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MONTEIRO MINISTÉRIO LOBATO DA EDUCAÇÃO FNDE PNBE 2012 5° Ano Ensino Fundamental END da Emília ilustrações Paulo Borges LIJ L796 m 2.ed. 2011 EDITORAUm dia, Emília teve a ideia de revelar as aventuras da sua curta, mas agitada existência. No quarto de badulaques, decorado ezada leitora, com besouros, borboletas e flores secas, ela dita as suas memórias para o Visconde de Sabugosa, que rte do acervo do suspira conformado, ouve e anota. Emília pensa, tosse iblioteca da Escola e engasga, sem saber por onde sto por várias obras começar, mas quando abre a torneirinha de asneiras consegue encaminhadas a encher páginas e páginas com bjetivo de garantir suas lembranças e opiniões sobre o Sítio do Picapau Amarelo. Com unas, professores, muita imaginação, ela conta não is profissionais da apenas o que houve, mas muda todas as histórias do jeito que tura, à informação, bem entende e deixa o Visconde muito irritado com isso. parte do acervo escola. Assim, é zelar por este pessoas possam se 9 cultural.Prezado leitor, prezada leitora, Este livro faz parte do acervo do Programa Nacional Biblioteca da Escola - PNBE/2012, composto por várias obras literárias. Elas foram encaminhadas a sua escola com o objetivo de garantir a vocês, alunos, alunas, professores, professoras, e demais profissionais da escola, o acesso à cultura, à informação, estimulando a leitura. Essas obras farão parte do acervo da biblioteca de sua escola. Assim, é responsabilidade de todos zelar por este livro para que várias pessoas possam se beneficiar deste bem cultural. Boa leitura!MONTEIRO LOBATO da DA PEDAGÓGICA ilustrações Paulo Borges EDITORAREG. CUTTER Editora Globo, 2009 Monteiro Lobato sob licença da Monteiro Lobato Licenciamentos, 2007 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão dos detentores dos copyrights. Edição: Cecília Bassarani (coordenação), Camila Saraiva, Luciane Ortiz de Castro Assistente editorial: Lucas de Sena Lima Edição de Arte: Adriana Bertolla Silveira, Erick Santos Cardoso (assistente) Diagramação: Fernando Kataoka, Gisele Baptista de Oliveira Consultoria e pesquisa: Marcia Camargos, Vladimir Sacchetta Preparação de texto: Margo Negro Revisão: Márcio de Araújo e Página Impar Produção editorial: 2 Estúdio Gráfico Ilustrações: Paulo Borges Créditos das imagens: Acervo Cia. da (capa Jeca Tatuzinho, página 7); Acervo família Monteiro Lobato (fotos de Monteiro Lobato, páginas 6 8, capa de As Reinações de Narizinho, página 8); Biblioteca Monteiro Lobato São Paulo (capa e página ilustrada de Nasino, página 8) Texto fixado conforme as regras do Novo Acordo Ortográfico da Portuguesa (Decreto Legislativo n° 54, de 1995). Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lobato, Monteiro, 1882-1948. da Emília / Monteiro Lobato ilustrações Paulo Borges. 2 ed. - São Paulo Globo, 2009. ISBN 978-85-250-4813-4 1. Literatura infantojuvenil I. Borges, Paulo. II. 09-12946 CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infantil 028.5 2. Literatura infantojuvenil 028.5 edição, 2007 edição, 2009, reimpressão, 2011 A edição deste livro teve como base a publicação das Obras Completas de Monteiro Lobato da Editora Brasiliense de 1947. Monteiro Lobato José Bento Monteiro Lobato (Taubaté, 18/4/1882 - São Paulo, 4/7/1948). Escritor, jornalista, editor, tradutor, empresário do ferro e do petróleo. Estudou Direito, mas logo abandonou a profissão para se dedicar à literatura. Fundador da indústria editorial no País, tornou-se, com as histórias do Sítio do Picapau Amarelo, um dos maiores autores infantojuvenis do Brasil. Editora Globo S.A. Av. Jaguaré, 1.485 - Jaguaré São Paulo SP 05346-902 - Brasil www.globolivros.com.brMONTEIRO LOBATO Memórias dainventor do nosso faz de conta 6 jeito emiliano de pensar 9 resolve escrever suas As dificuldades do começo. 12 Visconde começa a trabalhar para Emília. História do anjinho de asa quebrada. 17 A história do anjinho corre mundo. Rei da Inglaterra manda ao sítio de Dona Benta um navio cheio de crianças. 23 anjo falso. Protesto das crianças inglesas. Aparece Peter Pan. Conversas com o anjinho verdadeiro. 31 o Almirante assombra-se com que vê. 39 Onde aparece um famoso marinheiro. 44 descobre o Segredo de Popeye. 51 A couve da Emília e o espinafre de Popeye. Pedrinho e Peter Pan preparam-se para a luta. 53 A grande luta. Pedrinho e Peter Pan batem Popeye. Palavras do Almirante para Emília. 59 Diálogo entre a boneca e Visconde. A esperteza de Emília e a resignação do Milho. 63 A fuga do anjinho. Grande tristeza. Despedida da criançada e do Almirante Brown. 65 Visconde desabafa. Seu retrato da A boneca pensa em Hollywood. 74 Minha viagem a Hollywood. 77 Dona Benta descobre as Memórias da Emília. Pedrinho e Narizinho aparecem no quarto. Fim da aventura de Hollywood. 82 impressões de Emília. Suas ideias sobre pessoas e coisas do de Dona Benta. 88inventor do nosso faz de conta Durante sua infância, Mon- teiro Lobato passava horas brin- cando, subindo em árvores e pescando no riacho. Mas ele não dispensava um bom livro de aven- turas, que lia na biblioteca do seu avô. Desde pequeno, escreveu para os jornaizinhos dos colégios que frequentou. Continuou escrevendo depois de formado em Direito e, em vez de trabalhar como advogado, tornou-se escritor, criando o Sítio 18/4/1882 do Picapau Amarelo. José Bento Monteiro Lobato Mas o que tinham os seus li- em Taubaté, cidade do interior nasce paulista, filho de José vros de tão especial para transfor- Bento Marcondes Lobato má-lo em um dos nossos maiores e Olympia Monteiro Lobato. autores, inventor da própria litera- tura infantojuvenil no País? Cansa- do de fábulas importadas, ambien- 1900 tadas na Europa e traduzidas para Largo Entra na Faculdade de Direito, onde São Francisco, em São Paulo, no o português de modo confuso, Mon- se forma quatro anos depois. teiro Lobato imaginou um cenário especial e bem brasileiro para seus personagens. E, para conquistar os leitores, contou histórias de ma- 1905 neira simples e direta, fáceis de Inicia o namoro com Maria compreender. da Pureza Natividade, Como nossa língua está em Purezinha, com quem se casa em 1908. constante mudança, certas pala- vras que utilizou deixaram de ser usadas com o passar do tempo. 61906 Mas todas elas continuam manti- É nomeado promotor público das, tal qual ele escreveu em seus em Taubate, São livros. Quando você não entender alguma delas, pegue um dicionário e faça uma pesquisa como, aliás, o 1911 próprio Lobato fazia. Ele preocupa- Com seu herda a fazenda Vale a morte do Visconde de va-se tanto com o uso correto das do Buquira e outras terras no palavras que leu um dicionário in- do Paraíba, em São Paulo. teirinho, de A a Z, anotando o que ia descobrindo para utilizar depois em seus livros. 1914 Monteiro Lobato respeitava a Escreve para o jornal Estado de S. Paulo os artigos "Velha praga" inteligência das crianças e dos jo- e em que aparece vens. No Sítio do Picapau Amarelo pela primeira vez Jeca Tatu, toda a turma tem vez e tem voz. Os personagem-simbolo de sua obra. netos de Dona Benta são sempre ouvidos com carinho, convivendo com os adultos de igual para igual. 1917 Faz uma pesquisa sobre o Saci-Pererê, Comum nos dias de hoje, essa cujos resultados transforma em livro. atitude era impensável na época de Lobato. Quando ele criou suas his- tórias, no começo do século XX, os 1918 pais falavam e os filhos obedeciam sem dar um pio. Não questiona- Reúne seus contos compra num a Revista livro a editor. que do Brasil dá o vam os adultos, nem diziam o que e começa Urupês, a trabalhar como pensavam. Foi ele quem ensinou como todo mundo podia sair ga- 1920 nhando com o diálogo. Pedrinho, Lança A menina do narizinho Narizinho e a incrível boneca arrebitado, seu primeiro livro lia, "bocuda" e palpiteira como ela para crianças. só, conversam com os mais velhos livremente. Talvez por isso, desde o lançamento de A menina do nari- 1925 zinho arrebitado, no final de 1920, Adapta em Lobato venha fazendo tanto suces- livro o folheto As crianças adoram o espaço de Jeca Tatuzinho, publicado em 1920, liberdade e imaginação que o Sítio para promover representa, onde aprendem brin- o medicamento cando sobre qualquer assunto. fortificante Monteiro Lobato gostava mui- Biotônico INSTITUTO ESPECIAL Fontoura. DO to de escrever para crianças e jovens &1927 Nomeado adido comercial em Nova e, com o pó de pirlimpimpim, soltou York, muda-se para os Estados as amarras da fantasia. Nas asas da Unidos. Volta ao Brasil em 1931. imaginação seus leitores viajam com a turma do Sítio através do tempo e do espaço. A uma velocidade supe- BIBLIOTECA PEDAGOGICA rior à da luz, voam ao passado ou ao BRASILEIRA DE NARIZINHO MONTEIRO LOBATO futuro para voltar sempre cheios de 1931 AS novidades. Em suas aventuras en- Publica o livro contram deuses gregos, convivem As Reinações de com a Branca de Neve, Peter Pan, Dom Quixote, Gato Félix... São his- tórias que divertem e atiçam a curio- sidade. Não é à toa que sempre fica um gostinho de quero mais... 1932 As atividades de sua primeira Marcia Camargos empresa de perfuração de e Vladimir Sacchetta poços de petróleo têm início. 1940 Envia a Getúlio Vargas carta acusando o Conselho Nacional do Petróleo de agir contra os interesses do Por causa dela, é detido em São Paulo no início do ano seguinte e condenado a seis meses de prisão. 1945 o livro Reinações de Narizinho é traduzido e lançado na Itália com o título Nasino. 1946 Vai morar em Buenos Aires, duas Argentina, onde funda ao editoras, retornando Brasil um ano depois. 4/7/1948 criador do Sítio do Picapau Amarelo morre em São Paulo. 