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Lourdes Souza Utrilla Da Silva CUSTEIO BASEADO EM ATIVIDADES – ABC Sumário INTRODUÇÃO ������������������������������������������������� 3 CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS DO CUSTEIO BASEADO EM ATIVIDADES ������������ 5 RASTREAMENTO DOS CUSTOS INDIRETOS POR MEIO DOS DIRECIONADORES ��������������������������������������� 12 APROPRIAÇÃO DOS CUSTOS INDIRETOS AOS PRODUTOS NO CUSTEIO ABC ����������������������������������������������� 24 PRÁTICAS APLICADAS NO CUSTEIO ABC �� 32 CONSIDERAÇÕES FINAIS ���������������������������� 38 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS & CONSULTADAS �������������������������������������������� 39 2 INTRODUÇÃO Segundo Martins (2018), o custeio baseado em atividades, conhecido como ABC (activity-based costing), é uma metodologia de custeio que busca reduzir consideravelmente as distorções presentes nos critérios de rateio arbitrário dos custos indiretos. O custeio ABC pode ser aplicado, também, aos custos diretos, entretanto não haverá diferenças relevantes em relação aos sistemas convencionais, pois a principal diferença está no tratamento dado aos custos indiretos. Com os sistemas de produção cada vez mais com- plexos, além do avanço tecnológico, na maioria das indústrias os custos indiretos têm aumentado, se comparados aos custos diretos. Além disso, re- centemente podemos observar, em alguns setores industriais, uma grande diversidade de produtos e modelos fabricados na mesma planta. Esse fato destaca a importância de aprimorar- mos os procedimentos na alocação dos custos indiretos aos produtos e serviços, no sentido de reduzirmos a arbitrariedade e a subjetividade que podem provocar distorções relevantes nos valores dos custos. 3 Você sabe por que o custeio ABC é uma poderosa ferramenta da contabilidade de custos? Sabia que o custeio ABC não se limita ao custeio de produtos? São questões como essas que neste material se tornarão compreensíveis ao finalizarmos os estu- dos sobre o tema. 4 CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS DO CUSTEIO BASEADO EM ATIVIDADES O custeio baseado em atividades (ABC) restringe- -se a uma limitação do conceito de atividade no contexto de cada departamento, entretanto não se limita ao custeio de produtos, trata-se de uma poderosa ferramenta utilizada na gestão de custos. O ABC pode ser aplicado também às empresas não industriais, pois as atividades ocorrem tanto em processos de manufatura quanto de prestação de serviços. Segundo Martins (2018), o custeio ABC, pelo fato de ser uma ferramenta gerencial, pode incorporar conceitos utilizados na gestão de custos, como custo de oportunidade e custo de reposição e depreciação. O ABC pode ser implementado sem interferir no sistema contábil da entidade, porque pode ser um sistema paralelo e também utilizado apenas periodicamente. Em um departamento são executadas diversas atividades similares, dessa maneira, o primeiro passo para o custeio ABC é identificar as atividades relevantes dentro de cada departamento. Nesse momento, pode ocorrer de a empresa já possuir 5 uma estrutura de custos por “centro de custos”, o que possibilita adaptações importantes, inclusive que cada centro de custos possa desenvolver uma atividade e, dessa maneira, facilitar o trabalho. Para ilustrar, apresentamos na tabela a seguir algu- mas atividades relevantes e seus direcionadores: Tabela 1: Atividades relevantes dos departamentos e seus direcionadores. Departamentos Atividades Direcionador Compras Comprar materiais Desenvolver fornecedores Nº de pedidos Nº de fornecedores Almoxarifado Receber materiais Movimentar materiais Nº de recebimentos Nº de requisições Administração de produção Programar a produção Controlar a produção Nº de produtos Nº de lotes Corte e costura Cortar Costurar Nº de produtos Nº de lotes Acabamento Acabar Despachar os produtos Tempo de acabamento Tempo para despa- char os produtos Fonte: Adaptado de Martins (2018). Para cada atividade é necessário atribuir o res- pectivo custo e identificar qual foi o direcionador dessa primeira etapa e, ao selecionar-se as ativi- dades relevantes, precisa considerar-se também as próximas etapas. 