Prévia do material em texto
87 M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Capítulo 6 Sustentabilidade: olhando para dentro da empresa Até o momento, esta obra apresentou conteúdos que abordam uma perspectiva macro da sustentabilidade. A partir deste capítulo, serão trabalhados temas voltados para uma perspectiva micro, focada nas práticas sustentáveis das empresas. Serão apresentadas práticas em- presariais e resultados de pesquisas que mostram como a sustentabili- dade tem sido absorvida pela dinâmica empresarial. Iniciaremos nossa discussão com as ferramentas gerenciais utili- zadas para desenvolver e aprimorar a sustentabilidade nas empresas. Depois de um panorama sobre como as empresas se organizam para adotar uma postura sustentável, serão apresentadas práticas voltadas para o ambiente interno da empresa, para a gestão da produção e de operações, para a gestão de pessoas e para a administração financeira. 88 Sustentabilidade organizacional M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo .1 Práticas sustentáveis Com a evolução da sustentabilidade e as exigências para que as em- presas aprimorassem seus modelos de gestão, surgiram diversas fer- ramentas e normas voltadas para a padronização dos sistemas de ges- tão. Entre as mais conhecidas, estão as da International Organization for Standardization (ISO). Fundada em 1946 com o objetivo de padronizar a produção de bens e de serviços para fomentar o comércio mundial por meio da cooperação entre países e empresas, a ISO sempre esteve voltada para o desenvolvimento de sistemas internacionais de medidas técni- cas. Apenas em 1987, a ISO passou a expandir seu foco e englobar as práticas de gestão com as normas de família ISO 9000. Desde então, diversas normas foram desenvolvidas. Em comum, todas estão base- adas no ciclo plan, do, check, act (PDCA), em português: planejar, fazer, verificar e agir. O ciclo baseia-se em definir os objetivos e planejar as ações que serão executadas para alcançá-los, implantar tais ações, verificar se foram feitas conforme o planejamento e, por fim, agir para corrigir as falhas identificadas. Além da ISO, existem outras certificações com as mais variadas te- máticas. Essas normas e certificações ajudam os gestores na hora de implantar práticas de gestão nas organizações. Além disso, a depender da credibilidade da certificadora, os produtos certificados podem ser comercializados entre diversos países, pois atendem a determinados padrões de certificação reconhecidos mundialmente. Em relação à sus- tentabilidade, tem crescido o número de certificações relativas a diver- sos fatores, como gestão ambiental, social, stakeholders e condições de trabalho decente (OLIVEIRA, 2013). As principais normas gerenciais são apresentadas no quadro 1. Além dos princípios do PDCA, elas também comtemplam os aspectos legais e a perspectiva de melhoria contínua. 89Sustentabilidade: olhando para dentro da empresa M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Quadro 1 – Normas gerenciais voltadas para sustentabilidade NORMA GERENCIAL ESCOPO DIMENSÃO DA SUSTENTABILIDADE PRINCÍPIO GERENCIAL ANO DE LANÇAMENTO ISO 14001 Orienta a melhoria contínua por meio da utilização eficiente dos recursos e da redução da quantidade de resíduos Ambiental Utilização eficiente dos recursos 1996 SA 8000 Regulamenta as relações entre as organizações e o seu ambiente interno Social Adequação a regulamentos e legislação 1997 OHSAS 18001 Orienta a melhoria contínua do desempenho da saúde e segurança por meio de minimização dos riscos Social Melhoria contínua 1999 AA 1000 Regulamenta as relações entre as organizações e o seu ambiente externo Social Relacionamento com os stakeholders 1999 SD 21000 Guia para a implantação de modelos ligados à responsabilidade social em linha com a sustentabilidade Social, ambiental e econômico Relação com os stakeholders 2003 (cont.) 90 Sustentabilidade organizacional M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . NORMA GERENCIAL ESCOPO DIMENSÃO DA SUSTENTABILIDADE PRINCÍPIO GERENCIAL ANO DE LANÇAMENTO NBR 16001 Gestão da responsabilidade social: orienta a melhoria contínua por meio da eliminação ou da mitigação dos impactos socioambientais adversos Social, ambiental e econômico Melhoria contínua 2004 ISO 26000 Diretrizes sobre responsabilidade social Social, ambiental e econômico - Prestação de contas - Transparência 2010 IQNet SR 10 Requisitos do sistema de gestão da responsabilidade social Social, ambiental e econômico - Comportamento ético - Respeito às partes interessadas - Respeito ao estado de direito - Respeito pelas normas internacionais de comportamento - Respeito pelos direitos humanos 2011 Fonte: adaptado de Barbieri e Cajazeira (2012, p. 174). Vale ressaltar que essas normas não são obrigatórias, nem possuem efeito legal, mas são importantes ferramentas para as empresas que buscam pautar sua atuação pelos preceitos da sustentabilidade, auxi- liando os gestores com direcionamentos de como implantar práticas sustentáveis e fomentando uma cultura voltada para a sustentabilidade. Essas normas dão base a diversos sistemas de gestão que serão tratados e aprofundados na série, tais como o Sistema de Gestão da Qualidade, o Sistema de Gestão Ambiental, o Sistema de Saúde e Segurança no Trabalho e o Sistema de Responsabilidade Social. 