8jeito emiliano de pensar Todo mundo concorda com a importância de recordar os fatos da vida. Sem isso não saberíamos quase nada sobre o passado da humanidade. Os gran- des personagens da História, com H maiúsculo, sempre tiveram o cuidado de deixar registradas suas glórias e conquistas para as gerações futuras. As pessoas comuns também têm muita coisa interessante a con- tar. Por meio dos seus relatos, descobrimos detalhes e curiosidades sobre o cotidiano dos povos. Mas será que alguém tão novinho quanto a Emília já tem assunto para um livro de memórias? Na verdade, a boneca já passou por tantas situações surpreendentes que pode- ria encher uma estante inteira de volumes. Para não cansar as delicadas, dita para o Visconde de Sabugosa suas proezas junto com a turma do Sítio do Picapau Amarelo. Ao longo destas páginas, cheias de ilustrações coloridas, vamos acom- panhando passo a passo as andanças da Marquesa de desde que "nasceu" do retalho de uma saia de Tia Nastácia e ganhou o dom da fala. Paciente, o sabugo de milho toma nota de tudo e mostra que Monteiro Lobato antecipava o costume moderno de dar depoimentos a jornalistas e escritores. No final, a própria Emília pega a caneta para contar suas faça- nhas em Hollywood, a famosa cidade das estrelas de cinema, que ela visitou ao lado de Peter Pan e da Alice do País das Maravilhas. Como se isso não bastasse, ainda filosofa, expondo suas impressões sobre tudo e todos, sempre naquele seu jeito "emiliano" de ser e raciocinar. M. C. e V.S. 9da EmíliaMonteiro Lobato Emília resolve escrever suas As dificuldades do começo. Tanto Emília falava em "minhas Memórias" que uma vez Dona Benta perguntou: Mas, afinal de contas, bobinha, que é que você entende por memórias? Memórias são a história da vida da gente, com tudo o que acon- tece desde o dia do nascimento até o dia da morte. Nesse caso caçoou Dona Benta -, uma pessoa só pode escrever memórias depois que morre... Espere disse - o escrevedor de memórias vai escreven- do, até sentir que dia da morte vem vindo. Então para; deixa o finalzi- nho sem acabar. Morre sossegado. E as suas Memórias vão ser assim? Não, porque não pretendo morrer. Finjo que morro, só. As últimas palavras têm de ser estas: "E então morri...", com reticências. Mas é peta Escrevo isso, pisco o olho e sumo atrás do armário para que Narizinho fi- que mesmo pensando que morri. Será a única mentira das minhas Memó- rias. Tudo mais verdade pura, da dura ali na batata, como diz Pedrinho. Dona Benta sorriu. Verdade pura! Nada mais difícil do que a verdade, Emília. Bem sei - disse a boneca. - Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura. 12Dona Benta espantou-se de que uma simples bonequinha de pano andasse com ideias tão filosóficas. Acho graça nisso de você falar em verdade e mentira como se realmente soubesse o que é uma coisa e outra. Até Jesus Cristo não teve ânimo de dizer o que era a verdade. Quando Pôncio Pilatos lhe pergun- "Que é a verdade?", ele, que era Cristo, achou melhor calar-se. Não deu resposta. Pois eu sei! gritou Emília. Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só Dona Benta calou-se, a refletir naquela definição, e Emília, no maior assanhamento, correu em busca do Visconde de Sabugosa. Como não gostasse de escrever com a sua queria escrever com a mão do Visconde. Visconde disse ela venha ser meu secretário. Veja papel, pena e tinta. Vou começar as minhas sabuguinho científico sorriu. Memórias! Pois então uma criatura que viveu tão pouco já tem coisas para contar num livro de memórias? Isso é para gente velha, já perto do fim da vida. Faça o que eu mando e não discuta. Veja papel, pena e tinta. O Visconde trouxe papel, pena e tinta. Sentou-se. Emília prepa- rou-se para ditar. Tossiu. Cuspiu e engasgou. Não sabia como começar e para ganhar tempo veio com exigências. Esse papel não serve, Senhor Visconde. Quero papel cor do céu com todas as suas estrelinhas. Também a tinta não serve. Quero tinta cor do mar com todos os seus peixinhos. E quero pena de pato, com to- dos os seus patinhos. Visconde ergueu os olhos para o teto, resignado. Depois falou; fez-lhe ver que tais exigências eram absurdas; que ali no sítio de Dona Benta não havia patos, nem o tal papel, nem a tal tinta. Então não escrevo! disse Emília. Sua alma, sua palma murmurou o Visconde. Se não escrever, melhor para mim. É boa!.. Emília, afinal, concordou em escrever as Memórias naquele papel da casa, com pena comum e tinta de Dona Benta. Mas jurou que havia de imprimi-las em papel cor do céu, tinta cor do mar e pena de pato. o Visconde disparou na gargalhada. Imprimir com pena de pato! É boa!.. Imprime-se com tipos, não com penas. Pois seja tornou Emília. Imprimirei com tipos de pato. Visconde ergueu novamente os olhos para o forro, suspirando.Monteiro Lobato Estavam os dois fechados no quarto dos badulaques. Servia de mesa um caixãozinho, e de cadeira um tijolo. Emília passeava de um lado para outro, de mãos às costas. ditar. Vamos! disse ela depois de ver tudo pronto. - Escreva bem no alto do papel: "Memorias da Marquesa de Em letras bem graúdas. Visconde escreveu: MEMÓRIAS DA MARQUESA DE RABICÓ Agora escreva: Capítulo Primeiro. o Visconde escreveu e ficou à espera do resto. Emília, de testinha franzida, não sabia como começar. Isso de começar não é fácil. Muito mais simples é acabar. Pinga-se um ponto final e pronto; ou então escreve-se um latinzinho: FINIS. Mas começar é Emília pensou, pensou, e por fim disse: Bote um ponto de interrogação; ou, antes, bote vários pontos de interrogação. Bote seis... o Visconde abriu a boca. Vamos, Visconde. Bote aí seis pontos de interrogação insistiu a boneca. Não vê que estou indecisa, interrogando-me a mim mesma? E foi assim que as da Marquesa de Rabicó" principia- ram de um modo absolutamente imprevisto: Capítulo Primeiro ??????? Emília contou os pontos e achou sete. Corte um - ordenou. Visconde deu um suspiro e riscou o último ponto, deixando só os seis encomendados. Bem - disse Emília. - Agora ponha um... um.. um... o Visconde escreveu três uns, assim: 1, 1, 1. Emília danou. Pedacinho de asno! Não mandei escrever nada. Eu ainda estava pensando. Eu ia dizer que escrevesse um ponto final depois dos seis de interrogação. o Visconde começou a assoprar e a abanar-se. Por fim disse: Sabe que mais, Emília? o melhor é você ficar sozinha aqui até resolver definitivamente o que quer que eu escreva. Quando tiver as- 14da sentado, então me chame. Do contrário a coisa não vai. É que o começo é difícil, Visconde. Há tantos caminhos que não sei qual escolher. Posso começar de mil modos. Sua ideia qual é? Minha ideia disse o Visconde é que comece como quase to- dos os livros de memórias começam contando quem está escrevendo, quando esse quem nasceu, em que cidade etc. As aventuras de Robinson Crusoé, por exemplo, começam assim: "Nasci no ano de 1632, na cidade de York, filho de gente arranjada etc.". Ótimo! exclamou Emília. Serve. Escreva: Nasci no ano de... (três estrelinhas), na cidade de... (três estrelinhas), filha de gente Por que tanta estrelinha? Será que quer ocultar a idade? Não. Isso é apenas para atrapalhar os futuros historiadores, gen- te muito mexeriqueira. Continue escrevendo: E nasci de uma saia velha de Tia Nastácia. E nasci vazia. Só depois de nascida é que ela me encheu de pétalas de uma cheirosa flor cor de ouro que dá nos campos e serve para estufar travesseiros. Diga logo macela, que todos entendem. Bem. Nasci, fui enchida de macela que todos entendem e fiquei no mundo feito uma boba, de olhos parados, como qualquer boneca. E feia. Dizem que fui feia que nem uma bruxa. Meus olhos Tia Nastácia os fez de linha preta. Meus pés eram abertos para fora, como pés de caixeirinho de venda. Sabe, Visconde, por que eles têm os pés abertos para fora? Há de ser da raça respondeu o Visconde. Raça, nada. É o hábito de ficarem desde muito crianças grudados ao balcão vendendo coisas. Têm de abrir os pés para melhor se encos- tarem no balcão, e acabam ficando com os pés abertos para fora. Eu era assim. Depois fui melhorando. Hoje piso para dentro. Também fui me- lhorando no resto. Tia Nastácia foi me consertando, e Narizinho tam- bém. Mas nasci muda como os peixes. Um dia aprendi a falar. Sei como foi a história disse o Visconde. Você engoliu uma falinha de papagaio. Está errado! Narizinho teve dó do papagaio e não deixou que o matassem para tirar a falinha. Fiquei falante com uma pílula que o célebre Doutor Caramujo me deu. Narizinho conta que a pílula era muito forte de modo que fiquei falante demais. Assim que abri a boca, veio uma torrente de palavras que não tinha fim. Todos tiveram de tapar os ouvidos. E tanto falei que esgotei o reservatório. A fala então ficou no nível. Tenha paciência, Emília disse o Visconde. Ficou muito acima do nível, porque a verdade é que você ainda hoje fala mais do que qual- quer mulherzinha. 15Monteiro Lobato - Mas não falo pelos cotovelos, como elas. Só pela boca. E falo bem. Sei dizer coisas engraçadas e até filosóficas. Inda há pouco Dona Ben- ta declarou que eu tenho coisas de verdadeiro filósofo. Sabe o que é filósofo, Visconde? o Visconde sabia, mas fingiu não saber. A boneca explicou: - É um bicho sujinho, caspento, que diz coisas elevadas que os ou- tros julgam que entendem e ficam de olho parado, pensando, pensando. Cada vez que digo uma coisa filosófica, o olho de Dona Benta fica para- do e ela pensa, pensa... - Ficam pensando o quê, Emília? - Pensando que entenderam. Visconde enrugou a testinha e quedou-se uns instantes de olho para- do, pensando, pensando. Aquela explicação era positivamente filosófica. - E como sou filósofa - continuou Emília - quero que minhas Me- mórias comecem com a minha filosofia da vida. - Cuidado, Marquesa! Mil sábios já tentaram explicar a vida e se estreparam. - Pois eu não me estreparei. A vida, Senhor Visconde, é um pis- ca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais. É, portanto, um pisca-pisca. 16Memórias da o Visconde ficou novamente pensativo, de olhos no teto. Emília riu-se. Está vendo como é filosófica a minha ideia? o Senhor Visconde já está de olhos parados, erguidos para o forro. Quer dizer que pensa que entendeu... A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pis- ca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre. - E depois que morre? - perguntou o Visconde. Depois que morre vira hipótese. É ou não é? o Visconde teve de concordar que era. Visconde começa a trabalhar para Emília. História do anjinho de asa quebrada. Nesse ponto um urro veio distrair-lhes a atenção. Era Quindim, chamando Emília para uma prosa. - Escute, Visconde - disse ela. Tenho coisas muito importantes a conversar com Quindim. Fique escrevendo. Vá escrevendo. Faça de conta que estou ditando. Conte as coisas que aconteceram no sítio e ainda não estão nos livros - A história do anjinho da asa quebrada serve? indagou o Visconde. Ótimo! Ninguém lá fora sabe o que aconteceu por aqui com o anjinho que cacei na Via Láctea. Conte isso e mais outras coisas. o que quiser. Vá contando, contando. - Mas assim as Memórias ficam minhas e não suas, Emília. 