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PENAS E SEUS CRITÉRIOS DE 
APLICAÇÃO 
 
Aula 1 
PENAS PRIVATIVAS DE LIBERDADE E SEUS EFEITOS 
Após toda a análise dos elementos constitutivos do delito e uma vez caracterizada a infração penal, 
passa-se, então, à discussão sobre as consequências jurídicas do delito. 
 
INTRODUÇÃO 
Ao tratarmos de pena, estamos nos referindo à consequência jurídica imposta pela prática de uma 
infração penal. Após toda a análise dos elementos constitutivos do delito e uma vez caracterizada a 
infração penal, passa-se, então, à discussão sobre as consequências jurídicas do delito. 
Nessa linha de raciocínio, para alcançarmos uma compreensão completa da persecução penal, é 
indispensável o estudo a respeito da teoria geral da pena, que permite entender o conceito jurídico 
de pena, suas espécies e características, assim como as regras para sua aplicação e execução. 
Um estudo complexo demanda constância na dedicação para alcançar os objetivos. 
PENA PRIVATIVA 
O texto constitucional (BRASIL, 1988) prevê em seu artigo 5º, em um rol não taxativo, as espécies 
de pena existentes no país, ao passo que o Código Penal (BRASIL, 1940) e os demais diplomas 
penais esparsos disciplinam no preceito secundário dos tipos penais a espécie de pena passível de 
aplicação para cada delito. 
Assim, entre outras, serão as penas: 
• privativa de liberdade. 
• restritiva de direito. 
• multa. 
A origem das penas privativas de liberdade remonta aos primórdios da execução e do próprio direito 
penal, quando os criminosos e condenados aguardavam o cumprimento das penas — usualmente 
penas de caráter corporal — com sua liberdade cerceada e sendo mantidos em condições desumanas 
sob a guarda do ente estatal. 
Sobre as penas privativas de liberdade, é cabível citar a observação realizada pelo saudoso mestre 
Julio Fabrini Mirabete (2021, p. 254): 
 
As penas privativas de liberdade são as mais utilizadas nas legislações 
modernas, apesar do consenso da falência do sistema prisional. Podem ser 
divididas em prisão perpétua e prisão temporária, sendo a primeira vedada em 
dispositivo constitucional brasileiro (art. 5º, XLVII, b). Originaram-se as 
penas privativas de liberdade de outras penas: enquanto aguardavam a 
execução (pena de morte, desterro, galés etc.), os sentenciados ficavam 
privados da liberdade de locomoção, passando a ser a prisão, depois, a própria 
sanção penal. 
As penas privativas de liberdade retiram do condenado seu direito de locomoção, e ele passa a ter 
sua liberdade restrita e controlada pelo Estado, o que se exterioriza no cumprimento da pena por 
intermédio de todo o seu aparato e agentes voltados à execução penal. 
São espécies de penas privativas de liberdade a reclusão, que se caracteriza pela maior severidade 
das regras de cerceamento da liberdade do agente; a detenção, que atinge de modo menos gravoso a 
liberdade de locomoção, permitindo experiências de liberdade controlada; e a prisão simples, com 
um modelo ainda menos gravoso de cerceamento de liberdade. 
O artigo 33 do Código Penal (BRASIL, 1940) traz previsão sobre o cumprimento das penas 
privativas de liberdade: 
 
Art. 33 – A pena de reclusão deve ser cumprida em regime fechado, semi-
aberto ou aberto. A de detenção, em regime semi-aberto, ou aberto, salvo 
necessidade de transferência a regime fechado. 
§ 1º - Considera-se: 
a) regime fechado a execução da pena em estabelecimento de segurança 
máxima ou média; 
b) regime semi-aberto a execução da pena em colônia agrícola, industrial ou 
estabelecimento similar; 
c) regime aberto a execução da pena em casa de albergado ou estabelecimento 
adequado. 
As penas de reclusão e de detenção caracterizam-se por seus regimes de cumprimento de pena, 
partindo de um regime mais severo, o fechado, que consiste na total reclusão do condenado na sede 
do estabelecimento penal, hipótese em que a liberdade do indivíduo fica integralmente afastada. Já 
no semiaberto, um modelo com menores restrições, há a permissão para que o detento saia para 
estudar e trabalhar em colônias agrícolas e industriais ou estabelecimentos similares, dentro da 
proposta de ressocialização preconizada por nosso ordenamento jurídico, e recolhendo-se ao cárcere 
no período noturno. Por fim, há o regime aberto, que demanda a autodisciplina do condenado, visto 
que ele deve observar as restrições impostas pela sentença; tem liberdade plena durante o período 
diurno, mas deve, à noite, recolher-se em estabelecimentos especiais, as casas do albergado. 
PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE (REMIÇÃO, DETRAÇÃO E 
PROGRESSÃO DE REGIME) 
Depois de definido o conceito geral das penas privativas de liberdade, podemos progredir no estudo 
para abordar aspectos mais avançados relativos a essa modalidade de sanção penal. 
Primeiramente, trataremos do instituto da remição. Pense que, depois do trânsito em julgado da 
sentença penal condenatória, você estará diante de uma pena objetiva, uma pena concreta. No que 
se refere à pena privativa de liberdade, teremos uma quantidade de tempo certo que deverá ser 
cumprido, dentro da modalidade e de acordo com o regime imposto na sentença. 
Contudo, apesar de haver uma pena concreta a ser cumprida dentro da execução penal, devemos ter 
em mente que essa pena não pode nem deve ser encarada como algo inalterável, especialmente se 
considerarmos a função ressocializadora da pena. 
Se a ideia da pena é servir como reprimenda pela conduta ilícita praticada e, ao mesmo tempo, 
prevenir a prática de novos delitos, na perspectiva da ressocialização a pena deve funcionar como 
um estímulo positivo para que aquele que praticou o delito não volte à atividade ilícita. 
Nessa linha de raciocínio, a Lei de Execução Penal — Lei nº 7.210 (BRASIL, 1984b) — 
reconheceu, enquanto instrumento de ressocialização, o instituto da remição da pena, prevista em 
seu artigo 126 e seguintes. Assim, o condenado à pena privativa de liberdade cumprida em regime 
fechado ou semiaberto pode abater (remir), por trabalho ou por estudo, parte do tempo de execução 
da pena. 
Também é aspecto afeto ao objeto desses estudos o instituto da detração, prevista no artigo 42 do 
Código Penal (BRASIL, 1940), segundo o qual o tempo de prisão provisória cumprido no Brasil ou 
no estrangeiro, o tempo de prisão administrativa e o tempo de internação em hospital de custódia 
devem ser computados e descontados do cumprimento da pena privativa de liberdade e da medida 
de segurança. 
Nas palavras de Fernando Capez (2020, p. 533): 
 
Trata-se de instituto jurídico que deve ser reconhecido pelo próprio juiz que 
sentencia e condena o réu. A detração deve ser levada em consideração pelo 
juiz que proferir sentença condenatória, para fins de fixação de regime inicial 
de cumprimento de pena, e não mais pelo juiz da execução penal. 
Someone famous 
Já quanto à progressão de regime, pensando nas mesmas premissas que foram abordadas com 
relação à remição da pena, devemos considerar que a pena imposta na sentença não pode ser 
considerada imutável quando é aplicada dentro de um sistema que pretenda a ressocialização. 
Até por conta disso, nosso ordenamento jurídico adotou o sistema de progressão de regimes para o 
cumprimento das penas. Nesse sistema, o condenado tem a possibilidade de progredir do regime 
imposto na sentença condenatória para um regime menos gravoso, conforme atenda aos requisitos 
estabelecidos em lei, visando justamente à reinserção do indivíduo no convívio social — 
funcionando como um dos mecanismos no modelo ressocializador de execução penal. 
No que tange aos requisitos para a progressão de regime, o condenado deve cumprir aqueles de 
caráter objetivos, previstos no artigo 112 da Lei de Execução Penal (BRASIL, 1984b), relacionados 
com o cumprimento de determinada porcentagem da pena, levando em consideração a natureza do 
crime e a condição penal do apenado — o que pode variar, a depender do caso, de 16% a 70% da 
pena imposta na sentença.para o concurso formal impróprio, também chamado pela doutrina 
de concurso formal imperfeito. 
O foco é, especialmente, delimitar o conceito desse instituto, em contraponto às regras do concurso 
formal próprio, analisando as consequências de sua constatação para a aplicação da lei penal, além 
dos outros reflexos previstos pelo legislador, a exemplo do que se verifica no concurso material 
benéfico, no contexto dos sistemas adotados para aplicação da pena no concurso de crimes. 
CONCURSO FORMAL IMPRÓPRIO 
Como identificar o concurso formal impróprio? 
Conforme vimos no conceito geral de concurso formal, e de acordo com a regra do artigo 70 do 
Código Penal (BRASIL, 1940), este se verifica quando de uma única conduta decorrem dois ou 
mais resultados ilícitos, idênticos ou não. 
Tratamos inicialmente da hipótese do concurso formal próprio, também chamado de concurso 
formal perfeito, hipótese em que os múltiplos resultados decorrem de uma única conduta provocada 
por um único desígnio. Nesse contexto, a previsão legislativa se volta a um tratamento menos 
gravoso ao autor da conduta. 
Contudo, houve atenção especial do legislador para evitar que o instituto do concurso formal fosse 
desvirtuado e utilizado de maneira a promover benefícios indevidos. 
Observemos a previsão da segunda parte do artigo 70 do Código Penal (BRASIL, 1940): “Art. 70. 
[…] As penas aplicam-se, entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os crimes 
concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto no artigo anterior”. 
 
Estaremos diante do concurso formal impróprio ou imperfeito quando o agente, em sua vontade, 
deseja a prática de mais de um crime, pretendendo com sua única conduta realizar dois ou mais 
resultados; ou seja, existem “desígnios autônomos”, vontades independentes. 
 
Entretanto, na segunda parte do art. 70 está previsto o concurso formal 
imperfeito: as penas devem ser aplicadas cumulativamente se a conduta única 
é dolosa e os delitos concorrentes resultam de desígnios autônomos. A 
intenção do legislador, nessa hipótese, é retirar o benefício daquele que, tendo 
por fim deliberado e direto atingir dois ou mais bens jurídicos, cometer os 
crimes com uma só ação ou omissão. Tradicional exemplo nos fornece Basileu 
Garcia: se o agente enfileira várias pessoas e com um único tiro, de arma 
potente, consegue matá-las ao mesmo tempo, não merece o concurso formal, 
pois agiu com desígnios autônomos. Por isso, são somadas as penas. 
(NUCCI, 2022, p. 415). 
Em relação à vontade do agente, os resultados são decorrentes de vontades independentes, ainda 
que sejam resultados de uma única conduta. 
Nessa hipótese, permanecem inalterados os requisitos objetivos — a unidade de condutas e a 
pluralidade de resultados —, contudo, ao contrário do concurso formal perfeito, no concurso formal 
impróprio há dois requisitos específicos de caráter subjetivo: 
• Dolo: em relação à conduta e aos resultados. O agente quer realizar a conduta e deseja alcançar 
todos os múltiplos resultados. 
• Desígnios autônomos: verificados no objetivo de atingir os múltiplos resultados diversos. 
É o que aponta Cézar Roberto Bitencourt (2021, p. 408): 
 
Nesse tipo de concurso, o agente deseja a realização de mais de um crime, tem 
consciência e vontade em relação a cada um deles. Ocorre aqui o que o 
Código Penal chama de “desígnios autônomos”, que se caracteriza pela 
unidade de ação e multiplicidade de determinação de vontade, com diversas 
individualizações. Os vários eventos, nesse caso, não são apenas um, perante a 
consciência e a vontade, embora sejam objeto de uma única ação. 
Aqui o Código adota o critério da cumulação de penas. Apesar de os múltiplos resultados serem 
decorrentes de uma única conduta, a lei penal reconhece a autonomia dos desígnios por parte do 
autor, então impõe a somatória das penas de todos os delitos praticados. 
CONCURSO MATERIAL BENÉFICO AO RÉU 
Quando faz sentido usar a regra do cúmulo material? 
Conforme já apontamos, a ideia do legislador ao estabelecer os regramentos do concurso formal 
próprio foi possibilitar um tratamento menos gravoso àquele que, praticando uma única conduta, 
decorrente de um único desígnio doloso ou culposo, causasse ou dessa causa a dois ou mais 
resultados ilícitos, aplicando nesse caso a regra da exasperação. 
Evidentemente, essa iniciativa do legislador não teria sentido se, no caso concreto, a imposição das 
regras do concurso formal próprio na dosimetria das penas conduzisse a uma situação em que a 
sanção penal imposta fosse mais severa do que aquela que poderia ser obtida na aplicação da regra 
do cúmulo material, prevista pelo artigo 69 do Código Penal (BRASIL, 1940). Até por conta disso, 
afirma Fernando Capez (2022, p. 268): 
 
Se, da aplicação da regra do concurso formal, a pena tornar-se superior à que 
resultaria da aplicação do concurso material (soma de penas), deve-se seguir 
este último critério (CP, art. 70, parágrafo único). Impede-se, assim, que, 
numa hipótese de aberratio ictus (homicídio doloso mais lesões culposas), se 
aplique ao agente pena mais severa, em razão do concurso formal, do que a 
aplicável, no mesmo exemplo, pelo concurso material. Quem comete mais de 
um crime, com uma única ação, não pode sofrer pena mais grave do que a 
imposta ao agente que reiteradamente, com mais de uma ação, comete os 
mesmos crimes. 
Nesse sentido, aponta também a jurisprudência: 
 
EMENTA: APELAÇÃO CRIMINAL. DIRIGIR VEÍCULO AUTOMOTOR 
SEM HABILITAÇÃO – CRIME DE DESOBEDIÊNCIA- APLICAÇÃO DO 
CONCURSO MATERIAL BENÉFICO – NECESSIDADE – ISENÇÃO DE 
CUSTAS – VIABILIDADE. Restando evidenciado que o somatório das 
reprimendas será mais favorável ao acusado do que a aplicação do concurso 
formal, impõe-se a aplicação do concurso material benéfico, nos termos do 
artigo 70, parágrafo único, do Código Penal 
(MINAS GERAIS, 2020). 
No caso utilizado como paradigma, o autor da conduta respondia pelos delitos de dirigir veículo 
automotor sem habilitação (art. 309, CTB) e de desobediência (art. 330, CP) em concurso formal. 
Se considerássemos a pena mínima em abstrato prevista para os delitos — 6 meses no caso do 
artigo 309 do CTB e 15 dias no caso do artigo 330 do CP (BRASIL, 1940) — e aplicássemos a 
regra da exasperação prevista para o concurso formal próprio, chegaríamos a uma pena de 7 meses 
de detenção (6 meses da pena do crime mais grave aumentada de 1/6). 
Ao contrário, se utilizássemos a regra do cúmulo material, prevista no artigo 69 do Código Penal 
(BRASIL, 1940), com a simples soma das duas penas chegaríamos à detenção de 6 meses e 15 dias. 
Nesse caso, nota-se que, apesar de caracterizado o concurso formal, a regra de aplicação da pena do 
concurso material se mostra evidentemente mais vantajosa. O objetivo do legislador foi beneficiar o 
autor de fato que se enquadre na regra do concurso formal próprio. 
Logo, seria um contrassenso se a regra que objetiva ser mais benéfica conduzisse o réu a uma 
situação mais gravosa. Então, e justamente para evitar isso, o artigo 70 (BRASIL, 1940) em seu 
parágrafo único impõe a regra do concurso material mais benéfico. 
APLICAÇÃO DA PENA NO CASO DE CONCURSO FORMAL 
Aplicação dos quatro sistemas de dosimetria 
Pensemos agora sobre a aplicação das penas no caso do concurso material. 
No Direito Penal, há basicamente quatro sistemas que tratam da aplicação e da dosimetria de penas 
no caso de concurso de crimes: 
• cúmulo material: é realizada a soma do montante de pena decorrente de cada delito. 
• cúmulo jurídico: preconiza a aplicação de uma pena maior em face da multiplicidade de condutas 
delitivas, mas sem que se faça uma soma aritmética das penas. 
• absorção: a pena mais grave absorve a pena menos grave, de modo que esta é desprezada no 
cálculo da pena. 
• exasperação: é aplicada a pena do delito mais grave e a essa se aplica um aumento decorrente dos 
demais crimes. 
Comoregra, o Direito Penal brasileiro adota os sistemas da cumulação material no que diz respeito 
ao concurso material e ao concurso formal impróprio e o da exasperação no que se refere ao 
concurso formal e aos crimes continuados. 
Então, passemos à uma análise pormenorizada da aplicação das penas no caso de concurso formal. 
Tratando do concurso formal próprio ou perfeito, a primeira parte do artigo 70 do Código Penal 
(BRASIL, 1940) determina a adoção do critério da exasperação. Assim, aplica-se somente a pena de 
um dos crimes, se forem da mesma natureza, ou a pena do crime mais grave, quando as condutas 
tiverem naturezas diversas, e a ela se impõe o aumento de pena na razão de 1/6 até a metade. 
Quanto a esse aumento de pena, a doutrina de maneira geral aponta o entendimento adotado de 
forma difusa pela jurisprudência para o enfrentamento da questão. 
Assim, aplica-se a pena-base e, havendo dois resultados, essa pena será aumentada em 1/6. No caso 
de três resultados ilícitos, o aumento será de 1/5. No caso de quatro crimes praticados por uma 
única conduta, será a pena aumentada em 1/4. Se no caso concreto de concurso formal próprio a 
conduta resultar em cinco resultados, o aumento será de 1/3. Finalmente, se da conduta derivarem 
seis ou mais resultados, o aumento de pena imposto será na razão da metade. 
Note que esse entendimento jurisprudencial é adotado como referencial, não possuindo base legal 
nem caráter vinculante, como ressaltam Capez (2022, p. 268) e Estefam e Gonçalves (2021, p. 675). 
Já quando pensamos no concurso formal impróprio ou imperfeito, aquele em que uma única 
conduta provoca dois ou mais resultados decorrentes de desígnios autônomos, determina a segunda 
parte do artigo 70 do Código Penal (BRASIL, 1940) a adoção do critério do cúmulo material, na 
forma do disposto pelo artigo 69 do diploma repressivo. 
Nessa hipótese, para cada resultado ilícito verificado será realizada individualmente a dosimetria da 
pena e ao final, serão somados os resultados, alcançando então a pena total a ser cumprida na 
execução penal. 
Atente-se que isso se realiza ao final da dosimetria da pena, em sua terceira fase, quando o resultado 
pode superar o patamar máximo de pena previsto pelo preceito secundário do tipo penal. 
Finalmente, um ponto que merece nossa atenção nos estudos e pertinente à discussão é a previsão 
do artigo do artigo 75 do Código Penal (BRASIL, 1940), que estabelece o limite de 40 anos para o 
tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade. 
 
Saiba mais 
Para ampliar seus estudos sobre o concurso de crimes, em especial o concurso formal impróprio, 
uma boa dica é a leitura da obra de Rogério Greco, intitulada Direito penal estruturado (2021, p. 
123–127). 
 
Aula 4 
CRIME CONTINUADO E SUAS NUANCES 
Passaremos também pela construção do conceito e da análise de seus requisitos para compreender 
os reflexos do instituto na aplicação da lei penal. 
 
INTRODUÇÃO 
Em continuidade a nossos estudos sobre o concurso de crimes no ordenamento jurídico e seus 
reflexos na aplicação da pena, avançaremos para a análise e a compreensão do instituto do crime 
continuado. 
Nesse sentido, e visando analisar o tema completamente, traçaremos um panorama desde as origens 
históricas do instituto, de modo a entender os motivos que levaram à sua criação e adoção dentro de 
critérios de política criminal. 
Passaremos também pela construção do conceito e da análise de seus requisitos para compreender 
os reflexos do instituto na aplicação da lei penal. 
CRIME CONTINUADO 
O crime continuado pode ser classificado como uma ficção jurídica, ou seja, uma realidade que 
somente se verifica no campo ideal do Direito Penal, por uma razão de política criminal. 
Temos, no caso do crime continuado, a prática de múltiplas condutas e de múltiplos resultados que, 
se considerados de maneira isolada, poderiam caracterizar delitos autônomos; contudo, quando 
presentes os requisitos previstos em lei, por uma ficção jurídica, passam a ser considerados como 
continuação um dos outros e tratados juridicamente como um único fato ilícito. 
Isso acaba impactando de diversas maneiras, não apenas a apuração das condutas ilícitas, mas 
também as consequências decorrentes da aplicação da lei penal. Trata-se da previsão contida no 
artigo 71 do Código Penal (BRASIL, 1940): 
 
Art. 71 – Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica 
dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, 
maneira de execução e outras semelhantes, devem os subseqüentes ser 
havidos como continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena de um só dos 
 
crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer 
caso, de um sexto a dois terços. 
Por força dessa definição, consideram-se os crimes subsequentes como uma continuação dos 
anteriores, dando então um tratamento unitário a uma pluralidade de atos delitivos. 
O exemplo clássico apresentado pela doutrina menciona a hipótese de um funcionário que trabalha 
em uma casa e durante um longo período, de maneira isolada, dia a dia, subtraia peças de um 
faqueiro de prata. Se considerássemos as condutas praticadas de maneira isolada, seria possível 
delimitar tantos furtos quanto fossem as peças subtraídas. 
Entretanto, nesse caso, por uma opção de política criminal e buscando evitar uma pena 
excessivamente gravosa, o legislador optou por considerar um único delito, de modo que cada um 
dos atos na verdade seria uma continuação da conduta anterior. 
 
