela Soli-
tária, Ela é carioca) e Fernando Morais (Olga, Chatô, o rei do Brasil; 
Corações Sujos, Os últimos soldados da Guerra Fria);
14
15
3. Nível de detalhamento, profundidade e contextualização que outros 
veículos não conseguem oferecer com densidade, análise e conteúdo; por 
isso mesmo tem larga extensão, acima de 50 páginas impressas.
Já Lima (2009, p. 28-9) lembra que, contemporaneamente, a Reportagem se 
apresenta sob diversos modelos distintos e, por isso, lembra do suporte livro como 
forma necessária para exploração ainda maior e necessária, tendo em vista a abor-
dagem extensiva em termos de detalhes dos fatos.
Para ele, o Livro Reportagem se distingue dos demais tipos de Livros por três 
características: quanto ao conteúdo, pois o objeto de abordagem é sempre o fac-
tual e veracidade e verossimilhança são fundamentais; quanto ao tratamento: a lin-
guagem jornalística tem preponderância, com uso de narrativa em terceira pessoa, 
função de linguagem referencial, além das qualidades textuais desejáveis jornalisti-
camente: precisão, concisão, exatidão, clareza. Informações visuais como mapas, 
fotografias e diagramas também são utilizados.
E, finalmente, quanto à função: informar, orientar, explicar ou denunciar. O pro-
fessor Lima, em seu site, pontua que os Livros Reportagens são produtos intelectuais 
mais apurados e configuram a maior expressão do chamado Jornalismo Literário:
Se o Jornalismo Literário tem como propósito compreender a realidade 
– assim entendemos, enquanto cabe ao jornalismo noticioso convencio-
nal informar, simplesmente, em lugar da leitura efêmera e rápida que faz 
a imprensa diária, e em lugar da explicação racionalista apressada ou 
opinativa presente na maior parte da produção jornalística convencional, 
cabe a essa modalidade afastar-se desse papel importante, mas limitado, 
indo ao encontro de sua própria missão nobre. Essa consiste em ler o 
real de maneira ampla, buscando contextos, evitando julgamentos (espe-
cialmente os apressados), caminhando para a conquista de discernimento 
amplo e pela elucidação dos acontecimentos e situações sociais sobre 
os quais debruça o seu olhar. Não cabe ao Jornalismo Literário limitar-
-se, tampouco, à estreita ligação linear de causa-efeito que o melhor do 
jornalismo convencional procura estabelecer, à caça de explicações para 
o real. Louvável iniciativa da imprensa convencional, em alguns casos, 
mas insuficiente para o Jornalismo Literário, que ousa mais, embarca em 
horizontes intelectuais de maior envergadura.
Disponível em .
Alguns autores, na busca por um tema de um Livro Reportagem inovador, não 
conhecem limites, inclusive éticos, na busca por vieses ousados para apurar ele-
mentos para compor a narrativa.
É o caso do alemão Günter Wallraf, que já se fez passar por turco para mostrar 
o tratamento que a sociedade alemã dá aos imigrantes que acabam fazendo o 
trabalho literalmente sujo e braçal que a população germânica não quer fazer – e 
escreveu o livro Cabeça de Turco.
Fez-se passar por outra pessoa para conseguir um emprego no Jornal Bild, um 
jornal sensacionalista de seu país e, assim, revelar os métodos desonestos usados 
15
UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo
pelo periódico nos bastidores de suas coberturas, o que supostamente confere aura 
de credibilidade e de “visão por dentro” do tema.
Sobre tal tipo de estratégia, concordamos com Belo, quando ele pontua que:
Não há dúvida que ao fazer jornalismo “participativo” e viver os perso-
nagens, Walraff pode contar a história com muito mais profundidade – e 
também de um ponto de vista muito mais subjetivo. A discussão é sobre 
a validade desses métodos, quando há outros recursos. Alguns profissio-
nais defendem que, quando não há outros meios, esses e outros recursos 
duvidosos do ponto de vista ético podem ser válidos. O argumento: o 
eventual dano causado pela manipulação da reportagem é menor que 
o provocado pelas pessoas ou situações que a matéria procura retratar. 
Seria uma espécie de violação de direitos em nome de direitos maiores 
(BELO, 2006, p. 72).
O tema é polêmico e encontra vários detratores no Brasil, que inclusive condenam 
o uso de câmera escondida como outro recurso para obter material para grandes 
reportagens em livro ou vídeo.
