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Um lugar de contrastes. De um lado, exuberância, magia, sons e sa- bores inebriantes. De outro, miséria, violência, epidemias, guerras, tira- nia. A África sempre serviu de inspi- ração para filmes e livros que ficaram na memória de várias gerações. Mas ainda há muito o que dizer - e o que aprender - sobre esse continente. Em A África explicada aos meus fi- historiador Alberto da Costa e Silva nos revela os segredos e os detalhes do passado dessa terra, de onde veio boa parte dos nossos an- cestrais. O autor nos mostra não somente por que a África é fasci- nante, mas também por que nossa trajetória está intimamente ligada ao seu povo Não fomos influenciados apenas pelos seus costumes, sua re- ALBERTO DA COSTA E SILVA ligião e suas diversas línguas; herda- mos também garra e alegria. Simples e abrangente, A África ex- Africa plicada aos meus filhos é uma leitura para jovens de todas as idades. Es- sencial para quem quer desvendar os mistérios e os fascínios desse meus filhos continente. 8a 0746280/IFCHOutros títulos da coleção: racismo explicado aos meus filhos, de Nei Lopes A história do Brasil explicada aos meus filhos, de Isabel Lustosa A Idade Média explicada aos meus filhos, de Jacques Le Goff século XX explicado aos meus filhos, de Marc Ferro teatro explicado aos meus filhos, de Barbara Heliodora ALBERTO DA COSTA E SILVA A África explicada aos meus filhos A AGIR de Prof. Dr. OctavioCopyright 2008 por Alberto da Costa e Silva PROJETO GRÁFICO E CAPA Mariana Newlands ASSISTENTE DE DESIGN Amanda Newlands COPIDESQUE CHAMAD Rebeca Bolite REVISÃO 746280 Taís Monteiro 148 09 Damião Nascimento PRECO R$ 29,90 O título deste livro deveria ser A África explicada aos PRODUÇÃO EDITORIAL meus filhos. Aos meus netos, portanto. A Isabel, primeir Juliana Romeiro a Bruno, Antônio Pedro, Alberto, João Marcelo, Migue que pedirão a seus pais que continuem com essas CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. lhes contem as suas experiências africanas, para S578a Silva, Alberto da Costa e, ça e cor ao que aqui vai escrito. A África explicada aos meus filhos / Alberto da Costa e Silva. - Rio de Janeiro: Agir, 2008. (Explicado aos meus filhos) ISBN 978-85-220-0897-1 I. África - História - Literatura infanto-juvenil. I. Título. II. Série. CDD: 960 08-2800 CDU: 94(6) 08 09 10 11 12 87654321 A AGIR Todos os direitos reservados à AGIR EDITORA LTDA. - Uma empresa Ediouro Publicações S.A. Rua Nova Jerusalém, 345 - CEP 21042-235 - Bonsucesso - Rio de Janeiro - RJ Tel.: (21) 3882-8200 fax: (21) 3882-8212/8313Sumário PRIMEIRA CONVERSA, 9 SEGUNDA CONVERSA, 21 TERCEIRA CONVERSA, 35 QUARTA CONVERSA, 53 QUINTA CONVERSA, 67 SEXTA CONVERSA, 83 SÉTIMA CONVERSA, 101 OITAVA CONVERSA, 115 NONA CONVERSA, 133 DÉCIMA CONVERSA, 147 Leituras complementares, 158TUNISIA ARGÉLIA LÍBIA EGITO SAARA MAURITÂNIA Primeira conversa CABO VERDE MALI SENEGAL CHADE ERITREIA SUDÃO GUINE-BISSAU FASSO GUINÉ COSTA NIGÉRIA DO GANA REPUBLICA ETIÓPIA MARFIM CENTRO AFRICANA TOGO BENIM OCEAN PRINCIPE UGANDA GABÃO QUÊNIA GUINE EQUATORIAL BURUNDI DEMOCRÁTICA RUANDA DO CONGO DO CONGO TANZÂNIA SEICHELES NO ANGOLA COMORES ATLANTICO ZÂMBIA ZIMBABUÉ NAMÍBIA BOTSUANA SUAZILANDIA ÁFRICA ESOTO DO SULNos filmes, nas histórias em quadrinhos, nos seriados de TV e nos romances, a África é sempre um continente misterioso e mágico, onde são possíveis todas as aventuras. A imagem que nos transmitem diariamente os jornais e os noticiários de rádio e televisão é outra: a de uma parte do mundo assolada por secas, fomes, epidemias, guer- ras e tiranos. Uma visão não desmente a outra, e ambas são incompletas. Se uma região da África foi atacada por nuvens de gafanhotos que devoraram todas as plantações, e nela há fome, nas outras a colheita se fez normalmente, os celeiros estão repletos e há abun- dância de comida. Se em determinado lugar há uma feroz luta armada, noutros as crianças vão regularmente à escola, de roupa limpa e sapatos lustrados. E a vida familiar transcorre normal- mente, sem faltar alegria. Todos trabalham e produzem. A África é um continente enorme, com uma grande diversi- dade geográfica. Nela há de tudo: altas montanhas algumas, como Kilimanjaro, com os picos permanentemente cobertos de neve; grandes desertos, como o Saara; florestas que parecem sem fim, como a do Congo; grandes extensões de matas baixas e de estepes (nome que se dá a áreas cobertas por capim e outras plantas rasteiras); e zonas que estão sempre alagadas. Cerca de metade do continente é formada, porém, por savanas, uma pai-12 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 13 sagem na qual o relvado é interrompido por árvores baixas afas- mais belo e ágil do que o outro: o elande, o cudo, a impala, a pa- tadas umas das outras. Numa região, faz frio na maior parte do lanca, o gnu, o sim-sim, o inhacoso, o guelengue e as numerosas ano. Noutra, predomina o calor úmido. E noutras, ainda, o calor espécies de gazelas. São muitas, muitíssimas, as aves entre elas seco ou a absoluta falta de umidade característica do deserto. Nas se destacando a avestruz, a cegonha, o flamingo, o pelicano e regiões costeiras do norte do continente e na parte meridional da a águia-pesqueira. Nas florestas grandes animais são menos África do Sul, o clima é temperado, com as quatro estações bem numerosos: a pantera, o crocodilo, o porco selvagem, o gorila e o definidas, como na Europa. chimpanzé. Nelas, predominam os os répteis, os peque- Por quase todo lado, a ação do homem, durante séculos, al- nos mamíferos que vivem em árvores, os insetos e os vermes. terou a paisagem, com roças e plantações, o pastoreio do gado, caminhos, aldeias e cidades. E também com vegetais trazidos de Mas os filmes não mostram nas florestas animais enormes, como outros continentes. Da Ásia vieram o limão, a berinjela, a manga, elefante e hipopótamo? a cana-de-acúcar e a cebola. Das Américas, sobretudo do Brasil, a É verdade. elefante vive tanto na floresta quanto nas sava- mandioca, o milho, a batata-doce, o amendoim, o caju e o ananás. nas. E o hipopótamo, onde haja rios e lagoas. A crescente deman- O milho e a mandioca difundiram-se de tal modo que competem, da por marfim na Ásia e na Europa, desde a Idade Média, reduziu em muitos lugares, com os alimentos básicos tradicionais, como muito o número desses dois animais - dente do hipopótamo o arroz nas duas Guinés, sorgo e os diferentes tipos de painço era tão apreciado quanto a presa do elefante sobretudo depois ou milhete nas regiões de savana, o inhame na Nigéria, ou a ba- da introdução das armas de fogo pelos europeus. A caça preda- nana em Uganda. tória fez enormes estragos entre outros mamíferos, felizmente hoje protegidos em grandes reservas onde só se permite o uso No entanto, a primeira imagem que nos vem à mente, quando das máquinas fotográficas e das filmadoras. falamos de África, é a de uma floresta escura, que a luz do sol não atravessa, e cheia de insetos e de animais perigosos. Na elefante é usado no transporte e na guerra. O mesmo Que não deixam de existir. A fauna africana é, aliás, aconteceu na África? ma. Em nenhum outro continente há tantas espécies de grandes Que se saiba, somente na Antiguidade, em Cartago, Axum e animais e em tão considerável número, mas é nas savanas que a Méroe. Cartago disputou com Roma, nos séculos III e II a.C., a maior parte deles se encontra. Lá vivem grandes supremacia no Mediterrâneo. reino de Axum, na atual Etiópia, o leão, o leopardo, o guepardo ou chita, a hiena, o rinoceronte, a já era importante no primeiro século da era cristã, e o de Méroe, zebra, a girafa, o búfalo e os vários tipos de antílopes, cada qual onde hoje é a República do Sudão, desde o século III. Mas nem a14 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 15 Índia, nem Cartago, nem Axum, nem Méroe domesticaram o ele- Esse deserto só passou a ser atravessado regularmente pelos fante, pois este não era gerado nem criado em cativeiro. animal homens depois que os seus habitantes, os berberes, começaram a era capturado ainda jovem, domado e treinado. utilizar camelo, nos primeiros séculos da era cristã. Veloz, capaz De forma permanente, a África só domesticou dois de seus ani- de ficar sem água durante dez a dias, com cascos esparramados mais nativos: a galinha-d'angola (pintada ou capote) e o jumento que pisam bem tanto a areia fofa quanto o chão de pedra do este, no Egito. Recebeu da Ásia os animais que homem pôs a to, podendo suportar cargas de a 200 quilos, o camelo de uma seu serviço: o boi, o carneiro, o cavalo, o camelo, o porco, a cabra. só corcova ou dromedário deu às tribos do deserto a possibilidade Não conseguiu, para ficar num exemplo, selar a zebra ou atrelá-la de fazer o comércio entre as duas margens do Saara e de controlar a um carro. Os europeus tentaram fazer isso no século XIX, e foi militarmente os oásis, os poços, as pastagens ralas, as minas de um malogro completo: a zebra revelou-se não só indomesticável, sal e as rotas que percorreriam as caravanas. Estas eram poucas mas também indomável, como, de resto, os outros mamíferos do e não chegavam a aproximar permanentemente as duas margens continente até mesmo o íbex, uma espécie de cabra selvagem do deserto. Por isso, aquela parte do mundo que os árabes viriam existente na Etiópia. Os africanos conseguiram, é certo, ter animais a chamar de Bilad al-Sudan, ou Terra dos Negros, continuou por selvagens em cativeiro e até criá-los e amansá-los. Os neguses ou muito tempo quase isolada do norte do continente. E será essa reis da Abissínia ou Etiópia, até quase os nossos dias, criavam África ao sul do Saara o tema de nossas conversas. para exibi-los como símbolo de poder. O rei nas gran- des cerimônias, apresentava-se aos seus súditos e aos emissários O rio Nilo não contribuiu para aproximar a África do Norte do estrangeiros ladeado por dois seguros por serviçais. resto do continente? Não foi uma espécie de corredor? Certamente, foi. Mas atenção! - não era um caminho nada Eu estudei as chamadas Guerras Púnicas na escola. Nunca, po- fácil, pois é interrompido seis vezes por grandes cataratas. E mais rém, pensei em Cartago como uma potência africana, e sim, como um ao sul, há outro sério obstáculo à navegação. Onde o Bahr-el-Ghazal país criado pelos fenícios no mar Mediterrâneo. ou "rio das Gazelas", proveniente do oeste, se junta ao chamado Começou, de fato, como uma colônia fenícia, e era movida Nilo das Montanhas, que desce dos Grandes Lagos, para formar por seus interesses no Mediterrâneo, mas ficava na África. Na o Nilo Branco, estende-se o chamado Sudd. A palavra Sudd sig- África do Norte. Para ser mais preciso, próxima à atual cidade de nifica "barragem" e se aplica a uma vasta área coberta por uma Túnis, naquela faixa de terras férteis e de clima temperado que se vegetação flutuante que muda constantemente de formato e é tão estende do Marrocos ao canal de Suez e está separada do resto da densa que as canoas só passam por ela com enorme esforço de África pelo deserto do Saara. seus tripulantes.16 A África explicada aos meus filhos Alberto Costa e Silva 17 Apesar dessas dificuldades, houve, desde os tempos mais an- faladas por dezenas de milhões de pessoas e numa área geográ- tigos, contatos, ao longo do Nilo e de seus afluentes, entre os fica bem extensa. Outras, por uns poucos milhares. Numa área egípcios e os povos vizinhos, sendo muitas vezes difícil dizer se onde predomina determinado idioma, pode haver pequenos bol- determinado costume, idéia ou objeto se difundiu do Egito para sões de outro. Ou de outros. Muitas vezes dois grupos vizinhos se outras partes da África ou se teve origem ao sul do Saara e dali se expressam em línguas inteiramente diferentes. E podem ter valo- propagou para país dos res e maneiras de viver também distintos. Ou, ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes. Ou até conflitantes. Os africanos que vivem ao norte do Saara são diferentes dos que Você pode nos dar um exemplo? Os que vivem ao norte são predominantemente brancos, e os Posso. A mais oriental das cidadezinhas iorubás fica a pouco que vivem ao sul, negros. Mas estes também são diversos entre mais de uma centena de quilômetros da mais ocidental das al- Um amara da Etiópia é tão distinto de um ambundo de Angola deias ibos, na Nigéria. Entre os iorubás, o nascimento de gêmeos quanto, na Europa, um escandinavo de um andaluz. E um jalofo do Senegal é diferente de um xona de Zimbabué como um russo é celebrado como um acontecimento positivo e a mãe é tida como de um siciliano. favorecida pelas divindades. Já entre os ibos, os gêmeos eram, Na região meridional do continente, há um complicador: os no passado, considerados uma abominação e abandonados na chamados coissãs, que compreendem os bosquímanos e os ho- floresta, enquanto a mãe tinha de se submeter a cerimônias de tentotes. São povos com face e nariz purificação. E não param aí as oposições e as dessemelhanças achatados, olhos estreitos como os dos chineses, cabelos que de entre os dois povos. No plano político, enquanto os iorubás se tão encarapinhados mais parecem um gorro feito com grãos de organizavam em cidades-estados, com um rei sagrado, entre os pimenta-do-reino, e falam línguas que possuem cliques ou esta- ibos predominava a ausência de Estado, com as comunidades re- lidos com valor de consoantes. Os coissãs ocupavam, no passado, gidas pelos conselhos de anciões. a maior parte do sul da África, mas foram sendo expulsos para Não só as culturas diferem de povo para povo, como se fo- as áreas semidesérticas e desérticas primeiro pelos negros e, de- ram modificando ao longo dos séculos. Há, contudo, certos tra- pois, pelos colonizadores brancos. comuns a todas elas, de modo que se pode falar de uma A África é riquíssima de línguas e culturas. Falam-se no con- cultura africana como nos referimos a uma cultura européia, tinente mais de mil idiomas. Mais de dois mil, segundo alguns ainda que sejam tão distintos os modos de vida em Portugal e estudiosos. Algumas dessas línguas, como o hauçá e o suaíli, são na Finlândia.18 A África aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 19 Não são também diferentes os costumes dos pastores e os dos agri- esses grupos de castas porque seus membros se casavam cultores? si e eram desprezados pelas demais pessoas. Eram desprezados Claro que sim. Alguns povos africanos, como os pigmeus das mas, mesmo tempo Otemidos, porque tinham o poder de alte- florestas do Congo os sãs ou bosquímanos das áreas semi-ári- rar a natureza. Os ferreiros transformavam o minério em facas, das da África do Sul, vivem da caça e da coleta de raízes, frutas e pontas de lança e enxadas. Os escultores cortavam num pedaço mel. Outros, como os cóis ou hotentotes, os fulas e os massais, de madeira a imagem de um ancestral. As oleiras faziam com da criação de gado. A maioria retira sustento do cultivo da terra. barro potes e gamelas. E os bardos, dielis ou griots, que eram mú- Mas os pastores, enquanto conduzem gado de uma pastagem sicos, poetas e historiadores, davam uma função nova às palavras para outra, colhem os frutos das árvores e o mel das colmeias quando compunham versos. que encontram no caminho, e suas mulheres podem cultivar ce- reais em pequenos roçados. Os lavradores não só