Prévia do material em texto
Inserir Título Aqui Inserir Título Aqui Sistema Único de Saúde: Legislação e Políticas Públicas O Sistema Único de Saúde (SUS) Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Me. Luciana Nogueira Revisão Textual: Prof.ª Esp. Aline Gonçalves Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos: • Introdução; • Estruturação Legal do SUS (Arcabouço Legal); • A Saúde na Constituição; • O SUS; • Fundo Nacional de Saúde (FNS); • Serviços Privados de Assistência à Saúde. Objetivo • Apresentar o sistema único de saúde, seus princípios e estrutura. Caro Aluno(a)! Normalmente, com a correria do dia a dia, não nos organizamos e deixamos para o último momento o acesso ao estudo, o que implicará o não aprofundamento no material trabalhado ou, ainda, a perda dos prazos para o lançamento das atividades solicitadas. Assim, organize seus estudos de maneira que entrem na sua rotina. Por exemplo, você poderá escolher um dia ao longo da semana ou um determinado horário todos ou alguns dias e determinar como o seu “momento do estudo”. No material de cada Unidade, há videoaulas e leituras indicadas, assim como suges- tões de materiais complementares, elementos didáticos que ampliarão sua interpre- tação e auxiliarão o pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois estes ajudarão a verificar o quanto você absorveu do conteúdo, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. Bons Estudos! O Sistema Único de Saúde (SUS) Fonte: Getty Im ages UNIDADE O Sistema Único de Saúde (SUS) Contextualização Nesta unidade, abordaremos a estrutura do Sistema Único de Saúde, desde sua inclusão na Constituição de 1988 como um direito de todos e dever do Estado. Va- mos entender os princípios que regem o Sistema Único de Saúde e sua organização. Longe de esgotar um assunto tão amplo, é importante que você estude o conteúdo apresentando e acesse os materiais complementares. Seja proativo e bom estudo! Antes de iniciar nosso estudo, vamos assistir a um vídeo da Série SUS e outro elaborado pela Universidade Federal de Goiás, para refletir sobre a estruturação do Sistema Único de Saúde. Por que o SUS hoje é assim? Disponível em: https://youtu.be/wV_SPOJfqgk SUS – Sistema Único de Saúde. Disponível em: https://youtu.be/_GKse_BCAWU 6 7 Introdução “A saúde é um direito de todos e dever do Estado”. Ouvimos essa frase tantas vezes que ela já faz parte da memória de grande parte das pessoas, mas muitos não sabem que ela está em nossa constituição e é o alicerce de nosso Sistema Único de Saúde. Isso mesmo, quando foi colocado na constituição que a saúde é um “dever do Estado”, o governo passou a ser responsável pela saúde no Brasil. Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido me- diante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988) Estruturação Legal do SUS (Arcabouço Legal) A partir da Constituição de 1988, diversas leis e decretos foram publicados para estruturar essas ações em saúde. Não vamos abordar todos em nosso material, mas segue uma lista para que você possa se aprofundar no assunto: • Decreto 1.651/95: Regulamenta o sistema de auditoria no âmbito do Sistema Único de Saúde ; • Lei 80.080/90: Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recupe- ração da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes ; • Lei 8.142/90: Dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do SUS e sobre as transferências de recursos ; • Lei 9.836/99: Altera a Lei 8.080/90 ; • Lei 10.424/2002: Altera a Lei 8.080/9 0; • Lei 11.108/2005: Altera a Lei 8.080/90 ; • Decreto 7.508/11: regulamenta alguns aspectos sobre a organização do Siste- ma Único de Saúde – SUS, o planejamento da saúde, a assistência à saúde e a articulação interfederativa ; • Lei 12.401/2011: Altera a Lei 8.080/9 0; • Lei 12.466/2011: Altera a Lei 8.080/90 ; • Lei complementar 141/2012: Regulamenta o § 3º do art. 198 da Constituição Federal para dispor sobre os valores mínimos a serem aplicados anualmente pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios em ações e serviços públicos de saúde ; • Lei 12.864/2013: Altera a Lei 8.080/90 ; 7 UNIDADE O Sistema Único de Saúde (SUS) • Lei 12.895/2013: Altera a Lei 8.080/90 ; • Lei 13.097/2015: Altera a Lei 8.080/90 ; • Lei 13.427/2017: Altera a Lei 8.080/90. Vamos