É a forma mais polêmica de concurso de crimes, proporcionando inúmeras 
divergências, desde a natureza jurídica até a conceituação de cada um dos 
requisitos que o compõem. Narram os penalistas que o crime continuado teve 
sua origem entre os anos de 1500 e 1600, em teoria elaborada pelos práticos 
italianos, dos quais se ressaltam os trabalhos de Prospero Farinacio e Julio 
Claro. Naquela época, a lei era por demais severa, impondo a aplicação da 
pena de morte quando houvesse a prática do terceiro furto pelo agente (Potest 
pro tribus furtis quamvis minimis poena mortis imponi). O tratamento era, sem 
dúvida, cruel, mormente numa época de tanta fome e desolação na Europa. 
Por isso, escreveu Claro: “Diz-se que o furto é único, ainda que se cometam 
vários em um dia ou em uma noite, em uma casa ou em várias. Do mesmo 
modo se o ladrão confessou ter cometido vários furtos no mesmo lugar e em 
momentos distintos, interpretando-se tal confissão favoravelmente ao agente, 
isto é, que suas ações, em momentos distintos, continuadamente, são um só 
furto e não vários...” (Carlos Fontán Balestra, Tratado de derecho penal, t. III, 
p. 60). E, ainda, Farinacio: “Tampouco existem vários furtos senão um só, 
quando alguém roubar de um só lugar e em momentos diversos, mas 
continuada e sucessivamente, uma ou mais coisas: ... não se pode dizer ‘várias 
vezes’ se os roubos não se derem em espécie e tempo distintos. O mesmo se 
pode dizer daquele que, em uma só noite e continuadamente, comete diversos 
roubos, em lugares distintos, ainda que de diversos objetos... a esse ladrão não 
se lhe pode enforcar, como se lhe enforcaria se tivesse cometido três furtos em 
momentos distintos e não continuados” 
(Balestra, ob. cit., p. 61) (NUCCI, 2022, p. 418). 
A construção desse conceito surgiu com os chamados glosadores (1100 a 1250) e pós-glosadores 
(1250 a 1450), tendo sua base lançada efetivamente no decorrer do século XIV, visando permitir 
que os autores de um terceiro furto fossem poupados da pena de morte. 
 CONCEITO 
Crime continuado 
É possível então estabelecer que ocorre o crime continuado quando o agente, mediante mais de uma 
conduta (ação ou omissão), prática dois ou mais crimes da mesma espécie, de forma que os 
subsequentes, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, são 
interpretados como continuação do primeiro. 
Assim, sendo praticados diversosdelitos da mesma espécie nas mesmas condições de tempo e 
lugar, valendo-se do mesmo modus operandi, e guardando outros elementos de semelhança entre si, 
devem, por uma ficção jurídica, ser considerados como uma continuidade do primeiro. A 
continuidade delitiva deve ser analisada e verificada no caso concreto. 
Com relação à natureza jurídica do crime continuado, duas principais teorias debatem sobre a 
questão: a teoria da unidade real e a teoria da ficção jurídica. 
Segundo a teoria da unidade real, deve ser reconhecida apenas a prática de um único crime, como se 
todas as demais condutas realizadas e vinculadas entre si fossem frações de um todo que forma o 
crime único. Nessa linha de pensamento, não se poderia reconhecer o caráter ilícito de cada uma 
dessas frações, apenas a ilicitude do conjunto de condutas considerada como um único fato, como 
no exemplo de um funcionário que diariamente subtrai uma peça de um faqueiro de 120 peças. De 
acordo com a teoria da unidade real, ela não praticou 120 furtos, mas um único furto em 
continuidade. 
Por outro lado, a teoria da ficção jurídica reconhece a existência de uma multiplicidade de delitos 
— cada fato praticado é reconhecido como uma unidade delitiva autônoma —, contudo o legislador 
opta por adotar como solução a imposição de uma única pena, que será aumentada. Essa é a teoria 
adotada pelo Código Penal Brasileiro, conforme se pode verificar no artigo 71 do Código Penal 
(BRASIL, 1940). 
De qualquer sorte, um aspecto a que devemos nos atentar na análise do crime continuado diz 
respeito aos desdobramentos temporais da conduta. 
Tendo em conta a própria definição de crime continuado, segundo a qual cada conduta delitiva deve 
ser encarada como uma continuidade do antecedente, devemos então considerar a possibilidade de 
alterações legislativas ocorridas no transcorrer do período de continuidade. É a previsão da Súmula 
nº 711 do Supremo Tribunal Federal (BRASIL, 2003): “A lei penal mais grave aplica-se ao crime 
continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da 
permanência”. 
Por força dessa interpretação sedimentada, se no transcorrer das condutas que integram a 
continuidade delitiva ocorrer alteração legislativa que imponha condição penal mais gravosa, não 
tem validade o princípio da irretroatividade da lei penal; de fato, aplica-se ao conjunto das condutas 
a lei mais gravosa que teve vigência iniciada no transcurso das condutas. 
Outro aspecto a ser considerado com relação aos crimes continuados diz respeito à prescrição da 
pretensão punitiva estatal. De acordo com a previsão da Súmula nº 497 do Supremo Tribunal 
Federal (BRASIL, 1969), nos casos de crime continuado a prescrição deve se regular com base na 
pena imposta na sentença, não se computando o acréscimo decorrente da continuação. 
REQUISITOS DO CRIME CONTINUADO 
Entendendo o que configura um crime continuado 
Com relação à punibilidade nos crimes continuados, o Código Penal adota o critério da 
exasperação, ou seja, aplica-se apenas uma pena, considerando o conjunto de condutas como um 
único crime, e a esta o aumento de 1/6 a 1/3 previsto pelo artigo 71 (BRASIL, 1940). 
Antes de adentrarmos especificamente na análise dos requisitos para configuração do crime 
continuado, havemos de considerar a análise do elemento subjetivo da conduta. O Código Penal 
brasileiro, a exemplo da solução adotada pela legislação penal alemã, adota um critério objetivo 
para configurar a continuidade delitiva na matéria do concurso de crimes. 
Isso significa que, para o reconhecimento do crime continuado, não é necessária a confirmação de 
prévio planejamento — da continuidade do dolo — por parte do agente; basta a verificação dos 
requisitos legais estabelecidos pelo artigo 71 do Código Penal (BRASIL, 1940). 
Assim, com relação aos requisitos para configuração do crime continuado, aponta-nos a doutrina: 
1. Pluralidade de crimes da mesma espécie 
2. Nexo de causalidade delitiva 
- Identidade de condições objetivas de tempo 
- Identidade de condições objetivas de lugar 
- Identidade de condições objetivas de execução 
3. Identidade de condições na conduta 
Com relação à pluralidade de crimes da mesma espécie, preconiza a doutrina que os múltiplos 
crimes praticados pelo agente devem ser da mesma espécie. Conforme o entendimento que 
prevalece perante o Superior Tribunal de Justiça, são considerados crimes da mesma espécie 
aqueles previstos pelo mesmo tipo penal. Seria possível a continuidade delitiva entre o furto simples 
e o furto qualificado, mas não entre o furto e o roubo. 
Nesse sentido, assinalam André Estefam e Victor Eduardo Rios Gonçalves (2021, p. 679): 
“Saliente-se, porém, que o entendimento amplamente dominante em termos doutrinários e 
jurisprudenciais é aquele mencionado anteriormente, que interpreta que são da mesma espécie 
apenas aquelas condutas que integram o mesmo tipo penal — simples ou qualificados, consumados 
ou tentados”. 
Note ainda que, com relação ao reconhecimento do crime continuado, a jurisprudência impede o 
reconhecimento da continuidade dependendo da natureza do crime, como podemos extrair do teor 
da Súmula 605 do Supremo Tribunal Federal (BRASIL, 1984), segundo a qual não se admite 
continuidade delitiva nos crimes contra a vida. 
Quanto ao nexo de continuidade delitiva, determina o artigo 71 do Código Penal (BRASIL, 1940) 
que, para o reconhecimento do crime continuado, deve haver uma ligação, um liame, entre as 
diversas condições objetivas impostas pela legislação penal. 
Portanto, deve ser demonstrada a identidade de condições de lugar, o que implica demonstrar 
também a existência de uma unidade espacial no que se refere à prática do crime. Não significa que 
os crimes devam ser praticados todos no mesmo lugar, mas sim que haja uma ligação entre os 
lugares que autorizem estabelecer uma relação de continuidade. 
Ainda, deve ser verificada uma identidade na maneira de execução, no modus operandi. Não 
significa que as condutas tenham de ser espelhadas, exatamente iguais, mas é preciso que haja 
semelhança; ou seja, a prática delitiva deve ser realizada de forma parecida em todas as 
oportunidades. 
Por fim, exige-se a identidade de outras condições semelhantes, o que a doutrina reconhece como a 
concorrência das mesmas oportunidades e da mesma situação fática que permita — ou seja criada 
para — a realização dos múltiplos delitos, denunciando a ligação e a continuidade entre eles. 
Saiba mais 
Para saber mais sobre o crime continuado e o tratamento que a doutrina e a legislação dão a esse 
instituto, uma boa dica é ler a obra de Eugênio Pacelli e André Callegari (2020, p. 490). 
 
 
INCIDENTES DE EXECUÇÃO DE PENAS E MEDIDA DE 
SEGURANÇA 
 
Aula 1 
SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA 
Nesta aula, começaremos o estudo dos incidentes de execução de penas e medida de segurança, 
especificamente em relação ao instituto da suspensão condicional da pena, também conhecido como 
sursis. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Nesta aula, começaremos o estudo dos incidentes de execução de penas e medida de segurança, 
especificamente em relação ao instituto da suspensão condicional da pena, também conhecido como 
sursis. 
Inicialmente conceituaremos o instituto, com sua definição, suas espécies e seus requisitos, bem 
como as consequências para o cumprimento da pena privativa de liberdade imposta e a 
possibilidade de revogação do benefício. Em seguida, passaremos para a interpretação da suspensão 
condicional da pena, de modo a relacionar o conceito com os requisitos, as espécies e as condições 
exigidas e consequências da extinção da punibilidade do agente. Por fim, nosso estudo se voltará 
para a aplicação do instituto em casos reais, com a explanação do entendimento jurisprudencial dos 
tribunais superiores sobre o tema, a fim de compreender as repercussões práticas da aplicação do 
instituto. 
Vamos ao estudos?CONHECENDO A SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA 
A suspensão condicional da pena ou sursis é uma modalidade de suspensão da execução da pena 
privativa de liberdade, na qual o condenado se submete, durante um determinado período, à 
 
fiscalização do cumprimento de condições judicialmente estabelecidas, concedida pelo juízo da 
ação penal (PACELLI, 2020). É um direito público subjetivo do condenado; portanto, estando 
presentes os requisitos, o juiz deve concedê-lo, pois se trata de seu poder-dever. 
Há quatro espécies de sursis previstas no Código Penal: a simples (art. 77), a especial (art. 78, § 2º); 
a etária; e a humanitária (art. 77, § 2º). Os requisitos para o sursis estão previstos no art. 77 do 
Código Penal e são de ordem objetiva e subjetiva (BRASIL, 1940). 
Os requisitos objetivos são a natureza e a quantidade de pena, a impossibilidade de conversão da 
pena privativa de liberdade por restritiva de direitos e a reparação do dano pelo condenado, salvo 
impossibilidade de fazê-lo. Já os requisitos subjetivos são a primariedade do acusado e as 
circunstâncias judiciais favoráveis. 
As condições variam de acordo com a espécie do sursis. Além das previstas, o juiz poderá impor 
outras condições, desde que adequadas à situação pessoal do condenado. 
O sursis poderá ser revogado a qualquer momento. Essa revogação pode ser obrigatória, prevista no 
art. 81, I, II e III do CP (BRASIL, 1940); ou, facultativa, hipótese em que o juiz pode, em vez de 
revogar, prorrogar o período de prova até o máximo, se este não tiver sido o fixado. 
O período de prova é o tempo fixado na sentença, durante o qual o condenado deverá cumprir as 
condições e mostrar bom comportamento. Na regra geral, o período de prova varia entre dois e 
quatro anos; no caso do sursis humanitário ou etário, o período de prova será de quatro a seis 
anos; e, nas contravenções penais, de um a três anos. 
A depender da causa, a revogação poderá ser obrigatória ou facultativa e, depois de revogado o 
benefício, o condenado voltará a cumprir de forma integral a pena que estava suspensa. 
É obrigatória a oitiva do condenado antes da revogação do sursis, salvo nos casos de condenação 
definitiva. Uma vez cumprido integralmente o período de prova sem revogação ou suspensão, 
considera-se extinta a pena privativa de liberdade. 
É possível a prorrogação do período de prova, hipótese em que o período de prova terá duração 
superior à estabelecida na sentença condenatória. 
A prorrogação ocorre quando o beneficiado estiver sendo processado por crime ou contravenção 
penal até o julgamento do processo de maneira definitiva. Ela também pode ocorrer quando se tratar 
de hipóteses de revogação facultativa, nas quais o juiz poderá prorrogar o período de prova em vez 
de optar pela revogação. 
APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE A SUSPENSÃO CONDICIONAL 
DA PENA 
Como visto, são várias as espécies de sursis. O sursis simples — art. 77, caput do Código Penal 
(BRASIL, 1940) — será cabível quando a pena privativa de liberdade aplicada não for superior a 
dois anos e não tiver havido a reparação do dano, nos casos em que for possível fazê-lo. Na referida 
hipótese, a pena poderá ser suspensa pelo período de dois a quatro anos. 
Já o sursis especial — art. 78, § 2º — é cabível quando a pena privativa de liberdade aplicada não 
for superior a dois anos, houver a reparação do dano ou a impossibilidade de fazê-lo e as 
circunstâncias judiciais do art. 59 do Código Penal forem favoráveis ao réu, caso em que a pena 
ficará suspensa pelo período de dois a quatro anos. 
Por sua vez, o sursis etário — art. 77, § 2º, 1ª parte — é aplicável apenas aos condenados maiores 
de 70 anos. É cabível quando a pena privativa de liberdade aplicada não for superior a quatro anos, 
caso em que poderá ser suspensa pelo período de quatro a seis anos. 
Finalmente, o sursis humanitário — art. 77, § 2º, 2ª parte — é aplicável apenas quando razões de 
saúde justificarem. Será cabível quando a pena privativa de liberdade aplicada não for superior a 
quatro anos, caso em que poderá ser suspensa pelo período de quatro a seis anos (ESTEFAM, 
2022). 
Os requisitos do sursis estão previstos no art. 77 do Código Penal, sendo de ordem objetiva e 
subjetiva. De ordem objetiva, a pena deve ser privativa de liberdade, sendo vedada a concessão em 
penas de multa, restritivas de direitos e na medida de segurança, e não pode ser superior a dois anos, 
levando em consideração as regras do concurso de crimes (BRASIL, 1940). 
Se o condenado tiver idade superior a 70 anos ou doença grave, a pena pode ser igual ou inferior a 
quatro anos e, nos crimes ambientais, igual ou inferior a três anos (BRASIL, 1998). 
O sursis só será cabível quando não for indicada ou for inviável a aplicação de pena restritiva de 
direitos. Exige-se ainda a reparação do dano pelo réu, salvo impossibilidade de fazê-lo. 
Como requisitos subjetivos, a legislação determina que o réu não pode ser reincidente em crime 
doloso, salvo quando for aplicada apenas a pena de multa, sendo possível ao reincidente em crime 
culposo. Além disso, deve ser feita uma análise das circunstâncias judiciais previstas no art. 59 do 
CP. No caso do sursis especial, todas devem ser favoráveis ao acusado (NUCCI, 2022). 
As condições variam de acordo com a espécie do sursis. No sursis simples em que não tenha havido 
a reparação do dano, se possível, no primeiro ano de suspensão exige-se o cumprimento de 
determinadas condições legais e obrigatórias: a prestação de serviços à comunidade e a limitação de 
fins de semana. Já o sursis especial não demanda a prestação de serviços à comunidade nem limita 
os fins de semana no primeiro ano (BRASIL, 1940). Aos sursis humanitário e etário, aplicam-se a 
mesmas condições do simples ou do especial. 
A revogação obrigatória está prevista no art. 81, do CP: ocorrerá nos casos de condenação em 
sentença irrecorrível, por crime doloso; de não pagamento da pena de multa sendo solvente ou, sem 
motivo justificável, de não efetuar a reparação do dano; e descumprimento de condição legal. 
A revogação facultativa — art. 81, §1º do CP — acontecerá se o condenado descumprir qualquer 
outra condição imposta ou for irrecorrivelmente condenado, por crime culposo ou contravenção 
penal, a pena privativa de liberdade ou restritiva de direitos (BRASIL, 1940). 
REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE A APLICAÇÃO DA SUSPENSÃO 
CONDICIONAL DA PENA 
Agora é hora de verificar a aplicação do instituto estudado nesta aula no campo prático; a propósito, 
o tema sursis é recorrente nos tribunais superiores. 
O Superior Tribunal de Justiça determinou a impossibilidade de concessão em casos que, embora a 
pena tenha sido fixada dentro do patamar previsto em lei, restou impossível sua concessão em razão 
de o acusado ser reincidente e as circunstâncias judiciais, negativas (BRASIL, 2021c). 
Há ainda entendimento do Superior Tribunal de Justiça de que, nos casos em que a suspensão 
condicional da pena for mais gravosa ao acusado do que a pena privativa de liberdade imposta, é 
possível a recusa ao benefício e sujeição a reprimenda corporal (BRASIL, 2021a). Ainda, diante da 
inexistência de revogação ou prorrogação do benefício durante o período de prova, considera-se 
extinta a pena privativa de liberdade (BRASIL, 2021b). Registra-se que é possível sua concessão 
em infração penal prevista no art. 33, § 4º da Lei nº 11.343/2006, conforme entendimento do 
Superior Tribunal de Justiça (BRASIL, 2019). 
No caso de concurso de crimes, deve ser observado o resultado da soma das penas, de modo que, 
embora cada infração isolada permita a suspensão condicional da pena, se o resultado da soma 
extrapolar o limite máximo previsto pelo legislador, não será possível a concessão do sursis 
(BRASIL, 2016). 
Nas infrações sujeitas ao rito da Lei nº 11.340/2006, é possível sua concessão, desde que presentes 
os requisitos previstos na lei. Porém, é vedada em tais infrações a substituiçãoda pena privativa de 
liberdade pela pena restritiva de direitos e a suspensão condicional do processo (BRASIL, 2018). 
O sursis poderá ser concedido nas infrações penais previstas no rol de crimes hediondos — Lei nº 
8.072/1990 —, desde que sejam cumpridos os requisitos previstos na lei, seguindo o mesmo 
entendimento do Supremo Tribunal Federal no julgamento do HC 111.840 (BRASIL, 2012). 
Conforme determina o art. 112 do Código Penal, a revogação da suspensão condicional da pena 
configura marco inicial para a contagem do prazo da prescrição da pretensão executória (BRASIL, 
1940). Não havendo revogação ou prorrogação do período de prova, foi correta a decisão que 
extinguiu a pena, nos termos do art. 82 do Código Penal (BRASIL, 2021b). 
É importante destacar que a condenação anterior à pena de multa não impede a concessão do sursis, 
conforme a Súmula nº 499 do STF (BRASIL, 1969). 
De acordo com o art. 89 da Lei nº 9.099 (BRASIL, 1995), na concessão da suspensão condicional 
do processo, entre outros requisitos, é comum o requisito para a concessão do sursis. 
A Lei nº 9.605 (BRASIL, 1998), em seu art. 16, estabelece que, nos crimes nela previstos, é 
possível a concessão da suspensão condicional da pena se a pena privativa de liberdade imposta 
não for superior a três anos. 
 
Saiba mais 
Para um aprofundamento do que foi exposto nesta aula, é importante a leitura do capítulo XXXVII 
do livro Tratado de Direito Penal 1: parte geral, de Cezar Roberto Bitencourt (2021), que retrata a 
evolução histórica do instituto, seu conceito e sua natureza jurídica, bem como sua aplicação no 
Direito brasileiro. 
Aula 2 
A DETRAÇÃO PENAL E SEUS EFEITOS NA EXECUÇÃO DA PENA 
Nesta aula, continuaremos o estudo dos incidentes de execução de penas e medida de segurança, 
especificamente em relação ao instituto da detração da pena. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Nesta aula, continuaremos o estudo dos incidentes de execução de penas e medida de segurança, 
especificamente em relação ao instituto da detração da pena. 
Inicialmente conceituaremos o instituto, com sua definição, suas espécies e seus requisitos, bem 
como as consequências para o cumprimento da pena privativa de liberdade imposta e o momento 
adequado para sua realização. Depois disso, passaremos para a interpretação da detração da pena, 
de modo a relacionar o conceito com as hipóteses de prisões cautelares e medidas cautelares de 
natureza pessoal diversas da prisão. Por fim, nosso estudo se voltará para a aplicação do instituto 
em casos reais, com a explanação do entendimento jurisprudencial dos tribunais superiores sobre o 
tema, de modo a compreender as repercussões práticas da aplicação do instituto. 
Vamos começa? 
CONHECENDO A DETRAÇÃO DA PENA 
A detração penal está prevista no art. 42 do Código Penal e consiste no abatimento na pena privativa 
de liberdade e na medida de segurança do tempo de prisão ou internação provisória cumprida pelo 
condenado (NUCCI, 2022). Deve ser feita na sentença, caso influencie diretamente a fixação do 
regime inicial, e no juízo da execução, caso não influencie. 
Prisão provisória é aquela realizada antes do trânsito em julgado da sentença penal condenatória e 
pode se revelar por diversos meios, como prisão em flagrante; prisão preventiva ou sua substituição 
pela prisão domiciliar; prisão temporária; e medidas cautelares diversas da prisão, como 
recolhimento domiciliar no período noturno ou em fins de semana (PACELLI, 2020). 
É importante destacar também que, conforme determina o art. 8º do Código Penal, nos casos de 
extraterritorialidade, a pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo 
crime, quando forem diferentes, ou nela é computada, quando idênticas, o que significa que consiste 
em mais uma hipótese de detração (BRASIL, 1984). 
De acordo com o art. 387, § 2º do Código de Processo Penal, ao proferir a sentença penal 
condenatória o juiz deverá computar o tempo de prisão ou internação provisória, prisão 
administrativa ou de internação no Brasil ou no exterior para fins de fixação do regime inicial de 
cumprimento da pena (BRASIL, 1941). É possível que a detração da pena seja decidida pelo juízo 
da execução penal, visto que é umas atribuições do juízo da execução, nos termos do art. 66, III, ‘c’ 
da Lei nº 7.210 (BRASIL, 1984). 
No caso de pena privativa de liberdade, incialmente o desconto será feito para fins de fixação do 
regime inicial de cumprimento da apena. No caso de medida de segurança, a detração se opera em 
relação ao prazo mínimo, de modo a antecipar a realização do exame de cessação da periculosidade. 
O desconto da pena será na proporção de um dia de pena para cada dia de prisão ou internação 
provisória, sendo que frações menores que um dia não serão contabilizadas, segundo o art. 11 do 
Código Penal (BRASIL, 1940). 
Embora a detração se relacione com a pena privativa de liberdade, há corrente doutrinária que 
reconhece a detração da pena de multa ou da pena restritiva de direitos quando, antes do trânsito em 
julgado, tiver havido a privação cautelar da liberdade do acusado (ESTEFAM, 2021). Entretanto, o 
entendimento jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça é em sentido contrário (BRASIL, 
2018). 
APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE A DETRAÇÃO DA PENA 
Como visto, pela detração penal é possível que haja o abatimento, na pena privativa de liberdade ou 
na medida de segurança, do tempo que o condenado teve sua liberdade privada de forma cautelar no 
curso do processo. Por tal instituto, o condenado que foi preso de forma preventiva, temporária ou 
em flagrante pode descontar da pena privativa de liberdade imposta o período que em esteve preso. 
Além disso, tendo em vista a previsão de cautelares diversas da prisão, no art. 319 do Código de 
Processo Penal, pode ser descontado também o tempo em que o condenado estava em recolhimento 
domiciliar no período noturno ou em fins de semana, haja vista que tais medidas possuem a 
natureza de privação da liberdade (BITENCOURT, 2021). 
Entretanto, em cautelares diversas da prisão que não possuem natureza de privação de liberdade — 
como comparecimento periódico em juízo, proibição de comparecimento a certos lugares e de 
manter contato com determinadas pessoas, suspensão do exercício de função pública ou atividade 
de natureza econômica, fiança e monitoração eletrônica — não caberá a detração, pois não há 
privação de liberdade. 
Ainda, pode ser objeto da detração da pena o período em que o condenado esteve em prisão 
preventiva convertida em prisão domiciliar, nas hipóteses do art. 317 e seguintes do Código de 
Processo Penal. Além das prisões processuais, tendo em vista que no rol de medidas cautelares 
diversas da prisão foi incluída a internação provisória, é possível que o período de internação 
provisória do acusado que teve reconhecida a inimputabilidade ou semi-imputabilidade no curso do 
processo seja descontado da medida de segurança ou da pena privativa de liberdade imposta 
(NUCCI, 2022). Nesse caso, o desconto produzirá efeitos no período mínimo de reavaliação, de 
modo a antecipar a realização do exame de cessação da periculosidade (NUCCI, 2022). 
Em regra, a detração penal é competência do juiz da fase de conhecimento, entretanto será realizada 
por ele apenas se influenciar o regime inicial de cumprimento de pena. Caso não interfira, deverá 
ser requerida junto ao juiz da execução da pena. 
É possível ainda, nos casos de extraterritorialidade, que a pena cumprida no exterior, quando 
idêntica à aplicada no território brasileiro, seja computada, o que consiste também em uma espécie 
de detração (BRASIL, 1940). 
Por fim, a detração da pena não se relaciona com situações futuras; no caso de o acusado responder 
por mais de um processo e ser absolvido ou ter a punibilidade extinta em um deles, é possível que 
ocorra a detração se a infração penal cuja pena se pretende detrair for anterior àquela em quefoi 
absolvido ou for reconhecida a extinção da punibilidade (BRASIL, 2018). Por tal entendimento, é 
impossível que haja um saldo de pena a detrair em infrações penais futuras. 
REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE DETRAÇÃO DA PENA 
A detração da pena é um tema recorrente nos tribunais superiores. O Superior Tribunal de Justiça 
entende que a competência do juiz da ação na fase de conhecimento para realizar a detração penal 
na sentença penal condenatória não afasta a competência do juízo da execução, visto que não versa 
sobre progressão de regime, mas sim sobre fixação do regime inicial menos severo, a partir do 
desconto de prisão ou internação provisória (BRASIL, 2022). 
Ainda, o período em que o acusado esteve solto após a concessão de liberdade provisória, com a 
utilização de monitorização eletrônica sem a imposição de recolhimento domiciliar obrigatório, não 
será considerado para fins de detração da pena (BRASIL, 2021e). 
Quando houver a imposição de medida cautelar diversa da prisão de recolhimento domiciliar no 
período noturno ou em fins de semana, o resultado da soma das horas de recolhimento do acusado 
será considerado para fins de detração da pena (BRASIL, 2021c). 
Se o acusado for submetido à medida cautelar diversa da prisão de recolhimento domiciliar no 
período noturno com monitorização eletrônica, em razão do recolhimento domiciliar será possível 
realizar a detração da pena (BRASIL, 2021c). 
A prisão e a internação provisória produzirão efeitos para fins de detração penal e, inclusive, podem 
ser somadas para fins do cálculo do quantum a ser abatido da sanção penal imposta (BRASIL, 
2021b). 
O Superior Tribunal de Justiça possui entendimento fixado no sentido de que as hipóteses de 
detração previstas no art. 42 do Código Penal não são taxativas, portanto é possível o 
reconhecimento do benefício a outras hipóteses de restrição cautelar da liberdade do acusado, como 
recolhimento domiciliar no período noturno e em fins de semana e prisão domiciliar, sendo o rol 
exemplificativo, para admitir a detração nas hipóteses em que há a privação cautelar da liberdade do 
acusado (BRASIL, 2021d). 
Também segundo o Superior Tribunal de Justiça, se após a soma das horas em que o acusado esteve 
em prisão domiciliar ou recolhimento domiciliar no período noturno restar fração inferior a 24 
horas, estas não serão computadas, por força do art. 11 do Código Penal, que impõe que frações de 
dia sejam desconsideradas (BRASIL, 2021d). 
Cezar Roberto Bitencourt (2021) explica que, além em prisão e internação provisória, é possível a 
detração da pena quando se tratar de prisão administrativa, decorrente da prisão do militar no 
quartel por ato de indisciplina e do extraditando durante o trâmite do processo de extradição. 
Outra determinação do Superior Tribunal de Justiça entende que o período em que o acusado teve 
sua liberdade privada de forma cautelar em ação penal que foi absolvido poderá ser utilizado se a 
data do crime que se detrair da pena for anterior ao período em que esteve preso. Não havendo a 
possibilidade de ser utilizado se a infração penal for posterior, o que poderia resultar em um saldo 
de pena a ser detraído em situações futuras (BRASIL, 2018). 
Ainda, o referido tribunal julgou pela impossibilidade de detração em pena que não seja privativa de 
liberdade (BRASIL, 2018). 
Saiba mais 
Para um aprofundamento do que foi exposto nesta aula, é importante a leitura do capítulo 2.10 do 
livro Direito Penal – Volume 1, de André Estefam (2021), que faz importantes reflexões sobre a 
detração penal. 
 
