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MATÉRIA: DIREITO PROCESSUAL TRIBUTÁRIO TEMA 1 Processo Administrativo Tributário Descrição Análise dos principais princípios e regramentos do processo administrativo tributário. Propósito O conhecimento a respeito do processo administrativo tributário é de fundamental importância para o profissional do direito – em especial, o do direito público. Trata-se de um ramo de destaque que lida com um dos aspectos principais da sociedade contemporânea: a tributação. Preparação Antes de iniciar seu estudo, tenha um vade mecum em mãos. Objetivos Módulo 1 Princípios do processo administrativo tributário Listar os princípios norteadores do processo administrativo tributário. Módulo 2 Processo administrativo tributário federal Identificar as principais características do processo administrativo tributário. Módulo 3 Consensualidade Analisar a consensualidade no processo administrativo tributário. Introdução O direito tributário é um dos principais braços do direito público brasileiro. Somado à complexidade da legislação infraconstitucional na matéria, o expansionismo da Constituição Federal (CF) em matéria tributária faz com que o contencioso tributário, seja na seara administrativa, seja na judicial, possua uma forte importância. Neste conteúdo, vamos falar sobre alguns dos principais pontos relacionados ao processo administrativo tributário no Brasil. Para isso, nos concentraremos nos princípios que regem o processo administrativo tributário. Princípios do processo administrativo tributário Ao final deste módulo, você será capaz de listar os princípios norteadores do processo administrativo tributário. Aspectos gerais Noções gerais do processo administrativo tributário De início, aponta-se que o processo administrativo tributário, como atividade da Administração Pública, está sujeito aos princípios gerais que disciplinam a atuação administrativa e aparecem elencados de forma não exaustiva no caput do artigo 37 da CF. São eles: · Legalidade · Impessoalidade · Moralidade · Publicidade · Eficiência Os direitos fundamentais processuais constantes no artigo 5º da CF também devem ser seguidos por todos os entes da federação durante o iter do processo administrativo tributário: · A inafastabilidade do controle jurisdicional da decisão proferida na esfera administrativa (inciso XXXV). · O devido processo legal (LIV). · O contraditório e a ampla defesa (LV). · A inadmissão das provas obtidas por meios ilícitos (LVI). · A duração razoável do processo (LXXVIII). Devemos destacar, por sua relevância, o princípio do formalismo moderado, já que ele visa impedir que minúcias e pormenores não essenciais afastem a compreensão da verdadeira finalidade da atuação da Administração Pública (MEDAUAR, 2018). Tal assunto, porém, será mais bem analisado adiante. Da mesma forma, os princípios previstos para o processo administrativo do ente federativo também serão aplicáveis ao processo administrativo tributário de maneira subsidiária naquilo que for cabível. Exemplo O princípio da proporcionalidade é aplicável ao processo administrativo tributário do Estado do Rio de Janeiro por força do artigo 2º combinado com o 75 da Lei Estadual nº 5.427/2009, responsável por disciplinar o processo administrativo estadual no âmbito da Administração Direta e da Indireta e nos Poderes Executivo, Legislativo (incluindo o Tribunal de Contas) e Judiciário, bem como no do Ministério Público. Feitas essas considerações, analisaremos adiante – mesmo que de forma breve – alguns dos princípios aplicáveis ao processo administrativo tributário, dedicando um enfoque especial àqueles de base constitucional. Princípios constitucionais processuais Princípios constitucionais processuais e o processo administrativo tributário Devido processo legal (art. 5º, LIV, CF) O princípio do devido processo legal ostenta natureza jurídica, pois ele é considerado de direito fundamental. Tal princípio é visto sob duas vertentes: Devido processo legal formal/procedimental De origem europeia e mais clássica, ele é consubstanciado no dever de que o processo precisa ter um rito estabelecido e se desenvolver em respeito ao procedimento, ofertando-se as condições de obtenção de um processo justo. Devido processo substancial/material Trata-se da exigência de razoabilidade dos atos normativos e decisões. Contraditório e ampla defesa (art. 5º, LV, CF) Previstos no mesmo dispositivo constitucional, os direitos fundamentais ao contraditório e à ampla defesa são muitas vezes encarados como sinônimos. No entanto, ambos não se confundem, possuindo cada um contornos próprios e âmbito de proteção distintos. O direito fundamental ao contraditório é tradicionalmente visto a partir do conhecido binômio informação-reação: as partes devem ter ciência da existência do processo (judicial ou administrativo) e dos atos internamente praticados, podendo se insurgir, em face desses atos, na tutela de seus interesses legítimos de acordo com a forma prevista para tal procedimento. Esse direito ainda possui mais abrangência que a mera ciência de atos processuais, havendo até a possibilidade de manifestação acerca de tais atos. O contraditório, hoje em dia, igualmente é visto como o direito de influência na decisão a ser tomada, destaca Greco (2005), posição essa plasmada ainda nos artigos 9º e 10 do Código de Processo Civil (CPC). A ampla defesa, por sua vez, traz consigo os direitos de autodefesa da parte e de defesa técnica. O direito de autodefesa ainda se subdivide em dois: Direito de presença O direito a participar dos atos processuais. Direito de audiência O direito de ser ouvido pela autoridade competente para o julgamento, no caso do processo administrativo. Já o direito à defesa técnica é o direito da parte de ser assistido por advogado em sede de processo administrativo tributário. Entretanto, diferentemente da esfera judicial, na qual a postulação, como regra, precisa ser feita com a assistência por advogado – o que consta no artigo 1º, I, da Lei nº 8.906/1994 –, no processo administrativo tributário prevalece o princípio do ius postulandi: o patrocínio por advogado é facultativo, sendo possível ao sujeito passivo praticar todos os atos processuais por si só. Inadmissibilidade de provas obtidas por meios ilícitos (art. 5º, LVI, CF) O mencionado princípio está previsto no art. 5º, LVI, da Constituição Federal, vedando a utilização, no processo (judicial ou administrativo), de provas obtidas por meios ilícitos. Tal vedação abrange duas provas: Aquela que é coletada em violação a normas de direito processual: caso, por exemplo, da quebra de sigilo sem autorização judicial, que é exigida pelo artigo 5º, XI, da CF. Trata-se da chamada de prova ilícita em sentido estrito. Aquela cuja produção se deu em ofensa ao direito material aplicável: a título de exemplo, é a prova produzida mediante tortura da parte, o que é denominada por alguns como prova ilegítima. Destacamos, porém, que a jurisprudência admite alguns temperamentos de tal princípio em ponderação com outros direitos fundamentais dessa estatura. Exemplo No HC 164493, o Supremo Tribunal Federal (STF) já admitiu o uso de prova obtida por meio ilícito se ela for utilizada para lastrear a defesa do acusado. HC 164493 Relator(a): Edson Fachin. Relator(a) para acórdão: Gilmar Mendes. Segunda Turma. Julgado em 23/3/2021 Duração razoável do processo (art. 5º, LXXVIII, CF) O princípio da duração razoável do processo foi introduzido pela Emenda Constitucional (EC) nº 45/2004 no contexto da denominada “Reforma do Judiciário”. Sob tal princípio, o processo deve se desenvolver sem dilações indevidas com respeito aos direitos fundamentais das partes. Atenção! Sua duração razoável, no entanto, não impõe uma celeridade procedimental desarrazoada, ou seja, um processo “com pressa”, e sim que ele caminhe com a duração imprescindível para o cumprimento do procedimento. Diante das particularidades de cada um dos processos em trâmite, não é possível estabelecer um único critério para definir o que constitui um processo de duração razoável.a duração razoável da execução (RODRIGUES, 2020, p. 189). Substituição e reforço da penhora A substituição da penhora pode se dar a requerimento do executado ou a requerimento da Fazenda, ambas disciplinadas pelo art. 15 da Lei nº 6.830/1980. O reforço da penhora, a seu turno, se dá a pedido da Fazenda Pública. Em se tratando de pedido de substituição da penhora formulado pelo executado, o inciso I do art. 15 da Lei nº 6.830/1980 permite a substituição da penhora por depósito em dinheiro, fiança bancária ou seguro garantia. Relembrando O art. 9º da LEF prevê que o executado ofereça, em garantia da execução fiscal, dinheiro, fiança bancária ou seguro garantia, nomeie bens à penhora, obedecida a ordem do art. 11, ou indique bens oferecidos por terceiros para tanto, com aceitação da Fazenda. Diversamente do oferecimento de garantia inicial da execução fiscal por meio de fiança bancária ou seguro garantia, que, à luz do art. 9º, inciso I da LEF, foram tratados da mesma forma que o dinheiro, a substituição da penhora em dinheiro por fiança bancária ou seguro garantia não constitui direito subjetivo do executado. Com efeito, o dinheiro é o primeiro bem da ordem preferencial de penhora constante do art. 11 da Lei nº 6.830/1980 e a sua substituição depende da demonstração de que inexistirá prejuízo à efetividade da execução e o resguardo à menor onerosidade da execução, como exemplifica o Agravo interno no agravo em recurso especial (AgInt) no REsp 1447376/SP, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 24/10/2017, Dje 10/11/2017). Por sua vez, a substituição ou reforço da penhora a requerimento da Fazenda Pública, disciplinado pelo art. 15, inciso I, da Lei nº 6.830/1980, tem como principal viés interpretativo a efetividade da execução e o respeito ao princípio da menor onerosidade da execução. Demonstrada a baixa liquidez do bem penhorado ou, ainda, sua imprestabilidade para fins de satisfação do credor, seja por meio de alienação ou de adjudicação, caberá sua substituição por outros bens, a despeito da ordem preferencial do art. 11 da LEF. O reforço da penhora ocorrerá nas hipóteses em que o bem ou o conjunto de bens penhorados se mostrar insuficiente para garantir a execução. Assim, deverão ser buscados outros bens para reforço da garantia. Aspectos gerais do embargos à execução Embargos à execução fiscal Para conhecer as principais características e os requisitos dos embargos à execução fiscal, assista ao vídeo a seguir: Os embargos à execução fiscal e a exceção de preexecutividade são os principais meios de defesa do executado em sede de execução fiscal. Também é possível cogitar do uso da ação anulatória de débito fiscal, que tem como pretensão a declaração de nulidade do lançamento tributário ou do auto de infração. Procedimento A defesa do sujeito passivo em sede de execução fiscal se dá por meio da oposição de embargos à execução, disciplinados a partir do art. 16 da Lei de Execuções Fiscais. Curiosidade Os embargos à execução fiscal possuem natureza jurídica de ação autônoma, embora sejam apensados aos autos da execução fiscal, aos mesmos moldes dos embargos à execução civil, aplicando-se à hipótese o art. 914, § 2º, do Código de Processo Civil. Competência A competência para a oposição de embargos à execução segue, como regra, o disposto no art. 914, § 1º, do Código de Processo Civil. Por sua vez, em se tratando de execução por carta (execução em que os atos expropriatórios são realizados em juízo de competência territorial diversa do juízo da execução fiscal, por meio de carta precatória), por força do art. 20 da LEF, os embargos do executado serão oferecidos no juízo deprecado, ou seja, aquele que receber o pedido de cumprimento da ordem judicial, que os remeterá ao juízo deprecante, ou seja, comarca por onde tramita um processo e que emitiu a carta precatória, para instrução e julgamento. A seu turno, pelo art. 20, parágrafo único, da LEF, quando os embargos tiverem por objeto vícios ou irregularidades de atos do próprio juízo deprecado, caberá a ele unicamente o julgamento dessa matéria. Trata-se de regra especial em comparação com o art. 914, § 2º, do Código de Processo Civil, segundo a qual os embargos serão oferecidos no juízo deprecante ou no juízo deprecado, mas a competência para julgá-los é do juízo deprecante, salvo se versarem unicamente sobre vícios ou defeitos da penhora, da avaliação ou da alienação dos bens efetuadas no juízo deprecado. Prazo Quanto ao prazo, conforme a literalidade do art. 16 da LEF, os embargos à execução devem ser opostos no prazo de 30 dias, os quais serão contados do depósito (inciso I), da juntada da prova da fiança bancária ou do seguro garantia (inciso II) ou da data da intimação da penhora (inciso III). Vejamos como: Inciso I Em relação ao inciso I, há julgados do STJ entendendo que a contagem deve ser feita a partir da intimação do depósito, como exemplifica o REsp 1690521/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 19/09/2017, DJe 10/10/2017, não obstante o STJ também possua decisões aplicando a literalidade do art. 16, inciso I, da LEF, contando o referido prazo a partir da data do depósito, como é o caso apresentado no pelo REsp 713.507/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 12/12/2006, DJ 15/02/2007, p. 214. Inciso II Em relação ao inciso II, a despeito de sua disposição literal, há entendimento doutrinário e jurisprudencial no sentido de que o prazo para oposição de embargos à execução fiscal somente será contado a partir da data da intimação da lavratura de termo de penhora, interpretando-se sistematicamente os incisos II e III do art. 16 da LEF (RODRIGUES, 2020, p. 201-203). Nessa mesma linha, esclarece o Agravo Regimental no Agravo em Recurso Especial (AgRg) no REsp 1156367/MG, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, julgado em 24/09/2013, DJe 22/10/2013. Inciso III Em relação ao inciso III, realizada a penhora, deverá haver a intimação do executado a respeito, sendo certo que o prazo para oposição de embargos à execução fiscal daí será contado. Garantia do juízo A oposição de embargos à execução fiscal possui, como requisito específico de admissibilidade, a garantia do juízo, como previsto no art. 16, § 1º, da LEF. Trata-se de sistemática especial e diversa daquela prevista para os embargos à execução disciplinados pelo Código de Processo Civil, que, em seu art. 914, dispensa a realização de penhora, depósito ou caução para fins de admissibilidade dos embargos. O STJ, em sede de recursos repetitivos, assentou que a exigência de garantia do juízo para oposição de embargos à execução fiscal remanesce a despeito de o Código de Processo Civil, desde o advento da Lei nº 11.232/2005, dispensar tal exigência, à luz do CPC de 1973; do Recurso Especial – REsp 1272827/PE, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, julgado em 22/05/2013, DJe 31/05/2013; e do Agravo Interno no Recurso Especial – AgInt no REsp 1699802/RJ, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 21/03/2019, DJe 26/03/2019. Porém, não se trata de exigência absoluta. O STJ possui julgados entendendo pela possibilidade de dispensa da garantia do juízo em sendo comprovada a hipossuficiência patrimonial do devedor, independentemente da concessão de gratuidade de justiça em favor do executado, como exemplifica o AgInt no REsp 1836609/TO, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, julgado em 07/06/2021, DJe 16/06/2021. O ônus da prova da insuficiência de recursos para garantir o juízo compete ao devedor. Efeitos Os