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DEMETRIO MAGNOLI GEOGRAFIA PARA O ENSINO VOLUME Atual EditoraCAPÍTULO TECNOLOGIAS E 6 ESPAÇO GEOGRÁFICO o ESPAÇO GEOGRÁFICO SURGE DA INTERVENÇÃO HUMANA SOBRE o MEIO natural. As tecnologias são instrumento dessa intervenção. Na era industrial, com carvão, a máquina a vapor e as ferrovias, e depois com petróleo, motora combustão interna e o automóvel, o meio técnico substitui extensamente o meio natural. Atualmente, com a revolução emerge um novo meio que se organiza em torno das telecomunicações e das redes digitais. As empresas transnacionais são atores de primeira linha no espaço mundial. A ficação econômica dos mercados, acelerada pela revolução tecnocientífica, assinala uma nova etapa da globalização. Neste capítulo, procuramos nas redes internacio- nais, que integram cidades de todo o mundo, os contornos de uma geografia da globalização. Os ciclos de inovação tecnológica O advento da indústria é um marco na história das civilizações. Antes da era industrial, a base técnica das sociedades evoluía apenas muito Com a economia industrial, a produção de riquezas passou a ser ditada por revoluções tecnológicas sucessivas. Do ponto de vista econômico e cultural, as sociedades pré-industriais norteavam-se pela tradição, enquanto as sociedades industriais orientam-se pela mudança. Desde o nascimento das primeiras fábricas, no final do século XVIII, a economia industrial desenvolve- se em ciclos longos, cada um dos quais assentado sobre um conjunto de tecnologias principais. Esses ciclos econômicos começam com uma fase de rápida expansão das empresas inovadoras, que lançam produtos novos, aumentam a eficiência dos processos produtivos e conquistam mercados. A fase seguinte é de estabilização e equilíbrio, com a difusão das novas tecnologias para o conjunto da economia e o acirramento da concorrência. Finalmente, uma fase descendente, caracterizada pela redução do crescimento e dos lucros empresariais, anuncia o esgotamento do ciclo. O economista austríaco Joseph Schumpeter, nas décadas de 1920 e 1930, estudou em profundidade os ciclos econômicos, associando-os à marcha da inovação tecnológica. De acordo com ele, a economia industrial evolui por meio da "destruição quando um conjunto de novas tecnologias encontra aplicação produtiva, as tecnologias tradicionais são "destruídas", isto é, deixam de criar produtos capazes de competir no mercado e acabam sendo abandonadas. A mudança das tecnologias principais assinala a transição de um ciclo a 98Tecnologias e espaço geográfico CAPÍTULO 6 Aparelho de televisão típico da década de 1960. Aparelho de televisão lançado na Grä-Bretanha em Com base nesse conceito, é possível identificar cinco ciclos longos de inovação tecnológica na era indus- trial. Através deles, a economia contemporânea evoluiu das primeiras fábricas têxteis inglesas até a da dos nossos tempos (veja esquema abaixo). Os ciclos econômicos longos ajudam a esclarecer a organização do espaço geográfico e suas transfor- mações. Durante dois séculos, a economia indus- trial modificou profunda e extensamente a superfície terrestre, produzindo um meio geográfico organi- zado em torno da energia mecânica e dos modernos HDTV sistemas de transportes. Nas últimas décadas, as inovações tecnológicas da era da informação vêm produzindo um meio geográfico organizado em torno das telecomunicações, das novas mídias e das Aparelho de televisão em alta definição da primeira redes digitais. década do século XXI. Ciclos de inovação da economia industrial Força hidráulica Carvão mineral Petróleo Petroquímicos Redes digitais Têxteis Ferrovias Eletricidade Eletrônicos Software Ferro Navios a vapor Químicos Aviação Novas mídias Siderurgia Automóveis Biotecnologia Telefone Novos materiais CICLO CICLO CICLO CICLO DA CICLO DA HIDRÁULICO DO CARVÃO DO PETRÓLEO ELETRÔNICA INFORMÁTIGA 1785 1845 1900 1950 1990 2020 ano THE London: The Economist 20 fev. 1999. 99UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico Meio natural e meio técnico caram mudanças profundas na organização espacial das indústrias. O transporte ferroviário de carvão tinha De acordo com o astrônomo Carl Sagan, a huma- custos elevados, que se tornavam proibitivos a nidade transforma extensivamente o meio desde que, cias muito longas. Na Europa e nos Estados Unidos, há centenas de milhares de anos, os ancestrais humanos até hoje, extensas aglomerações industriais situam-se aprenderam a controlar o fogo. Contudo, as sociedades nos arredores das minas de carvão, muitas das quais pré-industriais, há apenas três séculos, não dispunham já fecharam há décadas. de motores e, portanto, não eram plenamente capazes de converter energia em força mecânica. Antes da era cristã já se utilizavam moinhos de água e um pouco mais tarde surgiram os moinhos de vento, que podem ser classificados como tecnolo- gias mecânicas. Mas essas não mudavam o panorama mais amplo: até o advento da indústria, a vida econômica e social estava inscrita nos marcos do meio natural. A produção agrícola e artesanal dependia essencialmente da força humana ou animal. Os trans- portes terrestres eram lentos e ineficientes. O comércio a longa distância desenvolvia-se quase inteiramente pelas "estradas dos oceanos, mares e rios. O meio técnico disseminou-se na era industrial. A conversão da energia em força mecânica propiciou a multiplicação da produtividade geral da economia, expressa em primeiro lugar no surgimento de incontá- veis bens de consumo manufaturados. A indústria logo passou a fabricar bens de produção, ou seja, máquinas e equipamentos para uso em outras indústrias e na Vapores no rio Estados Unidos, no século XIX. 0 agricultura. Os motores e as máquinas revolucionaram rio, que corta de norte a sul as planícies centrais do país, tornou-se um corredor essencial de tráfego de produtos os transportes, na água, em terra e no ar. agrícolas e industriais com o advento da navegação a vapor. Os ciclos econômicos estão associados às formas de organização do espaço geográfico e à valorização de determinados recursos naturais. Nos primórdios da industrialização, os teares hidráulicos utilizavam como fonte de energia. As fábricas têxteis inglesas instalaram-se, originalmente, às margens dos rios, reforçando um antigo padrão de aglomeração humana ligado à disponibilidade de água e aos trans- portes marítimos e fluviais. A máquina a vapor, desde meados do século XIX, atraiu as fábricas para as bacias O tear mecânico, baseado na combustão de carvão mineral, South Indian Railway, na Índia britânica, em 1923. As ferrovias propiciaram a valorização econômica das e as inovações tecnológicas que geraram a siderurgia colônias europeias na Ásia e na África, desde as últimas moderna valorizaram aquele recurso mineral e provo- décadas do século XIX. 100Tecnologias e espaço geográfico CAPÍTULO 6 O ciclo do carvão propiciou uma "revolução nos geográfico. Paralelamente, o automóvel modificou a transportes" com o advento das ferrovias e do navio estrutura interna e a paisagem das cidades. As aglo- a vapor. A expansão imperial europeia na Ásia e na merações urbanas passaram a crescer horizontalmente, África associou-se a essa nova fluidez do espaço geo- acompanhando as vias expressas de tráfego, e multi- gráfico, que contribuiu para a unificação do mercado plicaram-se os centros comerciais. mundial. As estradas de ferro possibilitaram a implan- A quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, e tação de sistemas de agricultura comercial em terras a Grande Depressão da década de 1930 interrom- distantes dos portos marítimos e A"conquista peram a fase de prosperidade do ciclo do petróleo e do Oeste", nos Estados Unidos, a expansão cafeeira da eletricidade. Depois da Segunda Guerra Mundial no interior paulista e a modernização da pecuária (1939-45), a expansão foi retomada sobre novas bases no Pampa argentino são ilustrações dos horizontes tecnológicas. A indústria eletrônica criou centenas de econômicos abertos pelas redes ferroviárias. novos produtos e conferiu mais um impulso à produ- O ciclo do petróleo e da eletricidade configura a ção automobilística. O desenvolvimento da petroquí- chamada "segunda Revolução Industrial". Nesse ciclo, mica gerou a indústria de plásticos e fibras sintéticas. os Estados Unidos emergiram como a maior potência A aeronáutica civil, que se beneficiou dos avanços na econômica e geopolítica do mundo. aviação militar, reduziu o tempo de deslocamentos A energia elétrica libertou a indústria das locali- internacionais, gerou novos padrões de negócios e zações tradicionais, junto às bacias carboníferas e aos propiciou o surgimento da "indústria do turismo". portos. Os motores elétricos