pescam, caçam Mas havia povos, como os ibos, que, como você disse, não pos- e recolhem o que lhes dá naturalmente a terra, como também suíam reis... podem possuir cabras, ovelhas e bois. Nem reis, nem chefes permanentes, nem o que chamamos de estados. A unidade social era a aldeia ou um pequeno agru- Provavelmente, havia também uma grande diversidade de organi- pamento de aldeias, onde as decisões eram tomadas por um zações políticas na África. conselho dos chefes das famílias que ali viviam e impostas, em É verdade. Alguns estados estendiam-se por amplos territó- muitos casos, pelas associações de poder (as chamadas socieda- rios e eram formados por várias nações, sob o comando de uma des secretas), cujos membros usavam máscaras assustadoras e delas e a esses estados chamamos impérios. Havia reinos me- mantinham a ordem, castigando os que se desviavam das nor- nores, com uma ou mais nações. E outros ainda menores, que mas costumeiras. podemos comparar às cidades-estados da Grécia antiga. Essas A maioria das sociedades africanas era altamente hierarquiza- várias entidades políticas eram compostas geralmente de uma da. Nobres, plebeus, estrangeiros, escravos, homens e mulheres, família real, ou de duas ou mais famílias reais que se revezavam cada qual conhecia seu lugar nele ficavam desde nasci- no poder ou o disputavam pelo voto ou pelas armas. rei coman- mento e, em muitos povos, até após a morte, pois, de acordo com dava uma nobreza privilegiada e com essa minoria compartia o suas crenças, morto, se era aristocrata, continuava, no além, mando sobre os homens comuns e os escravos. aristocrata, e o escravo, escravo. Mas havia também sociedades Emalgumas sociedades, os ferreiros, os ourives, os escultores, que se regiam pelo mérito, nas quais poder do sangue se res- e os bardos formavam castas profissionais. Chamamos tringia às estirpes reais, e tanto um plebeu quanto um escravo20 A África explicada aos meus filhos podiam ascender às mais altas funções do estado, à fama e à opu- lência. Em outras, era a riqueza que determinava a posição social de cada indivíduo. E em outras, ainda, não havia diferenças, só se distinguindo dos demais os idosos que formavam o conselho dos anciões e, em caso de guerra, momentaneamente, aqueles tidos por mais capazes para conduzir a luta. Segunda conversaOntem estávamos falando das organizações políticas africanas. Quando surgiram os primeiros reinos na África? Não sabemos. Há mais de 5 mil anos, com certeza, pois data dessa época a união dos dois grandes estados que havia no Egi- to. Por volta de 2000 a.C., os egípcios se referiam ao reino de Cuxe, na Núbia. E o reino de Axum já existia no primei- ro século da era cristã. Não só os reinos surgiram muito cedo na África, como alguns deles perduraram durante Pode-se escrever uma história política com duração de muitos séculos não só do mas também de outros países. A da Etiópia, por exemplo, alonga-se desde Axum até a atual repú- blica, com uma única interrupção da independência, durante o domínio colonial da Itália, que durou apenas cerca de cinco anos, de 1936 a reino do Benim, que ainda hoje existe, integrado à Nigéria, tem mais de oito séculos de existência. Assim como os emirados de Kano, Zária e Katsina, também na Nigéria. Zanzibar foi um estado independente durante mais de 700 anos. Já outros, embora tenham sido poderosos, tiveram pouca duração: o reino angúni de Gaza, em Moçambique, du- rou pouco mais de 60 anos, e o sultanato fula de Macina, no atual Mali, apenas 44.24 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 25 Desses estados antigos, quais foram os mais famosos? ros. Conta mais Al-Bakri: que o rei amarrava um de seus corcéis Os que mais alimentaram a imaginação dos árabes e, mais a uma pedra de ouro que pesava quilos. tarde, dos europeus foram Gana e Mali. A mesma pedra de ouro vai reaparecer bem mais ao sul, no alto rio Níger, na corte do rei do Mali. grande viajante Ibn Ba- Esses dois países não existem até hoje? tuta, que andou por aquelas terras entre e 1353, viu esse rei, Não são os mesmos, embora o antigo Mali se localizasse em que tinha o título de mansa, dar audiência a seus súditos, de man- parte na atual República do Mali. O antigo reino de Gana tinha o to vermelho e gorro bordado em ouro, sentado em almofadas, seu núcleo provavelmente no sudeste da atual sob um grande guarda-sol encimado por um grande pássaro de Quando a colônia britânica Costa do Ouro, que assim se cha- ouro. Estava cercado por seus chefes militares, com espadas e mava porque era produtora desse metal, ficou independente, lanças de ouro. em 1957, já adotara como novo nome o de Gana, carregado de relato de Ibn Batuta apenas confirmava o que já corria o simbologia e prestígio, pois era nome de um reino que entrou mundo árabe e até a Europa cristã: que Mali era um reino na história como grande fonte de ouro. Sudão francês tam- simo em ouro. Isso ficara claro para os egípcios durante a passa- bém foi buscar no passado o seu novo nome, Mali. Com isso, gem pelo Cairo do mansa de nome Musa, em Ele entrou na esses estados recém-independentes procuravam mostrar que a cidade a cavalo, precedido por 500 escravos, cada um deles com África tinha uma longa história, que o colonialismo procurara um bastão de ouro. E gastou tanto, durante sua estada, sempre negar ou esquecer. pagando em ouro, que este perdeu valor. Num dese- nhado na ilha Maiorca, em 1375, por Abraão Cresques, o rei negro Quando existiu o reino de Gana? aparece vestido à européia, com cetro e coroa, a oferecer com a Gana aparece pela primeira vez num texto árabe do século mão direita uma grande pepita de ouro a um berbere a camelo. VIII, como o país do ouro. E é a abundância desse metal que fica na nossa memória quando lemos a descrição do rei e de sua cor- Não havia um pouco de exagero nesses relatos? te, feita no século XI por Al-Bakri, outro árabe, natural de Córdo- Talvez. Talvez os reis de Gana e do Mali não amarrassem o va, na Andaluzia. soberano vestia uma ampla túnica e tinha na cavalo numa grande pedra de ouro. Mas o fato é que a região da cabeça um turbante encimado por um gorro bordado em ouro. África onde ficavam aqueles países foi, durante vários séculos, Trazia colares e pulseiras também de ouro. Atrás dele ficavam até a descoberta do metal nas Américas, a grande fornecedora dez escravos, com espadas e escudos ornamentados de ouro. De de ouro ao mundo árabe e à Europa. Era para adquirir ouro que ouro eram os arreios dos cavalos do rei. E as coleiras dos cachor- as cáfilas, ou caravanas de camelos, atravessavam o Saara. E era26 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 27 com ouro africano que se cunhavam moedas na Europa e no e mal distribuídas, os africanos foram obrigados a desenvolver Oriente Médio. práticas agrícolas complexas. Muitos povos conheciam as técni- cas da irrigação, da rotação de plantios, da adubagem com esterco E de onde se tirava esse ouro? animal e restos de cozinha, da construção de socalcos ou platafor- De vários lugares. No caso do ouro que se comerciava em mas nas encostas das montanhas, a fim de impedir a erosão do Gana e no Mali, sobretudo de Bambuk, na forquilha formada solo e ali plantar. Misturavam também, na mesma gleba, diferen- pelo encontro dos rios Falemé e Senegal, e de Buré, no alto Níger. tes tipos de plantas, para assegurar a colheita de pelo menos uma ouro era obtido tanto no leito dos pelo sistema de lavagem delas. Assim, se o ano fosse mal para o painço, podia ser bom ou na bateia, quanto em minas. Cavavam-se poços quadrados, com razoável para o sorgo ou milho. uma profundidade que podia chegar a 20 metros. À medida que a escavação descia, suas paredes iam sendo reforçadas por vigas Nada disso combina, porém, com as idéias predominantes sobre de madeira. Numa delas havia uma espécie de escada, por onde os africanos do passado, e até mesmo do presente. A imagem que nos desciam e subiam os mineiros. Estes cavavam túneis horizontais passam deles é de selvageria e atraso. em várias direções e uniam os poços entre si. Mas, vejam. Quando portugueses e outros europeus come- Não só nesses dois lugares se produzia ouro. A Núbia abas- no século XV, a descer a costa africana, não predomina- tecia o Egito desde o século XVI a.C. Do planalto de Zimbabué va neles a impressão de que entravam em contato com povos descia até o porto de Sofala ouro com que se cunhavam as mo- primitivos e atrasados. Estranhavam os costumes dos negros, edas no Índico. O ouro viajava enormes distâncias de Lobi e do país axante, na atual República de Gana, ou de Zamfara, no mas não os olhavam com desprezo. Lastimavam que desconhe- norte da Nigéria, até Tombuctu, na curva do rio Níger levado cessem a verdadeira fé, mas só se consideravam superiores por serem cristãos. pelos mercadores em pequenos saquinhos e até mesmo, quando em forma de pó, dentro do pequeno tubo que existe nas penas Um visitante holandês do século XVII não escondeu a sua dos pássaros. admiração por Benim, uma cidade enorme, cortada por uma lon- ga avenida, que lhe parecia mais larga do que a principal rua de Pelo que nos disse, os africanos dominavam as técnicas de mine- Bem antes dele, os portugueses espantaram-se com ração do ouro. o tamanho de Ijebu-Ode e, mais ainda, com a sua muralha, que E muitas outras técnicas. Como as agrícolas, por exemplo. em alguns pontos alcançava os sete metros de altura e tinha qua- Num continente de solos em geral pobres e com chuvas escassas se quilômetros de comprimento. Vasco da Gama, ao chegar28 A África explicada meus filhos Alberto da Costa e Silva 29 à costa oriental da África, encontrou portos cheios de navios e costa mas, como os seus teares eram estreitos, deles só saíam de comerciantes de todas as partes do oceano Índico, bem como tiras de no máximo 25 centímetros de largura. cidades com casas parecidíssimas com as dos Algarves, em Por- Em muitas regiões da África, não havia família sem tear. tugal: com terraços, de pedra e cal, e pintadas inteiramente de Fiava-se e tecia-se em casa, na intimidade de um pátio prote- branco. Para muitos marinheiros ingleses, já no século XVIII, gido por muro ou cerca. Num conjunto de habitações de uma as habitações de barro socado e cobertura de palha que encon- família, os teares podiam chegar a meia dúzia. número era travam em Serra Leoa não eram piores do que as que conheciam ainda maior em oficinas, nas quais, como em Kano, no norte da nas áreas rurais de sua terra. Nigéria, trabalhavam familiares e escravos, a fim de produzir Ao chegarem à África, os portugueses logo reconheceram, para o comércio. por exemplo, a excelência do ferro que ali se produzia. Tanto que Em certos lugares, homens e mulheres fiavam e teciam; nou- o adquiriam para revendê-lo na tros, só as mulheres. E havia dois tipos básicos de tear: o horizon- Desde pelo menos 600 a.C., a África conhecia a metalurgia tal e o vertical. Eram muito simples feitos com alguns paus do ferro. Os nativos adotavam uma técnica de pré-aquecimento fincados no solo e algumas cordas nos quais, porém, se ob- dos fornos (que só seria desenvolvida na Europa no século XIX), tinham tecidos fortes e requintados. As tiras estreitas que saíam que lhes permitia obter um ferro, e também um aço, de alta qua- do tear eram cosidas umas às outras com tamanha habilidade lidade, comparável, e até superior, em alguns casos, ao que saía que, em muitos casos, a costura podia passar despercebida. Con- das usinas européias. produto africano apresentava, contudo, feccionava-se, assim, um pano com cerca de um metro de largura uma desvantagem, que derivava da dimensão dos seus fornos: e muitos de comprimento. suas barras eram Por isso, na forja, os africanos fa- ziam enxadas e facas, mas não grandes espadas. Nem capacetes. Só se fiava e tecia algodão? Nem couraças. Na maioria das regiões, usava-se o mas em outras, Problema semelhante se passava com a manufatura como no norte da Nigéria, entre os fulas e os hauçás, teciam-se também as läs de e de camelo, e, em outras, ainda, como Como assim? no Congo e em Angola, A fazenda de algodão era em ge- Os tecelões africanos produziam panos de algodão de ótima ral branca, e depois tingida ou estampada, sendo muito popular qualidade, que desde o século XII eram exportados para a Europa a de listras azuis e brancas. Faziam-se também panos entrete- e, a partir do século XVI, para o Brasil os famosos panos-da- cendo-se fios de diferentes cores, para criar motivos decorativos30 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 31 padronizados. Os axantes da atual Gana, depois da chegada dos requintadas jóias de ouro e prata, entre as quais merecem des- europeus, passaram a desfiar os tecidos de seda que deles adqui- taque as produzidas pelos axantes. riam, para juntá-los aos fios de algodão e tornar mais brilhantes os seus panos com desenhos e multicoloridos. Então, por volta de 1500, a África conhecia técnicas semelhantes Atualmente, usam-se carretéis de linha de seda comprados na às européias? Europa e no Extremo Oriente. Só em alguns setores. A África ao sul do Saara ignorava as O chamado "pano de palha" ou de ráfia não era, em geral, engrenagens, que nos moinhos substituíam, multiplicando, a usado como peça de vestimenta na região do Congo e de Angola, força humana e foram responsáveis, a partir do século por mas, sim, como moeda. Passava de mão em mão até se desgas- uma verdadeira revolução na vida econômica européia. Des- tar e puir, perdendo progressivamente o valor. Entre esses panos conhecia, para dar um outro exemplo, a roldana, que permitia de ráfia, alguns, em forma de um grande lenço quadrado, com até mesmo a um menino magricela tirar água de um poço. E cerca de 65 centímetros de lado, feitos no reino do Congo, eram não sabia da engrenagem e da roldana porque não inventara a tão finos e bonitos que mais pareciam, aos olhos dos europeus, roda nem a recebera de outros povos. Nenhum tipo de carro brocado, damasco e seda acetinada. rodava na África subsaariana. Em algumas poucas regiões, ha- Os tecidos recebiam com belos bordados, como via asnos e bois de carga, mas, na maior parte do continente, o ocorria e ainda ocorre na Etiópia e entre os mandingas, os nupes que não descia ou subia os rios em canoas era levado à cabeça e os hauçás, ou aplicações com imagens feitas de outras fazendas, das mulheres. Tampouco existiam na África ao sul do Saara como no antigo reino do Daomé e na atual República do Benim. instrumentos corriqueiros como o serrote, a plaina, o torno, o parafuso. Eles sabiam fundir outros metais? Claro. De ligas dé cobre, como o bronze e o latão, os seus Mas tudo isso não era conhecido na África ao norte do Saara, no escultores fizeram peças de grande tamanho, criaram obras de Egito e ao redor do Mediterrâneo? arte que figuram entre as mais belas já saídas das mãos dos Era. O mar Mediterrâneo foi, desde o início da História que homens. E isto desde possivelmente o século XI, em Ifé e em conhecemos, uma região de intenso comércio, de intensas tro- Igbo Ukwu, e desde o século XV no reino do Benim. Até hoje cas de bens, experiências, invenções e Estava ligado pe- ainda se fundem placas de bronze e esculturas no reino do Be- los navios e pelas caravanas ao resto da Europa e à Ásia. Recebia nim (que fica na Nigéria e não deve ser