91Sustentabilidade: olhando para dentro da empresa M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. 1.1 Produção e operações A área produtiva de uma empresa, seja de que tipo for, uma manufa- tura que emite poluentes ou uma prestadora de serviços, é chave para implantar uma estratégia sustentável. Apesar de interagir com os recur- sos naturais e as pessoas de formas diferentes, as empresas devem ter em comum a busca por eficiência em seus processos produtivos, de modo a entregar produtos de qualidade com baixos impactos ambiental e social. Dentro dessa perspectiva, as principais práticas sustentáveis das áreas de produção e de operações estão relacionadas ao conceito de ecoeficiência. Desde que foi adotado pela primeira vez, em 1991, pelo Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável – em inglês, World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) – em seu relatório “Mudando o curso”, o conceito tem sido moldado e trabalhado para ajudar as organizações a serem mais eficientes, com- binando a preservação ambiental com a geração de valor. O conceito pode ser assim definido: A ecoeficiência é alcançada pela entrega de bens e serviços a preços competitivos que satisfaçam as necessidades humanas e tragam qualidade de vida, reduzindo progressivamenteos impac- tos ecológicos e o uso intenso de recursos ao longo do ciclo de vida, chegando a um nível, que, pelo menos, respeite a capacidade de sustentação estimada da Terra. (WBCSD, 2006, p. 3) Segundo o WBCSD (2006), houve grandes avanços na aplicação dos princípios da ecoeficiência no mundo dos negócios. No passado, as empresas consideravam o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável como problemas e fatores de risco. Hoje, esses temas são vistos como oportunidades. Basicamente, trata-se de fazer mais com menos, oferecer mais valor usando menos recursos. Se a empresa economiza energia, por exemplo, ela reduz os seus custos, ao mesmo tempo em que reduz os resultados indesejáveis, como o consumo de recursos naturais. 92 Sustentabilidade organizacional M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo .Com essa proposta de integrar as dimensões da sustentabilidade em busca da eficiência no negócio, a ecoeficiência oferece uma gama de práticas capaz de criar uma cultura que pode se espalhar por toda a organização, para além da fronteira do departamento de produção. Assim, o conceito tem se deslocado do foco na prevenção da poluição em fábricas para se tornar um direcionador da inovação e da competiti- vidade em qualquer tipo de empresa. Cinco dimensões são fundamentais para tornar a ecoeficiência um elemento-chave da estratégia de uma organização, conforme apresen- tado na figura 1. Figura 1 – Dimensões da ecoeficiência Processos otimizados Novos serviç os Organização virtual Ec oi no va çã o Reciclagem Ecoeficiência Fonte: adaptado de WBCSD (2006, p. 20). Os processos otimizados representam a mudança de uma visão voltada apenas ao custo para uma abordagem que tenha a prevenção do meio ambiente como prioridade. Nesse sentido, a reciclagem exer- ce papel fundamental, com a organização buscando reduzir a emissão 93Sustentabilidade: olhando para dentro da empresa M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. de lixo o quanto for possível, por meio de seu reaproveitamento. Para tanto, a empresa precisa pensar em novos serviços que contemplem de forma equilibrada a perspectiva de durabilidade dos produtos e sua reciclagem. Muito disso pode ser feito de modo virtual, o que proporcio- na ganho de eficiência por meio do compartilhamento de recursos em nuvens, por exemplo. Por fim, a última dimensão da ecoeficiência é a ecoinovação, que permitirá a criação de produtos e de serviços que uti- lizam menos recursos e entregam uma proposta de valor mais robusta aos clientes. Para implantar a ecoeficiência não existe uma receita única, vai de- pender das necessidades do negócio, da sua capacidade e de seus objetivos. Para tanto, todos os stakeholders precisam ser ouvidos. Os clientes são fundamentais, fornecendo