embargos à execução, como regra, não possuem efeito suspensivo. A concessão de efeito suspensivo aos embargos à execução fiscal depende do preenchimento dos requisitos previstos no art. 919, § 1º, do Código de Processo Civil: (i) requerimento do embargante; (ii) preenchimento dos requisitos para concessão de tutela provisória (probabilidade de existência do direito e perigo de dano/risco ao resultado útil do processo); e (iii) garantia do juízo. Há, contudo,uma exceção. Em se tratando de execução fiscal garantida por depósito integral em dinheiro, pelo art. 32, § 2º, da LEF, após o trânsito em julgado da decisão, o depósito, monetariamente atualizado, será devolvido ao depositante ou entregue à Fazenda Pública, mediante ordem do juízo competente. Dessa forma, se o levantamento somente pode ocorrer, neste caso, após o trânsito em julgado, por evidente, não será possível realizar atos expropriatórios no curso da execução fiscal antes do trânsito em julgado dos embargos à execução. Matérias passíveis de alegação em sede de embargos A defesa do executado nos embargos pode versar sobre qualquer matéria de seu interesse, conforme autoriza o art. 16, § 2º, da LEF, aos mesmos moldes do disposto no art. 917 do Código de Processo Civil. O fundamento para tanto é o fato de que a execução fiscal é lastreada em título executivo extrajudicial, não sendo precedido de uma fase cognitiva, razão pela qual deve ser oferecida ao embargante a possibilidade de se opor à execução por meio de mecanismo processual de cognição plena. Procedimento Recebidos os embargos, a Fazenda Pública será intimada para, no prazo de 30 dias, oferecer impugnação, nos termos do art. 17 da LEF. Se não houver necessidade de designação de audiência de instrução e julgamento, os autos serão encaminhados ao juízo para proferir sentença, nos termos do art. 17, parágrafo único, da LEF. Fase recursal Há, em síntese, três recursos cabíveis em face das decisões proferidas em sede de embargos à execução: agravo de instrumento, apelação e embargos infringentes de alçada. Comentário Por força do art. 1022 do CPC, os embargos de declaração são cabíveis em face de qualquer decisão judicial. Começaremos analisando o cabimento do agravo de instrumento. Os embargos à execução possuem natureza de ação de conhecimento. Nesse sentido, o regime de recorribilidade das decisões interlocutórias proferidas em seu curso segue a sistemática do art. 1015, caput, do Código de Processo Civil. Quanto às demais decisões interlocutórias proferidas na fase de conhecimento dos embargos à execução, estas não irão precluir de imediato, podendo ser impugnadas em sede de preliminar de recurso de apelação ou de contrarrazões, como estabelece o art. 1009, § 1º, do Código de Processo Civil. A apelação é o recurso cabível em face da sentença nos embargos à execução, aplicando-se o art. 1009 do Código de Processo Civil. Destaque-se que, em se tratando de apelação interposta em face de sentença que julgou improcedente ou extinguiu sem resolução do mérito os embargos à execução, o recurso não será dotado de efeito suspensivo ope legis, aplicando-se o art. 1012, § 2º, inciso II, do Código de Processo Civil. Art. 1015 Somente as decisões interlocutórias previstas no rol do dispositivo admitem impugnação via agravo de instrumento (e.g., decisão que verse sobre tutela provisória, prevista no art. 1015, inciso I, do Código de Processo Civil). O art. 34 da LEF prevê, ainda, modalidade recursal específica para as sentenças proferidas em embargos à execução de valor igual ou inferior a 50 Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN): os embargos infringentes de alçada. ORTN A ORTN foi um título público federal, extinto pelo Decreto-Lei nº 2.284/1986, e substituído ao longo dos anos por diversos outros títulos até a UFIR (Unidade Fiscal de Referência), a qual deixou de existir a partir da Medida Provisória nº 1.973-67, de 26 de outubro de 2000, que foi sucessivamente reeditada até ser convertida na Lei nº 10.522/2002. Assim, para fins de análise do cabimento de embargos infringentes de alçada, deverá ser levada em consideração a UFIR e, não, a ORTN. O STJ, no julgamento do REsp 1.168.625, julgado sob o regime dos recursos repetitivos, consolidou a tese de que 50 ORTN correspondem a 308,50 UFIR, os quais equivalem a R$328,27 em janeiro de 2001, valor este corrigido pelo IPCA-E a partir de então e que, para fins de cabimento dos embargos infringentes de alçada, deverá ser considerado tendo como referência a data de propositura da execução fiscal. Exceção de preexecutividade e suspensão da execução Características da exceção de preexecutividade A execução de preexecutividade, também denominada de objeção de preexecutividade, é meio de defesa do executado em sede de execução fiscal que não possui previsão legal expressa. Trata-se de construção doutrinária de Pontes de Miranda (1974), a qual encontrou acolhida na jurisprudência. A Súmula 393 do STJ elenca os requisitos para que a exceção de preexecutividade possa ser manejada: a exceção deve versar sobre matérias cognoscíveis de ofício e que não demandem dilação probatória. Caso seja necessário alegar matérias que não sejam cognoscíveis de ofício ou que exijam a apresentação de provas, a exceção não é defesa adequada, devendo ser utilizados os embargos (RODRIGUES, 2020, p. 217). Em relação aos embargos à execução, a exceção de preexecutividade possui duas vantagens: 1. De início, não há a exigência de garantia do juízo para que a exceção seja admitida. 2. A exceção de preexecutividade não está sujeita a prazo, considerando que versa sobre questões cognoscíveis de ofício, ou seja, que o magistrado pode conhecer independentemente de provocação de quaisquer das partes. Hipóteses de suspensão da execução fiscal A suspensão da execução fiscal é disciplinada pelo art. 40 da Lei nº 6.830/1980. Duas são as hipóteses que ensejam a suspensão da execução fiscal: 1º caso Quando o devedor não for localizado. 2º caso Quando não forem encontrados bens penhoráveis. Estando caracterizado ao menos um desses casos, seguem as etapas: Etapa 1 O juiz determinará a suspensão da execução fiscal, abrindo vista dos autos ao representante judicial da Fazenda, nos termos do art. 40, § 1º, da LEF, quando terá início o prazo de um ano, previsto no art. 40, § 2º, para que o devedor e/ou os bens penhoráveis sejam localizados. Etapa 2 Findo o prazo de um ano sem que o devedor ou os bens penhoráveis sejam localizados, o juiz ordenará o arquivamento dos autos, quando, então, terá início o prazo de prescrição intercorrente, como deixa claro a súmula 314 do STJ. Etapa 3 Encerrado o prazo de prescrição intercorrente sem que o devedor ou bens penhoráveis sejam localizados, terá ocorrido a prescrição intercorrente, a ensejar a extinção do processo com resolução do mérito, nos termos do art. 487, inciso II, do CPC. O STJ, em sede de recursos repetitivos, como demonstra o REsp 1340553/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, julgado em 12/09/2018, DJe 16/10/2018, firmou entendimento no sentido de que o prazo de um ano tem início a partir da primeira medida de localização do devedor ou de constrição patrimonial que seja negativa. Segundo entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça, o prazo de prescrição intercorrente tem início automaticamente após o decurso do prazo de um ano, sendo interrompido com a primeira medida executiva positiva ocorrida dentro do prazo prescricional, seja a citação do devedor, seja a realização de ato de constrição patrimonial. Caso a medida seja requerida dentro do prazo quinquenal, porém, somente seja efetivada após o referido prazo, aplicar-se-á a Súmula 106 do STJ, eis que a Fazenda Pública foi diligente e não poderá sofrer prejuízo em razão da demora da atividade jurisdicional. Frise-se que, antes de ser declarada a ocorrência de prescrição intercorrente, pelo art. 485, § 4º, da LEF, o representante judicial da Fazenda deve ser ouvido, não obstante o juiz possa declarar a prescrição intercorrente de ofício. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Ampliando o conhecimento Você conhece o procedimento na execução fiscal? Conhece as defesas do executado na execução fiscal? Para entendermos melhor, vamos analisar o caso concreto a seguir. Beatriz é proprietária de um terreno localizado no bairro de Piedade, município do Rio de Janeiro – RJ. O local é utilizado como estacionamentopela pessoa jurídica Estacione Comigo, locatária, que explora comercialmente a atividade econômica desde 2017, tendo construído coberturas para as vagas, uma pequena casa para abrigo de funcionários e outras benfeitorias necessárias para poder exercer sua atividade. Em 2020, a Prefeitura Municipal enviou carnê de IPTU com alíquota de 3%, que é cobrada de imóveis não edificados no Rio de Janeiro. Inconformada, Beatriz ofertou impugnação administrativa, sustentando que seu terreno possui edificações, requerendo a aplicação da alíquota de 2,5%, legalmente prevista para unidades não residenciais edificadas. A impugnação não foi acolhida pela Junta de Revisão Fiscal. Findo o prazo para pagamento voluntário, Beatriz não efetuou o pagamento do IPTU, pois estava em tratativas com seus advogados para a resolver tal situação, preferindo aguardar definição sobre o assunto. Assim, naquele mesmo ano de 2020, o município do Rio de Janeiro ajuizou execução fiscal em face de Beatriz, requerendo sua condenação ao pagamento do IPTU referente ao exercício financeiro de 2020. Regularmente citada, no prazo de três dias, Beatriz efetuou o depósito da quantia constante na certidão de inscrição em dívida ativa, a fim de efetuar a garantia do juízo. Após intimada sobre o depósito, Beatriz ofertou embargos à execução fiscal, alegando em juízo a mesma matéria já sustentada em sede administrativa, isto é, que seu terreno possui edificações, requerendo a aplicação da alíquota de 2,5%, legalmente prevista para unidades não residenciais edificadas. Finalizada a instrução probatória, o juízo julgou procedentes os embargos, reconhecendo a incidência da alíquota de 2,5% para o IPTU incidente sobre o imóvel de Beatriz, condenando o município do Rio de Janeiro ao pagamento das verbas de sucumbência. Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Considerações finais Neste conteúdo, você realizou um panorama geral sobre a execução fiscal, desde seus fundamentos mais básicos até noções mais avançadas, notadamente, a defesa do sujeito passivo, por meio de embargos à execução fiscal e exceção de preexecutividade, passando por um dos temas mais sensíveis, que é a legitimidade (ativa e passiva) para a execução fiscal. Com este acervo de conhecimento, você está preparado para enfrentar um dos pontos mais espinhosos do Direito Tributário brasileiro. ------------------------------------------------------------------x------------------------------------- Tema 3 Ações do contribuinte Descrição Estudo das ações antiexacionais, ações judiciais de iniciativa do sujeito passivo (contribuinte ou responsável), afastamento da cobrança de um débito tributário. Propósito O conhecimento sobre as ações antiexacionais é de fundamental importância, pois seu domínio permite ao profissional do Direito, independentemente da função que exerça, defender os interesses do Fisco ou do contribuinte. Preparação Antes de iniciar a leitura do conteúdo, tenha em mãos Código Tributário Nacional, Código de Processo Civil, Constituição Federal e Lei nº 12.016 de 2009. Objetivos Módulo 1 Mandado de segurança tributário Analisar as principais características do mandado de segurança tributário. Módulo 2 Consignação em pagamento Identificar os requisitos da consignação em pagamento e seu procedimento. Módulo 3 Outras ações de iniciativa do contribuinte Reconhecer outras ações de iniciativa do contribuinte: ação anulatória, ação declaratória e ação de repetição de indébito. Mandado de segurança tributário Ao fim deste módulo, você será capaz de analisar as principais características do mandado de segurança tributário. Noções gerais Conceitualmente, o mandado de segurança é o remédio constitucional para a defesa de direito líquido e certo que fora lesado ou esteja ameaçado de lesão por ato de autoridade pública ou por particular no exercício de função pública. Possui previsão no art. 5º, incisos LXIX e LXX, da Constituição Federal e, no plano infraconstitucional, é disciplinado pela Lei nº 12.016 de 2009. Em que: Impetrante É o autor do mandado de segurança. Autoridade coatora É a autoridade responsável pela prática do ato alegadamente lesivo ou em vias de ser praticado. Direito líquido e certo Direito líquido e certo é o direito passível de demonstração por meio de prova documental pré-constituída, cabendo ao impetrante instruir sua petição inicial com os elementos de convicção suficientes a demonstrar a existência e extensão de seu direito. Em outras palavras, o mandado de segurança é ação que não admite dilação probatória. Na hipótese em que os documentos necessários à prova das alegações do impetrante se encontrarem em repartição ou estabelecimento público ou em poder de autoridade que se recuse a fornecê-lo por certidão ou terceiros, pelo art. 6º, § 1º, da Lei nº 12.016 de 2009, o juiz ordenará, preliminarmente, por ofício, a exibição desse documento em original ou em cópia autêntica e marcará, para o cumprimento da ordem, o prazo de 10 dias. A ausência de provas acerca do direito líquido e certo alegadamente titularizado pelo impetrante enseja a extinção do mandado de segurança sem resolução do mérito, considerando que a prova do direito líquido e certo é um pressuposto processual específico do writ (GRECO, 2015, p. 238). Prazo O mandado de segurança, pelo art. 23 da Lei nº 12.016 de 2009, deve ser impetrado no prazo de 120 dias, a contar da ciência do ato impugnado. O STF, em sua súmula 632, pacificou entendimento no sentido da constitucionalidade da fixação de prazo para a impetração de mandado de segurança. Quanto à sua natureza jurídica, o prazo para impetração de mandado de segurança possui natureza decadencial, razão pela qual, uma vez iniciado, não se suspende nem se interrompe e, uma vez exaurido, extingue o direito à impetração. Segundo entendimento do STJ, caso o término do prazo para impetração ocorra em dia não útil, em nome do direito de acesso à justiça, ele será prorrogado para o primeiro dia útil seguinte (AgInt no MS 22.654/DF, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 10/08/2016, DJe 18/08/2016). Em se tratando de mandado de segurança impetrado em face de ato omissivo, o prazo para impetração será contado a partir do momento em que esgotado o prazo legalmente previsto para atuação da autoridade. Caso não exista previsão de prazo para a prática do ato, o mandado de segurança poderá ser proposto demonstrando-se que a omissão se tornou lesiva dentro dos 120 dias pretéritos (RODRIGUES, 2020, p. 273). Atos passíveis de mandado de segurança O mandado de segurança é instrumento para que sejam impugnados atos de autoridade pública ou de particular investido no exercício de função pública. Concernente à matéria tributária, podemos citar como exemplos: Primeira espécie Tem-se o caso do ato de lançamento tributário. Segunda espécie Atos de cobrança de contribuições devidas aos serviços sociais autônomos, cujas contribuições possuem natureza tributária em razão do disposto no art. 149 da Constituição Federal. Alguns atos de autoridade em espécie ensejam tratamento próprio, para fins da análise do cabimento de mandado de segurança. O primeiro deles é o ato de autoridade que nega o direito à repetição de indébito. Nesse