confundido com a atual novidades tanto das ilhas Britânicas quanto da China. O que se República do Benim). Em várias regiões da África, fabricam-se inventava numa terra distante não demorava a chegar ali.32 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 33 Se a África banhada pelo mar Mediterrâneo conheceu todas essas se explique por que os mercadores difundiram a coisas, por que elas não atravessaram deserto? sua fé, mas não as técnicas e as ferramentas de trabalho usuais Talvez, como já disse na nossa primeira conversa, porque as no mundo islâmico. caravanas fossem poucas e não chegassem a aproximar perma- Uma novidade trazida por uma caravana muitas vezes não nentemente as duas margens do deserto. De cada uma das ci- voltava na cáfila seguinte. As novidades não chegavam com a dades do norte da África que comerciavam com outro lado do persistência volume necessários para vencer as resistências Saara e em cada momento histórico, não somavam uma à mudança em populações formadas em grande parte por cam- dezena saíam apenas uma ou duas cáfilas por ano. E havia poneses. Geralmente, estes não se mostravam propensos a aban- anos em que não saía nenhuma. donar seus modos de trabalho tradicionais e só aceitavam o que Os camelos atravessavam o deserto com sal, tecidos de e era novo, quando suas vantagens já tivessem sido provadas. Não de linho, espadas, contas de Veneza e de coral, objetos de cobre demoraram, por exemplo, a cultivar o milho, a batata-doce e o e outros artigos de luxo. Excetuadas as barras de sal, todos eram amendoim, trazidos do Brasil pelos portugueses, mas se apegam bens de pouco peso e de grande valor. Como os camelos não se até hoje à enxada de cabo curto, ainda que conheçam a de cabo adaptavam à savana nem, muito menos, à floresta, esses produ- comprido, introduzida pelos europeus. tos trocavam de mãos na borda do deserto. Acresce que os reis e os grandes chefes, tendo a seu serviço Os comerciantes que iam levá-los para a savana e para a flo- um grande número de familiares, agregados e escravos, não ti- resta não èram os mesmos que tinham atravessado o deserto. nham maior interesse em instrumentos poupadores de trabalho. Alguns deles, é bem verdade, eram provenientes da África do Desejavam, das caravanas, os bens de luxo, para uso próprio ou Norte e até do Iraque e da Síria, que se haviam instalado no para presenteá-los aos súditos poderosos e assegurar sua fideli- Bilad al-Sudan em busca de riqueza ou como agentes de casas dade. E, mais ainda, as armas. comerciais com matriz no outro lado do deserto. Conheciam a Alguns deles procuravam adotar as novas armas e as novas roldana e o serrote, mas não sabiam fazê-los nem encontravam táticas de guerra de que tomavam conhecimento, mas mesmo motivo para importá-los. Ninguém iria adquiri-los. Se manda- essas tardavam a se difundir. A sela com estribos já era conheci- vam buscar seleiros, para consertar as selas dos camelos e ensi- da pelos árabes desde o século VII, mas só quase 700 anos mais nar a gente da terra a fabricá-las, não precisavam de quem sou- tarde começaria a ser utilizada do outro lado do Saara. Surgem besse construir carros de rodas, que não tinham condições de então, na África ao sul do Saara provavelmente, pela primeira competir com os camelos no deserto, nem eram de utilidade nas vez, no Mali - as cargas pesadas de cavalaria, com guerreiros savanas sem estradas e muito menos nas florestas. Talvez assim protegidos por capacetes de ferro e cotas de malha e armados de34 A África explicada aos meus filhos lanças longas e espadas. Como já era de praxe nas batalhas que se travavam na Europa, na mesma época. Vemos no mapa que a Arábia está quase colada à África. Por que as técnicas e os instrumentos desenvolvidos pelos árabes ou por eles conhecidos não atravessaram mar Vermelho e oceano Índico e se difundiram pelo continente africano? Os tripulantes dos barcos árabes, persas, indianos e indoné- sios que comerciavam nos litorais africanos do Índico deixavam- se ficar nas ilhas junto à costa. As populações mestiças, que se Terceira conversa formaram nessas ilhas e que se dedicaram principalmente ao comércio, pouco influenciaram as do continente. Quanto aos que mantinham relações com a penínsu- la Arábica, eles se isolaram, nas suas altas montanhas, do resto da África.Como eram as relações comerciais dos litorais da África banha- dos pelo oceano Índico com os árabes, os persas, os indianos e os indonésios? No início da era cristã, um grego, ou egípcio convertido à cul- tura grega, escreveu um livro, Périplo do mar eritreu, com in- formações para os navegadores e comerciantes sobre os portos que havia na costa africana do Índico e as mercadorias que neles se vendiam e compravam. Esse comércio vinha de muito antes, envolvendo egípcios, gregos, e árabes. E seria, depois, dis- putado por romanos e persas. Foi, porém, após a conversão da península Arábica e da Pérsia ao credo de Maomé que esse comércio tomou maior vulto. É des- sa época que as crônicas locais - como a Crônica de Quíloa, um livro escrito provavelmente na primeira metade do século XVI datam a chegada dos primeiros grupos de imigrantes muçul- manos e a fundação de colônias nas ilhas próximas ao litoral. É possível que comerciantes estrangeiros já estivessem es- tabelecidos em algumas delas, desde muito antes. E temos um motivo para pensar assim. A navegação no oceano Índico era re- gulada pelo fenômeno das monções. De novembro a março, os ventos sopram de nordeste para sudoeste; de maio a setembro, no sentido inverso.38 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 39 E nos meses de abril e outubro? seus pais e Falavam um idioma banto, o suaíli, que se São meses de transição. Em abril, pode continuar a soprar tornou a língua de quase toda a costa, e adotaram os costumes vento de nordeste para sudoeste ou já começar o vento contrá- bantos, ainda que submetidos às normas do islamismo e im- rio. Em outubro, ou continua a soprar o vento do sudoeste ou pregnados de traços culturais dos países de origem de seus an- já principia o do nordeste. O importante é que os barcos a vela tepassados paternos. tinham de acompanhar a direção dos ventos. Ora, nem sempre Não só comerciantes se instalaram nessas ilhas. Elas serviram uma embarcação originária do golfo de Cambaia ou de con- também de refúgio para perseguidos religiosos e políticos. As seguia chegar a um porto da África Oriental, como Quíloa, antes crônicas e as tradições locais referem-se a príncipes e a hereges de fins de fevereiro ou início de março. Passava, depois, algum árabes e persas foragidos de suas terras que foram criar cidades- tempo a adquirir a quantidade desejada de ouro, âmbar, presas estados em diferentes pontos da costa índica da África. Quando de elefante, chifres de rinoceronte, carapaças de tartaruga, plu- os portugueses lá chegaram, no fim do século XV, encontraram mas de avestruz, peles de animais selvagens, e outros em Sofala, Quelimane, Angoche, Moçambique, Quíloa, Mafia, produtos aromáticos. Quando barco completava a carga, já era, Zanzibar, Pemba, Mombaça, Gedi, Melinde, Lamu, Manda, Pate, por exemplo, fim de julho, e seria temerário empreender a via- Brava, Merca e Mogadixo pequenos reinos chefiados por emires gem de volta. e xeques mulatos ou negros, com populações que rezavam na Mercadores e marinheiros viam-se obrigados, então, a perma- direção de Meca e seguiam os preceitos do islamismo. necer em Quíloa até maio do ano seguinte, à espera da monção de Presentes na costa índica da África há quase um milênio, os sudoeste. Compravam, alugavam ou construíam casas uniam-se mercadores devem ter aprendido desde cedo a ir a mulheres da terra e ampliavam suas ligações comerciais. Alguns buscar no interior do continente os produtos que desejavam ad- viram as oportunidades que se abriam para quem ali se insta- quirir. É verdade que, transpostas as praias, na maior parte da lasse de forma permanente ou semipermanente, adquirindo as região a terra era hostil, coberta por uma vegetação espinhenta, mercadorias e as armazenando, a fim de tê-las à disposição dos a nyika, na qual estava presente a mosca tse-tsé, transmissora navios logo que estes chegassem ao porto E começaram até a ir da doença do sono. A ambição da riqueza faria com que alguns buscá-las, com seus barcos, em outros pontos da costa. Torna- habitantes do litoral ameno se arriscassem a entrar nesse difícil ram-se também fornecedores de alimentos aos navios estrangei- sertão. Entravam como mercadores, mas não contribuíram para ros e donos de plantações no continente defronte. a difusão de novas técnicas, de novos instrumentos e de novas Os filhos e netos desses colonos com mulheres locais cres- idéias, a não ser o islamismo e, posteriormente, as armas de fogo, ciam africanizados, mas sem perder contato com a pátria de que tornariam menos perigosa a caçada aos elefantes.40 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 41 Você disse, em nossa anterior, que os portugueses se es- ocidente. Para o sul, o Atlântico era, porém, até o início das nave- pantaram, ao chegar a essas cidades-estados, com número de navios gações portuguesas, um oceano vazio de barcos a vela. e volume de comércio que encontraram. Encontraram de fato cidades ricas de tudo o que mais dese- Mas os portugueses não sabiam que havia ouro ao sul do Saara? javam: ouro, prata, pérolas, marfim, âmbar, sedas, damascos, Sabiam. E, desde o início de sua aventura marítima, procura- cravo, pimenta, canela, gengibre, noz-moscada, lacas, faianças e ram obtê-lo nas costas africanas. Tanto assim que, já na penúlti- porcelanas. Como está em Os lusíadas, de Camões, e em Décadas, ma década do século XV, ergueram um castelo numa região onde do cronista João de Barros. Nesses portos entravam e saíam todas os grandes da terra usavam jóias de ouro e lhe deram um nome as semanas vários barcos, alguns muito grandes, em mãos de que diz tudo: São Jorge da Mina, pois acreditavam que as minas marinheiros hábeis, que conheciam a bússola, quadrantes e car- de ouro ficavam ali, bem próximas ao litoral. tas de marear. Para os portugueses tudo era motivo de surpresa e Mais do que um estabelecimento militar, São Jorge da Mina pasmo. Já para um comerciante muçulmano experiente, aquelas era um enorme depósito comercial fortificado. Uma grande fei- cidades eram parceiras menores dà grande rede comercial do toria de pedra, como outras que seriam erguidas nas costas do dico e formavam o limite ocidental daquele que era então mais Atlântico e do Índico. Poucas, quando comparadas com as cerca- rico de todos os oceanos. das por paliçadas ou por muros altos de barro, à africana. Tanto aquelas quanto estas necessitavam, para serem ergui- E Atlântico, não tinha importância? das, do consentimento dos reis e chefes locais, que recebiam Até se descobrirem prata e ouro no continente americano e aluguel e tributos. Era raro, raríssimo, que o senhor africano se firmar a produção de açúcar no Brasil, o Atlântico ao sul do concedesse aos europeus uso de terra para cultivo, de modo trópico de Câncer era visto sobretudo como um caminho para que a gente da fortaleza ou da feitoria dependia da vizinhança o Índico. Descia-se a costa da África para se chegar à Índia e à para alimentar-se e, em alguns casos, até mesmo para se China. abastecer de água. Os reis africanos em cujos domínios ficavam Na parte norte do Atlântico, havia, é certo, um comércio cos- esses estabelecimentos europeus tinham sobre eles firme con- teiro muito antigo, desde o Marrocos até a Me- trole. Se os europeus os desgostassem ou deixassem de efetuar diterrâneo fazia parte dessa rede comercial, e os navios saídos os pagamentos devidos, simplesmente lhes cortavam não só o do continente iam ter às ilhas Britânicas e à Os barcos comércio com a gente local e os mercadores do interior, mas dedicados à pesca do bacalhau podiam avançar ainda mais para o também a comida e a água.42 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 43 E os europeus não reagiam? Não tinham eles, nesses fortes, armas anos seguintes, atacados por malária, febre amarela, parasitas mais poderosas como canhões e espingardas? intestinais, doença do sono, esquistossomose, verme-da- Tinham. Mas, no início, os canhões não dispunham de rodas guiné e cegueira dos rios. que não falta nos relatos dos respon- ficavam imóveis no alto dos muros e atirando numa só dire- sáveis por esses entrepostos, e também nos dos viajantes e dos ção e o número de soldados era sempre pequeno. Não havia capitães de navios, são referências a mortes por diarréia e febres. condições para tentar romper um cerco. E os acabariam Os que viviam nesses estabelecimentos passavam boa parte do por submeter os estrangeiros pela fome. É preciso lembrar que tempo cuidando dos enfermos e enterrando os mortos. Pode-se as armas de fogo eram, até o século XIX, carregadas pela boca. dizer que o mosquito, responsável pela transmissão da malária e Primeiro, punha-se a bucha, depois, a pólvora e, finalmente, a da febre amarela, foi o grande aliado do africano contra as ambi- bala. Entre um tiro e outro podia passar tempo suficiente para ções de conquista européias. um bom arqueiro disparar meia dúzia de flechas, que em muitos lugares eram envenenadas e só precisavam atingir de raspão a ví- Se estavam, como você disse, à mercê dos africanos, por que os eu- tima para matá-la. Se os europeus fossem muitos o que quase ropeus insistiam em fortificar esses estabelecimentos comerciais? nunca era o caso eles poderiam fazer uma barreira de fogo Para se protegerem principalmente de outros uns alimentando as armas, enquanto outros atiravam e um vam preocupados com os inimigos que vinham pelo mar. Com terceiro grupo se preparava para atirar mas, mesmo assim, a gente da terra, aspiravam à amizade ou, pelo menos, ao bom era difícil fazer frente a muitas centenas, quando não a milhares entendimento necessário ao comércio. Era, aliás, comum que os de guerreiros africanos. Na realidade, os europeus só consegui- europeus que neles viviam formassem família com as mulhe- ram, militarmente, uma superioridade nítida sobre os africanos res locais. Elas e seus filhos serviam muitas vezes de intermediá- com o rifle de ferrolho e o rifle de repetição e se fizeram imba- rios entre a feitoria e a cidade ou aldeia africana que a cercava. tíveis com a metralhadora. mesmo se passava com aqueles aventureiros ou degredados que os barcos portugueses deixavam nas costas da África, que Você disse que os europeus eram sempre poucos nesses fortes e receberam os nomes de lançados ou tangomãos e cujas histórias, torias. Por quê? sob muitos aspectos, se assemelham às dos nossos Caramuru e Porque não tinham resistência às enfermidades tropicais. Já João Ramalho. Casavam com mulheres da terra, africanizavam- se calculou que, de cada dez europeus que se instalavam na Áfri- se, ao mesmo tempo que as europeizavam, e serviam de agentes ca entre os séculos XVI e XIX, seis morriam no primeiro ano comerciais para os reis e mercadores africanos e para os entre- quando não nos primeiros meses e mais dois faleciam nos postos europeus.44 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 45 Eram eles dos poucos que conseguiam penetrar nas redes vezes, procuravam marcar, na maneira de vestir, no uso