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Técnicas de Pesquisa, Entrevista e Reportagem Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Me. Flavia Daniela Pereira Delgado Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo • Jornalismo e Literatura: Um Pouco de História; • O Conceito de Literariedade; • O que é Livro Reportagem; • Tipos de Livro Reportagem. • Dotar discentes sobre as possibilidades literárias do Livro Reportagem como experiência de ampliação da notícia e aprofundamento do Relato Jornalístico para além da Reportagem tradicional. OBJETIVO DE APRENDIZADO Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo Jornalismo e Literatura: Um Pouco de História Sejam bem vindos(as) a mais uma Unidade de nossa Disciplina! Desta vez, vamos mergulhar no universo dos Livros Reportagem e para isso precisamos entender as relações entre Jornalismo e Literatura. Tal como a Literatura, também o Jornalismo é um fenômeno indispensável na Cultura dos povos. Ambos desempenham papéis históricos e sociais e interferem na formação das consciências coletivas. Ao tratarmos sobre Livros Reportagem, nós nos depararemos com o entrelaça- mento desses gêneros. Ao estabelecer relação entre o Texto Jornalístico e o Literário, corre-se sempre o risco de embarcar numa contradição. Afinal, o Jornalismo lida com a apresentação objetiva dos fatos e a Literatura é o campo da pura invenção, em que o real pode ser um mero pretexto, ou nem isso. A obra de ficção transfigura o mundo das aparências, do senso comum, do empirismo, da Ciência e propõe novas realidades possíveis ou imaginadas. Por exemplo: para uma Reportagem, qualquer distorção dos acontecimentos é ina- ceitável, pois o jornalista tem um compromisso ético com a verdade. Sua função é in- formar o leitor de modo claro, isento e objetivo, registrando o ocorrido com exatidão. O escritor, por outro lado, tem objeti- vos mais ambíguos, de ordem estética e seu trabalho necessita de uma participa- ção ativa do leitor na decodificação dos jogos de Linguagem que manipula. Há distâncias, por vezes abissais, entre um Texto Literário e um Jornalístico. E há também textos que são exemplares, tanto no Jornalismo quanto na Literatura. Quem sabe o tempo seja um excelente parâmetro: no Jornalismo, o circunstan- cial, o histórico, o episódico, por vezes, é a força-motriz da matéria jornalística; na Literatura, o detalhe desnecessário, a força da Linguagem, o colorido da descrição, as contradições psicológicas de uma persona- gem podem bastar para uma narrativa. Figura 1 Fonte: iStock/Getty Images 8 9 Além de apresentarem características profundamente distintas entre os fins a que se destinam no Processo de Comunicação e suas maneiras de abordar os dados históricos, as próprias estruturas dos textos jornalísticos e literários também são muito diversas, talvez antagônicas. O imediatismo, a precisão e a imparcialidade, que são essenciais na Imprensa não fazem parte dos mecanismos de formatação de um texto de ficção. A redação de uma notícia segue padrões muitas vezes rígidos, definidos por cada veículo – Jornal, Revista, Internet, Televisão, Rádio – para uniformizar sua Linguagem diante de um leitor hipotético, formado a partir de uma média estatística ou de uma Pesquisa de Mercado. No terreno ficcional, vale a singularidade do discurso, a originalidade na constru- ção de situações e personagens e até mesmo certo estranhamento. Mas, no dia a dia de jornalistas e escritores, tais divisas não são tão definitivas e há um intercâm- bio que “contamina” ambos, de forma enriquecedora. Fundamental é nos lembrarmos de suas raízes, voltar ao ponto em que news (notícias) e novels (romances) se separam, dando origem a campos diferentes da Linguagem. Difícil precisar quando surge a definição da Literatura como um discurso exclu- sivamente ficcional, origem do modelo de romance moderno. Segundo Raymond Williams (1985), o processo de especialização literária é quem vai provocar uma distinção de outros tipos de escrita – Filosofia, Ensaio, História e Jornalismo. Mas é possível afirmarmos que o Jornalismo verdadeiramente “desgarrou-se” das Letras ao redor do século XVIII, na Europa, coincidindo com a aparição dos primeiros jornais organizados como empreendimentos