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AMOR E ORGULHO
Georges Ohnet
Copyright © 2018 by PedrazulEditora Ltda.
Todos os direitos reservados à Pedrazul Editora.
Texto adaptado à nova ortografia da Língua Portuguesa, Decreto n°
6.583, de 29 de setembro de 2008.
Direção Geral: Chirlei Wandekoken
Direção de arte: Eduardo Barbarioli
Capa: Projeto Mara Sop
Tradução: Silvia Caldiron Resende
Revisão: Maria Francisca, Tamires de Carvalho, Mara Sop e Enza Said.
Comissão de capa: Chirlei Wandekoken, Franceliza Rugoni, Jéssica
Ghazal (Jéss GrGh), Mara Sop, Talita Oliveira, Tamires de Carvalho, Rubia
Giovanella e Vanessa Rodrigues Thiago.
Reservados todos os direitos desta tradução e produção. Nenhuma parte
desta obra poderá ser reproduzida por fotocópia, microfilme, processo
fotomecânico ou eletrônico sem permissão expressa da Pedrazul Editora,
conforme Lei n° 9610 de 19/02/1998.
PEDRAZUL EDITORA
Rua Professora Zilda Andrade, 260B – Bairro de Lourdes - Vitória-ES.
CEP: 29042-751.
www.pedrazuleditora.com.br
http://www.pedrazuleditora.com.br
Tradução: Silvia Caldiron Resende
Edicão dedicada a Adna Rios, de Fotaleza, CE.
CAPÍTULO I
Em um dia claro no mês de outubro de 1880, um jovem trajando um
terno elegante estava sentado na orla de um daqueles pitorescos bosques de
carvalhos que adornam com sua sombra refrescante as encostas mais baixas
da cordilheira do Jura. Um grande spaniel de pelo marrom, estirado sobre as
urzes a poucos passos de distância, olhava atentamente para seu dono, como
que ansioso para se certificar de que não sairiam dali tão cedo. Mas o caçador
não parecia ter pressa de retomar seu curso. A espingarda estava apoiada no
tronco de uma árvore e a mochila vazia jogada na margem de uma vala; com
as costas voltadas para o sol e o queixo apoiado na mão, ele vislumbrava o
bucólico panorama que se descortinava à sua frente.
Do outro lado do caminho perto do qual ele havia parado e, margeando
um bosque denso, estendia-se uma flora de cerca de dois anos, cujas
folhagens se espalhavam por entre samambaias e uma vegetação rasteira
amarelada. O terreno arborizado inclinava-se suavemente na direção do vale,
propiciando, em meio às pradarias, uma vista privilegiada do grande povoado
de Pont-Avesnes, com a torre cônica do campanário da velha igreja
destacando-se acima das casas de telhados vermelhos. À direita ficava o
château, rodeado por um fosso largo, agora drenado e transformado numa
plantação de árvores frutíferas. O Avesnes, um riacho estreito
pretensiosamente chamado de rio pelos habitantes locais, cintilava como uma
fita prateada por entre os salgueiros, cujas folhagens agitavam-se acima das
margens.
A siderúrgica, com suas paredes enegrecidas e suas chaminés altas
expelindo uma fumaça avermelhada que era dissipada pelo vento, ficava no
sopé da colina, cuja base rochosa era perfurada com grandes aberturas para a
extração de minério. Acima destas escavações havia fileiras de videiras
verdes, que produziam um vinho branco de qualidade medíocre e sem gosto,
comumente comercializado como Mosele.
O céu azul-claro estava ensolarado; uma névoa transparente pairava
acima do povoado como um véu; a paz permeava a paisagem e o ar era tão
puro que as batidas monótonas dos martelos na forja siderúrgica ressoavam
pelo espaço, do vale até a floresta.
Acalentado pela calma que o rodeava, o jovem caçador permaneceu
imóvel. Pouco a pouco, a paisagem deixou de atrair seu olhar. Uma sensação
de intenso contentamento o dominou e, com um sorriso no rosto, ele seguiu
seus pensamentos, divagando para o passado distante. Por fim, o sol lançou
seus raios sobre as copas rosadas das árvores, uma onda de calor elevou-se
das urzes e o silêncio do bosque tornou-se mais profundo. De repente, porém,
o caçador despertou de sua meditação, quando um focinho frio roçou seus
joelhos e dois olhos com expressão humana o fitavam numa súplica
silenciosa.
– Ah, ah! – exclamou o jovem para seu cão. – Já se cansou daqui,
companheiro? Está bem, não precisa ficar impaciente. Vamos embora.
Levantando-se com um suspiro, ele pendurou a mochila no ombro, pegou
a espingarda e, atravessando o caminho, pulou sobre a vala que margeava a
plantação.
O spaniel já estava farejando a relva crescida e, ao chegar perto de um
espinheiro, parou de repente, com a pata levantada e o pescoço inclinado,
imóvel, como se tivesse virado uma estátua. Apenas a cauda se agitava
levemente, enquanto com os olhos parecia chamar seu dono. Este aproximou-
se depressa e, no mesmo instante, uma linda lebre saltou do esconderijo e
correu, afastando-se velozmente. O jovem caçador ergueu a espingarda e
atirou precipitadamente, mas quando a fumaça se dissipou ele percebeu, com
constrangimento e espanto, que a lebre ainda saltitava na direção do bosque.
– Errei de novo! – murmurou e virou-se para o spaniel, que aguardava
resignado. – Que pena… Você me alertou com grande esperteza e discrição.
Nesse momento, o disparo de uma arma ressoou entre as folhagens, a
cerca de cem metros dali e, depois de um breve silêncio, o caçador ouviu o
som de passos em meio à vegetação. Então as folhagens se moveram e um
homem de aparência vigorosa surgiu, usando uma camisa de linho azul, botas
de cano alto e um chapéu velho. Em uma das mãos trazia uma espingarda e
na outra segurava a lebre pelas patas traseiras.
– Parece que o senhor teve mais sorte que eu – disse o jovem caçador
com um sorriso, aproximando-se do recém-chegado.
– Ah, então foi o senhor que atirou, monsieur? – retorquiu o homem.
– Sim e desastrosamente, porque ela pulou aos meus pés e estava a
apenas uns vinte passos de mim quando mirei.
– Tem razão, não foi um grande feito – concordou o homem de camisa
azul em tom de ironia. – Mas como é que o senhor está atirando neste trecho
do bosque?
– Ora – respondeu o jovem, um tanto surpreso. – Eu atiro aqui porque
tenho o direito de fazê-lo...
– Creio que não. Estas terras pertencem a monsieur Derblay, que não
permite que ninguém as invada.
– Ah, ah! O dono da siderúrgica de Pont-Avesnes – respondeu o jovem
caçador com uma ponta de arrogância. – Se invadi as terras dele foi sem
saber e realmente lamento que isso tenha acontecido. O senhor deve ser o
capataz de monsieur Derblay, estou certo?
– E o senhor, quem é? – devolveu o homem de camisa azul, sem
responder a pergunta.
– Eu sou o marquês de Beaulieu e espero que acredite que não tenho o
hábito de caçar ilegalmente.
Ao ouvir a resposta, o homem de camisa azul ficou com o rosto vermelho
e fez uma mesura.
– Peço mil perdões, Vossa Graça. Se eu soubesse de quem se tratava não
o teria abordado nem pedido explicações. Por favor, fique à vontade, estou de
saída.
Enquanto ouvia o pedido de desculpas, o jovem marquês estudou
atentamente o homem de camisa azul. De alguma forma, os modos dele não
combinavam com o traje simples. O rosto emoldurado por uma barba preta
era bonito e refinado, a expressão inteligente. As mãos eram bem-feitas e
tratadas. Além disso, a espingarda que ele acabara de pendurar no ombro era
uma daquelas armas admiráveis, elegantes em sua simplicidade, que somente
os armeiros ingleses sabiam fabricar.
– Obrigado – respondeu o marquês com frieza. – Mas eu não tenho a
honra de conhecer monsieur Derblay. Tudo que sei é que ele é um vizinho
irritante, com quem não nos entendemos bem. Portanto, prefiro não atirar
mais nesta propriedade. Cheguei ontem a Beaulieu, ainda não estou
familiarizado com o lugar e minha paixão pela caça me levou a ultrapassar os
limites do terreno. Mas não voltará a acontecer.
– Como quiser, Vossa Graça, respondeu o homem de camisa azul
educadamente. – Mas posso garantir que monsieur Derblay ficaria feliz em
lhe provar, nestas circunstâncias, que se ele é irritante, não é porque tenha
gosto em sê-lo. Ele de fato acabou invadindo a propriedade Beaulieu com a
ferrovia da mineradora; mas fique certo de que ele lamenta e que está pronto
para indenizá-lo de maneira satisfatória. A divisa entre duas propriedades
vizinhas às vezes é indefinida – ele acrescentou com um sorriso. – O senhor
mesmo acabou de perceberhumana.
– O que está acontecendo? – interpelou, preocupado.
– Ah, monsieur Derblay! – exclamou a mulher aos prantos, que ficou
ainda mais histérica ao ver o dono da siderúrgica, – é o meu pobre garoto,
meu pequeno Jacques, que estava no vagão que virou e agora ele está
soterrado embaixo de toda aquela areia há mais de 45 minutos.
– E o que foi feito para resgatá-lo? – perguntou Philippe, nervoso,
dirigindo-se aos mineiros.
– Removemos o máximo de areia que conseguimos, senhor – respondeu o
encarregado responsável, apontando para uma imensa escavação. – Mas
paramos, por medo de que as vigas e os dormentes desabem e esmaguem o
rapaz.
– Há dez minutos ele ainda falou conosco – gritou a mãe, desesperada, –
mas agora não conseguimos ouvi-lo mais. Ele deve estar sem ar. Pobre do
meu menino! O senhor vai deixá-lo morrer soterrado?
E tomada pela emoção, a pobre mulher rompeu em lágrimas e sentou-se
no barranco gramado ao lado do soterramento.
Jogando a arma para os espectadores, Philippe Derblay se atirou no chão
e enfiou a cabeça dentro da escavação feita embaixo do emaranhado de
dormentes. Mas tudo que ouviu foi silêncio na tumba de areia do rapaz.
– Jacques! – gritou Philippe, cuja voz soou lúgubre e abafada vindo
debaixo da areia e das vigas, – Jacques! Você está me ouvindo?
Um gemido, e, um tempo depois, as seguintes palavras chegaram
desconexas.
– Ah, patrão, é o senhor. Meu Deus! Se o senhor está aí, então estou
salvo.
A confiança sincera tocou Philippe profundamente e determinado a fazer
o máximo possível, ele tentou até mesmo o impossível para tornar realidade a
esperança do pobre rapaz.
– Você consegue se mexer? – perguntou.
– Não – murmurou o rapaz, ofegante, como se estivesse quase sufocado.
– Além disso, acho que estou com uma perna quebrada.
Essas palavras, que foram ouvidas em meio ao silêncio mortal, causaram
um murmurinho de pesar entre os espectadores.
– Não tema, meu rapaz, vamos tirá-lo daí – retomou Philippe e então
ficou de pé e se dirigiu aos trabalhadores: – Vocês, peguem algumas escoras
e levantem esta viga.
Ao mesmo tempo ele apontou para uma viga imensa soterrada embaixo
dos destroços e cuja parte exposta formava um tipo de alavanca natural.
– Não vai adiantar, chefe – disse o encarregado, balançando a cabeça
desanimado. – Vai desabar tudo. Só tem um jeito de dar certo. Três ou quatro
homens fortes entram pelo buraco que conseguimos abrir para tentar tirar o
rapaz, uma vez que ele não consegue se mover. Enquanto isso, tentamos
calçar os dormentes. Mesmo assim é muito arriscado e os homens que
entrarem podem acabar presos lá dentro.
– Precisamos tentar – disse o dono da siderúrgica, olhando para seus
funcionários; e quando todos permaneceram imóveis e calados seu rosto
ficou vermelho.
– Se um de vocês estivesse embaixo daquela areia, o que estaria pensando
dos seus companheiros de trabalho que o deixaram lá? – ele perguntou. –
Vamos, se ninguém tem coragem, eu vou.
E abaixando, Philippe deslizou por entre os escombros. Um grito de
gratidão e admiração se ergueu entre todos que assistiam a cena terrível; e
como se o exemplo tivesse sido suficiente para restaurar a coragem de cada
um, três homens seguiram o patrão, enquanto o restante, unindo as forças,
entraram embaixo das vigas projetadas e as ergueram à custa de um esforço
descomunal. Mais uma vez o silêncio se instalou. Só era possível ouvir os
soluços desolados da mãe e a respiração ofegante dos trabalhadores, que
oscilavam sob o peso que tentavam a todo custo suportar. Poucos minutos,
que pareceram demorar um século e durante os quais as vidas dos cinco
homens que se prestavam ao socorro permaneceram em suspense, se
passaram e então veio um clamor de felicidade. Sujos de terra, mãos e
ombros esfolados, os quatros homens surgiram da escavação e Philippe, que
saiu por último, trazia nos braços o rapazinho desacordado.
Um estrondo assustador se seguiu. Os trabalhadores tinham deixado de
apoiar as vigas, que agora cederam, preenchendo o espaço vazio deixado pelo
rapaz resgatado. A mãe deste, que agora parecia enlouquecida de felicidade,
extravasava a sua alegria e gratidão pela vida do seu filho ao patrão que o
salvara, enquanto a multidão, impressionada e, emudecida, cercava o grupo
respeitosamente.
– Vamos, levem o rapaz para casa – disse Philippe, animado, – mandem
chamar um médico.
Então, depois de dar uma ajeitada na roupa e pegar a sua arma, o dono da
siderúrgica retomou seu caminho para Pont-Avesnes.
As notícias do resgate se espalharam em seguida ao anúncio do acidente e
quando Philippe surgiu nos portões do château, ele avistou a irmã,
acompanhada de Bachelin, que vinham em sua direção. Assim que viu o
irmão, Suzanne apressou o passo. Ela se aproximou, usando um vestido leve
e trazendo uma enorme sombrinha rosa, que protegia seu rostinho encantador
do dia ensolarado. Mademoiselle Derblay estava então com 17 anos e seu
rosto feliz e cheio de frescor, exibia uma expressão de encantamento sincero
e puro. Os olhos castanhos sorriam ainda mais que os lábios. Não era linda,
mas seus modos simples e jeito ingênuo conferiam um charme irresistível.
Impaciente, saiu em disparada na direção do irmão, deixando para trás a
sombrinha que saiu voando como uma vela. Ela estava de braços abertos para
lançar o redor do pescoço de Philippe, quando ele a afastou gentilmente,
dizendo:
– Não me toque! Estou coberto de lama e vai estragar seu vestido.
– Que importância tem? – Suzanne indagou tomada pela euforia. – Oh!
Preciso lhe dar um beijo! Você salvou o rapaz! Oh, Philippe! Você está
sempre por perto quando acontece alguma coisa boa e bonita!
E com isso, tomou o rosto do irmão entre as mãos e lhe deu um beijo
carinhoso.
Bachelin, que tinha ficado para trás, se aproximava ofegante.
– Muito bem, meu caro amigo – saudou o tabelião, – mais uma boa ação
para ser creditada a você.
– Não diga isso – interpôs Philippe, com um sorriso. – O rapaz era
merecedor. O pior de tudo é que o pobre saiu gravemente ferido. Você
deveria fazer uma visita a ele, Suzanne, com a sua caixinha de remédios e se
houver alguma despesa, por favor, pague.
– Vou agora mesmo, meu irmão – disse a jovem. – Devo levar Brigitte
comigo?
– Faça isso. Quanto a nós, meu caro tabelião, vamos entrar – adicionou
Philippe, voltando-se para Bachelin. – Estou parecendo um andarilho e
preciso trocar de roupa.
Enquanto Suzanne seguia na direção da ala dos criados, Philippe e o
tabelião cruzaram o pátio quadrado, cercado por imensas tílias antigas e que
tinha no centro um lençol d’água retangular, rodeado por um canteiro de
flores, de onde jorrava um jato de água, que caía pulverizado pelo vento em
forma de gotinhas tingidas pelo brilho iridescente dos raios do sol. O
laguinho foi tudo que sobrou das águas abundantes que circundavam o
château quando o rio Avesnes foi desviado do seu curso e transformado em
fosso pelos antigos senhores de Pont-Avesnes. No reinado de Luís XIII foi
construída a barragem local e o fosso foi esvaziado. O lodo formado no
fundo, misturado a uma boa quantidade de terra, trazida de longe com muito
sacrifício, resultou no formidável solo fértil que impulsionou o
desenvolvimento das árvores frutíferas que ainda são o orgulho de Pont-
Avesnes. Lá existem pereiras e pessegueiros de quase 200 anos que
produzem frutos de sabor incomparável; pois o fosso largo, com suas paredes
de pedra que serviram para apoiar as espaldeiras, funciona como um tanque
onde o sol armazena seus raios vivificantes. O local é tão quente quanto à
casa das caldeiras e os ventos impiedosos não conseguem penetrar para secar
e murchar as árvores.
O château foi construído no alto de uma elevação maciça, que lhe confere
elegância, apesar de ser um pouco escuro e lúgubre; e suas torres altas
cobertas de ardósia se elevam ameaçadoras no céu. Como Philippe se limitou
a ocupar apenas uma das alas da vasta pilha frígida de pedras, o restante
permaneceu fechado e não fosse pelo cuidado de Brigitte, a irmã de coração
adotada por Suzanne, que apesar da pouca idadee graças à precocidade e
habilidade para distribuir o trabalho entre os empregados, o château estaria
largado. E a jovem ativa, empenhada em seu zelo, coloca os criados para
fazerem uma faxina completa duas vezes por mês em todo o local e cuida
para que os maravilhosos móveis, estilo Luís XIV, que decoram os salões, se
mantenham em perfeito estado.
Quando Brigitte abre as venezianas da imensa sala de estar e a luz natural
invade o amplo cômodo, o efeito é parecido com o de uma cortina se
erguendo em um teatro para revelar um cenário maravilhosamente luxuoso.
As paredes são revestidas por belíssimas tapeçarias, que contam a história de
Alexandre, o Grande. As poltronas imensas resplandecem o brilho do veludo
genovês e o dourado dos braços imponentes de madeira. Os imensos espelhos
venezianos refletem por algumas horas em seus painéis chanfrados, as flores
dos canteiros, o jato d’água e um pedacinho do céu azul. Então, Brigitte passa
altiva carregando um espanador de penas e uma vassoura. Quando finalmente
a limpeza termina, as venezianas são fechadas novamente e as riquezas
artísticas do château caem novamente na escuridão.
Na ala do piso térreo que é habitada, Philippe reservou para ele um
escritório grande, rodeado de estantes de livros, sendo que os mais altos só
podem ser alcançados com a ajuda de uma escada de rodinhas. No centro fica
uma imensa escrivaninha coberta de papéis, que dá a ideia de uma bagunça
aparentemente organizada. Em meio à papelada, um belo tinteiro de bronze,
com dois querubins gordinhos brigando, sendo que o que está vencendo a
disputa ri, enquanto tenta enfiar um cacho de uvas na boca do derrotado.
Sobre a cornija da lareira fica um admirável relógio Boulle de marchetaria
com acabamento em latão. Ao lado da biblioteca se encontra a sala de jantar,
sobriamente decorada com mobiliário antigo feito em peroba. Sobre o
aparador uma prataria rica e maciça, que nunca é usada. Em contrapartida, a
sala de estar é decorada com móveis mais modernos, num estilo mais
burguês, com cortinas de popeline de seda azul e móveis estofados no mesmo
tom. O relógio da cornija e a ferragem da lareira são de estilo rococó. Sobre
uma mesinha de marchetaria jaz um bordado inacabado, aparentemente
esperando pelo retorno de Suzanne. As duas paredes laterais contam com
dois retratos, um de monsieur e o outro de madame Derblay, pintados com
mais sensibilidade do que talento por um aprendiz medíocre de Flandrin.
No primeiro andar ficam dois quartos enormes ocupados por Philippe e
Suzanne, com quartos de vestir conjugados. Um tem um aspecto sóbrio, com
cortinas de veludo bege e móveis pretos, que conta como únicos objetos de
decoração uma armadura e um tambor de infantaria, perfurado por três balas
no centro, lembrança de Pont-Noyelles. O outro quarto é virginal e fresco
como sua ocupante. As cortinas de musselina branca são sobrepostas por um
tecido azul, atenuado por toques de rosa. Os móveis são laqueados de branco,
realçados com filetes azuis. E todos os pequenos objetos de decoração que
adornam o quarto remetem à delicadeza de uma mocinha. Da janela, Suzanne
pode ver as longas alamedas do jardim, delimitadas pela vegetação. E ali é
livre para sonhar com um momento de alegria na incerteza que é a juventude.
Foi para a biblioteca que Philippe levou Bachelin depois que a irmã os
deixou. Ele desconfiava que o tabelião tivesse vindo de Beaulieu e como todo
apaixonado, ansiava por saber dos detalhes, importantes ou triviais, que seu
velho amigo invariavelmente o colocava ao par, após as visitas que fazia aos
nobres moradores do château. Neste dia, porém, Bachelin não parecia muito
disposto a falar. Acomodado em uma poltrona, ele olhava despreocupado
para seu anfitrião, que estava de pé diante dele, como se fosse um ponto de
exclamação. Até que finalmente Philippe não conseguiu se conter mais e
perguntou com uma calma fingida:
– O senhor falou com madame de Beaulieu a respeito do arranjo que
propus sobre a invasão das terras dela?
– Certamente.
– Ela achou razoável?
– Deveras.
Philippe olhou desconfiado para Bachelin, irritado com seus modos
lacônicos; mas, decidido a abordar o tema coração, retomou:
– O senhor ofereceu também a permissão para caçarem na minha reserva?
– Por que teria? – indagou tranquilamente o tabelião, laçando um olhar
irônico.
– Ainda me pergunta por quê? – repetiu o último, surpreso.
– Bom – respondeu Bachelin, – não vi necessidade de fazer tal oferta,
uma vez que o senhor mesmo a fez ao marquês, nesta manhã e do modo mais
romântico, por assim dizer.
Um leve rubor perpassou o rosto de Philippe e ele abaixou a cabeça sem
jeito.
– Ah, então monsieur de Beaulieu contou sobre o nosso encontro? – ele
indagou. – Mas ele não sabia com quem estava falando.
– Contei para ele. Talvez devesse ter dito também que o amigo só encheu
daquela maneira a sacola de caça dele por que está apaixonado pela irmã?
– Como assim!
– Ah! Ah! Acaso negas? – perguntou Bachelin num tom zombeteiro. –
Isso quer dizer que não está mais apaixonado por mademoiselle de Beaulieu?
– Só se estivesse louco – respondeu Philippe. – Como eu, um trabalhador
que vive afastado da sociedade há tanto tempo, teria imaginado a existência
de uma jovem como aquela, ao mesmo tempo tão bela e tão orgulhosa e
exatamente por esta última qualidade talvez seja ainda mais atraente? Eu a vi
pálida e pensativa, um pouco ansiosa, sem dúvida, por conta da longa
ausência do jovem do qual está noiva; e apesar disso, sem pensar nos
impedimentos, aos poucos fui me apaixonando por ela. Esqueci da distância
que nos separa; nem pensei nas nossas origens distintas. Não dei ouvidos à
voz da razão, à prudência da experiência; só escutei o amor que cresceu de
modo irresistível dentro do meu coração. Ah, meu velho amigo, tenho
vergonha de mim mesmo e ao mesmo tempo não consigo resistir a esta
paixão louca que me faz sentir uma alegria estranha, sensações esquisitas;
que me dá tudo, menos esperança! Se colocasse um fim a esta minha
cegueira, eu perderia a esperança, isto lhe garanto.
– Não espere nada – retomou Bachelin num tom provocador. – Mas, em
todo caso, você ama e isto é fato. Assim concluo que agi corretamente com
relação ao que falei para a marquesa.
– E o que falou? – interrogou Philippe, ansioso. – O que quer dizer com o
que falou? Sobre o que falou?
– Falei sobre o que você pensa, sobre o que acabou de expressar para
mim de um modo tão apaixonado.
O magnata recuou um passo, cerrando as sobrancelhas, com uma
expressão sombria. Mordia nervoso os lábios, até que, finalmente, fazendo de
tudo para mostrar que estava controlado, perguntou:
– Mas acaso pedi ao senhor para colocar madame de Beaulieu ao par de
tal assunto?
– Não, é bem verdade que não me pediu – argumentou Bachelin. – Mas
confesso que achei a ocasião oportuna e não hesitei. Percebe, não há nada
melhor do que uma boa oportunidade. Você poderia ter continuado na moita
por semanas e talvez meses; afundando cada vez nesta aventura amorosa e
talvez sem conseguir avançar. Foi bem melhor colocar tudo as claras de uma
vez por todas, mesmo correndo o risco de uma rejeição. Foi por isso que fiz o
que fiz. Não acha que meus motivos se justificam?
Philippe nada disse. Mal tinha ouvido Bachelin, pois sua cabeça girava e
ele tinha perdido toda a noção da existência. Era como se tivesse sido
arremessado para o céu a toda velocidade. O vento soprava aos seus ouvidos
e ele não conseguia fixar os olhos em nada em meio ao borrão que obscurecia
sua visão. Dentro da sua cabeça latejante parecia que uma voz repetia
insistentemente o que parecia ser uma distante revelação do destino: “Claire!
E se ela realmente se tornar sua!”
O tabelião finalmente o despertou do torpor.
– O que significa este olhar parado? – perguntou Bachelin. – Está
parecendo um profeta.
Philippe passou a mão na testa, como se quisesse disfarçar a agonia e
sorrindo para o amigo, respondeu:
– Queira me desculpar, me distrai pensando que o senhor deu um passo
tão sério sem antes me consultar. Nunca imaginei quefosse da sua natureza,
do contrário teria lhe pedido para não dizer nada. Desde o dia que fui fraco o
suficiente a ponto de confessar que estou apaixonado por mademoiselle de
Beaulieu que não consigo parar de me arrepender por ter-lhe falado tão
abertamente. Mas talvez quando um homem está apaixonado seu coração se
torna muito pequeno para tanto amor e sem querer deixamos escapar mais do
que devemos. Quando as confissões estão na ponta da língua é impossível
conter. Mas mal dei vazão a minha ilusão e ela já foi revelada e, em seguida,
a dura realidade se avulta diante de mim. Mademoiselle de Beaulieu nunca
me concedeu a honra de notar a minha existência. Ela é rica, está noiva do
primo e será uma duquesa. Devo ser um louco por estar apaixonado por ela.
Sem dúvida mereço ser punido e estou pronto para me submeter ao castigo.
Vamos, conte tudo; não me poupe de nada.
– Para começar, vou contar que mademoiselle de Beaulieu não é mais
rica, que provavelmente nunca se tornará uma duquesa e que um homem
honrado como você nunca teve mais chances do que agora de ser aceito como
marido dela.
Ao ouvir isso Philippe empalideceu tanto que parecia que estava prestes a
desmaiar. Ele soltou um grito de alegria e então, rendendo-se a emoção,
largou o corpo pesado em uma poltrona.
– Oh, vá devagar! Tome cuidado com as esperanças que me dá! Seria
muito difícil ter de abrir mão delas depois.
– Mesmo assim lhe dou esperanças – retomou Bachelin, – apesar de ao
fazê-lo acabarei revelando, para o seu bem, todos os segredos da família
Beaulieu. Por outro lado, sei que é de seu interesse ser discreto e, por isso,
estou certo de que não vai repetir uma palavra sequer de tudo que vou lhe
contar.
Philippe segurou o tabelião pelas mãos, encarando-o com os olhos
ardendo de curiosidade.
– Mademoiselle de Beaulieu está arruinada, pois a família perdeu aquela
ação judicial na Inglaterra – resumiu Bachelin, – mas ela não sabe disso. Ao
longo das últimas seis semanas o duque de Bligny está em Paris sem nem
pensar nela e ela também não sabe disso. No entanto, assim que
mademoiselle Claire ficar sabendo que foi abandonada, seu coração vai se
desfazer e restarão milhares de cacos para serem juntados por aquele que
estiver por perto.
– Arruinada e abandona! – exclamou Philippe. – Aquela moça perfeita e
adorável! Mas para que ela precisava de mais dinheiro se o único tesouro que
um homem pode esperar dela é ela mesma?
– Sim, certamente; e ao falar de você para a marquesa insisti no seu
absoluto desinteresse.
– Fez bem – disse Philippe, animado. – Diga para madame de Beaulieu o
que penso. Diga isso a ela também, eu lhe imploro.
Parou então abruptamente, como se tivesse ficado triste com algum
pensamento desencorajador. – Não – retomou, – não diga nada. Ela é
orgulhosa e soberba. A ideia de dever alguma coisa ao homem que será seu
marido poderia erguer uma barreira entre nós e induzi-la a me rejeitar.
Entretanto, aqueça a marquesa, coloque-a a par dos meus escrúpulos, tente
conquistar a aprovação dela. Acima de tudo, deixe claro que sou um
pretendente à mão da filha dela. Oh, eu receberia a mão de mademoiselle de
Beaulieu de joelhos. Mas eu gostaria que ela pensasse que ainda é rica, para
assim me aceitar ou recusar livremente. Mesmo que, ao me casar com ela, eu
lhe der tudo que tenho, será a mim que ela estará fazendo um favor.
– Calma! – exclamou Bachelin, interrompendo Philippe com um gesto de
mão afetuoso. – Você está se precipitando. Que linda é a juventude e o amor!
Mas é preciso agir com cautela. No momento, a única coisa que precisa fazer
é visitar o château. Na falta de outras satisfações, ao menos poderá ver o
objeto da sua adoração, como diziam as pessoas antigamente. Tenha calma e
serenidade, aja discretamente e de acordo com a situação e leve junto sua
irmã. Ela irá fazer as vezes de escudo; os outros ficarão distraídos com ela e
enquanto isso você ficará mais à vontade.
– E quando devo ir a Beaulieu? – perguntou Philippe, com evidente
tremor.
– O que é isso, já está com medo, antes mesmo de começar? Bem, eu iria
amanhã. Uma boa noite de sono vai lhe colocar no prumo novamente; deste
modo você estará mais senhor da situação e poderá desfrutar de todos os
benefícios.
Enquanto falava o tabelião foi se levantando, enfiou sua pasta embaixo do
braço e avançou alguns passos na direção da porta. Parando de repente, no
entanto, no centro da sala e lançando um olhar zombeteiro ao dono da
siderúrgica, perguntou:
– Ainda está arrependido por eu ter contado tudo para madame de
Beaulieu sem sua autorização? No afã da emoção você se esqueceu de me
perguntar qual foi a reação dela.
– É verdade – admitiu Philippe, cuja alegria de repente se transformou em
ansiedade. – O que foi que ela disse?
– Ela disse o que era esperado que fosse dito num caso como este, isto é,
ela declarou que não tinha nada a dizer e que nunca iria forçar mademoiselle
Claire a se casar. Em suma: ela deu a resposta de acordo. Mas acredite, a
força da posição que anseia conquistar não está nas mãos da mãe, mas sim
nas da filha; por isso, tenha coragem. E agora preciso ir embora para jantar.
Com isso Bachelin trocou um aperto de mão firme com o poderoso
industrial e se foi.
Sozinho, Philippe caiu em profunda meditação. Ponderou com calma toda
a situação e foi obrigado a reconhecer para si mesmo que suas esperanças não
eram desfavoráveis. Desonrosamente traída pelo primo, mademoiselle de
Beaulieu seria obrigada a passar mais alguns meses em Jura, para esperar que
o tempo apagasse um pouco a humilhação sofrida. Durante este período, ele
teria oportunidades para vê-la, oferecer atenções discretas e talvez até
conseguisse conquistá-la. Suzanne com certeza seria de grande ajuda e, em
vez de enviá-la para o colégio interno em Besançon logo depois das férias,
ele poderia mantê-la em casa. Ela poderia se tornar a companheira de Claire e
conquistar a sua amizade com seu jeito ingênuo e delicado. Aos poucos,
quem sabe, poderia instar algumas ideias sobre o irmão no coração de
mademoiselle de Beaulieu.
Conforme tais pensamentos permeavam a mente de Philippe, seu sonho
parecia se transformar em realidade. Ele já podia imaginar as duas passeando
calmamente sob as árvores de Pont-Avesnes. Caminhavam lado a lado e de
braços dados, como se fossem irmãs, uma alta e orgulhosa, a outra delicada e
gentil. Ficou observando as duas e foi como se pudesse sentir o discreto
perfume que elas emanavam. O cheiro delicioso o intoxicou e ele estava
prestes a tocar nelas, quando de repente lábios encostaram a sua testa,
despertando-o do devaneio. Em seguia a voz doce de Suzanne sussurrou ao
seu ouvido:
– O que você está pensando, Philippe?
Como o rapaz permaneceu sentado, com um leve sorriso nos lábios e sem
nada responder, ela se apressou em dizer:
– Não vai me dizer? Então vejo que serei obrigada a adivinhar. Bem, não
tenho dúvidas de que está pensando naquela moça muito bonita de cabelos
dourados.
Philippe ficou de pé num rompante e tomando a mão da irmã.
– Suzanne! – ele exclamou.
Mas ao ver o olhar da jovem exalando malícia, ele perdeu a confiança e
não conseguiu terminar o que pretendia dizer. Permaneceu parado num
estado de estupefação tal, indagando consigo mesmo como a irmã tinha
adivinhado com tanta exatidão seus pensamentos.
– Parece perturbado – retomou Suzanne, carinhosamente. – Pensou que
seu segredo estivesse tão bem guardado que ninguém seria capaz de
descobrir? Mas há um mês ou mais você tem andando diferente e nem
precisei me esforçar muito para perceber que seu coração não me pertence
mais. Não estou com ciúme, eu o amo muito para nutrir tal sentimento. E se
fico ansiosa quando o vejo tão pensativo e distante, não é por que tenho
receio de que deixe de gostar de mim para gostar de outra, mas porque temo
que esteja sofrendo. Devo muito a você, Philippe. Foi você quem me
protegeu, me amou e me criou quando fiquei sozinha sem pai e nem mãe. E
tenho a impressão de que não sou apenas uma irmã para você, mas uma filha,
a criança que você cuidou e mimou.Mas vá em frente; ame e seja amado! Eu
só poderia ficar feliz; pois sei que nenhuma felicidade é boa o suficiente neste
mundo para agraciar um ser tão perfeito quanto você.
Lágrimas brotaram nos olhos de Philippe e descem pelo seu rosto. As
palavras gentis da sua irmã tocaram profundamente seus nervos já abalados.
Ele se sentiu suplantado e permaneceu imóvel, apoiado no mantel, olhando
para Suzanne, que sorria.
– Agora está chorando – ela comentou. – Diga; é tão triste assim se
apaixonar?
– Nunca mais repita uma bobagem dessas – interrompeu Philippe numa
voz abafada.
– Bobagem! Mas por quê? Que mulher seria capaz de não retribuir a tão
nobre sentimento?
E se colocando diante dele com uma expressão ousada e gestos resolutos,
ela prosseguiu: – Se for preciso eu mesma posso falar com essa tal pessoa:
‘Mademoiselle, você está agindo muito mal em não retribuir o amor do meu
irmão, pois ele é superior a todos os outros homens deste mundo. Posso lhe
garantir isto, pois eu o conheço há muito tempo e o conheço muito bem’. E
serei tão convincente que ela irá se aproximar de você de livre e espontânea
vontade e irá erguer a mão com uma reverência encantadora e então dirá,
olhando nos seus olhos: ‘Monsieur, a sua irmãzinha foi tão convincente que
não pude deixar de enxergar as suas qualidades. Você me daria a honra de se
casar comigo?’ Então eu darei a minha benção aos dois com um ar de
proteção solene e vocês serão felizes para sempre. Viu! Você está rindo. Eu
sabia iria acabar te consolando.
Então, entrelaçando o braço ao do irmão, cujos sentimentos não
resistiram ao entusiasmo sincero, Suzanne o conduziu para fora, exclamando:
– Vamos passear pelo jardim enquanto o dia do casamento não chega!
CAPÍTULO IV
Seis semanas antes, quando o duque de Bligny desceu do trem que o
trouxera de São Petersburgo para Paris, cansado da viagem sem escala e
dormindo em um vagão que chacoalhou o tempo todo, ele seguiu direto para
o seu clube. Sem reserva em hotel e com a casa da tia vazia, Gaston imaginou
que a solução mais prática seria instalar-se em um dos quartos que um bom
clube sempre costuma deixar à disposição de seus sócios. Sua intenção era
permanecer apenas uma semana em Paris; na verdade, pretendia partir para
Beaulieu assim que tratasse de alguns assuntos de trabalho no Ministério do
Exterior e fizesse algumas compras.
Fazia quase um ano desde a última vez que estivera na França. Vinha
levando na sociedade russa aquela vidinha artificial parisiense, que é
considerada o máximo do bom gosto no exterior, mas que se parece com a
vida da alta sociedade de Paris, tanto quanto um seixo do Reno se parece com
um diamante Wisapoor.
Mesmo assim a cópia refinada dos eslavos acabou por seduzi-lo e ele
apreciou imensamente a vida que misturava a languidez asiática com a
agitação europeia. As russas o encantaram pela leveza e beleza enigmática.
Assim acabou acometido por uma curiosidade de desvendar os segredos
destas esfinges sorridentes, cujos olhos eram fascinantes e as garras
ameaçadoras. O belo rapaz, bem-nascido e de sobrenome importante, foi
muito assediado e, aos poucos, a imagem de sua noiva, tão fielmente gravada
em seu coração, foi esmaecendo, como se fosse um desses lindos desenhos de
Latour feitos em giz pastel, que com o tempo vão desbotando.
Longe de Claire, a princípio ele se sentiu como se fosse um exilado,
determinado a levar uma vida pacata e sóbria. Mas como é possível se manter
na clausura quando se é um jovem adido de uma embaixada francesa e alvo
de convites sedutores? Após uma semana de retiro austero, Gaston não teve
como deixar de comparecer a uma recepção oferecida pelo embaixador e
assim envergou seu melhor traje de festa e estreou na sociedade de São
Petersburgo.
Logo na primeira noite o jovem duque se transformou no queridinho da
aristocracia russa. Seu avô, que emigrou junto do conde d’Artois, logo após a
eclosão da revolução, era amigo íntimo dos Nesselrode, dos Pahlen e dos
Gortschakoff. Bligny foi recebido com distinção pelas grandes
personalidades da corte e foi apresentado ao Czar, que tratou o jovem adido
com uma distinção marcante. Este diplomata de 25 anos acabou por
conquistar em uma única noite uma posição de destaque e seus superiores,
sagazes o suficiente para não se ofenderem com o seu sucesso, só pensavam
em como tirar proveito da influência que o subordinado tinha conquistado
praticamente com um piscar de olhos.
Mas, embora Gaston fosse um cavalheiro elegante e um conhecedor do
mundo, estava se revelando um péssimo diplomata. Não demorou muito para
que acabasse se entregando aos prazeres e deixasse de lado as intrigas da
diplomacia; portanto, a sociedade de São Petersburgo tinha adicionado um
recruta brilhante, mas a França tinha contratado um funcionário inútil.
Zumbindo e pulando de flor em flor, o duque de Bligny não era a abelha
operária ocupada com a produção do mel, mas sim a brilhante vespa feita
para polinizar, com seu peitoral dourado reluzindo à luz do sol. Em poucas
semanas ele se revelou um bon vivant. Seu bom humor desafiou o
embotamento da maioria esmagadora. Nos jantares acompanhava os mais
renomados beberrões e todos bem sabem o quanto os russos bebem. No clube
dos nobres disputou uma partida legendária de bacará, que durou três dias e
três noites, durante os quais o duque e seus adversários só deixaram a mesa
para recarregar as forças esgotadas. Gaston, no entanto, venceu seus rivais
não pela sorte persistente, mas pelo sono que acabou derrubando-os. Tempos
depois ele se tornou amante da fascinante Lucie Tellier, a estrela da
companhia de teatro francesa do Teatro Michael; e ela foi sua, apesar de
todas as investidas dos boiardos locais. Mas com o tempo acabou de
cansando dela, provavelmente porque ela se mantinha fiel e assim ele teve o
maior prazer em devolvê-la para seus admiradores moscovitas.
Madame de Beaulieu previra com precisão o futuro do sobrinho. O duque
era o leão da temporada do inverno russo. Não havia uma festa boa sem a sua
presença. Poderia até ter aspirado à mão das herdeiras mais ricas de São
Petersburgo, mas ele desdenhou cada abertura oferecida e exatamente por
isso acabou se transformando no solteiro mais cobiçado.
Mas o tédio corria nas veias de Bligny. Após seis meses dessa vidinha,
ele acabou se cansando e o único remédio contra o mau humor foi a mesa de
jogo. Na primeira vez que tocou num baralho, ele sentiu que tinha nascido
para isso. E assim acabou se entregando ao jogo com uma sorte desaforada.
Parecia que tinha nascido predestinado para ganhar. Pela manhã, carregado
com os despojos dos seus adversários, voltava para casa com a sensação de
que tinha um aro de ferro pressionando ao redor da sua cabeça e com um
gosto amargo na boca. Ia para a cama depois que o dia amanhecia, e,
esgotado, dormia o dia todo. Lá pelas quatro da tarde acordava e seu dia
começava justamente quando as lâmpadas de gás estavam começando a
serem acesas pela cidade. E assim ajustou sua rotina ao contrário da rotina da
maioria das outras pessoas. Vivia como se ela fosse inversa e durante dois
anos foram poucas as vezes que viu o sol. Já não era mais uma borboleta, mas
sim uma mariposa. Seu rosto, antes gracioso e delicadamente talhado, tinha
agora traços duros e graves. Bonito sem dúvida ainda era, mas o encanto e o
frescor da juventude tinham desaparecido e junto se foi a máscara de bon
vivant. Os cabelos escuros, ligeiramente encaracolados na frente, estavam
ficando grisalhos nas têmporas. Os olhos, de um azul indefinido, fundos e
encovados. A vida louca que estava levando deixava marcas profundas a cada
dia que passava.
Sua tia teria alguma dificuldade para reconhecê-lo. Já não era mais o
jovem rapaz tímido com uma voz suave que passava as tardes, tranquilo, na
companhia da marquesa e de Claire, na sala de estar da mansão da família.
Mademoiselle de Beaulieu, que era resoluta e decidida e até certo ponto tinha
uma natureza que neste sentindo se assemelhava a dos homens, quando
queria provocá-lo, o chamava de “Srta. Gaston”. Mas agoraele tinha perdido
toda aquela candura que o fazia parecer com uma donzela refinada. Ele tinha
virado homem e um homem perigoso. Tinha descoberto os tesouros do
ceticismo inato à sua mente. Não acreditava em nada e colocava seus
prazeres acima de tudo. O sangue paternal, que a vidinha pacata de antes
acabara por acalmar dentro dele, voltara a fervilhar outra vez; e a ardente
família Bligny, que do reinado de Henrique III em diante forneceu à corte
francesa os dândis mais libertinos, ousados, conquistadores e pervertidos,
encontrou na sua pessoa a pior representatividade das tradições ancestrais.
O corpo de aparência frágil tinha uma força inesgotável. Ele era como um
daqueles nobres de antigamente que empoavam o rosto e perfumavam as
mãos; que, em vez de se abaixar, mandava os criados pegarem o bilboquê;
que eram carregados em liteiras para evitarem o cansaço causado pela
equitação, mas que, nos campos de batalha, desembestavam como uns
desvairados, envergando uma armadura pesada sobre o corpo para realizar
atos heroicos. Gaston certamente não andaria um quilômetro sequer
carregando algum objeto útil, mas gostava de atirar e caçar por um dia
inteiro, lutar esgrima por horas a fio, ao ponto de cansar até mesmo aqueles
que se consideravam imbatíveis.
Mas era na mesa de jogo que realmente mostrava todo seu poder. Era
como se a sua vontade bastasse para manter a sorte ao seu lado. A pior “mão”
se transformava na melhor quando manipulada por ele. A “banca” não tinha
chance quando ele atacava, mas quando estava em suas mãos parecia
inconquistável. Por três anos a sorte o tratou como uma criança mimada e ele
foi apelidado de “Gaston, o sortudo”. Se fosse outro em seu lugar, talvez
pudesse ter sido visto com desconfiança, mas a sua honestidade era muito
patente para que sua pessoa levantasse suspeita.
O que restava da sua fortuna, junto com os fundos que ganhou na mesa de
jogo, possibilitou uma vida de grande estilo. Ele possuía cavalos
maravilhosos, uma bela residência e todos os luxos indispensáveis para um
homem viver na alta sociedade. Quando entrou para o círculo da nobreza, o
jogo ganhou um novo aspecto. De imediato, todos perceberam que a coisa
ficaria séria e que grandes quantias rapidamente iriam cobrir o feltro verde.
Ele não se mostrou hábil apenas no bacará e no lansquenê, mas também
mostrou grande habilidade no piquet. Foi a ele que o velho Narishkine, muito
mais rico, deu a seguinte resposta depois de Gaston ter ganhado três mil a
custa dele:
“É melhor eu ir para casa, pois se demorar mais, posso acabar perdendo
algum dinheiro”, disse o milionário, rindo enquanto deixava a mesa de jogos.
Após assistir a uma apresentação na Ópera ou no Teatro Frânces, ou
depois de deixar a casa onde passara a noite se divertindo, Gaston subia no
seu trenó e seguia pelas ruas gélidas. Aquecido no seu casaco de pele, ele
gostava de sentir o ar frio da noite passando pelo seu rosto. Recuperava assim
os nervos para o jogo e se sentia revigorado quando chegava ao clube por
volta das duas da madrugada. Lá encontrava seus adversários muito animados
e, com toda a sua audaciosa frieza calculista, sempre superava até mesmo o
mais ousado dos jogadores. Assim permanecia impassível, sob a luz
incandescente; ganhando ou perdendo, nunca perdia a frieza. Os jogadores
mais velhos não se recordavam de já terem visto postura tão perfeita antes. E
quando ao seu redor afloravam as superstições mais infantis, ele nem se
abalava. Só contava consigo mesmo e dava de ombros para amuletos ou
coisas do tipo.
Embora não tivesse uma natureza apaixonada e fosse muito egoísta para
amar, mesmo assim acabou tendo sorte neste âmbito também. O fato que é
que ele era generoso e nunca desprezava as beldades que lhe sorriam.
Detestava lágrimas e sempre evitava magoar alguém por medo de ouvir
lamentações e reprovações que pudessem vir junto. Em uma ocasião apenas
imaginou que estava perdidamente apaixonado, mas os eventos subsequentes
mostraram que tinha se enganado. Uma das grandes damas da aristocracia
russa, a condessa Woreseff, famosa por suas esmeraldas e cabelos dourados,
se apaixonou por ele. Sempre vigiada pelo marido, que morria de ciúme dela,
a bela condessa não tinha como escrever para ele ou vê-lo senão em ocasiões
sociais. No começo, Gaston, que parecia muito envolvido, quase se esqueceu
do jogo. Começou a seguir a condessa em todas as festas, valsava com ela
bem embaixo do nariz do marido ciumento, mas sem conseguir dar um jeito
de acertar um encontro privado.
Até que um dia, para despistar o marido, Gaston inventou que estava de
partida para Moscou. Ficou sumidos por uns dois dias e voltou para casa sem
que ninguém soubesse. O conde, sentindo-se seguro, relaxou a vigilância e
assim a condessa pôde se encontrar com o amante em três ocasiões. Ela
descia da sua carruagem na entrada de Saint Alexis, entrava na igreja, saía
por uma porta lateral e seguia as escondidas para o encontro. Na terceira vez,
no entanto, um criado desconfiou e depois de seguir as escondidas a
condessa, correu para informar o conde. Este chegou furioso na casa de
Bligny, mas foi impedido de invadir a residência pelo criado do duque, um
parisiense astuto como o “marquês de Macarille”; enquanto a condessa,
enlouquecida, implorava a Gaston que encontrasse um jeito para ela fugir.
Foi nesta situação de emergência que os nervos do jovem se revelaram
extremamente fortes. Seu banheiro, que ficava no térreo, dava para o jardim
da casa vizinha, mas a janela era protegida com grades de ferro. Mesmo
assim, com um esforço fenomenal, Gaston conseguiu arrancar uma das barras
e desta forma Madame Worseff conseguiu pular a janela e escapar. Segundos
após a fuga espetacular, quando o conde foi trazido à presença de Bligny, que
sorria calmamente, ele não encontrou nada que justificasse as suas suspeitas e
deste modo se viu obrigado a se retirar com um pedido de desculpas.
O conde digeriu a raiva calado e se manteve calmo e frio diante da
esposa. Após um breve interrogatório, confirmou as suas suspeitas e decidiu
desafiar o duque para um duelo. Foi até o clube e ocupou um lugar à mesa de
bacará. Como o baralho estava viciado, Gaston abriu um maço novo, quando
o conde rudemente se recusou a iniciar uma nova partida. O duque exigiu
uma explicação, mas ele se recusou a dar e, em seguida, veio uma
provocação.
A conduta de Woreseff foi condenada por unanimidade, mas seu objetivo
foi atingido. O duelo se deu no dia seguinte, num bosque de vidoeiros. Era
uma manhã fria. As armas escolhidas foram pistolas e as regras definidas
foram: vinte passos e disparar. Gaston, que não temia partir deste mundo, não
demonstrou o menor sinal de generosidade para com o marido da sua amante.
Ao comando de fogo, ele ergueu a arma, disparou e acertou uma bala bem no
estômago do adversário. O conde caiu na neve, que ficou manchada de
sangue, mas com muito esforço ainda conseguiu se apoiar sobre um joelho e
ainda apontar friamente para Bligny. No entanto, a fraqueza causada pela
perda de sangue fez a sua mão tremer e a bala atingiu o ombro do duque de
raspão.
O conde sobreviveu ao terrível ferimento. Quanto a Gaston, seis semanas
depois ele já tinha retomado sua rotina normalmente. O mais estranho de tudo
foi que a bala do conde de Woreseff parece ter acabado com a sorte
extraordinária do duque. Será que a perda de sangue abalou seu equilíbrio, ou
será que o até então favorecido Gastão tinha cansado a sorte? O fato é que,
daquele dia em diante a sorte se afastou dele. E ele começou a perder
incessantemente. A autoconfiança o abandonou e ele conheceu a ansiedade
do jogador que sente o cheiro de uma carta ruim. Já não jogava mais o
dinheiro sobre a mesa com a confiança de um vencedor, nem olhava de cima
para baixo para seus adversários com uma serenidade inabalável. Andava
pálido. Tamborilando nervoso os dedos na beirada da mesa. Os olhos
perderam o brilho e afundaram nas órbitas e os dentes brancos estavam
sempre mordendo os lábios. Tinha momentos de fraqueza e depressão. Sua
apresentação impecávelde outros tempos não existia mais e ele deixava a
mesa de jogo quando o dia raiava despenteado, com o colarinho torto, a
camisa amassada e suja pelo contato com o feltro verde da mesa.
Assim foi descendo degrau por degrau do capitólio que tinha subido com
tanto triunfo. A maior parte do dinheiro que ganhou no jogo se dissipou com
uma velocidade assustadora e no fim o duque se viu em apuros financeiros.
Começou a renegociar empréstimos – um claro sinal de falência. A
necessidade de se ver obrigado a recorrer a outros em busca de ajuda acabou
por forçá-lo a reconhecer que a sua situação era a da decadência e isto o
afetou profundamente. Tinha saboreado a deliciosa sensação de se sentir o
soberano daquele mundo de bons vivants. A sorte o colocara acima de todos.
Fora tratado como um grande senhor e sentiu orgulho da sua supremacia.
Mas num piscar de olhos seu pedestal foi retirado. No dia que parou de
ganhar ele deixou de existir para os jogadores. Sua chegada não era mais
recebida com alarde no clube. Trocava alguns poucos apertos de mãos aqui e
acolá, mas ninguém se dispunha mais a ocupar a sua mesa de jogo. Desta
forma, ele se viu isolado no meio de um grupo de pessoas que o tratavam
com indiferença, pois não o temiam mais.