nos aprofundar na Lei 8.080, que é o alicerce do nosso sistema de saúde. A Saúde na Constituição Como foi dito no começo da unidade, a partir de 1988, a saúde passou a ser um direito de todos e um dever do Estado. O texto ainda descreve que são de relevância pública as ações e os serviços em saúde, e o governo deve regula- mentar, fiscalizar e controlar essas atividades (que podem ser terceirizadas ou feitas diretamente). Esses serviços de saúde devem ser organizados formando uma rede regionalizada e hierarquizada, porém constituem um Sistema Único de Saúde, que deve ser orga- nizado conforme as diretrizes a seguir: • I – O sistema único deve ser descentralizado, com direção em cada esfera do governo. • II – O atendimento deve ser integral, priorizando atividades de prevenção, sem deixar de lado as atividades de assistência. • III – Deve haver participação da comunidade. O financiamento do sistema de saúde será com os recursos vindos da seguridade social de todos os entres da federação e de outras fontes, como multas, inspeções etc. Vale ressaltar que, quando dizemos “Sistema Único de Saúde”, estamos abran- gendo tanto as empresas públicas quanto as privadas, pois a assistência à saúde é livre à iniciativa privada, que deve atuar complementando as ações do Sistema Único de Saúde. Ao definir a atuação dessas empresas, têm preferência as enti- dades sem fins lucrativos e filantrópicas. A constituição determina ainda as seguintes atribuições ao Sistema Único de Saúde: • Controle e fiscalização de: procedimentos, produtos e substâncias como os me- dicamentos, equipamentos, imunobiológicos, hemoderivados ou outras de inte- resse à saúde ; • Ações em vigilância sanitária e epidemiológica ; • Saúde do trabalhado ; • Educação em saúde e capacitação dos recursos humanos ; • Estabelecer políticas para saneamento básico ; • Incentivar o desenvolvimento científico e tecnológico ; • Fiscalização de alimentos, bebidas e águas para consumo humano ; 8 9 • Controle e fiscalização de todas as etapas que envolvem substâncias psicoativas, tóxicas e radioativas (armazenamento, transporte, utilização, descarte etc.) ; • Proteção do meio ambiente. Conheça a saúde na Constituição lendo os artigos 196 a 200. Disponível em: https://bit.ly/2FZzcP7 Lei Orgânica do SUS ou Lei Orgânica da Saúde – Lei 8.080, de 19 de setembro de 1990 A Lei Orgânica apresenta as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde. Aborda também os requisitos para a organização e o funcionamento dos serviços de saúde e está dividida em títulos, organizados conforme a Figura 1. O Sistema Único de Saúde (SUS) é constituído pelo conjunto das ações e de serviços de saúde sob gestão pública. Está organizado em redes regio- nalizadas e hierarquizadas e atua em todo o território nacional, com dire- ção única em cada esfera de governo. O SUS não é, porém, uma estrutura que atua isolada na promoção dos direitos básicos de cidadania. Insere-se no contexto das políticas públicas de seguridade social, que abrangem, além da Saúde, a Previdência e a Assistência Social. (CONASS, 2011). Vale ressaltar que essa regulamentação é válida para qualquer atividade em saúde no País, apesar de seu foco estar nos serviços sob gestão pública, é prevista a parti- cipação de empresas privadas, que devem seguir a mesma regulamentação. Cap. I: Objetivos- Atribuições Cap. II: Princípios - Diretrizes Título I Disposições Gerais Lei 8.080/90 Título II Do SUS Título III Serviços privados de assistência Título IV Recursos Humanos Título V Finaciamento Disposições �nais Cap. III: Organização, direção, gestão Cap. IV: Competência, atribuições Cap. V: Saúde indígena Cap. VI: Internação domiciliar Cap. VII: Parto e pós-parto Cap. VIII: Incorporação de tecnologia Cap. I: Funcionamento Cap. II: Participação Complementar Cap. I: Recursos Cap. II: Gestão �nanceira Cap. III: Planejamento orçamento Figura 1 – Organização da Lei 8.080/90 9 UNIDADE O Sistema Único de Saúde (SUS) No início do texto da Lei 8.080, nas disposições gerais, a legislação retoma o que já está descrito na Constituição, citando no artigo 2º: “A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensá- veis ao seu pleno exercício”, e complementa no artigo 3º, citando os determinan- tes e condicionantes da saúde, os