17Monteiro Lobato Não se incomode com isso. No fim dou um jeito; faço como na "Aritmética..." Disse e saiu correndo. o Visconde ficou de pena no papel, a pensar, a pensar. Por fim o ANJINHO DE ASA QUEBRADA As crianças que leram Reinações de Narizinho com certeza também leram a Viagem ao céu, onde veem contadas as aventuras dos netos de Dona Benta, da Emília e também as minhas no país dos astros. Não recordarei, portanto, nada disso. Só direi que houve lá por cima tais estrepolias que os astrônomos da Europa vieram queixar-se a Dona Benta das brincadeiras que estavam perturbando a harmonia celeste. Dona Benta, então, nos cha- mou para baixo com um bom berro: "Desçam já daí, cambada!". Descemos todos, e com grande espanto Dona Benta viu que Emília tinha trazido o anjinho de asa quebrada, que descobrira, muito triste da vida, lá entre as Ninguém descreve o rebuliço que houve na casa A vida parou. Os pintos ficaram sem quirera. A Vaca Mocha ficou sem palhas. feijão queimou na panela. Ninguém queria saber de outra coisa senão ver, cheirar, apalpar e conversar com o anjinho. E havia razão para isso, porque jamais descera ao mundo uma criatura tão mimosa. É até difícil dar ideia da galanteza daquela florzi- nha das alturas. Muito louro, cabelos cacheados, olhos azuis, asas mais brancas que as do cisne. Como era lindo! Infelizmente uma das asas se partira no ossinho do encontro, o que o impedia de voar. Infelizmente para ele; para nós foi felizmente. Se não fosse o quebramento da asa, Emília não o pegaria e nós não teríamos o gosto de conhecer em pessoa aquele mimo dos céus. Uma criatura do céu não pode saber nada das coisas da terra, de modo que o anjinho se mostrou de uma ignorância absoluta de tudo quanto aqui por baixo a gente sabe até de cor. Teve de ir aprendendo com Emília, a professora. sabe o que é?" perguntava ela. E como o anjinho arregalasse os olhos azuis esperando a explica- ção, Emília vinha logo com uma das suas. dizia "é uma pessoa que não fala; que vive sempre de pé no mesmo ponto; que em vez de braços tem galhos; que em vez de unhas tem folhas; que em vez de andar falando da vida alheia e se implicando com a gente (como os tais astrônomos) dão flores e frutas. Umas dão pitangas vermelhas; outras dão laranjas doces ou azedas e 18da é destas que Tia Nastácia faz doces; outras, como aquela enorme ali (as lições eram sempre no pomar) dão umas bolinhas pretas chamadas ja- buticabas. Vamos, repita: ja-bu-ti-ca-ba..." o anjinho atrapalhava-se e repetia errado: ja-ti-bu-ca-ba.. fazendo Emília rolar de rir. As perguntas do anjinho eram sempre de uma infinita ingenuidade. "Mas por que essas tais árvores nunca saem do mesmo lugar?" "Porque têm raízes" - explicava a Emília. - "Raiz é o nome das pernas tortas que elas enfiam pela terra adentro. Bem que querem an- dar, as pobres árvores, mas não conseguem. Só saem do lugarzinho em que nascem quando surge o machado." "Que animal é esse?" "Machado é o mudador das árvores, muda a forma delas, fazendo que o tronco e os galhos fiquem curtinhos. Muda-lhes até o nome. Árvo- re machadada deixa de ser árvore. Passa a ser lenha. Le-nha. Repita." "É algum deus esse machado tão poderoso assim?" Emília ria-se, ria-se... - "Deus, nada, burrinho! É antes um diabo malvadíssimo, mas diabo sem chifres, sem cauda, sem pés de cabra, sem cabeça, sem bra- sem nada. Só tem corte e cabo..." "Que é cabo?" "Cabo é uma perna só, por onde a gente segura. Faca tem cabo. Garfo tem cabo. Bule tem cabo (e bico também). Até os países têm cabo, como aquele famoso Cabo da Boa Esperança que Vasco da Gama do- brou; ou aquele Cabo Roque, da Guerra de Canudos, um que morreu e viveu de novo. Os exércitos também têm cabos. Tudo tem cabo, até os telegramas. Para mandar um telegrama daqui à Europa os homens usam o cabo submarino." 19Monteiro Lobato o anjinho ficava de boca aberta, sem entender coisa nenhuma. "Então o 'submar' também tem cabo?" "Como não? E compridíssimos, que vão de um continente a outro." "E é por esses cabos que a gente pega no mar?" Emília ria-se, ria-se. o pobre anjinho não tinha ideia nenhuma das coisas da terra, porque sempre vivera no céu, lá nas nuvens. Emília era obrigada a explicar tudo, tudo... "Oh" disse ela "você não imagina como é interessante a lín- gua que falamos aqui! As palavras da nossa língua servem para indicar várias coisas diferentes, de modo que saem os maiores embrulhos. o tal cabo, por exemplo. Ora é isto, ora é aquilo. Há os cabos de faca, de bule, de panela, como eu já disse, que são as pontas por onde a gente pega nesses objetos. Há os cabos da geografia, que são terras que se projetam mar adentro. Há os cabos do exército, que são soldados. Há os cabos submarinos, que são uns fios de cobre compridíssimos por meio dos quais os homens passam telegramas de um continente a outro por den- tro dos mares. E há um tal 'dar cabo' que é destruir qualquer coisa." "Mas por que é assim?" "Para atrapalhar a gente. Eu penso que todas as calamidades do mundo vêm da língua. Se os homens não falassem, tudo correria muito bem, como entre os animais que não falam. As formigas e as abelhas, por exemplo. Esses bichinhos vivem na maior ordem possível, com suas comidinhas a hora e a tempo e que comidas! o mel é uma perfeição que você nem sonha! Exatinho da cor de seus cabelos, mas sem cachos; em vez de cachos tem favos. E qual o segredo da felicidade desses animai- zinhos? Um só: não falam. No dia em que derem de falar, adeus ordem, adeus paz, adeus mel! A língua é a desgraça dos homens na terra." "Se é assim, por que eles não cortam a língua?" Emília ria-se, ria-se. "Cortar a língua? Essa palavra língua quer dizer duas coisas: um órgão da boca, onde está localizado o paladar e também a fala dos ho- mens. Há línguas do Rio Grande, que vêm em latas e servem para comer- mos e há as línguas da falação a língua latina, a grega, a portuguesa, a inglesa. Estas não servem para comer só para armar bate-boca..." " "Que é isso?" "Brigas sonoras. Antes de brigar com socos e tapas e tiros, as criaturas brigam com desaforos." "Que é desaforo?" "Desaforo é fazer certos elogios a uma pessoa. Vou dar um exemplo. Temos por aqui um animal chamado cachorro ou cão, bicho de muito bons sentimentos, o mais amigo do homem. É tão dedicado e 20Memórias da amoroso, que o consideram o símbolo da fidelidade. É o cão que guarda os quintais contra os homens ladrões. É o cão que descobre a caça no mato. o cão que puxa os trenós nas regiões só de gelo. É no cão que homem faz experiências de laboratório. o cão é um colosso. Pois bem. Quando um homem compara outro homem ao cão, dizendo 'Tu és um o outro puxa faca. Desaforo é isso..." "Não estou entendendo" murmurou o anjinho. "Se o cão é um animal com tais qualidades, chamar cão a um homem devia até ser uma honra." "Pois é coisa de puxar faca ou dar tiro. Outro exemplo. Há por aqui certo animal ainda mais precioso que o cão a vaca. A maior ma- ravilha de bondade e utilidade que existe no mundo é a vaca. Dá leite para os filhotes dos homens. Dá queijo. Dá manteiga. Além disso dá os bezerros, que crescem, viram bois e vão puxar os carros dos homens e os arados com que eles remexem a terra para fazer suas plantações. Dá a carne com que os homens fazem bifes e picadinhos. Dá o couro com que os homens se Dá o mocotó com que as cozinheiras prepa- ram as geleias, um doce gostosíssimo. Dá os ossos com que se fazem botões e mil coisas." "Então é a maravilha das observou o anjinho, entusiasmado com a vaca. "Se é! Tão maravilha que em certos países, como no Egito, a vaca era adorada, virou deusa. Além disso, a vaca é de uma docilidade infi- nita. Basta dizer que eu, que sou deste tamanhinho, faço o que quero da Vaca Mocha de Dona Benta. Aquele animalão me obedece em tudo vai para lá, vem para cá, vira para a esquerda, vira para a direita é só eu falar com ela. E de medo de mim não é, porque com uma chifrada a Mo- cha me joga longe. Por bondade apenas, por docilidade de gênio. Pois muito bem. A vaca é tudo isso que acabo de dizer e ainda muito mais. No entanto, se você comparar a mais suja negra da rua com uma vaca, dizendo: 'Você é uma vaca', a negra rompe num escândalo medonho e se estiver armada de revólver dá tiro..." " "Que coisa exclamou o anjinho, assombrado. "E vice-versa" continuou Emília. "Há por aqui uns animais que são malvadíssimos, umas verdadeiras pestes, como a tal cobra, que tem veneno nos dentes, e o tal tigre, que é estúpido e crudelíssimo. To- dos os homens têm tamanho ódio às cobras e aos tigres que não podem ver um só sem o destruir imediatamente. Mas se num verso um poeta compara uma mulher a uma cobra, dizendo, por exemplo, que ela tem movimentos de serpente (serpente é o mesmo que cobra), a rebola-se de gosto. E se um homem compara outro a um tigre, este ou- 21Monteiro Lobato tro sorri. Existiu na França um célebre Clemenceau que foi apelidado o Tigre. Pensa que ele puxou faca? Nada disso. Babava-se todo quando o tratavam de tigre. Mas fosse alguém tratá-lo de cão ou vaca!. Ah, vinha tiro na certa...' o anjinho ouvia, ouvia e ficava a cismar. Realmente, era-lhe im- possível entender as coisas da terra. "Todo o mal vem da língua" afirmava a boneca. - "E para pio- rar a situação existem mil línguas diferentes, cada povo achando que a sua é a certa, a boa, a bonita. De modo que a mesma coisa se chama aqui de um jeito, lá na Inglaterra de outro, lá na Alemanha de outro, lá na França de outro. Uma trapalhada infernal, anjinho." Quem ficava atrapalhado era o anjinho. Emília tinha um modo des- norteante de pensar. Assim, por exemplo, as suas célebres "asneirinhas". Muitas vezes não eram asneiras, eram modos diferentes de encarar as coisas, como quando explicou ao anjinho o caso das frutas do pomar. "Frutas são bolas que as árvores penduram nos ramos, para re- galo dos passarinhos e das gentes. Dentro há caldos ou massas de todos os gostos. As maçãs usam massas. As laranjas usam caldo. E as pimen- tas usam um ardor que queima a língua da gente." "Então têm fogo dentro? Fogo é que queima." Emília ria-se. "Ah, anjinho! Você vai custar a compreender os segredos da língua humana. Este é outro caso. Queimar é uma arte que só o fogo faz, mas quando uma coisa arde na língua nós dizemos que queima." "Mas queima mesmo?" "Não queima, mas nós dizemos assim. Um ácido que pingamos na pele nós também dizemos que queima. Uma loja que está em liqui- dação nós dizemos que está as suas mercadorias. No brin- quedo do esconde-esconde, quando o que está de olhos vendados chega perto do escondido, nós dizemos que está "Então... então... então" dizia o anjinho "a trapalhada deve ser medonha." Emília ria-se, ria-se. "Eu já estive no País da Gramática, onde todos os habitantes são palavras. E um dia hei de contar por miúdo como a Gramática lida com elas e consegue dar ordem ao pensamento." "Dar ordem não é mandar uma pessoa fazer uma coisa?" "É e não é. vezes é, outras vezes não é. Dar ordem pode ser man- dar fazer uma coisa e também pode ser botar cada coisa no seu lugar." "E como a gente sabe quando é de um jeito ou de outro?" "Pelo sentido." 