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Pós Graduação em Engenharia de
Segurança do Trabalho
NOÇÕES DE TOXICOLOGIA
Prof.:Mário Parreiras de Faria
E-mail: marioparreiras55@gmail.com
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PLANO DE ENSINO
Disciplina: Noções de Toxicologia
Carga Horária: 30 horas/aulas (sendo 6 horas em sistema EaD de atividades prévias)
Professor: MÁRIO PARREIRAS DE FARIA
Graduado em Medicina em 1979 e Mestre em Saúde Pública, área de concentração Saúde e Trabalho,
pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Especialista em Medicina do
Trabalho pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho. Auditor fiscal do trabalho, da área de
segurança e saúde do trabalhador do Ministério do Trabalho e Emprego (atualmente Ministério da
Economia), desde 1984. Professor do curso de Pós-Graduação em Engenharia de Segurança do
Trabalho da Universidade FUMEC, de Belo Horizonte, M.G no período de 2009 a 2020. Professor
convidado do Curso de Especialização em Medicina do Trabalho da Faculdade de Ciências Médicas de
Belo Horizonte, M.G. Professor do curso de Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho
do IPOG, desde 2014. Instrutor em cursos de formação de Auditores Fiscais do Trabalho da Escola
Nacional da Inspeção do Trabalho. Coordenador da Comissão Permanente Nacional do Setor Mineral de
2000 a 2019 (quando a Comissão foi extinta). Coordenador da Comissão Tripartite Temática Permanente
da Norma Regulamentadora nº. 22. Membro do Grupo Técnico Tripartite de reação do anexo de Agentes
Químicos da NR-9. Membro do Comitê Interministerial de Segurança de Barragens. Tem experiência na
área de segurança e saúde no trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: Legislação de
segurança e saúde ocupacional, Mineração, Ergonomia, Toxicologia Ocupacional, Gestão de Riscos e
análises de acidentes do trabalho. http://lattes.cnpq.br/8029644604432600
Ementa
A disciplina fornecerá conhecimentos básicos de Toxicologia Ocupacional permitindo ao aluno avaliar os
riscos para a saúde dos trabalhadores expostos aos produtos químicos mais utilizados em ambientes de
trabalho. Parte da carga horária será cumprida em sistema EaD referente à leitura da Apostila
disponibilizada aos alunos e resposta a teste da disciplina respondido no sistema AVA
Objetivos
Objetivo Geral
Apresentar noções sobre toxicologia ocupacional permitindo ao aluno conhecer as definições básicas de
Toxicologia Ocupacional, os mecanismos de ação tóxica e os agravos à saúde da exposição aos
principais agentes químicos presentes nos ambientes de trabalho.
Objetivos Específicos
• Possibilitar a compreensão dos mecanismos de ação tóxica e dos principais produtos químicos
utilizados em ambiente ocupacional
• Possibilitar a compreensão dos efeitos da exposição dos agentes químicos presentes nos ambientes
de trabalho
• Fornecer conhecimento sobre os mecanismos de penetração, distribuição, metabolismo, deposição e
eliminação dos agentes tóxicos
• Possibilitar a compreensão da relação entre exposição ambiental e indicadores biológicos de
exposição e Limites de Tolerância dos principais agentes tóxicos
•
Conteúdo Programático
UNIDADE I: Sexta-feira (noturno)
• Noções de Toxicologia
• O problema dos agentes químicos para a saúde
• Definições básicas: Intoxicação, efeito, dose, dose-resposta, dose-efeito
• Mecanismos de Ação Tóxica
• Classificação dos Agentes Tóxicos
• Ações Tóxicas dos Produtos Químicos: Irritantes Primários, Irritantes Secundários, Asfixiantes, Ação
http://lattes.cnpq.br/8029644604432600
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sobre os Sistemas: Respiratório, Hepático, Hematopoiético, Nervoso Central e Periférico e Renal.
• Cancerígenos
• Interação entre agentes químicos
UNIDADE II: Sábado (matutino)
• Vias de Penetração/Absorção, Metabolismo, Armazenamento e Eliminação dos Tóxicos no Organismo
• Mecanismos de proteção do organismo
• Mecanismo de ação tóxica e Indicadores biológicos de exposição
• Limites de tolerância biológicos e Limites de Tolerância ambiental
Unidade III: Sábado (vespertino)
• Principais metais utilizados em ambientes de trabalho: Chumbo, cádmio, cromo, manganês, arsênio e
mercúrio.
UNIDADE IV: Domingo (matutino)
• Metais pesados (continuação)
• Agrotóxicos e solventes e seu mecanismo de ação tóxica
Metodologia (Dinâmica das Aulas)
- Exposição dialogada, com apresentação de slides e apresentação de casos reais.
- Apresentação de filme sobre riscos no setor de galvanoplastia.
Material e Recursos Utilizados
Computador com internet e sonorização, data show
Avaliação
Atividades Específicas Modalidade Nota
1. Atividade prévia 1,5
2. Teste de múltipla escolha disponibilizado no AVA 8,5
Total 10,0
Bibliografia Básica
1. BUSCHINELLI, J.T.P. – Manual de orientação sobre controle médico ocupacional da exposição1a
substâncias químicas. – São Paulo: Fundacentro, 2014. 88 p. Disponível em:
http://www.fundacentro.gov.br/biblioteca/biblioteca-digital/publicacao/detalhe/2014/3/manual-de-orientacao-
sobre-controle-medico-ocupacional-da-exposicao-a-substancias-quimicas
2. BUSCHINELI,J.T.P. -Toxicologia ocupacional [Texto]José Tarcísio Penteado Buschinelli.– São Paulo:
Fundacentro, 2020. 622 f. : il.
3. GILBERT, S. G. - A Small Dose of Toxicology. Seattle Healthy World Press, Second edition, January 2012
4. Normas Regulamentadoras do Ministério do Trabalho e Emprego. Disponíveis em:
https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/pt-br/composicao/orgaos-especificos/secretaria-de-
trabalho/inspecao/seguranca-e-saude-no-trabalho/ctpp-nrs/normas-regulamentadoras-nrs
5. Ministério da Saúde do Brasil. Representação no Brasil da OPAS/OMS. – Doenças relacionadas ao
trabalho: manual de procedimentos para os serviços de saúde. Organizado por Elizabeth Costa Dias;
colaboradores Ildeberto Muniz de Almeida et al. – Brasília: Ministério da Saúde do Brasil, 2011. 580 p. il.
(Série A. Normas e Manuais Técnicos). Disponível em:
http://dtr2004.saude.gov.br/susdeaz/instrumento/arquivo/16_Doencas_Trabalho.pdf
6. NIOSH. Pocket Guide to Chemical Hazards – Department of Health and Human Services, Center for
Disease Control and Prevention, National Institute for Occupational Safety and Health – DHHS (NIOSH)
Publication No 2005-149, Third printing, September 2007. 424 p. Disponível em:
http://www.fundacentro.gov.br/biblioteca/biblioteca-digital/publicacao/detalhe/2014/3/manual-de-orientacao-sobre-controle-medico-ocupacional-da-exposicao-a-substancias-quimicas
http://www.fundacentro.gov.br/biblioteca/biblioteca-digital/publicacao/detalhe/2014/3/manual-de-orientacao-sobre-controle-medico-ocupacional-da-exposicao-a-substancias-quimicas
https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/pt-br/composicao/orgaos-especificos/secretaria-de-trabalho/inspecao/seguranca-e-saude-no-trabalho/ctpp-nrs/normas-regulamentadoras-nrs
https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/pt-br/composicao/orgaos-especificos/secretaria-de-trabalho/inspecao/seguranca-e-saude-no-trabalho/ctpp-nrs/normas-regulamentadoras-nrs
http://dtr2004.saude.gov.br/susdeaz/instrumento/arquivo/16_Doencas_Trabalho.pdf
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http://www.cdc.gov/niosh/docs/2005-149/pdfs/2005-149.pdf
7. PATNAIK, P. – Guia Geral: Propriedades Nocivas das Substâncias Químicas. [Tradução de Ricardo
Maurício Soares Baptista]. 2ª. ed. Belo Horizonte, Ergo Editora, 2011. 2 v.
9. RAMAZZINI, Bernardino – As Doenças dos Trabalhadores: Tradução de Raimundo Estrela, 3. ed. - São
Paulo: FUNDACENTRO, 2000. 325 p.
http://www.cdc.gov/niosh/docs/2005-149/pdfs/2005-149.pdf
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PREFÁCIO
Esta apostila tem como objetivo servir de apoio para a Disciplina de
Noções de Toxicologia do curso de Pós-Graduação em Engenharia de
Segurança do Trabalho, sensu lato, dochumbo e cádmio é maior do que aquele provocado pela administração
isolada desses agentes químicos. Da mesma forma o inseticida fosforado EPN
aumenta a toxicidade do Malation, assim como a exposição simultânea ao
tetracloreto de carbono e metanol.
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Também podemos citar o efeito da MEK (metil-etil cetona) e o n-hexano
que juntos aumentam o risco de lesão de nervos periféricos.
Outro exemplo é o efeito da exposição simultânea a fibras de amianto e à
fumaça de cigarro que aumenta em quarenta vezes o risco de câncer de
pulmão, muito acima do risco associada a exposições independentes19.
d) Efeito de Potenciação
Ocorre quando um agente químico não possui efeito tóxico em um órgão
ou tecido, mas quando adicionado a outro agente específico leva a um efeito
tóxico. Assim a toxicidade de uma substância é aumentada pela presença de
outra substância que, isoladamente, não tem efeito tóxico.
Por exemplo, o isopropanol, em concentrações não nocivas para o fígado,
potencia os danos hepáticos provocados pelo tetracloreto de carbono.
e) Efeito Antagônico ou antagonismo
A interação pode ser negativa ou antagônica quando o efeito simultâneo
de duas substâncias produz um efeito menor que soma das duas. Neste caso a
toxicidade de um composto é reduzida na presença de outro composto ou
agente químico fazendo com que o efeito de uma substância reduza o efeito de
outra.
Como exemplos de efeitos antagônicos podemos citar:
- Ação do chumbo e zinco sobre a atividade enzimática do ácido delta-
aminolevulínico desidratasse (ALA-D) na biossíntese do heme.
- A ingestão de metanol causa cegueira, mas a intoxicação por metanol é
tratada com a administração de etanol (álcool etílico), pois este compete pelo
metabolismo do metanol reduzindo a formação de subprodutos tóxicos do
metanol e mantendo seus níveis baixos o suficiente para evitar o dano sobre o
sistema óptico
VI. VIAS DE PENETRAÇÃO DOS AGENTES TÓXICOS NO ORGANISMO
1 VIA RESPIRATÓRIA
1.1 Absorção
A via respiratória tem uma importância fundamental em Toxicologia
Ocupacional pelas seguintes razões:
19 Torloni, M., Vieira, A.V. Manual de Proteção Respiratória – São Paulo, 2003. 520 p.: il.
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• Pelas características físicas dos agentes químicos mais comuns:
gases, vapores e partículas
• Pelo constante contato que o sistema respiratório mantém com o
meio ambiente externo
• Pela extensa área que é de aproximadamente 90 m², tendo a
superfície alveolar cerca de 70 m², mantendo, assim, um íntimo contato com os
contaminantes atmosféricos
• Por ser permeável e ricamente vascularizada, permitindo rápida e
eficiente absorção
• Por não apresentar, praticamente, defesa de retaguarda, sem
passar por vias de metabolização.
Desta maneira, as substâncias químicas presentes no ar atmosférico, ao
entrar em contato com a via respiratória poderão agir localmente provocando
irritação, inflamação, edema pulmonar e outras alterações ou serem absorvidas
atuando sistemicamente.
Nos alvéolos pulmonares duas fases estão presentes, uma gasosa,
formada pelo ar alveolar e outra líquida constituída pelo sangue; separadas
uma da outra por dupla barreira: o epitélio alveolar e o endotélio capilar, com
uma espessura de apenas 10.
Os agentes químicos mais hidrossolúveis são retidos primariamente
nas vias aéreas superiores.
Não somente a passagem através dos alvéolos, mas a própria
distribuição o agente químico no plasma ou eritrócito se faz em função da sua
lipossolubilidade. Os hidrocarbonetos aromáticos, por exemplo, possuem
afinidade particular pelos glóbulos vermelhos mais ricos em lipídios que o
plasma.
1.2 Deposição de Partículas
A deposição de partículas na via respiratória está associada a vários
fatores:
• Características físicas das partículas
• Configuração morfológica do trato respiratório;
• Características ventilatórias: volume, fluxo e velocidade do ar.
Com relação à partícula devemos considerar além da forma a
higroscopicidade (afinidade pela água), a densidade e o tamanho da
partícula.
A deposição de partículas ocorre em três regiões:
Naso-faringe: Região onde ocorrem mudanças bruscas na direção
do ar inalado, que está com sua máxima velocidade.
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Tráqueo-bronquiolar: as vias respiratórias nessa região são menos
tortuosas, a velocidade do ar inalado é menor e a ação da força de
gravidade é importante para a deposição de partículas com 1 a 5,
pelo processo sedimentação.
Alveolar: nesta região a velocidade do ar é praticamente zero, as
mudanças de direção não são significativas e a ação da gravidade
não é importante, pois, somente partículas menores que 1m se
depositam.
Partículas maiores que 30 alcançam velocidade elevada pela força
de gravidade e as possibilidades de deposição são pequenas se forem
inaladas nas condições normais de inspiração, a não ser que a atividade exija
esforço físico que modifique as características ventilatórias.
1.3 Destino das partículas
As partículas depositadas podem ter os seguintes destinos:
• Naso-faringe
As partículas depositadas nessa região poderão ser eliminadas como
poderão ser deglutidas juntamente com o muco ou ainda, se solúveis no muco,
absorvidas pelo sangue.
• Tráqueo-bronquiolar
Por meio de movimentos ciliares (clearence muco-ciliar) e da
presença de muco serão removidas até a glote e posteriormente expectoradas
ou deglutidas.
• Alveolar
Por meio de movimentos alveolares e fluídos secretados nesta região,
as partículas poderão alcançar a região tráqueo-bronquiolar, e aí, através de
movimentos ciliares e auxiliados pelo muco, chegam até à glote, podendo ser
expectoradas ou deglutidas.
Também podem ocorrer os seguintes fenômenos:
• fagocitose pelos macrófagos alveolares que serão removidos até o
epitélio ciliado, ou penetrarão no sistema linfático, via intersticial
• partículas muito pequenas cujas dimensões se aproximam das
moléculas gasosas, se difundem alcançando a corrente sanguínea;
• partículas solúveis rapidamente atingem a corrente sanguínea;
• partículas pouco solúveis sofrerão um lento processo de "erosão",
até que possam ser absorvidas ou eliminadas.
• partículas insolúveis (sílica, asbesto e poeira de carvão mineral)
podem ficar retidas provocando uma reação inflamatória que leva
a uma fibrose tecidual pulmonar.
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2 VIA CUTÂNEA
A via cutânea é constituída fundamentalmente pela epiderme e derme.
A epiderme corresponde à região mais externa, e possui uma cobertura
hidro-lipídica, composta por água e eletrólitos (suor) secretados pelas
glândulas sudoríparas e por ácidos graxos secretados pelas glândulas
sebáceas.
A epiderme é constituída por várias camadas denominadas,
respectivamente, córnea, lúcida, granulosa espinhosa e germinativa.
A camada córnea que se constitui na principal barreira às substâncias
químicas, é formada por proteínas diversas, principalmente a queratina muito
rica em cistina com as ligações dissulfeto (-S-S-). Esta proteção pode ser
alterada por substâncias como os metais (também denominados tiol-privos)
que interferem nesse mecanismo de formação de ligações de dissulfeto.
Abaixo da epiderme, temos a derme que é constituída pelo tecido
conjuntivo, encontrando-se aí as glândulas sebáceas, folículos pilosos, vasos
sanguíneos e linfáticos. A rica vascularização desta região permite uma eficiente
absorção e distribuição dos agentes químicos que conseguem chegar até a
derme.
O tecido subcutâneo situado após a derme é rico em lipídios e, além de
servir como reserva energética, funciona como absorvedor de impactos.
A pele normalmente é uma barreira efetiva para a proteção dos tecidos
que estão sob ela. Relativamentepoucas substâncias são absorvidas por veia
cutânea possibilitando sua ação sistêmica.
Os agentes tóxicos para penetrarem por via cutânea devem ser solúveis
em água ou gordura.
Exemplo: fenol, anilinas fenil-hidrazina, solventes orgânicos e
alifáticos.
Para avaliar a exposição dérmica devem-se considerar, no mínimo, os
seguintes fatores:
a) quantidade e concentração do agente;
b) estado físico do agente;
c) propriedades físico-químicas relacionadas com ação local e penetração
dérmica;
d) área corporal de contato;
e) tipo, duração e frequência da atividade e
f) medidas de controle existentes.
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Após um agente químico entrar em contato com o tecido cutâneo, quatro
fenômenos poderão ocorrer:
1 - A epiderme, com a película de gordura e suor, atua como barreira
efetiva e o agente químico não é capaz de alterá-la ou danificá-la;
2 - O agente químico reage com a superfície cutânea provocando
irritações
3 – O agente químico penetra, se liga a proteínas teciduais e produz
sensibilização e
4 - O agente químico se difunde pela epiderme, glândulas sebáceas,
sudoríparas ou, através dos folículos pilosos, ingressa na corrente
sangüínea e atua sistemicamente.
Por outro lado, a permeabilidade cutânea pode ser alterada por uma
série de fatores e condições, tais como:
• Propriedades físico-químicas do agente químico: solubilidade
(hidro/lipossolubilidade), peso molecular, tamanho molecular
• Teor de umidade do tecido
• Presença de surfactantes ou tenso-ativos
• Variação da espessura do tecido
• Temperatura
• Circulação periférica
• Idade
• Integridade da pele
• Capacidade dos constituintes tissulares se ligarem ao agente
químico
• Potencial de biotransformação do tecido cutâneo.
2.1 DERMATOSES OCUPACIONAIS
Há dois tipos de dermatoses ocupacionais:
• Primária por irritação
• Por sensibilização
2.2 Primária por irritação
Esse termo é utilizado para designar uma inflamação da pele,
resultante da exposição aos produtos químicos irritantes presentes no
ambiente de trabalho. A irritação pode variar desde uma pequena vermelhidão,
prurido até erupções e inflamação grave, dependendo do tempo de contato.
Existem centenas de produtos que exercem ação irritante após um
contato quase imediato como:
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• ácidos clorídrico e sulfúrico
• ácido perclórico
• formol, pentaclorofenato de sódio
• fenol, clorofenol
• amoníaco
• permanganato de potássio
• ácidos oxálico e pícrico
• anidridos
Os sabões detergentes e solventes são considerados irritantes suaves e
geralmente requerem exposições repetidas para provocarem irritação.
2.3 Por sensibilização
A dermatose por sensibilização e produzida por agentes químicos e
plantas principalmente, que ao entrarem em contato com o tecido cutâneo
desenvolvem, em algumas pessoas, reações alérgicas. Entre esses tipos de
agentes químicos podemos citar:
• resinas epóxi
• corantes azóicos
• derivados do alcatrão do carvão mineral (hulha)
• metais como níquel, cromo e cobalto
• di-isocianatos
• etilamina,
• trietilamina
• trietilenodiamina
• peróxido de benzoila
• dietilanilina
• anidrido ftálico
Alguns agentes produzem despigmentação da pele, como certos
herbicidas, detergentes fenólicos e hidroquinona cujo mecanismo
possivelmente está associado com a síntese de melanina. Outros agentes
produzem hiperpigmentacão como prata (por deposição) e arsênico (que
favorece a síntese de melanina) e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos
presentes no negro de fumo.