transformaram os pro- cessos de produção industrial. O petróleo e o motor meio da era da a combustão interna abriram caminho para o surgi- informação mento da indústria automobilística, que ocupou posi- central nas estruturas de produção e de consumo A economia mundial capitalista conheceu um durante o século XX. Com os veículos automotores, período de intensa vitalidade após a Segunda Guerra surgiram as redes rodoviárias, muito mais densas que Mundial. O "ciclo da eletrônica", que impulsionou as redes ferroviárias, e ampliou-se a fluidez do espaço quase 30 anos de crescimento econômico ininterrupto, entrou em declínio na década de Mas um novo ciclo econômico já estava a Os fundamentos desse ciclo, ainda em curso, repou- sam sobre a revolução tecno- científica, ou seja, o conjunto de inovações associadas à "revolu- ção da informação", aos avanços da biotecnologia, à automação e robotização dos processos pro- dutivos, ao desenvolvimento de novos materiais e às novas tec- 354 nologias de geração de energia. O núcleo da revolução tecno- Autopistas às margens do núcleo urbano de Villena, de origem medieval, na Espanha. A organização espacial das cidades medievais não pode ser adaptada às vias de circulação científica é constituído pela expressa de automóveis criadas no século XX. informática, que nasceu com 101UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico entrelaçamento da indústria de telecomunicações As redes internacionais de comunicações com a de computadores e softwares. Os extraordiná- ram no final do século XIX, com os cabos telegráfi- rios avanços nas técnicas de armazenamento e pro- submarinos. No pós-guerra, o fundo do oceano cessamento de informações foram potencializados Atlântico recebeu os primeiros cabos de telefonia, pelas redes digitais, cabos de fibra óptica e satélites hoje abandonados devido à sua pequena capacidade de transmissão. Atualmente, o mundo inteiro está de comunicações. As mercadorias derivadas dessas técnicas disse- conectado por meio de satélites de comunicações em órbita terrestre e cabos submarinos e terrestres de fibra minaram-se nas indústrias tradicionais, reinventando óptica de alta capacidade. seus produtos e processos de produção. Os novos A internet está presente em todo o globo. Con bens de consumo - computadores pessoais, telefones tudo, as capacidades de tráfego evidenciam a situa- celulares, produtos de multimídia - criaram merca- ção vantajosa da América do Norte, da Europa e do dos antes inexistentes e geraram imensa demanda. A Extremo Oriente. A América Latina exibe capacidade informática invadiu o setor financeiro, a indústria, de tráfego bem menor que as dos principais polos da os sistemas de administração pública e privada, os economia mundial, mas muito superior às da África serviços de transportes, saúde e educação. (veja mapa da página seguinte). A revolução tecnocientífica não se limita à infor- mática. O desenvolvimento da química fina abriu caminho para a criação de uma série de novos remédios. A biotecnologia encontra aplicações na medicina e na agricultura. A robótica intensifica a automação industrial. Contudo, as principais empresas que nas- ceram com a revolução tecnocientífica são aquelas Bailout Firewall to $1.06 Trillion ligadas à informática e às telecomunicações. O ciclo econômico inaugurado no final do século XX produz um meio tecnocientífico e informacional, que se distingue do meio técnico gerado pelos ciclos anteriores. O meio técnico organiza-se em torno das redes de transporte e das redes de comunicação ana- lógica. O meio tecnocientífico organiza-se em torno das redes de comunicação digital. A diferença crucial está no custo de transferência de informações. Na tecnologia analógica, textos, sons e imagens são transmitidos separadamente. Na tecnologia digital, todas as modalidades de informação são convertidas em "pacotes digitais" de informação, transmitidas em conjunto e restauradas no destino às suas formas origi- nais. A compressão digital permite enviar quantidade muito maior de informação por unidade de tempo. Além disso, ela proporciona a convergência de diferen- Telas eletrônicas na Bolsa de Valores de Londres, em tes tipos de mídia, como o rádio, a televisão, a música, 2012. Os fluxos instantâneos de informações concluíram a a fotografia e o cinema. globalização dos mercados financeiros. 