22da Emília "E que é sentido?" Emília desanimou. Não há nada mais difícil do que ensinar anjinhos. - "Escute cá, Flor. Quem entende bem disto de línguas e gramáti- cas é o Quindim. Tome umas aulas com ele." "Que é aula?" Emília saiu correndo, senão ficava louca... A história do anjinho corre mundo. Rei da Inglaterra manda ao sítio de Dona Benta um navio cheio de crianças. As conversas de Emília com o anjinho não tinham fim, e por mais que ela explicasse as coisas da terra ele cada vez as entendia me- nos. Uma embrulhada foi se formando em sua cabecinha. Enquanto isso as duas velhas tratavam-lhe da asa quebrada com unguentos e emplastros. Emília não gostou daquilo. "Se o anjinho sarar" - disse ela -, "é bem possível que voe e fuja daqui, e como é?" "Não voa, não!" - sossegou Tia Nastácia, que tinha muita prática de criaturas que voam -, galinhas, marrecos e patos. - "Corto a ponta de uma asa dele e quero ver." A presença do anjinho no sítio foi causa de muitas brigas, porque a boneca se considerava dona dele. Ela o descobrira: logo, era seu. Daí os terríveis pegas com Pedrinho e Narizinho. 23Monteiro Lobato - "Ela está monopolizando o anjo, vovó!" - queixava-se a menina. - "Não o larga, atropela o dia inteiro o coitadinho com as tais filosofias da vida. Eu, se fosse a senhora, tomava o anjinho dela." Mas Dona Benta achava graça naquilo e ia deixando. A história do anjinho começou a correr mundo. Toda gente das redondezas veio vê-lo. Os jornais deram notícias. o rádio e o telégrafo transmitiram essas notícias para todos os países. E de tal modo a novi- dade se espalhou que as crianças do mundo inteiro ficaram assanha- díssimas para conhecer o anjinho. Queriam à viva força vir ao sítio brincar com ele. Mas virem como, se as crianças do mundo são milhões? Os pais e as mães explicavam aos filhos que era o maior dos absurdos pensarem em semelhante coisa. Acontece, porém, que quando uma criança quer vivamente uma coisa e não consegue dá de emagrecer, fica doentinha, cheia de bichas. E as crianças do mundo inteiro começaram a ficar doentinhas e lombriguentas de tanto desejo de virem ao sítio. A situação tornou-se tão grave que o Rei da Inglaterra, o Presiden- te Roosevelt, o Führer da Alemanha, o Duce da Itália, o Imperador do Japão e o Negus da Etiópia se reuniram em conferência para tratar do assunto. Depois de muita discussão ficou assentado que todas as crian- ças do mundo seriam levadas ao sítio de Dona Benta. Mas por partes. Primeiro as de um país; depois as de outro - e assim até o último. 24da Para saber quais iriam primeiro, foi preciso tirar a sorte. o Presi- dente Roosevelt escreveu o nome de cada país num pedacinho de papel e os botou, bem dobrados, dentro do chapéu de dois bicos do Imperador do Japão. Em seguida pediu ao Negus, que era o mais velho, para tirar um. A sorte favoreceu as crianças da Inglaterra. Quando saiu nos jornais a notícia desse fato, foi um hurra imenso no Império Britânico e uma choradeira ainda maior nos outros países. o Rei da Inglaterra, então, mandou preparar um grande navio cheio de doces, brinquedos e livros de figuras, e nele embarcou a crian- inglesa sob as ordens de um dos seus melhores almirantes o Al- mirante Brown. Ele iria levá-las ao sítio de Dona Benta. Viva! Viva! Viva! A criançada inglesa, no dia marcado para o em- barque, encheu o enorme transatlântico Wonderland, na maior algazarra e pinoteamento. Ficou aquilo que nem um enorme viveiro de periquitos louros. o pobre Almirante levava as mãos aos ouvidos, murmurando: "Será possível que este barulho dure até chegarmos ao sítio de Dona Benta?". Quase ficou doido o pobre homem, porque, como era a única gente grande de bordo (sem contar os marinheiros da tripulação), tinha de atender a tudo, apaziguar as terríveis brigas que a cada instante sur- giam, por causa de um doce maior que outro ou de um livro de figuras que várias crianças queriam ver ao mesmo tempo. Felizmente não houve temporal durante a viagem, de modo que as crianças não enjoaram, chegando ao Brasil em perfeito estado. o momento da invasão do sítio de Dona Benta foi importante. A boa senhora não fora avisada, de modo que teve a maior surpresa de toda a sua longa vida de mais de 60 anos. Estava Dona Benta na varanda, remendando umas meias furadas de Pedrinho, quando viu lá longe uma poeira na estrada. "Nastácia" gritou ela -, "traga o meu binóculo. Estou vendo uma poeira muito esquisita lá longe. Será boiada?" A negra trouxe o binóculo. De nada valeu. Pedrinho havia tirado os vidros para fazer aquele célebre com que espiou o dragão de São Jorge na Lua. Dona Benta, que ignorava isso, olhou pelos canu- dos vazios e ficou na mesma. "Minha vista está tão cansada que nem com este binóculo, que é excelente, consigo enxergar melhor. Não está vendo uma poeirada, Nastácia?" "Estou, sim, Sinhá. Mas boi não Por este caminho nunca passa boiada. Coisas dos meninos, Sinhá vai ver. Alguma nova reinação com o tal pó de pirlimpimpim. Eles não dormem...' 25Monteiro Lobato Nisto apareceu Narizinho, que estivera no pomar ensinando Flor das Alturas (nome do anjo) a descascar tangerinas. - gritou ela - "Vem vindo um bando enorme de crianças! Juro que souberam lá fora do nosso anjinho e vêm brincar com ele..." "Credo!" - exclamou Tia Nastácia. - "Se aquilo tudo é criançada, onde vamos parar, Sinhá? Cada um é uma fome e onde you arranjar bolinho para tanta fome? Nem uma barrica inteira de farinha dá para contentar metade do povaréu que vem vindo...' " Dona Benta começou a sentir palpitações do coração. "Não se aflija, - disse a menina. - "Havemos de dar um jeito. A senhora bem sabe que sabemos dar jeito a tudo." Disse e foi correndo conferenciar com Pedrinho e Emília. Encon- trou-os no alto da pitangueira, espiando a estrada. "Estamos fritos, Narizinho!" - gritou o menino lá do galho. "Vem um tal bando de crianças, que se entenderem de nos furtar o anjo não haverá meio de resistir, furtam mesmo..." Pedrinho desceu da árvore. A ideia de que a criançada de fora vi- nha raptar o anjinho enchia-o de apreensões. Criança é criança. Isoladas ainda passam, mas em bandos são os bichos mais daninhos do mundo. "E agora?" dizia ele. - "Que havemos de fazer?" Emília meteu o bedelho. - "Só há um jeito" - disse ela -: "escondermos o anjinho no da figueira e vestirmos o Visconde de anjo. Se a criançada o raptar, rapta- rá um anjo falso - o verdadeiro ficará aqui." Pedrinho e Narizinho entreolharam-se. "Não está má a ideia da Emília" disse o menino. "Tenho aque- las asas do gavião que o Compadre Teodorico matou outro dia. Temos a camisola nova que fez para a Emília. Com isso e mais alguma coisa faremos do Visconde um anjo bem regular." "Mas anjo tem asas brancas" - objetou a menina -; "as do gavião são pintadinhas." - "Com farinha de trigo eu faço asa de qualquer cor ficar branca como neve" resolveu Pedrinho. - "É isso. Vamos! Corra, Emília, e pe- gue o Visconde. E você, Narizinho, veja barbante para amarrar as asas e o resto. Não temos um minuto a perder." Nunca se viu no sítio correria tamanha. o anjinho verdadeiro, muito assustado e sem compreender coisa nenhuma, foi escondido por Pedrinho no oco da figueira. - "Fique aqui muito quietinho. Não se mexa, não faça o menor barulho." 26da "Tenho medo deste escuro" - disse ele. "Aqui há ratos de asas." "E lá há raptores, que vêm vindo em bando enorme. Antes rato sem p do que rato com p. Fique quietinho, senão tudo está perdido." Largou-o lá bem no fundo do e voltou correndo. Narizinho já trouxera as asas do gavião, barbante e a camisola nova da Emília. Só faltava eu, Visconde. "Depressa, Emília!" gritou o menino. "Ele está resistindo" - respondeu de longe a boneca. "Diz que não tem vocação para anjo..." "Traga-o à força! Depressa! Não há tempo a perder." Emília puxou-me pelo braço e eles me agarraram, me enfiaram na camisola, me pregaram as asas e polvilharam tudo com uma nuvem de farinha de trigo. Fiquei um anjo esquisitíssimo, mas anjo. "Muito bem" disse Pedrinho, afastando-se para apreciar o efeito. "Parece um fantasma, mas serve. Agora pô-lo naquele galho da pi- tangueira. Assim todos poderão vê-lo e ninguém poderá pegá-lo. Ficando embaixo, os inglesinhos o espandongam num minuto. Criança é o diabo." Fui então enganchado numa forquilha da pitangueira, onde fiquei suspirando. Era impossível imaginar-se anjo mais triste e cômico. As asas foram arrumadas com tanta pressa que uma logo pendeu. "Não faz mal" disse Pedrinho. "Todos sabem que o anjinho tem uma asa quebrada. Escute, Visconde: saiba comportar-se como anjo, está entendendo? Cruze os braços no peito, e quando as crianças chegarem faça carinha de riso celestial, com os olhos erguidos. E não se meta a falar. Quem fala somos nós, aqui embaixo." Narizinho, que subira à pitangueira, berrou lá de cima: "Estão chegando, Pedrinho! Quase na porteira já. É hora de ir recebê-los." Pedrinho foi. Trepou à porteira e ficou à espera. À frente do bando de crianças vinha um velho fardado, de grande chapéu de dois bicos na cabe- ça. A criançada parou. o velho adiantou-se. Fez uma saudação e disse: "Senhor, a notícia da viagem ao céu que os netos de Dona Benta fizeram chegou até nós lá na Inglaterra, e Sua Majestade o Rei Eduardo VIII houve por bem permitir que as crianças inglesas, comandadas por mim, que sou o Almirante Brown, viessem visitar o anjo que a Senhora Marquesa de Rabicó trouxe da Via Láctea." Pedrinho correspondeu à saudação do Almirante e disse: "Temos muita honra em receber no sítio de as crianças in- glesas comandadas pelo ilustre Almirante Brown. entretanto, muito receosos de que no meio de tanta criança venham alguns elemen- tos perversos, que nos queiram fazer mal, raptando o anjinho. Em vista 27Monteiro Lobato disso resolvemos só dar entrada a essas crianças se por acaso o Senhor Almirante nos entregar um refém". Aquelas palavras, ditas em tom firme, aborreceram o velho Almi- rante, que não havia pensado em semelhante hipótese. "A sua desconfiança, senhor" - disse ele -, "nos ofende. Os ingle- sinhos que trago são todos da mais fina educação." "Sei disso" tornou "Mas como pode