capitalistas, no mesmo pe- ríodo em que são definidas as características modernas do Jornalismo: periodicida- de, atualidade, universalidade e publicidade (GROTH, 2011). É nessa época que o espaço no Jornal Diário – porta-voz da burguesia, então ascendente – ganhou prestígio e passou a influenciar a opinião pública. O conceito de liberdade de pensamento se desdobrou no exercício pleno da divulgação de informações e críticas, ampliando o interesse da sociedade pela ati- vidade jornalística. Os jornais viraram referência obrigatória para a tomada de decisões e para a formação do cidadão que vivia nas cidades. Era o único meio de comunicação e tinha um papel decisivo para o sucesso ou não de transmissão de informações so- cialmente relevantes. Escritores famosos como o inglês William Defoe (1660-1731), autor do clássico Robinson Crusoé e Victor Hugo (1802-1885), autor de Os Miseráveis, militaram na imprensa como polemistas, críticos e intelectuais engajados em causas sociais. 9 UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo Outros escritores tarimbados na Literatu- ra brasileira e mundial também trabalharam como jornalistas e tiveram suas obras ficcio- nais publicadas nos jornais, aos fragmentos. Eram os chamados romances-folhetim. As histórias publicadas por episódios no espaço de rodapé dos periódicos, os cha- mados feuilleton foi uma invenção de um editor francês para aumentar a vendagem dos jornais no século XIX. Honoré de Balzac publicou sua célebre co- letânea de costumes A Comédia Humana em folhetim. Em língua portuguesa, destaca- -se também Eça de Queiroz e Machado de Assis, que também publicaram suas obras pri- meiro em jornais e depois em forma de livro. Figura 2 Fonte: iStock/Getty Images No Brasil, a incursão de literatospelas redações foi constante a partir do século XIX. Mesmo num contexto de baixa alfabetização da população da época, a Imprensa se tornou uma poderosa instituição política, temida e cortejada pelas elites e seus governantes. Os grandes autores da época escreveram regularmente na imprensa: José de Alencar, Machado de Assis, Raul Pompeia, Lima Barreto, Olavo Bilac e Euclides da Cunha. Aliás, Os Sertões (1902) – resultado de uma longa reportagem de Euclides da Cunha como enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo sobre a Guerra de Canudos1 – é para muitos críticos não só a obra fundadora da Literatura brasileira contemporânea, como da nossa própria identidade cultural, além de configurar como o primeiro Livro Reportagem brasileiro, pois transcendeu o registro suposta- mente imediatista do noticiário. A tradição do escritor-jornalista se consolidou no Brasil no século XX: João do Rio, Graciliano Ramos, Carlos Drummond Andrade, João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Carlos Heitor Cony, Antônio Callado (que cobriu a Segunda Guerra Mundial e quase 20 anos depois assinou reportagens de impacto como em uma cobertura de Guerra do Vietnã para o Jornal do Brasil), por exemplo, tiveram participação destacada na Imprensa, não só especificamente como repórteres, mas também como editorialistas, cronistas, críticos etc. 1 A chamada Guerra de Canudos, Revolução de Canudos ou Insurreição de Canudos foi o confronto entre um movi- mento popular de fundo sociorreligioso capitaneado por Antônio Conselheiro e o Exército da República, que durou de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia, no Brasil. O episódio foi fruto de uma série de fatores como a grave crise econômica e social em que encontrava a região à época, historicamente caracterizada pela presença de latifúndios improdutivos, situação essa agravada pela ocorrência de secas cíclicas, de desemprego crônico; pela crença numa salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flage- los do clima e da exclusão econômica e social (Disponível em: .) 