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Entendendo as Macromoléculas: Carboidratos, seu Metabolismo e as Características dos Lipídios Christiane Fonseca Entendendo as Macromoléculas: Carboidratos, seu Metabolismo e as Características dos Lipídios 2 Introdução Segundo Nelson e Cox (2018), os carboidratos são as biomoléculas mais abundantes na Terra. A cada ano, a fotossíntese converte mais de 100 bilhões de toneladas de CO2 e H2O em celulose e outros produtos vegetais. Alguns carboidratos (açúcar e amido) são os principais elementos da dieta em muitas partes do mundo, e sua oxidação é a principal via de produção de energia na maioria das células não fotossintéticas. Começaremos, então, estudando estrutura, classificação e nomenclatura desses carboidratos, assim como a visão geral sobre anabolismo e catabolismo. Quanto ao metabolismo de carboidratos, será abordado o estudo do metabolismo tanto anaeróbico como aeróbico, contemplando todas as vias necessárias e os produtos gerados por elas. Após esse estudo, poderemos tratar sobre a regulação metabólica dos carboidratos e consequências e exemplo de um erro na metabolização de carboidratos. Por fim, daremos prosseguimento apresentando conceitos básicos sobre os lipídios e veremos os principais aspectos da estrutura e propriedades gerais. A classificação será detalhada exemplificando os lipídios de armazenamento, estruturais, sinalizadores e, por último, abordaremos como esses lipídios são transportados pelo organismo. Diante do que foi apresentado, é possível perceber a quantidade e complexidade do conteúdo; por isso, foco nos estudos e vamos lá! Objetivos da Aprendizagem Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de: • Identificar os principais carboidratos, apontando suas características estru- turais e funcionais; • Conceituar metabolismo, compreendendo a produção de energia celular; • Conhecer as principais vias de síntese e degradação dos carboidratos e a respiração celular, relacionando com sua importância para os seres vivos; • Caracterizar as funções biocelulares dos lipídios e sua classificação; • Compreender a importância do transporte de lipídios no organismo. 3 A Glicobiologia Segundo Nelson e Cox (2018), a glicobiologia é o estudo da estrutura e da função de glicoconjugados. A maioria dos oligossacarídeos não ocorrem como moléculas livres; na verdade, são ligados a moléculas que não são açúcares (lipídeos ou proteínas), formando os glicoconjugados. A seguir, estudaremos os principais aspectos dessas moléculas. Principais Aspectos da Estrutura e Propriedades Gerais dos Carboidratos Os carboidratos são macromoléculas compostas essencialmente por átomos de carbono, hidrogênio e oxigênio. Por isso, também são chamados hidratos de carbono. Outras nomenclaturas são dadas aos carboidratos, como glicídeos, oses, sacarídeos e açúcares. Esses compostos apresentam alta solubilidade em água e são hidrofílicos, com capacidade de retenção de água. Os carboidratos são representados pela fórmula geral (CH2O)n, em que se refere ao número de carbonos, que deve ser maior ou igual a 3. Essa nomenclatura pode ser considerada inadequada, visto que muitos carboidratos não apresentam essa fórmula geral (como a glicosamina, que contém um grupo amino) e existem compostos com essa fórmula que não são carboidratos (ácido lático, por exemplo). Os carboidratos com sabor doce, como sacarose, glicose e frutose, comuns na alimentação humana, são chamados açúcares (MARZZOCO; TORRES, 2018; PINTO, 2017). Considerando a natureza do seu grupamento carbonila, os carboidratos podem ser distinguidos entre si em poli-hidroxialdeídos ou poli-hidroxicetonas (Figura 1) O gliceraldeído e di-hidroxiacetona dão origem a uma gama de monossacarídeos, formando a família das aldoses e cetoses, respectivamente, uma vez que o grupamento funcional dessas moléculas é o aldeído e a cetona. Ambos são uma triose e, à medida que mais um átomo de carbono entra em suas cadeias, vão se alongando e formando açúcares maiores até chegar a um limite de seis átomos de carbono na cadeia, uma hexose. As cetoses mais comuns são aquelas com função cetona no carbono 2. A posição do grupo carbonila faz com que as cetoses apresentem um centro assimétrico a menos do que as aldoses isoméricas (PINTO, 2017). 4 Figura 1: Representação dos açúcares mais simples encontrados na natureza Fonte: Bellé e Sandri (2014, p. 69). A molécula de gliceraldeído apresenta um único centro assimétrico, sendo possível, portanto, dois estereoisômeros (enantiômeros) (ver Quadro 1): o D-gliceraldeído e o L-gliceraldeído (ver Figura 2). A adição de um grupo HCOH no esqueleto carbônico da molécula de gliceraldeído a torna capaz de gerar quatro estereoisômeros, em função de apresentar agora dois centros assimétricos. Para as oses com mais de um centro assimétrico, como as hexoses (D-glicose), as notações D e L indicam a configuração absoluta do carbono assimétrico mais distante da função aldeídica ou cetônica. As aldoses e cetoses exibem propriedades típicas de aldeídos e cetonas, como a capacidade de reduzir agentes oxidantes fracos, assim chamadas de açúcares redutores (MARZZOCO; TORRES, 2018; PINTO, 2017). Figura 2: Formas isoméricas possíveis para o gliceraldeído Fonte: Pinto (2017, p. 76). Há diversas formas de representar carboidratos. A mais simples é a fórmula de Fischer, proposta pelo alemão Emil Fischer. Os anéis de furanoses assemelham-se a envelopes abertos, uma vez que seus anéis, assim como os de furanose, não são planos. Embora a estrutura em cadeira seja a mais próxima do estado da molécula 5 na natureza, a fórmula de Haworth é a estrutura didaticamente mais adequada para a representação dos açúcares (PINTO, 2017). Figura 3: Representação dos açúcares Fonte: Pinto (2017, p. 88). A ligação O-glicosídica é aquela que se estabelece entre o grupo hidroxila de um açúcar (em C4) e o átomo de carbono anomérico de outro açúcar (átomo de hidrogênio em C1), levando à remoção de uma molécula de água. Com isso, ocorre a formação de acetal a partir de um hemiacetal e de uma função alcoólica (grupo hidroxila da segunda molécula de açúcar). A ligação glicosídica apresenta natureza covalente e permite a formação de dissacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos. As ligações glicosídicas podem ser do tipo alfa ou beta. As ligações do tipo beta são aquelas que emergem acima do plano do anel de hemiacetal (PINTO, 2017). Atenção 6 Monossacarídeos, Oligossacarídeos e Polissacarídeos Os carboidratos podem ser classificados em quatro grupos: monossacarídeos, dissacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos (ver Figura 4). Figura 4: Carboidratos Fonte: Pinto (2017, p. 77). • Monossacarídeos: também chamados de açúcares simples, são açúcares que não podem ser clivados em unidades menores, sob condições químicas brandas ou mesmo por meio de reações enzimáticas (PINTO, 2017). Figura 5: Dissacarídeos e trissacarídeos Fonte: Pinto (2017, p. 77). • Dissacarídeos e trissacarídeos: a união de duas oses é chamada de dissa- carídeo, e a de três oses, trissacarídeo. Tanto os dissacarídeos quanto os trissacarídeos são bastante comuns na natureza. Como exemplo de dissaca- rídeo temos a sacarose (glicose + frutose), conhecida como açúcar refinado. 