Mesmo assim a sua paixão pelo jogo nunca foi tão intensa quanto neste
momento de grande dificuldade. Ele passou a atacar com um frenesi cego, em
vez de analisar friamente as jogadas. Numa noite podia perder ou ganhar
quantias imensas. Não era mais o cavaleiro habilidoso que conduzia seus
cavalos com determinação, mas sim um passageiro descuidado, levado a
galope disparado por um cavalo que era incapaz de controlar – um passageiro
que tinha mais chances de quebrar o pescoço do que chegar ao seu destino.
Na verdade, ele não estava conseguido chegar a lugar nenhum. As raras
marés de sorte de nada serviam, pois ele não sabia mais como tirar proveito.
Jogava como desatino e perdia a uma velocidade alucinante tudo que
ganhava.
Um desastre parecia inevitável quando seu embaixador o salvou da
derrocada final ao escalá-lo para uma missão governamental em Paris. O
duelo de Gaston contra Woreseff tinha causado uma péssima impressão e o
embaixador achou bem manter seu adido afastado por uns tempos. E assim
ele lhe deu três meses de afastamento. Bligny não tinha pedido para ser
convocado para a missão, pois se o tivesse poderia parecer um combatente
ansiando por fugir da luta, mas a oferta foi aceita com entusiasmo. Ele sabia
que sua imagem estava desgastada em São Petersburgo e estava louco para
sumir, repensar sua situação e decidir que passos deveria tomar.
De todas as vitórias anteriores, quando chegou a acumular um tesouro
que parecia inesgotável, restaram apenas 50 mil francos em dinheiro e diante
da pobreza as suas ideias tiveram uma reviravolta. Na desordem da vida que
vinha levando, a lembrança de Claire tinha se perdido; mas agora ele voltara
a pensar na sua noiva novamente. Lembrou-se dela como se fosse uma
miragem encantadora, na tranquila sala de estar da mansão Beaulieu. Claire
bordava sob uma luz suave e quando ela se inclinou sobre o trabalho, seus
lindos cabelos louros refletiram um brilho dourado. Ela esperava
pacientemente por ele, cantando talvez; e só de pensar nisso ele voltou a amá-
la novamente e jurou renunciar para sempre a vida febril que lhe roubara
tantas alegrias e só lhe trouxera aborrecimentos. Concluiu que apesar de ter
dissipado toda a fortuna que seu pai deixara para ele, mademoiselle de
Beaulieu era rica e que com uma renda 100 mil francos por ano, advindos do
dote dela, o casal até que poderia fazer uma boa figura. A vida em Paris
estava longe de ser tão cara quanto em São Petersburgo, e, além do mais, o
tempo da farra tinha acabado. Eles poderiam passar seis meses por ano na
propriedade rural da família e dedicar grande parte da renda para viverem em
grande estilo na capital parisiense durante o inverno.
O duque se convenceu dessas ideias e teve a impressão de que estava
voltando a ser bom e puro. Sentia-se outro homem e adorou este retorno aos
sonhos juvenis. Durante a viagem de volta para a França, arquitetou projetos
encantadores para o futuro, e, quando o trem finalmente parou sob o teto de
vidro da Gare du Nord, em Paris, ele desceu ansioso na plataforma, feliz por
estar pisando novamente na cidade que seu coração e mente tinham se
esquecido por tanto tempo.
Era final de tarde e ele sentiu um prazer pueril em acompanhar através da
janelinha do coche a paisagem da Rua Lafayette, pontuada com uma
sequência de postes de iluminação a gás. A movimentação e agitação da
cidade grande o impressionaram de uma forma positiva. Os transeuntes
pareciam dotados de uma vivacidade e alegria peculiares; as ruas estavam
fervilhavam. No cruzamento da Rua du Faubourg-Montmartre com a Rua
Lafayette, ele ficou parado num congestionamento de veículos. Os
condutores gesticulavam e berravam uns com os outros e os pedestres, ávidos
por uma chance para atravessarem, tentavam enxergar por cima das cabeças
dos cavalos. Até que finalmente seu coche retomou o passo, passou pelo
muro de arenito que limitava os jardins do Hotel Rothschild, virou na Rua du
Helder e logo em seguida o duque percebeu que estava no Bulevar
Haussmann.
Seu coração disparou. Várias carruagens formavam uma fila a caminho
da Ópera. Mulheres em capas elegantes, com lenços de renda sobre a cabeça,
sentadas em landaus espaçosos. A luz intermitente das lâmpadas elétricas
yablochkov, que apesar de lançarem uma luz pálida na fachada do teatro,
entrecortada por espaços escuros, refletia nos capacetes dos guardas da
cavalaria municipal, que, protegidos pelos em uniformes bem talhados,
permaneciam impávidos como estátuas no centro da praça. Ali, onde tantas
ruas e bulevares se cruzavam, o trânsito e a movimentação eram intensos. As
vitrines das lojas se destacavam na noite, as calçadas estavam repletas de
pessoas passeando. Era o retrato mágico de Paris à noite, exibido em todo seu
esplendor.
O coche virou na Rua de La Paix e minutos depois Gaston estava à porta
do clube, sentindo-se um pouco atordoado, parecia ainda ouvir o ronco
irritante do trem e a visão estava ofuscada pela luminosidade. Cansado, subiu
direito para o quarto, onde dormiu até a manhã seguinte.
O duque não tinha passado tanto tempo assim longe de Paris a ponto de
perder seus hábitos cosmopolitas e se sentiu à vontade assim que colocou os
pés na rua novamente. Sua faceta russa despareceu de imediato e ele se sentiu
um parisiense novamente da cabeça aos pés. E, por assim dizer, se entregou
ao fascínio da cidade. Subiu a Champs-Elysées e andou pelo bulevar du Bois;
descansou no Hotel Drouot, perambulou pela Madeleine até o Bulevar
Montmartre, encantado por poder trocar aperto de mãos com velhos amigos e
tirar o chapéu para conhecidos. Pagou para entrar nos pequenos teatros, onde
se acomodou com uma deliciosa sensação de beatitude nos assentos estreitos
e desconfortáveis. Chegou até a considerar requintadas as peças que não
passavam de puro besteirol. Na verdade, estava tomado de um contentamento
interior que transbordava na forma de admiração. Era assim que se sentia
desde que deixara a Rússia. Parecia um condenado que tinha acabado de ser
libertado da prisão. Agora estava livre e podia respirar novamente.
Seus assuntos no Ministério do Exterior foram resolvidos em três dias, ele
decidiu que partiria de Paris no final de semana. Sabia que Claire e a
marquesa se encontravam em Beaulieu e resolveu fazer uma surpresa para
elas. Imaginou o espanto delas e parecia ouvir as exclamações de alegria. Por
nada no mundo iria abrir mão de aparecer sem avisar.
Foi até a Rua de La Paix só para comprar no Bassot, o joalheiro que
servia a família, um admirável anel de noivado: uma safira enorme cercada
de diamantes e confeccionado com rara perfeição. Imaginou-se dando a
caixinha forrada de veludo branco para Claire; e ela abrindo, sorrindo e
estendendo o anel dourado, para que ele mesmo pudesse colocar no dedinho
delicado. Então ele seria oficialmentedeclarado futuro marido dela; e o anel
seria o primeiro elo da corrente que os uniria.
Quando o duque estava voltando do teatro na véspera da sua partida, ele
encontrou o clube amigado por agitação incomum e ao perguntar o motivo
descobriu que toda a movimentação, a decoração e iluminação eram devidas
a uma apresentação teatral que seria exibida no salão de festas. Uma plateia
seleta tinha sido convidada para assistir L’Education de la Princesse, uma
opereta em dois atos, que contaria com a participação de dois homens muito
talentosos: o duque de Féras para as falas e Jules Trélan para a música.
A interpretação prometia. Baron, do teatro de variedades, emprestou a sua
distinção nata para o papel do Grand Chamberlain; Durbray, do Teatro do
Paláis Royal, figurou como aquele personagem questionável, o Chevalier
Alphonse de Rouflaquette; Sant-Germain, do Gymnase, concordou em tomar
parte, para aquela ocasião apenas e se revelou um grande cantor no papel de
Pepinster; o jovem barão Trésorier, um membro do clube, dono de uma voz
de tenor poderosa, foi convocado para o papel de Triolet; Madame Judic
interpretou a princesa Hortência; e Suzanne Lagier a rainha-mãe.
Era esperado um grande sucesso. Os funcionários de plantão estavam
atabalhoados, pois todos chegaram ao mesmo tempo para garantirem um bom
lugar. E do amplo saguão, decorado com tapeçarias, estilo Luís XIV, vinha
um murmurinho de vozes e farfalhar de vestidos alisados por mãos delicadas,
com lufadas de ar quente e cheiro de pó de arroz.
Em vez de subir diretamente para o quarto, o duque entregou o casaco e o
chapéu para um valete e seguiu para o salão de festas. Uma circunstância
aparentemente fútil muitas vezes pode modificar o destino de homem, mas
Bligny, ao entrar para assistir a apresentação, certamente não fazia a menor
ideia da grande mudança que estava prestes a se dar no seu futuro.
O salão reluzia de tão iluminado. Já havia uma boa quantidade de pessoas
sentadas em confortáveis cadeiras enfileiradas. Cetim, veludo, renda e seda e
em todos os tons de cores intensas, com lindos ombros resplandecendo a
brancura de alabastro. A agitação de leques conferia ao conjunto uma
movimentação parecida com o bater de asas. Um murmurinho abafado se
erguia sempre que alguma figura famosa passava pelo corredor e ao final
deste se encontrava o palco silencioso, encerrado em cortinas vermelhas.
O duque se aproximou de um grupo de cavalheiros em trajes de noite,
entre os quais tinha reconhecido alguns amigos. Mestre Escande, um jovem
tabelião, herdeiro de uma família milionária e que recentemente tinha sido
nomeado para as suas funções legais, estava no centro do grupo em uma pose
altiva. Trajava-se com elegância e falava com propriedade, mas ao ver Bligny
a língua pareceu travar dentro da sua boca e ele ficou boquiaberto olhando
estupefato para o duque, que se aproximava sorridente. Um momento de
silêncio se seguiu, quebrado apenas pela seguinte exclamação:
– Oh, que pena!
Dita num tom de compaixão por um senhor alto e calvo, vestindo um
paletó cujo corte indicava que seu dono era um comerciante aposentado. O
indivíduo em questão tinha uma cara muito vermelha, orelhas grandes com
tufos de pelos amarelados escapando de dentro. O pescoço estava encerrado
numa gravata branca alta e o peitoral da camisa ostentava botões de
diamantes, enquanto os pés calçavam um par de sapatos de couro lustrosos,
cavado na frente de modo que expunha um pedacinho das suas meias brancas
de algodão.
Bligny se aproximou do grupo e após trocar apertos de mãos com seus
amigos, aguardou, tentando adivinhar o motivo daquele silêncio
extremamente eloquente. Estava prestes a perguntar o motivo e por que sua
presença tinha causado tamanho desconforto, quando o senhor com os botões
de diamantes, inclinando sobre um dos amigos de Gaston, perguntou num
tom de voz moderado, mas alto o suficiente para ser ouvido, impossibilitando
assim uma recusa ao seu pedido:
– Por favor, apresente-me ao duque!
O indivíduo com quem ele tinha falado virou-se na direção de Gaston
com um ar de irritação e surpresa, como se dissesse: “Onde este velho está
com a cabeça?” Mas, como não tinha alternativa, disse resignado:
– Meu caro duque, monsieur Moulinet…
– Industrial – tratou de adicionar o homem com os botões de diamantes, –
e juiz aposentado do Tribunal do Comércio.
E então, segurando a mão de Gaston, retomou com um ar desafiador: –
Tive a honra de conhecer a sua família, Monsieur le Duc. Mademoiselle
Moulinet, minha filha, foi educada no mesmo internato de mademoiselle de
Beaulieu, sua prima. Sim, monsieur, no Sagrado Coração, a primeira
instituição educacional de Paris. Por Athénaïs nunca medi esforços. Tudo que
tinha de melhor não era bom o suficiente para ela… Digo de coração que foi
com muito pesar que fiquei sabendo da infeliz novidade…
A esta altura mestre Escande, o jovem tabelião, gesticulava tanto que
corria o risco de amassar a camisa ou desfazer o laço intrincado da sua
gravata. Movia os braços como se fosse um sinalizador, batia os pés
impaciente e limpava a garganta praticamente sem parar. Mas ou Moulinet já
tinha avançado em demasia para ser detido ou então estava determinado a
ignorar os avisos do tabelião, como o que aconteceu em seguida pareceu
comprovar. E apesar dos pesares, ele deu continuidade as suas condolências:
– Desculpe-me – disse o duque, franzindo o cenho, – mas não entendi
direito. O senhor parece estar falando de alguma notícia triste que pelo jeito
afetou minha família, em especial mademoiselle de Beaulieu. Mas não faço
ideia do que se trata. O senhor poderia ser mais claro?
Mestre Escande parecia nervoso e enquanto Moulinet permaneceu calado
e cabisbaixo, o jovem tabelião criou coragem e se aproximou de Bligny
dizendo num tom solene:
– Meu caro, duque, sinto muito que tenha de inteirar do tema ao qual
monsieur Moulinet acabou de abordar e em um lugar destes, tão inadequado
para receber uma notícia dessas. Mas como certamente ficaria sabendo
amanhã, não vejo motivos para não o colocar a par de tudo neste exato
momento. Bem, quando chegou, eu estava justamente contando para estes
cavalheiros que quando estive em Londres alguns dias atrás fiquei sabendo
que a ação movida pelo falecido marquês de Beaulieu e levada adiante pelos
seus herdeiros, tinha acabado de ser perdida por eles e sem abertura para
apelação.
A inesperada revelação fez o duque empalidecer. A perda da ação, na
qual madame de Beaulieu depositava tantas esperanças de vencer, significava
que Claire estava arruinada. Mesmo assim, Gaston fez um esforço e contendo
as emoções, retomou com altivez:
– Confesso que estou surpreso com o modo como o senhor compartilhou
assuntos que de interesse da família Beaulieu com estes cavalheiros. Nunca
imaginei que assuntos que são do interesse dos meus parentes apenas
pudessem acabar alimentando conversinhas e fofocas. Eu seria grato se o
senhor se mostrasse mais discreto no futuro.
Ao ouvir isso o jovem tabelião ficou extremamente pálido e várias
ruguinhas, causadas pelo seu estado de agitação, surgiram no seu rosto
empoado. Ele balançou a cabeça e respirou fundo e disse num tom ofendido.
– Mas, meu caro duque, por favor, não pense…
– Penso o que é devido – interrompeu Bligny e depois de encarar seu
interlocutor, ele se afastou lentamente, seguido pelos seus amigos em
silêncio.
Restaram Moulinet e Escander e, por um momento, os dois ficaram se
entreolhando sem nada dizer. Até que, finalmente, com um sorriso que
parecia mais uma careta, o industrial se manifestou.
– Sangue quente, esse tal de Bligny! O calou na hora, meu caro mestre! E
a mim também. Mas não importa, sangue bom ou não. Ele está arruinado, não
está?
– Arruinado! Creio que sim – disse o tabelião com desdém. – Mesmo
assim não perde a pose de senhor todo poderoso, acima da lei e no direito de
dar lições de moral…
– Verdade. Sabe, meu caro, apesar das revoluções, nunca seremos iguais
a esses sujeitos. Pois, até mesmo esse duque falido será um bom marido para
uma moça rica.
Trêsbatidas solenes, em intervalos curtos retumbaram no palco,
interrompendo a conversa. Escande e Moulinet ocuparam seus assentos. O
duque tinha encontrado um lugar vago. A orquestra tocou a abertura e a
melodia harmoniosa de uma valsa espetacular ressoou num ritmo
agradabilíssimo. Apesar de parecer atento, o pensamento de Bligny, na
verdade, voava longe. A ruína de Claire foi um raio enviado para acabar com
o seu futuro. Ele estava noivo de mademoiselle de Beaulieu, mas agora ela
estava pobre. Para sermos justo com Gaston, em momento algum ele pensou
em desfazer o noivado. A ideia de se casar com outra mulher nunca passou
pela sua cabeça. Ele se considerava comprometido. Uma caixinha de veludo
branco, com as iniciais de Beaulieu e Bligny gravadas, contendo o anel de
noivado, estava no bolso do seu paletó, pertinho do seu coração; mas ele se
sentia mais comprometido pela palavra que dera do que pelo anel.
No entanto, a ruína de Claire significava uma vida de pobreza. Ele seria
obrigado a se recolher em alguma casa de campo e vegetar como um
fazendeiro rude; nunca poderia convidar um amigo por receio dos custos que
uma visita viria acarretar. Para o belo, fascinante e cortejado Gaston, isto era
o mesmo que ser enterrado vivo. Arrependeu-se amargamente de ter gasto
tudo que ganhou no jogo. Por mais manchada que fosse a fonte daquele
dinheiro, mesmo assim era dinheiro; e uma vida sem dinheiro neste século
em que os homens são respeitados pelo seu valor monetário, não era vida.
Ele pensou então no desespero de Claire e de sua mãe quando recebessem
a triste notícia. Certamente, elas ainda não sabiam, uma vez que aquele tolo
do Escande tinha acabado de trazer a novidade da Inglaterra. Gaston pensou
em adiantar a sua viagem, para que assim pudesse estar ao lado daquelas
pobres mulheres e assim poder oferecer algum conforto.
Enquanto isso a cortina foi erguida, revelando um cenário alegre e
animado. Então um grupo de ceifadores, composto por membros dos dois
sexos, apareceu numa paisagem ensolarada e cantou a plenos pulmões:
Cantem belas donzelas
Escutem belos apaixonados
Levantem suas foices
ao som da canção!
Apesar de superficial, a música pareceu elevar a imaginação do duque
para outras esferas. Ele se imaginou com Claire de Beaulieu sob o céu azul.
Os ceifadores cantando numa plantação de milho e um agradável perfume de
rosas imanava do chão. Ele foi tomado por uma deliciosa sensação de langor.
Ao lado da sua amada ele era feliz e nem pensava na pobreza. Tudo parecia
tão calmo, tão bom depois das tempestades enfrentadas nesta sua curta
existência! Ele apreciou tudo aquilo com sinceridade e nas modestas
circunstâncias que a ruína de Claire o condenara, encontrou prazeres
encantadores nunca antes imaginados.
No palco a apresentação avançava e Chevalier Alphonse de Rouflaquette
estava cantando num lindo dueto com a princesa. A voz melodiosa e doce de
Judic murmurava com ardor apaixonado:
Por vós renuncio a minha nobreza,
Fujamos do meu palácio, abandonemos a minha corte!
Ao que Daurbray, cerrando os punhos, respondeu com um olhar intenso:
Não faças isso, a nobreza e o amor não são excludentes!
Mantenha vossa riqueza e nobreza por mim,
Sim, conserve tudo pelo vosso Alphonse!
O ator emocionado coroou a frase com tanta intensidade que arrancou
aplausos entusiasmados. De fato, a peça Education de la Princesse prometia
fazer muito sucesso, tanto que o dono do teatro de variedades, que parecia
muito concentrado, estava pensando em apresentar a peça no seu palco, no
próximo inverno.
Enquanto isso Moulinet, recostado na sua cadeira, esticava o pescoço
curioso. Não estava nem um pouco interessado nas aventuras da princesa
Hortência, mas sim, em outra princesa: sua filha, a morena Athénaïs. Ele se
lembrou dela na época do colégio, uma garotinha calçando sapatos grosseiros
e num vestidinho muito curto para sua estatura, de mãos rosadas, rostinho
comum e corpo, ainda por se desenvolver, sem curvas. Ela entrou na sala de
aula e parou no meio das companheiras de escola elegantemente vestidas, que
a olharam da cabeça aos pés com desprezo. Naquela época ele ainda não era
um homem rico; ainda não tinha fundado a sua fábrica de chocolate em
Villepinte, nem inventado as embalagens azuis, escritas com uma caligrafia
floreada, que desde então tornaram seus produtos conhecidos em todos os
vilarejos da França. Ele era, na verdade, um simples mercador que
comercializava produtos das coloniais e as nobres mães das amigas de escola
de Athénaïs não esconderam o espanto quando a filha daquele vendeiro foi
aceita como aluna no renomado colégio de freiras. Ele ficou sabendo sobre as
intrigas das coleguinhas de classe, do modo como sua filha era tratada com
desprezo pelas outras meninas e lembrava que era a orgulhosa mademoiselle
de Beaulieu quem liderava o grupinho das nobres, como era chamado.
Quantas vezes ouviu Athénaïs falando com raiva da sua inimiga, jurando
com lágrimas nos olhos que um dia ainda iria se vingar. Era chegado o
momento da vingança. Athénaïs Moulinet era agora uma das herdeiras mais
ricas de Paris, enquanto a orgulhosa Claire de Beaulieu não tinha dote. A
filha do vendeiro, habituada ao luxo, vestida por Worth, de cabelos
elegantemente penteados, tinha perdido toda a sua antiga deselegância e se
transformado em uma bela mulher; iluminada por uma aura de milhões, era
considera uma das moças mais elegantes da classe média alta. Ao passo que a
filha da marquesa, num vestido simples de lã, seria obrigada a viver no
interior, cair no ostracismo e, talvez, quem sabe, acabaria perdendo até
mesmo o casamento ao qual estava prometida há tanto tempo.
O duque de Bligny, um nobre tão brilhante, com um sobrenome tão
importante! Frequentemente, quando o jovem duque aparecia com a tia, a
marquesa, para visitar Claire no convento, Athénaïs se corroía de inveja ao
ver os primos juntos. Sabia que os dois tinham sido feitos um para o outro.
Claire seria uma duquesa, enquanto ela, Athénaïs, iria se casar com algum
tabelião, um Escande, ou um comerciante como seu pai e condenar os filhos e
filhas que viria ter com seu marido a serem humilhados e olhados de cima
para baixo.
Nisso um sorriso orgulhoso se espalhou pelo rosto de Moulinet. Ele
recostou ainda mais na cadeira e enfiando a mão em um dos bolsos,
chacoalhou algumas moedas de prata.
– E por que deve ser assim? – murmurou. – Acaso a minha fortuna não
permite que eu compre o marido que ela desejar?
Ao dizer isso, ele virou-se com uma expressão grave no rosto, e, olhando
para a elegante plateia, parecia em busca do genro que melhor o agradasse.
Do alto do seu pedestal de milhões nada parecia impossível para ele. Quem
teria a audácia de recusar Athénaïs, com um cheque em branco na mão? Um
conde ou um marquês? Quanto ele teria de pagar? Bastava estipular a
quantia. Moulinet poderia dar a filha um milhão de francos, ou dez milhões
se quisesse. Que começasse o leilão do marido! O pai era rico o suficiente
para comprar um príncipe para a filha!
Enquanto seguia essa linha de pensamento seu olhar se tornou mais
ousado e quase ameaçador; passeou vagamente sobre todos os rotos
desconhecidos e finalmente parou em Bligny. O jovem parecia soturno e
Moulinet disse consigo mesmo: “Ele está pensando na prima”. O magnata do
chocolate ficou muito irritado com a ideia, mas por quê? Que ideias malucas
eram essas que estavam passando pela sua cabeça? Ele não sabia explicar,
mas ao mesmo tempo o esboço de um projeto começava se formar na sua
mente.
Nesse momento uma grande movimentação o interrompeu. A cortina
tinha acabado de cair, encerrando o primeiro ato e, em meio aos aplausos e
ovações, o duque se levantou, seguido por seus amigos e caminhou
indiferente rumo à saída. Por um momento Moulinet continuou observando,
meio indeciso e então, de repente, levantou-se e seguiu na mesma direção de
Bligny.
A apresentação não tinha interrompido a jogatina no segundo andar. As
salas destinadas ao jogo estavam cheias como sempre; os refrãos da opereta
não passavam de um vago murmúrioaos ouvidos dos jogadores. Nada era
capaz de tirá-los do passatempo predileto. Eles sabiam que algo divertido
estava acontecendo no andar de baixo, mas e daí? O prazer deles estava ali,
na mesa em formato de ferradura, sob a lâmpada incandescente que
esquentava o cérebro deles. No piso abaixo, mulheres elegantes e belas,
perfumadas e bem-vestidas, se agrupavam parecendo um buquê de flores.
Mas os jogadores nem pensavam nelas. Achavam a Dama de Copas e a Dama
de Paus muito mais atraentes; e, insensíveis aos encantos do evento, surdos
para as vozes dos cantores e a melodia alegre da orquestra, continuaram no
andar de cima numa atmosfera pesada e viciada, jogando o dinheiro sobre o
feltro verde.
Enquanto o duque seguia distraído sem rumo ou propósito, sem querer ele
acabou chegando na sala de jogos. Teria sido o destino que o levara mais uma
vez, depois de todas as suas boas resoluções, a beira de uma mesa de jogo?
Apesar de tudo que tinha passado, quando anunciaram: “Senhores, façam
suas apostas”. Gaston sacou 100 francos do bolso, jogou sobre a mesa e
ganhou.
– Minha nossa! – exclamou pouco surpreso, pois a sorte estava do seu
lado agora e curioso para saber se ela iria continuar, ele se instalou em uma
cadeira desocupada. Neste momento, Moulinet entrou na sala. Era a primeira
vez que pisava ali. Via com repulsa todos os jogos de azar; e se tocou em
uma carta foi com o intuito de ganhar pelo talento. Mas estava pensando em
jogar bezique, pois o uíste era um mistério que estava acima da sua
capacidade de compreensão. Mas quando passava pela mesa de bacará, ele
percebeu que Gaston tinha colocado 100 francos sobre a mesa, e, muito sério,
tratou de colocar uma nota de dez ao lado. Tudo que Moulinet queria era uma
oportunidade para observar o duque mais de perto, e, para disfarçar,
aproveitou para arriscar a sorte. O fabricante de chocolate acreditava que às
vezes era preciso abrir algumas concessões.
O jogo prosseguiu, mas a sorte mudou. Parecia que os dez francos do
virtuoso industrial tinham quebrado o encanto. Bligny, branco de raiva e mais
uma vez dominado pela fúria pelo jogo, apostou novamente a mesma quantia,
enquanto Moulinet, que não estava preocupado em ganhar, continuou
apostando dez francos. No fim, quando o jogo acabou, por falta de
apostadores, o duque tinha perdido uns quarenta mil francos. Moulinet, que já
imaginava qual seria o destino do noivo de mademoiselle De Beaulieu,
roncava tranquilamente, há horas, na sua bela mansão no Bulevar
Malesherbes.
No horário que deveria pegar o trem para Beaulieu, Gaston subiu para seu
quarto, extremamente irritado. Recostado ao gradil da janela aberta, ele ficou
observando os garis varrendo a Rua de la Paix. O céu limpo estava marcado
com o tom rosado da aurora e o ar fresco o despertou repentinamente.
– Agi como um tolo noite passada – murmurou consigo mesmo, – mas
partirei logo mais a tarde. Aos diabos com o bacará!
Em seguida, trocou de roupa, desceu, pediu um coche e mandou o
condutor seguir para o Bois de Boulogne. No fim da tarde, no entanto, ele
não partiu para Beaulieu. Mais uma vez preferiu a mesa de jogo.
Enquanto isso, Claire, confiante e apaixonada, esperava pelo retorno do
seu noivo.
CAPÍTULO V
Na noite do mesmo dia que Bachelin tinha estado em Beaulieu para dar
a triste notícia de que eles tinham perdido o processo e que Gaston se
encontrava em Paris, a marquesa, ainda abalada pelos duros golpes,
permaneceu sentada na sua poltrona confortável, na imensa sala com vista
para o terraço, por um bom tempo pensando. Ela parecia distante e sua
fisionomia indicava que os pensamentos eram dolorosos. Entretanto, foi
despertada da tristeza com a entrada abrupta do seu filho na sala. Assustou-se
ao vê-lo tão agitado e olhou ansiosa como se esperasse outra má notícia, mas
ao notar o olhar tranquilo do filho e o sorriso em seus lábios, ela suspirou
aliviada e perguntou:
– O que aconteceu?
– Nossos primos, os Préfont, acabaram de chegar, maman – respondeu o
jovem marquês. – A carruagem acabou de passar pelos portões de entrada e
está subindo a alameda.
Na tranquilidade da noite, era possível ouvir com distinção o barulho das
rodas estalando no cascalho e a marquesa, se levantou na hora. Sempre com
frio, ela cobriu a cabeça com o lenço de seda e enrolou o xale ao redor do
corpo. Então, cruzou o amplo vestíbulo, decorado com uma tapeçaria antiga e
móveis de peroba e seguiu para os degraus da entrada, onde a carruagem
tinha acabado de estacionar, depois de contornar a rotatória. Um rosto
sorridente, coroado por uma pena de faisão, surgiu na janelinha. Uma mão
enluvada acenou agitada e uma voz animada exclamou:
– Olá, olá, para todos vocês!
O jovem marquês já se encontrava ao lado do veículo. Um furacão de
seda se avolumou; uma elegante botinha de couro cor de bronze, encimada
por uma meia de seda cinza, exibindo um tornozelo bem torneado, pisou no
degrau da carruagem; e pouco depois a baronesa de Préfont em pessoa se
atirava nos braços da marquesa, envolvendo-a e falando, sempre cheia de
vida:
– Ah, minha tia querida! Como estou feliz! Ah, minha boa tia! Quanto
tempo! E vocês, meus queridos, como estão?
Em seguida, ela abraçou carinhosamente mademoiselle de Beaulieu, entre
palavras de carinhos e afagos:
– Minha querida, Claire! Parece que faz um século desde a última vez que
a vi!
Então, sem hesitar, ela passou para Octave, permitindo que este lhe desse
um beijo em cada face; e depois disso trocou um aperto de mão com ele ao
estilo inglês, sempre rindo, fazendo seu vestido farfalhar devido seu gestual
agitado, parando vez ou outra entre os gritinhos empolgados para recuperar o
fôlego e contagiando o château inteiro e todos seus habitantes com sua
alegria transbordante. De repente, no entanto, ela ficou séria e indagou
ansiosa:
– Ah, minha nossa, o que terá acontecido com o meu marido? – e olhando
ao redor adicionou: – Será que já o perdi?
– Estou aqui, querida – respondeu uma voz branda, – estava esperando
pacientemente pelo fim das suas efusões pela minha vez de cumprimentar a
todos.
Nisso um jovem de uns trinta e poucos anos, vestindo um sóbrio traje de
viagem, com uma bolsa carteiro pendurado ao ombro, avançou e, com um
sorriso educado, se aproximou da marquesa e de Claire.
– Muito bem, pode cumprimentá-los – disse de modo petulante a
baronesa. – Pronto? Agora, por favor, pegue a minha bagagem. Tome
cuidado com a minha caixa de chapéu. Lembre-se que a sua cabeça está em
jogo se ela estragar.
– Sim, querida – respondeu o barão, calmamente, e, voltando-se para
Octave, que tinha se aproximado para um aperto de mãos: – Dezenove baús e
muitas caixas, meu caro – adicionou com um sorriso resignado. – Seiscentos
quilos extras de bobagem! Estou desconfiado que a minha esposa deve ter
trazido um canhão.
Enquanto as damas adentravam na sala de estar, a baronesa se aproximou
de madame de Beaulieu, e, erguendo os olhos, falou aos sussurros:
– Ah, minha tia querida, temos tanto que conversar! – então, segurando
firme a mão da marquesa: – A senhora sabe que a amamos muito e que nada
pode mudar o que sentimentos pela senhora…
Madame de Beaulieu deu uma olhada para Claire, que já estava de orelha
aguçada e atenta e percebendo isso, a baronesa retomou:
– Sim, eu sei. Meu marido vai colocá-la a par de tudo.
Então, voltando-se para Claire, olhou-a atenta, como se para verificar o
efeito das suas palavras imprudentes: – Você sabia que estamos indo para a
Suíça, querida? Não poderíamos passar tão perto de Beaulieu sem dar uma
paradinha para vê-los. Vamos passar alguns dias aqui e depois pegamos a
estrada. Devemos cruzar a fronteira para a Suíça por Verriéres! Nosso pobre
exército! O barão foi ferido em Joux no último combate que ocorreu entre o
nosso batalhão e aqueles homens terríveis do Werder… Será como uma
peregrinação para mim. Meu marido foi um verdadeiro herói… dos 200
homens do batalhão dele… pobres coitados morreram congelados… restaram
apenas 80 depois do combate. E ele nem foi condecorado com uma
medalhinha sequer! É verdadeque somos legitimistas agora… Ah, que
governo abominável, meus queridos! O povo da região acha que Gambetta
vai aceitar o cargo de primeiro ministro?
E assim a baronesa seguiu tagarelando e sorrindo muito animada, igual
um papagaio falante, em determinados momentos um pouco mais dramática,
mas passando de um assunto para outro, sem se preocupar muito com o
encadeamento nas transições, com um vocabulário de uma variedade
impressionante. Ela parecia um caleidoscópio vivo, mudando a cada instante
o aspecto e o efeito. A marquesa e Claire escutavam tudo estupefatas e
encantadas. A vida pacata do campo transformara as duas em figuras serenas
e circunspectas e a animação desta parisiense barulhenta, causou uma
sensação de vertigem.
Sem esperar por nenhuma resposta para suas perguntas, a baronesa
cruzou a sala e aproximando-se de uma janela que dava vista para o vale
encoberto pelas sombras, de cujas profundezas subiam a altas chaminés da
siderúrgica, lançando na escuridão uma chama intensa, ela bateu palmas com
uma admiração infantil e exclamou:
– Que lindo! Parece uma cena de ópera! Ah, a natureza, a natureza! Que
sorte de vocês poderem viver no campo e em meio ao verde! Que vida
maravilhosa e como faz bem! Olhe para mim, tia e me compare com Claire.
Temos a mesma idade, e, no entanto, pareço mãe dela! É culpa dos jantares e
passeios, dos bailes e teatros. Nós nos perdemos no redemoinho da vida
parisiense; e tanto prazer dá trabalho. A senhora ri, tia? Talvez pense que
devêssemos agir de outra maneira, meu marido e eu e passarmos quatro
meses por ano na nossa propriedade na Borgonha… Talvez, mas não vejo
como. O barão, que é um homem estudado, precisa residir na capital pelo
bem da sua vida intelectual. Lá ele tem a Academia das Ciências e todas as
suas sociedades solenes… Ah, céus! Aquela Academia me dá nos nervos…!
Quanto a mim, tenho milhares de obrigações a cumprir, que não posso deixar
de lado… contatos sociais, instituições de caridade para promover e
gerenciar… E ainda tem a minha menininha, que não posso deixar o tempo
todo nas mãos da governanta. Como costumamos passar alguns meses no
litoral, mais alguns viajando e uns dois em Nice… viu só o que sobra? Ah,
posso lhe garantir que é uma vida muito cansativa. Mas acho que estamos
acostumados!
E passando como um furacão entre madame de Beaulieu e Claire, a
baronesa se sentou na confortável poltrona, que era a favorita da marquesa.
– Agora sim! – exclamou. – Agora me contem tudo. O que vocês
costumam fazer aqui? Como passam o tempo? Octave e o seu vizinho, o
dono da siderúrgica? Viu, eu me lembro da última carta que você escreveu
para mim. Céus, o que seria de nós se perdêssemos a memória?
Acomodada na poltrona espaçosa, a baronesa fechou os olhos e se
preparou para escutar atentamente a tia e os primos. Um momento de silêncio
se seguiu e então quase sem transição, como um passarinho que depois de
cantarolar suas últimas notas adormece no ninho, a nossa parisiense, que sem
dúvida estava realmente muito cansada da viagem, recostou a cabeça na capa
protetora de renda guipure e o som da respiração pesada que escapava por
entre seus lábios, mostrou que ela se entregava ao sono. A marquesa e Claire
trocaram um sorrisinho, e, pegando seus trabalhos de mão, se prepararam
para esperar até que a mulher encantadora, que em muitos aspectos ainda se
parecia com uma criança, despertasse novamente.
A baronesa de Préfon, cujo nome de batismo era Sophie d’Hennecourt –
como os nomes às vezes são irônicos, pois Shopie, que significa literalmente
“sabedoria”, foi dado a uma maluquinha encantadora – era filha única de uma
das irmãs do falecido marquês de Beaulieu. Ela estudou no mesmo internato
que Claire, onde fazia parte do clã aristocrático que tanto perseguia as
meninas da classe média. E que acabou se tornado muito conhecida da filha
de M. Moulinet. Dotada de um coração de anjo, mas com um cérebro de
passarinho, ela passava o tempo lutando para reparar, só por precaução, todos
os pecados cometidos até mesmo em pensamento. No entanto, não foi
pequena a sua contribuição para aumentar ainda mais o ódio de Athénaïs
contra mademoiselle de Beaulieu. Foi ela, na verdade, quem, assim que
mademoiselle Moulinet chegou ao internato, a apelidou de ‘Bombonzinho’; e
quando a batalha aristocrática estava a prestes a eclodir entre as duas meninas
de 13 anos, foi Claire, a mais forte e mais sábia, que com um tom de altivez,
acabou pondo um fim ao combate. Mas a natureza de Athénaïs era tal, que
ela acabou ficando com mais raiva de Claire por interferir, do que de Sophie
que a atingira com o apelido infeliz. Além do mais, mademoiselle de
Beaulieu intimidava suas coleguinhas de escola com sua precoce firmeza de
caráter. Ela era, por assim dizer, a encanação da aristocracia que tanto
dificultou a vida da filha de M. Moulinet nos tempos do colégio; e por causa
da sua superioridade, ela se tornou o bode expiatório de toda a ira de
Athénaïs. A verdade é que Claire pessoalmente nunca fez nada de propósito
para magoar Athénaïs, mas a natureza das duas era naturalmente oposta.
Tudo ligado a essa nobre donzela ofendia ou feria a sua sensível coleguinha
de escola da classe média, até mesmo seu porte elegante e habilidades
manuais, o brasão no seu caderno e as luvas que ela usava para praticar
esportes.
Claire e suas amigas tinham o hábito de se tratarem por “você” e Athénaïs
vendo isso resolveu seguir o exemplo, o que causou o maior murmurinho no
mundinho aristocrático. Sophie Hennecourt, cansada da intimidade, só se
dirigia à filha do dono da fábrica de chocolate por “vós”. Claire, no entanto,
ria da distinção, que considerava desnecessária e continuou se dirigindo a
Athénaïs do mesmo modo que se dirigia às amigas. Mademoiselle Moulinet,
no entanto, viu a intimidade de Claire como um insulto. Apesar de Claire
fingir não perceber a hostilidade da outra, esta não lhe passava desapercebida.
E sem querer, talvez, seu desdém por Athénaïs acabou crescendo.
Enquanto isso, uma disputa era travada sem trégua entre mademoiselle
d’Henneccourt e “Bombonzinho”. Um dia, depois de se despedir de uns
parentes que tinham vindo lhe visitar, Sophie adentrou no pátio trazendo uma
sacola cheia de chocolates, que ofereceu para todas as amigas. Athénaïs ficou
por último e Sophie cheia de gentileza, ergueu a sacola para que ela pudesse
escolher.
– Está servida? – perguntou num tom de voz amável; e então, diante da
hesitação de Athénaïs, adicionou com uma ironia desnecessária: – Oh, não
tema. Não são da sua fábrica, foram um presente do marquês.
Mademoiselle Moulinet ficou branca de raiva e depois de arrancar a
sacola da mão de Sophie, atirou-a contra a janela, que estilhaçou com um
baque, espalhando cacos de vidro por todo lado. A atitude acabou por
desencadear uma briga e durante esta Athénaïs foi empurrada e acabou
ferindo a mão gravemente num caco de vidro. A raiva e o pavor de ver seu
sangue jorrando teve um efeito tal no seu sistema nervoso que ela acabou
desmaiando; em consequência, Sophie, cujo coração bom veio parar na boca,
amparou amiguinha e ajudou a levá-la para a enfermaria da escola – o tempo
todo choramingando e se culpando por ter causado o acidente.
Desse dia em diante tudo mudou. Athénaïs assumiu a liderança das
burguesas e o pátio foi divido em duas partes: a das aristocratas e a das
endinheiras sem título de nobreza. Entretanto, à medida que as meninas
cresceram, a rixa ganhou uma feição mais disfarçada, adequando-se as
necessidades sociais. Elas não se unhavam mais, mas faziam uso da
linguagem para se magoarem e se ofenderem. Apesar de Claire continuar
ainda mais orgulhosa e superior do que nunca, ela se manteve distante e
nunca se envolveu com a rixa. Mas mesmo assim não foi menos execrada,
pois havia uma disputa secreta entre ela e Athénaïs. Era evidente que
mademoiselle Moulinet era a inimiga pessoal de mademoiselle de Beaulieu,
e, para dizer a verdade, elas formavam um páreo duro.
Papai Moulinet, nesta época, estava empenhado em acumular uma fortuna
colossal. Corriaisso. Portanto, não julgue monsieur Derblay sem
conhecê-lo. Futuramente o senhor se arrependeria de sua severidade.
– O senhor deve ser amigo do dono da siderúrgica, não? – observou o
marquês, olhando para o homem. – Ou parente dele, talvez; pelo fervor com
que o defende...
– É natural, acredite, Vossa Graça – e mudando de assunto abruptamente,
o homem de barba preta acrescentou: – Mas o senhor também não parece ter
tido muita sorte em Beaulieu ou Pont-Avesnes. Monsieur Derblay se orgulha
de sua reserva florestal e ficaria aborrecido se soubesse que o senhor saiu das
terras dele de mãos vazias. Portanto, por favor, aceite esta lebre que o senhor
avistou primeiro, junto com estas quatro perdizes.
– Não posso aceitar – tratou de dizer o marquês. – Por favor, fique com
elas. Eu não me sentiria bem em…
– Mas eu insisto – interrompeu o homem –, mesmo correndo o risco de
parecer impertinente. Deixarei a caça aqui na margem, o senhor fique à
vontade para levar ou deixar. Mas se deixar, saiba que será apenas para
benefício das raposas. Passe bem, Vossa Graça.
E voltando a se embrenhar no bosque, ele se afastou.
– Monsieur! Monsieur! – o marquês chamou; mas o homem já tinha
sumido de vista. – Que aventura estranha! – murmurou o marquês de
Beaulieu. – O que faço agora?
Uma inesperada intervenção colocou fim à sua perplexidade, pois o
spaniel marrom havia se aproximado da margem, pegado com a devida
precaução uma das perdizes na boca e agora a trazia para seu dono. Este
começou a rir e afagou o cão.
– Você não quer que vamos embora sem levar nada, não é? – brincou. E
então, colocando a lebre e as quatro perdizes em sua sacola, o jovem marquês
virou-se para ir embora, caminhando um tanto pesadamente enquanto
carregava aquele fardo incomum.
O Château de Beaulieu, no estilo Luís XIII, compreendendo uma
construção central e duas alas laterais, é feito de pedra branca com detalhes
em tijolo vermelho. Os telhados cônicos das alas laterais são encimados por
chaminés altas e em estilo característico. Um terraço largo, com cerca de
quinhentos metros de comprimento, com uma balaustrada de granito
vermelho e todo decorado com flores, se estende ao longo da extensão do
château e é alcançado por um lance de oito degraus de pedra, cuja balaustrada
é profusamente ornada com trepadeiras e flores perfumadas. Com aspecto
sulista, o terraço é um local agradável para se caminhar no outono. A vista é
charmosa, pois o château é construído no planalto de frente para os vinhedos
e as pedreiras de Pont-Avesnes, cercado por uma área florestal de cinquenta
acres que cobre a encosta suave até o vale. A siderúrgica de monsieur
Derblay pode ter, de certa forma, empanado a beleza da paisagem e
perturbado a tranquilidade rural, mas mesmo assim Beaulieu continua sendo
uma propriedade altamente cobiçada.
E, no entanto, durante anos ela permaneceu vazia. Em 1845, quando o
marquês de Beaulieu – pai do jovem que já foi apresentado ao leitor – atingiu
a maioridade, ele viu-se de posse de uma enorme fortuna e começou a levar
uma vida extravagante em Paris. Todos os anos, porém, durante a temporada
de caça, ele passava cerca de três meses em Beaulieu. Era época de festejos
na aristocracia do distrito e a generosa prodigalidade do marquês abastecia a
vizinhança por todo o inverno.
Quando eclodiu a Revolução de 1848, os vinicultores de Pont-Avesnes,
inflamados pelos discursos socialistas de alguns líderes militantes, foram
persuadidos a retribuir a generosidade do marquês saqueando seu château.
Armados com espingardas, foices e forcados, com a bandeira vermelha
tremulando no meio deles, subiram até Beaulieu, bradando a Marselhesa.
Arrombaram os portões, que o vigia obstinadamente recusou-se a abrir e,
espalhando-se pelo château, começaram a pilhá-lo, destruindo tudo o que não
podiam carregar consigo. Por fim, o mais esperto do bando encontrou a porta
da adega e a bagunça virou roubo. Os vinhos do marquês eram excelentes e
os vinicultores os degustaram como verdadeiros peritos. Com a embriaguez,
os instintos violentos retornaram. Invadindo as estufas, onde as flores eram
cultivadas com tanto cuidado, os brutamontes começaram a pisar nas flores e
a quebrar os vasos de mármore.
Num pavilhão decorado com uma abundância de folhagens verdejantes,
havia uma admirável estátua de Flora, obra de Pradier, sobre um pedestal de
onde uma cascata caía com um bucólico som murmurante de água dentro de
uma bacia de pedra. Um dos dementes estava a ponto de golpear a charmosa
figura com sua foice, quando o mais bêbado do bando, de repente, ficou
sentimental e postou-se diante da obra-prima, declarando que era um
apreciador da arte e que enfiaria seu forcado no estômago de quem se
atrevesse a tocar na estátua. Assim, a Flora foi poupada. Entretanto, para
compensar a si mesmos, os bons cidadãos de Pont-Avesnes tiveram a ideia de
plantar uma árvore da liberdade. Arrancaram um pé de álamo da reserva,
decoraram-no com panos vermelhos e, com brados de regozijo o colocaram
no meio do terraço. Depois voltaram para a cidade e continuaram a orgia
revolucionária, fazendo alarido até a meia-noite. Na manhã seguinte, uma
brigada de gendarmaria chegou em Pont-Avesnes e a ordem foi prontamente
restabelecida.
Quando o marquês tomou conhecimento dessa insurreição, ele caiu na
risada. Tendo sido sempre tão liberal com os moradores de Pont-Avesnes,
pareceu-lhe natural que tentassem atingi-lo. Mas quando soube que a assim
chamada árvore da liberdade havia sido plantada em seu terraço, sua ira se
inflamou. Isso já era ir longe demais, na opinião dele. Enviou ordens a seu
jardineiro para que arrancasse o pé de álamo, o serrasse em toras no tamanho
costumeiro e despachasse essas toras para ele em Paris, para serem usadas
como lenha. Além disso, enviou quinhentos francos para o bêbado que,
declarando-se apreciador da arte, salvara a estátua de Flora; e, por fim,
mandou informar aos bons cidadãos de Pont-Avesnes que, em retaliação
àquela farsa revolucionária, ele nunca mais pisaria em Beaulieu enquanto
vivesse.
Como esta decisão implicava em uma perda de pelo menos vinte mil
francos por ano, o vilarejo fez um esforço de reconciliação por intermédio do
prefeito e até tentou o efeito de uma petição assinada pelo conselho
municipal. Tudo em vão. O marquês não perdoou a árvore da liberdade e o
Château de Beaulieu permaneceu fechado. Na verdade, a decisão do marquês
foi em grande parte influenciada pelos atrativos da capital. A vida glamorosa,
as noitadas, os esportes e aventuras galantes o mantinham longe de Beaulieu,
mais do que o ressentimento contra os camponeses. No entanto, após vários
anos de uma vida de prazeres e excitação, ele se cansou um pouco de suas
loucuras e, num momento de racionalidade, casou-se.
Sua jovem esposa, filha do duque de Bligny, possuía um coração amoroso
e uma personalidade calma e pacífica. Ela adorava o marquês e sabia como
fechar os olhos para as fraquezas dele. Ele era um daqueles estroinas
adoráveis para quem o prazer é a quintessência da vida, cujas mãos e coração
estão sempre abertos; ele não conseguia resistir a realizar um desejo da
mulher, e, no entanto, era capaz de matá-la de desgosto e depois lamentar
profundamente. Quando a marquesa o repreendia de maneira maternal,
depois de alguns excessos, ele beijava as mãos dela, com lágrimas nos olhos
e dizia:
– Você é uma santa.
Mas no dia seguinte, começava tudo de novo.
A lua de mel do jovem casal durou três anos e isto foi um feito louvável
da parte de um homem como o marquês. Dois filhos nasceram da união, um
menino e uma menina. Octave e Claire foram criados pela mãe: o herdeiro
aprendendo a ser útil e produtivo, a filha a ser delicada, para que encantasse a
vida do pretendente que viesse a escolher. Por uma aberração da natureza,
porém, o menino era a imagem viva da mãe, dócil e pacífico, ao passo que a
menina herdou o temperamento impetuoso e ardente do pai.
A criação pode suavizar a personalidade, mas não pode mudá-la. À
medida que Octave crescia, ele se tornava o rapaz amávelum boato de que ele tinha descoberto um método de
transformar carvão em baunilha e que na preparação do seu chocolate ele
usava amêndoas torradas em vez de cacau. Comentavam que a mistura
química alimentícia foi muito lucrativa e por conta disso ele passara a figurar
entre as maiores fortunas da sociedade parisiense. E assim, acabou sendo
nomeado Juiz do Tribunal do Comércio e os amigos, quando se referiam a ele
meneavam a cabeça de modo solene e traçavam o seguinte comentário:
– É um homem incrivelmente esperto.
Já o próprio se referia a ele mesmo sempre de modo jovial e numa
linguagem informal:
– O bolso do velhote não tem fundo!
Ele era extremamente vulgar, mas não era uma má pessoa. Sempre
disposto a ajudar, desde que pudesse de alguma forma tirar algum proveito.
Por outro lado, apesar do imenso desejo de ampliar seu círculo de amizade,
era um exemplo para a classe trabalhadora. Sempre olhou adiante e nunca
para trás e assim conseguiu subir cada vez mais alto na escala social.
Um belo dia apareceu no Colégio do Sagrado Coração uma carruagem
admirável, puxada por um par de cavalos e assim que pisou no vestíbulo, sua
filha foi chamada e depois disso Athénaïs sumiu da escola. Ela estava, então,
com 16 anos. No domingo seguinte, no Bosque de Bolonha, suas amigas de
escola a viram passando na suntuosa carruagem do seu pai e ela sorriu
quando as reconheceu de longe e acenou como se ansiasse exibir o grande
estilo.
Poucos meses depois, Sophie e Claire também concluíram os estudos. E
então a guerra acabou por falta de combatentes.
Mas o ódio ainda contaminava o coração de mademoiselle Moulinet e ela
seguiu sempre de olho nas rivais. Do seu camarote no segundo andar, que seu
pai tinha conseguido arrumar com grande dificuldade para a temporada na
Ópera de Paris, ela observou, irada, mademoiselles d’Hennecourt e de
Beaulieu, instaladas em um dos melhores camarotes no primeiro andar, onde
recebiam visitas de elegantes cavalheiros durante os intervalos. Na parte do
fundo, a conversa rendia e Sophie e Claire ouviam sorridentes seus visitantes
e se deliciavam com bombons. Já no camarote Moulinet, a vida seguia no
mais puro silêncio. E Athénaïs dizia consigo mesma: “Com certeza em meio
a todos aqueles visitantes deve ter um pretendente à mão de Claire, algum
nobre que acabará se casando com ela”. O fato é que a beleza de
mademoiselle de Beaulieu tinha se tornado ainda mais fascinante. Sua pele
era muito alva e quando ela apareceu em um vestido rosa decotado, sem joia
alguma, todos olharam admirados.
Mesmo assim Sophie foi a primeira a se casar. O barão de Préfont pediu a
sua mão e o casamento foi celebrado com grande pompa na igreja de Santo
Augustin. A cerimônia foi esplendida, ao qual mademoiselle Moulinet não
foi convidada. No entanto, algumas das suas antigas amigas de escola
fingiram não vê-la, oculta por um véu, acompanhada de uma desconhecida,
assistindo à cerimônia de um dos corredores laterais da igreja. O fato nunca
foi provado, mas aconteceu. Oculta pela sombra de uma pilastra, Athénaïs
assistiu ao casamento e, literalmente, devorou suas inimigas com os olhos.