3 VIA DIGESTIVA
A via digestiva é a terceira via em importância para a Toxicologia
Ocupacional no que se refere à introdução de substâncias tóxicas no
organismo.
Algumas substâncias químicas ao serem introduzidas pela via digestiva
podem provocar unicamente efeitos sobre os tecidos do sistema digestivo,
como acontece com ácidos e álcalis ou, ainda, serem absorvidas e agirem
sistemicamente.
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Quando não existem hábitos de higiene adequados (comer, beber ou
fumar no próprio local de trabalho, ou não lavar as mãos e rosto antes das
refeições), os agentes químicos presentes no ambiente de trabalho poderão
ser introduzidos pelo trato gastrointestinal.
Por outro lado, quando o contato do trabalhador se dá com partículas,
estas após penetrar nas vias aéreas, serão transportadas, por meio do
clearence (limpeza) muco ciliar, até a região bucal e, eventualmente,
deglutidas.
Os riscos de intoxicação por esta via são menores, principalmente
pelos seguintes fatores e características do sistema digestivo:
a) pela pequena absorção na corrente sangüínea
b) os agentes químicos estão sujeitos ao pH ácido do estômago (pH
entre 1 e 2)
c) o pH alcalino do suco pancreático no intestino delgado:
d) pela ação das enzimas digestivas.
Devemos ainda considerar que a baixa absorção por via digestiva
ocorre pelos seguintes fatores:
a) diluição dos agentes químicos com água e alimentos e formação
de produtos menos solúveis por interação com os componentes da
dieta e sucos intestinais
b) haver seletividade na absorção intestinal e
c) alcançarem o sistema hepático, submetendo-se aos processos de
biotransformação antes de os agentes químicos serem distribuídos
para os demais órgãos.
Entretanto, não devemos esquecer que a via digestiva é uma via
complementar de introdução de substâncias tóxicas do ponto de vista
ocupacional pois a maior parcela dos agentes tóxicos é introduzida pelas vias
respiratória e/ou cutânea.
VII – DISTRIBUIÇÃO E DEPOSIÇÃO DOS AGENTES TÓXICOS
Os agentes tóxicos após serem absorvidos são distribuídos pelo
organismo e essa distribuição está condicionada a vários fatores associados
tanto ao agente tóxico como ao próprio organismo.
Os fatores mais importantes na distribuição de deposição dos agentes tóxicos
são:
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• Solubilidade do agente químico (Hidro e lipossolubilidade)
• Grau de ionização do agente tóxico no meio biológico
• Afinidade química do agente tóxico com os constituintes orgânicos
• Maior ou menor vascularização de determinadas áreas do
organismo
• Fração aquosa e lipídica dos órgãos e tecidos
• Capacidade de biotransformação do organismo e
• Condições orgânicas (existência ou não de lesões orgânicas).
Devemos lembrar que os fluídos orgânicos estão distribuídos por
três compartimentos: plasmático, intersticial e intracelular.
Assim, o agente tóxico na corrente sanguínea poderá se distribuir
tanto no fluído plasmático como na fração eritrocitária (hemácias). Por
exemplo, o mercúrio orgânico, o chumbo e o cádmio, após absorção se
concentram mais nas hemácias que na fração plasmática.
Os agentes tóxicos ao serem distribuídos pelo organismo poderão se
acumular no próprio sítio de ação, se depositar em sítios (locais) específicos ou
serem transportados a órgãos com capacidade de biotransformá-los e/ou
eliminá-los.
Entretanto, o processo de distribuição está condicionado à maior ou
menor capacidade do agente químico de se ligar às proteínas plasmáticas.
VIII SÍTIOS DE DEPOSIÇÃO DOS AGENTES TÓXICOS
1 PROTEÍNAS PLASMÁTICAS
A ligação da maioria dos agentes tóxicos com as proteínas
plasmáticas ocorre com a albumina por meio de ligações reversíveis. Existe
sempre um equilíbrio entre o agente tóxico na forma livre e na forma ligada às
proteínas plasmáticas, sendo que somente a fração livre é a forma ativa e
distribuída aos tecidos, enquanto que a fração ligada às proteínas comporta-se
como um reservatório, portanto sem atividade e portanto inerte.
Além da albumina a ligação ocorre com lipoproteínas e
glicoproteinas.
A importância desta ligação no efeito tóxico dos compostos pode ser
entendida pelo exemplodo paration etílico e o paraoxon etílico. O primeiro é
convertido no organismo na sua correspondente forma oxon, responsável pela
atividade anticolinesterásica.
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Alguns exemplos de agentes químicos que se ligam às proteínas
plasmáticas:
- DDT e o DDE à albumina
- Ferro à Transferrina
- Cobre à Ceruloplasmina
- Dieldrin à alfa e beta-lipoproteínas
2 TECIDOS LIPÍDICOS
A lipossolubilidade é uma característica de vários agentes químicos
que, além de permitir rápida absorção e distribuição no organismo, confere
também uma maior capacidade de deposição dessas substâncias.
Substâncias como o clordano, DDT, bifenilos policlorados (PCB) e
bifenilos poli-bromados ao serem distribuídas se depositam no tecido lipídico.
3 OSSOS
Os ossos constituem um local de deposição para alguns agentes
químicos como chumbo (cerca de 90% do chumbo se deposita nos ossos),
fluoreto, estrôncio e urânio.
No caso do chumbo a deposição óssea não se caracteriza como sítio
de ação tóxica, enquanto que para o fluoreto a sua presença provoca a
fluorose óssea.
4 FÍGADO E RINS
Estes órgãos têm grande capacidade de armazenar substâncias
além de serem importantes para o processo de eliminação de agentes tóxicos.
Além disso, o fígado tem grande capacidade de biotransformação.
O mecanismo pelo qual removem os agentes químicos do sangue,
ainda não está bem definido, todavia, parece estar envolvido com transporte
ativo ou ainda através de ligações com componentes teciduais.
5 BARREIRAS HEMATO-ENCEFÁLICA E PLANCENTÁRIA
A barreira hemato-encefálica representa a barreira menos
permeável do organismo para a passagem de substâncias do sangue ao
sistema nervoso central por razões de ordem anátomo-fisiológicas.
A passagem dos agentes tóxicos através da barreira hemato-
encefálica segue, em geral, os mesmos princípios que orientam a passagem
por outras áreas do organismo. Essa passagem ocorre com o agente tóxico
livre, isto é, não combinado às proteínas plasmáticas que deve ser lipossolúvel.
Constituem exemplos de substâncias neurotóxicas:
• Inseticidas organofosforados
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• Inseticidas organoclorados
• Sulfeto de carbono
• Tetracloreto de carbono
• Clorofórmio
• Monóxido de carbono
• Chumbo tetraetila
• Organo-mercuriais
• Mercúrio elementar
• Arsênico.
Quanto à barreira placentária a importância toxicológica se faz com
relação ao novo organismo em formação e os mecanismos de transporte
envolvidos são:
• difusão simples
• difusão facilitada
• transporte ativo
• pinocitose e
• através de fendas na membrana placentária.
Como exemplo de compostos que atravessam a barreira placentária
temos: DDT, tricloroetileno, chumbo, mercúrio e cádmio.
IX BIOTRANSFORMAÇÃO DE AGENTES TÓXICOS
A biotransformação tem por objetivo neutralizar a ação tóxica dos
agentes químicos e facilitar sua eliminação transformando-os em produtos mais
ionizados, mais polares e mais hidrossolúveis.
A idéia que se tem é que a biotransformação sempre resulta em
inativação do agente tóxico, entretanto, em alguns casos, a biotransformação
leva à formação de produtos mais tóxicos.
Como exemplos deste fenômeno podemos citar:
a) Metanol oxidado em ácido fórmico, afetando o nervo ótico e as
células da retina, ocasionando cequeira e lesões renais.
b) Paration quando oxidado se transforma em Paraoxon e inibindo a
acetilcolinesterase
c) Anilina oxidase é transformada em Fenil-Hidroxialamina que é um
agente asfixiante face ao seu efeito metahemoglobinizante.
d) Naftaleno oxidado a Di-hidroxinaftaleno levando a casos de catarata.
O fígado é o principal órgão envolvido na biotransformação de agentes
químicos, embora outros órgãos participem também dessa função em graus
variáveis.
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As principais reações que ocorrem são: Oxidação, Redução, Hidrólise e
Conjugação
As reações de oxidação, redução e hidrólise fazem parte da fase
pré-sintética, enquanto que as reações de conjugação correspondem à fase
sintética.
As reações pré-sintéticas podem resultar em ativação, alteração de
atividade ou inativação do agente tóxico. As reações sintéticas ou de
conjugação envolvem a interação entre o agente tóxico ou o produto da
biotransformação (originário das reações de oxidação, redução ou hidrólise) e
um substrato endógeno, formando compostos inativos, altamente polarizados
e hidrossolúveis, prontamente excretados pela urina
X INDUTORES E INIBIDORES DA BIOTRANSFORMAÇÃO
As enzimas responsáveis pelo processo da biotransformação poderão
ter sua atividade aumentada, por determinados produtos químicos, como por
exemplo, fenobarbital, álcool etílico, inseticidas organoclorados,
hidrocarbonetos policíclicos aromáticos que funcionam como indutores da
atividade enzimática.
Esta indução resulta sempre numa aceleração do processo de
biotransformação, interferindo assim, na ação tóxica e na eliminação dos
agentes químicos absorvidos.
Por outro lado, os inibidores têm a capacidade de diminuir a atividade
de enzimas envolvidas nos processos de biotransformação, diminuindo sua
velocidade.
Como exemplos, podemos citar o dissulfiram (inibidor da aldeído-
desidrogenase), o mercúrio que é inibidor da monoaminoxidase (MAO) e os
inseticidas organofosforados (inibidores da acetilcolinesterase).
XI ELIMINAÇÃO DAS SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS
Os agentes químicos absorvidos pelo organismo serão eliminados
na forma inalterada ou por meio de seus produtos de biotransformação por
várias vias.
As principais vias de eliminação são:
1 Renal
A excreção o renal dos agentes tóxicos ocorre por processos de filtração
glomerular passiva, difusão tubular passiva e secreção tubular ativa.
Durante a passagem pelos túbulos glomerulares renais as moléculas
filtradas poderão se difundir ou ser ativamente transportadas do lúmen ao
sangue, ocorrendo um processo de reabsorção.
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Os agentes tóxicos com elevado coeficiente de partição lipídeo/água
serão reabsorvidos passivamente, enquanto que os produtos polares são
incapazes de se difundir, sendo excretados.
Através dos rins, portanto, são eliminadas substâncias polares e
suficientemente hidrossolúveis.
2 Pulmonar
Os agentes químicos passíveis de ser eliminados pela via pulmonar
são os gases, vapores e partículas e, no caso dos gases e vapores, na forma
primitiva (inalterada) ou sob a forma de produtos de biotransformação.
A eliminação de gases e vapores se faz por difusão simples, não
existindo um sistema especial de transporte. A proporção do agente tóxico
eliminado sob a forma inalterada é bastante variável, e depende da intensidade
da ventilação pulmonar, da sua solubilidade no sangue, do coeficiente de
difusão, da tensão de vapor do agente tóxico no sangue e da pressão alveolar
da substância.
Assim, a eliminação ocorre quando a pressão alveolar de um gás ou
vapor for menor que a pressão do mesmo no sangue.
3 Outras vias de eliminação.
Existem outras vias de eliminação dos produtos tóxicos que são
secundárias do ponto de vista da Toxicologia Ocupacional.
São elas: a bile, o suor, a saliva e o leite (sendo este último de importância
em casos de trabalhadoras em fase de amamentação).
XI INDICADORES BIOLÓGICOS DE EXPOSIÇÃO HUMANA (I.B.E.)
Conceito: Compreende todo e qualquer xenobiótico ou seu produto de
biotransformação, assim como, qualquer alteração bioquímica precoce cuja
determinação nos fluídos biológicos, tecidos ou ar exalado avalie a intensidade
da exposição ao agente químico contaminante ambiental ou ocupacional. O
indicador ideal é o que fornece boa relação exposição/absorção/efeito nocivo.
Utilizados em Toxicologia Ocupacional para avaliar o grau de exposição dos
trabalhadores expostosa produtos químicos em seu ambiente de trabalho
Podem ser classificados em:
- indicadores de efeito
- indicadores de dose interna (absorção)
Indicadores de efeito: são aqueles que revelam alterações no organismo
resultantes da ação do agente químico em qualquer tecido, órgão ou
sistema.
46
Estas alterações devem ser identificadas precocemente e ser reversíveis.
Tais indicadores permitem avaliar diretamente o risco e prevenir a
manifestação de efeitos nocivos. Este tipo de indicador também é
denominado do Tipo 1. No caso de alteração destes indicadores deve
ser emitida a CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho)
Exemplos:
• Plumbemia, ALA-U na indicação da exposição ao chumbo inorgânico.
• Cádmio urinário
• Colinesterase intra-eritrocitária para indicar exposição a inseticidas
organofosforados e carbamatos.
• Meta-hemoglobina indica a exposição à anilina e nitrobenzeno.
• Carboxi-hemoglobina indica a exposição ao Monóxido de carbono.
Indicadores de dose interna (absorção): refletem a dose real da substância
no sitio onde ela exerce exposição desde que o nível da substância no
material biológico esteja correlacionado a sua ação ou estima, de forma
indireta, o grau de com a concentração ambiental. Além disso, permitem
avaliar a concentração do agente nos órgãos e/ou tecidos a partir dos
quais, uma vez acumulada a substância, esta é lentamente liberada. São
também conhecidos como indicadores de exposição ou indicadores
do Tipo II e não indicam necessariamente a ocorrência de doença.
Exemplos:
• Fenol urinário indica a exposição ao benzeno, mas também indica seu
efeito tóxico
• Fluoretos urinários indicam a exposição ao flúor e seus derivados
inorgânicos
• Mercúrio urinário indica exposição a mercúrio metálico e derivados
inorgânicos
• Ácido hipúrico: indicador de exposição ao tolueno
• Ácido metil-hipúrico: indicador de exposição ao xileno
•Triclorocompostos totais na urina: indicam a exposição a
Tetracloroetileno, Tricloroetileno, 1,1,1, tricloroetano
XII– OUTROS AGENTES TÓXICOS DE INTERESSE OCUPACIONAL
1 AGROTÓXICOS
De acordo com o inciso XXVI da Lei 14.785/2023, agrotóxicos são
definidos como:
47
Produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos
destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e no
beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens ou na proteção de
florestas plantadas, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou
da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos
considerados nocivos
1.1 Inseticidas organofosforados
Um efeito agudo dos compostos organofosforados é a síndrome produzida
pela ação desses compostos pela inibição da ação da enzima
acetilcolinesterase (AChE) nas terminações nervosas colinérgicas.
A acetilcolinesterase (AChE) tem a função de hidrolisar a acetilcolina,
mediador do sistema nervoso, ao nível das terminações das fibras pós-
ganglionares do sistema nervoso parassimpático, dos gânglios do sistema
parassimpático, da junção neuromuscular e do sistema nervoso central,
produzindo Colina e Acetato
A acetilcolinesterase tem dois sítios ativos: um sítio aniônico (negativo) e
um sítio catiônico (positivo) ou esterásico. O sítio mais comum de reacão é o
esterásico. Os sinais e sintomas comuns a essas intoxicações ocorrem por
acúmulo da acetilcolina nos receptores da junção neuro-muscular.
Os efeitos imediatos do neurotransmissor acumulado nas sinapses poderão
ser bloqueados usando atropina que é um inibidor competitivo ao receptor.
Sinais e Sintomas de intoxicação por organofosforados
Podem ser resumidos em:
• síndrome colinérgica: tosse, vômito, cólica, diarreia, sudorese,
sialorreia (salivação excessiva), miose, hipersecreção brônquica e
colapso respiratório.
• síndrome nicotínica: fasciculações (tremores) musculares,
hipertensão arterial transitória.
• síndrome neurológica: confusão mental, ataxia (perda do
equilíbrio), convulsões, depressão cardiorrespiratória, coma e
morte.
1. 2 Inseticidas Carbamatos
São compostos derivados do ácido carbâmico, particularmente do ácido N-
metil carbâmico. Entre os principais nomes comerciais podemos citar: Carbaril,
Baygon, Moban e Zectram.
Absorção
48
Em formulações sólidas são pouco absorvidos, sendo a absorção dérmica
pouco importante no aparecimento de efeitos tóxicos em indivíduos
ocupacionalmente expostos. O maior risco está relacionado à absorção via
respiratória em aplicações por meio de pulverizações.
A eliminação é bastante rápida. Por exemplo, uma dose única de Carbaril é 70
a 80% eliminada na urina nas primeiras 24 horas.
Mecanismo de ação dos inseticidas carbamatos:
Inibição da acetilcolinesterase, de modo mais reversível que os
inseticidas organofosforados. O efeito anti-colinesterásico é
explicado pela sua configuração química semelhante à acetilcolina.
Os sinais e sintomas da intoxicação por carbamatos são semelhantes aos da
intoxicação por inseticidas organofosforados.
Tratamento
A enzima AChE fosforilada pode ser reativada com utilização de produtos como
as oximas (pralidoxima), que deslocam o fosfato ligado à enzima.
Uma importante diferença entre os inseticidas organofosforados e os
carbamatos é que estes últimos são inibidores reversíveis da acetil-
colinesterase, ou seja, a ligação com a enzima é fraca sendo, portanto, contra-
indicado o uso da pralidoxina (Contration®). As oximas não têm demonstrado
bons resultados no tratamento das intoxicações com carbamatos. Estudos em
animais demonstram que a pralidoxina e a toxogonina aumentam a toxicidade
do Carbaril®. O sulfato de atropina via Intramuscular ou venosa, deve ser
utilizado até a melhora do quadro clínico.
1.3 Inseticidas Organoclorados
Exemplos: Hexaclorociclohexano (BHC) Lindano (isómero gama do BHC),
DDT, Metoxicloro, Heptacloro, Aldrin, Dieldrin, Endrin, Clordano, Endossulfan.
Absorção. São altamente lipossolúveis e são rápida e eficazmente absorvidos
pelo trato gastrointestinal.
Absorção pela pele: grupo dos cíclodienos (Aldrin, Dieldrín,
Endrin) cuja DL 50 dérmica bastante próxima da DL 50 oral.
A absorção pela via respiratória tem importância quando usados na forma
pulverizada.
Os inseticidas organoclorados são distribuídos uniformemente no organismo
concentrando-se nos tecidos gordurosos (abdome, cérebro e fígado).
49
Biotransformação. Variável dependendo do grupo químico
Mecanismo de ação tóxica. Variado em função de possuírem as estruturas
químicas diferentes.
Sinais e sintomas de Intoxicação por inseticidas organoclorados
Cefaleia, que não cede a analgésicos comuns, náuseas, vertigens, obnubilação
passageira e sudorese fria.
Em alguns casos sinais de incoordenação motora cerebelar, podendo ocorrer
ataques do tipo epiléptico de duração variável.