quais citaremos a seguir. Determinantes e Condicionantes da Saúde São diversos os fatores que influenciam os processos saúde e doença. Esses fato- res são chamados de determinantes e condicionantes, e, segundo a Lei 8.080/90, é objetivo do SUS sua identificação e divulgação. A definição dos determinantes e condicionantes da saúde é um assunto que vem sendo discutido bem antes da criação da Lei do SUS, desde a década de 1970, tendo seu ponto alto na conferência de Alma-Ata. Na Lei Orgânica do SUS, estão definidos os seguintes determinantes e condicionantes: • Alimentação; • Moradia; • Saneamento básico; • Meio ambiente; • Trabalho e renda; • Educação; • Atividade física; • Transporte; • Lazer; • Acesso aos bens e serviços essenciais. Figura 2 – Determinantes sociais: modelo de Dahlgren e Whitehead Fonte: Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (UNASUS) 10 11 A importância dos determinantes sociais de saúde é enorme, pois demonstra que não basta avaliar somente as doenças que acontecem em certa população, mas que influencia todo o processo de saúde do ponto de vista individual e coletivo. Ao se relacionar fatores como habitação e saneamento, entre outros, aos fatores que influenciam a saúde, estabelece-se uma necessidade de trabalho intersetorial com as diversas áreas de administração pública, bem como a necessidade de políticas de atuação bem definidas. Assista ao vídeo a seguir, sobre os Determinantes Sociais de Saúde, para revisar os conceitos sobre o tema: https://youtu.be/bVmc-gngyVI O SUS O Sistema Único de Saúde (SUS) é formado pelo conjunto de ações e serviços de saúde que são prestados pelas instituições públicas das diversas esferas do governo, podendo estar sob gestão direta ou indireta de Poder Público. As empresas privadas podem participar do SUS de forma complementar, e possuem prioridade as empre- sas filantrópicas e sem fins lucrativos. A atuação de forma complementar, de que trata o texto, refere-se à atuação das empre- sas privadas, que podem prestar serviços ao SUS. Essa situação é prevista nos casos em que a administração direta não tenha possibilidade de ofertar esses serviços ou oferte de modo incompleto. Mas o que significa administração direta ou indireta? A administração pública pode ser feita de forma direta ou indireta. Chamamos de direta quando as ações são realizadas diretamente pelos órgãos de saúde, e indiretas quando realizadas por outros segmentos, conforme esquema a seguir: Administração Direta Administração indireta Ministérios Autarquias Secretarias do Governo e unidades Fundações Empresas públicas Sociedades de economia mista Administração pública Figura 3 – Administração Pública 11 UNIDADE O Sistema Único de Saúde (SUS) Por exemplo: O ministério da Saúde é considerado administração direta, já a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é uma autarquia, portanto, administração indireta (falaremos mais sobre a Vigilância Sanitária e Anvisa nas próximas unidades). Conheça a estrutura organizacional básica do Ministério da Saúde. Disponível em: https://bit.ly/3kKRse9 Fazem parte dessas instituições, além dos serviços de saúde diretos (hospitais, clíni- cas, pronto atendimentos etc.), as instituições de pesquisa, controle de qualidade, insu- mos e equipamentos para saúde, medicamentos, bancos de sangue e hemoderivados. Objetivos e Atribuições do SUS Descritos no artigo 5º, os objetivos do SUS são: I – Identificar e divulgar os fatores condicionantes e determinantes da saúde (conforme dissemos anteriormente). II – Formulação de política de saúde. III – Ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, ações de assistências e de prevenção. Nesse artigo, é possível verificar a missão do SUS e, apesar de estarem divididos em tópicos, estão unidos em seu resultado final. Ao se identificar o que influencia no estado de saúde das populações, é possível formular políticas, respeitando o regionalismo, as necessidades locais e a integralidade, e essas políticas podem ser tanto assistenciais (considerando a necessidade de atendimento nos diversos níveis de complexidade) quanto ações preventivas (educação em saúde, prevenção de agravos, saneamento básico, vacinação etc.). São campos de atuação do SUS as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, a