informações para que a empre- sa possa remodelar seus produtos e serviços de forma que atenda às suas necessidades, por meio de processos mais eficientes. Os forne- cedores também devem estar preparados para atender às novas de- mandas dos clientes com seus suprimentos. E todos os funcionários de uma organização devem ter consciência da ecoeficiência para que possam pensar em soluções inteligentes. Em suma, ecoeficiência é fazer mais com menos sendo ambiental- mente responsável. Para tanto, existem diversas ferramentas e siste- mas de gestão disponíveis. A WBCSD (2006) sugere alguns que podem ser úteis, conforme o quadro 2. Quadro 2 – Ferramentas e sistemas de gestão para auxiliar a implantação da ecoeficiência FERRAMENTA OU SISTEMA ESCOPO Sistema de gestão ambiental (SGA) Pode englobar a estrutura organizacional, responsabilidades, práticas, procedimentos de gestão, processos e recursos para implementar e gerenciar as questões ambientais de uma organização, garantindo a conformidade com suas políticas, padrões e expectativas dos stakeholders. O SGA pode ajudar a identificar onde existem oportunidades de ecoeficiência dentro da organização. (cont.) 94 Sustentabilidade organizacional M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . FERRAMENTA OU SISTEMA ESCOPO Gestão do ciclo de vida É um quadro integrado e flexível de conceitos, de técnicas e de procedimentos para abordar os aspectos ambientais, econômicos, tecnológicos e sociais de produtos e de serviços, a fim de obter melhoria ambiental contínua. A gestão do ciclo de vida pode ajudar as organizações a integrar a ecoeficiência em seu processo decisório. Avaliação do ciclo de vida É uma ferramenta de tomada de decisão para identificar os encargos ambientais e avaliar as consequências ambientais de um produto, de um processo ou de um serviço ao longo do seu ciclo de vida, no caso de produtos que possam ser recuperados ou reciclados. Ao fornecer uma visão abrangente do sistema de um produto, essa ferramenta permite que tanto empresas como governos e institutos de pesquisa possam encontrar formas de otimizar a ecoeficiência de um sistema de produção, em vez de apenas um processo específico. Ecodesign É a integração de considerações ambientais no design de produtos e processos. O ecodesign utiliza ferramentas e metodologias que incentivam a conciliação da responsabilidade ambiental com a redução de custos, promovendo a competitividade e a inovação. Gestão da cadeia de suprimentos É a organização de atividades para atender ao desempenho de materiais, componentes, bens e serviços que uma organização compra e usa. Existe uma tendência crescente para aumentar os requisitos de desempenho ambiental nas cadeias de suprimentos, por isso a gestão da cadeia de suprimentos pode ajudar as organizações a identificarem oportunidades de ecoeficiência. Produção limpa É a aplicação contínua de uma estratégia ambiental preventiva e integrada aplicada aos processos, produtos e serviços para aumentar a ecoeficiência e reduzir o risco para as pessoas e o meio ambiente. Em muitos aspectos, a produção mais limpa busca operacionalizar a ecoeficiência no nível do processo (conservando matérias- primas, eliminando matérias-primas tóxicas e reduzindo a quantidade e toxicidade de todas as emissões e resíduos de um processo) e do produto (ou seja, reduzindo os impactos ao longo de todo o ciclo de vida do produto, desde a extração de matéria-prima até a eliminação final do produto). Fonte: adaptado de WBCSD (2006, p. 25-26). A ecoeficiência pode ser vista como uma forma de pensar ou sim- plesmente como uma ferramenta de gestão. Por isso, sua implantação pode ter diferentes variações, indo desde a padronização do processo produtivo até o redesenho de processos e produtos por meio de ele- vados índices de inovação. Para cada uma das possibilidades, existe alguma ferramenta adequada, podendo ser as que foram listadas no 95Sustentabilidade: olhando para dentro da empresa M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. quadro 2 – Ferramentas e sistemas de gestão para auxiliar a implan- tação da ecoeficiência,ou não. A escolha de qual ferramenta utilizar varia conforme o modo como se enxerga a questão da sustentabilida- de no negócio. 