6 A grande diferença entre o ABC e o custeio por ab- sorção é a maneira como o ABC apropria os custos aos produtos. Portanto, o foco principal do ABC está na escolha dos direcionadores de custos. Esse direcionador de custos irá determinar o custo de uma atividade. Pelo fato de as atividades exigirem recursos para serem efetivadas, deduz-se que o direcionador é o responsável pelos seus custos. Para definir o custo dos produtos, o direcionador precisa ser o fator que define a maneira como os produtos se utilizam das atividades. Dessa maneira, o direcionador de custos será a base que deverá ser utilizada para atribuir os custos das atividades aos produtos. Vale ressaltarmos que existem dois tipos de direcionadores: os direcionadores do primeiro estágio, aqueles de recursos, e os que pertencem ao segundo estágio, os de atividades. O direcionador de recursos serve para identificar- mos de que maneira as atividades consomem os recursos, sendo usado para a entidade custear as suas atividades. Esse direcionador demonstra qual é a relação entre os recursos gastos e as atividades desenvolvidas. Os direcionadores de recursos devem demonstrar como as atividades estão consumindo um res- pectivo recurso. Por exemplo: de que maneira a 7 atividade de compra de materiais está consumindo os materiais de escritório e como essa atividade pode ser mensurada nas requisições destinadas ao almoxarifado. Ou seja, as requisições de material devem identificar as quantidades de recursos que foram usadas para realizar a atividade de comprar materiais. Considerando-se que a atividade de compras con- some materiais de escritório, o modo como essa atividade consome esse recurso pode ser mensurado pelas requisições feitas para o almoxarifado, assim, nas requisições de materiais são mencionadas as quantidades utilizadas desse recurso (material de escritório) para realizar a atividade de comprar materiais. Portanto, o direcionador de recurso é a quantidade necessária de material de escritório e não a quantidade de requisições emitidas que mencionam o direcionador (MARTINS, 2018). O direcionador de atividades identifica a maneira como os produtos estão consumindo as atividades e serve para custear produtos, indicando a relação entre as atividades e os produtos. Por exemplo, o número de inspeções realizadas nas diferentes linhas de produção define a proporção em que a atividade de inspecionar a produção foi usada para inspecionar os produtos. 8 Outro exemplo: identificar quanto os produtos con- somem das atividades para comprar materiais. Ao comparar o número de pedidos com as cotações emitidas para comprar um produto, encontramos a relação da atividade com aquele produto. As- sim, o direcionador dessa atividade de comprar materiais para os produtos refere-se ao número de pedidos e cotações emitidas. A diferença entre os direcionadores de recursos e os direcionadores de atividades está na distinção entre os fatores de custos e as medidas de saída de atividades. A quantidade de direcionadores que serão trabalha- dos dependerá do grau de precisão desejado e da relação custo-benefício. Os direcionadores podem variar de empresa para empresa, dependendo de como e por que as atividades são executadas pelos departamentos. Para custear as atividades, é necessário a apro- priação de uma parte de cada custo indireto dos departamentos, utilizando os direcionadores de custos de recursos. Os direcionadores de recursos mais comuns são: y Aluguel: tendo-se como base a área utilizada pelo pessoal e os equipamentos necessários para se executar as tarefas que compõem a atividade. Trata-se de um rastreamento por meio do direciona- dor, uma vez que a alocação direta não é possível; 9 y Energia elétrica: considerando-se que cada departamento possui um medidor de energiaelé- trica, o valor alocado a eles é do consumo efetivo; y Corte e costura e acabamento: o rastreamento pode ser com base nas horas-máquina utilizadas por produto, usando-se a segregação do tempo de corte e do tempo de costura. y Salários do pessoal da supervisão e mão de obra indireta: a alocação direta às atividades poderá ser pela folha de pagamento ou rastreamento por meio de folhas de registro de tempo ou processo de entrevistas; y Depreciação: permite a alocação direta por meio da análise do imobilizado nos departamentos produtivos; y Material de consumo: poderá ser alocado di- retamente às atividades por meio das requisições de material; y Seguros: requer o rastreamento do seguro dos bens de cada departamento para as atividades. Quanto ao rastreamento, é analisada a relação entre o custo e a atividade por meio do direcionador de recurso. Ou seja, é necessário a identificação do que é que efetivamente gerou o custo de maneira racional e analítica, de modo a reduzir as possíveis distorções (MARTINS, 2018). 