saúde do trabalhador e a assistência terapêutica integral, inclusive assistência farmacêu- tica (e política de medicamentos e insumos de interesse à saúde). Também estão nessa lista as ações de treinamento dos envolvidos (formação de recursos humanos), orientação alimentar e vigilância nutricional, meio ambiente, pesquisa e desenvolvimento. As atribuições relativas ao controle e à fiscalização de ações em saúde envolvem todos os produtos e serviços de interesse para saúde, entre eles, medicamentos, alimentos, água e outras bebidas, substâncias psicoativas, substâncias tóxicas e pro- dutos radioativos. Esse controle se aplica a todas as etapas: produção, transporte e armazenamento, uso e descarte. A vigilância em saúde apresenta diversos aspectos e tem como objetivo monitorar a situação de saúde da população, controlando os riscos e danos e outros determi- nantes de saúde, o controle e a vigilância sobre doenças transmissíveis e doenças e agravos não transmissíveis, a vigilância ambiental e da saúde dos trabalhadores e ações de vigilância sanitária, atuando em inspeção e licenciamento de empresas de saúde e ambientes. 12 13 A Política Nacional e Vigilância em Saúde (Resolução CNS 588/2018) tem como objetivo di- recionar as ações de vigilância em saúde para a União, os estados, Distrito Federal e muni- cípios. Nela, estão descritos as responsabilidades, os princípios e diretrizes e as estratégias para a execução das ações em vigilância em saúde. Disponível em: https://bit.ly/3ctGiYm Quadro 1 – Objetivos de cada segmento da Vigilância em Saúde Segmento da Vigilância em Saúde Objetivos/ação Vigilância Sanitária Eliminar, reduzir ou prevenir riscos à saúde. Intervir em problemas sanitários em qualquer aspecto (meio ambiente, produção de bens ou serviços). Vigilância Epidemiológica Controle e estudo sobre a ocorrência de doenças e agravos. Determinação de ações para prevenir e controlar sua incidência. Saúde do Trabalhador Ações de promoção e proteção da saúde do trabalhador, recuperação e reabilitação de incidentes de trabalho e avaliação do impacto das tecnologias na saúde do trabalhador. Em resumo, a Vigilância Sanitária abrange o controle de produtos e da prestação de serviços que se relacionem à saúde humana. A vigilância epidemiológica abrange o acompanhamento e o estudo da ocorrência de doenças e agravos com o objetivo de propor ações para intervenção e controle, e Saúde do Trabalhador considera as diversas dimensões do trabalho e como ela influencia a saúde dos trabalhadores. Outras competências do SUS: • Formulação da política e execução de ações de saneamento básico; • Vigilância nutricional e orientaçãoalimentar; • Formulação de uma política de medicamentos; • Controle e fiscalização de serviços, produtos e substâncias para saúde; • Incremento do desenvolvimento científico e tecnológico; • Formulação e execução da política de sangue e derivados. Princípios e Diretrizes Detalharemos um pouco mais este item, pois, além de ser a base da constru- ção do Sistema Único de Saúde, é um dos assuntos mais solicitados em concursos públicos na área da saúde. Foram descritos, inicialmente, 13 princípios, sendo um adicionado em 2013, com a redação atualizada em 2017 pela Lei 13.427/17. Segundo o artigo 7º, são princípios do SUS: I – universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência; II – integralidade de assistência, entendida como conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema; 13 UNIDADE O Sistema Único de Saúde (SUS) III – preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral; IV – igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie; V – direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde; VI – divulgação de informações quanto ao potencial dos serviços de saúde e a sua utilização pelo usuário; VII – utilização da epidemiologia para o estabelecimento de prioridades, a alocação de recursos e a orientação programática; VIII – participação da comunidade; IX – descentralização político-administrativa, com direção única em cada esfera de governo: a) ênfase na descentralização dos serviços para os municípios; b) regionalização e hierarquização da rede de serviços de saúde; X – integração em nível executivo das ações de saúde, meio ambiente e saneamento básico; XI – conjugação dos recursos financeiros, tecnológicos, materiais e hu- manos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios na prestação de serviços de assistência à saúde da população; XII – capacidade de resolução dos serviços em todos os níveis de assistência; XIII – organização dos serviços públicos de modo a evitar duplicidade de meios para fins idênticos. XIV – organização de atendimento público específico e especializado para mulheres e vítimas de violência doméstica em geral, que garan- ta, entre outros, atendimento, acompanhamento psicológico e cirurgias plásticas reparadoras, em conformidade com a Lei nº 12.845, de 1º de agosto de 2013 . (BRASIL, 1990) Para fins didáticos, agrupamos, no quadro a seguir, os mais importantes, se- parados em princípios éticos/doutrinários e princípios organizativos. Os princípios doutrinários apresentam a base ideológica, ou seja os valores que devem fazer parte de um sistema de saúde, já os princípios organizativos se relacionam com a estrutu- ração/organização das ações. Quadro 2 – Princípios doutrinários e organizativos Princípios Doutrinários • Universalidade; • Equidade; • Integralidade. Princípios Organizativos • Regionalização; • Hierarquização; • Descentralização; • Controle Social. 14 15 • Universalidade: Todos têm direito ao SUS, sem distinção ou restrição e sem custo, mesmo que a pessoa tenha algum plano de saúde privado ; • Equidade: Apesar de ser um termo muito confundido com igualdade, não é o mesmo conceito. A equidade determina que todas as pessoas tenham o mesmo direito em saúde, mas respeitando suas necessidades individuais. É comum ouvirmos a seguinte definição: “é proporcionar às diferentes pessoas os mesmos direitos” ; Diferença entre igualdade e equidade: https://bit.ly/30pfN1u • Integralidade: É proporcionar o atendimento “integral” ao usuário, desde ações de promoção e prevenção até o tratamento e reabilitação, com foco no indivíduo e na família e sua inserção na comunidade ; • Regionalização: Modo de organização do SUS que se baseia no território e na distribuição populacional, distribuindo os serviços de saúde de forma que atenda aos usuários o acesso universal, com equidade, otimizando e racionalizando o uso dos recursos e os gastos ; • Hierarquização: É a forma de organização dos serviços de saúde em níveis de atenção, de acordo com a complexidade e densidade tecnológica necessária, formando uma rede de atendimento para atuar com a referência e contrarre- ferência dos serviços prestados. Veja, no esquema a seguir, um exemplo do funcionamento do atendimento em níveis de atenção ; Figura 4 – Atendimento em níveis de atenção Fonte: Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS) • Descentralização: Antes do SUS, as decisões em saúde eram centralizadas no governo federal. Com a descentralização, há a transferência de responsabilidade na gestão dos recursos aos municípios e estados. As responsabilidades de cada membro da federação estão descritas em regulamentação ; 15 UNIDADE O Sistema Único de Saúde (SUS) • Controle Social: É a garantia da participação social no SUS, que se concretizou com a criação dos Conselhos e Conferências de Saúde, os quais abordare- mos mais adiante. Assistam aos vídeos da Série SUS: • Por que o SUS hoje é assim? Disponível em: https://youtu.be/wV_SPOJfqgk • Você já ouviu falar bem do SUS? Disponível em: https://youtu.be/C2YRU_lvW4Y • Os princípios do SUS. Disponível em: https://youtu.be/PzVxQkNyqLs Organização, Direção e Gestão do SUS Para que um sistema “único” de saúde tenha seu funcionamento, é necessária uma organização bem estruturada, a partir de um elemento direcionador e uma articulação eficiente entre as unidades. É uma atividade complexa, ainda mais consi- derando que o Brasil é um país de dimensão continental, que possui especificidades regionais bem características. Para essa organização, a Lei 8.080 determina dois princípios estruturantes: a regionalização e a hierarquização, modificando o modo centralizado de atuação que ocorria antes dessa regulamentação, com as ações direcionadas pelo governo federal e os serviços aos trabalhadores que contribuíam com o sistema previdenciário. As ações e serviços de saúde, executados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), seja