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DIREITO PENAL ESPECIAL III 
Professor César Cândido Neves Junior 
 
 
DIREITO PENAL ESPECIAL III 
 
PONTO 07 – DO FURTO 
 
 
TÍTULO II DOS CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO 
CAPÍTULO I 
DO FURTO 
 
Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: 
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa. 
§ 1º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado durante o 
repouso noturno. 
§ 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada, o 
juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois 
terços, ou aplicar somente a pena de multa. 
§ 3º - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra 
que tenha valor econômico. 
Furto qualificado 
§ 4º - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime é 
cometido: 
I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa; 
II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza; 
III - com emprego de chave falsa; 
IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas 
§ 4º-A A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se 
houver emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo 
comum. (Incluído pela Lei nº 13.654, de 2018) 
§ 4º-B. A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa, se o 
furto mediante fraude é cometido por meio de dispositivo eletrônico ou 
informático, conectado ou não à rede de computadores, com ou sem a violação 
de mecanismo de segurança ou a utilização de programa malicioso, ou por 
qualquer outro meio fraudulento análogo. (Incluído pela Lei nº 14.155, de 
2021) 
§ 4º-C. A pena prevista no § 4º-B deste artigo, considerada a relevância 
do resultado gravoso: (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
I – aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é 
praticado mediante a utilização de servidor mantido fora do território 
nacional; (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
II – aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é praticado 
contra idoso ou vulnerável. (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13654.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
 
 
DIREITO PENAL ESPECIAL III 
Professor César Cândido Neves Junior 
 
§ 5º - A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos, se a subtração for 
de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o 
exterior. (Incluído pela Lei nº 9.426, de 1996) 
§ 6o A pena é de reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos se a subtração for 
de semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em 
partes no local da subtração (Incluído pela Lei nº 13.330, de 2016) 
§ 7º A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se a 
subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou 
isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego. 
(Incluído pela Lei nº 13.654, de 2018) 
 
1 – Furto Simples 
 
1.1) Introdução/Bem Jurídico: 
O furto é a subtração patrimonial não violenta e nisto se distingue do roubo, 
que é a subtração patrimonial com violência ou grave ameaça. 
A tipificação do crime de furto objetiva proteger o patrimônio das pessoas, 
nele se incluindo a propriedade e a posse, que muitas vezes se encontram sob o 
domínio de um único titular. No entanto, pode ocorrer de a posse e a propriedade se 
encontrarem em titularidades distintas, como acontece com a locação, com o penhor, 
etc. 
Na verdade, como lembrado por alguns autores, a exemplo de Bitencourt, a 
proteção da posse se dá, inclusive, em primeiro plano. “Somos obrigados a admitir, 
contudo, que a proteção da posse vem em primeiro lugar, e só secundariamente se 
tutela a propriedade.” No mesmo sentido, veja-se Capez “O tipo penal protege 
diretamente a posse e, indiretamente, a propriedade”. 
Registre-se que, segundo alguns autores, a detenção também estaria 
incluída. Este ponto, todavia, é divergente, pois há aqueles, como Cleber Masson, que 
entendem que não se deve incluir a detenção na tutela jurídica do furto, em razão de a 
mesma não produzir qualquer efeito jurídico nem integrar o patrimônio das pessoas. 
 
1.2) Sujeitos do Crime: 
Sujeito ativo pode ser qualquer pessoa, uma vez que se trata de crime 
comum. Ressalve-se, apenas, a figura do proprietário, com as anotações que faremos 
no próximo ponto. 
Observações: 
1ª) Se o funcionário público subtrai bem (público ou particular) que se 
encontra sob a guarda da Administração, para tanto valendo-se das facilidades que o 
seu cargo lhe proporciona, o caso será de peculato-furto. Se não há utilização de 
nenhuma vantagem inerente ao cargo o caso será de furto comum; 
2ª) Se o condômino, coerdeiro ou sócio, subtrai a coisa comum, o delito será 
aquele tipificado no art. 156, que prevê o crime de subtração de coisa comum: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9426.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Lei/L13330.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13654.htm#art1
Highlight
 
 
DIREITO PENAL ESPECIAL III 
Professor César Cândido Neves Junior 
 
Art. 156 - Subtrair o condômino, coerdeiro ou sócio, para si ou para outrem, a 
quem legitimamente a detém, a coisa comum: 
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa. 
§ 1º - Somente se procede mediante representação. 
§ 2º - Não é punível a subtração de coisa comum fungível, cujo valor não 
excede a quota a que tem direito o agente. 
Tendo em vista que não estudaremos o art. 156 em tópico próprio, importa 
fazer as seguintes ponderações: 
 Trata-se de um crime de furto de menor potencial ofensivo, já que 
a sua pena máxima não excede à dois anos; 
 É crime de ação penal pública condicionada à representação; 
 Não há que se falar em crime se a subtração for de coisa fungível 
(coisa que pode ser substituída por outra do mesmo gênero, qualidade e 
quantidade) e o valor não exceder à cota parte do autor. 
3ª) Famulato: é a denominação que se utiliza para o furto praticado pelo 
funcionário que, transitoriamente, detém a posse do bem do seu patrão. 
Sujeito passivo é o proprietário ou possuidor do bem móvel, podendo ser 
pessoa física ou jurídica. 
Obs. Não é necessária a identificação e individualização da vítima para 
caracterização do crime em estudo, bastando a certeza de que o bem não pertence ao 
agente. 
 