de tur- mercantis africanas e viajar sertão adentro, pois os reis da costa bantes e de crucifixos pendurados ao pescoço e na construção proibiam aos brancos o acesso ao interior e os negociantes afri- de casas com janelas, telhado de duas águas e paredes pintadas canos guardavam cuidadosamente os segredos de suas rotas e de branco, a diferença em relação ao resto do povo a que perten- de seus mercados. Os que comerciavam com o ouro não infor- ciam. Mas dele não se dissociavam, até porque nas suas relações mavam onde o obtinham e satisfaziam os curiosos dizendo, por familiares e algumas delas eram de estirpe real ou aristocráti- exemplo, que o adquiriam de uma gente feroz, com rabo e cabeça ca residia grande parte de sua força. Não faltam exemplos de de Essa invencionice tomou tamanho jeito de verdade que nharas que, viúvas, se casaram novamente com europeus e havia, ainda na metade do século XIX, quem andasse em busca algumas, mais de uma vez. Ficavam viúvas duas, três ou quatro desses homens com vezes e herdavam os negócios de todos esses maridos. A mortandade entre os europeus que se instalavam na África era E que acontecia com os filhos? enorme. Mas, pelo que entendi, aqueles que resistiam por alguns meses Eram educados nas duas culturas. Se a mulher era, por às doenças casavam-se em geral com africanas. O que acontecia com exemplo, banhum e o pai era português, os filhos se transfor- as mulheres, quando os maridos morriam? mavam em súditos do rei da terra e serviam em suas tropas, Essas senhoras ficavam com aquela parte dos bens do marido mas se consideravam ao mesmo tempo portugueses. E as filhas que não era confiscada pelo rei da E, mais importante ain- procuravam tornar-se também nharas. da, com as suas relações comerciais. Continuavam à frente dos seus Muitas delas enriqueceram e se tornaram conhe- As feitorias não serviram para romper o isolamento da África e cidas como donas ou nharas sinharas, que são corruptelas, isto para difundir as técnicas desenvolvidas na Europa? é, alterações, da palavra portuguesa "senhora" Muitos africanos aprenderam nas feitorias a usar a roldana O comércio local, nas feiras e mercados africanos, era, e con- e o carrinho de mão. Mas algumas gerações se passariam antes tinua a ser até hoje, dominado pelas Quando elas se que pudessem exercer os seus novos ofícios fora delas. Os chefes ligavam.a portugueses ou a outros europeus, transmitiam a eles africanos não tinham interesse pelo que consideravam extrava- o conhecimento de como operavam esses mercados e sobre as gâncias. Ou eram seletivos: acolhiam umas e outras não. Desde rotas que os ligavam ao interior. Aprenderam ao mesmo tempo, o início, procuraram obter armas de fogo e quem os ensinasse a com eles, as manhas do comércio com os brancos. Europeiza- manejá-las. Contudo, deram pouca atenção aos carros de roda, até vam-se. Algumas se convertiam ao catolicismo e, na maioria das porque não tinham quem os puxasse: nas terras próximas ao lito-46 A África explicada meus filhos Alberto da Costa e Silva 47 ral, os cavalos eram caríssimos morriam em pouco tempo. Os os nobres passaram a ser barões, condes, marqueses e duques. carros podiam ser puxados por escravos, mas estes tinham melhor E a se vestir como portugueses. Fora da capital, Banza Congo emprego carregando as redes nas quais os reis, os nobres e outros ou São Salvador, não se impôs, porém, a casa de tijolo e telha. poderosos passaram a viajar, ou até mesmo a Como vêem, Nem se difundiram a ponte de pedra, o arado, o carro de roda, não adotaram o carro, mas não demoraram a utilizar a rede trazida os moinhos de água e vento, o barco com várias velas, o serrote, do Brasil, não para dormir, mas para viajar. a broca e tudo o mais que fizera a Europa adiantar-se tecnica- mente à África. Foi assim por toda parte? D. Afonso pretendia que os portugueses ensinassem aos con- Não. No reino do Congo, que ficava no noroeste da atual re- gos como construir um grande navio e manejá-lo, a fim de que pública de Angola, temos uma história diferente. Desde a vinda, pudesse comerciar sem intermediários com a Europa. É evidente em 1483, dos primeiros portugueses, os congos perceberam que que isso não interessava a Portugal, mas o monarca português os recém-chegados dispunham de recursos técnicos muito mais desenvolvidos e eficazes do que os conhecidos por sua gente. E procurou atender aos demais pedidos do manicongo. Não era fá- que deviam, por isso, contar com um deus poderosíssimo. Se pu- cil, porém, conseguir quem quisesse ir para o Congo. E boa par- dessem aprender com os europeus, os congos seriam mais fortes te dos que lá chegavam morria, meses depois, de malária, febre que todos os reinos vizinhos. amarela ou diarréia. Os que resistiam às doenças logo abandona- rei do Congo, ou manicongo, Nzinga a Nkuwa, converteu- vam o ensino e o exercício de seus ofícios e se transformavam em se ao catolicismo e foi batizado com o nome de D. João. Antes, comerciantes de escravos. Até padres e frades se fizeram merca- havia pedido ao soberano português que recebesse rapazes do dores de gente. Primeiro, para São Tomé e São Jorge da Mina. seu reino, para se educarem em Portugal e lhe mandasse padres Mais tarde, para o Brasil. católicos, para instruir o povo na e mestres de ofício, comércio de escravos fez com que se frustrasse o projeto para que lhe ensinassem as técnicas desejadas. de modernização do Congo. Fazer e vender cativos tornaram-se Tanto ele quanto seu filho e sucessor, D. Afonso, que foi um a maneira mais fácil de enriquecer. Não só os portugueses, mas católico fervoroso e culto, esperavam, com a ajuda portugue- também os aristocratas congos a isso se entregaram sem limites. sa, modificar inteiramente o país E o fizeram, mas de modo Era com escravos que os nobres congos conseguiam as armas e muito imperfeito. A maioria dos congos converteu-se ao cato- os artigos portugueses a que se haviam acostumado, e tão grande licismo, e muitos aprenderam a ler e a escrever. A aristocracia era o desejo por esses bens que, para obtê-los, passaram a vender abandonou os seus títulos tradicionais e adotou os os próprios dependentes, os próprios congos.48 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 49 D. Afonso sentiu o perigo que corria o seu reino, que se estava cito pessoal do rei era formado por escravos. O Congo passou a despovoando. E escreveu, em 1526, uma carta ao rei de Portugal, girar em torno da escravidão, e os projetos modernizadores fo- em que manifestava o desejo de que não mais se exportassem ram esquecidos. escravos nem se importassem mercadorias portuguesas, exceto o seriam, aliás, um dos motivos da guerra, em trigo para a feitura da hóstia e o vinho para a missa. Pediu mais: 1665, entre o manicongo D. Antônio I e o governador de Luanda, que só fossem para o Congo missionários e professores. André Vidal de Negreiros o mesmo André Vidal de Negreiros que fora um dos líderes na luta contra os holandeses no Nordeste Conseguiu ele parar comércio de escravos? do Brasil. A grande batalha deu-se em Ambuíla, e os portugueses Não só esse não cessou, como se expandiu, para atender saíram vitoriosos. Nela, D. Antônio perdeu a vida. a uma demanda crescente, sobretudo depois que a fabricação do Pode datar-se de então a decadência do reino do Congo. Mas açúcar começou a aumentar no Brasil. O próprio D. Afonso não os portugueses não ocuparam, sequer parcialmente, o seu terri- ignorava que, para se manter no poder, necessitava de armas e tório, porque não dispunham de força para isso. Voltaram para de artigos de luxo importados, com os quais premiava a nobreza Luanda, em vez de se dirigirem para a capital, São Salvador. que lhe era fiel. E sabia que não tinha com que pagá-los, a não ser escravos. Continuou a proibir que se cativassem os congos, E que aconteceu depois? a haver um manicongo? mas não se opunha a que se reduzisse à servidão os angicos, os ambundos e os iacas, por exemplo, que tinham fronteiras com No Congo, sucederam-se as disputas sucessórias, com os por- as suas terras. tugueses procurando influir em algumas delas. O poder, porém, Nas décadas seguintes, aumentou a exportação de gente. Ao fragmentou-se: não só às vezes havia mais de um manicongo, mesmo tempo, Congo se encheu de escravos. Havia uma escra- como este, embora importante simbólica e ritualmente, passou a vidão antiga no país, mas era predominantemente doméstica: os ser detentor de um título esvaziado de autoridade. O manicon- cativos aumentavam a força de trabalho de uma família e faziam go entronizado em São Salvador era reverenciado pelos congos, as mesmas tarefas que o dono, suas mulheres e seus filhos. Isso mas quem mandava de fato, fora dos limites da capital, eram os se alterou radicalmente. número de escravos passou a ser mui- grandes nobres, os chefes hereditários das províncias. Só a partir to maior do que o de pessoas livres, e estas passaram a viver do de 1885, e após várias campanhas militares malogradas, os por- trabalho daqueles. Quase toda a produção tornou-se dependente tugueses conseguiram ocupar paulatinamente o litoral do antigo da mão-de-obra cativa, com os donos apenas a vigiar os escravos, reino do Congo. Três anos mais tarde, imporiam sua autoridade quando não dispunham de feitores para Até mesmo o exér- militar e administrativa em São Salvador.50 A África explicada meus filhos Alberto da Costa e Silva 51 Os portugueses levaram, portanto, quatro séculos para dominar E no Índico? reino do Congo. Foi assim com os europeus em outras partes da A situação não era muito diferente. Tanto a ilha de Moçambi- África? que quanto Sofala, Quelimane, Inhambane, Lourenço Marques Foi. Na metade do século XIX, os europeus tinham o contro- e outras possessões portuguesas tinham de lidar com a benevo- le sobre uma parcela muito pequena da África ao sul do Saara. lência ou a hostilidade dos emires e xeques das várias cidades- Mesmo assim, um controle relativo, contestado nas áreas de estados vizinhas e não esquecer a proximidade fronteira, uma fronteira que se alargava ou reduzia, conforme protetora do sultão de Zanzibar. Sobre Zambeze, duas cidades, as circunstâncias. Os franceses estavam instalados na cidade de Sena e Tete, hasteavam a bandeira portuguesa, e, ao longo do rio, Saint-Louis, em seus arredores e na ilha da Tinham tam- sucediam-se os prazos. bém algumas fortalezas no rio Senegal, cercadas de africanos Esses prazos eram grandes extensões de terra concedidas pelo por todos os lados. As possessões portuguesas não passavam rei de Portugal, pelo monomotapa (ou rei dos xonas carangas) e de enclaves, alguns deles pequenos, como Cacheu e Bissau, e outros chefes africanos a colonos portugueses e que podiam ser até diminutos, como a fortaleza de São João Batista de Ajudá herdadas por suas filhas, em geral mulatas, desde que se casas- não maior do que uma chácara. domínio sobre as terras que sem com portugueses. Os titulares dos prazos, prazeiros ou pra- hoje formam Angola, embora extenso, se restringia, no litoral, zeiras, comportavam-se, porém, como chefes africanos. Se po- às áreas entre a foz do rio/Lifune e a boca do Cuanza, e entre o diam acudir ao governador português de Moçambique com suas rio Quiteve e a cidade de Benguela, a isso se somando, ao norte tropas privadas de soldados-escravos ou chicundas, não hesita- do rio Congo, o entreposto de Cabinda. Para o interior, a fron- vam em desafiar-lhe a autoridade. teira avançava e recuava, mal chegando a 200 quilômetros do No que hoje é a África do Sul, havia quatro grandes enclaves litoral. Os limites da influência portuguesa eram marcados, no europeus. Os ingleses tinham ali duas possessões: a do Cabo da interior, por alguns presídios, nome que se dava às vilas fortifi- Boa Esperança, em permanente expansão para o norte e para cadas que tinham por principal missão proteger os mercadores. o leste, e a de Natal, no oceano Índico. No interior, havia dois Esses presídios eram, porém, ilhas em territórios dominados estados bôeres: a República do Transvaal e o Estado Livre de por africanos, e, sem o consentimento de seus reis e pagamento Orange. Esses bôeres eram os descendentes dos holandeses, de imposto, nesses territórios não se comerciava, nem por ele franceses e alemães que se haviam instalado na África do Sul passavam as caravanas. E o mesmo ocorria com os fortes que os desde o século XVI. ingleses tinham na Costa do Ouro.52 A África explicada aos meus filhos Olhando mapa, os espaços sob o domínio europeu, em 1850, não chegavam sequer a 5% da África ao sul do Saara. É verdade. E a situação só começou a mudar uns dez anos depois. Sobretudo nas duas últimas décadas do século. Um após outro, os grandes e os pequenos estados africanos foram caindo em mãos européias. A conquista foi, porém, mais difícil e lenta do que se pensa. O califado de Socotô, no norte da Nigéria, por exemplo, só foi derrotado pelos britânicos em 1903. E em muitos lugares a resistência armada à ocupação européia alongou-se por Quarta conversa vários anos mais.A primeira obrigação de um africano era e continua a ser para com a sua família. E não apenas para com aquela com- posta por marido e mulher, seus pais, filhos, netos, irmãos e so- brinhos, mas por uma família muito mais extensa - a linhagem, formada por todos os indivíduos que possuem um antepassado comum conhecido. Os vínculos de lealdade e os deveres de ajuda podiam, no passado, ser ainda mais amplos e se estender, entre alguns povos, (ao isto é, a todos os membros de várias linha- gens que se consideravam descendentes de um ancestral mítico, fosse ele um ser humano perdido na história ou criado pela ima- ginação, ou um animal - um animal real ou fantástico. Fortes ainda no campo e nas aldeias, essas obrigações de cooperação e socorro entre os que pertencem à mesma linhagem persistem, ainda que abrandadas, entre os habitantes das grandes cidades. Assim, um rapaz que chegue a Abidjan, vindo de um vi- larejo no interior da Costa do Marfim, procurará um parente que lá viva, e este não deixará de abrigá-lo, por menores que sejam os cômodos onde more, nem de auxiliá-lo financeiramente, se necessário. Só em casos extremos alguém negará a um parente a ajuda e a solidariedade. Na África não se separa a pessoa de seu Por isso, anti- gamente, entre muitos povos, a família era responsável pelos atos56 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 57 de cada um de seus membros. Se um deles contraía um emprés- tissem os seus recursos. Quanto mais esposas possuísse um in- timo e não o pagava, a família tinha de fazê-lo. E, se cometia um divíduo, mais rico e poderoso ele se mostrava. crime, os seus parentes mais próximos podiam, juntamente com ele, ser castigados vendidos como escravos, por exemplo. Ter muitas mulheres era, então, um sinal de riqueza? Não só um sinal riqueza, mas também uma fonte de rique- Tanto os parentes de parte de pai quanto os de parte de mãe? za. Na maioria das sociedades africanas, a prosperidade de um Dependia de como se organizava a família. Alguns povos afri- chefe de família dependia do número de mulhe- canos são como nós: uma pessoa faz parte ao mesmo tempo de res, filhos, noras, demais parentes, agregados e escravos que duas famílias, a da mãe e a do pai. Na maior parte dos povos, tivesse a trabalhar para ele. Às