Claire foi madrinha e passou em coleta para os necessitados na companhia do
jovem Visconde de Pontac; mas assim que mademoiselle percebeu a
aproximação da sua inimiga, ela se misturou à multidão e foi embora. A
manobra nem foi percebida por mademoiselle de Beaulieu, que continuou
com sua coleta com um sorriso gentil no rosto, nem imaginando que se um
olhar fosse capaz de matar ela poderia ter caído morta bem no meio da igreja.
Com o casamento de Sophie e a ida do duque de Bligny para São
Petersburgo, Claire acabou virando uma reclusa. Já fazia seis meses que se
encontrava distante de Paris e tinha se esquecido completamente de Athénaïs.
Enquanto observava a baronesa de Préfont, dormindo comportada na
confortável poltrona, nem passou pela sua cabeça todas as confusões que a
adorável maluquinha tinha criado na época do colégio interno.
Neste momento, a porta da sala foi aberta abruptamente e a baronesa
assustou com o barulho e despertou atordoada. Ao ver seu marido e Octave
entrarem, ela ficou de pé na hora e exclamou com uma presença de espírito
surpreendente:
– Você me deixou dormir! – então, rindo, – e aqui, como nos contos de
fadas, é o castelo da Bela Adormecida! Bastou chegarmos para cairmos no
sono. Mas onde está o príncipe Encantado? É você, barão? Não, só pode ser
Octave. Desculpe-me, minha tia! Mas acho que o culpado foi o ar puro!
Fiquei cansada. Não estamos acostumados com tanto ar puro em Paris.
– Não foi nada! – respondeu a marquesa. – Você foi apanhada
desprevenida. É o primeiro efeito, mas vai acabar se acostumando.
Enquanto isso o barão se aproxima calado.
– Acabei de fazer tudo que me pediu, querida – disse. – A sua bagagem já
foi descarregada e o château está lotado agora.
– Muito bem – respondeu a baronesa, com ares de rainha satisfeita com
seu súdito.
– Posso lhe mostrar seus aposentos? – perguntou Claire, ao perceber que
a baronesa permanecia parada hesitante.
– Eu adoraria – respondeu Sophie; e pegando uma bolsa de couro
vermelha que tinha colocado em cima de uma poltrona quando entrou na sala,
ela deu uma olhada para o marido, que se aproximou de imediato, para livrá-
la do fardo. Mas ela a puxou da mão dele. – Você não – disse, petulante. –
Você é muito estabanado. Esta mala precisa ser carregada com cuidado.
Venha, Octave, você terá o privilégio de carregá-la.
E com isso, deu outra olhada para o marido e então dele para o marquês
de um modo significante.
– Estou lisonjeado pela confiança que deposita em mim, querida – disse
Préfont, com uma risadinha irônica. – Siga em frente, Octave, meu amigo, o
trabalho é todo seu. Ficarei fazendo companhia para sua mãe.
Feliz por sua indireta ter sido entendida, a baronesa agradeceu ao marido
com um gesto de aprovação e então, de braços dados com Claire para garantir
que mademoiselle de Beaulieu não ficasse para trás e assim impedisse a
conversa franca que ela tinha planejado entre seu marido e a marquesa, ela
deixou a sala assoviando feliz.
O barão, que estava sério e pensativo, avançou alguns passos, calado. A
marquesa, acomodada em uma poltrona, olhava com um olhar distante. A
sala estava escura, mas o fogo, que tinha sido aceso na fria tarde de outubro,
cintilava atrás da tela da lareira de granito rosa e suas chamas agitadas
refletiam sombras dançantes no teto. A marquesa pensava consigo mesma
que talvez as novidades que o barão trazia de Paris pudessem ser bem
melhores do que as que Bachelin lhe dera poucas horas antes e animada com
a ideia suas esperanças se renovaram. Da sala era possível escutar com
nitidez os passos dos jovens andando no andar de cima. O antigo château
estava tomado por uma movimentação incomum e uma melodia suave
vibrava no ar, no rastro da baronesa.
Até que, finalmente, a marquesa despertou de seus devaneios e ergueu os
olhos. Ao perceber o barão parado, como se apenas aguardasse por uma
ordem sua, ela o fitou com um sorriso tristonho.
– Muito bem, meu sobrinho! Acaso tem algo para me contar? – indagou.
– Acho que já sei do que se trata e como pode perceber isto é motivo de
grande tristeza para mim.
– Certamente é uma situação muito triste, tia – respondeu o jovem
gravemente, – e de modo algum servirá para valorizar a nossa classe social.
Infelizmente, sempre que alguém age de maneira desonrosa, o ódio gerado
pela conduta recai sobre todos. Atualmente a nossa superioridade sobre as
outras classes está apenas no fato de sermos fiéis a palavra dada. A ‘palavra
de um nobre’ é igual a um provérbio. Mas quando não cumprimos com as
nossas promessas, as pessoas deixam de acreditar no nosso respeito pela
palavra dada e assim perdemos o último vestígio da nossa boa reputação.
Uma lágrima reluziu nos olhos da marquesa, e, erguendo as delicadas
mãos na direção do barão, ela disse:
– Conte tudo. Não esconda nada. Graças às investigações do fiel
Bachelin, já fui informada que o duque de Bligny se encontra em Paris há
seis semanas.– De fato, marquesa, a senhora está bem informada! – exclamou o barão.
– Sabe também que ele está prestes a se casar?
– Casar? – repetiu estupefata madame de Beaulieu, da sua poltrona, lívida
de emoção.
– Sim, minha querida tia. Desculpe pela franqueza e falta de rodeiros,
mas num caso como este, acho que é melhor ir direito ao ponto.
– Casar! – repetiu a marquesa lentamente.
– O duque fez de tudo para que a notícia não se espalhasse. Mas o futuro
sogro dele, que, pelo que parece, é o homem mais vulgar que ele podia ter
encontrado, não foi nada discreto. Parece que ele está exultante, isso sim.
Feliz pela filha que se tornará uma duquesa! Quem me contou foi Castéran,
que é amigo íntimo do duque e sabe de todos os detalhes de como se deu a
negociação. Sinto confessar, tia, que a história toda é lamentável. Parece que
o duque, mal tinha chegado de São Petersburgo, quando se envolveu com
jogo, onde foi muito maltratado pela sorte e acabou sem recursos, o que não
demorou muito. Por conta disso, acabou pendido um empréstimo ao caixa do
clube e assim obteve recursos para quitar suas dívidas. Depois disso ele
voltou a jogar; apostando tão alto que em duas semanas a sua dívida subiu
para duzentos e cinquenta mil francos. Parecia que ele tinha perdido a cabeça.
A má sorte o deixara louco e ele se entregou cegamente ao jogo. Em algumas
noites ele recuperou tudo que tinha perdido. Depois perdeu 100 mil francos
outra vez e acabou dando um calote de uns duzentos mil francos.
A marquesa ergueu as sobrancelhas surpresa e exclamou:
– Um calote?
– Queira me desculpar, tia – disse o barão, fleumático. – É um termo
comum entre os jogadores, que significa uma grande dívida que não foi paga.
– Uma dívida de duzentos mil francos – disse a marquesa com profundo
desgosto. – Que belo calote!
– Gaston não tinha nem um centavo para quitar a dívida. Além do mais,
nos clubes esse tipo de dívida deve ser pago em vinte e quatro horas, do
contrário o devedor é exposto e expulso do clube. Assim a situação do duque
era crítica. Obviamente, ele deveria ter recorrido aos parentes. Apesar de a
maior parte da nossa fortuna estar investida em terras, poderíamos ter
levantado parte da soma, a baronesa e eu; e Gaston poderia pedir um prazo
para o restante. Mas ele nem pensou em apelar para nós, ou do contrário não
teria feito o que fez, apesar de Castéran o ter aconselhado a não fazê-lo. O
fato é que o sujeito infeliz se fechou no seu quarto no clube e se entregou aos
pensamentos mais sombrios. Ele se deu conta de que comprometera
gravemente a sua posição social e suas perspectivas de futuro. Mas nisso a
Providência Divina interveio, na forma do futuro sogro, quem Gaston, pelo
que me disseram, tinha encontrado uma vez apenas. O indivíduo foi direto ao
ponto, falando para Bligny nestes termos: ‘Monsieur le duc, o senhor está
devendo uns duzentos mil francos e precisa dar um jeito de levantar este
montante até o final do dia; mas o problema é que não vai conseguir.’ Nisso o
duque se empertigou como se para encerrar a conversa, mas a pessoa em
questão, que tinha sido apresentada a ele algumas noites antes, tratou de
adicionar: ‘Por acaso tenho aqui comigo estes duzentos mil francos. Sou
dono de uma imensa fortuna e não gostaria que dissessem que um homem
como eu, que reservou um dote de dez milhões para a sua única filha,
permitiu que um dos sobrenomes mais nobres do país se sujasse por falta de
dinheiro.’ Sei que a quantia é imensa, tia, mas não posso garantir que seja
verdade. Castéran mesmo costuma aumentar um pouco as coisas, e, talvez,
tenha floreado a história. No entanto, só estou repetindo o que me contaram.
O infeliz do Bligny ficou deslumbrado. Parecia até que estava diante de um
homem feito de ouro, e, na verdade, como este tinha aberto com toda
benevolência seu cofre, Bligny enfiou a mão. Em seguida, como se tivesse
disparado uma engrenagem, lá se foi ele, com título e tudo o mais. E foi
assim que o duque acabou se comprometendo com este casamento.
Um momento de silêncio se seguiu. A noite tinha caído por completo, e,
na escuridão, o barão mal conseguia discernir a cabeça da marquesa, ainda
orgulhosamente erguida. O único som era do monótono tique-taque do antigo
relógio, estilo Luís XIV, com seu pêndulo que balançava de um lado para o
outro numa cadência regular. De repente, o barão notou que parecia que uma
nuvem branca tinha acabado de passar diante do rosto da sua tia e um soluço
mal reprimido disse a ele que ela estava chorando. Ele se aproximou dela e,
ajoelhado sobre um banquinho forrado de tapeçaria aos pés dela, tomou sua
mão carinhosamente, na falta de palavras para consolá-la na dor que tinha se
mostrado mais forte do que seu orgulho.
– Não foi nada – disse a marquesa gentilmente. – Não consegui segurar a
tristeza. O golpe foi tão forte que não pude conter as lágrimas. Amo tanto
Gaston. Ele era como um segundo filho para mim! Temos o mesmo sangue e
o mau comportamento dele me afeta em dobro. Não consigo entender tanta
ingratidão por parte dele, pois quando mais jovem ele tinha um coração leal e
generoso. Como pôde ter mudado tanto? Será que a sociedade tem o poder de
desfazer todo o trabalho de anos, em alguns meses? Eu o criei com tanto
carinho, tanto amor! E é assim que ele me agradece! Ah, que ingrato!
O barão, que estava profundamente comovido, pegou automaticamente de
cima da mesa uma das longas agulhas de marfim que a marquesa usava para
tricotar casaquinhos de lã para os necessitados, e, com um gesto irritado, ele
ficou espetando um novelo de lã cinza. A marquesa, no entanto, tinha
recuperado a compostura e enxugava as lágrimas.
– O mais importante – disse ela com firmeza, – é que precisamos tomar
cuidado com Claire. Você sabe como ela é. Orgulhosa e às vezes violenta.
Igual ao pai dela, que tinha um coração de ouro, mas uma cabeça dura como
pedra. Este golpe vai atingi-la em um momento em que ela está muito
confiante. Nesta tarde ela ainda falou de Gaston comigo. Nunca passou pela
sua cabeça que ele pudesse trocá-la por outra. Ela atribuiu o silêncio e a
demorada dele a motivos de trabalho. Nunca passou pela sua cabeça nem
mesmo a sombra de uma dúvida. Sincera e leal, ela só espera sinceridade e
lealdade dos outros e a descoberta da verdade pode ter efeitos devastadores
em uma natureza como a dela.
– Mas, minha tia querida, a senhora não acha que a situação pode mudar
se tivermos uma conversa com Bligny? Ele se desviou do caminho. Mas se o
fizermos ver o tamanho do erro que ele está prestes a cometer, não acha que
talvez consigamos recuperá-lo? Se me der permissão, eu teria o maior prazer
em me colocar à disposição para tentar.
– Não – respondeu a marquesa orgulhosamente. – Não somos de nos
humilhar e implorar. Por pior que seja a nossa posição, ela é digna e clara. E
eu não gostaria de mudar isso. No entanto, antes de dar a triste notícia para
minha filha, vou esperar até que o noivado do meu sobrinho se torne
irrevogável. Pois, em se tratando de um homem tão cheio de caprichos
quanto o duque de Bligny – e nisso a marquesa soltou um sorriso amargurado
– não se pode ter certeza de nada. Pode ser que ele ainda mude de ideia…
– Como quiser, tia – concordou o barão. – Não posso condená-la por tal
decisão. Para dizer a verdade eu já imaginava que a senhora diria exatamente
isso; mesmo assim me vi no dever de me colocar à disposição caso a
reconciliação fosse considerada. Em todo caso, não importa o que aconteça, a
sua posição será sempre a de uma pessoa honrada; e mesmo que tenha de
derramar algumas lágrimas em segredo, ao menos não terá de torcer o nariz
para nada. Já não posso dizer o mesmo de Bligny.
O som de passos apressados ecoou na escada de pedra, acompanhado de
um murmurinho animado de vozes. Octave e Claire, distraídos e rindo,
voltavam acompanhados da baronesa, que trazia junto a sua alegria
contagiante. A porta da sala foi aberta e madame de Préfont, à frente dos
primos, invadiu como uma avalanche o cômodo escuro.
– Minha nossa! Vocês estão no escuro! Que horror! – exclamoua
baronesa. – Parece que estão conversando num mausoléu! Está tão escuro
aqui que nem dá para escutar o que estão dizendo! Tia, quanta gentileza a
sua… A senhora reservou o melhor quarto para mim e para o barão. Vamos
nos sentir tão confortáveis que nem vamos querer ir embora mais!
– Melhor assim, minha querida. Mas acho que a viagem deve ter aberto o
apetite de vocês. Vamos jantar.
Ao mesmo tempo, como se estivessem esperando pela deixa, as portas
que separavam a sala de estar da sala de jantar foram abertas, onde uma luz
forte incidia sobre os aparadores ocupados por porcelanas antigas e baixelas
de prata e num tom de voz, solene e profundo, o mordomo articulou a frase
costumeira:
– Madame la marquise, o jantar está servido.
CAPÍTULO VI
Na manhã seguinte à chegada de monsieur e madame de Préfont em
Beaulieu, Philippe Derblay, acompanhado da irmã, apareceu no château e sua
visita foi em boa hora, pois a agitada baronesa já estava começando a se
cansar da vidinha pacata do campo.
Sentados sob a proteção de um toldo listrado de vermelho e cinza os
habitantes de Beaulieu desfrutavam o calorzinho do sol de uma daquelas
tardes agradáveis de outubro que, assim como os últimos sorrisos do ano,
logo acabam se tornando frias e soturnas. Ludibriados pelo calor do sol,
pássaros cantavam como se fosse verão. E no cascalho amarelo do terraço,
um casal de pássaros pretos de bico amarelo assoviavam enquanto
disputavam as migalhas de pão que a marquesa tinha jogado da janela da sala
de jantar. A marquesa, envolta em seu xale e anestesiada pelo calor
agradável, escutava distraída Claire e a baronesa, que conversam apoiadas
sobre a balaustrada de granito rosa. O barão, que se encontrava gravemente
reclinado em uma cadeira de balanço, soltava lentamente baforadas do seu
cigarro, cuja fumacinha subia em espiral na direção do céu azul. O marquês,
com um bloquinho sobre os joelhos, desenhava as escondidas o perfil das
duas jovens que se destacavam elegantes e graciosas no horizonte límpido.
Uma paz profunda prevalecia no cantinho aconchegante e aos poucos uma
preguiça gostosa e irresistível foi tomando conta de cada um, soltando o
corpo e desacelerando o fluxo de pensamentos.
Os passos de um criado reverberando no cascalho despertaram todos do
estupor físico e moral. A marquesa abriu os olhos. Claire e a baronesa
viraram o rosto, abandonando a paisagem do vale. O marquês guardou o
bloquinho no bolso. O barão, que não gostava de fazer movimentos
desnecessários, se dispôs a contemplar com um leve inclinar de cabeça.
– Monsieur e mademoiselle Derblay gostariam de saber se Madame la
Marquise pode recebê-los – anunciou o criado.
Nisso, Claire franziu o cenho orgulhosa. A simples menção do nome do
homem por quem instintivamente ela se sentia perseguida, a aborreceu, ainda
mais dito na sua própria casa. Ela tinha um pressentimento de que aquele
estranho poderia de alguma maneira vir a influenciar a sua vida e todo o seu
ser repudiava a ideia. De repente, no entanto, seu coração foi tomado pela
amargura, como se uma estranha noção de abandono já existisse nas
profundezas da sua alma. Ela se perguntou então como era possível que,
depois das demonstrações de interesse de M. Derblay, apesar de discretas, ele
ainda tivesse a audácia de se atrever a aparecer no château. Era bem verdade
que Bachelin já tinha avisado sobre a visita, justificando esta com um desejo
de conciliação de negócios. Mas isto poderia ser apenas uma desculpa. Seria
o tal homem tão ousado ao ponto de ao menor sinal de abandono do duque
tentar tirar proveito para se aproximar dela? Tudo isto passou pela sua cabeça
numa questão de segundos e reforçaram sua aversão por Philippe.
– Receba-o, tia, receba-o! – exclamou a baronesa. – Estou curiosa para
conhecer o tal dono da siderúrgica! Ele vai nos divertir e a irmã pode nos
contar tudo que está acontecendo na região. Talvez ela esteja usando o traje
típico local! Como seria bom!
– Eu também desejo recebê-lo, minha querida – respondeu a marquesa,
sorrindo; e virando na direção do criado que aguardava, adicionou: – Peça
para monsieur e mademoiselle Derblay fazerem a gentileza de virem até aqui.
Um momento de silêncio se seguiu e então as portas de vidro da sala de
estar foram abertas e Philippe e Suzanne apareceram. Um raio de sol incidiu
sobre a sua tez bronzeada e máscula. Ele se impunha em toda a sua força,
tranquilo e sereno. Trajava um redingote que fazia com que parecesse ainda
mais alto. A irmã, que usava um vestido azul-marinho simples, parou
timidamente ao lado dele; a feição animada pela emoção, preocupada e ao
mesmo tempo determinada, ela olhava nos olhos do irmão como se para
encorajá-lo.
A marquesa tinha se levantado e avançado alguns passos na direção dos
visitantes. Philippe se inclinou levemente diante dela e deixou escapar
algumas palavras gaguejadas, cuja confusão trouxe um sorriso ao rosto da
nobre senhora. Mas como se para livrá-lo do embaraço ela voltou-se para
Suzanne, e, com uma graça encantadora, tomou a mão da moça.
– Diga ao seu irmão, minha jovem – disse ela – que ele é bem-vindo aqui.
Philippe ergueu a cabeça e num tom de profunda gratidão, retribuiu:
– Não sei como lhe agradecer, madame la Marquise, pela gentil acolhida
que deu à minha irmã. Ela cresceu sob a minha tutela, mas sem uma mãe para
guiá-la. Ela carece de lições e conselhos e poderia obter os melhores da
senhora; isso se a senhora pudesse fazer o grande favor de dedicar algum
tempo a ela.
Madame de Beaulieu olhou com mais atenção para Suzanne e foi tocada
pela sua graça e candura.
– Venha, permita que eu lhe dê um abraço, minha linda – disse ela e após
tocar os cabelos loiros de Suzanne com beijo suave, mencionou: – A palavra
paz está escrita na testa desta criança – e, voltando-se então para Philippe: –
Todos seus pecados estão perdoados, vizinho. Aproxime-se e permita que eu
lhe apresente à minha família.
Com um aceno de mão ela indicou Octave que se aproximava.
– O marquês de Beaulieu, meu filho – disse ela.
– Oh, dispense as apresentações, maman! – exclamou o marquês,
enquanto estendia a mão para Philippe. – Monsieur Derblay e eu já nos
encontramos. Você anda rápido, caro vizinho, tanto quanto as lebres que não
consegui pegar; que por sinal não têm chances de escapar quando você
resolve disparar.
– Queira me desculpar, monsieur le Marquis – respondeu Philippe com
um sorriso – por não ter me apresentado devidamente. Mas você não parecia
ter uma opinião muito favorável a meu respeito e fiquei com receio de não ser
bem recebido se revelasse a minha identidade.
– Até então eu só tinha ouvido falar de você por causa da questão que
surgiu por conta dos limites de terra invadidos, mas a situação agora é outra e
estou certo de que seremos bons amigos. Mas, por favor, tenha a bondade de
me apresentar a mademoiselle Derblay.
O encanto de Suzanne já tinha causado seus efeitos, pois Octave se
aproximou galante e ávido por agradar. Madame de Beaulieu, por sua vez,
voltou-se para Philippe novamente e indicando para ele a baronesa e Claire,
disse:
– Monsieur Derblay, o dono da siderúrgica de Pont-Avesnes – então,
apontando às duas primas, adicionou: – A baronesa de Préfont, minha
sobrinha e mademoiselle de Beaulieu, minha filha.
Um rubor intenso tomou conta do rosto de Philippe e sem se atrever a
olhar para a sua adorada, ele se curvou tanto numa reverência que deu
impressão de que fosse se ajoelhar.
– Que cavalheiro, minha querida! – sussurrou a baronesa para Claire. –
Acho que posso imaginá-lo com os braços expostos, de avental de couro até
os joelhos e pó de ferragem nos cabelos! Deus me perdoe! Mas ele é muito
forte! Já o barão… É verdade que vivemos em tempos estranhos, mas mesmo
assim é extraordinário! Será que ele passa o tempo todo empunhando um
martelo pesado? Olhe para ele… é incrível! É muito bonito. E os olhos são
encantadores.
Claire, que até então desviara o olhar, agora olhava muito séria para
Philippe. Seu coração estava cheio de raiva e ela cumprimentava o ousado
estranho com olharese palavras de repúdio. Ela viu, na verdade, seu porte
garboso como um sinal de vulgaridade e não gostou nem mesmo das roupas
escuras que ele usava e que, por sinal, lhe davam um ar tão digno e sóbrio.
No mesmo instante a imagem do duque aflorou na sua mente. Ela tinha a
sensação de estar vendo Gaston, com sua figura esbelta e porte elegante, o
rosto oval e os cabelos castanhos, olhos azuis e lábios fartos, encobertos pela
sombra do bigode. O contraste se completou entre Philippe, ali presente e
Bligny, distante. A figura robusta do primeiro era a encarnação, por assim
dizer, do físico saudável da classe média, enquanto o último exibia, em sua
pessoa, a delicadeza e a graça, ligeiramente afeminada, peculiares à
aristocracia.
Philippe ficou emudecido sob o olhar intenso de Claire e seus pés
pareciam ter criado raízes no chão. Profundamente incomodado, ele pensou
em escapar do escrutínio hostil recorrendo ao marquês, que ainda conversava
com Suzanne, na ânsia de se aproximar de alguém que o olhasse de um modo
mais simpático. Mas seus membros falharam. E mecanicamente, ele olhou
para si mesmo e, de repente, se viu como uma pessoa desajeitada, de
aparência comum, totalmente desprovido de elegância. Com amargura,
comparou-se aos dois jovens que estavam diante dele, que envergavam com
desenvoltura e leveza suas roupas bem cortadas, enquanto seu paletó preto
parecia interiorano e feio. Achou-se grotesco, parado ali com o chapéu na
mão; e sofreu muito por isso. Naquele momento, teria sido capaz de dar dez
anos da sua vida para estar vestido como o barão e Octave e mostrar a mesma
naturalidade dos dois, pois ele tinha certeza de que Claire jamais iria se
esquecer da primeira ocasião que o vira e que uma lembrança desfavorável da
sua pessoa ficaria gravada para sempre na mente dela. Para ele, era nítida a
distância que separava mademoiselle de Beaulieu do dono da siderúrgica de
Pont-Avesnes e foi com profundo pesar que ele se reprovou pela ousadia de
erguer os olhos mais alto do que sua ambição podia alcançar.
Nisso a voz de Octave, finalmente, o arrancou do seu torpor.
– Meu caro, Monsieur Derblay – disse o marquês, – temos aqui alguém
que está louco para conversar com o senhor sobre produção industrial. Meu
primo, o barão de Préfont, um verdadeiro cientista…
– Um estudioso, meu querido Octave – interrompeu o barão. – O campo
da ciência é muito vasto para que eu possa ter outra pretensão senão a de ter
explorado um pedacinho apenas.
Recuperando a autoconfiança, Philippe olhou ao redor em busca de
mademoiselle de Beaulieu, que agora, caminhava graciosa e lentamente pelo
terraço ao lado da baronesa. Ela bateu sem querer a ponta da sua sombrinha
vermelha em uma trepadeira que crescera enrolada a balaustrada de pedra.
Philippe soltou um suspiro, desviando o olhar:
– Esta não é a primeira vez – disse ele – que escuto o nome de monsieur
de Préfont.
Então, diante do educado gesto de protesto do barão, adicionou: – O
senhor não é o autor do tratado sobre o cimento? Estudei o assunto e li com
grande interesse o material que enviou para a Academia de Ciências.
– Oh, oh, barão! – exclamou Octave. – Aposto que nunca imaginou que
fosse famoso aqui na nossa região? Viu, você está a caminho da fama, meu
amigo; seu nome atingiu até mesmo os confins do interior e agora o
aconselho a completar seu antigo lema ‘Fortis gladio’ com um adendo ‘et
pennâ’. Não pense que estou fazendo troça. Se tivesse capacidade eu teria o
maior prazer de seguir seu exemplo.
Mas o barão pouco se importava com o que o marquês falava. Estava tão
feliz por encontrar alguém capaz de compreendê-lo, que já tinha engatado
numa conversa a respeito de uma pesquisa sobre a produção de aço. Nem
mesmo a intervenção da baronesa o dispersou do seu assunto de interesse.
Tinha se despedido da sua formalidade inglesa e dado vazão a sua mobilidade
natural. Batia palmas, imitando o barulho do maquinário para ilustrar as suas
explicações. Gesticulava e até mesmo chegou a tocar no braço de M. Derblay
como se quisesse impedir que o outro se afastasse. Mas Philippe não tinha
desejo de tentar escapar da impulsiva familiaridade de M. de Préfont. Pelo
contrário, ele o incentivou, fez por encontrar um aliado inesperado dentre
essas pessoas com quem se sentia tão pouco confortável; apesar de o barão,
que estava muito animado, não parar de falar e já estar tratando Philippe por
‘meu caro’, algo que com certeza ele não costumava fazer com muita
frequência. Mas o interesse que nutriam pela ciência os juntara e unira de
imediato, como se eles fossem uma dupla de maçons e tivessem trocado
misteriosos apertos de mão.
– Então você extrai seu próprio minério? Como seu trabalho deve ser
interessante! – exclamou o barão. – Gostaria muito de ir amanhã, logo cedo, a
Pont-Avesnes para visitar sua fábrica. Você deve gerar muitos empregos?
– Em torno de dois mil.
– Isto é admirável! Quantas caldeiras?
– Dez, que ficam acesas o ano todo. Você precisa conhecer o meu
martelo-pilão. Ele pesa mais de vinte toneladas e funciona com tanta precisão
que é capaz de tocar em um ovo sem quebrar a casca.
– Com um equipamento desses você pode competir com a Le Creusot,
não é mesmo?
– Exatamente; só que a Le Creusot produz em larga escala e nós numa
escala menor.
– Foi muita sorte ter conhecido alguém como você, meu caro – disse o
barão satisfeito. – Eu planejava ir para a Suíça com a baronesa no final do
mês, mas adeus a nossa viagem! Vou ficar por aqui mesmo. Entende o que
quero dizer? Podemos fazer alguns experimentos juntos. Você tem um
laboratório? Claro! Você é químico? Perfeito! Você é um dos homens mais
agradáveis que já conheci – e puxando Philippe pelo braço, monsieur Préfont
saiu andando pelo terraço.
– Minha nossa! O que aconteceu com meu marido? – indagou a baronesa
se inclinando sobre Claire.
– Como assim o que aconteceu, minha querida prima? – respondeu
Octave, jovial. – Ele está falando sobre o seu passatempo preferido com
monsieur Derblay.
– Então isso vai longe, caso o barão não seja detido.
– Mas por que ele deveria ser detido? – perguntou o marquês. – Acaso
não aprova a amizade de Préfont com monsieur Derblay? Seu marido, minha
querida prima, descende dos cruzados e carrega em sua pessoa dez séculos de
bravos guerreiros. Monsieur Derblay, filho de um industrial, carrega apenas
um século de tradição… mas é o século que produziu, ou pelo menos
encontrou meios de utilizar o vapor, o gás e a eletricidade. Devo confessar
que, de minha parte, admiro a súbita amizade destes dois homens, que apesar
de parecerem tão diferentes, admiram muito um ao outro e compartilham do
mesmo sentimento pela grandeza da nação: passado glorioso e progresso.
– Octave, meu amigo – disse a baronesa, – bem se vê que é um advogado.
Na verdade, discorre com grande desenvoltura. Mas permita que eu diga que
o considero demasiadamente democrático para o pai que teve.
– Bem, prima – retomou o jovem, sorrindo, – você bem sabe que a
democracia nos cerca de todos os lados. Portanto, vamos tentar instituir uma
democracia dentro da nossa comunidade aristocrática. Por exemplo, trace
uma linha da mediocridade e coloque acima dela todos os merecedores.
Fundemos então a aristocracia do talento, que é única que pode suceder a
aristocracia do nascimento. Depois disso teremos de agir do mesmo modo
que agiram nossos ancestrais. Acaso pensa que os fundadores das nossas
famílias eram nobres de nascimentos? Não, foi a coragem deles que os
colocou acima dos outros homens. O primeiro Préfont era conhecido como
Gaucher, ou canhoto, o que não o impediu de se destacar como um soldado
extremante astuto e corajoso. Condecorado por seus feitos com as armas e
enriquecido pelos espólios de guerra, ele recebeu o nome da sua propriedade
quando voltou da Palestina; e foi graças ao capitão Gaucher, minha querida
prima, que você agora é uma baronesa. Então, por que deveríamos negar aos
homens que assim como seu ancestral têm o direito de se destacar da
multidão? Antigamente as pessoas costumavam dizer: ‘Honra ao mais
valente’,mas hoje em dia preferimos: ‘Oportunidade ao mais inteligente’.
– Muito bem pensado e dito, monsieur le Marquis; e peço desculpas para
madame la Baronne se me coloco contra ela – disse uma voz profunda, vindo
de trás de uma folhagem. No momento seguinte Bachelin, com o rosto muito
vermelho, chapéu na mão e uma pasta cheia de papeis embaixo do braço,
como sempre, surgiu no canto do terraço.
– Ah, Bachelin, você chegou na hora certa – disse a baronesa muito
animada. –Ah, mas tudo está perfeito para você e os outros homens da lei.
Afinal, todos vocês fazem parte do terceiro estado e a Revolução foi feita
para beneficiá-los. Mas você parece ter surgido do nada. De onde está vindo?
– Atravessei o jardim, vindo de La Varenne e deixei meu cabriolé no
portão lateral. Mas, peço desculpa…
E voltando-se para madame de Beaulieu, que se aproximava com
Suzanne:
– Madame la Marquise, ao seu dispor. Mademoiselle Suzanne, meus
respeitos. Que dia agradável! Vim correndo, pois queria estar aqui na mesma
hora que monsieur Derblay. Mas um assunto muito importante me deteve.
Um assunto que tem sido motivo de grande tristeza para mim, Madame la
Marquise. A venda de La Varenne.
– Ah, então D’Estrelles finalmente encontrou um comprador? – indagou o
marquês.
– Sim, um comprador – respondeu Bachelin, – e um comprador que
pagou um bom preço, posso lhe assegurar. Mas ele queria muito essa
propriedade e pagou três vezes mais do que valia. É um industrial de Paris. E
ele me contou que teve a honra de conhecer a família de Madame la
Marquise. Sem dúvida foi por isso que queria tanto comprar uma propriedade
vizinha a Beaulieu.
– Pode-se saber o nome desse cavalheiro? – perguntou a marquesa.
– Ele se chama monsieur Moulinet – respondeu o tabelião, mais que de
pressa.
Bachelin certamente não fazia ideia do efeito que estava prestes a causar
quando abriu a boca para articular essas palavras. Mademoiselle de Beaulieu
levantou-se de repente, enquanto a baronesa, surpresa, bateu palma e
exclamou:
– O pai da Athénaïs!
– Sim, monsieur Moulinet estava acompanhado de uma jovem a quem
chamou por este nome – confirmou o tabelião. – A propriedade foi comprada
para ela e fará parte do dote de casamento. Que significa uma renda de trinta
mil francos por ano e os arrendamentos devem melhorar.
– Minha nossa, isto é péssimo! Quer dizer, eles virarem nossos vizinhos!
– retomou a baronesa. – Então agora monsieur Moulinet vai brincar de senhor
de terras! Coitado! Vão pensar que ele é o jardineiro!
– Mas ouvi dizer que ele é muito rico! – exclamou Bachelin, meio que
indagando.
– Riquíssimo – confirmou a baronesa. – Ridiculamente rico! Viu, Octave,
esta é a sua teoria se confirmando, meu caro. A aristocracia da inteligência!
Monsieur Moulinet é um belo exemplo. Os D’Estrelles, que geraram dez
generais, dois almirantes, um marechal e vários ministros para a França, cujos
retratos dos ancestrais estão em Versalhes e cujos nomes figuram nas páginas
da nossa história, tiveram que desocupar o château para dar lugar ao
fabricante de chocolate que nunca prestou nem um serviço sequer ao seu país
e cujo nome figura apenas nos chocolates que ele vende em todas as
esquinas. Esta é a sua democracia, meu caro! Ah, nem me fale de um país
onde coisas tão abonáveis podem acontecer. Nosso país está perdido!
– Acalme-se, baronesa – interveio Octave. – Concordo com você que é
uma pena que os D’Estrelles tenham que deixar o château, mas francamente,
como podemos evitar isso? Devemos tirar o dinheiro de monsieur Moulinet e
dar para nossos amigos? Isto seria arbitrário. E a menos que ele ganhe algo
com a barganha, não vejo como poderia ser mais destratado.
– Deixe-me em paz! Você está insuportável – esbravejou madame de
Préfont. – Acho que falou tudo isso só para me irritar, pois não creio que
acredite em uma palavra sequer do que disse – e com isso, puxando a
marquesa pelo braço, ela saiu ao encontro do barão que voltava com Philippe.
Claire ficou para trás, imóvel e pensativa. A súbita aparição de M.
Derblay e Athénaïs Moulinet não apenas abalou sua paz, mas causou uma
sensação estranha. Criada naquela sociedade aristocrática, cercada de
barreiras intransponíveis erguidas com rigoroso orgulho, ela viu com grande
espanto a violação inesperada da sua privacidade. Parecia que o velho
château tinha se transformado em um lugar tão público quanto as ruas, uma
vez que monseiur Derblay podia entrar com tanta facilidade e ser recebido
como um igual. Ela decidiu deixar claro que não aprovava a espontaneidade
com o qual meros estranhos eram recebidos e vendo seus parentes sorridentes
e amáveis, ela se portou de modo ainda mais frio e solene. Parecia que estava
adivinhando que uma misteriosa ameaça rondava. O prolongado silêncio do
duque a preocupava mais do que ela ousava confessar; o nervosismo das
pessoas ao seu redor, os fragmentos de frases que ela escutava ao passar, os
silêncios e as pausas quando ela aparecia de repente, o carinho excessivo de
sua mãe, tudo se juntava para deixá-la ainda mais apreensiva. Ela estava
sofrendo muito. Para um gênio orgulhoso como o seu, a sensação de estar
sendo ludibriada era insuportável. Como via de regra ela costumava ir direito
ao ponto e encarava de frente as situações. Mas neste caso ela não ousou. O
amor que sentia a refreou. Ela teve medo de descobrir que o duque era infiel,
e, envergonhada, com receio de que fosse obrigada a reconhecer o mau
caráter do noivo, ela não quis perguntar e se recolheu calada.
Philippe, por sua vez, percebeu o modo impassível e altivo dela, sempre
reagindo as suas investidas tímidas com ares de desprezo e dando atenção o
suficiente para mostrar que sua presença a incomodava. Suzanne depois de
tentar em vão ser gentil na esperança de abrir os lábios comprimidos de
Claire, buscou refúgio na companhia agradável de Bachelin. Ela se sentiu
triste e desanimada, apesar de todas as atenções da marquesa, a quem tinha
cativado com sua simplicidade. As ilusões da pobre moça se desfizeram num
piscar de olhos e ela percebeu que a felicidade do seu irmão estava
seriamente comprometida. Com seu bom senso precoce, ela enxergou a
distância que separava Philippe da orgulhosa e altiva Claire. Chegou a
imaginar, porém, se talvez algum acontecimento inesperado não pudesse unir
estes dois seres tão diferentes. E assim não se desesperou; e com a fé
inabalável que é inerente aos jovens, ela ingenuamente confiou na
providência Divina para remover todos os obstáculos.
A marquesa, lembrando-se das confidências elogiosas que Bachelin fizera
sobre o elogio de Philippe, viu com bons olhos o entusiasmo do barão, que
decididamente tinha conquistado a amizade do dono da siderúrgica; e muito
surpresa por ter descoberto que seu vizinho era um homem tão culto,
convidou monsieur Derblay para jantar no château. Nisso Claire olhou tão
surpresa e contrariada, que ela se perguntou se não tinha se precipitado ao
fazer o convite. Mas ao analisar melhor a situação, chegou a conclusão de
que tinha agido de acordo com as normas de etiqueta e interpretou a irritação
de Claire como um súbito ataque antissocial. Mas logo em seguida Philippe
amenizou o clima pesado, dizendo com toda educação, que infelizmente não
poderia aceitar ao convite, pois negócios importantes o aguardavam.
Na verdade, ele estava louco para ir embora. Tinham sido duas horas de
tortura no terraço, ouvindo o barão falando sem conseguir prestar atenção,
com o maxilar comprimido e pensamentos tumultuados martelando na sua
cabeça. Já não aguentava mais tanta agonia. Tinha ansiado tanto pelo dia
desta visita e este tinha acabado se mostrando um dos momentos mais cruéis
da sua vida. E assim, desaminado e triste, pronto para renunciar aos seus
planos, ele se despediu dos habitantes do château. Claire deu a mesma
importância para sua partida que dera para a chegada. Permaneceu calada e
distante e recebeu a reverência dele com um mero menear de cabeça, como se
estivesse agradecendo a um fornecedor.
A partida de Philippe teria sido um sinal de derrota, não fosse pelaajuda
dos aliados que ele conquistara. A conduta do barão foi um exemplo claro do
quanto uma paixão pode modificar o caráter de um homem. Abandonando os
últimos vestígios da sua costumeira reserva, ele acompanhou monsieur
Derblay até o portão e trocou um aperto de mão vigoroso e tão cordial como
se eles fossem velhos amigos. Já o marquês, acompanhou Suzanne e por
meio da amabilidade com que tratou o irmão, mostrou o interesse despertado
pela irmã. Bachelin foi atrás, com sua eterna pasta embaixo do braço. No
portão do jardim seu cabriolé, puxado por dois velhos cavalos que mascavam
filosoficamente algumas folhinhas verdes, o esperava. O tabelião ajudou
Philippe e Suzanne a subirem no veículo, enquanto o barão segurava as
rédeas desnecessariamente e o marquês trocava um último sorriso com a
jovem. Bachelin bateu nos cavalos com o chicote, as rodas giraram e o barão
e o marquês gritaram juntos:
– Au Revoir! Até breve!
Com a voz trêmula, Philippe respondeu “Até nunca mais”, que felizmente
não foi ouvido por conta do barulho do veículo. O tabelião, no entanto, virou
abruptamente.
– Nunca mais? – repetiu ele. – Como assim? Você perdeu o juízo, meu
amigo? Por que nunca mais?
Diante da pergunta, Philippe não se conteve mais e abrindo seu coração,
permitiu que toda amargura extravasasse por seus poros. De que adiantava
insistir em uma empreitada que tudo indicava estava destinada ao fracasso?
Tudo que poderia encontrar seria humilhação gratuita e sofrimento. Melhor
renunciar as suas esperanças de uma vez por todas e cortar o mal pela raiz
antes que se espalhasse.
– Mas, meu amigo – interrompeu Bachelin, num tom sarcástico, – o que
esperava? Seu arrependimento me faz supor que as suas pretensões estavam
muito aquém de serem atingidas. Acaso imaginou que mademoiselle de
Beaulieu fosse se atirar em seus braços como se ela fosse uma costureirinha e
você um estudante? Na sociedade que acabou de entrar, meu caro, os
sentimentos costumam ser expressos por meio de uma linguagem delicada e
sutil. Não há espaço para arroubos sentimentais, nem antipatia definitiva.
Tudo é feito com tato e cautela. E, além do mais, já fez um grande avanço
para uma primeira visita. Causou boa impressão para os dois cavalheiros, o
marquês é seu amigo e o barão está louco para conhecer seu laboratório. E a
marquesa, ao convidá-lo para jantar no primeiro dia, fez com que parecesse
que ela estava diante de um velho amigo; e você ainda reclama! Está sendo
muito injusto! Sim, mademoiselle Claire o recebeu com distanciamento e
frieza. Mas e daí? Como teria sido se ela tivesse se atirado em seus braços!?
Você está se precipitando. Ontem à tarde seu maior desejo era poder chegar
perto dela e agora está todo desesperado e acusando céus e terra! E além
disso afirmou que nunca mais pisará naquela casa novamente. Acredite, você
só pode estar louco! Para começar, não pode deixar de voltar a Beaulieu sem
causar a impressão de ser mal-educado. Além do mais, será mesmo que terá
forças para resistir a tentação de colocar a sua devoção aos pés da bela
Claire? Ah, meu caro, como vê está feliz por estar apaixonado! Vocês jovens
choram, sofrem e esta é a melhor fase da vida. Na verdade, o que seria da
vida sem o amor? Acredite, num velho, que como tabelião já ouviu muitas
confidências ao longo destes quarenta anos de profissão e que, ele mesmo só
se arrepende de uma coisa no momento…
O rosto de Bachelin exibia uma expressão animada e seus olhos
brilhavam. Sem dúvida estava prestes a confessar algo muito importante
quando seus olhos pousaram em Suzanne, que, enquanto ouvia atenta,
desfazia pétala por pétala uma linda rosa que o marquês tinha colhido no
terraço de Beaulieu.
– Escute o meu conselho, meu amigo e faça outra visita à marquesa.
Mademoiselle Claire em breve vai passar por uma provação muito difícil e os
acontecimentos podem mudar drasticamente o modo como ela o vê. Não diga
‘Nunca mais’! Amanhã estará dizendo ‘Sempre’! Cá estamos em Pont-
Avesnes. Não vou descer. Preciso passar algumas instruções para os meus
funcionários. Bom jantar e lindos sonhos!
Então, depois de trocar um aperto de mão com Philippe e beijar
galantemente a mão de Suzanne, Bachelin seguiu pela rua principal da vila e
logo desapareceu na esquina do mercado.
Philippe soltou um suspiro e abriu o portão do jardim; então, cabisbaixo e
seguido pela irmã, que respeitou seu silêncio, entrou em sua casa, que tinha
deixado tão cheio de esperanças, poucas horas antes.
CAPÍTULO VII
O Château la Varenne é uma das construções feudais mais belas que
restaram na França. Erigido por Engrerrand d’Estrelles, que se destacou em
Bouvine por ter salvado a vida do rei Philip Augustus, quando este foi
derrubado do seu cavalo por um lanceiro flamengo – com suas torres
pontiagudas, telhados cobertos de chumbo, teve a honra de receber o
imperador Charles V quando este estava a caminho do cerco de Nancy.
Derrubado a tiros de canhão durante uma disputa entre Turenne e as forças
Imperiais, antes do início da campanha sanguinária e selvagem do marechal
no Palatinado, a fortaleza ficou em ruínas durante os reinados de Luís, o Bem
Amado e Luís, o Mártir. A Revolução passou ao largo dos seus escombros,
uma vez que não tinha muito mais que pudesse ser derrubado. Os cidadãos de
Besançon cortaram suas árvores para usar nas lareiras e roubaram as pedras
para usarem na construção. Funcionando como uma pedreira, o château
forneceu pedras para uma série de moradias. Um sucateiro local se apropriou
de mais de duas ou três mil toneladas do chumbo proveniente dos telhados e
vendeu tudo sem pudor. Naturalmente ganhou uma fortuna com isso.
Os d’Estelles, que emigraram com o conde d’Artois, não tiveram como
protestar contra as depredações, pois durante este período estavam lutando
em Mainz, enfrentando os corsários de Biron e os granadeiros de Pichegru,
com o mesmo ardor com que venceram a batalha de Fontenoy. Curiosamente,
foi a pilhagem organizada em La Varenne, da qual toda a região participou,
que virtualmente salvou os d’Estrelles da ruína. A cidade de Beason nunca
conseguiu vender as terras de La Varenne. Ninguém ousaria comprá-las, por
receio do comportamento dos camponeses e moradores da cidade,
acostumados a saqueá-la como se fosse um país conquistado.
Porém, com o Diretório, os d’Estelles puderam retornar à França, graças à
proteção de Barras. Encontraram a propriedade praticamente despojada, mas
desocupada e ali se instalaram na casa do zelador, depois de reporem as
portas e as janelas. Usando com cautela e parcimônia o que tinha restado do
patrimônio, aos poucos foram se recuperando durante o período do Império e
no início da Restauração, retornaram para Paris para ocuparem uma posição
de destaque. Sob o regime da Monarquia de Julho, o chefe da família se
casou com a filha e herdeira de duzentos mil francos do banqueiro Claude
Chrétien, que tinha acabado de ser condecorado com o título de barão
d’Estelles pelos seus serviços pecuniários. M. d’Estelles era apaixonado por
arquitetura antiga e com um investimento altíssimo, restaurou o Château de la
Varenne exatamente como era nos seus tempos áureos. As paredes do último
andar foram coroadas com ameias e as magníficas torres, com gárgulas
sinistros, se ergueram novamente acima das árvores altas do suntuoso jardim.
O trabalho demorou dez anos e custou uma fortuna. O mobiliário foi reposto
com muito bom gosto. M. d’Estelles, prevendo os modismos, adquiriu
aparadores finamente entalhados, espelhos com as mais belas molduras,
santos em madeira no mais perfeito estado – imagens da idade média – e as
melhores tapeçarias de Flandres que conseguiu encontrar. La Varenne acabou
se transformando em um verdadeiro museu, repleto de relíquias artísticas que
na época eram desprezadas, mas que hoje em dia são muito procuradas. A
magnífica residência se tornou um perfeito paraíso para o colecionador
apaixonado, que a decorou com tantas maravilhas.
A mansão se encontrava em perfeito estado, em todos os aspectos,
quando M. d’Estelles morreu, deixando tudo paraseu filho, um jovem
tenente. Quatro anos depois, no entanto, o jovem hipotecou La Varenne por
um terço do seu valor e a coleção de arte de valor inestimável estava prestes a
ser enviada para Paris para ver leiloada quando M. Moulinet entrou em cena
querendo comprar a propriedade com tudo dentro. Na iminência do
casamento da sua filha com o duque, ele primeiro pensou em comprar de
volta a propriedade de Bligny em Touraine. Mas a casa dos antepassados do
seu futuro genro, depois de mudar de mãos várias vezes, foi comprada por
um rico fabricante de cerâmica, que tratou as ofertas de Moulinet, por mais
tentadoras que fossem, com o mais absoluto desprezo. Como Bligny não
pôde ser comprada, o pai de Athénaïs voltou para La Varenne, e, levando
tudo em consideração, ficou muito feliz com a aquisição. O que mais o
encantou foi a proximidade com Beaulieu. Estaria em família, como de fato
seria e as relações de vizinhança logo se tornariam muito agráveis.
É bem verdade que, apesar de Moulinet ter sido o fiel executor dos planos
sombrios que tinham guiado sua filha na escolha de um marido, ele não fazia
ideia da real extensão da perfídia de Athénaïs. Os parentes do duque,
obviamente, a princípio deram as costas para as suas primeiras tentativas de
estabelecer laços de amizade, pois certamente tinha sido dito em algum
momento que Gaston deveria se casar com a prima. Mas com um
desprendimento admirável de espírito, o ambicioso pai considerou o
compromisso uma brincadeira de criança. Gaston e Claire tinham sido
namoradinhos numa idade em que o coração ainda nem sabe o que é amar
verdadeiramente, quando a mente vaga desvairada sem uma meta. O
fabricante de chocolate não botou fé que o noivado, acordado na mais tenra
idade da vida, pudesse ter resultado em uma profunda ligação para nenhuma
das partes. Ele mesmo tinha se comprometido com uma promessa infantil
com a filha de um carpinteiro, na Rua de la Ferronnerie, quando trabalhava
como balconista em uma farmácia na Rua des Lombards. A filha do
carpinteiro, de quem ele tinha praticamente se esquecido, acabou se casando
com um açougueiro, proprietário de um estabelecimento na Place des
Innocents e um dia ele a viu – gorda e vermelha, com luvas brancas longas
cobrindo os braços e uma ovelha sobre um ombro – enquanto pesava
costeletas em uma balança. Enquanto ele, Moulinet, tinha se tornado um
milionário e morava em uma bela mansão no Bulevar Malesherbes. Que
ligação poderia existir entre um juiz do Tribunal do Comércio e esta
açougueira, vendendo saúde? A vida tinha abocanhado as ideias bobas deles
e aos separá-los, os coloca em seus devidos lugares. Não seria o mesmo com
mademoiselle de Beaulieu e o duque? Unidos estariam naturalmente
condenados à pobreza. Separados ambos teriam chances de enriquecer. Com
o duque casado, Claire certamente iria conseguir encontrar um casamento
digno à sua posição. Além disso, ele, Moulinet, poderia oferecer toda a ajuda
que estivesse ao seu alcance. No fundo, quem sabe, o sentimento que na
verdade pairava na mente do fabricante de chocolate era o da satisfação
pessoal. Bligny o agradava como genro e um homem que tinha conquistado a
sua fortuna do nada não podia ser impedido de realizar seus sonhos. Ele tinha
decidido que sua filha seria uma duquesa; e assim seria.
O aspecto grandioso do Château de la Varenne tinha assim agradado e
muito a sua vaidade. As torres, as pontes levadiças, o campanário solene que
marcava as horas, caíra nas graças desse novo-rico. Este comerciante
enriquecido se sentiu estufado de orgulho na sala das armas, entre as paredes
que ostentavam os brasões de todas as ilustres famílias ligadas por laços de
aliança à antiga casa dos d’Estelles. Teve até a petulância de se instalar no
quarto que o imperador Charles V tinha ocupado – um apartamento que tinha
sido restaurado com escrupulosa exatidão – e com uma satisfação ímpar, o
dono da fábrica de chocolate, dormia no mesmo lugar onde o vitorioso de
Pavia dormira. Ao ouvir os criados do château se referirem ao seu quarto
como o quarto do imperador, ele se esqueceu do recente trabalho de
restauração e da compra de móveis novos e imaginou que o piso e as paredes
eram exatamente as mesmas de quando o kaiser passou algumas horas em La
Varenne e assim escolheu este quarto. Esticou seus membros plebeus na
cama de dossel, imponente sobre uma plataforma e cercada de cortinas de
veludo veneziano; e adorava repetir orgulhosamente:
– Charles V costumava adiantar o meu relógio.
Na verdade, ele acreditava piamente que o grande Imperador tinha
passado a vida adiantando relógios, apesar de todos saberem que isto só lhe
ocorreu uma vez em Saint-Just, quando a sua mente ativa buscava alívio para
o cansaço.