Outros sinais e sintomas: anorexia, emagrecimento. Mal estar geral, dores
generalizadas, transpiração excessiva, alteração (aumento ou diminuição) de
reflexos profundos e superficiais, reflexos pupilares lentos, depressão
respiratória, dispnéia, salivação, tremores e hepatomegalia, principalmente em
casos de intoxicação crônica.
Tratamento: São contra-indicados laxantes oleosos, leite e alimentos
gordurosos.
Nas intoxicações leves: indicada sedação com benzodiazepinicos.
Nas intoxicações graves devem ser tratadas as convulsões.
1.4 Inseticidas Piretróides
Exemplos: Decis, Ambush, K-Othrine, Protector, SBP, Fuminset
São absorvidos pela pele, por ingestão e inalação.
Pouco tóxicos do ponto de vista agudo são, entretanto irritantes
para os olhos e mucosas e são, principalmente, hipersensibilizantes, causando
tanto alergia de pele como asma brônquica. Seu uso abusivo no ambiente
doméstico vem ocasionando um aumento de caso de sintomas alérgicos.1.5 Pentaclororenol
O Pentaclorofenol e o seu sal sódico (PCFNa - pentaclorofenato de
sódio) são usados como inseticidas, herbicida, fungicida e bactericida, sendo
80% de sua produção destinada ao tratamento da madeira, protegendo-a
contra fungos, cupins e outros insetos.
Durante sua produção ocorre a formação de diversos compostos, em
virtude o emprego de altas temperaturas e da condensação de duas
moléculas do mesmo e que constituem contaminantes tanto do chamado
produto técnico como no grau puro. Entre estes contaminantes destacam-se
éteres difenilclorados, dihidroxibilfenis clorados e dibenzodioxinas. (PCDD).
50
Entre as dibenzodioxinas destaca-se a 2, 3, 7, 8 tetraclorodibenzo-p-
dioxina (TCDD), que é um dos mais potentes agentes tóxicos de síntese
conhecido além de possuir efeito teratogênico e carcinogênico, como as
demais dioxinas.
2. METAIS
2.1 Cádmio (Cd)
O minério de cádmio é encontrado na natureza junto com minérios de
outros metais, principalmente zinco, mas também do cobre e do chumbo. É um
metal pesado (densidade 8,6 g/cm3), maleável, branco prateado, e a maioria
dos seus compostos inorgânicos são insolúveis na água, exceto o acetato, o
cloreto e fluoreto. Tem pontos de fusão e ebulição relativamente baixos.
O cádmio e seus compostos são utilizados como estabilizantes de
plásticos, na produção de ligas especiais com outros metais, esmaltação de
cerâmicas, solda e em ligas especiais, tratamento de superfície em galvânicas,
produção de células fotovoltaicas, indústria de vidro, fabricação de lâmpadas
de vapores de cádmio, na produção de pigmentos, na construção de reatores
nucleares e em alguns componentes eletrônicos de informática. A produção de
baterias de níquel-cádmio em um passado recente era uma das indústrias
consumidoras de cádmio mais importantes, mas a produção deste tipo de
bateria diminuiu muito com a surgimento das baterias de íon lítio.
Também há exposição na produção primária de cádmio extraído dos
minérios de zinco, chumbo e cobre. A exposição ocupacional ocorre
principalmente por inalação de poeiras e fumos de compostos de cádmio. A
exposição ambiental por alimentos e bebidas é baixa, até porque os compostos
do metal são muito pouco absorvidos por via gastrointestinal, mas o tabagismo
é uma fonte significativa de absorção de cádmio.
2.1.1 Toxicocinética do Cádmio
A absorção pelo trato gastrointestinal é muito baixa, menos que 5%, mas
pode ser aumentada se a dieta tiver uma deficiência de cálcio, ferro e zinco,
pois nos indivíduos com deficiências destes metais há um aumento da
produção da proteína de transporte (DMT-1), que transporta cádmio,
aumentando a absorção do metal proveniente da dieta. Já na pele íntegra não
há absorção do metal ou de seus compostos inorgânicos.
O cádmio inalado em forma de fumos e poeiras é mais bem absorvido.
As partículas menores, como poeiras e fumos, atingem os alvéolos, onde até
50% é absorvido. Já a poeira com particulado de maior diâmetro aerodinâmico
tende a ter a maior parte retida na região traqueobrônquica. A parcela que não
atinge os alvéolos permanece na região traqueobrônquica e acaba chegando à
boca pelo movimento mucociliar, e sendo deglutida. Como o tabaco contém
cádmio e é inalado em forma de fumos, os fumantes possuem um maior
acúmulo corporal de cádmio no organismo em relação aos não fumantes.
51
O cádmio absorvido é transportado no sangue, sendo a maior parte
ligado a hemácias (70-90%) e o restante no plasma ligado a proteínas de alto
peso molecular como a albumina. Há uma proteína de baixo peso molecular, a
metalotioneína que tem grande afinidade pelo Cd e outros metais, como cobre,
mercúrio, zinco, prata. Esta proteína possui grande afinidade por metais, pois é
rica em grupo S-H do aminoácido cisteína que compõe cerca de 35% desta
proteína. A ligação dos metais como a proteína nos sítios S-H forma o
complexo metal-tioneína, também denominado de metalotioneína (MT).
A metalotioneína é sintetizada no fígado e o cádmio induz a sua
produção. Além do fígado há grande quantidade desta proteína nos rins e nas
hemácias. O complexo cádmio-metalotioneína (Cd-MT) é pequeno e pode ser
filtrado pelo glomérulo e ser reabsorvido pelo túbulo proximal, onde é
catabolizado e o cádmio liberado é ligado a uma outra tioneína sintetizada
pelas células tubulares renais e assim pode permanecer por longos períodos
nos rins.
Em todos os seres humanos há um aumento de cádmio depositado com
a idade, sendo maior nos fumantes. Do total depositado no organismo, cerca
de 50% está nos rins, especialmente no córtex renal, 20% nos músculos e 15%
no fígado, e o restante distribuído por outros tecidos. Nos indivíduos com
exposição ocupacional a proporção do depósito hepático aumenta em relação
ao renal, e esta proporção fígado/rins é maior quanto maior o depósito corporal.
A meia vida biológica do cádmio é entre 10 a 30 anos, com uma média
de 20 anos, no músculo, fígado e rins. No sangue é de duas fases, sendo a
rápida de cerca de 90 dias e uma lenta de cerca de 10 anos. A excreção diária
do cádmio é muito baixa, menos que 0,01% do depósito do organismo, o que
explica a longa meia-vida biológica do metal. A eliminação é feita basicamente
por via urinária na forma de cádmio complexado com metalotioneína.
Em casos de exposições ocupacionais elevadas, o cádmio em excesso
no fígado pode ser liberado à circulação levando a danos aos órgãos alvo
mesmo após cessada a exposição.
2.1.1.1 Toxicodinâmica e efeitos
O principal efeito do cádmio é a sua nefrotoxicidade crônica, mas
existem efeitos agudos que ocorrem em exposições a concentrações muito
elevadas.
2.1.1.1.1 EFEITOS AGUDOS
Seu efeito agudo mais importante do cádmio é o dano pulmonar. Este
efeito é causado por uma exposição extremamente elevada a poeiras com
cádmio, por ocasião de moagem e empacotamento de compostos inorgânicos
do metal, ou a fumos, que podem atingir soldadores de ligas de prata-cádmio.
Também incêndios de baterias níquel-cádmio podem levar a quadros
pulmonares graves, tanto pelo cádmio, quanto pelo níquel.
A inalação maciça de fumos de cádmio leva ao aparecimento de
sintomas cerca de 24 horas após a exposição e provoca sensação de secura
no nariz e garganta, tosse intensa, cefaleia, dor torácica, febre e calafrios. O
52
quadro lembra o quadro de febre dos fumos metálicos, mas com maior
gravidade dos sintomas respiratórios. Geralmente há recuperação dos
pacientes, mas nos quadros mais graves há progressão para pneumonite
química e edema pulmonar, com alta letalidade. Também já foram descritos
casos que evoluíram com necrose tubular aguda, além do edema de pulmão.
Há estimativas que níveis de exposição de cerca de 1 mg/m3 já provocam
sintomas respiratórios, enquanto que concentrações por volta de 5 mg/m3 por 8
horas de exposição é potencialmente letal a quase todos os expostos. Deve-se
atentar que estas concentrações são da ordem de milhares de vezes maiores
que os limites ocupacionais de exposição. Não se conhece o mecanismo deste
efeito pulmonar.
2.2.1.1.1.1 EFEITOS CRÔNICOS
Respiratórios
A exposição por longos períodos (10 a 30 anos) aos compostos de
cádmio pode levar lentamente a uma doença obstrutiva caracterizado por
bronquite e fibrose progressiva de vias aéreas inferiores e dano alveolar, que
pode ser denominado de enfisema do cádmio, pois tem características próprias
nas provas de função pulmonar e nos exames anatomopatológicos, sendo
desta forma uma entidade diferente do enfisema clássico. Os quadros
geralmente são leves, e não há clareza da existência de dose resposta deste
efeito. O mecanismo deve ser similar ao que ocorre na doença pulmonar
aguda.
Anosmia
Outro efeito crônico do cádmio é a diminuição do olfato, que pode
chegar a anosmia (perda do olfato). Mesmo baixas exposições que não
determinam danos em outros órgãos alvos, como os rins, podem levara perda
de olfato e o mecanismo parece ser específico do cádmio nos neurônios
olfatórios, ou não inespecífico, por irritação.
Renais
O cádmio provoca um dano tubular proximal, caracterizado pela
excreção de proteínas de baixo peso molecular: β-2-microglobulina que é um
marcador de danos às células tubulares. Além da proteinúria de baixo peso
molecular pode haver presença de outros marcadores de dano tubular, como
aminoácidúria, glicosúria, calciúria, fosfatúria. A ocorrência de cálculo renal,
comum nestes pacientes, poderia ser explicada pela hipercalciúria (aumento da
excreção de cálcio uirinário).
Mais raramente pode aparecer proteinúria de alto peso molecular
(albuminúria, imunoglobinúria) mostrando um dano glomelular, que pode se
seguir à proteinúria de baixo peso molecular, nas há relatos de casos nos quais
era a única alteração encontrada.
O dano renal é proporcional a concentração de cádmio no córtex renal.
Quando esta atinge 200 ppm já há possibilidade de início de dano. A
concentração de cádmio no córtex renal é bem correlacionada com a
concentração de Cádmio urinário (Cd-U). Quando atinge os 200 ppm, o Cd-U é
53
por volta de 10 µg/g.creat. e há uma prevalência de cerca de 10% de indivíduos
com a proteinúria de baixo peso molecular. Com o aumento de Cd-U para 20
µg/g.creat. a prevalência de proteinúria aumenta para 20%. Esta alteração de
renal pode não significar perda de função renal significativa no momento, mas
pode comprometer a reserva funcional e ter repercussões no futuro em
consequência do declínio da função renal pela idade.
Efeitos ósseos
A ação direta do cádmio sobre os ossos foi constatada em 1968 no
Japão onde a população de uma localidade utilizou água contaminada por
cádmio para irrigar uma plantação de arroz, que era consumido rotineiramente
pelos habitantes da região. A água provinha da drenagem de uma mina de
zinco abandonada. O quadro era caracterizado por osteomalácia, osteoporose,
fraturas múltiplas, danos renais, intensas dores articulares e lombares. Foi
denominada de Itai-Itai, que em japonês significa Dói-Dói, em consequência do
enorme sofrimento das vítimas. Estas eram mulheres multíparas e em pós-
menopausas, e foram considerados co-fatores para a instalação da doença a
falta de vitamina D e a carência nutricional de cálcio, típica da dieta japonesa
da época.
A exposição ambiental a cádmio por água e/ou alimentos contaminados
é associado a osteoporose por perda de densidade óssea, e aumento do risco
de fratura em mulheres e pessoas idosas.
Entre trabalhadores expostos os dados sobre efeitos ósseos são poucos
e controversos, mas há algumas evidências que sustentam a existência de
alterações da via metabólica da vitamina D e da densidade óssea, mesmo em
baixas exposições a cádmio. A fisiopatologia não é elucidada, não estando
claro se há algum efeito direto do cádmio no metabolismo da matriz óssea, ou
se os efeitos são secundários ao dano renal, como a perda cálcio, fosfato ou a
acidose.
Carcinogênese
A IARC classifica o Cádmio e seus compostos como carcinogênicos
para humanos (Grupo1), sendo ligado a câncer de pulmão. Para câncer renal e
de próstata há evidências limitadas. Já a ACGIH classifica-o como A2, ou seja,
suspeito de ser carcinogênico em humanos.
2.1.2 Tratamento
Não há tratamento específico para os efeitos do cádmio. A terapia
quelante não tem se mostrado eficaz, mesmo em intoxicações agudas.
2.1.3 Controle da exposição e monitoramento biológico
Existem limites estabelecidos para cádmio e seus compostos em vários
países e instituições, conforme o quadro a seguir.
54
Limites de exposição para cádmio e seus compostos adotados em alguns
países e instituições
País / Instituição Limite para 8
horas de
exposição (mg/m3)
Obs
ACGIH (EUA, 2024) 0,01 Particulado respirável para 8
horas
ACGIH (EUA, 2024) 0,002 Compostos de cádmio
China 0,01 Particulado total para 8 horas
EUA (NIOSH) 0,01 Particulado total para 8 horas
EUA (OSHA) 0,005 Particulado total para 8 horas
Japão 0,05 Particulado total para 8 horas
Existem dois indicadores biológicos possíveis para o controle da
exposição a cádmio: o Cádmio no sangue (Cd-S) e o Cádmio urinário (Cd-
U).
O primeiro é um indicador de exposição corrente ou excessiva e indica
se o ambiente de trabalho está controlado ou não. O segundo (cádmio urinário)
é um indicador tanto de exposição corrente, quanto de acúmulo, dependendo
do momento da coleta. Como indicador de acúmulo possui uma correlação com
o dano renal, e não com a exposição corrente.
O monitoramento biológico da exposição deve ser iniciado no mínimo
após 6 meses do início da exposição, pois nos primeiros meses há um grande
número de sítios de ligação de S-H disponíveis em muitas proteínas do
organismo, principalmente nas metalotioneínas, e somente depois de um certo
tempo há o estabelecimento de uma correlação entre a exposição e os
indicadores. No caso do Cd-S, há uma subida rápida nos primeiros meses e
depois permanece em um nível mais constante que realmente reflete o nível de
exposição ambiental. Desta forma, dosa-lo no início do trabalho com exposição
ao metal fornece a informação errônea, minimizando a real concentração no
ambiente de trabalho. Também o Cd-U é muito baixo no início pois só vai se
correlacionar com a exposição ocupacional após a saturação dos sítios da
metalotioneína renal. Por este motivo o monitoramento biológico só deve ser
iniciado após no mínimo 6 meses de exposição
Indicador biológico de exposição ocupacional (IBE) ao Cd (Quadro 2 do
Anexo I NR-7)
Material biológico: urina.
Valor de referência: até 2g/g de creatinina.
IBE: 5 g/g de creatinina.
No caso do Cádmio a ultrapassagem do IBE, além de mostrar
exposição excessiva, tem significado clínico ou toxicológico próprio, ou
55
seja, pode indicar doença ou disfunção renal e neste caso deve ser
emitida a CAT.
Não há limite de tolerância ambiental para o Cádmio na legislação
brasileira atual.
2.2 Cromo (Cr)
Usos do Cromo:
• ligas metálicas ácido resistentes
• cromagem eletrolítica de metais (ácido crômico)
• tratamento de madeiras (sais diversos)
Fontes de exposição ocupacional
• névoas de ácido crômico na cromagem eletrolítica de metais
• produção e processamento de cromatos e bicromatos e ácido
crômico.
• Produção e uso do cimento (que contém quantidades variáveis de
cromatos e bicromatos).
Absorção, distribuição e excreção
• Vias de penetração: oral, dérmica ou pulmonar.
• A absorção depende do estado de oxidação, sendo que o cromo
hexavalente (Cromo VI) tem uma absorção gastrointestinal de 2 a 6% e
o cromo trivalente (Cromo III) tem uma absorção menor que 1%.
• O cromo tem uma alta ligação com as proteínas plasmáticas (86
a 90%) e é armazenado nos pulmões, pele, músculos e tecido adiposo.
Ação Tóxica
0 cromo III tem baixa toxicidade enquanto o cromo VI é o de maior toxicidade.
A absorção por via oral produz vômitos e diarréia persistente com hemorragia
intestinal grave devido a ulcerações por ação cáustica do metal.
São descritos casos letais com doses de 1,5g de dicromato de potássio e para
o ácido crômico a dose letal considerada é de 3,0g.
Os agravos decorrentes da exposição ao Cromo são:
• Na pele o cromo provoca dermatites de contato, eczema alérgico,
ulcerações típicas (úlceras profundas, dolorosas e de difícil cicatrização)
• Conjuntivites e ceratites superficiais.
56
• Perfuração do septo nasal, precedida de alterações no olfato e
sangramento e ulcerações.
• Rinite, laringite, pneumoconiose provocada pela poeira de cromita e
asma (poeiras de cromato ou névoas de ácido).
• Anemia em exposições prolongadas e comprometimento renal e
hepático.
• Carcinogênese: as poeiras de cromita e cromatos insolúveis são
consideradas potencialmente cancerígenas,sendo que a incidência de
câncer pulmonar (carcinoma broncogênico) em trabalhadores expostos
ao cromo está demonstrada epidemiologicamente.
Indicador biológico de exposição ocupacional (IBE) ao cromo
hexavalente (compostos solúveis) (Quadro 1 do Anexo I da NR-7)
Material biológico: urina
Valor de referência: até 5g/g de creatinina.
IBE: 25 µg/L ou 10 µg/L (conforme o momento da coleta da
amostra).
A ultrapassagem do IBE indica exposição ambiental excessiva não
possuindo isoladamente significado clinico ou toxicológico próprio, ou
seja, não indica doença nem está associado a um efeito ou disfunção
de qualquer sistema biológico. Ou seja, é um Indicador do Tipo II.
Não há limite de tolerância ambiental para o cromo na legislação
brasileira
A ACGIH (2024) estabeleceu para o cromo os seguintes valores de TLV-TWA:
– Cromo Metálico: 0,5 mg/m³
– Compostos de Cromo III (compostos solúveis em água):
0,003 mg/m3
– Compostos VI (solúveis em água): 0,0002 mg/m3
2.3 Manganês (Mn)
È um metal pesado e ocorre na natureza sob a forma mais abundante de
carbonatos e silicatos. Os óxidos estão presentes na pirolusita (40 a 80% de
MnO), braunita e manganita.
Usos: fabricação de pilhas secas, eletrodos para solda, na indústria de
ferro-ligas e com níquel e cobre, na fabricação de fertilizantes e fungicidas.
Absorção, distribuição e excreção
• Via respiratória: aerodispersóides (poeiras e fumos) com
diâmetro menor de 1 micra atingem as porções inferiores do trato
respiratório e podem ser absorvidas.
57
• Absorção gastrintestinal: maior em indivíduos anêmicos,
guardando relação com o teor de ferro na dieta. Dieta pobre em ferro
aumenta a absorção de manganês.
• Armazenamento: fígado, pâncreas, rins.