1.3) Elementos Objetivos do tipo: 
O tipo previsto no art. 155 é composto pelos seguintes elementos: 
- o verbo subtrair; 
- o especial fim de agir, caracterizado pela expressão “para si ou para 
outrem”; e 
- o objeto da subtração, que é justamente a “coisa alheia móvel”. 
A conduta núcleo do tipo é realizada pelo verbo SUBTRAIR, podendo ser 
materializada por qualquer forma, vez que se trata de crime de execução livre. 
Subtrair, embora dispense maiores conceituações, pode ser entendido como o 
ato de retirar algo que se encontre sob o poder de outrem, é o apoderamento. 
A subtração, para que se concretize o crime de furto, deve vir acompanhada de 
uma finalidade especial do agente, que é ter a coisa para si ou para outrem. Assim, 
por exemplo, aquele que subtrai uma bicicleta com o objetivo tão somente de usá-la por 
breve período de tempo, não incidirá no crime de furto, pois ausente o elemento 
subjetivo especial, necessário à sua configuração. No caso teremos o que se costuma 
chamar de “furto de uso”, que não configura crime. 
Por fim, também é necessária para a constituição do tipo que o objeto material 
seja coisa alheia móvel. 
Coisamóvel é tudo aquilo que é passível de remoção, ou seja, tudo que pode 
ser transportado de um lugar para outro. 
Inicialmente é importante que se diga que o conceito de coisa móvel para o 
Direito Penal não coincide exatamente com o do Direito Civil. Assim, por exemplo, os 
materiais retirados de um prédio para nele logo serem reempregados, embora continuem 
possuindo a característica de bens imóveis para o Direito Civil, são considerados 
móveis para o Direito Penal, podendo ser objeto de furto. 
 
 
DIREITO PENAL ESPECIAL III 
Professor César Cândido Neves Junior 
 
Ainda com relação ao conceito de coisa móvel para o Direito Penal, devemos 
apontar as seguintes observações: 
1ª) Animais: podem ser objeto de furto, inclusive, há uma denominação 
específica para o furto de gado: abigeato. Ressalve-se, inclusive, recente qualificadora 
introduzida pela Lei n. 13.330/2016, que acrescentou um § 6º ao art. 155, prevendo 
como forma qualificada a subtração de semovente domesticável de produção; 
2ª) Coisas de uso comum: segundo a doutrina as coisas de uso comum, como 
por exemplo a areia das praias, a água dos rios, etc., não poderiam ser objeto de furto. 
Atente-se, contudo, que a subtração de tais materiais poderá configurar outros delitos, 
como um crime ambiental, por exemplo. E mais, a partir do momento que se encontram 
destacadas e sob exploração econômica de outrem, poderão sim ser objeto de furto, 
como pode ocorrer com a areia em um depósito de material de construção; 
3ª) O homem: o ser humano não pode ser objeto do crime de furto, sendo que 
sua eventual subtração poderá vir a configurar os crimes de subtração de incapazes, 
sequestro, cárcere privado, etc.; 
4ª) O cadáver: a subtração de um cadáver, de início, configura o tipo previsto 
no art. 211 do Código Penal, que prevê, especificamente, a conduta de “Destruir, 
subtrair ou ocultar cadáver, ou parte dele”. No entanto, pode-se ter configurado o 
crime de furto diante de uma subtração de cadáver, se este se encontrava, por exemplo, 
destinado a pesquisas em uma universidade; 
5ª) Órgãos, tecidos ou partes do corpo de pessoa ou cadáver: segundo 
Sanches, pode vir a configurar o delito previsto no art. 14 da Lei n. 9.434/97 (Lei dos 
Transplantes). 
Art. 14. Remover tecidos, órgãos ou partes do corpo de pessoa ou cadáver, em 
desacordo com as disposições desta Lei: 
Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa, de 100 a 360 dias-multa. 
Na verdade, entendemos, com Cléber Masson, que somente configurará o tipo 
supra mencionado se houver finalidade de transplante. Ausente esta o crime será lesão 
corporal ou homicídio, a depender do caso concreto. 
Por fim, além de móvel a coisa precisa ser alheia. Neste ponto é preciso duas 
observações: 
1ª) Não constituirá crime de furto a subtração de: 
a) res nullius, isto é, a coisa sem dono, que jamais foi apropriada por alguém, 
como os peixes do mar; 
b) res derelicta, ou seja, a coisa abandonada. Assim, quando alguém dispõe 
no lixo um par de sapatos que não quer mais usar, não constituirá furto a sua eventual 
subtração; 
c) res desperdita, vale dizer, a coisa perdida. Vamos imaginar, com o exemplo 
de Rogério Greco, que alguém encontre um relógio no interior de um ônibus, 
apoderando-se do mesmo. Neste caso jamais poderá responder pelo crime de furto, pois 
se trata de uma coisa perdida. No entanto, sua conduta não será um indiferente penal, 
pois o art. 169, II tipifica a ação de que encontra coisa alheia, dela se apropriando. 
Art. 169 - Apropriar-se alguém de coisa alheia vinda ao seu poder por 
erro, caso fortuito ou força da natureza: 
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa. 
Parágrafo único - Na mesma pena incorre: 
 
 
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II - quem acha coisa alheia perdida e dela se apropria, total ou 
parcialmente, deixando de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de 
entregá-la à autoridade competente, dentro no prazo de quinze dias. 
 
2ª) Subtração de coisa própria. Aqui vamos ter duas correntes possíveis: 
1ª corrente: Magalhães Noronha e Bento Faria admitem a configuração do 
crime de furto em alguns casos específicos de subtração de coisa própria, como poderá 
se verificar com a subtração, pelo proprietário, de objeto móvel que se encontrava na 
posse de terceiro, em razão de penhor. Magalhães Noronha argumenta que não se pode 
falar no art. 346, que é uma espécie de exercício arbitrário das próprias razões, tipo 
penal que pressupõe um interesse legítimo do agente, o que não é o caso; 
2ª corrente: Damásio de Jesus e Nelson Hungria, em entendimento 
majoritário, por outro lado, entendem que a subtração de coisa própria que se encontre 
em poder de terceiro, ainda que legitimamente, configurará o delito previsto no art. 
346: 
Art. 346 - Tirar, suprimir, destruir ou danificar coisa própria, que se acha 
em poder de terceiro por determinação judicial ou convenção: 
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, e multa. 
Atenção: Há quem entenda, como Cezar Roberto Bitencourt, que o fato é 
atípico, por ausência de previsão legal, não se podendo falar nem no crime de furto nem 
no tipo penal do art. 346. 
 