Para Athénaïs, que se importava menos que seu pai com a satisfação da
vaidade, o château não passava de uma fortaleza ameaçadora, de onde ela
poderia derrubar sua inimiga. Para ela, o grande charme de La Varenne era
que suas torres orgulhosas e esplendidas ficavam a apenas dez quilômetros
distantes de Beaulieu. Dali ela poderia gerenciar toda a situação e ali poderia
esperar pacientemente pelo momento exato de desferir o golpe fatal contra a
moça que odiava com todas as suas forças. Assim que se instalou no château,
logo após o fechamento do acordo administrado por Bachelin, ela descobriu
que a baronesa de Préfont se encontrava em Beaulieu com Claire. No entanto,
uma adversária a mais não a intimidou; pelo contrário, ela adorou a ideia de
humilhar a orgulhosa mademoiselle de Beaulieu na presença de madame de
Préfont.
Moulinet e Athénaïs estavam instalados no château há três dias e depois
de terem explorado várias vezes seu bosque, a horta, os estábulos e as casas
dos empregados, o novo proprietário de La Varenne já não sabia mais o que
fazer para se distrair, quando lhe foi entregue um telegrama, avisando sobre a
chegada do duque, que não era esperado para tão cedo. Athénaïs não gostou
nada da novidade, pois receou que o duque pudesse estragar seus planos.
Com certeza Gaston iria querer poupar seus parentes e, por conta disso,
acabaria se opondo a quaisquer tentativas com o intuito de humilhar Claire.
Assim, Athénaïs resolveu agir antes que Bligny pudesse interferir. O
telegrama informava que ele chegaria a La Varenne às três da tarde daquele
mesmo dia. Portanto, não havia um minuto a perder.
Moulinet ainda passeava pelo esplendido jardim ao estilo francês que se
estendia à frente do château, amassando sem perceber o telegrama, quando
sua filha, elegantemente trajada, veio em sua direção, ocultando a sua
determinação sob um semblante encantadoramente feliz.
– Bom, papai, precisamos ir ao château de Beaulieu hoje à tarde – disse
ela com um sorriso.
– Mas por que hoje à tarde?! – Moulinet perguntou, surpreso. – O duque
está chegando. Não seria melhor esperarmos? Na companhia dele certamente
seremos melhor recebidos. Deixe que ele nos apresente aos seus parentes.
– Não, isso não – respondeu Athénaïs com toda calma. – Não vejo
necessidade de alguém para intervir entre Claire de Beaulieu e eu; e, na
verdade, acho até que ela pode estranhar se eu não contar sobre o casamento
pessoalmente. Além do mais, cá entre nós, monsieur Bligny ficaria numa
situação embaraçosa e acho que ficará agradecido se prepararmos o terreno e
poupá-lo do aborrecimento deste primeiro encontro. Depois que tudo for
esclarecido não haverá mais volta e tudo correrá bem. Não creio que o senhor
esteja com receio de ser mal recebido?
– Mal recebido! – exclamou Moulinet, empertigando-se e enfiando as
mãos de modo resoluto nos bolsos da calça. – Um homem na minha posição,
um ex-juiz do Tribunal do Comércio nunca é mal recebido! Se não
vivêssemos sob um regime de governo tão inútil, se houvesse uma Corte de
Justiça na Tuileries ou em outro lugar qualquer, eu entraria lá como se
estivesse entrando na minha casa. Mal recebido, era o que faltava! Por
pessoas que devem ter uma renda anual de uns seiscentos mil francos. Isso
seria curioso de se ver. Mas espere! Vou mandar preparar a caleche e os
lacaiosdevem estar vestidos com seus trajes de gala.
– De jeito nenhum, papai – interrompeu Athénaïs. – Os uniformes
costumeiros, por favor. Não há motivos para ostentação. Quando mais rico
mais modesto deve se mostrar. As pessoas iriam rir da nossa ostentação, mas
vão aplaudir a nossa simplicidade.
– Acha mesmo? – indagou Moulinet, arrependido. – Tenho a impressão
de que o uniforme de gala iria causar uma ótima impressão. Mas vou deixar
isso para você decidir. Você é a que possui refinamento e sabe como
funcionam as coisas na alta sociedade. Apronte-se, enquanto vou ao estábulo
para tomar as providências necessárias.
Quinze minutos depois, Athénaïs e seu pai, seguiam por uma estradinha
rumo a Beaulieu, deixando para trás uma nuvem de poeira.
Depois de esquecer a decisão tomada no afã da decepção, Philippe voltara
ao château de Beaulieu. Para dizer a verdade, o barão não permitiu que ele se
afastasse. No dia seguinte a visita de Philippe à marquesa M. de Préfont, que
tal qual Luís XVI era apaixonado pela arte dos mecanismos, foi visitar o
trabalho do siderúrgico bem cedo e depois de tirar o paletó e arregaçar as
mangas da camisa, não demorou muito ficou num estado tal que Philippe se
viu no dever de lhe emprestar uma muda de roupas e convidá-lo para o
almoço. Depois disso ele não teve como deixar de voltar a Beaulieu. Philippe
tinha se munido de motivos tão justos para justificar a sua fraqueza, que não
sentiu nenhum tipo de desconforto quando pisou no terraço onde tinha
passado duas horas de agonia mortal no dia anterior. Era bem verdade que
Claire se mostrou tão fria e indiferente quanto no primeiro encontro, mas sua
postura desdenhosa e altiva, em vez de desconcertar o dono da siderúrgica,
desta vez o irritara; e quanto mais mademoiselle de Beaulieu fingia ignorar a
sua presença, mais crescia sua determinação de se fazer notado.
A marquesa era uma daquelas mulheres afortunadas cuja natureza
brindara com um equilíbrio de espírito admirável. Ela era a mesma todos os
dias. Tinha gostado de Philippe à primeira vista e a opinião que formara dele
nunca mudou. Assim o recebeu com a sua amabilidade costumeira e o deixou
completamente à vontade.
Já a baronesa, que estava curiosa para analisar o caráter do homem que
imaginava ser um troglodita, para sorte de M. Derblay, se mostrou muito
simpática. Ela achou Philippe amável, apesar de ele não ter se esforçado para
agradar e que tinha uma conversa interessante, apesar de ele em momento
algum ter se mostrado pretensioso. E assim, ela chegou à conclusão de que
sua moral era tão sólida quanto o físico e passou a gostar muito dele. Quanto
ao marquês, este se encantou com a companhia de Suzanne e os dois
disputaram partidas animadíssimas de bilhar e baralho, das quais até mesmo
os moradores mais sisudos do château acabavam tomando parte.
No dia que Moulinet e Athénaïs foram visitar Beaulieu estava ocorrendo
uma partida animada de críquete com a baronesa e Octave de um lado e o
barão e Suzanne do outro. O campo de batalha era no gramado que ficava
entre o portão de entrada e as dependências dos empregados. A marquesa e
Claire, que não se interessavam pelo passatempo, se encontravam na sala de
estar e como as janelas estavam abertas elas podiam escutar as batidas dos
tacos e as exclamações dos jogadores sempre que uma boa jogada ou uma
batida mal feita aumentavam as chances de uma das duplas vencer. Philippe e
Bachelin, que tinham sido nomeados os juízes, acompanhavam atentos as
jogadas e quando ocorria uma dúvida, mediam com uma trena as distâncias.
Eles estavam prestes a declarar Suzanne e o barão vencedores, quando a
atenção do grupo foi atraída por um veículo que parou bruscamente junto ao
portão. Logo em seguida, um criado tocou a sineta, que respondeu com um
chamado sonoro. Não restavam mais dúvidas, eles teriam visitas.
Um segundo depois, como se fosse um bando de passarinhos assustados,
os jogadores correram, subiram os degraus e entraram na sala de estar,
enquanto um criado trazendo um cartão sobre uma bandeja de prata se
aproximava da marquesa. Madame de Beaulieu ajeitou os óculos, leu o cartão
e erguendo a cabeça muito admirada, exclamou:
– Monsieur e mademoiselle Moulinet!
O silêncio se materializou, como se todos adivinhassem que algo terrível
estava prestes a acontecer. A baronesa foi a primeira a se recuperar e,
juntando as mãos, murmurou:
– Isto já e demais!
– O que essa gente pode querer? – murmurou madame de Beaulieu.
Como ninguém mais parecia estar disposto a responder, Bachelin se
aventurou:
– Minha cara, Madame la Marquise – disse ele, – como monsieur e
mademoiselle Moulinet acabaram de se mudar, provavelmente acharam que
seria de bom tom fazerem uma visita aos vizinhos. A senhora sabe que isto é
comum. Assim, começaram pelo château, o que é justo e natural, uma vez
que a família Beaulieu é uma das mais tradicionais e mais importantes da
região. Além disso, creio que monsieur Moulinet comentou que sua filha
conhece mademoiselle Claire. Acho que estes motivos são mais que
suficientes para justificar a visita.
– Suponho, tia – interveio a baronesa de modo impetuoso, – que a
senhora não vá receber esses Moulinet. Não existe nada em comum entre eles
e a senhora. O pai é um indivíduo simplório, para não dizer vulgar; e quanto à
filha, esta não passa de uma cobra perigosa. É do feitio desses novos ricos
imaginar que podem se infiltrar na sociedade só por que compraram um
château, graças aos milhões deles! Mas não ceda, tia; mantenha-se firme e
resista ao assédio!
– Creio, minha querida – interpôs o barão muito sério, – que sua tia sabe
muito bem como agir, e, portanto, não precisa dos seus conselhos.
A marquesa, no entanto, balançava a cabeça, perplexa. Dava para
perceber que ela estava aborrecida, o que não era de surpreender, pois sua
natureza indolente levava-a a encarar todas as complicações e dificuldades
com verdadeiro pavor. Finalmente, ela voltou-se para a filha, que até então se
mantinha imóvel e calada, como se não estivesse interessada na controvérsia.
– Claire – disse madame de Beaulieu, – o que acha que devo fazer?
– Meu Deus, maman! – exclamou a jovem, serena. – Parece-me um tanto
indelicado bater a porta na cara de monsieur e mademoiselle Moulinet.
Teríamos que arrumar uma desculpa muito boa para tal, mas o que
poderíamos dizer? Não se pode dizer que não estamos em casa, pois eles
devem ter visto estas damas e cavalheiros jogando críquete no gramado.
Além do mais, estamos todos próximos às portas abertas. Dizer simplesmente
que não vai recebê-los seria um modo indelicado de reconhecer o que está
por trás desta visita de cortesia. Será que seria conveniente? Não creio. Acho
que deveríamos recebê-los; mas não precisamos retribuir a visita. O que
acha?
– Sim, minha criança, você tem razão; vamos fazer isso. Octave, diga ao
criado que vamos recebê-los.
Minutos depois, monsieur e mademoiselle Moulinet entravam na sala de
estar do château de Beaulieu. Como toda mulher tem um pouco de atriz; e
assim, apesar da emoção e do coração batendo acelerado, Athénaïs atenuou o
impacto do primeiro momento com uma manobra audaciosa. Com as mãos
estendidas, um sorriso nos lábios e olhos reluzentes, ela avançou na direção
de mademoiselle de Beaulieu, lançou os braços ao redor do pescoço desta
como se elas fossem grandes amigas e exclamou audaciosa:
– Ah, Claire, minha querida, como estou feliz por revê-la!
A efusão surpreendeu tanto mademoiselle de Beaulieu que, apesar da sua
presença de espírito, não conseguia articular uma resposta. Enquanto isso,
Athénaïs, vendo a oportunidade, voltou-se para a marquesa e se curvando
numa cortesia perfeita retomou:
– É uma grande alegria para mim, madame la Marquise, poder estar junto
de mademoiselle de Beaulieu novamente. Desde que a conheci e isso foi há
muito tempo – adicionou, sorrindo carinhosamente para Claire, – que sempre
procurei imitá-la em todos os aspectos. Não acho que seria possível encontrar
modelo melhor.
– Quer dizer que sempre me imitou? – murmurou Claire. – Como está
sendomodesta.
– E, isto é a primeira vez que isto acontece – sussurrou a baronesa,
aproximando-se.
Quando viu madame Préfont, a alegria de Athénaïs parecia não ter
limites. Mas mademoiselle Moulinet não se atreveu a se atirar nos braços de
Sophie, pois tinha se vingado dela muitas vezes, para correr o risco de ter de
encarar as consequências em público. Sabe-se lá que tipo de humilhação a
maluca seria capaz de infringir contra ela na presença de toda aquela gente?
Assim, Athénaïs, prudentemente, se contentou com um aperto de mão tão
vigoroso que chacoalhou as suas pulseiras e ao mesmo tempo quebrou a
frieza da outra com o calor das suas palavras afáveis, pois ela declarou que
estava duplamente feliz, uma vez que não esperava encontrar a querida
Hennecourt também!
Como não tinha sido convidada para o casamento de Sophie, ela fingiu
que não saber que esta tinha se casado e assim se dirigiu à madame de
Préfont pelo seu sobrenome de solteira. Para acabar com o equívoco ardiloso,
Sophie teve de apresentar o barão a Athénaïs, que fez uso das palavras
melhor escolhidas para felicitar monsieur de Préfont por ter arrumado uma
esposa tão linda.
Manobrando neste campo de batalha, repleto de obstáculos e armadilhas,
com a habilidade e a postura de um grande estrategista, mademoiselle
Moulinet imobilizou suas adversárias com sua audácia e surpreendeu seu pai
com a presença de espírito e deu a cada um uma boa amostra de sua
inteligência. Sophie e Claire foram obrigadas a admitir que ela tinha se
transformado em uma inimiga muito mais perigosa do que imaginavam.
Em dois anos a jovem tinha desabrochado de um modo surpreendente.
Tinha se transformado num rostinho bonito. Um pouco baixinha, talvez e
com certa tendência para engordar, o que lhe conferia um falso, mas
agradável ar de indiferença. Os cabelos castanhos-escuros eram volumosos e
os olhos azuis muito expressivos. É bem verdade que suas mãos – cobertas
por longas luvas azuis de lã, que desapareciam sob os babados das mangas e
subiam justinhas até o cotovelo – eram de dimensões plebeias, assim como os
pés, que apareciam sob a barra curta da saia; e, num exame mais atento, ela
parecia um tanto comum. Mas à primeira vista era atraente.
Moulinet permaneceu emudecido num minuto de êxtase, pensando
consigo mesmo que sua filha certamente era um ser superior, nascida para ser
uma duquesa. Sua admiração exagerada de repente o deixou sentimental e o
levou a lembrar-se da sua falecida esposa, que teria ficado tão encantada e
surpresa se pudesse ver a filha. A lembrança fez brotar uma lágrima nos
olhos do fabricante de chocolate e com isso ele sacou um lenço imenso do
bolso e assuou o nariz com um barulho horrendo. Um olhar de reprovação de
Athénaïs o chamou para as necessidades da situação e o fez lembrar-se de
que barulhos deveriam ser feitos discretamente na sociedade aristocrática. 
Então, inclinando-se na direção da marquesa, com os braços dobrados e o
chapéu sobre o coração:
– Mademoiselle de Beaulieu e madame – disse ele, ao mesmo tempo
indicando a baronesa – foram amigas de escola da minha filha no Sagrado
Coração. Sempre achei que fiz um ótimo investimento ao matricular Athénaïs
nesta instituição de ensino, que é sem dúvida a melhor escola de Paris e agora
mais do que nunca reconheço o investimento. As jovens para lá enviadas,
sem dúvida recebem uma educação de primeira e ao mesmo tempo têm a
oportunidade de fazerem ótimas amizades.
A marquesa deixou escapar um sorriso e olhando para Moulinet:
– Foi o que percebi – disse, com um quê de ironia, que passou
despercebida pelo fabricante de chocolate, apesar de Athénaïs ter ficado
branca de raiva.
– Quanto a mim, Madame la Marquise – prosseguiu Moulinet, encantado
com o encorajamento, – estou profundamente emocionado por ter me
concedido a honra de lhe oferecer meus respeitos. Devo à senhora, por mais
de um motivo, o fato de ter vindo para está região, onde adquiri recentemente
uma propriedade.
A marquesa trocou um olhar com Bachelin, que gesticulou querendo
dizer: “O que foi que eu disse?” ao que madame de Beaulieu respondeu com
um menear de cabeça, como se dissesse: “O senhor estava certo.”
– Uma propriedade muito importante – retomou Moulinet, que ficara
momentaneamente desconcertado com a troca de olhares. – La Varenne, que
pertencia aos d’Estelles. Eu não queria muito, mas minha filha, que sabe das
coisas, me fez entender que as terras são um complemento necessário para
uma fortuna imensa como a minha. Além dos mais, permitia que eu lhe
confesse uma coisa, madame la Marquise, sou um liberal, mas prefiro me
relacionar com a aristocracia.
E com isso, inflado dentro do seu colete branco, sorriu para todos ao
redor.
Os ouvintes estavam estupefatos e Athénaïs arrasada pela monumental
estupidez do seu pai, e, sem forças para reagir, sentou-se em uma poltrona
com um suspiro.
A marquesa, neste momento, mostrou todo o tato que lhe cabia como
senhora da casa, misturado ao atrevimento velado de uma verdadeira dama.
Não era sua vontade que Moulinet percebesse o quão severo estava sendo
julgado, mas ao mesmo tempo não abriu mão da satisfação de dar algumas
alfinetadas, ainda que discretas. E assim fez um gracejo para aqueles que
eram capazes de compreender a situação.
– Acredite, monsieur – disse a Moulinet, – estou muito comovida com os
sentimentos que expressou com tanta simplicidade. Eles são dignos de um
homem que se fez por meio da inteligência.
Moulinet, que ficou encantado com a resposta, da qual nem notou a
pontinha de ironia, achou que a marquesa era uma mulher maravilhosa e
resolveu tratá-la de um modo especial. E assim partiu para a intimidade e,
quando se pensou que ele fosse apenas bater palmas e dizer, “de acordo. Foi
isso mesmo”, ele exclamou com a maior naturalidade: – Se meu jeito a
agrada tanto, madame la Marquise, acho que vamos nos dar bem.
A baronesa, que ficou tão consternada que mal conseguia se conter,
levantou-se e puxou Philippe para um cantinho perto da janela, onde
desabafou com o seguinte comentário:
– Esse homem é um monstrengo!
Quanto a Moulinet, que percebeu que tinha impressionado, apesar de não
ter sido de um modo positivo, seguiu com a falação, no mesmo estilo
autossuficiente:
– A propriedade La Varenne – disse ele, – é consideravelmente grande.
Sem dúvida, vocês devem conhecer o castelo. Sabem que tem valor
histórico? Estou ocupando o quarto que pertenceu a Charles V, de acordo
com o que me disseram. Sim, madame la Marquise, eu durmo na cama do
Imperador.”
Então, num gesto de falsa modéstia, o ex-juiz do Tribunal do Comércio
adicionou: – Juro pela minha alma que não me tornei uma pessoa mais
orgulhosa por isso.
Desta vez, Athénaïs não pôde se conter mais. Tinha percebido que seu pai
ia acabar com sua festa. Assim, levantou-se abruptamente, com o rosto
transtornado e um olhar de reprovação e falou secamente:
– Papa, peça para madame la Marquise lhe mostrar o belo terraço. A
vista de lá deve ser estupenda.
Com essas palavras e para interromper os arroubos do pai, ela caminhou
decidida até a porta de vidro que dava para os degraus. A marquesa se
levantou, mostrando a Moulinet o caminho e todos os outros seguiram atrás.
Claire ficou por último, parecia tão pensativa como se adivinhasse que
alguma catástrofe estava prestes a acontecer. Assim que saiu da sala e pisou
no primeiro degrau, ela se viu cara a cara com Athénaïs, que, ardilosamente
tinha se esquivado dos outros e voltava na direção dela. Claire recuou
involuntariamente. Os olhos das moças se encontraram. Os de mademoiselle
de Beaulieu eram questionadores e surpresos, enquanto os de Athénaïs eram
sérios e quase ameaçadores.
– Não seria melhor entrarmos? – indagou mademoiselle Moulinet,
avançando um passo sala adentro.
– Com todo prazer – respondeu mademoiselle de Beaulieu, sentindo um
aperto no coração. – Deseja falar comigo?
Certa de que a crise prevista estava prestes a eclodir, Claire tratou de
recuperar o autocontrole e as forças. Empertigou sua bela figura e, segura de
corpo e alma, esperou comsoberba confiança o ataque da sua inimiga
implacável.
– Não imagina o quanto estou feliz por estarmos a sós – disse Athénaïs,
sem responder a pergunta de mademoiselle de Beaulieu. – Desde que
perdemos contato, há dois anos, que pensei muito e enxerguei muitas coisas.
Amadureci muito também e meus sentimentos mudaram imensamente. Por
exemplo, no internato, não éramos exatamente boas amigas.
– Mas… – iniciou Claire, com o cenho contraído e um gesto de protesto.
– Oh, não negue! – interrompeu Athénaïs, rapidamente. – Eu não gostava
de você. Eu a invejava; posso admitir isso agora. Mas amadureci o suficiente
desde então para poder ser franca sem parecer humilde. No entanto, eu a
admirava e meu sonho era ser igual a você.
– Igual a mim! – exclamou Claire, com um sorriso amargo. – Quem sou
eu? Você me ofusca, posso lhe garantir. É muito mais bonita, elegante, bem-
vestida; tem tudo que eu não posso ter…
– Sim, tudo – disse Athénaïs, friamente; – tudo menos um sobrenome
nobre!
– Minha nossa! – retomou Claire com aparente simplicidade; – mas hoje
em dia é muito fácil comprar um título. Existem títulos de todos os preços,
muito bons, dos mais comuns aos mais importantes. Se realmente deseja um
título atrelado ao seu nome, estou certa de que tem condições de comprar o
melhor do mercado. Sua fortuna vai lhe ajudar a conseguir isso.
– É verdade – concordou Athénaïs, tentando acalmar a voz, que estava
começando a ficar trêmula de raiva. – E, na verdade, meu casamento está
sendo negociado.
– Que maravilha! Permita que lhe ofereça as minhas sinceras felicitações.
– Mas desejo algo mais do que felicitações de você.
– É mesmo! O que seria? – perguntou Claire, surpresa.
– Um conselho.
– Conselho… sobre o quê?
– Sobre meu casamento.
– Você realmente está sendo muito lisonjeira! Que conselho posso lhe dar
sobre este tema tão íntimo? Eu ficaria muito sem jeito de fazê-lo, pois pouco
nos conhecemos. Será que poderia me dispensar de exprimir minha opinião?
– Não, é impossível – respondeu Athénaïs, gravemente.
– Bem, acho que não estou entendendo direito – afirmou Claire, que
estava de fato encabulada.
– Escute com atenção – retomou mademoiselle de Moulinet. – O tema
vale a pena. A união em questão será um ótimo casamento para mim, muito
acima da minha posição e que supera todas as minhas expectativas. Minha
dúvida é se eu deveria usar um diadema…
– Uma tiara de princesa? – perguntou Claire, forçando um sorriso.
– Não, uma de duquesa – respondeu Athénaïs, encarando a rival. – Pois
serei uma duquesa.
Ao ouvir isso, mademoiselle de Beaulieu estremeceu e teve a sensação de
que o véu que enevoava a sua capacidade de racionar tinha sido puxado de
repente. Na hora, ela adivinhou o que seus parentes vinham escondendo com
tanto cuidado e há tanto tempo. Nem por um segundo duvidou de que Gaston
era o pretendente ao qual mademoiselle Moulinet estava se referindo. A sua
demora, o seu silêncio estavam explicados e um sentimento amargo tomou
conta dela. Um fluxo de sangue fez seu coração expandir, seu lindo rosto
empalideceu e um sinal de desespero morreu em seus lábios.
Athénaïs notou a súbita mudança com furor. Deleitou-se com o
sofrimento de Claire e viu com arrebatamento a pulsação acelerada nas
têmporas. Era um prazer imensurável poder revidar com um golpe apenas
toda a humilhação que ela suportara durante os últimos quinze minutos. Mas,
ao ver Claire paralisada e gélida, ela temeu que esta pudesse desmaiar e assim
escapar antes da revelação final.
– Não vai perguntar o nome do meu pretendente? – indagou, ainda
encarando a rival, que parecia atordoada.
– Na… aão – balbuciou mademoiselle de Beaulieu, sem perceber, tão
absorta estava em seus pensamentos dolorosos.
– Mas preciso lhe contar quem é ele – insistiu Athénaïs. – É meu dever.
E então, saboreando o momento, como se estivesse escolhendo o melhor
lugar para desferir o golpe final, ela adicionou lentamente: – É o duque de
Bligny.
Claire já esperava pelo golpe, pois já tinha perdido todas as ilusões, assim
como estava certa da traição do duque. Mesmo assim o nome Bligny, que era
para ser seu, vindo do modo como veio de Athénaïs, a abalou profundamente.
Com as mãos trêmulas e a boca seca, ela sorveu do cálice amargo da
mortificação até a última gota.
– Monsieur de Bligny é parente seu – disse Athénaïs, exasperada pela
apatia soturna da rival. – Ele foi seu amigo de infância; e ouvi dizer que havia
planos para vocês se casarem. Diante de tais circunstâncias, acho que agora
me entende, achei que o mais correto de minha parte seria falar francamente
com você e consultá-la.
Mademoiselle de Beaulieu percebeu um raio de esperança nas palavras
supostamente generosas de Athénaïs. Talvez as coisas não estivessem tão
adiantadas quanto imaginara. Assim, ela recuperou a coragem e resolveu lutar
até o fim:
– Consultar-me? – indagou. – A respeito de quê?
– A respeito da posição do duque com relação a você – respondeu
Mademoiselle Moulinet com aparente simplicidade. – Você compreende que
se realmente estiverem noivos um do outro, então poderá me acusar de
estragar o noivado de vocês. O duque pediu a minha mão; mas não estou
apaixonada por ele. Na verdade, mal o conheço. Ele ou outro, que me
importa! Seja sincera comigo. Você o ama? Ficará magoada ou triste se eu
me casar com ele? Basta dizer uma palavra e o noivado está rompido.
Talvez, se Claire tivesse tido coragem de confessar seu amor, Athénaïs
teria se dado a satisfação máxima de bancar a generosa, renunciado sua
ambição diante da possibilidade de humilhar ainda mais mademoiselle de
Beaulieu. Por um instante o destino dessas duas moças ficou em suspense.
Mas Claire só conseguia se lembrar de uma coisa que mademoiselle Moulinet
tinha dito: “O duque pediu a minha mão”. Enquanto pensava nisso, um rubor
tomou conta do seu rosto, e, preferindo morrer a admitir seu amor por
Gaston, ela precisou de todas as suas forças para firmar a voz e os olhos e
assumir uma pose da mais pura tranquilidade.
– Obrigada – disse, com um sorriso frio. – Mas pode ficar tranquila que
não sou moça de ser abandonada e preterida. Não pense que o duque se
casaria com outra se estivéssemos noivos, de fato. Não! Mas estas coisas
acontecem entre primos na infância; eles ficam noivos e juram que vão se
casar num piscar de olhos. Tudo não passa de brincadeira de criança. Mas a
razão vem com a idade e as necessidades da vida logo destroem estes planos
pueris. Você disse que o duque pediu a sua mão? Case-se com ele, então.
Seria uma pena se não ficassem juntos, pois vocês se merecem.
Athénaïs ficou pálida com a insinuação que as últimas palavras
carregavam. Com uma tacada Claire se vingou de todo seu sofrimento. Elas
se entreolharam com sorrisos mortais, dando continuidade à luta em termos
de cortesia. Foi como uma batalha disputada com alfinetes de ouro que
penetravam na carne, afiados e perigosos, como uma adaga. Parecia uma luta
disputada com leques, manipulados entre sorrisos, embora os ataques
traiçoeiros fossem tão duros quanto golpes de verdade. Uma guerra de
mulheres, cada ataque calculado com refino e a vitória era tão ardentemente
disputada que as duas combatentes poderiam acabar gravemente feridas.
– Então você não tem nada contra a nossa união? – insistiu mademoiselle
Moulinet, injetando uma dose sutil de veneno na ferida aberta. – Não imagina
como a sua resposta me deixa feliz! Parece um sonho! Seremos parentes,
estaremos na mesma posição social e eu ainda serei uma duquesa!
– Você merece – Claire afirmou categórica e com a mais profunda ironia.
– Deixe-me beijá-la! – exclamou Athénaïs, indo para cima de Claire e
segurando-a pelo pescoço como se fosse lhe dar uma mordida. Mademoiselle
de Beaulieu não ofereceu nenhum tipo de resistência e Athénaïs pôde
imprimir no rosto da sua inimiga o beijo mais hipócrita já dado pelos lábios
de uma mulher. Em seguida, olhando gravemente para mademoiselle de
Beaulieu, ela disse: – Saiba que tem em mim uma amiga sincera e devota.
Claire ainda teve forças para responder:
– Você acabou deque prometia ser,
enquanto Claire demonstrava cada vez mais ser a donzela soberba e altiva já
prenunciada na infância.
Entretanto, logo chegou alguém para lhes fazer companhia, trazido pela
desventura e pelo luto. O irmão da marquesa, o duque de Bligny,
prematuramente viúvo e com um filho pequeno, teve uma morte trágica numa
queda de cavalo durante uma corrida, quando suas costelas foram quebradas
pelos cascos do cavalo. Este descendente dos Cruzados, que morreu como um
cavaleiro, não deixou bens nem pertences e depois do funeral o pequeno
Gaston, seu filho, todo vestido de preto, foi levado para a casa da tia
marquesa, onde passou a morar. Tratado como um terceiro filho, ele cresceu
junto com Octave e Claire. Mais velho que os dois, ele possuía o dom inato
do fascínio e a elegância natural da estirpe refinada à qual pertencia. Apesar
disso, havia sido negligenciado pelo pai, cuja vida devassa não combinava
com cuidado paternal. Muitas vezes era deixado ao encargo de criadas, que
permitiam que o garoto testemunhasse suas intrigas vis; em outras era levado
pelo duque a alguma partie fine e entre o convívio com pessoas depravadas e
as aventuras inconsequentes do pai, a inocência do menino foi posta a uma
prova dolorosa.
Quando foi levado para a mansão Beaulieu, ele tinha constituição
franzina, era tristonho e, de certa forma, corrompido, do ponto de vista moral.
Porém, na atmosfera saudável da vida em família, recuperou todos os
encantos e frescor da juventude. Aos dezenove anos, quando concluiu os
estudos, prometia tornar-se um encantador e perfeito cavalheiro. Foi nessa
ocasião que ele se deu conta de que sua prima Claire, quatro anos mais nova
que ele, não era mais uma menininha.
Ela havia se transformado de repente. Como uma linda borboleta
emergindo de uma crisálida, Claire tinha florescido em todo o esplendor de
sua beleza radiante. Com a pele clara e olhos pretos brilhantes, era uma
mocinha desenvolvida e de uma elegância admirável. Gaston a adorava. O
amor pela prima o atingiu como um raio; ainda assim, por dois anos ele
manteve em segredo seu sentimento.
Um grande infortúnio o induziu a falar. A confissão é mais espontânea
nos momentos de dor. O marquês de Beaulieu morreu de repente. O brilhante
bon vivant faleceu discretamente, à francesa; não adoeceu, simplesmente
parou de viver. Foi encontrado caído no tapete de seu escritório. Quis
examinar os documentos relativos a uma ação judicial no qual estava
envolvido contra alguns parentes distantes na Inglaterra, mas a tarefa
inusitada fora demais para ele.
Os médicos, que tendem a determinar tudo com precisão e não admitem
que alguém possa dispensar sua opinião, principalmente em caso de morte,
declararam que a causa do óbito fora a ruptura de uma artéria. Os amigos,
porém, balançaram a cabeça, discordando e comentando entre eles que o
pobre Beaulieu tivera o mesmo fim do duque de Morny – desgastado pela
vida de extravagâncias e excessos. Era certo que ninguém podia levar uma
vida como a que o marquês levava, por vinte e cinco anos, impunemente.
Outros eram da opinião de que a revelação feita pelo homem de negócios
daquele pródigo soberbo, de que toda a sua fortuna se extinguira, o matara
com o mesmo efeito de uma bala no coração.
A família do marquês, entretanto, não se preocupou em determinar com
acuidade a causa de morte súbita; apenas lamentaram e choraram.
M. de Beaulieu era amado e respeitado como se tivesse sido um modelo
de marido e pai. A marquesa fez a casa inteira ficar de luto e encomendou
exéquias principescas para o homem a quem tanto amara apesar de seus
defeitos, cuja perda ela sofria com imensa tristeza. Octave, agora marquês de
Beaulieu e o duque de Bligny, seu irmão adotivo, presidiram a cerimônia
fúnebre, cercados pela mais tradicional nobreza da França; e à noite, quando
voltaram para a mansão lugubremente silenciosa, encontraram a marquesa e
Claire, vestidas de preto, esperando para consolá-los e agradecer-lhes por
terem cumprido um dever tão doloroso. Então a marquesa recolheu-se a seus
aposentos com o filho para conversar com ele sobre o futuro e Gaston foi
para o jardim com Claire.
As sombras da noite se alongavam sob as árvores altas. Era uma linda
noite de verão, o ar estava impregnado com o perfume das flores. O jovem
casal caminhou sem pressa pelo gramado, sem trocar uma palavra, ambos
entregues a seus próprios pensamentos. Por um impulso mútuo, eles pararam
ao mesmo tempo e se sentaram em um banco de pedra. Uma fonte jorrava
sobre uma bacia de mármore logo atrás e o murmurinho constante e
monótono da água tinha um efeito tranquilizador. De repente, no entanto,
Gaston rompeu o silêncio e, falando afobado, como alguém que tivesse se
reprimido por muito tempo, disse a Claire, com palavras de extrema ternura,
quão amargamente lamentava a morte do excelente homem que ocupara o
lugar de seu pai. Incapaz de se conter, com os nervos à flor da pele, o jovem
duque sucumbiu à emoção e deu vazão às lágrimas, soluçando e apoiando a
cabeça no ombro de Claire.
– Ah! Eu nunca esquecerei o que você e sua família representam para
mim. O que quer que aconteça comigo em minha vida, estarei sempre perto
de você... Eu a amo tanto… – e entre soluços repetiu: – Eu a amo! Eu a amo!
Ele enrubesceu intensamente e pareceu quase envergonhado de sua
fraqueza, mas Claire tomou gentilmente o rosto dele entre as mãos e o fitou
com um sorriso meigo.
– Eu também te amo.
Confuso, Gaston exclamou:
– Claire!
Ela pousou os dedos sobre os lábios dele e, com um gesto solene digno de
um noivado, deu-lhe um beijo na testa. Em seguida se levantaram e,
abraçados, retomaram o passeio pelo gramado. Nenhum dos dois tinha
vontade de falar; estavam apenas ouvindo seus corações.
✽✽✽
 
No dia seguinte, Octave de Beaulieu começou a estudar direito e Gaston
ingressou no serviço diplomático. O governo Republicano estava na época
buscando o apoio de nomes da aristocracia, com o intuito de reafirmar os
poderes estrangeiros, que viam o triunfo da democracia com olhares ansiosos.
O jovem duque estava ligado ao gabinete de M. Decazes e um futuro
diplomático brilhante parecia reservado para ele. Recebido ansiosamente pela
sociedade, ele causara sensação com seu porte elegante, feições atraentes e
seu jeito simpático e carismático de conversar. Cobiçado pelas mães de filhas
casadouras, permanecera indiferente a todos os avanços. Só tinha olhos para
Claire e suas noites mais agradáveis eram aquelas passadas na sala de estar da
tia, vendo a prima concentrada no bordado.
Os fios rebeldes de cabelo que caíam sobre o pescoço delicado brilhavam
a luz da lâmpada e Gaston permanecia sério e em silêncio, devorando com os
olhos aqueles cachos dourados que ele ansiava por beijar com devoção. Às
dez horas ele deixava a casa da marquesa, depois de despedir-se de Claire
com um aperto de mão fraternal e ia para os eventos da sociedade, onde
dançava até altas horas.
No verão, a família inteira se apressava para ir para a Normandia, onde a
marquesa tinha uma propriedade. Em respeito ao ressentimento do marido,
ela ainda não voltara a Beaulieu. Gaston sentia-se extremamente feliz no
campo; galopava pelo bosque com Octave e Claire, enquanto a marquesa se
dedicava a examinar a papelada da família em busca de novos documentos
sobre a ação judicial inglesa.
Uma considerável soma de dinheiro havia sido transferida por testamento
ao marquês de Beaulieu; mas o legado fora contestado na Inglaterra e os
procuradores das partes adversárias, como ratos esburacando um pedaço de
queijo, estavam ganhando dinheiro prolongando as hostilidades. A ação, que
o marquês tinha instaurado por vaidade, era agora acompanhada pela viúva
por interesse, pois a fortuna do marquês fora gravemente comprometida por
suas extravagâncias e o vultoso legado inglês representava a maior parte do
patrimônio dos dois filhos. A marquesa tinha seu próprio dinheiro, mas era
suficiente apenas para custear as despesas do dia a dia. Portanto, apesar de
abominar essas questões legais, madame de Beaulieu tornara-seme dar uma prova disso.
E então, sentido que suas pernas iam falhar, ela soltou o peso do copo no
sofá.
Felizmente, a baronesa, ao notar a longa ausência das duas ficou
preocupada, e, desconfiando que Athénaïs fosse capaz de fazer alguma
maldade, tratou voltar o mais rápido possível para a sala. Assim que entrou,
viu Claire pálida e arrasada e Athénaïs ereta e radiante, ela adivinhou o que
tinha acontecido.
– O que vocês ficaram fazendo, fechadas aqui há quase meia hora? –
perguntou; e então se inclinando sobre a prima, adicionou ansiosa num
sussurro: – O que aconteceu?
Mademoiselle de Beaulieu não disse nada, mas com um gesto de
desespero apontou para a rival, que calçava as luvas composta novamente,
igual um duelista que acabara de aniquilar seu adversário. O pedido de ajuda
tocou profundamente a baronesa. A raiva lhe subia à cabeça, suas orelhinhas
ficaram vermelhas e avançando para cima de mademoiselle Moulinet de um
modo ameaçador, ela apontou a porta e disse:
– Você poderia, por favor…
Athénaïs, com uma incrível presença de espírito, interrompeu a frase de
um modo tão genial que pareceu até que não tinha entendido as palavras
como um insulto.
– Sim, já estou indo… juntar-me ao meu pai no terraço – disse ela; e
então voltando-se para Claire: – Até mais.
E sem pressa, como se para mostrar que tinha vencido e que abandonaria
o campo de batalha de livre e espontânea vontade, ela avançou na direção das
portas de vidro e deixou a sala.
CAPÍTULO VIII
Mademoiselle Moulinet mal tinha acabado de sair, quando Claire,
ficando de pé com um pulo, se aproximou da baronesa com os olhos
flamejantes da raiva que ela não precisava mais conter.
– Você sabia… sabia que ele ia se casar! – vociferou. – Por que não me
contou? – e, enquanto madame de Préfont permanecia calada de tão surpresa
– fui traída! Abandonada! – retomou mademoiselle de Beaulieu, retorcendo
as mãos num ataque de desespero. – E por quem? Por aquela criatura? Como
pôde me deixar saber pela boca dela? Vocês a deixaram livre para acabar
comigo com um só golpe! Foram cúmplices dela! Vocês gostam de mim! E
ele? Ele! Por dinheiro…! Miserável!
Chocada com a cena de fúria, a baronesa tentou acalmar a prima.
– Oh, Claire! – exclamou a baronesa. – Por favor, acalme-se. Você está
me assustando!
Mas mademoiselle de Beaulieu tinha perdido o controle. Sua natureza
violenta, há tanto mantida sob controle, tinha extravasado e nada poderia
detê-la. Todo o esforço feito durante aquela conversa assustadora agora
parecia para ela um ato da mais pura covardia. Ela se perguntou, estupefata,
como tinha conseguido conter todos os insultos que lhe vinham à cabeça, em
vez de atirá-los na cara da pessoa que tão imprudentemente tripudiara diante
da sua angústia. Lamentou não ter dado uma surra na traidora maldita. E seus
gritos estavam impregnados de raiva só de pensar que seu amado tinha sido
roubado por aquelazinha; sua ira desconsiderava todas as convenções sociais.
Ela estava pouco se importando com o que os outros poderiam pensar e
andava de um lado para o outro, pisando duro e o sangue quente dos velhos
barões que também tinha sofrido injustiças, grandes e pequenas, fervilhavam
nas veias de mademoiselle de Beaulieu, enquanto sonhava em infringir
torturas cruéis contra a sua odiada rival.
Até que, finalmente, a noção de que não poderia fazer nada retornou e a
esmagou novamente. Ela percebeu que todas as suas esperanças tinham sido
destruídas, que não havia perspectivas de vingança. Seus nervos abalados
acalmaram, de repente e, com o peito pesado de soluços angustiados e
lágrimas amedrontadas escorrendo copiosamente pelo seu rosto, ela se atirou
nos braços da baronesa.
– Ah, sou uma infeliz! – exclamou entre soluços. – Uma infeliz!
Madame de Préfont, muito abalada, abraçou com força a prima e apoiou
sua cabeça pesada sobre o ombro. Então, num linguajar gentil, que as mães
costumam usar para aplacar as tristezas e sofrimentos de seus filhos, ela
tentou consolar o coração ferido de Claire. A pobre chorava desesperada; mas
pelo menos as lágrimas fizeram bem, pois lavaram o veneno que Athénaïs
tinha injetado nas suas feridas e atenuou a dor dilacerante. À medida que
mademoiselle de Beaulieu foi recuperando a consciência, ela corou
envergonhada pela demonstração de fraqueza e de ira. Agora, seu objetivo
era conter os sentimentos, e, num esforço do seu orgulho, ela conseguiu.
Quando a marquesa entrou na sala – apavorada com o anúncio que
Moulinet tinha abado de fazer, ela encontrou a filha, não resignada, pois
resignação era impossível, mas para todos os efeitos cheia de coragem e
dignidade. Ofegante por ter subido os degraus, apressada e, por conta da
emoção, madame de Beaulieu olhou assustada para Claire, que ainda estava
pálida e trêmula. Então, depois de buscar por algumas palavras que lhe
escaparam devido a agitação, ela se atirou nos braços da filha, soluçando
copiosamente.
– Ah, pobre da minha filha!
– Você ficou sabendo, maman? – indagou Claire, lágrimas brotando em
seus olhos novamente.
– O pai acabou de me contar tudo; e quando penso – disse a marquesa
erguendo as mãos ao alto, indignada, – quando penso que foi você quem me
aconselhou a recebê-los, para não parecer mal-educada!
– Ah, fomos muito bem recompensados por isso – disse Claire, com
amargura. – Agi com imprudência. Eu deveria ter evitado aquela… pessoa.
Eu sabia muito bem o sentimento que ela sempre nutriu contra mim. Acho até
que a provocamos um pouco na época da escola, mas ela se vingou
cruelmente. Ela nunca perdoou ou esqueceu. Esperou pelo momento certo e
roubou a alegria do coração da antiga amiga de escola. Ah, ela acabou com a
minha vida! A infidelidade do duque sempre irá pesar sobre mim e a
humilhação também, que homem vai querer se casar comigo?
– Que homem? – vociferou a marquesa. – Todos aqueles que tiverem
olhos para vê-la e ouvidos para ouvi-la! Se alguém caiu em desgraça, minha
filha, neste caso, este alguém é o duque e não você. E se quiser se casar terá
vários pretendentes para escolher no nosso meio social e em qualquer outro.
Uma moça como mademoiselle de Beaulieu jamais terá que mendigar por um
marido. Há menos de seis meses recusei as propostas de várias famílias
honradas e os pretendentes que então me pediram sua mão ficaram tão
desapontados por terem sido recusados que estou certa de que ficarão felizes
de tentar novamente se souberem que têm alguma chance.
Mas Claire fez um gesto de desencorajamento.
– Depois do duque de Bligny, maman, só poderei me casar com um
homem que seja superior a ele em todos os aspectos, ou então com um
homem que eu ame. Minha única justificativa possível aos olhos da
sociedade estarão na riqueza ou na impulsividade da minha escolha. Mas
você sabe muito bem, maman, que as duas opções são impossíveis; depois de
tamanha decepção só me resta ir para um convento!
– Não fale assim, filha – disse a marquesa, com carinho. – Você é
encantadora. Um convento! E, nós? Não, você é muito jovem para se
desesperar. As suas qualidades morais e beleza certamente reservam algo de
bom para você. Na verdade, tem alguém bem próximo que aceitaria a sua
mão de joelhos.
Mademoiselle de Beaulieu ergueu as sobrancelhas num gesto de orgulho
e voltando-se para a mãe, indagou:
– Monsieur Derblay?
– Sim, monsieur Derblay – respondeu a marquesa. – Mas só mencionei o
nome dele como um exemplo. Quem iria se aproximar sem conhecê-la? Acha
melhor voltarmos para Paris? Ou gostaria de ir para a Suíça com monsieur e
madame de Prefont? Diga, estou pronta para consentir qualquer coisa que
possa lhe alegrar. O que gostaria de fazer?
– Ah e eu lá sei! – disse Claire, desconsolada. – Eu gostaria de
desaparecer, sumir, fugir de mim mesma. Só sinto ódio e desprezo. Ai de
mim! Por que não morro de uma vez por todas?
– A morte, minha querida, é o único mal para o qual não há remédio. Se
todas as mulheres que foram preteridas por seus namorados, ou maridos,
resolvessem dar cabo da vida o mundo estaria vazio. Os homens são todos
infiéis e quando não traem antesdo casamento, traem depois!
Ao mesmo tempo em que a marquesa falava sobre a inconstância do
homem que tantas lágrimas e suspiros lhe causara, o barulho de um galope
furioso ressoou, e, pelos portões que ainda estavam abertos, o duque de
Bligny adentrou no jardim, montando num cavalo branco que espumava pela
boca.
Ele desceu com um pulo do cavalo e jogando as rédeas para um criado
surpreso, subiu correndo os degraus da frente. Seguiu direto para a sala de
estar e teria entrado se o barão e Bachelin, que se apressaram em recebê-lo,
não o tivesse detido no vestíbulo. Pálido, com as sobrancelhas cerradas, o
duque tentou se esquivar deles.
– Monsieur e mademoiselle Moulinet ainda se encontram aqui? – ele
interpelou, ofegante; e diante da resposta afirmativa do barão: – Minha tia? –
adicionou. – Preciso ver a marquesa o quanto antes. Espero que não seja tarde
demais.
– Está enganado, duque – respondeu gravemente monsieur de Préfont,
que agora tinha entendido a pressa de Gaston. – Já é tarde, pois monsieur e
mademoiselle Moulinet já contaram tudo.
O duque soltou um suspiro profundo, e, sentando sobre um dos bancos de
madeira do vestíbulo, olhou com pesar para o barão e Bachelin e disse:
– O que posso fazer para remediar o mal que causei?
– Infelizmente, este mal é irreparável, monsieur le Duc, respondeu
Bachelin, num tom de reprovação, ainda que respeitável. – A melhor coisa
que o senhor tem a fazer agora é ir embora sem falar com madame de
Beaulieu.
– Oh, não poso fazer isso – tratou de responder Gaston, ficando de pé
novamente. – A marquesa vai me culpar e me responsabilizar pelo que
aconteceu aqui hoje; mas preciso explicar meus motivos. Preciso mostrar que
não participei deste acordo infame… Farei o que ela quiser. Mas preciso vê-
la, falar com ela e chorar aos seus pés, se preciso for. Como podem ver, estou
desesperado.
O rosto do duque parecia tão aflito que, apesar de Bachelin, assim como o
barão, estarem contra o rapaz, os dois acabaram se comovendo.
– Muito bem – disse Bachelin. – Monsieur de Préfont fará a gentileza de
lhe fazer companhia, Monsieur le Duc, enquanto vou perguntar se madame
de Beaulieu se dispõe a recebê-lo.
E com isso, deixando os dois primos juntos, Bachelin deu a volta pelo
terraço e discretamente bateu à porta de vidro da sala de estar.
Enquanto isso, sem saberem do transtorno que reinava dentro da casa,
Philippe, Moulinet, Suzanne, Athénaïs e o marquês conversavam
tranquilamente no terraço. O sol se escondia lentamente além do horizonte,
tingindo o céu de verde-azulado com veios arroxeados. Junto com a noite
uma calmaria agradável descia sobre o vale, já encoberto pelas sombras. O
sino da igreja de Pont-Avesnes ressoou claro e solene à distância, anunciando
a missa de finados, no dia seguinte. Uma paz tão profunda permeava a bela
paisagem que acabou influenciando o espírito de Athénaïs. Sua agressividade
abrandou e depois de ter triunfado de modo tão definitivo sobre sua rival,
considerou a possibilidade de tratá-la com mais brandura dali em diante.
Ao entrar na sala de estar, Bachelin encontrou as três mulheres num
estado emocional indescritível. Quando ao olhar por uma das janelas com
vista para o jardim, Claire viu o duque passando pelos portões, ela ficou
transtornada. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu e apontando
para seu amado traidor deixou escapar uma risada histérica e trêmula. Parecia
que estava enlouquecendo e a marquesa e a baronesa ficaram preocupadas.
Aproximaram-se da pobre moça, que tremia compulsivamente e cujos lábios
estavam lívidos, elas acharam que ela estava prestes as desmaiar e pensaram
em tocar a sineta para pedir ajuda; mas, com um gesto autoritário, Claire as
impediu. Com muito esforço, ela conseguiu articular as seguintes palavras,
entre dentes cerrados:
– Não, ninguém. Deixem-me aqui. Logo estarei bem.
Em seguida se sentou. Suor frio gotejava na sua testa e a baronesa
enxugou cada gota com cuidado fraterno. A marquesa tirou o próprio xale e
colocou sobre o ombro da filha, que tremia compulsivamente.
Apoiada por almofadas, mas com a cabeça baixa, Claire permaneceu
imóvel como se estivesse cochilando; mas seus olhos cintilantes, voltados
fixamente para o tapete, denunciavam que ela não dormia. Estava imersa em
pensamentos e havia uma ruga profunda entre as sobrancelhas, testemunha do
grande esforço mental. Minutos depois, a cor voltou ao seu rosto novamente,
um suspiro de alívio em seu peito e ela atirou para longe o xale da mãe.
Ao ouvir Bachelin abrindo a porta de vidro, ela virou a cabeça e na ânsia
de esconder seu sofrimento, forçou um sorriso para o tabelião. Este parecia
consternado e se aproximou de madame de Beaulieu na ponta dos pés, como
se estivesse no quarto de um enfermo, e, curvando-se mais do que de que
costume, como se estivesse envergonhado da própria missão, iniciou:
– Perdoe-me, madame la Marquise, mas aconteceu algo inesperado…
– Eu sei – a marquesa poupou-o. – O duque acaba de chegar. É isso que
veio me dizer?
– Sim, madame – retomou o tabelião, muito desconcertado. – E apesar de
tudo que lhe dissemos, ele insisti em vê-la.
– Que audácia! – exclamou a marquesa, ficando de pé com uma rapidez
incomum à sua idade e caminhando em direção à porta.
– Aonde está indo, maman? – perguntou Claire.
– Estou indo expulsá-lo desta casa, que é o que ele merece – respondeu
madame de Beaulieu, tomado por um rubor da mais pura indignação.
Por um segundo, Claire permaneceu calada, refletindo, como se hesitasse
em tomar alguma decisão séria; então, balançando a cabeça, falou:
– Não, maman. Não expulse o duque de Bligny desta casa. É melhor
recebê-lo.
– Recebê-lo? – repetiu a marquesa, estupefata, perguntando-se se a filha
não teria enlouquecido de vez.
– Sim, recebê-lo. E recebê-lo com a devida educação. Eu não gostaria que
ele soubesse de forma alguma o quanto estou sofrendo com a traição dele.
Seria muito bom para ele saber que uma moça como eu está sofrendo. Tudo
menos a piedade insultante dele. Receba-o. Podemos muito bem abrir as
portas para ele, uma vez que não fechamos para sua futura esposa.
– Mas o que pretende fazer? – perguntou madame de Beaulieu num
estado de agitação.
– Pretendo me vingar! – respondeu Claire, com uma expressão de ira
assustadora. Então, voltando-se para Bachelin: – Faça a gentileza de pedir
para o duque dar a volta pelo terraço e aguardar ali um pouco. Não o deixe
entrar até que eu faça um sinal pela janela. Enquanto isso, peça para monsieur
Derblay vir até aqui.