• A meia-vida plasmática, no homem, é de no máximo 5 minutos e
a meia vida biológica de 37 dias, sendo nos ossos e cérebro os locais
em que a remoção é mais lenta.
• Excretado principalmente pela bile.
Ação Tóxica
Os estudos toxicodinâmicos são inconclusos quanto aos
mecanismos da ação tóxica do manganês.
O Manganês atravessa a barreira hemato-encefálica distribuindo-
se com predominância para o gânglio basal o que justificaria a
semelhança do quadro clínico de intoxicação por manganês com o
Parkinsonismo.
Sinais e Sintomas
- Fase prodrômica (pré-clínica): anorexia, cefaleia, insônia e fraqueza
geral.
- Fase clínica inicial: inicio de manifestações extrapiramidais, tendo
como sinais precoces os distúrbios da fala. Menor habilidade para
realizar movimentos finos, hiperreflexia de tendões dos membros
inferiores e aumento do tônus dos músculos faciais.
- Fase clínica estabelecida: alterações psicomotoras e neurológicas,
hipertonia muscular da face (“riso sardônico”) e dos membros
inferiores. Astenia, dores musculares, parestesias, alterações da
fala e da libido, micrografia e escrita irregular.
Limite de tolerância ambiental para o manganês (Anexo 12 da NR-
15)
• Operações de extração, tratamento, moagem do minério ou a outras
operações com exposição a poeiras de manganês e seus compostos:
5,0 mg/m³ no ar, para jornada de até 8 horas/dia.
• Operações de metalurgia de minerais de manganês, fabricação de
compostos de manganês, baterias e pilhas secas, fabricação de vidros
especiais e cerâmicas, fabricação de eletrodos de solda, de produtos
químicos, fertilizantes ou operações com exposição a fumos de
manganês ou seus compostos: 1,0 mg/m³ no ar, para jornada até 8/dia
A ACGIH (2024) estabelece os seguintes limites:
58
- Manganês elementar: 0,02 mg/m³
- Manganês (compostos inorgânicos como Mn): 0,1 mg/m³
Não há indicador biológico de exposição ao manganês. Poderia ser
usada a dosagem de manganês urinário mas esta não tem significado
prático.
2.4 Chumbo (Pb)
Propriedades físicas e químicas do Chumbo
- Número atômico: 82. Peso Atômico: 207.
- Densidade específica: 11,34
- Metal de cor cinza azulado
- Temperatura de fusão: 327,5 °C
- Temperatura de ebulição: 1.740°C, à pressão atmosférica
- 4 isótopos naturais: 208, 206, 207 e 24 (em ordem de
importância)
- Estado de oxidação: 0, +2 (mais habitual) e + 4
- Sais inorgânicos (pouco solúveis): Sulfetos e óxidos de chumbo
- Sais orgânicos: chumbo tetraetila e chumbo trietila
- Outros sais orgânicos: acetato, estearato e oxalato
Ocorrência e fontes de contaminação
O chumbo existe de forma natural no ar, água, solo e plantas.
Minerais: galena (PbS), cerusita [Pb(CO3)2] e anglesita (PbSO4)
Fontes de exposição
Mineração, fundição, refino
Indústria e reforma de acumuladores elétricos (baterias)
Aditivos de gasolina (chumbo trietila e tetraetila): em desuso
Revestimentos de cabos (telefonia): em desuso)
Pigmentos de tintas
Explosivos (fuminato e azida de chumbo)
Soldagens (solda de chumbo-estanho: solda branca)
Tipos gráficos: em desuso
Vias de Introdução, Absorção, Distribuição, Deposição e Eliminação
O chumbo existente no ambiente pode ser introduzido no organismo por
meio da inalação do ar atmosférico, ingestão (contaminação da água,
alimentos, solo e clearance mucociliar das partículas depositadas na via
respiratória), bem como pela via cutânea (compostos lipossolúveis)
A deposição, retenção e a absorção de partículas no trato respiratório
são muito complexas e de difícil avaliação, devido às diferenças existentes no
tamanho, densidade, solubilidade das partículas, higroscopicidade, ritmo
respiratório e duração de exposição, entre outros fatores. Calcula-se que 39 a
47% do chumbo inalado sejam retidos nos pulmões.
59
Pela via digestiva o chumbo é absorvido em cerca de 10%. Esta
absorção é dependente, além das propriedades físico-químicas dos compostos
de chumbo, dos níveis de cálcio, magnésio, ferro, fósforo e vitamina D
presentes na dieta.
Com relação à via cutânea as camadas superficiais, são muito densas,
constituídas por queratina, apresentando cargas eletronegativas que repelem
os anions e impedem a penetração profunda dos cátions, constituindo assim,
numa barreira eficiente do tecido cutâneo na absorção de compostos
metálicos.
Por outro lado, os compostos orgânicos de chumbo, por exemplo, o
chumbo tetra-etila e o chumbo tri-metila, são absorvidos pela pele intacta
devida sua alta lipossolubilidade.
Após ser absorvido, no sangue liga-se aos eritrócitos numa proporção
superior a 90%. A concentração de chumbo no sangue é de fundamental
importância na avaliação da exposição ao agente químico.
Na distribuição do chumbo no organismo, dois compartimentos são de
fundamental importância: o chamado compartimento de permuta, constituído
pelo sangue e tecidos moles e o chamado compartimento de armazenamento,
constituído principalmente pelos ossos. Nos tecidos moles é encontrado em
baixas concentrações, sendo relativamente mais altas no fígado e nos rins.
Cerca de 90% do chumbo normalmente encontrado no organismo está
depositado nos ossos sob a forma de trifosfato.
O teor total de chumbo no organismo normal, não ocupacionalmente
exposto, oscila entre 100 da 400mg e aumenta com a idade.
O chumbo absorvido é eliminado principalmente por meio da urina e
fezes
Ação tóxica e sinais e sintomas
As principais ações tóxicas do chumbo no organismo compreendem:
a) Na biossíntese do Heme da Hemoglobina
O chumbo provoca diversas alterações bioquímicas não existindo
evidências de uma função essencial do mesmo no organismo humano.
O chumbo interfere em várias fases da biossíntese do heme onde
se destaca as inibições da enzima “ácido delta aminolevulínico
desidratase” (ALA-D) e heme-sintetase, e provavelmente da
coproporfirinogênio descarboxilase. Consequentemente após essas
interferências temos um aumento da excreção urinária do “ácido delta-
aminolevulínico” (ALA-U), aumento da excreçãourinária de
coproporfirina (COPRO-U) e aumento dos níveis eritrocitários de
protoporfirina.
60
O aumento dos níveis de absorção de chumbo (Pb-S=Chumbo no
sangue) produz:
- diminuição da atividade enzimática da ALA-D
- aumento da excreção urinária do ALA: ALA-U;
- aumento da excreção urinaria da COPRO: COPRO-U
- aumento dos níveis sanguíneos de FEP, PROTO-IX ou Zn-PPP.
O ALA-U sofre interferência de outros metais no sentido de que estes
aumentariam ou diminuíram sua excreção.
b) No sistema nervoso
Os efeitos dos compostos inorgânicos de chumbo no sistema nervoso
variam com a duração e intensidade de exposição. Nas exposições
crônicas os efeitos mais evidentes referem-se à encefalopatia, com
irritabilidade, cefaléia, tremor muscular, alucinações, perda da memória
e da capacidade de concentração. Esses sinais e sintomas podem
progredir até o delírio, mania, convulsões, paralisias e coma.
A encefalopatia provocada por compostos orgânicos de chumbo é até
certo ponto diferente da provocada pelo chumbo inorgânico, com o
aparecimento de alterações psiquiátricas com alucinações, tremores,
delírio, insônia, cefaléia e profundas alterações do humor.
No sistema nervoso periférico os efeitos tóxicos do chumbo inorgânico
incluem fraqueza muscular, hiperestesia, analgesia e anestesia da
área afetada caracterizando um quadro de polineuropatia periférica.
c) No sistema renal
O chumbo provoca dois efeitos distintos ao nível renal: um dano
reversível no túbulo proximal e uma lenta e progressiva deficiência
renal envolvendo redução na função glomerular associada a danos
vasculares e fibrose.
d) No fígado
Não há evidências definitivas dos efeitos tóxicos do chumbo a nível
hepático.
Existe uma correlação estatisticamente significativa entre os teores de
chumbo e a atividade da SGOT (transaminase oxalacética glutâmica
sérica), entretanto a ausência de informações quanto à dieta, hábitos
pessoais e infecções, não permitem conclusão definitiva.
61
e) Trato gastrointestinal
As cólicas intestinais, denominadas cólicas satúrnicas, refletem quadro
avançado dos efeitos tóxicos do chumbo.
f) Outras ações
Podem ocorrer ainda outras ações no sistema cardiovascular
(hipertensão arterial e alterações no eletrocardiograma), no sistema
reprodutor (infertilidade masculina), e em órgãos endócrinos
(abortamentos espontâneos e partos prematuros) e diminuição da
audição.
O chumbo tem uma ação hemolítica, provocando anemia
levemente hipocrômica e microcítica com aniso e poiquilocitose evidentes
dos glóbulos vermelhos.
Carcinogenicidade e teratogenicidade: os estudos epidemiológicos
na área ocupacional, não fornecem evidências seguras dessas ações no
homem.
Limites de Tolerância
- Chumbo Inorgânico: Poeiras e fumos
– 0,1 mg/m3 (Anexo 11 da NR-15 (para exposições até
48 horas/semana)
– 0,05 mg/m3 (ACGIH 2024)
- Chumbo tetraetila como Pb: 0,1 mg/m3 (ACGIH 2024)
- Chumbo tetrametila como PB: 0,15 mg/m3 (ACGIH 2024)
VALORES DE ÍNDICADORES BIOLÓGICOS DE EXPOSIÇÃO (IBE)
Chumbo e seus compostos inorgânicos (Indicadores do Tipo 1 com
significado clínico)
Chumbo no sangue (Pb-S) 60 µg/100ml(M)
Ácido Delta Amino Levulínico na urina (ALA-U): 10 mg/g de
creatinina.
Mulheres em idade fértil, com valores de Chumbo no sangue
(Pb-S) a partir de 30 µg/100ml, devem ser afastadas da exposição ao agente
Chumbo tetraetila: Chumbo na urina 50 µg/L colhida no Final da Jornada de
trabalho.
É um indicador do Tipo II, revela exposição excessiva, mas não
necessariamente adoecimento.
62
Tratamento das intoxicações por chumbo
O tratamento da intoxicação por chumbo (saturnismo) consiste
principalmente em afastar o paciente da fonte de exposição.
Pode ser necessário o uso de hipotensores, antiarrítmicos e
analgésicos
O tratamento especifico consiste no uso de quelantes sendo os mais
usados o sal cálcio dissódio do ácido etilenodiaminotetracético (CaNa2 EDTA),
o dimercaprol (BAL) e a D-penicilamina.
3 OUTROS AGENTES QUÍMICOS DE IMPORTÂNCIA OCUPACIONAL
3.1 Monóxido de Carbono (CO)
O monóxido de carbono é um gás incolor, inodoro, de densidades de
0,967 e dotado de grande poder de difusão. Resulta da combustão incompleta
do carvão ou de materiais ricos em carbono.
O CO compete com o oxigênio pela hemoglobina. Quando inalado, e
absorvido ao nível do alvéolo pulmonar, combina-se com a hemoglobina para
formar a carboxihemoglobina.
A afinidade do CO pela hemoglobina é cerca de 200-250 vezes
àquela do oxigênio, sendo, portanto, um asfixiante químico por impedir o
transporte de oxigênio até os tecidos.
3.2 Cianetos
O cianeto tem a capacidade de inibir enzimas possuidoras de metais
em suas estruturas, especialmente o ferro e o cobre.
O íon cianeto tem especial afinidade pela citocromo oxidase, enzima
da fase final do mecanismo de transferência de elétrons para o oxigênio
molecular, inibindo a respiração celular e provocando uma hipóxia histotóxica.
O cianeto se liga ao ferro trivalente (Fé+³) formando o complexo cianocitocromo
oxidase.
Desta forma o cianeto é um asfixiante químico por impedir a utilização
do oxigênio pelas células.
3.3 Sulfeto de Carbono (CS2)
O sulfeto de carbono é bastante reativo para com os agentes
nucleofílicos que se caracterizam pela presença de 1 par de elétrons livres na
molécula, reagindo prontamente com grupos: amino (-NH2) mercapto (-SH) e
hidroxila (-OH)
A maioria das substâncias de interesse bioquímico (aminoácidos,
animas biogênicas etc.) possui estes grupos nucleofílicos podendo, portanto,
reagir com o sulfeto de carbono. Os produtos formados, ditiocarbamatos e
63
tiotiazolidona teriam a capacidade de quelar metais essenciais, especialmente,
cobre e zinco, através dos grupos sulfidrilas.
Outra ação tóxica do sulfeto de carbono provavelmente ocorre com
a piridoxamina (uma das formas fundamentais da vitamina B6), provocando
inibição em sistemas enzimáticos nos quais a vitamina B6 esteja envolvida
como coenzima.
A exposição ao sulfeto de carbono está associada à aterosclerose
precoce, com ocorrência de infarto do miocárdio, além de distúrbios
psiquiátricos.
3.4 Anilina
A anilina líquida pode ocasionalmente produzir dermatite alérgicas por
contato.
A anilina pode ingressar no organismo pela inalação de vapor ou por
absorção pela pele.
A principal ação exercida pela anilina se situa ao nível da hemoglobina
convertendo–a em meta-hemoglobina, provocada pela fenil-hidroxilamina e
nitro-benzeno produtos resultantes da sua biotransformação.
A meta-hemoglobina não pode transportar oxigênio e, portanto, uma
metahemoglobinemia elevada é incompatível com a vida. Exposições
prolongadas ou repetidas podem ocasionar anemia.
Segundo o Anexo 11 da NR-15 o Limite de tolerância para a anilina é de 4
ppm ou 15mg/m³ para 48 horas/semanais, sendo também absorvida pela pele.
3.5 Arsênio
Os efeitos da intoxicação arsenical podem ser explicados pelo
ataque ao sistema responsável pela descarboxilação oxidativa dos ácidos
cetônicos especialmente o ácido pirúvico. Deve ser lembrado que há também
evidências experimentais de que um grande número de outros sistemas
enzimáticos essenciais para equilíbrio orgânico (homeostase) é atacado sendo
que já foi demonstrado que todos esses sistemas possuem grupos -SH como
fator comum de inativação.
Na descarboxilação do ácido pirúvico o arsênico trivalente interfere
no processo inibindo o ácido lipóico que é o responsável pela conversão do
piruvato a acetil Coenzima A. Como conseqüência, tem-se um acúmulo de
ácido pirúvico no sangue e alterações na formação da Acetil CoA
(acetilcoenzimaA) em vários tecidos, inclusive resultando em alterações ao
nível do sistema nervoso central, particularmente sensível às perturbações
desta natureza.
As manifestações clínicas da exposição ao arsênio dependem da
espécie química do arsênio envolvida, além da dose e do tempo de exposição.
64
O principal órgão afetado pela exposição ao arsênio é a pele que
apresenta lesões eritematosas que podem progredir para a hiperpigmentação
(melanose). Ocorre ainda hiperqueratose típica na plantas dos pés e nas
palmas das mãos, progredindo para os dedos das mãos e pés. São lesões de
aparecimento tardio com tempo médio de latência de 23 a 28 anos e podem
regredir ou persistir mesmos depois de cessada a exposição.
Carcimomas espino-celulares induzidos pelo arsênio são
frequentemente múltiplos e mais comuns nas extremidades.
Efeitos neurológicos tardios do sistema nervoso central e periférico,
após 1 a 5 dias após ingestão aguda de altas doses de arsênio inorgânico.
Outros efeitos do arsênio: cardiovasculares (arritmias cardíacas,
hipertensão arterial e cardiopatia isquêmica); hematológicos (anemia,
leucopenia, trombocitopenia); gastrointestinais (náusea, vômitos, diarréia, dor
abdominal e hemorragia gastrointestinal), hepáticos (alteração nas enzimas
hepáticas podendo evoluir paar fibrose hepática, sendo que angiossarcomas
tem sido atribuídos à exposição crônica ao arsênico). Ocorrem ainda efeitos
renais (falência renal), efeitos respiratórios (rinites, laringites, traqueobronquites
e asma), efeitos reprodutivos (mal-formações em espécies de animais). Ocorre
aumento da prevalência de diabetes.
A IARC considera o arsênio como cancerígeno, sendo que há
evidências suficientes de que a ingestão de água com arsênico causa
câncer de bexiga, pulmão e pele em humanos.
Indicador biológico de exposição (IBE) ao Arsênico conforme o
Quadro do Anexo I da NR 7.
Arsênico elementar e seus compostos inorgânicos solúveis,
exceto Arsina e Arsenato de Gálio:
Arsênio inorgânico mais metabólitos metilados na urina 35 µg/L,
colhida após 4 ou 5 jornadas de trabalho consecutivas.
São indicadores do Tipo, isto, é, revelam exposição excessiva e não
necessariamente adoecimento.
Não há limite de tolerância ambiental para o arsênico na legislação
brasileira.
A ACGIH (2024) determina para os compostos inorgânicos de Arsênio
como As o valor de 0,01 mg/m3
4 SOLVENTES
4.1 Definição
Qualquer substância (usualmente líquida) que dissolve outra substância,
resultando em uma solução uniformemente dispersa como mistura.
65
Os solventes podem ser classificados como AQUOSOS (baseados em
água) ou ORGÂNICOS (baseado em hidrocarbonetos). A maioria dos solventes
industriais é constituída de compostos orgânicos e usados para: LIMPEZA,
DESENGRAXE OU EXTRAÇÃO
4.2 Classificação dos solventes
a) HIDROCARBONETOS ALIFÁTICOS: Pentano, Hexano, Heptano
b) HIDROCARBONETOS ALIFÁTICOS CÍCLICOS: Ciclopentano, ciclohexano
c) HIDROCARBONETOS AROMÁTICOS: Benzeno, Tolueno, Xileno, Estireno
d) HIDROCARBONETOS ALIFÁTICOS HALOGENADOS: Tricloroetano,
percloroetileno, tricloroetileno, tetracloreto de carbono
e) ALCOÓIS: metílico, etílico
f) CETONAS: Acetona, MEK (metil-etil cetona), MIBK (metil-iso-butil-cetona)
g) ÉSTERES: acetato de etila, de propila
h) ÉTERES: éter etílico
i) GLICÓIS: etileno glicol, dietileno glicol, trietileno glicol, propileno glicol
j) Outros compostos: dissulfeto de carbono, benzina, terebentina.
4.3 Efeitos dos solventes
4.3.1 Sobre a Pele: Dermatite: 20% dos casos
A maioria é irritante primário, provocando um efeito desengordurante na
pele. Alguns provocam dermatite de contato alérgica.
4.2.2 Sobre Sistema Nervoso Central
- Efeitos agudos: Depressão do SNC ou anestesia
- Efeitos crônicos: Distúrbios neurocomportamentais como, por exemplo, os
causados pelo Dissulfeto de Carbono.
- Outros efeitos sobre o SNC: sintomas subjetivos, mudanças de
personalidade ou do humor (depressão, ansiedade), função intelectual
reduzida, cefaléia, fadiga, perda da memória recente, dificuldade de
concentração.