 
Aula 3 
LIBERDADE CONDICIONAL 
Nesta aula, continuaremos o estudo dos incidentes de execução de penas e medida de segurança, 
especificamente em relação ao livramento condicional. 
 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Nesta aula, continuaremos o estudo dos incidentes de execução de penas e medida de segurança, 
especificamente em relação ao livramento condicional. 
Começaremos conceituando o instituto, com sua definição, suas espécies e seus requisitos, além das 
consequências para o cumprimento da pena privativa de liberdade imposta e a extinção da 
punibilidade do agente. Após, nosso estudo se voltará para a interpretação do instituto, de modo a 
relacionar o conceito com as hipóteses de concessão do livramento condicional, as condições 
impostas para o período de prova e as consequências no caso de revogação, suspensão. Por fim, 
chegaremos à aplicação do instituto em casos reais, com a explanação do entendimento 
jurisprudencial dos tribunais superiores sobre o tema, a fim de compreender as repercussões práticas 
da aplicação do instituto. 
Vamos começar? 
CONHECENDO O LIVRAMENTO CONDICIONAL 
O livramento condicional é o benefício que permite ao condenado à pena privativa de liberdade 
superior a dois anos a liberdade antecipada, desde que cumpridas determinadas condições e parte da 
pena imposta e atendidos os requisitos legais (NUCCI, 2022). Destina-se exclusivamente às penas 
privativas de liberdade, portanto não é possível ser estendido à pena restritiva de direitos ou multa. 
Para a concessão do livramento condicional, o condenado deve preencher os requisitos objetivos e 
subjetivos previstos no art. 83 do Código Penal (BRASIL, 1940). 
São requisitos objetivos espécie e quantidade de pena; parcela de pena já cumprida; reparação do 
dano; não cometimento de falta grave nos últimos 12 meses; e não ter sido condenado por crime 
hediondo ou equiparado com o resultado morte. Já os requisitos subjetivos são bom comportamento 
durante a execução da pena; bom desempenho no trabalho atribuído; aptidão para prover a própria 
subsistência mediante trabalho honesto; prova da cessação da periculosidade, para os condenados 
por crime doloso cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa; e inexistência de elementos 
probatórios que indiquem a manutenção do vínculo associativo. 
As condições podem ser legais ou judiciais e serão fixadas na sentença; podem ser obrigatórias ou 
facultativas. As condições obrigatórias, previstas no art. 132 da Lei de Execução Penal (BRASIL, 
1984) são obtenção de ocupação lícita; comunicação periódica ao juiz sobre sua ocupação; e não 
mudar da comarca do juízo da execução sem prévia autorização do juiz. As condições judiciais 
serão fixadas pelo juiz da execução, podendo ser: não mudar de residência sem comunicação 
prévia; recolhimento em habitação em hora fixada; e não frequentar determinados lugares. 
O livramento condicional pode ser revogado de forma obrigatória, em virtude de decisão judicial 
transitada em julgado, por crime cometido durante a vigência do benefício ou decisão judicial 
transitada em julgado, e por crime anterior ao benefício desde que a nova pena privativa de 
liberdade, somada à anterior, que deu origem ao benefício, torne impossível sua manutenção, 
havendo efeitos distintos para cada uma das situações. Por sua vez, a revogação facultativa ocorre 
no caso de descumprimento das obrigações decorrentes da decisão concessiva do livramento 
condicional ou se o condenado for condenado de forma definitiva por crime ou contravenção, cuja 
pena não seja privativa de liberdade (ESTEFAM, 2021). 
É cabível a prorrogação do período de prova quando o beneficiário estiver sendo processado por 
crime cometido na vigência do livramento condicional. 
Enquanto não se opera o trânsito em julgado da outra condenação, o juiz poderá suspender o 
benefício do livramento condicional, determinando a prisão do condenado. Não exige prévia oitiva 
do condenado; é uma medida cautelar (BRASIL, 2016). 
Considera-se extinta a pena privativa de liberdade com o término do período de livramento 
condicional, desde que não tenha havido sua revogação ou suspensão (BRASIL, 1940). 
O término do livramento condicional, sem revogação, é causa extintiva da punibilidade. 
APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE O LIVRAMENTO 
CONDICIONAL 
Conforme estudamos anteriormente, o livramentocondicional, nos termos do art. 83 do Código 
Penal (BRASIL, 1940), exige a presença de determinados requisitos para sua concessão, os quais 
podem ser de ordem objetiva e subjetiva. 
Como requisitos objetivos, a lei estabelece que o benefício será concedido em atenção à espécie e à 
quantidade de pena: deve ser privativa de liberdade e igual ou superior a dois anos. No caso de 
penas para infrações diversas, será levada em consideração a soma delas. 
É necessário ainda analisar a parcela de pena já cumprida, tendo em vista que a concessão do 
livramento condicional depende do cumprimento de parte da pena imposta: mais de 1/3 da pena 
para o condenado primário e de bons antecedentes; mais de 1/3 da pena para o condenado primário 
e de maus antecedentes; mais de 1/2 da pena para o condenado reincidente em crime doloso; mais 
de 2/3 da pena para o condenado por crime hediondo ou equiparado, desde que não seja reincidente 
específico. 
De acordo com o art. 112, VI, ‘a’ da Lei nº 7.210/1984 (BRASIL, 1984), é vedada a concessão para 
o condenado em crime hediondo com resultado morte, bem como para o reincidente em crime 
hediondo com resultado morte, vedação inserida pela Lei nº 13.964 (BRASIL, 2019), que por ser 
prejudicial ao acusado não retroage aos casos anteriores. 
É exigida a reparação do dano, salvo quando não for possível ou não existir dano a ser reparado. 
Além disso, o condenado não deve ter cometido falta grave nos últimos 12 meses; sido condenado 
por crime hediondo ou equiparado com o resultado morte; requisitos inseridos pela Lei nº 13.964 
(BRASIL, 2019). Registra-se que tais requisitos, por serem prejudiciais ao acusado, não irão 
retroagir aos fatos praticados antes da vigência da referida lei. 
Os requisitos subjetivos incluem bom comportamento durante a execução da pena; bom 
desempenho no trabalho atribuído; aptidão para prover a própria subsistência mediante trabalho 
honesto; prova da cessação da periculosidade para os condenados por crime doloso cometido com 
violência ou grave ameaça à pessoa. Além disso, exige-se a inexistência de elementos probatórios 
que indiquem a manutenção do vínculo associativo para condenado por integrar organização 
criminosa ou por crime praticado por meio de organização criminosa, requisito inserido pela Lei nº 
13.964/2019 (PACELLI, 2020). 
A revogação será obrigatória na hipótese de decisão judicial transitada em julgado, por crime 
cometido durante a vigência do benefício ou condenação judicial transitada em julgado por crime 
anterior, desde que a nova pena privativa de liberdade, somada à que deu origem ao benefício, torne 
impossível sua manutenção. A condenação à contravenção penal não é causa de revogação 
obrigatória (NUCCI, 2022). 
Já a revogação facultativa ocorrerá por descumprimento das obrigações decorrentes da decisão 
concessiva do livramento condicional, hipótese em que não se desconta da pena o tempo em que o 
condenado esteve solto; não permite concessão na mesma pena. 
Se o condenado for condenado de forma definitiva por crime ou contravenção, cuja pena não seja 
privativa de liberdade, e a infração tiver sido praticada em momento anterior ao benefício, desconta-
se da pena o tempo em que esteve solto; permite novo livramento na mesma pena. 
Se for posterior, não se desconta da pena o período em que esteve solto; não autoriza a concessão na 
mesma pena (PACELLI, 2020). 
REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE O LIVRAMENTO CONDICIONAL 
É entendimento do Superior Tribunal de Justiça que o descumprimento das condições do livramento 
condicional pode impedir o deferimento de indulto ou comutação da pena (BRASIL, 2022e). Ainda, 
é possível a exigência de exame criminológico para a concessão do livramento condicional 
(BRASIL, 2022a). 
Na revogação obrigatória por decisão judicial transitada em julgado, por crime cometido durante a 
vigência do benefício, não se computa na pena o tempo que o condenado permaneceu solto; não 
será concedido novo livramento para a mesma pena; não se soma o restante da pena à nova pena 
para fins de concessão de novo livramento (BRASIL, 2022b). 
No caso de revogação por decisão judicial transitada em julgado, por crime anterior ao benefício 
desde que a nova pena privativa de liberdade, somada à anterior, que deu origem ao benefício, torne 
impossível sua manutenção, computa-se o cumprimento da pena no período em que o condenado 
esteve solto; é possível a soma das duas penas para concessão de novo livramento; permite-se novo 
livramento para a mesma pena se os requisitos forem preenchidos (NUCCI, 2022). 
A Súmula 441 do STJ determina que a falta grave não interrompe o prazo para obtenção de 
livramento condicional, porém é possível afastar o requisito subjetivo do bom comportamento 
carcerário, visto que tal requisito não possui limite temporal (BRASIL, 2022c). 
Em decisão concessiva de livramento condicional, o STJ considerou descumprimento injustificado 
de condições impostas o deslocamento do executado para residência de terceiro para consumir 
drogas durante o período estabelecido para o exercício do trabalho (BRASIL, 2022d). 
Se o condenado for reincidente em crime hediondo ou equiparado, não terá direito ao benefício. A 
regra vale para os crimes praticados a partir do início da vigência da Lei nº 13.964 (BRASIL, 2019), 
que inseriu essa vedação. O entendimento anterior à referida lei, aplicado aos crimes praticados em 
sua vigência, é no sentido de ser possível, mediante o cumprimento de mais de 2/3 da pena, desde 
que não seja o caso de reincidência específica em crime doloso (BRASIL, 2021). 
No caso de prática de outra infração penal durante o período de prova, é cabível a suspensão do 
curso do livramento condicional, cuja revogação dependerá da condenação final da nova ação penal 
(BRASIL, 2021a). 
Em relação ao crime de associação para o tráfico de drogas, previsto no art. 35 da Lei nº 
11.343/2006, embora não seja considerado hediondo, deve levar em consideração o estabelecido no 
art. 44, parágrafo único, da referida lei, que veda a concessão do benefício ao reincidente específico 
(BRASIL, 2021b). 
O período de prova no livramento condicional, caso não tenha sido suspenso ou revogado, será 
contado para fins de período depurador da reincidência (BRASIL, 2021c). 
A suspensão cautelar do livramento condicional, diferentemente de sua revogação definitiva, não 
necessita de audiência de justificação prévia (BRASIL, 2016). 
A Súmula 617 do STJ determina que a ausência de revogação ou suspensão do livramento 
condicional no período de prova antes de seu término implica a extinção da punibilidade, ainda que 
o condenado esteja respondendo por infração penal ou que tenha sobrevindo condenação. O que se 
verifica é se houve suspensão ou revogação durante o período de prova; não tendo havido, a 
punibilidade estará extinta (BRASIL, 2018). 
 
Saiba mais 
Para um aprofundamento do que foi exposto nesta aula, é importante a leitura do capítulo XXII do 
livro Curso de Direito Penal brasileiro, de Luiz Regis Prado (2021), que faz importantes reflexões 
sobre o livramento condicional. 
Aula 4 
O INIMPUTÁVEL E A EXECUÇÃO PENAL 
Nesta aula, continuaremos o estudo dos incidentes de execução de penas e medida de segurança, 
especificamente em relação à responsabilização penal do inimputável e do semi-imputável. 
 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Nesta aula, continuaremos o estudo dos incidentes de execução de penas e medida de segurança, 
especificamente em relação à responsabilização penal do inimputável e do semi-imputável. 
Iniciaremos conceituando o instituto, com sua definição, suas espécies e seus requisitos. Na 
sequência, nosso estudo se voltará para a interpretação do instituto, de modo a relacionar o conceito 
com as hipóteses de aplicação, duração, espécies e verificação da inimputabilidade ou semi-
imputabilidade do agente. Por fim, seguiremos para a aplicação do instituto em casos reais, com a 
explanaçãodo entendimento jurisprudencial dos tribunais superiores sobre o tema, de modo a 
compreender as repercussões práticas da aplicação do instituto. 
Vamos começar? 
 
CONHECENDO A MEDIDA DE SEGURANÇA 
Medida de segurança é uma espécie de sanção penal com finalidade preventiva e de caráter 
terapêutico, destinada a tratar inimputáveis e semi-imputáveis portadores de periculosidade, com o 
objetivo de evitar que novas infrações penais venham a ser praticadas (PRADO, 2021). 
A aplicação da medida de segurança exige a presença de três requisitos: prática de fato previsto 
como crime; não ocorrência da extinção da punibilidade; periculosidade do agente. 
São duas as espécies de medida de segurança: a detentiva e a restritiva. Em suma, o Código Penal 
vincula a espécie de medida de segurança à espécie de pena privativa de liberdade prevista para o 
crime (NUCCI, 2022). 
A medida detentiva é a internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico ou, em sua 
falta, em outro estabelecimento adequado. Segundo o Código Penal, deve ser aplicada de forma 
obrigatória quando o fato for punido com reclusão. Já a medida restritiva é a sujeição a tratamento 
ambulatorial, aplicável quando o fato for punido com detenção (BRASIL, 1940). 
A regra não é absoluta, então é possível a imposição da medida de segurança que for mais adequada 
ao tratamento do agente, com base no laudo pericial, aliado à Lei nº 10.216/2001 (Lei 
Antimanicomial) e à Resolução 113 do Conselho Nacional de Justiça (NUCCI, 2022). 
O reconhecimento da condição de inimputável ou semi-imputável dependerá do reconhecimento de 
que o agente era, ao tempo da ação ou omissão, incapaz de entender o caráter ilícito do fato e de se 
comportar conforme esse entendimento, por força de doença mental ou desenvolvimento mental 
incompleto ou retardado. 
Se tais fatores incapacitantes retirarem por completo a capacidade de entendimento do agente sobre 
a ilicitude de sua conduta, ele será considerado inimputável. Se implicar a diminuição da 
capacidade, ele será considerado como semi-imputável. 
A verificação da inimputabilidade ou semi-imputabilidade será efetuada por meio de incidente 
de sanidade mental, matéria que encontra regulamentação no art. 149 e seguintes do Código de 
Processo Penal (BRASIL, 1941). 
A medida de segurança possui prazo mínimo de duração, que pode variar de um a três anos. Findo o 
prazo mínimo, deve ser realizado exame para verificação de cessação da periculosidade do agente. 
O Código Penal (BRASIL, 1940) estabelece que a medida de segurança terá prazo indeterminado. 
Entretanto, os tribunais possuem entendimento de que se trata de uma sanção penal, por isso não 
pode ter caráter perpétuo. 
Embora a aplicação da medida de segurança pressuponha decisão judicial transitada em julgado, é 
possível a internação provisória, como medida cautelar diversa da prisão, conforme determina o art. 
319, VII do Código de Processo Penal (BRASIL, 1941), a qual pode ocorrer no curso do processo 
ou da investigação, quando: a) o crime for praticado com violência ou grave ameaça; b) houver 
risco de reiteração; c) perícia concluir inimputabilidade ou semi-imputabilidade. 
A medida de segurança também está sujeita a detração, que se opera em relação ao prazo mínimo de 
duração, de modo a antecipar a realização do exame de cessação da periculosidade, a partir do 
desconto do tempo em que o acusado esteve preso ou internado de forma provisória (ESTEFAM, 
2021). 
É possível a desinternação progressiva quando constatada melhora no quadro clínico do acusado; a 
internação é então substituída por semi-internação, desinternação condicionada ou por tratamento 
ambulatorial. 
APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE A MEDIDA DE SEGURANÇA 
Como visto, a aplicação da medida de segurança exige a presença de três requisitos: prática de fato 
previsto como crime; não ocorrência da extinção da punibilidade; periculosidade do agente. 
Em relação à prática de fato previsto como crime, é necessário que o fato praticado pelo agente seja 
considerado como criminoso, consistindo em fato típico ilícito e culpável, portanto a mera condição 
de inimputabilidade ou semi-imputabilidade não é suficiente para a aplicação da medida de 
segurança. É preciso que o agente tenha praticado um fato previsto como crime, sendo típico e 
ilícito. Além disso, devem ser comprovadas a autoria e a materialidade da infração, permitindo ao 
acusado inimputável ou semi-imputável seus direitos e suas garantias fundamentais, como 
contraditório, ampla-defesa, devido processo legal, entre outros. 
O acusado inimputável ou semi-imputável figurará como réu em uma ação penal, e ela se 
desenvolverá regularmente; entretanto, em virtude da ausência de culpabilidade ou de sua presença, 
porém de forma diminuída, ele não poderá ser considerado como culpado, razão pela qual deve ser 
absolvido, nos termos do art. 386, VI do Código de Processo Penal (BRASIL, 1941). 
A absolvição é uma absolvição imprópria, pois deve ser acompanhada de uma medida de segurança, 
conforme determina o art. 386, parágrafo único, III do Código de Processo Penal (BRASIL, 1941). 
É necessário que não tenha ocorrido a extinção da punibilidade do agente, visto que, caso exista 
uma causa extintiva da punibilidade, prevista no art. 107 do Código Penal (BRASIL, 1940), a 
medida adequada é seu reconhecimento, e não a aplicação da medida de segurança. 
Por fim, analisa-se a periculosidade do agente, que consiste na possibilidade de ele voltar a se 
envolver com infrações penais. 
No caso do inimputável, sua periculosidade é presumida, sendo automaticamente considerado como 
perigoso. Nesse cenário, o juiz deve absolvê-lo de forma imprópria, impondo uma medida de 
segurança como sanção, nos termos do art. 386, parágrafo único, III, do CPP (BRASIL, 1941). 
No caso do semi-imputável, a periculosidade é real, ou seja, deve ser comprovada. Nesse caso, o 
acusado é condenado pela prática da infração penal; porém, por ter uma diminuição de sua 
culpabilidade, recebe uma pena diminuída de 1/3 a 2/3 (BRASIL, 1940). 
Caso o acusado necessite de tratamento curativo, a pena pode ser substituída pela medida de 
segurança, de acordo com indicação do laudo pericial que atestou a semi-imputabilidade. 
Para o semi-imputável, o Código Penal (BRASIL, 1940) adota o Sistema do Vicariante ou Unitário, 
no qual deve ser aplicada a pena ou a medida de segurança. Antes da reforma penal de 1984, o 
sistema adotado era o do Duplo Binário, no qual se aplicavam de forma cumulativa a pena e a 
medida de segurança. 
O prazo mínimo para a medida de segurança é de um a três anos. Após o prazo mínimo, deve ser 
realizado exame para verificação de cessação da periculosidade do agente. Em relação ao prazo 
máximo, o Código Penal (BRASIL, 1940) estabelece que a medida de segurança terá prazo 
indeterminado. Entretanto, os tribunais entendem que se trata de uma sanção penal, por isso não 
pode ter caráter perpétuo. Para o STF, o prazo máximo é o do limite das penas previstos no art. 75 
do CP (BRASIL, 2015b). Para o STJ, o prazo máximo é o da pena abstratamente prevista para o 
crime praticado pelo agente (BRASIL, 2015a). 
No caso de ultrapassado o referido prazo máximo e não cessada a periculosidade do agente, é 
possível que seja determinada a internação civil do agente, nos termos da Lei nº 10.216/2001, que 
não está sujeita a prazo de duração. 
REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE A MEDIDA DE SEGURANÇA 
A Súmula nº 527 do Superior Tribunal de Justiça determina que o tempo de duração da medida de 
segurança não deve ultrapassar o limite máximo da pena abstratamente cominada ao delito 
praticado (BRASIL, 2015a). 
Sobre a duração da medida de segurança, o Superior Tribunal de Justiça entende que, embora o 
Código Penal determine que ela será aplicada por período indeterminado, seu tempo de duração não 
pode ser maior do que o limite de pena previsto abstratamente para o crime (BRASIL, 2022).O referido tribunal entende ainda que, não atingido o prazo mínimo de execução da medida, não 
será possível a desinternação do agente (BRASIL, 2022). 
No caso de o agente condenado à pena privativa de liberdade ser acometido, durante a execução da 
pena, por enfermidade mental que impossibilite o cumprimento da sanção imposta, haverá a 
imposição de tratamento ambulatorial, que deverá durar até o fim da pena privativa imposta. Nesse 
caso, não será possível aplicar a regra de que a medida de segurança permaneça por tempo 
indeterminado, tendo em vista a ofensa à coisa julgada material, prevalecendo a duração da pena 
imposta na sentença transitada em julgado (BRASIL, 2021). 
A semi-imputabilidade do agente é causa de diminuição de pena, nos termos do art. 26, parágrafo 
único do Código Penal. Entretanto, se ao reconhecer a semi-imputabilidade do agente ficar 
constatada também sua periculosidade, o correto é a aplicação de medida de segurança (BRASIL, 
2021a). 
Antes de aplicar a medida de segurança, é preciso atestar a responsabilidade penal do acusado. 
Dessa forma, reconhecendo a prática de infração penal pelo acusado e a inexistência de causa 
extintiva da punibilidade, será aplicada a medida de segurança, não havendo exclusão de tipicidade, 
mas sim de culpabilidade. Assim, pela leitura dos referidos dispositivos, verifica-se que a 
inimputabilidade leva à aplicação de medida de segurança, mas não exclui a tipicidade do crime 
(BRASIL, 2021b). 
É possível a internação provisória do agente inimputável ou semi-imputável como medida cautelar 
diversa da prisão, quando for o caso de crime com violência ou grave ameaça e houver a 
possibilidade de reiteração criminosa do agente (BRASIL, 2019b). 
Não é possível a execução provisória da medida de segurança, tendo em vista que o início de seu 
cumprimento impõe a necessidade de trânsito em julgado da sentença de absolvição imprópria 
(BRASIL, 2019a). 
O Superior Tribunal de Justiça entende pela possiblidade de desinternação progressiva do agente 
que teve em seu desfavor aplicada uma medida de segurança, caso seja constatada a cessação ou 
atenuação da causa que determinou a inimputabilidade do agente (BRASIL, 2017). 
É possível que o acusado que tenha recebido uma medida de segurança seja beneficiado pelo 
indulto, sendo computado o período de cumprimento da medida imposta (BRASIL, 2015b). 
O Supremo Tribunal Federal também já determinou que a medida de segurança não poderá ter 
duração maior do que o limite máximo de pena imposta no ordenamento jurídico (BRASIL, 2005). 
 