A baronesa e a marquesa se entreolharam surpresas, sem conseguirem
entender os motivos que levavam Claire a agir daquele modo estranho. Mas
Bachelin, que era mais perspicaz e vendo que seu plano estava dando certo,
saiu apressado com o entusiasmo de um jovem. Segundos depois, Philippe
entrava na sala.
– Maman, Sophie – disse Claire, – vocês poderiam me dar licença um
minuto, por favor, para que eu possa falar em particular com monsieur
Derblay?
Madame de Beaulieu e a baronesa seguiram juntas para um cantinho,
próximo a uma janela, e, perplexas, ali aguardaram pelo final da conversa.
Philippe, que estava tomado pela emoção, pois tinha se dado conta de que a
balança do destino estava pendendo a seu favor – e que também já tinha sido
alertado por Bachelin de que a crise estava atingindo seu ápice – permaneceu
paralisado diante da sua adorada.
– Monsieur – disse Claire, se dirigindo diretamente a ele pela primeira
vez, – nosso velho amigo e excelente conselheiro, mestre Bachelin, contou
para minha mãe que o senhor me fez a honra de aspirar pela minha mão.
Philippe não disse nada e apenas concordou com um aceno de cabeça.
– Acredito que o senhor seja um homem honrado – continuou
mademoiselle de Beaulieu com firmeza, – e presumo que para ter pensando
nisso, o senhor, assim como todos que me cercam, deve estar ciente de que o
duque De Bligny desconsiderou… há um bom tempo talvez… o nosso
compromisso…
– Sim, mademoiselle, estou ciente – respondeu Philippe, articulando as
palavras com dificuldade. – E lhe garantoque, mesmo agora, se a sua
felicidade dependesse de mim, eu lhe traria o duque de volta sem hesitar.
Mesmo que me custasse a vida.
– Agradeço – disse Claire, – mas os laços entre o duque de Bligny e mim
foram rompidos para sempre e a maior prova que posso lhe dar disso é que se
ainda estiver disposto estou pronta para lhe oferecer a minha mão.
Nisso a voz de mademoiselle de Beaulieu falhou e Philippe adivinhou
mais do que ouviu as últimas palavras. Neste momento passou pela sua
cabeça o dia que a sua irmã, ao vê-lo cabisbaixo, declarou rindo: “Você vai
ver; ela virá de livre e espontânea vontade e pedirá a você para fazer o favor
de se casar com ela”.
E assim a previsão de Suzanne se concretizou. Iluminada pelo seu afeto, a
mocinha previu a felicidade do seu irmão. Ele não estava sonhando; era tudo
verdade. Claire tinha acabado de oferecer a mão a ele. Uma grande alegria
inundou o coração de Philippe e tomando aquela mão encantadora, que tanto
ansiou segurar, ele imprimiu sobre as pontas frias dos dedos um beijo tímido,
mas delicioso.
– Preciso lhe pedir um favor, monsieur – retomou Claire. – Eu gostaria
que fizesse o possível para dar a entender que nosso noivado já data de vários
dias. Nem preciso lhe explicar o motivo deste pedido. Ele é motivado pelo
meu orgulho. Não tenha ilusões quanto ao estado do meu coração; mas eu lhe
asseguro que serei uma esposa leal e fiel. Por favor, deixe-me agora, mas não
se afaste muito, pois posso precisar da sua presença.
E, deixando Philippe partir, ela fez sinal um sinal para Bachelin, para que
mandasse o duque entrar.
O tabelião distraiu Bligny com habilidade durante os poucos minutos que
duraram a conversa entre mademoiselle de Beaulieu e M. Derblay e assim
que Philippe saiu radiante, ele abriu a porta que ligava a sala ao terraço.
Moulinet e Athénaïs ficaram aturdidos ao verem Gaston.
Quando Napoleão, esperando por Grouchy, viu o batalhão de Blucher
surgindo do bosque de Frischermont, ele não ficou mais apavorado do que a
filha do dono da fábrica de chocolate ficou naquele momento. Nada poderia
comprometer mais o sucesso dos seus planos do que a presença do duque em
Beaulieu, naquele momento. A ansiedade a abateu profundamente. Ela tinha
dado a vitória como certa. Será que agora estava prestes a sofrer uma derrota
humilhante? O que iria acontecer quando Gaston e Claire ficassem cara a
cara? Será que acabariam se reconciliando? E se os dois primos, depois de
trocarem um único olhar, sentissem que ainda se amavam e se abraçassem e
renovassem os votos com juras solenes?
Moulinet, por sua vez, estava muito surpreso, mas suas suposições não
foram tão longe quanto as da sua filha. Não entendeu por que o duque não
esperou por ele em La Varenne, mas não desconfiava do verdadeiro motivo
que trouxera Gaston a Beaulieu. Assim, ele se aproximou do futuro genro
com um sorriso amigável, estendeu a mão e ficou aturdido pelo olhar que
Bligny lançou quando passou sem cumprimentar nem mesmo Athénaïs.
Mesmo assim, ainda lhe restou autocontrole para entrar atrás do duque na
sala de estar.
A marquesa e a baronesa voltaram à cena rapidamente; deste modo,
quando Bligny entrou, ele se deparou com a marquesa acomodada como de
costume, na sua poltrona, a baronesa em pé ao lado da lareira com os braços
cruzados, para que Gaston nem tentasse trocar um aperto de mão, como era
sua intenção e mademoiselle de Beaulieu, que estava sentada entre a mãe e
Sophie, de costas para a janela, para que assim os traços de seu sofrimento
ficassem menos aparentes. Foram os belos cabelos de Claire que primeiro
chamaram a atenção do duque. Ele sentiu um tremor, e, dominado pela
emoção, estava prestes a correr para a moça que ainda amava e se atirar aos
seus pés, sem se importar com as consequências da demonstração pública de
afeto quando o olhar calmo e severo da marquesa o impediu.
– Madame la Marquise – disse ele numa voz rouca para a senhora que
tinha sido como uma segunda mãe para ele, – minha amada tia, percebe a
minha emoção… meu arrependimento… a minha dor! Ao chegar em La
Varenne na… casa daquele cavalheiro – o duque parecia estar com vergonha
de pronunciar o nome de Moulinet, – percebi o passo imperdoável que…
– Mas, Monsieur le Duc – interrompeu o ex-juiz do Tribunal do
Comércio, consternado.
Voltando-se para seu futuro sogro com uma altivez superlativa, o duque
retomou:
– Um passo muito errado, monsieur e eu gostaria de deixar claro que em
momento algum estive de acordo. Posso ter errado muito, posso ter sido
desonesto e ingrato, mas quanto a ter autorizado uma conduta tão ultrajante
para com meus parentes, garanto que nunca dei meu aval. Palavra de honra
que não!
– Foi apenas uma visitinha educada – murmurou Moulinet,
impressionado com os modos enérgicos do duque. – Não estou entendendo…
– O senhor não entende – interrompeu Gaston com descaso. – Essa é a
sua desculpa?
Mas Moulinet se achava muito importante para permitir que
continuassem tratando-o desse modo ultrajante, mesmo em se tratando de um
homem que considerava superior a ele em origem. Assim, assumindo um ar
de dignidade e curvando-se gravemente numa reverência:
– Se agi mal em algum aspecto, meu genro, diga em qual. Estou pronto
para reparar tudo que estiver ao meu alcance.
Mas a irritação de Gaston foi ao limite ao ouvir Moulinet se referindo a
ele como “genro”, e, deixando de lado a moderação, silenciou o ex-juiz de
uma vez por todas com um bom:
– Basta, monsieur! – num tom de voz que estalou igual a um chicote.
Então, pela primeira vez desde que entrara na sala, ousando olhar para Claire,
que estava imóvel e imperturbável; ele retomou:
– Tia, devo uma explicação à senhora; e peço licença para lhe dar. Claire,
não posso deixar esta sala sem que me perdoe.
Ao ouvir essas palavras, que lhe foram endereçadas diretamente,
mademoiselle de Beaulieu ficou de pé orgulhosa como se estivesse só
esperando por elas e olhou para seu amado com uma serenidade
surpreendente.
– Não me deve nenhuma explicação, duque – disse ela, – assim como não
carece do meu perdão. Fiquei sabendo que pretende se casar com a filha deste
cavalheiro, – e ao pronunciar as últimas palavras ela assumiu um tom ainda
mais altivo. – Tenho a impressão de que tinha o direito de fazê-lo. Não estava
tão livre quanto eu?
Ao se deparar com uma reação inesperada, o duque perguntou a si mesmo
se não estava sonhando. Olhou então para Claire, para baronesa e, finalmente,
para sua tia, sem encontrar nenhuma delas um sinal sequer de emoção,
tristeza ou raiva. Tinha imaginado que teria de enxugar lágrimas e se viu
confrontado por sorrisos. Seria possível? Será que mademoiselle de Beaulieu
tinha simplesmente deixado de amá-lo durante aquele período de ausência
fatalmente imposto por ele?
– A sua noiva veio nos dar a boa nova – retomou Claire. – O que foi
correto e não quero ficar em dívida com você.
Em seguida, aproximando-se da porta aberta para o terraço, ela fez um
sinal para Philippe. Athénaïs, que se corroía de curiosidade, ousou ir atrás do
dono da siderúrgica e segundos depois todos os ocupantes do château
estavam reunidos na sala de estar.
– Gostaria de apresentá-los um ao outro, cavalheiros – disse
mademoiselle de Beaulieu, com uma compostura surpreendente. E apontando
para Gaston: – Monsieur le Duc de Bligny, meu primo – então, encarando seu
amado traidor e desafiando-o, por assim dizer, com seu olhar orgulhoso: –
Duque – adicionou – Monsieur Derblay, meu futuro marido!
Se um raio tivesse atingido o château não teria chocado tanto quanto as
últimas palavras. O duque cambaleou. Athénaïs ficou atordoada e lívida
como cera.
O barão e a baronesa trocaram olhares aturdidos. Bachelin e Suzanne
foram os únicos que não pareceram surpresos, o primeiro por que tinha
trabalhado com afinco para este fim e a segunda porque amava tanto o irmão
que nunca duvidou que mademoiselle de Beaulieu não acabasse se
afeiçoando a ele por suas qualidades irresistíveis.
O duque, finalmente, mostrou que tinha aprendido um pouco com a
prática da diplomacia. Ele serecuperou rapidamente, e, assumindo uma pose
impecável, sorriu graciosamente para M. Derblay.
– Receba meus cumprimentos, monsieur – disse, num tom de voz
razoavelmente controlado. – O senhor vai se casar com uma mulher que
poucos de nós seria digno o suficiente de ter.
Apesar de Athénaïs ter sentido o contragolpe desferido por mademoiselle
de Beaulieu, ela sabia que custasse o que custasse teria que demonstrar o
contrário. Assim, avançou e olhando para Claire atentamente, disse:
– Meus parabéns, querida! – e então, adicionou baixinho, com um sorriso
cruel: – Sem dúvida, um par prefeito!
Mademoiselle de Beaulieu oscilou e se deu conta da situação que acabara
de se colocar. Seu grande amor estava diante dela e logo iria embora com sua
maior rival. A inesperada revelação de Claire aplacara a comoção do duque e
agora ele se encontrava ao lado de Athénaïs, de mãos dadas com ela,
enquanto conversava e ria com a indiscrição de um homem feliz. Enquanto
ela, Claire, guiada pelo seu orgulho desgovernado, tinha acabado de decidir
seu futuro e, com isso, perdido sua liberdade. Tinha dado sua mão a um
homem que jamais poderia amar, pois seu coração ainda estava cheio da
querida e dolorosa lembrança de outro! Ela fitou o duque mortificada. Estava
prestes a cruzar a sala, arrancá-lo dos braços de Athénaïs e dizer a ele toda a
verdade; mas ele parecia tão calmo, tão indiferente, tão aliviado, que seu
orgulho e raiva voltaram à tona com força total e a pouparam da
demonstração de fraqueza. Na ânsia de mostrar que não tinha sido preterida,
ela acabou por sacrificar todo seu futuro em nome do seu amor-próprio e
lançando um olhar triunfante para Bligny e mademoiselle Moulinet,
murmurou consigo mesma: “Meu casamento será antes do deles!”
CAPÍTULO IX
Os preparativos para o casamento foram feitos com uma rapidez
impressionante. Todos em Beaulieu e Pont-Avesnes pareciam cúmplices do
plano de Claire. Philippe viajou para Berry às pressas para cuidar da papelada
necessária, enquanto o marquês seguiu para Paris. O correio nunca entregou
tantas encomendas de modistas e outros itens femininos. Uma tremenda
agitação abalou a plácida rotina da marquesa.
A honrada senhora, atordoada pelos acontecimentos, aceitou a súbita
decisão da filha e não teve forças nem mesmo para discutir as possíveis
consequências. Confiando em Bachelin, que tão bem recomendara M.
Derblay e comovida pela conduta desinteressada do dono da siderúrgica, ela
viu a decisão do casamento mais com surpresa do que ansiedade. Mesmo
assim sentiu por Claire não ter esperado um pouco mais para ver se
encontrava um marido do seu círculo social; mas ao mesmo tempo tinha
dúvidas se um homem rico e nobre de nascimento concordaria em se casar
com Mademoiselle de Beaulieu sem dote, neste século de pensamentos tão
práticos. A resposta para sua pergunta era tão duvidosa que ela finalmente
começou a considerar uma sorte M. Derblay ter aparecido neste momento tão
crítico.
Claire fez tudo que estava ao seu alcance para dissipar as preocupações da
sua mãe e acalmá-la; e na presença dela sempre se mostrava sorridente e
tentava dar todos os sinais de que estava feliz. Apenas a baronesa sabia dos
seus sofrimentos e arrependimentos. Esta tinha testemunhado a demonstração
de fraqueza da prima e acalmara seus ataques de desespero. Trancada em seu
quarto, Claire passou dias sem dizer uma palavra, esgotada física e
moralmente, sem forças para dar um passo. Largada em um divã, com
olheiras profundas, semblante contraído e dor de cabeça, não conseguia parar
de pensar na cena cruel da ruptura, incapaz de se acostumar com o corte
repentino de todas as suas esperanças. Ficava procurando um motivo para
tudo aquilo, mas nunca conseguia encontrar. Os culpados pela catástrofe era
o ódio da sua rival e a covardia do seu primo.
Considerando-se uma vítima da sua inimiga impiedosa – uma mártir
escolhida pelo destino implacável – Claire só pensava em vingança. Passou a
encarar a vida como um campo de batalha onde cada combatente precisava se
proteger para não se ferir e se armar de ousadia para vencer. Arrancou da
mente todos os escrúpulos que acabaram por colocá-la a mercê dos seus
adversários. E jurou que nada iria impedi-la de atingir seus objetivos. Seu
coração se tornou amargo e a mente perturbada. Transformou-se em uma
pessoa implacável e desagradável. E assim, nada mais restou da nobre,
generosa e doce Claire. Agora, ela era uma pessoa difícil, interesseira e
egoísta, disposta a sacrificar tudo em nome dos seus interesses. Parecia que
as chamas da dor e do sofrimento tinham secado seu coração. Até mesmo sua
beleza mudou; ela parecia ter se transformado em um ser de mármore, pois
era tão fria e dura quanto uma estátua.
Pensando sobre a mudança iminente que se daria na sua vida, ela traçou
um plano de ação que deveria ser seguido à risca. Sentia uma indiferença
profunda por M. Derblay. Ignorando as boas intenções do seu noivo, ela
atribuía à disposição dele de realizar todas as suas vontades a ambição única
e exclusiva de tornar-se seu marido. Afinal, não era natural que ele
concordasse com tudo diante da perspectiva de se casar com uma moça rica e
assim se tornar membro de uma família tão nobre? E viu com desprezo até
mesmo a rapidez com que M. Derblay concordou em participar da farsa que
ela encenou para do duque. Deste modo, a admirável generosidade de
Philippe aos olhos de Claire não passava de humilhação. Acreditava que ele
seria um marido flexível e fácil de manipular; e era exatamente isso que ela
queria. Se M. Derblay se comportasse bem, ela poderia agir a favor dele,
cuidar do seu futuro e, com base nas suas influências, ajudá-lo a alcançar uma
posição de destaque na sociedade. Deste modo a importância do seu marido
iria compensar a falta de título. Afinal, eles viviam num século de novos
ricos.
A baronesa ficou preocupada com a calma com que sua prima se
preparava para uma união que certamente não era de sua vontade e, por conta
disso, resolveu tentar descobrir o que estava se passando pela cabeça
conturbada de mademoiselle de Beaulieu. E assim, começou a fazer
perguntas, sempre variadas, mudando de um assunto para outro, usando seu
jeito descontraído e frívolo como um disfarce para ocultar as suas verdadeiras
intenções. Foi em vão que Claire tentou se mostrar indiferente. Apesar dos
esforços, seus sentimentos amargos vieram à tona e assim a baronesa
percebeu o quão ferida e sofrendo ela estava. Até que, finalmente, ela
desabafou com madame de Préfont e se sentiu imensamente aliviada. A
baronesa se inteirou em detalhes do suplício que a orgulhosa moça vinha
sofrendo. Admirou sua coragem e previu o que estava por vir. Com a
experiência de três anos de casada, ela enxergou com clareza a gravidade da
conduta de mademoiselle de Beaulieu. Ao falar como as coisas eram na vida
real, ela ainda tentou fazer a prima mudar de ideia, mas a determinação de
Claire, baseada no seu orgulho incontrolável, não se abalou.
Claire desenvolveu um tipo de lei da retaliação para ela mesma. Outros a
tinham feito sofrer, agora outros iriam sofrer por ela. Azar de quem fosse
inocente. Por acaso ela era culpada? Uma vez que a injustiça era a via de
regra da humanidade, ela estava disposta a colocar de lado a retidão e o dever
e sacrificar tudo em nome dos seus interesses pessoais. Assim começou a
olhar para os seres humanos como instrumentos e resolveu colocar todos em
movimento, homens e mulheres, como peões em um tabuleiro de xadrez, a
favor do jogo que ela tinha em mente. Seu único objetivo agora era se vingar
de Athénaïs e humilhar o duque. Em nome desta satisfação ela estava
disposta a sacrificar tudo. E a primeira vítima escolhida foi o apaixonado e
generoso Philippe, cujo sonho era restaurar a alegria e a paz de espírito que
ela tinha perdido.
Madame de Préfont condenou sumariamente as intenções tirânicas de
Claire. A frieza com que mademoiselle de Beaulieu misturou o que era justo
com o que era injusto, guiada pelo seu egoísmo apenas, parecia tão sem
sentido para a baronesa queela tomou isto como um desequilíbrio mental
passageiro, que iria passar com o tempo. Mesmo assim, se empenhou em
mostrar para a prima que não era tão fácil assim, como ela imaginava,
oprimir seres humanos dotados dos dons do raciocínio e de reação.
Certamente, M. Derblay só podia estar se sentindo imensamente honrado por
se juntar à família de Beaulieu e sem dúvida estava disposto a fazer alguns
sacrifícios em nome da honra de se casar com Claire. Em troca do favor que
ele estava fazendo, ao lhe dar a oportunidade de esmagar seus inimigos após
o seu massacre e humilhação, ela ofereceu a sua mão. Nada mais justo. Mas
diante da vida que ela tinha reservado para ele qual seria a reação de Philippe
quando, ao se aproximar da esposa de braços abertos e palavras de carinho
nos lábios, encontrasse apenas s frieza e o distanciamento? Mademoiselle de
Beaulieu achava que o dono da siderúrgica só queria se casar com ela por
ambição. Mas e se ele realmente estivesse apaixonado? Era certo que o lado
lucrativo do casamento deveria ser levado em consideração. Nenhum homem
ignorava o valor do dote da sua futura mulher; mas mesmo assim ainda
existiam maridos que amavam suas esposas. Será que M. Derblay não era um
destes fenômenos?
Claire até então só tinha avaliado um lado da questão e foi a baronesa
quem abriu seus olhos para isso e insistiu no ponto. No casamento, a mulher
raramente mandava, pois o caráter do homem geralmente era propenso à
dominação. M. Derblay parecia saber muito bem o que queria e se ele se
revoltasse e ficasse bravo com os planos arquitetados por Claire? Este não era
um acordo passageiro, de poucas horas de duração, iguais aos que são feitos
por trás dos leques, para levar a cabo alguma intriga de salão ou impedir um
esquema qualquer. Não, este tipo de aliança era para sempre. E o aliado não
poderia ser dispensado com a permissão de beijar um dedinho como
recompensa pelos serviços prestados. Ele seria um marido e deste modo eles
estariam ligados para sempre por laços indissolúveis. Isto tudo deveria ser
levado em conta antes que as coisas avançassem ainda mais. Depois do
casamento não haveria como voltar atrás. Afinal, um casamento não é uma
cena de comédia que dura cinco minutos. E este poderia acabar se
transformando em um drama se Claire não tomasse cuidado. Talvez, fosse
melhor para ela parar enquanto ainda era tempo.
Nenhum dos motivos acima conseguiu abalar a determinação de
mademoiselle de Beaulieu. Ela parecia disposta a correr quaisquer riscos, em
vez de alterar seus planos. Seu desejo era mostrar que ela tinha dispensado o
duque e para tal estava decidida a se casar antes dele. A data do casamento
estava marcada e nada iria fazê-la postergá-la ou mudar de ideia. Ela
percebeu, no entanto, que tinha se descuidado ao permitir que a baronesa
percebesse o que estava se passando na sua cabeça; e achou por bem dar um
jeito nisso. Com muito esforço, conseguiu fazer os músculos enrijecidos do
seu rosto relaxarem e sorrir. Num tom ligeiramente jocoso expressou seu
pesar por M. Derblay, que estava condenado a se casar com uma moça como
ela e que dificilmente obteria vantagens suficientes na união para compensar
a natureza caprichosa e um tanto tirânica da sua esposa.
A baronesa caiu na armadilha armada pela prima e acreditou que com o
tempo a tristeza cederia, assim como a ira ameaçadora de Claire. Disse
consigo mesma que, ainda que o casamento reserve muitas surpresas para
uma jovem, a vida em comum geralmente abranda personalidades mais
violentas. A sós com o marido – cara a cara – até mesmo a mulher mais
recalcitrante acaba sendo obrigada a ceder. Um homem que não seja tolo e,
que esteja muito apaixonado, tem grandes chances de mudar as ideias de uma
mulher. Com a chegada de um filho a situação é outra; a megera se torna tão
mansa quanto um cordeiro. Com isto em mente, a baronesa se acalmou, pois
ela mesma não era mulher de ficar remoendo as coisas por muito tempo. E,
depois de ter dedicado um dia inteiro à reflexão e concentração, retomou sua
leveza de sempre pelo resto da semana.
Neste ínterim Philippe voltou de viagem e junto trouxe o anel de noivado
– um rubi admirável rodeado de diamantes. Foi com a voz embargada que o
pobre sujeito pediu permissão a mademoiselle de Beaulieu para colocar o
anel no dedo dela. Claire olhou com desdém para joia digna de uma princesa.
Com uma mistura de orgulho e indiferença estendeu a mão para M. Derblay e
não disse uma palavra sequer de agradecimento. O anel simbolizava seu
noivado e, por conta disso, pareceu tão odioso aos seus olhos. No dia
seguinte, Philippe percebeu com uma pontada de dor que ela não estava
usando o anel. Mesmo assim não ousou reclamar, pois ficava intimidado na
presença dela. Apesar disso, seus olhos pousaram sobre a mão de
mademoiselle de Beaulieu com tanta eloquência que ela não teve como não
tentar se justificar:
– Peço que me desculpe. Não costumo usar anéis.
As palavras o tranquilizaram. Ao notar a ausência da joia, ele imaginara
que mademoiselle de Beaulieu tivesse sido movida por algum sentimento de
repulsa por qualquer coisa que partisse dele. Ele não fazia a menor ideia do
que se passava no coração da moça. Tinha presenciado a crise prevista por
Bachelin e sabia que só tinha sido aceito por despeito. Mas estava tão
dominado pela paixão que tinha certeza de que acabaria conquistando o
coração da jovem. Como uma mulher poderia continuar insensível a tanto
carinho e atenção? Decepcionada, mademoiselle de Beaulieu acabara se
revoltando com a vida. Mas, aos vinte anos de idade, raramente um coração
se fecha para sempre. Seria possível que no auge da juventude ela fosse
mesmo capaz de decidir permanecer para sempre fria e insensível, tampar os
ouvidos para todos os apelos da vida, fechar os olhos para todos os sinais de
esperança? Será mesmo que seria possível? Philippe, que estava apaixonado
por Claire, nunca duvidou que um dia ela acabaria retribuindo seu amor. Ela
achava que seu coração tinha morrido, mas ele estava apenas adormecido.
Aos poucos, ele voltaria a bater e por quem seria senão pelo homem que o
tirara deste estado letárgico? Tendo Philippe salvado a sua alma, não teria ele
direitos sobre ela? E quando Claire voltasse à vida, com os olhos abertos,
apta a diferenciar a afeição que tinha perdido da afeição que tinha
conquistado – a quem iria agradecer senão a Philippe pela sua libertação?
Esses eram os pensamentos que ocupavam sua mente durante as suas
longas horas de silenciosa contemplação. Forçado desde muito cedo a
amadurecer e lutar pela vida, ele nunca teve tempo de circular pela sociedade.
Assim, acabara se tornando uma pessoa muito tímida. As mulheres em geral
o deixavam agitado. Mademoiselle de Beaulieu o deixava trêmulo. Seu
coração disparava sempre que chegava perto dela. Bastava Claire, sempre fria
e grave, voltar seus olhos serenos em sua direção para ele desmoronar.
Enquanto subia a estradinha que separava Pont-Avesnes de Beaulieu,
Philippe colocou sua irmã a par dos seus planos para o futuro, falou sobre as
alterações que pretendia fazer no château e finalmente confessou o quanto
estava apaixonado pela noiva. Suzanne escutou com um brilho nos olhos e
um sorriso nos lábios. Percebeu que ele estava ensaiando, treinando antes de
falar com Claire e sempre que precisava de aprovação, ele perguntava:
– Você não acha?
Ao que ela respondia astutamente:
– Você precisa dizer tudo isso para ela e não para mim. Considero tudo
que você diz tão correto e apropriado e tudo que faz tão adequado, que
sempre acabo concordando. Mas mademoiselle de Beaulieu…
– Sim, vou falar com ela hoje à tarde – disse ele, decidido. – Tenho tantas
coisas para contar para ela!
Mas toda sua coragem desapareceu assim que ele entrou no château e se
viu na presença de Claire. Mal conseguiu dizer boa tarde sem tropeçar nas
palavras. Então, aborrecido consigo mesmo, avançou e se sentou em um
cantinho, triste por não ter ocorrido nenhum milagre que o encorajasse a abrir
seu coração como se fosse uma caixinha de joia e exportodos os seus
misteriosos tesouros para a moça que tanto amava.
Como o frio chegou junto com os primeiros dias de novembro, não era
mais possível desfrutar do terraço e deste modo os moradores do château e
seus hóspedes passaram a se reunirem na imensa sala de estar. Neste círculo
íntimo, Philippe encontrou várias oportunidades de se expressar – não sobre o
seu amor, pois ficava emudecido em se tratando disso – mas sobre assuntos
em geral; e alternando sabiamente com Octave e o barão, ele foi capaz de
expor a sua retidão de julgamento e a base sólida do seu conhecimento.
Ouvindo sempre um pouco distante, a marquesa se encontrava sentada
próxima à lareira, onde o fogo ardia e sibilava, enquanto Claire, instalada ao
lado, seguia entretida com seu bordado, de onde nunca erguia os olhos.
Risadas animadas escapavam pelas portas abertas da sala de jogos, onde
Suzanne e o marquês disputavam uma partida de críquete dentro de casa. Eles
eram os únicos um pouco mais animados na cena. Tinham se transformado
em grandes amigos e se divertiam juntos como se fossem duas crianças.
Furiosa com o fracasso dos seus esquemas, Athénaïs retornou para Paris
na companhia do pai e do duque. Antes disso, porém, Moulinet fez uma
visitinha de despedida em Beaulieu, onde foi muito bem recebido pela
marquesa. Atendendo aos pedidos de Claire, na verdade, madame de
Beaulieu mostrou-se sorridente e recebeu o dono da fábrica de chocolate com
toda a cordialidade devida ao futuro sogro de um sobrinho muito querido.
Como a mãe tinha resolvido participar da farsa iniciada pela filha, Moulinet e
o duque de Bligny foram obrigados a acreditar na declaração inesperada de
Claire e assim esqueceram quaisquer possibilidades de terem, de alguma
forma, magoado a moça. O duque ficou surpreso ao descobrir que era
inocente depois de toda a culpa que vinha carregando. Athénaïs admirou a
força da rival e percebendo que tinha sido derrotada depois de se considerar
vitoriosa, jurou vingança. Primeiro decidiu que seu casamento seria realizado
em grande estilo em La Varenne, na magnífica capela do château, mas por
fim acabou optando por Paris, por receio de que os convidados, das duas
partes, não se dessem ao trabalho de viajar para interior. Mesmo assim, ela
prometeu voltar para o casamento da sua futura prima, a querida Claire, como
costumava se referir a ela agora e depois disso partiu para Paris.
Claire ficou aliviada com a partida. Parecia até que o ar estava mais puro
agora, depois que sua rival tinha ido embora. Seu belo rosto se iluminou e ela
até pareceu um pouco mais alegre. Philippe tinha mandado reformar em
segredo os quartos do château de Pont-Avesnes e, aproveitando a súbita onda
de bom humor de Claire, convidou madame de Beaulieu para visitar a futura
morada da filha. O convite foi aceito e no dia seguinte, todos os ocupantes de
Beaulieu se instalaram em uma espaçosa carruagem e partiram para Pont-
Avesnes.
A primeira impressão foi boa. Claire ficou satisfeita com o amplo pátio
cheio de tílias antigas, o lago, o château cercado por um fosso aterrado, cheio
de árvores frutíferas. O jardim, com suas longas trilhas cobertas de sombra,
parecia prometer um lugar tranquilo para meditação. A solenidade dos
amplos cômodos combinou com a sua própria melancolia. Na verdade, apesar
de o château, cercado de árvores e literalmente sem vista para nada, pudesse
parecer um mausoléu para qualquer outra pessoa, ele acabou agradando e
muito mademoiselle de Beaulieu. A baronesa verificou as salas, soltando
gritinhos de admiração ao ver os tesouros artísticos acumulados pelo pai de
Philippe. Os móveis, estilo Luís XIV, encantaram e ela ficou extasiada diante
das tapeçarias de Beauvais representando as batalhas de Alexandre, o Grande.
O apreço por antiguidades tinha se tornado tão comum nesta época que todos
se consideravam, de certa forma, experts no assunto. A baronesa costumava
frequentar leiloes de arte e foi ao mesmo tempo divertido e instrutivo ouvi-la
discorrendo sobre os aparadores da época de Henrique III e as antigas
bonbonières de Dresden. Ela batia de um jeito engraçado nos pratos de
faiança para verificar se não estavam trincados e passando de uma sala para a
outra, seguiu falando animada como se fosse um papagaio, deixando a tia,
que não entendia nada de antiguidade, atordoada. Brigitte foi a única que
apreciou o entusiasmo da baronesa pelos móveis, que há tanto tempo ela
cuidava, aceitando os elogios de madame de Préfont como um tributo ao seu
trabalho.
Suzanne e Octave nem entraram no château. Saíram conversando pelo
jardim, ao estilo francês e de repente Suzanne pegou o caminho da cozinha,
de onde voltou correndo, trazendo um pedaço de pão, que picou em
pedacinhos para jogar para as carpas do lago. Durante meia hora ou mais, os
dois se divertiram com os esforços dos gulosos para pegarem os pedacinhos
de pão que boiavam na superfície. Já o barão, atraído por sua curiosidade,
pegou um caminho que já conhecia e seguiu para o laboratório de Philippe.
Claire ficou para trás enquanto a baronesa fazia um inventário do
mobiliário de Pont-Avesnes e Philippe fazia as honras da casa para madame
de Beaulieu. Ao perceber uma porta de vidro que dava para uma varanda com
vista para o jardim, ela abriu e saiu. Ao longe os martelos das oficinas batiam
com vigor sobre as bigornas, os fornos rugiam, expelindo uma fumaça
espessa no céu; enquanto o jardim era calmo, solene e misterioso. O contraste
da agitação ao longe com o da calmaria seduziu Claire. As copas das árvores
com suas folhas avermelhadas pelos ventos de outono formavam uma
abóbada ao alto e seguindo pelas trilhas musgosas, logo ela se perdeu em
devaneios. O jardim deserto e escuro parecia o cenário perfeito para a vida
que ela escolhera. Os galhos secos nas árvores ameaçavam quebrar assim
como seu coração. Ela teria de abandonar seus sonhos, do mesmo modo que
dispersava as folhas secas à medida que seguia em frente. A aparência
desoladora do jardim combinava com seu coração duro e frio. Ela continuou
o passeio, observando o aspecto triste da natureza com amargura, mas quando
a trilha fez uma curva súbita, ela vislumbrou além da uma clareira uma vasta
área de terras férteis, iluminadas pelo sol. O cenário se descortinou como se
fosse um quadro recém-pintado e Claire sofreu um impacto violento. Ela se
identificou com a cena alegre do mesmo modo que se identificara com a
putrefação e tristeza que a cercavam há pouco. Assim a alegria substituiu a
tristeza de imediato. Depois do jardim sombrio e escuro, o campo fértil e tão
cheio de vida; seria este um pressagio do seu futuro? Seria possível que seus
sentimentos pudessem mudar? Ela deu as costas para a cena alegre e,
retornando para a solidão, para a tristeza e para a escuridão, desprezou as
promessas de uma vida melhor.
Quando a baronesa, Philippe e madame de Beaulieu estranharam a
ausência dela e, preocupados saíram a sua procura, eles a encontraram
voltando devagar pelo longo caminho silencioso. Ela estava serena e
sorridente. Os olhos ainda estavam marejados com as lágrimas derramadas
em segredo, uma prova da batalha dolorosa que vinha sendo travada no seu
coração. O barão foi retirado das suas envolventes pesquisas científicas,
Suzanne e Octave desembarcaram do barquinho que tinham usado para
cruzar o lago e o grupo todo assumiu seus lugares na carruagem novamente e
partiram, levando junto Philippe e sua irmã para jantarem em Beaulieu.
Apenas uma semana separava Claire e Philippe do dia tão ansiosamente
esperado pelo orgulho de um e amor do outro. À medida que a data marcada
se aproximava, a jovem foi ficando mais nervosa e agitada. Sua impaciência
era tanta, que todos que tiveram contato com ela na última semana
imaginaram que ela estivesse feliz com a união. Parecia até temer que algum
impedimento surgisse no último momento.
Pacotes não paravam de chegar à estação de trem e junto cartas e mais
cartas. A sineta do portão do château não dava trégua e os criados quase
enlouqueceram, acostumados que eram à vida calma e pacata dointerior.
Quando foi levantada a questão sobre o envio dos convites, Claire tomou
duas decisões que surpreendeu a todos. Primeiro, ela declarou que gostaria
que a cerimônia fosse à meia-noite, sem pompa, na igrejinha de Pont-
Avesnes e, em segundo, expressou o desejo de que apenas os membros das
duas famílias estivessem presentes. Ao ouvir isso, a marquesa ergueu as mãos
ao alto, enquanto a baronesa afundou numa poltrona, onde permaneceu muda
por dez minutos. Octave perguntou à irmã se ela estava ficando louca.
Philippe permaneceu impassível e não expressou uma opinião, nem por meio
de palavras ou gestos. Claire não deu explicações e se agarrou com afinco a
sua decisão, apesar dos apelos dos seus. Se casar à meia-noite! Isto era muito
estranho, embora o costume ainda persistisse em algumas partes de Faubourg
Saint Germain. Em uma missa noturna, como se Claire se considerasse viúva
do duque! Mas ainda que a cerimônia fosse à meia-noite, era absurdo que não
convidassem ninguém. Poderia parecer que estavam tentando esconder algo;
como se Claire estivesse com vergonha do marido. Além do mais, isto
poderia dar azar. Esta última consideração foi levantada pela baronesa, que já
não sabia mais o que falar. Até que, finalmente, Philippe foi pressionado a
dar sua opinião, quando resolveu o impasse declarando que os desejos de
mademoiselle de Beaulieu pareciam normais para ele e que, de sua parte, não
via motivos para não serem concedidos.
Como a pessoa mais interessada não colocou nenhuma objeção, os
opositores foram derrotados. A baronesa, que estava muito irritada, pois tinha
mandado vir de Paris um vestido maravilhoso só para a ocasião, declarou
rindo que o casamento ia ser como uma daquelas cerimônias melodramáticas
encenadas no palco, quando o mocinho, condenado a morte obtém a
permissão do rei para se casar na prisão com a mulher que ela ama antes de
ser enviado para o cadafalso.
A assinatura do contrato de casamento aconteceu na véspera do grande
dia. Como Bachelin teve de escolher entre seus dois clientes, pois era ao
mesmo tempo tabelião dos Derblay e dos Beaulieu, ele passou a função para
um colega de profissão de Besançon para Philippe e representou
pessoalmente a nobre família, tradicionalmente representada por seus
antepassados há séculos. O velho tabelião leu as cláusulas do contrato com
extrema habilidade e mesmo que Claire tivesse prestado atenção ao
murmurinho de Bachelin, ela não teria se dado conta da sua verdadeira
situação. A moça ainda não sabia sobre sua ruína e quando Bachelin, que
estava muito mais agitado do que ela, lhe ofereceu a caneta, ela assinou sem
desconfiar do ato que lhe dava direito à metade da fortuna de M. Derblay.
Assim que o contrato foi devidamente assinado, Philippe se sentiu mais
aliviado, mas na hora reconheceu que não estaria realmente tranquilo
enquanto Claire não respondesse “Sim” em alto e bom tom para a pergunta
do juiz de paz:
“Você aceita monsieur Philippe Derblay como seu marido?”
CAPÍTULO X
Já era quase uma hora da manhã quando Suzanne, vestida de branco,
deixou a sacristia antes que a certidão de casamento fosse assinada e seguiu
direto para o quarto de núpcias, no château. Ajoelhada diante da lareira de
arenito da pequena antessala, a fiel Brigitte atiçava o fogo com um fole, cujas
chamas ardiam por trás da tela de latão de moldura torneada. Ao ouvir o
barulho na porta às suas costas, ela virou-se e ainda manipulado o fole, sorriu
para mademoiselle Derblay. –
– Como assim, já voltou da igreja, Suzanne? – ela indagou. – O
casamento já acabou?
– Está quase acabando, minha boa moça. Deixei todos com o nosso
querido padre, para dar uma última olhada por aqui. A casa tem uma nova
senhora, Brigitte e tudo deve estar arrumado para agradá-la.
– Oh, meu Deus! – exclamou Brigitte. – Como ela não será feliz aqui com
o nosso Philippe? Além do mais, se o pássaro é bonito, a gaiola também fica
linda.
Enquanto falava a criada olhava admirada para os magníficos móveis,
estilo Henrique III, que decoravam a saleta; seus olhos passearam pelas
imensas poltronas com espaldar em madeira torneada, das mesinhas baixas de
pernas arredondadas para as antigas tapeçarias de couro de córdoba, cujos
dourados escurecidos pelo tempo refletiam discretamente sob a luz fraca.
Uma porta entreaberta permitia um vislumbre do quarto, vagamente
iluminado por uma lâmpada, cuja luz incidia nas três portas espelhadas de um
robusto guarda-roupa, estilo Luís XVI.
– Está tudo em ordem lá dentro? – perguntou Suzanne, apontando para o
quarto.
– Tudo, eu garanto. Cuidei de tudo pessoalmente. O casamento parece ter
virado a cabeça de todas as criadas e elas não estão dando conta de nada.
Então, aproximando-se de Suzanne e lançando um olhar malicioso,
Brigitte adicionou: – Em pensar que daqui a um ou dois anos será a sua vez
de virar esta casa de pernas para o ar!
Suzanne ruborizou e virando o rosto sem jeito, respondeu:
– Nada foi dito sobre isso, felizmente.
– Felizmente! – exclamou a criada. – Melhor assim. Mas quem era o
rapaz bonitão que lhe ofereceu o braço quando vocês saíram e parecia tão
interessado em você?
– Aquele era monsieur Octave de Beaulieu – respondeu Suzanne,
enquanto andava pelo quarto, fingindo dar uma última verificada em tudo. –
Irmão de mademoiselle Claire.”
– Entendi! – disse Brigitte, rindo. – O padrinho parecia estar sentindo
cheiro de flor de laranjeira.
– Seja uma boa menina, você não sabe o que está dizendo – retomou
Suzanne, vermelha até a raiz dos cabelos.
O barulho das rodas de vários veículos estalando sobre o cascalho
encerrou a conversa de Brigitte. Suzanne correu até a janela. Na escuridão, as
lanternas das carruagens reluziram, iluminando as copas das árvores escuras.
– Eles chegaram – anunciou mademoiselle Derblay; e ao abrir a porta ela
adentrou na sala imensa no exato momento em que a baronesa, encapuzada e
agasalhada como se estivesse indo para o Polo Norte, entrou, seguida por
Octave e o barão e exclamou:
– Não se preocupe! Somos nós, apenas! Ah, tem fogo aqui, que
maravilha! Estou congelando! – e ao dizer isso, aproximou-se de uma
poltrona próxima da lareira, onde se instalou, ergueu um pouco a barra da
saia e pousou os pezinhos, calçados em sapatos de cetim preto, na beirada da
lareira. Em seguida, soltando um suspiro de satisfação, tirou a capa de lã dos
ombros e exclamou: – Ah, já estou me sentindo bem melhor!
Mais algumas carruagens pararam na frente da casa, trazendo os parentes
de mademoiselle de Beaulieu, as testemunhas de M. Derblay e alguns amigos
íntimos que não tiveram como não convidar. M. Moulinet, Athénaïs e o
duque estavam presentes no casamento; e a famosa carruagem de gala do
dono da fábrica de chocolate foi usada, com o criado vestido a caráter.
Infelizmente, a noite estava escura e o magnífico veículo não causou o
impacto desejado. Se fosse possível Moulinet teria pago cem francos só para
acender a lua. Mas o corpo celeste desprezava o dinheiro e não apareceu.
O ex-juiz do Tribunal do Comércio ficou desapontado. Afinal, tinha
vindo diretamente de Paris esperando testemunhar um grande casamento
aristocrático, mas a cerimônia imaginada estava mais para um casamento
burguês. Imaginou que fosse encontrar um grande número de famílias nobres
presentes, e, no entanto, quem estava na sala de estar agora? O tabelião, que
tinha intermediado a venda de La Varenne, os parentes e os padrinhos dos
noivos. Que ridículo!
É bem verdade que, num determinado momento, Moulinet se emocionou
e viu alguma pompa na cerimônia. Foi no caminho de Beaulieu para a igreja,
quando as carruagens passaram em desfiles pelos operários de M. Derblay,
que se dispuseram em silêncio para prestigiar a passagem dos nubentes. Eles
não foram convidados para o casamento, mas mesmo assim não deixaram de
tirar o chapéu para o querido patrão e sua futura esposa. Para tal, arrumaram-
se com suas roupas de domingo e se reuniram na frente do portão, para
esperarem o cortejo. Mesmo na noite sem luar, a multidão, composta por
milhares de pessoas – homens,mulheres e crianças – falando baixinho,
parecia imensa e a cada cabeça que se aproximava quando a carruagem
passava, Moulinet se sentia um pouco oprimido. Queria sorrir e acenar como
tinha visto vários militares fazendo em desfiles oficiais, mas ficou apreensivo
e nervoso, sentiu um nó na garganta e começou a rir sem saber por quê.
Chamado de volta para a realidade por Athénaïs, que o encarou com um
olhar severo, ele tratou de se recompor, erguendo a cabeça com ares de
superioridade e alisando a calça cinza perolada. Ele achou a igreja pequena e
suja e, ao se instalar com uma careta em um dos bancos de madeira da nave,
olhou ao redor com desdém. Não havia nem vinte velas no altar e o padre
usava a mesma batina que tinha usado oito dias antes para casar a filha de um
carpinteiro. Como antigo assinante do jornal Siècle, Moulinet trazia um
pouco do ceticismo volteriano em suas veias e achava engraçado caçoar de
tudo. Inclinando-se sobre o duque, tentou puxar conversa, mas Gaston ergueu
os olhos e o olhou tão atravessado que ele não ousou insistir. Voltou as
atenções então para a cerimônia, que prosseguia com a mesma simplicidade
de um casamento de gente humilde. O órgão, tocado por um músico
competente, acompanhava sozinho o padre; não havia coral, nem cantor e,
sob as abóbodas frias e nuas, o som grave do instrumento ressoava com
profunda melancolia.
O duque, cujas sobrancelhas estavam contraídas e o rosto pálido, parecia
perdido em contemplação. Na verdade, a música o estava afetando. Tomado
por uma súbita lembrança, ele se viu na igreja escura de Saint Germain-des-
Prés, no funeral de seu pai. O tom de lamento do órgão parecia o mesmo; a
escuridão mórbida, marcada pelas chamas tremulantes das velas. O mesmo
cheiro sufocante de parafina e incenso. Só que naquele dia, ele estava ao lado
da tia, chorando, junto de Claire e Octave; todos vestidos de preto como ele e
compartilhando da sua dor. Mas agora ele estava sozinho. Separado para
sempre destes mesmos entes queridos que o consolaram e cercaram de
carinho no momento mais difícil da sua vida. Para seu desespero, ele mesmo
tinha sido o causador do rompimento dos laços que os uniam. Claire, a sua
prima amada, agora estava se casando com outro homem e ele estava prestes
a se casar com uma estranha que estava usando-o, como ele bem sabia, como
cúmplice de um plano de vingança. Uma tristeza profunda o abateu e ele
lamentou amargamente sua fraqueza. Que belo modo de retribuir àqueles que
o acolheram e tanto carinho lhe deram no seu maior momento de dor. Mas
será que ele, na verdade, não estaria punindo a si mesmo? Pois, ao abandonar
Claire, não estaria ele abrindo mão da própria felicidade?
E com isso ele se viu comparando a sua conduta com a de Philippe e
acabou reconhecendo que tinha sido ingrato e egoísta enquanto o dono da
siderúrgica foi atencioso e desinteressado. Philippe estava se casando com a
mulher que ele amava sem dote. Era um industrial de sucesso. Já, o duque,
não passava de um inútil. Que diferença ele fazia para o mundo? Como um
zero, ele precisava se juntar a outro para valer alguma coisa. Para restituir a
sua fortuna perdida, precisou se unir à filha de um rico comerciante. Mas que
opção lhe restava? Nenhuma. Ele não passava de um artigo de luxo e tinha
sido comprado como se fosse um cavalo de raça.
Nenhum desses pensamentos tinha passado pela sua cabeça até então e as
ideias despertaram uma profunda aversão por Moulinet. Ele se viu como
escravo do dono da fábrica de chocolate e furioso com sua condição, decidiu
se rebelar contra o domínio do outro. Neste momento, enxergou a verdadeira
Athénaïs: uma jovem de classe média rasa e sem nobreza de caráter, invejosa
e má. Olhou para ela, ajoelhada no genuflexório, estranha e desconfortável no
seu vestido demasiadamente extravagante para uma moça solteira. Então,
seus olhos pousaram em Claire, de cabeça baixa, coberta com um véu branco,
compenetrada em suas preces. Mas pelo movimento trêmulo dos seus
ombros, o duque percebeu que ela estava chorando.
Philippe, por sua vez, estava ereto e imóvel ao lado dela, com uma
expressão grave no rosto. Será que ela amava mesmo aquele homem; o
homem que tinha escolhido para ocupar o lugar dele? Neste momento, Bligny
se deu conta do significado da atitude de Claire. Há duas semanas que tentava
entender a situação, mas agora tudo estava claro. Agora ele sabia qual era
verdadeira posição do dono da siderúrgica. Vendo Claire ali sofrendo, tão
bela, lhe ocorreu um pensamento que trouxe um sorriso aos seus lábios. O
Bligny sincero e terno de duas semanas atrás despareceu para sempre e, em
seu lugar, restou o sujeito cético e frio criado pela corrupção russa. Neste
momento, ele decidiu que iria se vingar deste tal de M. Derblay, que era o
maior culpado da sua humilhação. Seria possível que aquele ferreiro pudesse
mesmo se tornar o dono e senhor de uma mulher tão encantadora como
Claire? Não; ele, o duque, iria provar que não. “Ela está chorando”, disse
consigo mesmo. “Ela odeia aquele homem e ainda me ama”.
Com isso ele recuperou sua segurança. Até então, estava se sentindo
diminuído e envergonhado. Achando-se em solo firme novamente, retomou
sua pose orgulhosa e o ar de superioridade. A baronesa estava virando ao
final da cerimônia, quando ele a encarou com sarcasmo, ao que ela franziu a
testa, do mesmo modo que os cães de guarda fazem quando sentem
instintivamente as más intenções do ladrão.
Depois da cerimônia, os poucos convidados se reuniram na humilde
sacristia e a noiva, erguendo o véu, se submeteu ao olhar dos amigos e
parentes. Bligny procurou em vão por um resquício das lágrimas que supôs
que ela derramara em silêncio. Mas o calor do seu orgulho tinha secado as
lágrimas; e ela estava calma e sorridente e falava num tom de voz controlado.
O duque não gostou, pois preferia ter visto uma Claire transtornada. E
notando a mudança, preferiu pensar que a postura orgulhosa não passava de
autoproteção. Mas ele não iria deixar por menos. Assim, prometeu lutar. Só
que não tinha pressa de vencer.
Ao retomar seu lugar na carruagem de gala ao lado do seu futuro sogro e
Athénaïs, se viu obrigado a escutar todas as observações que Moulinet se
abstivera de fazer durante a cerimônia. Que casamento infeliz aquele,
realizado à meia-noite, em uma igreja sepulcral, com vento frio soprando
sobre os ombros como se fosse uma capa de chumbo. O ex-juiz do Tribunal
do Comércio não gostou nada da cerimônia. Dentro de três semanas ele iria
conduzir sua filha até o altar e aí sim as pessoas iriam ver o que era um
casamentão de verdade. A cerimônia iria acontecer na igreja da Madeleine; e
ele tinha encomendado a decoração mais cara disponível:
– Toda a nave estará iluminada, decorada com flores e folhagens e terá
um coral e vários solos…
– Soli – corrigiu o duque, que estava começando se irritar com toda
aquela ostentação.
– Solos, soli – retomou Moulinet, que ignorava a forma correta do plural
em italiano. De qualquer maneira, iria ter várias músicas, cantadas por
cantores da ópera e M. Faure, inclusive. Na verdade, tudo seria do bom e do
melhor. A cerimônia iria custar quinze mil francos; mas Moulinet não estava
preocupado. Afinal, não era todo dia que se casava uma filha e ele queria que
o casamento fosse lembrado e comentado por muito tempo.
–Quanto menos pessoas falarem, melhor, monsieur – interrompeu o
duque, num tom afiado como a lâmina de um punhal.
– Mas, meu genro – iniciou Moulinet, irritado.
– Desculpe-me, monsieur – interrompeu o duque novamente, – mas, para
começar, ainda não sou seu genro, ademais, o senhor me faria um grande
favor se parasse de usar esta expressão tão vulgar, digna de um balconista de
loja. Além disso, acabamos de chegar à casa de monsieur Derblay, e,
portanto, peço que fale o mínimo possível no que disser respeito a nós…
Depois de descer lentamente da carruagem, que tinha acabado de parar, o
jovem ofereceu galantemente a mão à mademoiselle Moulinet, para ajudá-la
a descer, enquanto o ex-juiz comercial, que perplexo e nervoso,perguntava a
si mesmo se o duque acaso pensava que ele era algum um tolo.
Na imensa sala do Château de Pont-Avesnes, a marquesa de Beaulieu se
encontrava sentada ao lado de Bachelin, que conversava com ela baixinho.
Na manhã daquele mesmo dia, ela tinha pedido ao tabelião para obter a
autorização de M. Derblay para colocar Claire a par da sua situação
financeira. Após a conclusão do casamento, a marquesa achava mais do que
justo que a jovem fosse informada sobre a sua ruína e o amor desinteressado
do seu marido. O dono da siderúrgica merecia tal recompensa. Mas Philippe,
querendo poupar a esposa de preocupações e tristeza, se recusou a consentir,
pois não queria que Claire se sentisse diminuída ao entrar em seu novo lar.