66
4.2.3 Efeitos Hepatotóxicos
Ocorrem principalmente com os solventes halogenados e com radicais
nitrosos.
São fracamente hepatóxicos o benzeno, tolueno, xileno, ésteres e cetonas.
São também descritos casos de necrose hepática aguda por exposição ao 2-
nitropropano e de hepatite crônica por exposição ao Tetracloreto de Carbono
(CCl4)
4.2.4 Efeitos renais
Insuficiência renal aguda: intoxicação aguda por solventes halogenados
4.2.5 Efeitos Hematológicos
a) Anemia aplástica/leucemia: Benzeno
b) Anemia hemolítica: glico-éteres
4.2.6 Outros efeitos
São descritos ainda efeitos sobre o sistema reprodutivo, defeitos
congênitos do SNC e efeitos teratogênicos (por exemplo: álcool etílico)
ANEXO I - CANCERÍGENOS
67
Grupo 1: Produtos ou processos carcinogênicos para seres humanos
(IARC)20
Aflatoxinas
4-Aminobifenil
Arsênico e seus compostos
Asbestos (Amianto)
Azatioprina
Benzeno
Benzidina
Berílio e compostos de berílio (avaliados como um grupo)
N,N-Bis(2-cloroetil)-2-naftilamina (Clornafazina)
Bis(clorometil)eter e clorometil metil eter
1,4-Butanediol dimetanosulfonato (Busulphan; Myleran)
Cádmio e compostos de cádmio (avaliados como grupo)
Clorambucil
1-(2-Cloroetill)-3-(4-metilciclohexil)-1-nitrosourea (Metil-CCNU;
Semustine)
Cromo e seus compostos (avaliados como grupo)
Ciclosporina
Ciclofosfamida
Dietilestilbestrol
Virus de Epstein-Barr
Erionita
Óxido de etileno
Etoposida em combinação com cisplatina e bleomicina
Radiação Gama
Infecção com Helicobacter pylori
Infecção crônica com Vírus da Hepatite B
Infecção crônica com Vírus da Hepatite C
Infecção com o vírus tipo 1 da Imunodeficiência Humana
Papilomavirus Humano dos tipos 16 e 18
Vírus linfotrópico tipo I da célula T
Melfalan
8-Metoxipsoralen (Methoxsalen) com radiação ultavioleta
MOPP e outras quimioterapias combinadas incluindo agentes alquilantes
Gás Mustarda
20 Ver lista atualizada em: www.iarc.fr
http://www.iarc.fr/
68
2-Naftilamina
Neutrons
Compostos de níquel (Avaliados como um grupo)
Terapia pós-menopausa com Estrógenos
Estrógenos não esteróides (Aplica-se ao grupo de compostos e não a um
composto individual dentro do grupo)
Estrógenos esteróides (Aplica-se ao grupo de compostos e não a um composto
individual dentro do grupo)
Contraceptivos orais combinados (Há também evidências conclusivas que
estes agentes têm um efeito protetivo contra câncer de ovário e de endométrio)
Contraceptivos orais sequenciais
Fósforo -32, como fosfato
Plutônio-239 e seus produtos de decaimento
Iodo Radioativo, isótopos de vida curta, incluindo o I -131, proveniente de
acidentes com reatores atômicos e de detonação de armas nucleares
Radionuclídeos, emissores de partículas alfa e beta
Rádio -222 , 224 , 226 e 228 e seus produtos de decaimneto
Infecção com Schistosoma haematobium
Sílica cristalina (Inalada na forma de quartzo ou cristobalita de fontes
ocupacionais)
Radiação Solar
Talco contendo fibras asbestiformes
Tamoxifen (Há também evidências conclusivas que o Temoxifen reduz o risco
de cancer de mama contralateral)
2,3,7,8-Tetraclorodibenzo-para-dioxina
Tiotepa
Tório-232 e seus produtos de decaimento e dióxido de tório –232
Treosulfan
Cloreto de vinila
R-X e Raios Gama
Misturas
Bebidas alcoólicas
Misturas Analgésicas contendo Fenacetina
Tabaco e seus produtos
Piches de alcatrão
Alcatrão de carvão mineral
Óleos minerais não tratados ou pouco tratados (não purificados)
69
Peixe Salgado (Estilo Chinês)
Óleos de XistoFuligem
Tabagismo
Poeiras de madeira
Exposições circunstanciais
Produção de Alumínio
Produção de Auramina
Manufatura e reparo de calçados
Gaseificação de carvão mineral
Produção de Coque
Fabricação de móveis
Mineração subterrânea de Hematita com exposição a Radônio
Fundição de ferro e aço
Manufatura de Isopropanol por processo de ácido forte
Manufatura de Magenta
Exposição ocupacional como Pintor
Indústria da Borracha
Misturas de ácido fortes inorgânicos contendo ácido sulfúrico
ANEXO II
TABELA DE CLASSIFICAÇÃO QUÍMICA DOS PRINCIPAIS AGENTES TÓXICOS
OCUPACIONAIS E EFEITOS GERAIS
70
Agentes Tóxicos Efeitos (Sinais e sintomas)
1. HALOGENOS (BR2, Cl2 F2) Irritação da via respiratória. Danos severos na
via respiratória. Edema pulmonar, hemorragia
nasal, vertigens e cefaléia
2. PRODUTOS ALCALINOS: Hidróxido de
Amônia, Hidróxido de Cálcio, Óxido de Cálcio,
Hidróxido de Potássio, Carbonato de Sódio e
Hidróxido de Sódio
Danos irreversíveis na via respiratória
(necrose)
Pneumonia química e edema pulmonar:
Hidróxido de amônia e Óxido de Cálcio
3. COMPOSTOS INORGÂNICOS DE O, N e C
Ozona (O3) Irritante, congestão e edema pulmonar,
cefaléia, vertigens
Nitrogênio Asfixiante simples
N2O (óxido nitroso) Narcótico leve
NO2 e NO4 Irritantes. Edema pulmonar
NO (óxido nítrico) Paralisia do SNC e Meta-hemoglobinemia
CO Carboxi-hemoglobina; asfixiante químico (ou
bioquímico)
CO2 Asfixiante simples
COCl2 (Fosgênio) Irritante pulmonar
4. HIDROCARBONETOS ALIFÁTICOS
4.1. Hidrocarbonetos alifáticos saturados
(parafinas) (CnH2n+2)
CH4 (Metano) e C2H6 (etano) Asfixiantes simples
C3H8 (propano) e C4H10 (butano) Depressores do SNC e irritantes moderados
das mucosas
C5H12(Pentano),C6H14(Hexano),C7H16
(Heptano) e C8H18
Neurotóxicos periféricos
Etileno, Propileno, 1,3-Butadieno, e Isopreno Asfixiantes simples ou anestésicos leves. O
1,3 Butadieno é também cancerígeno
5 . HIDROCARBONETOS ALICÍCLICOS
CicloHexano, Metilciclohexano, Decalino,
diciclopentadieno, hidrocarbonetos terpênicos
Ação anestésica e Depressão. Irritação das
mucosas
6. HIDROCARBONETOS AROMÁTICOS
Benzeno (C6H6) Ação mielotóxica e Carcinogênica
Tolueno, Etilbenzeno, Xileno, Naftaleno Edema pulmonar, pneumonites, hemorragias,
depressão do S.N.C e narcose
Estireno Náuseas, vômitos, anorexia, astenia,
leucopenia (rapidamente reversível) Mutações
somáticas, depressão do Sistema Nervoso
Central.
7. HIDROCARBONETOS HALOGENADOS
Cloreto de Metila, Cloreto de Metileno,
Clorofórmio, Bromofórmio, Tetracloreto de
Carbono, Cloreto de Etila, 1,1,1 – tricloroetano,
Cloreto de Vinila, Tricloroetileno.,
Percloroetileno, Diclorodiflurometano (Freon),
Clorobenzeno, O-diclorobenzeno, Dieldrin
Depressores do Sistema Nervoso Central e
Hepatotóxicos
8. FENÓIS E COMPOSTOS FENÓLICOS
71
Fenos, Hidroquinona, Cresol, Pentaclorofenol Vômitos, dificuldades de deglutição, diarréia,
tremores, convulsões, cefaléias, desmaios,
cianose (metahemoglobinemia), danos
hepáticos e renais.
9. ÁLCOOIS
Álcool metílico, álcool etílico, álcool propílico e
isopropílico, álcool isobutílico, álcool alílico.
Narcóticos, irritação das vias respiratórias
superiores, espasmos musculares, tremores,
cefaléias, edema pulmonar, diarréia,
convulsões, vômitos, danos hepáticos e
renais
10 – GLICÓIS
Etileno Glicol Alterações hematopoiéticas, falência
cardíaca, danos renais e cerebrais
Etileno Glicol Ésteres Danos severos no fígado e rins. Encefalopatia
11- COMPOSTOS EPÓXI
ALFA EPÓXI COMPOSTOS Suspeitas de carcinogênese
Epiclorhidina Irritante dos olhos, pele e via respiratória.
Náuseas e vômitos. Desconforto abdominal,
danos hepáticos renais e pulmonares
Óxido de Etileno Náuseas, vômitos, irritação nasal, de
garganta e pulmões. Edema pulmonar.
Carcinogênico, teratogênico e mutagênico
Óxido de propileno Irritante respiratório, leve depressor do
S.N.C., lesões hepáticas e renais pouco
significativas
12 – ÉTERES
Metílico, etílico, isopropílico, éter bis-
clorometílico, éter clorometilmetílico
Anestésicos, irritação de mucosas, edema
pulmonar, danos renais, câncer (brônquio)
13 – CETONAS
Metiletilcetona,
metilisobutilcetona,
diisobutilcetona
Narcose, cefaléia, fotofobia, náuseas e
vômitos, vertigens, Incoordenação motora,
inconsciência, irritação de mucosas,
neuropatias periférica (cetonas específicas)
14- ALDEÍDOS
Acetaldeído, acroleina, formaldeído, furfural Irritantes de mucosas, narcose, edema
pulmonar, bronquite e broncopenumonite,
sensibilização pulmonar e crises asmáticas
15- ÁCIDOS ORGÂNICOS E ANIDRIDOS
Ácido acético, anidrido acético, ácido fórmico,
ácido oxálico, anidrido ftálico
Irritantes, sensibilizantes (anidridos),
broncopneumonite, edema pulmonar e danos
renais
16- ÉSTERES
Acetato de etila, silicato de etila, formato de
etila, formato de metila
Anestésicos e irritantes (ésteres alifáticos)
lacrimejamento, produção de vesículas e
irritação pulmonar (ésteres halogenados),
sistema nervos e neuropatia (ésteres fosfatos)
17– FOSFATOS ORGÂNICOS (INSETICIDAS)
Diazinon, DDVP, Malation e outros, Paration e
outros
Sinais e sintomas que mimetizam a
acetilcolina (efeitos muscarínicos) e
nicotínicos, atuam sobre o S.N.C e periférico
72
18 – CIANETOS E NITRILAS E COMPOSTOS
RELACIONADOS
HCN (cianeto de hidrogênio), NaCN (cianeto de
sódio{), KCN (Cianeto de potássio)
Prostração, cefaléia, convulsões, náuseas,
vômitos, edema pulmonar, choque,
inconsciência, morte, asfixiante químico
Acrilonitrila Câncer de colo uterino e de pulmão
Di-isocianato de Tolueno (TDI) Cefaléia, insônia, e asma alérgica
19 –COMPOSTOS DE NITROGÊNIO
Alquilnitritos, Alquilnitratos, Cloronitroparafinas,
compostos Nitroaromáticos, Nitrometano,
Nitropropano, Nitrato de Metila, Nitrito de
Amila, Benzidina, Cloroanilina, Dinitrobenzeno,
Nitrotolueno, Toluidina
Exposições agudas: cianose
Exposições crônicas: anemia, irritação local e
danos hepáticos, metahemoglobinemia e
suspeitos de carcinogenicidade.
ANEXO III
SITES DE INTERESSE PARA PESQUISAS DE TOXICOLOGIA
1) www.ccohs.ca - Centro Canadense de Segurança e Saúde Ocupacional
2) www.occuphealth.fi Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional
3) www.asse.org Sociedade Americana de Engenheiros de Segurança
4) www.acgih.org Conferência Americana de Higienistas Industriais Governamentais
5)
6) www.osha-public.gov/Public Agência de Segurança e Saúde Ocupacional do
Governo Americano
7)
8) www.cdc.gov/niosh Instituto Nacional para Segurança e Saúde Ocupacional –
Fichas de Segurança Química Internacional
9) www.iarc.fr – Internacional Agency for Research on Cancer
10) www.ilo.org - Organização Internacional do Trabalho
11) www.mtas.es/Publica/enciclo/default.htm Enciclopédia de Segurança e Saúde
Ocupacional da O.I.T. (em espanhol)
12) www.mtas.es/insht - Fichas de Segurança Química do Instituto Nacional de
Segurança e Higiene do Trabalho no Ministério de Previdência e Assuntos
Sociais da Espanha.
13) -https://www.dguv.de/ifa/gestis/gestis-stoffdatenbank/index-2.jsp - GESTIS Banco
de dados alemão de informação sobre substâncias perigosas
http://www.ccohs.ca/
http://www.occuphealth.fi/
http://www.asse.org/
http://www.acgih.org/
http://www.osha-public.gov/Public
http://www.cdc.gov/niosh
http://www.iarc.fr/
http://www.ilo.org/
http://www.mtas.es/Publica/enciclo/default.htm
http://www.mtas.es/insht
https://www.dguv.de/ifa/gestis/gestis-stoffdatenbank/index-2.jspIPOG - Instituto de Pós- Graduação e
Graduação.
Os dados e informações aqui contidas não eximem de consulta e do
estudo da legislação pertinente.
Trechos e excertos desta Apostila poderão ser utilizados apenas para
fins didáticos e desde que façam referência ao autor que detém os direitos
autorais.
Mário Parreiras de Faria
Mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Medicina da UFMG
Especialista em Medicina do Trabalho pela Associação Nacional de Medicina
do Trabalho/AMB
6
I – INTRODUÇÃO
Durante séculos a Toxicologia apresentou um caráter forense quando
os eventos letais, provocados por exposições ou envenenamentos acidentais
ou intencionais, eram o centro dos interesses toxicológicos.
O estudo dos venenos e da toxicologia se iniciou cerca de 500 anos
atrás, durante a Renascença, um período de grandes mudanças e de desafios
ao pensamento tradicional.
Paracelsus1, considerado pai da Toxicologia, estabeleceu o princípio
de dose/resposta:
"Todas as substâncias são venenos. Não há nenhuma que não seja
veneno. A dose correta faz a diferença entre um veneno e um remédio.”
Este princípio é muitas vezes usado para afirmar que mesmo a
ingestão de uma grande quantidade de água pode ser prejudicial, assim como
se deve notar que pequenas quantidades de algumas substâncias também
podem causar sérios agravos à saúde.
Em 1775 o cirurgião inglês Percivall Pott fez o primeiro reconhecimento
de um câncer de origem ocupacional ao observar que a exposição à fuligem
estava relacionada ao câncer escrotal em limpadores de chaminés.
Credita-se ao toxicologista e químico francês Mathieu Orfila (1787-
1853), a fundação da moderna ciência toxicológica, em parte por meio de seus
estudos e análises forenses relacionados ao envenenamento por arsênico,
procurando associá-lo à jurisprudência, ou seja, à necessidade das análises
toxicológicas como prova legal das intoxicações (Gilbert, 20122).
A Toxicologia pode ser definida como o estudo dos efeitos adversos
de agentes químicos sobre organismos vivos. Embora esta definição possa
parecer relativamente simples há alguns aspectos que valem a pena ser
explorados. Efeitos adversos podem variar desde efeitos óbvios como morte,
câncer e lesões como uma queimadura por ácido a efeitos indesejados como
excesso de cafeína. Como nossa compreensão da toxicologia tem aumentado,
tem havido uma mudança no foco para reconhecer a sensibilidade individual e
os efeitos adversos mais sutis tais como uma diminuição na aprendizagem e
memória (Gilbert, op. cit.).
A Toxicologia como ciência pode ser dividida em várias áreas de
conhecimento como mostrado na Figura 1.
1 Phillippus Aureolus (1493-1541), nascido na Suíça, tomou o pseudônimo de Theophrastus Bombastus
von Hohenheim e mais tarde assumiu o nome Paracelsus (1493-1541). Este nome significaria seu desejo
de se aproximar do filósofo e escritor médico romano Aulus Cornelius Celsus (3 AC-64 DC), que
propagou a necessidade limpeza e recomendou lavar as feridas com anti-séptico como o vinagre.
2 Gilbert S.G. A Small Dose of Toxicology, Healthy World Press. A project of the Institute of
Neurotoxicology and Neurological Disorders (INND) Seattle, Second edition, January 2012
7
FIGURA 1: Áreas de conhecimento da Toxicologia
O CAS (Chemical Abstract Service) da Sociedade Americana de
Química tinha registradas, em novembro de 2024, cerca de 279 milhões de
substâncias químicas registradas entre orgânicas e inorgânicas, como ligas,
compostos, minerais, misturas, polímeros e sais3.
Esta produção acelerada de substâncias químicas não tem sido
acompanhada, na mesma velocidade, pelas pesquisas sobre os seus efeitos
negativos sobre o ser humano.
Das substâncias químicas conhecidas cerca de 1.200 têm Limites de
Exposição Ocupacional estabelecidos em diversos países, sendo que no Brasil
temos apenas 143 Limites de Tolerância4 para os produtos químicos e apenas
38 constam do Anexo II do Decreto 3.048/99 que lista os agentes patogênicos
causadores de doenças profissionais ou do trabalho reconhecidas pela
previdência social no Brasil.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2021), todos os
anos, mais de 1 bilhão de trabalhadores são expostos em seus ambientes de
trabalho a substâncias perigosas, incluindo poluentes, poeiras, vapores e
fumos. Muitos destes trabalhadores perdem a vida após tais exposições,
sucumbindo a doenças, como câncer e envenenamentos e a lesões após
incêndios ou explosões. Também devemos considerar ao risco adicional que
trabalhadores e suas famílias enfrentam com lesões não fatais que resultam
em invalidez, doenças crônicas debilitantes e outras sequelas de saúde, que
3 CAS- Chemical Abstract Service: https://www.cas.org/cas-data/cas-registry. Acesso em 02 de março de
2023
4 Anexo 11 da Nora Regulamentadora-15 – Atividades e Operações Insalubres (em vigor)
https://www.cas.org/cas-data/cas-registry
8
infelizmente, em muitos casos, permanecem invisíveis. Todas essas mortes,
lesões e doenças são totalmente evitáveis.5
Estimativas publicadas pela OIT (OIT, 2021. op.cit.) revelam que mais de
2.780.000 trabalhadores morrem no mundo a cada ano devido às suas
condições de trabalho e que a exposição a substâncias perigosas. Isso se
traduz em que pelo menos um trabalhador morre a cada 30 segundos devido a
exposição ocupacional a substâncias químicas perigosas.
A OIT (OIT, 2021, op. cit.) reconheceu que a proteção dos trabalhadores
contra produtos químicos perigosos é essencial para garantir populações
saudáveis e ambientes sustentáveis. No entanto, os trabalhadores continuam a
ser desproporcionalmente expostos a produtos químicos em quase todos os
setores de trabalho.