10 11 A lista na Literatura Mundial é imensa: George Orwell, Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marques, Marcio Vargas Llosa, Ernest Hemingway. Nos Estados Unidos, em meados do século XX, um movimento de reação às amarras do forma- lismo jornalístico ganhou fôlego com o nome de New Journalism. O objetivo era dar um enfoque mais imaginativo e lírico à reportagem, permitindo ao jornalista inserir- -se na narrativa, sem alterar a realidade da notícia. Assim, o jornal não seria mais um mero observa- dor e transmissor “frio” dos fatos, um seguidor de re- gras de Manuais de Redação, mas até mesmo um per- sonagem nas situações que descreve, que explora a sensibilidade do estilo próprio ao transmitir a notícia. Figura 3 – Cap a do livro reportagem de Antônio Callado, resultado de uma serie de reportagens como enviado especial do Jornal do Brasil ao confl ito no sudeste asiático em 1968 É preciso entender o contexto em que surge esse movimento. Na época, a televisão nos EUA era um veículo emergente e os jornais enfrentavam essa con- corrência e experimentavam queda nas vendagens. O jornalismo impresso, então, precisava buscar um diferencial. Além disso, o movimento é contemporâneo da contracultura e de todas as suas quebras de paradigmas comportamentais. Para alguns críticos2, a obra que inaugura o movimento é A Sangue Frio, do jornalista Truman Capote, publicada em 1965, e que conta a história da chacina de uma família no Kansas, interior dos Estados Unidos. Capote decidiu escrever sobre o assunto ao ler no jornal a notícia do assassinato da família, em 1959. A história foi publicada anos depois, em quatro partes, na revista The New Yorker. Além de narrar o extermínio do fazendeiro Herbert Clutter, de sua esposa Bonnie e dos filhos Nancy e Kenyon – uma típica família americana dos anos 1950, pacata e integrada à comunidade – o livro reconstitui a trajetória dos assassinos, que planejaram o crime acreditando que roubariam uma fortuna, mas não encontraram praticamente nada. Presos e condenados, ambos morreram na forca, em 1965. A Sangue Frio, rapidamente, tornou-se um sucesso por conta da intensa rela- ção que Capote estabeleceu com suas fontes. Além de passar mais de um ano na região de Holcomb, investigando e conversando com moradores, ele se aproximou dos criminosos e conquistou a confiança dos dois “meninos”, como costumava chamar os criminosos. 2 A origem do new journalism é bastante polêmica e inexata. Alguns afirmam que foi Truman Capote quem inaugurou o gênero, outros dizem que foi Gay Talese o inventor da “escola”, ao publicar, em 1960, uma série de reportagens na revista Esquire. 11 UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo Por seu estilo, que combina a precisão fac- tual com a força emotiva da criação artística, A sangue frio é um marco na história do Jor- nalismo e da Literatura dos Estados Unidos. Reflexão sutil sobre as ambiguidades do Sis- tema Judicial do país, o texto revela também o lado obscuro do chamado “sonho americano”. Em resumo: embora configurem gêneros textuais pertencentes a universos distintos e lancem mão de estratégias de comunicação específicas e, até mesmo, à primeira vista, diametralmente opostas (o texto jornalístico baseado na concisão, clareza e na objetivida- de dos fatos reais e a ficção, imersa na poéti- ca da linguagem, na fruição do imaginário e da fantasia), mirando de perto, talvez existam mais aproximações entre o Romance e Re- portagem do que se imagina. Figura 4 – O jornalista Truman Capote, em foto de 1959 Fonte: Wikimedia Commons Bulhões (2006) lembra que mesmo que sejam diferentes em sua essência, o desenvolvimento histórico do romance, em determinado ponto de sua evolução, encontrou um caminho de afinidades típicas do Jornalismo: Se desde a sua imprecisa gênese que remonta ao período medieval, o romance foi exclusivamente associado à frivolidade, à evasão, e à inve- rossimilhança narrativa, a partir de meados do século XIX seu estatuto se ampliará e se retificará, pois boa parte de suas realizações penetrará as camadas concretas, adversas e contemporâneas da vida social. Ao se transformar no século XIX em gênero ocupado com a concretude social e com o tempo em que ele é produzido, o romance demonstra um sentido de afinidade com a faina jornalística (BULHOES, 2006, p. 42). Um pouco mais sobre a discussão a respeito do limite entre Jornalismo e Literatura: https://youtu.be/qkVhbyGrV3IEx pl or O Conceito de Literariedade Um dos maiores atributos dos Jornalistas é o de serem testemunhas dos fatos e “tradutores” dos acontecimentos à Sociedade, por meio da imprensa. Para isso, a Reportagem demanda a necessidade de um