Por que perturbar sua mente sensível e delicada? Para satisfazer a autoestima
dele? Para arrancar de Claire algumas palavras confusas e talvez humilhantes
de agradecimento? Ele considerava indigno de sua parte apelar a este tipo de
recurso para conquistar a afeição de mademoiselle de Beaulieu. Desejava
mais do que sua gratidão. Aspirava ao amor dela.
– Muito bem, meu caro Bachelin, não direi nada, se é este o desejo de
monsieur Derblay – garantiu a marquesa. – Mas não pense que eu faria o
mesmo se estivesse no lugar dele. Confesso que estou surpresa. Ele é um
homem de visão e mente elevada. É um ser humano extraordinário.
– Foi o exatamente o que eu disse, madame la Marquise, quando falei
dele para a senhora pela primeira vez – respondeu Bachelin. – Ele é um
verdadeiro nobre.
– Sim, tivemos muita sorte – concordou a marquesa. – E estamos em
dívida para com o senhor pelo feliz desfecho. Vamos torcer para que a minha
filha saiba reconhecer as qualidades do marido. Ela parece muito pálida,
Bachelin.
O velho tabelião virou. O rosto de Claire estava lívido como a morte e
com a grinalda de flor de laranjeira nos cabelos, ela parecia Julieta quando
levantou do seu leito de mármore conforme tinha combinado com Romeu. O
duque tinha acabado de se aproximar dela e, com um sorriso triste, ele lhe
falou:
– Estamos indo embora, Claire, mas antes, gostaria de lhe confessar algo.
Meu coração está muito triste e abatido. Basta uma palavra sua para me
tranquilizar. Tenha piedade e diga que me perdoa.
Claire ergueu a cabeça orgulhosa, olhou para o duque triunfante e
respondeu com a voz firme: – Não há nada para ser perdoado. Amo meu
marido. Adeus.
Bligny foi apanhado de surpresa e respondeu a bravata com outra bravata:
– Espero que esteja sendo sincera – e então, num tom quase ameaçador,
adicionou: – Au revoir, Claire.
Com uma reverência, ele virou se foi.
– Já está indo, duque? – indagou o barão ao cruzar com ele.
– Sim – respondeu o duque friamente. – Não tenho mais nada a fazer
aqui. Agora é a vez do marido.
– Exatamente! – exclamou o barão. – Mas fala com amargor. Confesse,
agora que Claire se casou, se não está arrependido?
O duque lançou um olhar sarcástico na direção de Claire, que mal
conseguia se conter.
– Arrependido? – indagou ele. – O arrependimento acaso deveria ser
meu?
– É uma resposta um tanto pretensiosa e muito ridícula também –
retomou monsieur de Préfont. – Mas já que se considera um grande
conquistador, faça-me um favor e olhe para monsieur Derblay e me diga se
ele parece o tipo de homem capaz de permitir que lhe roubassem a esposa?
O duque deu uma olhada para Philippe, que estava ereto, em toda a sua
altura, num canto da sala. Seu rosto, bronzeado pela exposição ao sol, parecia
exalar energia. Enfrentar a ira de um homem como ele seguramente não
deveria ser algo fácil. Mas o duque não se mostrou impressionado; longe
disso:
– Os ferreiros sempre foram uns tipos azarados desde a era dos vulcões.
– É mesmo? – respondeu o barão muito sério. – Escute o meu conselho e
tome cuidado com o martelo de um ferreiro.
O duque encolheu os ombros em sinal desdém e saiu andando na direção
de monsieur Moulinet, que estava sozinho, parado ao lado da porta.
– Podemos ir quando quiser – disse Bligny ao futuro sogro.
– Oh, não sou eu quem vai impedi-lo – murmurou o ex-juiz do Tribunal
do Comércio. – Que bela recepção, meu caro duque! Não ofereceram nem
mesmo um copo d’água para nós! Isso é o que nós da classe média
chamamos de um casamento seco. Mas você vai ver como eu faço as
coisas… Vou oferecer dois jantares e um baile que será a maior sensação. E
garanto que nossos convidados não vão sair com fome da minha casa.
Moulinet poderia ter continuado falando sobre as coisas esplêndidas que
pretendia fazer sem medo de ser interrompido, pois o duque nem prestava
atenção. Estava era observando Athénaïs, que se despedia da noiva. Ela
segurava a mão de Claire e exibia uma demonstração de afeto falsa e
espalhafatosa.
– Passaremos o verão juntas – ela dizia. – La Varenne fica a uns quatro
quilômetros daqui, apenas. Mas vou sentir tantas saudades de você durante o
inverno! Paris não será a mesma sem você. Será mesmo que monsieur
Derblay vai mantê-la presa aqui em Pont-Avesnes, sem piedade? Claro que
sei que não vai sentir falta de nada, pois está apaixonada e é retribuída em seu
amor. Mas prometa que se lembrará de mim nos seus momentos de alegria e
nos de tristeza, se tiver algum. Você sabe que sempre estarei ao seu lado.
Claire permaneceu impassível enquanto escutava todas aquelas palavras
cruéis.
– Pode ter certeza – respondeu ela, – que aprecio a sua amizade por tudo
que ela representa. Mas a felicidade dispensa confidências. E serei feliz sem
contar para ninguém.
Athénaïs, com ódio no coração e desesperada para derrotar a intrépida
inimiga, não poupou esforços.
– Vamos, me dê um beijo, querida – disse.
– Com todo prazer – respondeu Claire sem hesitar e seus lábios macios e
quentes tocaram a testa de Athénaïs. Mas suas forças estavam se esvaindo e
puxando a baronesa pelo braço, ela a arrastou para fora da sala, dizendo: –
Preciso sair daqui. Estou sem ar.
A marquesa, preocupada com a filha, levantou e foi atrás. A aparência de
Claire era outra. Os olhos estavam fundos, os lábios contraídos e ela parecia
prestes a desmaiar. Mais uma vez, sua firmeza de espírito sobrepujou a
fraqueza da carne e olhando carinhosamente para a mãe, ela disse:
– Não é nada, é apenas um pouco de cansaço e emoção, mas já estou me
sentindo bem melhor.
Enquanto falava um rubor tomou conta de seu rosto e os olhos brilharam
febris. Até então ela tinha conseguido esconder de sua mãe todo o
sofrimento, mas agora, a marquesa desconfiava que a filha a enganara
durante todo esse tempo. Será que este casamento, com o qual ela
pessoalmente estava muito satisfeita, iria mesmo fazer sua filha tão feliz
quanto ela merecia? Será que mademoiselle de Beaulieu tinha aceitado a
união com leveza de espírito e paz no coração? Pela primeira vez em duas
semanas a marquesa ponderou os fatos e fez várias perguntas para si mesma
que não soube responder. Acostumada a ceder, suportando calada as
infidelidades do marido, cedendo ao despotismo disfarçado da filha, sempre
se submetendo a tudo, ela seguiu se abstendo de assumir suas
responsabilidades. Era uma daquelas mulheres sem vontade própria, que se
acomodam diante de todas as situações e não entendem como alguém pode
ter coragem de tentar mudar o destino. Assim, ela permitiu que Claire agisse
como bem entendesse com relação ao casamento. Apesar de tudo, neste
momento, ela se perguntou se tinha agido corretamente; e preocupada,
buscou nos olhos da filha por um sinal. Então, abraçando Claire:
– Você está ou não está feliz, minha filha? – perguntou com sinceridade.
– Meu dever maternal chegou ao fim. Você será dona da sua vida, agora.
Diga que fiz tudo que estava ao meu alcance para garantir sua felicidade.
Claire percebeu a angústia nos olhos da mãe e num último esforço para
enganá-la, beijou-a carinhosamente e falou:
– Sim, maman querida, você me fez feliz. Não se preocupe com isso.
E enquanto firmava a voz: – Não chore, vai me deixar triste e podem
pensar… – mas, ela não terminou o que estava dizendo e nervosa, abraçou a
mãe novamente. – Precisamos nos despedir,agora. Até amanhã, maman.
Madame de Beaulieu se sentiu mais segura com a aparente calma de
Claire e retornou para a sala mais leve. Neste instante, Suzanne entrou na
antessala do quarto da agora madame Derblay, seguida por Brigitte. A jovem,
duvidando da competência da criada fiel, neste momento tão importante,
resolveu acompanhá-la e ajudar no que fosse preciso. A doce Suzanne era tão
leve quanto um passarinho, ajeitando tudo, preocupada com cada detalhe e
verificando o trabalho da criada. Claire observava calada, irritada e com uma
pontinha de desconfiança nos olhos, pois imaginava que a cunhada estaria
sempre de olho e que seus olhos, guiados pelo amor ao irmão, não deixariam
passar nada. Ela a via como uma espiã, e, levada pelos sentimentos abalados,
começou a odiá-la pelo que ela representava.
A jovem enquanto isso tinha removido o véu e a grinalda de Claire e
dobrava delicadamente o tule, ajeitava as flores, visivelmente agitada por um
desejo secreto que ela hesitava expressar. Até que, finalmente, aproximando-
se de madame Derblay novamente:
– Dizem aqui na nossa região – disse ela, ruborizando, – que as flores da
grinalda de uma noiva que gostamos muito dão sorte. Eu já a amo como se
fôssemos irmãs. Será que me daria permissão de ficar com algumas flores?
Claire olhou friamente para Suzanne e com um movimento brusco,
arrancou a grinalda do véu e jogou no chão dizendo:
– Se essas flores darão sorte, então eu as dispenso. Pode ficar com todas.
Suzanne recuou assustada; deixou cair o buquê que segurava e olhou com
os olhos marejados para Claire.
– Você parece não se importar com as flores – disse ela. – E, no entanto,
elas lhe deram meu irmão.
Claire se sensibilizou com o lamento e, por um instante, pareceu prestes a
amolecer. Mas sua natureza orgulhosa ganhou força novamente e ela abaixou
a mão que estava prestes a estender para Suzanne.
– Deixe-a, minha querida – disse a baronesa para mademoiselle Derblay.
– Ela precisa de um pouco de descanso, só isso. Não fique triste e pode pegar
as suas flores. Elas servirão de modelo para você um dia desses…
E mostrando para Suzanne um rosto sorridente, ela a acompanhou – agora
um pouco mais calma – até a porta. Absorta em seu sofrimento, Claire
permanecia imóvel, calada e com um olhar perdido.
– O que está se passando dentro desta cabecinha? – perguntou a baronesa,
ao voltar. – Você magoou aquela pobre menina, sem motivos. Não está
conseguindo controlar seus nervos?
Então, num tom de brincadeira: – Francamente, você não estaria tão triste
nem se estivesse ouvindo a marcha fúnebre no quinto ato da ópera La Juive.
Ao que Claire respondeu com um olhar reprovador, que fez com que
retraísse a espontaneidade da prima. – Fale comigo. Conte tudo. O que está
acontecendo?
Claire se levantou, deu alguns passos ao acaso, parou então diante da
baronesa e juntou as mãos num gesto de angústia.
– Não percebe que estou sofrendo? – indagou, aflita. – Não entende que
tenho a sensação de que vou enlouquecer? Daqui a pouco você terá ido
embora; todos vocês… todos que me amam… e eu ficarei sozinha nesta casa
imensa e desconhecida. A quem vou me prender, a quem vou recorrer? Todos
os laços que me prendem ao passado foram rompidos; os que poderiam me
ligar ao futuro desapareceram.
– Você está ansiosa, só isso – disse a baronesa, num consolo. – Não pense
que deixamos de amá-la. Na verdade, um novo amor à espera: um amor
sincero e gentil. Seu marido já vai chegar; ele a ama; pode acreditar.
A baronesa percebeu que ao ouvir as palavras seu marido Claire
estremeceu.
– Se soubesse tudo que está se passando comigo! – murmurou madame
Derblay, desesperada. – Sem dúvida concordei com este casamento; meu
orgulho me obrigou; mas agora que se concretizou estou muito assustada.
Não me deixe ainda, fique mais. Oh, aquele homem! Aquele homem que me
fez sentir medo pela primeira vez na minha vida. Ah, como eu o odeio!
– Céus! Você está me assustando! – exclamou a baronesa, de fato
alarmada. – Talvez a sua mãe ainda não tenha ido embora. Devo chamá-la?
– Não, não – respondeu Claire mais que de pressa. – Preciso esconder a
verdade dela mais do que de qualquer outra pessoa. Não percebeu como
tentei me conter na presença dela? Ela nunca deverá saber nada sobre o meu
sofrimento; nunca deverá desconfiar do meu desespero. Pobre maman! Foi
por me amar que ela me encorajou a realizar este casamento. Ah, se ela
soubesse! Não. Basta eu sofrer. Eu fui a culpada e somente eu deverei
carregar o fardo. A minha fraqueza é injustificável; eu mereço. Fique
tranquila, prometo que não perderei o controle.
A baronesa olhou para Claire, alarmada pelo tom amargo e a violência
das suas palavras; mas a expressão da jovem era indecifrável.
– Vá e junte-se ao seu marido – adicionou ela. – Não se preocupe, nem
pense mais nisso. Dá-me um beijo e prometa que vai se esquecer de tudo que
aconteceu aqui assim que sair deste quarto. Você promete?
– Sim, querida, eu prometo – respondeu a baronesa. – Até amanhã.
E soltando um longo suspiro depois de dar uma última olhada para a
prima, madame de Préfont se retirou, murmurando: – Pobre Claire!
CAPÍTULO XI
Claire se viu sozinha no quarto espaçoso e seus olhos vagaram distraídos
ao redor. A aparência da suíte era solene e grave. As lâmpadas incidiam uma
luz suave sobre as tapeçarias antigas penduradas nas paredes, que retratavam
as aventuras de Reinaldo e Armida. Sob uma tenda dourada e púrpura, o
cavalheiro estava deitado aos pés da feiticeira e sorria enquanto erguia
lânguido uma taça confeccionada em um metal precioso. Ao longe vinham
dois cavalheiros libertadores cavalgando pela floresta encantada, que se
protegiam com um escudo mágico, dos monstros que tentavam detê-los. Por
último, a batalha travada pelos cristãos contra as tropas sudanesas aos pés das
muralhas de Jerusalém e ali Armida aparecia, em pé em sua biga, puxada por
unicórnios brancos, apontando um arco e flecha para Reinaldo, inteiro
manchado com o sangue dos infiéis. Um magnífico armário renascentista em
ébano, trabalhado com pedacinhos de mármore policromático, ficava ao
fundo, de frente para uma belíssima cama colunada de peroba, coberta com
um dossel de veludo genovês, com ramalhetes de flores de tecido aplicados
sobre um fundo amarelo. Um admirável baú, estilo Luís XIII, todo em ébano
e com ferragens de latão, era usado para guardar cobertas. Um espelho
soberbo, com moldura de bronze com folhas em relevo, refletia suavemente a
luz do fogo que agora ardia tranquilo em uma lareira de arenito, cuja chaminé
era adornada com um notável retábulo espanhol, retratando uma bela infanta,
ereta em seu traje rígido, com o queixo apoiado em uma gola de renda e
cheirando uma rosa com um sorriso triste no rostinho. Arandelas de latão
presas às paredes e um candelabro flamengo pendurado no teto com forro de
madeira, completavam a decoração do quarto, tão rica e ao mesmo tempo,
simples.
Mas Claire estava pouco se importando com o entorno. Estava longe, tão
absorta pelo desejo de vingar-se de Athénaïs que se esquecera de pensar no
agora. Não quis nem imaginar no que iria acontecer depois que a união se
concretizasse. Tinha apressado o casamento para que todos pensassem que
ela tinha trocado o duque por outro e não o contrário. Mas agora, de repente,
estava cara a cara com a dura realidade. As obrigações carnais do casamento
se materializaram diante da visão do quarto que ela teria de compartilhar com
o marido, da cama imensa que iria dividir com aquele homem, que era
praticamente um estranho.
Sua delicadeza feminina se revoltou com a ideia. Sentiu horror em se
imaginar com Philippe. Devia estar louca quando resolveu se casar e ele
quando se prestou ao papel sem pestanejar. Os pensamentos dela giravam
confusos. Ela se aproximou da janela, abriu-a, respirou o ar puro da noite e
isto fez com que acalmasse um pouco. A lua tinha saído de trás das nuvens e
brilhava sobre as copas das árvores do jardim, refletindo pálida na superfície
do lago. Tudo parecia muito silencioso e solene e Clairerepresentante
e defensora dos interesses de Claire e de Octave. Mergulhada numa pilha de
papéis, constantemente em correspondência com seus advogados, ela
realmente se tornara perita no assunto e tinha toda a confiança no resultado
da ação. A opinião dos familiares fortalecia sua segurança e era considerado
por todos que Claire levaria um dote de alguns milhões de francos (80 mil
libras esterlinas) para o mancebo que tivesse a sorte de cair em suas graças.
Sua mão já fora pedida em casamento por pretendentes ricos e nobres, mas
ela recusara todos eles e quando a marquesa a questionara a respeito disso,
ela respondera, sem hesitar, que estava comprometida com o duque de
Bligny.
Madame de Beaulieu não ficou nem um pouco feliz com essa notícia. Ela
não só tinha arraigadas convicções preconcebidas a respeito de casamentos
entre primos, assim como o juízo que fazia de Gaston não era dos melhores.
Ela o julgava estouvado, impulsivo e inconstante, perfeitamente capaz de
amar com ardor, porém, incapaz de ser fiel. Ainda assim, ela não tentou
influenciar a filha. Conhecia bem a personalidade admiravelmente forte de
Claire e sabia que nada a induziria a desistir de um noivado contraído por
livre e espontânea vontade. Além disso, no fundo do coração, não deixava de
ser atraente a ideia de uma aliança que restauraria à sua família o tradicional
sobrenome Bligny, do qual ela própria abrira mão ao casar-se. Assim, ela
acolheu com benevolência o sobrinho e, como não podia tratá-lo melhor do
que havia feito até então, continuou a considerá-lo como seu filho.
Precisamente neste período, o duque foi nomeado secretário da
embaixada francesa em São Petersburgo e chegou-se ao acordo, de ambas as
partes, que o casamento deveria acontecer tão logo o diplomata obtivesse sua
primeira licença de afastamento. Esta licença foi concedida seis meses
depois. Gaston foi para Paris, mas só por uma semana. Estava incumbido de
uma missão confidencial, cujos riscos o embaixador preferira minimizar por
meio da troca de despachos codificados.
Uma semana! Como preparar um casamento em tão pouco tempo? Não
havia tempo nem para publicar os proclamas! Durante sua breve estada, o
jovem duque mostrou-se afeiçoado a Claire, mas sua atitude continha uma
sombra de leviandade que contrastava com a adoração e devoção de outrora.
Desde sua partida, ele se imiscuíra na sociedade russa, a mais corrupta que
existe no mundo e retornara a Paris com ideias bastante singulares a respeito
do amor. A expressão de seu rosto havia mudado, assim como os sentimentos
de seu coração. As feições estavam mais duras e marcadas; era como se
houvesse agora um traço de devassidão naquele semblante antes tão puro e
descontraído. Claire, no entanto, não via a mudança, ou não queria ver. Sua
ternura não era suscetível a abalos, e, além disso, ela confiava em seu nobre
namorado e, por conta disso, superou tudo. Mas se a princípio as cartas de
Gaston eram frequentes, elas pouco a pouco foram se tornando mais escassas
e espaçadas, embora repletas de declarações apaixonadas. Da parte dele, o
adiamento de sua felicidade o fazia sofrer cruelmente. Mas ele não falava
mais em voltar e dois anos haviam se passado desde sua partida.
A pedido da filha, madame de Beaulieu fechou as portas da sua sala
durante os dois invernos seguintes. Claire queria viver reclusa, para
desencorajar a aproximação de pretendentes indesejados. Enquanto isso,
Octave continuava estudando jurisprudência e a marquesa envolvia-se cada
vez mais com os documentos da interminável ação judicial.
Quando a primavera voltou, Claire, caprichosa como sempre, exprimiu o
desejo de visitar a propriedade em Beaulieu, que ela não conhecia, já que o
pai a havia interditado antes de se casar. A marquesa, que era incapaz de
negar algo à filha e que, além disso, acreditava que uma mudança faria bem a
ela, consentiu em fazer a viagem. E foi assim que, num belo dia de outubro, o
jovem marquês, que acabara de receber seu diploma, foi encontrado, com o
rifle na mão e acompanhado de seu spaniel marrom, nas terras de propriedade
de monsieur Derblay, o dono da siderúrgica.
CAPÍTULO II
Enquanto o jovem marquês se arrastava de volta, carregado, rumo ao
château, madame de Beaulieu e Claire encontravam-se na sala de estar
desfrutando o entardecer deste dia agradável. As amplas portas de vidro
estavam abertas e os raios de sol penetravam na saleta, refletindo no dourado
desbotado das molduras dos retratos dos ancestrais da família, sorrindo ou
solenes em seus trajes cerimoniais. Os móveis de madeira entalhada, no estilo
Luís XVI, pintados de branco e com detalhes em verde-água, eram estofados
com tapeçaria representando a Metamorfose de Ovídeo. Acima da poltrona
baixa e acolhedora, onde a marquesa estava sentada, tricotando, entretida,
toquinhas de lã para as crianças da vila, havia uma tela imensa segura por
uma faixa de veludo genovês.
Madame de Beaulieu já tinha passado dos quarenta anos de idade; o
cabelo que emoldurava seu rosto delicadamente grave estava praticamente
todo grisalho e lhe dava uma aparência nobre. Seus melancólicos olhos
castanhos ainda pareciam marejados com as lágrimas derramadas em
segredo. Da figura esbelta e da saúde delicada, ela tomava todos os tipos de
cuidados. Até mesmo nesta tarde quente havia um xale aberto sobre seus
joelhos e, protegendo os pezinhos da friagem, eles estavam encerrados com
persistente coquetaria em sapatos de cetim preto baixos.
Instalada em uma poltrona grande, com a cabeça recostada contra a
tapeçaria do forro e as mãos penduradas inertes, Claire, cujo olhar vagava
perdido no céu, contemplava sem ver o admirável horizonte que se estendia
adiante. Fazia uma hora que estava assim, imóvel e calada, envolta pela luz
do sol, que refletia sobre seu belo rosto, conferindo a este o brilho semelhante
ao de uma aréola ao redor da cabeça da Virgem.
A marquesa, ansiosa, observava a filha há alguns minutos. Um sorriso
triste tinha se instalado em seus lábios e, para chamar a atenção de Claire, ela
remexeu na cesta que continha seus novelos de lã com um significante
“Hum! Hum!”, acompanhando o movimento. Mas a jovem, insensível ao
apelo indireto, permaneceu imóvel e seguiu atenta a sua linha de pensamento.
A marquesa desapontada colocou então o trabalho sobre a mesa, e,
levantando-se da poltrona, exclamou num tom levemente repreensivo.
– Claire! Claire!
Por um momento mademoiselle Beaulieu fechou os olhos como se para
impedir que seu sonho lhe escapasse e, então, sem mover a cabeça, mas
apenas apoiando as belas mãos brancas nos braços da poltrona, ela
respondeu:
– Mãe.
– O que está pensando?
Claire permaneceu em silêncio por um momento e uma ruguinha marcou
sua testa. Mas finalmente, como que num grande esforço, ela respondeu com
a maior calma:
– Eu não estava pensando em nada. O ar quente me deixou sonolenta. Por
que me chamou?
– Para conversar comigo – disse a marquesa, com uma pontinha de
reprovação carinhosa na voz. – Para evitar que continuasse tão calada e
absorta.
Em seguida veio outra breve pausa e Claire retomou a pose apática,
enquanto a marquesa, inclinando-se para frente e, sem se preocupar com o ar
fresco, jogou de lado o xale. Finalmente, virando lentamente na direção da
mãe, mademoiselle Beaulieu exibiu seu belo semblante tristonho e,
retomando em voz alta a linha de pensamento que vinha seguindo em
silêncio, perguntou:
– Quanto tempo faz que recebemos uma carta de São Petersburgo?
A marquesa meneou a cabeça, como se dissesse: – Eu sabia que era isso –
e então, tentando falar o mais calmamente possível, respondeu:
– Creio que uns dois meses.
– Sim, dois meses! – repetiu Claire, com um suspiro sôfrego.
A esta altura a paciência da marquesa já tinha se esgotado, e, levantando-
se abruptamente, ela aproximou-se e sentou perto da janela, de frente para a
filha.
– Diga – disse, tomando as mãos de Claire –, diga por que não para de
pensar nisso e de torturar a sua mente?
– No que mais posso pensar – respondeu Claire com amargura –, senão
no meu noivo?se perguntou se não
seria melhor desaparecer para sempre em meio a esta paz profunda, a ter de
enfrentar o que a esperava. Pensou então, por um momento, em mergulhar
naquelas águas calmas e se entregar a elas, assim como Ofélia, a noiva de
Hamlet, confiou sua virgindade imaculada a seu único amor.
Mas a preocupação com o que os outros poderiam pensar, a preocupação
com o que poderiam dizer, que tinha sido tão decisiva em todas as suas
escolhas, afastou a ideia. Claire deixou escapar um sorriso amargo ao pensar
que Athénaïs poderia dizer que ela tinha se matado por amor ao duque.
Recuou ao imaginar a comoção que esta morte romântica poderia causar
entre todos que a cercavam. Não queria magoar seus parentes e deixar de
herança a vergonha quase degradante do suicídio. Por fim, deu uma última
olhada nas águas serenas e cintilantes e depois de fechar a janela, sentou-se
perto da lareira. Estava decidido; ela não era mais dona si mesma. De agora
em diante seria obrigada a conviver com um homem, que munido dos seus
direitos, poderia se impor sobre sua vontade – e, ela teria de se submeter
invariavelmente. A ideia lhe causou uma mistura de medo e raiva. Seu
orgulho protestou contra a sujeição e louca para se rebelar, ela se perguntou
como poderia convencer o marido a lhe dar de volta a sua liberdade.
Pensou numa forma de casamento em que o marido e a mulher
continuariam livres. Estava pouco se importando se Philippe lhe fosse fiel ou
não, contanto que fosse respeitoso e cordado. Ele poderia fazer o que bem
entendesse com a condição de que ela pudesse ser dona do próprio nariz. Será
que seria muito difícil convencer este homem, sem dúvida ambicioso, a ceder
um pouco a vontade da mulher que estava colocando à disposição dele uma
boa fortuna, o nome e a influência da sua família? O problema era que ela
sabia que ele a amava; mas isto não poderia ser levado em consideração,
agora. Com o despotismo de mulher acostumada a ter todos seus caprichos
satisfeitos, ela deixou de lado o embaraçoso detalhe do amor e decidiu que
iria até o fim com a decisão, caso Philippe tentasse se impor. Ela era
orgulhosa e cheia de energia, capaz de lutar e brigar, se preciso fosse e tinha
certeza de que seria capaz de vencer todo tipo de resistência, por pior que se
apresentasse. No seu egoísmo implacável, nunca pensou que estava prestes a
ferir gravemente o coração do homem que a amava.
O barulho de passos na antessala a despertou de repente. O sangue subiu
para o rosto e muito nervosa para continuar sentada, ela se levantou e,
apoiando-se na cornija da lareira, murmurou:
– É ele!
Philippe ficou sozinho depois para fazer as honras da casa aos seus
amigos e parentes e se despedir de todos. Somente depois que o último
convidado se foi, ele seguiu meio que automaticamente para seu quarto de
solteiro. A suíte que iria ocupar com sua esposa pertencera aos seus pais. E
com um tremor, lembrou-se de que ali perto, separados apenas por algumas
paredes, a sua amada o esperava, na camisola branca de núpcias,
provavelmente muito mais ansiosa do que ele. Não foram poucas as vezes
que vislumbrou com um estremecimento de prazer o momento em que aquela
bela donzela seria sua, mas neste momento os instintos carnais pareciam mais
calmos. Ele estava sereno, um pouco preocupado e muito emocionado. Seu
amor por Claire tinha um lado de ternura protetora. Ele sentia por ela quase o
mesmo carinho que sentira pela sua irmã quando esta não passava de uma
menina. Do fundo do seu coração agradecia à Providência Divida por ter lhe
dado o tesouro que tanto sonhara; e ele prometera que iria se mostrar digno
da graça concedida e fazer tudo que estivesse ao seu alcance para fazer Claire
feliz.
Meia hora depois da partida do último convidado ele ainda se encontrava
no seu quarto de solteiro, sentado e meditativo. Quando se deu conta de que o
tempo tinha voado, ele sorriu e se sentiu um tolo. Então, ficou de pé e correu
para seu quarto de vestir. Ao ver sua imagem refletida no grande espelho do
armário, ainda nos trajes do casamento, pensou que nada seria mais ridículo
do que aparecer diante da sua esposa de paletó e gravata branca. Assim,
vestiu um terno matutino azul-escuro e, com o coração batendo acelerado,
tomado por uma emoção inexplicável, foi ao encontro de Claire. Após cruzar
a pequena antessala, ele bateu de leve na porta, mas não obteve resposta.
Achando, assim, que tinha anunciado a sua chegada, virou a maçaneta e
entrou.
Claire, ainda de noiva, se encontrava em pé, silenciosa e grave, ao lado da
lareira, com um braço apoiado sobre a cornija. Ela nem olhou para ele,
apenas abaixou a cabeça e Philippe pode ver seus cabelos loiros refletindo
sob a luz. Ele avançou alguns passos e com grande esforço perguntou:
– Posso me aproximar?
Claire assentiu com um gesto e, aproveitando a autorização, Philippe
chegou perto da poltrona e se sentou, ou melhor, dizendo, praticamente se
colocou aos pés da esposa, tão inclinado ficou. Olhou atentamente para ela,
então e a fisionomia contraída e os traços duros o assustaram. Ele já tinha
percebido aquele brilho selvagem e ameaçador de seus olhos; notou isto
várias vezes quando ela estava na presença do duque de Bligny. Ver aquele
olhar, naquele momento, causou-lhe ansiedade; parecia sinal de que ela
estava se preparando para uma luta. Era difícil imaginar o que se passava na
cabeça dela, mas mesmo assim era possível perceber instintivamente uma
forma de resistência. Mas ele estava determinado a penetrar naquele coração
que insistia em permanecer fechado, estava determinado a desvendar este
mistério e assim se acalmou e se encheu de coragem.
Claire percebeu a firmeza de Philippe e isto abalou sua determinação.
Seria mais fácil enfrentar um marido nervoso e inseguro, mas ao vê-lo
preparado, fê-la perceber que este homem estava pronto para enfrentar o que
quer que fosse.
– Estamos a sós pela primeira vez – disse Philippe num tom de voz quase
sussurrado, – e gostaria imensamente de abrir meu coração para você. Até
agora não ousei falar, por receio de não conseguir expressar corretamente
meus sentimentos. Por muito tempo só me dediquei ao trabalho, por isso peço
que tenha paciência. Acredite, as minhas palavras não fazem jus ao que sinto.
Não foram poucas as vezes que deve ter percebido que eu me atrapalho com
as palavras quando chego perto de você, e, por isso, acabo me calando.
Sempre tive receio de parecer muito ousado ou muito tímido. Este medo me
paralisava. E, assim, eu me contentava em ouvi-la; e a sua voz parecia música
aos meus ouvidos. Eu me esquecia de tudo enquanto a observava andando
pelo terraço à luz do sol. Na minha mente era só você e acabei me
apaixonando perdidamente. Você se tornou meu único pensamento, a minha
esperança, a minha vida… E agora, veja só a minha alegria ao vê-la aqui,
perto de mim, toda minha!
Enquanto falava, Philippe tomou a mão de Claire e a encostou contra a
sua testa ardente. Mas ela recuou e tirou a mão.
– Eu imploro, monsieur… – disse ela, como se estivesse exausta.
Philippe ergueu a cabeça e, olhando surpreso, perguntou:
– O que foi? Estou sendo desagradável, estou aborrecendo-a?
– Peço que não diga mais nada agora – respondeu Claire, gentilmente. –
Como pode perceber, estou muito nervosa.
O tom de súplica o comoveu e com um menear de cabeça:
– Você está pálida e tremendo. Serei eu o causador?
Claire virou o rosto para esconder as lágrimas que desciam e, então, com
a voz trêmula e sussurrada, respondeu:
– Sim.
– Acalme-se, eu lhe peço – retomou Philippe. – Não percebe que tudo que
quero é agradá-la? O que quer que eu faça? Diga. Estou pronto para fazer o
que quer que me peça, pois eu a amo.
Claire sentiu um tremor de júbilo. Um raio de esperança brilhou na
escuridão. Ao notar o amor sincero de Philippe, ela percebeu o poder que
poderia exercer sobre ele e sem dó e nem piedade, resolveu tirar proveito da
sua posição. Assumiu uma pose coquete e, pela primeira vez, olhou para o
dono da siderúrgica com um sorriso nos lábios.
– Se me amas – disse, – então…
Terminoua frase com um gesto que Philippe compreendeu muito bem.
– Quer que eu saia? – ele indagou, obediente. – É isto que me pede? Eu o
farei se este for seu desejo.
Claire soltou um suspiro, aliviada. Percebeu que era senhora absoluta
daquele homem que tanto a amedrontava. A expressão em seu rosto mudou
na hora e ela olhou para Philippe com as sobrancelhas levemente cerradas.
– Sim – disse ela. – Eu ficaria grata. Toda a emoção do dia me deixou
cansada. Preciso me acalmar; preciso pensar. Mais tarde, amanhã, quando
estiver mais controlada, explicaria tudo a você…
Por um momento, ele não disse nada, pois havia algo de falsidade nas
palavras de Claire. O pedido para o adiamento da noite de núpcias, dito com
certa hesitação, não pareceu sincero. Havia ali um mistério a ser desvendado.
– O que tem para me dizer amanhã que não pode dizer agora? – retomou
ele.
– Acaso nossas vidas não estão ligadas? Nosso caminho já está traçado.
Seu papel é confiar e ser sincera e o meu é ser compreensivo e paciente.
Garanto que estou preparado para assumir o meu papel. E você, também está
disposta a assumir o seu?
Os modos de Philippe foram claros e firmes e o tempo todo, enquanto
falava, ele olhava diretamente no rosto dela. A atitude fez com que Claire
receasse de ter dado um passo errado e assim ela recuou.
– Permita que eu lhe diga que leva algum tempo para conquistar a
confiança – ela afirmou. – Estou casada há poucas horas. Tive uma vida antes
disso. Uma vida onde eu era feliz. Tinha o direito de pensar em voz alta. Era
livre para ficar calada. Nunca precisei mentir ou fingir nada. Desgostos…
tive alguns, como bem sabe… foi fácil perceber e aqueles que viviam ao meu
redor compreenderam que a lembrança destas tristezas demora a se apagar de
vez. Mas se terei de fingir na sua frente, peço que me dê um tempo para me
acostumar com isso.
Claire inverteu a situação com habilidade e se colocou na posição de
vítima. A insistência de Philippe teria sido cruel; e ele percebeu isso.
– Não diga mais nada – disse ele, rendendo-se ao sacrifício. – Você
entendeu errado. Nunca terá um amigo mais carinhoso e devotado do que eu.
Quando nos casamos, tomei para mim as suas dores e minha ambição é
apagá-las da sua memória. Confie em mim; de hoje em diante sou o
responsável pela sua felicidade. Se teve decepções no passado, tenha certeza
de que o futuro será imensamente melhor. Longe de mim querer impor meu
amor. Tudo que peço é que me deixe tentar conquistá-lo. Esta é a minha
maior ambição. Se precisa de descanso e solidão, então que tenha. Vou me
retirar. Se este é o seu desejo, então o farei de bom grado.
As palavras soaram tão irritantes que deixaram Claire ainda mais
apreensiva. O dono da siderúrgica se mostrava um ser tão magnânimo que ela
teve a sensação de que jamais iria conseguir conquistar a sua liberdade tão
sonhada. Philippe se mostrou tão ávido em satisfazer seus desejos que seria
praticamente impossível mantê-lo afastado por muito mais tempo. Ele a
adorava e para piorar tinha acabado de confessar que sua maior ambição era
conquistar o seu amor. Como ela poderia rejeitar um homem tão leal e
generoso, sem parecer injusta e cruel? Toda aquela gentileza só iria atrapalhar
seus planos. O risco seria grande, melhor romper de uma vez por todas os
laços que a uniam a Philippe.
Emudecida e paralisada ela viu Philippe se aproximando, inclinando para
frente e tocando delicadamente com os lábios a sua testa.
– Até amanhã – disse ele, mas enquanto inalava o perfume dos cabelos
dourados, sua boca resvalou a testa contraída dela e ele foi tomado por uma
paixão selvagem e avassaladora. Esquecendo-se de suas promessas, alheio
aos sentimentos vulneráveis do coração perturbado que batia disparado
próximo ao seu, ciente apenas que estava ao lado daquela mulher adorável,
que ele tanto amava e que agora era sua, ele a tomou em seus braços num
rompante irresistível e, com olhos ardentes, exclamou:
– Ah, se soubesses o quanto eu a amo!
A surpresa de Claire se reverteu em fúria. Ela recuou e pousando as mãos
sobre os ombros do marido, tentou fugir do contato que lhe era tão detestável.
– Solte-me! – ordenou, furiosa.
Philippe soltou e recuou; e assim que ganhou um pouco de distância,
ficou olhando abismado para a mulher transtornada que estava à sua frente.
– Não vai permitir nem mesmo que eu lhe dê um beijo na testa? Rejeita-
me com violência, quase horror. O que se passa na sua cabeça? Isto não é
mera timidez de donzela. É repugnância. Acaso me odeia, é isso? Mas, por
quê? O que foi que eu fiz? Analisando melhor tudo que acabou de me dizer;
acho que agora estou entendendo. Desde a decepção que teve, algo mais do
que amargura restou no seu coração. Arrependimento, talvez…
– Monsieur! – Claire protestou com a voz abafada.
Mas Philippe estava agitado. Nervoso e vermelho, ele saiu andando
impaciente de um lado para o outro.
– Madame – ele retomou – isto não é hora para protestos vagos. A sua
atitude me leva a crer que esta é me expulsando. E uma mulher não expulsa
seu marido sem um motivo. Para me tratar do modo como está me tratando,
você só pode…
Mas ele parou. A voz ficou presa na garganta. Ele estava lívido e as mãos
tremiam agitadas. Mesmo assim ainda encontrou forças para respirar fundo e,
parando diante da esposa, a encarou no fundo dos olhos.
– Aquele homem que a abandonou tão covardemente… você ainda o
ama?
Claire viu nisso a oportunidade que tanto esperava para esclarecer as
coisas de vez por todas. Mas o medo a impediu de ir em frente. A força e a
lucidez de Philippe a assustavam. Ela não sabia que passo tomar; o coração
martelava dentro do seu peito e seu futuro estava por um fio.
Transtornado, Philippe a segurou pelos ombros.
– Você me ouviu? Responda de uma vez por todas. Quero saber.
A força imposta pelas mãos de Philippe teve o mesmo efeito de um
gatilho sendo pressionado. E o tiro foi disparado. A resposta escapou dos
lábios de Claire como um projetil. E assim, a jovem altiva, ferida e
ressentida, encarou o marido com audácia.
– E se for o caso?
Mas junto da resposta veio o arrependimento. O grande industrial se
empertigou em toda a sua altura. Seu rosto assumiu uma fisionomia
assustadora e ele ergueu o punho cerrado como se estivesse segurando um
dos pesados martelos que seus funcionários usavam para bater no metal
rústico.
– Sua infeliz! – ele exclamou.
Claire não recuou um passo sequer. Abaixou a cabeça e deixou os braços
caírem soltos nas laterais do corpo, como se fosse um mártir pronto para a
morte. Philippe notou a atitude, respirou fundo e andou de um lado para o
outro, segurando firme a mão direita com a esquerda, como se quisesse
esmagá-la por ter ameaçado a mulher que ele tanto amava. Então, um pouco
mais recomposto, retomou.
– Pense no que disse. O que acabou de me falar não pode ser verdade.
Não é possível. Estou sonhando ou você está me testando? Não tenha medo
de admitir, eu a perdoo de antemão, embora tenha me magoado. Um dia você
verá que não se deve abusar de um coração como o meu. É cruel, eu lhe
asseguro…
Ele tentou sorrir, mas seus lábios resistiram. As sobrancelhas de Claire
continuavam cerradas. Ela parecia insensível, dotada da força inerte de um
bloco de pedra.
– Vamos, fale – insistiu Philippe num tom ameaçador. – Diga alguma
coisa. Ficou muda? É verdade então?
Ela não disse uma palavra sequer, abandonou-se ao destino que ela
mesma tinha traçado; sem pensar que o que estava fazendo era um verdadeiro
crime. E determinada, no seu orgulho indomável, se preparou para ir até o
fim.
Philippe, atordoado, se aproximou da janela e encostou a testa ardente ao
vidro frio para tentar recuperar o controle. Sabia que não seria fácil ouvir a
resposta que ela estava prestes a lhe dar, mas queria ver até onde aquela
mulher seria capaz de ir.
– E foi com o coração pulsando por outro homem que concordou em se
casar comigo? Apesar da conduta indecorosa dele, apesar da afronta que ele
lhe fez, você ainda o ama! E ousa me dizer isso! No altar prometeu
fidelidade, me amar e respeitar.É assim que honra a sua promessa? Sem um
rubor sequer, você pousou a mão sobre a minha e jurou diante de todos. A
que ponto você foi capaz de descer?
– Não vou me defender, monsieur – disse Claire. – Tem todo direito de
me fazer sofrer.
– Ah, está sofrendo! – exclamou Philippe. – E eu acaso não estou
sofrendo também? Eu, que a amo com todas as minhas forças e do fundo da
alma… eu, que estava disposto a fazer qualquer coisa pela sua felicidade e
que só pedi por um pouco de atenção e carinho em troca. Mas você me
sacrificou, conquistando a minha confiança, rindo da minha cegueira, talvez,
para satisfazer seu orgulho ferido e esconder a sua vergonha! Tem
consciência de que o que fez foi uma atrocidade?
– Ah e vai me dizer que nem percebeu meu estado de nervos, nos últimos
dias? – interpelou Claire, farta de se conter. – Não entende que fiquei girando
sem conseguir encontrar uma saída? Fui levada a fazer o que fiz pela força do
destino. Posso parecer aos seus olhos uma mulher infeliz, mas garanto que
nunca irá julgar o que fiz com o mesmo rigor com que eu tenho me julgado.
Sem dúvida mereço toda a sua raiva e desprezo. Meu dote é seu. Dou a você
tudo que tenho. Que este seja o preço pela minha liberdade!
– Seu dote! É isto que me oferece? Para mim! – exclamou Philippe.
Indignado, ele quase revelou toda a verdade; quase a colocou a par da ruína
que ele até, então, tinha ocultado com tanto cuidado e escrúpulo. A revelação
sem dúvida iria derrubar a altiva Claire. Que bela vingança! Seria um golpe
certeiro e rápido! Mas ele abandonou a ideia. Não achou digno de sua parte; e
se acalmou, ao perceber com satisfação o quanto era superior a sua esposa.
– Você realmente imagina que sou do tipo que se vende? – ele perguntou,
friamente. – Pensa que só me casei por dinheiro e ambição? Pois, está
enganada, madame, se pensa que ainda está lidando com o duque de Bligny.
A verdade atingiu Claire com um golpe duro e ela recuou como se a
afronta contra o duque tivesse sido um insulto pessoal.
– Monsieur! – ela exclamou, encarando Philippe. E, então, em vez de
continuar, se calou, como se estivesse com vergonha da própria conduta.
– Por que parou? – perguntou ele, com amargura. – Vamos, defenda-o. É
o mínimo que pode fazer por ele. Só você é capaz de apreciá-lo pelos seus
méritos. Afinal, a sua conduta é igualzinha à dele. Calculista e dissimulada,
este é o seu lema, não é? Estou enxergando tudo com muita clareza agora.
Você queria um marido que fosse subordinado a você e escolheu um muito
confiável, muito apaixonado. Casar comigo era um mau negócio, sem dúvida,
mas meu temperamento dócil compensou a minha falta de berço. E se acaso
eu resolvesse me revoltar ou cobrar meus direitos, você tinha tudo que era
necessário para calar a minha boca. Um saco de ouro, certamente! O que eu
poderia dizer contra tal argumento? O marido de uma esposa tão rica e nobre!
Eu, um sujeito vulgar e interesseiro! Este foi o seu plano! E quando pretendia
me contar isso? Seja honesta, uma hora antes do casamento? Em tempo de eu
recusar a barganha se assim quisesse? Não! Você só me contou quando eu já
não tinha mais opção, quando tudo estava acabado e assinado
irrevogavelmente… depois de me ludibriar completamente e eu não ter mais
como escapar! E eu, cego que estava, nem percebi a armadilha! Ingênuo, não
desconfiei do seu plano ardiloso! Eu, que entrei aqui, há pouco, emocionado
e trêmulo, pronto para declarar todo meu amor! Sim, sei que errei e perdi o
controle. Mas em momento algum foi cínico e dissimulado. Que importa?
Recebi o meu pagamento e agora não tenho direito de reclamar de nada.
Enquanto dizia as últimas palavras, Philippe caiu numa gargalhada
assustadora e soltando corpo com um baque sobre a poltrona, escondeu o
rosto entre as mãos. Claire ouviu tudo sem protestar, mas não sem mágoa.
Cega, não sabia mais o que era justo. O desabafo sincero e angustiado de
Philippe não comoveu; tudo que restou foi a ironia das suas palavras.
– Monsieur! – disse num tom arrogante. – Vamos acabar logo com isso.
Poupe-me dessa lamúria toda…
Philippe afastou as mãos e mostrou o rosto molhado de lágrimas.
– Não estou me lamuriando, madame – respondeu ele. – Estou
chorando… lamentando as minhas esperanças perdidas, a minha felicidade
para sempre destruída. Mas basta de franqueza. Minutos atrás você disse que
queria comprar sua liberdade. Eu lhe dou sem nada em troca. Pode confiar,
nunca a incomodarei. Não há mais nenhum laço que nos une e daqui em
diante não teremos nada em comum. Mas uma separação pública causaria um
escândalo que não mereço e do qual quero me poupar. Viveremos lado a
lado, mas não juntos. Como quero que tudo fique bem claro entre nós, peço
que escute bem o que vou lhe dizer. Um dia ainda saberá de toda a verdade.
Irá perceber que foi mais injusta do que cruel e então, talvez, sinta vontade de
voltar atrás. Mas aviso que será inútil. Mesmo que eu a veja de joelhos aos
meus pés, implorando por perdão, não terei piedade. A sua mágoa eu até teria
perdoado, mas nunca irei me esquecer do seu egoísmo e da crueldade do seu
coração. Adeus, madame; a partir de agora viveremos de acordo com sua
vontade. Este quarto é todo seu. Eu tenho o meu. Neste momento você
deixou de existir para mim.
Claire não disse nada, simplesmente abaixou a cabeça como se para
mostrar que estava de acordo. Philippe, sentindo um aperto no coração, olhou
para ela pela última vez, na esperança de algum sinal, incapaz de lhe dar as
costas no momento em que estava prestes a perdê-la para sempre. Mas tudo
que viu foi a mais pura frieza. Nenhum brilho no olhar, nenhuma palavra nos
lábios.
Ele cruzou o quarto, abriu lentamente a porta e a fechou as suas costas;
relutante, parou para ouvir um grito, um soluço ou um sinal que lhe daria –
apesar de humilhado e ferido como estava – um pretexto para voltar atrás e
oferecer seu perdão enquanto ainda era tempo. Mas tudo que ouviu foi
silêncio; nenhum ruído sequer.
Então, ele voltou-se para a porta que o separava daquela mulher
implacável e disse: – Criatura orgulhosa! Recusa-se a ceder, mas pode estar
certa de que vou dobrá-la.
E voltando pelo mesmo caminho, que apenas uma hora antes, percorrera
cheio de esperanças, ele retornou para seu quarto de solteiro.
CAPÍTULO XII
As velas emitiam uma luz bruxuleante agora, o fogo tinha se extinguido,
de modo que o espaçoso quarto estava parcialmente na penumbra. Claire
ainda estava parada ao lado da lareira, entorpecida, tentando colocar a ideias
em ordem. Ela tinha vencido, mas se sentia tão arrasada quanto se tivesse
sido derrotada. Uma sensação de extremo torpor a oprimia e sua cabeça
parecia tão pesada que foi obrigada a apoiá-la com a mão. Um zumbido
ensurdecedor a atormentava e tudo parecia girar enlouquecidamente diante da
sua visão embaçada. Tinha a sensação de que o coração ia sair pela boca, a
testa estava coberta por um suor frio; ela estava transtornada, inerte, sofrendo,
desfalecendo, mal tinha forças para se mover ou gritar por ajuda.
Deixou o corpo cair sobre a poltrona, mas não aguentou por muito tempo
e acabou levantando novamente. Pontadas de dor contraíam os músculos dos
seus membros e ela não conseguia ficar parada. Em busca de um pouco de
alívio, andou de um lado para o outro, apesar do peso que oprimia sua
cabeça, que parecia ao mesmo tempo inchada e vazia. Sentiu uma dor
profunda acima da sobrancelha esquerda, como se alguém tivesse martelado
um prego na sua testa. A febre dilatou suas veias. Voltou a andar de um lado
para o outro e se curvou, gemendo, tamanho o seu sofrimento, remoendo sem
parar na mente perturbada as mesmas lembranças insuportáveis. Apesar de
estar acordada, parecia presa em um pesadelo; e vez ou outra murmurava
palavras sem sentido entre dentes cerrados.
Sofreu assim por horas a fio, determinada a não pedir ajuda, imaginando
que se abrisse a porta seu marido pudesse voltar, pensando que ela buscava
pelo seu perdão. Apesar de confiar na palavra dele, ela não ousou tocar nem
mesmo na maçaneta. Ela teria sido uma conquistatriste, uma conquista
calculada para assustar Philippe, pois sob a influência da febre que a
consumia ela tinha mudado tanto que não poderia despertar outro sentimento
senão piedade.
Os primeiros raios de luz do dia a pegaram andando pelo quarto, tentando
reprimir pela força a dor dos seus membros pesados. Ela continuou se
arrastando, com o rosto lívido e os olhos fundos, as têmporas latejando como
se tivessem dois martelos batendo o tempo todo. Suas forças estavam se
esvaindo. Ela olhou para o céu, tingido pelos tons violáceos do amanhecer, e,
na esperança de que o ar puro da manhã pudesse refrescar e aplacar sua
aflição, ela se aproximou da janela para abri-la. Mas lhe faltaram forças até
mesmo para virar a trava e de repente ela soltou um grito e caiu desfalecida.
Por volta das nove horas, quando Brigite se aproximou da porta na ponta
dos pés para verificar se a senhora ainda dormia, tudo que ouviu foi um
gemido sôfrego e distante. Alarmada a criada irrompeu no quarto. Claire
estava estirada imóvel, na mesma posição que tinha caído. Falava coisas
desconexas. O rosto estava vermelho e os pés congelados. Brigitte não perdeu
tempo se perguntando o que madame Derblay estava fazendo deitada ali,
ainda na sua camisola de núpcias e a colocou na cama como se ela fosse uma
criança. Então, ao ver que a patroa parecia mais calma depois de deitada entre
os lençóis limpos, a moça saiu em busca do patrão.
Ele estava vestido no seu quarto. Ela viu a cama desfeita e notou a tristeza
no rosto de Philippe. Pegando um lenço encharcado de lágrimas que estava
ao lado do travesseiro, ela balançou a cabeça tristonha e exclamou:
– Oh, monsieur Philippe! Que tristeza! O senhor ficou aqui chorando e
ela…
O magnata empalideceu e começou tremer. A ideia que lhe passou pela
cabeça foi que Claire tinha se desesperado e agora estava morta.
– E ela...? – foi tudo que ele conseguiu dizer.
Brigitte adivinhou seus pensamentos.
– Não – ela respondeu mais que depressa, – isso não, mas ela não está
nada bem.