7 Como exemplo de trissacarídeo, a rafinose (glicose + frutose + galactose), presente em altas concentrações na soja, podendo interferir na absorção dos nutrientes da dieta, além de ser uma das principais responsáveis pela indu- ção de flatulência em humanos e outros animais (PINTO, 2017). Figura 6: Oligossacarídeos Fonte: Pinto (2017, p. 77). • Oligossacarídeos: o termo oligossacarídeo (significa poucos) consiste em 3 a 10 monossacarídeos unidos entre si por ligações glicosídicas (PINTO, 2017). Figura 7: Polissacarídeos Fonte: Pinto (2017, p. 77). • Polissacarídeos: os polissacarídeos, por sua vez, tal qual seu nome sugere (poli = muitos) são homopolímeros de açúcares simples e seus derivados unidos entresi por ligações glicosídicas, podendo ser lineares (por exemplo, celulose) ou ramificados (por exemplo, glicogênio) (PINTO, 2017). 8 Figura 8: Carboidratos que representam os monossacarídeos, dissacarídeos, trissacarídeos e polis- sacarídeos Fonte: Pinto (2017, p. 77). As Funções Biológicas dos Carboidratos Os carboidratos exercem diversas funções. As que mais se destacam são: Função energética A oxidação dos carboidratos é o principal modo de obtenção de energia pelas células por meio da formação de moléculas de adenosina trifosfato (ATP). Além disso, são considerados como fonte energética de uso imediato em tecidos dos mamíferos (BELLÉ; SANDRI, 2014). Função estrutural Essa função é exercida pelos polissacarídeos, os quais podem atuar tanto como componentes estruturais do exoesqueleto como das paredes celulares dos vegetais. Como exemplos podemos citar a quitina e a celulose (BELLÉ; SANDRI, 2014). 9 Função de armazenamento de energia Os carboidratos são extremamente eficientes para armazenamento de energia. Essa função é desempenhada pelo glicogênio e pelo amido. O glicogênio é responsável pelo armazenamento de glicose nos tecidos hepático e muscular. Eles são recrutados e metabolizados para fornecimento de energia em condições nas quais os níveis glicêmicos do sangue diminuem. O amido, contudo, é uma importante fonte de armazenamento de energia nos vegetais (BELLÉ; SANDRI, 2014). Visão Geral de Metabolismo: Catabolismo e Anabolismo O metabolismo, normalmente, é dividido em duas instâncias: anabolismo e catabolismo. • Reações anabólicas, ou reações de síntese, são aquelas que produzem nova matéria orgânica nos seres vivos. A partir de moléculas simples (com consu- mo de ATP), sintetizam-se novos compostos (moléculas mais complexas). • Reações catabólicas, ou reações de decomposição/degradação, são aquelas que, da decomposição ou degradação de moléculas mais complexas (maté- ria orgânica), produzem grandes quantidades de energia livre (sob a forma de ATP). Quando o catabolismo supera em atividade o anabolismo, o orga- nismo perde peso, o que acontece em períodos de jejum ou doença; mas, se o anabolismo superar o catabolismo, o organismo cresce ou ganha peso. Se ambos os processos estão equacionados, o organismo encontra-se em equilíbrio dinâmico ou homeostase. Mapas metabólicos são úteis, pois retra- tam as principais vias bioquímicas, fornecendo uma visão ampla e integrada do metabolismo (PINTO, 2017). Metabolismo Anaeróbico dos Carboidratos A glicólise (do grego, glykus, doce + lysis, quebra) compreende um conjunto de reações bioquímicas que degradam a glicose em piruvato em células animais. Ocorre na anaerobiose; assim, é um processo fermentativo, presente em microrganismos, como as leveduras e bactérias, nas quais o produto final da glicólise não é o piruvato, mas, sim, o etanol e o lactato, respectivamente. A via glicolítica surgiu em microrganismos da Terra primitiva quando não havia oxigênio, quando o meio para a síntese de energia 10 era a fermentação glicolítica (MARZZOCO; TORRES, 2018). Segundo Voet e Voet (2013), para que a glicólise continue (veremos melhor no item a seguir), o NAD+, que as células têm em quantidades limitadas, deve ser reciclado após a sua redução a NADH pela GAPDH. Na presença de oxigênio, os equivalentes redutores do NADH são transportados para a mitocôndria para serem reoxidados. Sob condições anaeróbias, no entanto, o NAD+ é reposto pela redução do piruvato, em uma continuação da via glicolítica. Dois processos para a reposição anaeróbica do NAD+ são a fermentação homoláctica e a fermentação alcoólica, as quais ocorrem no músculo e em leveduras, respectivamente. Glicólise Cerca de 1 bilhão de anos atrás, surgiram as primeiras células eucarióticas dotadas de mecanismos bioquímicos capazes de aproveitar o potencial oxidante do oxigênio para sintetizar quantidades de energia com rendimento visivelmente superior ao obtido da fermentação glicolítica. Embora o emprego do oxigênio seja mais eficiente na obtenção de energia por parte das células eucarióticas, estas não abandonaram a etapa glicolítica, apenas incorporaram a fase aeróbia, de modo que a via glicolítica permaneceu como uma fase preparatória para a extração de energia celular. A glicólise compreende uma sequência de dez reações enzimáticas, na qual uma molécula de glicose (procedente, principalmente, da digestão do amido), uma molécula de aminoácido (oriunda do catabolismo de proteínas) ou, ainda, uma molécula de ácido graxo (oriunda do catabolismo de lipídios, sobretudo triacilgliceróis) é convertida em duas moléculas de ácido pirúvico e dois equivalentes reduzidos de NAD+, resultando em 2ATP como saldo energético final. Durante a glicólise, os carboidratos são convertidos em duas moléculas de piruvato. Sob condições aeróbicas, o piruvato é oxidado até CO2 e H2O, por meio do ciclo do ácido cítrico (ciclo de Krebs) acoplado à fosforilação oxidativa (MARZZOCO; TORRES, 2018). 