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38 O ROSACRUZ · OUTONO 2014 OUTONO 2014 · O ROSACRUZ 39
Por LOUIS CAILLAUD, FRC*
Os tarôs teriam surgido de um vestígio gnóstico dos Cátaros, do qual teria se origina-
do também, na época de Francisco I, uma Confraria que agremiava companheiros e 
mestres das corporações do Livro, gravadores, iluminadores, encadernadores e tam-
bém os livreiros que fabricaram os primeiros Tarôs.
Francisco I pertenceu a essa Confraria e, para participar das reuniões em que se desenvolviam 
seus trabalhos, o soberano deixava incógnito o Palácio do Louvre uma vez por mês para ir até 
a Rue de l’Arbre-Sec (Rua da Árvore Seca), 
onde se situava a Confraria, que tinha por 
nome “Agla” e como sinal de reconhecimento 
o número 4 associado a um padrão gráfico 
em forma de coração. No Tarô, o Arcano IV 
é O Imperador. Francisco I foi o fundador da 
Imprensa Real. Não nos esqueçamos de que 
ele foi iniciado à ciência dos mistérios por 
Leonardo da Vinci, que morou próximo ao 
rei no Castelo de Amboise.
Apesar das pesquisas, ninguém pode 
contudo determinar com exatidão as origens 
do Tarô. De onde ele veio? Alguns o situam 
em torno da bacia mediterrânea a partir do 
século XIV. Dele encontramos traços na Es-
panha com os Árabes, na China e na Europa 
Oriental, particularmente na Boêmia.
As imagens do Tarô se inscrevem na gran-
de Tradição dos gravadores da Idade Média 
e dos Alquimistas, que delas fizeram um sis-
tema de reprodução dos conhecimentos an-
tigos. Outrora, a filosofia incluía a metafísica, 
considerada como um diagrama do Universo, 
servindo para extrair as raízes da conduta do 
homem, orientado para uma visão “transpes-
soal” e restabelecendo a concepção do invi-
sível como parte integrante do patrimônio 
armazenado nos abismos do inconsciente da 
humanidade. Isso faz do Tarô um instrumen-
to e guia prestigioso que restitui a evolução 
da consciência a ela acrescentando as cons-
truções psicológicas da natureza humana.
Através do jogo desse fascinante conjun-
to de imagens que é o Tarô, propomos uma 
orientação como via de acesso a um proce-
dimento psicológico pessoal, ou seja, em que 
o consulente é seu próprio guia e intérprete. 
Nesse procedimento é focalizada uma psi-
cologia que serve de filão para estabelecer, 
a partir de símbolos, uma relação com o In-
consciente do consulente. Psicólogos como 
Denise Roussel, Jack Hurley e Stuart Kaplan 
sustentam que o simbolismo do Tarô é um 
espelho do “Inconsciente e do Eu”.
Aquilo a que chamamos “símbolo” é um 
termo, um nome ou uma imagem que remete 
a um conteúdo mais vasto do que o seu sen-
tido imediato, pois ele não é jamais definido 
com precisão e nem tampouco plenamente 
explicado, o que o diferencia do signo, que 
por sua vez remete unicamente aos objetos 
aos quais está associado.
O simbolismo do Tarô, nessa orientação, 
se apresentaria como um suporte de proje-
ção tridimensional: a expressão remete ao 
consciente, à integração ao inconsciente e à 
entrega ao Eu. Essa projeção tridimensional 
é uma dinâmica para se acessar a órbita do 
imaginário e favorecer uma percepção in-
tuitiva, as quais são essenciais à qualidade 
numinosa da interpretação. Intuição e imagi-
nário desempenham um papel que não pode 
ser transformado em sistema intelectual, pois 
arrisca perder o essencial de sua espontanei-
dade, o que reduziria o caráter numinoso e 
vivo do símbolo. Uma sinergia é desse modo 
inclinada para o inconsciente a fim de suscitar 
concordâncias e associações e de tentar evi-
denciar arquétipos e reatar relações com o Eu.