caso, o cabimento de mandado de segurança é afastado pela súmula 269 do STF, segundo a qual o mandado de segurança não é substituto de ação de cobrança. No que tange à compensação tributária, o mandado de segurança pode ser utilizado: Para declarar o direito à compensação tributária, a ser buscada administrativamente pelo sujeito passivo (nesse sentido, inclusive, é a redação da súmula 213 do STJ). Para que a autoridade coatora seja compelida a promover a compensação, hipótese em que o sujeito passivo deve instruir sua petição inicial com documentos que comprovem os valores indevidamente recolhidos (nessa linha, REsp 1365095/SP, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 13/02/2019, DJe 11/03/2019, decidido em sede de recursos repetitivos). Em relação às leis tributárias, deve-seatentar para a redação da súmula 266 do STF, segundo a qual não cabe mandado de segurança em face de lei em tese (ou seja, lei dotada de generalidade e abstração). Isso porque, em tal hipótese, o mandado de segurança atuaria como substituto de ação de controle concentrado de constitucionalidade. Por sua vez, acerca das leis de efeitos concretos, o mandado de segurança é via adequada para sua impugnação, com vistas à obtenção de sua declaração incidental de inconstitucionalidade (e.g., lei concessiva de isenção a contribuinte em específico). Legitimidade para o mandado de segurança Legitimidade ativa e passiva Compreenda a seguir a legitimidade ativa e passiva no mandado de segurança. Em razão de sua natureza de remédio constitucional, o mandado de segurança possui legitimidade ampla, à luz do art. 5º, inciso LXIX, da Constituição Federal e do art. 1º da Lei nº 12.016 de 2009: Qualquer pessoa física ou jurídica é parte legítima para impetrar mandado de segurança. Da mesma forma, pessoas jurídicas de direito público e órgãos públicos despersonalizados, desde que, nesse último caso, possuam status constitucional, são igualmente legitimados à propositura de mandado de segurança. Quanto à legitimidade passiva, prevalece em doutrina e jurisprudência o entendimento segundo o qual o polo passivo do mandado de segurança deve ser ocupado pela pessoa jurídica em relação à qual a autoridade coatora integra (a título de exemplo, em sede doutrinária, FIGUEIREDO, 2004, p. 374; e, em sede jurisprudencial, REsp 729.658/PA, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 04/09/2007, DJ 22/10/2007, p. 192). A autoridade coatora não é parte no mandado de segurança, conforme entendimento majoritário em doutrina e jurisprudência, mas deve ser notificada para apresentar informações, nos termos do art. 7º, inciso I, da Lei nº 12.016 de 2009, e é parte legítima a interpor recurso em face da sentença concessiva ou denegatória do mandado de segurança, como estabelece o art. 14, § 2º, da Lei nº 12.016 de 2009. autoridade coatora A autoridade coatora, pelo art. 6º, § 3º, da Lei nº 12.016 de 2009, é a autoridade que tenha praticado o ato impugnado ou da qual emane a ordem para a sua prática. Trata-se, com efeito, do agente público ou privado no exercício de função pública responsável pela ocorrência do ato impugnado ou que dá ensejo à omissão para sua prática, possuindo poder decisório a seu respeito. A errônea indicação da autoridade coatora, como regra, não enseja a extinção do mandado de segurança sem resolução do mérito. Com efeito, na hipótese, duas providências poderão possivelmente ser adotadas: Aplicação da teoria da encampação Determinação de emenda da petição inicial A emenda da petição inicial no mandado de segurança deve ser determinada pelo magistrado se, quando da admissibilidade da petição inicial, for constatado que o impetrante apontou erroneamente a autoridade coatora, sendo a autoridade responsável pelo ato impugnado integrante da mesma pessoa jurídica. Em tal caso, pelo art. 321 do CPC, o juízo deve indicar precisamente a autoridade coatora correta, para que o impetrante corrija a peça inaugural do writ. A aplicação da teoria da encampação, pela súmula 628 do STJ, é aplicada no mandado de segurança quando presentes, cumulativamente, os seguintes requisitos: Manifestação a respeito do mérito nas informações prestadas. Ausência de modificação de competência estabelecida na Constituição Federal. Existência de vínculo hierárquico entre a autoridade que prestou informações e a que ordenou a prática do ato impugnado. Preenchidos tais requisitos, a autoridade que prestou as informações “encampa” o ato impugnado, embora não tenha sido a responsável pela sua prática, manifestando-se acerca de seu mérito. Caso não haja modificação de competência estabelecida na Constituição Federal ou, ainda, da competência originária dos Tribunais de Justiça, como já reconhecido pelo STJ em alguns julgados (a título de exemplo REsp 1656756/MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 25/04/2017, DJe 05/05/2017), será possível a aplicação da referida teoria. Procedimento Liminar em mandado de segurança A liminar em mandado de segurança é prevista no art. 7º, inciso II, da Lei nº 12.016 de 2009, permitindo a sua concessão para suspensão do ato impugnado quando houver fundamento relevante e do ato impugnado puder resultar a ineficácia da medida, caso seja finalmente deferida, sendo facultado exigir do impetrante caução, fiança ou depósito com o objetivo de assegurar o ressarcimento à pessoa jurídica. Duas considerações são pertinentes aqui: Embora a lei mencione somente a possibilidade de suspensão do ato impugnado, a liminar em mandado de segurança poderá ter conteúdo cautelar ou antecipatório dos efeitos da tutela final, aplicando-se, pois, o art. 301 do CPC, que reconhece o poder geral de cautelar do magistrado (nessa linha, ARAÚJO, 2010, p. 93-94). O art. 7º, § 2º, da Lei nº 12.016 de 2009 estabelecia restrições à concessão de medida liminar em mandado de segurança. O STF, na ADI 4296 (acórdão pendente de publicação), declarou a inconstitucionalidade do dispositivo. Em matéria tributária, havia a previsão expressa de vedação à concessão de liminar para compensação de créditos tributários, que igualmente consta da súmula 212 do STJ. Regras procedimentais O procedimento do mandado de segurança, considerando sua natureza de procedimento especial com vistas à obtenção de tutela célere em face de atos de autoridade, é bastante simplificado. Passemos em revista aos principais pontos de destaque sobre o procedimento. Estando em ordem a petição inicial, pelo art. 7º da Lei nº 12.016 de 2009, o juízo deverá ordenar que: Inciso IInciso III Dê ciência do feito ao órgão de representação judicial da pessoa jurídica interessada, enviando-lhe cópia da inicial sem documentos para que, querendo, ingresse no feito. Se notifique o coator do conteúdo da petição inicial, enviando-lhe a segunda via apresentada com as cópias dos documentos, a fim de que, no prazo de 10 (dez) dias, preste as informações.Inciso III Dê ciência do feito ao órgão de representação judicial da pessoa jurídica interessada, enviando-lhe cópia da inicial sem documentos para que, querendo, ingresse no feito. Inciso III Dê ciência do feito ao órgão de representação judicial da pessoa jurídica interessada, enviando-lhe cópia da inicial sem documentos para que, querendo, ingresse no feito. Se os requisitos para concessão de liminar se apresentarem, os quais foram vistos ao se tratar da liminar em mandado de segurança, o juiz deverá conceder igualmente a tutela de urgência, como prevê o inciso II do art. 7º da Lei nº 12.016 de 2009. A decisão concessiva ou denegatória de liminar é impugnável por agravo de instrumento (art. 7º, § 1º, da Lei nº 12.016 de 2009). As informações prestadas pela autoridade coatora se destinam a trazer esclarecimentos ao juízo acerca dos fatos narrados pelo impetrante em sua petição inicial. Tanto que a ausência de informações não enseja a decretação de revelia da pessoa jurídica, até mesmo porque a autoridade coatora não é parte no mandado de segurança. A ciência do feito ao órgão de representação judicial da pessoa jurídica interessada para, querendo, ingressar no feito, destina-se a permitir à advocacia (pública ou privada) a oportunidade de trazer argumentos de defesa em prol do ato impugnado. Processualmente, essa ciência se dá por meio de intimação. Sentença e acórdão de julgamento Após adotadas as providências citadas, será aberta vista ao Ministério Público para, querendo, apresentar parecer, como dispõe o art. 12 da Lei nº 12.016 de 2009 e, após, pelo parágrafo único do art., o processo será concluso ao juízo ou ao órgão colegiado para proferir sentença ou acórdão, a depender de o mandado de segurança tramitar em primeiro ou segundo grau de jurisdição. A sentença, denegatória ou concessiva da segurança, é recorrível por meio de apelação, como deixa claro o art. 14 da Lei nº 12.016 de 2009. A sentença concessivaestá sujeita ao reexame necessário, como estabelece o art. 14, § 1º, da Lei nº 12.016 de 2009. Pelo art. 19 da Lei nº 12.016 de 2009, a sentença ou o acórdão que denegar mandado de segurança, sem decidir o mérito, não impedirá que o requerente, por ação própria, pleiteie os seus direitos e os respectivos efeitos patrimoniais. Em se tratando de mandado de segurança de competência originária de Tribunal, a decisão final poderá ser impugnada por meio de recurso ordinário, nas hipóteses previstas nos arts. 102, II, “b” e 105, II, “b”, da Constituição Federal ou, ainda, por meio de recurso especial e extraordinário, nos casos elencados nos arts. 102, III, e 105, III, da Constituição Federal. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Aplicando o conhecimento Você conhece o mandado de segurança em matéria tributária? Para entendermos melhor, vamos analisar o caso concreto a seguir. Hortaliças Felizes Ltda., sociedade limitada atuante na comercialização de hortifrutigranjeiros, viu lançado em seu desfavor auto de infração lavrado pela Secretaria de Estado da Fazenda do Estado X. Segundo indicado na autuação, a Hortaliças Felizes deixou de recolher ICMS devido a título de substituto tributário, motivo pelo qual o Fisco pretende agora cobrar o imposto e multas (moratória e de ofício). A autuação causou estranheza a João, sócio-administrador da Hortaliças Felizes, pois seu contador havia informado que as operações questionadas pela fazenda estadual estavam isentas de impostos. Por tal motivo, após consultar advogado especializado na área, a empresa impetrou mandado de segurança com pedido de liminar contra a ação do auditor-chefe da receita estadual. A liminar foi indeferida pelo Juízo da 1º Vara de Fazenda Pública da Comarca da capital, que entendeu não haver periculum in mora na hipótese. A Hortaliças Felizes não recorreu de tal decisão para evitar o pagamento das custas para interposição de recurso. Ocorre que, no curso do processo e diante do decurso do prazo para pagamento voluntário dos valores exigidos, o estado X inscreveu a Hortaliças Felizes em dívida ativa, lavrando a respectiva certidão de inscrição. Esse fato causou preocupação em João, sócio administrador da Hortaliças Felizes, pois a empresa é participante de diversos procedimentos licitatórios para fornecimento de alimentos e a existência de apontamentos pode prejudicar sua regularidade fiscal, impedindo sua participação nos procedimentos vindouros. Dessa forma, João entrou em contato com o advogado da Hortaliças Felizes, indagando ao patrono qual seria a medida processual mais adequada para manter a regularidade fiscal da empresa, não prejudicando sua futura participação em licitações. Consignação em pagamento Ao fim deste módulo, você será capaz de identificar os requisitos da consignação em pagamento e seu procedimento. Ação de consignação em pagamento A ação de consignação em pagamento, disciplinada pelo art. 164 do CTN, é a ação antiexacional destinada às hipóteses previstas no Código Tributário Nacional em que há recusa do ente tributante em receber a importância devida ou existe incerteza acerca da titularidade do crédito tributário. A consignação em pagamento é a forma de extinção do crédito tributário, como prevê o art. 156, inciso VIII, do CTN. Cabimento Compreenda a seguir o cabimento da ação de consignação em pagamento no direito tributário. O rol de cabimento da ação de consignação em pagamento é elencado no art. 164 do CTN, apresentando as hipóteses: Inciso I De recusa de recebimento, ou subordinação deste ao pagamento de outro tributo ou de penalidade, ou ao cumprimento de obrigação acessória. Inciso II De subordinação do recebimento ao cumprimento de exigências administrativas sem fundamento legal. Inciso III De exigência, por mais de uma pessoa jurídica de direito público, de tributo idêntico sobre um mesmo fato gerador. Em tais casos, o sujeito passivo, com vistas a se exonerar dos eventuais encargos moratórios, pode consignar a importância devida em juízo. Em razão da literalidade do art. 164 do CTN, a consignação extrajudicial, prevista no art. 539, § 1º, do CPC, resta afastada. Segundo o art. 164, § 1º, do CTN, a consignação só pode versar sobre o crédito que o consignante se propõe a pagar. Assim, quaisquer outras pretensões do sujeito passivo deverão ser manejadas por meio de ação própria (e.g., obter o reconhecimento de que o débito possui valor menor do que o que está sendo cobrado pelo Fisco). Nessa linha, podemos trazer o posicionamento consolidado do STJ: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO. DISCUSSÃO ACERCA DO DÉBITO TRIBUTÁRIO E POSSIBILIDADE DE PARCELAMENTO. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. PRECEDENTES. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. É pacífico o entendimento desta Corte Superior no sentido de que a ação de consignação em pagamento é via inadequada para forçar a concessão de parcelamento e discutir a exigibilidade e a extensão do crédito tributário (precedentes citados: AgRg no Ag 1.285.916/RS, Rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe 15.10.2010; AgRg no REsp 996.890/SP, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe 13.3.2009; REsp 1.020.982/RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe 3.2.2009; AgRg no Ag 811.147/RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ 29.3.2007). 2. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no REsp 1270034/RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 23/10/2012, DJe 06/11/2012) PROCESSUAL CIVIL. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. PROCESSO CIVIL. TRIBUTÁRIO. AÇÃO DE CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO. NATUREZA E FINALIDADE. UTILIZAÇÃO PARA OBTER PROVIMENTO DE CARÁTER CONSTITUTIVO, MODIFICATIVO DO PRAZO DA OBRIGAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. 1. A falta de prequestionamento da questão federal impede o conhecimento do recurso especial. 2. O depósito em consignação é modo de extinção da obrigação, com força de pagamento, e a correspondente ação consignatória tem por finalidade ver atendido o direito – material – do devedor de liberar-se da obrigação e de obter quitação. Trata-se de ação eminentemente declaratória: declara-se que o depósito oferecido liberou o autor da respectiva obrigação. 3. Sendo a intenção do devedor, no caso concreto, não a de pagar o tributo, no montante que entende devido, mas sim a de obter moratória, por meio de parcelamento em 240 meses, é inviável a utilização da via consignatória, que não se presta à obtenção de provimento constitutivo, modificador de um dos elementos conformadores da obrigação (prazo). 4. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no Ag 811.147/RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, DJ 29.3.2007) Há um consenso alargado no Superior Tribunal de Justiça no sentido de ser inadequada a via da ação consignatória para forçar a concessão de parcelamento e discutir a exigibilidade e a extensão do crédito tributário. Procedimento O procedimento da ação de consignação em pagamento é disciplinado, no que couber, pelas disposições do CPC acerca do procedimento especial da consignação em pagamento, presentes nos arts. 539 a 549 do Código de Processo Civil. Assim, pelo art. 542 do CPC, cabe ao autor da ação de consignação requerer o depósito da quantia devida, a ser efetivado no prazo de 5 dias contados do deferimento, e a citação do réu para levantar o depósito ou oferecer contestação. Conforme o parágrafo único do art. 542, não realizado o depósito no prazo do inciso I, o processo será extinto sem resolução do mérito. O depósito deve ser integral, referente a todo o crédito tributário que está sendo cobrado do sujeito passivo. Em se tratando de consignação fundada no inciso III do art. 164, deverá ser depositado o maior valor que está sendo exigido pelos entes tributantes (nessa linha, (RODRIGUES, 2020, p. 315-317). Em sede jurisprudencial, controverte-se sobre a possibilidade ou não de complementação do depósito caso seja insuficiente. De um lado, há julgados entendendo que, em havendo depósito parcialda quantia devida, a consignação há de ser julgada improcedente. Nesse sentido, podemos ver um julgado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: AÇÃO CONSIGNATÓRIA Depósito do valor que o consignante entende devido – Extinção do crédito tributário até o valor consignado - Insuficiência Acréscimos por conta do consignante: Tratando-se de ação de consignação em pagamento, o autor deposita o montante que entende correto, extinguindo o crédito tributário até esse valor, e respondendo pelos acréscimos, caso o montante seja insuficiente. Controvérsia, em sede judicial, acerca dos limites territoriais dos municípios que tributam, simultaneamente, imóvel de propriedade da autora de ação consignatória Registro imobiliário que possui eficácia erga omnes - Competência tributária do município em que se encontra registrado o imóvel: É competente para a tributação de imóvel cuja localização seja controversa o município apontado na matrícula dobem. (AC 0023854-43.2000.4.01.3400, Desembargador Federal Luciano Tolentino Amaral, TRF1 - Sétima Turma, e-DJF1 14/11/2008 PAG 223) De outro lado, há decisões admitindo a extinção do crédito tributário até o total depositado pelo autor da ação de consignação em pagamento (TJSP; Apelação Cível 9111692-41.2006.8.26.0000; Relator (a): Osvaldo Palotti Junior; Órgão Julgador: 14ª Câmara de Direito Público; F.D. ARUJÁ/SANTA ISABEL - 1. VARA DISTRITAL; Data do Julgamento: 22/09/2011; Data de Registro: 28/09/2011). Pelo art. 164, § 2º, do CTN: Julgada procedente a consignação O pagamento se reputa efetuado e a importância consignada é convertida em renda. Julgada improcedente a consignação no todo ou em parte Cobra-se o crédito acrescido de juros de mora, sem prejuízo das penalidades cabíveis. No caso do julgamento pela improcedência da consignação, os encargos moratórios somente devem incidir em relação à diferença entre o valor devido e o depositado, como já reconhecido pelo STJ em alguns julgados da Corte (nessa linha, AgRg no REsp 1348040/DF, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 27/08/2013, DJe 06/09/2013). Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Aplicando o conhecimento Você conhece a ação de consignação em pagamento? Para entendermos melhor, vamos analisar o caso concreto a seguir. Beatriz é proprietária da Computadores Bons Ltda., pessoa jurídica especializada na criação e comercialização de softwares para computador. Em sua atividade comercial, a Computadores Bons atua tanto no desenvolvimento de programas específicos, elaborados sob encomenda de seus clientes, como na venda de programas criados por outros fornecedores, denominados “softwares de prateleira”. Recentemente, a Secretaria de Fazenda do Estado X lavrou auto de infração em desfavor da Computadores Bons, no qual cobra o ICMS alegadamente devido pela comercialização dos softwares de prateleira. Dois meses depois, a Secretaria Municipal de Fazenda do Município Z, no qual fica a sede da Computadores Bons, lavrou auto de lançamento em face da pessoa jurídica, cobrando ISS em relação à mesma atividade de comercialização de softwares de prateleira. Beatriz, ao se deparar com ambos os autos de infração, ficou bastante confusa, pois seu advogado lhe informara que, segundo decidido pelo STF na ADI 1945, a comercialização de softwares, seja por encomenda, seja de prateleira, está sujeita à incidência de ISS, somente. Por isso, inclusive, é que a Computadores Bons estava recolhendo apenas o ISS, deixando de recolher ICMS, com baixa de sua inscrição estadual. Diante desse cenário, Beatriz retornou ao advogado e solicitou que o patrono adotasse a medida processual cabível. Assim, o advogado ajuizou ação de consignação em pagamento em face do estado X e do município Z, requerendo o depósito do valor exigido pelo município Z, por ser o maior. O juízo deferiu o pedido, porém após a Computadores Bons efetuar o depósito, identificou que esse depósito havia sido inferior ao montante exigido pelo município Z. Assim, intimou a Computadores Bons para complementar esse depósito, o que foi feito. Finda a instrução, o pedido foi julgado procedente. Outras ações de iniciativa do contribuinte Ao fim deste módulo, você será capaz de reconhecer outras ações de iniciativa do contribuinte: ação anulatória, ação declaratória e ação de repetição de indébito. (Módulo 3) Ação anulatória A ação anulatória, no Direito Tributário, pode ter duas finalidades: Buscar a desconstituição de ato praticado no âmbito de procedimento ou processo fiscal. Obter o desfazimento da decisão administrativa que indeferiu o pleito de repetição de indébito formulado pelo contribuinte ou responsável, na forma do art. 169 do CTN. Quanto ao seu procedimento, a ação anulatória segue o procedimento comum do Código de Processo Civil, previsto no art. 318 e seguintes do Código, com as particularidades pertinentes ao processo tributário. Dois pontos acerca da ação anulatória despertam a atenção do intérprete, veja: Conexão entre ação anulatória e execução fiscal Possibilidade de litispendência entre a ação anulatória e os embargos à execução fiscal Considerando que a mera propositura de ação anulatória não suspende a exigibilidade do crédito tributário, é possível que seja ajuizada execução fiscal na pendência do julgamento da ação anulatória. Em tal caso, em razão da conexão, por se tratar de ações que discutem a mesma relação jurídica, deve haver a reunião para julgamento conjunto, com lastro no art. 55, § 1º, do CPC. Com efeito, a reunião de processos não deve ocorrer se um deles já houver sido sentenciado, como estabelece a parte final do art. 55, § 1º, do Código, ou se a reunião importar na alteração de regra de competência absoluta (neste sentido, REsp 1587337/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/05/2016, DJe 01/06/2016). Passemos a analisar a segunda hipótese. É plausível que haja litispendência entre a ação anulatória e os embargos à execução fiscal se houver identidade de partes, causa de pedir e pedido. O CPC, com efeito, adotou a teoria da tríplice identidade, razão pela qual somente se os três elementos das ações forem idênticos é que haverá litispendência, como estabelece o art. 337, § 2º, do CPC. Ação declaratória A ação declaratória, no Direito Tributário, tem como principal serventia o reconhecimento da existência ou inexistência de relação jurídica entre o ente tributante e o sujeito passivo ou, quanto ao primeiro caso, em relação ao conteúdo e limites da relação jurídica existente (e.g., contribuinte busca excluir determinada parte do processo produtivo da base de cálculo do IPI). Quanto ao seu procedimento, a ação declaratória segue o procedimento comum do Código de Processo Civil, previsto no art. 318 e seguintes do Código, com as particularidades pertinentes ao processo tributário. No que tange à sentença na ação declaratória, deve-se fazer breves apontamentos para a hipótese em que é reconhecida a inexistência de relação jurídica tributária. Em tal caso, a eficácia declaratória da sentença faz com que seja igualmente reconhecido como indevido o pagamento feito pelo autor em favor do réu na ação declaratória, podendo, inclusive, promover o cumprimento dessa sentença, com lastro no art. 515, inciso I, do CPC. Anote-se, no ponto, o teor da súmula 461 do STJ, segundo a qual o contribuinte pode optar por receber, por meio de precatório ou por compensação, o indébito tributário certificado por sentença declaratória transitada em julgado. A inexistência de lei disciplinadora da compensação faz com que o autor somente possa receber o indébito tributário por meio de precatório ou, ainda, de requisição de pequeno valor, a depender do montante do crédito. Restituição de tributo indevido Ação de repetição de indébito Principais aspectos Compreenda a seguir sobre o cabimento, o prazo e os principais aspectos da ação de repetição de indébito tributário. A ação de repetição de indébito tem como finalidade a restituição de tributopago indevidamente pelo sujeito passivo, total ou parcialmente. O art. 165 do CTN elenca as hipóteses em que se admite a repetição de indébito tributário, sendo elas as seguintes: Inciso I Cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido. Inciso II Erro na edificação do sujeito passivo, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do débito ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento. Inciso III Reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória. Prazo O art. 168 do CTN disciplina o prazo decadencial para buscar o direito à repetição de indébito. No caso dos incisos I e II do art. 165, o prazo tem início na data da extinção do crédito tributário e, no caso do inciso III do art. 165, da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória. Segundo a súmula 625 do STJ, o pedido administrativo de compensação ou de restituição não interrompe o prazo prescricional para a ação de repetição de indébito tributário de que trata o art. 168 do CTN, nem o da execução de título judicial contra a Fazenda Pública. O art. 169 do CTN prevê prazo específico para a hipótese em que o sujeito passivo busca a repetição de indébito pela via administrativa e o Fisco indefere o pleito. Em tal caso, há o prazo de dois anos para que o ajuizamento de ação anulatória em face da decisão denegatória da restituição. Legitimidade A legitimidade ativa para a ação de repetição de indébito é conferida, como regra, ao sujeito passivo que efetuou o pagamento indevido, como deixa claro o art. 165 do CTN. O art. 166 do CTN disciplina a hipótese dos tributos indiretos, ou seja, aqueles em que há a transferência do respectivo encargo financeiro. Neles, o contribuinte de direito, que é o sujeito passivo à luz da legislação disciplinadora do tributo, transfere a outrem, o contribuinte de fato, o ônus de arcar com a exação (e.g., o comerciante, contribuinte de direito do ICMS, inclui no valor da mercadoria o valor pago a título de imposto, transferindo ao adquirente o encargo de arcar com seu pagamento). Nesse caso, a legitimidade para buscar a repetição do indébito é conferida ao contribuinte de direito e não ao contribuinte de fato, salvo se este for autorizado expressamente por aquele a pleitear a repetição, como estabelece a parte final do art. 166 do CTN. A sentença da ação de repetição de indébito possui natureza condenatória, impondo à Fazenda Pública o dever de efetuar a devolução do valor indevidamente pago pelo autor da demanda. Relembre-se, no ponto, o teor da súmula 461 do STJ, segundo a qual o contribuinte pode optar por receber, por meio de precatório ou por compensação, o indébito tributário certificado por sentença declaratória transitada em julgado. O STJ possui julgados admitindo a possibilidade de compensação do indébito tributário, a despeito da inexistência de lei disciplinadora da compensação naquele ente (nessa linha, REsp 1114404/MG, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 10/02/2010, DJe 01/03/2010). Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Aplicando o conhecimento Você conhece as outras ações antiexacionais? Para entendermos melhor, vamos analisar o caso concreto a seguir. Juliano é servidor público efetivo integrante dos quadros do município Alfa. Por erro da fonte pagadora, durante dois anos, o município supostamente reteve a menos na fonte o imposto de renda devido por Juliano em razão da percepção de seus rendimentos. Após identificar a retenção menor, o município instaurou processo administrativo tributário, o qual culminou com a lavratura de auto de lançamento, com vistas a cobrança das diferenças apuradas pelo Fisco municipal. Juliano, todavia, não efetuou o pagamento no prazo concedido para pagamento voluntário após findo o processo administrativo tributário. Por isso, o município Alfa ajuizou execução fiscal em face de Juliano, distribuída à 1ª Vara de Feitos Tributários do Município Alfa. Inconformado, Juliano ajuizou ação anulatória e dois dias depois ofertou embargos à execução fiscal, nos quais alegou o acerto dos valores retidos pela fonte pagadora, requerendo a anulação do auto de lançamento nos dois processos. Após tomar ciência da existência de ambas as ações, o juízo determinou a reunião da ação anulatória para tramitação conjunta com a execução fiscal e os embargos. Ressalte-se que o juízo é competente para apreciar ambos os processos, à luz das regras de organização judiciária do estado Beta, no qual está situado o município Alfa. Finda a instrução processual, o juízo extinguiu os embargos à execução fiscal em razão de litispendência, argumentando que a ação anulatória, por ter sido ajuizada anteriormente e possuir as mesmas partes, o mesmo pedido e a mesma causa de pedir, induziu litispendência em relação aos embargos à execução fiscal. Além disso, o juízo julgou procedente a ação anulatória, condenando o município Alfa nos encargos de sucumbência. Considerações finais Neste conteúdo, vimos um panorama acerca das ações antiexacionais em nosso Direito. Inicialmente, o foco foi o mandado de segurança em matéria tributária, ação antiexacional de suma importância, especialmente diante de suas particularidades e da interpretação da jurisprudência acerca de seu cabimento. Posteriormente, voltamos nossas atenções ao estudo da ação de consignação em pagamento, ação que possui significativa relevância, em especial diante de alguns conflitos de competência tributária, tais como na incidência de ICMS ou ISS na venda de produtos por farmácias de manipulação, na discussão envolvendo o conflito entre IPTU e ITR quanto a imóveis rurais situados em áreas urbanas, dentre outros. Por fim, nosso foco esteve nas demais ações antiexacionais, exemplificativamente a ação declaratória – voltada à declaração de existência ou inexistência de relação jurídica tributária –, a ação anulatória e a ação de repetição de indébito. Vimos controvérsias importantes, tais como o cabimento da ação anulatória e o prazo decadencial para a propositura da ação de repetição de indébito tributário. Com isso, bem compreendidas as premissas aqui apresentadas, você será capaz de enfrentar as discussões relacionadas às ações antiexacionais em espécie.Koehler (2008), porém, aponta que alguns critérios podem ser utilizados: · A complexidade do litígio. · A conduta pessoal da parte