Saiba mais 
Para um aprofundamento do que foi exposto nesta aula, é importante a leitura do capítulo 13.4 do 
livro Penas e medidas de segurança no Direito Penal brasileiro, de Salo Carvalho (2020), que 
apresenta importantes reflexões acerca da medida de segurança. 
 
 
AÇÃO PENAL E CAUSAS DE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE 
 
Aula 1 
ESPÉCIES DE AÇÃO PENAL 
Nesta aula, iniciaremos o estudo da ação penal e das causas de extinção da punibilidade, 
especificamente em relação às espécies de ação penal. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Nesta aula, iniciaremos o estudo da ação penal e das causas de extinção da punibilidade, 
especificamente em relação às espécies de ação penal. Conceituaremos ação penal e direito de ação, 
com definição, previsão legal e características. Depois disso, seguiremos para as diversas espécies 
de ação penal previstas no ordenamento jurídico-penal brasileiro. Adiante, faremos a interpretação 
de cada uma das espécies de ação penal, de modo a relacionar os conceitos apresentados com as 
especificidades de cada uma delas. Por fim, nosso estudo se voltará para a aplicação do instituto em 
casos reais, com a explanação do entendimento jurisprudencial dos tribunais superiores sobre o 
tema, para compreender as repercussões práticas da aplicação do que foi apresentado. 
Vamos começar? 
CONHECENDO O DIREITO DE AÇÃO E AS ESPÉCIES DE AÇÃO PENAL 
Tipos de ação penal 
A ação penal é o ato jurídico ou a iniciativa de ir à Justiça em busca do direito, com a efetiva 
prestação da tutela jurisdicional, ou seja, forma de provocar o Estado a prestar a tutela jurisdicional 
(NUCCI, 2022). 
O direito de ação penal está previsto no art. 5º, XXXV, da Constituição Federal, que prevê que a lei 
não excluirá do judiciário lesão ou ameaça a direito (BRASIL, 1988). 
A ação penal será classificada de acordo com o titular para sua propositura e se divide em ação 
penal de iniciativa pública, quando promovida pelo Ministério Público, que pode ser incondicionada 
ou condicionada à representação ou à requisição do Ministro da Justiça; e privada, de titularidade do 
 
ofendido, podendo ser exclusivamente privada, personalíssima ou privada subsidiária da pública. 
Em regra, a ação penal será de iniciativa pública incondicionada; entretanto, em situações 
excepcionais, mediante expressa previsão legal, será pública condicionada à representação do 
ofendido ou à requisição do Ministro da Justiça e privada (PRADO, 2021). 
A titularidade da ação penal de iniciativa pública é privativa do Ministério Público, conforme art. 
129, I, da Constituição (BRASIL, 1988). 
A ação penal pública possui cinco princípios basilares: obrigatoriedade, indisponibilidade, 
oficialidade, intranscendência e indivisibilidade (Figura 1). 
Pela obrigatoriedade, uma vez preenchidos os requisitos legais, o membro do Ministério Público 
tem o dever de oferecer a denúncia. 
Enquanto isso, a indisponibilidade impõe que o membro do Ministério Público não pode desistir da 
ação penal. Se verificar, após o início da ação penal pública, que não é caso de condenação do 
acusado, pode buscar a absolvição ou a desclassificação do crime, porém não pode desistir da ação 
penal pública nem de recursos interpostos por ele. 
Por sua vez, a oficialidade determina que seja de competência de um órgão oficial do Estado: o 
Ministério Público. 
Já a intranscendência se relaciona com o princípio da individualização da pena e estabelece que a 
ação penal somente pode ser ajuizada pelos autores e partícipes da infração penal, razão pela qual o 
falecimento do acusado é causa de extinção da punibilidade. 
Por fim, a indivisibilidade significa que deve abranger todos os agentes que concorrem para a 
infração, não podendo o Ministério Público escolher quem processar (NUCCI, 2022). 
Figura 1 | Princípios da ação penal pública 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
A ação penal de iniciativa privada é de titularidade do ofendido ou de seus sucessores legais, 
reservando-se ao Estado o direito de punir, e possui quatro princípios basilares: oportunidade, 
disponibilidade, intranscendência e indivisibilidade (Figura 2). 
Pela oportunidade, entende-se que a ação penal privada não é obrigatória; os legitimados para sua 
propositura podem ajuizá-la ou não, conforme sua vontade. 
Já a disponibilidade significa que seu titular pode desistir dela a qualquer tempo. 
Enquanto isso, a intranscendência determina que a ação penal privada somente pode ser ajuizada 
pelos autores e partícipes da infração penal. 
Por sua vez, a indivisibilidade indica que ela deve abranger todos que concorreram para a infração 
penal, não podendo a vítima escolher quem processar. A renúncia a um dos agentes se estende aos 
demais (PACELLI, 2020). 
Figura 2 | Princípios da ação penal privada 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE AS ESPÉCIES DE AÇÃO PENAL 
Ação penal pública x ação penal privada 
Como vimos, a ação penal pode ser de natureza pública ou privada. A ação penal pública é aquela 
que compete privativamente ao Ministério Público, sendo ele seu titular. 
É uma hipótese de legitimidade ordinária, na qual o Estado atua em nome próprio, defendendo 
direito próprio, o jus puniendi. A peça acusatória elaborada pelo representante do Ministério Público 
para iniciar a ação penal pública é a denúncia. 
A ação penal pública comporta três espécies: a incondicionada,a condicionada à representação e a 
condicionada à requisição do Ministro da Justiça (Figura 3). 
Figura 3 | Espécies de ação penal pública 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
A ação pública incondicionada é promovida pelo Ministério Público, mediante o oferecimento de 
denúncia, independentemente de qualquer condição específica. 
A ação penal pública condicionada à representação do ofendido também é promovida pelo 
Ministério Público, por meio do oferecimento de denúncia, entretanto exige representação do 
ofendido ou de seu representante legal — ou, no caso de falecimento, de cônjuge, ascendente, 
descendente ou irmão (BRASIL, 1941). 
Basicamente, a representação consiste em uma manifestação do ofendido a fim de que o agente seja 
processado e punido pela infração praticada; assim, permite à vítima, em certas situações, escolher 
iniciar ou não a ação penal. 
A representação deve ser apresentada no prazo decadencial de seis meses da data em que se tomou 
conhecimento do autor da infração e não requer rigor formal; o importante é demonstrar de forma 
inequívoca o interesse em ver o autor da infração penal processado. Pode ser feita à autoridade 
policial, ao Ministério Público ou ao juiz (NUCCI, 2022). 
Por sua vez, a ação penal pública condicionada à requisição do Ministro da Justiça também é 
promovida pelo Ministério Público e depende de requisição do Ministro da Justiça, que deve emitir 
uma autorização para que o Ministério Público ofereça a denúncia. 
Seu fundamento é a existência de situações em que a conveniência política quanto ao ajuizamento 
da ação se sobrepõe ao interesse de punir a infração penal, razão pela qual não está sujeita ao prazo 
decadencial de seis meses. 
Será exigida nos casos de extraterritorialidade condicionada, prevista no art. 7º, § 3º, b do 
Código Penal, e crimes contra a honra cometidos contra o presidente da república ou o chefe de 
governo estrangeiro, previstos no art. 141 do Código Penal (BRASIL, 1940). 
Já a ação penal privada é aquela que compete ao ofendido ou a seu representante legal — ou, no 
caso de falecimento, a cônjuge, ascendente, descendente ou irmão. São três as espécies de ação 
penal privada: a exclusivamente privada, a personalíssima e a subsidiária da pública (Figura 4). 
Figura 4 | Espécies de ação penal privada 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
A ação penal exclusivamente privada é aquela cuja legitimidade pertence ao ofendido ou a quem 
tiver qualidade para representá-lo; e a peça inicial é queixa-crime. 
Enquanto isso, a ação penal privada personalíssima é aquela cuja titularidade é atribuída apenas à 
vítima, sendo intransmissível a terceiros. Portanto, em caso de morte do ofendido, o direito de 
queixa não se transmite a seus sucessores; esse cenário leva à extinção da punibilidade do agente. 
Em situação de incapacidade, a queixa-crime não pode ser oferecida pelo representante da vítima, 
nem pode ser nomeado um curador especial para tal (ESTEFAM, 2021). A única hipótese prevista é 
do art. 236 do Código Penal, no crime de induzimento a erro essencial e ocultação de 
impedimento (BRASIL, 1940). 
Por fim, a ação penal privada subsidiária da pública é aplicável aos crimes de ação pública quando 
há inércia do Ministério Público para oferecer a denúncia no prazo legal: 5 dias para o réu preso e 
15 para o réu solto, contados a partir do recebimento do inquérito policial. Seu fundamento está no 
art. 5º, LIX, da Constituição (BRASIL, 1988). 
Todas as espécies de ação penal privada devem ser propostas no prazo decadencial de seis meses a 
contar da data em que se tomou conhecimento do autor dos fatos, sob pena de extinção da 
punibilidade. 
Em regra, a ação penal é pública incondicionada. Se outra for a espécie de ação penal cabível, 
deverá a lei indicar expressamente a previsão diversa. 
REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE A APLICAÇÃO DA AÇÃO PENAL 
A natureza processual hibrida 
O Superior Tribunal de Justiça entende que a ação penal subsidiária da pública será cabível quando 
demonstrada a inércia do Ministério Público, e não quando o não oferecimento da denúncia se 
relaciona com obstáculos criados pelas partes (BRASIL, 2021). Além disso, não é cabível a ação 
penal privada subsidiária da pública nos casos em que o Ministério Público determinar o 
arquivamento das investigações preliminares (BRASIL, 2021). 
Mesmo que a legitimidade ativa para a propositura da ação penal privada seja do ofendido, é 
necessário que a peça inaugural do procedimento, queixa-crime, seja assinada por advogado 
devidamente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), não podendo o ofendido, sozinho, 
iniciar a ação penal (BRASIL, 2020). 
Por força de interpretação extensiva, o companheiro possui a mesma legitimidade que o cônjuge 
para a propositura da ação penal privada e para a representação (BRASIL, 2019). 
A ação penal nos crimes contra a honra do funcionário público no exercício da função é de 
legitimidade concorrente, sendo possível sua propositura tanto pelo ofendido quanto pelo Ministério 
Público, mediante representação, nos termos da Súmula nº 714 do Supremo Tribunal Federal 
(BRASIL, 2019). 
Em casos de lesão corporal leve e contravenção penal de vias de fato, se forem praticadas no 
âmbito de violência doméstica e familiar contra a mulher, a ação penal será pública incondicionada 
(BRASIL, 2022). 
No crime de lesão corporal leve cometido na condução de veículo automotor, previsto no art. 291, 
§1º, I, do CTB, a ação penal será de natureza pública incondicionada (BRASIL, 2019). 
A regras referentes à ação penal são de natureza processual híbrida, revelando caráter de direito 
material. Dessa forma, modificação legislativa mais benéfica ao réu no sentido de alterar a espécie 
de ação, por se relacionar com a possiblidade de extinção da punibilidade, deve retroagir para 
beneficiar o acusado. A partir de tal entendimento, o Superior Tribunal de Justiça, tendo em vista as 
modificações promovidas pela Lei nº 13.964/2019 em relação à ação penal no crime de estelionato, 
firmou posicionamento no sentido de que a retroatividade não atinge processos que tenham a 
denúncia recebida (BRASIL, 2021). 
Em que pese o princípio da indivisibilidade, a denúncia que não inclui todos os acusados não leva à 
extinção da punibilidade dos demais agentes, uma vez que o Ministério Público pode, até a prolação 
da sentença, requerer o aditamento da denúncia para incluir novos fatos ou novos acusados 
(BRASIL, 2021). 
O Superior Tribunal de Justiça determinou que a indivisibilidade da ação penal produz efeitos na 
ação penal de iniciativa privada; o perdão ou a renúncia em relação a um dos acusados implica a 
extinção de punibilidade em relação aos demais (BRASIL, 2020). 
O princípio da obrigatoriedade da ação penal pode ser mitigado em razão da possibilidade de 
oferecimento de acordo de não persecução penal (BRASIL, 2021). 
Nos crimes que se processam mediante ação penal pública condicionada à representação sujeitos ao 
rito especial da Lei nº 11.343/2006, a retratação da representação só será admitida se for realizada 
em audiência para essa finalidade (BRASIL, 2021). 
 
Saiba mais 
Para um aprofundamento do que foi exposto nesta aula, é importante a leitura do capítulo XXXIV, 
item 5, do livro Manual de Direito Penal, de Guilherme de Souza Nucci (2022), que retrata a ação 
penal no crime complexo. 
Aula 2 
FORMAS DE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE PELO DECURSO DO TEMPO 
Nesta aula, continuaremos com o estudo da ação penal e das causas de extinção da punibilidade, 
especificamente em relação às espécies de extinção da punibilidade em razão do decurso do tempo. 
Inicialmente conceituaremos decadência, perempção e prescrição penal. 
 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Nesta aula, continuaremos com o estudo da ação penal e das causas de extinção da punibilidade, 
especificamente em relação às espécies de extinção da punibilidade em razão do decurso do tempo. 
Inicialmente conceituaremosAlém disso, devem ser cumpridos os requisitos de caráter subjetivo, nos termos do § 1º do artigo 
112 da Lei de Execução Penal (BRASIL, 1984b), que determina que em todos os casos o apenado 
somente terá direito à progressão de regime se demonstrar boa conduta carcerária, comprovada pelo 
diretor do estabelecimento, respeitadas as normas que vedam a progressão. 
PENAS ALTERNATIVAS 
Recentemente, um fenômeno legislativo que se verifica é a ampliação do campo de atuação do 
Direito Penal, com a incriminação de diversas de condutas, sem que se observem de uma forma 
criteriosa os efeitos e as consequências da imposição da atuação do Direito Penal ou a consequência 
da aplicação da pena aos autores de determinadas condutas. 
Nesse ponto, é pertinente uma consideração a respeito da efetividade do Direito Penal e da pena no 
contexto das penas alternativas: 
 
O que causa para a sociedade o descrédito e o desvalor do Direito Penal e da 
atuação estatal na repressão aos delitos, não é tão somente a brandura ou a 
severidade das penas, mas a sensação de desproporcionalidade em situações 
análogas e o sentimento de impunidade às afrontas aos bens que são 
socialmente valiosos 
(ROSA, 2013, [s. p.]). 
A palavra “alternativa”, no vernáculo, significa sucessão de coisas reciprocamente exclusivas que se 
repetem com alternância. A alternativa, aqui ligada à noção de pena, demonstra que o instituto 
objetiva buscar alternativas à privação de liberdade, procurando caminhos diversos à clássica 
utilização do cárcere como medida principal na repressão aos ilícitos penais. 
Podemos verificar que as linhas principais que guiam o estabelecimento e a aplicabilidade das penas 
alternativas são o caráter educativo da medida penal, privilegiando a manutenção do convívio do 
agente com seu meio social. 
Na legislação, encontramos na exposição de motivos da Lei nº 7.209 (BRASIL, 1984a) o item 27, 
que indica os inconvenientes da manutenção da pena privativa de liberdade como principal meio de 
coerção: 
 
O tipo de tratamento penal freqüentemente inadequado e quase sempre 
pernicioso, a inutilidade dos métodos até agora empregados no tratamento de 
delinqüentes habituais e multi-reincidentes; os elevados custos na construção 
e manutenção dos estabelecimentos penais; as consequências maléficas para 
os infratores primários, ocasionais ou responsáveis por delitos de pequena 
significação, sujeitos, na intimidade do cárcere, a sevícias, corrupção e perda 
paulatina da aptidão para o trabalho. 
Como se vê, mesmo antes de nossa atual Constituição, na reforma do Código Penal, já se 
denunciava a defasagem do modelo clássico de aplicação da pena, apontando a necessidade da 
busca de alternativas à aplicação da pena visando a uma humanização e a melhores resultados da 
aplicação da lei penal. 
Seguindo essa tendência de humanização e buscando a efetividade das penas, o legislador 
constituinte também introduziu as prestações sociais alternativas e a suspensão e a interdição de 
direitos como possibilidades jurídicas de sanções penais. 
A Lei nº 9.099 (BRASIL, 1995), que dispôs sobre os Juizados Especiais Criminais, estabeleceu 
ainda o conceito de infração penal de menor potencial ofensivo, caracterizando os delitos com pena 
máxima em abstrato não superior a dois anos e todas as contravenções penais. 
O diploma previu a possibilidade de não se proceder à prisão do autor do fato, quando surpreendido 
em situação flagrancial, quando este se comprometer a comparecer em juízo, elaborando-se então o 
termo circunstanciado, o que por si só já representa uma alternativa legislativa à privação de 
liberdade, ao menos na fase inicial da persecução penal. 
Também previu a opção da transação penal, em que o titular da ação penal, verificando o 
preenchimento dos requisitos, pode oferecer ao réu a possibilidade de prestar serviços sociais 
alternativos, extinguindo-se assim o processo penal. 
Em que pese não representar reconhecimento de culpa, a prestação social substitui a eventual pena 
que seria imposta no caso de condenação penal. 
Saiba mais 
O estudo da teoria das penas é um assunto bastante complexo e ao mesmo tempo desafiador, 
permitindo ao estudante aprofundar o conhecimento sobre o direito penal. Convido você à leitura da 
obra de André Estefam (2022, p. 450–486). 
 
 
Aula 2 
PENAS RESTRITIVAS DE DIREITO E SEUS EFEITOS 
Discutir a teoria das penas é pensar, em última análise, nas funções que o Direito Penal pretende 
cumprir na sociedade, tendo em vista que as finalidades impressas nas penas acabam por surtir os 
efeitos sociais da aplicação do Direito Penal. 
 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! Seja bem vindo a aula de Penas restritivas de direito e seus efeitos! 
Discutir a teoria das penas é pensar, em última análise, nas funções que o Direito Penal pretende 
 
cumprir na sociedade, tendo em vista que as finalidades impressas nas penas acabam por surtir os 
efeitos sociais da aplicação do Direito Penal. 
Seguindo a orientação da Constituição Federal (BRASIL, 1988) e dando continuidade ao 
movimento iniciado anos antes, no sentido de ampliar o caráter ressocializador das penas, a adoção 
de sanções restritivas de direito surge como uma mudança no paradigma vigente, que vincula a pena 
à ideia de prisão. 
Nesta aula, trataremos das penas restritivas de direito e das respectivas características, modalidades, 
funções e modo de cumprimento. 
Um estudo complexo demanda constância na dedicação para alcançar os objetivos. 
PENA RESTRITIVA 
Ao tratarem do conceito de Direito Penal, Gomes e Molina (2009) indicam duas óticas: do ponto de 
vista dinâmico ou social, representa o conjunto de instrumentos formais de controle social à 
disposição do Estado que, com base em um sistema normativo, castiga com sanções de particular 
gravidade aquelas condutas nocivas à convivência social, pretendendo assim uma vida harmônica 
entre os membros da sociedade; e, de um ponto de vista estático, formal, é “o conjunto de normas 
que definem certas condutas como infração, associando-lhes penas ou medidas de segurança” 
(GOMES; MOLINA, 2009, p. 24). 
Por seu turno, Jorge de Figueiredo Dias (2007, p. 3) conceitua o Direito Penal como “o conjunto de 
normas jurídicas que ligam a certos comportamentos humanos, os crimes, determinadas 
consequências jurídicas privativas deste ramo de direito”, destacando que “A mais importante 
destas consequências — tanto do ponto de vista quantitativo, como qualitativo (social) — é a pena”. 
Como podemos notar, o conceito parte de duas ideias básicas: a tipificação daquelas condutas 
socialmente indesejáveis e a consequência jurídica, que é a imposição de penas. A essas são então 
agregadas a noção de necessidade de limitação do poder punitivo do Estado, bem como a noção de 
que o Direito Penal, de fato, de um ponto de vista social, representa uma forma de controle das 
condutas dos indivíduos, visando coibir aquelas indesejáveis no contexto da sociedade. 
Na linha de raciocínio adotada pelo Código Penal (BRASIL, 1940), a pena teria uma função mista, 
haja vista que, de forma abstrata, apresenta um papel preventivo geral, inibindo a prática de crimes 
pelo receio de ter sobre si as normas penais incriminadoras e suas consequências. 
De igual sorte, uma vez cometida a conduta ilícita, a pena terá o caráter retributivo — mas não na 
noção de vingança ou castigo. A pena será aplicada não por conta da lesão ao bem material atingido, 
mas como consequência da lesão ao bem jurídico e do descumprimento da norma penal. Daí a 
noção da proporcionalidade da pena do ponto de vista jurídico — proporcional à culpabilidade —, e 
não material; caso contrário, estaríamos diante de um novo talião. 
Igualmente, a pena ainda terá um caráter preventivo específico, pretendendo, por sua força, evitar 
que aquele indivíduo que incorreu na conduta criminosa volte a delinquir. 
E, indo além, nossa legislação agrega a tais noções o caráterdecadência, perempção e prescrição penal. Em seguida, nosso estudo 
se voltará para as modalidades de prescrição admitidas no ordenamento jurídico-penal brasileiro. 
Faremos a interpretação das modalidades de prescrição, de modo a relacionar os conceitos 
apresentados com as especificidades de cada uma delas. Por fim, observaremos a aplicação do 
instituto em casos reais, com a explanação do entendimento jurisprudencial dos tribunais superiores 
sobre o tema, de modo a compreender as repercussões práticas da aplicação do que foi apresentado. 
Vamos começar? 
CONHECENDO DECADÊNCIA, PEREMPÇÃO E PRESCRIÇÃO 
Estudaremos nesta aula as formas de extinção da punibilidade do agente relacionadas com o 
decurso do tempo, a qual pode ocorrer por meio de decadência, perempção e prescrição. 
A decadência é a perda do direito de ação em razão da inércia de seu titular para oferecer a queixa 
 