102Tecnologias e espaço geográfico CAPÍTULO 6 Capacidade de tráfego na internet (2011) EUROPA de ESTADOS UNIDOS E CANADA AFRICA LATINA Capacidade de tráfego (em Gbps*) 500 250 100 50 25 10 5 *Gigabits por segundo Representação sem escala. Fonte: TELEGEOGRAPHY Global Internet Map 2011. Disponível em: Acesso em: 23 jan. 2012. Do fordismo ao sistema Expostos em 1911, os "Princípios de pre- de produção flexível viam uma detalhada divisão técnica do trabalho no interior da fábrica e um rígido controle do tempo A produção industrial do século XX foi orga- despendido em cada uma das tarefas produtivas sin- nizada segundo padrões de "administração gulares. O sistema de Taylor buscava padronizar os definidos pelos norte-americanos Frederick W. Taylor processos produtivos, transformando os operários em e Henry Ford. O engenheiro Taylor pregava uma par- executores passivos de tarefas simples e repetitivas. ceria entre a administração das empresas e a força de O taylorismo, como ficou conhecida sua doutrina de trabalho, que deveriam compartilhar a meta da eleva- administração, era hostil à organização dos trabalha- ção da eficiência produtiva e rejeitar as interferências dores em sindicatos e sua aplicação provocou protestos dos sindicatos operários. O empresário Ford, por sua e movimentos grevistas em fábricas dos Estados Uni- vez, aplicou à indústria do automóvel a técnica da linha dos (leia o texto do boxe na página seguinte). de montagem, extraindo o máximo de benefícios da Ford não era um teórico da administração, mas o mecanização da produção. fundador da indústria de automóveis de maior sucesso 103UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico da época. A expressão fordismo apareceu em 1910 Taylor contra os sindicatos enquanto o taylorismo tomava forma e explodian Os trabalhadores se organizam em sindicatos para as vendas do Ford-T. Ela fazia referência à inovação defender seus interesses de classe, que são definidos revolucionária introduzida na fábrica de automóveis por oposição aos interesses dos empresários. Os últi- a linha de montagem. Por meio da automação mos buscam antes de tudo maximizar seus lucros; os ciada pela energia elétrica, da padronização de peças primeiros almejam aumentar seus salários e melhorar e componentes e da produção em série, a indústria suas condições gerais de reduzia drasticamente os seus custos e o preço O aspecto principal do taylorismo era a rejeição veículo. Começava a era do consumo de massas. aos sindicatos. Numa passagem decisiva da obra Os princípios da administração cientifica, de 1911, Taylor Na linha de montagem, o ritmo definido pelas apresenta seu sistema como um meio para eliminar as máquinas organiza o trabalho, subordinando contradições entre os interesses de patrões e empre- operários à lógica geral da produção. O fordismo, gados e lamenta a existência de conflitos trabalhistas: converter os trabalhadores em engrenagens de um Parece autoevidente que a máxima prosperidade sistema mecânico, atingiu a meta a que se propunha para o empregador junto com a máxima prosperidade taylorismo. Na fábrica criada por Ford, a fiscaliza- para o empregado devem ser as duas metas principais ção rigorosa de gerentes e contramestres era quase da administração, a ponto de que enfatizar tal fato seria supérflua, pois o padrão produtivo era estabelecido desnecessário. E, contudo, não resta dúvida de que, pela cadência das máquinas. através de todo o mundo industrial, grande parte das organizações dos empregadores, tanto quanto as dos O conceito de fordismo não se limita ao espaço empregados, prefere a guerra à paz, e de que talvez a da fábrica. O novo sistema de produção baseava-se maioria em cada lado não crê ser possível organizar na existência de mercados de trabalho e de consumo as relações mútuas de modo a que seus interesses se de massas. Seu meio geográfico típico era constituído tornem idênticos. pelas aglomerações urbanas servidas por modernas INTERNET Modern History Disponível em: redes de transporte, que asseguravam o suprimento . Acesso em: 17 2007. eficiente de grandes volumes de matérias-primas e 0 escoamento contínuo das mercadorias. Nessas cidades industriais configuraram-se extensos bairros que funcionavam como reservatórios de mão de obra para as fábricas. Na década de 1970, o fordismo começou a esgo- tar-se. No Japão, a montadora