lesada. · A conduta das autoridades envolvidas no processo. · O interesse em jogo para o demandante da indenização. · As margens ordinárias de duração dos litígios do mesmo tipo daquele em que ocorreu a suposta demora irrazoável. Inafastabilidade do controle jurisdicional (art. 5º, XXXV, CF) A inafastabilidade do controle jurisdicional estabelece a vedação de que a lesão ou a ameaça de lesão a direitos seja excluída do rol de apreciações do Poder Judiciário. Ela também é denominada por parte relevante da doutrina e da jurisprudência como princípio da inafastabilidade de jurisdição ou direito de acesso à justiça. Dessa sorte, não é possível que a lei ou qualquer ato normativo estabeleça hipóteses em que a lesão ou a ameaça de lesão não possa ser submetida ao crivo do Poder Judiciário, sob pena de ofensa a esse direito fundamental. Na quadra atual de desenvolvimento da processualística, o princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional, contudo, é tratado como um mero direito de ingresso no Poder Judiciário. Como garantia essencial da dignidade da pessoa humana, ele é, desse modo, um direito de acesso a uma prestação jurisdicional justa e efetiva (RODRIGUES, 2014). Princípio da motivação Na Constituição, a motivação das decisões é prevista no artigo 93, IX, para as decisões administrativas e judiciais dos órgãos do Poder Judiciário. Já no plano infraconstitucional federal, o artigo 2º da Lei nº 9.784/1999 prevê a motivação como princípio reitor do processo administrativo. A motivação é um princípio importantíssimo no estado democrático de direito, servindo como verdadeira garantia das partes em face do autoritarismo. Trata-se ainda de mecanismo relevante para o controle e a revisão das decisões, permitindo que a parte afetada pela decisão saiba as razões que conduziram o julgador a seguir aquele entendimento, bem como que o órgão superior verifique o acerto do mencionado entendimento. Princípios constitucionais da administração Princípios constitucionais da Administração e o processo administrativo Impessoalidade (art. 37, CF) Sob a atuação da Administração Pública, o princípio da impessoalidade pode ser considerado como a projeção do princípio da isonomia elencado no artigo 5º da Constituição. Ele configura a exigência de que administrados em idêntica situação sejam tratados de forma igual, sendo vedada a concessão de privilégios em prol de uns e em detrimento de outros. Moralidade (art. 37, caput, CF) Tal princípio é muito próximo do princípio da impessoalidade: pode-se dizer até que o princípio da moralidade seja uma projeção da impessoalidade. Ele impõe ao administrador público o dever de atuação lastreado na ética com probidade e honestidade. Dica O princípio da moralidade é de suma importância como fator de limitação para a discricionariedade administrativa e de análise da conformidade das escolhas baseadas na conveniência e na oportunidade do administrador público. Publicidade (art. 37, CF) Para o princípio da publicidade, como premissa, os atos administrativos devem ser públicos, de livre acesso a todo e qualquer administrado, à exceção das hipóteses em que a publicidade, fundada em princípios de igual relevância, pode ser restringida. No âmbito do processo administrativo tributário, esse princípio possui alguma tensão com o direito fundamental à intimidade constante do artigo 5º, XI, da CF, considerando o dever de proteção ao sigilo fiscal. Em seu artigo 198, o Código Tributário Nacional (CTN) consagra o sigilo fiscal no plano infraconstitucional. Desse modo, o CTN veda a divulgação, pela Administração Pública, de informação sobre: A situação econômica ou financeira do sujeito passivo ou de terceiros. A natureza e o estado de seus negócios ou atividades. O §1º do mesmo artigo, por sua vez, veicula duas flexibilizações do sigilo fiscal em sede de processo administrativo: Requisição de autoridade judiciária no interesse da justiça (inciso I). Solicitações de autoridade administrativa no interesse da Administração Pública, desde que seja comprovada a instauração regular de processo administrativo, no órgão ou na entidade respectiva, com o objetivo de investigar o sujeito passivo a que se refere a informação por prática de infração administrativa (inciso II). Legalidade/juridicidade(art. 37, caput, CF) Em sua acepção clássica – forjada a partir das revoluções liberais do fim do século XVIII e começo do século XIX, além de ser significativamente inspirado na ideia de supremacia do parlamento –, o princípio da legalidade é visto como uma vinculação positiva da Administração Pública à lei: só lhe é dado fazer aquilo que a lei, como um produto da vontade do povo, determina ou autoriza que seja realizado. Ao longo da segunda metade do século passado, notadamente após o reconhecimento da força normativa da Constituição, o princípio da legalidade ganhou um novo viés, adotando como premissa a ideia de que não apenas a lei, em sentido formal, oferece normas de ação para a Administração Pública, como também o Texto Constitucional. Desse modo, o princípio da legalidade passou a ser considerado a juridicidade administrativa, englobando o ordenamento jurídico em sua integralidade – e não apenas a lei. Eficiência Como princípio reitor da atividade administrativa, a eficiência foi introduzida pela EC nº 19/1998, que alterou o caput do artigo 37 da CF nesse ponto. Em que pese alguma oscilação quanto a seu significado, esse princípio pode ser traduzido como a exigência de que a Administração Pública passe a focar a obtenção dos melhores resultados com os menores custos possíveis. Trata-se, com efeito, de um corolário do modelo de administração pública que se busca implementar no Brasil desde meados da década de 1990: a Administração Pública gerencial. Em substituição ao modelo burocrático, esse tipo de administração, focado no procedimentalismo e na obediência irrestrita às formas prescritas, tem perdurado em nosso país durante décadas. A eficiência, assim, busca superar aquele antigo modelo. Princípio do formalismo moderado O cumprimento de formalidades é importante para o respeito à isonomia e ao devido processo legal. Contudo, as formas precisam ser instrumentais e não existir isoladamente, desprezando a efetividade do direito material e da própria tutela processual. Nesse contexto, surge o princípio do formalismo moderado, que como já dissemos, que visa impedir que minúcias e pormenores não essenciais afastem a compreensão da verdadeira finalidade da atuação da Administração Pública (MEDAUAR, 2018). Processo administrativo tributário Veja a seguir o significado do processo administrativo tributário e seus princípios mais importantes. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Ampliando o conhecimento Você conhece o processo administrativo tributário? Tem conhecimento dos princípios aplicáveis a esse processo? Entenda melhor a partir do caso a seguir. Maria recebeu notificação de auto de infração, lavrado pela Secretaria de Estado de Fazenda do Estado X, que está cobrando Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) referente aos bens deixados por João, seu falecido marido, e multa. Isso porque, segundo narrado no auto, Maria não teria declarado dois imóveis de propriedade comum com João, localizados no Estado X, reduzindo o valor do imposto de transmissão devido em razão do óbito de João. A descoberta da omissão de declaração ocorreu porque Pedro, auditor fiscal da Receita Federal e desafeto de João, acessou indevidamente a base de dados do órgão fazendário federal, extraiu a declaração anual apresentada por João no ano de seu falecimento, com violação de seu dever funcional de sigilo, e a protocolou na Secretaria de Fazenda do Estado X, com o intuito de prejudicar Maria. Inconformada, Maria ofertou impugnação ao auto de infração. Nessa impugnação, ela sustentou que,antes mesmo do protocolo da Declaração de Imposto de Renda de João na Secretaria de Fazenda do Estado X, havia retificado a declaração de bens apresentada, incluindo os dois imóveis objeto do auto de infração, e recolhido a diferença de imposto apurada, para permitir a rápida transferência formal dos bens no registro de imóveis competente. Também registrou a ilicitude do protocolo da Declaração de Imposto de Renda de João na Secretaria de Estado de Fazenda X, por violação ao sigilo fiscal. Para provar suas alegações, Maria efetuou a juntada da declaração retificada, assim como o comprovante de pagamento da diferença de Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação. Ainda, Maria não se fez representar por advogado na esfera administrativa, por entender que a questão controvertida era simples, não justificando os custos com a contratação de causídico. A Junta de Revisão Fiscal, entretanto, não conheceu da impugnação, entendendo que a assistência por advogado era obrigatória, sem facultar prazo à Maria para constituir patrono. Exercendo a autotutela, a Junta considerou não haver qualquer irregularidade na lavratura do auto de infração, mantendo-o em sua integralidade. MODULO 2 Processo administrativo tributário federal Ao final deste módulo, você será capaz de identificar as principais características do processo administrativo tributário. Aspectos gerais Noções gerais do contencioso administrativo tributário federal O contencioso administrativo tributário federal é regulamentado, em grande parte, pelo disposto na primeira parte do Decreto nº 70.235/1972. A segunda parte desse decreto se destina a cuidar precipuamente do processo de consulta, o qual, não possuindo natureza contenciosa, será objeto de breves considerações mais adiante. O Decreto nº 70.235/1972 foi editado sob a égide da Constituição de 1967-1969 com base no artigo 2º do Decreto-Lei nº 822/1969, que delegou ao Poder Executivo Federal a atribuição de disciplinar o processo administrativo de determinação e a exigência de créditos tributários federais, penalidades, empréstimos compulsórios e o de consulta. Ele possui, assim, natureza jurídica de lei ordinária, razão pela qual eventuais alterações que venha a sofrer devem ser feitas mediante um instrumento legal de hierarquia idêntica, como, aliás, já decidiu o Superior Tribunal de Justiça (STJ) no REsp 877.352/SP. Procedimento inicial Procedimento inicial do processo administrativo tributário Fase de instauração No âmbito federal, o processo administrativo tributário tem início com a impugnação da exigência ofertada pelo sujeito passivo (art. 14 do Decreto nº 70.235/1972). Vale destacar que a impugnação deve ser ofertada por escrito a fim de preservar a fidelidade das alegações do sujeito passivo (art. 15). Em função da formalidade do processo administrativo, isso permitirá o controle posterior se a Administração Pública estiver analisando aquilo que realmente for objeto de alegação pelo contribuinte, explica Rodrigues (2020). A exigência pode ser materializada por meio de: · Lavratura de auto de infração (disciplinado pelo artigo 10 do decreto): Utilizado para as hipóteses em que ocorre a imposição de penalidade ao sujeito passivo, cumulada ou não com a cobrança do tributo. · Notificação de lançamento (regida por seu artigo 11): É reservada somente à cobrança de tributo. Vale a menção a uma súmula do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). Dotada de eficácia vinculante, a Súmula CARF nº 21 dispõe que é “nula, por vício formal, a notificação de lançamento que não contenha a identificação da autoridade que a expediu” (BRASIL, 2010). Já os requisitos da impugnação estão elencados em três incisos do artigo 16 do Decreto nº 70.235/1972: · A indicação à autoridade julgadora a quem é dirigida (inciso I). · A qualificação do impugnante (II). · Os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir (III). O §4º do dispositivo, por sua vez, estabelece que a prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazê-lo em outro momento processual, a menos que: · Fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna por motivo de força maior (alínea “a”). · Refira-se a fato ou a direito superveniente ( “b”). · Destine-se a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos (“c”). A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora mediante petição na qual se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior (art. 16, §5º, do Decreto nº 70.235/1972). ‘’IV – as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. V – Se a matéria impugnada foi submetida à apreciação judicial, devendo ser juntada cópia da petição. (BRASIL, 1972, art. 16) Essa exigência do inciso V decorre do artigo 38, parágrafo único, da Lei de Execução Fiscal (Lei nº 6.830/1980), que estabelece a renúncia à instância administrativa na hipótese em que o contribuinte propõe ação judicial em relação aos mesmos fatos que constituem objeto de impugnação pelo sujeito passivo. No mesmo sentido, a Súmula CARF nº 1 dispõe que: ‘’Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. (BRASIL, 2010) No Decreto nº 70.235/1972, o §1º do artigo 16 estabelece a não formulação do pedido de diligência ou de perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no mencionado inciso IV. Por força do artigo 17, será considerada não impugnada a matéria que não houver sido expressamente contestada pelo impugnante, algo bastante parecido com a regra da eventualidade prevista para a contestação no artigo 341 do CPC. Essa regra ainda decorre da presunção de veracidade e legalidade dos atos administrativos, isto é, tal presunção não será maculada se o contribuinte não a atacar em sede de impugnação (RODRIGUES, 2020). Já o artigo 18 estabelece que a autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis. O §1º desse artigo ainda prevê que, deferido o pedido de perícia ou determinada de ofício a sua realização, a autoridade designará um servidor para, como perito da União, a ela proceder e intimará o perito do sujeito passivo a realizar o exame requerido, cabendo a ambos a apresentação dos respectivos laudos em prazo a ser fixado segundo o grau de complexidade dos trabalhos a serem executados. Por fim, deve-se destacar a disciplina atinente às intimações no âmbito do processo administrativo fiscal. Prevista no artigo 23 do decreto, ela será realizada da seguinte forma: ‘’I – pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; II – por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo. (BRASIL, 1972, art. 23) Destacamos, nesse ponto, a redação da Súmula CARF nº 9. Ela prevê que: É válida a ciência da notificação por via postal realizada no domicílio fiscal eleito pelo contribuinte, confirmada com a assinatura do recebedor da correspondência, ainda que este não seja o representante legal do destinatário. (BRASIL, 2010) Já o Decreto nº 70.235 informa que essa notificação também pode ser feita: ‘’III –por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante: a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. (BRASIL, 1972, art. 23) Procedimento decisório Procedimento decisório do processo administrativo tributário Fase de julgamento A competência para julgamento das impugnações em primeira instância é atribuída às Delegacias da Receita Federal de Julgamento (DRJ) nos termos do artigo 25, inciso I, do Decreto nº 70.235/1972. A Súmula CARF nº 102 afirma que é “válida a decisão proferida por Delegacia da Receita Federal de Julgamento – DRJ de localidade diversa do domicílio fiscal do sujeito passivo” (BRASIL, 2018). Já o artigo 27 do Decreto nº 70.235/1972 prevê que os processos remetidos para apreciação da autoridade julgadora de primeira instância deverão ser qualificados e identificados, tendo prioridade no julgamento aqueles em