ou a representação no prazo legal. Ocorre antes do início da ação penal. 
O prazo decadencial é de seis meses contados a partir do dia em que o ofendido veio a saber quem é 
o autor do crime, no caso de ação penal pública condicionada ou ação penal exclusivamente 
privada, ou do dia em que se esgota o prazo para oferecimento da denúncia, no caso de ação penal 
privada subsidiária da pública, ou de outro termo previsto em lei, a exemplo do art. 236, 
Parágrafo Único, do Código Penal (BITENCOURT, 2021). 
O prazo corre até o oferecimento da queixa ou da representação, e não até seu recebimento. É fatal e 
improrrogável e não está sujeito a causas interruptivas ou suspensivas. 
Por sua vez, a perempção é a perda do direito de prosseguir na ação penal privada em razão da 
desídia do querelante, provocando a extinção da punibilidade do querelado. Ocorre após a 
propositura da queixa. As causas de perempção (Figura 1) estão previstas no art. 60 do Código de 
Processo Penal (BRASIL, 1941). 
Figura 1 | Causas da perempção 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
Prescrição é a perda, em razão do decurso do tempo, do direito do Estado de punir (pretensão 
punitiva) ou de executar a punição já imposta (pretensão executória). Ou seja, são duas espécies de 
prescrição. 
A prescrição da pretensão punitiva atinge o direito do Estado de aplicar uma sanção penal e pode 
ser calculada com base na pena máxima prevista em abstrato para o delito ou com base na pena 
aplicada na sentença, com trânsito em julgado apenas para a acusação. Já a pretensão executória 
leva em conta a pena fixada na sentença penal condenatória com trânsito em julgado para acusação 
e defesa (PACELLI, 2020). 
A prescrição da pretensão punitiva pode ocorrer por meio de três espécies: pretensão punitiva em 
abstrato, superveniente e retroativa. 
A prescrição da pretensão punitiva em abstrato é modalidade de prescrição da pretensão punitiva 
calculada com base na pena máxima em abstrato prevista para a infração penal, uma vez que ainda 
não há conhecimento da pena em concreto. 
O prazo prescricional (Quadro 1) varia de acordo com a duração da pena prevista para o crime, nos 
termos do art. 109 do CP (BRASIL, 1940). 
Quadro 1 | Prazo prescricional 
PENA EM CONCRETO NA SENTENÇA OU 
ACÓRDÃO CONDENATÓRIO 
RECORRÍVEL 
PRAZO PRESCRICIONAL 
INFERIOR A 1 ANO* 3 ANOS 
IGUAL OU SUPERIOR A 1 ANO ATÉ 2 ANOS 4 ANOS 
SUPERIOR A 2 ANOS ATÉ 4 ANOS 8 ANOS 
SUPERIOR A 4 ANOS ATÉ 8 ANOS 12 ANOS 
SUPERIOR A 8 ANOS ATÉ 12 ANOS 16 ANOS 
SUPERIOR A 12 ANOS 20 ANOS 
*Até o início de vigência da Lei nº 12.234 (BRASIL, 2010), o prazo prescricional para os 
crimes com pena inferior a 1 anos era de 2 anos. 
Fonte: elaborado pelo autor. 
O termo inicial da prescrição da pretensão punitiva em abstrato está previsto no art. 111 do CP 
(Figura 2). 
Figura 2 | Marco inicial da prescrição da pretensão punitiva em abstrato 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
É possível a interrupção do prazo prescricional, hipótese em que haverá o reinício da contagem do 
zero. As causas interruptivas estão previstas no art. 117 do Código Penal (BRASIL, 1940). A 
interrupção ocorre com o recebimento de denúncia ou queixa; decisão de pronúncia; decisão 
confirmatória da pronúncia; e publicação de sentença condenatória ou acórdão condenatório 
recorrível (Figura 3). 
Figura 3 | Requisitos para a interrupção do prazo prescricional 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
É possível ainda que o prazo prescricional seja suspenso ou impedido, hipótese em que a contagem 
fica paralisada e se reinicia do momento em que se suspendeu, ou é impedida de ser iniciada. 
Não se contará o prazo enquanto não for resolvida em outro processo questão de que dependa o 
reconhecimento da existência do crime; enquanto o agente cumpre pena no exterior; durante o 
período de Suspensão Condicional do Processo (Suspro) e de suspensão do processo do acusado 
citado por edital; na pendência de embargos de declaração ou recursos aos tribunais superiores, 
quando inadmissíveis; e enquanto não for cumprido ou rescindido o Acordo de Não Persecução 
Penal (ANPP), como resume a Figura 4. 
Figura 4 | Causas impeditivas/suspensivas da contagem do prazo prescricional 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
Os prazos prescricionais serão reduzidos pela metade no caso de o acusado ser, ao tempo do crime, 
menor de 21 anos, ou, na data da sentença, maior de 70 anos (NUCCI, 2022). 
APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE AS MODALIDADES DE 
PRESCRIÇÃO 
Além da prescrição da pretensão da punitiva em abstrato, existem outras duas espécies de 
prescrição da pretensão punitiva: a superveniente e a retroativa. 
A prescrição da pretensão punitiva superveniente é modalidade de prescrição da pretensão punitiva, 
regulada pela pena concreta, que se opera entre a publicação de sentença condenatória, ou acórdão 
condenatório recorrível, e seu trânsito em julgado para ambas as partes. 
É subsequente à sentença condenatória ou acórdão condenatório recorrível. Para a ocorrência da 
prescrição da pretensão superveniente, são necessários dois requisitos; caso eles não estejam 
presentes, somente é possível falar em prescrição da pretensão punitiva em abstrato. É necessário 
que haja sentença ou acórdão condenatório recorrível, pois, sem eles, não há pena em concreto e 
trânsito em julgado para a acusação no tocante à pena imposta. 
Os prazos prescricionais são os mesmos previstos no art. 109 do Código Penal (BRASIL, 1940), e o 
marco inicial é a publicação de sentença ou acórdão condenatório recorrível, desde que haja trânsito 
em julgado para a acusação em relação à pena imposta (Figura 5). 
Uma vez verificado o trânsito em julgado de sentença ou acórdão condenatório para a acusação 
quanto à pena imposta, o marco inicial retroage para a data da publicação da condenação (PRADO, 
2021). 
Figura 5 | Prescrição da pretensão punitiva superveniente 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
A prescrição da pretensão punitiva retroativa é modalidade de prescrição da pretensão punitiva, 
regulada pela pena concreta, que se opera entre a publicação da sentença condenatória recorrível e o 
último marco interruptivo antes do trânsito em julgado para a acusação, ou, em caso de sentença 
absolutória, sobrevindo recurso da acusação, se opera entre o acórdão condenatório e momentos 
anteriores. 
Está regulada no art. 110, § 1º, do CP (BRASIL, 1940) e exige os mesmos requisitos que a 
prescrição da pretensão punitiva superveniente, assim como o marco inicial e os prazos (Figura 6). 
A Lei nº 12.234 (BRASIL, 2010) modificou o art. 110, § 1º, do CP, prevendo ser impossível a 
prescrição retroativa entre a data do fato e o recebimento da denúncia. Como se trata de uma lei 
prejudicial ao réu, não retroage para fatos anteriores à sua vigência. 
Figura 6 | Prescrição da pretensão punitiva retroativa 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
A prescrição ainda se relaciona com a pretensão executória, que consiste na perda do direito de 
executar uma pena já imposta em razão do decurso do tempo. É calculada com base na pena 
concreta,ou seja, aquela fixada em sentença ou acórdão condenatório com trânsito em julgado para 
ambas as partes (NUCCI, 2022). 
Os prazos serão os mesmos do art. 109 do Código Penal e serão aumentados em 1/3 se o acusado 
for reincidente. 
No caso de o réu se evadir ou de revogação do livramento condicional, a prescrição é regulada pelo 
tempo que resta da pena, nos termos do art. 113 do CP. 
O termo inicial da contagem do prazo está previsto no art. 112 do Código Penal e inicia-se no dia 
em que transita em julgado a sentença condenatória para a acusação; no dia em que transita em 
julgado a decisão que revoga a suspensão condicional da pena ou o livramento condicional; ou no 
dia em que se interrompe a execução, salvo quando o tempo da interrupção deva computar-se na 
pena (BRASIL, 1940). 
As causas interruptivas estão previstas no art. 117 do Código Penal, suspendendo o prazo pelo 
início ou continuação do cumprimento da pena e pela reincidência (BRASIL, 1940). 
Quadro 2 | Prescrição da pretensão executória 
REQUISITO Trânsito em julgado da sentença condenatória para ambas as partes. 
PRAZO Art. 109, CP, aumentado em 1/3 se reincidente. 
INÍCIO DA 
CONTAGEM 
Dia em que transita em julgado a sentença condenatória; dia em que 
transita em julgado a decisão que revoga a suspensão condicional da pena 
ou o livramento condicional; dia em que se interrompe a execução, salvo 
quando o tempo da interrupção deva computar-se na pena. 
CAUSAS 
INTERRUPTIVAS 
Início ou continuação do cumprimento da pena e reincidência. 
Fonte: elaborado pelo autor. 
REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE A APLICAÇÃO DAS FORMAS DE 
EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE EM RAZÃO DO DECURSO DO TEMPO 
O Superior Tribunal de Justiça entende que só será possível a análise da prescrição da pretensão 
executória após o trânsito em julgado para acusação e defesa (BRASIL, 2022). 
O acórdão confirmatório da sentença penal condenatória — mantendo, reduzindo ou majorando a 
pena imposta — é marco interruptivo da prescrição da pretensão punitiva, visto que demonstra a 
efetiva prestação jurisdicional do Estado, não se aplicando à prescrição da pretensão executória 
(BRASIL, 2020a). 
A Súmula nº 438 do STJ não admite a espécie de prescrição virtual ou hipotética (BRASIL, 2010). 
Já a Súmula nº 497 do Supremo Tribunal Federal determina que, no caso de crime continuado, a 
pena a ser levada em consideração é a imposta na sentença sem os acréscimos legais decorrentes da 
continuação delitiva (BRASIL, 1969). 
Como os crimes contra a ordem tributária — previstos no art. 1º, I a IV, da Lei nº 8.137/1990 — se 
consumam com o lançamento definitivo do tributo, inicia-se nesse momento a contagem do prazo 
prescricional, mas ela é suspensa no período de parcelamento (BRASIL, 2022). 
No entendimento do STJ em relação aos crimes de estelionato previdenciário e nomeação, admissão 
ou designação de servidor contra expressa previsão legal, o início da contagem do prazo 
prescricional é diferente para o beneficiário e para o intermediário. Para o intermediário, o delito é 
considerado instantâneo, e a prescrição é contada a partir do recebimento da primeira prestação 
indevida; em relação ao beneficiário, o crime é permanente, sendo o termo inicial da prescrição a 
data de cessação de recebimento das prestações indevidas (BRASIL, 2021b). 
Aos fatos cometidos antes da vigência da Lei nº 12.234/2010, a prescrição da pretensão punitiva 
pode retroagir à data anterior ao recebimento da denúncia ou queixa (BRASIL, 2021a). Ainda, o 
reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva, retroativa ou superveniente anula os efeitos 
penais e extrapenais da condenação (BRASIL, 2021a). 
O reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva apaga todos os efeitos da condenação, 
inclusive os secundários de perda do cargo público (BRASIL, 2020b) e da condenação de 
perdimento de bens e valores (BRASIL, 2017). 
O reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva extingue tanto os efeitos primários como os 
secundários da condenação, que não poderá ser considerada como pressuposto para reincidência ou 
maus antecedentes (BRASIL, 2019b). 
No caso de reincidência, para fins de interrupção do prazo da prescrição da pretensão executória 
leva-se em consideração a data em que o novo crime foi praticado, e não a do trânsito em julgado da 
condenação (BRASIL, 2022a). 
A condenação definitiva é necessária para o reconhecimento da reincidência, porém a interrupção 
do prazo retroage à data em que a nova infração foi praticada (BRASIL, 2022b). 
A prescrição da pretensão executória não afasta os efeitos secundários da condenação, sendo a 
utilização desta como maus antecedentes ou reincidência (BRASIL, 2019a). 
O recebimento da denúncia por juízo relativamente incompetente é apto a interromper o prazo 
prescricional, o que não ocorre quando for o caso de incompetência absoluta (BRASIL, 2014). 
É possível a reconsideração da representação, desde que aconteça antes do oferecimento da 
denúncia. É possível ainda, desde que dentro do prazo decadencial, que haja a retratação da 
reconsideração (BRASIL, 2013). 
No caso de ação penal privada subsidiária da pública, a inércia do querelante não causa perempção, 
mas a retomada da titularidade da ação penal pelo MP (BRASIL, 2011). 
 
Saiba mais 
Para um aprofundamento do que foi exposto nesta aula, é importante a leitura do capítulo XLIII, 
item 10, do livro Tratado de Direito Penal 1 – Parte Geral, de Cezar Roberto Bitencourt, o qual 
trata da prescrição da pena de multa. 
Aula 3 
EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE 
Nesta aula, continuaremos com o estudo da ação penal e das causas de extinção da punibilidade, 
especificamente em relação às demais espécies de extinção da punibilidade. Inicialmente 
conceituaremos anistia, graça, indulto, renúncia e abolitio criminis. 
 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Nesta aula, continuaremos com o estudo da ação penal e das causas de extinção da punibilidade, 
especificamente em relação às demais espécies de extinção da punibilidade. Inicialmente 
conceituaremos anistia, graça, indulto, renúncia e abolitio criminis. Após, passaremos para as 
especificidades e características de cada uma das referidas formas de extinção da punibilidade. 
Faremos a interpretação de cada uma delas, de modo a relacionar os conceitos apresentados com 
suas especificidades. Por fim, nosso estudo se voltará para a aplicação do instituto em casos reais, 
com a explanação do entendimento jurisprudencial dos tribunais superiores sobre o tema, de modo a 
compreender as repercussões práticas da aplicação do que foi apresentado. 
Vamos começar? 
CONHECENDO ANISTIA, GRAÇA, INDULTO, RENÚNCIA E ABOLITIO 
CRIMINIS 
Além do decurso do tempo, outras causas podem ensejar a extinção da punibilidade, como anistia, 
graça, indulto, renúncia e abolitio criminis. 
A anistia está prevista no art. 107, II do Código Penal (BRASIL, 1940) e consiste na extinção da 
punibilidade concedida por meio de lei editada pelo Congresso Nacional e promulgada pelo 
Presidente da República, na qual se esquece um fato criminoso. Funciona como uma espécie de 
renúncia do Estado ao exercício do direito de punir, em razão de clemência, política criminal ou 
social. A anistia se relaciona com fatos, e não com pessoas. 
Já a graça e o indulto como causas extintivas da punibilidade estão previstos no art. 107, II do 
Código Penal. Ambos são institutos semelhantes e concedidos pelo presidente da república, por 
 
meio de decreto presidencial, nos termos do art. 84, XII, da Constituição (BRASIL, 1988). 
Contudo, é possível que a competência para a graça e o indulto seja delegada aos ministros de 
Estado, ao procurador-geral da república ou ao advogado-geral da União (PRADO, 2021). 
A graça é voltada à pessoa determinada e depende de provocação, enquanto o indulto é voltado a 
pessoas indeterminadas e independe de provocação. 
Na prática, é recorrente a concessão de indulto, o que não se verifica coma graça (NUCCI, 2022). 
A Constituição (BRASIL, 1988) prevê que a prática de tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e 
afins, o terrorismo e os crimes hediondos são insuscetíveis de graça ou anistia. Isso é corroborado 
pela Lei de Tortura (BRASIL, 1997), que estabelece que o crime de tortura é insuscetível de graça 
ou anistia. Já a Lei dos Crimes Hediondos (BRASIL, 1990) determina que os crimes hediondos e 
equiparados são insuscetíveis de graça, indulto ou anistia. 
Embora o termo indulto esteja presente apenas na Lei dos Crimes Hediondos, entende-se que os 
demais também se enquadram no exposto, uma vez que o indulto é uma espécie de graça 
(ESTEFAM, 2021). 
A renúncia ao direito de queixa está prevista no art. 107, V, primeira parte do Código Penal 
(BRASIL, 1940) e é um ato unilateral pelo qual o titular do direito de queixa, na ação penal privada, 
abre mão do direito de exercê-la. Trata-se de um ato de natureza pré-processual que ocorre antes do 
oferecimento da queixa e é unilateral, pois produz efeito independentemente de aceitação. 
Embora se relacione com a ação pena de iniciativa privada, é possível que ela ocorra nos crimes que 
se processam mediante ação penal pública condicionada à representação, desde que constitua 
infração penal de menor potencial ofensivo sujeita ao rito do juízo especial criminal, visto que a 
homologação da composição civil dos danos gera a renúncia ao direito de queixa e representação 
(BITENCOURT, 2021). 
A abolitio criminis é a revogação de lei penal incriminadora; afasta a própria tipicidade da conduta. 
Por ser benéfica, retroage a fatos anteriores à sua vigência e apaga todos os efeitos penais da 
condenação, permanecendo apenas os efeitos civis (PRADO, 2021). A Figura 1 resume as formas 
de extinção da punibilidade. 
Figura 1 | Formas de extinção da punibilidade 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE ANISTIA, GRAÇA, INDULTO E 
RENÚNCIA 
A anistia produz efeitos retroativos, extinguindo todos os efeitos penais, principais e secundários da 
condenação; persistem apenas os efeitos extrapenais. Portanto, o agente cuja punibilidade foi extinta 
por ela não será considerado reincidente ou portador de maus antecedentes; contudo, os efeitos 
extrapenais gerais e específicos permanecerão. 
A anistia pode ser própria, quando concedida antes da sentença condenatória transitada em julgado, 
ou imprópria, quando concedida após. A anistia não pressupõe condenação e pode ser concedida 
antes dela. Além disso, pode ser incondicionada, quando não traz qualquer condição a ser aceita 
pelo beneficiado, o que impede de ser recusada; condicionada, hipótese em que possui condições a 
serem aceitas, tornando-a recusável; total, quando abrange o fato em termos gerais; ou parcial, 
quando excepciona determinados crimes (PACELLI, 2020). 
Uma vez concedida, não poderá nova lei impedir seus efeitos de extinção da punibilidade, sob pena 
de violar o princípio da irretroatividade, haja vista que a nova lei seria mais prejudicial ao agente 
(Quadro 1). 
Quadro 1 | Anistia 
MOMENTO DE 
CONCESSÃO 
Antes ou depois da sentença penal condenatória. 
ESPÉCIES 
Própria, antes da sentença transitada em julgado, ou imprópria, após; 
condicionada, que pode ser recusada, e incondicionada, que não pode 
ser recusada; parcial ou total. 
EFEITOS 
Extingue todos os efeitos penais, principais e secundários da 
condenação, persistindo apenas os efeitos extrapenais. 
INSTRUMENTO 
LEGAL 
Lei editada pelo Congresso Nacional e promulgada pelo presidente da 
república. 
OBJETO A anistia se relaciona a fatos, e não a pessoas. 
Fonte: elaborado pelo autor. 
A graça e o indulto pressupõem a necessidade do trânsito em julgado da sentença penal 
condenatória, atingindo apenas o efeito principal da condenação — a imposição de uma sanção 
penal —, persistindo os demais efeitos penais secundários e extrapenais gerais e específicos. 
A graça e o indulto podem ser totais, quando extinguem integralmente a pena, ou parciais, quando 
reduzem a pena ou a substituem por outra menos branda, hipótese chamada de comutação. Ainda, 
podem ser incondicionados, quando não exigem qualquer condição a ser aceita pelo beneficiário — 
sendo, portanto, irrecusável —, ou condicionados, quando estabelecem condições a serem 
cumpridas pelo beneficiário, então podem ser recusados (NUCCI, 2022). Os Quadros 2 e 3 
apresentam resumos desses conceitos. 
Quadro 2 | Graça e indulto 
MOMENTO DE 
CONCESSÃO 
Somente depois da sentença penal condenatória. 
ESPÉCIES 
Total, quando extingue integralmente a pena, ou parcial, quando a reduz 
ou a substitui por outra menos branda, também chamado de comutação; 
incondicionado, portanto irrecusável, e condicionado, que podem ser 
recusados. 
EFEITOS 
Atinge apenas o efeito principal da condenação (sanção penal), 
persistindo os demais efeitos penais secundários e extrapenais gerais e 
específicos. 
INSTRUMENTO 
LEGAL 
Decreto presidencial. 
OBJETO 
Indivíduos. A graça é voltada à pessoa determinada e depende de 
provocação, ao contrário do indulto. 
 
Fonte: elaborado pelo autor. 
Quadro 3 | Anistia vs. graça e indulto 
ANISTIA GRAÇA E INDULTO 
Concedida por lei. Concedidos por decreto presidencial. 
Pode ser concedida antes ou depois do trânsito 
em julgado. 
Concedidos apenas após o trânsito em julgado. 
Extingue todos os efeitos penais. Extinguem somente a pena. 
Fonte: elaborado pelo autor. 
Em relação à renúncia ao direito de queixa (Quadro 4), na ação penal privada propriamente dita e na 
personalíssima, é causa extintiva da punibilidade. Já na ação penal privada subsidiária da pública, 
não ocorre a extinção da punibilidade, desde que não tenha se dado a prescrição. 
A renúncia pode ser expressa, quando há uma declaração assinada pelo ofendido ou por seu 
representante legal ou procurador com poderes especiais; ou tácita, quando ocorre com a prática de 
ato incompatível com a vontade de processar o agente (ESTEFAM, 2021). 
A aceitação de indenização civil não implica renúncia ao direito de queixa ou representação, salvo 
em contexto de composição civil dos danos, nos crimes de competência do Juizado Especial 
Criminal. 
No caso de concurso de pessoas, se a vítima renunciar ao direito de queixa em relação a um dos 
agentes, haverá a extinção da punibilidade quanto aos demais, por força do princípio da 
indivisibilidade da ação penal privada. 
Quadro 4 | Renúncia 
Momento Ocorre antes do oferecimento da queixa. 
Unilateral É unilateral, uma vez que produz efeito independentemente de aceitação. 
Objeto 
Relaciona-se com ação penal privada, porém é possível que ocorra nos crimes 
de ação penal pública condicionada à representação, quando houver 
composição civil dos danos no Juizado Especial Criminal (JECRIM). 
Espécie 
Expressa, quando há declaração assinada pelo ofendido ou sucessores legais; 
ou tácita, com a prática de ato incompatível com a vontade de processar o 
agente. 
Indivisibilidade 
No caso de concurso de pessoas, se a vítima renunciar ao direito de queixa em 
relação a um dos agentes, haverá a extinção da punibilidade quanto aos 
demais, por força do princípio da indivisibilidade da ação penal privada. 
 
Fonte: elaborado pelo autor. 
REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE ANISTIA, GRAÇA, INDULTO, 
RENÚNCIA E ABOLITIO CRIMINIS 
No exame do pedido de indulto, o juiz deve se limitar à análise objetiva dos requisitos exigidos pelo 
decreto que o regulamenta, devendo a interpretação ser literal, sem margem para discricionariedade 
(BRASIL, 2022). 
A prática de falta grave ou crime durante a execução penal não produz efeitos em relação ao indulto 
(BRASIL, 2022a). 
A Lei nº 10.826/2003 criou uma hipótese de abolitio criminis temporária, referente ao crime de 
posse de arma de fogo de uso permitido com numeração, marca ou qualquer outro sinal de 
identificação raspado, suprimido ou adulterado, praticado até 23 de outubro de 2005 (BRASIL,2021). 
A infração penal de porte de drogas para uso pessoal não foi objeto de abolitio criminis, tendo 
havido apenas e tão somente a despenalização. Entretanto, o entendimento do Superior Tribunal de 
Justiça é no sentido de que tal infração não é apta a gerar pressuposto para reincidência ou qualquer 
outro efeito extrapenal da condenação (BRASIL, 2020b). 
Em relação à infração penal prevista no art. 125, XIII, da Lei nº 6.815/1980, que foi revogada pela 
Lei nº 13.445/2017, não houve abolitio criminis, tendo em vista que a conduta continua sendo 
punida no art. 299 do Código Penal, havendo, portanto, ocorrência do princípio da continuidade 
normativa (BRASIL, 2020b). 
Embora tenha havido a revogação da contravenção de perturbação da tranquilidade, prevista no art. 
65 da Lei de Contravenções Penais, não há que se falar em abolitio criminis em relação a todos os 
fatos que estavam enquadrados na referida infração penal, uma vez que a conduta se encontra 
punida na parte final do art. 147-A do Código Penal (BRASIL, 2022b). 
A extinção da punibilidade pelo indulto afasta apenas os efeitos primários da condenação, 
permanecendo, portanto, os efeitos secundários e extrapenais da condenação (BRASIL, 2021d). 
Ainda que não haja previsão de vedação à concessão do indulto no decreto presidencial que o 
concede, por força do art. 44 da Lei nº 11.343/2006 é vedada sua concessão para o crime de 
associação para o tráfico (BRASIL, 2021a). 
É possível que o indulto produza efeitos de extinção de punibilidade referente à condenação à pena 
de multa aplicada de forma cumulativa à pena privativa de liberdade, desde que observados os 
requisitos exigidos (BRASIL, 2021b). 
O reconhecimento do tráfico privilegiado retira a hediondez do crime, o que permite a extinção da 
punibilidade pelo indulto (BRASIL, 2020a). 
As Leis nº 12.191/2010 e 12.505/2011 concederam anistia aos crimes militares de incitamento à 
desobediência, à indisciplina ou à prática de crime militar cometidos por policiais e bombeiros 
militares que participaram de greve e manifestações para melhorias de salário e condições de 
trabalho (BRASIL, 2016). 
É possível a concessão do indulto à pena de multa imposta de forma cumulativa à privativa de 
liberdade em razão da condenação pelo crime de tráfico de drogas, desde que a pena privativa de 
liberdade tenha sido cumprida de forma integral (BRASIL, 2016a). 
O juiz não pode restringir o alcance do indulto, visto que se trata de competência discricionária do 
presidente da república (BRASIL, 2016a). 
A não inclusão de todos os querelados na queixa-crime quando era possível fazê-lo implica renúncia 
tácita àqueles que não foram incluídos. Como a ação penal privada é indivisível, a renúncia 
direcionada a um é ampliada a todos e extingue a punibilidade para todos os agentes (BRASIL, 
2021c). 
Em regra, a renúncia se relaciona apenas com os crimes que se processam por ação penal privada. 
Excepcionalmente, no âmbito do Juizado Especial Criminal a composição civil dos danos, quando 
homologada, pode ensejar a renúncia em crimes que se processam por ação penal pública 
condicionada à representação (BRASIL, 2018). 
A renúncia não se relaciona com a ação penal pública, uma vez que, tendo o Ministério Público se 
omitido em relação a um acusado ou fato, é possível o aditamento até a sentença penal 
condenatória, não implicando renúncia tácita em relação aos fatos ou acusados ausentes (BRASIL, 
2016b). 
Só haverá renúncia tácita, extensível a todos os querelados, quando o querelante deixa de incluir na 
inicial um dos responsáveis pelo delito quando era possível (BRASIL, 2012). 
Saiba mais 
Para um aprofundamento do que foi exposto nesta aula, é importante a leitura do capítulo XLII, 
item 2.2.1, do livro Tratado de Direito Penal 1 – Parte Geral, de Cezar Roberto Bitencourt, que 
trata dos limites e da natureza jurídico-constitucional do indulto. 
 