mulheres cabia o grosso das la- porém, não é assim. butas agrícolas. Os homens derrubavam as matas, mas eram as Em muitos deles, os filhos pertencem somente à família do mulheres que preparavam os campos com suas enxadas, semea- pai e seus antepassados são apenas os da linha paterna. Mas entre vam, regavam e colhiam. Eram elas que cuidavam das criações de outros ocorre contrário: só a família da mãe conta. Ao primeiro aves, cabras e suínos. Fiavam, teciam, moldavam no barro potes, tipo de família chamamos patrilinear; ao segundo, matrilinear. pratos e travessas. E levavam que produziam para vender nos Na maioria dos povos matrilineares, a mulher morava com a mercados. Além disso, faziam todas as tarefas de casa: cozinhar, família do marido. Os filhos, quando chegavam aos cinco ou seis varrer, lavar roupa, ocupar-se das crianças. anos de idade, se separavam dos pais e passavam a viver na casa de um irmão da mãe, para se integrar à sua verdadeira família. O homem, pelo visto, não fazia quase nada. Ficava vendo as mu- Eles seriam criados, portanto, pelas mulheres desse tio materno. theres trabalharem. Os homens derrubavam as matas para abrir espaço para as ro- Pelas mulheres ou pela ças. Construíam as casas e lhes reformavam os tetos e as paredes, Por suas mulheres ou por uma Quase todas as socie- antes da estação das chuvas. Escavavam barcos nos grandes tron- dades africanas eram polígamas: os homens podiam ter várias de árvores. Remavam. Cuidavam do gado bovino. Caçavam. E esposas. E é assim até hoje, exceto entre aqueles que seguem eram soldados. Ainda assim, penso que as mulheres eram respon- zelosamente cristianismo. sáveis pela maior parte das atividades produtivas. Além de produ- Os podem casar-se com quatro mulheres e ter toras, elas eram também reprodutoras: com os filhos aumentava um número indefinido de concubinas. Já os adeptos das religiões o número dos componentes do grupo. Daí o valor que tinham tradicionais africanas podiam ter tantas mulheres quanto-permi- dentro da família, que cobrava caro para cedê-las em casamento.58 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 59 homem que quisesse casar-se com uma mocinha tinha de pagar bens. Antigamente, entre os as mulheres possuíam suas por ela. Os europeus chamaram a isso "o preço da noiva". próprias escravas, que não se confundiam com as do marido. Os homens, então, compravam as suas futuras esposas. Não te- Se entendi bem, as mulheres podiam ser, em certas sociedades da riam elas, por isso, uma posição subalterna no casamento? África tradicional, muito mais independentes do que as européias, até Não se entendia que o.homem estivesse comprando a noiva. bem avançado século XX. Estava, isto sim, compensando a família pela falta que ela fa- E talvez fossem também, em muitas sociedades africanas, ria. Estava indenizando a família pela perda. preço da noiva mais poderosas politicamente. Podiam não só, como na Europa, não é, portanto, um costume que desmereça a mulher; ao con- exercer posições de autoridade rainha, regente, sacerdotisa ou trário, a valoriza. Se o matrimônio malograsse e se seguisse o alta funcionária de palácio mas também ser um contrapeso divórcio, a moça retornava para a sua família, que devolvia ao forte ao predomínio político masculino. No império da Lunda, ex-marido os bens que dele recebera, ou parte deles. por exemplo, nada se decidia em conselho sem a presença e a que desejo deixar claro é que, na África, a mulher tem um aprovação de uma chefa, a luconquexa, que representava as mu- alto valor. E ela não vê sua importância diminuída numa família lheres. E no reino do Daomé, cada ministro homem tinha sua polígama. É bem verdade que, nas regiões de islamismo mais equivalente, dentro do palácio, numa esposa do soberano, que o estrito, as mulheres ficam encerradas em casa e só raramente vigiava e lhe controlava as ações. saem à rua, cobertas por um véu e na companhia do marido. Em A mulher podia ser tudo isso, mas, como ocorre em todas as quase todo o resto da África, porém, guardam uma grande inde- sociedades, era, antes de mais nada, mãe. E a africana é mãe tão pendência em relação aos homens. devotada que, em muitos povos, ao ter uma criança, se afasta Num conjunto habitacional familiar tradicional, há casas di- temporariamente do marido para se dedicar inteiramente ao fi- ferentes para o marido e cada uma de suas mulheres. Estas são lho, até que o deixe de amamentar, aos dois ou três anos de idade. senhoras de suas casas, nas quais o marido entra quase como E não era nem é incomum que a mulher, após o parto, ou mesmo visitante. Elas podem ter a iniciativa do divórcio e participar da antes dele, procurasse para o marido uma nova esposa. escolha das outras esposas que tome o marido. Geralmente, guardam para si os produtos de suas hortas e os ganhos de seu Por que não podia ela dividir-se entre os cuidados com o filho e as comércio e convém não esquecer que as mulheres, sobretudo atenções ao marido? Uma coisa, entre nós, não exclui a outra. na África voltada para o Atlântico, dominam o comércio a vare- Porque na África um grande número de crianças morria, e jo e conservam, separados do patrimônio do marido, os seus ainda morre, nos primeiros anos, quando não nos primeiros me-60 A explicada meus filhos Alberto da Costa Silva 61 ses ou semanas de vida. Toda a dedicação é pouca para garantir Era, fazia, morria. Você usa todo tempo os verbos no passado. a sobrevivência do menino ou da menina. Não só a família, mas Atualmente, não é mais assim? também as vizinhas procuravam proteger a criança. E as outras Aqui, é; continua a ser. Ali, já não é mais, a não ser de forma mulheres do pai do bebê eram, em geral, especialmente cuidado- modificada ou incompleta. Acolá, está deixando parcialmente de ser. Os modos de vida dos diferentes povos africanos foram se sas e dedicadas. construindo ao longo dos séculos, num processo que privilegiava a continuidade sobre a mudança. O impacto das influências eu- Não havia ciúmes entre elas? ropéias, a crescente urbanização e O êxodo da solidariedade das Havia, e não só do marido. Também dos filhos. As mulhe- aldeias para individualismo e a pobreza nas grandes cidades res competiam entre si pelas atenções do homem, e cada mãe apressaram, porém, a alteração dos costumes. Mas as antigas se esforçava para que os seus filhos fossem os prediletos do pai maneiras de ser resistem onde, como e quanto podem. Assim, e aqueles a ter os melhores destinos. A disputa podia ser aberta quando eu usar o verbo no passado, tomem-no como também ou dissimulada, e não excluía os golpes baixos. Formavam-se, no presente. Quando eu disser que os filhos das várias mulheres vezes, partidos entre as mulheres, duas ou três a somarem forças de um homem se criavam juntos, e que era comum que um contra as demais. Mas tampouco faltavam exemplos de solidarie- deles fosse comer na casa da mãe do irmão, porque sabia que dade entre todas elas, e era comum a ajuda mútua. ela tinha feito um prato de que gostava, entendam que era assim no passado recente e continua a ser hoje em dia, na maior parte E os filhos das diferentes mulheres, criavam-se juntos ou sepa- dos lugares. rados? Nas famílias matrilineares, eles viviam juntos até o mo- Devia ser divertido ter um grande número de irmãos. Sempre ha- mento de irem cada qual para a casa do tio materno. Já nas via alguém para topar uma nova brincadeira. famílias patrilineares, brincavam juntos no mesmo pátio, um Os anos da infância dividiam-se entre folguedos e aprendizado menino entrando na casa da mãe do outro como se fosse na um aprendizado prático, no qual as crianças acompanhavam sua própria. Nesse convívio, combinavam-se e alternavam-se os pais nas labutas diárias. Ao chegarem à puberdade, eram afas- rivalidades e afetos. Não era incomum que uma criança ou um tadas por um breve tempo do convívio da comunidade e, reclusas adolescente tratasse como mãe as outras esposas de seu pai. em cabanas no meio do mato, tomavam conhecimento das tradi- E quando uma mulher morria, uma das outras ou várias delas ções do grupo e eram submetidas a rituais de iniciação, entre os adotavam quais podia incluir-se a circuncisão. Terminado esse período de62 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa Silva 63 retiro, consideravam-se integradas à vida adulta. As cerimônias áreas, sobretudo naquelas onde predominam os grupos sociais de iniciação criavam vínculos estreitos para toda a vida entre os sem chefias, é comum que cada aldeia possua divindades pró- meninos que delas haviam, juntos, participado. Consideravam- prias, e até cada família possa ter as suas, que só a ela protegem se como e só ela venera. Em todas as religiões africanas, no entanto, ou em quase todas, têm relevo os ancestrais, entre eles se destacan- Vejo que as crianças gozam, na África, de uma situação privi- do aqueles que foram reis! O culto dos mortos é, por isso, ge- legiada. neralizado, cabendo aos vivos, com seus sacrifícios, fortalecer o As crianças e os velhos. A velhice é venerada. Os que têm poder dos que os precederam. É bastante difundida a crença na cabelos brancos possuem a sabedoria da experiência e estão mais reencarnação. E crê-se na possessão, isto é, que as divindades e próximos dos deuses. Entre os por exemplo, um jovem os antepassados divinizados podem vir até os vivos, descendo no não fala a um velho sem se ajoelhar, agachar ou curvar-se, sem- corpo dos seus pre com a cabeça mais baixa do que a dele. Em alguns povos, pode até ter de deitar-se, de bruços, no chão. Espere aí! A religião tradicional da África não é o culto aos Os orixás eram venerados na África somente pelos iorubás ou Há, portanto, um respeito quase religioso pelas pessoas idosas. um povo que vive no sudoeste da Nigéria e no sudeste da Porque os velhos não demorarão a morrer e a se transfor- atual República do Benim. Como outras religiões africanas, a dos mar em ancestrais. E da ação dos ancestrais depende a felici- orixás era um conjunto de cultos locais, ligados a santuários pró- dade de seus descendentes e, de certa forma, a própria harmo- prios. Quando os seus fiéis foram tirados à força de suas terras nia do mundo. e atravessaram o Atlântico, tiveram de se ajustar a uma situação Quase todos os africanos acreditam num Ente Supremo, que inteiramente nova, na qual os seus deuses viajaram com eles e, criou e governa o universo. Para aqueles, porém, que não são cris- inicialmente, só tinham altares em seus corações. tãos nem esse Deus está fora do alcance dos ho- No caso da religião dos orixás, vários deuses locais já se ha- mens e não interfere em suas vidas. Quando aflitas, as criaturas viam tornado, no chamado ou terra dos iorubás, deuses humanas recorrem a outras entidades, como os ancestrais e os es- nacionais. Xangô, por exemplo, um rei ancestral divinizado de píritos da natureza, que, no universo invisível, permanentemente Oió, Ogum, um rei ancestral divinizado da cidade-estado de Irê, ligado ao mundo dos homens, por estes zelam e deles cuidam. já eram venerados por outros iorubás. Mas a religião dos orixás São numerosas as religiões tradicionais africanas. Cada povo não se expandiu na África. Não conta com adeptos entre sereres, tem a sua, com seus deuses, crenças e rituais próprios. Em certas banhuns, ibos, andongos, iacas, angicos, xonas, macuas, zulus64 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 65 ou outros povos africanos, que a desconhecem. E se retraiu no E o islamismo? próprio sob o impacto do cristianismo e do islamismo. Como já disse, o islamismo chegou aos litorais africanos do Foi nas Américas, a partir sobretudo do Brasil e de Cuba, que ela Índico muito cedo: possivelmente já no fim do século VII, cerca se tornou uma religião universal, com deuses que não pertencem de cinco décadas após a morte de Maomé. E talvez tenha atraves- exclusivamente a um povo, mas a toda a humanidade. No Brasil, sado o Saara e começado a se difundir ao sul do grande deserto a religião dos orixás fez adeptos não só entre originários de ou- cem anos mais tarde. Pouco a pouco, os foram ex- tras nações africanas, mas também entre descendentes de guara- pandindo a sua fé savana abaixo, até, já no século XIX, atravessa- nis, cariris, portugueses, italianos e rem a floresta e chegarem às costas do Atlântico. Na África Índica muitos outros povos. foram também ganhando espaço do litoral para interior. Sua história não é, assim, diferente da história do cristianis- mo e do islamismo, que começaram como religiões locais de Esses avanços do cristianismo e do islamismo devem ter-se dado à um punhado de judeus, num caso, e de um'grupo de árabes, no custa das africanas. outro e se expandiram pelo mundo. Assim foi, de fato. Mas as religiões africanas resistiram tenaz- mente e continuam a resistir. E não só ao proselitismo das várias Eu sei que tanto o cristianismo quanto islamismo se espalharam formas de cristianismo e islamismo, mas também ao tratamento rapidamente pela África do Norte. Como foi no restante do continente? discriminatório e até mesmo às perseguições a que foram sub- cristianismo chegou à Etiópia possivelmente antes do sé- metidas pelas administrações coloniais e, em vários países, pelos culo IV e continua até hoje como a principal religião do governos que se seguiram às independências e que as identifica- aquela que, durante mais de um milênio e meio, lhe conferiu vam como fatores de atraso. Se perderam força nas grandes cida- unidade. Os três grandes reinos da Núbia (Nobácia, Macúria des, elas continuam, porém, vigorosas nas aldeias. E há aquelas e Alódia) tornaram-se cristãos no século VI e permaneceriam pessoas que, freqüentando a igreja, não deixam de fazer sacri- cristãos até serem destruídos pelos árabes, no fim do século fícios nos altares tradicionais. Além disso, tanto o cristianismo XV ou início do XVI. Por essa mesma época, como já narrei, quanto o islamismo apresentam-se muitas vezes africanizados e os reis e as elites do reino do Congo, por influência dos portu- a conviver tolerantemente com as demais crenças. gueses, se converteram ao catolicismo. Tanto na sua vertente católica quanto nas protestantes, cristianismo só começaria, contudo, a expandir-se com vigor na África a partir da segunda metade do século XIX.Ao chegarem, no fim do século XV, aos portos africanos do Índico, os portugueses se encantaram com a semelhança das casas que ali havia com aquelas a que estavam acostumados nos Algarves: os mesmos terraços, os mesmos pátios internos e as mesmas paredes de pedra pintadas de branco. os que foram ter, pouco depois, à Etiópia, se não estranharam as casas dos camponeses, de madeira e pedra e cobertas de colmo como as do norte de Portugal, ficaram boquiabertos com o que encon- traram de diferente. Em Axum, toparam com sete obeliscos de vinte e poucos metros de altura, de espessura estreita, como se fossem gran- des lâminas de pedra. Imitavam prédios esguios de muitos pa- vimentos, como os que até hoje existem no Na base, apresentavam uma porta falsa, com imitação de aldraba e fe- chadura, e para cima, bem marcados, cada um dos andares com suas janelas. Para esculpir e erguer aqueles obeliscos, os axumitas tinham de ser mestres nas técnicas de cortar e traba- lhar pedras duras como basalto, o granito e o mármore. Ti- nham de