automobilística Toyota revolucionou a administração com a introdução do sistema de produção flexível. A intensificação da mação, o uso de equipes de trabalhadores especiali- zados, o controle rígido de qualidade, a terceirização de processos produtivos, a redução dos estoques e ajuste contínuo da produção à demanda (just in time formam a base do sistema, que converteu a empresa na líder mundial no seu setor. Manifestação dos sindicalistas radicais norte- americanos da Industrial Workers of the World (IWW), No atual ciclo de inovações, o conceito de produ na Union Square, em Nova York, 1911. No mesmo ano, ção serializada para mercados homogêneos é substi Taylor publicou sua principal obra, que deplorava os tuído pelo de produção flexível de mercadorias adap conflitos trabalhistas. tadas a nichos de mercado com exigências específicas 104Tecnologias e espaço geográfico CAPÍTULO 6 A meta fordista da redução de preços através da constante ampliação da escala de produção dá lugar ao contínuo aperfei- tecnológico dos produtos com incorporação de valor a cada nova versão. As indústrias da revolução tecno- científica caracterizam-se pela intensa aplicação da ciência e do conhecimento na elaboração de novos produtos. As empresas que lideram a inovação inves- tem pesadamente em pesquisa científica e tecnológica. As universidades e centros de pesquisa constituem elos da produção industrial, e a mão de obra de alta qua- Linha de montagem de componentes eletrônicos da transnacional taiwanesa Foxconn, na cidade de Shenzen, no sul da China. Na rede global lificação é disputada pelas corporações da Foxconn, a China fornece trabalho disciplinado e barato. industriais. O meio geográfico típico da revolução tecno- Os conglomerados transnacionais não são, verda- científica é pós-fordista. As corporações empresariais deiramente, empresas de muitos países. Eles têm um estruturam redes de âmbito global, integradas pelas centro de decisões globais localizado no país-sede. A tecnologias da informação. Essas redes abrangem cen- alta direção do conglomerado geralmente ocupa postos tros de pesquisa, plantas industriais e fornecedores de de importância nas esferas econômicas e políticas desse produtos e serviços. país, para o qual é repatriada uma parte dos lucros obti- dos no mundo inteiro. A empresa transnacional tem pátria. Os Estados Unidos, as potências econômicas As empresas transnacionais europeias, a China e Japão são as pátrias da maioria As corporações transnacionais são os principais delas (veja o gráfico a seguir). atores da economia mundial. Cerca de 70% do comér- Distribuição das sedes das duzentas cio internacional é realizado pelas empresas transna- maiores empresas globais (2010) Algo como um terço de todo o comércio global é constituído por intercâmbios intrafirmas, ou seja, Estados Unidos por compras e vendas que se realizam entre unidades França de um mesmo conglomerado econômico localizadas China em países diferentes. Alemanha Transnacionais ou multinacionais? Melhor o pri- Japão Canadá meiro, pois reflete o fato de que esses conglomerados estendem as suas redes por de países, mas Itália conservam, de modo geral, a maior parcela do seu Rússia patrimônio no país-sede. As à regra são as Espanha empresas sediadas em países com pequena popula- Brasil Outros ção e mercado interno limitado, como Suécia, 0 10 20 30 40 50 60 70 Holanda ou Bélgica. Nesses casos singulares, as trans- nacionais geralmente mantêm a maior parte do seu Fonte: The Global 2000, 2010. Disponível em: patrimônio no exterior. Acesso em: 23 jan. 2012. 105 C -UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico Historicamente, os conglomerados transnacionais As empresas com atuação verdadeiramente glo desenvolveram-se primeiro nos Estados Unidos, onde bal precisam de grande escala de produção. Muitas o amplo mercado interno e a vasta disponibilidade de vezes, essa escala é alcançada por meio de fusões entre recursos naturais contribuíram para a centralização de conglomerados transnacionais originados em países capitais. Assim, empresas mais poderosas adquiriam A experiência pioneira aconteceu em 1902 empresas menores, chegando a formar monopólios quando fundiram-se as empresas petrolíferas Roya ou oligopólios nacionais. Dutch, holandesa, e Shell Transport and Trading O setor petrolífero originou as primeiras