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Aula 7 – Águas Pluviais INSTALAÇÕES HIDRÁULICAS – ESGOTO E DRENAGEM 82 Unidade 3 – Drenagem Predial Aula 7: Águas Pluviais O progresso das civilizações está intrinsecamente ligado a disponibilidade de água. Assim, o aumento acelerado do consumo mundial de água, sobretudo após a revolução industrial é responsável por situações críticas de abastecimento em diversas regiões mundiais. Novas considerações a respeito do manejo de água em regiões áridas e semiáridas para minimizar escassez vêm sendo propostos e aplicados com sucesso. 1. Noções Básicas de Hidrologia De acordo com estudos, aproximadamente 97,3% da água no mundo é de mares e oceanos, 2,34% são águas em forma de gelo ou localizadas nos lençóis freáticos profundos e 0,36% são de águas de rios, lagos e pântanos. Essa pequena fração, 0,36%, que é apropriada para o consumo, está distribuída desigualmente pelo mundo. Os registros históricos apontam que as águas de chuva são utilizadas pela humanidade há milhares de anos. Cisternas escavadas são datadas em até 3.000 a.C. A fortaleza de Masada, por exemplo, localizada em Israel, possui dez reservatórios escavados na rocha com capacidade de armazenamento de até 40 (quarenta) milhões de litros de água. A civilização maia que abrangeu territórios de cinco países como: México, Honduras, Belize, Guatemala e El Salvador, com existência datada em 2600 a.C e declínio em 400 d.C, encontravam meios para captação das águas de chuva com cisternas, reservatórios, açudes e canais destinados aos campos agrícolas. Os astecas, a qual a existência data do século IX até o século XVI, aproveitavam a água de chuva assim como a civilização maia para fins agrícolas. Aula 7 – Águas Pluviais UNIDADE 3 – DRENAGEM PREDIAL 83 1.1. O Ciclo Hidrológico É o fenômeno global que ocorre na superfície terrestre através da circulação da água de maneira fechada entre a superfície terrestre e a atmosfera, realizado principalmente pela atuação da energia solar associada à ação da gravidade e à rotação do globo terrestre . O conceito de ciclo hidrológico, que ocorre na Hidrosfera, corresponde ao movimento e à troca de água nos seus diferentes estados físicos entre os oceanos, os calotes de gelo, as águas superficiais, as águas subterrâneas e a atmosfera. Este movimento permanente deve-se ação do Sol, que fornece a energia para que água evapore saindo da superfície terrestre para a atmosfera, além da ação da gravidade, fazendo com que a água antes condensada caia através das precipitações assim, uma vez na superfície, circule através das bacias hidrográficas, reunindo-se em rios até atingir os oceanos, a qual se denomina escoamento superficial ou infiltrem nos solos e nas rochas, através dos seus poros, fissuras e fraturas (escoamento subterrâneo). Vale ressaltar que nem toda a água precipitada alcança a superfície terrestre, haja vista que uma parte, na sua queda, pode ser interceptada pela vegetação e volta a evaporar-se. A água que se infiltra no solo, por sua vez é sujeita a evaporação direta para a atmosfera e é absorvida pela vegetação, que através da transpiração, retorna à atmosfera. Este processo chamado é chamado de evapotranspiração. A água que infiltra no solo é a principal responsável pela recarga dos aquíferos ou lençóis de água subterrânea. A quantidade de água e a velocidade com que ela circula nas diferentes fases do ciclo hidrológico são influenciadas por diversos fatores como, por exemplo, a cobertura vegetal, altitude, topografia, temperatura, tipo de solo e geologia. Aula 7 – Águas Pluviais INSTALAÇÕES HIDRÁULICAS – ESGOTO E DRENAGEM 84 1.2. Disponibilidade da Água Apesar de a água parecer abundante para algumas regiões do planeta, em outras a quantidade é praticamente inexistente. A maior parte da água doce existente no mundo está localizada em apenas 10 países, entre eles o Brasil, além disso, deve-se levar em consideração que a é distribuída de maneira irregular, situação piorada quando são levados em conta os fatores climáticos. Em alguns lugares há muita chuva e as enchentes causam grandes problemas, enquanto em outros a seca é grande. No início do século passado, a população mundial era estimada em pouco menos de 2 bilhões de habitantes, hoje já passa de 6 bilhões e em 2025 haverá 8,3 bilhões de pessoas no mundo. Enquanto a população se multiplica, a