Por outro lado, a produção de agentes químicos bem como as indústrias
que os utilizam vem se expandindo, o que significa um alto potencial para
maior exposição ocupacional. Além disso, com novos produtos químicos
introduzidos a cada ano, há um esforço para introduzir mecanismos para
regular a exposição, como o estabelecimento de limites de exposição
ocupacional que procuram acompanhar a velocidade com que as substâncias
químicas são introduzidas nos processos e ambientes de trabalho.
As exposições ocupacionais a produtos químicos têm efeitos tóxicos em
diferentes sistemas do corpo humano, incluindo os sistemas reprodutivo,
cardiovascular, respiratório e imunológico, bem como em órgãos específicos,
como o fígado e cérebro.
Entre os principais agravos à saúde relacionados à exposição a
substâncias químicas podemos citar:
a) Intoxicações exógenas
b) Drogas que causam dependência
c) Exposição ocupacional
d) Exposição ambiental da comunidade
e) Poluição urbana
f) Resíduos e contaminantes em ar, solo e água
g) Acidentes ou catástrofes ambientais
Ia. Princípios da Toxicologia6
Há três princípios ou conceitos básicos em Toxicologia:
1. Dose/resposta;
5 ILO. International Labour Office. Exposure to hazardous chemicals at work and resulting health
impacts: A global review. International Labour Office – Geneva: ILO, 2021. Disponível em:
http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_dialogue/---
lab_admin/documents/publication/wcms_795460.pdf Acesso em 10 nov 2021
6 Modificado de Gilbert, S.G, 2012, op. cit.
http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_dialogue/---lab_admin/documents/publication/wcms_795460.pdfhttp://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_dialogue/---lab_admin/documents/publication/wcms_795460.pdf
9
2. Perigo (ou fator de risco) e exposição que produz ou eleva o
risco e
3. Sensibilidade e susceptibilidade individuais.
Suscetibilidade e Sensibilidade
Suscetibilidade se refere às diferenças individuais na sensibilidade a
agentes tóxicos, levando as pessoas a sofrer maiores efeitos que outras em
face de uma mesma exposição. Isto é um conceito básico em toxicologia e
deve ser levado em conta na análise e na gestão de risco. Susceptibilidade
está relacionada a diversos fatores, incluindo idade, gênero (sexo),
antecedentes genéticos e de saúde.
Sensibilidade está relacionada à suscetibilidade, mas geralmente se
refere a casos de extrema susceptibilidade a certos agentes por determinadas
pessoas. Alguém que é alérgico a picadas de abelha pode ter uma reação fatal
quando picada por uma única abelha, enquanto, para a maioria das pessoas,
uma única picada não é motivo de preocupação. Por outro lado, uma maior
sensibilidade pode se desenvolver após a exposição repetida a um agente ou
um agente semelhante. Alergia a pelos de animais como gatos ou cães são
exemplos de sensibilidades específicas a pelos destes animais. Outros
indivíduos podem desenvolver sensibilidade aos resíduos de ácaros.
Idade. Em geral pessoas jovens ou idosos são mais suscetíveis a
efeitos adversos de um determinado agente químico. Os jovens,
particularmente os muito jovens, são mais sucetíveis porque seu organismo
está rapidamente se desenvolvendo e células em divisão são mais facilmente
lesadas que as células maduras. Por exemplo, o chumbo afeta o
desenvolvimento do sistema nervoso de um jovem em maior grau que no
cérebro de pessoas adultas, pois o cérebro se desenvolve mais rapidamente
após o nascimento e especialmente nos primeiros sete anos de vida, sendo
que este não está completamente desenvolvido até a adolescência. Além do
mais, durante os primeiros anos de vida o metabolismo hepático dos agentes
químicos também está reduzido. Por outro lado, os idosos são mais sensíveis
aos agentes químicos por causa de sua reduzida capacidade de metabolizá-los
e compensar seus efeitos
O gênero também tem um papel importante na suscetibilidade aos
agentes químicos, em parte devido às influências hormonais. Neste caso, uma
pequena exposição a hormônios específicos tem uma grande influência na
fertilidade, como é o caso dos anticoncepcionais. Outros agentes como os PCB
(policlorobifenilas) também parecem afetar alguns hormônios femininos.
Mulheres têm problemas adicionais relacionados à gravidez, que causam
mudanças fisiológicas que podem alterar a absorção, distribuição e
metabolismo de um agente químico e influenciar seus efeitos. Por exemplo,
durante a gravidez há um decréscimo no metabolismo hepático que aumenta a
meia-vida da cafeína, enquanto a mobilização de cálcio durante a gravidez
também pode provocar a redistribuição chumbo dos ossos se houver ocorrido
uma exposição prévia ao chumbo.
10
Saúde individual é outro fator que pode influenciar a susceptibilidade a
um agente químico. Um órgão como o fígado ou um sistema imunológico
comprometido pode fazer com que baixos níveis de exposição a um agente
sejam intoleráveis. Um diabético pode ter um efeito tóxico ao açúcar e pode
encontrar um benefício considerável nos adoçantes. Por outro lado, os
indivíduos que não podem metabolizar a fenil-alanina, uma substância natural e
essencial e que pode ser encontrada em adoçantes artificiais, podem sofrer um
efeito tóxico ao beber refrigerantes com adoçantes artificiais. Um indivíduo
asmático pode ter agravo extremamente sério se for exposto à fumaça de
queima de madeira ou a inseticidas do grupo dos piretróides, enquanto muitas
pessoas toleram exposições curtas. A fumaça de madeira é, no entanto, tóxica
e exposições crônicas podem ocasionar problemas de saúde. As alterações
fisiológicas de algumas doenças ou doenças crônicas são, portanto,
considerações muito importantes na avaliação da exposição a um agente
químico.
Finalmente, nossas variações genéticas podem nos tornar mais ou
menos propensos a doenças ou aos efeitos tóxicos dos agentes químicos.
Alguns podem tolerar cafeína antes de dormir, enquanto para outros a
exposição pode resultar em uma noite mal dormida. Assim, é sempre
importante considerar as características individuais em uma situação de
exposição a agentes químicos.
Embora estes princípios possam formar a base da toxicologia, podem
ocorrer divergências sobre a importância relativa de
qualquer um desses princípios quando tentamos avaliar as implicações para a
saúde pública. Explorar estes princípios é um primeiro passo essencial antes
de examinar a sua aplicação para qualquer substância específica
II – TOXICOLOGIA OCUPACIONAL
A partir de observações e publicações, entre as quais, de Bernardino
Ramazzini (1.638-1.714), Percival Pott (1.765) e K.B. Lehmann de Wutzburg
(1.884), surge a denominada Toxicologia Ocupacional, considerada uma das
áreas mais importantes da Toxicologia, não apenas pela existência de um
grande número de substâncias químicas e principalmente pelos trabalhadores
que, dia após dia, desempenham suas atividades profissionais com frequentes
exposições a agentes químicos.
Podemos conceituar Toxicologia Ocupacional “como a área da
Toxicologia que estuda a interação entre os agentes químicos,
caracterizados como matérias-primas, produtos intermediários e/ou
produtos acabados, e a saúde do Homem no seu ambiente de trabalho
com o objetivo de detectar possíveis alterações biológicas"
Vários aspectos entre outros, são estudados pela Toxicologia Ocupacional
sob forma mais abrangente:
• os agentes tóxicos no ambiente ocupacional
11
• as características físicas e químicas dessas substâncias
• aspectos toxicocinéticos
• grau de toxicidade
• mecanismos de ação tóxica
• estudo das intoxicações agudas, subagudas e crônicas
• controle ambiental e biológico.
Por outro lado, a Toxicologia Ocupacional, se apóia em três
elementos básicos:
a) a existência de uma substância química (agente tóxico) capaz de
produzir uma determinada resposta no organismo vivo;
b) a identificação do sistema biológico sobre o qual a substância
química poderá interagir e
c) a necessidade de que a resposta possa ser considerada nociva
ao sistema orgânico com o qual interage.
III - INTOXICAÇÕES
Conceito: Conjunto de sinais e sintomas que revela o desequilíbrio orgânico
produzido pela absorção e interação do agente tóxico com o organismo.
• INTOXICAÇÃO efeito
• INTOXICAÇÃO = sinais + sintomas = soma de efeitos.
Quanto à intensidade as intoxicações podem ser:
• letais
• graves
• moderadas e
• leves
Quanto à duração da exposição ao agente tóxico no ambiente
ocupacional as intoxicações podem ser:
• de curto prazo (intoxicações agudas)
• de médio prazo (intoxicações sub-agudas)
• de longo prazo (intoxicações crônicas)
lntoxicações agudas ou de curto prazo
São aquelas em que a dose introduzida no organismo, ocorre de
forma única ou múltipla, porém num período máximo de 24 horas. Portanto, a
exposição é de curta duração com rápida absorção do agente tóxico.
12
Intoxicação de médio prazo
Ocorre num período de vários dias ou semanas durante os quais o
organismo está sujeito a exposições repetidas.
Intoxicações de longo prazo ou crônicas
Ocorrem por períodos longos, de meses ou anos, muitas vezes
durante toda a vida profissional do trabalhador. Neste caso, tem-se geralmente
acúmulo do agente tóxico com os efeitos se manifestando posteriormente ou
ainda efeitos aditivos conseqüentes de exposições sucessivas.
IV - TOXICIDADE
1. Definição
TOXICIDADE de uma substância pode ser definida como sendo a
capacidade da substância de provocar lesões aum organismo vivo.
Deste modo, a toxicidade é a propriedade potencial que as
substâncias químicas possuem, em maior ou menor grau, de instalar um
estado patológico em consequência de sua introdução e interação com o
organismo, sob determinadas condições. Esta maior ou menor intensidade de
ação dependerá de diversos fatores relacionados com a substância química e
com o organismo ou de seu(s) produto(s) de biotransformação, em
determinada(s) concentração (ões), no sítio especifico de ação.
Assim, quando definimos a toxicidade de uma substância temos que
mencionar: a quantidade da substância administrada ou absorvida (dose), a
forma pela qual foi administrada (inalação, ingestão, cutânea ou injetável), a
frequência das doses (simples ou repetidas), o tipo e a severidade da lesão, e
o tempo necessário para produzi-la.
A caracterização do risco decorrente da exposição a determinada
substância química e os valores limites de exposição estão diretamente
relacionados ao seu modo de ação tóxica. Assim os valores de exposição
considerados seguros, também chamados de Limites de Exposição
Ocupacional (LEO), são definidos a partir de estudos de avaliação de
toxicidade a partir de evidências geradas pelos estudos em animais de
experimentação, estudos epidemiológicos e outros dados e estudos in vitro.
A ação das substâncias químicas sobre o organismo humano se dá de
diferentes formas sendo que os principais mecanismos de sua ação tóxica
são:
• Interferência em sistemas enzimáticos de forma reversível ou
irreversível;
13
• Interferência no transporte de oxigênio como a formação de
carboxi-hemoglobina e metahemoglobina;
• Interferências genéticas: ação citostática, carcinogênica,
genotóxica direta ou indireta ou mutagênese e teratogênese;
• Interferência nas funções gerais das células: ações anestésicas e
de interferência na neurotransmissão;
• Irritação direta dos tecidos: dermatite química e gases irritantes;
• Reações de hipersensibilidade: alergia e fotossensibilização.
2. Dose, resposta e efeito
Três termos importantes em toxicologia são “dose” e “resposta” e “efeito”.
DOSE: A dose é a quantidade de exposição a um agente. É uma medida
quantitativa da exposição em relação a um indivíduo. Para um agente químico
ou droga a dose é quantidade do produto em relação ao peso corpóreo. A
quantidade (medida em gramas ou miligramas) e o peso corpóreo (medido em
quilogramas). Assim a dose é a quantidade do agente químico dividida pelo
peso corpóreo, isto é, em mg/kg.
RESPOSTA: corresponde à proporção da população que apresentou uma
alteração orgânica (efeito) definida pela substância química.
EFEITO: corresponde à alteração orgânica produzida pela exposição ao
agente químico.
Como exemplo podemos citar os efeitos do chumbo sobre vários
produtos intermediários do Heme da Hemoglobina:
FEP = protoporfirina eritrocitária livre;
ALA-D = atividade da enzima ácido delta-aminolevulínico desidratasse e
ALA-U = Ácido delta aminolevulínico na Urina
2.2 - Relações: dose-efeito e dose-resposta
DOSE-EFEITO: demonstram uma relação entre a concentração no
sangue e a magnitude do efeito por meio de curvas de “dose-efeito”.
DOSE-RESPOSTA: as curvas de “dose-resposta’ demonstram uma
relação entre a dose e a proporção de indivíduos que apresentam um efeito
definido e quantitativo. Em geral, quanto maior a dose maior será a resposta.
Um exemplo de dose-resposta é dado pela Figura 2.
14
Figura 2: Dose-resposta em função da dificuldade de caminhar e o número de
copos de vinho consumidos. (Fonte: Gilbert, 2012, op. cit.)
A Figura 2 apresenta uma curva ideal de dose-resposta e ilustra o
princípio de que em baixas doses (i.e. poucos copos) há uma pequena
resposta e aumentando a dose (mais copos) há uma resposta maior. Devemos
notar que este gráfico não leva em consideração o peso corpóreo e outras
variáveis como gênero ou frequência da exposição, ou seja, o tempo decorrido
entre as ingestões dos copos de vinho.
2.3. Dose efetiva média (DE50), dose letal média (DL50), concentração
efetiva média (CE50) e concentração letal média (CL50).
DE50 - Corresponde à quantidade de substância que afeta metade
de um grupo de animais de certa espécie provocando um
determinado efeito. É um método experimental reprodutível e
confiável.
DL50 - Corresponde à quantidade (em mg/kg de peso corpóreo)
necessária para provocar a morte de 50% de um grupo de
animais submetidos à experiência.
CE50 - Corresponde à concentração (em ppm ou mg/m
3
) de uma
substância química que afeta a metade de um grupo de
animais submetidos à exposição. Neste caso deve-se
mencionar o tempo de duração da exposição ao agente tóxico.
CL50 - Corresponde à concentração (em ppm ou mg/m
3
) de uma
substância química na atmosfera capaz de provocar a morte
de 50% dos animais submetidos à experiência, por um
determinado tempo.
O cálculo destes dados se faz por meio de experimentos que exigem
condições e dados específicos que, entre outros, podemos mencionar: espécie
animal, gênero, idade, peso, estado de nutrição, via de administração,
temperatura, umidade ambiente, estado físico do agente químico utilizado etc.
15
Os valores numéricos de DL50 (oral ou dérmica) e de CL50 são
obtidos a partir dos índices de mortalidade observados, empregando-se
diversos métodos estatísticos.
V - CLASSIFICAÇÃO DOS AGENTES TÓXICOS
Existem diversas formas de classificar os agentes tóxicos presentes
nos ambientes de trabalho sendo difícil apresentar uma que possa ser
considerada melhor.
Adotaremos três formas de classificação: física, fisiológica e
química.
1 CLASSIFICAÇÃO FÍSICA
Baseia-se na forma física em que se apresentam os agentes químicos nos
ambientes ocupacionais.
a) GASES: São substâncias que se apresentam no estado gasoso
nas condições normais de pressão e temperatura (25°C, 760
mmHg) podendo passar ao estado líquido por meio do aumento de
pressão e diminuição da temperatura. Exemplos: monóxido de
carbono (CO), sulfeto de hidrogênio (H2S), óxidos de nitrogênio
(NO e N02) Ozona (03) anidrido sulfuroso (SO2).
b) VAPORES: Fase gasosa de substâncias que são naturalmente
sólidas ou líquidas. Exemplos: vapores resultantes da volatilização
de solventes orgânicos (benzeno, sulfeto de carbono, tetracloreto
de carbono, tolueno, xileno), alcoóis e éteres.
c) AERODISPERSÓIDES
c. 1 - SÓLIDOS
c. 1.1- Poeiras: formam-se pela ruptura mecânica de sólidos
maiores como rochas, madeiras, cereais, amianto.
c. 1.2 - Fumos: São gerados na fusão de metais, pela
condensação ou oxidação dos vapores metálicos. Geralmente
são muito pequenos, menores de que 1,0.
Exemplos: óxido de chumbo (PbO), óxido de ferro
(Fe203), óxido de cádmio (CdO).
c. 2 – LÍQUIDOS
c. 2.1 - Neblinas: resultam da condensação de vapores de
substâncias naturalmente liquidas
c. 2.2 - Névoas: Resultam da ruptura mecânica de
substâncias líquidas. Exemplo: pinturas com sprays.
16
2 CLASSIFICAÇÃO FISIOLÓGICA
Baseia-se na ação tóxica exercida pelos agentes químicos. Não é uma
classificação satisfatória, pois vários fatores podem interferir quanto ao local e
intensidade dessas ações sendo quase impossível agrupar número tão grande
de agentes químicos sob esse aspecto. Além disto, um mesmo produto
químico pode ter ações fisiológicas em vários órgãos ou sistemas orgânicos.
Entre os principais fatores que influenciam a resposta orgânica à
exposição a agentes tóxicos podemos citar:
❖ Fatores enzimáticos
❖ Suscetibilidade ou sensibilidade individuais que levam a reações alérgicas
❖ Idade
❖ Gênero em virtude das diferenças hormonais
❖ Doenças preexistentes
❖ Natureza e duração da jornada de trabalho
❖ Exposição prévia que pode ocasionar sensibilização
❖ Condições sócio-econômicas❖ Diferenças genéticas e hereditárias
❖ Diferenças anatômicas
3 CLASSIFICAÇÃO QUÍMICA
Baseia-se na estrutura química dos principais contaminantes presentes nos
ambientes de trabalho.
4 CLASSIFICAÇÃO QUANTO A AÇÃO TÓXICA DOS AGENTES QUÍMICOS
A ação tóxica depende fundamentalmente de:
• Concentração do agente químico na atmosfera
• Tempo de exposição à substância química
• Estado físico dos agentes químicos contaminantes
• Solubilidade (hidro e lipossolubilidade)
• Afinidade com constituintes orgânicos
• Susceptibilidade individual.
17
4.1 IRRITANTES
Os irritantes são substâncias químicas que exercem ação
inflamatória na pele e nas mucosas pelo contato direto. São produtos
corrosivos e a intensidade da ação depende principalmente da sua
concentração.
Geralmente afetam o trato respiratório, a pele e os olhos
Irritantes Primários: Exercem apenas ação local.
Têm uma ação sobre as vias respiratórias superiores (nariz,
garganta)
São produtos de alta solubilidade em água tais como: HCl (ácido
clorídrico), H2SO4 (ácido sulfúrico), NH3 (amônia), Formaldeído ou formol.
Podem também ter uma ação sobre os brônquios, podendo em alguns
casos agir em todo o trato respiratório, principalmente os produtos com
solubilidade moderada em água como: SO2, BR2, F2, I2
Por outro lado, produtos com baixa solubilidade em água provocam
irritação principalmente sobre os pulmões e neste caso merecem destaque o
O3, NO2, e o Fosgênio.
Por outro lado, existem produtos que tem uma ação atípica, pois são
altamente irritantes das vias aéreas superiores apesar de sua baixa
solubilidade em água tais como: acroleína e gases lacrimogênicos
Irritantes secundários: Quando além da ação local tem uma ação geral
sistêmica.