repórter, no palco das ações dos acontecimentos, isto é, é necessária uma atitude individualizada, centra- da na figura do “eu” que reporta o que insinua a presença de marcas de pessoali- dade (subjetividade?) nessa forma expressiva: 12 13 É o que permite circunscrever a reportagem na viabilidade da realização de um estilo, ou seja, de uma forma verbal que comporta a marca da indi- vidualidade. Daí dizer-se que a reportagem é o ambiente mais inventivo da textualidade informativa. Na dilatação do evento noticioso, a reportagem pode estender-se como uma realização descritiva, na composição astucio- sa de um personagem ou na coloração de um cenário. Ou desdobrar-se plenamente na narratividade, em que estão implicados personagens em processo de mudança de estado. É desse modo que ela ensaia alguma proximidade com as realizações da prosa de ficção ou transporta marcas da própria literariedade (BULHÕES, 2006, p. 44). Entenda-se por literariedade, então, o conjunto de “marcas” do que é literário, que tem como padrões constituintes os seguintes elementos – que, veremos, não estão presentes no dia a dia do Jornalismo Informativo,mas encontramos nos Livros Reportagens, que “flertam” com a Literatura, que lançam mão de alguns recursos narrativos da ficção: 1. Subjetividade: não é proibido o “eu” do autor ou a primeira pessoa notar- se na narrativa; 2. Conotação poética: uso de fi guras de linguagem permitido em nome da riqueza do texto; 3. A criatividade acentuada: não há as mesmas amarras do texto objetivo exigido para construir o texto sob a forma de pirâmide invertida; 4. Estruturas gramaticais singulares: representações inovadoras na conca- tenação de ideias; 5. Imaginário ativado com tênues fronteiras entre fi cção e realidade: usado em alguns livros reportagens. Veremos que o Livro Reportagem constitui um tipo diferente de Jornalismo – feito de maneira mais aprofundada e crítica, mas também mais livre das amarras da objetividade do cotidiano do modelo das redações de veículos diários. Figura 5 Fonte: iStock/Getty Images 13 UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo As marcas de literariedade acima elencadas podem ser encontradas, portanto, nesse suporte. Vamos entender mais a respeito? O que é Livro Reportagem Avançar as fronteiras do Jornalismo para além dos limites convencionais que ele próprio impõe. É assim que Edvaldo Pereira Lima, no livro O que é livro reporta- gem, define esse produto jornalístico. Para Eduardo Belo, emprega exatamente o mesmo padrão técnico e de condu- ta, como se fosse outro meio jornalístico. E conceitua que: Livro reportagem é um instrumento aperiódico de difusão de informação de caráter jornalístico. Por suas características, não substitui nenhum meio de comunicação, mas serve como complemento a todos. É o veículo no qual se pode reunir a maior massa de informação organizada e contextuali- zada sobre um assunto e representa, também, a mídia mais rica – com ex- ceção possível do documentário audiovisual – em possibilidades para a ex- perimentação, uso da técnica jornalística, aprofundamento de abordagem e construção da narrativa (...). Tirando o fato temporal, já que em geral o veículo não comporta temas de caráter efêmero, todos os demais princípios podem ser aplicados e explorados intensamente. Forma, conteúdo e, em especial, dimensão consistem no conjunto de características que diferencia o jornalismo em livro praticado em outros meios (BELO, 2006, p. 41). O autor propõe, ainda, três características para essa modalidade: 1. Mergulho profundo nos fatos, personagens, situações: porque é o tipo de reportagem que tem sempre a pretensão de esgotar um assunto ou, ao menos, chegar muito perto disso. Por exemplo, Elio Gaspari e sua série so- bre os anos da Ditadura no Brasil (A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Encurralada, A Ditadura Derrotada) levou quase 20 anos para ser produzida, já que o autor consultou uma infinidade de documentos no Brasil e nos EUA, além de centenas de entrevistas; 2. Caráter não perecível, pelo menos de maior durabilidade do assunto: por não ser tão imediatista quanto à cobertura midiática, o Livro Reporta- gem normalmente abre espaço para abordagens diferentes, originais, cria- tivas, menos urgentes