arrancar das pedreiras monólitos imensos, de várias centenas de toneladas, e transportá-los até o local onde seriam esculpidos e levantados.70 A África explicada meus filhos Alberto da Costa e Silva 71 Para quê serviam esses obeliscos? africano, predominou o que no Brasil se chama pau-a-pique, Ninguém sabe. Erguidos antes do século V, talvez fossem bofetão ou sopapo. Faz-se uma armação de ripas ou varas entre- monumentos funerários de uma religião anterior à conversão de cruzadas uma espécie de gaiola - e preenchem-se os vazios Axum ao cristianismo e representassem a morada dos mortos. com barro socado. À admiração causada por esses obeliscos se seguiria, pouco depois, o pasmo, quando os portugueses viram, perto da cidade Não é a chamada casa de caboclo? Já vi muitas delas, durante de Adelfa, as II igrejas cristãs cuja construção se deve a Lalibela, as férias que passei na roça. Às vezes, cobre-se toda a armação com um soberano que teria reinado no início do século XIII. barro, de modo que não se as hastes da madeira. espanto foi tão grande que o primeiro a descrevê-las, o padre Só que, na África, a técnica podia ser mais elaborada. Ao ergue- Francisco Álvares, teve medo de que se tomassem as suas pa- rem-se certas paredes que deviam ser mais resistentes, como as lavras por mentiras. As igrejas não tinham sido feitas como de de uma fortaleza, mesquita ou sobrado, misturava-se ao barro norma, erguendo-se paredes, pondo-se fileiras de tijolos ou de o material, moído ou pilado, dos cupinzeiros, a fim de lhe dar pedras umas sobre as outras, mas cortando-se, escavando-se e uma consistência quase de concreto. Em muitas regiões, o barro desbastando-se a rocha viva, para nela esculpir igrejas inteiras, para os rebocos era amassado com azeite de dendê, manteiga de com abóbadas, naves e abside, pilares, arcos, janelas, degraus, carité ou outros óleos e alisado ao extremo, como se trabalhado cornijas e frisos. Em vez de erguer volumes sólidos, com o acrés- por mão de ceramista, para formar, tanto do lado externo quanto cimo e a junção de materiais, os seus construtores abriram na do interno da parede, uma superfície dura, impermeável, quase pedra enormes grandes espaços vazios. polida e bastante resistente à ação do sol, da chuva e do tempo. A igreja de São Jorge é impressionante. Em forma de cruz Aplicava-se a mesma técnica ao piso, que podia também ser re- grega, ela parece mergulhar, com suas paredes, num amplo vestido por uma massa de barro e estrume de boi. Graças a esses vão quadrado escavado na rocha. Lá embaixo, está chão da igre- processos de enrijecer e alisar o barro, as antigas mesquitas do ja. Seu teto tem quase a mesma altura que a superfície do terreno Sael e das savanas sudanesas apresentam tetos em abóbada, e os onde cavaram o quadrado no qual ela se encontra. santuários dos dogons, no atual Mali, e as casas dos musguns, dos são verdadeiras esculturas. Se entendi bem, o piso da igreja está muitos metros abaixo da predomínio dessa técnica não significa que a África seja superfície do pobre de arquitetura. Ao contrário. Não só as formas de suas Exatamente. Mas esse método de construir só se desenvol- edificações mudam de região para região e de povo para povo, veu nas altas montanhas da Etiópia. No restante do continente como podem ser variadas dentro da mesma área. Para mim, são72 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 73 especialmente belos os prédios de dois andares construídos pelos Essas esculturas, lavradas, na maior parte das vezes, num hauçás no norte da Nigéria, com a fachada coberta por arabescos só tronco de árvore, são de uma força extraordinária. Tensas, em relevo ou riscados no barro. São sobrados que nos dão tama- de grandes olhos esbugalhados, parecem conter toda a energia nha impressão de leveza que parecem flutuar. do mundo. E é a isso que aspira a maior parte das esculturas Já um agbo o "rebanho de casas" dos iorubás parece africanas. Máscaras ou imagens de corpo inteiro são represen- atarracado, com suas paredes grossas que não hesitam em incli- tações ou receptáculos dos antepassados, dos espíritos da na- nar-se. Chama-se agbo porque contém várias casas, uma do tureza e de outros poderes que regem a vida. Pertencem ao homem e as outras de suas diferentes mulheres. Numa constru- universo do sagrado. Ou, quando menos, têm motivação e fins ção retangular e comprida, com uma grande varanda, abriam-se religiosos. várias portas que davam acesso a cômodos sem janelas. Cada um desses cômodos era uma morada. Se o dono era rico ou im- Todas? portante, podia ter quatro construções retangulares compridas, Nem todas. Os escultores africanos faziam também peças a se fecharem em quadrado, com um pátio central alpendrado. para o puro prazer estético. Como uma bela colher, a ter por cabo E era no alpendre e no pátio que se passava a vida diária, que uma figura feminina. Além disso, nos grandes reinos, podiam se cozinhava, lavava roupa e até mesmo dormia. O quarto sem estar a serviço do Estado e do soberano e esculpir para a glória janela era lugar de refúgio nas noites frias e de chuva, por destes. Como, porém, os reis eram seres sagrados, encarnações exemplo e de guarda de bens. de deuses ou intermediários entre as divindades e os homens, Nos palácios dos reis eram numerosos os pátios internos, e é difícil, muitas vezes, considerar uma escultura de corte como os tetos das varandas eram sustentados por colunas de madeira inteiramente despida de função religiosa. profusamente esculpidas. mesmo ocorria no pórtico dos san- No caso dos chamados bronzes do Benim, por exemplo, tudo tuários dos indicaria estarmos diante de uma arte corte, destinada a ce- Um poste de sustentação podia ser uma espécie de cariátide: lebrar o poder e a grandeza do soberano. As grandes placas que uma única figura monumental feminina. Um outro podia ser for- cobriam os pilares das varandas do palácio do obá nos mostram, mado por duas ou três imagens, uma sobre a outra: na base, por em alto-relevo e com uma profusão de pormenores, não só o rei exemplo, uma mulher ajoelhada a sustentar na cabeça, com as em seu esplendor, cercado por nobres e serviçais, mas também mãos, um tabuleiro sobre o qual se mostra um guerreiro a cavalo, guerreiros em plena batalha ou cenas da vida diária, como um que, por sua vez, agüenta em sua cabeça o peso de uma ancestral caçador a espreitar um passarinho no alto de uma árvore. Boa sentada numa cadeira, acarinhando os cabelos de duas crianças. parte da escultura do Benim, tanto em ligas de cobre quanto em74 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa Silva 75 marfim e estas são igualmente belas destinava-se, porém, zes de perceber a extraordinária beleza de suas formas, pois era aos túmulos dos reis mortos. distinta daquela a que estavam acostumados. Já quando, poucos Sob o teto de palha que protegia esses túmulos, que eram anos depois, eles tomaram conhecimento da escultura de Ifé, a verdadeiros santuários, viam-se as cabeças em metal de obás e reação foi de assombro, misturada à descrença de que uma arte rainhas-mães a servirem de base para presas de relefante fina- que se assemelhava, em sua pureza de formas, à da antiga Grécia mente trabalhadas, e, de corpo inteiro, leopardos, galos, músicos, pudesse ter sido produzida por povos que eram tidos por primi- mercadores, cavaleiros e até mesmo soldados portugueses. Os tivos ou bárbaros. artistas benimenses queriam, sem dúvida, descrever o que viam, O próprio Leo Frobenius, o arqueólogo alemão que primeiro guardar para sempre, numa escultura em redondo ou numa pla- revelou ao resto do mundo a arte de Ifé, chegou a acreditar que ca em relevo, um momento de glória ou a beleza de um instante. estava diante do que sobrara da lendária Atlântida, ao encontrar, Mas o destino da maioria de suas peças eram os altares nos quais em 1910, no bosque sagrado dedicado ao do oceano, Olo- se cultuavam os reis mortos. cum, várias terracotas e uma cabeça em bronze que pareciam ter saído das mãos de gregos da Antiguidade. Aquele holandês que se espantou com tamanho da cidade do Mas não foram as esculturas de feições puras e serenas de Benim e com a largura de suas avenidas viu essas esculturas? Ifé, nem as saídas das oficinas do Benim, tampouco as estátuas Viu as placas em relevo, mas delas disse apenas que eram de em madeira de ancestrais feitas pelos hembas do Congo, que cobre, que revestiam de alto a baixo os pilares de madeira dos não se afastavam do que consideramos realismo isto é, da alpendres do palácio do rei e que tinham por assunto feitos de reprodução do que os olhos vêem, ainda que a seguir certos guerra. Mais tarde, outros viajantes nos deixaram testemunhos padrões fixos de beleza as que viriam a causar um impacto da riqueza de esculturas nos túmulos reais. O resto do mundo, avassalador sobre a arte de nosso tempo. Foram outras. O que porém, só tomou conhecimento da arte do Benim depois que os deslumbrou alguns jovens artistas europeus, no início do sécu- britânicos, em 1897, conquistaram e pilharam a cidade, e boa lo XX rapazes como Derain, Picasso, Matisse, Braque, Kir- parte das esculturas foi parar nos museus europeus. chner, Bracusi e Modigliani - foram sobretudo as esculturas de ancestrais e as máscaras de danças rituais daqueles povos Qual foi a reação dos europeus a essas esculturas? africanos sem estados poderosos, de formas tão distantes e até De surpresa com a alta qualidade técnica da fundição das pe- contrárias ao que se fazia na Europa. Esses jovens pintores e ças e do trabalhado da superfície do metal. Mas escultores deslumbraram-se com o que vinha da África e toma- poucos, pouquíssimos, foram, num primeiro momento, capa- ram como exemplo as suas lições.76 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 77 Foi com admiração e humildade que eles se aproximaram acompanharem os movimentos da madeira, que aqui se levanta daquelas máscaras de fatura feitas pelos dans da numa crista que se prolonga em nariz, ali se ergue em dois meios Costa do Marfim e da Libéria, nas quais as feições se simplificam cilindros para representar os olhos e, mais abaixo, num quadrado numa testa abaulada, num nariz fino e ligeiramente arrebitado, a querer ser boca. num queixo pontudo e numa boca entreaberta, tendo, no lugar dos olhos, dois buracos redondos, se a representação for de ho- E não havia máscaras que representassem animais? mem, e duas fendas estreitas, se de mulher. Foi, porém, com es- Havia. Tanto animais reais, como antílopes, elefantes, búfa- panto e entusiasmo que eles pararam diante de outras máscaras los, crocodilos, leopardos, macacos, diferentes pássaros e peixes, dans, nas quais a delicadeza era substituída pela brutalidade das quanto animais fantásticos, a combinarem traços característicos formas. Pois aqueles mesmos artistas dans faziam outros tipos de diferentes bichos. E também máscaras em que se juntavam de máscaras, que nos parecem ferozes e saídas de pesadelos. homem e animal, as mais simples apresentando um rosto huma- Numa delas, por exemplo, o rosto alongado termina, sem quei- no dotado, por exemplo, de chifres de gazelas. XO, numa boca aberta enorme que, do mesmo modo que a testa Na maioria das máscaras, a imaginação se sobrepunha à abaulada, se projeta para a frente. O nariz quase não se nota, de realidade. Como nas famosas máscaras de antílopes dos bam- tão pequenino, e, em vez de olhos, temos dois cilindros grossos, baras ou bamanas do atual Mali, de uma elegância e riqueza de e salientes. formas extraordinárias. Outras eram altamente simplificadas, Em máscaras como essas, que encontramos entre tantos ou- como as de cobras dos bagas de Guiné-Conacri, a colearem na tros povos africanos, em vez de se imitar, reinventa-se o rosto direção do céu. Tanto essas serpentes dos bagas quanto os an- humano. Os olhos não procuram ter a forma de olhos, nem a tílopes dos bamanas eram postos no alto da cabeça, como se boca, a forma de boca. Um par de protuberâncias com fendas faz fossem um chapéu. E assim eram dispostas muitas máscaras a vez daqueles; e esta é simbolizada por uma espécie de repuxão africanas. Já outras se colavam ao rosto e tinham orifícios para na madeira com um orifício quadrado. Um rosto, como em certo os olhos. tipo de máscara angico ou tequê, pode ser um simples disco com O que vemos nos museus e nas coleções particulares de arte a metade superior mais alta do que a inferior, dois simulacros de africana são, quase sempre, peças incompletas, pois essas escul- olhos na parte de cima e dois na parte de baixo, e várias linhas turas em madeira estavam presas a vestimentas de ráfia, couro, circulares a indicarem testa, sobrancelhas, pálpebras, face e boca. penas, folhagem ou tecidos, que se arrastavam até os pés daque- Ou pode, nas ferozes alucinações saídas das mãos dos artistas les que as usavam. E todo o conjunto era feito para ser visto em songies, do Congo, estar todo coberto de lanhuras coloridas a movimento e ganhava na dança o seu esplendor.78 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 79 Quando é que atuavam esses mascarados? Você falou em danças de máscaras. Os mascarados sempre se apre- Em diferentes momentos, conforme os costumes de cada sentavam dançando? povo Havia mascarados que representavam os ancestrais ou os Ou dançando ou em cortejos, a marchar em cadência, acompa- mortos recentes e apareciam nos cultos funerários. Outros se fa- nhados por diferentes tambores, reco-recos, sansas, ziam presentes nos ritos ligados ao cultivo da terra. e durante as pífaros, apitos e todo tipo de instrumentos musicais. Na maior par- colheitas. Outros eram indispensáveis nas cerimônias de inicia- te da África, não há, aliás, momento algum de importância na vida ção dos jovens à vida adulta. Outros, sobretudo nas sociedades humana que não seja acompanhado de música e de dança. sem Estado, faziam parte de grupos que mantinham a ordem, reprimiam os crimes e castigavam os que atentavam contra a Talvez por isso, quando se fala em África, logo pensamos em mú- harmonia da coletividade. sica e dança. Até porque a África influenciou fortemente a música con- As pessoas comuns sabiam quem estava coberto por essas máscaras? temporânea, tanto a popular quanto a chamada erudita ou clás- Sabiam. Porém sabiam mais: sabiam que, no momento em sica. Quase todos os ritmos populares difundidos do continente que punha a máscara, o seu vizinho deixava de ser ele mesmo, americano para resto do mundo a começar pelo samba, a deixava de ser o vizinho, deixava de ser um homem mascarado rumba, o calipso, a salsa e o jazz têm raízes africanas. Ou e se transformava na divindade, no antepassado ou no espírito melhor, foram criações, nas Américas, dos africanos e de seus da natureza que a máscara representava. O mascarado era uma descendentes. O que esses só raramente preservaram neste lado entidade sobrenatural que descia no mundo dos vivos. Tirada a do Atlântico e o fizeram na música dos candomblés e no jazz máscara, ele voltava a ser um homem qualquer. Mas a másca- foi a riquíssima polirritmia de tantos povos africanos. ra continuava a ser tratada com toda a veneração. Era guardada A música desses povos se assenta na percussão. Na variedade numa cabana especial, num lugar de culto, como um bosque sa- extraordinária desses