11 A glicólise pode ser dividida em duas etapas: • Fase I (gasto de ATP) Compreende a conversão da glicose até a obtenção de duas moléculas de gliceraldeído-3-fosfato, processo que requer cinco reações. A glicose é inicialmente fosforilada no carbono 6, o que a impede de deixar o citosol celular para o meio externo, já que o grupo fosfato lhe confere carga negativa, tornando a molécula essencialmente incapaz de se difundir pela membrana plasmática. Subsequentemente, a glicose-6-fosfato sofre isomerização em frutose-6-fosfato, que, por sua vez, sofre fosforilação no carbono 1, sendo convertida em frutose-1,6-bifosfato. A fosforilação desses compostos iniciais se dá pelo gasto de duas moléculas de ATP, que são convertidas em ADP. Fonte: Pinto (2017, p. 77). 12 • Fase II (produção de ATP) Figura 10: Fase II (produção de ATP) Fonte: Pinto (2017, p. 77). Consiste nas cinco reações subsequentes àquelas que ocorrem na primeira etapa, ou seja, envolve a conversão de duas moléculas de gliceraldeído-3-fosfato em piruvato. Nessa fase da glicólise, duas moléculas de 1,3-bifosfoglicerato são convertidas em 3-fosfoglicerato, produzindo 2ATP. Posteriormente, duas moléculas de fosfoenolpiruvato são desfosforiladas para produzir piruvato (Figura 5). Os grupos fosfato removidos são incorporados por duas moléculas de ADP, sendo convertidos em ATP. Assim, na fase II, tem-se a produção de quatro moléculas de ATP, enquanto, na fase I, ocorre o gasto de duas moléculas de ATP, de modo que o balanço energético líquido da glicólise é 2ATP (ver Figura 5) (MARZZOCO; TORRES, 2018; PINTO, 2017). 13 Figura 11: Visão geral da glicólise. Os nomes das enzimas que catalisam as etapas da via estão em itálico Fonte: BROWN (2018, p. 156). Fermentação Láctica e Alcoólica Como já visto anteriormente, a glicólise não exige a presença de oxigênio e pode ocorrer em condições anaeróbicas. Tanto a fermentação lática como a alcoólica resultam na produção líquida de 2ATP. O rendimento da oxidação anaeróbia da glicose é muito menor do que aquele da sua oxidação aeróbia: 2 mols versus 38 mols de ATP por mol de glicose. A despeito disso, grande número de microrganismos e também células de eucariotos são capazes de sobreviver à custa da glicólise anaeróbia (MARZZOCO; TORRES, 2018). Nos músculos em atividade, o piruvato é convertido em lactato. Nos animais, o oxigênio pode tornar-se um fator limitante nos músculos depois de um período prolongado de exercício. O ciclo de Krebs (ATC) e a cadeia de transporte de elétrons tornam-se incapazes de trabalhar rápido o suficiente para regenerar todo 14 o NAD+ necessário a fim de manter a glicólise em sua taxa máxima. Para aliviar esse problema, parte do piruvato que agora se acumula nas células musculares é convertida em lactato pela enzima lactato desidrogenase (ver Figura 6). Durante períodos de exercício extremo, a glicose pode retornar ao músculo, a fim de manter a glicólise nas célulasmusculares (BROWN, 2018). Figura 12: O lactato sintetizado no músculo em exercício é transportado até o fígado, onde é conver- tido em piruvato pela lactato desidrogenase e, a seguir, em glicose pela via da gliconeogênese Fonte: BROWN (2018, p. 162). O metabolismo anaeróbico é a única fonte de energia dos eritrócitos dos mamíferos, assim como de muitas espécies de bactérias, como o Lactobacillus do leite ou do Clostridium botulinum (PINTO, 2017). Em condições anaeróbias e em leveduras, o NAD+ é regenerado de uma forma que tem sido importante para a humanidade há milhares de anos: a conversão do piruvato em etanol e CO2 (ver Figura 7). O etanol é o ingrediente ativo dos vinhos e dos destilados. O CO2 produzido faz crescer o pão. Analisando somente as leveduras, a fermentação alcoólica tem um benefício prático que a fermentação homoláctica não oferece. A levedura emprega o etanol como uma espécie de antibiótico para eliminar organismos competidores. Isso ocorre porque as leveduras podem crescer em meio com concentrações de etanol maiores que (>) 12% (2,5 M), enquanto poucos outros organismos podem sobreviver em concentrações de etanol > 5% (lembrando que o etanol é um antisséptico muito utilizado) (VOET; VOET, 2013). 15 Figura 13: As duas reações da fermentação alcoólica: (1) a descarboxilação do piruvato para formar acetaldeído é seguida pela (2) redução do acetaldeído a etanol pelo NADH Fonte: Voet e Voet (2013, p. 637). Vias das Pentoses A via das pentoses fosfato (ver Figura 8), também chamada de desvio das hexose monofosfato ou via do fosfogliconato, desempenha três funções principais: • Constitui uma importante fonte de NADPH, que é utilizado como transpor- tador de energia durante importantes reações de biossíntese, como as que resultam na biossíntese de ácidos graxos e esteróis. • Um dos intermediários na via é a ribose 5-fosfato, que é um precursor para a síntese de nucleotídeos e a síntese dos aminoácidos histidina e triptofano. • Outro intermediário é a eritrose 5-fosfato, que é um precursor para a sínte- se de fenilalanina, triptofano e tirosina. A via das pentoses fosfato ocorre no citoplasma, particularmente nos tecidos que sintetizam ácidos graxos ou hormônios esteroides, como as glândulas mamárias, o córtex suprarrenal e o tecido adiposo; no fígado, 20 a 30% da oxidação de glicose são feitos pela via das pentoses fosfato (BROWN, 2018; MARZZOCO; TORRES, 2018). A via das pentoses fosfato pode ser dividida em duas fases. A primeira delas é uma fase oxidativa, que começa com a glicose 6-fosfato e produz ribose 5-fosfato mais duas moléculas de NADPH. Essa fase é seguida de um estágio não oxidativo ou de síntese, que produz uma variedade de açúcares de 3 a 7 carbonos (BROWN, 2018). 