10 Para conhecer mais sobre as características do método de custeio ABC, acompanhe o vídeo do Prof. Daniel Santana. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=5lkCSs6e6Pc SAIBA MAIS 11 https://www.youtube.com/watch?v=5lkCSs6e6Pc https://www.youtube.com/watch?v=5lkCSs6e6Pc RASTREAMENTO DOS CUSTOS INDIRETOS POR MEIO DOS DIRECIONADORES Segundo Martins (2018), o custo de uma atividade compreende todos os gastos de recursos neces- sários para desempenhá-la. Deve incluir os valores dos salários com os respectivos encargos sociais, materiais, depreciação, energia, uso de instalações etc. Normalmente, é possível agrupar vários ele- mentos de custo em um só para refletir a natureza do gasto pelo seu total, como exemplo: salários + encargos + benefícios = custo de remuneração; aluguel + imposto predial + água + luz = custo de uso das instalações; telefone + internet + correio = custo de comunicações; passagens + locomoção + hotel + refeições = custo das viagens. É possível também desmembrar uma conta em várias subcontas para evidenciar os recursos uti- lizados por diversas atividades. A conta de mão de obra indireta poderá separar os valores gastos nas diferentes finalidades. A alocação de custos às atividades precisa ser feita de maneira bem criteriosa, por ordem de prioridade: 1) Alocação direta; 12 2) Rastreamento; 3) Rateio. A alocação direta é usada quando existe uma identificação clara, direta e objetiva de certos elementos de custos com certas atividades. Pode ocorrer com salários, depreciação, viagens, material de consumo etc. O rastreamento é uma apropriação de custos com base na identificação da relação de causa e efeito entre a ocorrência da atividade e a geração dos custos. Essa relação é evidenciada por meio dos direcionadores de custos do primeiro estágio, tam- bém conhecidos como direcionadores de custos de recursos para as atividades. Alguns exemplos desses direcionadores são: nº de empregados, área ocupada, tempo de mão de obra, tempo de máquina, quantidade de kwh etc. O rateio é realizado somente quando não existir a possibilidade de utilizar-se nem a alocação direta nem o rastreamento, entretanto, para fins gerenciais, rateios arbitrários devem ser evitados (MARTINS, 2018). Para ilustrar, apresentamos um exemplo prático de uma indústria têxtil que produz calças, camisas e coletes; apresentamos na tabela a seguir o mapa dos custos de produção. 13 Tabela 2: Mapa de custos de produção. Calças Camisas Coletes Total (R$) Quantidade vendida 18.000 4.200 13.000 35.200 Preço unitário (R$) 10,00 22,00 16,00 Custo direto unitário (R$) 3,75 5,75 4,25 Custo direto total (R$) 67�500 24�150 55�250 146�900 Custos indiretos total 190�000 Fonte: Elaboração própria. Usando os direcionadores de recursos estabele- cidos pela empresa, os custos são alocados para cada departamento com base nos recursos, que por sua vez são alocados às suas respectivas atividades. Assim, o custo de cada atividade será apurado conforme seus direcionadores e com- posto pelos mesmos componentes dos custos do departamento, conforme tabela a seguir. Tabela 3: Levantamento dos custos das atividades. Departamentos Atividades Direcionador Custos (R$) Compras Comprar materiais Desenvolver fornecedores Total Nº de pedidos Nº de fornecedores 16.000 12.000 28.000 Almoxarifado Receber materiais Movimentar materiais Total Nº de recebimentos Nº de requisições 12.350 16.000 28.350 14 Departamentos Atividades Direcionador Custos (R$) Administração de produção Programar a produção Controlar a produção Total Nº de produtos Nº de lotes 16.000 13.850 29.850 Corte e costura Cortar Costurar total Nº de produtos Nº de lotes 29.000 28.600 57.600 Acabamento Acabar Despachar os produtos Total – Tempo de acabamento – Tempo para des- pachar os produtos 14.000 32.200 46.200 Total 190�000 Fonte: Adaptado de Martins (2018). O valor dos custos indiretos de R$ 190.000,00 foi alocado aos departamentos conforme os direcio- nadores apresentados na tabela. Para a atividade comprar materiais, o valor de R$ 16.00,00 foi apurado com base no direcionador do número de pedidos de compra de material. Se os pedidos apresentassem características muito diferentes uns dos outros, seria necessário procurar outra medida de atividade, como o tempo gasto por pedido, já que o “número de pedidos” pode não representar o esforço requerido. 