quantidade de água continua a mesma. O maior problema é que o consumo de água está cada vez maior. Nos últimos 100 anos, enquanto a população mundial triplicava, o uso da água doce multiplicava-se por seis (boa parte pelo aumento da irrigação da agricultura, que revolucionou a produção agrícola, mas criou uma nova dificuldade, porque sozinha utilizava 70% da água doce disponível). Isto é necessário pois as pessoas precisam se alimentar, e não cabe aqui um estudo geográfico e econômico do “problema”. Portanto, passamos adiante. De acordo autores, apesar de o Brasil possuir uma das maiores reservas mundiais de água doce o problema também é perceptível. São Paulo, por exemplo, o estado mais desenvolvido do país, enfrenta grande dificuldade devido às aglomerações como a da região metropolitana. O caso do Nordeste já é clássico, além do semiárido, a região recebe chuva de maneira irregular, sofrendo pela falta de água por uma série de características geográficas e geológicas pertinentes à região. 1.3. Tipos de Chuvas A precipitação atmosférica é a transferência da água contida na atmosfera para a superfície terrestre. Existem diferentes tipos de precipitação, os quais são diferenciados de acordo com o estado e o tamanho das partículas de água precipitada. Neblina, chuva, orvalho, geada, neve, granizo e saraiva são exemplos de precipitação. A formação das chuvas está intimamente ligada a vários fatores peculiares, dentre eles a quantidade de vapor d’água presente no meio atmosférico, a característica geomorfológica local e o clima da região. Os tipos de precipitação em forma de chuva podem ser classificados como convectivas, frontais ou ciclônicas e orográficas. Aula 7 – Águas Pluviais UNIDADE 3 – DRENAGEM PREDIAL 85 As chuvas convectivas são mais frequentes em regiões equatoriais, onde os ventos são mais brandos e a movimentação do ar é, geralmente, normal à superfície. São formadas a partir do aquecimento do ar úmido próximo ao solo. Em seguida, essa massa de ar quente e úmida, ao atingir determinada altura, se resfria e o vapor d’água presente se condensa ocorrendo então a precipitação. São chuvas de fortes intensidades, pequena duração e que atingem pequenas áreas. Grande parte das enchentes urbanas é ocasionada por esse tipo de chuva. As chuvas frontais ou ciclônicas são provenientes do encontro de extensas massas de ar frias e quentes. Algumas interfaces (frentes) podem atingir até 3000 km de extensão. As frentes de ar frio que vêm dos polos da Terra, ao interagirem com as frentes de ar quente, elevam estas bruscamente. Esse processo provoca a condensação do vapor d’água presente em grande quantidade e ocasiona chuvas. São chuvas de intensidade média, porém que abrangem grandes áreas e por um longo período de tempo. Já as chuvas orográficas são as que têm sua formação muito ligada às características geográficas. As massas de ar que seguem do oceano para o continente trazem junto a umidade proveniente do mar. Ao chegarem à superfície e encontrarem relevos montanhosos, essas massas de ar quente e úmido se elevam como se fosse para superar a barreira geográfica. Sendo assim, elas se resfriam e se condensam formando nuvens e chuvas. São chuvas com intensidades menores que as das chuvas convectivas, de grande duraçãoe áreas pequenas. 2. Funções das Águas Pluviais As águas pluviais são de grande importância para a humanidade, pois elas são fundamentais nos processos da natureza, já que é uma das fases do ciclo hidrológico, promovendo uma série de serviços ambientais, dentre elas podemos destacar: • Manutenção da Biodiversidade e do Ecossistema Urbano – o controle da temperatura, a rega das plantas, a lixiviação para evitar a salinização em algumas áreas, as inundações para dar continuidade ao ciclo de vida de algumas espécies, como alguns peixes e insetos, dentre outras. • Recarga do Aquífero – Os aquíferos dependem das águas pluviais para se recomporem. Pode ser naturalmente, proporcionada pelas águas retidas pela vegetação, infiltradas e retidas no solo, retidas em depressões e armazenadas dinamicamente nos rios e várzeas, ou artificialmente, através de reservatórios, indicados para áreas urbanas que já apresentam problemas Aula 7 – Águas Pluviais INSTALAÇÕES HIDRÁULICAS – ESGOTO E DRENAGEM 86 devido à impermeabilização. Nesses pode controlar-se a qualidade da água que infiltra, pois esta geralmente é poluída em seu percurso de escoamento. • Recarga de Corpos Hídricos – Assim como os aquíferos algumas depressões naturais ou artificiais servem de reservatórios, sendo que alguns destes reservatórios são exclusivamente alimentados por águas pluviais. • Solvente Universal - vai carreando todo tipo de impurezas, dissolvidas, suspensas, ou simplesmente arrastadas mecanicamente, tanto da atmosfera, como do solo ou até de algum curso d’água, realizando um processo natural de diluição e autodepuração, ao longo de seu percurso hídrico, até o seu destino final. 