1.2 Gestão de pessoas Diferente da área de operações, em que a sustentabilidade é um conceito mais palpável, pois reduzir o consumo de matéria-prima eleva a eficiência do negócio, em gestão de pessoas é mais difícil estabe- lecer relações diretas entre as práticas voltadas para sustentabilidade e uma melhor performance dos empregados. Apesar de tal obstáculo, não faltam tentativas por parte da empresa, que vão desde a conscien- tização da necessidade de reduzir o consumo de material de escritório até a busca por desenvolver lideranças preocupadas com as questões da sustentabilidade. O fracasso ou o sucesso de qualquer prática que tenha como foco as pessoas que trabalham em uma organização dependem, em grande medida, do seu alinhamento com a cultura da organização. Um dos maiores desafios, senão o maior, dos modelos de gestão de pessoas é exatamente o de propiciar as condições para que se desenvolva uma cultura voltada para sustentabilidade. Desafio para o qual cada organi- zação deve encontrar seu próprio caminho (FISCHER, 2002). Uma das principais dificuldades encontradas por organizações que buscam adotar práticas relacionadas à sustentabilidade é que elas não estão preparadas para tanto. Em outras palavras, os preceitos que am- param a cultura de muitas organizações são incompatíveis com a sus- tentabilidade. A forma como as coisas são feitas não combina com os valores que norteiam a sustentabilidade. Uma empresa que discursa em prol da sustentabilidade não pode, por exemplo, rejeitar pagar horas extras aos seus empregados, desrespeitando o contrato de trabalho selado entre as partes. 96 Sustentabilidade organizacional M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo .Esse tipo de empresa precisa passar por uma mudança organiza- cional, a fim de solidificar os preceitos da sustentabilidade. Ser uma empresa que atua de forma sustentável não significa somente dar vida a um projeto social e ambiental ou realizar algumas ações de melhoria no modo de atuação. Apesar de positivo, isso não é tudo; a empresa precisa desenvolver internamente pessoas que acreditem no valor da sustentabilidade (BULLARA, 2003). Fischer (2002, p. 228) chama atenção para esse ponto, ao defender o enraizamento da cida- dania na cultura organizacional: Transparência na comunicação, fidedignidade das informações, condições ampliadas de participação, valorização do patrimônio de conhecimento coletivo, tratamento digno e respeitoso dado a cada pessoa são requisitos mínimos da convivência em organi- zações modernas. Tais características devem compor a própria cultura organizacional e são um solo propício para o desenvolvi- mento da cidadania organizacional. O que não se pode esperar é o contrário. Isto é, que uma empresa com padrões culturais autoritá- rios e conservadores, com relações de poder discricionárias e com políticas e práticas gerenciais que não dignificam o ser humano e seu trabalho, queira estabelecer atividades internas e externas configuradas como opções cidadãs. O atributo da cidadania orga- nizacional é uma característica que está nos genes da organiza- ção, que se concretiza em cada funcionário, que se percebe como cidadão e, só então, espraia-se na atuação social responsável. Diversos fatores podem contribuir para que uma organização desen- volva esse ambiente cidadão e propício à participação dos trabalhado- res. Buckley, Salazar-Xirinachs e Henriques (2012, p. 226) citam como exemplo: • padrão de vida e segurança econômica; • líderes que valorizam os trabalhadores; • ambiente de trabalho seguro e saudável; • confiança mútua entre empregadores e trabalhadores; 97Sustentabilidade: olhando para dentro da empresa M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. • participação na tomada de decisões; • cultura de abertura na tomada de decisões; • estímulo à iniciativa e à criatividade; • apoio da gestão em todos os níveis; • oportunidades para se usar e desenvolver competências; • equilíbrio entre trabalho e vida. A inserção desses fatores na cultura de uma organização pode con- tribuir não só para que os empregados se tornem mais produtivos e comprometidos, pois terão um ambiente de trabalho mais agradável, como também para que se tornem cidadãos conscientes quanto ao desenvolvimento sustentável. Para que esses fatores se tornem práti- cas do cotidiano de uma organização, a gestão de pessoas tem papel fundamental. Ter uma filosofia clara para a área que seja condizente com os princípios da sustentabilidade é um dos passos preliminares para estabelecer uma estratégia de atuação (FISCHER, 2002). Muitas vezes, acredita-se que o “investimento” em sustentabilidade gera automaticamente maior comprometimento dos funcionários. Porém, isso nem sempre acontece. Estudos têm mostrado que empre- sas consideradas modelos em termos de práticas voltadas para a sus- tentabilidade nem sempre têm os trabalhadores mais comprometidos. O comprometimento é derivado de uma série de fatores que envolve o contexto em que a empresa e seus empregados estão envolvidos. A palavra investimento para se referir à sustentabilidade tem sido usada de maneira indiscriminada e nem sempre é adequada. Vale