15 Já para a atividade desenvolver fornecedores, o valor de R$12.000,00 foi calculado com base no direcionador de número de fornecedores para cada item de material. Assim, se um produto possui mais fornecedores do que outro, esse produto recebe mais custo desta atividade do que um produto com menos fornecedores. Para a atividade receber materiais, o valor de R$ 12.350,00 foi obtido utilizando-se como direciona- dor de custos o número de recebimentos. Por sua vez, a atividade movimentar materiais no valor de R$16.000,00 foi direcionada aos produtos de acordo com o número de requisições dos departamentos produtivos ao almoxarifado. A atividade de programar a produção, no valor de R$ 16.000,00, foi direcionada aos produtos com base no número de linhas de produtos. Entendeu-se que o trabalho de programação seria o mesmo para qualquer item a ser produzido e que não dependia da quantidade. Já a atividade de controlar a produção, no valor de R$ 13.850,00, tem como direcionador o número de lotes produzidos. Foi considerado que o esforço dessa atividade estava relacionado ao número de lotes produzidos, portanto, a serem controlados. 16 Para as atividades de: cortar, no valor de R$ 29.000,00, costurar, no valor de R$28.600,00, e acabar, no valor de R$ 14.000,00, os direcionadores são os tempos gastos em cada produto para que a atividade seja efetuada. Por fim, a atividade de despachar produtos, no valor de R$ 32.200,00, foi apurada com base no tempo gasto com os des- pachos, considerando-se o preenchimento de um relatório do tempo gasto pelo funcionário. O direcionador é o fator que determina a ocorrên- cia de uma atividade. Como as atividades exigem recursos para serem realizadas, entende-se que o direcionador é o verdadeiro causador dos custos. O direcionador é o mecanismo utilizado para ras- trear e indicar quais são as atividades necessárias para a fabricação de um determinado produto ou a execução de um serviço. As análises dos dire- cionadores de atividade são fundamentais para o processo de melhoria contínua na entidade. A alocação dos custos indiretos e de apoio são realizadas em dois momentos: no primeiro, o cus- teio das atividades, os custos são distribuídos às atividades; no segundo momento, são atribuídos aos produtos, serviços e clientes. 17 Primeiramente, os gastos indiretos são divididos pela quantidade dos direcionadores de custos de recursos e, em seguida, multiplica-se o custo unitário da respectiva atividade pelaquantidade apurada para o direcionador de custos dessa atividade e assim obtém-se a proporção dos custos consu- midos daquele determinado produto ou serviço. Após a definição dos direcionadores com a de- partamentalização, apresentamos na tabela a seguir a quantidade de direcionadores utilizada para cada produto: Tabela 4: Direcionadores dos custos das atividades. Direcionadores Calças Cami- sas Coletes Total (Nº) Custo (R$) Nº de pedidos de compra 150 400 200 750 16.000 Nº de fornecedores 2 6 3 11 12.000 Nº de recebimentos 150 400 200 750 12.350 Nº de requisições 400 1.500 800 2.700 16.000 Nº de produtos 1 1 1 3 16.000 Nº de lotes 10 40 20 70 13.850 Horas utilizadas para cortar 2�160h 882h 2.600h 5.642h 29.000 Horas utilizadas para costurar 3�240h 2.058h 7.800h 13.098h 28.600 Horas utilizadas para acabar 2�700h 2.520h 3.900h 9.120h 14.000 18 Direcionadores Calças Cami- sas Coletes Total (Nº) Custo (R$) Horas utilizadas para despachar 25h 50h 25h 100h 32.200 Total 190�000 Fonte: Adaptado de Martins (2018) A empresa possui somente dois departamentos de produção: Corte e Costura e o departamento de Acabamento, dessa maneira, para calcular o custo unitário da atividade a sequência é: y Custo unitário do direcionador = Custo da ati- vidade ÷ nº total de direcionadores; y Custo da atividade atribuído ao produto = custo unitário do direcionador x nº de direcionadores do produto; y Custo da atividade por unidade de produto = custos da atividade atribuído ao produto ÷ quan- tidade produzida. Na tabela a seguir apresentamos o custo unitário de cada atividade consumida pelos produtos calças, camisas e coletes. Tabela 5: Custos unitários das atividades. Cal- ças Cami- sas Cole- tes Total (Nº) Quantidade vendida 18.000 4.200 13.000 35�200 19 Cal- ças Cami- sas Cole- tes Total (Nº) Atividades -Direcionadores Custos Cal- ças (R$) Custos Cami- sas (R$) Custos Coletes (R$) Total (Nº) Custo indireto (R$) 1. Comprar materiais -Nº receb. 