o Senhor Almiran- te provar que entre eles não se acha oculto algum malfeitor? Eis por que resolvemos exigir um refém, sem que isso queira significar a menor ofensa ao Rei da Inglaterra, nem a Vossa Honra, nem a toda esta criançada." o Almirante pensou por uns instantes e disse: "Muito bem. Compreendo tudo e aceito as condições propostas. Quanto ao refém, ofereço-me a mim mesmo. Ficarei na sala, conversan- do com a sua excelentíssima avó, enquanto o meu bandinho de crianças se diverte no pomar". "Perfeitamente, Senhor Almirante" disse Pedrinho. - "Está aceita a sua proposta. Vou abrir a porteira." Disse e, descendo da porteira, abriu-a. "Podem entrar..." Aquilo foi o mesmo que erguer a portinhola de uma tulha de café bem cheia. Rolou criança para dentro do terreiro como rolam grãos de café da tulha aberta. Lindas todas, de todos os louros possíveis e de um corado de maçã ou pêssego. Olhos azuis, pele alvíssima. Como são lin- das as crianças inglesas! Para transformá-las em anjos bastaria colar nas costas de cada uma duas asinhas. Enquanto a onda de crianças inundava o terreiro, Narizinho, lá no pomar, me fazia as últimas recomendações, a mim, Visconde. "E comporte-se, hein?" dizia ela. - "Mãos cruzadas no peito, olhos no céu - assim... E levante um pouco a asa esquerda. Está muito caída. Assim." Emília veio com um caixão vazio, que colocou rente ao tronco da pitangueira. "Para que isso, Emília?" - indagou a menina. "Para guardar os presentes. Impossível que não tragam muitos presentes. Ninguém visita anjo com as mãos abanando." Lá no o anjinho tremia de medo. Um dos tais "ratos de asas" viera pendurar-se bem sobre sua cabeça. Mesmo assim o anjinho não deu o menor grito, nem fez o menor movimento. Era obedientíssimo. Dona Benta estava na varanda, muito bonitona no seu vestido pre- to de babados. Pedrinho conduziu para lá o Almirante. "Vovó" - disse ele - "tenho a honra de apresentar o Senhor Al- 28da mirante Brown, que Sua Majestade o Rei da Inglaterra mandou coman- dando as crianças que morriam de vontade de brincar com o anjinho. o Almirante concordou em ficar como refém aí na sua sala." Dona Benta empertigou-se toda e respondeu: "Tenho imenso orgulho em conhecer Vossa Honra, Senhor Almi- rante Brown. Só não estou entendendo essa história de refém a que meu neto acaba de referir-se...". Pedrinho explicou rapidamente que era uma garantia contra qual- quer depredação que as crianças fizessem no sítio. "Que absurdo, meu filho!" exclamou Dona Benta. "Só me admi-ro de o Almirante não ter-se magoado com uma desconfiança des- sa ordem. A honra altíssima que nos faz o Rei da Inglaterra é a maior com que poderíamos sonhar, e se você, Pedrinho, mostrou desconfian- ça, a ponto de obrigar o Almirante Brown a oferecer-se como refém, bem triste ideia ficará ele fazendo da nossa hospitalidade..." "Tudo isso é muito lindo, - respondeu Pedrinho -, "mas a senhora bem sabe como são crianças. Podem revoltar-se contra o Almi- rante e nos furtar o anjinho, e como é? Ele é um e elas são muitas." o velho inglês sorriu. "Se fosse assim, meu menino, não poderia haver exércitos no mundo, nem esquadras. Os generais e almirantes, que comandam exér- citos e esquadras enormes, não os mantêm na disciplina por meio da força física sim da força moral. Com a força moral, um homem sozi- nho domina milhões." "Ele é bobinho, Almirante" explicou Dona Benta. "Não faça caso do que disse. Vá entrando sem a menor cerimônia, porque esta casa é sua. E a criançada que vá com Pedrinho e brinque à vontade. Laranjas temos bastante." o Almirante subiu os seis degraus da varanda, com o chapéu de dois bicos debaixo do braço. Apertou a mão de Dona Benta com tal força que ela fez uma careta. "Queira sentar-se, Senhor Almirante" disse a boa velha disfar- a dor. E para dentro: "Nastácia, veja depressa um cafezinho." "Eu preferiria um uísque, minha senhora" murmurou o Al- mirante, que estava morto de sede, mas sede de inglês, dessas que só uísque mata. Não havendo uísque na casa, Dona Benta fez sinal a Pedrinho para que mandasse buscar na venda do Elias Turco uma garrafa. E depois, para o ilustre personagem: "Creia, Almirante, que esta sua visita em nada me espanta. E sabe por quê? Porque estou acostumada aos maiores prodígios do mun- 29Monteiro Lobato do. o que acontece neste sítio, meu Deus do céu!, nem queira saber, Almirante! No começo está claro que muito nos assustávamos, eu e Tia Nastácia. Mas hoje... As aventuras dos meus netos não têm conta. Até pelo céu já andaram - pela Via Láctea, imagine...". "Sei disso, minha senhora. Os jornais de Londres trataram do caso dos astrônomos que aqui estiveram em comissão, e com o saudo- Rei Jorge V, que Deus haja, tive ensejo de conversar a respeito. Ele achava a Marquesa de Rabicó um serzinho muito interessante, embora um tanto shocking às vezes..." "Pobre Rei Jorge!" - suspirou Dona Benta. "Senti imensamen- te a morte sua. Que carga pesada não há de ser a do rei de um grande império! Eis uma vida que eu não invejo." "Nem eu" - ajuntou o Almirante. - "Prefiro comandar os meus cruzadores a reinar sobre o mundo." - "E a Rainha Viúva, como vai indo? Mais consoladinha já?" "Vai vivendo, minha senhora. golpe foi Dona Benta suspirou. "Não valemos nada nesta vida, Almirante. Quando chega o nos- dia, o gancho da morte nos pesca, sejamos reis ou mendigos. Mas... parece que está bem cansado, Almirante..." "Mais que cansado, minha senhora. Estou meio morto. É então brincadeira uma viagem destas, de duas semanas no mar, lidando com um carregamento de mil crianças endemoninhadas? Uf!..." "Realmente! Eu aqui no sítio, com dois netos apenas, às vezes me vejo doida. São dois que valem por dois mil, tais as maluquices que in- ventam, ou as reinações, como eles dizem. Mas não faça cerimônia, Al- mirante. Tenho ali a minha redinha. Deite-se e tire um corte de sono." o Almirante não esperou segundo convite. Acomodou-se como pôde na redinha de Dona Benta e foi fechando os olhos. Quando Tia Nastácia apareceu com a bandeja de café, ele roncava. "Pssiu! Não o acorde..." sussurrou Dona Benta. "O Almirante está morto de canseira. Imagine que passou duas semanas no mar, li- dando com mil crianças, isso da Inglaterra até aqui..." "Credo!" - exclamou a preta. "Esses ingleses têm cada uma!... Bem diz Seu Pedrinho que eles são "Excêntricos, Nastácia" - corrigiu Dona Benta. "E a criança- da? Como está se comportando lá no pomar?" "Nem sei, Sinhá. Não espiei ainda nem tenho coragem de es- piar. Estou só imaginando os 'horrores'..." 1 Aventura narrada no livro Viagem ao céu. Nota da edição de 2007. 30da anjo falso. Protesto das crianças inglesas. Aparece Peter Pan. Conversas com anjinho verdadeiro. A criançada inglesa, depois que o Almirante entrou na sala de Dona Benta, foi com Pedrinho para o pomar. "O anjo! o anjo!" gritavam todas. - "Queremos ver o anjo!..." Pedrinho deteve-se diante da pitangueira e apontou para a estra- nha figura de mãos cruzadas no peito e olhos no céu, enganchada na forquilha da árvore. - "Lá está ele! o anjo é aquilo." Fez-se grande silêncio. Milhares de olhos azuis se enfocaram na figu- rinha. Súbito, uma das crianças exclamou: "Que anjo feio!", - e a baru- lhada começou. - "Não valia a pena virmos de tão longe para vermos isso", gritou outra. E terceira: - "Em qualquer casa de brinquedos em Londres temos coisa melhor". - E quarta: "Parece anjo de pau... Nem se mexe". Narizinho me fez sinal, a mim, Visconde, para que me mexesse e fiz uns movimentos muito desajeitados. - "Quê?" - berrou de repente uma menina. - "Anjo de cartola? Onde já se viu isso?" De fato. Na pressa da arrumação os meninos esqueceram-se de ti- rar da minha cabeça a célebre cartolinha, de modo que lá estava o anjo de cartola na cabeça, muito branca, porque também fora polvilhada de farinha de trigo. Emília salvou a situação. Trepando no caixãozinho, pediu silên- cio e disse: - "Vou explicar o motivo da cartola. Dona Benta nos contou que 31Monteiro Lobato a cartola é uma invenção inglesa; daí a nossa ideia de botar uma car- tolinha na cabeça dele como homenagem às crianças inglesas que o vinham visitar". Os inglesinhos entreolharam-se. A explicação era boa. Mas conti- nuaram a estranhar o anjo. "Os que conheço dos livros de figura" - disse um "são muito mais bonitos. São gordinhos. Esse é magro como bacalhau." Emília explicou: "É que andou doente. pobrezinho quebrou a asa num tombo que deu lá nas estrelas. Está sarando; logo fica tão gorducho como an- tes. Não notam que está com a asa esquerda caída? Quebrou-a bem no encontro. Tia Nastácia já botou cola-tudo". "Mas a cara dele não é de anjo" - observou outra criança. "Pa- rece cara feita com faca. Verdadeira cara de " "É da doença" insistiu Emília. - "Vocês que não têm asas não ima- ginam como quebradura de asa esquerda desfigura um pobre anjo..." Apesar das belas explicações as crianças inglesas continuavam de nariz torcido. Não conseguiam engolir aquele anjo tão feio. "Francamente, perdemos a nossa viagem" - murmuraram diver- sas "e o melhor é levarmos de volta os presentes trazidos. Esse anjo não merece nenhum, nem merece que brinquemos com ele. Só merece um E a vaia começou. "Fora o anjo magro!..." "Morra o anjo feio!... "Lincha o anjo cartoludo!... o berreiro tornava-se cada vez maior, e a coisa acabaria em desas- tre, se um lindo menino não surgisse berrando: "Parem! Nem mais uma palavra! Quem vai agir agora sou eu". "Peter Pan!..." exclamou Pedrinho, reconhecendo o famoso me- nino que jamais quis crescer. "Sim, sou Peter Pan, e já sei de tudo. Esse anjo é falso, é o tal Visconde disfarçado em anjo. o anjinho verdadeiro está escondido em qualquer parte." "E se for assim?" gritou Pedrinho assustado. "Se for assim" - tornou Peter Pan "ou vocês nos mostram o anjinho verdadeiro, ou nós damos uma busca em regra neste sítio até o descobrirmos." Pedrinho encheu-se de coragem e disse com VOZ firme: "Nós estamos em nossa casa e saberemos defendê-la contra tudo e contra todos. Medo não temos de nada! Quem manda aqui no sítio 32da sou eu - depois de Por bem a coisa vai, Senhor Pan, mas por mal a coisa não vai, não! Nem a pau! Nem a tiro de revólver! Lembre-se que o Almirante Brown está como refém lá na sala de A vida daquele ve- lho nos foi confiada em garantia do bom comportamento de vocês...". Peter Pan caiu em si. Além disso, não queria brigar; queria ape- nas ver o anjinho verdadeiro; de modo que perdeu a empáfia e disse conciliatoriamente: "Reconheço que está em sua casa, Pedrinho, mas