diretamente ou mediante participação complementar da ini- ciativa privada, serão organizados de forma regionalizada e hierarqui- zada, em níveis de complexidade crescente. (Artigo 8º, Lei 8.080/90, grifos nossos) Com a descentralização e a regionalização, há a possibilidade de apoio mútuo entre os municípios, organização dos fluxos e estratégias de acesso, e ainda reduzir os gastos e melhorar o uso dos recursos. O objetivo é, portanto, reduzir a desorga- nização decorrente da liberdade das instituições que optam por formas diferentes de trabalho e usuários que buscam os serviços de acordo com seus interesses, a partir da introdução de regras para acesso aos serviços disponíveis, que devem ser seguidas tanto pelos profissionais de saúde na execução das rotinas e procedimentos adotados, quanto pelos usuários. É uma decisão estratégica muito importante para evitar que aqueles que realmente necessitam de serviço especializados não fiquem sem atendimento. Uma forma de padronização do atendimento é a criação de protocolos e diretrizes clínicas para atendimento a doenças mais recorrentes, porém os profissionais de saúde possuem autonomia para adaptar o serviço para situações específicas não previstas, devendo justi- ficar esses casos. Para organização desse acesso, o sistema de saúde está estruturado nos cha- mados níveis de atenção, que racionaliza o atendimento considerando os aspectos 16 17 econômicos, organizacionais e tecnológicos, e considera a distribuição dos proble- mas de saúde (priorizando o atendimento dos problemas mais frequentes). Os níveis de atenção são organizados de acordo com a complexidade do atendimento para garantir a integralidade do atendimento. No nível primário ou básico estão os centros de saúde, unidades básicas de saú- de e consultórios (incluindo a assistência domiciliar);no nível secundário, temos os hospitais gerais e ambulatórios especializados; e no nível terciário, os hospitais espe- cializados para atendimentos de grande complexidade. A definição dos serviços que estarão em cada um dos níveis tem base na tecnologia do material (equipamentos para diagnóstico e terapêutica), na capacitação da equipe multiprofissional e no perfil de morbidade da população local. De modo geral, no nível primário estão os serviços que requerem menor tecno- logia (aparelhos de raio X, eletrocardiógrafo, ultrassom etc.) e o atendimento é feito por profissionais de formação geral, com objetivo de atender os problemas mais prevalentes da população. A ênfase é na prevenção com abordagem familiar. Vamos falar com mais detalhes sobre a atenção primária nas próximas unidades. No nível secundário, encontramos equipamentos mais tecnológicos, que geral- mente necessitam de profissionais capacitados para operação, e encontramos espe- cialidades, como cirurgia, em geral, atendendo os casos que não podem ser sanados no nível primário. Algumas especializadas transitam entre os dois primeiros níveis, lembrando que o objetivo é atender os problemas mais prevalentes. No atendimento terciário, temos equipamentos avançados, como ressonância magnética e a tomografia por emissão de pósitrons, com necessidade de profissio- nais com grande capacitação e especialização. São exemplos de atendimentos nesse nível a oncologia, nefrologia pediátrica, neurocirurgia etc. Para integrar o atendimento entre os níveis e organizá-lo, utiliza-se o sistema de referência ou contrarreferência. A atenção primária recebe os atendimentos e orga- niza o fluxo de atendimentos a partir da identificação dos problemas e encaminha- mento aos devidos níveis (referência). Portanto, podemos dizer que esse encami- nhamento é realizado partindo nos níveis mais básicos ao mais complexo. Após o atendimento, o acompanhamento do paciente volta a ser realizado pelos níveis mais básicos (contrarreferência). Como foi dito, o sistema de saúde é descentralizado, portanto os estados e municípios possuem autonomia na divisão desses atendimentos nos diversos níveis de complexidade, bem como na definição dos procedimentos para a refe- rência e contrarreferência. Descentralização é a transferência de serviços da esfera federal para a estadual e deste para a esfera municipal. Outro ponto que não podemos deixar de citar quando falamos da organização do SUS são as