0,1778 150 2,0317 400 0,3282 200 750 16.000 2. Desenvolver fornecedores: -Nº de fornecedores 0,1212 2 1,5594 6 0,2517 3 11 12.000 3. Receber materiais -Nº de recebimentos 0,1372 150 1,5683 400 0,2533 200 750 12.350 4. Movimentar materiais -Nº de requisições 0,1317 400 2,1164 1.500 0,3647 800 2�700 16.000 5. Programar produção -Nº de produtos 0,2963 1 1,2698 1 0,4103 1 3 16.000 6. Controlar produção -Nº de lotes 0,1099 10 1,8844 40 0,3044 20 70 13.850 7. Cortar Horas utilizadas 0,6168 2.160h 1,0794 882h 1,0280 2.600h 5�642h 29.000 8. Costurar -Horas utilizadas 0,3930 3.240h 1,0699 2.058h 1,3101 7.800h 13�098h 28.600 9. Acabar produtos -Horas utilizadas 0,2303 2.700h 0,9211 2.520h 0,4605 3.900h 9�120h 14.000 20 Cal- ças Cami- sas Cole- tes Total (Nº) 10. Despachar produtos -Horas utilizadas 0,4472 25h 3,8333 50h 0,6192 25h 100h 32.200 Total 2,6614 17,3328 5,3305 190�000 Fonte: adaptado de Martins (2018). Demonstraremos aqui o cálculo efetuado para a apuração dos custos indiretos unitários somente das calças, conforme tabela anterior. Destaca-se que para os outros produtos o cálculo deve ser efetuado seguindo a mesma sequência: 1) Comprar materiais: 2) Desenvolver fornecedores: 3) Receber materiais: 4) Movimentar materiais: 5) Programar produção: 6) Controlar produção: 21 7) Cortar: 8) Costurar: 9) Acabar produtos: 10) Despachar produtos: Na tabela a seguir apresentamos o resumo dos custos diretos e indiretos, com a apuração do custo unitário de cada produto, usando o custeio ABC com departamentalização. Tabela 6: Resumo dos custos diretos e indiretos. Calças (R$) Camisas (R$) Coletes (R$) Custos diretos 3,75 5,75 4,25 Custos indiretos 2,66 17,33 5,33 Custos total 6,41 23,08 9,58 Preço de venda 10,00 22,00 16,00 Lucro bruto unitário 3,59 1,08 6,42 Lucro bruto em % 35,70% 4,91% 40,12% Fonte: Adaptado de Martins (2018). 22 Os produtos confeccionados em baixos volumes, como é o caso das camisas, com o custeio ABC, apresentam-se menos lucrativos, já os produtos fabricados em altos volumes apresentam lucros maiores. Isso ocorre porque, nos chamados sis- temas tradicionais de custeio, as bases de rateio (normalmente medidas de volume) não refletem o real consumo de recursos pelos produtos, ou seja, os custos indiretos são relativamente baixos para a produção em grande quantidade e altos para a produção em menor quantidade, conforme pode- mos observar na tabela (MARTINS, 2018). Para conhecer mais sobre custeio ABC, assista ao vídeo do prof. Daniel Santana. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=9kCecRtPoes SAIBA MAIS 23 https://www.youtube.com/watch?v=9kCecRtPoes https://www.youtube.com/watch?v=9kCecRtPoes APROPRIAÇÃO DOS CUSTOS INDIRETOS AOS PRODUTOS NO CUSTEIO ABC O custeio ABC permite melhor visualização dos custos por meio da análise das atividades realiza- das dentro da entidade e suas respectivas relações com os produtos. Para a implementação do ABC, é necessário definirmos as atividades relevantes em cada um dos departamentos, assim como os direcionadores de custos de recursos que irão alocar os diversos custos incorridos às atividades. Após custear as atividades, precisamos identificar a relação entre as atividades e os produtos, defini- das pelos direcionadores de custos de atividades, que resultam no custo de cada atividade que será apropriada aos produtos (MARTINS, 2018). Para ilustrar, suponha que uma sociedade em- presária produz dois produtos: lápis e caneta. Na tabela a seguir apresentamos o mapa de custos de produção dos dois produtos. Tabela 7: Mapa de custos da produção. Lápis Caneta Total Mão de obra direta (R$) 174.000 66.000 240.000 Materiais (R$) 125.000 114.000 239.000 24 Lápis Caneta Total Custos diretos totais (R$) 299.000 210.000 479.000 Custos indiretos de fabricação (R$) 440.000 Quantidade produzida 300.000 100.000 400.000 Preço de venda (R$) 2,95 4,60 Fonte: Elaboração própria. Utilizando-se os valores dos custos dos direcio- nadores de recursos estabelecidos pela empresa, divididos pela quantidade de direcionadores, apura- mos o custo por atividade, conforme apresentado na tabela a seguir: Tabela 8: Quantidade de direcionadores das atividades. Direcionadores Custos atribuídos (R$) Quantidade de direcio- nadores Custo por atividade (R$) Número de lotes de produção 170.000 50 3.400 Testes de qualidade 153.000 30 5.100 Número de pedidos 60.000 150 400 Produção 30.000 25 1.200 Despachar 27.000 210 128,57 Total dos custos indiretos 440�000 465 Fonte: Elaboração própria. 