 
Aula 4 
DEMAIS FORMAS DE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE DO AGENTE 
Nesta aula, daremos prosseguimento ao estudo da ação penal e das causas de extinção da 
punibilidade, especificamente em relação às demais espécies de extinção da punibilidade. 
Inicialmente, conceituaremos retratação, perdão judicial, perdão do ofendido e morte do agente. 
 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Nesta aula, daremos prosseguimento ao estudo da ação penal e das causas de extinção da 
punibilidade, especificamente em relação às demais espécies de extinção da punibilidade. 
Inicialmente, conceituaremos retratação, perdão judicial, perdão do ofendido e morte do agente. Em 
seguida, nosso estudo se voltará para as especificidades e características de cada uma das referidas 
formas de extinção da punibilidade. Faremos a interpretação de cada uma delas, de modo a 
relacionar os conceitos apresentados com suas especificidades. Por fim, passaremos para a 
aplicação do instituto em casos reais, com a explanação do entendimento jurisprudencial dos 
tribunais superiores sobre o tema, de modo a compreender as repercussões práticas da aplicação do 
que foi apresentado. 
Vamos começar? 
CONHECENDO RETRATAÇÃO, PERDÃO JUDICIAL, PERDÃO DO 
OFENDIDO E MORTE DO AGENTE 
Além das hipóteses estudadas na aula anterior, outras causas podem ensejar a extinção da 
punibilidade: a retração, o perdão judicial, o perdão do ofendido e a morte do agente. 
A morte do agente está prevista no art. 107, I do Código Penal (BRASIL, 1940) e se fundamenta 
como causa extintiva de punibilidade no princípio da personalidade da pena, previsto no art. 5º, 
XLV, da Constituição (BRASIL, 1988), o qual determina que a pena não passará da pessoa do 
condenado. 
É uma causa extintiva da punibilidade personalíssima que não se estende aos demais agentes no 
caso de concurso de pessoas, sendo, portanto, incomunicável que apaga todos os efeitos penais da 
sentença. Entretanto, permanecem os efeitos extrapenais, o que permite que a obrigação de reparar 
o dano e a decretação do perdimento de bens sejam estendidas aos sucessores até o limite da 
herança recebida (NUCCI, 2022). 
Já o perdão do ofendido é causa extintiva da punibilidade do agente prevista no art. 107, V do 
Código Penal (BRASIL, 1940) e consiste em ato bilateral pelo qual a vítima, no curso do processo, 
desculpa o agente pela prática do crime, desistindo de prosseguir com o andamento da ação penal, e 
ele aceita. 
O perdão do ofendido provoca a extinção da punibilidade nos crimes de ação penal privada 
propriamente dita e personalíssima e se fundamenta no princípio da disponibilidade da ação penal 
privada. O perdão pode ser oferecido em qualquer fase da ação penal, a partir de seu início até o 
trânsito em julgado da sentença penal condenatória, mas não pode ser aplicado na fase da execução 
da pena. É necessário, portanto, que haja uma ação penal em curso, visto que o contrário configura 
renúncia (BITENCOURT, 2021). 
A retratação do agente, por sua vez, está prevista no art. 107, VI do Código Penal e é causa extintiva 
da punibilidade na qual ele retira o que afirmou anteriormente, provocando, nos casos previstos em 
lei, a extinção da punibilidade. A retração não impede o ajuizamento de ação civil, visando à 
reparação dos danos. A retratação ocorrerá apenas nos casos em que for expressamente previsto em 
lei seu cabimento; não é passível de ser aplicada em toda e qualquer infração penal. 
Vale ressaltar que ela não se confunde com a confissão ou a negativa do fato, uma vez que deve ser 
de modo a retirar totalmente o que foi dito ou afirmado, devendo ser cabal, ou seja, atingir todo o 
conteúdo da afirmação ou fala (PRADO, 2021). Além disso, é um ato unilateral, então não se exige 
a aceitação da vítima. 
A retratação está prevista nos crimes de calúnia e difamação, bem como falso testemunho e falsa 
perícia. A previsão legal se encontra, respectivamente, nos art. 143 e 342, § 2º, do Código Penal 
(BRASIL, 1940). 
Enquanto isso, o perdão judicial é causa extintiva dapunibilidade prevista no art. 107, IX do 
Código Penal (BRASIL, 1940) e é o ato pelo qual o juiz, embora reconheça que o agente tenha 
praticado uma infração, deixa de aplicar a sanção penal correspondente ao ilícito praticado. 
Contudo, o perdão judicial pode ser concedido apenas nas hipóteses devidamente previstas em lei. 
O perdão judicial, como o próprio nome indica, deve ser concedido pelo juiz na sentença. É inviável 
a concessão em outro momento processual, uma vez que exige o reconhecimento de um fato típico, 
ilícito e culpável pelo agente. O perdão está previsto em diversos dispositivos ao longo do Código 
Penal e da Legislação Especial (PACELLI, 2020). 
A Figura 1 resume os dados referentes às causas de extinção da punibilidade abordadas nesta aula. 
Figura 1 | Causas de extinção da punibilidade 
 
Fonte: elaborada pelo autor. 
O perdão judicial se difere do perdão do ofendido, pois o último é concedido pela vítima, exige a 
aceitação expressa ou tácita é cabível apenas nos crimes sujeitos a ação penal de iniciativa privada 
(Quadro 1). 
Quadro 1 | Perdão judicial vs. perdão do ofendido 
PERDÃO JUDICIAL PERDÃO DO OFENDIDO 
Concedido pelo juiz. Concedido pela vítima. 
É unilateral e não exige aceitação. 
É bilateral e exige a aceitação expressa ou 
tácita. 
Cabível em qualquer ação penal, desde que haja 
previsão legal. 
Cabível apenas nos crimes sujeitos a ação penal 
de iniciativa privada. 
Concedido na sentença. 
Concedido do início da ação penal até o trânsito 
em julgado. 
É subjetivo. 
Se concedido a um dos réus, a todos se 
aproveita, porém extingue a punibilidade apenas 
em relação ao que aceitou. 
Fonte: elaborado pelo autor. 
APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE RETRATAÇÃO, PERDÃO 
JUDICIAL, PERDÃO DO OFENDIDO 
O perdão do ofendido é um ato bilateral, não produzindo seus efeitos se for recusado pelo 
querelado. É imprescindível que seja aceito de forma expressa ou tácita; o silêncio do querelado 
implica aceitação do perdão concedido. 
Tanto o perdão quanto a aceitação são incondicionados. Isso significa que não é permitido que o 
querelante estabeleça condições para conceder o perdão; e, de outro lado, o querelado não pode 
realizar exigências para aceitá-lo. Portanto, não é possível a imposição de condições para aceitação 
ou oferecimento (BITENCOURT, 2021). 
Pode ser oferecido em qualquer fase da ação penal, desde seu início até o trânsito em julgado da 
sentença penal condenatória, sendo, portanto, impossível de ser ofertado na fase da execução da 
pena. 
O perdão pode ocorrer de diferentes maneiras; será processual, quando concedido dentro do 
processo, ou extraprocessual, quando concedido fora dele, desde que haja processo em curso. Se 
ocorrer na forma processual, deverá se dar expressamente. Mas, se for no modo extraprocessual, é 
possível que aconteça nas formas expressa ou tácita; nesta última, por meio da prática de um ato 
incompatível com a vontade de processar o agente. 
A aceitação, por sua vez, tanto no perdão concedido dentro do processo quanto naquele concedido 
fora dele, pode ocorrer de forma expressa ou tácita (NUCCI, 2022). A aceitação tácita, na forma 
processual, decorre do silêncio do querelado no prazo de três dias após a intimação para informar se 
aceita ou não o perdão, hipótese em que haverá a presunção de aceitação do perdão ofertado pelo 
querelante. 
No caso de pluralidade de querelados, o perdão em relação a um dos agentes a todos se aproveita. 
Entretanto, haverá a extinção da punibilidade apenas em relação àquele ou àqueles que o aceitaram. 
No caso de pluralidade de querelantes, o perdão concedido por um dos querelantes ao querelado não 
se estende aos demais querelantes, uma vez que cada um possui um direito autônomo de ação. 
Por sua vez, a retratação está prevista nos crimes de calúnia e difamação, bem como falso 
testemunho e falsa perícia. A previsão legal se encontra, respectivamente, nos art. 143 e 342, § 2º do 
Código Penal. 
No crime de calúnia e difamação, deve ocorrer antes da sentença e ser feita pelo mesmo meio em 
que o querelado tiver praticado a calúnia ou difamação, mas o ofendido pode manifestar se deseja 
que a retratação seja ou não pela mesma forma. Possui natureza subjetiva; no caso de concurso de 
pessoas, não se comunica aos demais agentes que não tenham se retratado (NUCCI, 2022). 
Nos crimes de falsa perícia e falso testemunho, a retratação deve ocorrer também antes da sentença 
e no mesmo processo em que houve a falsa perícia ou o falso testemunho. Possui natureza objetiva 
e pode ser estendida aos demais acusados no caso de concurso de pessoas. 
Já o perdão judicial deve ser concedido pelo juiz na sentença. É inviável a concessão em outro 
momento processual, uma vez que exige o reconhecimento de um fato típico, ilícito e culpável pelo 
agente (PRADO, 2021). É um ato unilateral que independe de aceitação do autor da infração e não 
pode ser recusado. Possui caráter subjetivo e não se estende aos demais agentes no caso de concurso 
de pessoas; está previsto em diversos dispositivos ao longo do Código Penal (BRASIL, 1941) e da 
Legislação Especial. 
O Quadro 2 apresenta as previsões legais do perdão judicial. 
Quadro 2 | Previsões legais do perdão judicial 
ART. 121, § 5º 
DO CP 
ART. 176 DO 
CP 
ART. 242, PU 
DO CP 
ART. 8ª; 39, § 2º 
DA LCP 
ART. 1º, § 5º DA 
LEI DE 
LAVAGEM DE 
DINHEIRO 
ART. 129, § 8º 
DO CP 
ART. 180, § 5º 
DO CP 
ART. 249, § 2º 
DO CP 
ART. 326, § 1º 
DO CÓDIGO 
ART. 13 DA LEI 
DE PROTEÇÃO A 
ELEITORAL VÍTIMAS E 
TESTEMUNHAS 
ART. 140, § 1º I 
E II DO CP 
ART. 168-A, § 
3º DO CP 
ART. 337-A § 2º 
E 3º DO CP 
ART. 29, § 2º DA 
LEI DOS 
CRIMES 
AMBIENTAIS 
ART. 4º CAPUT E 
§ 2º DA LEI DE 
ORGANIZAÇÃO 
CRIMINOSA 
 
Fonte: elaborado pelo autor. 
A decisão que concede o perdão judicial é declaratória de extinção da punibilidade do acusado, não 
havendo que se falar em decisão condenatória ou absolutória, tampouco em efeitos penais ou 
extrapenais para o agente. 
REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE RETRATAÇÃO, PERDÃO JUDICIAL, 
PERDÃO DO OFENDIDO E MORTE DO AGENTE 
É possível a concessão do perdão judicial no crime de guarda doméstica de espécie silvestre não 
considerada ameaçada de extinção. Entretanto, o Superior Tribunal de Justiça entendeu por negar o 
reconhecimento da causa extintiva de punibilidade, quando constatados maus-tratos ao animal 
(BRASIL, 2022). 
O perdão judicial é possível de ser utilizado pelo agente para fins de reabilitação criminal e 
reconhecimento do direito ao esquecimento (BRASIL, 2019b). 
A Lei nº 11.706/2008, ao modificar o art. 32 da Lei nº 10.826/2003, criou uma causa extintiva da 
punibilidade que consiste na entrega espontânea da arma (BRASIL, 2013b). 
A retratação do agente nos crimes de calúnia e difamação deve ocorrer antes da sentença e atinge 
apenas os crimes contra a honra que se processam por ação penal privada, não sendo possível sua 
aplicação aos crimes contra a honra sujeitos a ação penal pública condicionada à requisição do 
Ministro da Justiça ou representação (BRASIL, 2020b). 
Para o reconhecimento da retratação aos crimes de calúnia e difamação, é necessário que o agente 
se retrate de forma cabal e completa, naquilo que afirmou, reconheça que se equivocou e retifique o 
alegado, não bastando o mero pedido de desculpas (BRASIL, 2013a). 
A retratação deve ser voluntária, não havendo qualquer tipo de intimação para essa finalidade 
(BRASIL, 2019a). 
No crime de falso testemunho ou falsa perícia, a retratação deve ocorrer no processo em que 
ocorreu a afirmação falsa e sempre antes da sentença (BRASIL, 2019a). 
Para o reconhecimento do perdão judicial no crime de homicídio culposo, é necessário que as 
consequências do crime sejam mais severas do que a pena imposta, como sequelas físicas 
gravíssimas e permanentes no próprio agente ou a existência de um vínculo de parentesco ou 
afetivo entre o agente e a vítima, bem comoinsuportável abalo físico ou emocional (BRASIL, 
2020a). 
A prova da morte ocorre por meio de certidão de óbito. Se a extinção da punibilidade for fundada 
em certidão de óbito falsa, é possível que a decisão que extinguiu a punibilidade seja revista, não 
estando sujeita, nessa hipótese, à formação de coisa julgada (BRASIL, 2003). 
Saiba mais 
Para um aprofundamento do que foi exposto nesta aula, é importante a leitura do capítulo XLII do 
livro Tratado de Direito Penal 1 – Parte Geral, de Cezar Roberto Bitencourt, que aborda de 
maneira geral as causas extintivas da punibilidade. 
 
	PENAS E SEUS CRITÉRIOS DE APLICAÇÃO
	Aula 1
	INTRODUÇÃO
	PENA PRIVATIVA
	PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE (REMIÇÃO, DETRAÇÃO E PROGRESSÃO DE REGIME)
	PENAS ALTERNATIVAS
	Saiba mais
	Aula 2
	INTRODUÇÃO
	PENA RESTRITIVA
	PENAS RESTRITIVAS DE DIREITO
	IMPOSSIBILIDADE DE EXECUÇÃO PROVISÓRIA DA PENA RESTRITIVA DE DIREITOS
	Saiba mais
	Aula 3
	INTRODUÇÃO
	MULTA
	O que defini uma multa?
	PENA DE MULTA
	Penalidade para multa
	EXECUÇÃO DA PENA DE MULTA
	Aplicação da lei de execução penal
	Saiba mais
	Aula 4
	INTRODUÇÃO
	DOSIMETRIA
	Pena em abstrato
	DOSIMETRIA DA PENA)
	Análise para definição da dosimetria da pena
	ATENUANTES E AGRAVANTES GENÉRICAS
	Saiba mais
	Aula 1
	INTRODUÇÃO
	CONCURSO MATERIAL
	REQUISITOS NECESSÁRIOS AO CONCURSO MATERIAL DE CRIMES
	CONCURSO MATERIAL DE CRIMES HOMOGÊNEO E CONCURSO MATERIAL DE CRIMES HETEROGÊNEO
	Saiba mais
	Aula 2
	INTRODUÇÃO
	CONCURSO FORMAL PRÓPRIO
	REQUISITOS NECESSÁRIOS AO CONCURSO FORMAL PRÓPRIO
	CONCURSO FORMAL DE CRIMES HOMOGÊNEO E CONCURSO FORMAL DE CRIMES HETEROGÊNEO
	Saiba mais
	Aula 3
	INTRODUÇÃO
	CONCURSO FORMAL IMPRÓPRIO
	CONCURSO MATERIAL BENÉFICO AO RÉU
	APLICAÇÃO DA PENA NO CASO DE CONCURSO FORMAL
	Saiba mais
	Aula 4
	INTRODUÇÃO
	CRIME CONTINUADO
	CONCEITO
	REQUISITOS DO CRIME CONTINUADO
	Saiba mais
	Aula 1
	INTRODUÇÃO
	CONHECENDO A SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA
	APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE A SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA
	REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE A APLICAÇÃO DA SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA
	Saiba mais
	Aula 2
	INTRODUÇÃO
	CONHECENDO A DETRAÇÃO DA PENA
	APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE A DETRAÇÃO DA PENA
	REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE DETRAÇÃO DA PENA
	Saiba mais
	Aula 3
	INTRODUÇÃO
	CONHECENDO O LIVRAMENTO CONDICIONAL
	APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE O LIVRAMENTO CONDICIONAL
	REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE O LIVRAMENTO CONDICIONAL
	Saiba mais
	Aula 4
	INTRODUÇÃO
	CONHECENDO A MEDIDA DE SEGURANÇA
	APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE A MEDIDA DE SEGURANÇA
	REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE A MEDIDA DE SEGURANÇA
	Saiba mais
	Aula 1
	INTRODUÇÃO
	CONHECENDO O DIREITO DE AÇÃO E AS ESPÉCIES DE AÇÃO PENAL
	Tipos de ação penal
	APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE AS ESPÉCIES DE AÇÃO PENAL
	Ação penal pública x ação penal privada
	REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE A APLICAÇÃO DA AÇÃO PENAL
	A natureza processual hibrida
	Saiba mais
	Aula 2
	INTRODUÇÃO
	CONHECENDO DECADÊNCIA, PEREMPÇÃO E PRESCRIÇÃO
	APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE AS MODALIDADES DE PRESCRIÇÃO
	REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE A APLICAÇÃO DAS FORMAS DE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE EM RAZÃO DO DECURSO DO TEMPO
	Saiba mais
	Aula 3
	INTRODUÇÃO
	CONHECENDO ANISTIA, GRAÇA, INDULTO, RENÚNCIA E ABOLITIO CRIMINIS
	APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE ANISTIA, GRAÇA, INDULTO E RENÚNCIA
	REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE ANISTIA, GRAÇA, INDULTO, RENÚNCIA E ABOLITIO CRIMINIS
	Saiba mais
	Aula 4
	INTRODUÇÃO
	CONHECENDO RETRATAÇÃO, PERDÃO JUDICIAL, PERDÃO DO OFENDIDO E MORTE DO AGENTE
	APROFUNDANDO OS ESTUDOS SOBRE RETRATAÇÃO, PERDÃO JUDICIAL, PERDÃO DO OFENDIDO
	REPERCUSSÕES PRÁTICAS SOBRE RETRATAÇÃO, PERDÃO JUDICIAL, PERDÃO DO OFENDIDO E MORTE DO AGENTE
	Saiba maisressocializador da pena, devendo esta 
servir como meio de ressocializar e reinserir o indivíduo na sociedade, para que, assim, não mais 
cometa condutas ilícitas. 
Dessa maneira, sob a perspectiva desse Direito Penal que adota uma premissa de ressocialização 
como finalidade almejada com a aplicação das penas, apenas o castigo não é suficiente. Isso 
demonstra, portanto, a necessidade de outras modalidades de sanção penal que atinjam o acervo de 
direitos do condenado, cumprido as missões retributiva e preventiva, mas sem o retirar do convívio 
e de suas relações em sociedade. 
Nesse contexto, a liberdade de locomoção do indivíduo não é cerceada — ao menos em sua 
integralidade —, substituindo-se o cárcere pela restrição de outros direitos, principalmente aqueles 
que guardem relação com o ilícito penal praticado. 
Cumprem-se as finalidades da pena atingindo os direitos do autor da conduta sem o privar da 
liberdade, de modo que sofra as consequências da sanção penal, mas sem se ver extirpado do 
convívio da sociedade. 
PENAS RESTRITIVAS DE DIREITO 
Com foco então na premissa da imposição de sanções que melhor atendam às finalidades da pena, 
considerando, no caso concreto, a gravidade objetiva da conduta, suas consequências concretas e 
sociais, as características do autor do fato e a repercussão social da conduta, bem como na esteira do 
texto constitucional, o artigo 43 do Código Penal (BRASIL, 1940) apresenta o rol de penas 
restritivas de direito: 
 
Art. 43. As penas restritivas de direitos são: 
I – prestação pecuniária; 
II – perda de bens e valores; 
III – prestação de serviço à comunidade ou a entidades públicas; 
IV – interdição temporária de direitos; 
V – limitação de fim de semana. 
 
Assim, nos termos do disposto pelo artigo 44 do Código Penal (BRASIL, 1940), as penas restritivas 
de direito são autônomas em relação às privativas de liberdade, podendo ser aplicadas de maneira 
isolada nas hipóteses previstas em lei ou de forma substitutiva ao cerceamento da liberdade do 
condenado, hipótese em que a privação de liberdade será substituída por certas restrições de direito 
ou pelo cumprimento de obrigações aceitas pelo condenado quando preenchidos os requisitos 
exigidos pela lei. 
As regras para a substituição da pena privativa de liberdade por pena restritiva de direito estão 
previstas no artigo 44 do Código Penal (BRASIL, 1940): 
 
I – aplicada pena privativa de liberdade não superior a quatro anos e o crime 
não for cometido com violência ou grave ameaça à pessoa ou, qualquer que 
seja a pena aplicada, se o crime for culposo; 
II – o réu não for reincidente em crime doloso; 
III – a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do 
condenado, bem como os motivos e as circunstâncias indicarem que essa 
substituição seja suficiente. 
Nessa perspectiva, possuem caráter substitutivo, uma vez que não são previstas como penas diretas 
constantes do preceito secundário de qualquer diploma legal, não podendo assim ser aplicadas de 
forma direta. 
Apesar disso, podemos mencionar o que a atual lei que trata dos crimes de drogas prevê como pena 
principal para o delito de porte ilegal de substância entorpecente: 
 
Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer 
consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com 
determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas: 
I – advertência sobre os efeitos das drogas; 
II – prestação de serviços à comunidade; 
III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. 
É importante destacar a pena prevista para o delito mencionado, já que a opção do legislador em 
impor de forma autônoma e independente uma pena restritiva de direito para o crime em tela 
suscitou verdadeira discussão a respeito de eventual descriminalização da conduta de porte de 
entorpecentes para uso pessoal. 
Sem deixar de reconhecer a lesividade social e jurídica da conduta, mantendo sua condição de crime 
e a competência do Direito Penal para conhecê-la, o legislador igualmente reconheceu que a 
condição do usuário não poderia merecer o mesmo tratamento que a dos autores de outros delitos. 
Fugindo da fórmula clássica da pena privativa de liberdade, determina de forma direta a restrição de 
direitos, com a imposição de obrigações ao autor do fato, em uma clara alternativa ao cárcere. 
IMPOSSIBILIDADE DE EXECUÇÃO PROVISÓRIA DA PENA RESTRITIVA 
DE DIREITOS 
Conforme nos foi possível delimitar, as penas restritivas de direitos, com fundamento constitucional 
e no Código Penal (BRASIL, 1940), podem funcionar como sanção penal imposta de maneira 
direita e autônoma ou em substituição da pena privativa de liberdade naquelas hipóteses autorizadas 
na legislação penal. 
Em um ou outro caso, levanta-se a discussão sobre a possibilidade ou não do cumprimento 
antecipado ou da execução provisória da pena restritiva de direito, antes do trânsito em julgado da 
sentença penal condenatória. 
A questão gira em torno da discussão da possibilidade da execução provisória das sanções penais, 
tema mais amplo, que abarca as penas restritivas de direito. O questionamento, em uma perspectiva 
que pretenda dar efetividade às decisões condenatórias, busca seu fundamento nas alegações de que, 
após a confirmação da sentença penal condenatória em segunda instância, todas as questões sobre a 
existência e as circunstâncias do fato teriam sido superadas, restando em sede de possível recurso 
apenas a discussão de aspectos jurídicos perante as Cortes Superiores. 
Tal perspectiva fez fortalecer correntes que defendiam a possibilidade de se antecipar o 
cumprimento das penas impostas em primeira instância e confirmadas em sede de recurso em 
segunda instância, mas que ainda se encontrassem pendentes do julgamento de recurso junto aos 
Tribunais Superiores. Os contornos tornaram-se ainda mais robustos diante das modificações de 
posicionamentos do Supremo Tribunal Federal em relação a tal possibilidade de execução 
provisória das sanções penais. 
Contudo, prevaleceu o entendimento de que a execução provisória da pena, antes do trânsito em 
julgado da sentença penal condenatória, implicaria ofensa ao princípio constitucional da presunção 
de inocência (BRASIL, 1988), de sorte que a fase executória somente poderia ser operada após o 
trânsito em julgado da condenação. 
Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça editou a Súmula nº 643 (BRASIL, 2021), que 
determina que “A execução da pena restritiva de direitos depende do trânsito em julgado da 
condenação”. 
Na verdade, a execução provisória das penas restritivas de direito já era vedada de maneira expressa 
pelo artigo 147 da Lei de Execução Penal (BRASIL, 1984): 
 
Art. 147. Transitada em julgado a sentença que aplicou a pena restritiva de 
direitos, o Juiz da execução, de ofício ou a requerimento do Ministério 
Público, promoverá a execução, podendo, para tanto, requisitar, quando 
necessário, a colaboração de entidades públicas ou solicitá-la a particulares. 
Nessa perspectiva, imagine que em primeira instância um indivíduo processado por crime contra o 
patrimônio venha a ser condenado à detenção de dois anos e, atendendo aos requisitos legais, tenha 
a pena privativa de liberdade convertida em restritiva de direito. Tendo apelado da decisão, o 
Tribunal de Justiça confirma a condenação, e o réu interpõe recurso extraordinário. 
Nessa hipótese, ainda que a matéria a ser discutida seja estritamente jurídica, não é cabível o 
cumprimento antecipado da pena, ficando vedada a execução provisória das penas restritivas de 
direitos, que somente poderão ser cumpridas após o trânsito em julgado da condenação, nos termos 
do artigo 147 da Lei de Execução Penal (BRASIL, 1984). 
Saiba mais 
No estudo da teoria geral das penas e das sanções penais em espécie, é sempre interessante ampliar 
os conhecimentos dos aspectos relacionados à execuçãopenal. Diante disso, fica o convite para que 
você consulte o conteúdo apresentado por Guilherme de Souza Nucci em Curso de execução penal, 
sobre a Lei de Execução Penal (NUCCI, 2021, p. 190–202). 
 