e mais aprofundadas. Biografias, temas históricos, perfis, memórias e relatos de grandes acontecimentos são os temas deste tipo de publicação. Por exemplo: biografias escritas por Ruy Castro (Anjo Pornográfico, Chega de Saudade, A noite do meu bem, Estrela Soli- tária, Ela é carioca) e Fernando Morais (Olga, Chatô, o rei do Brasil; Corações Sujos, Os últimos soldados da Guerra Fria); 14 15 3. Nível de detalhamento, profundidade e contextualização que outros veículos não conseguem oferecer com densidade, análise e conteúdo; por isso mesmo tem larga extensão, acima de 50 páginas impressas. Já Lima (2009, p. 28-9) lembra que, contemporaneamente, a Reportagem se apresenta sob diversos modelos distintos e, por isso, lembra do suporte livro como forma necessária para exploração ainda maior e necessária, tendo em vista a abor- dagem extensiva em termos de detalhes dos fatos. Para ele, o Livro Reportagem se distingue dos demais tipos de Livros por três características: quanto ao conteúdo, pois o objeto de abordagem é sempre o fac- tual e veracidade e verossimilhança são fundamentais; quanto ao tratamento: a lin- guagem jornalística tem preponderância, com uso de narrativa em terceira pessoa, função de linguagem referencial, além das qualidades textuais desejáveis jornalisti- camente: precisão, concisão, exatidão, clareza. Informações visuais como mapas, fotografias e diagramas também são utilizados. E, finalmente, quanto à função: informar, orientar, explicar ou denunciar. O pro- fessor Lima, em seu site, pontua que os Livros Reportagens são produtos intelectuais mais apurados e configuram a maior expressão do chamado Jornalismo Literário: Se o Jornalismo Literário tem como propósito compreender a realidade – assim entendemos, enquanto cabe ao jornalismo noticioso convencio- nal informar, simplesmente, em lugar da leitura efêmera e rápida que faz a imprensa diária, e em lugar da explicação racionalista apressada ou opinativa presente na maior parte da produção jornalística convencional, cabe a essa modalidade afastar-se desse papel importante, mas limitado, indo ao encontro de sua própria missão nobre. Essa consiste em ler o real de maneira ampla, buscando contextos, evitando julgamentos (espe- cialmente os apressados), caminhando para a conquista de discernimento amplo e pela elucidação dos acontecimentos e situações sociais sobre os quais debruça o seu olhar. Não cabe ao Jornalismo Literário limitar- -se, tampouco, à estreita ligação linear de causa-efeito que o melhor do jornalismo convencional procura estabelecer, à caça de explicações para o real. Louvável iniciativa da imprensa convencional, em alguns casos, mas insuficiente para o Jornalismo Literário, que ousa mais, embarca em horizontes intelectuais de maior envergadura. Disponível em . Alguns autores, na busca por um tema de um Livro Reportagem inovador, não conhecem limites, inclusive éticos, na busca por vieses ousados para apurar ele- mentos para compor a narrativa. É o caso do alemão Günter Wallraf, que já se fez passar por turco para mostrar o tratamento que a sociedade alemã dá aos imigrantes que acabam fazendo o trabalho literalmente sujo e braçal que a população germânica não quer fazer – e escreveu o livro Cabeça de Turco. Fez-se passar por outra pessoa para conseguir um emprego no Jornal Bild, um jornal sensacionalista de seu país e, assim, revelar os métodos desonestos usados 15 UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo pelo periódico nos bastidores de suas coberturas, o que supostamente confere aura de credibilidade e de “visão por dentro” do tema. Sobre tal tipo de estratégia, concordamos com Belo, quando ele pontua que: Não há dúvida que ao fazer jornalismo “participativo” e viver os perso- nagens, Walraff pode contar a história com muito mais profundidade – e também de um ponto de vista muito mais subjetivo. A discussão é sobre a validade desses métodos, quando há outros recursos. Alguns profissio- nais defendem que, quando não há outros meios, esses e outros recursos duvidosos do ponto de vista ético podem ser válidos. O argumento: o eventual dano causado pela manipulação da reportagem é menor que o provocado pelas pessoas ou situações que a matéria procura retratar. Seria uma espécie de