2.1. Utilização em Áreas Urbanas A busca por fontes alternativas de água é uma forma de se dispor de diferentes formas de obtenção da mesma, evitando a dependência de uma única fonte e, em uma situação de emergência, problemas graves de abastecimento. A dependência de um abastecimento de água baseado somente na retirada em rios e lagos pode deixar a população exposta a problemas sérios na ocorrência de eventos naturais ou contaminações por produtos químicos ou nocivos para a saúde humana. A água de chuva não possui a qualidade de uma água tratada ou mineral, entretanto consiste em um recurso limpo se comparado a alguns rios onde é captada água para tratamento e abastecimento. Portanto, torna-se claro que esse recurso deve ter algum aproveitamento, basta analisar onde este trará maior retorno econômico. O aproveitamento das águas pluviais, em toda a literatura, está sempre vinculado a termos como reaproveitamento ou reuso da água, o que pode gerar preconceito e repulsa desse recurso. Porém como essas águas não foram previamente utilizadas, possuem uma qualidade relativamente boa, e não deveriam ser associadas a esses termos. Uma questão importante na mudança de visão da sociedade sobre a gestão de águas pluviais que será discutida mais adiante é a visão desta como um recurso, e considerá-la uma água de reuso é uma barreira para essa mudança de pensamento. O aproveitamento de águas pluviais é um sistema descentralizado e alternativo de suprimento de água que promove a conservação da água potável. Os benefícios do aproveitamento são: Aula 7 – Águas Pluviais UNIDADE 3 – DRENAGEM PREDIAL 87 • Aumento da segurança hídrica, seja para atender o crescimento populacional, seja para atender áreas deficientes de abastecimento; • Redução dos investimentos na captação da água em mananciais cada vez mais distantes das concentrações urbanas para atender a demanda diária e a demanda de pico; • Redução do volume de água a ser captada e tratada, e minimização do uso de água tratada para fins secundários; • Menor entropia, ou seja, redução dos custos energéticos de transporte e dos custos de tratamento, pois a água terá o nível de tratamento adequado para seu uso (Estudos mostram que o custo energético tem se constituído num montante aproximado de 25% a 45% do custo total de operações de sistemas de abastecimento de água; • Melhor distribuição de carga de água de chuva imposta ao sistema de drenagem; • Redução dos riscos de enchentes, erosão dos leitos dos rios e assoreamento nas áreas planas no início da temporada de chuvas torrenciais e em eventos isolados; • Redução dos custos proporcionados por inundações e alagamentos; • Possibilidade de uso para recarga dos lençóis subterrâneos e manutenção dos níveis de lençol freático elevado. Uma das desvantagens deste sistema é a diminuição do volume de água coletada em períodos de estiagem, sendo necessário em alguns casos, áreas de captação e reservatórios muito grandes para o fornecimento contínuo. Outra questão importante é a possibilidade do armazenamento em grande escala destas águas alterarem o balanço hídrico da região, pois haveria uma redução da quantidade de água que infiltra no solo assim como da quantidade evaporada, provocando algum desequilíbrio no ecossistema local. Mas em áreas já densamente urbanizadas, com um sistema de drenagem já construído sobre os conceitos clássicos, onde a água de chuva é coletada por calhas, e direcionadas diretamente para bocas de lobo ou poços de visita, as alterações no balanço hídrico pós-urbanização devem ser pequenas, só alterando parte da evaporação nos cursos de água que podem estar com nível menor, logo com uma superfície de evaporação menor. É importante lembrar que a determinação dos impactos dessas alterações é de extrema complexidade. Como