16 Figura 14: Via das pentoses Fonte: Marzzoco e Torres (2018, p. 163). Gliconeogênese A gliconeogênese é uma via para a síntese de glicose a partir de vários precursores que não são carboidratos. Ela permite ao organismo manter um suprimento de glicose para a geração de energia durante condições extremas, como inanição ou exercício excessivo, quando as fontes de carboidratos podem faltar. O fígado só pode armazenar glicogênio suficiente para fornecer energia ao encéfalo durante um período de inanição de até 12h. Depois de 12h, o fígado passa a utilizar a gliconeogênese para manter o encéfalo no modo atuante enquanto for possível (BROWN, 2018). A conversão do piruvato em glicose é, em parte, o processo inverso da glicólise. No entanto, os principais substratos para a gliconeogênese entram na via em diferentes 17 locais. Embora o piruvato seja considerado como ponto inicial para a gliconeogênese, os principais substratos para a via são outros compostos que não são carboidratos, presentes nas células e sacrificados quando a inanição ou o exercício intenso fazem com que o corpo tenha uma necessidade urgente de fontes de energia. Os principais substratos para a gliconeogênese são o lactato, os aminoácidos e os triacilgliceróis. Lactato É produzido nos músculos pela respiração anaeróbica quando o oxigênio se torna escasso. Assim, o lactato é transportado dos músculos para o fígado, onde é diretamente convertido em piruvato pela lactato desidrogenase (BROWN, 2018; PINTO, 2017). Aminoácidos Para a gliconeogênese, são obtidos a partir da dieta ou, nos casos mais extremos, a partir de proteínas, em grande parte as do músculo. A maioria dos 20 aminoácidos básicos pode ser convertida em oxaloacetato e, assim, entrar na via da gliconeogênese. Entretanto, para outros, existe a formação de um dos intermediários do ciclo de Krebs (BROWN, 2018; PINTO, 2017). Triacilgliceróis São degradados em seus componentes de ácidos graxos e glicerol. Os ácidos graxos não podem ser utilizados na via da gliconeogênese, porém o glicerol pode ser metabolizado a glicerol 3-fosfato e, em seguida, a di-hidroxiacetona fosfato pela ação da glicerol quinase e da glicerol 3-fosfato desidrogenase, respectivamente. Em seguida, a di-hidroxiacetona fosfato entra na via da gliconeogênese em um estágio relativamente avançado (BROWN, 2018; PINTO, 2017). 18 Metabolismo Aeróbico dos Carboidratos O metabolismo aeróbico dos carboidratos consiste na queima da glicose na presença de oxigênio, produzindo CO2 e H2O e muita energia em forma de ATP (MARZZOCO; TORRES, 2018), conforme equação a seguir: C6H12O6 + 6O2 - 6CO2 + 6H2O + 38ATP Oxidação do Piruvato O piruvato gerado no citosol pela glicólise é um ponto central no metabolismo dos carboidratos, das gorduras e das proteínas. O piruvato que entra na mitocôndria, após conversão em acetil-CoA, pode ser oxidado pelo ciclo do ácido cítrico para gerar energia ou pode ser utilizado como precursor para a síntese de ácidos graxos e esteróis. Há um terceiro destino possível para o piruvato: como precursor para a síntese de aminoácidos. Na glicólise anaeróbica, o piruvato não sofre uma oxidação posterior por meio de ciclos (NELSON; COX, 2014). Ainda de acordo com os autores, o piruvato é oxidado na matriz mitocondrial a acetil-CoA e CO2 pelo complexo da piruvato-desidrogenase (PDH). Esse complexo de enzimas altamente organizado está localizado na mitocôndria de todas as células eucarióticas e no citosol de bactérias. Em geral, complexos multienzimáticos são grupos de enzimas associadas de forma não covalente, que catalisam duas ou mais etapas sequenciais em uma via metabólica (VOET; VOET, 2013). A reação geral catalisada pelo complexo da piruvato-desidrogenase é uma descarboxilação oxidativa, um processo de oxidação irreversível, no qual o grupo carboxila é removido do piruvato na forma de uma molécula de CO2 e os dois carbonos remanescentes são convertidos no grupo acetila da acetil-CoA (NELSON; COX, 2018). Figura 15: Reação de oxidação do piruvato Fonte: Nelson e Cox (2018, p. 621). 19 O Ciclo do Ácido Cítrico A respiração celular ocorre em três etapas. Na primeira, as moléculas combustíveis orgânicas (glicose, ácidos graxos e alguns aminoácidos) são oxidadas para produzirem acetil-CoA. Na segunda etapa, os grupos acetil entram no ciclo do ácido cítrico, que os oxida a CO2; parte da energia dessas oxidações é conservada nos transportadores de elétrons reduzidos (NADH e FADH2) e os elétrons são transferidos ao O2. Na terceira etapa da respiração, estas coenzimas reduzidas são oxidadas, doando prótons (H1 série de moléculas carreadoras de elétrons, conhecida como cadeia respiratória, resultando na formação de água (H2O)). A acetil-CoA entra no ciclo do ácido cítrico (na mitocôndria de eucariotos, no citosol de bactérias) quando a citrato-sintase catalisa sua condensação com o oxalacetato para a formação de citrato. O ciclo ocorre em sete reações sequenciais, incluindo duas descarboxilações. O ciclo do ácido cítrico converte citrato em oxalacetato e libera dois CO2. A via é cíclica (ver Figura 10), de modo que os intermediários não são exauridos; para cada oxalacetato consumido na via, um é produzido.Para cada acetil-CoA oxidada pelo ciclo do ácido cítrico, o ganho de energia consiste em três moléculas de NADH, uma de FADH2 (ATP ou GTP) e um nucleosídeo trifosfatado. Além da acetil-CoA, qualquer composto que origine um intermediário do ciclo do ácido cítrico com quatro ou cinco carbonos (por exemplo, os produtos da degradação de muitos aminoácidos) pode ser oxidado pelo ciclo. Outra característica do ciclo do ácido cítrico é que ele serve tanto ao catabolismo quanto ao anabolismo (anfibólico); os intermediários do ciclo podem ser desviados e utilizados como material de partida para a síntese de vários produtos. Os vertebrados não conseguem sintetizar glicose a partir do acetato ou dos ácidos graxos que dão origem a acetil-CoA. Nos vegetais, em leveduras e algumas bactérias, encontra-se uma via alternativa de metabolismo de acetil-CoA, chamada ciclo do glioxilato (MARZZOCO; TORRES, 2018). Quando os intermediários são desviados do ciclo do ácido cítrico para outras vias, eles são repostos por algumas reações anapleróticas, que produzem intermediários de quatro carbonos por meio da carboxilação de compostos de três carbonos. Essas reações são catalisadas por piruvato-carboxilase, PEP-carboxicinase, PEP- carboxilase e enzima málica. As enzimas que catalisam carboxilações utilizam comumente a biotina para ativar o CO2 e transportá-lo a aceptores, como piruvato ou fosfoenolpiruvato (NELSON; COX, 2018). 20 Figura 16: Reações do ciclo do ácido cítrico Fonte: Nelson e Cox (2018, p. 625). Outras Oxidações Biológicas As células aeróbias produzem a maior parte do seu ATP por oxidação das coenzimas pelo oxigênio (a chamada “respiração celular”), efetuada por uma cadeia de transporte de elétrons, também denominada de cadeia respiratória, à qual está fortemente associada a síntese de ATP. Essa síntese consiste na fosforilação do ADP (ADP + Pi ATP) e, também, por usar a energia derivada da oxidação das coenzimas, é denominada fosforilação oxidativa (MARZZOCO; TORRES, 2018). 