25 Com base no valor estabelecido para cada atividade, multiplicado pela quantidade de direcionadores estabelecidos pela empresa para cada produto, apuramos o valor total do custo por atividade de cada produto. Em seguida, são somados todos os valores referentes aos custos das atividades por produto. Os valores dos custos diretos são acrescidos ao valor total dos custos indiretos de cada produto e dividido pela quantidade produzi- da. Dessa maneira, obtemos o custo unitário de cada produto com base no custeio ABC, conforme tabela a seguir. Tabela 9: Quantidade de direcionadores das atividades. Lápis Caneta Total Direcio- nadores Custo (R$) Qtde� Total Custo (R$) Qtde� Total Núme- ro de lotes de produção 3.400 40 136�000 3.400 10 34�000 170�000 Tes- tes de qualidade 5.100 12 61�200 5.100 18 91�800 153�000 Núme- ro de pedidos 400 100 40�000 400 50 20�000 60�000 Produção 1.200 10 12�000 1.200 15 18�000 30�000 Despa- char 128,57 160 20�571 128,57 50 6�429 27�000 Total dos custos indiretos 269�771 170�229 440�000 26 Lápis Caneta Total Direcio- nadores Custo (R$) Qtde� Total Custo (R$) Qtde� Total Total dos custos diretos 299�000 180�000 479�000 Custo total 568�771 350�229 919�000 Quan- tidade produzida 300�000 100�000 400�000 Custo unitário (ABC) 1,90 3,50Fonte: Elaboração própria. Comparando-se o custo unitário total de cada produto, obtido pela soma dos custos diretos e indiretos, com o preço de venda, obtemos o resul- tado do respectivo produto, que pode ser lucro ou prejuízo. O resultado é dividido pelo preço de venda e multiplicado por 100 para se apurar o resultado em percentual. Tabela 10: Resumo dos custos diretos e indiretos unitários. Lápis (R$) Canetas (R$) Custos diretos (R$) 1,00 1,80 Custos indiretos (R$) 0,90 1,70 Custos total unitário (R$) 1,90 3,50 Preço de venda (R$) 2,95 4,60 27 Lápis (R$) Canetas (R$) Lucro bruto unitário (R$) 1,05 1,10 Lucro bruto em % 35,59 23,91 Fonte: Elaboração própria. Para ilustrar, apresentamos uma questão adap- tada do CFC. Presuma que o departamento de custos de uma entidade apresentou as seguintes informações: 1) Referentes à produção do período: Tabela 11: Custos de produção. Produto 1 Produto 2 Total Produção (unidades) 10.000 200 10.200 Custo direto (por unidades) R$15 R$10 Custo direto Total R$150�000 R$2�000 R$152�000 Custo indireto de fabricação R$223�400 Número de lotes recebi- dos e produzidos 50 30 80 Quantidade de ordens de produção 16 4 20 Horas-máquina para operação do equipamento 900 400 1.300 Fonte: Adaptado de CFC. 28 2) Referentes à distribuição dos custos indiretos de fabricação (CIF): Tabela 12: Distribuição dos custos indiretos. Gasto Valor Direcionador do custo Recebimento e movi- mentação de material R$72.400 Número de lotes rece- bidos e produzidos Planejamento e con- trole de produção R$47.000 Quantidade de ordens de produção Operação do equipamento R$104.000 Horas-máquina para operação do equipamento Total R$223�400 Fonte: Adaptado de CFC. Considerando-se que a empresa adota o custeio baseado em atividades (ABC), vamos apurar o custo de produção de cada produto. 1º passo – calcular para cada item o valor do custo direto unitário e o custo total. O produto “1” utiliza R$15,00 por unidade e produz 10.000 unidades, logo consome R$150.000,00 de MOD. O produto “2” utiliza R$10,00 por unidade e produz 200 unidades, dessa maneira consome R$2.000,00 de MOD Custo total: 29 2º passo – calcular a proporção para cada atividade de acordo com o respectivo direcionador definido pela entidade. Tabela 13: Distribuição da proporção de acordo com os direcionadores. Produto Lotes % Ordens % Horas % 1 50 62,5% 16 80% 900 69% 2 30 37,5% 4 20% 400 31% Total 80 100% 20 100% 1�300 100% Fonte: Elaboração própria. 3º passo – aplicar os percentuais aos custos indiretos de acordo com a proporção de cada direcionador. Tabela 14: Apuração dos custos indiretos de acordo com os direcionadores. Prod� Lo- tes % CI Ord� % CI Ho- ras % CI Total 1 50 62,5% 45.250 16 80% 37.600 900 69% 72.000 154�850 2 30 37,5% 27.150 4 20% 9.400 400 31% 32.000 68�550 Total 80 100% 72�400 20 100% 47�000 1�300 100% 104�000 223�400 Fonte: Elaboração própria. 