você há de ad- mitir que é uma verdadeira judiação nos receberem deste modo. Fize- mos uma viagem longuíssima, por ordem do Rei, para visitar o anjinho, e ao chegarmos vocês nos impingem um macaco de sabugo! Ora, é pre- ciso concordar que isso é um pouco meio muito...". - "Macaco de sabugo dobre a língua!" - gritou Emília. - "O Viscon- de é um verdadeiro sábio, estimadíssimo de todos daqui, até de Dona Benta. Retire o macaco!..." Peter Pan, que não queria brigar, retirou o macaco e disse, voltan- do-se para Pedrinho: - "Vamos. Responda à minha interpelação". Pedrinho confessou tudo. - "Sim, é verdade. Confesso que o anjo verdadeiro é outro - e está bem escondido. Fizemos isso porque sabemos o que são crianças e tive- mos medo que nos escangalhassem o anjinho." - "Muito bem!" - exclamou Peter Pan. - "Agora que lealmente nos confessou a maroteira, mostre-nos o anjo real. Não receie coisa alguma.Monteiro Lobato Eu me responsabilizo por tudo. Não deixarei que criança nenhuma to- que nele." "Isso muda o aspecto da questão" tornou Pedrinho. "Já que você se responsabiliza, poderei mostrar o anjinho verdadeiro. Mas nin- guém há de pegar nele! É um verdadeiro vidro, e assus- ta-se com qualquer coisa." "Não tenha medo de nada, Pedrinho. Eu não deixarei que as crianças da Inglaterra quebrem o anjinho." Enquanto os dois discutiam, Emília se atracava com Alice do País das Maravilhas, que também viera no bando. Alice estava torcendo o nariz a tudo e achando que aquele sítio não parecia digno de um anji- nho. - "Uma casa velha, estas árvores tortas por aqui, aquele leitão lá longe nos espiando então isto lá é morada digna de um anjinho caído do céu? Os anjos querem nuvens bem redondas. Se o levássemos para Londres, haveríamos de dar-lhe um palácio de cristal cheio de nuvens de ouro - ouro fofo bem macio." "A senhora está muito enganada" rebateu Emília. "O anjinho anda muito satisfeito por aqui. Tem se regalado de brincar. Outro dia me disse que estava enjoado de nuvens redondas e não trocava todas as nuvens do céu por este pomar." "Disse isso por simples delicadeza" volveu Alice. - "Os anjos são as criaturas mais delicadas que há. Mas se você entrar bem dentro da ideia dele, vai ver que está doidinho por ir conosco para a Inglaterra." "Pois daqui não sai, nem que o mundo venha abaixo!" gritou Emília. "Se fazem muita questão de possuir um anjo, podem levar o da Estavam nesse ponto quando Pedrinho e Peter Pan chegaram a acordo. Depois de tudo bem combinado, o reizinho da Terra do Nunca bateu palmas e gritou: Pedrinho cedeu aos meus argumentos. Vai mostrar-nos o anjinho verdadeiro, mas com uma condição: ninguém tocar nele, porque é um verdadeiro vidro. Espero que essa condição seja respeitada por todos, visto como acabo de dar a Pedrinho a minha palavra de honra". Houve um murmúrio de descontentamento. As crianças inglesas são como todas as mais: não se contentam com ver as coisas, querem pe- gar também. Em todo caso, como Peter Pan dera a sua palavra de honra, não houve remédio senão se conformarem. "Emília" - disse então Pedrinho "vá depressa ao e traga o anjo." Emília foi correndo. Instantes depois voltava, muito cheia de si, trazendo pela mão a encantadora criaturinha celeste. 34Memórias da Emília Que delírio! Na maior curiosidade a criançada inglesa se reuniu em redor dele; como fossem muitas, as que não conseguiram lugar na frente treparam às árvores para ver melhor. As árvores do pomar fica- ram mais cheias de crianças do que de frutas. Volta e meia um galho estalava e caía com diversas, num berreiro medonho. Quem primeiro dirigiu a palavra ao anjinho foi Alice. Ajoelhou-se diante dele, no maior dos enlevos, e "Encantinho, como é o seu nome?". "Meu nome é Florzinha das Alturas para a servir" - foi a galan- teza da resposta. "Como é delicado!" - exclamou Alice voltando-se para Peter Pan. "Florzinha das Alturas para me servir!... E que idade tem, anjinho?" "Não tenho idade" respondeu ele. "Sou parado, não cresço. Há séculos que vivo sempre deste mesmo tamanhinho..." "Está vendo, Peter Pan?" gritou Alice. "Tal qual você. É para- do. Não cresce..." "É como eu também" juntou Emília. "Eu também não cres- Nasci deste tamanho e deste tamanho ficarei sempre. Sabem que a professora do anjinho sou eu? Eu, sim!... Tenho-lhe ensinado mil coisas. Pergunte-lhe, por exemplo, o que é flor." Alice perguntou ao anjinho o que era flor. "Flor" respondeu ele "é um sonho colorido e cheiroso, que com as raízes as plantas tiram do escuro da terra e abrem no ar. Foi como Emília me ensinou." Todos se admiraram da poesia daquela definição, mas Alice não queria ouvir o anjinho repisar as coisas ensinadas pela Emília; queria saber como eram as coisas lá no céu. "Conte-nos como é lá. Deve ser lindo, não? Conte a sua vidi- nha toda..." o anjinho contou: "Não me lembro quando nasci. Acho que sou filho das nuvens e das estrelas, porque sempre me achei rodeado de nuvens e estrelas. Meu prin- cipal brinquedo era fazer bolinhos de massa cósmica para jogá-los no éter. Esses bolinhos iam crescendo no espaço e viravam novas estrelas...". "E os cometas de cauda? Fazia também bolinhos de cometas?" quis saber Alice. "Sim. É muito fácil. Basta fazer um bolinho redondo e depois dar um puxo de um lado, deixando um começo de rabinho. Quando a gente joga esses bolinhos no espaço, a velocidade vai fazendo que o rabinho se encompride cada vez mais, e se abra todo, muito fofo, adquirindo aque- la forma de cauda de cometa que vocês aqui conhecem..." 35Monteiro Lobato A criançada inglesa estava maravilhada e doida por ir brincar de "bolinhos de estrelas" no céu. Emília torceu o nariz, e como uma das crianças lhe perguntasse se também não estava doida por aquilo res- pondeu com ar de farta: "Já me enjoei disso. Fiz tanto bolinho de estrela e cometa lá na Via Láctea que hoje até prefiro fazer bolinhos de barro. Estou farta...". As crianças inglesas olharam-na com profunda inveja. Alice pros- seguiu nas perguntas. "E as nuvens? Muito macias?" "Mais que a paina daqui. Não existe nada mais lindo que as nu- vens, porque não param nunca de mudar de forma e cor. Eu rolava por cima das redondas, como se fossem travesseiros de sonho. Atirava-me de uma para outra, às vezes de grande altura. Quando caía, mergulhava até ao meio. Uma gostosura!..." "Mas brincava sozinho?" "Não. Há lá milhões de anjinhos como eu. Brincávamos o dia todo. Foi numa dessas brincadeiras que houve o desastre." "Conte como foi esse desastre" - pediu Alice. "Eu estava com os outros brincando de rolar de nuvem em nu- vem. Nisto formou-se embaixo de nós uma grande. Dei um pulo. Quan- do caía, afundei dentro da nuvem até ao meio, gostosamente. Súbito, um choque aqui no encontro da asa esquerda. Dei um grito. Eu havia esbarrado num corpo estranho." "Corpo estranho?" - exclamou Alice. "Pois há corpos estranhos nas nuvens?" "Não há" o anjinho -, "mas nesse dia houve. Dentro da nuvem estava um corpo estranho que eu só enxerguei no momento do choque. Tinha pernas e braços, cabeça e cartola..." "Era o Visconde!" berrou Emília. - "Na nossa viagem ao céu ele caiu da Lua e ficou girando no espaço como satélite. Numa das vol- tas com certeza esbarrou no anjinho." "E depois?" - indagou Alice, cada vez mais curiosa. "Depois perdi os sentidos. Não vi mais nada. Quando meus olhos se abriram, encontrei-me na imensa planície da Via Láctea, no colo de uma criaturinha estranha. Era aqui a Emília..." Emília voltou-se para a criançada, radiante de orgulho, para que todos vissem que era ela mesma. "E que mais?" "Emília me ninava, e quando abri os olhos me falou uma porção de coisas que não entendi. Depois vieram vindo os outros. Apareceu aquela lá - - e apontou para Narizinho -; e aquele lá - e apontou para Pedrinho. 36Memórias da Emília - E também um senhor muito sério, de grandes orelhas e olhar triste." - "O Burro Falante!" - gritou Emília. Peter Pan cochichou para Pedrinho que fazia muita questão de conhecer o burro. - "E depois?" - volveu Alice. - "Depois descemos do céu" - disse o anjinho. - "Dona Benta nos havia chamado com um berro: 'Já para baixo, Os astrôno- mos estavam aqui neste sítio, se queixando das reinações feitas lá nas alturas. Quando cheguei e vi esses homens tive medo. Umas barbas grandes, óculos no nariz, carecas..." - "E como vai se dando por aqui?" "Otimamente!" - respondeu o anjinho. - "Todos me querem muito e me tratam na palma da mão. Nastácia faz uns quitutes que não existem lá no céu. É das pipocas que eu gosto mais. Também dos bolinhos..." - "Bolinhos de estrelas?" - "Não. De um pó branco..." " "Farinha de trigo!" - berrou Emília. "Ela amassa esse pó com gema de ovo e gordura" - continuou o 37Monteiro Lobato anjinho. - "Enrola os bolinhos entre as palmas brancas de suas mãos pretas e os em lata num buraco muito quente chamado forno. Pas- sado algum tempo os bolinhos ficam no ponto - e é só comer." "Que galanteza!" - exclamou Alice. "Que amor! Com que graça ele conta uma simples receita de bolinho!... E frutas? Também come?" "Se come!" berrou Emília. - "Gulosíssimo, até. Para devorar pitangas, não há outro." "Sim" - confirmou o anjinho -, "gosto muito de pitangas, quando estão com o vermelho já bem escuro. Das verdes, amarelas ou apenas um pouco vermelhas, não gosto. Muito azedas. Outra fruta de que gosto muito são as jatibucabas..." - emendou Emília. - "Não há meio de ele dizer certo..." "Também vocês aqui no Brasil arranjam cada nome para as fru- tas!" - observou Alice, que nunca tinha visto jabuticaba. - "Essa, a ava- liar pelo nome, deve ser do tamanho de uma melancia." - "Ao contrário" disse - "O nome é grande, mas a fruta é das menores que temos. Pretinha e assinzinha..." "E agora é tempo?" - quis saber Peter Pan, já com água na boca. "Antes 'sesse'!" suspirou Emília. "Agora só temos laranja. Gosta de laranja-lima, Peter?" "Se gosto!" - respondeu ele. - "Pelo-me! Qual é o pé?" "Aquele baixinho, perto da cerca. Tem canivete?" Peter Pan correu a apanhar meia dúzia de laranjas, que veio chu- par perto do anjinho. Ao verem aquilo as outras crianças também fica- ram com água na boca. Foi uma correria. "Oranges, oranges!" - gritavam em inglês. o avança foi tamanho que não ficou no pomar uma só laranja para remédio. "Eu quero de cuia!" - dizia uma. "Eu quero de gomo!" - di- zia outra. Um amarelo tapete de cascas recobriu o chão. "Que coisa gostosa" - murmurou Alice - "chupar laranja-lima ao lado de um anjinho do céu que conta as coisas de lá! Estou mudando de Emília. Estou