21 Entendendo a Cadeia Respiratória O início da fosforilação oxidativa é marcado pelo ingresso de elétrons na cadeia respiratória. Esses elétrons são, então, levados aos aceptores de elétrons, os nucleotídeos de nicotinamida (NAD+ ou NADP+) e nucleotídeos de flavina (FMN ou FAD). O FADH2 é reoxidado a FAD, resultando na síntese de duas moléculas de ATP por cada FADH2. As principais fontes de FADH2 são o ciclo do ácido cítrico (ciclo de Krebs) e a betaoxidação (metabolismo eucariótico). Outro aceptor de elétrons é o NAD+, que apresenta dois estados de oxidação: NAD+ (oxidado) e NADH (reduzido). Em sua forma reduzida, o NADH faz a transferência de elétrons durante a fosforilação oxidativa. Os elétrons de NADH adentram a cadeia respiratória pelo complexo I. Complexo I – NADH ubiquinona oxidorredutase ou NADH de- sidrogenase Trata-se de uma grande enzima, localizada na membrana mitocondrial interna, que catalisa a transferência de elétrons do NADH para a coenzima Q. É a primeira enzima da cadeia respiratória. Complexo II – succinato-Q oxidorredutase É a única enzima que participa tanto no ciclo do ácido cítrico quanto na cadeia de transporte de elétrons. Apresenta FAD como cofator e catalisa a oxidação do succinato a fumarato, reduzindo a ubiquinona. Ubiquinona – também chamada de coenzima Q. Sintetiza ATP por isso alguns tecidos com maior demanda energética, como coração, cérebro, rins e fígado, apresentam maiores concentrações. Na cadeia respiratória, a ubiquinona é capaz de aceitar um elétron, dando origem ao radical semiquinona (Q•–), ou aceitar dois elétrons, convertendo-se em ubiquinol (QH2). De fato, a ubiquinona recebe os pares de elétrons oriundos do complexo I e do II, sendo uma molécula de caráter hidrofóbico, e isso faz com que transite livremente pela bicamada de fosfolipídios da membrana mitocondrial interna. 22 Dinâmica do fluxo de elétrons translocados pela ubiquinona pelo complexo III Os dois elétrons oriundos do complexo I são transferidos para a ubiquinona, que, então, converte-se em QH2 e libera no espaço intermembranar dois prótons de hidrogênio ao mesmo tempo que transfere um de seus elétrons ao complexo III. Na sequência, esse elétron segue para o citocromo C1 e, depois, é captado pelo citocromo C. O segundo elétron segue seu fluxo pelo complexo III, sendo transferido para o citocromo bL. Esse elétron é finalmente captado por outra molécula de Q, convertendo-se prontamente em Q–, que permanece participando da segunda etapa do ciclo da ubiquinona, na qual o elétron que segue pelos dois citocromos (Cit bL e Cit bH) é captado por outra molécula de Q, dando origem a Q–, que, por sua vez, capta dois íons H+ da matriz mitocondrial, transformando-se em um QH2. A molécula de QH2 volta ao pool de ubiquinona reiniciando o ciclo. Complexo IV – citocromo c oxidase O último dos elementos da cadeia respiratória que bombeiam prótons para o espaço intermembranar. A citocromo C oxidase recebe um elétron de cada uma das moléculas de citocromo C e transfere-as para o oxigênio, convertendo este em duas moléculas de água. Nesse processo, acontece a translocação de quatro prótons, que atuam na composição do potencial quimiosmótico, o qual é usado pela ATP sintase para a formação de ATP. A necessidade do oxigênio como aceptor final de elétrons para a cadeia respiratória é o que torna essa reação aeróbia (ver Figura 11) (PINTO, 2017). Figura 17: Panorama do fluxo de elétrons pelos quatro complexos da cadeia respiratória Fonte: Voet e Voet (2013, p. 855). 23 Para uma abordagem completa sobre a respiração celular, veja o link: https://www.youtube.com/watch?v=iwYUmGO3qf8&t=435s. Saiba mais A Fosforilação Oxidativa As transferências de elétrons de um componente da cadeia de transporte de elétrons para o seguinte constituem reações de oxidação-redução termodinamicamente favoráveis. A síntese de ATP ou fosforilação oxidativa (de “fosforilação de ADP à custa da oxidação de coenzimas”), que é endergônica, é acoplada a essas reações de oxidação-redução (MARZZOCO; TORRES, 2018). O propósito da cadeia respiratória é acumular prótons no espaço intermembranar, obtidos por meio do transporte de elétrons pelos complexos que compõem a cadeia respiratória. Os prótons acumulados formam a força próton motriz. O ATP é sintetizado quando esses prótons fluem do espaço intermembranar de volta para a matriz mitocondrial por meio de um poro na ATP sintase – um grande complexo proteico ancorado na membrana mitocondrial interna. Desse modo, o gradiente de prótons formado no espaço intermembranar acopla o transporte de elétrons à síntese de ATP. A concentração protônica no espaço intermembranar pode ser separada em dois componentes: um químico e outro elétrico. O componente químico pode ser entendido como um gradiente de pH, enquanto o componente elétrico, como um gradiente de cargas elétricas (cargas positivas) presentes no hidrogênio (H+), criando uma assimetria de cargas elétricas na matriz mitocondrial e no espaço intermembranar (PINTO, 2017). Regulação Metabólica dos Carboidratos e Consequências de Erros na Metabolização Por fim, a glicólise deve ser analisada estabelecendo como a via é regulada. Ela desempenha duas funções principais: ela degrada a glicose para a geração de ATP e ela sintetiza intermediários que agem como precursores para vias de biossíntese, por exemplo, os envolvidos na síntese de ácidos graxos. Sendo assim, a glicólise precisa ser regulada a fim de garantir o cumprimento dessas duas funções. O principal ponto de controle na via glicolítica é a etapa 3 (vide Figura 5), quando a frutose 6-fosfato é fosforilada pelo ATP para formar frutose 1,6-bisfosfato e ADP. Nos organismos https://www.youtube.com/watch?v=iwYUmGO3qf8&t=435s 24 eucariontes, a enzima que catalisa essa etapa, a fosfofrutoquinase, é inibida por três dos produtos mais avançados da glicólise (ATP, citrato e íons hidrogênio), permitindo que a via seja reguladarespondendo a diversas condições fisiológicas. A piruvato quinase, que catalisa a última etapa na via da glicólise, pode ser considerada como um ponto que regula a junção entre essa via e o ciclo de Krebs (ciclo do ácido cítrico), no qual o piruvato é inserido para sua degradação completa em dióxido de carbono e água. A piruvato quinase é ativada pela frutose 1,6-bisfosfato e inibida pelo ATP, pelo glucagon e pelo aminoácido alanina. Para a