Furto de objeto que possua apenas valor moral ou sentimental configura o 
tipo? 
1ª corrente (Nucci): não há que se falar em crime de furto, devendo o dano 
moral ser reparado na esfera civil; 
2ª corrente: se o interesse moral ou sentimento for relevante, a coisa poderá ser 
objeto de furto, porque integrante do patrimônio. 
Segundo Sanches e Cleber Masson tem prevalecido esta segunda corrente. 
Estamos de acordo com esta segunda corrente, contudo, por força do princípio 
da responsabilização subjetiva, entendemos que somente se poderá falar em crime se 
o agente tiver consciência do relevante valor moral ou sentimental que a coisa tem para 
a vítima. 
 
1.4) Elemento subjetivo do tipo: 
O crime de furto somente pode ser praticado dolosamente, não havendo 
previsão de modalidade culposa. 
Além do dolo de subtração, é necessário, ainda, o chamado fim especial de 
agir, ou elemento subjetivo específico, que consiste na finalidade de ter a coisa para si 
ou para outrem definitivamente (animus rem sibi habendi ou animus furandi). 
Por esta razão, como já anotado quando tratamos da conduta punível, não há 
que se falar em crime de furto quando o agente subtrai a coisa com o fim de usá-la e 
restituí-la logo em seguida. É bem verdade que existe divergência quanto à ocorrência 
do crime quando se tratar de veículo automotor, já que neste caso haverá, 
inexoravelmente, subtração do combustível utilizado para o uso. 
Segundo Rogério Sanches para se falar em furto de uso é necessário a presença 
cumulativa de três requisitos: 
- intenção desde o início de uso momentâneo da coisa; 
 
 
DIREITO PENAL ESPECIAL III 
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- coisa não consumível com o uso (infungível); 
- restituição integral da coisa à vítima. 
Outra questão interessante quanto ao elemento subjetivo diz respeito ao erro 
que pode incidir o agente quanto à propriedade do bem. Imagine-se dessa forma que 
alguém, supondo pegar a sua própria bicicleta, subtrai a de terceiro, idêntica à sua, que 
se encontrava estacionada em local próximo. Neste caso teremos presente o chamado 
erro de tipo, previsto no art. 20 do Código Penal, que exclui o dolo, permitindo a 
punição a título culposo, quando o erro for inescusável. Como o furto não admite 
punição na modalidade culposa a conduta será penalmente atípica. 
 
Aquele que subtrai coisa alheia móvel para satisfazer pretensão legítima 
pratica qual crime? 
Não será crime de furto, diante da ausência de elemento subjetivo especial 
necessário ao tipo. O crime será aquele previsto no art. 345 do Código Penal (Exercício 
Arbitrário das Próprias Razões) 
 
O furto famélico configura crime? 
Conforme Rogério Sanches 
“A jurisprudência tem reconhecido o estadode necessidade (art. 24 do CP), 
desde que presentes os seguintes requisitos (ônus da defesa): a) que o fato seja 
praticado para mitigar a fome; b) que seja o único e derradeiro recurso do 
agente (inevitabilidade do comportamento lesivo); c) que haja a subtração de 
coisa capaz de diretamente contornar a emergência; d) a insuficiência dos 
recursos adquiridos pelo agente com o trabalho ou a impossibilidade de 
trabalhar”. (p. 237) 
 
1.5) Consumação e tentativa: 
É assente que para a consumação do crime em estudo necessário se faz a 
retirada da coisa da esfera de disponibilidade e vigilância da vítima. 
Neste sentido, veja-se apontamento doutrinário de Fernando Capez quanto ao 
momento consumativo do crime de furto: “a consumação do furto ocorre com a 
inversão da posse, ou seja, no momento em que o bem passa da esfera de 
disponibilidade da vítima para a do autor”. 
Por outro lado, existe divergência doutrinária e jurisprudencial quanto à 
necessidade, ou não, de o agente manter, ainda que por curto espaço de tempo, a posse 
tranquila e pacífica da res furtiva. 
Em que pese o dissenso, prevalece o entendimento pela dispensabilidade 
de que o agente mantenha, ainda que por breve período de tempo, a posse mansa e 
pacífica do objeto material do crime. 
Atenção: dissemos inicialmente que o crime de furto se consuma quando há a 
inversão da posse, ou seja, quando o bem sai da esfera de disponibilidade da vítima e 
passa para o autor. Há determinadas situações em que esta retirada da esfera de 
disponibilidade precisa ser analisada com mais cautela. Assim, por exemplo, se uma 
empregada doméstica em uma residência, ou qualquer outro empregado em um 
estabelecimento comercial, apodera-se de determinado bem, ocultando-o em seu local 
de trabalho para, ao fim da jornada, removê-lo dali, teremos por consumado o furto. É 
que, neste caso, embora o bem ainda se encontre no âmbito dominial da vítima, dele não 
mais pode dispor livremente, já que ocultado pelo agente. 
 