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O valor dinâmico dos arquétipos pode ser definido como 
“engramas”, ou seja, impressões deixadas no inconsciente, tanto 
individual quanto coletivo. Na alma humana, são símbolos que, 
desde sempre, serviram para expressar a experiência psicológica 
do homem em sua história e sua cultura – particularmente sua 
cultura religiosa. De acordo com Carl Jung, quanto mais arcaico 
o símbolo, mais universal ele é.
O Tarô parece ter duas funções psicológicas. A primeira é 
representada pelas 22 lâminas ditas “Maiores”. É uma dinâmica 
vertical. A segunda é completada pelas 56 lâminas ditas “Meno-
res”. Diremos que esta é uma dinâmica horizontal. Ela se mani-
festa como um suporte dotado de uma relação de sincronicida-
de – de coincidências significativas – entre os acontecimentos e 
as modalidades do fenômeno humano.
Em seu componente simbólico, a função maior será aque-
la que emprestaremos. Esse Arcano pode ser visto como um 
procedimento interior – uma descida no interior de si – de 
alguma forma semelhante à imagem de um recipiente que se 
faz descer num poço para dele extrair o conteúdo. Está escrito: 
“Visita o interior da Terra e, cavando mais fundo, encontrarás a pedra oculta. 
Apenas a busca conduzir-te-á ao teu próprio mistério”.
Nesse modelo, é o Arcano XIII, A Morte, que vai preceder nossa operação. Ela evoca em sua 
imagem a passagem da transição, o que quer dizer que “É preciso 
saber morrer para conceitos moldados aos formatos de nossas 
ideias”. O esqueleto, desprovido de carne, ilustra o abandono 
dos preconceitos e dos compromissos que o homem atrela a si 
em sua existência. A Foice é o instrumento da discriminação. 
Ela corta os laços do mundo das aparências e de seu cortejo de 
ilusões; o esqueleto tem a cor da pele para lembrar que toda 
realização é feita também no mundo, laboratório das experi-
ências humanas. Dentre os elementos que estão espalhados 
pelo chão, de cor negra (a Sombra), percebemos duas cabeças, 
uma das quais coroada, o que quer dizer que o homem se 
abre a visões superiores das coisas da mente.
Este Arcano não está imperativamente a serviço de uma 
mensagem post-mortem; deve contudo ser sentido como 
uma possibilidade de renovação – uma espécie de alquimia 
que transmuta a “Sombra” em “Luz” –, o que redunda em 
dizer: “Desenvolver um esclarecimento de consciência e discer-
nimento a fim de extrair as verdades essenciais que residem 
em si”. Isso equivale a “extrair o sutil do grosseiro”. Para tanto 
é preciso saber “ousar”, tomar o bastão do peregrino, símbo-
lo de apoio e perseverança, necessária a qualquer realização. 
Este seria o sentido dado ao nosso Arcano VIIII, O Eremita.
Essa personagem, símbolo de discrição 
por seu manto, sugere que o visível em todas 
as coisas é apenas um véu opaco do invisível 
e particularmente das coisas escondidas den-
tro de si, as quais devem ser conhecidas pela 
luz do espírito, representada pela fonte lumi-
nosa que o Eremita segura por baixo de seu 
manto. Essa respeitosa personagem poderia 
ser comparada a todo ser humano que deseja 
abandonar as dissipações do mundo a fim de 
refletir sobre as questões maiores e as realida-
des fundamentais de sua própria personali-
dade. Nosso Eremita corresponde à imagem 
de Diógenes, que à pergunta “Que procuras?” 
respondia: “Procuro um homem!”.