30 4º passo – apurar o custo total e unitário dos pro- dutos (somar os custos diretos mais os indiretos). Tabela 15: Apuração dos custos unitários dos produtos. Prod� Custo Direto Custo Indireto Custo Total Qtde� produ- zida CD unit� CI unit� Custo unitário 1 (R$) 150.000 154.850 304�850 10.000 15,00 15,48 30,48 2 (R$) 2.000 68.550 70�550 200 10,00 342,75 352,75 Total 152�000 223�400 375�400 10�200 25,00 358,23 383,23 Fonte: Elaboração própria. Os produtos fabricados em baixa quantidade, como é o caso do produto 2, utilizando-se o custeio ABC, apresenta custo unitário maior, portanto é menos lucrativo. Já os produtos fabricados em altos volumes apresentam lucros maiores, isso ocorre porque os custos indiretos são relativamente bai- xos para produção em grande quantidade e altos para a produção em menor quantidade, conforme podemos observar na tabela 15 (MARTINS, 2018). Para conhecer mais sobre custeio por absorção, assista ao vídeo do Prof. Marcelo Vizzotto. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=n6uqKhJFJGU SAIBA MAIS 31 https://www.youtube.com/watch?v=n6uqKhJFJGU https://www.youtube.com/watch?v=n6uqKhJFJGU PRÁTICAS APLICADAS NO CUSTEIO ABC No custeio ABC, todos os custos podem ser men- surados com base nas atividades desenvolvidas pela empresa, ou seja, nas tarefas necessárias para se fabricar os produtos ou executar os serviços. No ABC existe a possibilidade de se analisar todos os gastos que não estão relacionados ao trabalho em si, sendo possível rastrear-se os custos de cada atividade, para se descobrir como essas atividades impactam nas receitas e no consumo de recursos. Alguns benefícios com a implementação do cus- teio ABC são: y Transparência na análise do lucro; y Suporte na tomada de decisões, principalmente sobre qual produto produzir; y Conhecer as causas do aumento ou da redução dos custos, devido à identificação dos direciona- dores de custos; y Custos confiáveis para a atribuição do preço de venda; y Aprimoramento nos processos e nas práticas de produção. 32 https://blog.keruak.com.br/recursos-financeiros/ O ABC permite a organização e a compreensão da geração de receitas no sentido de melhorar-se o planejamento da entidade. Os direcionadores de custos são aquelas tarefas usadas para se definir a quantidade de trabalho que será aplicada em cada atividade, com base na mensuração desses valores o seu custo é apurado. Ao se desenvolver um sistema de custeio ABC, deve-se identificar inicialmente quais atividades são executadas na empresa. Para ilustrar, presuma que a empresa Bons Laticínios fabrica dois produtos, o requeijão e o queijo, apre- sentamos na tabela a seguir os dados referentes aos custos diretos unitários para a sua produção em determinado período. Tabela 16: Mapa dos custos de produção. Requeijão Queijo Total Produção (qtde.) 4.000 5.000 9.000 Preço de venda (R$) 35 42 Mão de obra direta (R$) 12 18 30 Matéria prima (R$) 6 3 9 Fonte: Elaboração própria. 33 https://blog.keruak.com.br/planejamento-orcamentario/ Os custos indiretos de fabricação totalizaram R$54.000 e estão distribuídos conforme tabela a seguir: Tabela 17: Custos indiretos de fabricação. Atividades R$ Inspecionar materiais 8.000 Armazenar materiais 6.000 Controlar estoques 5.000 Processar produtos (máquinas) 15.000 Controlar processos (engenharia) 20.000 Total 54�000 Fonte: Elaboração própria. Atividade é o modo de a empresa utilizar o tempo e o recurso para alcançar seus objetivos. Uma atividade pode ser definida como a combinação de recursos humanos, materiais, tecnológicos e financeiros para produzir bens ou serviços, sendo composta por um conjunto de tarefas necessárias ao seu desempenho. Segundo Martins (2018), as informações geradas por meio do custeio ABC podem identificar qual ou quais atividades estão onerando o respectivo produto e, ainda, se agregam de fato algum valor. Por outro lado, nos métodos convencionais, pode-se constatar a exatidão das contas, entretanto não se consegue identificar o que de fato está onerando 34 o custo do produto. Isso pode implicar na possi- bilidade de decisões indevidas, como: cortar um determinado fator que gera custo, mas que não é o principal causador de custos. Com base em cálculos matemáticos, foram identi- ficados os direcionadores de custos das atividades e a sua distribuição entre os produtos. Tabela 18: Direcionadores de custos. Requeijão Queijo Total Nº de lotes inspecionados e armazenados 15 60 75 Nº de horas-máquina de pro- cessamento dos produtos 4.000 6.000 10�000 Dedicação de tempo dos enge- nheiros (horas) 50 150 200 Fonte: Elaboração própria. O controle de processo, normalmente, é atribuição da engenharia e mensurado em horas de trabalho. Com base nos direcionadores de custos das ativi- dades, é possível direcionar os custos para saber quanto cada um dos produtos participa em cada uma das atividades. Tabela 19: Proporção dos