achando que esse sítio de Dona Benta é ainda mais gostoso que o nosso Kensington Garden lá de Londres..." "E é mesmo" observou Narizinho. - "Não há lugar no mundo que valha o sítio de Quem o vê pela primeira vez, com estas ár- vores velhas, todo espandongado, não dá nada por ele. Mas depois que o conhece não troca nem pela Califórnia, que é um paraíso. o sítio de é gostoso como um chinelo velho." E a menina pôs-se a contar as mil coisas passadas ali, as aventu- ras do pó de pirlimpimpim, o encontro do Burro Falante lá no País das 38Memórias da Emília Fábulas, o casamento dela com o Príncipe Escamado, a ida ao País da Gramática e outros episódios aventurescos. "Até ao País da Gramática vocês foram?" exclamou Alice admirada. "E saiba que nos divertimos muito. Visconde raptou um diton- go e Emília desmoralizou completamente uma velha coroca implican- tíssima, chamada Ortografia Etimológica. Olhe, Alice, se você passar dois dias aqui conosco, juro que não quer mais saber da Inglaterra." "Estou vendo" respondeu Alice. "Isto aqui parece que vale a pena..." Almirante assombra-se com que La na sua salinha Dona Benta conversava com o Almirante Brown sobre a política do Império Britânico. o Almirante já dor- mira uma boa soneca e agora, sentado na rede, ia bebendo o uísque mandado vir da venda do Elias Turco. Era falsificado. Mesmo assim o velho inglês o bebia, embora com caretas a cada gole. "Pois é isso, minha senhora. Cá estou feito capão de pintos, a atravessar os mares com o meu exército de crianças. A trabalheira que me deram na viagem! Até suo só de lembrar-me disso..." "E por falar, Almirante, como há de ser para enchermos tan- tas barriguinhas? o mantimento que há aqui no sítio não dá para a décima parte." o velho inglês sorriu. "Não se incomode, minha senhora. Providenciei sobre tudo. Dentro em pouco chegarão os meus marinheiros com um grande carre- gamento de comedorias. Poderá a senhora ter a bondade de levar-me ao pomar? Preciso ver o anjinho. Mas aqui entre nós: é mesmo um anjinho 39Monteiro Lobato do céu ou trata-se de alguma reinação dos seus netos, um simples anjo de procissão?" - "É dos legítimos, Almirante, posso garantir e o senhor o verifi- cará com os seus próprios olhos. Por mais prodigioso que isto seja, não passa da mais pura realidade. Ah, Almirante, Vossa Honra não imagi- na o que acontece neste sítio! Só vendo. Tanta e tanta coisa, que hoje, como já disse a Vossa Honra, não me admiro de mais nada. Se o Sol aparecer ali na porteira e me disser: 'Boa tarde, Dona Benta!' eu o re- cebo como se fosse o Compadre Teodorico. - Senhor Sol. A casa é sua.' Positivamente não me admiro de mais nada, nada, nada..." Os dois velhos saíram de braços dados para a visita ao anjinho. Foi difícil abrir passagem no bolo de crianças apinhadas em redor dele. Ao ver o anjinho, lindo, lindo de não poder mais, o Almirante Brown arregalou os olhos e puxou os óculos. Examinou o anjinho atentamen- te, sempre desconfiado de algum embuste; apalpou o encontro das asas para ver se não eram asas de anjo de procissão. Emília advertiu-o: "Não pegue com muita força que quebra. Ele é um vidro". o Almirante sacudia a cabeça, pensativo. "É extraordinário, não há dúvida! Tenho 70 anos e jamais me defrontei com um prodígio assim. Quando chegar a Londres e der ao rei o meu testemunho, é bem possível que Sua Majestade se assanhe e queira vir também, queira vir ver com os seus reais olhos este assom- broso prodígio..." " - exclamou Dona Benta. "Que venha, que venha sem a menor cerimônia. A única pessoa que ainda não apareceu por aqui foi um rei de verdade. Reis da fábula e dos países maravilhosos, desses que usam coroinhas de ouro, temo-los tido aos montes." o Almirante não cessava de assombrar-se. "Que coisa Um anjinho caído do céu... " "Caído não, Almirante" corrigiu Emília. "Trazido. Quem o trouxe fui eu." "Quem é esta estranha senhorita?" indagou o Almirante, pon- do os olhos na boneca. "Pois é a Emília, não vê?" disse Dona Benta. "De fato foi ela quem trouxe o anjinho lá da Via Láctea, onde o 'caçou', como costuma dizer." "Ahn! A Emília, sim, a Senhora Marquesa de Rabicó!" disse o Almirante recordando-se. "Sei, sei. Sua Majestade a Rainha Viúva já me falou das proezas desta famosa criaturinha, mostrando até muito desejo de conhecê-la pessoalmente." 40da Emília "Foi pena eu não ter sabido disso antes" - volveu Dona Benta. "Já estivemos em Londres, na nossa viagem em torno do mundo para estudar geografia. Se eu soubesse do desejo da rainha, teria feito uma visita a Sua Majestade para a apresentação da Emília..." Depois de bem visto o anjinho, e de uma prosa com ele, o Almiran- te afastou-se, sempre de braço dado a Dona Benta. Foram dar uma volta pelo sítio. - "Estou achando tudo por aqui muito poético" disse o inglês cor- rendo os olhos pelas árvores. "Que lindo este imenso tapete amarelo com que a senhora forrou o pomar!..." Dona Benta riu-se. o Almirante tinha a vista ainda mais fraca que a dela, de modo que tomou o chão forrado de cascas de laranja por um imenso tapete amarelo. Nisto uma vaca mugiu. "É a Mocha" - explicou Dona Benta -, "uma vaca excelente que temos aqui há já muitos anos." "Meu pai foi criador de vacas Jérsei" disse o Almirante - "e eu ainda conservo algumas da sua criação. Quando voltar à Inglaterra hei de mandar para aqui uma de presente. Leiteiras melhores não existem." "Pois ficarei imensamente agradecida" - respondeu Dona Benta. "A pobre da Mocha está bastante velha. Mal dá o leite necessário ao consumo da casa." No estábulo a Mocha teve a honra de ser apresentada ao Almiran- te Brown, o qual foi saudado por um Mu! especial, em visto que a pobre vaca não sabia uma só palavra de inglês, nem yes. o Almi- rante gabou os seus enormes olhos cheios de bondade. - "Vê-se que é uma vaca de muito bons sentimentos mas pouco leite" disse o velho marujo. - "Quantos litros dá?" "Não chega a três" - respondeu Dona Benta. o filho do criador de vacas Jérsei riu-se. "As de meu pai davam dez vezes isso." Dona Benta arregalou os olhos. "Ah! Eu aqui com uma assim até montava uma fábrica de queijo...' "Há de tê-la, minha senhora. Há de tê-la." Nisto um zurro muito discreto soou. "Quem é?" - quis saber o Almirante. "É o Conselheiro, o nosso Burro Falante" - explicou Dona Benta. "Nele é que os meninos foram para o céu." o Almirante Brown sorriu, pensando lá consigo: "Pobre velha! Vi- sivelmente está caduca". Mas quando foi apresentado ao Burro Falante 41Monteiro Lobato e este murmurou, na sua VOZ grave de burro da fábula: - "Tenho mui- ta honra em conhecer Vossa Senhoria" - o Almirante quase caiu para trás. Teve de segurar-se no rabo que o burro lhe estendeu. "É espantoso, minha senhora! Está aqui um fenômeno que se eu contar ao Rei Eduardo ele julgará que é caduquice minha. Um burro falante! Isto positivamente me deixa com as ideias atrapalhadas..." Dona Benta gozou o atrapalhamento do inglês. "Foi o que me sucedeu no começo, Almirante. Fiquei também atrapalhada, sem saber o que pensar. Depois fui me acostumando. Hoje acho tão natural que esse burro fale, como acho natural que uma laran- jeira produza laranjas. Todas as tardes chego até aqui para dois dedos de prosa. Além de falante, o nosso Conselheiro é um puro filósofo." "De que escola?" "Um filósofo estoico. Costumo ler-lhe trechos das Meditações de Marco Aurélio. Os comentários que ele faz mereciam ser escritos e publicados." Almirante não conseguia voltar-se do assombro. "Mas... mas, Dona Benta, a senhora já refletiu que isto é um fenô- meno que contradiz tudo quanto a ciência estabeleceu a respeito da fala e da inteligência dos animais?" - "Refleti, sim. Eu sei o que tenho em casa, Senhor Almirante." Um tropel e uma algazarra interromperam o diálogo. Pedrinho e Pe- ter Pan vinham correndo para ali, acompanhados de mais de cem crianças. "O burro que fala! o burro que fala!" - gritavam todas. - "Vamos conversar com o burro que fala!..." " 42Memórias da Chegaram. Em torno do excelente animal formou-se uma roda enorme. Todos falavam ao mesmo tempo, perguntando mil coisas ao pobre Conselheiro, que se via tonto para atender a tantos clientes. Dona Benta e o Almirante deixaram-nos naquele divertimento que não existia na Inglaterra e recolheram-se à salinha. Estavam lá, ainda comentando o prodigioso caso do Burro Falante, quando Tia Nastácia veio dizer que um grupo de marinheiros se aproximava. Almirante sorriu. "São as comedorias que vêm vindo" - disse ele - "e não é sem tempo. Com o aperitivo das laranjas que chuparam, as crianças devem estar tinindo de fome." E assim era. Mal avistaram os marinheiros do almoço, uma grita- ria atroadora encheu os ares. "O lanche! o lanche!... " Abandonaram o anjinho, o Burro Falante e as árvores em que es- tavam repimpadas para só cuidarem dos estômagos. Que suculento lanche foi aquele! Bem se via andar ali o dedo do Rei da Inglaterra. Sanduíches de todas as qualidades, queijos, geleias de frutas, maçãs e peras, cremes e em quantidades enormes. Tia Nastácia veio espiar. Aquela abundância encantou-a. - "Ora graças!" - murmurou a velha preta. - "Se não chegasse esse reforço, isto por aqui ficava como fazenda por onde passou nuvem de gafanhotos. Nem a casca das árvores se salvaria... Credo!" 43Monteiro Lobato Onde aparece um famoso marinheiro. Pedrinho insinuou-se entre os marujos. Pela primeira vez via os famosos mariners da maior esquadra do mundo. Vermelhaços, louros e ruivos, com de boca de sino. E que caras havia entre eles! De puros lobos do mar. Em dado momento, porém, Pedrinho empalideceu. Um dos marujos o impressionara profundamente. Saiu dali e correu em procura de Peter Pan, que estava atracado com um sanduíche de presunto de York. "Tenho uma coisa muito séria a dizer" - murmurou-lhe Pedri- nho a meia-voz. - "Engula isso depressa e apareça lá no pomar" - e foi esperá-lo debaixo da pitangueira. Peter Pan não tardou. "Que há?" - indagou, engolindo o último bocado do sanduíche. "Há que descobri uma coisa muito séria: o Capitão está entre os marinheiros que vieram trazer o almoço. Reconheci-o perfeitamente." Peter Pan empalideceu. "Não pode ser, Pedrinho! Naquela batalha no navio dos corsá- rios bati-me a espada com esse monstro, e o fui apertando de golpes e mais golpes, e ele recuando, recuando até que tchibum! - caiu n'água, bem dentro da goela do crocodilo. Foi assim que o Capitão Gancho morreu." - "Morreu, nada! Essa gente não morre. Com certeza comeu o cro- codilo, em vez de o crocodilo comer a ele. E a prova é que o vi no meio dos lobos do mar que vieram com o lanche. Vi-o com estes meus olhos, Peter! Cheguei pertinho, cheirei. Ele mesmo, com a mão de gancho cal- numa luva e aquele fedor de pirata..." " Peter Pan permaneceu uns instantes pensativo. 