 
DIREITO PENAL ESPECIAL III 
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Na verdade, existem quatro teorias possíveis sobre o momento consumativo 
para o crime de furto: 
1ª) Teoria do contato ou contrectatio: o delito se consuma com o simples 
contato do autor com o a coisa, não havendo necessidade de que o mesmo o remova 
para qualquer lugar; 
2ª) Teoria da amotio ou apprehensio: o crime se consuma no momento em 
que a coisa é retirada da esfera de proteção e disponibilidade da vítima, ingressando na 
esfera de disposição do autor, ainda que por um breve período de tempo, 
independentemente de o mesmo manter uma posse tranquila; 
3ª) Teoria da ablatio: o crime se consuma quando o agente, depois de se 
apoderar da coisa, consegue removê-la de um lugar para outro; 
4ª) Teoria da ilatio: o delito estará consumado quando o agente conseguir 
retirar o bem da esfera de disponibilidade da vítima e removê-la para um local onde 
tenha sua posse mansa e pacífica. 
Prevalece no STF e no STJ, como já sinalizado anteriormente, a teoria da 
amotio ou apprehensio. 
A tentativa é plenamente admissível, uma vez que se trata de crime material. 
 
O agente que enfia a mão em um dos bolsos da vítima e ali não encontra 
nada, pratica furto tentado ou crime impossível? 
A resposta a este questionamento passa pela análise do perigo ao bem jurídico 
tutelado pela norma. Sim, porque só podemos falar em tentativa quando a conduta do 
agente traz algum perigo de lesão ao bem jurídico tutelado, de maneira que se presente 
ineficácia absoluta do meio ou impropriedade absoluta do objeto o caso será de crime 
impossível. 
Assim, devemos verificar se a vítima trazia consigo algum valor ou bem que 
pudesse ser subtraído pelo agente. Em caso negativo, não há que se falar em tentativa. 
 
Tentativa de subtração em loja que possui grande aparato de segurança, com 
vigilância em tempo real de todos os seus setores, configura crime impossível? 
Neste sentido veja-se súmula 567 do STJ: “Sistema de vigilância realizado 
por monitoramento eletrônico ou por existência de segurança no interior de 
estabelecimento comercial, por si só, não torna impossível a configuração do crime de 
furto”. 
Ainda em relação à tentativa do crime de furto e sua distinção de meros atos 
preparatórios, não se pode descurar de brilhante lição de Capez, no sentido de que “a 
execução se inicia com o primeiro ato idôneo e inequívoco para a consumação do 
delito. Enquanto os atos realizados não forem aptos à consumação ou quando ainda 
não estiverem inequivocadamente vinculados a ela, o crime permanece em sua fase de 
preparação. É necessário que não haja qualquer dúvida de que o ato se destina à 
consumação do crime”. 
 
2 – Furto Majorado 
 
Conforme o § 1º a pena aumenta-se de um terço se o crime for praticado 
durante o repouso noturno. 
 
 
DIREITO PENAL ESPECIAL III 
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Cuidado: não se trata-se de qualificadora, mas sim de causa de aumento 
de pena e, por isso, também de chamado de furto circunstanciado. 
A justificativa de maior punição para o furto praticado durante o repouso 
noturno encontra-se no fato de que, durante este período, os bens patrimoniais 
encontram-se com vigilância reduzida, com menor proteção, facilitando, assim, a 
execução do crime em testilha. 
O significado da expressão “repouso noturno” deve ser extraído com o 
auxílio dos costumes, uma vez que variará segundo especificidades de cada região. 
A doutrina é bastante divergente quanto à necessidade ou não de que o imóvel 
esteja habitado ou seus moradores presentes para a caracterização da majorante e, 
consequentemente, se a incidência desta é possível em estabelecimentos comerciais. Na 
verdade, os doutrinadores divergem até mesmo sobre qual o entendimento prevalecente. 
De modo geral, há o entendimento daqueles que compreendem que a 
qualificadora deve incidir em qualquer hipótese, já que, durante o repouso noturno, o 
patrimônio alheio sempre vai se encontrar mais desprotegido, por uma série de 
circunstâncias. 
Por outro lado, em entendimento que tem sinalizado prevalecer ultimamente, e 
aí podemos citar Sanches, Nucci e Bitencourt, aduz-se que não pode haver a incidência 
nas hipóteses retro mencionadas. 
O STJ, todavia, tem admitido a majorante nos furtos contra estabelecimentos 
comerciais. 
Segundo Sanches prevalece que a vítima não precisa estar repousando, ou 
mesmo presente. 
 
É possível a aplicação da majorante do repouso noturno no furto 
qualificado? 
Até pouco tempo prevalecia o entendimento pela negativa, em razão da posição 
topográfica do dispositivo. 
Contudo, a posição dos Tribunais Superiores têm se modificado. 
Conforme Sanches, o entendimento atual do STJ é no sentido afirmativo. 
Do mesmo modo, recentemente, no Informativo 851 o STF ponderou que “É 
legítima a incidência da causa de aumento de pena por crime cometido durante o 
repouso noturno no caso de furto praticado na forma qualificada”. No julgado o 
Colendo Tribunal ressaltou que “se deve interpretar cada um dos parágrafos constantes 
do tipo de acordo com a sua natureza jurídica, jamais pela sua singela posição 
ocupada topograficamente”. 
 
3 – Furto Privilegiado 
Também chamado de “furto mínimo”, prevê o § 2º que se o criminoso for 
primário e de pequeno valor a coisa furtada o juiz poderá: 
- substituir a pena de reclusão pela de detenção; 
- diminuí-la de um a dois terços; ou 
- aplicar somente a pena de multa. 
Cuidado: não confundir o furto mínimo com o insignificante. O STF tem 
reconhecido este último desde que presentes os seguintes requisitos: 
- Nenhuma periculosidade social; 
- Reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; 
 