Exemplos:
a) Sulfeto de Hidrogênio (H2S)
• Irritante local
• Tosse
• Expectoração sanguinolenta
• Polipneia (aumento da frequência respiratória)
• Espasmo brônquico
• Edema agudo de pulmão.
b) Fosfina (PH3)
• Irritante local
• Dores abdominais
• Vômitos
• Diarreia
• Sede
• Cefaleia
18
• Midríase (dilatação das pupilas)
• Sensação de opressão torácica
• Hipotensão arterial
• Vertigens
• Tremor de extremidades
• Convulsão
Quanto à ação no sistema respiratório podemos dividir os irritantes em:
a) Irritantes das vias aéreas superiores
São os que têm maior solubilidade em água.
Exemplos:
• Névoas e poeiras alcalinas
• Amônia
• Ácido crômico
• Ácido clorídrico
• Ácido fluorídrico
b) Irritantes das vias aéreas superiores, das vias aéreas
inferiores e do tecido pulmonar
Possuem solubilidade intermediária em água.
Exemplos:
• Halogênios: cloro, bromo, iodo e flúor
• Brometo de cianogênio
• Ozona (03)
• Dióxido de Enxofre (SO2)
• Cloretos de Enxofre
• Tricloreto de Fósforo
• Pentacloreto de Fósforo
c) Irritantes das vias áreas profundas (principalmente vias
respiratórias terminais e sacos alveolares)
São pouco solúveis na água, como por exemplo: Tricloreto de
Arsênico, Dióxido de Nitrogênio, Tetróxido de Nitrogênio e
Fosgênio.
4.2 ASFIXIANTES
São substâncias que provocam deficiência na oxigenação dos tecidos
sem interferir no mecanismo de ventilação pulmonar. Podem ser divididos em
duas categorias
19
• Asfixiantes simples: São considerados fisiologicamente inertes e
atuam principalmente, por meio da diminuição da concentração
de oxigênio no ar reduzindo-a a níveis inferiores a 18%.
Exemplos:
• Nitrogênio
• Dióxido de carbono
• Hidrogênio
• Metano
• Etano
• Asfixiantes químicos (bioquímicos): São substâncias que
provocam asfixia por agirem bioquimicamente, evitando o
transporte de eficiente de oxigênio na corrente sanguínea ou
impedindo a oxigenação normal dos tecidos.
Os asfixiantes químicos clássicos são:
• Monóxido de carbono (CO): interfere no transporte de
oxigênio pela hemoglobina ao se combinar com a
mesma e formando a carboxi-hemoglobina.
O monóxido de carbono é um gás incolor, inodoro e sem
gosto. A principal fonte de emissão do monóxido de
carbono é a queima incompleta de combustíveis
derivados de petróleo, como a gasolina e o diesel, ou
seja, substâncias ricas em carbono. O monóxido de
carbono também é liberado por fontes naturais, como
atividade vulcânica e emissão de gás natural; sistemas de
aquecimento, usinas termelétricas a carvão, queima de
biomassa e de fornos de indústrias siderúrgicas.
As moléculas de monóxido de carbono se ligam à
hemoglobina presente no sangue. O CO tem uma afinidade
pela hemoglobina cerca de 200 a 250 maior que o Oxigênio
e impedindo o seu transporte para os tecidos.
• Cianeto: interfere na utilização do oxigênio pelos
tecidos, atuando na cadeia respiratória por inibição da
enzima citocromo-oxidase mitocondrial.
As principais fontes de emissão antropogênica são
mineração de ouro (nos processos de lixiviação),
indústrias químicas, de processamento de metais
(galvanoplastia) e exaustão veículos.
• Outros asfixiantes: Anilina, metil-anilína, dimetilanilina,
toluidina, nitrobenzeno e nitritos: atuam sobre a
hemoglobina formando meta-hemoglobina e interferindo
no transporte de oxigênio.
20
4.3 ANESTÉSICOS E NARCÓTICOS
Com ação depressora do sistema nervoso central cuja intensidade depende
principalmente da concentração da substância e de sua ação especifica:
• Hidrocarbonetos acetilênicos (acetileno, alilenos etc.)
• Hidrocarbonetos olefinícos (etileno)
• Éter etílico e isopropílico
• Hidrocarbonetos parafínicos (propano a decano)
• Cetonas alifáticas (acetona a octanona)
• Alcoóis alifáticos (etílico, propílico, butílico e amílico)
• Ésteres que se hidrolisam no organismo a ácidos orgânicos e
alcoóis.
4.4 TÓXICOS SISTÊMICOS
São aqueles em que a principal ação consiste em provocar danos em vários
sistemas como Hepático, Renal, Nervoso Central e Hematopoiético.
4.4.1 AGENTES HEPATOTÓXICOS
• Clorofórmio
• Tetracloreto de carbono
• Bromotriclorometano
• Cloroacetaldeido
• Compostos clorados em geral (Exemplo: Tetracloroetileno)
4.4.2 AGENTES NEFROTÓXICOS
• Clorofórmio e tetracloreto de carbono (também são
hepatotóxicos)
• Mercúrio, cádmio e cromo
• PCBs (policloreto de bifenila ou policloro-bifenilas)
• TCDD (tetraclorodibenzo-p-dioxina)
4.4.3 AGENTES NEUROTÓXICOS
• Sulfeto de carbono (CS2)
• Tricloreto de nitrogênio
• Álcool etílico
• Manganês
• Mercúrio orgânico
• Brometo de metila
• DDT
• Compostos organofosforados
21
4.4.4 AGENTES COM AÇÃO A NIVEL SANGUÍNEO OU SISTEMA
HEMATOPOIÉTICO (MIELOTÓXICOS)
• Acetato de cellosolve (2- Butoxietanol): também genotóxico e
tóxico para a reprodução
• Benzeno
• 2- Metoxietanol (utilzado em tintas)
• Nitritos, anilina e toludina
• Arsênico: provoca hemólise
4.4.5 AGENTES OTOTÓXICOS
• Hidrocarbonetos: Estireno, Tolueno, Xileno, Etil-benzeno e
n-hexano
• Asfixiantes e outros compostos orgânicos: monóxido de carbono,
disssulfeto de carbono, HCN (cianeto de hidrogênio),
tricloroetileno e acrilonitrila
• Metais pesados: chumbo, mercúrio, manganês, arsênico.
É importante salientar que os agentes ototóxicos também podem ser
nefrotóxicos, uma vez que o rim e o ouvido interno têm a mesma origem
embriológica, além de terem um efeito sinérgico com o ruído.7
4.4.6 CARCINOGÊNICOS
Em 2008, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que dos
12,7 milhões de casos novos de câncer e 19% foram atribuídos a exposição
ambiental, incluindo os locais de trabalho, resultando em 1,3 milhões de mortes
por ano. Câncer de pulmão, mesotelioma e câncer de bexiga são os tipos maiscomuns de cânceres ocupacionais. Estimou-se que a radiação UV causou
60.000 mortes em 2002, das quais 48.000 foram melanomas e 12.000 foram
carcinomas escamosos e basocelulares (WHO, 20118).
O câncer é a principal causa de morte relacionada ao trabalho e mais de
200 substâncias diferentes foram identificadas como cancerígenos para o ser
humano conhecidos ou prováveis, com muitas dessas exposições ocorrendo
no local de trabalho.
Várias instituições científicas possuem uma classificação de
substâncias cancerígenas baseada em estudos epidemiológicos atualizados
periodicamente.
A classificação mais conhecida é da IARC – International Agency for
Research on Cancer 9.
7 Robert M.Ghent, Jr. Can Industrial Chemical Exposure Cause Hearing Loss? In: Occupational Health
and Safety, June, 2016. p 16-20
8 WHO – World Health Organisation – Fact Sheet n°. 350, March 2011. Disponível em:
http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs350/en/.
9 A lista de cancerígenos é atualizada periodicamente e disponível no site: www.iarc.fr
http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs350/en/
http://www.iarc.fr/
22
A classificação adotada pela IARC10 é a seguinte:
GRUPO 1 – Substâncias Cancerígenas (carcinogênicas) para o
Homem
Grupo de substâncias, processos industriais ou exposições
ocupacionais que em determinadas circunstâncias acarretam exposição que
são cancerígenas para seres humanos. 129 agentes.
GRUPO 2 – Dividido em dois subgrupos:
GRUPO 2A – O agente (mistura) é provavelmente cancerígeno para
seres humanos.
Determinadas circunstâncias que acarretam exposição que são
provavelmente cancerígenas para seres humanos. Dados limitados em
humanos e dados suficientes em animais. 96 agentes
GRUPO 2B – O agente (mistura) é possivelmente cancerígeno para
seres humanos.
Determinadas circunstâncias que acarretam exposição que são
possivelmente cancerígenas para seres humanos (evidências suficientes
em animais e dados inadequados em humanos). 321 agentes
GRUPO 3 – Substâncias ou grupo de substâncias, processos industriais
ou exposições ocupacionais não classificáveis como cancerígenos para
humanos. Dados ausentes ou inadequados em humanos ou em
animais.499 agentes
As substâncias químicas ou processos de trabalho reconhecidamente
cancerígenos encontram-se listadas no Anexo I desta Apostila.
Dentre as substâncias reconhecidamente cancerígenas (Grupo 1 da IARC)
destacamos:
• Arsênico
• Acrilonitrila
• Benzeno
• Benzidina: câncer de bexiga devido ao efeito da urina sobre o seu
metabólito no interior da bexiga
• 1,3 Butadieno
• 2 - Naftilamina
• p naftilamina;
• 4 - aminobofenila
• 4 - nitrodifenil
• Cromo (VI)
• Niquel
• Cloreto de vinila
• Cromatos
10 Atualizado em 08 de novembro de 2024. Disponível emhttps://monographs.iarc.who.int/agents-
classified-by-the-iarc/ acess0 em 08 nov 2024
23
• Bi(clorometil) éter
• Asbestos
• Óleo isopropílico e óleo mineral
No Brasil os Ministérios do Trabalho e da Saúde publicaram em 8 de outubro
de 2014 a Lista Nacional de Agentes Cancerígenos para Humanos (LINACH11),
baseada na classificação da IARC.
Os agentes cancerígenos de que trata a LINACH são classificados de acordo
com os seguintes grupos:
I - Grupo 1 - carcinogênicos para humanos;
II - Grupo 2A - provavelmente carcinogênicos para humanos e
III - Grupo 2B - possivelmente carcinogênicos para humanos.
A Tabela 1 apresenta os principais cânceres relacionados à exposição a
agentes químicos conforme publicação da Organização Mundial de Saúde
(OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 2021.
TABELA 1 – Exposição ocupacional a agentes químicos e câncer
Fator de Risco (Exposição) Localização do câncer
Ácido sulfúrico Laringe
Asbestos Traqueia, brônquios, pulmão,
ovários e laringe
Asbestos Mesotelioma
Arsênico Traquea, brônquios e pulmão
Benzeno Leucemia
Berílio Traqueia, brônquios e pulmão
Cádmio Traqueia, brônquios e pulmão
Cromo Traqueia, brônquios e pulmão
Produtos de exaustão de motores a diesel Traqueia, brônquios e pulmão
Formaldeído Nasofaringe e Leucemia
Níquel Traqueia, brônquios e pulmão
HPA (Hidrocarbonetos Policíclicos
Aromáticos)
Traqueia, brônquios e pulmão
Sílica Traqueia, brônquios e pulmão
Tricloroetileno Rim
Fonte: WHO/ILO joint estimates of the work-related burden of disease and injury, 2000-
2016: global monitoring report: Geneva: World Health Organization and the
International Labour Organization, 2021. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO. Disponível
em: http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_dialogue/---
lab_admin/documents/publication/wcms_819788.pdf
11 Ver PORTARIA INTERMINISTERIAL Nº 9, DE 7 DE OUTUBRO DE 2014, publicada no D.O.U de
08 de outubro de 2014, disponível em:
http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?jornal=1&pagina=140&data=08/10/2014
http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_dialogue/---lab_admin/documents/publication/wcms_819788.pdf
http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_dialogue/---lab_admin/documents/publication/wcms_819788.pdf
24
4.4.7 PARTICULADOS COM AÇÃO RESPIRATÓRIA (NÃO SISTÊMICA)
• Fibrogênicos: Sílica livre cristalizada, asbestos e carvão mineral
• Não Fibrogênicos: cassiterita, cimento, silicatos, mica, feldspato e
sílica amorfa.
Os particulados ou aerodispersóides não fibrogênicos não modificam o
tecido pulmonar, produzindo uma reação tecidual relativamente leve e
potencialmente reversível.
4.4.7.1 Sílica livre cristalina
Exposições ocupacionais à sílica cristalina respirável são associadas ao
desenvolvimento de silicose, câncer de pulmão, tuberculose pulmonar e
doenças das vias aéreas.
As doenças pulmonares causadas pela inalação de poeiras minerais,
incluindo a sílica, são denominadas pneumoconioses. A inalação de poeiras
contendo sílica livre pode ocasionar, entre outras doenças, a silicose. A
silicose tem é uma doença evitável, irreversível, sem tratamento específico,
que pode progredir para formas graves e levar à morte. Muitas vezes, acomete
indivíduos jovens, interrompendo e interferindo na capacidade laborativa,
acarretando impactos sócio-econômico importantes.
A exposição à poeira de sílica, também está associada aos seguintes
agravos: tuberculose (TB) - nos quadros de sílico-tuberculose; doenças
respiratórias obstrutivas, que inclui a doença pulmonar obstrutiva crônica
(DPOC), bronquite crônica, doenças auto-imunes como a Síndrome de Caplan
e o câncer de pulmão. Tais doenças podem ocorrer independentemente da
presença de silicose, embora sejam mais comuns em sua presença (Carneiro e
Algranti, 201412)
A silicose é caracterizada pela formação de cicatrizes permanentes nos
pulmões provocada pela inalação da poeira de sílica livre cristalina (quartzo),
sendo a mais antiga doença ocupacional conhecida. A sílica é o principal
constituinte da areia e, por essa razão, a exposição a essa substância é
comum entre os trabalhadores de minerações, os cortadores de arenito e de
granito, os trabalhadores de fundições e indústrias metal-mecânicas e de vidro
e os ceramistas e outras relacionadas no Quadro 1.
12 Carneiro, A.P.S; Algranti, E. – Silicose e Doenças não malignas relacionadas à sílica. In: Pneumologia
ocupacional ilustrada.: fotos e fatos/ Organizador Ubiratan de Paula Santos. 1. ed. São Paulo: Ed.
Atheneu, 2014. p. 81-89.
25
QUADRO 1 – Principais Fontes de Exposição à Sílica
Ramo de Atividade Tipo de Operação
CONSTRUÇÃO CIVIL • CORTE E POLIMENTO DE BLOCOS DE PEDRA,
GRANITOS, CONCRETO e QUARTZO
DECORATIVO e ROCHAS ARTIFICIAIS
METAL – MECÂNICA • CORTE DE TIJOLOS REFRATÁRIOS PARA
MANUTENÇÃO DE FORNOS• USO DE AREIA PARA MOLDES DE FUNDIÇÃO
• JATEAMENTO DE AREIA (Proibido pela Portaria
99/2004)
• POLIMENTO COM ABRASIVOS E MOAGEM
MINERAÇÃO • LAVRA COM EXPLOSIVOS
• PERFURAÇÃO
• TRANSPORTE E MOAGEM
CERÂMICA • REBARBAÇÃO DE PEÇAS
• PREPARAÇÃO DE MASSA
• TORNEAÇÃO A SECO
• PREPARAÇÃO DE FORMAS REFRATÁRIAS
• ESMALTAÇÃO A REVÓLVER
• CARGA E RETIRADA DE PEÇAS DO FORNO
• POLIMENTO A SECO DE PRODUTOS
ACABADOS
VIDRO • MANUSEIO DE MATÉRIAS–PRIMAS
• CARGA DE FORNO
• CORTE DE TIJOLOS REFRATÁRIOS E
MANUTENÇÃO DE FORNOS
CIMENTO • PROCESSOS EM GERAL ATÉ A CARGA DOS
FORNOS
TINTAS • MANUSEIO DE MATÉRIAS – PRIMAS USADAS
COM CARGA INERTE
POLIDORES DOMÉSTICOS • PRODUÇÃO DE SABÕES E ABRASIVOS.
Os sintomas de silicose se manifestam após um período de 15 a 20
anos de exposição. No entanto, em ocupações que envolvem a utilização de
jatos de areia, a perfuração de túneis e a utilização de abrasivos, que
produzem concentrações elevadas de poeira de sílica, os sintomas podem
ocorrer em menos de dez anos, levando a quadros de silicose aguda.
Quando inalada, a poeira de sílica atinge os pulmões, onde os fagócitos
(p.ex., macrófagos) englobam as partículas de poeira. As enzimas liberadas
pelos fagócitos provocam a formação de tecido cicatricial nos pulmões.
Inicialmente, as áreas cicatriciais são pequenos nódulos arredondados ou
irregulares (silicose nodular simples), mas esses nódulos podem evoluir para
formar grandes massas (silicose conglomerada). Essas áreas cicatriciais não
permitem a passagem normal de oxigênio ao sangue, os pulmões perdem a
elasticidade e a respiração exige um maior esforço.
Nas fases iniciais os portadores de silicose nodular simples não
apresentam dificuldade respiratória, mas apresentam tosse e catarro em
decorrência da irritação das grandes vias aéreas, uma condição denominada
bronquite. A silicose conglomerada pode produzir tosse, escarro e dificuldade
respiratória grave. No início da doença, a dificuldade respiratória pode ocorrer
26
somente durante a realização de exercícios, mas no estágio final ela ocorre
mesmo durante o repouso.
A respiração pode piorar de dois a cinco anos após o indivíduo estar
afastado da exposição. A lesão pulmonar sobrecarrega o coração e, algumas
vezes, acarreta a insuficiência cardíaca, potencialmente letal. Além disso,
quando os indivíduos com silicose são expostos ao agente causador da
tuberculose (Mycobacterium tuberculosis), a probabilidade de contraírem a
infecção é três vezes maior do que a dos indivíduos que não sofrem de
silicose. A associação de silicose e tuberculose é denominada sílico-
tuberculose.
O diagnóstico de silicose é estabelecido quando um indivíduo que
trabalhou exposto a poeira de sílica cristalina apresenta uma radiografia
torácica com as alterações características de cicatrização e nódulos. Cabe
destacar que a silicose é irreversível, mas prevenível.13
O controle da poeira no local de trabalho pode ajudar a evitar a silicose,
sendo preconizada a utilização de métodos umidificados de trabalho para evitar
a geração de poeira ou a utilização de medidas de exaustão. Os expostos à
poeira contendo sílica devem realizar regularmente uma radiografia de tórax,
para sua detecção precoce. Se as radiografias indicarem a presença de
silicose, trabalhador deve ser imediatamente afastado da exposição à sílica. O
exame de espirometria é indicado para avaliar o grau de incapacidade
respiratória e acompanhar a evolução da doença.
Apesar de a silicose não ter cura, os silicóticos com dificuldade
respiratória podem beneficiar-se com os tratamentos utilizados para a doença
pulmonar obstrutiva crônica, como a terapia medicamentosa que visa manter
as vias aéreas desobstruídas e livres de secreções. Como os silicóticos
apresentam um alto risco de tuberculose, eles devem ser submetidos a exames
de controle regulares que incluam um teste cutâneo para a tuberculose.
Em trabalhadores expostos à poeira de sílica, o risco de desenvolver
silicose e a gravidade do quadro dependem das características da exposição
e de fatores individuais relacionados à suscetibilidade individual.