violação de direitos em nome de direitos maiores (BELO, 2006, p. 72). O tema é polêmico e encontra vários detratores no Brasil, que inclusive condenam o uso de câmera escondida como outro recurso para obter material para grandes reportagens em livro ou vídeo. Conheça mais sobre o trabalho de Wallraff na entrevista que ele deu à CNN Espanhola. Carmen Aristegui / el periodista encubierto de Wallraff cabeza de turco / 29 enero 2016: https://youtu.be/sVTH3WSRm-EEx pl or Tipos de Livro Reportagem Boa parte dos Livros Reportagem,no Brasil, hoje, encaixa-se nas biografias – que parecem ser o subgênero mais popular entre o público leitor, tendo em vista a curiosidade do ser humano de conhecer a vida de pessoas que tenham obtido algum grau de notoriedade na Sociedade. Há, também, os livros dedicados ao Jornalismo Policial, como os produzidos por Caco Barcellos, como Abusado e Rota 66. A variedade de Livros Reportagens depende da linha temática e dos modos de tratamento narrativo. Aqui vamos adotar o critério de Lima (2009), que leva em consideração os obje- tivos narrativos da obra ao informar e a natureza do assunto tratado. Assim, propõe 13 tipos: 1. Livro Reportagem Perfil: evidencia o lado humano de uma personalidade, anônima ou pública, mas que personifica de alguma forma um grupo social e sua realidade; 16 17 2. Livro Reportagem Depoimento: é a reconstituição de um evento a partir do ponto de vista de uma testemunha ou do protagonista de um fato – com o objetivo de retratar de forma mais quente e movimentada os bastidores do fato; 3. Livro Reportagem Retrato: parece com o perfi l, mas, ao contrário dele, não centra na fi gura humana, mas numa Região Geográfi ca, um Setor da Sociedade, um segmento da Economia, uma Empresa, com o objetivo de esclarecer seus mecanismos de funcionamento, seus problemas ou complexidades; 4. Livro Reportagem Ciência: como o nome sugere, seu objetivo é a divul- gação científi ca em torno de um tema determinado; 5. Livro Reportagem Ambiente: tem ligação com causas ecológicas, am- bientalistas. Seus temas geralmente são ligados à conscientização para o cuidado com o Planeta e também sobre o equilíbrio entre homem e natu- reza, além da sustentabilidade. Seu tom pode variar do combativo e crítico ao didático; 6. Livro Reportagem História: trata de temas do passado, recente ou não, mas que, de alguma forma, conecta-se com o contexto atual, a fi m de criar uma conexão com os leitores do presente. Uma variante é o Livro Reportagem Empresarial, voltado ao mundo dos negócios. Há também outro subtipo, o Livro Reportagem Epopeia, que versa sobre temas do passado, mas com grande repercussão histórica; 7. Livro Reportagem Nova Consciência: versa sobre novas linhas de pen- samento, sejam sociais, culturais, econômicas e religiosas a partir do movi- mento da contracultura e aproximações da cultura ocidental com o oriente; 8. Livro Reportagem Instantâneo: temas que, recém-ocorridos, que ainda estão “frescos”, na mente da opinião pública, contudo, abordam novos contornos ou aprofundamentos. E não se deixam pautar por elementos de efemeridade; 9. Livro Reportagem Atualidade: diferencia-se do instantâneo, na medida em que também trabalha um factual; porém, seus desdobramentos fi nais ainda não são conhecidos, procurando traçar as forças em confl ito que podem determinar o seu desfecho; 10. Livro Reportagem Antologia: é a coletânea de reportagens agrupadas sob diferentes critérios, já publicadas na mídia diária ou até mesmo em outros livros. Pode ser a produção de um só autor ou de vários autores que tratem de um só tema ou que se encaixem num mesmo gênero jornalístico ou uma categoria da prática jornalística (opinativo, interpretativo); 11. Livro Reportagem Denúncia: a partir de uma proposta investigativa, constitui um protesto contra injustiças, desmandos, abusos cometidos por alguns setores da Sociedade, focalizando casos marcados por escândalos; 17 UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo 12. Livro Reportagem Ensaio: nesse tipo de livro ficam patentes marcas de subjetividade, ou seja, da voz do seu autor (foco narrativo em primeira pessoa), suas opiniões, de forma a conduzir o leitor a compartilhar de seu próprio ponto de vista; 13. Livro Reportagem