 
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- Mínima ofensividade da conduta; 
- Inexpressividade da lesão jurídica provocada. 
Atenção: O STJ vem limitando a aplicação do princípio dainsignificância à 
valores que não suplantam 10% do salário mínimo. Além disso, STF e STJ não 
admitem a aplicação do princípio para criminosos reincidentes, portadores de maus 
antecedentes ou habituais. 
Primariedade: primário é aquele que não é reincidente, o que não pode ser 
confundido com portador de maus antecedentes, já que esta última característica não 
impede a concessão do benefício. Uma pessoa pode possuir maus antecedentes, mas 
nem por isso ser considerado reincidente. Neste sentido, uma pessoa pode ter sofrido 
diversas condenações, o que lhe gerará maus antecedentes, mas não ser reincidente em 
razão do fato de não ter praticado nenhum crime após ser condenado definitivamente. 
Do mesmo modo, se praticar uma contravenção penal e depois praticar um crime, terá 
maus antecedentes, mas não poderá ser considerado reincidente. Por fim, a prática de 
novo delito transcorridos o prazo de cinco anos após o cumprimento ou extinção da 
pena também não gera reincidência, embora configure maus antecedentes. 
Pequeno valor: a jurisprudência firmou entendimento no sentido de que 
pequeno valor é aquele equivalente a um salário-mínimo. Ressalve-se que as condições 
patrimoniais da vítima não trazem nenhuma influência para caracterização do pequeno 
valor, uma vez que este se refere à coisa, já que o § 2º aduz “pequeno valor a coisa 
furtada”. Do mesmo modo, não se pode confundir “pequeno valor” com “pequeno 
prejuízo”, circunstância utilizada para privilegiar o crime de estelionato. Assim, no 
caso do furto, ainda que a vítima não sofra prejuízo algum, por ter recuperado o seu 
bem, se a coisa não for de pequeno valor, leia-se, com o valor abaixo a um salário-
mínimo, não há que se falar na incidência do § 2º. 
Registre-se, ainda, que embora o dispositivo se valha da expressão “o juiz 
pode”, não se trata de livre discricionariedade do julgador, mas sim de direito público 
subjetivo do réu, devendo a diminuição ser aplicada sempre que presentes os requisitos 
legais. 
Uma última anotação quanto a esta forma privilegiada do crime de furto diz 
respeito à sua aplicação às formas qualificadas do § 4º. 
Tanto o STF quanto o STJ adotavam posicionamento no sentido de não se 
admitir a aplicação da forma privilegiada ao furto qualificado. 
Recentemente o STJ mudou o seu entendimento, consolidando-o na Súmula 
511: “É possível o reconhecimento do privilégio previsto no § 2º do art. 155 do CP nos 
casos de crime de furto qualificado, se estiverem presentes a primariedade do agente, o 
pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem objetiva.”. 
 
4 – Furto Equiparado 
Segundo o § 3º equipara-se a coisa móvel a energia elétrica, ou qualquer outra 
que tenha valor econômico. 
Especificamente no que se refere ao bem móvel “energia elétrica” deve se 
atentar que eventual adulteração do medidor para que este registre menos do que 
efetivamente consumido configura o crime de estelionato e não o de furto. 
O crime de furto de energia normalmente é praticado com a ligação direta da 
rede elétrica, antes de se passar pelo medidor. 
A captação irregular de TV à cabo (as famosas sky gato) configuram crime 
de furto de energia? 
 
 
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No entendimento de Greco e Bitencourt não. 
Na jurisprudência, embora haja decisão do STJ admitindo a configuração do 
crime, há também decisão do STF considerando o fato atípico (HC 97.261/RS). 
Obs. O projeto do Novo Código Penal (PLS 236/2012) resolve esta 
problemática nos seguintes termos: 
§ 1º Equipara-se à coisa móvel o documento de identificação pessoal, a 
energia elétrica, a água ou gás canalizados, o sinal de televisão a cabo ou de 
internet ou item assemelhado que tenha valor econômico. 
 
Atenção: segundo Sanches o entendimento predominante vai no sentido de não 
se admitir a equiparação de sinal de tv a cabo ou de internet à energia. 
 
5 – Furto Qualificado 
 
§ 4º - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime é cometido: 
I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa; 
II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza; 
III - com emprego de chave falsa; 
IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas 
§ 4º-A A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se houver 
emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum. 
(Incluído pela Lei nº 13.654, de 2018) 
§ 4º-B. A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa, se o furto 
mediante fraude é cometido por meio de dispositivo eletrônico ou informático, 
conectado ou não à rede de computadores, com ou sem a violação de mecanismo 
de segurança ou a utilização de programa malicioso, ou por qualquer outro meio 
fraudulento análogo. (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
§ 4º-C. A pena prevista no § 4º-B deste artigo, considerada a relevância do 
resultado gravoso: (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
I – aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado 
mediante a utilização de servidor mantido fora do território nacional; (Incluído 
pela Lei nº 14.155, de 2021) 
II – aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é praticado contra 
idoso ou vulnerável. (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
§ 5º - A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos, se a subtração for de 
veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o 
exterior. (Incluído pela Lei nº 9.426, de 1996) 
§ 6o A pena é de reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos se a subtração for de 
semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes 
no local da subtração (Incluído pela Lei nº 13.330, de 2016) 
§ 7º A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se a 
subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou 
isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego. 
(Incluído pela Lei nº 13.654, de 2018) 
 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13654.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9426.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Lei/L13330.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13654.htm#art1
 