empre- britânica, constituindo a Royal Dutch-Shell, uma nova sas de alcance global: as chamadas "Sete (as linhagem de conglomerado, de tipo A nova norte-americanas Standard Oil of New Jersey, Socony empresa já nasceu com 11% do mercado mundial do Mobil Oil, Texaco, Gulf Oil e Standard Oil of Indiana petróleo, permitindo-lhe concorrer com as gigantes e as europeias Royal Dutch-Shell e British Petroleum). norte-americanas controladas pelo Grupo Rockfeller. No setor químico, surgiram conglomerados importan- As fusões internacionais prosperaram a partir da tes como a norte-americana Du Pont de Nemours, década de 1960, principalmente entre empresas a britânica Imperial Chemical e a francesa peias que almejavam atingir porte suficiente para Na siderurgia, as norte-americanas U.S. Steel petir com as rivais da América do Norte. Fundiram e Bethlehem Steel dividiram a liderança com as ale- se indústrias de filmes (a Agfa alema com a Gevaert Krupp e Thyssen. Na indústria automobilística, as "Três Grandes" Formação histórica do conglomerado Nestlé de Detroit (General Motors, Ford e Kohler Chrysler) viram o nascimento de con- Anglo- 1831 Suisse Milk Cailler 1866 Nestlé correntes europeias (Daimler-Benz, 1819 Henri Peter & 1867 Volkswagen, Fiat, Renault). Peter Kohler Nestlé 1875 Peter 1904 Cailler Anglo-Suisse O crescimento de uma empresa Kohler Cond. Milk Co. 1911 Nestlé 1905 global envolve um longo trajeto de Anglo-Suisse Holding centralização de capitais. O conglo- Cross & Unilac Inc. Maggi Blackwell 1936 merado alimentar suíço Nestlé exem- 1883 1960 Findus plifica esse processo, que se desenvolve Internation Locatelli 1962 1961 Nestlé Vitell por meio de sucessivas absorções de 1969 Roustang Alimentana outras empresas e conquista de novos 1968 1947 Eurest Libby mercados (veja o esquema ao lado). 1970 Ursina Stouffer Franck 1973 Alcon Blaeun Quellen 1971 1977 L'Oteal 1974 Chambourcy Nestlé S.A. Frisco- Monopólio é uma situação de mer- 1978 Findus 1977 cado em que uma empresa detém 1979 Roco controle da produção e dos preços 1979 Rowntree Mackintosh de determinado produto ou serviço. Carnation 1968 Com isso, ela pode determinar 1985 Buitoni Perrier preço de seu produto ou serviço sem 1988 1992 Delta Ice Mövenpick Cream a concorrência de outros vendedores. 2003 Purina 2006 é um tipo de mono- 2000 Gerber pólio no qual mercado de determi- Ruzanna 2007 2008 nado produto ou serviço é controlado por um pequeno grupo de empresas. Fonte: Pierre. L'empire P.M. Favre, 1982; NESTLÉ SA Disponível em: Acesso 23 jan. 2012 106Tecnologias e espaço geográfico CAPÍTULO 6 belga) e fabricantes de pneus (a Dunlop britânica com de fábricas de montagem de produtos eletrônicos, a Pirelli italiana). Além disso, aceleraram-se as fusões motores e componentes de automóveis no norte do entre empresas europeias do mesmo país, México. Essas fábricas, conhecidas como maquiladoras, que buscavam escala para atuar no cenário global, como exportam seus produtos para os Estados Unidos, que as montadoras francesas Peugeot e as rivais mantêm um acordo de livre-comércio com o México. siderúrgicas Thyssen e Krupp, as farmacêuticas O custo das matérias-primas e da energia é um suíças Ciba e Sandoz, que formaram a Novartis. fator decisivo para o deslocamento geográfico de No ambiente da globalização, a concorrência mun- unidades industriais metalúrgicas. A metalurgia do dial é privilégio de grupos econômicos gigantescos. O alumínio, por exemplo, depende do uso intensivo de setor petrolífero assistiu à fusão entre os conglomerados energia elétrica para a transformação da bauxita em norte-americanos Exxon e Mobil, enquanto a britânica alumina e em alumínio. A eletricidade barata, asso- British Petroleum (atual BP) adquiria as norte-ameri- ciada a reservas do minério, define a estratégia da canas Amoco e Atlantic Richfield. Entre as montadoras, localização empresarial. a Fiat incorporou a Chrysler, a Ford adquiriu a operação A metalurgia do alumínio é controlada, mundial- de automóveis da sueca Volvo e a francesa Renault mente, por um punhado de transnacionais, sediadas assumiu o controle da japonesa Nissan. em países desenvolvidos: a canadense Alcan, a francesa Péchiney e a suíça Alusuisse, que anunciaram a sua fusão Na arena do mundo em 1999; as norte-americanas Alcoa e Reynolds, que na mesma época anunciaram fusão; a também norte- As fronteiras