Essa busca de si postula uma escolha. É o 
Arcano VI O Enamorado, que ilustra a difi-
culdade dessa escolha, evocando o livre arbí-
trio de que o homem pode dispor. Nesse Ar-
cano, a determinação da escolha é represen-
tada pelo Cupido, com o arco teso e prestes a 
atirar sua flecha, representando o sentido da 
direção justa para conseguir seu objetivo. Ele 
A Morte
O Eremita
tenta determinar ao consciente sentimentos 
e ideais nobres. Isto significa: “O homem, em 
suas escolhas, tende àquilo que é justo, com 
reflexão, antes de efetivar o ato decidido”.
É nesta passagem que se apresentam as 
influências do Arcano XV, o Diabo. Esse ar-
cano personifica de alguma forma os instin-
tos, as paixões e os desejos reprimidos, tanto 
individuais quanto coletivos, o que faz dele 
uma entidade. É “a Sombra”. Enquanto essa 
entidade não é pulverizada para se dissolver, 
seu poder é reforçado e o homem se deba-
te no conflito de sua dualidade de opostos, 
sugerida pelos dois diabinhos. O Diabo não 
ignoraque a evolução para um nível espiritu-
al tende a destruir aquilo que se opõe a ela.
É isto que é ilustrado pelo Arcano XVI, A 
Torre. Essa Torre evoca a estrutura rígida e 
egoísta de uma psicologia que se rompe. Em 
sua existência, o homem tenda a transformar 
suas aspirações em ressentimentos, pela falta 
de conhecimento de si mesmo, e esquece que 
pode derrubar a muralha que erigiu e atrás 
O DiaboO Enamorado A Torre
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da qual se refugia. Todavia, ele sente neces-
sidade de buscar uma passagem que dê para 
um horizonte mais amplo. Porém, por não 
ousar, ele prefere se fechar em si mesmo e 
esperar. Pelo quê…?
No entanto, as janelas de cor azul-noite na 
imagem evocam uma libertação psicológica 
que o convida a focalizar seu desejo de fugir 
de sua prisão e se reportar a ideias originais e 
renovadas. Por isso o orvalho colorido.
Logo, acrescenta-se o Arcano XVII, A 
Estrela. Essa jovem mulher é comparável a 
uma fonte de água fresca; ela simboliza a 
Anima no homem, servindo de mediadora 
entre o consciente e o inconsciente. A Anima, 
e o Animus no caso da mulher, são conside-
rados Arquétipos. A água que se derrama do 
vaso é confiada à inteligência e à intuição, 
representadas pela corrente e pelos cabelos 
azuis que emolduram o rosto de nossa jovem. 
Sua nudez evoca uma transparência capaz de 
suscitar uma mudança para sentimentos no-
bres, representados pelo céu estrelado. Além 
disso, a vegetação verde é considerada como 
uma esperança de renovação que se inscreve 
na corrente de sua existência.
Intervém o Arcano X, A Roda da Fortuna. 
Está no movimento de suas intenções passar 
pelo centro de si mesmo, lá onde se encontra o 
eixo, a fim de promover um equilíbrio sereno. 
Os gravadores medievais acrescentaram à roda 
dois animais alegóricos, Anúbis e Thyphon. O 
primeiro reflete os aspectos secretos e numi-
nosos da alma, ao passo que o segundo traz os 
aspectos conflituosos. O Hermanúbis sentado 
sobre a roda sugere a razão a serviço da inteli-
gência. O gládio por sua vez é o discernimento 
das causas justas. Esse Arcano designa indis-
cutivelmente o movimento: “O homem deve 
evitar se demorar em atitudes fossilizantes para 
não agir como a mulher de Loth”.
Isso nos conduz ao Arcano III, A Impe-
ratriz. A coroa, a veste azul e o cetro com a 
cruz são atributos de ideação espiritual que, 
mesmo secreta, é o voto piedoso de todo ser 
humano. Guiado por essa realeza, o homem 
será capaz de orientar seu despertar interior e 
tomar consciência de suas próprias potencia-
lidades para melhor se governar.