 
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I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa; 
Configura-se esta qualificadora quando o agente destrói ou rompe qualquer 
obstáculo predisposto à proteção da coisa. 
Atente-se, ainda, que o inciso I fala em destruição ou rompimento, de maneira 
que a simples desativação de um alarme não constitui a qualificadora. 
Por outro lado, também se deve anotar que, consoante entendimento de Greco e 
Bitencourt, o rompimento pode, ou não, implicar em dano à coisa. Neste sentido, aquele 
que desparafusa uma grade para adentrar em um recinto estaria, também, rompendo um 
obstáculo. 
Observações: 
1ª) Incidirá a qualificadora ainda que a destruição ou rompimento do obstáculo 
se dê depois da subtração, desde que anterior à consumação do crime. Também 
releva anotar que a destruição ou rompimento de obstáculo deve guardar relação com 
a execução do crime, pois, se totalmente dissociada deste, será o caso de furto em 
concurso material com o crime de dano; 
2ª) Existia divergia entre a 5ª e 6ª Turmas do STJ, no sentido de ser aplicável 
ou não a qualificadora em comento, no caso de rompimento de vidros para subtração de 
bens no interior de um veículo.Colacionando aqui doutrina de Rogério Sanches vemos 
que a 6ª Turma “entendia não ser razoável reconhecer como qualificadora o 
rompimento de vidro para furto de acessórios dentro de carro, sob pena de resultar a 
quem subtrai o próprio veículo reprovação menor. Considerar o rompimento de 
obstáculo como qualificadora seria ofender o princípio da resposta penal...”. 
Tal divergência foi superada pela Terceira Seção no julgamento do EResp nº 
1.079.847/SP, em que se que se firmou a orientação de que a subtração de objeto 
localizado no interior de veículo automotor mediante o rompimento de obstáculo – 
quebra do vidro – qualifica o furto. 
Vale lembrar posicionamentos doutrinários que continuam entendendo 
que não se deve aplicar a qualificadora no caso de se quebrar os vidros do veículo 
para subtração deste, já que se trata, neste caso, de obstáculo inerente à própria 
coisa. 
 
II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza; 
A análise deste inciso deve ser divida em quatro partes: 
a) abuso de confiança: 
A configuração desta qualificadora exige a presença de dois requisitos: 
1º) que efetivamente haja uma anterior relação de confiança entre a vítima e o 
autor, fazendo com que aquela empregasse menor vigilância sobre seus bens, em 
relação a este. Com isto queremos dizer que a simples relação empregatícia, por si só, 
não gera o vínculo de confiança necessário nesta hipótese; 
2º) que o agente pratique o furto valendo-se das facilidades proporcionadas 
pela relação de confiança. Dessa forma, se embora havendo uma efetiva relação de 
confiança entre vítima e autor, este pratica o furto como qualquer outro agente comum o 
faria, não há que se falar nesta qualificadora. 
Obs. O furto qualificado pelo abuso de confiança assemelha-se à apropriação 
indébita, pois em ambos há uma quebra da confiança depositada pela vítima no autor. 
Contudo, diferenciam-se na medida em que no primeiro o autor não possui a posse 
desvigiada do bem, enquanto no segundo sim. Ademais, no primeiro o dolo é anterior à 
posse do bem; já no segundo, posterior. Dámasio nos fornece um exemplo bastante 
ilustrativo desta distinção: imaginemos que alguém, em uma biblioteca, pegue o livro 
 
 
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que lhe fora confiado pela bibliotecária, esconde-o sob as vestes, e deixa o 
estabelecimento com o mesmo. Neste caso teremos o furto qualificado pelo abuso de 
confiança. Agora imaginemos que alguém tome o livro de empréstimo na biblioteca e, 
após levá-lo consigo, o vende à terceiros. Aqui já será a hipótese da apropriação 
indébita. 
b) Fraude: 
Fraude consiste no emprego de qualquer artifício ou ardil por parte do autor, 
com o fim de diminuir a vigilância da vítima sobre os seus bens, facilitando, assim, a 
prática do furto. Ex: o agente, que se passando por funcionário de empresa telefônica, 
adentra na residência da vítima, subtraindo lhe bens. 
O furto qualificado pela fraude também se assimila bastante ao estelionato, 
uma vez que em ambos os tipos penais temos o emprego de meios enganosos contra a 
vítima com o fim de apoderar-se de bem que lhe pertence. A diferença, contudo, reside, 
basicamente, no fato de a vítima ter, ou não, consciência da transferência da posse 
do bem. Nesse sentido, anote-se escólio de Bitencourt: “O dissenso da vítima no crime 
de furto, mesmo fraudulento, e sua aquiescência, embora viciada, no estelionato são 
dois aspectos que os tornam inconfundíveis”. 
Questão interessante, relacionada à este ponto diz respeito à correta adequação 
da conduta de quem, fazendo se passar por um pretenso comprador, comparece até uma 
concessionário de veículos e solicita a realização de um teste drive, evadindo-se com o 
veículo. 
Na verdade, em tal situação, podemos, a princípio, vislumbrar a incidência de 
três tipos penais: art. 155, § 4º, II (furto qualificado pela fraude); art. 168 (apropriação 
indébita) e art. 171 (estelionato). 
Segundo Cleber Masson tal contexto fático configura, indubitavelmente e pela 
boa técnica jurídica, o crime de estelionato, já que o agente se utilizou de uma fraude 
para ludibriar o funcionário da concessionária que, voluntariamente lhe entregou o bem. 
Contudo, o próprio autor supra mencionado noticia que a jurisprudência 
consolidou o entendimento de que se trata de furto qualificado pela fraude. 
Atenção: recentemente a Lei 14.155/2021, publicada em 27 de maio deste ano, 
que passou a vigorar a partir de sua publicação, dentre outras inovações, criou uma 
forma especial de furto qualificado pela fraude. Vejamos o dispositivo: 
 
§ 4º-B. A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa, se o furto 
mediante fraude é cometido por meio de dispositivo eletrônico ou informático, 
conectado ou não à rede de computadores, com ou sem a violação de mecanismo 
de segurança ou a utilização de programa malicioso, ou por qualquer outro meio 
fraudulento análogo. (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
§ 4º-C. A pena prevista no § 4º-B deste artigo, considerada a relevância do 
resultado gravoso: (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
I – aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado 
mediante a utilização de servidor mantido fora do território 
nacional; (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
II – aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é praticado contra 
idoso ou vulnerável. (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021) 
 
 
c) Escalada: 
Duas expressões definem esta qualificadora: via anormal e esforço incomum. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14155.htm#art1
 