que estiverem presentes as circunstâncias de crime contra a ordem tributária ou de elevado valor (definido em ato do ministro de Estado da Fazenda). O dispositivo precisa ser lido em conjunto com o artigo 62 do Decreto nº 7.574/2011, que confere prioridade de julgamento aos processos elencados nessa instância. Em acréscimo, o artigo 27, parágrafo único, do Decreto nº 70.235/1972 estabelece que os processos serão julgados na ordem e nos prazos estabelecidos em ato do secretário da Receita Federal, sendo observada a prioridade de que trata o caput. O artigo 29, por sua vez, prevê que, na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. O artigo 31 traz estes elementos da decisão: ‘’[...] relatório resumido do processo, fundamentos legais, conclusão e ordem de intimação, devendo referir-se, expressamente, a todos os autos de infração e notificações de lançamento objeto do processo, bem como às razões de defesa suscitadas pelo impugnante contra todas as exigências. (BRASIL, 1972, art. 23) Já o artigo 28 desse decreto prevê que, na decisão em que uma questão preliminar for julgada, o mérito também o será, salvo quando ambos forem incompatíveis, e que dela constará o indeferimento fundamentado do pedido de diligência ou perícia (se for o caso). Houve a utilização da espécie “questões preliminares” para fazer referência a outro gênero, o das “questões prévias”, que, por sua vez, engloba as questões prejudiciais – e são elas que realmente permitem o julgamento do mérito. Voltemos ao artigo 31 do Decreto nº 70.235/1972. Trazendo os requisitos da decisão, tal artigo prevê que ela tenha de conter: · Relatório resumido do processo · Fundamentos legais · Conclusão · Ordem de intimação Além disso, a decisão precisa referir-se expressamente a todos os autos de infração e notificações de lançamento objeto do processo, bem como a razões de defesa suscitadas pelo impugnante contra todas as exigências. Em face da decisão de primeira instância, a oposição dos embargos de declaração, na forma do artigo 65 do Regimento Interno do CARF, será cabível “quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual deveria pronunciar-se a turma” (BRASIL, 2015). Além disso, por força do artigo 33 do Decreto nº 70.235/1972, caberá recurso voluntário total ou parcial, e com efeito suspensivo, da decisão dentro dos 30 dias seguintes à ciência acerca dela. Essa disposição está em consonância com o artigo 151, III, do CTN, que prevê a suspensão da exigibilidade do crédito tributário em razão de reclamações e recursos nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo. Procedimento recursal Procedimento recursal e coisa julgada Fase recursal O Decreto nº 70.235/1972 consagra o duplo grau de jurisdição – embora, a rigor, a atividade administrativa de julgamento de impugnações não seja atividade jurisdicional – ao permitir a oferta de recurso em face da decisão proferida por conta de sua impugnação. Existe, assim, o direito de obter um segundo provimento a respeito da pretensão do contribuinte. Ainda há uma previsão no artigo 34 do decreto de hipóteses em que a decisão deverá ser submetida obrigatoriamente ao órgão de segundo grau, que, como veremos na sequência, é o CARF. Trata-se de uma sistemática semelhante à do reexame necessário, tendo previsão no artigo 496 do CPC. No artigo 25, II, o Decreto nº 70.235/1972 confere ao CARF a competência para “julgar recursos de ofício e voluntários de decisão de primeira instância, bem como recursos de natureza especial”. O CARF é constituído por seções e pela Câmara Superior de Recursos Fiscais (§1º do artigo 25). Sua organização interna e o julgamento de seus processos constituem uma matéria a ser disciplinada pelo seu Regimento Interno (art. 37), que, por sua vez, é veiculado por meio da Portaria MF nº 343/2015. Caso o CARF dê à lei tributária interpretação divergente daquela dada por outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria Câmara Superior de Recursos Fiscais, caberá um recurso especial para ela no prazo de 15 dias contados da ciência do acórdão (art. 37, caput, e §2º). Atenção! Esse recurso especial tem índole administrativa, compartilhando apenas seu nome com a figura prevista no artigo 105, III, “a”, da CF. Um pedido de reconsideração não será cabível tanto em face da decisão de primeira instância quanto em relação ao acórdão do CARF (artigos 36 e 37, §3º, do decreto). Também existe a previsão de que, no âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedada aos órgãos de julgamento a possibilidade de afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade (art. 26-A). Tal previsão se aplica às três instâncias de julgamento mencionadas e é complementada pela Súmula CARF nº 2: “o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária” (BRASIL, 2010). Essa disposição, porém, é excepcionada pelo §6º, inciso I, do artigo 26-A, que permite ao CARF afastar a aplicação de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo que: · Já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do STF. · Fundamente crédito tributário que seja objeto de: dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do procurador-geral da Fazenda Nacional na forma dos artigos 18 e 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002 (alínea “a”); súmula da Advocacia-Geral da União conforme o artigo 43 da Lei Complementar nº 73/1993 (“b”); ou pareceres do advogado-geral da União aprovados pelo presidente da República na forma do artigo 40 da mesma lei (“c”). “Coisa julgada administrativa” O artigo 42 do Decreto nº 70.235/1972 confere definitividade às decisões finais proferidas em sede de processo administrativo fiscal, impedindo sua revisão no bojo da própria Administração Pública Federal. Trata-se da chamada “coisa julgada administrativa”, que aparece referenciada entre aspas pelo fato de a coisa julgada ser um fenômeno formado em razão da prolação de sentença judicial. Na forma do artigo 5º, XXXV, da CF, a “coisa julgada administrativa” pode ser objeto de revisão pelo Judiciário em função do direito fundamental de acesso à justiça, frisa Rodrigues (2020). Contencioso administrativo tributário federal Veja a seguir informações sobre o contencioso administrativo federal e sua fase de instauração. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Ampliando o conhecimento Você conhece o processo administrativo tributário? Entende como se dá esse processo em âmbito federal? Acompanhe o caso a seguir e compreenda melhor. João é Auditor Fiscal do Estado Beta. Divorciado, João paga mensalmente 25% de seus rendimentos líquidos a título de alimentos em favor de seus dois filhos. Esse valor é retido na fonte pelo Estado Beta e depositado em conta corrente em nome de Paula, sua ex-cônjuge. Todo ano, João lança os valores pagosa título de alimentos em sua Declaração de Imposto de Renda, para deduzir tais valores do imposto devido, conforme permitido pela legislação federal de regência.No ano-calendário de 2023, o Fisco Federal entendeu que João lançou valores em desconformidade com aqueles efetivamente pagos em favor de seus filhos menores, diante de divergência de informações entre aqueles informados por João e por seus filhos, em suas respectivas declarações. Assim, lavrou auto de infração em desfavor de João, com aplicação de multa e cobrança do imposto devido. Inconformado, João apresentou impugnação administrativa, apresentando documentação comprobatória das despesas efetuadas. A referida impugnação foi julgada improcedente, mantendo-se o auto de infração em sua integralidade. João interpôs recurso em face da decisão de improcedência de sua impugnação. Ao julgar o recurso, a Câmara de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais deu interpretação divergente à lei tributária aplicável ao processo de João. Consensualidade Ao final deste módulo, você será capaz de analisar a consensualidade no processo administrativo tributário. Aspectos gerais Noções gerais da consensualidade O processo é um instrumento destinado ao atendimento de interesses legítimos. Tradicionalmente bastante inspirada no conceito de jurisdição formulado a partir das lições dos italianos Francesco Carnelutti (1879-1965) e Giuseppe Chiovenda (1872-1937), a tutela processual – seja ela jurisdicional ou administrativa – foi vista como atingível tão somente a partir de uma decisão que outorgasse à parte que tem razão aquele direito debatido. O processo, portanto, foi forjado em bases contenciosas, isto é, de litígio, nas quais necessariamente um ganha e o outro perde. Ao longo das últimas décadas, porém, tal visão ortodoxa foi sendo paulatinamente revista à medida que ela se via desassociada de preocupações maiores com a efetividade das decisões e a pacificação do conflito. Com efeito, a finalidade última da jurisdição é a pacificação social com justiça, pelo que a solução do conflito não pode ser posta em menor protagonismo em comparação com uma decisão adjudicatória. Nesse contexto – e influenciado pelas denominadas ondas renovatórias da justiça difundidas pelos professores Mauro Cappelletti e Bryant Garth a partir de meados da década de 1980 –, passam a ganhar mais importância os meios consensuais de solução de controvérsias – notadamente, a conciliação, a mediação e a arbitragem. No Brasil, o CPC atual, em seu artigo 3º, §1º, deu um passo bastante alargado para conferir mais prestígio a tais meios de solução de conflitos: estabelecer que o Estado deve promover, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos. Com efeito, existe um verdadeiro poder-dever da administração da justiça em estimular a utilização dos referidos meios. Quanto ao poder público, o uso desses mecanismos sempre suscitou discussões diante do conflito teórico entre o princípio da indisponibilidade do interesse público e a prática dos atos de disposição, que são ínsitas a qualquer meio de autocomposição. A expressão “conflito teórico” se justifica à medida que a indisponibilidade do interesse público não retira do gestor público a eleição dos meios possíveis de concretização de tal interesse, razão pela qual a utilização de um meio não litigioso evidentemente pode ser de grande valia. Assim, em 2015, é editada a Lei nº 13.140/2015, que regulamenta o uso da mediação pela Administração Pública em todos os seus níveis, estabelecendo, entre outras providências, a facultatividade da criação de câmaras de prevenção e a resolução administrativa de conflitos, no âmbito dos respectivos órgãos da Administração Pública, pela União, pelos estados, pelo Distrito Federal e pelos municípios. Nessa lei, o artigo 34, §2º, prevê que a suspensão da prescrição em matéria tributária submetida à mediação precisa observar o disposto no CTN. De forma específica no que tange ao processo administrativo tributário federal, buscando sepultar algumas controvérsias existentes quanto à possibilidade ou não do uso de meios consensuais pela Administração Fazendária, a Lei nº 13.988/2020 é editada com o propósito de disciplinar a utilização da transação pela União, pelas autarquias e pelas fundações públicas, quer para créditos de natureza tributária, quer para aqueles de natureza não tributária. Analisaremos adiante os pontos relevantes dessa lei por conta de sua importância para nosso estudo. Legislação relativa à consensualidade A Lei nº 13.988/2020 A transação tributária federal Aplicável à União, às autarquias e às fundações públicas federais, a Lei nº 13.988/2020 disciplina a “transação resolutiva de litígio relativa à cobrança de créditos da Fazenda Pública, de natureza tributária ou não tributária” (ECONET, 2021). O artigo 2º dessa lei, por sua vez, estabelece as três modalidades de transação admitidas: · Por proposta individual ou por adesão, na cobrança de créditos inscritos na dívida ativa da União, de suas autarquias e fundações públicas, ou na cobrança de créditos que seja competência da Procuradoria-Geral da União (inciso I); · Por adesão, nos demais casos de contencioso judicial ou administrativo tributário (II); · Por adesão, no contencioso tributário de pequeno valor (III). A transação pressupõe concessões mútuas, o que pode ser extraído, a título de exemplo, do artigo 840 do Código Civil. Daí porque o artigo 3º da Lei nº 13.988/2020 prevê que a proposta de transação deva expor os meios para a extinção dos créditos nela contemplados e esteja condicionada, no mínimo, à assunção pelo devedor dos seguintes compromissos: Não utilizar a transação de forma abusiva com a finalidade de limitar, falsear ou de prejudicar, de qualquer forma, a livre concorrência ou a livre iniciativa econômica. Não utilizar pessoa natural ou jurídica interposta para ocultar ou dissimular a origem ou a destinação de bens, de direitos e de valores, os seus reais interesses ou a identidade dos beneficiários de seus atos, em prejuízo da fazenda pública federal. Não alienar nem onerar bens ou direitos sem a devida comunicação ao órgão da Fazenda Pública competente, quando exigido em lei. Trata-se de uma forma de proteção da boa-fé, evitando que a transação sirva para ocultar ou estimular o uso de subterfúgios ou de ilícitos para fugir da Administração Tributária ou utilizá-la para a prática de atos contrários ao direito. A Lei nº 13.988/2020 ainda estabelece outras restrições de caráter subjetivo e objetivo à transação, como já salienta a doutrina (RODRIGUES; PEPE, 2020). Nesse sentido, ficam proibidos: · A transação que reduz multas de natureza penal (art. 5º, I) e a que concede descontos a créditos relativos ao Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições Devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples Nacional) sem a edição de uma lei complementar autorizativa. · Fundo de garantia do tempo de serviço (FGTS) sem a autorização de seu conselho curador (art. 5º, II, “a”, “b”). Além disso, não é possível a transação com “devedor contumaz” (art. 5º, III). A lei não conceitua esse devedor, o que pode trazer algum grau de insegurança jurídica quanto à incidência de tal vedação em determinado caso concreto. Por isso, sua aplicação deve ser feita com cautela a fim de não restringir de maneira excessiva o uso da transação pura e simplesmente pela existência de débitos daquele sujeito passivo com o Fisco Federal. Já o artigo 11, I, da Lei nº 13.988/2020 autoriza a concessão de descontos apenas aos créditos considerados de difícil recuperação ou irrecuperáveis. Quanto aos demais créditos, os incisos II e III do mesmo artigo admitem o benefício de prazos dilatados ou de substituição de garantias. Atenção! O desconto, a rigor, significa uma espécie de renúncia de receita. Desse modo, sua utilização terá de ser feita quando ela se mostrar a medida mais adequada, como se passa com os créditos irrecuperáveis ou de difícil recuperação. Ao tratar das garantias, o artigo 11,§6º, estabelece que, na transação, quaisquer modalidades de garantia previstas em lei poderão ser aceitas. Essa aceitação se estende inclusive para: · Garantias reais ou fidejussórias. · Cessão fiduciária de direitos creditórios. · Alienação fiduciária de bens móveis, imóveis ou de direitos. · Créditos líquidos e certos do contribuinte em desfavor da união reconhecidos em decisão transitada em julgado. Execuções fiscais Valor mínimo para o ajuizamento de execuções fiscais Requisito de procedibilidade da execução fiscal Outro mecanismo de consensualidade bastante relevante é a previsão, em atos normativos do ente federativo, de um valor mínimo para a propositura de execução fiscal. Quando o legislador ou o administrador público opta por instituir um montante mínimo que justifique a propositura dessa execução, trata-se claramente de um mecanismo de consensualidade. Tais normas, afinal, decorrem de uma avaliação do custo mínimo de uma execução fiscal, englobando os custos do Judiciário e da advocacia pública. Além disso, um ajuizamento de ação que busque uma quantia inferior a tal montante não se mostrará eficiente, estando em ofensa, portanto, ao artigo 37, caput, da Constituição da República (RODRIGUES, 2020). No âmbito federal, a Portaria nº 75/2012, da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), estabelece o montante de R$20.000,00 como valor mínimo para o ajuizamento de execuções fiscais pela Fazenda Nacional (artigo 1º, inciso I). Saiba mais No estado do Rio de Janeiro, é vedado o ajuizamento de execuções fiscais de débitos de ICMS e/ou de obrigações acessórias e penalidades relativas a esse imposto cujo valor consolidado seja inferior ao equivalente, em reais, a 4.000 UFIR-RJ (artigo 20, inciso II, da Lei nº 6.357/2012). Transação tributária federal Entenda a seguir sobre o regime legal de transação tributária federal. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Ampliando o conhecimento Você conhece a consensualidade? Imagina casos nos quais o uso de meios consensuais pode ser aplicado no processo administrativo tributário? Analise o caso a seguir e entenda melhor. Gustavo, procurador da Fazenda Nacional, se deparou com enorme estoque de créditos tributários de baixo valor, relativos a débitos de Imposto sobre a Renda, cujas certidões de inscrição em dívida ativa haviam sido encaminhadas para seu acervo, para a propositura de execuções fiscais. Analisando os dispositivos legais aplicáveis à espécie, Gustavo identificou que os créditos eram oriundos de autos de infração aplicados pela Receita Federal do Brasil por cauda da inclusão de determinada despesa como dedutível para fins de apuração do imposto devido em determinado exercício. Entretanto, a possibilidade ou não de tal dedução está pendente de definição pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recursos repetitivos. Gustavo crê que a possibilidade de ganho por parte da União é reduzida, pois os tribunais regionais federais vêm dando razão aos contribuintes. Diante de tal cenário, Gustavo elabora promoção direcionada a seu superior imediato, propondo a edição de ato normativo que permita a transação com os contribuintes. A Chefia concorda com a sugestão, remetendo os autos ao procurador-chefe da Fazenda Nacional para fins de deliberação. Considerações finais Neste conteúdo, estudamos o processo administrativo tributário, dando ênfase ao processo administrativo tributário federal tratado pelo Decreto nº 70.235/1972. Dessa maneira, vimos inicialmente os princípios reitores do processo administrativo tributário a fim de traçar um panorama sobre a aplicabilidade de tais princípios na matéria em exame. Na sequência, direcionamos nosso estudo para o Decreto nº 70.235/1972. Perscrutamos, entre outros temas, o procedimento do processo administrativo tributário federal, as formas de notificação do sujeito passivo, o julgamento em primeira e segunda instância e os requisitos da impugnação. Por fim, analisamos a consensualidade no processo administrativo tributário à luz da Lei nº 13.988/2020, que disciplina a transação tributária no âmbito federal. O tema da consensualidade vem ganhando significativa importância nos últimos anos. Isso pode ser percebido notavelmente com o advento da Lei de Mediação, que afastou as controvérsias concernentes à possibilidade de submissão da Administração Pública aos meios consensuais de solução de controvérsias, o que certamente irá atrair ainda mais a atenção dos estudiosos do Direito. TEMA 2 Execução fiscal Descrição Análise do cabimento, da legitimidade e do procedimento judicial da execução fiscal. Propósito O conhecimento do processo de execução fiscal é essencial para profissionais do Direito Tributário e do Direito Público, por se tratar do meio de cobrança por excelência dos créditos titularizados pela Fazenda Pública. Preparação Antes de iniciar os estudos, tenha em mãos a Lei de Execução Fiscal e o Código de Processo Civil. Objetivos Módulo 1 Cabimento e legitimidade nas execuções fiscais Reconhecer os requisitos para cabimento da execução fiscal, assim como as partes que podem figurar no polo ativo ou passivo de uma execução fiscal. Módulo 2 Procedimento nas execuções fiscais Analisar as características do procedimento da execução fiscal. Cabimento e legitimidade nas execuções fiscais Ao final deste módulo, você será capaz de reconhecer os requisitos para cabimento da execução fiscal, assim como as partes que podem figurar no polo ativo ou passivo de uma execução fiscal. Cabimento Noções gerais A execução fiscal é o procedimento executivo forjado pelo legislador com vistas a permitir a cobrança de determinados créditos titularizados pela Fazenda Pública. A criação de tal procedimento diferenciado constitui, a rigor, uma prerrogativa processual da Fazenda Pública, que se destina a facilitar o adimplemento do crédito fazendário. Sua disciplina é prevista na Lei nº 6.830/1980, que possui natureza jurídica de lei nacional, aplicável à União, aos estados, Distrito Federal e municípios. Quanto a sua natureza jurídica, a execução fiscal é espécie de processo de execução lastreado em título executivo extrajudicial, no caso, a certidão de dívida ativa, que será vista detalhadamente na sequência. É importante realçar que nem todos os créditos de titularidade da Fazenda Pública são considerados dívida ativa, havendo, pois, valores públicos cuja execução deve se dar pelo procedimento executivo comum, do Código de Processo Civil. É o caso, por exemplo, dos acórdãos condenatórios dos tribunais de contas, cuja eficácia executiva é trazida pelo art. 71, § 3º, da Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB). Uma vez que o acórdão, por si só, já detém eficácia executiva, a inscrição em dívida ativa se mostra desprezível, podendo a Fazenda Pública titular do crédito promover a execução do acórdão pelo procedimento da execução de título extrajudicial, prevista no CPC. É possível, entretanto, a inscrição em dívida ativa para fins de adoção da execução fiscal. Certidão de dívida ativa Definição Os créditos passíveis de cobrança via execução fiscal devem estar materializados em um título executivo, denominado de certidão de dívida ativa (CDA). O conceito de dívida ativa consta do art. 2º, caput e § 1º, da Lei federal nº 6.830/1980: qualquer valor cuja cobrança seja atribuída à União, aos estados, ao Distrito Federal, aos municípios e respectivas autarquias será considerado como dívida ativa, seja de natureza tributária, seja de natureza não tributária. Exemplo A cobrança de tributos constitui dívida ativa, considerando que o art. 201 do Código Tributário Nacional considera como dívida ativa tributária a proveniente de crédito desta natureza. Da mesma forma, valores devidos por servidores federais em débito com o erário constituem dívida ativa, nos termos do art. 47, parágrafo único, da Lei nº 8.112/1990. A CDA materializa a inscrição em dívida ativa de um crédito de titularidade da Fazenda Pública, inscrição que se destinaa apurar a liquidez e certeza do crédito e suspender a prescrição, para todos os efeitos de direito, por 180 dias, ou até a distribuição da execução fiscal, se esta ocorrer antes de findo aquele prazo (art. 2º, § 3º, da Lei nº 6.830/1980). A certidão de dívida ativa contém os mesmos elementos do termo de inscrição (art. 2º, § 6º, da Lei nº 6.830/1980). A dívida ativa regularmente inscrita goza da presunção de certeza e liquidez, presunção esta que é relativa e pode ser ilidida por prova inequívoca, a cargo do executado ou de terceiro, a quem aproveite (art. 3º, caput e parágrafo único, da Lei nº 6.830/1980). O termo de inscrição em dívida ativa e a certidão de dívida ativa devem obedecer aos requisitos do art. 2º, § 5º, da Lei nº 6.830/1980, sob pena de nulidade. Vejamos quais são esses requisitos: Inciso I O nome do devedor, dos corresponsáveis e, sempre que conhecido, o domicílio ou residência de um e de outros. Inciso II O valor originário da dívida, bem como o termo inicial e a forma de calcular os juros de mora e demais encargos previstos em lei ou contrato. Inciso III A origem, a natureza e o fundamento legal ou contratual da dívida. Inciso IV A indicação, se for o caso, de estar a dívida sujeita à atualização monetária, bem como o respectivo fundamento legal e o termo inicial para o cálculo. Inciso V A data e o número da inscrição, no Registro de Dívida Ativa. Inciso VI O número do processo administrativo ou do auto de infração, se neles estiver apurado o valor da dívida. A emenda ou substituição da certidão de dívida ativa, em caso de vício, pode ocorrer até a decisão de primeira instância, assegurada ao executado a devolução do prazo para embargos, nos termos do art. 2º, § 8º, da Lei nº 6.830/1980. Deve-se observar, ainda, o disposto na Súmula 392 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), segundo a qual a Fazenda Pública pode substituir a certidão de dívida ativa até a prolação da sentença de embargos, quando se tratar de correção de erro material ou formal, vedada a modificação do sujeito passivo da execução. Os embargos à execução são o principal meio de defesa do executado em sede de execução fiscal, como será visto em mais detalhes neste mesmo módulo, sendo lícito à Fazenda Pública, até a prolação de sua sentença, substituir ou emendar a CDA. A sentença da execução fiscal, por sua vez, é prolatada depois do julgamento dos embargos, ao término da fase executiva. A vedação à modificação do sujeito passivo por meio de emenda ou substituição da certidão de dívida, com efeito, parece ser decorrência de que a certidão indica aquele que foi cientificado para o processo administrativo fiscal. Assim, a alteração do sujeito passivo na certidão acarretará, em última análise, a inserção de pessoa que não fez parte do processo administrativo fiscal e que, portanto, não teve direito ao devido processo legal e ao contraditório na esfera administrativa (RODRIGUES, 2020, p. 150) e em sede jurisprudencial, conforme aponta o Acórdão REsp 1045472/BA, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Seção, julgado em 25/11/2009, DJe 18/12/2009, que trata de julgado sob o rito dos recursos repetitivos. Legitimidade Noções gerais A legitimidade é a pertinência subjetiva para figurar no polo ativo ou passivo de uma ação, ou seja, pessoa que poderá discutir determinado direito em juízo. Neste item, analisaremos a legitimidade ativa e a legitimidade passiva em sede de execução fiscal. Legitimidade ativa A legitimidade ativa para a propositura de execução fiscal é atribuída, primariamente, às entidades da Administração Direta: União, estados, Distrito Federal e municípios, como disposto no art. 2º da Lei nº 6.830/1980, e respectivas autarquias. Outras pessoas jurídicas com personalidade de direito público, tais como fundações públicas de direito público e agências reguladoras, também possuem legitimidade ativa para propor execuções fiscais. Os conselhos de fiscalização profissional, diante de sua natureza autárquica, igualmente são legitimados ao ajuizamento de execução fiscal para cobrança das anuidades que lhe são devidas. Nesses termos, inclusive, a redação da Súmula 66 do STJ dispõe que compete à Justiça Federal processar e julgar execução fiscal promovida por conselho de fiscalização profissional. No que tange à Ordem dos Advogados do Brasil, a jurisprudência do STJ vem reconhecendo sua ilegitimidade para propositura de execução fiscal para cobrança das anuidades devidas por advogados e estagiários, considerando sua natureza de autarquia sui generis, exposta na decisão do Superior Tribunal Federal (STF) na ADI 3026. Assim, a OAB deve cobrar seus créditos pela via da execução de título extrajudicial regida pelo Código de Processo Civil (a título de exemplo, REsp 1073369/PR, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 21/10/2008, DJe 21/11/2008). É possível, ainda, a celebração de convênios para delegação da atribuição de cobrança de créditos passíveis de inscrição em dívida ativa, o que, naturalmente, tem aptidão para repercutir na legitimidade ativa para o processo de execução fiscal. É o caso do art. 2º, § 2º, da Lei nº 8.884/1994, que autoriza a celebração de convênio entre a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e a Caixa Econômica Federal para que esta realize a representação judicial e extrajudicial do FGTS, para a correspondente cobrança, relativamente à contribuição e às multas e demais encargos previstos na legislação respectiva. Legitimidade passiva na execução fiscal O vídeo a seguir fará referência à legitimidade passiva na execução fiscal, tratando também do seu redirecionamento. Legitimidade passiva A legitimidade passiva na execução fiscal é disciplinada pelo art. 4º da Lei nº 6.830/1980, o qual estabelece que a execução fiscal poderá ser promovida contra: · O devedor (inciso I). · O fiador (inciso II). · O espólio (inciso III). · A massa falida (inciso IV). · O responsável, nos termos da lei, por dívidas, tributárias ou não, de pessoas físicas ou pessoas jurídicas de direito privado (inciso V). · Os sucessores a qualquer título (inciso VI). Espólio Destaque-se que a inscrição em dívida ativa do espólio é de fundamental importância uma vez que a propositura de execução fiscal em face de sócio já falecido enseja a extinção do processo sem resolução do mérito, não admitindo a emenda ou substituição da CDA na hipótese, tampouco o redirecionamento da execução fiscal em face do espólio. Nesse sentido, o Acórdão REsp 1826150/RS, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 10/09/2019, DJe 05/11/2019, trata da impossibilidade de redirecionamento da execução fiscal. Massa falida A falência da pessoa jurídica antes da propositura da execução permite a correção da certidão de dívida ativa, nos termos do art. 2º, § 8º, da Lei nº 6.830/1980, como já reconhecido pelo STJ em sede de recursos repetitivos, como esclarece o REsp 1372243/SE, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. p/ Acórdão Min. Og Fernandes, Primeira Seção, julgado em 11/12/2013, DJe 21/03/2014. Responsável A responsabilidade tributária está disciplinada pelo art. 134, inciso VII, e pelo art. 135 do Código Tributário Nacional, que estabelecem os casos de responsabilidade de sócios, administradores, diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. O nome do devedor e corresponsáveis deve constar do termo de inscrição em dívida ativa, como estabelece o art. 2º, § 5º, da Lei nº 6.830/1980. Com efeito, a execução fiscal deve ser ajuizada em face do sujeito passivo elencado na certidão de dívida ativa, a qual, relembre-se, deve refletir com exatidão o termo de inscrição em dívida ativa. A propositura da execução fiscal em face de terceiros não elencados na certidão de dívida ativa enseja nulidade, ressalvadas as hipóteses de redirecionamento da execução fiscal. Com efeito, o redirecionamento da execução fiscal prescinde da inclusão do nome do sócio e/ou do responsável na certidão de dívida ativa, sendo suficiente que a Fazenda demonstre o preenchimento dos requisitos previstos noart. 