responsabilidades e a forma de transferência de recursos. Cada esfera do governo deve destinar parte de seus cursos para financiar ações e serviços do 17 UNIDADE O Sistema Único de Saúde (SUS) SUS, uma determinação da Constituição Federal de 1988. A Lei Complementar 141/2012 determinou os valores mínimos que deveriam ser aplicados pelas esferas do governo em ações e serviços públicos de saúde e estabelece critérios para rateio dos recursos, e algumas emendas constitucionais fizeram alterações, conforme tabela a seguir. Tabela 1 – Alterações por meio de emendas constitucionais Municípios Estados União Desde 2000 Desde 2000 De 2000a 2015 a partir de 2015 2017 a partir de 2018 EC 29/2000 EC 29/2000 EC 29/2000 EC 86/2015 EC 95/2016 EC 95/2016 15% transferências legais e constitucionais e impostos diretamente arrecadados 12% transferências legais e constitucionais e impostos diretamente arrecadados Valor empenhado no ano anteriror + variação do PIB Ano Base RCL Ano Base RCL Base: gasto ano anterior 2016 13,20% - - Valor gasto no ano anterior + IPCA 2017 13,70% 2017 15,00% 2018 14,10% - - 2019 14,50% - - 2020 15,00% - - Fonte: Adaptado de i9treinamentos Os repasses do Ministério da Saúde ao DF, Estados e Municípios são realizados por blocos de financiamento, e esses recursos só poderão ser utilizados para finan- ciar as ações relacionadas ao próprio bloco: • Bloco de Custeio das Ações e Serviços Públicos de Saúde; e • Bloco de Investimento na Rede de Serviços Públicos de Saúde. As ações que serão realizadas nos blocos devem estar descritas no Plano Muni- cipal de Saúde e no planejamento anual do munícipio, devendo ser submetidas ao Conselho de Saúde. Participação da comunidade na gestão do SUS A participação da comunidade na gestão do SUS é regulamentada pela Lei 8.142, de 28 de dezembro de 1990, que dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do SUS e trata das transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde. As instâncias colegiadas envolvidas são as Conferências de Saúde e os Conse- lhos de Saúde, que possuem organização e normas de funcionamento definidas e aprovadas. A Conferência de Saúde tem representantes dos diversos segmentos sociais e se reúne a cada quatro anos para avaliar o sistema de saúde e propor políticas e ações em saúde. Os Conselhos de Saúde são instâncias colegiadas que o SUS poderá contar, são permanentes e formadas por representantes do governo, prestadores de serviço, 18 19 profissionais de saúde e usuários, sendo a participação dos usuários paritária em relação aos outros segmentos. Temos: • Conass: Conselho Nacional de Secretários de Saúde ; • Conasems: Conselhos Nacional de Secretários Municipais de Saúde. Os conselhos de saúde atuam controlando o cumprimento das políticas de saúde e na elaboração de estratégias que envolvem os serviços da área, envolvendo os as- pectos econômicos e financeiros. As decisões sobre as estratégias elaboradas cabem ao responsável em cada esfera do governo. Saiba mais sobre o Conass e o Conasems nos sites institucionais. Além de ter acesso à his- tória, ao regulamento e a outros documentos institucionais, é possível fazer o download de diversos conteúdos técnicos de ótima qualidade: • Conass: https://bit.ly/365arvJ • Conasems: https://bit.ly/305GUyf Fundo Nacional de Saúde (FNS) O Fundo Nacional de Saúde foi instituído em 1969 e é o gestor financeiro dos recursos destinados ao SUS na esfera federal. Os recursos reservados no FNS são repassados automaticamente aos estados, Distrito Federal e municípios para que possam realizar as ações descentralizadas de serviços de saúde, investimentos nos serviços de saúde e na cobertura assistencial e hospitalar. De onde vem o dinheiro do SUS? Disponível em: https://youtu.be/_fiU39spf-c A receita do FNS é composta pelos recursos do seguro DPVAT, ressarcimento das operadoras dos planos de saúde, seguridade social e outras fontes. São modalidades de transferência de recursos: • Fundo a fundo (do fundo nacional para o fundo de saúde, contas específicas estaduais/municipais); • Convênios; • Contratos de repasses; • Termos de cooperação. Para receber os recursos dos fundos de saúde, os municípios deverão ter: • Fundo de saúde; • Conselho de saúde; • Relatório de gestão para controle; • Contrapartida de recursos; • Plano de carreira, cargos e salários. 