 
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Assim, aquele que adentre em uma residência saltando a janela (via anormal), 
não incidirá na qualificadora se esta janela for de uma altura que não lhe demande 
qualquer esforço incomum. 
Obs. Embora a palavra “escalada” nos transmita a ideia de subir em algo, é 
preciso anotar que qualquer via anormal que demande esforço incomum configurará a 
qualificadora, como é o caso, por exemplo, de um túnel. 
 
d) Destreza: 
É uma habilidade especial do autor, que lhe possibilita praticar o furto sem que 
a vítima perceba. É o clássico exemplo do batedor de carteira ou punguista. 
Cuidado: para incidir a qualificadora é imprescindível que a vítima traga a 
coisa junto ao corpo. 
Admite-se o furto qualificado pela destreza na forma tentada? 
Neste caso precisamos fazer uma diferenciação: 
- se a própria vítima percebe a atuação do agente, não há que se falar na forma 
qualificada, pois, se efetivamente possuísse destreza, o autor não seria percebido pela 
vítima; 
- se é um terceiro que, percebendo a conduta do larápio, impede que este se 
apodere dos bens da vítima, aí sim teremos a conduta do furto qualificado tentado. Ex: 
após abrir a bolsa que a vítima trazia consigo, quando já estava em vias de se apoderar 
do celular, o autor é flagrado por um terceiro. 
 
III - com emprego de chave falsa; 
Pela expressão “chave falsa” podemos compreender: 
- a cópia da chave verdadeira obtida de maneira ilícita; 
- qualquer instrumento, com ou sem aparência de chave, destinada a abrir 
fechaduras, compreendendo: mixas; grampos; clips; etc. 
Obs. A utilização de uma chave verdadeira, obtida de maneira fraudulenta, não 
configura a qualificadora de emprego de chave falsa, mas sim a da fraude. 
Atenção: o art. 25 da LCP tipifica a posse não justificada de instrumento de 
emprego usual na prática de furto. 
 
IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas. 
Restará configurada esta qualificadora ainda que apenas um dos agentes seja 
maior de 18 anos (imputável).Do mesmo modo, ainda que apenas um dos autores seja 
identificado, teremos configurada a qualificadora. 
A primeira polêmica que temos neste inciso diz respeito à necessidade de todos 
os autores praticarem atos de execução para configurar a qualificadora. 
Nelson Hungria e Rogério Greco, por exemplo, entendem que são necessárias 
duas pessoas no local do crime, praticando atos de execução, uma vez que o § 4º fala 
“se o crime é cometido”. 
Por outro lado, em entendimento que prevalece na jurisprudência, temos a 
posição de Damásio de Jesus, Heleno Cláudio Fragoso e Cleber Masson, para os quais 
basta a participação, não sendo necessária a co-autoria, isto é, não é preciso que todos 
pratiquem atos de execução, uma vez que a qualificadora fala em “concurso de duas ou 
mais pessoas”. 
Uma segunda polêmica diz respeito ao concurso entre os crimes de quadrilha ou 
bando, que hoje é denominado de “Associação Criminosa”, com o furto qualificado 
pelo concurso de pessoas, a saber se haveria, ou não, incidência de bis in idem. 
 
 
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Para uma primeira corrente, adotada pelo STF, é possível o concurso entre os 
crimes de quadrilha ou bando e furto qualificado pelo concurso de pessoas não se 
configurando bis in idem. 
Já um segundo entendimento defende que, como o concurso de agentes já foi 
utilizado para caracterizar o crime de associação criminosa, tal circunstância não poderá 
mais servir para qualificar o crime de furto. 
Entendemos que razão assiste ao STF, na medida em que o crime de quadrilha 
ou bando se consuma independentemente da prática eventual de furtos. Ademais, a 
objetividade jurídica protegida pelos tipos penais são distintas: no crime de quadrilha ou 
bando protege-se a paz pública, a coletividade, enquanto que no furto qualificado pelo 
concurso de pessoas protege-se o patrimônio que se vê mais suscetível diante do 
concurso de dois ou mais autores. 
 
Súmula 442 do STJ: “É inadmissível aplicar, no furto qualificado, pelo 
concurso de agentes, a majorante do roubo.” 
No crime de roubo também temos a figura “qualificada” para o caso de delito ser 
cometido mediante o concurso de duas ou mais pessoas. 
Ocorre que ali, diferentemente do que acontece no furto qualificado pela mesma 
circunstância, cuja pena é dobrada, a pena é simplesmente aumentada de um terço até 
metade. 
Considerando tal diferença de tratamento entre os delitos desproporcional, 
alguns e juízes e tribunais passaram a aplicar esta majorante do roubo (de um terço até 
metade) para o furto qualificado pelo concurso de pessoas. Daí a razão da edição da 
súmula em comento. 
 
§ 4º-A A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se houver 
emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum. 
(Incluído pela Lei nº 13.654, de 2018) 
O parágrafo quarto foi acrescentado pela Lei n. 13.654/2018, a qual, 
basicamente, trouxe modificações aos crimes de furto e roubo. 
No que diz respeito ao crime de furto qualificado a alteração diz respeito à 
utilização ou subtração de explosivos. Já quanto ao roubo majorado, além da inclusão 
de tais circunstâncias, houve também reforma no roubo praticado com emprego de arma 
de fogo, que até então tinha a pena aumentada de um terço até metade, passando-se o 
aumento para dois terços; e no roubo qualificado pelo resultado lesão grave, cuja pena 
base foi modificada de sete a quinze para sete a dezoito anos. 
A motivação principal do legislador certamente foi a crescente onda de crimes 
praticados com emprego de explosivos, especialmente o furto de caixas eletrônicos, e, 
subjacentemente a isto, a crescente subtração, com ou sem violência, de artefatos 
explosivos com o objetivo final de tais práticas delitivas. 
Assim, voltando-se agora unicamente para a análise do novo § 4-A, temos que 
uma conduta (explosão de caixas eletrônicos, ausente violência ou grave ameaça à 
pessoa), que até então era tratada com um furto qualificado comum, passou a receber 
tratamento mais severo. 
De fato, anteriormente a conduta em comento se enquadrava no art. 155, § 4º, I 
(furto qualificado pela destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa), 
cuja pena era de reclusão de dois a oito anos. Tal tratamento jurídico, diante da 
gravidade concreta do delito, era alvo de severas críticas, razão pela qual foi bem vinda 
a inovação legal. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13654.htm#art1
 