lem- brar que investimento dentro de uma organização remete à ideia de di- recionar recursos, em sua maioria econômicos, para uma determinada atividade, esperando algum retorno. Entretanto, a sustentabilidade é marcada pelo equilíbrio entre suas dimensões econômica, ambiental e social. Por isso, quando se diz que se está investindo em sustentabilida- de, passa-se a impressão de que se está usando recursos econômicos 98 Sustentabilidade organizacional M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo .da organização para ter algum retorno. Assim, a sustentabilidade estará concorrendo com outros investimentos; a depender da situação econô- mica da organização, ela pode ou não ser contemplada. Quando, na ver- dade, a sustentabilidade deve ser tratada como um norteador da gestão e não um investimento pontual. Mais importante do que “investir” em sustentabilidade é acreditar nela como um valor. Em especial, os acionistas das empresas devem acreditar que essa é a forma coerente de se conduzir uma organização. Não adianta querer apresentar um discurso voltado para o público ex- terno se o público interno da organização não reconhece isso na prática. NA PRÁTICA Anualmente, a revista Você S/A publica a lista das 150 melhores empre- sas para se trabalhar no Brasil. Em 2014, a pesquisa coletou dados junto aos participantes referentes às práticas adotadas para monitoramento das condições de trabalho na cadeia de suprimento em relação ao uso de mão de obra escrava. Comparando as empresas que fazem parte da lista das 150 melhores com as demais empresas que participaram da pesquisa, Parente, Lucas e Cordeiro (2017) encontraram que não havia diferenças estatisticamente significantes entre o tratamento dado ao tema da escravidão contemporânea – ou seja, tanto empresasclassi- ficadas como 150 melhores quanto as que ficaram fora da lista tinham poucas práticas de combate à exploração de mão de obra escrava. As únicas empresas que apresentavam práticas consistentes eram aquelas que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Tra- balho Escravo. Mesmo se candidatando para ser uma das melhores empresas para se trabalhar no Brasil, a maioria dessas empresas não apresentava práticas condizentes com esse status. Tal cenário oferece indícios de que muitas empresas ainda necessitam ajustar o discurso com a prática, pois parece ser incoerente uma empresa querer ser con- siderada um bom local para se trabalhar e, ao mesmo tempo, não ter preocupação com os trabalhadores que estão envolvidos diretamente na sua cadeia produtiva. 99Sustentabilidade: olhando para dentro da empresa M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. 1.3 Administração financeira A questão financeira é, sem dúvida, um dos principais, senão o prin- cipal, norteadores do processo decisório nas organizações. Perguntas como “quanto isso custará?” ou “quanto teremos que investir?” são recorrentes para quase todas as decisões. No âmbito da sustentabili- dade, muitas vezes, como já mencionado, a questão financeira é con- siderada uma concorrente dos aspectos sociais e ambientais. Porém, não se pode discutir a sustentabilidade sem buscar equilibrar as suas três dimensões – ambiental, econômica e social. Nesse sentido, diversas iniciativas têm sido desenvolvidas por em- presas e institutos para desmistificar a concorrência entre a questão financeira e as dimensões sociais e ambientais. Em vez de serem anali- sadas como competidoras, elas precisam ser tratadas de forma integra- da. Balanço social, relatório de sustentabilidade empresarial, balanço social corporativo, entre outras, são algumas nomenclaturas utilizadas para divulgar as informações das empresas em relação às questões sociais e ambientais (OLIVEIRA, 2013). Esses tipos de relatórios vêm sendo utilizados por diversas organiza- ções para divulgar as ações voltadas para sustentabilidade. O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE) lançou um modelo de balanço social na década de 1990 para incentivar a divulgação das informações por parte das organizações. Desde então, tem crescido a adesão das empresas a esse tipo de balanço. Além do Ibase, outras instituições têm incentivado a prática, em es- pecial o Global Reporting Initiative (GRI). As diretrizes do GRI servem para elaboração do relatório de sustentabilidade, visto que busca inte- grar os sistemas de gestão, os padrões de desempenho e as conven- ções internacionais. Além disso, o GRI adota uma flexibilidade para que os relatórios possam atender a demandas dos contextos locais em que a empresa atua (OLIVEIRA, 2013). 