instrumentos. Sobretudo de tambores, de grado, por exemplo. todos os tamanhos e dos mais variados registros. Há tambores que vão da mais aguda das vozes para a mais grave. E aqueles que Ainda hoje é assim? cantam e, cantando, falam. Como os tambores-falantes dos ioru- Em muitas comunidades, sim. Noutras, que adotaram os va- bás, nos quais um bom músico consegue reproduzir a entonação lores do cristianismo ou do as danças de máscaras trans- das palavras e das frases do iorubano. Como o iorubano é um formaram-se em festas e perderam total ou parcialmente o seu idioma tonal, quem ouve tambor sabe o que ele está dizendo, caráter religioso ou até mesmo mágico. ou melhor, cantando.80 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 81 Como é esse tambor falante? Curioso, tambor falante dos iorubás não veio para Brasil. Ele é pequeno, em forma de ampulheta, de 50 centímetros Se veio, logo deixou de ser usado. Ficou esquecido. Como tan- ou pouco mais de comprimento, com pele estendida nos dois tos outros instrumentos africanos. lados. As membranas do alto e da base são ligadas entre si por Vejam os exemplos do chipendani e de outros arcos musicais um grande número de cordões de couro, que, quando premidos, semelhantes, tão usados em Moçambique e em Angola. Deles, o alteram a tensão das peles. O músico coloca o tambor horizontal- urucungo, chitende ou berimbau de barriga teve ampla difusão no mente debaixo do braço e bate nele com uma baqueta encurvada. Brasil, ligado à capoeira. Já o chipendani, não. Ele se distingue do Conforme aperta as cordas do tambor contra o corpo, o músico berimbau de barriga por não ter uma cabaça como caixa de resso- consegue uma grande variedade de tons em suas batidas. nância. É a boca do executante que funciona como tal, a abarcar a tala do arco com os lábios. Eu sempre pensei, ao ver os filmes e ao ler os livros de Tarzan, que Um outro caso, que me intriga ainda mais, é o do xilofone, era numa espécie de código Morse que os africanos enviavam mensa- marimba ou balofon. Que o xilofone africano chegou ao Brasil, gens a distância naqueles tambores escavados em troncos de árvores. chegou, pois uma gravura da primeira metade do século XIX nos Talvez pudesse, em certos casos, ser assim. Essas mensagens, mostra, na rua, um músico negro a tocar num xilofone pendu- quase sempre simples, podiam também ser cantadas nos gran- rado ao pescoço. Mas não sei por que razão foi abandonado e, des tambores. durante muito tempo, esquecido, até retornar, como um instru- mento requintado, nas orquestras modernas. Então uma batucada corresponderia na África a um coral? Os africanos trazidos à força para as Américas aqui encontra- Digamos que sim. E que à polifonia da música européia cor- ram os instrumentos musicais europeus, e não tardaram em ado- responderia a polirritmia da africana. Pois que caracteriza boa tá-los. Absorveram também a música que agradava aos senhores parte da música africana é a polirritmia, ou seja, várias linhas e, misturando-a com a sua, inventaram novos gêneros e estilos rítmicas a operar ao mesmo tempo. Quem não está acostumado que mantiveram a essência africana. Mais do que a música tra- à música tradicional africana tem dificuldade em acompanhar dicional africana, foi a criada pelos negros nas Américas a que, essa multiplicidade de ritmos, que parecem desenvolver-se inde- no século XX, se difundiu por todo mundo. Numa espécie de pendentemente e se entrelaçar. Um ou dois tocadores de agogô e viagem de volta, exerceu ela também grande influência sobre a alguns cantores a bater palmas, por exemplo, mantêm um ritmo música que se passou a fazer nas cidades africanas. básico, imutável, enquanto cada tamborileiro desenvolve ao seu jeito o seu próprio tema rítmico.Na metade do século XIX, a África era ainda um continente cheio de segredos para a Europa e as Américas, e eram relati- vamente poucos os africanos que sabiam alguma coisa sobre os europeus. Estes conheciam os litorais da África e os cursos inferior e médio de alguns de seus rios. Porém estavam, em geral, em terra desconhecida a quilômetros da costa, ou a menos. E a essa distância do litoral, não era incomum encon- trar quem jamais tivesse visto um europeu ou dele só recebes- se as mais vagas notícias. Para uns, por exemplo, parecia mais macaco do que gente, porque tinha o corpo com pêlos e era quase sem lábios. Para outros, como andava de sapatos, não possuía dedos nos pés. Fora das áreas em que se haviam estabelecido como co- lonos, no Senegal, em Angola, em Moçambique e na África do Sul, os europeus tinham-se restringido a comerciar no litoral. Os fortes existentes na Costa do Ouro, por exemplo, eram entrepostos comerciais só diferentes dos demais esta- belecimentos europeus por terem sido construídos em pedra. Os próprios navios funcionavam como feitorias - feitorias móveis que ancoravam em qualquer enseada onde houvesse possibilidade de comércio.86 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 87 Já mencionei que os reis e chefes africanos dificultavam, quan- Se não ouvi mal, havia também um comércio de escravos com os do não impediam, que os europeus fossem vender e comprar no países interior. Tinham estes de se resignar a fazer negócios com os in- E desde muitos séculos. Calcula-se que, entre os anos de 650 termediários africanos, que traziam até as praias o ouro, o almís- e 1600, cerca de 8 milhões de pessoas foram conduzidas à for- car, as peles, o marfim, as plumas e, sobretudo, os escravos. Pois ça para o mundo islâmico para a África do Norte, o Oriente o ser humano, desde que as embarcações européias começaram Médio e os países do Índico. Se estendermos período até 1905, a os litorais africanos, foi-se tornando cada vez mais a o número chegaria a milhões. Esse número, porém, corres- principal mercadoria por elas procurada. ponde a séculos e meio de tráfico, e os milhões do comércio Durante quase quatro séculos, para suprir de mão-de-obra transatlântico de gente a apenas quatro. impacto desde último o continente americano, a África foi despojada de uma enorme foi, portanto, muito mais violento. E pior ainda quando se sabe parcela de sua gente. Estima-se que cerca de 12,5 milhões de que a metade desses africanos foi trazida para as Américas num pessoas desembarcaram à força nas Américas entre 4 e 5 único século, XVIII, e pouco mais de um terço, nas primeiras milhões no Brasil. Quando se considera que muitos dos escra- seis décadas do XIX. Entre 8 e IO milhões foram, portanto, de- vizados morreram na longa caminhada do interior até a costa sembarcados no continente americano em cerca de anos. (uma caminhada que podia estender-se por meses), que outros muitos faleceram nos barrações onde ficavam presos até a che- gada dos navios, e que outros sucumbiram durante a Como se passava de homem livre a escravo? travessia do Atlântico, percebe-se que a perda humana da África A maioria dos escravos era de prisioneiros de guerra. Muitas foi muito maior. dessas guerras tinham motivos políticos: embora não se desti- nassem a produzir escravos, os vencidos ou eram massacrados Não haveria também que contar os que morreram no processo de ou caíam em cativeiro, muitos deles passando, em seguida, às captura? mãos dos mercadores. Claro que sim. E não se pode esquecer que muitos dos que Havia, porém, um outro tipo de guerra, cuja finalidade era eram submetidos ao cativeiro ficavam na África subsaariana, obter escravos, como, por exemplo, as campanhas militares mo- como escravos. Sobretudo as mulheres e as crianças pequenas. vidas anualmente contra os vizinhos pelos reinos de do se calculou, aliás, que, para cada pessoa vendida para as Améri- Daomé, e as "guerra santas" contra os pagãos do estado islâmico cas e para mundo duas ou três permaneciam com de Futa Jalom. Esse tipo de guerra, do mesmo modo que a prática os seus captores ou eram comercializadas ao sul do Saara. de razias, ou ataques de surpresa aos vilarejos de povos militar-88 A África explicada meus filhos Alberto da Costa e Silva 89 mente fracos, tornou-se mais à medida que aumentou escravizavam os inimigos e os estranhos. Quando um chefe efi- a procura de escravos pelos europeus. Eram guerras e razias pro- que de Velho Calabar vendia a um navio europeu um grupo de vocadas pelas pressões dessa demanda. E é de se imaginar que cativos ibos, não estava vendendo africanos nem negros, mas nelas morresse tanta gente quanto aquela capturada. Ou mais. uma gente que, por ser considerada por ele inimiga e bár- Havia quem fosse escravizado por motivos políticos. A facção bara, podia ser escravizada. E quando negociava um efiquè con- vitoriosa, em vez de matar os adversários, os exilava, e com lucro, denado por crime, vendia quem, por força da sentença, deixara ao vendê-los para a outra margem do Atlântico. Havia aqueles, de pertencer ao grupo. sobretudo crianças, que eram seqüestrados quando tomavam comércio transatlântico de escravos era controlado pelos gran- banho de rio ou brincavam fora das cercas que protegiam as al- des da terra, pelos poderosos da Europa, da África e das deias. E aqueles que eram capturados, sem resistência, no meio Fazia parte de um processo de integração econômica do Atlântico, de uma viagem. mais ainda: os que eram condenados à escra- que envolvia a produção e a comercialização, em grande escala, de vidão, muitas vezes com toda a família, por crimes como assas- açúcar, algodão, tabaco, café e outros bens tropicais, um processo sinato, agressão armada, furto, adultério e feitiçaria. número no qual a Europa entrava com o capital, as Américas com a terra e desses condenados foi aumentando, porque os reis e chefes, de- a África com o trabalho, isto é, com a mão-de-obra cativa. sejosos de atender à demanda dos mercadores que, quanto mais era atendida, mais crescia passaram a aplicar a pena de Mas, se não estou enganado, a grande ganhadora era a Europa, e escravização a delitos insignificantes. a África só perdia no processo. Você está certo. Mesmo que algumas áreas do continente afri- O que sempre me intrigou é por que os africanos escravizavam os cano se enriquecessem e se tornassem poderosas em próprios africanos e os vendiam aos brancos. cia do comércio de escravos, o enriquecimento e poderio eram Os africanos não escravizavam africanos, nem se reconhe- passageiros e ilusórios. ciam então como africanos. Eles se viam como membros de uma aldeia, de um conjunto de aldeias, de um reino e de um Então houve sociedades africanas que enriqueceram e se fortalece- grupo que falava a mesma língua, tinha os mesmos costumes e ram com o tráfico? adorava os mesmos deuses. Eram, ainda que pudessem ignorar Houve. Os grandes reinos, como Futa Jalom, Axante, Daomé, estes nomes que muitas vezes lhes eram dados por vizinhos Oió e Lunda, que produziam com suas guerras grande número ou adversários mandingas, axantes, daomea- de escravos. Os estados médios e pequenos, da costa (como os nos, vilis, iacas, caçanjes, lundas, niamuézis, macuas, xonas e reinos fantes, Porto Novo e Onim ou Lagos) ou do interior (como90 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa Silva 91 Macoco, Matamba e Caçanje), que, além de capturar escravos, supérfluos ou de luxo, quando não inúteis: algodões da se- serviam também de intermediários para os europeus. das da China, brocados da Pérsia, contas de Veneza, conchas das Graças às armas de fogo obtidas com a venda dos cativos, es- Maldivas, chapéus emplumados, aguardentes, vinhos, tabaco, ses reinos tiveram seu poder militar consideravelmente aumen- artigos de cobre, caixas de música, grandes espelhos com moldu- tado e puderam se impor sobre os vizinhos, que reduziram à vas- ras douradas, candelabros de prata, cadeiras de balanço, camas salagem. Neles, cresceu a população, sobretudo a escrava, pois com dossel de damasco, nas quais ninguém dormia, penteadei- não vendiam a maioria das mulheres que aprisionavam e nelas ras para as quais não havia uso e carruagens requintadas que só geravam, conforme caso, novos escravos ou novos membros do saíam, puxadas por escravos, das cabanas onde eram guardadas reino. Houve também um afluxo de soldados mercenários para quando o rei queria mostrar quanto era rico. esses estados e de todo o tipo de gente atraída pela riqueza que ali Em ocasiões especiais, por exemplo, o dadá ou rei do Dao- se aparentava ou pela generosidade do soberano. mé fazia retirar de seus depósitos os melhores dos seus bens e Enquanto nesses reinos a população crescia, outras áreas da os exibia num longo cortejo, do qual participavam centenas das África foram se despovoando. Podia-se, no fim do século XVIII, suas mulheres, vestidas com os melhores tecidos e enfeitadas de andar dezenas ou até centenas de quilômetros sem encontrar colares de coral e braceletes de prata. uma única aldeia. Tudo havia sido dizimado pelos caçadores de Quanto às armas de fogo que recebiam, elas eram, na maioria escravos. Muitos dos sobreviventes de razias saíram de suas ter- dos casos, quase sempre de modelos que tinham deixado de ser ras e foram refugiar-se nas montanhas rochosas, nas ilhotas no usados pelos exércitos europeus. Assim, no fim do século XIX, o meio de lagos, nos pântanos e nas florestas mais densas. Houve grosso do poder de fogo africano baseava-se em espingardas de pequenos povos que desapareceram para sempre: seus nomes figuram nos documentos do século XVII ou do início do XVIII e, carregamento pela boca. pouco depois, somem dos textos. Mas essas armas, embora antiquadas, não davam aos estados afri- Você disse que fortalecimento desses reinos que se dedicaram ao canos que as possuíam vantagem sobre os demais? comércio de escravos foi ilusório. Por quê? Davam, nos conflitos entre povos africanos. Revelaram-se, Porque o comércio de escravos, além de violento e cruel, era contudo, pouco eficazes quando os países da Europa, no último também antieconômico. Rapazes e homens no esplendor da ca- terço do século XIX, decidiram conquistar a África. Foram, aliás, pacidade física, indispensáveis para aumento da produção em os reinos africanos envolvidos no comércio de escravos os primei- sociedades sem máquinas, eram trocados por armas e por bens ros a serem dominados pelos europeus. E isto porque, de início,92 A aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 93 a intervenção militar européia, sobretudo a britânica, assumiu a pa, imaginem como os britânicos e os outros europeus tratariam forma de combate ao tráfico de escravos. os reis e chefes africanos, que tinham por bárbaros. Houve todo tipo de trapaça e violência, tudo sob pretexto, primeiro, do Como foi isso? combate ao tráfico de escravos e, depois, da liberdade de comér- No fim do século XVIII, aumentou na Europa, principalmente cio. Comandantes de navios, cônsules instalados em certos por- na a pressão popular pela extinção do comércio de tos africanos e missionários cristãos convenciam reis, régulos e escravos, como primeiro passo para a abolição total da escravatura. chefes africanos, quando não os forçavam, com os canhões dos Como resultado dessa grande pressão humanitária, em 1807, em navios apontados para suas aldeias, a assinar tratados pelos quais Londres, Parlamento aprovou uma lei, com vigência a partir do se comprometiam a não mais comerciar com escravos ou se pu- ano seguinte, que proibia