Entre os fatores relacionados à exposição destacam-se:
• concentração da sílica livre na poeira respirável (mais de 7,5% de
sílica livre).
• duração da exposição,
• tamanho da partícula (partículas menores do que 5 micrômetros
são mais suscetíveis de alcançar os alvéolos pulmonares),
• tempo de latência (tempo decorrido desde o início da exposição até
13 National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH). Disponível em:
https://www.cdc.gov/niosh/topics/silica/ Acesso em: 28 jul 2016
https://www.cdc.gov/niosh/topics/silica/
27
o início da doença ou dos sintomas)
Além destes fatores a sílica recentemente fraturada possui toxicidade
ampliada. Assim a vigilância dos ambientes de trabalho deve ser baseada
especialmente em avaliações qualitativas e quantitativas da poeira respirável14.
A silicose apresenta forte correlação dose-resposta, ou seja, sua
prevalência e gravidade crescem com o aumento da “dose” de sílica inalada,
dada pela duração da exposição e pela concentração de sílica na partícula. A
doença pode progredir mesmo após o afastamento da exposição, sendo a
probabilidade de progressão mais frequente naqueles que tiveram exposição
excessiva, nos casos de silicose precoce e reação orgânica intensa. Assim, a
manutenção do trabalhador na exposição após o diagnóstico da doença é
contra-indiciada, pois favorece a progressão da doença e a piora o prognóstico.
Na fisiopatologia da doença, após a inalação de poeiras contendo
partículas de sílica inicia-se o processo de fagocitose pelos macrófagos
alveolares, com conseqüente morte destes e liberação de enzimas ativas,
lipídios, cristais de sílica e radicais livres. Quando a geração destes radicais
supera os mecanismos de defesa antioxidantes, pode haver lesão de células
epiteliais tipo I, aumento da ativação de macrófagos e indução de proliferação
de células epiteliais tipo II. Se a inalação de sílica é mantida, este processo
amplia-se, havendo liberação de enzimas proteolíticas, geração de mais
radicais livres e liberação de citocinas inflamatórias. Estas substâncias
atraem macrófagos, neutrófilos e linfócitos, dando origem à alveolite. O
transporte linfático atrai para o local mais fibroblastos e macrófagos. A
contínua exposição perpetua essas reações, cujo resultado final é a
proliferação de fibras de reticulina e de colágeno, dispostos de maneira
concêntrica, caracterizando o nódulo silicótico. Os cristais de sílica podem
ainda atingir, via linfáticos, a pleura visceral, desenvolvendo nódulos
subpleurais. O processo dissemina-se pelo interstício peri-bronco-vascular,
sendo mais comum nos ápices dos lobos superiores e inferiores
4.4.7.1.1 A Silicose no Brasil
A larga distribuição da silicose, em escala global e de outras doenças
relacionadas à exposição à poeira de sílica também é explicada pela presença
de sílica (SiO2) na maioria das rochas, constituindo cerca de 60% da crosta
terrestre. Existem três formas de sílica livre cristalina: quartzo, cristobalita e
tridimita, sendo o quartzo a forma mais comum. Apesar de sua ocorrência
guardar estreita relação com as atividades de trabalho, registros na literatura
demonstram que a doença também pode estar associada a exposições
ambientais como, por exemplo, entre comunidades que habitam regiões
desérticas ou no entorno de atividades produtivas nas quais ocorra geração de
14 Poeira respirável: Poeiras cujo tamanho ou diâmetro são menores que 5 micrômetros e assim são
capazes de chegar até aos alvéolos pulmonares, ultrapassando os mecanismos de defesa naturais do
sistema respiratório
28
poeira contendo sílica.
A silicose é considerada grave problema de Saúde Pública em muitospaíses, entre eles, China, Índia, África do Sul e Brasil, que apresentam
elevados índices de prevalência e incidência da doença, resultantes de
situações de trabalho com grande exposição à poeira. Para o enfrentamento do
problema, em 1995, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), e a
Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceram o Programa Mundial de
Eliminação de Silicose por meio da adoção de medidas de controle ambiental,
e de mudanças nos processos de trabalho, com substituição da sílica em
algumas operações industriais e maior conscientização de empresas e
trabalhadores.
No Brasil, o Programa Nacional de Eliminação de Silicose teve início
em 2002, porém casos de silicose, alguns muito graves e acometendo
trabalhadores jovens continuam sendo notificados pelos sistemas de vigilância.
O problema ganha contornos mais dramáticos nas situações de trabalho
desenvolvidas em domicílio e no peridomicílio, como, por exemplo, a lapidação,
corte e beneficiamento de pedras, com exposição de trabalhadores, familiares
e vizinhança, à poeira contendo sílica, em atividades fora do alcance das ações
de fiscalização do trabalho e de outras formas de proteção social.
Neste caso, aumenta a responsabilidade do sistema público de saúde,
do SUS e das equipes da atenção básica para o cuidado desses trabalhadores
pela possibilidade de se desenvolver ações de saúde o mais próximo de onde
as pessoas vivem e trabalham e de acionar outras instâncias de governo e da
sociedade para a solução do problema.
4.4.7.1.1.1. Doenças relacionadas à exposição à sílica: Conceito, formas
clínicas e aspectos epidemiológicos
No Brasil a Lista Brasileira de Doenças Relacionadas ao Trabalho –
Lista A elaborada pelo Ministério da Saúde e publicada em 1999 (Brasil, 1999)
e adotada pela Previdência Social para fins de concessão de benefícios
previdenciários em casos de incapacidade para o trabalho reconhece as
seguintes doenças relacionadas à exposição à sílica:
• Silicose
• Tuberculose (TB) nos quadros de sílico-tuberculose;
• Doença pulmonar obstrutiva crônica – DPOC, que inclui a asma
obstrutiva, bronquite crônica, e a bronquite obstrutiva crônica;
• Doenças auto-imunes como a Síndrome de Caplan e
• Neoplasia maligna dos brônquios e dos pulmões.
29
No Brasil, estima-se que mais de três milhões de trabalhadores do
mercado formal de trabalho estão expostos a poeiras contendo sílica por pelo
menos 30% da jornada de trabalho, sendo que em média 14,4% dos
trabalhadores do mercado formal estiveram expostos à algum nível de sílica na
jornada de trabalho no período de 1985 a 2001 (Ribeiro, 2004)15. Segundo
Ribeiro (op. cit.), 98% dos trabalhadores expostos se concentraram em sete
setores econômicos: extração mineral, construção civil, metalurgia, indústria de
minerais não metálicos, administração de serviços técnicos e pessoal,
agricultura e indústria da borracha. Por outro lado os homens apresentam uma
prevalências de exposição muito maior que as mulheres (Ribeiro, op. cit.)
sugere que a exposição à sílica no Brasil pode ser mais preocupante que a
identificada em virtude das peculiaridades nacionais relacionadas à
precarização do emprego, falta de controle das exposições nos ambientes de
trabalho, a convivência próxima de setores com níveis de exposição distintos,
bem com a falta de cultura de gestão dos riscos ambientais e ocupacionais.
Assim, no setor informal, que abrange os trabalhadores sem registro (carteira
assinada) ou vínculo de trabalho este número parece ser muito maior.
Aspectos Epidemiológicos
No Brasil, apesar da melhoria nas condições de trabalho em alguns
setores da economia e da proibição formal de algumas atividades como o
jateamento com areia para limpeza de peças na indústria metalúrgica e do
vidro, nas últimas duas a três décadas, persistem inúmeras situações de
trabalho com risco de silicose e o diagnóstico numerosos casos de silicose em
vários ramos de atividades, em diversas regiões do país. Estudos realizados
nas últimas quatro décadas mostram taxas de prevalência diferenciadas que
refletem distintas condições de exposição: indústria cerâmica: 3,9%,
atividades em pedreiras: 3,0%, jateamento de areia na indústria naval:
23,6%, perfuração de poços: 17%.
Minas Gerais concentra a maioria dos casos de silicose registrados no
Brasil, provenientes de mineração de ouro nos municípios de Nova Lima e
Raposos, e extração e beneficiamento de pedras observando-se crescente
registro de novos casos em trabalhadores inseridos no setor informal de
trabalho, particularmente entre lapidários e garimpeiros de pedras preciosas e
semipreciosas. O mesmo fenômeno é observado no município de Ametista do
Sul-RS com predomínio de indivíduos jovens e com alterações radiológicas
avançadas.
Entretanto, é grande a subnotificação de casos uma vez que os
registros disponíveis se referem na quase totalidade, à concessão de
benefícios pela Previdência Social por incapacidade para o trabalho. Segundo
Faria e Dwyer (201316), no Brasil, o reconhecimento da silicose pelo INSS
15 Ribeiro, F.S.N. – Exposição Ocupacional à sílica: Tendência temporal, 1985-2001. Tese de Doutorado.
Universidade de São Paulo, Faculdade de Saúde Púbica, Departamento de Epidemiologia. São Paulo,
2004
16 Faria, M.P,; Dwyer, T. – Safety and health in mining in Brazil. In: OCCUPATIONAL SAFETY
AND HEALTH IN MINING - ANTHOLOGY ON THE SITUATION IN 16 MINING COUNTRIES.
30
adota critérios extremamente rígidos e casos iniciais de silicose não são
reconhecidos, fazendo com que apenas os casos mais graves e incapacitantes
sejam reconhecidos e registrados, sendo que entre os anos de 2000 e 2006
foram concedidos apenas 892 benefícios por silicose. Os registros de casos
diagnosticados pelos serviços de saúde e notificados ao SINAN (Sistema de
Informação de Agravos de Notificação), do Ministério da Saúde, ainda são
inexpressivos e não refletem a realidade epidemiológica, particularmente a
ocorrência da doença em trabalhadores do setor informal de trabalho e em
pequenas empresas, que apesar de formais, apresentam situações de trabalho
semelhantes as da informalidade, como observado em pedreiras e
beneficiadoras de quartzito em MG.
4.4.7.2 Asbesto ou amianto
A exposição ocupacional ao amianto ocorre pela inalação de suas fibras
no ambiente de trabalho. Trabalhadores na mineração, construção civil,
agricultura, indústria mecânica e automotiva, térmica e outros setores
industriais de isolamento, construção naval, desmontagem de navios e estão
entre aqueles em risco de exposição ocupacional ao amianto. Há também um
risco de exposição ocupacional durante a fabricação de novos produtos de
amianto onde isso ainda ocorre. Além disso, os trabalhadores que limpam e
constroem uma nova infra-estrutura após um desastre natural estão sob risco
de exposição ocupacional, visto que produtos de amianto antigos e/ou novos
podem estar presentes no ambiente pós-desastre.17
Conforme dados da Organização Mundial de Saúde de 2018 a OIT (ILO,
202118) estima que cerca de 125 milhões de pessoas no mundo estão expostas
ao asbesto nos locais de trabalho. Por sua vez, a OSHA (United States
Occupational Safety and Health Administration) estimou que em 2008 1,3
milhões de trabalhadores na construção e nas indústrias em geral estavam
expostos de forma significativa ao asbesto durante seu trabalho nos Estados
Unidos da América. Na Europa o número de trabalhadores expostos ao
asbesto tem sido avaliado pelo estudo CAREX. Baseado em estudos de
exposição conhecida ou suspeita coletados durante o período de 1990–93, a
base de dados do CAREX estimou um total de 1.2 milhões de trabalhadores
expostos ao asbesto em 41 indústrias em 15 membros de União Europeia. Por
sua vez o CAREX do Canadá estima que 152.000 canadenses estão expostos
ao amianto em seus locais de trabalho (CAREXCanada, 2020).Arbete och Hälsa (Work and Health), Elgstrand, K & E Vingård (Eds.): Vol 47, No. 2013:2. p. 149-159
17 Asbestos - hazards and safe practice for clear-up after tsunami. Geneva: World Health Organization; 2006
disponível em :https://www.who.int/publications/m/item/asbestos---hazards-and-safe-practice-for-clear-up-after-
tsunami
18 ILO. International Labour Office. Exposure to hazardous chemicals at work and resulting health
impacts: A global review. International Labour Office – Geneva: ILO, 2021. Disponível em:
http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_dialogue/---
lab_admin/documents/publication/wcms_795460.pdf Acesso em 10 nov 2021
http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_dialogue/---lab_admin/documents/publication/wcms_795460.pdf
http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_dialogue/---lab_admin/documents/publication/wcms_795460.pdf
31
A OMS/OIT com base nos dados de 2016 estimam a ocorrência de
cerca de 209 mil mortes devido a exposição ao asbesto, com 3,97 milhões de
anos perdidos por incapacidade (WHO/ILO, 2021, op. cit., pg. 20)
O asbesto é composto por silicatos minerais fibrosos com diferentes
composições químicas. Quando inaladas, as fibras de asbesto depositam-se
nos pulmões, provocando a formação de cicatrizes, caracterizando um quadro
de asbestose.
Os sintomas da asbestose aparecem gradualmente, tendo um período
de latência de cerca de 20 anos após ter ocorrido a formação de cicatrizes e os
pulmões terem perdido a elasticidade. Os sintomas iniciais são uma dificuldade
respiratória discreta e a diminuição da capacidade de realizar exercícios. A
respiração torna-se cada vez mais difícil. Ocasionalmente, a inalação de fibras
de asbesto pode provocar o acúmulo de líquido no espaço existente entre as
duas membranas pleurais (derrame no espaço pleural).
A inalação de fibras de asbesto também pode acarretar o espessamento
das membranas que revestem os pulmões (placas pleurais) e câncer de
pulmão. Em casos raros, o asbesto acarreta a formação de tumores malignos
pleurais, denominados mesoteliomas pleurais ou no peritônio (membrana que
reveste externamente o intestino e internamente o abdômen), denominados
mesoteliomas peritoneais. Geralmente, câncer de pulmão e os mesoteliomas
ocorrem trinta ou quarenta anos após a exposição, sendo que o seu
diagnóstico se faz por meio de biópsias e exames especializados de
histoquímica.
Em um trabalhador com história de exposição ao asbesto, o diagnóstico
de asbestose se dá por meio de uma radiografia torácica que revela as
alterações características e nos casos duvidosos por meio de Tomografia de
Tórax computadorizada de Alta Resolução (TCAR). Geralmente o paciente
também apresenta uma função pulmonar anormal.
As doenças causadas pela inalação de asbesto podem ser evitadas com
a eliminação da poeira e fibras de asbesto nos locais de trabalho. Os
tratamentos para asbestose incluem medidas paliativas para aliviar os sintomas
como, por exemplo, a oxigenoterapia para reduzir a dificuldade respiratória.
A drenagem do líquido acumulado em torno dos pulmões pode facilitar a
respiração. O transplante de pulmão tem sido bem-sucedido no tratamento da
asbestose. Já os mesoteliomas não têm tratamento específico e são
invariavelmente fatais, pois a quimioterapia não produz bons resultados e a
remoção cirúrgica do tumor não leva à cura.
Além das patologias citadas a exposição ao amianto está relacionada a
casos de câncer de laringe e ovários.
Importante destacar que o Supremo Tribunal Federal, em decisão
proferida em 23 fevereiro de 2023, manteve a decisão proferida em 2017
que declarou inconstitucional um artigo da Lei Federal 9.055/1995 que
permitia o uso controlado do amianto crisotila no Brasil. Assim ficou
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proibida a extração, industrialização, a comercialização e a distribuição
do amianto crisotila no país.
4.4.8 – SENSIBILIZANTES
Substâncias químicas ou produtos que desenvolvem processos alérgicos.
Exemplos: Óleos, resinas, pólen, isocianatos.
V - INTERAÇÃO ENTRE AGENTES QUÍMICOS
No mundo real não estamos expostos a um único agente químico em
determinado momento. O ar que respiramos contém diversos produtos
químicos. O ar no interior de nossas casas pode conter vários agentes
químicos provenientes da fumaça de cigarros, cola de carpetes e produtos de
limpeza, por exemplo. O mesmo se aplica quando se trata de ambientes de
trabalho quando pode ocorrer exposição simultânea a solventes e metais
pesados, sendo difícil determinar o risco de cada uma destas múltiplas
exposições porque o nosso organismo não responde da mesma forma a cada
produto químico da mistura se outros agentes químicos estão presentes.
As interações entre os agentes químicos ocorrem quando o trabalhador
está exposto ocupacionalmente a duas ou mais substâncias químicas,
resultando em alterações da biodisponibilidade dessas substâncias e/ou nos
seus efeitos produzidos. A exposição simultânea a duas ou mais substâncias
pode levar a vários tipos de situações, podendo ou não ocorrer interação entre
elas.
Estas interações podem levar a uma das seguinte situações ou efeito:
a) Efeito aditivo
b) Efeito sinérgico
c) Efeito de potenciação
d) Efeito antagônico
Assim, quando ocorre a exposição a dois ou mais agentes químicos a
determinação do risco se torna mais complexa. Estudos científicos são
limitados por causa do grande número de combinações possíveis. Assim, se o
os efeitos resultantes da exposição a misturas são desconhecidos a melhor
estratégia ainda é reduzir a exposição para reduzir o risco.
Em resumo a exposição a dois ou mais produtos químicos podem
resultar em ações independente, aditiva, sinérgica, de potenciação ou
antagônica.
a) Efeito independente
Neste caso a toxicidade dos compostos ocorre por mecanismo
independente ou os compostos atuam sobre diferentes órgãos-alvo e cada um
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dos agentes tem uma toxicidade independente um do outro, produzindo efeitos
distintos.
b) Efeito aditivo
Em toxicologia ocupacional a interação mais frequente é a aditiva.
O efeito aditivo ocorre quando o efeito conjunto de duas substâncias é
igual à soma dos efeitos de cada uma isoladamente. Neste caso os agentes
químicos possuem toxicidade do tipo análogo, determinando uma resposta que
é igual à soma simples de seus efeitos isoladamente.
Em outras palavras, o efeito resultante é soma dos efeitos isolados de
dois ou mais agentes químicos por apresentarem efeito adverso semelhante no
mesmo órgão ou sistema-alvo, e que serviu de base para estabelecimento do
Limite de Exposição Ocupacional.
Neste caso a magnitude do efeito ou resposta, produzida por duas ou
mais substâncias químicas é numericamente igual à soma dos efeitos ou
respostas produzidas individualmente.
Como exemplo podemos citar:
1. a ação do chumbo e do arsênico na biossíntese do heme,
aumentando a excreção de coproporfirina é aproximadamente aditiva.
2. a ação da anilina e dos nitritos sobre a hemoglobina
formando a metahemoglobina levando a asfixia.
3. os efeitos dos agrotóxicos organofosforados geralmente são
aditivos
4. o efeito leucemogênico do 1,3 butadieno e benzeno.
c) Efeito Sinérgico
. Às vezes, um produto químico pode fazer com que nosso organismo
responda mais fortemente a outro agente químico gerando um efeito sinérgico.
Neste caso as duas substâncias atuam em conjunto, determinando uma
toxicidade maior que aquela derivada de cada uma das substâncias tomadas
isoladamente, levando a um efeito multiplicador. Assim o efeito ou resposta à
exposição a substâncias químicas de forma combinada é maior que o efeito
aditivo, ou seja, ocorre um efeito que é maior que a simples adição ou soma de
seus efeitos.
Por exemplo é o efeito teratogênico combinado, em animais, provocado
pelo