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A exposição de Anita não foi bem recebida por alguns intelectuais da época, ainda admiradores dos princípios acadêmicos, que detestaram suas pinturas. “[...] Monteiro Lobato [...] detestou tanto o que viu que publicou um artigo referindo-se à mostra como ‘paranoia ou mistificação’” (CANTON, 2002, p. 64). Enquanto algumas pessoas não gostaram da nova estética, outras adoraram, como, por exemplo, o poeta Mario de Andrade. A recepção negativa da exposição de Anita Malfatti foi o estopim para a realização da Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Os artistas buscavam criar um ambiente prolífero para a construção de novas maneiras de produzir arte que fosse moderna e rompesse com os padrões acadêmicos da arte brasileira. A partir do evento, houve a progressiva modernização da arte brasileira, a partir de influências da arte das vanguardas europeias. A Arte Moderna se estendeu pela primeira metade do século XX e, hoje, mesmo sendo movimentos históricos, não podemos esquecer seu teor van- guardista. Os caminhos encontrados pelos artistas levaram a uma infinidade de modos de fazer arte e de pensar a relação da arte com a sociedade. As rupturas e os questionamentos realizados por artistas modernos são a base para o trabalho de muitos artistas que não consideram o quadro como uma janela para observar o mundo e exploram materiais que, antes do Modernismo, eram incomuns na arte. Fauvismo e Cubismo: características Os movimentos artísticos conhecidos como Fauvismo e Cubismo pouca coisa têm em comum, além da ruptura com a representação convencional da arte acadêmica e a busca por uma representação moderna. Enquanto os fauvistas exploravam as combinações entre as cores puras com pinceladas exageradas, os cubistas tinham interesse principal na forma dos objetos e sua representação simplifi cada, a partir de formas geométricas. O Fauvismo foi o movimento de vanguarda mais curto, tendo se desen- volvido entre 1905 e 1907. Sua preocupação principal era o uso da cor para explorar a expressão do instinto artístico. O artista procurava criar sua arte com a mesma pureza de uma criança que não segue regras, de modo que distorcia a representação e usava cores não condizentes com a realidade. 5Arte Moderna: principais tendências O nome fauvismo surgiu a partir de uma crítica de Louis Vauxcelles que, ao visitar, em 1905, o Salão de Outono, encontrou as obras fauvistas expostas ao lado de obras significativas da história da arte. Vauxcelles se referiu às pinturas fauvistas com o termo francês fauves (feras), como uma forma de rejeitar o exagero no uso de tinta com cores vibrantes e formas distorcidas. Sobre os artistas fauvistas, Canton destaca que: A ideia era pintar sem se preocupar com os temas grandiosos – uma praia, uma janela, um barquinho ou uma ponte seria de bom tamanho. Também abandonaram a necessidade de fazer contorno nas formas. Desejavam pintar diretamente com a cor, que seria utilizada de acordo com a vontade de expres- são do artista, sem necessariamente seguir a realidade como a vemos. Esses artistas assumiram sua atração pelas maças de cor, em suas diversidades de tons e intensidades (CANTON, 2002, p. 40.) Os principais artistas fauvistas foram Maurice de Vlaminck (1876–1958) e André Derain (1880–1954), liderados por Henri Matisse (1869–1954). Todos buscavam conferir à cor uma nova possibilidade, ao fugir da representação descritiva da realidade. A cor era mais importante do que a representação, principalmente a cor vibrante. Inicialmente, os artistas realizavam misturas de cores, mas, aos poucos, passam a explorar pinceladas espontâneas, com cores puras. O grupo fauvista, mesmo tendo durado pouco, apresentou uma nova ma- neira de lidar com a pintura. “O que esses artistas têm em comum é o desejo de dispensar tudo o que é ‘extra’ na representação de uma imagem na tela, dando chance para a cor, com seus próprios contrastes, de cobrir superfícies e dar forma à representação” (CANTON, 2002, p. 41). Na obra Ponte sobre o rio (Figura 2), de André Derain, pode-se observar como se dava o uso da cor e da deformação pelos fauvistas. As cores não criam uma representação naturalista, pois o artista utilizou tons de azuis, verdes, laranjas e amarelos para representar uma árvore que aparenta estar em chamas. O interesse também não é captar os efeitos luminosos, como faziam os impressionistas, pois a pintura faz o uso das cores sem se ater à sua combinação ótica. Arte Moderna: principais tendências6 Figura 2. Ponte sobre rio (1906), André Derain, óleo sobre tela, 82,5 cm/101,5 cm, MoMA, Nova Iorque, Estados Unidos. Fonte: Fauvismo ([200-?]), documento on-line). O Cubismo se desenvolveu a partir das pesquisas dos artistas Pablo Picasso (1881–1973) e Georges Braque (1882–1963), que se interessavam pelas pinturas do pós-impressionista Paul Cézanne e sua representação da natureza a partir de