Conheça mais sobre o trabalho de Wallraff na entrevista que ele deu à CNN 
Espanhola.
Carmen Aristegui / el periodista encubierto de Wallraff cabeza de turco / 29 enero 2016: 
https://youtu.be/sVTH3WSRm-EEx
pl
or
Tipos de Livro Reportagem
Boa parte dos Livros Reportagem,no Brasil, hoje, encaixa-se nas biografias – 
que parecem ser o subgênero mais popular entre o público leitor, tendo em vista a 
curiosidade do ser humano de conhecer a vida de pessoas que tenham obtido algum 
grau de notoriedade na Sociedade. Há, também, os livros dedicados ao Jornalismo 
Policial, como os produzidos por Caco Barcellos, como Abusado e Rota 66.
A variedade de Livros Reportagens depende da linha temática e dos modos de 
tratamento narrativo.
Aqui vamos adotar o critério de Lima (2009), que leva em consideração os obje-
tivos narrativos da obra ao informar e a natureza do assunto tratado.
Assim, propõe 13 tipos:
1. Livro Reportagem Perfil: evidencia o lado humano de uma personalidade, 
anônima ou pública, mas que personifica de alguma forma um grupo social 
e sua realidade;
16
17
2. Livro Reportagem Depoimento: é a reconstituição de um evento a partir 
do ponto de vista de uma testemunha ou do protagonista de um fato – com 
o objetivo de retratar de forma mais quente e movimentada os bastidores 
do fato;
3. Livro Reportagem Retrato: parece com o perfi l, mas, ao contrário dele, 
não centra na fi gura humana, mas numa Região Geográfi ca, um Setor da 
Sociedade, um segmento da Economia, uma Empresa, com o objetivo 
de esclarecer seus mecanismos de funcionamento, seus problemas ou 
complexidades;
4. Livro Reportagem Ciência: como o nome sugere, seu objetivo é a divul-
gação científi ca em torno de um tema determinado;
5. Livro Reportagem Ambiente: tem ligação com causas ecológicas, am-
bientalistas. Seus temas geralmente são ligados à conscientização para o 
cuidado com o Planeta e também sobre o equilíbrio entre homem e natu-
reza, além da sustentabilidade. Seu tom pode variar do combativo e crítico 
ao didático;
6. Livro Reportagem História: trata de temas do passado, recente ou não, 
mas que, de alguma forma, conecta-se com o contexto atual, a fi m de 
criar uma conexão com os leitores do presente. Uma variante é o Livro 
Reportagem Empresarial, voltado ao mundo dos negócios. Há também 
outro subtipo, o Livro Reportagem Epopeia, que versa sobre temas do 
passado, mas com grande repercussão histórica;
7. Livro Reportagem Nova Consciência: versa sobre novas linhas de pen-
samento, sejam sociais, culturais, econômicas e religiosas a partir do movi-
mento da contracultura e aproximações da cultura ocidental com o oriente;
8. Livro Reportagem Instantâneo: temas que, recém-ocorridos, que ainda 
estão “frescos”, na mente da opinião pública, contudo, abordam novos 
contornos ou aprofundamentos. E não se deixam pautar por elementos 
de efemeridade;
9. Livro Reportagem Atualidade: diferencia-se do instantâneo, na medida 
em que também trabalha um factual; porém, seus desdobramentos fi nais 
ainda não são conhecidos, procurando traçar as forças em confl ito que 
podem determinar o seu desfecho;
10. Livro Reportagem Antologia: é a coletânea de reportagens agrupadas 
sob diferentes critérios, já publicadas na mídia diária ou até mesmo em 
outros livros. Pode ser a produção de um só autor ou de vários autores que 
tratem de um só tema ou que se encaixem num mesmo gênero jornalístico 
ou uma categoria da prática jornalística (opinativo, interpretativo);
11. Livro Reportagem Denúncia: a partir de uma proposta investigativa, 
constitui um protesto contra injustiças, desmandos, abusos cometidos por 
alguns setores da Sociedade, focalizando casos marcados por escândalos;
17
UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo
12. Livro Reportagem Ensaio: nesse tipo de livro ficam patentes marcas 
de subjetividade, ou seja, da voz do seu autor (foco narrativo em primeira 
pessoa), suas opiniões, de forma a conduzir o leitor a compartilhar de seu 
próprio ponto de vista;
13. Livro Reportagem Viagem: o fio condutor é uma viagem a uma deter-
minada Região Geográfica para retratar aspectos sociológicos, históricos. 