regulação do ciclo de Krebs (vide Figura 10), o complexo de piruvato desidrogenase constitui o principal alvo para a regulação do ciclo de Krebs, devido ao seu papel central no ponto de entrada do ciclo. Esse complexo enzimático é inibido pelos seus produtos imediatos, acetil CoA, NADH e ATP. Dentro do próprio ciclo de Krebs, existem três pontos adicionais onde os produtos exercem inibição por retroalimentação (ou retroinibição – em que o próprio produto das reações é utilizado como regulador) sobre as enzimas responsáveis pela sua síntese: • A citrato sintase é inibida pelo citrato e ATP; • A isocitrato desidrogenase é inibida pelo NADH e ATP; • A α-cetoglutarato desidrogenase é inibida pela succinil-CoA e pelo NADH. O efeito global dos diversos processos reguladores é que o ciclo de Krebs tem a sua velocidade reduzida quando a célula dispõe de um suprimento adequado de energia armazenada, indicado pelo acúmulo de ATP e NADH, o que inibe a entrada de acetil CoA no ciclo e a sua progressão pelos outros três pontos de controle. Já na gliconeogênese, a regulação precisa que a via seja ativada com o surgimento de uma crise energética, à qual o fígado deve responder sintetizando a glicose que será transportada até o cérebro. Por essa razão, a regulação da gliconeogênese exige uma coordenação com a glicólise, com o objetivo de que esta última seja inibida quando a gliconeogênese estiver em atividade. A coordenação entre a gliconeogênese e a glicólise é obtida por um processo de regulação recíproca, que atua sobre a fosfofrutoquinase e a frutose 1,6-bisfosfatase. Quando estudamos a regulação da glicólise, aprendemos que a fosfofrutoquinase é estimulada pelo AMP e inibida pelo ATP e pelo citrato. Assim, a velocidade da glicólise aumenta quando o suprimento energético está baixo, evidenciado pelos níveis elevados de AMP, enquanto diminui quando há reservas, indicadas por altos níveis de ATP e citrato. O AMP e o citrato possuem efeitos complementares sobre a gliconeogênese. O AMP inibe a frutose 1,6-bisfosfatase, de modo que a gliconeogênese é interrompida quando a 25 glicólise precisa ser ativada, e o citrato estimula a frutose 1,6-bisfosfato, podendo ocorrer gliconeogênese quando a glicólise é inibida. A molécula reguladora, a frutose 2,6-bisfosfato, coordena a glicólise e a gliconeogênese de maneira semelhante. Essa molécula estimula a fosfofrutoquinase e inibe a frutose 1,6-bisfosfatase. Durante a inanição, ocorre liberação de glucagon na corrente sanguínea. Um dos efeitos desse aumento do glucagon é a degradação da frutose 2,6-bisfosfato. Isso possibilita que a gliconeogênese predomine em relação à glicólise (BROWN, 2018; NELSON; COX, 2018). Os produtos principais da via das pentoses fosfato são NADPH e ribose 5-fosfato. A pentose fosfato é precursora da síntese de nucleotídeos; NADPH é a coenzima redutora das sínteses de ácidos graxos, colesterol e hormônios esteroides, e de reações de dissipação de radicais livres. As desidrogenases da parte oxidativa da via das pentoses fosfato que convertem NADP+ para NADPH são inibidas competitivamente por NADPH. O bloqueio é abolido por oxidação de NADPH a NADP+ pelos processos citados. Nos seres humanos, as sínteses redutoras ocorrem intensamente no fígado, tecido adiposo, glândulas mamárias, córtex da suprarrenal, ovários e testículos, e os mecanismos antioxidantes, nas hemácias (MARZZOCO; TORRES, 2018). O transporte de elétrons e a síntese de ATP mitocondriais são processos fortemente acoplados. Realmente, se a síntese de ATP é absolutamente dependente do fluxo de elétrons pela cadeia de transporte de elétrons (“cadeia respiratória”), a recíproca também é verdadeira: a transferência de elétrons só ocorre enquanto houver síntese de ATP. O acoplamento é resultado do controle respiratório, exercido pela disponibilidade de ADP. O ADP é o fator limitante porque a maior produção de ATP acarreta, forçosamente, diminuição da concentração de ADP. Um indivíduo adulto requer diariamente cerca de 2.000 vezes mais ATP do que seu organismo dispõe. Este dado enfatiza a obrigatoriedade da síntese contínua de ATP e o seu alto índice de renovação. Também explica o tempo diminuto em que uma célula aeróbia pode viver na ausência de oxigênio (MARZZOCO; TORRES, 2018). Diante de todo o exposto sobre o metabolismo de carboidratos, é importante pensar em possíveis erros durante o metabolismo e quais são as consequências. Os erros inatos do metabolismo (EIM), também conhecidos por doenças metabólicas congênitas, incluem uma grande classe de doenças decorrentes de distúrbios de natureza genética que, em geral, envolvem defeitos em enzimas acarretando alterações de vias metabólicas. Relacionando esses erros ao metabolismo de carboidratos, temos a galactosemia como exemplo principal. A galactosemia é um distúrbio do metabolismo da galactose, um açúcar monossacarídio caracterizado pela inabilidade em converter galactose em glicose 26 (via de Leloir). O resultado imediato é o acúmulo de metabólitos da galactose no organismo. A deficiência do crescimento é o sinal clínico mais comum e está presente em quase todos os casos, mas também se manifestam icterícia, catarata, letargia, atraso no desenvolvimento psicomotor, entre outros. Os sintomas, em geral, aparecem nos primeiros dias ou semanas de vida. Pode levar ao retardamento mental nos casos não tratados. O tratamento consiste na simples exclusão dos açúcares galactose e lactose da dieta (PINTO, 2017). Os Lipídios A definição de um lipídio baseia-se na solubilidade. Os lipídios são pouco solúveis (na melhor das hipóteses) em água, mas extremamente solúveis em solventes orgânicos, como o clorofórmio ou a acetona. Em termos químicos, lipídio é uma mistura de compostos que compartilham algumas propriedades com base em semelhanças estruturais, principalmente por apresentar uma proporção maior de grupos apolares. Os lipídios também são classificados de acordo com sua natureza química e encaixam- se em dois grupos principais. Um grupo que consiste em compostos de cadeia aberta com grupos de cabeça polar e longas caudas apolares, incluindo ácidos graxos, triacilgliceróis, esfingolipídeos, fosfoacilgliceróis e glicolipídeos. O segundo grupo principal consiste em compostos de anéis fundidos (cadeias cíclicas) ou esteroides – um importante representante desse grupo é o colesterol (CAMPBELL; FARRELL, 2016). Os Principais Aspectos da Estrutura e as Propriedades Gerais dos Lipídios Os lipídios constituem uma classe de compostos caracterizados por sua alta solubilidade em solventes orgânicos e por apresentarem uma característica em comum: a insolubilidade em água. Eles apresentam estrutura variada e exercem inúmeras funções biológicas, como reservas de energia, componentes de membranas e outras estruturas celulares, além dos próprios lipídios ou seus derivados terem também função de vitaminas e hormônios. Também fazem parte obrigatória da dieta dos seres humanos, por incluírem os ácidos graxos essenciais e as vitaminas lipossolúveis (MARZZOCO; TORRES, 2018; NELSON; COX, 2018). 