A fim de reforçar sua ação, apresenta-se o 
Arcano VIII, A Justiça. O homem tem o dever 
de se inspirar nele. Ora, como o pensamento 
engendra o ato, o sentimento de justiça assume 
uma importância quanto às decisões e com-
portamentos. A justiça ilustra a ação justa que 
permite o equilíbrio, como o flagelo e a balan-
ça, que oscila em seu centro de estabilidade. 
Isso merece uma reflexão ao se associar a espa-
da sustentada na mão esquerda. A inteligência 
do coração! Em outras palavras: “Conduzir um 
combate com equidade e com uma força tran-
quila que exclui toda paixão e todo excesso”.
Esta força tranquila nos é revelada pelo 
Arcano XI, chamado também Serenidade. Ele 
se apresenta como uma mulher de aspecto 
sereno que consegue abrir a boca de um leão. 
Se a justiça estabiliza aquele que age de ma-
neira justa, por extensão a Força se predispõe 
a tornar o homem consciente de que toda 
ideação e toda busca empreendidas na força 
do espírito triunfam em favor daquilo que 
é justo e verdadeiro em si. Aquilo que vem 
do espírito torna o homem virtuoso. A Bela 
domina a fera, força criativa do homem que 
domina as paixões, as quais serão consumi-
das pelo sacrifício do ego.
É evidente que aquilo que torna virtuoso 
exige de si mesmo uma determinada auto-
ridade, que é o que designa o Arcano IIII, 
O Imperador. Essa alta personagem, que 
representa a autoridade e o poder, sabe que 
o mundo deve ser regido com dignidade, e 
não explorado. Notemos que é nisto que o 
homem, para o seu próprio bem e em favor 
de seus semelhantes, deve se concentrar. O 
trono no qual o Imperador está sentado re-
presenta aquilo que o homem estabeleceu: 
suas crenças, seu saber e também o seu po-
der, muitíssimas vezes explorado para fins 
pessoais. Esse trono, porém deve lhe garantir 
a justa medida de sua autoridade. O pássaro 
Fênix representa aquilo que deve ser mudado 
A Serenidade O ImperadorA JustiçaA Roda da Fortuna A ImperatrizA Estrela
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e renascer na consciência a fim de se abrir a 
uma psicologia renovada.
Se por um lado o cetro é um atributo da 
autoridade, por outro ele confere também a 
sabedoria que ilumina o Arcano II, A Papisa. 
Ela revela o caminho que culmina no coração 
do “Livro” que contém as páginas de nossa 
própria natureza. Ainda nessa metáfora, de-
cifrar as páginas desse “livro” pode se revelar 
como algo muito edificante para consigo 
mesmo. As cores vermelha e azul evocam o 
fluxo do dinamismo e da devoção.
Logo, o homem com tal desejo aspira 
ao essencial; para conquistá-lo, ele sente a 
necessidade de ser guiado pelo Arcano V, O 
Papa. A imagem desse Arcano transparece a 
nobreza aparente do semblante emoldurado 
pela barba e pelos cabelos brancos, marcas de 
uma grande sabedoria. O dinamismo das co-
res manifesta os aspectos de um espírito es-
clarecido, o que garante à nossa personagem 
o Domínio. Por seu gesto, ele indica a via 
cardíaca, fonte de devoção espiritual. As duas 
colunas simbolizam o Rigor e a Clemência 
sobre as quais a Sabedoria se apóia. Esses três 
princípios são os catalisadores de uma voca-
ção de Ser. Este sábio, em seu olhar, parece 
querer nos dizer: “É preciso conhecer a si mes-
mo para se tornar um Homem de desejo…”.
Isso nos confronta com o Arcano XXI, O 
Mundo. A imagem nos mostra uma mulher 
nua no interior de uma coroa oval. Essa jo-
vem mulher representa a alma humana no 
mundo, representado pela coroa, que sugere 
os limites da compreensão humana. A nudez 
é a imagem do despojamento de nossa perso-
nalidade. É ainda a imagem de um Arquéti-
po, o Anima-Animus, que na natureza huma-
na desempenha o papel de mediador entre o 
Eu objetivo e o Eu subjetivo. É um aspecto de 
nossa interioridade que é preciso conhecer.