2 Personagem que aparece no livro Peter Pan. Nota da edição de 44da Emília "E que quererá por aqui?" "Certamente que anda atrás de você" sugeriu Pedrinho. "Impossível! Ninguém sabia que eu vinha. Nada contei a nin- guém nem a Wendy. Resolvi embarcar no momento de o navio sair. Basta dizer que fui a última pessoa que se meteu a bordo. Não, Pedri- nho. Não foi por minha causa que o Capitão Gancho veio. Foi por causa do anjinho, juro!..." "Mas que há de querer com o anjinho?" "É boa! Raptá-lo. Você não calcula que negócio é um anjinho des- ses nas unhas de um explorador. Já não digo para trabalhar em circo, mas no cinema, Pedrinho! No cinema! Em Hollywood! Para entrar nas fitas das Diones, da Shirley, do Jack Cooper! Coisa de render milhões. Nunca houve no mundo uma estrelinha anjo." "Realmente" - murmurou Pedrinho. "Até eu já havia pensa- do nisso..." "Pois juro, Pedrinho, que o Capitão Gancho veio com essa ideia na cabeça, e também juro que já está de plano formado para furtar o anjinho." "Acha bom prevenirmos o Almirante?" "Nada disso. Eu não dou importância a gente grande. Costumo resolver todas as dificuldades por mim mesmo, com a meninada. Escu- te. Existem armas por aqui? Espadas, lanças, pistolas?" Pedrinho suspirou. "Ah, Peter Pan! Se você soubesse que boba e medrosa é a Tem medo de tudo, até das baratas. Não pode ver um revólver. Faca, só admite essas de mesa, de ponta redonda. Em matéria de armas só tenho uma espingardinha de cano de guarda-chuva que eu mesmo fiz, e o meu velho bodoque..." Peter Pan sorriu com superioridade. "Pois lá na Terra do Nunca temos um verdadeiro arsenal. Depois de bater o Capitão Gancho, fiquei com todas as armas dos corsários. Até um canhãozinho do navio pirata eu levei para a Terra do Nunca." "Levou um canhão!?... "Só não levei os grandes por serem muito pesados e consumirem muita pólvora. Você não imagina, Pedrinho, como canhão grande come pólvora! Mas espadas, pistolas, espingardas, lanças, machados e pu- nhais, isso levamos tudo. Lembra-se daqueles lobos que nos rondavam por lá? Pois caímos de tiros neles. Não ficou um! Os que não morreram, fugiram com cem pernas, Nossa caverna lá na Terra do Nunca está hoje como a fortaleza do Gibraltar: Pedrinho fremiu de entusiasmo; depois suspirou, pensando com raiva do pacifismo de Dona Benta. 45Monteiro Lobato "Que exclamou. "Se deixasse, poderíamos tam- bém fazer disto aqui uma fortaleza inexpugnável. Está vendo aquele cupim lá no pasto? Tem um ótimo para ninho de metralhadora." "Também pelo alto destas árvores é possível esconderem-se muitos atiradores" - observou Peter Pan correndo os olhos pelo pomar. "Você, não sei, mas eu sou capaz de transformar isto aqui numa tre- menda fortaleza. Olhe: daquele lado corro uma linha dupla de trinchei- ras. À esquerda e à direita abro fossos intransponíveis..." "Com uma ponte levadiça!" - ajuntou Pedrinho, entusiasmado. "Isso só em castelo" volveu Peter Pan em tom de desprezo ante os conhecimentos militares de Pedrinho. Nesse instante um vulto atraiu-lhes a atenção um marinheiro que caminhava disfarçadamente, repetidas vezes olhando para "Ele!" - cochichou Peter Pan, velho conhecedor do Capitão Gancho, concordou. "Tem razão, Pedrinho. É elíssimo mesmo! Só que enfiou a mão de gancho naquela luva para disfarcar-se. Onde está o anjinho?" "No da figueira grande, lá onde o escondemos quando a criançada apareceu. Depois que os marinheiros do almoço chegaram, dei ordem à Emília para que o guardasse no novamente." "Onde é a figueira?" "Aquela grandona, É oca por dentro, como as árvores da Ter- ra do Nunca." Os dois meninos ocultaram-se atrás da pitangueira para melhor seguirem os movimentos do ladrão. o infame corsário, sempre na pon- ta dos pés, olhava em todas as direções, farejando qualquer coisa. "Parece que é pelo faro que esses monstros se guiam" - observou Peter Pan. "Mas com o anjinho não arranja nada, ele é totalmente inodoro." "Que quer dizer isso?" "Inodoro quer dizer sem cheiro nenhum, como a água. A água é incolor, inodora e insípida." "Mas é capaz de descobri-lo por indução" sugeriu Peter Pan. Foi a vez de Pedrinho perguntar o que era indução. "É uma espécie de adivinhação lógica" disse Peter Pan. "Juro que assim que o Capitão Gancho enxergar a figueira pensará em oco, porque quase todas as figueiras velhas têm ocos; e pensando em oco, pensará no anjinho escondido lá dentro. Isso é que é indução." E foi o que se deu. Mal o corsário enxergou a figueira, induziu logo e pôs-se a caminhar na direção dela. Nisto apareceu, inesperadamente, um segundo vulto. 46da - "Olhe!... Vem vindo outro. A coisa se complica...' " Pedrinho não tardou a reconhecê-lo. "Popeye! o marinheiro Popeye, Peter!... " Peter Pan não conhecia esse figurão. "Quem é ele?" perguntou. "Um homenzinho Peter. Não há no mundo quem o ven- ça. Derrota tudo. Será que é cúmplice do Capitão?" Não era. A conversa entre Popeye e o corsário ia mostrar que não era. Os meninos ouviram tudo perfeitamente. "Viva, Senhor Popeye!" - exclamou o Capitão Gancho. "Que é que o traz por aqui?" "O mesmo que traz a você, Capitão" - respondeu Popeye na sua VOZ rouquíssima. "Acho que podemos nos entender e nos ajudar mutuamente" tornou Gancho. "Vou contar tudo. Vim entre os marinheiros do Al- mirante Brown com a ideia de levar o anjinho para Londres. Renderá bom dinheiro num circo." Popeye sorriu. "Pois saiba que tive a mesma ideia e vim dos Estados Unidos para levá-lo a Hollywood. No cinema esse anjo dará mais sorte do que em todos os circos do universo. Não podemos, pois, nos entender, Se- nhor Capitão Gancho." "Com seiscentos milhões de urrou o corsário. - "Sei que você é valente, mas não tenho medo de caretas. Vim para levar o anjinho e hei de levá-lo." Popeye não respondeu. Limitou-se a rir e soltar uma baforada do seu famoso cachimbo de apito - pu! pu! Ofendido por aquele desprezo, o Capitão Gancho foi a luva. o horrendo gancho de ferro apareceu, de ponta afiadíssima. Os dois meninos, atrás da pitangueira, começaram a sentir-se ele- trizados. Peter Pan teve dó de Popeye, achou que estava ali, estava esca- lavrado para o resto da vida. Pedrinho, entretanto, apostou em Popeye. A luta rompeu. Os dois marinheiros atracaram-se com a maior fú- ria. Eram golpes e mais golpes, um em cima do outro. Um de Popeye na queixada de Gancho o fez bambear, como bêbedo; forte, porém, que era o pirata, logo se firmou nas pernas e avançou, desferindo uma ganchada contra o ombro de Popeye. o que a este valeu foi a agilidade. No momento em que o gancho vinha descendo, Popeye quebrou o corpo. Mesmo assim foi riscado de leve. E a luta prosseguiu cada vez mais feroz, com rastei- ras, munhecaços, pontapés na barriga. Durante minutos, nenhum levou vantagem. Os dois contendores equivaliam-se em força. 47Monteiro Lobato - "Esse Popeye não é homem para medir-se com o Capitão Gan- cho. Acabará cansado e apanhando" - murmurou Peter Pan ao ouvido de Pedrinho. - "É que Popeye ainda não engoliu o espinafre" - explicou Pedri- nho, deixando Peter Pan na mesma. Outra ganchada do corsário riscou o ombro do marinheiro. Po- peye, então, enfureceu-se e, afastando-se dez passos, sacou do bolso a lata de espinafre, cujo conteúdo engoliu a - "Agora você vai ver!" - cochichou Pedrinho. E Peter Pan viu. Viu Popeye avançar contra o corsário numa fúria louca, com os músculos dos braços crescidos como bolas. Ao primei- ro SOCO dado nas fuças do Capitão, este cambaleou e foi estatelar-se no chão a oito metros de distância. - "Está vendo o que é murro?" - murmurou Pedrinho entusiasmado. Mas o Capitão Gancho levantou-se e investiu mais uma vez. Coi- tado! Levou tal roda de murros, que ficou como paçoca que sai do pi- lão. Popeye amassou-o. Mas amassou mesmo, como quem amassa pão. Amassou-o de tal modo que o deixou transformado em pasta de gente. Peter Pan arregalava os olhos, no maior dos assombros. - "Irra!" - exclamou. - "Tenho visto cabras valentes, mas como este Senhor Popeye nunca! Cada parece pancada de 6 48Memórias da Emília "Ah, Popeye é assim" disse Pedrinho. "Sem espinafre, não vale nada, apanha de qualquer punga. Mas quando engole uma dose de espinafre, ah, não existe no mundo quem possa com ele!" barulho da luta atraíra a atenção da criançada e do Almirante. Vieram todos correndo. "Que foi? Que foi?" Pedrinho contou o que se havia passado. "Bandidos!" - exclamou o Almirante Brown. "Esses dois mari- nheiros vieram sem ser convidados. Não figuram na minha lista. Vou pô-los a ferros nos porões do Wonderland." "Pô-los é modo de dizer" advertiu Pedrinho. "Só existe um. outro já virou pasta de gente. que há a fazer é enterrá-lo, bem fundo." Almirante aproximou-se do marinheiro caído e examinou-o. Viu que de fato era assim. Em seguida voltou-se para Popeye. "E vosmecê, Senhor Popeye! Estou reconhecendo-o muito bem Que história é esta? Como se meteu na tripulação do Wonderland sem ter sido engajado?" Popeye, que estava bêbedo como uma cabra, riu-se. "Ah, ah, ah! e atirou umas baforadas do cachimbo antes de res- ponder. Cada baforada era um apitinho: pu! pu! E na sua VOZ rouquíssi- ma disse: - I am a sailor man." "Sei disso!" berrou o Almirante. "E sei também que vai pas- sar uns tempos nos porões do Wonderland, com umas pulseirinhas de ferro nas munhecas." o ultrabêbedo Popeye respondeu com mais três apitos de bafora- das e um "Ah, ah, ah!" - Indignado com o desrespeito, o Almirante Brown gritou para os marujos: "Todos aqui! Agarrem-me este bêbedo e metam-no a ferros!". Popeye continuava impassível. Fez mais um pu! pu! e caiu em guarda. A luta entre Popeye e os marinheiros do Wonderland foi dessas coisas que só gênios do tamanho de Shakespeare e Dante se atrevem a descrever - e mesmo assim descrevem mal. Nunca houve tanta panca- da no mundo. Se fôssemos juntar toda a imensa pancadaria que há no Dom Quixote de la Mancha e com ela formássemos um monte, esse mon- te ficaria pequeno diante da pancadaria que houve no pomar de Dona Benta. espinafre ingerido pelo sailor man era do bom, de modo que se tornaria impossível vencê-lo. Um a um os marujos do Wonderland iam sendo postos fora de combate. Quando caiu o último, Popeye deu uma risada grossa e fez pu! pu! pu! pu!.. 49

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