direcionadores de custos das atividades aos produtos.Requeijão Queijo Total Nº de lotes inspecionados e armazenados 15 60 75 35 Requeijão Queijo Total Proporção 20% 80% Nº de horas-máquina de pro- cessamento dos produtos 4.000 6.000 10.000 Proporção 40% 60% Dedicação de tempo dos engenheiros (horas) 50 150 200 Proporção 25% 75% Fonte: Elaboração própria. Dividindo a quantidade de cada atividade pelo total, obtemos o percentual de proporção que a respec- tiva atividade consome do total (15 / 75 = 20%). Tabela 20: Apuração dos custos totais unitários dos produtos. Atividades Re- quei- jão % Queijo % Re- quei- jão R$ Queijo R$ Total R$ Inspecionar materiais 20 80 1.600 6.400 8.000 Armazenar materiais 20 80 1.200 4.800 6.000 Controlar estoques 20 80 1.000 4.000 5.000 Processar produ- tos (máquinas) 40 60 6.000 9.000 15.000 Controlar proces- sos (engenharia) 25 75 5.000 15.000 20.000 36 Atividades Re- quei- jão % Queijo % Re- quei- jão R$ Queijo R$ Total R$ Total dos custos indiretos (R$) 14.800 39.200 54.000 Quantidade pro- duzida e vendida 4.000 5.000 9.000 Custos indiretos unitários (R$) 3,70 7,84 Custos diretos unitários (R$) 18 21 Custo total uni- tário (R$) 21,70 28,84 Fonte: Elaboração própria. O ABC tem como foco encontrar os fatores gerado- res dos custos, determinando a origem dos custos de cada atividade desenvolvida e, dessa maneira, os custos são apropriados adequadamente aos produtos, considerando o consumo das atividades por eles. Sabe-se que o custeio ABC não elimina os rateios, mas reduz o seu efeito arbitrário, porque somente após se esgotarem todas as possibilidades de se apropriar um custo é que o rateio pode ser aplicado. 37 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste e-book estudamos os conceitos e as carac- terísticas do custeio baseado em atividades (ABC), que pode ser aplicado também às empresas não industriais. Na sequência, introduzimos as práticas usadas no levantamento das atividades relevantes dos departamentos para identificar os direcionadores das atividades, buscando compreender que, ao definirmos o custo dos produtos, o direcionador precisa ser o fator que define a maneira como os produtos utilizam as atividades. Em seguida, estudamos o rastreamento dos cus- tos indiretos por meio dos direcionadores, como exemplos: nº de empregados, área ocupada, tempo de mão de obra, tempo de máquina, quantidade de kwh etc. Aplicamos a teoria na prática, desenvolvendo tabelas para demonstrar o detalhamento para a apuração dos valores usados no processo de apuração do custo total unitário de cada produto no custeio ABC. 38 Referências Bibliográficas & Consultadas BORNIA, A. C. Análise gerencial de custos: aplicação em empresas modernas, 3. ed. São Paulo: Atlas, 2010. [Minha Biblioteca]. BRUNI, A. L. A administração de custos, preços e lucros. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2018. [Minha Biblioteca]. BRUNI, A. L.; FAMA, R. Gestão de custos e formação de preços: com aplicações na calculadora HP 12c e Excel. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2012. [Minha Biblioteca]. CREPALDI, S. A. Curso básico de contabilidade de custos. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002. DUTRA, R. G. Custos: uma abordagem prática. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017. [Minha Biblioteca]. LEONE, G. S. G. Custos: planejamento, implantação e controle. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2012. [Minha Biblioteca]. MARTINS, E. Contabilidade de custos. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2018. [Minha Biblioteca]. PADOVEZE, C. L. Contabilidade de custos: teoria e prática, integração com sistemas de informações (ERP). São Paulo: Cengage Learning, 2013. [Biblioteca Virtual]. ROCHA, E. M. W. Métodos de custeio comparados: custos e margens analisados sob diferentes perspectivas. São Paulo: Atlas, 2015. [Biblioteca Virtual]. SILVA, M. de L. E. Custos – contabilidade gerencial, custos – controle, finanças, administração, marketing, preços. São Paulo: Érica, 2010. [Minha Biblioteca]. WERNKE, R. Análise de custos e preços de venda. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2001. [Minha Biblioteca]. _Hlk89614946 Introdução Conceitos e características do custeio baseado em atividades Rastreamento dos custos indiretos por meio dos direcionadores Apropriação dos custos indiretos aos produtos no custeio ABC Práticas aplicadas no custeio ABC Considerações finais Referências Bibliográficas & Consultadas