 
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Agora quem incorrer em tal comportamento será penalizado com a pena de 
reclusão de quatro a dez anos. 
Questão que não poderia passar despercebido da análise do tema ora 
enfrentado consiste na responsabilização autônoma, ou não, pelo crime previsto no art. 
251, § 2º, in verbis 
Art. 251 - Expor a perigo a vida, a integridade física ou o patrimônio de 
outrem, mediante explosão, arremesso ou simples colocação de engenho de 
dinamite ou de substância de efeitos análogos: 
Pena - reclusão, de três a seis anos, e multa. 
§ 2º - As penas aumentam-se de um terço, se ocorre qualquer das hipóteses 
previstas no § 1º, I, do artigo anterior, ou é visada ou atingida qualquer das 
coisas enumeradas no nº II do mesmo parágrafo. 
Até então, como se pode observar em pesquisa realizada no TJ MG, percebe-se 
que, ao menos em referido Tribunal, havia divergência a respeito do tema, parecendo 
prevalecer, especialmente nos últimos acórdãos, o entendimento de que o crime de 
explosão deveria ficar absorvido pelo furto qualificado, em razão do princípio da 
consunção, já que não passaria de crime meio para o furto qualificado. 
Já no MP de São Paulo, todavia, prevalecia o entendimento (tese 383) que 
deveria ser afastada a consunção, devendo o agente responder pelos crimes de furto 
qualificado e explosão majorada, em concurso formal 
Com o novel § 4º-A acreditamos que muito mais razão haverá para se manter o 
primeiro posicionamento, já que houve o recrudescimento considerável da pena, além 
da previsão específica do emprego de artefato explosivo ou análogo que cause perigo 
comum. 
Este é o entendimento esposado pelo doutrinador Rogério Sanches. 
 
§ 5º - A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos, se a subtração for de 
veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o 
exterior. 
Para a configuração desta qualificadora não basta a intenção do agente, sendo 
necessário que efetivamente haja transposição do veículo para outro Estado ou para o 
Exterior. 
Assim, se o agente furta o veículo objetivando leva-lo para o Estado da Bahia, 
sendo interceptado e preso antes de chegar ao seu destino, ainda dentro do Estado de 
Minas Gerais, teremos a prática de um furto simples consumado e não um furto 
qualificado tentado. 
Atenção: as qualificadoras do § 4º não têm aplicação no tipo qualificado do § 
5º. Diante de sua ocorrência o juiz deverá leva-las em consideração, como 
circunstancias judiciais, para fixação da pena base. 
ATENÇÃO: o crime do § 4º-A foi inserido pela Lei n. 13.964/19 (Pacote 
anticrime) no rol dos crimes hediondos (art. 1º, IX da Lei nº 8.072/90) 
 
§ 6o A pena é de reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos se a subtração for de 
semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes 
no local da subtração. (Incluído pela Lei nº 13.330, de 2016) 
A criação desse tipo derivado tem nítida intenção de conceder maior proteção 
aos produtores rurais, que muitas vezes têm sua atividade comprometida pela ação 
criminosa de grupos especializados no furto de gado (abigeato). 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Lei/L13330.htm#art2
 
 
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O autor do projeto, Afonso Hamm salientou que “É um crime que gera impactos 
negativos em toda a sociedade, sobretudo, nasviolações à segurança pública, na 
sonegação de impostos e à saúde pública, já que o consumidor não tem garantia da 
origem do alimento adquirido. Muitas vezes o produto é vendido clandestinamente para 
comercialização no varejo: os animais e o abate não passam pela fiscalização 
sanitária.” 
Vale lembrar que havendo incidência de alguma qualificadora do § 4º, o tipo 
receberá este último enquadramento, já que prevê reprimenda penal maior, devendo o § 
6º ser considerado como circunstância judicial desfavorável no momento da fixação da 
pena. 
 
§ 7º A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se a 
subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou 
isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego. 
(Incluído pela Lei nº 13.654, de 2018) 
Em outra novidade implementada pela Lei nº 13.654/18, passou o legislador a 
prever uma forma específica de furto qualificado, relacionada ao objeto material do 
crime, qual seja: substâncias explosivas, ou de acessórios, que, conjunta ou 
isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem e emprego. 
Neste dispositivo fica patente o descompasso do legislador, sempre afoito em 
atender aos clamores sociais, olvidando-se, dentre outras coisas, do princípio da 
proporcionalidade. 
Salta aos olhos que não se pode cominar à mesma pena para quem 
simplesmente subtrai explosivos e para aquele que, utilizando-se efetivamente tais 
artefatos, vem a subtrair patrimônio alheio. 
Tal postura legislativa força-nos a rever a impressão externada no § 4º-A, 
sendo mais lógico, diante da previsão do § 7º, que no caso do § 4º-A haja também 
punição cumulativa pelo crime de explosão. 
Contudo, tratando-se de recentíssima mudança legislativa, teremos que 
aguardar um pouco para saber como a doutrina e a jurisprudência irá se posicionar a 
respeito. 
 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13654.htm#art1

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