27 Lipídios de Armazenamento: Ácidos Graxos, Triglicérides e Ceras As gorduras e os óleos que são empregados como formas de armazenamento de energia nos organismos vivos são derivados de ácidos graxos. Alguns tipos de compostos contêm esses ácidos: os triacilgliceróis e as ceras. Eles ajudam a mostrar a diversidade de estrutura e de propriedades físicas dessa categoria de compostos (NELSON; COX, 2018). Ácidos graxos. Osácidos graxos são ácidos carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas de comprimento variando de 4 a 36 carbonos (C4 a C36). Em alguns ácidos graxos, essa cadeia é completamente saturada (não contém ligações duplas) e não ramificada; em outros, a cadeia contém uma ou mais ligações duplas. Alguns apresentam anéis de três carbonos, grupos hidroxila ou ramificações de grupos metila (NELSON; COX, 2018). Figura 18: Ácidos graxos Fonte: Nelson e Cox (2018, p. 625). 28 Triacilgliceróis Os triacilgliceróis, ou triglicérides ou triglicerídeos, contêm três moléculas de ácidos graxos esterificadas aos três grupos hidroxila do glicerol. Os triacilgliceróis simples contêm somente um tipo de ácido graxo; já os mistos contêm dois ou três tipos. Eles são principalmente gorduras de reserva, estando presentes em muitos alimentos (NELSON; COX, 2014). Atuam como uma grande fonte de reserva energética, sendo mais eficientes que o glicogênio no tocante ao armazenamento de energia; além disso, uma vez que são menos oxidadas quando comparadas aos carboidratos ou proteínas, fornecem significativamente mais energia, por unidade de massa, na sua oxidação completa (PINTO, 2017). Figura 19: Triacigliceróis Fonte: Nelson e Cox (2018, p. 625). 29 Ceras Figura 20: Ceras Fonte: Nelson e Cox (2018, p. 625). As ceras também servem para uma variedade de outras funções relacionadas às suas propriedades impermeabilizantes e sua consistência firme. Certas glândulas da pele de vertebrados secretam ceras para proteger os pelos e a pele e mantê-los flexíveis, lubrificados e impermeáveis. Um exemplo são as aves, principalmente as aquáticas, que secretam ceras pelas glândulas para manter suas penas impermeáveis à água. As folhas lustrosas de plantas, como a hera venenosa e outras plantas tropicais, são cobertas por uma camada de cera, impedindo a evaporação excessiva de água e as protege contra parasitas. As ceras biológicas têm várias aplicações em indústrias como a farmacêutica, a cosmética, entre outras (NELSON; COX, 2018). Lipídios Estruturais: Fosfolipídios e Esteróis Os fosfolipídios e os esteróis são os principais elementos estruturais das membranas biológicas. Eles são lipídios que contêm uma porção hidrofóbica (apolar) e outra hidrofílica (polar), sendo que, nas membranas biológicas, a porção hidrofílica está voltada para fora. Nas membranas, eles são componentes funcionais e estruturais, contudo também são encontrados em fluidos corporais. Os fosfolipídeos são divididos em dois grupos e o que os diferencia um do outro é a presença do glicerol ou da esfingosina. Os mais abundantes são os glicerofosfolipídios, formados por duas moléculas de ácidos graxos esterificados às duas primeiras hidroxilas do glicerol e por um grupo fosfato ligado à terceira hidroxila. Ao contrário dos triglicerídeos, os glicerofosfolipídeos têm uma região polar formada pelo grupo fosfato e seus substituintes. Outros lipídios com porções polares são os esteróis, por exemplo: a fosfatidiletanolamina e 30 a fosfatidilcolina. Os grupos polares dos glicerofosfolipídios estão carregados em pH próximo de 7 (BELLÉ; SANDRI, 2014; NELSON; COX, 2018). Os esfingolipídios possuem formas parecidas àquelas dos glicerofosfolipídios; no entanto, apresentam uma estrutura química diferente. A unidade básica de um esfingolipídio é a esfingosina, um derivado de hidrocarboneto de cadeia longa, com um grupo hidroxila interno. Em um esfingolipídio, um grupo cabeça hidrofílico está ligado ao último carbono da cadeia, e um ácido graxo, ao penúltimo carbono. Por conseguinte, a molécula tem um grupo cabeça hidrofílico e duas caudas hidrofóbicas, sendo elas constituídas pelo ácido graxo e pelo componente esfingosina. O grupo cabeça é um composto contendo fosfato, como a fosfocolina, e um açúcar simples, como a glicose, ou uma estrutura de açúcar mais complexa. Um esfingolipídio cujo grupo cabeça é um açúcar simples é denominado cerebrosídio, enquanto os esfingolipídios com açúcares complexos são designados como gangliosídios (BROWN, 2018). Os esteróis são outros constituintes lipídicos importantes das membranas celulares. Assim como os outros componentes da membrana, os esteróis são anfifílicos, apresentando um grupo cabeça hidrofílico proporcionado pelo grupo hidroxila ligado ao carbono número 3 e, em quase todos os casos, uma cadeia de hidrocarboneto hidrofóbica, que abrange alguns ou todos os carbonos 20-27, como grupo R na outra extremidade da molécula (BROWN, 2018). O principal representante dessa classe de lipídeos é o colesterol, o esteroide mais abundante nos tecidos humanos e também o precursor de todos os outros esteroides. Estes, que constituem outra grande classe de lipídios, são derivados esteróis. A unidade esteroide básica é idêntica àquela dos esteróis, exceto que a hidroxila ligada ao carbono C3 é substituída por um grupo químico diferente. Como esse grupo é variável nos esteroides, os esteróis são, estritamente falando, uma subclasse de esteroides. Incluem vários hormônios importantes nos seres humanos e em outros mamíferos, incluindo os hormônios sexuais masculinos e femininos. Os esteroides anabólicos incluem a testosterona e outros hormônios naturais, que desempenham funções na regulação da síntese dos ossos e músculos. O colesterol é um dos principais componentes estruturais e reguladores da fluidez das membranas celulares, nas quais se apresenta em sua forma livre. É também encontrado em grande quantidade no fígado, na medula espinhal e no cérebro (BROWN, 2018; NELSON;COX, 2018). Lipídios Sinalizadores Certos tipos de lipídios, embora presentes em pequenas quantidades, cumprem papéis decisivos no organismo, como os cofatores, ou sinalizadores. 