135 do Código Tributário Nacional, sem que haja nulidade na hipótese. Atenção! É importante frisar que é possível redirecionar a execução fiscal contra o sócio que exercia a administração por ocasião da dissolução irregular da sociedade contribuinte, independentemente do momento da ocorrência do fato gerador ou da data do vencimento do tributo. Nessa linha, a decisão apresentada no REsp 1520257-SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 16/6/2015 exemplifica o tema. A inclusão do nome do sócio ou responsável na CDA traz como grande vantagem a inversão do ônus da prova em desfavor daquele, uma vez que a CDA goza de presunção relativa de veracidade, cabendo àquele, em face do qual a execução fiscal foi redirecionada, desconstituir tal presunção. Tal entendimento é acolhido pelo STJ, inclusive, em sede de recursos repetitivos, como exemplifica o REsp 1.104.900/ES. Execução fiscal Sobre o redirecionamento da execução fiscal, veja o Tema 962 de Precedentes Qualificados do STJ: "O redirecionamento da execução fiscal, quando fundado na dissolução irregular da pessoa jurídica executada ou na presunção de sua ocorrência, não pode ser autorizado contra o sócio ou o terceiro não sócio que, embora exercesse poderes de gerência ao tempo do fato gerador, sem incorrer em prática de atos com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos, dela regularmente se retirou e não deu causa à sua posterior dissolução irregular, conforme art. 135, III, do CTN". Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Ampliando o conhecimento Você conhece o cabimento e a legitimidade na execução fiscal? Para entender melhor, vamos analisar o caso concreto a seguir. João foi sócio-administrador da Hortaliças Felizes Ltda, pessoa jurídica cujo objeto social consistia na compra e venda de gêneros alimentícios. Por causa de desentendimentos com Pedro e Alexandre, outros dois sócios, João se retirou da Hortaliças Felizes no ano de 2017, deixando um pequeno passivo tributário. A alteração contratual foi regularmente registrada, sendo certo que Pedro assumiu a posição de sócio-administrador da pessoa jurídica a partir daquele momento. A partir de 2019, a Hortaliças Felizes começou a enfrentar grave crise financeira, levando-a a suspender os pagamentos de fornecedores e tributos, especialmente ICMS incidente sobre as vendas das mercadorias, que não foi pago durante todo aquele ano. No começo de 2020, Pedro e Alexandre decidiram encerrar as atividades da Hortaliças Felizes, vendendo o estoque remanescente de produtos e devolvendo o imóvel no qual ficava a sede da empresa para o seu proprietário. Não foi formalizado o encerramento da pessoa jurídica. Pedro faleceu pouco depois, em junho de 2020. Na sequência, no ano de 2021, o Estado X ajuizou execução fiscal em face da Hortaliças Felizes, com vistas a obter o adimplemento de débitos de ICMS referentes aos anos de 2017 a 2020. O mandado de citação postal retornou negativo, com indicação de “mudou-se”. Foi tentada a citação por oficial de justiça, mas também não teve sucesso, e a certidão assentou que “segundo informado pelo vizinho Fulano, a empresa fechou as portas em 2020”. Por esse motivo, o representante judicial da Fazenda requereu a substituição da certidão de dívida ativa (CDA), apresentando nova certidão, que incluiu os nomes de João e de Pedro como responsáveis pelo débito, pugnando pela citação de ambos. O juízo executivo, entretanto, indeferiu o pedido, sob o fundamento de que os dois não participaram do processo administrativo tributário que deu origem à certidão de inscrição em dívida ativa. Procedimento nas execuções fiscais Ao final deste módulo, você será capaz de analisar as características do procedimento da execução fiscal. MODULO 2 Competência Critérios definidores Há diversos critérios definidores da competência para o processo e julgamento de execuções fiscais. De início, analisaremos a competência em razão da pessoa, critério este que, relembre-se, uma vez descumprido, enseja a incompetência absoluta, nos termos do art. 62 do CPC. A seguir, acompanhe os critérios que definem as Justiças competentes: Justiça Federal Se a execução fiscal for ajuizada pela União, suas autarquias ou fundações de direito público, a competência será da Justiça Federal, por força do art. 109, I, da CRFB. Relembrando, ainda, que os conselhos de fiscalização profissional, segundo entendimento do STF, se equiparam às autarquias, portanto, igualmente a competência será atribuída à Justiça Federal, nos termos da Súmula 66 do STJ. Justiça do Trabalho A execução fiscal de multa imposta pelo Ministério do Trabalho é de competência da Justiça do Trabalho, como estabelece o art. 114, inciso VII, da CRFB. Supremo Tribunal Federal A execução fiscal ajuizada em face de Estado estrangeiro ou organismo internacional é de competência do STF, em razão do disposto no art. 102, inciso I, alínea “e”, da CRFB. Justiça Eleitoral A Justiça Eleitoral é competente para processar e julgar execuções fiscais relativas a multas eleitorais (art. 367, IV, CE c/c art. 109, I, da CFRB), assim como as ações anulatórias de débito decorrente de multa eleitoral, como esposado na Súmula 374 do STJ. Justiça Estadual Residualmente, caso promovida a execução fiscal por estado ou município, estaremos diante de competência da Justiça Estadual, nos termos do art. 125 da CRFB. Quanto à competência territorial, pelo art. 46, § 5º, do Código de Processo Civil, a execução fiscal será proposta no foro de domicílio do réu, no de sua residência ou no do lugar onde for encontrado. Com efeito, a previsão parece mais bem direcionada à União, que possui atuação em todo o território nacional, diversamente de estados e municípios, cuja estrutura das respectivas procuradorias é distribuída no âmbito de seu território, como regra. Tomando esse e outros inconvenientes resultantes deste dispositivo, há entendimento doutrinário no sentido de que a regra deve ser interpretada conforme a Constituição, para que as execuções fiscais sejam propostas nos limites territoriais do ente tributante (RODRIGUES, 2017, p. 46). O artigo foi impugnado no bojo da Ação Direta de Inconstitucionalidade - ADI 5492, pendente de julgamento, que questiona o novo Código de Processo Civil. Procedimento da execução fiscal Petição inicial e seus requisitos A execução fiscal é deflagrada por meio da propositura da petição inicial. Lembre-se de que o procedimento executivo fiscal é disciplinado subsidiariamente pelo disposto no Código de Processo Civil às execuções de iniciativa particular, como estabelece o art. 1º da LEF. Pelo art. 6º da Lei de Execuções Fiscais, a petição inicial indicará apenas o juízo a quem é dirigida, o pedido e o requerimento de citação, e deve ser instruída com a certidão de dívida ativa, como estabelece seu § 1º. Pelo § 2º, a petição inicial e a certidão de dívida ativa podem constituir um único documento, o que, na praxe forense, é bastante comum. O valor da causa na execução fiscal corresponde ao valor da dívida, com os encargos legais, nos termos do art. 6º, § 4º, da Lei nº 6.830 de 1980. Há três caminhos possíveis após a propositura da execução fiscal, a depender do preenchimento ou não dos requisitos de admissibilidade da petição inicial. Vejamos cada um deles. · Vício na petição inicial: o juízo deve determinar a emenda, como previsto no art. 801 do Código de Processo Civil, indicando com precisão o vício que atinge a peça, como estabelece o art. 321 do mesmo código, sob pena de indeferimento. Alguns autores entendem que a emenda à inicial é direito subjetivo do autor, somente sendo admitido o indeferimento da petição inicial caso a inicial não seja emendada (nessa linha, NERY JUNIOR; NERY, 2018, p. 859). · Ausência da certidão de dívida ativa: o juízo deve determinar a intimação da Fazenda para efetuar a juntada da CDA, com base no mesmo art. 801 do CPC. A ausência de juntada da CDA conduzirá ao indeferimento da inicial, com base no mesmoartigo. · Petição inicial em ordem: neste caso, a decisão do juízo que admitir a petição inicial importará na ordem para as providências elencadas nos incisos do art. 7º da Lei de Execução Fiscal. A primeira delas é a citação, pelas modalidades previstas no art. 8º; a segunda, a ordem de penhora se não for paga a dívida, nem garantida a execução, por meio de depósito, fiança ou seguro garantia; a terceira, o arresto, se o executado não tiver domicílio ou dele se ocultar; a quarta, o registro da penhora ou do arresto, independentemente do pagamento de custas ou outras despesas, observado o disposto no art. 14; a quinta, a avaliação dos bens penhorados e arrestados. Passemos às referidas providências elencadas no art. 7º da Lei nº 6.830 de 1980. Citação Citação (art. 7º, inciso I) A citação em execução fiscal é disciplinada no art. 8º da LEF. A ordem de citação em execução fiscal se destina a cientificar o executado para que, no prazo de 5 dias, pague a dívida com os juros e multa de mora e encargos indicados na certidão de dívida ativa, ou garanta a execução. A regra do art. 8º da Lei nº 6.830/1980 excepciona o disposto no art. 829 do Código de Processo Civil, em que a citação confere prazo de 3 dias para que o executado pague a dívida. Na execução fiscal, como regra, será exigida garantia para a admissibilidade dos embargos à execução, como estabelece o art. 16, § 1º, da Lei nº 6.830/1980, conforme será visto em mais detalhes ao tratarmos sobre as defesas do executado. Quanto à modalidade de citação, como regra, a citação em execução fiscal será postal, salvo se a Fazenda requerer a realização da citação de outra forma, na forma do art. 8º, inciso I, da Lei nº 6.830/1980. A utilização de modalidade citatória diversa exige parcimônia por parte da Fazenda Pública, uma vez que a citação postal possui baixo custo e relativa celeridade em sua realização em comparação com as demais. Pelo inciso II do art. 8º, a citação pelo correio considera-se feita na data da entrega da carta no endereço do executado, ou, se a data for omitida, no aviso de recepção, 10 dias após a entrega da carta à agência postal. Em complemento, o inciso III do art. 8º da lei estabelece que, se o aviso de recepção não retornar no prazo de 15 dias da entrega da carta à agência postal, a citação será feita por oficial de justiça ou por edital. (Serviço de postagem.) Também é cabível a citação por hora certa em sede de execução fiscal, com base no art. 252 do Código de Processo Civil e da Súmula 196 do STJ, ambos aplicados subsidiariamente à execução fiscal. Lembre-se de que a citação por hora certa será utilizada quando, por duas vezes, o oficial de justiça houver procurado o citando em seu domicílio ou residência sem o encontrar. Deverá, havendo suspeita de ocultação, intimar qualquer pessoa da família ou, em sua falta, qualquer vizinho de que, no dia útil imediato, voltará a fim de efetuar a citação, na hora que designar. No dia e na hora designados, o oficial de justiça, independentemente de novo despacho, comparecerá ao domicílio ou à residência do citando a fim de realizar a diligência. Se o citando não estiver presente, o oficial de justiça procurará informar-se das razões da ausência, dando por feita a citação, ainda que o citando se tenha ocultado em outra comarca, seção ou subseção judiciárias, como prevê o art. 253, caput e § 1º, do Código de Processo Civil. Atenção! Frise-se que, consoante entendimento do STJ firmado em sede de recursos repetitivos (REsp 1102431/RJ, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Seção, julgado em 09/12/2009, DJe 01/02/2010), a Súmula 106 do STJ é aplicável às execuções fiscais. Segundo o verbete, “proposta a ação no prazo fixado para o seu exercício, a demora na citação, por motivos inerentes ao mecanismo da Justiça, não justifica o acolhimento da argüição de prescrição ou decadência”. Penhora na execução fiscal Indisponibilidade de bens e fraude à execução Penhora, se não for paga a dívida, nem garantida a execução, por meio de depósito, fiança ou seguro garantia (art. 8º, inciso II): a penhora, em apertadíssima síntese, é o ato judicial de constrição de bens do executado, com vistas à satisfação do crédito do exequente. Indisponibilidade de bens Em relação aos débitos tributários, é importante destacar a previsão do art. 185-A do Código Tributário Nacional. Com efeito, caso o executado não pague a dívida, não nomeie bens à penhora nem sejam encontrados bens penhoráveis, o juízo determinará a indisponibilidade de bens e direitos do executado, comunicando a decisão, preferencialmente por meio eletrônico, aos órgãos e entidades que promovem registros de transferência de bens, especialmente ao registro público de imóveis e às autoridades supervisoras do mercado bancário e do mercado de capitais, a fim de que, no âmbito de suas atribuições, façam cumprir a ordem judicial, limitada a indisponibilidade ao valor total exigível. A indisponibilidade possui feição cautelar, destinada a assegurar a efetividade da execução. Assim, o magistrado não possui o dever de decretá-la, cabendo avaliar se estão presentes ou não os requisitos do art. 300 do Código de Processo Civil, quais sejam, a probabilidade de existência do direito e o perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo (THEODORO JUNIOR, 2011, p. 113). Fraude à execução fiscal A fraude à execução fiscal possui disciplina própria no art. 185 do CTN, além daquela genericamente prevista no art. 792 do CPC. Pelo mencionado artigo, presume-se fraudulenta a alienação ou oneração de bens ou rendas, ou seu começo, por sujeito passivo em débito para com a Fazenda Pública, por crédito tributário regularmente inscrito como dívida ativa. Pelo parágrafo único do art. 185 do CNT, se o sujeito passivo reservar bens ou rendas suficientes ao pagamento do total da dívida inscrita, não restará configurada a fraude à execução fiscal. Procedimento da penhora Bens passíveis de penhora Em relação aos bens passíveis de penhora, o art. 10 da Lei nº 6.830 estabelece que a penhora poderá recair sobre qualquer bem do executado, exceto os que forem declarados em lei como absolutamente impenhoráveis. O Código de Processo Civil de 2015 não adotou a distinção que o CPC/1973 utilizava, referente a bens absoluta e relativamente impenhoráveis. Assim, a referência a bens absolutamente impenhoráveis tem como correspondente o art. 833 do CPC, que elenca os bens impenhoráveis. O dispositivo deve ser conjugado com o art. 184 do Código Tributário Nacional em relação aos créditos de natureza tributária, o qual prevê que responde pelo pagamento do crédito tributário a totalidade dos bens e das rendas, de qualquer origem ou natureza, do sujeito passivo, seu espólio ou sua massa falida, inclusive os gravados por ônus real ou cláusula de inalienabilidade ou impenhorabilidade, seja qual for a data da constituição do ônus ou da cláusula, excetuados unicamente os bens e rendas que a lei declare absolutamente impenhoráveis. Ordem de preferência de bens para a penhora O art. 11 da Lei nº 6.830/1980 estabelece regra própria de preferência de bens para a penhora. Trata-se, como dito, de ordem preferencial, podendo ser excepcionada no caso concreto, atendidos, em especial, ao princípio da menor onerosidade da execução, previsto no art. 805 do Código de Processo Civil. Intimação da penhora Realizada a penhora, o executado será intimado, na pessoa de seu advogado e via publicação em órgão oficial, de sua realização para que tome ciência, nos termos do art. 12 da LEF. Frise-se que, em se tratando de autos eletrônicos, a intimação da penhora poderá se dar por meio de portal próprio, como prevê o art. 5º da Lei nº 11.419/2006. Exemplo Em se tratando de intimação em comarca do interior, pelo art. 12, § 1º, a intimação da penhora se dará por correio. Tal regra precisa ser interpretada em conjunto com o caput do artigo, pois, se houver órgão oficial de publicação de atos processuais, tal forma de intimação preferirá à postal, em nome da maior simplicidade que aquela modalidade possui, o que prestigia