19 UNIDADE O Sistema Único de Saúde (SUS) Serviços Privados de Assistência à Saúde A assistência à saúde é livre à iniciativa privada, ou seja, pessoas não vinculadas ao Sistema Único de Saúde e que possuem competência técnica e pessoas jurídi- cas de direito privado (empresas privadas) podem atuar na promoção, proteção e recuperação da saúde, devendo seguir aos mesmos princípios éticos e normas de funcionamento aplicados ao SUS. Devemos ter cuidado com essa parte da Lei 8.080 para não confundirmos a complementariedade, descrita no artigo 2º, com suplementariedade. O termo suplementar refere-se à concessão para que as empresas da iniciativa privada possam concorrer no mercado para ofertar serviços de saúde e receber por esses serviços. Para regular essa ação, temos a Agência Nacional de Saúde Suplemen- tar (ANS), que é vinculada ao Ministério da Saúde. Até 2015, não era permitido que empresas ou capital estrangeiros participassem na assistência à saúde, porém essa regra foi alterada pela Lei 13.097, de 2015, e agora a participação direta ou indireta é permitida nos seguintescasos: • Doações de organizações internacionais vinculadas à OMS, de entidades de cooperação técnica, financiamento e empréstimos; • Pessoas jurídicas que realizarão a instalação, exploração ou operacionali- zação de hospitais gerais, filantrópicos, especializados e clínicas; ações e serviços de planejamento familiar ; • Serviços de saúde de empresas sem fins lucrativos ; • Outros casos que serão discutidos em legislação. Como foi dito na apresentação, é impossível esgotar o assunto “SUS” em uma unidade. É fundamental que você leia a Lei 8.080 na íntegra e as complementares, para que possa conhecer a base da estrutura no nosso Sistema Único de Saúde. 20 21 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros A saúde no Brasil – provocações e reflexões, de José Aristodemo Pinotti https://bit.ly/33nD71v Vídeos Gestão de recursos do SUS https://youtu.be/v4ieBHpkXNE Pacto pela saúde: Gravação de aula do curso de formação de apoiadores para a Política de Humanização e Atenção à Saúde, São Paulo, 2008 Declaração de Lumena Furtado, com 30 anos de experiência e atuação nas mais diversas áreas do Sistema Único de Saúde (SUS). Lumena é psicóloga, sanitarista, mestre em Saúde Pública e doutoranda na área de gestão. Já foi secretária municipal adjunta de saúde em São Bernardo do Campo e secretária municipal de saúde em Mauá. Pela terceira vez no Ministério da Saúde, comanda hoje uma das secretarias mais estratégicas do ministério: a Secretaria de Atenção à Saúde. https://youtu.be/OBPGZWX0XuU Leitura O sistema público de saúde brasileiro. Apostila disponibilizada pelo Ministério da Saúde https://bit.ly/34h33v0 21 UNIDADE O Sistema Único de Saúde (SUS) Referências ALMEIDA, E. S. Distritos sanitários: concepção e organização. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública de São Paulo, 1998. (Série Saúde & Cidadania, v. 1). Disponível em: . Acesso em: 13/08/2020. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília/ DF: Senado, 1998. ________. Lei 8.080, de 19 de setembro de 1990. Brasília: DF. 1990. Disponível em: . Acesso em: 13/08/2020. ________. Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Para entender a gestão do SUS/Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Brasília: CONASS, 2015. Dispo- nível em: . Acesso em: 13/08/2020. LIMA, W. G. Política pública: discussão de conceitos. Interface (Porto Nacional), n. 5, out. 2012. Disponível em: . Acesso em: 13/08/2020. MACHADO, C. V.; LIMA, L. D. de; BAPTISTA, T. W. F. Princípios organizativos e instâncias de gestão do SUS. In: Qualificação de gestores do SUS, p. 47 -72, s/d. Fiocruz: São Paulo. Disponível em: . Acesso em: 13/08/2020. OLIVEIRA, A. Lei 8.080 esquematizada. s/l: Estratégia Concursos na Saúde, s/d. Disponível em: . Acesso em: 13/08/2020. PAULUS JR., A.; CORDONI JR., L. Políticas Públicas de Saúde no Brasil. Rev. Espaço para a Saúde, Londrina, v. 8, n. 1, p. 13-19, dez. 2006. Disponível em: . Acesso em: 13/08/2020. SOUZA, C. Políticas Públicas: uma revisão da literatura. Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n. 16, p. 20-45, jul./dez. 2006. Disponível em: . Acesso em: 13/08/2020. 22