aos súditos britânicos o tráfico de escra- nham na dependência sob a proteção, era como se dizia de vos. A Dinamarca já havia vedado, desde 1802, aos seus nacionais, países europeus. Muitas vezes, os líderes africanos não tinham e outros países seguiriam o exemplo os Estados Unidos conhecimento do verdadeiro conteúdo desses documentos, pois em 1808, a Suécia em 1813, os Países Baixos um ano depois. A que liam para eles era uma tradução falsa ou incompleta. França, após voltas e contravoltas, acabaria por tornar definitiva- combate ao tráfico de escravos foi acompanhado não só por mente ilegal o tráfico de africanos em 1818. Ativos, até pouco além um grande entusiasmo pela catequese cristã, mas também pela da metade do século, continuariam os portugueses, os brasileiros e convicção que tinham os europeus de que estavam mais adianta- os sobretudo a partir dos portos do Brasil e de Cuba. dos, política, econômica e socialmente, do que os demais povos, Ao mesmo tempo em que reprimia os seus súditos em e de que tinham o dever de conduzir os mais atrasados pelos comerciar com escravos tornou-se um crime punido com caminhos do progresso. a pena de morte a passou a empenhar-se para que todos os países restringissem ou eliminassem o tráfico tran- E não estavam realmente mais adiantados? satlântico de negros. Do ponto de vista técnico, sim. A Europa atravessava, aliás, uma fase de extraordinária expansão econômica. Necessitava de Estudamos no colégio que a pressão sobre Brasil foi enorme. Os matérias-primas e de mercados, sobretudo para os produtos que ingleses chegaram a apreender navios nas águas territoriais brasilei- saíam em quantidades cada vez maiores de suas indústrias. A ras e até em nossos portos. África dispunha de muitas dessas matérias-primas, como o algo- Se era assim em relação a um país governado por um impe- dão, as ceras, a goma arábica e os óleos vegetais, principalmen- rador com laços familiares com as grandes casas reais da Euro- te de coco, de amendoim e de palma ou dendê. E poderia vir a94 A África explicada aos meus filhos Alberto da Costa e Silva 95 produzir, como realmente se verificou, outros bens agrícolas de Além disso, os europeus estavam convencidos de que a Áfri- grande valor, como o cacau e o café, introduzidos pelos europeus. ca seria um grande mercado para os produtos. de sua indústria caso do café é curioso: nativo da Etiópia, onde era cultivado e a partir do momento que se civilizasse, isto é, que adotasse as vendido para mundo árabe, não se difundira para o resto da crenças, os valores e os modos de vida dominantes na Europa. África. Ali só chegaria no século XIX, por influência européia. Contavam para isso com a ação dos missionários cristãos e dos comerciantes europeus. Mas tinham pressa, e tanto aqueles Esse óleo de palma ou de dendê era o mesmo azeite de dendê com quanto estes não pareciam obter os resultados que deles se es- que fazemos vatapá e outras comidas baianas? peravam. As conversões ao cristianismo eram poucas em sua O usado tradicionalmente na culinária, em al- maioria de escravos e, além de ser diminuto número de alu- gumas regiões da África (sobretudo no golfo do Benim, na baía nos nas escolas dos missionários, os aristocratas mantinham os de Biafra e em Angola), da mesma maneira que nós. Na África, seus filhos longe delas. Quanto aos comerciantes europeus, eles era, porém, também empregado como combustível, para alumiar não conseguiam ter acesso direto aos produtores africanos e se as casas, em pequenas lâmpadas de queixavam não só das limitações que os reis e chefes africanos impunham à liberdade do comércio, mas também das altas taxas Era para uso culinário que os europeus estavam interessados no e impostos por eles cobrados. azeite de Os interesses europeus conflitavam com os dos Não. O azeite de dendê não entrou na cozinha européia, na africanos. Se os chefes africanos ambicionavam manter fe- qual dominava óleo de oliva o azeite doce dos portugueses. chados seus territórios, para preservar a soberania que neles O que sucedeu foi que os europeus encontraram novos empre- exerciam, os europeus almejavam abri-los ao trânsito de seus gos para os óleos vegetais. de dendê passou a ser usado como mercadores e missionários, instalar neles entrepostos fortifica- lubrificante de máquinas, no fabrico de velas, na produção de dos e navegar sem restrições pelos cursos d'água. Enquanto os glicerina, na fundição do estanho e na indústria de sabonetes. africanos não viam razão para alterar suas estruturas políticas, Como a demanda por óleo da palma, desde a pas- administrativas, judiciárias e religiosas, os europeus, conside- sagem do século XVIII para o XIX, não parou de expandir-se substituí-las numa Europa crescentemente mecanizada e que, pouco a pou- pelas suas ou, pelo menos, purificá-las. Era para eles inconce- começava a se acostumar a lavar os pés antes de dormir, as bível que os africanos preferissem as suas crenças tradicionais mãos e o rosto mais de uma vez por dia e a tomar banho de vez ao cristianismo e não se convencessem com a pregação dos em quando. missionários. E ficariam ainda mais se soubessem96 A África explicada meus filhos Alberto Costa Silva 97 que aqueles que queriam converter consideravam a religião dos Não havia, porém, quem fosse morto contra a vontade para acom- cristãos doentia e absurda. panhar o rei? Não demorou muito para que, na Europa, falassem cada vez Havia. E não só para acompanhar o rei. Ou os aristocratas. mais alto e para ouvidos mais receptivos os que argumentavam Entre alguns povos, um chefe de família que fosse dono de es- que nem a cristianização, nem a expansão do comércio, nem o cravos teria alguns deles sacrificados no seu túmulo. E, se não os abandono de costumes bárbaros como os sacrifícios humanos possuísse, não seria de se estranhar que os seus parentes com- e os suicídios rituais - se dariam enquanto os europeus não prassem ao menos um, para ser enterrado com ele. assumissem o controle político da Entendo a dificuldade de um cristão em aceitar essas práticas. De- Será que ouvi bem? Os africanos praticavam sacrifícios hu- viam provocar repulsa e indignação na Europa. manos? Tanto que foram usadas para justificar agressões armadas. Como foi o caso da conquista britânica do reino do Benim, em Não eram nisso diferentes de outros povos dos antigos gre- 1897. As razões do ataque foram outras a recusa do obá ou rei gos, por exemplo, mais do que admirados, venerados na Europa a aceitar o protetorado e a abrir o seu território ao comércio do século XIX. Na África, não havia nada mais valioso do que o nico mas a expedição punitiva contra o Benim ganhou o apoio ser humano, e era que havia de mais valioso o que se ofertava às da opinião pública européia, por se dizer destinada a acabar de Entre alguns povos, sacrifício humano era o mais vez com os sacrifícios humanos. solene de todos os ritos da fé. Não podiam compreender como se Nos relatos sobre a campanha militar não se destacaram os pudesse querer aboli-lo. Seria como proibir aos católicos a missa. ataques contra as aldeias benins, que eram impiedosamente in- Condená-lo e, ainda, impedi-lo, como faziam os europeus, cendiadas. Toda a ênfase foi posta no grande número de indiví- era um sacrilégio. duos sacrificados que se viam presos, de braços abertos, ao longo Os europeus também se horrorizavam com a prática, entre do caminho, nas copas das árvores. certos povos) do suicídio ritual. Quando morria um rei ou um que pareciam ignorar os britânicos é que eles próprios grande dignitário, suas mulheres, ou algumas delas, e seus prin- eram, em última análise, culpados por esses sacrifícios sangren- cipais servidores o acompanhavam no túmulo, a fim de conti- tos: os mortos eram numerosos porque, num momento de crise nuar a atendê-lo no outro lado do mundo. Quem tão aguda, se haviam multiplicado as oferendas aos deuses, a fim deixasse de fazê-lo caía em completa desonra, tornava-se um ré- de lhes aplacar a ira e fazer com que parassem avanço das tro- probo, um amaldiçoado. pas invasoras.98 A África explicada meus filhos Alberto da Costa e Silva 99 Essa expedição punitiva não foi, na verdade, uma guerra de con- Mas voltemos ao Gugunhana. O objetivo real da campanha quista? militar não era dar uma lição no rei de Gaza, e sim, a conquista Essa e muitas outras, e com os mais variados pretextos. Veja do território ao norte do Limpopo. Gugunhana foi deposto, le- o caso do reino de Gaza, que ficava ao norte do rio Limpopo, em vado para Portugal como prisioneiro, vindo a morrer em 1906 Moçambique. Em 1894, um chefe ronga levantou-se em armas numa prisão nos Açores, e que fora o seu reino passou para o contra os portugueses de Lourenço Marques (atual Maputo). Der- domínio português. rotado, refugiou-se do outro lado do rio, na corte do grande rei Na realidade, Portugal, que tinha uma presença de séculos em de Gaza, Gungunhana. Os portugueses exigiram que este lhes Moçambique, passara a ter os seus chamados "direitos históricos" entregasse o chefe ronga e, diante da recusa, decidiram castigá- sobre aquelas terras contestados por outros países europeus, que lo. Ao lhe invadir as terras, viram desfazer-se poder, tido como impuseram, na Conferência de Berlim sobre a África Ocidental, enorme, de Gungunhana, porque os guerreiros tsongas deserta- de 1884 e 1885, a doutrina de que só se podia reivindicar como ram em massa de seu exército. Era esta, aliás, a fraqueza do reino possessões no continente africano territórios sobre os quais se africano: estava formado por um grupo dominante angúni que se tivesse "controle efetivo", ainda que esse controle fosse mais apa- impusera militarmente sobre as massas tsongas. rente do que real. E Portugal teve de se apressar em assumir esse Desde o século XVI, os portugueses e, trezentos anos mais controle, pela ameaça ou pelo uso efetivo das armas, não só em tarde, os franceses, britânicos e alemães souberam usar os povos Moçambique, mas também em Angola e na Guiné. mais fracos contra os mais fortes que desejavam submeter. Alia- ram-se àqueles e somaram os seus grandes números aos contin- gentes, em geral pequenos, de militares europeus. Além disso, recrutaram africanos para as suas tropas ou com eles constituí- ram unidades especiais. Como os tirailleurs sénégalais, os fuzilei- ros senegaleses formados pelos franceses no Senegal. Ou como a polícia militar hauçá, empregada não só na Nigéria, onde foi cria- da pelos ingleses, mas em outras partes - na Costa do Ouro, por exemplo, na campanha contra o reino axante. Os britânicos orga- nizaram essa tropa libertando escravos hauçás de seus senhores treinando-os como soldados europeus e lhes dando, de certo modo, na vida diária, autoridade sobre os antigos donos.No último terço do século XIX, possuir colônias passou a ser, para os países europeus, um requisito para se afirmar como po- tência. Por isso, na corrida por territórios na África, iniciada pela França e pela logo se envolveram a Alemanha, a até mesmo um indivíduo, Leopoldo II, o rei dos belgas. Atuando independentemente do governo de seu país, Leopoldo conseguiu para si, como uma espécie de propriedade particular, o enorme e riquíssimo território que viria a se chamar Estado Livre do Congo. À medida que se caminhava para o fim do século, tornou-se cada vez mais agressivo o avanço europeu sobre as terras africa- nas. Um após outro, foram sendo vencidos os estados africanos que podiam opor-se a esse avanço, graças à vantagem que davam aos europeus o canhão de campanha montado o rifle de ferrolho e de repetição, a metralhadora e, em alguns casos, a cavalaria. É bem verdade que alguns reis africanos dispunham também de rifles modernos e de pequenos canhões, porém em número insuficiente ou nas mãos de soldados despreparados para usá-los. Apesar disso, a conquista da África não foi tarefa simples nem rápida. Muitas vezes, os europeus sofreram reveses. Como na batalha de Isandhlwana, por exemplo, em janeiro de 1879, quan-104 A África meus filhos Alberto da Costa e Silva 105 do cerca de 25 mil zulus do rei Cetshwayo derrotaram as tropas ampla área, e era um império recente, criado por um chefe mili- britânicas, que somavam 16 mil homens, sendo 7 mil europeus e tar de gênio chamado Samori. Este, desde cedo, compreendeu a 9 mil africanos. O exército zulu era disciplinadíssimo, uma ver- importância da cavalaria e dos rifles modernos, e procurou obter dadeira máquina de guerra, e, apesar da inferioridade em armas cavalos do Sael e da África do Norte em troca dos escravos que contava apenas com as tradicionais lanças de cabo curto, es- fazia em suas campanhas, e conseguir rifles de ferrolho, e até cudos de couro e espingardas carregadas pela boca venceu mesmo de repetição, dos ingleses do litoral da Serra Leoa. Tinha novamente os britânicos em Rorke's Drift, Eshowe e Hlobane, duas mercadorias a lhe oferecer: marfim e ouro - o ouro da re- antes de cair em Ulundi, em julho daquele ano. gião de Buré, que estava sob seu controle. Se os britânicos acabaram por dominar a Zululândia, os ita- Com armas modernas, conhecedor do terreno e contando lianos tiveram de adiar por quarenta anos a conquista da Etiópia, com a extrema mobilidade de seus exércitos, Samori ganhou depois da derrota que sofreram em Adua, em março de 1896. mais batalhas contra os franceses do que perdeu. Mas tinha cons- Nessa batalha, os exércitos do negus Menelik praticamente hu- ciência de que cada vitória apenas adiava a sua derrota definitiva, milharam os 17 mil homens comandados pelo general Oreste pois via aumentarem as tropas francesas enviadas contra ele. Em 1892, tomou a decisão de abandonar o seu território para o inimi- go e deslocar para o leste os seus exércitos. Com eles, não tardou Tanto num caso quanto no outro as vitórias africanas foram sobre a construir pela força das armas um novo império, que viria a es- tropas numerosas e bem armadas. tender-se, no norte da Costa do Marfim e da Costa do Ouro (atual É verdade. E mesmo quando não logravam vitórias espetacu- Gana), do rio Sassandra até o Volta. lares como essas, os africanos faziam os europeus pagarem caro Durante algum tempo, os franceses, talvez por ignorarem o pelo atrevimento das conquistas. Em vários lugares, estas só se seu paradeiro, o deixaram em paz. Mas as tropas do Samori não efetivaram após repetidas e frustradas tentativas. A uma vitória repousaram, pois ele teve de lidar com a resistência e a insubmis- sucedia uma derrota, seguida por uma nova vitória e uma outra são dos povos sobre os quais se impusera. Tentou compor-se com derrota. Em certas regiões, a conquista só se completou após vá- os europeus, mas seus novos territórios estavam, por assim dizer, rios anos de repetidos combates. No caso do chamado império no ponto de encontro das ambições dos britânicos e dos france- diula de Samori, anos - de 1882 a 1898. ses. Os britânicos, que haviam derrotado os áxantes avançavam Esse império ocupava a porção oriental da atual República da para o norte, com o objetivo de dominar Gonja e os estados grun- Guiné, parte do sul do Mali, um pedaço de Serra Leoa e outros xes el mossis. Já os franceses pretendiam juntar as conquistas do noroeste da Costa do Marfim. Estendia-se, portanto, por uma feitas no Mali e na Guiné - nas quais se incluíam os territórios