Philippe não esperou para ouvir mais uma palavra sequer; e sem perder
tempo nem mesmo para vestir o paletó, ele saiu correndo como um louco
rumo ao quarto de Claire. O vestido de noiva, os saiotes, os sapatinhos de
saltos ligeiramente curvados, o espartilho branco de cetim perfumado, tudo
estava jogado no tapete. Claire jazia largada sobre a grande cama de dossel
com o rosto arroxeado e olhos semicerrados e vidrados. Os guerreiros sisudos
da tapeçaria, com suas lanças em repouso, pareciam zelar por ela. Philippe se
aproximou da cama. Ela não o reconheceu. Estava sorrindo com os lábios
pálidos entreabertos, expondo de relance os dentes perolados. Ele tomou a
mão delicada e nisso descobriu que estava muito quente. Depois de uma noite
tão agitada, pelo visto o torpor acabara derrubando-a. Philippe ficou muito
preocupado. Mais que depressa escreveu um bilhete para o melhor médico de
Besançon e mandou um criado em uma carruagem, com o cavalo mais
rápido, ir buscá-lo.
Após tomar as primeiras providências, ele sentou ao lado de Claire e se
perdeu em pensamentos desoladores. Será que ela ia morrer? Será que era o
fim? Ela continuava imóvel, mas seus olhos estavam bem abertos agora e ele
notou que olhavam de soslaio. Uma contração dolorosa parecia forçá-los a
olhar de lado. As sobrancelhas estavam cerradas como se ela estivesse
sentindo dor e de tempos em tempos ela soltava um gemido e erguia a mão na
direção da nuca. Qualquer um podia ver que ela sofria e o delírio se tornava
mais e mais intenso a cada minuto. Todo o rancor do marido desapareceu
diante daquela triste visão. Apegando-se a superstição pela primeira vez na
vida, Philippe se agarrou à ideia de que se Claire se recuperasse seria um
sinal de que a felicidade estava guardada para eles e daquele momento em
diante seu único desejo foi salvá-la. Ele ainda a amava loucamente, apesar de
todo sofrimento que ela o fizera passar; talvez – quem sabe – tudo acabasse
dando certo para eles.
As duas horas que Philippe passou ao lado da cama de Claire foram
talvez as mais cruéis de toda sua vida. Ficou extremamente aliviado quando
madame de Beaulieu e Octave chegaram, pois a chegada deles atenuou um
pouco o peso da responsabilidade. Apesar de muito assustada e receosa a
marquesa não expressou seus sentimentos. Não gritou, não caiu em lágrimas,
não invocou a Providência Divina com as mãos ao alto. Simplesmente fez
algumas perguntas ao genro, prescreveu alguns remédios caseiros e então,
lívida e serena, sentou ao lado da filha, que estava totalmente alheia a sua
presença. Octave, que fervilhava impaciente e preocupado, mandou selar um
cavalo e saiu a galope para ir ao encontro do médico, com o intuito de
apressar a chegada.
Já era quase meio-dia quando o médico que Philippe mandara buscar
chegou a Pont-Avesnes. O médico era razoavelmente jovem, com uma
experiência considerável em hospitais, estava a par dos avanços da medicina
e era muito bom em dar diagnósticos complicados. Além do mais, não seria
preciso executar nenhum tipo de exame invasivo para diagnosticar o mal que
acometia Claire. Seria fácil determinar pelo seu delírio, a dor que ela sentia
na testa e na nuca e pelas contrações bilaterais que faziam seus olhos
contraírem. O médico mediu a pulsação da paciente, contou 120 pulsações
por minuto e quando o termômetro foi colocado embaixo do seu braço este
marcou nada mais nada menos do que 40 graus. A febre era alta, o médico
balançou a cabeça e afirmou num murmúrio:
–É muito grave!
Então, como a mãe, o irmão e o marido aguardavam ansiosos, ele
adicionou:
– Meningite…
E inclinando-se sobre o colo alvo de Claire, onde a respiração pesada
sibilava dolorosamente, ele auscultou atento durante alguns minutos.
– O coração está acelerado – disse, enquanto se endireitava novamente –
resultante de uma crise nervosa severa. Precisamos arrumar gelo e uma dúzia
de sanguessugas.
Suzanne, que escutava tudo encostada ao batente da porta, fez um sinal
para Brigitte e a criada se retirou sem perder tempo.
Ao longo das últimas duas horas anteriores mademoiselle Derblay
aguardara ansiosa na antessala, trêmula, desconfiando que algo muito
estranho tivesse acontecido, mas sem ousar entrar no quarto. Agora, no
entanto, ela se aproximou da cama, sem se aventurar a falar por receio de que
a mandassem sair e prendendo o fôlego e olhando mortificada para o rosto
vermelho e os lábios sem cor de Claire. A atmosfera do quarto parecia pesada
e opressora e sem perguntar nada, guiada apenas pelo instinto que faz de
todas as mulheres tão boas enfermeiras, ela caminhou na ponta dos pés até a
janela e abriu-a. O médico olhou para ela, sorriu e exclamou.
– Muito bem!
Philippe, que estava tão concentrado que nem vira a irmã entrar, voltou-se
para ela com um olhar carinhoso e sem conseguir se segurar mais, estendeu
os braços e rompeu em lágrimas. Já fazia vinte e quatro horas que ele vinha
contendo seus sentimentos. Suzanne chorou junto e debruçada sobre o ombro
do irmão, murmurou:
– Não tema, Philippe; vamos cuidar dela. Ela vai se recuperar. Vamos
salvá-la!
Mas se tinha alguém que poderia salvar Claire, esse alguém não era
Suzanne. Philippe pediu à irmã, com grande sacrifício, que ela retornasse
para o convento. O dono da siderúrgica receava os delírios da esposa. Ela
falava deliberadamente e o nome do duque de Bligny não saía de seus lábios.
É bem verdade que o chamava com uma ira desvairada, fazia acusações
graves, expondo abertamente a dor do abandono. Philippe também aparecia
em suas alucinações e sempre de um modo ameaçador. Ele vinha armado
para matá-la, depois de ter matado o duque. Ela via o sangue nas mãos dele e
implorava para que ele a matasse para que assim ela pudesse se juntar para
sempre ao seu amado. Philippe foi obrigado escutar, calado e imóvel, a esta
tormenta delirante, mas ele não queria que Suzanne ouvisse. Confiava que
tudo ia dar certo e queria poupar a irmã do seu infortúnio, pois acreditava que
um dia aquela dor seria esquecida, como um sonho ruim e ansiava paraque
não restasse uma sombra sequer para manchar a imagem que Suzanne fazia
de Claire.
Suzanne, chorando copiosamente, mas como sempre obedecendo às
ordens do irmão, partiu para Besançon, acompanhada da fiel Brigitte. E
Philippe ficou sozinho em casa, ao lado da sua amada. A marquesa assim que
percebeu o empenho com que o genro lutava contra a doença da sua filha, o
deixou agir livremente e se limitou a ajudar com sua presença. Ela passava
boa parte do dia no quarto da filha; e à noite Philippe se instalava em uma
poltrona ao lado da cama e ali ficava observando a esposa, sob a luz indireta
de um abajur aceso num canto afastado do quarto.
O delírio persistiu por dias a fio. Muito pálido ele assistia em vão o
sangue escorrendo gota por gota pelo pescoço encantador de Claire, deixando
um rastro vermelho na sua pele alva. Mas a loucura que se apossara do pobre
cérebro enfraquecido seguia atormentando. Dias e noites passaram e a febre
não dava trégua. O rosto da moça tinha afinado, as bochechas estavam
encovadas e o contorno do maxilar a cada dia se tornava mais proeminente.
Seus membros estavam sempre agitados, esfregando dolorosamente sobre os
lençóis e um murmurinho de palavras ininteligíveis – que com o agravamento
da doença só piorou – escapava da sombra lançada pelo cortinado do dossel.
Apenas um pensamento indicava que o cérebro de Claire ainda mantinha
um resquício de lucidez. Ela tinha consciência de que Athénaïs ia se casar
enquanto ela padecia acamada. E ela despertou, como se estivesse em um
transe, no dia em que a sua rival subiu triunfante os degraus da Madeleine,
todo enfeitado de flores, graças à extravagância sem limites de M. Moulinet;
e no momento em que todos os convidados viraram para ver os noivos, Claire
teve uma segunda visão. Num lampejo de lucidez, ela sentou, e, num tom de
voz distante, falou:
– Eles estão se casando agora, já eu… eu vou morrer.
A marquesa se aproximou da cama e tentou acalmá-la, mas ela não lhe
deu ouvidos. O delírio retornou com força total. Ela teve uma crise horrenda,
gritando e se contorcendo enquanto os lábios ardiam febris e o suor escorria
de seus belos cabelos desalinhados. Philippe ficou tão alarmado que mandou
chamar o médico, que tinha prometido fazer uma visita logo mais à noite.
Assim que chegou, ele constatou que a febre tinha subido novamente. Suas
artérias pareciam tubos superaquecidos pelo vapor, prestes a arrebentar. Mais
um grau e seria o fim.
Aquele dia foi horrível. Philippe aguardou pelo final da crise numa
agonia mortal. Notou que sua vida estava sendo decidida ao longo daquelas
horas intermináveis e, em sua mente, exaurida pelo cansaço e pela tristeza, só
passava uma coisa: “Se ela sobreviver seremos felizes”. Ele acreditava no
pressentimento e estava disposto a abrir mão de parte da sua vida se preciso
fosse para prolongar a de Claire.
Finalmente, a tarde se foi, mas junto não veio nenhum sinal da calmaria
que costumava acometer Claire durante a noite. Com as sobrancelhas
contraídas e os dentes cerrados, ela ainda chamava pelo duque numa voz tão
melancólica que era de partir o coração. Philippe tinha se levantado e estava
debruçado sobre ela, imaginando que ela não estivesse vendo nada. Quando
de repente, ela arregalou os olhos e o encarou de um modo pavoroso. Ergueu
então o braço com muito esforço e com a voz abafada disse:
– Você o matou; o que está esperando… para me matar também?
Philippe, cujo coração estava partido ao constatar que ainda era tão
cruelmente incompreendido e exaurido pelo esforço, por um momento se
sentiu fraco como uma criança. Inclinando-se para frente, ele recostou a testa
na coluna de madeira entalhada da cama e derramou lágrimas amarguradas.
Suas lágrimas pingavam lentamente, uma a uma, sobre a testa ardente de
Claire. Elas caíram refrescantes como gotas de orvalho; e como se estas
lágrimas vindas do coração de Philippe fossem um remédio poderoso, o
semblante de Claire relaxou. Ela suspirou baixinho e se virou de lado para
ouvir. Philippe soluçava copiosamente, acreditando que a esposa ainda
estivesse inconsciente. Mas, de repente, uma mão pousou em seu braço e
junto veio um murmúrio sufocado em uma voz fraca:
– Quem está chorando assim? É você, maman?
Philippe ergueu a cabeça e viu que os olhos de Claire estavam voltados
em sua direção. Ele se aproximou um pouco mais e, finalmente, ela o
reconheceu. Uma nuvem pareceu passar diante de seus olhos, como se ela
estivesse lembrando o que tinha acontecido. Uma lágrima brotou em seus
olhos dilatados e segurando a mão do homem que ela tinha feito sofrer tão
cruelmente.
– Ah, é você – sussurrou, – só podia ser, sempre tão generoso e devotado.
Oh, me perdoe, Philippe, me perdoe!
O rapaz caiu de joelhos e beijou apaixonadamente aqueles olhos que pela
primeira vez olhavam para ele sem nenhum sinal de rancor. Claire respondeu
com um sorriso tristonho; então uma pontada forte contorceu seu rosto
novamente; o delírio voltou e mais uma vez ela voltou a falar coisas sem
nexo.
Por três semanas, ela permaneceu entre a vida e a morte, mas essa crise
foi a última. Depois daquela noite, a enfermidade entrou numa fase nova e a
violenta agitação foi substituída por um torpor crescente.
–Ela está em coma – disse o médico, baixinho. –Até agora fizemos de
tudo para manter madame Derblay dormindo, mas de agora em diante
faremos de tudo para mantê-la acordada.
Philippe compreendeu que Claire, se não tivesse outra recaída, poderia
sobreviver. Mas com a esperança de sobrevivência veio a dúvida quanto ao
futuro deles. Enquanto ela estava em perigo seu maior anseio era livrá-la das
garras da morte, mas agora ele iria lutar pela vida. E se depois de recuperada,
Claire voltasse a sentir repulsa por ele? Oprimida pela doença, ela deu sinais
de que tudo tinha passado; num momento de fraqueza chegou a pedir perdão.
Mas será que ao retomar a consciência, ela ainda iria se mostrar tão humilde e
submissa?
Philippe conhecia a natureza orgulhosa da esposa. E por conta disso,
temia a volta do seu orgulho incontrolável. Estremeceu só de imaginar que
ela pudesse pensar que ele tentara tirar vantagem durante a sua
convalescência para esquecer o pacto que eles tinham feito naquela noite de
núpcias terrível. Se acaso parecesse que o pacto que ele mesmo tinha
sugerido e proposto tinha sido rompido, ele estaria rebaixado aos olhos de
Claire e para sempre talvez. Por conta disso seria preciso manter o rigor e
com a sua força de caráter, ele estava certo de que não iria fraquejar no
caminho. Tinha jurado para si mesmo que iria dobrar o orgulho da esposa e
estava preparado para manter o juramento.
Já era janeiro e o inverno tinha sido rigoroso. A siderúrgica, que estivera
fechada durante o auge da doença de Claire, voltara a funcionar a todo vapor.
O barulho dos martelos batendo sobre as bigornas animaram a jovem esposa.
A longa convalescência acabou sendo agradável. Ela viu com alegria esta
nova chance de viver e sentia uma alegria profunda em ver todas as coisas ao
seu redor. Ficou imensamente satisfeita com o seu quarto espaçoso; apesar de
um pouco sisudo e escuro, com suas tapeçarias e móveis antigos. Tudo
parecia calmo, sereno e na mais perfeita harmonia. Deitada na cama, ela
podia ver a tapeçaria de uma ninfa, com cabelos soltos, carregando uma
ânfora sobre o ombro, de onde jorrava uma água que se espalhava pelo chão e
fluía formando um rio. A linda estampa parecia uma alegoria para Claire,
como se a ninfa estivesse despejando a fonte da vida da ânfora.
Através das janelas amplas, era possível enxergar as copas das árvores do
jardim, ainda cobertas de neve e brilhando ao sol. Os passarinhos
costumavam voar até a sua janela, como se estivessem à procura de abrigo.
Ela os observava encantada e sempre deixava algumas migalhas de pão
espalhadas no caixilho para os pequenos visitantes. Ela se interessava por
tudo, agora. Gradualmente foi recuperando as forças e foi genuíno o prazer
que ela se sentiu, física e moralmente, com a volta à vida. Era capaz de passar
horas deitada na cama,ouvindo o tique-taque do relógio sem pensar em nada,
perdida na deliciosa sensação de vazio.
Passava os dias na companhia da marquesa e Philippe a visitava pela
manhã e ao final do dia. Ele sempre perguntava como ela estava passando e
se havia algo que podia fazer por ela. Então, depois de ficar uns cinco
minutos sentado aos pés da cama, ele se retirava. Ela ficava ouvindo seus
passos se distanciando e aguardava ansiosa pelas suas visitas. Sempre achava
que eram muito rápidas e começou se irritar um pouco com isso.
Encontrou então uma oportunidade para uma pequena rixa e aproveitou
com um prazer infantil. Estava louca para ter algumas flores alegrando o
quarto. A estufa de Beaulieu estava cheia de flores e um dia a marquesa
trouxe para filha um magnífico buquê de lírios brancos. Philippe entrou no
quarto neste momento e surpreendeu a esposa cheirando as flores. Com muito
tato, ele comentou que o perfume poderia fazer mal; e quando ele estava
levando o buquê para a antessala, Claire comentou coquete:
– Mas eu lhe asseguro que estou me sentindo muito bem, pode deixar as
flores aqui.
– Você está se convalescendo – respondeu Philippe, sorrindo. – Pensa que
está mais forte do que está de fato. Mas precisamos ter cautela.
– A prova de que estou bem é que ousa me contrariar – retorquiu ela, toda
faceira. – Estava me tratando de um modo distinto durante a minha
enfermidade.
Philippe ficou sério, e, sem nada dizer, lançou um olhar tristonho e grave
para Claire. A jovem suspirou e então mais contida, respondeu:
– Mas está certo. Pode levar as flores e obrigada por se preocupar
comigo.
Ela passou o resto do dia meditativa. Aos poucos a faculdade de refletir
voltou, assim como as lembranças do passado. E junto veio a coragem para se
questionar e ficou surpresa quando seu deu conta de que já não havia mais
em seu coração nenhum resquício do amor que nutria pelo duque. Assim
como uma fruta podre, a ternura se desfez. Também não nutria mais nenhum
sentimento de ódio por Athénaïs; pelo contrário, sentia pena dela, que estava
condenada a sofrer de uma inveja incurável. Ela não perguntou nada sobre o
casamento da rival; assumiu apenas que tivesse acontecido e todos tomavam
o maior cuidado de não mencionar o nome de Bligny na sua presença. Uma
precaução desnecessária, pois ela teria ouvido sem nada sentir, tamanha a
mudança em seu coração.
A convalescência foi demorada. A primeira vez que tentou levantar,
desmaiou de fraqueza e teve de ser levada de volta para a cama. Philippe, que
demonstrou grande ansiedade, na hora retomou seu posto junto à cabeceira da
cama e retomou sua vigília com sua devoção silenciosa e impassível. Ela
ainda sentia dores de cabeça; parecia que ainda restavam alguns resquícios
insistentes da doença. Toda vez que mexia a cabeça, ela dizia que tinha a
sensação de que o cérebro chacoalhava de um lado para o outro tal qual a um
pêndulo.
– Eu já era um pouco louca antes da doença – adicionou com um sorriso.
– O que será de mim agora?
Já tinham se passado cinco meses desde o casamento, quando numa bela
tarde de abril, ela conseguiu se aventurar a ir até o jardim, amparada por sua
mãe e por Brigitte. Ela caminhou lentamente ao redor do lago, parando vez
ou outra para recuperar as forças, ou sentando em um dos bancos de pedra
aquecidos pelo sol de primavera. Ao vê-la andando tão devagar pela trilha de
cascalho, ninguém reconheceria a jovem orgulhosa e altiva, de quem a sua
mãe costumava dizer:
– Ela deveria ter nascido homem.
Sua feição havia mudado e ela parecia mais baixa agora que não andava
mais de cabeça erguida.
Daquele dia em diante os modos de Philippe não mudaram. Gentil,
amável e sempre muito atencioso com Claire na presença de estranhos. A sós
ele se mostrava frio, sério e reservado. Sua conduta era tão calculada que ele
passava uma imagem de marido exemplar para todos. A marquesa nunca
desconfiou da verdade. Afinal, estava habituada aos modos reservados da
nobreza e o falecido marquês de Beaulieu nunca foi de demonstrações de
afeto em público. Assim, ela achou que tudo estava correndo muito bem na
casa da sua filha e que não havia motivos para preocupação. Tranquila com
relação ao estado de saúde de Claire, a marquesa anunciou numa manhã que
estava de partida para Paris, onde Octave se encontrava desde o início de
janeiro. Fiel às suas teorias igualitárias, o jovem marquês resolveu deixar seu
brasão de lado e se dispôs a atender clientes como um simples advogado.
Assim, Claire ficou sozinha com o marido, a quem ela só via durantes as
refeições. Após o jantar, ele a acompanhava até a sala de estar, onde
permanecia por uns cinco minutos apenas e então se levantava, desejava uma
boa-noite e se retirava para o seu escritório. Numa noite, curiosa para saber o
que ele tanto fazia lá e protegida por um manto, ela foi até o jardim com o
intuito de observá-lo da janela. Através da cortina do escritório era possível
ver sua sombra, cujo jogo de luz conferia uma altura gigantesca, andando de
um lado para o outro, pensativo. Claire voltou para dentro de casa e entrou na
ponta dos pés no cômodo adjacente ao escritório. Sentou no escuro e ficou
observando o facho de luz que escapava por baixo da porta e escutando os
passos regulares de Philippe, abafados pelo tapete grosso. Ele seguiu assim
até meia-noite; e então, quando relógio bateu a última badalada, ela ouviu
quando ele abriu a outra porta e o facho de luz se apagou.
O que será que ele estaria pensando tanto enquanto andava? O que se
passava pela sua cabeça durante as longas horas de solidão? Claire teria dado
qualquer coisa para saber. Ela era uma mulher, é sempre bom lembrar e as
mulheres que são curiosas não conseguem se conter por muito tempo. Por
conta disso, numa noite, quando Philippe foi se despedir dela como de
costume, ela não aguentou e perguntou:
–O que faz até tarde da noite, trancado no seu escritório?
– Pago as contas – respondeu o dono da siderúrgica, calmamente. – Por
falar nisso, tenho um dinheiro para lhe dar.
Ao dizer isso, ele tirou do bolso um maço de notas.
– Um dinheiro? – indagou Claire, surpresa. – Para mim?
– Sim, a renda semestral da sua parte – e colocando o maço de notas
sobre a mesa, Philippe adicionou friamente: – Verifique se está correto.
Claire recuou; seu rosto ruborizou, as mãos ficaram trêmulas e ela sentiu
uma pontada no coração.
– Pegue de volta, monsieur. Pegue de volta, por favor. Não posso aceitar
este dinheiro.
– Mas você deve – retomou ele, friamente; e com um gesto desdenhoso,
empurrou as notas sobre a mesa na direção da esposa.
Ela ficou ereta como se estivesse se preparando para a briga. O gesto e o
tom de voz de Philippe feriram seus sentimentos. Seus olhos cintilaram e na
hora ela se transformou na Claire orgulhosa e geniosa de antigamente.
– Não vou… – iniciou ela, olhando audaciosamente para o marido.
– Não vai...? – repetiu ele com ironia.
Seus olhos se encontraram e o olhar de Philippe era tão firme, tão direto e
tão poderoso, que foi demais para Claire. Sua resistência cedeu, a mão que
ela tinha erguido orgulhosa caiu inerte ao lado do corpo e ela se submeteu a
um silêncio doloroso. Sem dizer mais nada, o dono da siderúrgica se curvou
numa cortesia e a deixou sozinha na sala.
Pela primeira vez, a vontade de Claire bateu de frente com a de Philippe.
O choque a deixou atordoada e perplexa. Ela foi forçada a reconhecer que a
força de caráter do marido era superior à dela e ficou ao mesmo tempo
irritada e encantada com a descoberta. Passou a admirá-lo pela sinceridade e
atraída pela sua natureza enérgica, começou a observá-lo com mais atenção.
No seu primeiro sinal de retorno à vida, ela decidiu que seria amável e que
colocaria sua amizade à disposição de Philippe; mas agora, percebia com
assombro e surpresa que estava disposta a oferecer muito mais que amizade.
O problema é que se ela se mostrava disposta a cruzar a linha da amizade,
Philippe por sua vez parecia satisfeito com a sua postura indiferente. Ele não
era um ser acabrunhado, pois para tal existem meiosde se lidar. Mas não; ele
só não lhe dava atenção e permitia que ela vivesse livremente; nos conformes
do acordo estabelecido entre eles. Esta indiferença, que tinha algo de
desprezo, fazia com que Claire se sentisse profundamente humilhada e ela
lutou com todas as suas forças para superar este sentimento, apesar da sua
natureza essencialmente altiva e de toda dificuldade para domá-la.
Sempre que Bachelin vinha jantar em Pont-Avesnes, a estada de Philippe
na sala se estendia por mais tempo. Por conta disso, Claire passou a convidar
o tabelião para jantar duas vezes por semana. Ela aprendeu a jogar uíste e
rouba-monte como uma viúva. Na presença de Bachelin o dono da
siderúrgica jogava e conversava amigavelmente, mas assim que o convidado
partia, ele retomava o jeito sério e calado. Apesar de todos os esforços,
madame Derblay não estava conseguindo sensibilizar o marido. O
autocontrole de Philippe era tão impressionante que chegava a irritar e às
vezes, na solidão do seu quarto, ela dava vazão a sua raiva contida. Era difícil
reconhecer até mesmo para si mesma que estava apaixonada, que aquele
homem era agora o dono do seu coração. Fazia dela o que bem entendia e
sempre que ela tentava se rebelar, bastava um olhar para ela ceder. Ele
parecia tão frio e duro quanto o ferro que era manufaturado nas suas
siderúrgicas. Estava moldando seu caráter e estava claro que iria fazê-lo a seu
bel-prazer. Claire chorava envergonhada diante da própria impotência; apesar
disso, um último resquício de seu orgulho permitia que ela escondesse seu
sofrimento de Philippe e para tal ela mostrava de acordo com as exigências
das circunstâncias: resignada, nem um pouco prepotente, digna, mas não
altiva.
Apesar de pouco se interessar pelo que acontecia fora de Pont-Avesnes,
sua família, que se encontrava então em Paris, sempre fazia lembrada. Assim
que a baronesa ficou sabendo sobre a recuperação da prima ela escreveu uma
carta longa e afetuosa, repleta de detalhes curiosos, mas incoerentes
entrecortados por outros assuntos, como o seu jeito de falar. Foi por
intermédio de madame de Préfont que Claire teve notícias do duque, da
duquesa e de M. Moulinet. Athénaïs fez uma estreia brilhante na sociedade.
Agradou muito aos homens em geral, enquanto as mulheres não viram com
bons olhos seus modos liberais. O duque pouca atenção dava para a esposa.
Três meses depois do casamento era notório que ele e a esposa viviam
separados e que ele estava fazendo a corte à encantadora condessa de
Canalheilles; uma bela irlandesa de nascimento, cujos olhos eram tão
profundos e perturbadores quanto o mar. Quanto à duquesa, esta vinha
flertando com meia dúzia de rapazes elegantes, de cabelos encaracolados e
camisas de peitoral impecável, que a seguiam para onde ela fosse. Ela
costumava dizer que o pequeno grupinho de apaixonados “estava na palma da
sua mão” e manejava as rédeas habilidosamente, ao ponto de seu egoísmo e a
dureza do seu coração a protegerem contra quaisquer surpresas.
Moulinet, desde que se livrara da filha, vinha amadurecendo alguns
projetos importantes. Contratara uma secretária e passava várias horas do dia
fechado em um belo cômodo do seu apartamento, que ele chamava de
biblioteca, embora seu único livro fosse um tratado sobre economia política
que ficava aberto sobre a escrivaninha. A filha dizia que ele cochilava todos
os dias das duas às cinco da tarde. Mas a baronesa afirmou para Claire, na
carta, que o ex-juiz do Tribunal do Comércio estava pensando em se
candidatar para algum cargo político. Tinha sido visto, ela escreveu, na
companhia de vários indivíduos mal-ajambrados, que só podiam ser
jornalistas. Ela contou também que ele tinha viajado várias vezes para Jura e
que estava construindo uma escola laica em La Varenne, mas que estava
reformando em segredo a igreja também. Com a mão esquerda ele acariciava
os Radicais e com a direita os Conservadores. O dono fábrica de chocolate se
revelou uma criatura maquiavélica.
A verdade é que no fim M. Moulinet tinha sido picado pelo bichinho da
ambição. Tendo tocado seus negócios com tanto sucesso, ele se sentia
perfeitamente capacitado para cuidar dos negócios dos outros e se perguntou
se na Câmara dos Deputados havia um único homem sequer capaz de se
destacar politicamente e com uma fortuna maior do que a sua. Admitiu
consigo mesmo que não havia nenhum e depois de ter comprado para filha
um marido do melhor pedigree, ele não via porque não comprar a sua
candidatura.
Por um tempo, ele hesitou entre o Senado e a Câmara dos Deputados.
Senador! O título parecia majestoso. Ele nutria uma espécie de fetiche por
este corpo legislativo, composto pelos homens mais importantes do país. Por
outro lado, o título de deputado não soava nada mal; e, além disso, a Câmara
parecia ser muito mais animada do que o Senado. Moulinet tinha o mínimo
de bom senso e sabia que seria mais fácil encontrar um número suficiente de
tolos nas assembleias mais baixas para que ele encontrar espaço para se
destacar. E assim, deu início a sua campanha e se preparou para fazer o que
fosse preciso para garantir o sucesso. A primeira coisa que fez foi começar
por La Varenne, que era o centro de um distrito eleitoral e ficava entre
Besançon e Pont-Avesnes. M. Derblay exercia uma grande influência na
região e Moulinet achou por bem tentar cair nas graças do dono da
siderúrgica. Para tal fez uma visita de cortesia ao industrial, e, muito astuto,
se desdobrou em bajulações. Não disse uma palavra sobre as suas pretensões
políticas, mas mencionou que pretendia passar o verão em La Varenne e se
empenhou em fazer Claire acreditar que ele era uma pessoa ingênua e não má
e que, no caso do casamento da filha, ele tinha compactuado sem saber dos
planos de vingança dela.
Enquanto isso, Moulinet fundou um jornaleco chamado Courrier
Jurassien, em Besançon, com o intuito de advogar em prol do seu assento no
legislativo. O editor era um dos indivíduos mal-ajambrados que a baronesa
citara na carta; isso por que Moulinet ainda escolheu o mais ajeitadinho entre
todos. O jornalista lhe ofereceu um estoque farto de opiniões políticas a
escolher e ele optou pela linha Republicana moderada, algo entre à esquerda
e à direita; obscuro o suficiente para agradar os modernistas e claro o bastante
para os mais conservadores. Algo parecido com as palavras da Marselhesa
cantada ao ritmo de Partant pour la Syrie.
Afinal, ele estava pouco preocupado com o tom político da sua
candidatura; confiava no seu bolso como um argumento decisivo e não estava
errado. É preciso mencionar, no entanto, que seus projetos não agradaram em
nada ao duque de Bligny, que achava que, tendo Moulinet acumulado a bela
fortuna, ele deveria deixá-la para o genro usufruir. De fato, na primeira
oportunidade que teve, Gaston compartilhou a sua opinião com aquele jeito
impertinente que costumava adotar quando se dirigia ao pai da sua esposa.
– Que bicho te mordeu para resolver entrar para a política? – perguntou. –
Não acha que a política já não está ruim o suficiente do jeito que está? É
realmente impressionante como os mais quietos sempre acabam mostrando as
garras. Não imagina que alguns eleitores podem ser tolos o bastante ao ponto
de elegê-lo?
– É o que espero, meu caro duque.
– Vamos ver quanto isto vai lhe custar.
– Que importância tem isso para você?
– Muita. Sou casado com a sua única filha e agora você arruma uma irmã
para ela?
– Uma irmã?
– Sim; uma irmã chamada Política e uma irmã que terá muitos filhos.
Todos os seus bajuladores, assessores, defensores, cabos eleitorais, sem
contar os eleitores, que certamente também contarão com uma contribuição
sua. Sabe-se lá onde isso vai parar!
Moulinet fez um gesto majestoso e bateu no bolso do colete, uma mania
deplorável da qual ele nunca conseguiu se livrar.
– Meus meios me permitem ter o que eu quiser – afirmou, impávido. –
Estou com sessenta anos apenas e ainda tenho condições de satisfazer as
bailarinas se assim desejar…
– Ah, não vou dizer que seja um crime! Esta é uma tolice que posso
entender.Um pezinho, um tornozelo delicado, uma cinturinha destacada com
um cinto dourado, igual ao que as ciganas usam no balé Fausto e um par de
olhos castanhos ou azuis olhando por cima dos biombos, à procura de você;
tudo isso é muito bom e prazeroso. Se quiser posso lhe apresentar às
bailarinas da Ópera. Mas a ideia de vê-lo cortejando a República e pagando
uma mesada para ela! Oh, isso me deixa muito preocupado, monsieur
Moulinet! Acho melhor ficar com as meninas do balé.
– Sinto muito se sou motivo de preocupação, meu caro duque, mas sou
um homem de princípios. Prefiro a política.
– Bem, espero que se divirta; mas me diga, se for eleito, pretende
discursar?
– Muito provavelmente.
– Claro! Vai ser divertido. Levarei meus amigos para ouvirem. Mas, em
todo caso, tente não se tornar ministro, pois pode acabar me comprometendo.
Mas Moulinet nem ligou para o deboche do genro e seguiu em frente com
seus planos. Na verdade, no começo da primavera se mudou para La Varenne
e deu início à sua campanha política.
Mais ou menos na mesma época, a marquesa voltou para Beaulieu e
Suzanne do convento. Claire pouco influência teve sob o último evento. A
chegada de mademoiselle Derblay trouxe um pouco de alegria a casa e as
relações marido e mulher melhoraram, embora fosse somente na frente das
pessoas. Philippe se viu obrigado a encenar o papel de marido gentil e
atencioso na frente de Suzanne. Papel este que desempenhou com tanta
desenvoltura que a jovem ingênua nem desconfiou de nada. Achou que o
irmão estava muito feliz. Quanto a Claire, ela mal a reconheceu. A antes
orgulhosa e intratável mademoiselle de Beaulieu tinha se transformado em
uma pessoa afável e sorridente. Suzanne amou verdadeiramente a cunhada e
Claire tratava a mocinha com a atenção de uma mãe e carinho de amiga.
A juventude de Claire, que momentaneamente sofrera os efeitos da
ansiedade, preocupações e tristezas, tinha renascido agora, tão vigorosa
quanto à seiva de uma árvore jovem. As duas cunhadas não se desgrudavam.
Assim que voltou para Pont-Avesnes, Suzanne retomou as visitas que
costumava fazer às casas dos funcionários e Claire a acompanhava como se
fosse uma fada madrinha e passou a usar o dinheiro da renda que Philippe
insistia em lhe dar para aliviar o sofrimento dos mais desfavorecidos. Ela e
Suzanne eram sempre vistas andando pelas estradinhas de Pont-Avesnes, em
trajes simples, acompanhadas do imenso cachorro marrom de Philippe e
todos que cruzavam com elas cumprimentavam com reverência respeitosa.
Em poucos meses Claire passou a ser idolatrada pelos trabalhadores. Na
época do seu casamento, correram muitos boatos por toda a região. Os
moradores de Pont-Avesnes conheciam a sua fama. Costumavam vê-la
cavalgando, distraída, pensando no duque e tocando indiferente com seu
chicote a aba da cartola encoberta com um véu quando alguém a
cumprimentava. Diziam que era muito orgulhosa e entre eles, os
trabalhadores se referiam a ela como a “marquesa”, mesmo depois de ela ter
se tornado madame Derblay. Para aqueles mineiros e metalúrgicos rudes ela
parecia pertencer a uma raça superior. Sua pele era tão alva, a figura tão
refinada e ela parecia tão elegante até mesmo em um simples vestido preto de
lã, que quando passava pelas estradinhas enlameadas de Pont-Avesnes ou se
apresentava à soleira de uma casinha, ela parecia uma rainha. E assim, não
passou a ser idolatrada apenas, mas amada por todos.
Em julho Octave retornou para Beaulieu e, em seguida, começaram os
passeios divertidos. As duas cunhadas se instalaram numa charrete, que
Claire conduzia com habilidade. O marquês seguia a cavalo e eles passearam
pelos bosques de Pont-Avesnes. As árvores muito altas formavam uma
abóboda verdejante ao alto; no chão a vegetação era intercalada por roseiras
selvagens e flores silvestres. O veículo seguia devagar pela estradinha de
terra batida, usada pelos madeireiros que levavam o “corte” do ano. Às vezes
a charrete atolava, e, nestas ocasiões, Octave empurrava, enquanto Suzanne
conduzia as rédeas. Claire ficava, então, encarregada do cavalo do irmão, que
a seguia como se fosse um carneirinho, olhando para ela com seus grandes
olhos brilhantes e esticando o pescoço, em busca de um torrão de açúcar.
Esses foram dias tão felizes que Claire chegou a se esquecer das suas
amarguras. Embora nas noites de solidão em seu quarto imenso acabava
perdendo as esperanças. Acreditava, piamente, que tinha estragado a própria
vida, sem conserto. Nesta altura, já conhecia Philippe o suficiente para saber
que ele jamais voltaria atrás. Ele estava sendo fiel ao pacto. Tinha lhe dado
sua liberdade e ela estava desfrutando como bem desejasse. Com que alegria
ela teria se sacrificado por ele! Orgulhosa e impulsiva, ela tinha encontrado
um páreo a altura e foi com um gostinho de fel que se viu obrigada a
reconhecer que tinha sido dominada, que tinha surgido um homem que
pousara a mão sobre o seu ombro e a fizera se abaixar. Era este homem que
ela amava agora e exatamente por isso, estava disposta a ceder em todos os
aspectos.
Durante as longas horas de solidão, ela se culpava amargamente por não
ter percebido antes do casamento o ser superior que Philippe era. Só agora ela
reconhecia que o quão acima de todos ele estava. Aos poucos, foi
descobrindo com surpresa as outras tantas fontes de renda do magnata. Foi
Suzanne quem lhe contou sobre a fundição de Nivernais e que o irmão estava
prestes a se tornar um dos industriais mais ricos do país – a força dominante
do século.
Sentiu-se envergonhada ao lembrar-se de que tinha oferecido a este
homem seu modesto dote na ânsia de tentar compensar quaisquer
importunos! O que era o seu dote perto da fortuna de um dono de
siderúrgica? Uma gota d’água num oceano. E com isso, reconheceu o quão
odioso e ridículo tinha sido o seu orgulho. Pior, percebeu que Philippe só
podia sentir desprezo por ela e isso doeu profundamente. Mesmo assim
conseguiu esconder o sentimento de dor e de vergonha e buscou seguir o
exemplo do seu marido com uma determinação admirável.
E deste modo, seu amor por Philippe, passou a se tornar visível nos
pequenos detalhes. Seu rosto se iluminava sempre que ele se aproximava
dela. Ela estava sempre com olhos voltados para ele e invariavelmente fazia
algo que achava que pudesse agradá-lo. Suzanne exerceu uma parceria
valiosa neste jogo do amor. Numa tarde, no terraço, logo após o almoço,
enquanto mademoiselle Derblay se divertia passando um ramo de trigo no
pescoço de Claire, a última a segurou pelos ombros e puxou-a em sua
direção. Philippe estava sentado ao lado, tomando café indiferente e
observando distraído um bando de pássaros que sobrevoava barulhento o céu
azul. Claire segurou o rostinho da cunhada com as duas mãos e a encarou
com olhos cintilantes. Então, de repente, ela suspirou e pressionando os
lábios nos cachos que caíam sobre a testa de Suzanne, sussurrou:
– Oh, minha menina, como você se parece com seu irmão!
Philippe escutou com surpresa o suposto elogio. E essa foi a primeira vez
que Claire deixava escapar do seu coração algo tão espontâneo. Ele
permaneceu imóvel e então, levantou-se abruptamente e saiu sem dizer nada.
Madame Derblay enxugou uma lágrima que pingava de seus olhos, enquanto
Suzanne a envolvia em um abraço carinhoso.
– Está chorando – comentou a jovem. – O que aconteceu? Vamos, me
conte! Sabe o quanto gosto de você. Philippe a magoou? Se o fez, estou certa
de que foi sem querer… Quer que eu fale com ele?
– Não, não – respondeu Claire, tentando sorrir. – Só estou um pouco
sensível. Mas Philippe é perfeito. E eu, eu estou muito feliz – adicionou séria,
olhando nos olhos de Suzanne, mais para convencer a si mesma e ao se
endireitar: – Vamos dar um passeio – convidou, animada.
As duas seguiram rumo ao jardim, correndo uma atrás da outra como se
fossem duas meninas e rindo como se nada tivesse acontecido.
Esse foi um dos últimos dias relativamente felizes que Claire teve o
prazer de saborear. Na manhã do dia seguinte, o duque e a duquesa de Bligny
chegaram a La Varenne. Claireficou extremamente aborrecida ao ser
informada sobre a chegada do casal. Sua vontade era nunca mais por olhos
neles. Percebeu que Philippe estava mais atento e fez questão de transparecer
que estava calma. Na tarde daquele mesmo dia, assim que Suzanne se
recolheu, Philippe comentou com a esposa que eles deveriam se aproximar
mais dos vizinhos de La Varenne.
– O duque de Bligny é seu parente mais próximo depois do seu irmão –
disse ele, calmamente. –Aparentemente, não ocorreu nenhuma ruptura entre
ele e a sua família. Você mesma se esforçou para manter as boas relações na
época do nosso casamento. Não creio que seria bom alterarmos agora esta
linha de conduta. Creio que, se o duque e a duquesa de Bligny vieram nos
fazer uma visita, devemos recebê-los como parentes que somos, quer dizer,
da melhor maneira possível. Se fecharmos nossa porta para eles, podemos
acabar nos tornando alvo de comentários, o que de minha parte prefiro evitar.
Mesmo assim não quero impor minha opinião. Você, mais do que ninguém, é
a mais interessada na questão. Por favor, diga o que acha e agirei de acordo.
Claire permaneceu calada por um momento. Tinha a sensação de que a
volta do duque e Athénaïs representava uma grande ameaça. Sua intuição
dizia que se eles entrassem na sua casa, trariam junto uma desgraça
irremediável. Quase abriu seu coração para Philippe, para pedir que ele a
poupasse; mas lhe faltou coragem e ela acatou a decisão dele.
– Você está certo – disse, apenas. – Eles devem ser recebidos de acordo.
E agradeço por aceitar esta imposição, pois creio que a presença do duque
será tão dolorosa para mim quanto para você.
Philippe fez um sinal que não significou nem sim e nem não e a conversa
encerrou nestes termos.
CAPÍTULO XIII
O duque não se dispôs a ir para La Varenne de livre e espontânea
vontade tão facilmente. Como um parisiense nato, detestava a vida no campo
e os plátanos e as castanheiras dos bulevares da Avenida Champs-Élysées já
eram o suficiente para ele em termos de contato com a natureza. Gostava
mesmo era de ir ao clube, onde passava as tardes e a maior parte das noites.
Não era de forma alguma uma criatura contemplativa e odiava ler.
Quando seu sogro o levou para conhecer a estufa de La Varenne e lhe
mostrou orgulhoso a fantástica coleção de orquídeas que seu jardineiro, um
homem a quem ele tratava com deferência, tinha formado a um custo
altíssimo, o duque deu uma olhada para os vasinhos de flores enfileirados
simetricamente e murmurou um muxoxo:
– Muito bonito.
Então, arrancou uma das flores raras e enfiou na lapela do seu paletó. O
jardineiro ficou tão transtornado quando viu a flor, que tanto custo e carinho
tinha dado para ser produzida, sendo colhida tão sem cerimônia, que deixou
cair o vaso de begônia que segurava. Então olhou feio para Moulinet e se
retirou de cara amarrada.
– Você sabia que essa flor custou quinze libras? – comentou o ex-juiz do
Tribunal do Comércio com um sorriso orgulhoso.
– É mesmo! – o duque exclamou com a maior naturalidade. – Não vejo
nada de tão especial nela.
Moulinet olhou desconfiado para o genro, mas não ousou dizer nada. No
fundo ele tinha medo do duque. Sempre ficava desconcertado quando Gaston
o encarava com ares de superioridade. Uma noite em Paris, pouco tempo
atrás, ele comentou com o jovem mestre Escande, o tabelião:
– Podemos fazer o que quisermos, mas os nobres sempre serão
superiores.
Isso por que tendo, especialmente depois do seu interesse pela carreira
política, tendências igualitárias, ele não se sentia no mesmo nível do duque.
Como a estufa não impressionou, ele achou que teria mais sucesso nos
estábulos, onde tinha uma dúzia de cavalos para cavalgar e para puxar
carruagem, incluindo seu cocheiro, que diziam ser o melhor da região e que
por conta disso era muito bem remunerado.
Os estábulos de La Varenne eram de fato magníficos. Construídos em
estilo mourisco, o que agradou muito ao ex-juiz. Tanto que sempre que falava
sobre os estábulos, ele fazia questão de salientar:
– São muito parecidos com a Alhambra e o Liceu Chaptal de Paris.
Apesar de ser grotesco o paralelo traçado entre a maravilhosa construção
de Granada e o estabelecimento educacional do século XIX.
Mas voltando a La Varenne. O pátio central, com duzentos metros de
largura, era cercado dos quatro lados por uma série de construções que
abrigavam os estábulos, propriamente dito, a cocheira, a selaria e o depósito
de feno. Uma entrada monumental, com pilastras adornadas com cabeças de
cavalo em bronze, dava acesso ao pátio. Arcadas corriam ao longo das
construções, formando um corredor pavimentado coberto de três metros de
largura. Um cercado de madeira, pintado de branco, a uma altura ideal para
servir de apoio, separava as arcadas do pátio central do local onde os cavalos
eram domados e treinados.
A duquesa, trajando um vestido de seda de gola de renda veneziana e
carregando na mão cheia de anéis e uma sombrinha, acompanhava o marido e
o pai na visita ao estábulo. Ela pisou com todo cuidado com seus sapatinhos
na beirada da forragem de palha para ver os cavalos, instalados em baias
separadas, acima das quais havia uma plaquinha com o nome de cada animal.
Os estábulos agradaram ao duque, mas já para os cavalos nem tanto. O
responsável pelo estábulo fez de tudo para arrancar elogios, mas foi em vão.
Logo de cara, o duque apontou um defeito em cada animal, o que acabou por
despertar certa desconfiança em M. Moulinet.
Mais tarde a coisa toda foi esclarecida e o resultado foi que o genro de M.
Moulinet, que era um grande conhecedor de cavalos, apontou que o
funcionário tinha feito seu patrão pagar seis mil francos por animais que não
valiam mais do que oitocentos. O duque expressou sua opinião de uma
maneira que conquistou a estima do cocheiro:
– Roube o seu patrão, meu caro; isto é até natural. Mas, por favor, arrume
alguns animais decentes para ele.
Depois do fracasso com a estufa e com os estábulos, o ex-juiz do Tribunal
do Comércio descobriu que não tinha mais nada de bom para exibir para o
genro. A companhia da sua esposa e do seu sogro, logo cansou Gaston. Ele
preferia a solidão a estar com eles e todas as tardes, logo após o almoço, ele
se fechava na sala de fumar, onde, esticado confortavelmente no divã de
couro, tirava um cochilo. Após uma semana nesta vidinha, sentindo que não
conseguiria suportar mais e ciente de que se permanecesse em La Varenne
acabaria perdendo a calma e a compostura com esposa e com o sogro, ele
resolveu dizer a eles que um assunto urgente pedia sua presença em
Trouville, quando Athénaïs sugeriu, do nada, que eles fossem visitar os
Derblay em Pont-Avesnes. O convite surpreendeu o duque e a princípio não
agradou. Com o tempo, ele tinha se esquecido de Claire, mas ainda se
lembrava muito bem do dono da siderúrgica. Pouco se importava a esposa,
mas nutria sentimentos de vingança contra o marido. Por quê? Isso ele teria
vergonha de responder. Talvez fosse porque Philippe tivesse ajudado Claire a
afrontá-lo publicamente. Talvez porque o dono da siderúrgica fosse o oposto
dele. Em todo caso ele não gostava do homem a quem se referia, entre os
íntimos, como o “ferreiro”.
Por outro lado, sentiu uma pontinha de curiosidade para saber qual tinha
sido o resultado do casamento decidido em circunstâncias estranhas; e por
tudo isso não foi preciso muito esforço para convencê-lo a acompanhar seu
sogro e Athénaïs durante a visita aos Derblay. Ao que ele disse consigo
mesmo:
– Posso adiar por dia a minha viagem para Trouville e assim mostrar
alguma consideração à pobre Claire. É o mínimo que posso fazer.
Ele, no fundo, sentia pena dela; e fazia uma péssima imagem da vida que
a mulher com que ele tivera intenção de se casar agora levava. Imaginava que
ela tinha se transformado em uma mulher de mente estreita e restrita,
totalmente absorvida com os cuidados com a casa. Um pouco mais e ele teria
imaginado a prima orgulhosa arrumando os livros do marido, com luvas
pretas para proteger as mãozinhas.
Só tinha visto Pont-Avesnes na penumbra danoite e ficou surpreso
quando se viu à luz do dia, cercado pelo belo jardim estilo francês e notou o
aspecto severo e imponente do château. Os criados pareciam muito educados
e não tinham nada de interioranos. As salas se mostraram esplendorosamente
luxuosas e ele foi obrigado a admitir consigo mesmo que a casa de M.
Derblay era invejável.
Ele ficou abalado quando Claire apareceu. Ela não parecia mais a mesma.
Não que estivesse mais bela do que antes, mas parecia deveras mudada:
simples e serena, com um brilho imponente nos olhos que o impressionou. M.
Derblay, por sua vez, se mostrou muito simpático para desagradar o duque,
que pela primeira vez notou que o magnata ostentava a fita da Legião da
Honra. Bligny mergulhou em reflexões. Pouco falou, além o apropriado, com
o propósito de não despertar, logo no primeiro dia, as suspeitas de Philippe.
No caminho de volta para La Varenne o duque se mostrou muito calado;
mas no jantar estava muito alegre, falante, brincando com M. Moulinet e
tentando parecer o melhor genro do mundo. De repente, a apatia o
abandonara e na manhã seguinte nem voltou a falar sobre o compromisso que
exigia sua presença o mais rápido possível em Trouville.
Pelo contrário, passava mais tempo ainda na sala de fumar, só que agora
não dormia mais. Passava as tardes confortavelmente instalado no divã,
fumando aqueles cigarros orientais que estimulam a imaginação. Ficava
vendo a fumacinha subindo lentamente em espirais azuis em direção ao teto,
como se estivesse vendo alguma aparição etérea em meio aos círculos
girando. Na sala escurinha, ele via o rosto de Claire, do jeitinho que tinha
visto da última vez. Fechava então os olhos, mas mesmo assim continuava
vendo sua imagem.
A visão o deixou nervoso, e, para fugir dela, ele tentou se exercitar ao ar
livre. Escolheu um dos cavalos que M. Moulinet tinha pago uma fortuna, mas
que não valia nada, mandou selar e saiu cavalgando pelo parque. Eram quatro
da tarde e os barulhinhos distantes começavam a impregnar a floresta.
Coelhos corriam entre as moitas, e, vez ou outra, uma pega assustada voava
barulhenta para um carvalho mais alto. O dia tinha sido quente, mas agora o
delicioso frescor de fim de tarde tomava conta do bosque. A terra exalava
odores deliciosos e os raios do sol se pondo a oeste penetravam entre as
folhas das árvores. O duque resolveu espantar o sono e cravou as esporas no
cavalo. Sem perceber acabou cruzando o limite do parque e agora estava
correndo pela floresta. Mesmo assim, a visão encantadora não saía da sua
cabeça e parecia flutuar diante de seus olhos, levando-o para cada vez mais
distante. Até que finalmente ele se viu diante de uma planície de terras
cultivadas. Além do campo, avistou um muro baixo, sobre o qual os galhos
das árvores frondosas pendiam pesados, com uma clareira espaçosa,
delimitada por um canal profundo. O duque virou mecanicamente naquela
direção. Um extenso tapete verde se estendia diante de seus olhos, e, além, se
erguia uma imponente construção branca. Ele foi em frente; tinha acabado de
reconhecer Pont-Avesnes.
E assim, o destino o atraiu para a mulher de quem ele estava fugindo.
Seria possível que o destino realmente estivesse tentando unir aqueles que ele
mesmo tinha separado?
Bligny começou a sorrir. Lembrou-se do que tinha dito ao barão na noite
do casamento:
“Os ferreiros sempre foram uns tipos azarados desde a era dos vulcões.”
Mas se esqueceu do aviso de Préfont sobre o martelo terrível dos
ferreiros. De qualquer forma, medo nenhum iria impedir o duque de
satisfazer as suas fantasias. Ele colocou o cavalo para galopar novamente e
após tomar uma decisão final, retornou tranquilo para La Varenne.
Nada poderia ameaçar mais a paz de M. Derblay do que as novas
intenções do duque. Entre a frieza de Philippe e o assédio de Gaston, Claire
estava prestes a se ver numa situação difícil, senão perigosa.
Evidentemente o dono da siderúrgica deve ter se arrependido de ter
tratado Gaston com tanta cordialidade. Teria sido mais fácil para ele manter
certa distância dos parentes da sua esposa e estabelecer uma relação de boa
vizinhança apenas. Philippe não era de se deixar influenciar com facilidade,
e, como via de regra, todas as suas decisões eram levadas a ferro e fogo.