 
Aula 3 
PENA DE MULTA E A FORMA DE EXECUÇÃO 
Realizaremos o estudo dos conceitos e fundamentos da pena de multa, suas características e as 
peculiaridades relacionadas com sua aplicação e execução. 
 
 
INTRODUÇÃO 
Entre as penas previstas em nosso ordenamento jurídico, com fundamento tanto no texto 
constitucional (BRASIL, 1988) quanto no Código Penal (BRASIL, 1940) e na legislação penal 
extravagante, figura a pena de multa, com origens que remontam à Antiguidade do Direito Penal e 
que ainda hoje reverberam entre nós. Trata-se de uma possibilidade jurídica para imposição das 
consequências jurídicas e sociais da atuação do direito penal, incidente de maneira suplementar ou 
substitutiva, ou mesmo independente, desvinculada de necessária vinculação com a privação de 
liberdade. 
Dessa sorte, realizaremos o estudo dos conceitos e fundamentos da pena de multa, suas 
características e as peculiaridades relacionadas com sua aplicação e execução. 
MULTA 
O que defini uma multa? 
Depois de analisados os aspectos relacionados com as penas privativas de liberdade e as penas 
restritivas de direito, resta-nos neste ponto o estudo da terceira modalidade de sanção penal prevista 
pelo artigo 39 do Código Penal (BRASIL, 1940): a pena de multa. 
Caso busquemos uma definição geral do termo, podemos estabelecer multa como qualquer sanção 
pecuniária imposta em face do descumprimento de preceito legal de ordem civil, penal, 
administrativa ou tributária. Podemos então estabelecer que se trata de penalidade, em sentido 
amplo, que implica o pagamento de valor em favor de alguém como consequência do 
descumprimento de algum preceito legal. 
Neste ponto, e até para deixar clara a natureza jurídica da multa que pretendemos abordar, é 
interessante pensar na destinação do valor e da função que esse pagamento pretende cumprir, de 
modo a não confundir conceitos que, por sua natureza, são bastante similares. 
Pense que a conduta que causa danos — material ou moral — para outrem deve ser reparada e, 
quando não for possível restituição do status quo anterior, essa reparação se faz, geralmente, em 
valor. Caso essa mesma conduta infrinja normas de Direito Penal, dependendo da tipificação e do 
conteúdo do preceito secundário do tipo penal, pode haver imposição de pena pecuniária. 
Em todos esses contextos, estamos diante de penalidades, em sentido amplo, que se constituem no 
pagamento de valor, logo multas. Contudo, devemos pensar na finalidade de cada uma dessa 
multas. 
No primeiro caso, há uma multa com clara finalidade indenizatória e função reparatória, típica do 
Direito Civil, na qual o valor pago se destina àquele que sofreu o dano decorrente da conduta. 
Já na segunda hipótese, a finalidade não tem caráter reparatório, mas sim o de atender às funções 
retributiva e preventiva, típicas do Direito Penal e decorrentes da responsabilidade penal. Não tem 
por objetivo reparar o dano causado; funciona, de fato, como punição pela prática da conduta 
tipificada na lei penal. Por consequência, o valor não é direcionado à vítima da conduta, mas ao 
poder público, nos termos da lei. 
Pense no seguinte exemplo: um indivíduo, dirigindo veículo automotor, ingressa na contramão de 
direção em via pública e colide acidentalmente com um veículo que estava estacionado, causando 
danos. Para fugir da responsabilidade, evade-se do local com o veículo, mas toda a conduta foi 
registrada por câmeras de monitoramento. 
Na perspectiva penal, haverá o dever de indenizar o dono do carro danificado, nos termos do artigo 
927 do Código Civil. Estará sujeito também à imposição de multa administrativa nos termos do 
artigo 186 do Código de Trânsito Brasileiro. 
Além disso, estará sujeito à responsabilidade penal do artigo 305 da lei de trânsito, que pode 
resultar na imposição de pena de multa: 
 
“Art. 305. Afastar-se o condutor do veículo do local do acidente, para fugir à 
responsabilidade penal ou civil que lhe possa ser atribuída: Penas - detenção, 
de seis meses a um ano, ou multa”. 
Someone famous 
Como se pode ver, em uma única conduta é possível extrair como resultado o dever jurídico de 
entregar prestação pecuniária, inclusive com contornos e denominação da penalidade de multa. 
Avancemos, então, no estudo da multa enquanto sanção penal. 
PENA DE MULTA 
Penalidade para multa 
Se procurarmos traçar a origem histórica da pena de multa, podemos verificar que a imposição do 
pagamento de valor como consequência do descumprimento de preceitos legais encontra previsão 
em diversas legislações da Antiguidade. 
Mesmo quando pensamos na etimologia da sanção pecuniária, encontramos o termo em latim 
pecus, que se refere a gado, encontrado em diversos outros termos jurídicos, como pecúlio e 
peculato. Essa noção precede à disseminação do uso de metais como moeda de troca, quando 
valores e riquezas eram mensurados em cabeças de gado. 
Nos termos do artigo 49 do Código Penal (BRASIL, 1940), pena de multa é definida como o 
pagamento, em favor do fundo penitenciário, da quantia fixada na sentença e calculada utilizando a 
fórmula de dias-multa. 
Conforme aponta Cezar Roberto Bitencourt (2021, p. 360): 
 
“o sistema dias-multa é genuinamente brasileiro, criado pelo nosso Código 
Criminal do Império e foi mantido em nosso primeiro Código Penal 
republicano de 1890, bem como na Consolidação das leis Penais de 1932”. 
Para fins da imposição da pena de multa, o valor de cada dia-multa será estabelecido na sentença 
condenatória, não podendo ser inferior a um trigésimo do maior salário-mínimo mensal vigente ao 
tempo do fato, nem superior a cinco vezes esse salário, passível de atualização, por ocasião da 
execução da pena, pelos índices de correção monetária. 
Podemos então definir a pena de multa como sendo a sanção de caráter penal, imposta de maneira 
isolada ou cumulativamente com penas de outra natureza, conforme previsão do preceito 
secundário do tipo penal, consistente no pagamento de valor que será destinado ao Fundo 
Penitenciário. 
Como vemos, a pena de multa recai não sobre a liberdade ou o acervo de direitos do condenado, 
mas sobre o patrimônio. Desse modo, não pode ser convertida em pena de outras naturezas 
(privativa de liberdade ou restritiva de direito) quando não se verificar seu pagamento ou este for de 
qualquer forma frustrado pelo condenado. 
Além disso, e considerando a possibilidade de ser aplicada de maneira isolada, naqueles casos 
previstos em lei, determina a Súmula nº 693 do Supremo Tribunal Federal (BRASIL, 2003): “Não 
cabe habeas corpus contra decisão condenatória a pena de multa, ou relativo a processo em curso 
por infração penal a que a pena pecuniária seja a única cominada”. Quando aplicada de maneira 
isolada, concreta ou potencial, a pena de multa não coloca em risco o direito de locomoção do 
indivíduo, portanto o habeas corpus não é um instrumento jurídico cabível. 
Outro aspecto que deve ser analisado quanto à pena de multa diz respeito a seu alcance, 
especialmente se considerarmos o caráter personalíssimo e a intranscendência da sanção penal, 
conforme previsão do artigo 5, inciso XLV da Constituição Federal (BRASIL, 1988): 
 
LV - nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de 
reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, 
estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do 
patrimônio transferido. 
Nessa perspectiva, ainda que a multa seja considerada e executada como dívida de valor, executável 
conforme as regras de execução aplicáveis para a Fazenda Pública, essa execução, assim como na 
execução de outras espécies de pena, não pode ultrapassar a pessoa do condenado. Isso significa 
que ela não deve atingir,por exemplo, herdeiros e sucessores no caso da morte do condenado com 
pendência de pagamento da pena de multa. 
EXECUÇÃO DA PENA DE MULTA 
Aplicação da lei de execução penal 
O Código Penal, no artigo 50 (BRASIL, 1940), determina que a multa seja paga dentro de dez dias 
depois de transitada em julgado a sentença. De acordo com o caso, e a requerimento do condenado, 
o juiz pode permitir que o pagamento se realize em parcelas mensais. 
Na perspectiva da Lei de Execução Penal (BRASIL, 1984), conforme prevê o artigo 164, uma vez 
extraída a certidão de trânsito em julgado da sentença penal condenatória que impõe pena de multa, 
com natureza jurídica de título executivo judicial, cabe ao Ministério Público requerer a citação do 
condenado para, no prazo de dez dias, realizar o pagamento do valor ou indicar bens à penhora. 
Caso o pagamento da multa não se realize no prazo de dez dias contados da citação, nos termos do 
artigo 50, determina o § 1º do dispositivo que se deve proceder à penhora de bens do condenado 
para garantir a execução da pena de multa, procedimento que deverá seguir as regras estabelecidas 
na legislação processual civil sobre a penhora. 
Sobre a competência para a execução da pena de multa, o artigo 51 determina que, transitada em 
julgado a sentença condenatória, a multa será executada perante o juiz da execução penal e será 
considerada dívida de valor. 
Por conta disso, para a execução da pena de multa, aplicam-se as normas relativas à dívida ativa da 
Fazenda Pública, inclusive no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da prescrição. 
 
A Lei n. 13.964, de 24 de dezembro de 2019, tem o mérito de, pelo menos, 
afastar a dificuldade interpretativa de grande parte da doutrina e da 
jurisprudência sobre a competência para a execução da pena de multa, ao 
definir, expressamente, que ela é do juiz da vara de execução penal. Na nossa 
concepção, sempre foi do juízo da execução penal e do correspondente 
representante do Ministério Público com atribuição naquela vara criminal, 
mas esse nosso entendimento sempre foi amplamente minoritário. Agora, com 
o texto da Lei n. 13.964/2019, não resta mais qualquer dúvida sobre essa 
competência e respectiva atribuição do Parquet. 
(BITENCOURT, 2021, p. 562). 
Assim, quanto à discussão sobre a legitimidade processual e a competência jurisdicional para a 
execução da pena de multa, é atribuição do Ministério Público atuar como sujeito legítimo para 
promover a execução, que se fará perante o Juízo das Execuções Penais. 
Podemos pensar na possibilidade do pagamento da pena de multa de maneira parcelada, na forma 
do artigo 169 da Lei nº 7.210 (BRASIL, 1984), ou mesmo que se proceda mediante desconto em 
folha de pagamento do condenado, nos termos do artigo 168 da Lei de Execução Penal (BRASIL, 
1984). Nesse cenário, o juiz poderá determinar que a cobrança da multa se efetue mediante 
desconto no vencimento ou salário do condenado, nas hipóteses do artigo 50, § 1º, do Código Penal 
(BRASIL, 1940), atendidos os seguintes requisitos: 
• o limite máximo do desconto mensal será o da quarta parte da remuneração e o mínimo, o de um 
décimo. 
• o desconto será feito mediante ordem do juiz a quem de direito. 
• o responsável pelo desconto será intimado a recolher mensalmente, até o dia fixado pelo juiz, a 
importância determinada. 
Por fim, cabe ressaltar a possibilidade de suspensão da execução da pena de multa, conforme 
previsão do artigo 50 do Código Penal (BRASIL, 1940), reiterada no artigo 167 da Lei de Execução 
Penal (BRASIL, 1984), quando sobrevier ao condenado doença mental. 
Saiba mais 
Para ampliar os conhecimentos com relação às penas e, em especial, à pena de multa, fica a 
indicação de leitura do trabalho de Fernando Capez (CAPEZ, 2020, p. 577–583). 
 
 
Aula 4 
APLICAÇÃO DAS PENAS 
Voltaremos nossos esforços para o estudo e a compreensão do sistema de aplicação das penas 
adotado pela legislação penal. 
 
 
INTRODUÇÃO 
Depois de analisadas e compreendidas as espécies de sanções aplicáveis no ordenamento jurídico 
penal brasileiro, voltaremos nossos esforços para o estudo e a compreensão do sistema de aplicação 
das penas adotado pela legislação penal. 
Como bem sabemos, a pena representa a consequência jurídica da prática do ato definido por lei 
como ilícito penal. Então, conforme garantido pela Constituição Federal (BRASIL, 1988), a pena 
não apenas deve se limitar à pessoa do condenado, como também deve ser aplicada de maneira 
individualizada, observando as garantias da dignidade da pessoa humana, assim como a exata 
medida das funções buscadas pela sanção penal em nosso sistema jurídico, mas sem ficar à mercê 
de arbitrariedades ou, de outro lado, sujeita à mecanização de uma prestação judicial autômato. 
Vamos seguindo firme e avançando na construção do conhecimento. 
DOSIMETRIA 
Pena em abstrato 
Uma vez que tratamos das modalidades de penas reguladas e aplicáveis no ordenamento jurídico, 
conforme a previsão do Código Penal, podemos passar à análise das regras pertinentes à aplicação 
da pena. 
Considerando-se a estrutura do tipo penal, há a divisão estrutural entre o preceito primário e o 
preceito secundário. 
No preceito primário do tipo penal incriminador, temos a descrição abstrata da conduta 
criminalizada, com todas as características e circunstâncias, que atende ao elemento da tipicidade 
do ilícito penal. Já no preceito secundário, encontramos a sanção penal em abstrato, aplicável 
àquela conduta. 
Podemos então indicar que, no processo legislativo de definição do crime, quando o legislador 
especifica uma conduta que a lei passará a considerar como ilícito penal, é realizado um juízo 
preliminar de reprovação da conduta, que se expressa no preceito secundário do tipo penal. 
É importante você fixar essa ideia para completa compreensão de nosso estudo. No preceito 
secundário do tipo penal, é indicada a pena abstrata, produto de um juízo preliminar de reprovação 
da conduta realizada pelo poder legislativo, quando a lei define a conduta que será considerada 
como crime. 
Teremos então na pena em abstrata a espécie de pena aplicável àquela conduta, tanto em caráter 
principal quanto em caráter acessório. Além disso, no preceito secundário encontraremos, no caso 
da aplicação de pena privativa de liberdade, os parâmetros mínimos e máximos de aplicação da 
pena. 
Lembre-se, estou falando com você aqui sobre a pena em abstrato. 
Quando se estuda a aplicação da pena, o objetivo é analisar e compreender o procedimento e as 
regras a serem observadas para determinar a espécie e a quantidade de pena que será efetivamente 
aplicada ao autor de uma conduta penal, depois de superadas as discussões sobre a existência do 
crime, a autoria e a culpabilidade. Trata-se, justamente, da realização do princípio constitucional da 
individualização da pena, previsto pelo artigo 5º, incisos XLV e XLVI, da Constituição Federal 
(BRASIL, 1988). 
Cuida então a dosimetria da pena do procedimento adotado pelo juiz, considerando os critérios 
estabelecidos pela legislação penal, para determinar a pena em concreto a ser imposta ao autor da 
conduta em face da condenação penal. Falamos na pena concreta referindo-nos à pena efetivamente 
aplicada ao autor do fato e que deverá ser por ele cumprida na fase de execução penal (BRASIL, 
1984). 
Evidentemente, esse procedimento de individualização e especificação da pena, considerando todas 
as características próprias da conduta, não se faz de maneira abstrata e, em nosso ordenamento 
jurídico, não fica à mercê da arbitrariedade do magistrado, que deve observar as determinações da 
legislação. 
Buscando os critérios possíveis para a individualização da penal e o estabelecimento da pena em 
concreto, teremos notícia na doutrina de sistemas que vão desde o arbítrio judicial absoluto — 
modelo em que o magistrado, em conformidade com seu juízo íntimo, determina a pena a ser 
aplicada— até um sistema de determinação absoluta, quase que tarifário — no qual a 
individualização da pena é resultado de fórmulas legais estritas e sem qualquer parâmetro de 
adequação (BITENCOURT, 2021, p. 388). 
Na experiência prática, entre as mazelas verificadas na adoção de um ou outro modelo, chegou-se a 
um terceiro sistema para a aplicação da pena, com o intuito de melhor atender às finalidades e 
funções da pena e evitar os perigos da arbitrariedade e da mecanização na aplicação da pena. 
DOSIMETRIA DA PENA) 
Análise para definição da dosimetria da pena 
Dosimetria da pena denomina o procedimento juridicamente vinculado destinado a determinar a 
pena em concreto a ser cumprida em face da condenação pela prática de ilícito penal. Em nosso 
ordenamento jurídico, adotamos o critério trifásico de dosimetria da pena, o que se pode extrair da 
leitura do artigo 68 do Código Penal (BRASIL, 1940): 
 
Art. 68 – A pena-base será fixada atendendo-se ao critério do art. 59 deste 
Código; em seguida serão consideradas as circunstâncias atenuantes e 
agravantes; por último, as causas de diminuição e de aumento. 
Parágrafo único – No concurso de causas de aumento ou de diminuição 
previstas na parte especial, pode o juiz limitar-se a um só aumento ou a uma 
só diminuição, prevalecendo, todavia, a causa que mais aumente ou diminua. 
 
Guilherme de Souza Nucci (2021, p. 440), tratando da dosimetria da pena, informa: 
 
Há dois sistemas principais para a aplicação do quantum da pena: a) critério 
trifásico, preconizado por Nélson Hungria; b) critério bifásico, defendido por 
Roberto Lyra. O Código Penal optou claramente pelo primeiro, conforme se 
vê do art. 68, caput: “A pena-base será fixada atendendo-se ao critério do art. 
59 deste Código; em seguida serão consideradas as circunstâncias atenuantes e 
agravantes; por último, as causas de diminuição e de aumento”. Para Hungria, 
o juiz deve estabelecer a pena em três fases distintas: a primeira leva em 
consideração a fixação da pena-base, tomando por apoio as circunstâncias 
judiciais do art. 59; em seguida, o magistrado deve aplicar as circunstâncias 
legais (atenuantes e agravantes, dos arts. 61 a 66), para então apor as causas 
de diminuição e de aumento (previstas nas Partes Geral e Especial). 
 
Dessa forma e de acordo com a disposição do artigo 68, após superada a discussão sobre a 
materialidade, a autoria e a culpabilidade, deverá o juiz passar à dosimetria da pena, tratando, no 
primeiro momento, do estabelecimento da pena, nos termos do artigo 59 do Código Penal 
(BRASIL, 1940). Em seguida, ele fará a análise e a consideração das circunstâncias agravantes e 
atenuantes e, na terceira fase, aplicará as causas de diminuição e de aumento de pena, chegando ao 
quantum de pena em concreto para, finalmente, e de acordo com as regras do Código Penal 
(BRASIL, 1940), determinar o regime inicial de cumprimento de pena, a possibilidade de 
substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direito ou a hipótese de suspensão 
condicional da pena. 
Uma vez determinada a pena em abstrato cabível à conduta, passa-se à primeira fase da dosimetria 
da pena — as circunstâncias judiciais — previstas no art. 59 do Código Penal (BRASIL, 1940). 
Essa denominação é decorrente da discricionariedade concedida pela lei ao magistrado na análise 
dos elementos previstos no artigo 59 para estabelecimento da pena-base. Ou seja, a legislação não 
estabelece um critério objetivo ao qual o juiz fica restrito nessa fase para a imposição da pena-base. 
 
Art. 59 – O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta 
social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e 
consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, 
estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e 
prevenção do crime: 
I – as penas aplicáveis dentre as cominadas 
II – a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos 
III – o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade 
IV – a substituição da pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie 
de pena, se cabível (BRASIL, 1940). 
Assim, consideram-se como circunstâncias judiciais, nos termos do Código Penal (BRASIL, 1940): 
• a culpabilidade do agente. 
• os antecedentes. 
• a conduta social do agente. 
• a personalidade do agente. 
• a motivação do crime. 
• as circunstâncias. 
• as consequências do crime. 
• o comportamento da vítima. 
Depois de superada a primeira fase, passa-se à segunda fase da dosimetria da pena, que envolve a 
análise das circunstâncias agravantes e atenuantes, segundo os artigos 61 a 67 do Código Penal 
(BRASIL, 1940). 
ATENUANTES E AGRAVANTES GENÉRICAS 
Devemos entender que as circunstâncias analisadas na segunda fase da dosimetria da pena, as quais 
servem de parâmetro de interpretação pelo juiz para individualizar a sanção penal, adequando-a ao 
autor do fato, ao caso concreto e às finalidades e funções a serem cumpridas pelo Direito Penal, 
influenciam para agravar a reprovabilidade da conduta (agravantes) ou a diminuir (atenuantes), 
conforme se verifique no caso concreto a presença de tal ou qual circunstância. 
É importante ter em conta que durante a segunda fase o julgador ainda permanece limitado aos 
limites mínimos e máximo de pena estabelecidos no preceito secundário do tipo penal. 
Nos termos do artigo 61 do Código Penal (BRASIL, 1940), são circunstâncias que sempre agravam 
a pena na segunda fase da dosimetria: 
• A reincidência. 
• As circunstâncias da prática do crime: 
- Por motivo fútil ou torpe. 
- Para facilitar ou assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime. 
- À traição, de emboscada, ou mediante dissimulação, ou outro recurso que dificultou ou tornou 
impossível a defesa do ofendido. 
- Com emprego de veneno, fogo, explosivo, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que 
podia resultar perigo comum. 
- Contra ascendente, descendente, irmão ou cônjuge. 
- Com abuso de autoridade ou prevalecendo-se de relações domésticas, de coabitação ou de 
hospitalidade, ou com violência contra a mulher na forma da lei específica. 
- Com abuso de poder ou violação de dever inerente a cargo, ofício, ministério ou profissão. 
- Contra criança, maior de sessenta anos, enfermo ou mulher grávida. 
- Quando o ofendido estava sob a imediata proteção da autoridade. 
- Em ocasião de incêndio, naufrágio, inundação ou qualquer calamidade pública, ou de desgraça 
particular do ofendido. 
- Em estado de embriaguez preordenada. 
Além dessas, o artigo 62 do Código Penal (BRASIL, 1940) apresenta agravantes a serem 
consideradas no caso de concurso de pessoa que: 
 
I – promove ou organiza a cooperação no crime ou dirige a atividade dos 
demais agentes. 
II – coage ou induz outrem à execução material do crime. 
III – instiga ou determina a cometer o crime alguém sujeito à sua autoridade 
ou não-punível em virtude de condição ou qualidade pessoal. 
IV – executa o crime, ou nele participa, mediante paga ou promessa de 
recompensa. 
 