Viagem: o fio condutor é uma viagem a uma deter- minada Região Geográfica para retratar aspectos sociológicos, históricos. Não é uma reportagem turística, pois tem preocupação com exame de possíveis conflitos – políticos, econômicos, religiosos, sociais – sob uma ótima crítica e jornalística. É importante escapar de narrativas marcadas pelo exotismo, pelo pitoresco. Essa classificação não pretende ser uma camisa de força; apenas uma tentativa de compreender a vasta gama de possibilidades de produção do jornalista que se dedique a esse tipo de produção. Na listagem de leituras complementares, você vai encontrar vários livros diferentes que se encaixam em cada uma dessas modalidades. Sugiro a leitura! Espero que tenha gostado desta Unidade. Vamos nos encontrar nas aulas em vídeo. Até a próxima! 18 19 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Callado Repórter: Tempo de Arraes e Vietnã do Norte CALLADO, A. Callado Repórter: Tempo de Arraes e Vietnã do Norte. Rio de Janei- ro: Agir, 2005. O Anjo Pornográfico CASTRO, R. O anjo pornográfico. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Estrela Solitária CASTRO, R. Estrela solitária. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. A Sangue Frio CAPOTE, T. A Sangue Frio. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. Hiroshima HERSEY, J. Hiroshima. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Olga MORAIS, F. Olga. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Os dez dias que abalaram o mundo REED, J. Os dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Fama e Anonimato TALESE, G. Fama e Anonimato. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Cabeça de Turco WALRAFF, G. Cabeça de turco. Rio de Janeiro: Globo, 2004. Sangue nas Veias WOLFE, T. Sangue nas Veias. São Paulo: Rocco, 2013. 19 UNIDADE Livro Reportagem: Liberdade e Literariedade no Jornalismo Referências ALTMANN, F. A arte da entrevista. São Paulo: Boitempo, 2004. AMARAL, L. Jornalismo: Matéria de primeira página. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. BAHIA, J. História da Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2015. BELO, E. Livro Reportagem. São Paulo: Contexto, 2006. BIAL, P. Crônicas de Repórter. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996. BULHOES, M. Jornalismo e Literatura em convergência. São Paulo: Ática, 2007. CAPUTO, S. G. Sobre entrevistas: teoria, prática e experiências. Petrópolis: Vozes, 2015. DANTAS, A. Tempo de Reportagem. São Paulo: Leya, 2012. ERBOLATO, M. L. Técnicas de Codificação em Jornalismo. São Paulo: Ática, 1991. FOLHA de São Paulo. Manual de Redação. São Paulo: Publifolha, 2010. FLORESTA, C; BRASLAUKAS, L. Técnicas de Reportagem e entrevista: roteiro para uma boa apuração. São Paulo: Saraiva, 2009 FUSER I. A arte da Reportagem. São Paulo: Scritta, 1996. GROTH, O. O poder cultural desconhecido: fundamento das ciências dos jornais. Petrópolis: Vozes, 2011. LAGE, N. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2005. ________. Estrutura da notícia. São Paulo: Ática, 2006. ________. Teoria e técnica do texto jornalístico. São Paulo: Elsevier, 2005 LIMA, E. P. Páginas Ampliadas: o livro reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Barueri: Manole, 2009. ________. O que é Livro Reportagem. São Paulo: Brasiliense, 1993. MARCONDES FILHO, C. A saga dos cães perdidos. São Paulo: Hackers Editores, 2000. MELO, J. M. de. A opinião no Jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1994. MORIN, E. A entrevista nas Ciências Sociais, no rádio e na televisão. In: Cadernos de Jornalismo e Comunicação. Rio de Janeiro, nº 11, 1968. OYAMA, T. A arte de entrevistar bem. São Paulo: Contexto, 2012. 20 21 PAULA, L. da S. Teoria da Literatura. Curitiba: IBPEX, 2012. PEREIRA JUNIOR, L. C. A apuração da notícia: métodos de investigação na imprensa. Petrópolis: Vozes, 2010. PINTO, A. E. de S. Jornalismo diário: reflexões, recomendações, dicas, exercícios. São Paulo: Publifolha, 2009. SODRE, M. A narração do fato: notas para uma teoria do acontecimento. Petrópolis: Vozes, 2009. SODRE, M; FERRARI, M. H. Técnica de Reportagem: notas sobre narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986. WILLIAMS, R. Cultura e materialismo.São Paulo: Editora Unesp, 2005. 21