nacionais definem espaços econômicos americana Kaiser; e a norueguesa Norsk Hydro. Nas mais ou menos homogêneos, em termos dos custos da últimas décadas, esses conglomerados estabeleceram força de trabalho, dos impostos e das legislações trabalhista novas unidades produtivas em países como o Brasil e a As empresas transnacionais têm a capacidade Austrália, que oferecem eletricidade a custos relativa- de ultrapassar o limite constituído pelas fronteiras nacio- mente baixos. Dessas bases de produção, a alumina e Dispersando suas atividades pelos mais diferentes o alumínio são exportados para os grandes mercados países, esses conglomerados aproveitam-se das diferenças consumidores na América do Norte, Europa e Japão. locais para alcançar maiores lucros. O planeta inteiro transforma-se numa única arena, que oferece possibilidades quase ilimitadas de localização das atividades administrativas e produtivas. As empresas transnacionais deslocam unidades produtivas para fora do país- sede com a finalidade de obter vantagens econômicas de diversos tipos. Em muitos casos, a vantagem mais importante está no custo diferencial da mão de obra. Esse fator desempenhou função determinante decisões de localização de fábricas têxteis e de que abandonaram os Estados Unidos, o Japão e a Europa em favor de países da Ásia meridional e oriental. É o Fábrica de alumina da Alunorte em Barcarena, no Pará, em 2008. A mesmo motivo que explica a implantação Alunorte é propriedade da norueguesa Norsk Hydro. 107UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico A estrutura de uma empresa transnacional apro- redes produtivas e comerciais de âmbito mundial. veita-se também da diversidade das legislações fiscais e Globalização é o termo que procura identificar esse Um exemplo disso é a Nestlé, que controla sistema mundial no qual todos os países estão as finanças das espalhadas por mais de gualmente inseridos. Na geografia da cem países através de três holdings situadas na Suíça, destacam-se as cidades globais, isto é, os centros nas Bahamas e no Panamá, países que não obrigam urbanos que exercem influência decisiva sobre os as empresas domiciliadas no seu território a divulgar fluxos de negócios, os intercâmbios políticos e as balanços trocas culturais internacionais. Uma cidade global não é definida pela demografia, ou seja, pelo tamanho de sua população, mas pelas funções que cumpre no sistema mundial. As cidades Holding é uma empresa criada com a finalidade de admi- nistrar um grupo de outras empresas e possui a maioria globais são centros de tomada de decisões que afetam das ações dessas empresas. Uma holding, de maneira profundamente a vida das nações do mundo geral, não produz bens ou serviços, mas apenas controla Nessas cidades situam-se os principais mercados finan O grupo das empresas que os produzem. ceiros, as grandes instituições multilaterais, as sedes das mais poderosas empresas transnacionais. Nelas ocorrem os congressos e conferências que norteiam a política As cidades globais internacional e a economia mundial. Em síntese, elas são os polos de redes de alcance global. A "revolução da informação" aprofunda as ten- As cidades globais podem ser classificadas segundo dências de integração econômica, política e cultural a sua importância. Uma proposta de classificação apa entre as nações. A atuação das empresas transna- rece no mapa abaixo, produzido por geógrafos que se cionais conecta os mercados nacionais e configura especializaram no estudo desse Classes de cidades globais OCEANO GLACIAL ÁRTICO de Circulo Polar Artico Bruxelas Londres Moscou Dublin Varsovia Paris Munique Toronto Zurique Viena Chicago Boston Lisboa Seul São Francisco Nova York Pequim Dallas Atlanta Los Angeles Madri Milão Nova Tóquio Washington Barcelona Délhi Xangai Dubai Trópico de Câncer Cidade do Hong-Kong México OCEANO Mumbai OCEANO ATLÂNTICO Kuala Lumpur PACÍFICO Equador OCEANO OCEANO PACÍFICO ÍNDICO São Paulo Trópico de Johannesburgo Santiago Primeira classe Sydney Buenos Aires Segunda classe N OMelbourne de Terceira classe Quarta classe 0 2450 km OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO Circulo Polar Antártico Fonte: BEAVERSTOCK J. R. TAYLOR P.J. A Roster of World Cities. In: Globalization and World Cities Study Group and Network (GaWC) Research Bulletin 5. Disponível em: Acesso em: 23 jan. 2012 108