formas geométricas básicas. Entretanto, os cubistas exploraram não apenas a simplificação do desenho, uma vez que queriam explorar a representação integral do objeto, ou seja, queriam que a pintura apresentasse o objeto sendo visto a partir de diversos ângulos em uma mesma pintura. A obra Les Demoiselles d’Avignon, de Pablo Picasso, é considerada a pri- meira pintura cubista (Figura 3). Nela, pode-se perceber a distorção das figuras a partir do uso de formas geométricas, reduzindo a sensação de profundidade da tela. O tema da pintura foi um grupo de prostitutas de Barcelona, mas a deformação de seus rostos sugere a influência das máscaras africanas sobre os trabalhos do artista. A pouca variação de cores e o uso da fragmentação nas formas foram técnicas inovadores para a época, colocando Picasso como um dos principais artistas das vanguardas europeias (FARTHING, 2011). 7Arte Moderna: principais tendências Figura 3. Les Demoiselles d’Avignon (1907), Pablo Picasso, óleo sobre tela, 2,44 m/2,34 m, Museu de Arte Moderna, Nova Iorque. Fonte: Les Demoiselles d’Avignon (2011, documento on-line). O Cubismo teve como premissa básica a ruptura com a perspectiva da arte acadêmica, que representava os efeitos de profundidade por meio do emprego de complexas leis da geometria. No Cubismo, há a fragmentação para representar os diversos ângulos de visão sobre o objeto, de maneira sobreposta e com cores nos tons terrosos. Essa preocupação inicial dos cubistas ficou conhecida como Cubismo Analítico (CANTON, 2002). Em pouco tempo, os cubistas levaram o programa da fragmentação e da representação simultânea ao extremo, chegando muito próximo da abstração total da figura. Todavia, o cubismo é, por natureza, um movimento figurativo que buscava uma nova maneira de representar os objetos, rompendo com a perspectiva tradicional. Por isso, houve a limitação temática dos artistas do Cubismo Analítico: Ele só pode ser usado com formas mais ou menos familiares. Quem olha para o quadro deve saber qual é o aspecto de um violino, para poder relacionar entre si os vários fragmentos no quadro. É por isso que os pintores cubistas escolhem usualmente motivos familiares – guitarras, garrafas, fruteiras ou, ocasionalmente, uma figura humana – onde podemos facilmente encontrar o nosso caminho através dos quadros e entender as relações entre as várias partes (GOMBRICH, 1999, p. 456). Arte Moderna: principais tendências8 Em 1912, o Cubismo tomou novos rumos, pois iniciava-se o Cubismo Sintético, que teve duração até a década de 1920. Nesse período, novos artistas aderiram ao grupo, dentre eles: Robert Delaunay (1883–1941), Francis Picabia (1879–1953), Jean Metzinger (1883–1956) e Marcel Duchamp (1887–1968). Na fase sintética, os cubistas fazem novos usos da cor, que deixa de ser esmaecida, sendo utilizada de maneira mais decorativa. “Essa visão mais decorativa da arte tornou o cubismo sintético mais popular do que as outras obras cubistas junto ao público” (FARTHING, 2011, p. 390). O Cubismo Sintético nãoexagerava na fragmentação, como acontecia no Cubismo Analítico. Houve o uso de colagens de jornais, madeira, tecido, e tal interesse levou alguns artistas a pintarem quadros que pareciam somente colagens, sem uso de cores. De modo que um quadro era “Construído a partir de elementos de colagem e da habilidade dos artistas da época de transformar os conteúdos de uma lata de lixo em imagens bonitas e revolucionárias” (FAR- THING, 2011, p. 390). As colagens faziam os materiais utilizados perderem seu significado utilitário, ao assumir um valor construtivo na obra. O artista utilizava a colagem, assim como utilizava a linha, a cor e as texturas. As obras cubistas apresentavam uma nova maneira de lidar com a pintura e abriram caminho para outros movimentos artísticos, tais como: o Futurismo, que se valerá da fragmentação para a representação da velocidade e das di- nâmicas de movimento; o Suprematismo e o Construtivismo, que utilizaram as relações entre formas abstratas geométricas; o Dadaísmo e o Surrealismo, que darão atenção ao uso de colagens (FARTHING, 2011). Futurismo: a arte da velocidade O Futurismo foi fortemente infl uenciado pelas inovações tecnológicas, que culminaram em uma nova relação entre as distâncias e o tempo. A invenção do automóvel, do avião e da telefonia desencadearam um novo ritmo nas transformações sociais. O Futurismo surgiu na Itália e buscava justamente valorizar a velocidade e o desenvolvimento tecnológico, em oposição a qual- quer tipo de tradição. O manifesto futurista anunciava uma arte inovadora, que via na guerra e na destruição do passado a chance de construir uma nova arte, mais coerente com uma sociedade desenvolvida tecnologicamente. As experimentações cubistas foram influentes entre tais artistas, que utilizavam a fragmentação das formas e das cores para representar as dinâmicas da velocidade. O primeiro 9Arte Moderna: principais tendências