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SISTEMA DE DRENAGEM URBANA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Definir microdrenagem. > Reconhecer a microdrenagem como um dos componentes do sistema de drenagem urbana. > Caracterizar a microdrenagem. Introdução As atividades antrópicas, como o desmatamento e a impermeabilização do solo (devido à concretagem e à pavimentação), têm contribuído diretamente para o aumento do escoamento superficial. Nesse cenário, a drenagem desempenha o papel fundamental de conduzir a água até locais seguros (rios, oceanos), a fim de evitar a ocorrência de prejuízos para as obras civis e para a população em geral. Neste capítulo, apresentaremos a microdrenagem, que, juntamente com a macrodrenagem, compõe o sistema de drenagem urbana. Você poderá compreender os aspectos que a definem, a sua importância na promoção da drenagem, princi- palmente urbana, e, por fim, conhecerá os elementos que a constituem. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais Ronei Tiago Stein Microdrenagem: definições gerais A microdrenagem faz parte dos sistemas de drenagem urbana, ou seja, das obras de engenharia que buscam escoar a água (normalmente da chuva) para locais adequados visando a evitar danos à população de modo geral ou à infraestrutura (FERRAZ; SANTOS; PAIM, 2017). Miguez, Veról e Rezende (2015, p. 186) definem um sistema de drenagem urbana como “[...] o conjunto de elementos interligados em um sistema, destinado a captar as águas plu- viais precipitadas sobre uma região, conduzindo-as, de forma segura, a um destino final”. Conforme a Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007, que estabelece as diretrizes básicas do saneamento básico, é fundamental que o Governo invista em obras que garantam abastecimento de água potável, esgoto sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, bem como drenagem e manejo de águas pluviais (BRASIL, 2007). Para que um sistema de drenagem seja considerado eficiente, ele deve cumprir os objetivos apresentados a seguir (RAMOS et al., 1999). � Reduzir a exposição da população e das propriedades ao risco de inundações, bem como diminuir o nível de danos causados por elas. � Articular-se com o projeto de desenvolvimento urbano e a ocupação do solo, de forma a assegurar medidas corretivas compatíveis com as metas e os objetivos definidos para a região. � Minimizar alterações hidrossedimentológicas, reduzindo não apenas alterações hidrológicas que aumentam o risco de inundações, mas também problemas de erosão e sedimentação, que acarretam dese- quilíbrios morfológicos. � Preservar as várzeas não urbanizadas, sempre que possível, numa condição que minimize as interferências com o escoamento das vazões de cheias, com a sua capacidade de armazenamento e com os ecossis- temas aquáticos e terrestres de especial importância. � Promover o uso das várzeas, quando necessário, para atividades de lazer e contemplação, em harmonia com a manutenção das funções ecossistêmicas fluviais e compondo paisagens multifuncionais. � Proteger a qualidade ambiental e o bem-estar social. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais2 Além das obras de microdrenagem, fazem parte das técnicas estruturais de drenagem urbana também as obras de macrodrenagem (ZUQUETE, 2015). As diferenças entre microdrenagem e macrodrenagem são apresentadas no Quadro 1, que também lista os elementos básicos empregados em cada uma delas. Quadro 1. Definição de microdrenagem e de macrodrenagem e elementos empregados nelas Definição Elementos básicos Microdrenagem Trata do escoamento resultante de chuvas precipitadas sobre a superfície urbana, que engloba desde os telhados das edificações até as áreas das vias de circulação, dos parques e dos jardins. O sistema deve ser capaz de captar a água pluvial e conduzi-la para a rede de microdrenagem, com rapidez e segurança, de modo a evitar o acúmulo de águas. � Meios-fios/guias � Sarjetas � Bocas de lobo/bocas coletoras � Galerias � Poços de visita � Tubos de ligações � Caixas de ligações Macrodrenagem Define a seção de escoamento necessária para receber o escoamento resultante de chuvas precipitadas sobre a superfície urbana, captadas pela microdrenagem e conduzidas, na escala da bacia, para a rede principal de galerias e canais a céu aberto. � Canais naturais ou artificiais � Dissipadores de energia � Ressalto hidráulico: canais abertos � Barragens � Vertedouros: queda, calha e degrau “cacimbo” � Bacia de acumulação � Bacias dissipadoras � Proteção de taludes � Aterramento � Obras de pavimentação � Drenos Fonte: Adaptado de Miguez, Veról e Rezende (2015) e Calijuri e Cunha (2013). A função da microdrenagem é coletar e conduzir a água das chuvas de locais públicos (drenagem municipal) — como, por exemplo, ruas e loteamen- tos (Figura 1), que envolvem a parte da drenagem urbana — até o sistema Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais 3 de macrodrenagem (TOLEDO, 2017). Retirar a água desses locais garante a segurança de pedestres e motoristas, além de evitar ou diminuir os riscos de alagamentos, causadores de grandes prejuízos econômicos e sociais. Figura 1. Planta baixa mostrando os elementos básicos de um sistema de microdrenagem. Fonte: Adaptada de Miguez, Veról e Rezende (2015). Os projetos de microdrenagem devem abordar, conforme Moraes (2015): � o diâmetro � o material � a locação das redes � o cobrimento mínimo sobre as redes � os dispositivos de captação � a condução e o lançamento das águas pluviais � a conexão dos ramais de ligação dos dispositivos � o espaçamento máximo entre caixas de drenagens � e a locação dos dispositivos Cada projeto de microdrenagem é único, sendo, portanto, imprescindível analisar os índices pluviométricos de cada local, bem como o tipo de solo presente. De acordo com Fiori (2015), quando a chuva excede a capacidade de infiltração do solo, ou seja, quando chove mais do que o solo consegue infiltrar, tem início o escoamento superficial. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais4 Quanto mais compactado for um solo, menor será a sua permeabilidade. É por esse motivo que solos compactados são utilizados em pavimentação, barragens de terra e aterros, visando a diminuir a infiltração de água nessas estruturas. Tal medida é muito importante, uma vez que infiltrações podem ocasionar sérios problemas, como rachaduras e, em caso mais graves, o rompimento/colapso de toda a estrutura. Logo, é preciso estudar as caracte- rísticas do fluxo de água através dos solos, pois elas interferem em questões como a estabilidade de taludes e o controle de águas subterrâneas, além de apresentarem grande importância em projetos de estruturas hidráulicas, como, por exemplo, diques, barragens e cais (DAS, 2013). Microdrenagem, um subsistema de drenagem urbana Nas obras hidráulicas, conforme Silva (2015), a relação chuva-vazão é fun- damental para o projeto, o dimensionamento e a operação de estruturas de controle. Além disso, é de suma importância conhecer a vazão de pico (maior vazão correspondente ao evento pluviométrico) quando dos estudos de drenagem das águas pluviais para o dimensionamento da microdrenagem. Como já mencionamos anteriormente, o sistema de drenagem é composto por dois subsistemas, que devem trabalhar em conjunto: a microdrenagem (drenagem superficial) e a macrodrenagem (drenagem profunda). Entre muitos métodos utilizados, as drenagens superficial e profunda são consideradas alternativas para estabilizar e talvez diminuir a inclinação de taludes, bem como para reduzir o risco de enchentes e inundações (FERRAZ; SANTOS; PAIM, 2017). O leito menor corresponde ao nível normal de um rio ou calha fluvial (Figura 2a). Quando, devido ao aumento da vazão, há uma elevação temporária do nível d’água nas calhas fluviais (ou canais de drenagem), atingindo a cota máximana calha ou seção do canal antes do transbordamento, ocorre uma enchente, também conhecida como “cheia” (Figura 2b). Já para um evento ser caracterizado como inundação, deve haver transbordamento das águas de uma seção transversal fluvial, ou canal de drenagem, atingindo as áreas (ou faixas) marginais, chamadas “planícies de inundação”, ou “áreas de várzea” (Figura 2c). Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais 5 Figura 2. (a) Nível normal de um rio; (b) enchente e (c) inundação. Fonte: Adaptada de Miguez, Veról e Rezende (2015). Leito menor Leito maior Planície de inundação a b c As enchentes e as inundações em zonas urbanas são agravadas por falhas nas redes de microdrenagem e macrodrenagem. Normalmente, o entupimento é a principal causa do funcionamento incorreto das redes de microdrenagem. Se elas não tiverem capacidade suficiente de captação e/ou condução das águas superficiais (seja por subdimensionamento, obsolescência ou entu- pimento das bocas de lobo), terá início uma série de alagamentos. As ruas, então, passam a funcionar como canais, conduzindo as águas superficiais para as regiões mais baixas. Além do entupimento, também há outros problemas comuns na microdre- nagem, como, por exemplo, erro de concepção, falha na previsão do horizonte de projeto, falta de manutenção, envelhecimento de partes do sistema e obsolescência devido ao acelerado (e não controlado) crescimento urbano, tornando a rede incapaz de comportar as necessidades de escoamento (MI- GUEZ; VERÓL; REZENDE, 2015). É comum que o sistema de microdrenagem tenha falhas e, como conse- quência, apresente um mau funcionamento. De acordo com Miguez, Veról e Rezende (2015), as principais falhas de integração entre projeto de drenagem e urbanização são as seguintes. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais6 � Superação da capacidade de escoamento da rede devido ao crescimento urbano, que contribui diretamente para o sistema, atingindo valores de vazão além daqueles previstos no horizonte de projeto da cidade. � Falta de controle de crescimento urbano a montante da área de pro- jeto (eventualmente em um munícipio diverso daquele que sofre o problema), em áreas que originalmente eram naturais, lançando sobre o sistema um incremento de vazão não compatível. � Ocupação inadvertida do solo em áreas ribeirinhas — que deveriam ser preservadas como planícies de inundação —, com a exposição direta das comunidades que ali se instalam ao risco de cheias. � Falta de integração entre os sistemas do saneamento básico, que de- vem ser compreendidos como complementares, e não independentes entre si. O desequilíbrio entre os sistemas de microdrenagem e macrodrena- gem pode acarretar graves problemas. Se a microdrenagem estiver adequadamente dimensionada, mas a macrodrenagem não suportar todo o volume de água vindo daquela, a água dos escoamentos gerados pelas áreas urbanas acabará retida sobre a superfície, ocasionando alagamentos e esco- amento sobre ruas, por efeito de represamento. Nesse caso, isto é, quando a capacidade da macrodrenagem não é suficiente, também pode ocorrer o seu extravasamento, o que resulta em grandes áreas alagadas e forma grandes remansos. Nos casos em que tanto a macrodrenagem quanto a microdrenagem falham, os alagamentos tendem a ser maiores e mais graves. Isso porque, nessas situações, a água não apenas permanece na superfície, por incapacidade da microdrenagem. Ela também não encontra saída, devido à insuficiência da macrodrenagem, e, além disso, recebe contribuição das águas extravasadas da própria rede de rios, canais e galerias. Portanto, é fundamental que os projetos de microdrenagem e macrodre- nagem sejam realizados com cautela pelos profissionais, os quais sempre devem levar em consideração o caráter dinâmico das cidades, que crescem e/ou se alteram com o passar do tempo. Quanto maior for o grau de imper- meabilização dos solos, maior deverá ser o dimensionamento dos elementos que compõem os sistemas de microdrenagem e macrodrenagem. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais 7 Caracterização de dispositivos englobados na microdrenagem De acordo com Brasil (2006), para que um sistema de microdrenagem seja eficiente, é necessário utilizar uma série de dispositivos com objetivos es- pecíficos. Dentre esses dispositivos, podem-se destacar como principais os meios-fios e as sarjetas; os bueiros; as galerias de drenagem; e os poços de visita. A seguir, apresentaremos cada um deles. Meios-fios e sarjetas Meios-fios e sarjetas (Figura 3) são os responsáveis por receber as águas pluviais que incidem sobre vias públicas e lotes que não se comunicam com a rede por ramais prediais. As coletas efetuadas pelas sarjetas são destinadas para os bueiros. Figura 3. Meio-fio e sarjeta. Fonte: Adaptada de eagle15/Shutterstock.com. O cálculo da capacidade hidráulica de uma sarjeta é realizado conside- rando-se a vazão escoada, a área da seção da sarjeta, a altura do meio-fio e o declive longitudinal da rua. Para se estimar uma boa largura das sarjetas, um critério razoável é garantir que uma pessoa comum seja capaz de passar sobre a sarjeta com um passo, sem que precise pisar na água (MIGUEZ, VERÓL; REZENDE, 2015). Também conhecidas como “valetas”, as sarjetas podem ser abertas ou fechadas. Porém, normalmente se opta pelos canais abertos, pois, segundo Ramos et al. (1999), eles apresentam algumas vantagens: facilidade de ma- nutenção e limpeza, maior economia de investimento, possibilidade de inte- gração paisagística com valorização das áreas ribeirinhas, e maior facilidade para ampliações futuras em caso de necessidade. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais8 Bueiros Os bueiros (ou bocas de lobo, ou, ainda, caixas-ralo) têm como objetivo permitir a livre passagem das águas que atravessam o leito da estrada. De acordo com Wilken (1978), a capacidade de escoamento de uma boca de lobo depende da altura de água no trecho da sarjeta imediatamente a montante dele. Se a sarjeta estiver localizada em um trecho de declividade uniforme, a altura de água dependerá das suas características de escoamento, como o conduto livre. A água coletada pelos bueiros é destinada para as galerias de drenagem por meio de tubulações, que são chamadas “corpo”. A Figura 4 apresenta um bueiro e as duas partes principais que o compõem, a saber, a boca e o corpo. Figura 4. (a) Boca de lobo e (b) seus principais componentes. Fonte: (a) Tyler Stuard/Shutterstock.com e (b) adaptada de Mr.1/Shutterstock.com. (a) (b) Conforme Miguez, Veról e Rezende (2015), os bueiros podem ser instalados isoladamente ou em conjunto, compondo diferentes tipologias (Figura 5), de acordo com a necessidade de capacidade hidráulica exigida. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais 9 Figura 5. Diferentes tipologias de boca de lobo. Fonte: Adaptada de Miguez, Veról e Rezende (2015). Galerias de drenagem As galerias de drenagem são o conduto destinado a transportar a água pluvial e os dejetos líquidos e sólidos de todo o sistema de drenagem urbana, desde a captação até o local de despejo, que normalmente é um recurso hídrico (Figura 6). Dependendo do tamanho da cidade e dos índices pluviométricos, as galerias de drenagem — que costumam apresentar seção circular, retangular ou oval — podem desaguar em outras galerias de drenagem de dimensões maiores. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais10 Figura 6. Saída de uma galeria de drenagem. Fonte: rootstock/Shutterstock.com. Poços de visita Os poços de visita (Figura 7) são os locais por onde pessoas autorizadas entram para realizar a limpeza e a manutenção do sistema interno de drenagem. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais 11 Figura7. Poço de visita. Fonte: SOORACHET KHEAWHOM/Shutterstock.com. Neste capítulo, você pôde compreender que o investimento em obras de drenagem é muito importante, pois esses sistemas, além de garantirem a segurança, a qualidade e uma maior vida útil das edificações/construções, também garantem a segurança da população. A retirada da vegetação nativa e a impermeabilização do solo com a construção de rodovias e calçadas re- duzem a infiltração de água e, consequentemente, aumentam o escoamento superficial. Essa água escoa para regiões mais baixas, provocando sérios problemas de inundação, o que resulta em prejuízos econômicos e sociais. Além disso, também os deslizamentos e os desmoronamentos (denominados “movimentos de massa”) estão atrelados à falta de drenagem superficial. Referências BRASIL. Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Manual de Drena- gem rodoviária. 2. ed. Rio de Janeiro, 2006. Disponível em: http://www1.dnit.gov.br/ arquivos_internet/ipr/ipr_new/manuais/manual_drenagem_rodovias.pdf. Acesso em: 27 jan. 2021. BRASIL. Lei 11.445, de 5 de janeiro de 2007. Estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico; cria o Comitê Interministerial de Saneamento Básico; altera as Leis nos 6.766, de 19 de dezembro de 1979, 8.666, de 21 de junho de 1993, e 8.987, de 13 de fevereiro de 1995; e revoga a Lei nº 6.528, de 11 de maio de 1978. Brasília, DF: Presidência da República, 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007- 2010/2007/lei/l11445.htm. Acesso em: 27 jan. 2021. Sistema de microdrenagem: captação das águas pluviais, galerias e pequenos canais12 CALIJURI, M. C.; CUNHA, D. G. F. Engenharia Ambiental: conceitos, tecnologia e gestão. 2. ed. Elsevier, 2013. DAS, B. M. Fundamentos de engenharia geotécnica. São Paulo: Cengage Learning, 2013. FERRAZ, R. L.; SANTOS, I. G.; PAIM, M. A. M. Caso de Ruptura de Um Talude Associada a Problemas no Sistema de Drenagem Superficial. In: COBRAE - CONFERÊNCIA BRASILEIRA SOBRE ESTABILIDADE DE ENCOSTAS, 7., 2017, Florianópolis, SC. Anais [...]. Florianópolis, SC: [S. l.], 2017. 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