Se o homem deseja conhecer a si mesmo, 
ele necessita da luz do Espírito, que será por-
tanto o Arcano XVIIII, O Sol. A imagem, por 
seu desenho, ilustra a luz de uma Consciência 
superior àquela da mente corporal represen-
tada pelas duas crianças de sexos diferentes de 
mãos dadas num gesto de união com aquilo 
que vem do alto. O sol é o símbolo do Self. 
Sua luz atravessa as zonas não luminosas do 
Eu, sem que com isso o seu brilho seja altera-
do, representado pelas gotas de orvalho. É de 
fato reconhecer que a luz do Espírito é o crité-
rio imperativo da sabedoria e dos sentimentos 
nobres. Entretanto, luz e sombra acompa-
nham o homem, revelando o “claro-escuro” 
de sua natureza, o aspecto de sua dualidade.
Para ilustrar esse aspecto, se apresenta a 
nós o Arcano XVIII, A Lua. Se o Sol exprime 
o princípio masculino, a Lua exprime o prin-
cípio feminino. Ela é o “claro-escuro” do nos-
so Eu, que simboliza a água inerte da maré 
à qual se acrescenta uma lagosta que anda 
para trás, ilustrando a indecisão e os limites 
que nos impomos. Reencontramos os nossos 
instintos não canalizados sob a forma de dois 
cães que ladram. É aí que o homem encontra 
suas próprias oposições – seus próprios con-
flitos que ele deve moderar pela temperança.
Eis o que o Arcano XIIII, A Temperança, 
ilustra bem: essa ida e volta da água efetuada 
pela mulher, que sugere que o homem fertili-
za e fecunda a corrente de seus atos e de seus 
pensamentos a fim de moderar seus compor-
tamentos. Esse fluxo salvador convida o ho-
mem a empreender um despertar espiritualda consciência que, como um eco, repercuti-
rá numa esfera numinosa da personalidade: o 
Self. “O Self é o centro e o perímetro da natu-
reza do homem”, dizia Carl Jung.
No Arcano XX, O Julgamento, constatamos 
que essa ressonância engendrará efeitos que 
provocarão a ruptura de uma psicologia muitas 
vezes restritiva. Escutemos aquilo que nos diz a 
concha do anjo que ressoa: “As causas que engen-
draram efeitos devem ser superadas a fim de que 
se esteja apto a assumir a Temperança – o equilí-
brio de nossa natureza física, psíquica e espiritu-
al”. É isso o que representam as três personagens 
em atitude de devoção e a outra personagem 
vista de costas no quadrado verde, símbolo de 
renovação: “É preciso renascer de cima!”.
A Lua A TemperançaO SolO Papa O MundoA Papisa
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Isso exige uma dinâmica refletida pelo 
Arcano VII, O Carro. O condutor pratica, 
por um julgamento são, uma arte de se go-
vernar empenhando-se em dominar os opos-
tos de sua própria natureza: os dois cavalos. 
Apoiando-se sobre o Rigor e a Clemência, 
ele equilibra diligentemente sua dualidade, o 
que lhe vale o diadema e o cetro, emblemas 
da autoridade armada pela Temperança, pelo 
Julgamento e pela Sabedoria. Esse Arcano 
põe em ação uma dinâmica de progresso e de 
espiritualidade no mundo a serviço do ho-
mem e de si, pois nesse élan o homem é con-
duzido para si mesmo. “Ninguém pode dar se 
antes não tiver nada a oferecer…”.
Não é dito que “para ser sábio é preciso 
ser louco”? Apresenta-se então o Arcano 
sem número, O Mate, também chamado O 
Louco. Se ele é louco, é louco pela sabedoria 
que os homens não podem compreender. 