31 O fosfatidilinositol bifosfato É hidrolisado para produzir dois mensageiros intracelulares, o diacilglicerol e o inositol-1,4,5-trisfosfato. O fosfatidilinositol-3,4,5-trisfosfato é um ponto de nucleação para complexos proteicos supramoleculares envolvidos na sinalização biológica. Prostaglandinas, tromboxanos, leucotrienos e lipoxinas São todos eicosanoides, derivados do araquidonato e hormônios extremamente potentes (NELSON; COX, 2018). Os hormônios esteroides Por exemplo, os hormônios sexuais são derivados dos esteróis. Eles servem como poderosos sinalizadores biológicos, alterando a expressão gênica nas células-alvo (NELSON; COX, 2018). As vitaminas lipossolúveis As vitaminas D, A, E e K desempenham papéis essenciais no metabolismo ou na fisiologia dos animais. A vitamina D é precursora de um hormônio que regula o metabolismo do cálcio. A vitamina A fornece o pigmento fotossensível do olho dos vertebrados e é um regulador da expressão gênica durante o crescimento das células epiteliais. A vitamina E funciona na proteção dos lipídios de membrana contra o dano oxidativo. E a vitamina K é essencial no processo de coagulação sanguínea (BROWN, 2018; NELSON; COX, 2018). As ubiquinonas e as plastoquinonas São transportadores de elétrons nas mitocôndrias e nos cloroplastos (NELSON; COX, 2018). Os dolicóis Ativam e ancoram os açúcares às membranas celulares; são utilizados na síntese de carboidratos complexos, glicolipídios e glicoproteínas (NELSON; COX, 2018). 32 Os lipídios Aqueles que contêm dienos conjugados servem como pigmentos nas flores e nos frutos e dão às penas das aves suas cores vistosas (NELSON; COX, 2018). Os policetídeos São produtos naturais amplamente usados na medicina (NELSON; COX, 2014). Lipoproteínas e o Transporte de Lipídios Os lipídios são moléculas de natureza hidrofóbica e, por isso, não podem ser transportados na circulação sanguínea na forma livre (BELLÉ; SANDRI, 2014). Em humanos, os lipídios apolares se juntam a lipídios anfipáticos e proteínas, formando as lipoproteínas plasmáticas. Já os ácidos graxos são levados ligados à albumina sérica. Somente uma fração pequena de ácidos graxos é levada pelas lipoproteínas plasmáticas na forma de ésteres de colesterol.A junção das moléculas polares viabiliza a distribuição aos tecidos dos lipídios provenientes da dieta e absorvidos no intestino e daqueles sintetizados pelo fígado. As lipoproteínas plasmáticas (ver Figura 12) são partículas esféricas com um núcleo central de lipídios apolares (ésteres de colesterol e triacilgliceróis), cercado por uma monocamada de lipídios anfipáticos (fosfolipídios e colesterol), à qual estão associadas moléculas de proteína. Essas proteínas são denominadas conjuntamente de apolipoproteínas. Além de atuar estruturalmente, atribuindo polaridade às lipoproteínas, também participam na ativação de enzimas que compõem os ligantes dos receptores de lipoproteínas, localizados na superfície celular dos tecidos (MARZZOCO; TORRES, 2018). 33 Figura 21: Esquema geral de lipoproteínas plasmáticas Fonte: Marzzoco e Torres (2018, p. 96). As lipoproteínas plasmáticas são classificadas de acordo com a sua densidade (Tabela 1). O diâmetro das lipoproteínas decresce de 103 nm nos quilomícrons até 10 nm nas HDL. A composição dessas partículas sofre modificações contínuas, devido à troca de moléculas de lipídios e de apolipoproteínas, em processos ainda não esclarecidos. Tabela 1: Composição de lipoproteínas plasmáticas Fonte: Marzzoco e Torres (2018, p. 96). Os quilomícrons são as maiores partículas e de mais baixa densidade, e sintetizados na mucosa intestinal a partir dos lipídios da dieta, sendo transportados aos tecidos (ricos em triacilgliceróis). As VLDL (Very Low Density Lipoproteins) têm origem hepática e transportam triacilgliceróis e colesterol para os outros tecidos; originam as IDL (Intermediate Density Lipoproteins) e as LDL (Low Density Lipoproteins), ricas em colesterol, predominantemente na forma de ésteres de colesterol. As LDL são a principal fonte de colesterol para os tecidos, exceto fígado e intestinos. As HDL (High Density Lipoproteins) têm função oposta à das LDL, atuando na remoção de colesterol dos tecidos para o fígado (MARZZOCO; TORRES, 2018; BELLÉ; SANDRI, 2014). 34 Conclusão Chegamos ao fim deste conteúdo e você verificou a importância dos carboidratos em nosso organismo. Analisamos os principais carboidratos, classificando-os quanto ao número de carbonos, mostrando as diferentes conformações dos monossacarídeos, passando por conceitos como ligação glicosídica dos dissacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos. Além disso, foram apontadas as principais características estruturais e funcionais dos carboidratos. Definimos os conceitos sobre metabolismo para compreensão da produção de energia celular, enfatizando as principais vias de síntese e degradação dos carboidratos e a respiração celular, sempre relacionando com a importância para os seres vivos. Demos início aos principais conceitos sobre lipídios, como a caracterização das suas funções biocelulares, assim como sua classificação. Tais conceitos servirão de base para o estudo do próximo capítulo. Para uma visão geral de como é a vida no interior da célula, veja o link: https://www.youtube.com/watch?v=qW9_Sq2vSPc. Saiba mais https://www.youtube.com/watch?v=qW9_Sq2vSPc 35 Referências BELLÉ, L. P.; SANDRI, S. Bioquímica aplicada: reconhecimento e caracterização de biomoléculas. São Paulo: Érica, 2014. BERG, Jeremy Mark. Bioquímica. 7. Rio de Janeiro Guanabara Koogan 2014 1 recurso online. BROWN, T. A. Bioquímica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. CAMPBELL, M. K; FARRELL, S. O. Bioquímica. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2016. HARVEY, Richard A. Bioquímica ilustrada. 5. Porto Alegre ArtMed 2015 1 recurso online. MARZZOCO, A.; TORRES, B. B. Bioquímica básica. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. PINTO, W. J. Bioquímica clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. VOET, J.; VOET, J. G. Bioquímica. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. _Hlk4074364 _GoBack