Não é uma reportagem turística, pois tem preocupação com exame de 
possíveis conflitos – políticos, econômicos, religiosos, sociais – sob uma 
ótima crítica e jornalística. É importante escapar de narrativas marcadas 
pelo exotismo, pelo pitoresco.
Essa classificação não pretende ser uma camisa de força; apenas uma tentativa 
de compreender a vasta gama de possibilidades de produção do jornalista que se 
dedique a esse tipo de produção. Na listagem de leituras complementares, você vai 
encontrar vários livros diferentes que se encaixam em cada uma dessas modalidades.
Sugiro a leitura!
Espero que tenha gostado desta Unidade.
Vamos nos encontrar nas aulas em vídeo.
Até a próxima!
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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
 Livros
Callado Repórter: Tempo de Arraes e Vietnã do Norte
CALLADO, A. Callado Repórter: Tempo de Arraes e Vietnã do Norte. Rio de Janei-
ro: Agir, 2005.
O Anjo Pornográfico
CASTRO, R. O anjo pornográfico. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
Estrela Solitária
CASTRO, R. Estrela solitária. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
A Sangue Frio
CAPOTE, T. A Sangue Frio. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
Hiroshima
HERSEY, J. Hiroshima. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
Olga
MORAIS, F. Olga. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Os dez dias que abalaram o mundo
REED, J. Os dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
Fama e Anonimato
TALESE, G. Fama e Anonimato. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Cabeça de Turco
WALRAFF, G. Cabeça de turco. Rio de Janeiro: Globo, 2004.
Sangue nas Veias
WOLFE, T. Sangue nas Veias. São Paulo: Rocco, 2013.
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UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo
Referências
ALTMANN, F. A arte da entrevista. São Paulo: Boitempo, 2004.
AMARAL, L. Jornalismo: Matéria de primeira página. Rio de Janeiro: Tempo 
Brasileiro, 1997.
BAHIA, J. História da Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2015.
BELO, E. Livro Reportagem. São Paulo: Contexto, 2006.
BIAL, P. Crônicas de Repórter. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.
BULHOES, M. Jornalismo e Literatura em convergência. São Paulo: Ática, 2007.
CAPUTO, S. G. Sobre entrevistas: teoria, prática e experiências. Petrópolis: 
Vozes, 2015.
DANTAS, A. Tempo de Reportagem. São Paulo: Leya, 2012. 
ERBOLATO, M. L. Técnicas de Codificação em Jornalismo. São Paulo: Ática, 1991.
FOLHA de São Paulo. Manual de Redação. São Paulo: Publifolha, 2010. 
FLORESTA, C; BRASLAUKAS, L. Técnicas de Reportagem e entrevista: roteiro 
para uma boa apuração. São Paulo: Saraiva, 2009 
FUSER I. A arte da Reportagem. São Paulo: Scritta, 1996.
GROTH, O. O poder cultural desconhecido: fundamento das ciências dos 
jornais. Petrópolis: Vozes, 2011.
LAGE, N. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio 
de Janeiro: Record, 2005.
________. Estrutura da notícia. São Paulo: Ática, 2006.
________. Teoria e técnica do texto jornalístico. São Paulo: Elsevier, 2005
LIMA, E. P. Páginas Ampliadas: o livro reportagem como extensão do jornalismo 
e da literatura. Barueri: Manole, 2009.
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MARCONDES FILHO, C. A saga dos cães perdidos. São Paulo: Hackers 
Editores, 2000.
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de Jornalismo e Comunicação. Rio de Janeiro, nº 11, 1968.
OYAMA, T. A arte de entrevistar bem. São Paulo: Contexto, 2012.
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PEREIRA JUNIOR, L. C. A apuração da notícia: métodos de investigação na 
imprensa. Petrópolis: Vozes, 2010.
PINTO, A. E. de S. Jornalismo diário: reflexões, recomendações, dicas, exercícios. 
São Paulo: Publifolha, 2009.
SODRE, M. A narração do fato: notas para uma teoria do acontecimento. 
Petrópolis: Vozes, 2009.
SODRE, M; FERRARI, M. H. Técnica de Reportagem: notas sobre narrativa 
jornalística. São Paulo: Summus, 1986.
WILLIAMS, R. Cultura e materialismo.São Paulo: Editora Unesp, 2005.
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