100 Sustentabilidade organizacional M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . Recentemente, uma iniciativa mundial liderada pelo Conselho Inter- nacional para o Relato Integrado (International Integrated Reporting Council – IIRC) tem ganhado força. Com a ideia de unir todos relatórios feitos pelas organizações, o IIRC propõe que seja produzido um único relatório, que seria o relatório integrado. Segundo o conselho, o princípio é que a organização tenha um único documento que mostre como ela consegue gerar valor ao longo do tempo (IIRC, 2017). Assim, é neces- sário que sejam divulgadas iniciativas que englobem não só os capitais financeiro, social e ambiental, mas todos aqueles que contribuem para a existência da empresa e a sua continuação a longo prazo – finan- ceiro, manufaturado, intelectual, humano, social e de relacionamento e natural. Com essa perspectiva, as empresas podem ter um poderoso instru- mento para divulgar de forma completa e transparente o seu modelo de atuação, permitindo a alocação de capital de maneira mais eficiente e produtiva. Segundo o IIRC (2017, p. 4): O objetivo principal de um relato integrado é o de explicar aos pro- vedores de capital financeiro como uma organização gera valor ao longo do tempo. Um relato integrado beneficia todas as partes que estejam interessadas na capacidade que uma organização tem de gerar valor ao longo do tempo, incluindo empregados, clientes, for- necedores, parceiros comerciais, comunidades locais, legisladores, reguladores e formuladores de políticas. A elaboração de um relatório integrado é uma experiência que pro- porciona grande aprendizado às organizações, pois a partir do momen- to que é necessário levantar, organizar e divulgar as informações de forma integrada, é possível entender as sinergias existentes dentro da organização. Além disso, os relatórios são educativos, pois forçam as pessoas a não direcionar o foco exclusivamente às questões financei- ras, esclarecendo sobre a necessidade de conciliá-las com os demais capitais que uma organização possui. Por fim, esse tipo de relatório é 101Sustentabilidade: olhando para dentro da empresa M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. uma ferramenta útil para que a empresa tenha maior transparência e aumente sua credibilidade perante seus investidores, o que é uma ma- neira de atrair recursos financeiros que proporcionarão a geração de valor a longo prazo. Considerações finais Os gestores possuem uma infinidade de ferramentas, modelos e sistemas disponíveis para auxiliar suas organizações a adotarem uma postura sustentável. Porém, nenhuma dessas ferramentas será bem- -sucedida se dois princípios não forem respeitados em sua implantação. O primeiro é a crença no que está sendo feito. É preciso que as pes- soas acreditem que a sustentabilidade é um valor central para a condu- ção de uma organização. Sem isso, corre-se o risco de que as práticas se tornem apenas um discurso sem respaldo no dia a dia. Para tanto, é preciso que a sustentabilidade seja trabalhada para entrar no DNA da organização, que é a cultura. O segundo princípio é enxergar a organização a partir de uma pers- pectiva sistêmica e integrada, em que o todo é maior do que a soma das partes. Nenhuma dimensão da sustentabilidade pode ser colocada acima das demais; em vez disso, todas devem ser vistas de maneira integrada, como fontes de geração de valor a longo prazo. Referências BARBIERI, José Carlos; CAJAZEIRA, Jorge Emanuel Reis. Responsabilidade social e empresarial e empresa sustentável: da teoria à prática. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. BUCKLEY, Graeme; SALAZAR-XIRINACHS, José Manuel; HENRIQUES, Michael. A promoção das empresas sustentáveis. Curitiba: InterSaberes, 2012. 102 Sustentabilidade organizacional M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . BULLARA, César. As exigências de uma política de responsabilidade social. In: VI CONGRESSO LATINO-AMERICANO DE ÉTICA, NEGÓCIOS E ECONOMIA. Anais... São Paulo, 2003. FISCHER, Rosa Maria. A responsabilidade da cidadania organizacional. In: FLEURY, Maria Tereza Leme(Org.). As pessoas na organização. São Paulo: Editora Gente, 2002. INTERNATIONAL INTEGRATED REPORTING COUNCIL (IIRC). Visão geral. 2017. Disponível em: . Acesso em: 2 ago. 2017. OLIVEIRA, José Antonio Puppim de. Empresas na sociedade: sustentabilidade e responsabilidade social. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. PARENTE, Tobias Coutinho; LUCAS, Angela Christina; CORDEIRO, Rafaela Almeida. Contemporary slavery in Brazil: what have companies (not) done to prevent it? Revista de Administração Mackenzie, v. 18, n. 4, 2017. WORLD BUSINESS COUNCIL FOR SUSTAINABLE DEVELOPMENT (WBCSD). Eco-efficiency: learning module. 2006. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2017.