a captação em grande escala, a ponto de interferir no balanço hídrico, só poderia se dar em áreas densamente ocupadas (muitas edificações realizando captação) e Aula 7 – Águas Pluviais INSTALAÇÕES HIDRÁULICAS – ESGOTO E DRENAGEM 88 como estas áreas já costumam ter seu balanço hídrico alterado significativamente, o impacto do aproveitamento de água de chuva em grande escala pode vir a ser insignificante em relação ao impacto da urbanização. Também deve-se analisar os impactos da retenção e desvio dessas águas para a rede de esgotos sanitários nos cursos d’água, que a usam como solvente e como carreador de impurezas, havendo maior concentração de poluentes nos cursos d’água. A utilização de água de chuva torna-se mais atraente em as áreas de precipitação elevada, com escassez de abastecimento e dificuldades de extração de água subterrânea, porém em situações normais podem vir a ser interessante como será estudado. As águas pluviais podem ser classificadas pelo uso, em potável e não potável. Os usos potáveis são: ingestão, assepsia, preparo de alimentos e lavagem de utensílios. Os usos não potáveis são: vasos sanitários e mictórios, lavagem de roupa, pisos, veículos, irrigação e enchimento de piscinas. Devido aos custos de monitoramento e tratamento os usos potáveis para a água de chuva costumam ser feitos em áreas com escassez de abastecimento e indisponibilidade de aproveitamento de águas subterrâneas. Exemplo: Cingapura. O custo da água da concessionária é bem menor que o custo da água de chuva tratada, porém pode-se optar por pagar mais por questões sociais, tal como independência do sistema e preservação do meio ambiente. Exemplo: Algumas residências na Alemanha. No caso do Brasil só realizado onde não há sistema de abastecimento convencional ou esse não atende à demanda. Exemplo: Fernando de Noronha e Sertão Nordestino. Uma das principais razões para que o uso de água de chuva para fins potáveis não seja viável em áreas urbanas é a falta de indicadores da qualidade das águas pluviais, para poder estabelecer um tratamento adequado, sendo necessário controle constante da qualidade da água para garantir o cumprimento das exigências de qualidadeda água, o que pode ser muito oneroso e dispendioso. Quanto aos usos não potáveis, os sistemas de aproveitamento proporcionam o uso de águas com qualidade correspondente e específica para cada tipo de uso. Porém, ainda assim, possuem padrões mínimos de qualidade de água que precisam ser respeitados para a segurança do usuário e duração dos equipamentos envolvidos na atividade em questão. Aula 7 – Águas Pluviais UNIDADE 3 – DRENAGEM PREDIAL 89 A viabilidade do aproveitamento de águas pluviais para fins não potáveis deve ser analisada em cada caso, pois cada região possui suas singularidades, mas em geral para consumo doméstico pode ser bem vantajoso, assunto a ser tratado na Aula 09. Em alguns estudos recentes a viabilidade nas indústrias, empreendimentos comerciais e em prédios públicos, que são notadamente os maiores consumidores de água, não só tem sido possível como a taxa de retorno é rápido. No caso da indústria outra grande vantagem pode ser acrescentada: o aumento da disponibilidade de água, proporcionando o aumento da produção sem a necessidade de incremento na captação e tratamento da água. Normalmente, só a agregação de valor ao produto pela economia de água no processo já seria vantajosa, mas se torna essencial em situações de conflitos pelo uso e de outorgas restritas. No caso de organizações de caráter industrial ou comercial, a divulgação do PCA (Programa de Conservação de Água) torna-se uma estratégia interessante para melhorar a visão da organização na sociedade e promover sua responsabilidade social. O aproveitamento dessa água traz benefícios ecológicos e econômicos, melhorando a imagem da empresa perante a sociedade. No caso de indústrias ela pode ser até viável para tratá-la para consumo humano, já que por ser uma água livre de produtos químicos diferente da fornecida pela concessionária, usualmente possui um custo de tratamento (retirada do cloro e do flúor) menor para os processos produtivos. Por fim, temos que a construção da infraestrutura de aproveitamento já é obrigatória para certos empreendimentos em alguns municípios. Baseado e adaptado de Heitor Viola, Janerson Oliveira. Edições sem prejuízo de conteúdo.