Ele também não tem nome, pois o homem 
que busca a ideação e o conhecimento de si 
está sozinho consigo mesmo, como o caro-
ço na carne do fruto. Ele transformou sua 
razão numa intuição bem ordenada, e se ele 
por um lado sofre com as chacotas e mordi-
das na carne, não desiste contudo de seu ca-
minho. Sua trouxa parece leve. Ele sabe que 
tudo aquilo que é fardo entrava qualquer 
possibilidade de se chegar à realidade fun-
damental de seu ser, que será revelada pelas 
operações de uma “Magia sacramental”.
Essa Magia é posta em ação pelo Arcano 
I, O Saltimbanco, também chamado O Mago. 
Em sua arte, ele nos demonstra o modo de 
combinar os elementos de forma a se conse-
guir um equilíbrio, o que evidencia um espí-
rito sintético – estabelecer uma relação entre 
razão, saber e inteligência. O bastão que ele 
traz à mão é marcado por ideias construtivas 
e por uma ética que transcende a moral. Em 
sua ação, o Mago expande seus próprios li-
mites (a retidão da mesa) no sentido de uma 
psicologia mais ampla e mais esclarecida, a 
qual é representada por seu chapéu na forma 
de um oito horizontal.
Todo homem, se o desejar, pode pretender, a exemplo desse 
Mago, mover-se na direção de uma nova psicologia, que não 
carecerá nem de elevação e nem de espiritualidade. “O homem 
será inovador e espiritual. Isso depende dele…”. Ser-lhe-á neces-
sário infalivelmente, por livre escolha, engajar-se numa busca 
que o conduzirá para a realização interior, que é o próprio da 
consciência desperta do homem. Desse homem de desejo serão 
exigidos muitos sacrifícios.
Isso nos conduz à presença do Arcano XII, O Enforcado. Gra-
ças à magia de inversão, o alto e o baixo são apenas dois aspectos 
de uma visão moldada ao formato das coisas desse mundo; o ho-
mem deve suplantar essas imposições que condicionam sua pre-
destinação, pois é chamado a se elevar a uma visão global de sua 
própria natureza e do universo. A posição do crucificado simbo-
liza um retorno à interioridade. É uma “entrada em si” e “uma 
saída de si”, realizando assim a ligação pela qual ele se constitui o 
“mediador” entre as oposições de sua própria natureza. A posição 
vertical é sinal de élan, e aí se trata de um élan de espiritualidade. 
Esse crucificado, na vertical e na horizontal, revela duas dinâmicas 
que se fundem num “Centro” representativo do Self, pelo ato de sacrifício, e exige a renúncia do ego, o 
que põe em evidência o Arcano XII, O Enforcado. Essas palavras do Mestre Eckart ilustram maravilho-
samente o significado desse Arcano: “Quem quer vir a Deus, deve vir como um nada…”.
Conclusão
O Tarô é um autêntico Livro Alquímico. Os Sábios e Magos em-
penharam-se para torná-lo acessível aos buscadores de axiomas 
e se preocuparam em incluir nele uma gnose hermética, ou seja, 
um conhecimento das verdades essenciais da renascença espiri-
tual do homem. Especificamos que o Tarô não é um mero jogo 
como os outros. É um poema universal.
O procedimento que é apresentado não é evidentemente 
exaustivo – é apenas um modelo – que terá por mérito ter 
ousado oferecer a todo buscador de axiomas uma curiosidade 
sã que permite, intuitivamente, despertar a dinâmica de uma 
psicologia que objetiva, acionando os Arcanos, descobrir em 
si o fio condutor que estabelece a relação do interior das coisas 
para atingir a nossa Realidade.
“Quando fizeres do interior das coisas o exterior, e do exte-
rior o interior, realizarás teu Reino. E se te tornares o gérmen 
vivo desse Reino, atrairás aqueles que, como tu, procuram a 
Verdade. Nada há escondido que não possa ser revelado”. 4
* Membro da Universidade Rose-Croix Internacional – URCI / Cartas extraídas da 
edição do Tarot da Idade Média de Oswald Wirth.
O Carro O LoucoO Julgamento
O Saltimbanco
O Enforcado

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