Já com relação às circunstâncias atenuantes, que também devem ser levadas em consideração na 
segunda fase da dosimetria da pena, indica-nos o artigo 65 do Código Penal (BRASIL, 1940) que 
são circunstâncias que sempre devem ser levadas em consideração para atenuar a pena: 
 
I – ser o agente menor de 21 (vinte e um), na data do fato, ou maior de 70 
(setenta) anos, na data da sentença; 
II - o desconhecimento da lei; 
III - ter o agente: 
a) cometido o crime por motivo de relevante valor social ou moral; 
b) procurado, por sua espontânea vontade e com eficiência, logo após o 
crime, evitar-lhe ou minorar-lhe as conseqüências, ou ter, antes do julgamento, 
reparado o dano; 
c) cometido o crime sob coação a que podia resistir, ou em cumprimento de 
ordem de autoridade superior, ou sob a influência de violenta emoção, 
provocada por ato injusto da vítima;d) confessado espontaneamente, perante a autoridade, a autoria do crime; 
e) cometido o crime sob a influência de multidão em tumulto, se não o 
provocou. 
O código penal ainda prevê no artigo 66 uma atenuante genérica inominada, determinando que a 
pena poderá ser atenuada em razão de circunstância relevante, anterior ou posterior ao crime, 
embora não prevista expressamente em lei. 
Uma vez estabelecida a pena-base e aplicadas as circunstâncias agravantes e atenuantes, chegamos 
a uma pena provisória. O magistrado deve, então, aplicar as causas de aumento e diminuição de 
pena para finalmente chegar a uma pena definitiva a ser imposta ao réu. 
Na terceira fase, a pena pode ser fixada abaixo ou acima dos limites em abstrato previstos no tipo 
penal. As causas de aumento e diminuição de pena estão previstas tanto na parte geral quanto na 
parte especial do Código Penal. 
Saiba mais 
Para saber mais sobre o procedimento de dosimetria e aplicação da pena no ordenamento jurídico-
penal brasileiro, vale conferir a leitura do trabalho de André Estefam (2022, p. 518–562). 
 
 
CONCURSO DE CRIMES E SISTEMA DE APLICAÇÃO DE PENA 
 
 
 
Aula 1 
CONCURSO MATERIAL DE CRIMES E SUAS IMPLICAÇÕES 
Vamos analisar então a primeira modalidade de concurso de crimes: o concurso material, desde seu 
conceito aos requisitos e reflexos na aplicação da pena. 
 
INTRODUÇÃO 
Como bem sabemos, o estudo do Direito Penal deve se preocupar com a análise de todas as 
variáveis que podem ser enfrentadas quando da aplicação da lei penal aos casos concretos. 
Dentro dessa linha de raciocínio, é importante pensar: como se deve realizar a aplicação do Direito 
Penal quando um mesmo sujeito, em um mesmo contexto, praticar múltiplas ações ou der causa a 
múltiplos resultados ilícitos? 
Essa preocupação está no núcleo do estudo do concurso de crimes, com o objetivo de estabelecer as 
regras aplicáveis nessas situações. 
Vamos analisar então a primeira modalidade de concurso de crimes: o concurso material, desde seu 
conceito aos requisitos e reflexos na aplicação da pena. 
Excelentes estudos! 
CONCURSO MATERIAL 
Conhecendo os tipos de concurso de crimes 
Sabemos que o fato criminoso pode ser fruto da ação ou omissão de um único indivíduo ou de 
vários, agindo isoladamente ou em conjunto. 
Da mesma maneira, um único sujeito pode praticar mais de um crime, oportunidade em que falamos 
de concurso de crimes, que pode ocorrer entre delitos da mesma espécie ou de espécies diferentes. 
 
Já constatamos que o crime tanto pode ser obra de um como de vários 
sujeitos, ocorrendo, nessa hipótese, o “concurso de pessoas”, mas pode, 
também, um único sujeito praticar dois ou mais crimes. Quando um sujeito, 
mediante unidade ou pluralidade de comportamentos, pratica dois ou mais 
delitos, surge o concurso de crimes — concursus delictorum 
(BITENCOURT, 2021, p. 408). 
Podemos, pois, falar em concurso de crimes dolosos e culposos, consumados e tentados, 
comissivos e omissivos, simples ou qualificados etc. 
De qualquer forma, a reprovabilidade da conduta de quem realiza duas ou mais condutas ilícitas 
deve ser mensurada de maneira diversa da daquele que realiza uma única conduta típica, até mesmo 
para atender à culpabilidade do agente. 
No entanto, para correta aplicação da lei penal e dosimetria da pena, devem ser consideradas as 
circunstâncias da conduta que culminou com a realização de dois ou mais resultados ilícitos, de 
forma a atender de maneira adequada aos critérios de culpabilidade e de individualização das penas. 
Assim, e de acordo com a disciplina do Código Penal (BRASIL, 1940), podemos falar no concurso 
material de crimes (também chamado de concurso real), na hipótese em que o agente, mediante a 
prática de mais de uma conduta, prática dois ou mais crimes, idênticos ou não. 
Existe, no caso do concurso material, pluralidade de condutas e pluralidade de resultados. Trata-se 
das hipóteses previstas pelo artigo 69 do Código Penal (BRASIL, 1940): 
 
Art. 69 – Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica 
dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente as penas 
privativas de liberdade em que haja incorrido. No caso de aplicação 
cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro aquela. 
 
De acordo com o mencionado, devemos levar em consideração que no concurso material de crimes 
o agente, mediante a prática de duas ou mais condutas, dá causa a dois ou mais resultados ilícitos, 
de natureza idêntica ou não, o que deverá impactar sua culpabilidade e a reprovabilidade da 
conduta. Ou seja, o concurso material de crimes terá reflexo na dosimetria, na aplicação e no 
cumprimento da pena. 
Dessa sorte, nos termos do disposto pelo artigo 69 do Código Penal (BRASIL, 1940), adota-se o 
sistema da cumulação para aplicação das penas no concurso material de crimes. Assim, no caso do 
concurso material de crimes, tanto no homogêneo quanto no heterogêneo, a aplicação das penas 
obedece à regra do sistema do cúmulo material, segundo o qual é realizada a soma do montante de 
pena decorrente de cada delito. Ou seja, para cada uma das condutas é realizada de maneira isolada 
a dosimetria da pena, somando-se as penas para fins de execução penal. 
REQUISITOS NECESSÁRIOS AO CONCURSO MATERIAL DE CRIMES 
O que determina um concurso material de crimes? 
Conforme delimitamos, ocorre o concurso material de crimes quando o agente, mediante a 
realização de duas ou mais condutas, dá causa a dois ou mais resultados ilícitos, idênticos ou não. 
Assim, pensando nos requisitos para caracterização do concurso material de crimes, destaca a 
doutrina o assinalado pelo artigo 69 do Código Penal (BRASIL, 1940): pluralidade de condutas e 
pluralidade de crimes. 
É da essência do concurso material de crimes para sua caracterização a ocorrência de pluralidade 
de condutas praticadas por um único agente. Essas condutas podem ser dolosas ou culposas, 
comissivas ou omissivas, desde que realizadas dentro de um mesmo contexto fático. Assim, pouco 
importa o elemento subjetivo de cada uma das condutas, desde que se verifiquem dentro do mesmo 
contexto. 
Imagine o seguinte exemplo: A é usuário de drogas e em um momento de desespero, para satisfazer 
seu vício, aproveita que um veículo foi deixado aberto com a chave no contato e o subtrai com o 
objetivo de levá-lo até o ponto de venda de droga. No trajeto, colide com outro veículo, provocando 
lesão corporal no condutor do outro carro. No mesmo local, mediante violência e grave ameaça, 
subtrai uma motocicleta de um indivíduo que parou para prestar socorro, sendo surpreendido e 
capturado pela polícia enquanto fugia. Temos então diversas condutas praticadas em um mesmo 
contexto, cada qual dando causa a diversos delitos. 
O segundo requisito apontado pela doutrina é a pluralidade de crimes, o que deve ser 
compreendido na perspectiva dos resultados jurídicos na pluralidade de ofensas a bens jurídicos. 
De acordo com a previsão do artigo 69 do Código Penal (BRASIL, 1940), ocorrerá o concurso 
material de crimes quando duas ou mais condutas praticadas pelo agente der causa a duas ou mais 
lesões para bens jurídicos protegidos pela lei penal, configurando multiplicidade de delitos. 
Para a caracterização do concurso material de crimes, devemos pensar ainda em um terceiro 
requisito, pouco destacado pela doutrina. 
 
Só se pode cogitar de soma de penas na sentença se ambos os delitos 
estiverem sendo apurados na mesma ação penal. Para tanto, é necessária a 
existência de alguma forma de conexão entre eles, pois só assim se justifica a 
apuração no mesmo feito. É o que acontece, por exemplo, se o agente mata o 
marido para estuprar a esposa, quando se mostra presente a conexão 
teleológica. Em tal caso, os crimes são apurados em conjunto e o juiz, ao 
sentenciar o acusado, deve somar as penas dos crimes de homicídio 
qualificado e de estupro. Por sua vez, se os delitosnão são conexos, cada qual 
deve ser apurado em um processo distinto e receber pena isoladamente (uma 
sentença para cada crime). A soma só acontecerá posteriormente, no juízo das 
execuções criminais. Ex.: um criminoso que pratica crimes de estupro e 
homicídio contra vítimas diversas e em locais distintos, não havendo qualquer 
ligação entre os delitos 
delitos (ESTEFAM; GONÇALVES, 2022, p. 672). 
 
Assim, é possível defender como um terceiro requisito para caracterização do concurso material a 
existência de um vínculo lógico e fático, uma relação de conexão entre as diversas condutas e os 
diversos resultados que justifique a reunião das condutas em um único processo — o que 
determinaria então a aplicação das regras inerentes ao concurso material de crimes. 
CONCURSO MATERIAL DE CRIMES HOMOGÊNEO E CONCURSO 
MATERIAL DE CRIMES HETEROGÊNEO 
Quando o agente pratica dois ou mais crimes 
De acordo com o que pudemos verificar, no concurso material o agente realiza duas ou mais 
condutas e, com isso, dá causa a dois ou mais resultados ilícitos, devendo então a reprovabilidade 
de sua conduta ser mensurada de acordo com as condutas e os resultados observados. 
Nos termos do artigo 69 do Código Penal (BRASIL, 1940), o concurso material se verifica quando 
o agente pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não. 
 
O concurso material pode ser homogêneo, quando se trata de crimes idênticos 
(vários homicídios, por exemplo), ou heterogêneo (como no exemplo supra), 
não importando se os fatos ocorreram na mesma ocasião ou em dias 
diferentes. Podem os delitos ser objeto de uma ação penal apenas, quando 
houver conexão, ou de várias, se não houver entre eles o liame processual 
(arts. 76 ss do CPP). Nada impede o concurso material entre crime doloso e 
crime culposo 
(MIRABETE, 2021, p. 332). 
 
Nessa linha de raciocínio, podemos falar no concurso material homogêneo quando, em decorrência 
da prática de uma ou mais condutas, o agente dá causa a dois ou mais crime idênticos, da mesma 
natureza. 
Seria o exemplo do indivíduo que, desejando matar uma pessoa, adentra a casa para cometer o 
homicídio, encontra a vítima acompanhada da família e mata todos. Teríamos nesse caso a hipótese 
de múltiplos homicídios praticados em concurso material homogêneo. 
Por outro lado, podemos falar em concurso material heterogêneo na hipótese em que o sujeito, 
mediante a prática de duas ou mais condutas, dá causa a dois ou mais crimes de naturezas diversas. 
Em quaisquer hipóteses, a verificação do concurso material de crimes — tanto homogêneo 
quanto heterogêneo — implicará a aplicação de penas individualizadas com a cumulação das 
penas. Portanto, devemos nos atentar às regras de aplicação das penas no concurso material de 
crimes. 
De acordo com o artigo 69, parágrafo primeiro do Código Penal, uma vez verificado o concurso 
material de crimes, na hipótese de aplicação de pena privativa de liberdade não suspensa para um 
dos delitos, não será possível, para os demais, a substituição de pena privativa de liberdade por 
restritiva de direito, nos termos do artigo 44 do Código Penal (BRASIL, 1940). 
Nesse contexto, é importante estar atento ao conteúdo da Súmula nº 243 do Superior Tribunal de 
Justiça (BRASIL, 2001): 
 
O benefício da suspensão do processo não é aplicável em relação às infrações 
penais cometidas em concurso material, concurso formal ou continuidade 
delitiva, quando a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela 
incidência da majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano. 
De outro lado, se para os crimes forem aplicadas penas restritivas de direito, não existe 
impedimento de que sejam cumpridas de maneira simultânea, desde que compatíveis entre si. 
Já no caso de imposição de penas de naturezas diversas, primeiramente deverão ser cumpridas as 
privativas de liberdade e, sucessivamente, as restritivas de direito. 
 
Saiba mais 
Para ampliar os estudos que estamos desenvolvendo e aprofundar os conhecimentos que estão 
sendo construídos com relação ao concurso de crimes e ao concurso material, recomendamos a 
leitura da obra de Damásio E. de Jesus e André Estefam (2020, p. 617–620). 
 
Aula 2 
CONCURSO FORMAL PRÓPRIO E SUAS DELIMITAÇÕES 
É importante neste ponto estabelecer as distinções entre o concurso material e o concurso formal de 
crimes e, em seguida, adentrar na análise das distinções internas do instituto. 
 
INTRODUÇÃO 
Em continuidade a nossos estudos e depois de devidamente firmadas as noções básicas sobre o 
concurso de crimes e seus reflexos na aplicação da lei penal, além de superada a análise do 
concurso material de crimes, podemos avançar para o estudo do concurso formal de delitos. 
É importante neste ponto estabelecer as distinções entre o concurso material e o concurso formal de 
crimes e, em seguida, adentrar na análise das distinções internas do instituto. 
Para tanto, ocupe-se do conceito do concurso formal próprio, bem como de suas características e 
seus requisitos e, especialmente, das consequências de seu reconhecimento na aplicação e na 
dosimetria da pena. 
CONCURSO FORMAL PRÓPRIO 
Conceito 
Falamos em concurso formal quando o agente realiza uma única conduta e prática dois ou mais 
crimes, idênticos ou não, configurando assim uma unidade de conduta com uma pluralidade de 
resultados. 
Diz-se do concurso formal próprio ou perfeito quando a unidade de comportamento decorre de uma 
única vontade do agente; ou seja, o agente quer realizar uma única conduta e dela decorrem os 
múltiplos resultados. É a hipótese prevista na primeira parte do artigo 70 do Código Penal 
(BRASIL, 1940): 
 
Art. 70 – Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, prática dois ou 
mais crimes, idênticos ou não, aplicasse-lhe a mais grave das penas cabíveis 
ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um 
sexto até metade […] 
Someone famous 
Estamos diante da situação em que o agente, por meio da prática de apenas uma conduta, comissiva 
ou omissiva, dá causa a dois ou mais resultados ilícitos, idênticos ou não. 
No que diz respeito ao concurso formal próprio, o Código Penal (BRASIL, 1940) adota o critério da 
exasperação das penas, ou seja, aplica-se a pena mais grave aumentada em virtude dos outros 
crimes decorrentes da única conduta. 
O que justifica a aplicação de uma pena menos gravosa no concurso formal próprio em relação ao 
concurso material e ao concurso formal impróprio é a vontade do agente, que deseja um único 
resultado e pratica uma única conduta que gera múltiplos resultados indesejados. 
Temos então no concurso material próprio um elemento subjetivo único — uma única vontade a 
mover a conduta do sujeito ativo — e que dá causa a múltiplos resultados, idênticos ou não, que 
fujam da vontade do agente. 
É mais fácil visualizar essa situação no exemplo de um acidente automobilístico. Imagine que o 
sujeito ativo, por uma conduta culposa, dá causa a um acidente de trânsito e deste ficam vitimadas 
duas pessoas, sendo que uma sofre lesões corporais grave e a outra morre como consequência do 
acidente. 
Estamos diante do concurso formal próprio no qual o agente, com uma única conduta, movida por 
um único elemento volitivo, provocou mais de um resultado, no caso uma lesão corporal culposa na 
direção de veículo automotor (Art. 303, CTB) e um homicídio culposo na direção de veículo 
automotor (Art. 302, CTB). 
Por força do critério da exasperação, adotado pelo artigo 70 do Código Penal (BRASIL, 1940) 
para o caso do concurso formal próprio, somente uma pena será aplicada (em nosso exemplo, a do 
crime mais grave), impondo-se a está um aumento de pena de 1/6 até metade. 
Perceba que os elementos que caracterizam o concurso formal são a unidade de conduta e a 
multiplicidade de condutas que se encontrem fora do alcance de vontade de previsibilidade do 
sujeito ativo. 
 
Saliente-se que o concurso formal perfeito não é instituto exclusivodos 
crimes culposos […] aplica-se a regra do concurso formal perfeito, em todas 
as outras hipóteses em que, com uma só ação ou omissão, o agente tenha 
cometido dois ou mais crimes 
(ESTEFAM; GONÇALVES, 2022, p.54). 
Isso significa que o concurso formal próprio será caracterizado independentemente do elemento 
subjetivo da conduta do agente, desde que os múltiplos resultados não estejam incluídos e no 
alcance da vontade do autor da conduta. 
REQUISITOS NECESSÁRIOS AO CONCURSO FORMAL PRÓPRIO 
Unidade de conduta e pluralidade de resultados 
Pense na seguinte hipótese: depois de uma briga com o vizinho, Abelardo decide se vingar e para 
isso, durante a noite, quando acredita que todos estão dormindo, joga uma pedra na janela do 
vizinho, destruindo a vidraça. Contudo, o que Abelardo não sabia é que, naquela noite, o vizinho 
ficou dormindo no sofá da sala e foi atingido na cabeça pela pedra, sofrendo lesão corporal de 
natureza grave. 
Note que nesse exemplo há apenas uma conduta — jogar a pedra da vidraça —, uma conduta 
dolosa, que tinha por objetivo destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia, caracterizando o crime 
de dano. No entanto, essa única conduta acabou gerando outro resultado, diverso daquele 
originariamente pretendido. É o caso clássico do concurso formal próprio. Haverá então o crime de 
dano (doloso) e o crime de lesão corporal (culposo). 
Pensemos então nos requisitos necessários para a caracterização do concurso formal próprio. 
O primeiro é a unidade de conduta. No concurso formal próprio, ocorre apenas uma conduta. Um 
único elemento de vontade. Então, pouco importa se essa conduta é dolosa ou culposa, comissiva 
ou omissiva, visto que, conforme demonstrado, qualquer delas é suficiente para a caracterização do 
concurso formal próprio. 
 
Nessa espécie de concurso há unidade de ação e pluralidade de crimes. Assim, 
para que haja concurso formal é necessário que exista uma só conduta, 
embora possa desdobrar-se em vários atos, que são os segmentos em que esta 
se divide. O concurso formal pode ser próprio (perfeito), quando a unidade de 
comportamento corresponder à unidade interna da vontade do agente, isto é, o 
agente deve querer realizar apenas um crime, obter um único resultado 
danoso. Não devem existir — na expressão do Código — desígnios 
autônomos 
(BITENCOURT, 2021, p. 408). 
O segundo requisito a ser verificado para a caracterização do concurso formal próprio é a 
pluralidade de resultados. 
Da única conduta praticada pelo agente devem ser identificadas duas ou mais lesões a bens jurídicos 
penalmente tutelados, ou seja, dois ou mais crimes, que podem ou não ser da mesma natureza, nos 
termos do previsto pelo caput do artigo 70 do Código Penal (BRASIL, 1940). 
Note que o elemento que caracterizará propriamente o concurso formal próprio, diferenciando-o do 
concurso formal impróprio — que será objeto de estudo mais adiante —, é a unidade do elemento 
subjetivo. A conduta única deve ser movida por um único elemento subjetivo, seja ele dolo ou 
culpa, voltado a uma única finalidade e que dá causa aos múltiplos resultados. 
Nesse caso, e conforme a previsão do artigo 70 do Código Penal (BRASIL, 1940), o legislador faz a 
interpretação mais benéfica considerando o elemento volitivo do agente, adotando o critério da 
exasperação para aplicação da pena. Então, mesmo com diversos os resultados, será imposta apenas 
uma pena, que será submetida a uma exasperação, um aumento em razão da maior reprovabilidade 
decorrente dos diversos resultados. 
Sobre a aplicação da pena decorrente do concurso formal próprio, é necessário ter atenção ao 
conteúdo da Súmula nº 243 do Superior Tribunal de Justiça (BRASIL, 2001), segundo a qual o 
benefício da suspensão condicional do processo não será aplicável em relação às infrações penais 
cometidas em concurso formal quando a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela 
incidência da majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano, previsto no artigo 89 da Lei nº 9.099 
(BRASIL, 1995). 
CONCURSO FORMAL DE CRIMES HOMOGÊNEO E CONCURSO 
FORMAL DE CRIMES HETEROGÊNEO 
Reconhecendo o concurso formal 
Como é possível extrair do conceito de concurso formal próprio (também chamado de concurso 
formal perfeito) e da leitura da primeira parte do artigo 70 do Código Penal (BRASIL, 1940), este 
se verifica quando, de uma mesma conduta (dolosa ou culposa) decorrem dois ou mais resultados 
ilícitos, idênticos ou não. 
Falamos em concurso formal próprio homogêneo quando os diversos resultados obtidos são todos 
da mesma espécie. Por exemplo, por negligência, o condutor de um veículo acaba perdendo o 
controle do automóvel e subindo na calçada, atropelando diversas pessoas e lhes provocando lesão 
corporal. 
Para cada vítima teremos um resultado ilícito autônomo — lesão corporal culposa na direção de 
veículo automotor, na forma do previsto pelo artigo 303 do Código de Trânsito Brasileiro —. 
contudo, na análise do fato, e verificando que os resultados decorreram de uma mesma conduta — 
direção de veículo automotor — culposa (negligência), por ocasião da dosimetria da pena será 
aplicada apenas uma pena de lesão corporal, impondo-se a esta a exasperação, na forma de aumento 
da pena. O concurso formal próprio será homogêneo porque nos múltiplos resultados foi lesionado 
bem jurídico de mesma natureza. 
Por outro lado, se os resultados diversos decorrentes da única conduta praticada pelo agente 
envolverem lesão ou perigo de lesão a bens jurídicos diversos, teremos então a hipótese de 
concurso formal próprio heterogêneo. 
Pense no seguinte exemplo: um sujeito, querendo praticar um crime de roubo e precisando de 
auxílio na execução do delito, convida para o acompanhar na intentada criminosa um conhecido 
seu, menor de 18 anos na ocasião dos fatos. Podemos encarar que no caso houve uma única conduta 
— a prática do roubo — que culminou em lesão a dois bens jurídicos diferentes: por um lado, o 
patrimônio, na forma do artigo 157 do Código Penal (BRASIL, 1940); por outro, a corrupção de 
menores. 
No julgamento do caso, entendeu-se que, sendo o crime de corrupção de menores delito formal e 
prescindindo a comprovação de que o agente pretendia a iniciação do menor na prática de crime, 
não foi possível comprovar os desígnios autônomos para a realização dos dois resultados, o que 
levou ao reconhecimento de concurso formal perfeito heterogêneo (ESPÍRITO SANTO, 2015). 
Finalmente, sobre o estudo do concurso formal próprio, devemos considerar que o objetivo do 
legislador foi, conforme apontamos, emprestar um tratamento penal menos gravoso para aquele 
que, movido por único desígnio e realizando uma única conduta, dá causa a diversos resultados. 
Tanto é verdade que se adotou a regra da exasperação na imposição da pena, determinando a sanção 
penal de apenas um delito e a este aplicando a causa de aumento de pena. 
Assim, devemos observar a prescrição do parágrafo único do artigo 70 do Código Penal (BRASIL, 
1940): “Art. 70. […] Parágrafo único – Não poderá a pena exceder a que seria cabível pela regra do 
art. 69 deste Código”. Como consequência disso, a pena resultante da aplicação da regra da 
exasperação não poderá ser superior àquela que seria obtida se valendo da regra do artigo 69, 
decorrente do cúmulo material. 
 
Saiba mais 
Com o objetivo de ampliar seus estudos a respeito do concurso formal próprio de crimes, vale 
conferir o trabalho de Fernando Capez (2022, p. 267–273). 
 
Aula 3 
CONCURSO FORMAL IMPRÓPRIO 
O foco é, especialmente, delimitar o conceito desse instituto, em contraponto às regras do concurso 
formal próprio, analisando as consequências de sua constatação para a aplicação da lei penal. 
 
INTRODUÇÃO 
Dando prosseguimento a nossos estudos sobre o concurso de crimes no Direito Penal e suas 
consequências na dosimetria da pena, e após concluídos os estudos a respeito do concurso formal 
próprio de crimes, avançaremos

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