Assim, como parte dos seus planos de abrir as portas da sua casa, ele se
rendeu a amabilidade espalhafatosa do duque e da duquesa. Durante as
longas horas que passou ao lado da cama da sua esposa, enquanto ela estava
entre a vida e a morte, ele repensou cuidadosamente todos os acontecimentos
que antecederam seu casamento. Percebeu como Athénaïs tinha se vingado
impiedosamente da sua rival e deu a duquesa a sua parcela de culpa. Quanto
mais a culpava, mais desculpava Claire. Mesmo assim achou importante não
abandonar o rigor com o qual vinha tratando sua esposa orgulhosa.
Na batalha que eles estavam travando o vitorioso deveria ser ele. Claire
seria testada em uma prova de fogo, pois só assim ele poderia apagar para
sempre a afronta injusta que ela fizera. Sua intuição dizia que Athénaïs estava
disposta a participar deste joguinho perigoso. A batalha seria disputada de um
lado entre a duquesa e Claire e do outro entre o duque e ele. Philippe sabia
que seria uma disputa dura, cheia de armadilhas traiçoeiras e surpresas
terríveis; que talvez pudesse acabar com a morte de um homem – a dele ou a
de Gaston. Mesmo assim ele não hesitou. Afinal, o que tinha a perder? Seu
futuro já estava comprometido; a sua felicidade perdida. Para ele era
vantagem arriscar. Mas para tal estava tão cauteloso quanto resoluto e
determinado a tomar todas as precauções para assegurar sua vitória. Não
poderia defender Claire ostensivamente, mas como seria perigoso abandoná-
la com seus próprios recursos, ele resolveu arrumar um aliado para ela. Para
tal convidou o barão e a baronesa de Préfont para passarem algumas semanas
em Pont-Avesnes. Com as respectivas forças equilibradas, agora era só
esperar pelo confronto.
Assim que a duquesa de Bligny chegou a La Varenne, viu-se logo que a
sua intenção era agitar a vidinha pacata da região. La Varenne se tornou o
cenário de várias festas promovidas por Athénaïs para divulgar sua chegada.
Apesar de não passar de uma recém-chegada, ela deixou claro que sua
ambição era se transformar na soberana incontestada local, impondo a sua
extravagância, vivacidade e excentricidade. Para tal mandou vir dois dos seus
seguidores de Paris – o gordo La Brède e o mignon Du Tremblays – as duas
figuras de maior destaque do seu famoso grupinho de admiradores.
– La Bréde e Du Tremblays – disse ela, rindo, – vão se comportar
direitinho no campo. Vou atrelar os dois juntinhos num poste e amarrar um
monte de sininhos neles, assim as pessoas vão pensar que estão em maior
número.
A verdade é que separados os dois amigos até que se comportavam bem,
mas juntos eram terríveis. Lembravam o ditado que diz que menos com
menos dá mais. A dupla chegou de Paris com toda a parafernália para o
cotillon, jogos de tênis e polo, e, como se o diabinho que agita todos os
parisienses tivesse vindo dentro da mala, assim que os dois pisaram em La
Varenne a vida esquentou por lá. Besançon colocou a disposição uma
orquestra de dez músicos para a duquesa, pois todos os sábados eram
oferecidos bailes no château. Os jovens de Jura ficaram sabendo com uma
mistura de surpresa e entusiasmo que madame de Bligny estava disposta a
animar a região. Carruagens de todos os tipos, algumas da época da
Restauração, vinham das mansões vizinhas direto para La Varenne. Os belos
nobres de caras vermelhas, cujos músculos eram tão firmes quanto suas
montanhas rochosas, laçavam bolas de tênis, galopavam pelos campos de
polo, batiam uns nos outros com seus tacos e à noite valsavam com uma
energia inesgotável.
– Sabe de uma coisa, duquesa, seus provincianos são de uma raça muito
boa! – exclamou La Brède. – Eles erguem as suas parceiras de dança como se
elas fossem penas e nunca se cansam. Estou pensando em levar alguns para
Paris, no inverno; eles vão animar os nossosE como posso evitar torturar a minha mente, como diz, ao
tentar adivinhar o motivo do silêncio dele?
– Reconheço que é difícil encontrar uma justificativa – retomou a
marquesa. – Depois de passar uma semana conosco no ano passado, meu
sobrinho, o duque de Bligny, partiu, prometendo voltar para Paris no inverno.
Em seguida escreveu, dizendo que complicações políticas tinham detido a sua
correspondência. Depois deu a desculpa de que como o inverno já tinha
passado, ele deveria esperar até o verão antes de retornar à França. O verão
chegou, mas nada do duque. Agora já estamos no outono e Gaston ainda não
nos agraciou com sua presença. Nem mesmo se deu ao trabalho de escrever
para nós. Se for apenas uma questão de negligência, já passou dos limites.
Minha querida, tudo está se degenerando. Até mesmo os homens do nosso
círculo não sabem mais como se portarem com educação.
Enquanto falava, a marquesa ergueu a cabeça grisalha, que a fez parecer
com uma daquelas grandes damas com cabelo empoado, encerradas em suas
belas molduras douradas, que parecem sorrir para todos ao redor da sala de
estar.
– Mas suponhamos que ele tenha ficado doente – Claire se aventurou,
disposta a defender seu amado. – Suponhamos que tenha sido impedido de se
comunicar conosco?
– Isso está fora de questão – respondeu a marquesa sem piedade. – A
Embaixada teria nos informado, se fosse o caso. Pode estar certa de que ele
se encontra gozando de boa saúde, vistoso e feliz e que liderou o cotillon
durante todo o inverno nos salões de baile de São Petersburgo.
Uma contração nervosa enrugou o rosto de Claire e ela empalideceu
como se todo o sangue das suas veias tivesse corrido para seu coração. Então,
forçando um sorriso, disse:
– Ele me prometeu várias vezes que viria e passaria o inverno em Paris e
eu não via a hora de poder aparecer ao lado dele na sociedade. O sucesso dele
teria sido o meu triunfo e quem sabe ele notaria o meu. Preciso confessar,
maman, que ele não é ciumento, apesar de ter motivos para tal. Sou cortejada
aonde vamos e não tenho sossego nem mesmo neste deserto que é Beaulieu.
Parece que atraí a atenção do nosso vizinho, o dono da siderúrgica.
– Monsieur Derblay?
– Sim, maman, monsieur Derblay. No domingo, durante a missa, você
não deve ter notado, pois estava muito concentrada, mas enquanto eu lia as
minhas preces ao seu lado, sem saber por que, dispersei. Alguma coisa mais
forte do que eu atraiu a minha atenção e, sem querer, eu virei, ergui os olhos
e percebi monsieur Derblay.
– Ele estava rezando?
– Não, maman; ele estava olhando para mim. Nossos olhos se
encontraram e pude perceber nos dele um tipo de invocação muda, como se
isto estivesse lá. Abaixei a cabeça e até o final da missa me policiei para não
olhar na direção dele novamente. No entanto, quando estávamos saindo da
igreja, eu o vi esperando no alpendre. Ele não ousou me oferecer água benta,
mas se curvou uma reverência exagerada e, quando estávamos passando,
senti os olhos dele me seguindo. Parece que aquela foi a primeira vez que ele
foi visto na missa neste ano.
Enquanto Claire terminava de contar a aventura, a marquesa retornou ao
seu assento anterior e depois de se acomodar na poltrona, exclamou:
– Bem, que a ida dele à igreja talvez sirva ao menos para aumentar as
suas chances de salvação. Mas de qualquer maneira, em vez de ficar de olho
em você, teria sido bem melhor se ele nos indenizasse por ter invadido as
nossas terras. Para mim ele fez um papel ridículo com esta invocação muda,
isso sim. E você deve estar mesmo com a cabeça muito desocupada, Claire.
Pare de perder tempo com os sinais desse serralheiro, que um dia desses vai
acabar nos deixando surdas com as marteladas dele.
– Mas, maman, a postura de monsieur Derblay foi respeitosa e não tenho
motivos para reclamar dele. Além do mais, só falei dele como um exemplo;
um de muitos. Apesar de as pessoas dizerem que o coração das mulheres é
instável, o duque está longe e aqui estou eu, igual Penélope, esperando pelo
dia do retorno que nunca chega. Será que nunca passou pela cabeça de
Gaston que eu posso cansar de esperar? Ele deveria, mas acho que não o fez.
E assim continuo aqui, paciente e fiel…
– E está agindo muito errado! – exclamou a marquesa, altiva. – Se eu
estivesse no seu lugar…
– Não, maman – interrompeu mademoiselle de Beaulieu, com uma
firmeza solene –, não estou agindo errado. Além do mais, a minha conduta é
natural e não merece elogios, pois amo o duque de Bligny.
– Você o ama! – retomou a marquesa, incapaz de esconder a irritação. –
Como exagera! Que ideia essa de transformar uma amizade de infância em
amor profundo, de igualar um laço de amizade a um laço para a vida toda?
Você e Gaston cresceram juntos, por isso você achou que fossem continuar
vivendo assim, juntos, e, por conta disso, imaginou que nunca seria feliz a
menos que se casasse com o duque. Mas tudo isso não passa de tolice, minha
criança.
– Maman! – Claire exclamou exasperada.
Mas a marquesa era muito experiente e a oportunidade que se apresentava
para aliviar sua consciência era tão boa, que foi impossível deixar escapar.
– Você está se enganando ao respeitar o duque – ela retomou. –
Considerando que ele é fútil e frívolo. Como muito bem sabe, ele tem certos
hábitos independentes que jamais seria capaz de abandonar; e prevejo muitas
decepções para você no futuro. Posso lhe dizer o que penso de verdade? Digo
que haverá motivos para arrependimento, caso este casamento venha a se
concretizar.
Claire levantou-se abruptamente e um rubor intenso tomava conta de seu
rosto. Por um momento mãe e filha ficaram olhando uma para a outra sem
nada dizer. Era como se as primeiras palavras que trocassem pudessem ser
excepcionalmente graves. Mademoiselle de Beaulieu, sem poder se conter
mais, finalmente se manifestou com a voz trêmula:
– Esta é a primeira vez que fala comigo neste tom, maman. Acaso quer
me preparar para más notícias? A ausência do duque tem algum motivo mais
grave que está escondendo de mim? Foi informada de algo…
A marquesa se assustou com a reação exacerbada da filha. E, com isso,
constatou o quão profundamente e firme Claire estava ligada ao duque de
Bligny. Percebeu que tinha ido longe demais e, recuando, retomou:
– Não, minha criança, não sei de nada; nada me foi dito. Acho até que
merecia saber. Estou abismada com este longo silêncio por parte do meu
sobrinho e tenho a impressão de que Gaston está levando a diplomacia muito
longe.
Um peso foi tirado do coração de Claire; ela se sentiu segura novamente e
atribuiu o tom carregado da mãe a um sentimento de descontentamento que
ela mesma não conseguia considerar injustificado. Recuperou então a
serenidade e retomou:
– Tenhamos um pouco mais de paciência, maman. Estou certa de que o
duque tem pensado em nós e que em breve irá nos surpreender chegando
inesperadamente.
– Espero que sim, minha querida, uma vez que é isto que deseja. Em todo
caso, meu sobrinho De Préfont e sua esposa chegam hoje de Paris e talvez
estejam melhor informados do que nós.
– Ah, veja! – interrompeu mademoiselle de Beaulieu, neste ponto –,
Octave está vindo pelo terraço com monsieur Bachelin, o tabelião.
Vendo nisso a oportunidade de por um fim ao tema doloroso, ela se
levantou animada e cruzou a sala de estar até o lance de escadas que conduzia
ao terraço, avançando assim na direção da luz do sol.
Com 22 anos, Claire estava no auge da beleza. Sua figura alta era
delicadamente proporcional: um busto magnífico, braços longilíneos que
terminavam em um par de mãos dignas de uma rainha. Seus cabelos dourados
estavam presos ao alto da cabeça, como se para permitir uma visão completa
do alvo pescoço. Levemente inclinada para frente, com as mãos apoiadas
sobre a balaustrada de ferro, tocando sem perceber uma das trepadeiras que
se enroscavam ao redor das barras, ela parecia a encarnação da juventude em
toda a sua graça e vigor.
Madame de Beaulieu, por um breve momento, ficou observando
admirada a filha; então chacoalhou a cabeça em silêncio e deixou escaparcotillons e acho que serão muito
disputados no mercado.
– Com certeza – endossou Du Tremblay; – mas pena que esses
provincianos musculosos puro-sangue geralmente não se adaptam muito bem
em Paris. Depois de uns seis meses ele perdem a cor e as forças. Não são de
uma raça que se ajusta bem a um novo ambiente.
Enquanto os dois parisienses se entretinham com essas considerações
profundas sobre as habilidades dos dançarinos provincianos, os dez músicos
animavam o salão de baile de La Varenne. Pouco se importando com a
opinião das outras pessoas e desprezando as críticas, a juventude de
Besançon se entregou a dança com um fervor que alegrou o coração de
Moulinet. O ex-juiz viu com bons olhos o modo como a filha animou a
sociedade aristocrática do seu distrito eleitoral e na sua posição de futuro
candidato, comentou consigo mesmo:
– Tantos convidados, tantos eleitores!
Consequentemente, ele deu carta branca à duquesa para gastar o que fosse
preciso. E enquanto as esposas e filhas dançavam, ele se ocupava tentando
conquistar a confiança dos pais e dos maridos. Mas uma coisa ainda o
preocupava. Nem o prefeito e nem o delegado de Besançon tinham dado as
caras nas festas de La Varenne. Talvez o prefeito considerasse os convidados
demasiadamente aristocráticos. Quanto ao delegado, este tinha sido
repreendido por ter permitido que seus soldados apresentassem as armas ao
bispo durante uma procissão e sem dúvida achou por bem não aparecer nos
salões da duquesa.
– Que importa se o prefeito não veio, contanto que ele vote no senhor –
disse Athénaïs a Moulinet, quando este expressou a sua ansiedade. – Afinal
ele foi atacado no Courrier, papa. Quer que eu peça para La Brède escrever
um artigo? Vai ser engraçado. Quanto ao delegado, esqueça; os soldados não
votam mesmo.
Athénaïs tinha suas próprias preocupações; e, do seu ponto de vista, eram
bem mais sérias do que as do seu pai. Madame Derblay enviara um pedido de
desculpas, dizendo que não poderia comparecer ao baile de sábado. Ela
explicou que ainda não estava totalmente recuperada para ficar acordada até
mais tarde. Na verdade, a duquesa só estava oferecendo a tais festas com a
intenção de se exibir para Claire, e, portanto, mal conseguia esconder a raiva
que a ausência da sua rival lhe causava. Ela teve chiliques e crises de mau
humor que afetaram a alegria de todos ao seu redor. Tinha prometido a si
mesma que teria esse prazer, mas tinha sido tudo em vão, uma vez que ela
não poderia sobrepujar a rival com sua grandeza, apunhalá-la ao aparecer de
braços dados com o homem com quem ela sonhara se casar, ou vê-la
tremendo de raiva cada vez que alguém se dirigisse a ela, Athénaïs, como
madame la Duchesse.
O ódio de Athénaïs talvez tivesse sido aplacado com o espetáculo que
seria a humilhação de Claire, a tortura que esta teria de suportar; mas este só
aumentou diante da resistência e do seu semblante tranquilo e arrogante.
Claire apareceu uma única vez em La Varenne e se portou com astúcia. A
petulante e soberba duquesa mostrou a sua verdadeira faceta diante desta
mulher elegante e digna – ou seja, como se fosse uma donzela, que dizia e
fazia o que lhe desse na cabeça e com a vulgaridade audaciosa de um novo
rico ostentador. A diferença entre as duas era gritante e todas as vantagens
estavam do lado de Claire. Athénaïs percebeu e jurou que iria se vingar. Esta
jovem com fartos e brilhantes cabelos castanhos-escuros, um rosto
encantador, olhos vivos e um sorriso envolvente, era na verdade um dos seres
humanos mais perversos na face da Terra. Se tivesse certeza de que não seria
punida, ela seria capaz de jogar ácido na cara de Claire, só para desfigurá-la
para sempre e queimar aqueles olhos tão encantadores e claros, mas onde ela
só via desprezo. A duquesa ficou ainda mais irritada com a boa relação que
parecia prevalecer entre monsieur e madame Derblay. O marido se mostrou
gracioso, amável e atento; a esposa deu todos os sinais de respeito e afeição.
Não restava dúvida quanto à sinceridade do sorriso de Claire quando Philippe
estava por perto, oferecendo proteção com sua presença: ela o amava e
certamente era retribuída. Como o dono da siderúrgica não iria amar um ser
tão perfeito, tanto fisicamente como moralmente? Além do mais, ele já não
tinha se casado com ela por amor? Passado por cima de toda a humilhação da
situação sui generis, aceitando uma mulher arruinada e preterida pelo duque?
Sim, ele tinha feito tudo isso, calado e feliz por tê-la, como se ela fosse uma
joia rara e preciosa!
Então o destino de Claire era ser amada, enquanto o de Athénaïs era o de
nunca inspirar uma afeição sincera e verdadeira em um homem. Ela já tinha
sido cortejada, sem dúvida, mas tudo não passara de galanteios de salão,
flertes; o que eram esses caprichos passageiros comparados ao amor
profundo e imutável que Claire tinha o poder de inspirar?
No seu ódio invejoso, Athénaïs começou a prestar mais atenção em M.
Derblay. Com a intenção de conquistar a sua estima, passou a se portar com
mais comedimento e conseguiu monopolizá-lo por parte da noite. Achou-o
bem-apessoado. Com seu rosto bronzeado, os cabelos castanhos-escuros
cortados bem curto e os imensos olhos castanhos, que davam a ele uma
aparência de árabe. Quando se deu conta, Athénaïs percebeu que aquele
homem tinha mexido com ela; nunca um homem tinha despertado tais
sentimentos e ela achou que se fosse capaz de se apaixonar por alguém, este
alguém certamente seria Philippe Derblay. Só de pensar no desgosto que
infligiria contra Claire seus olhos brilharam e ela deu vazão a sua faceta
sedutora com uma desenvoltura que surpreendeu a si mesma. Sentiu uma
satisfação diabólica ao ver Claire cabisbaixa e preocupada, assistindo ao
joguinho com um jeito aflito. Athénaïs via na cara da rival o quanto ela
estava sofrendo e percebeu que tinha encontrado um ponto fraco na
armadura; um que poderia lhe dar a chance de desferir o golpe fatal.
A atitude de Philippe, por outro lado, era a de um homem educado que
estava sendo tratado com distinção pela dona da casa. Agiu com naturalidade
diante do assédio da duquesa, permitiu que ela o conduzisse de braços dados
por um tour pela casa, sempre respondendo com cordialidade. Deu atenção
suficiente para se mostrar uma companhia agradável e frio o bastante para
evitar que pudessem dizer que tinha agido de uma maneira diferente do que
teria com qualquer outra mulher. Mesmo assim, apesar de todo seu
autocontrole, um observador mais atento teria percebido o quanto ele estava
na verdade aborrecido. Enquanto a duquesa, comportando-se como um
pavão, se apoderou dele para lhe mostrar a sala de estar e a estufa, ele viu
Bligny se aproximando de Claire, inclinando-se por trás da poltrona dela e
falando com um sorrisinho no rosto. Esta foi a primeira vez que ele viu
Gaston e Claire juntos, trocando confidências sem serem ouvidos. Ele
estremeceu, sentiu um rubor subindo para seu rosto. Por um momento, sofreu
tanto que seus braços enrijeceram e sem querer ele apertou a mão da duquesa
ao lado do seu corpo. Ela olhou assustada para ele. Eles estavam na pequena
estufa à qual Moulinet se referia como “os trópicos” e onde várias plantas
venosas da África e das Índias eram mantidas numa atmosfera quente e
úmida.
– O que aconteceu? – perguntou a duquesa sorrindo, pressionando
levemente o braço do cavalheiro como que para revidar.
– O cheiro forte destas plantas e o ar abafado da estufa estão me fazendo
mal – respondeu o magnata, tendo recuperado a calma. – Se não se importa,
eu preferia retornar para a sala de estar.
E, com a duquesa ainda de braços dados, ele voltou lentamente para a
sala, sem tirar os olhos do duque e de Claire, que ainda conversavam.
Logo após o jantar, Gaston conduziu os homens para a sala de fumar,
onde tinha colocado à disposição uma variada coleção de charutos e cigarros.
Em torno de meia hora depois, no entanto, ele declarou que precisava atender
as suas obrigações de anfitrião e abandonou os fumantes em meio a uma
espessa nuvem de fumaça. Estava ansioso para se aproximarum
longo suspiro. O cascalho abaixo do terraço crepitava sob os passos dos
recém-chegados, cujas vozes já flutuavam confusas pela sala de estar.
Mestre Bachelin, o tabelião, era um homem baixinho com sessenta e
poucos anos, encorpado por conta do trabalho sedentário. De cabelos
grisalhos e rosto vermelho barbeado, roupas pretas solenes com um
pedacinho do punho encobrindo as mãos, ele era o retrato perfeito do tabelião
tradicional do antigo regime. Muito apegado aos seus clientes nobres,
invariavelmente repetindo a expressão consagrada: “Madame la Marquise”
num tom de voz devoto e cansativo, ele cuidava dos direitos hereditários da
família Beaulieu. Na verdade, os Bachelin eram tradicionalmente os tabeliões
de todos os lordes de Beaulieu; e o homem digno que acabamos de apresentar
se orgulhava de possuir em seu escritório várias escrituras da época do
reinado de Luís XI, onde figuravam a assinatura grosseira do Marquês de
Honoré-Onfroy-Jacques-Octave de Beaulieu e a assinatura floreada do
Mestre Joseph-Antoine Bachelin, tabelião real.
O digno tabelião ficou em júbilo quando foi informado sobre o retorno da
família de Beaulieu para o château, pois naturalmente esperava cair na graças
deles novamente. Por muito tempo se preocupou com a ausência dos seus
nobres clientes e agora que estavam visitando a bela propriedade, ele
esperava que retomassem a prática de passarem o verão lá. Na ânsia de exibir
seu conhecimento e perspicácia, ele se colou à disposição da madame de
Beaulieu para desvendar os emaranhados dos processos legais ingleses. Ao
longo de seis semanas ou mais, ele se correspondera ativamente com os
advogados de Londres e acelerou espantosamente o andar da ação judicial.
Na verdade, naquele um mês e meio mestre Bachelin tinha feito muito mais
do que qualquer outro conselheiro legal da família Beaulieu fizera em dez
anos; e apesar da opinião desfavorável que ele expressou a respeito do
resultado da ação, a marquesa ficou encantada com sua ajuda e impressionada
pelo fervor por ele demonstrado. Ela percebeu que ele era um daqueles
conselheiros devotados, merecedor de ser elevado à categoria de amigo e,
assim, passou a tratá-lo como tal.
A caminho do château, mestre Bachelin encontrou o jovem marquês no
portão de entrada, e, ao perceber que Octave estava sobrecarregado, se
ofereceu para ajudar carregando a sua arma, que levou embaixo do braço
esquerdo, enquanto embaixo do direito trazia o que parecia ser uma pasta de
couro cheia de papéis.
– Vejo que está com dificuldade para se locomover, pobre monsieur
Bachelin! – exclamou Claire alegremente ao tabelião, que, enquanto subia
apressado os degraus, ainda tentou em vão se curvar em uma cortesia e tirar o
chapéu.
– Peço que aceite a garantia do meu mais profundo respeito,
mademoiselle – respondeu o tabelião. – Mas como pode perceber, trago
comigo os símbolos do direito e do poder: o código embaixo de um braço e
uma arma embaixo do outro. Mas a arma está embaixo do braço esquerdo.
Cedant arma togae! Desculpe; sem dúvida não entende latim. Não passo de
um pedante.
– Oh, minha irmã sabe o suficiente de latim para compreender o que
acabou de dizer – observou o marquês, rindo. – Quanto ao senhor ser
pedante, discordo e prefiro pensar que é o melhor sujeito que conheço.
Agora, devolva, por favor, a minha arma. Obrigado.
E pegando a arma, Octave subiu os degraus logo atrás do tabelião.
– Pelo visto a caça foi boa – comentou mademoiselle de Beaulieu, logo
após avaliar o peso da bolsa de caça dele e acompanhando o irmão até a sala
de estar.
– Oh, serei humilde! Não mereço as honras. Para dizer a verdade, estes
animais não foram abatidos por mim.
– Quem os matou, então?
– Não sei – respondeu o marquês; e após um gesto de indagação da irmã,
ele adicionou: – Sério, não sei. O fato é que acabei indo parar em Pont-
Avesnes sem querer, onde encontrei outro caçador, que se aproximou e
perguntou quem eu era. No começo ele pareceu um pouco arrogante e parecia
não estar para muita conversa, mas assim que falei meu nome, ele se mostrou
não apenas educado, mas muito amável e praticamente me forçou a aceitar
tudo que ele trazia na sua bolsa de caça.
– Que estranho! – exclamou mademoiselle de Beaulieu. – Talvez a
intenção do estranho fosse pregar uma peça em você.
– Não creio. Ele pareceu ansioso em me agradar; e, na verdade, assim que
depositou a caça na margem de uma vala para que eu a pegasse, ele saiu
andando o mais rápido que suas pernas conseguiam levá-lo, para assim evitar
que eu recusasse o presente.
– Monsieur le Marquis permite que eu lhe faça uma pergunta? – indagou
mestre Bachelin, que até então escutava tudo atentamente.
– Certamente, meu caro senhor.
– Bem, como era a pessoa?
– Oh! Ele era um sujeito alto, muito moreno, usava uma camisa azul e um
chapéu velho de feltro cinza.
– Ah, ah! Não me enganei – murmurou o tabelião consigo mesmo; e
adicionou baixinho: – Bem, creio que posso informar a quem deve o
misterioso presente, Monsieur le Marquis. A pessoa que conheceu era
simplesmente monsieur Derblay.
– Monsieur Derblay! – exclamou o marquês. – Mas como, vestindo uma
camisa igual a de um camponês e com um chapéu velho como se fosse um
caçador qualquer? Não pode ser!
– Não se esqueça, Monsieur le Marquis – retomou mestre Bachelin com
um sorriso, – que somos todos caçadores rústicos por aqui. Veja por mim, por
exemplo: gosto de me vestir bem em determinadas circunstâncias, mas eu o
assustaria se me encontrasse em um bosque caçando. A pessoa com quem
falou era monsieur Derblay, pode estar certo disso. E mesmo que não o
tivesse reconhecido por causa da impressionante descrição que fez dele,
aquele amável presente que ganhou já seria o suficiente para sanar todas as
minhas dúvidas. Oh, com certeza era ele.
– Bem, se este é o caso, até que fui educado. Mas sem querer me referi a
ele como o vizinho irritante e fiz todo tipo de comentários desagradáveis.
Agora terei de me retratar com ele.
– O senhor não precisará se dar ao trabalho, Monsieur le Marquis. Se
tiver a gentileza de informar madame de Beaulieu sobre a minha chegada eu
o colocarei a par, na presença dela, das questões que estou certo irão mudar a
sua opinião sobre monsieur Derblay.
– Dou-lhe a minha palavra que é o que mais anseio – respondeu Octave,
livrando-se da sua parafernália de caça. – O sujeito me pareceu muito
simpático.
Com estas palavras o marquês entrou na sala de estar, se aproximou da
mãe e, beijando a sua mão respeitosamente, disse: – Mestre Bachelin está
aqui, maman e gostaria de falar com a senhora.
– Por que não o manda entrar? – respondeu ansiosa a marquesa. – Ouvi
vocês conversando nos degraus da entrada agorinha. Boa tarde, meu caro
Bachelin.
E enquanto o tabelião se curvava numa cortesia exagerada, até onde a sua
corpulência podia permitir, a marquesa adicionou: – Trouxe alguma notícia
boa?
A expressão no rosto de Bachelin mudou e, em vez de um sorriso seu
semblante, mostrou preocupação. Em alusão à pergunta da sua nobre cliente,
ele respondeu num tom sério: – Eu trouxe algumas novidades, sim, madame
la Marquise.
Então, como se ansiasse por passar para um tópico mais agradável, ele
retomou:
– Estive em Pont-Avesnes nesta manhã, onde me encontrei com monsieur
Derblay. Todas as pendências relacionadas à disputa entre a senhora e ele,
referente à fronteira das propriedades, foram sanadas, pois meu bom amigo
aceitou quaisquer condições que a senhora possa impor. E disse ainda que
terá o maior prazer em se colocar à vossa disposição.
– Mas se esse é o caso – disse madame de Beaulieu com certo embaraço,
– não temos nenhuma condição a impor. Como não há uma disputa, não há
nem vitorioso ou perdedor. A questão deve ser avaliada pelo senhor, meu
caro Bachelin e aceitarei qualquer que seja a sua decisão.
– A sua decisão muito me agrada e fico feliz em saber que a paz se
restabeleceu entre o château e o dono da siderúrgica. O próximo passo agora
é assinar as preliminares e, com este intuito, monsieur Derblay se dispõe a
fazer uma visita a Beaulieu acompanhadoda sua irmã, mademoiselle
Suzanne, para apresentar seu respeito à senhora, madame la Marquise; isso,
se a senhora fizer o favor de autorizá-lo.
– Oh, certamente. Deixe-o vir. Quero muito conhecer esse ciclope que
está pretejando todo o vale. Mas não creio que seja apenas o tratado de paz
que esteja enchendo a sua pasta – observou madame de Beaulieu, apontando
para a pasta de couro do tabelião. – Sem dúvida deve ter trazido alguns
documentos novos, referentes àquela nossa ação judicial na Inglaterra.
– Sim, madame la Marquise, sim – respondeu Bachelin, com evidente
perturbação, – vamos falar de negócios, se é o que deseja.
Enquanto falava o tabelião lançou um olhar de apelo à marquesa, como se
quisesse chamar a atenção dela para a presença do seu filho e da sua filha.
Madame de Beaulieu entendeu a indireta e temerosa sentiu um aperto no
coração. Que novidades seu conselheiro de confiança teria para lhe dar que
poderia requerer tanta privacidade? Entretanto, ela era uma mulher resoluta e,
assim, voltou-se para o filho e disse:
– Octave, verifique, por favor, se mandaram aprontar a carruagem para
irem buscar nossos primos que chegam às cinco na estação.
Ao ouvir isso Claire ergueu a cabeça e seu irmão se levantou. O desejo da
marquesa foi claro. Ela tinha arrumado um pretexto para que o filho a
deixasse a sós com o tabelião. Estes três seres que tanto se amavam
compartilhavam do mesmo receio, mas faziam todo o esforço do mundo para
esconderem um do outro. Por conseguinte, sem questionar, Claire e o
marquês sorriram para a mãe e se retiraram da sala, seguindo para direções
opostas.
Mademoiselle de Beaulieu desceu devagar os degraus que levavam ao
terraço. A ideia de que Bachelin pudesse ter trazido alguma notícia do duque
de Bligny tomou-lhe de surpresa e muito agitada, com a cabeça girando tanto
que mal conseguia se concentrar em alguma coisa, ela caminhou sob a
sombra das árvores muito altas, sem nem notar a passagem do tempo, tão
tomada estava pelas suas emoções e receios.
A marquesa e Bachelin ficaram a sós na sala de estar. O tabelião agora já
não se esforçava mais para manter um sorriso no rosto; sua expressão era
grave e preocupada. Por um momento madame de Beaulieu permaneceu
calada, como se quisesse aproveitar a sua paz de espírito o máximo possível,
até que finalmente criou coragem.
– Bem, meu caro Bachelin, o que tem para me contar?
O tabelião balançou a cabeça grisalha com pesar.
– Nada de agradável, madame la Marquise – respondeu ele; – e é motivo
de grande aflição para um velho servo da sua família como eu. Temo que o
sucesso da ação que o falecido marquês de Beaulieu, seu marido, moveu
contra seus parentes na Inglaterra está seriamente comprometido…
– Diga toda a verdade, Bachelin – interrompeu a marquesa. – O senhor
não falaria assim se ainda houvesse alguma esperança. Pode falar; sou uma
mulher forte e estou preparada para o pior. Os tribunais ingleses deram um
veredito? Perdemos a ação?
O tabelião não tinha coragem de responder em palavras, mas seus gestos
equivaleram a uma confissão. A marquesa mordeu os lábios e uma lágrima
brilhou sob seus cílios, secando em seguida, no entanto, pelo rubor que
aqueceu seu rosto.
Já Bachelin, consternado, andava de um lado para o outro pela sala. Tinha
se esquecido dos seus modos cerimoniosos de sempre e nem se lembrava
mais em qual lugar sagrado se encontrava. Tomado pela emoção e
gesticulando como costumava fazer enquanto analisava um caso no seu
escritório, ele falava sem parar nesse tom desagradável:
–A ação não foi montada corretamente! Aqueles advogados ingleses são
uns idiotas! E traiçoeiros, também! Eles enviaram uma carta para a senhora;
se muito. A senhora respondeu, eles leram a sua resposta; se é que leram! Se
o marquês tivesse falado comigo! Mas ele estava em Paris e os advogados
dele o aconselharam mal! Outro bando de idiotas, aqueles advogados
parisienses! Sujeitinhos que só sabem consumir selos!
Neste ponto o tabelião parou de repente e, então, batendo as mãos uma na
outra adicionou:
– Ah! É um terrível golpe para a casa Beaulieu!
– Muito terrível, de fato – concordou a marquesa, – pois isto implica na
ruína do meu filho e da minha filha. Durante os próximos dez anos terei de
usar a minha fortuna com parcimônia para restaurar as nossas finanças.
Bachelin, que tinha parado de andar de um lado para o outro, já tinha
recuperado a calma e agora ouvia com o devido respeito a resposta de
madame de Beaulieu. Ele sabia que a ação estava irremediavelmente perdida.
Tinha recebido uma cópia do julgamento e seria impossível entrar com um
novo pleito ou alegação. O desleixo do marquês tinha dado a seus adversários
a oportunidade de se colocarem em uma posição de vantagem no processo e,
assim, a briga não poderia mais seguir adiante.
– A desgraça raramente vem desacompanhada – retomou a marquesa, –
por isso, suponho que tenha outra má notícia para me dar, Bachelin. Já que
estamos aqui, conte tudo – adicionou madame de Beaulieu; – não creio que
nenhum outro golpe possa me afetar mais do que este.
– Eu gostaria de ter a sua confiança, madame la Marquise, pois o que
ainda tenho para lhe contar pode até não ser tão doloroso. Mas conhecendo a
sua delicadeza de sentimentos, temo que a perda monetária infringida pela
derrota da ação inglesa será a menor para das duas desgraças.
A marquesa ficou muito pálida e agitada. Adivinhou o que seu
conselheiro de confiança estava prestes a lhe contar, e, sem conseguir se
conter, perguntou ansiosa:
– O senhor tem notícias do duque de Bligny?
– Fui incumbido pela senhora, madame, de investigar a conduta do seu
sobrinho – retomou o tabelião, com um toque de desprezo na voz, que era
muito significante num homem que, como via de regra, sempre idolatrara a
aristocracia. – Segui as suas instruções ao pé da letra. Monsieur le Duc de
Bligny se encontra em Paris há seis semanas…
– Há seis semanas! – repetiu a marquesa estupefata. – E nem ficamos
sabendo!
– M. de Bligny me impediu de informá-la.
– E ele nem veio aqui! Não está aqui hoje; mesmo sabendo sobre a
desgraça que nos abateu! Pois sem dúvida ele ficou sabendo, não?
– Ele foi o primeiro a saber, Madame la Marquise.
Madame de Beaulieu fez um gesto de dolorosa surpresa e então, num tom
de profunda aflição, exclamou:
– Ah! Você estava certo, Bachelin, isto me abateu muito mais do que a
perda do dinheiro. O duque nos abandonou. Não veio e não virá; eu
pressentia isso. Tudo que ele queria de nós era a nossa fortuna. A fortuna
desapareceu e o pretendente fugiu. Ah, dinheiro é a senha destes tempos
mercenários que vivemos. Beleza, virtude e inteligência para nada servem.
As pessoas não dizem mais ‘Lugar para o mais digno’, mas sim ‘Lugar para o
mais rico’. Agora que estamos praticamente pobres, seremos abandonados.
Bachelin escutava calado o desabafo violento desta mãe ofendida e
enfurecida. Apesar de tudo o tabelião não conseguia conter um sentimento
que beirava a satisfação. Ele estava muito vermelho novamente e esfregava as
mãos vigorosamente atrás das costas.
– Madame la Marquise – ele retomou, animado, – creio que a senhora
está difamando os tempos em que vivemos. Sem dúvida os ideais positivistas
são dominantes e a cobiça que é natural ao gênero humano fez grandes
avanços. Mas não podemos dar a mesma sentença a todos os nossos
contemporâneos. Ainda restam alguns homens desinteressados que
consideram a beleza, a virtude e a inteligência dons que tornam a mulher que
os possuí mais desejável do que todas as outras. Não vou dizer que conheço
muitos homens assim, mas conheço um ao menos e, para provar a minha
teoria, um exemplo será suficiente.
– O que o senhor está querendo dizer? – interpelou a marquesa,
assombrada.
– Simplesmente que – respondeu o tabelião, – um galante amigo meu não
conseguiu pousar os olhos em mademoiselle de Beaulieu sem se apaixonar
por ela. Sabendo que ela estava noiva do duque, ele não ousaria se declarar.
Mas se ele ficar sabendo que ela está desimpedida; estou certo que o fará,
contanto que a senhorao autorize.
A marquesa olhou fixamente para Bachelin.
– O senhor está se referindo a monsieur Philippe Derblay, não está? –
perguntou ela.
– Sim, Madame la Marquise, precisamente – respondeu o tabelião
impávido.
– Fiquei sabendo sobre os sentimentos que minha filha despertou neste tal
dono da siderúrgica – disse a marquesa. – Ele não fez questão de escondê-los.
– Ah! Isso é porque ele ama mademoiselle Claire e muito sinceramente –
retomou o tabelião com ardor. – Mas o que a senhora não sabe, madame la
Marquise, é que monsieur Derblay é um homem de grande valor.
– Sei que ele é muito querido na região. Mas diga, meu caro Bachelin, o
senhor conhece bem a família dele?
– Conheço monsieur Philippe e sua irmã, mademoiselle Suzanne, desde
que eles nasceram. O pai deles era gentil o suficiente para me chamar de
amigo e isto explicará, Madame la Marquise, a minha ousadia em colocá-la a
par dos sentimentos de monsieur Derblay. Espero que me perdoe por ter
tomado esta liberdade. Para mim este meu cliente só tem um defeito: o
sobrenome, que é grafado em uma palavra inteira e sem apostrofe. No
entanto, se uma pesquisa for feita, sabe-se lá? A família é muito antiga e na
época da Revolução os iguais se uniram, quem sabe talvez o mesmo não
tenha acontecido com as letras do sobrenome de Monsieur Derblay.
– Que o sobrenome dele fique do jeito que está – disse a marquesa um
pouco acabrunhada. – Se ele o carrega como um homem honrado, isto é
suficiente nos tempos em que vivemos. Veja o duque de Bligny, que
abandonou Claire, porque ela está falida. Agora pense em monsieur Derblay,
que está interessado em uma moça sem dote e me diga qual dos dois, o bem-
nascido ou o sem tradição, quem é o verdadeiro nobre?
– Se monsieur Derblay a ouvisse dizendo estas coisas ele ficaria muito
satisfeito, madame.
– Peço que não repita para ele nada que acabei de dizer – interpôs a
marquesa gravemente. – Mademoiselle de Beaulieu não aceita generosidade
de ninguém e, com o caráter que tem, é possível que prefira morrer solteira.
Peço a Deus que ela seja forte e resignada quando este golpe duplo recair
sobre ela.
O tabelião ficou confuso por um momento e sem saber direito o que
dizer, falou com a voz embargada pela emoção:
– Aconteça o que acontecer, Madame la Marquise, não se esqueça de que
monsieur Derblay seria o homem mais feliz do mundo se lhe for permitido ao
menos ter esperanças. Estou certo de que ele terá paciência de esperar pelo
momento oportuno, pois seu coração não é suscetível a mudanças.
Reconheço que estes acontecimentos irão causar grande aflição para todos
nós, pois confio que a senhora vá permitir que um velho servo como eu esteja
entre aqueles que farão parte da sua adversidade. Agora, se me permitir dar
uma sugestão, eu a aconselharia a não contar nada para mademoiselle de
Beaulieu, pelo menos não por enquanto. Talvez o duque de Bligny retome
seus sentimentos mais honrados e quanto mais protelarmos o sofrimento de
mademoiselle Claire, melhor.
– O senhor tem toda razão; mas em todo caso preciso informar meu filho
sobre o golpe que o acometeu.
E caminhando até os degraus, a marquesa chamou por Octave, que estava
sentado no terraço, pacientemente esperando pelo final da conversa.
– E então – disse ele, animado – a sessão foi suspensa? Ou me chamou
para confabular com vocês?
– Na verdade, eu gostaria – respondeu calmamente a marquesa, – que
você tomasse conhecimento das notícias graves e que tanta tristeza me
causaram.
Na hora o semblante do jovem marquês se tornou grave, e, voltando-se
para a mãe, perguntou:
– O que aconteceu?
– Meu filho, mestre Bachelin recebeu uma comunicação final do nosso
advogado na Inglaterra.
– A respeito da ação?
– Sim.
Octave se aproximou da marquesa e tomando-lhe carinhosamente a mão
perguntou:
– Perdemos tudo?
A marquesa, que ficou surpresa ao ver a calma do marquês, olhou para
Bachelin como se estivesse em busca de uma explicação, mas o tabelião
permaneceu impassível e assim ela voltou-se para o filho novamente.
– Você já sabia? – ela perguntou, respirando um pouco mais aliviada
diante da resignação do marquês.
– Não, exatamente – respondeu o jovem, – mas já imaginava. Não queria
preocupá-la; respeitei suas ilusões, mas eu estava convencido de que a ação
não teria sucesso. Assim, há tempos estou preparado para ouvir sobre a nossa
derrota. Minha única preocupação era pela minha irmã, cujo dote estava em
jogo. No entanto, isso pode ser facilmente arranjado. A senhora deve deixar
para ela parte da sua fortuna que tinha reservado para mim. Quanto a mim,
não se preocupe; darei um jeito.
A marquesa corou de orgulho ao ouvir palavras tão generosas, e,
voltando-se para o tabelião, exclamou:
– Do que posso reclamar se fui abençoada com um filho assim!
Então, estendendo os braços para o marquês, que estava sorrindo,
adicionou:
– Você é muito corajoso! Deixe eu lhe dar um abraço!
– Oh! Não mereço tudo isso – disse o marquês, emocionado. – Amo a
minha irmã e farei tudo que esteja o meu alcance em nome da felicidade dela.
Mas já que estamos falamos de coisas tristes, não lhe parece que o silêncio do
seu sobrinho, Bligny, tem alguma ligação com a perda do processo?
– Você está enganado, meu filho – respondeu a marquesa ansiosa,
enquanto erguia a mão para silenciar o filho. – Pois o duque…
– Oh! Não tema, maman – interrompeu Octave – ainda que Gaston hesite
em manter o noivado agora que mademoiselle de Beaulieu não virá mais para
ele com um milhão em cada mão, não somos o tipo de pessoas capazes de
pegá-lo pelo colarinho e obrigá-lo a cumprir com a sua promessa. Na
verdade, em minha opinião, se o duque de Bligny não quiser mais se casar
com a minha irmã, será muito pior para ele do que para ela.
– Muito bem, meu filho – concordou a marquesa.
– Sim, muito bem, monsieur le Marquis – ecoou Bachelin. – Se
mademoiselle de Beaulieu não é mais rica o suficiente para um caça-dotes,
ela sempre será suficientemente perfeita para cativar o coração de um homem
honrado.
Com um olhar, a marquesa silenciou Bachelin. E, feliz ao ver o final
favorável de uma crise que ele temia pudesse ter um desfecho terrível,
Bachelin se despediu respeitosamente de seus nobres clientes e partiu para
Pont-Avesnes o mais rápido que suas pernas conseguiram levá-lo.
CAPÍTULO III
Foi de fato monsieur Derblay, conforme afirmara Bachelin, quem o
marquês de Beaulieu havia encontrado, vestido como um caçador, no bosque
de Pont-Avesnes. Deixando Octave para trás chamando-o de volta, ele havia
se esgueirado por entre as árvores, afastando-se apressado, sem se importar
com os galhos protuberantes e os espinhos cortantes. Riu nervosamente,
misturando murmúrios e exclamações abafadas. O acaso o aproximara da
mulher a quem ele adorava a distância e em sonhos, como uma jovem rainha
recém-descoberta e seu coração exultava de alegria.
Ele desceu a encosta que levava ao vale, deslizando para baixo com suas
pernas longas, indiferente a rapidez dos seus movimentos, embora o suor
brotasse na sua testa. Parecia querer acompanhar o ritmo de seus
pensamentos, que voavam nas asas do vento. Quando o jovem marquês de
Beaulieu soubesse com quem estivera, certamente se sentiria grato pela
cortesia demonstrada pelo homem a quem ele chamara de vizinho irritante; e
então, quem sabe, tornariam-se mais próximos. Assim, ele, Philippe, poderia
então aproximar-se de Claire, a linda moça cujo sorriso encantador estava
vivo em sua memória. Poderia falar com ela. A este pensamento, porém, uma
nuvem pareceu passar diante de seus olhos, pois tinha a impressão de que as
palavras morreriam em sua garganta e que ele ficaria mudo diante dela,
sobrepujado pela emoção. Ainda assim, poderia se refugiar em algum canto
escuro da sala e de lá admirá-la à vontade. E então, perdido em
contemplação, já sentiria imensamente feliz.
Feliz! Como assim? Até onde essa sua paixão poderia levá-lo? Ele
poderia sofrer ainda mais se visse a mulher que tanto amava casada com
outro homem. Pois o duque de Bligny certamente iria voltar. Afinal, que
homem amadopor uma mulher como aquela seria capaz de desprezá-la?
Ainda que ela não se casasse com o duque, poderia surgir outro pretende –
um nobre brilhante, que bastaria aparecer e dizer seu nome para ser recebido
de braços abertos – enquanto ele, um plebeu, seria menosprezado e enjeitado.
Ao pensar nisso uma tristeza profunda o acometeu e suas forças cederam.
Já não corria mais na direção de Pont-Avesnes, saltitante como um cervo
sobre a relva. Agora marchava devagar, arrancando mecanicamente as folhas
dos galhos e esmagando-as entre as mãos. Que desgraça era essa que ele não
podia nem mesmo sonhar em conquistar essa criatura perfeita! Nisso, ele
parou abruptamente perto de um carvalho e, recostando contra o tronco sem
nem pensar em se sentar, ele ficou ali pensando, o rosto pálido e grave e os
olhos marejados pela agonia mental.
E, repassando mentalmente todos seus feitos, ele perguntou a si mesmo se
depois de tudo que tinha conquistado e realizado não merecia ser feliz. Aluno
brilhante, ele se formou com honras na Escola Politécnica e, em seguida,
optou por trabalhar nas minas. Quando tinha acabado de ser promovido a
engenheiro, a guerra franco-germana eclodiu. Ele estava, então, com 22 anos.
Sem hesitar, se inscreveu como voluntário para um dos regimentos do
exército de Rhine. Esteve presente na sanguinária derrota em Froeschiwiller e
retornou ao campo de Châlons com o que restou do primeiro batalhão do
exército. Depois, participou da marcha desastrosa em Sedan e acabou, na
noite da batalha, prisioneiro de guerra dos ulanos prussianos. Mas não era da
sua natureza abrir mão do direito de lutar e oculto pelas sombras da noite, ele
rastejou pelas fronteiras alemãs. Assim que cruzou a fronteira da Bélgica,
seguiu para Lille, onde foi incorporado aos novos regimentos que estavam
sendo formados.
A guerra continuou e ele viu a invasão se espalhando como uma gangrena
mortal por todo o país. Sob o comando do General Faidherbe, que
reconheceu seus méritos, ele participou da campanha no Norte. Em Saint-
Quentin, foi ferido por uma bala e, por seis meses ficou entre a vida e a morte
no hospital, despertando do seu longo transe para estremecer ao saber que
Paris estava nas mãos da Comuna. Sua convalescência o poupou da triste
obrigação de lutar contra seus compatriotas esquerdistas e ele partiu para a
casa da sua família, ainda sofrendo com seu ferimento, mas ostentando no
peito uma fita de Honra da Legião, que seu general tinha trazido
pessoalmente enquanto ele ainda se encontrava acamado no seu leito de dor
no hospital.
E assim experimentou uma boa dose de sofrimento em um curto espaço
de tempo, mas uma dor ainda maior o aguardava em casa. Quando chegou
sua casa estava em luto. Sua mãe tinha acabado de falecer, deixando sua
irmãzinha Suzanne, então com apenas sete anos de idade, aos cuidados de
outros. Monsieur Derblay, o pai, forçado a se ausentar para cuidar de
negócios, deixara a filha sob a custódia de alguns criados fieis. A chegada de
Philippe foi recebida com uma nova explosão de dor, um novo derramamento
de lágrimas. A pequena Suzanne se apegou ao irmão com o carinho
convulsivo peculiar às crianças órfãs há pouco tempo. A pobre menininha se
agarrou a ele como se implorasse por apoio e ajuda. Philippe, de coração bom
e puro, se apaixonou pela criança tão carente de afeto e que tão pouco vinha
recebendo; que vivia entre o pai, ocupado com os negócios e os criados, que,
apesar de fiéis, não estavam aptos a cuidar dela com aquele carinho especial
que é mais necessário do que os cuidados materiais para uma menina.
Porém, mais uma vez ele se viu obrigado a deixar seu lar para sair em
busca de trabalho. A partida causou um grande sofrimento para Suzanne. O
desespero que ela sentiu quando o irmão se despediu foi ainda maior do que
quando a sua querida mãezinha se foi. Mas o destino tinha decidido que a
separação deles não deveria se prolongar por muito tempo. Seis meses depois
monsieur Derblay morreu, sobrecarregado pelo trabalho excessivo e assim
Philippe e Suzanne se viriam sozinhos no mundo.
Novas obrigações foram impostas ao rapaz. O encerramento dos negócios
do seu pai se mostrou muito complicado e repleto de surpresas desagradáveis.
Apesar de monsieur Derblay ter sido um homem muito inteligente, ele tinha
um grande defeito: costumava abarcar mais do que dava conta. Expandiu os
negócios em tantos ramos que não foi capaz de cuidar de todos ao mesmo
tempo e com o mesmo sucesso. Os lucros foram absorvidos por outros
prejuízos. Ele vivia sempre as voltas com grandes dificuldades que foram aos
poucos esgotando as suas energias e que mais cedo ou mais tarde acabariam
por causar a sua ruína. Mas ele partiu antes do desastre, deixando seus
negócios na mais confusa situação.
Como engenheiro, Philippe tinha uma carreira esplendida pela frente. Ele
poderia ter abandonado os negócios do pai, depois de ter remediado da
melhor maneira possível e seguido seu caminho. Mas neste caso toda a
herança seria usada para salvar o nome da família e Suzanne ficaria sem dote.
Diante destas circunstâncias o jovem não hesitou. Renunciou a sua carreira e
se conformou; e assumindo o fardo que tinha sido muito pesado para seu pai,
ele se transformou em um industrial.
O desafio era grande. Havia de tudo na herança de monsieur Derblay:
uma fábrica de vidro em Courtalin, uma fundição em Nivernais, uma pedreira
de ardósia em Var, uma siderúrgica em Pont-Avesnes. Philippe se atirou no
abismo com coragem e tentou salvar o que restava dos negócios do pai.
Trabalhou com afinco e durante seis meses se dedicou não apenas de dia, mas
também noite adentro, ao desafio que tinha abraçado com tanta bravura. Todo
o dinheiro que conseguiu levantar foi investido na reabilitação dos negócios.
Com o tempo, à medida que os primeiros sinais de prosperidade se
manifestavam, ele foi se despondo de cada um e ficou apenas com as fábricas
de fundição, cujo valor ele reconhecia.
Em sete anos, ele tinha liquidado toda a herança confusa do seu pai e
agora tinha apenas a fundição em Nivernais, que ele trabalhava em conjunto
com a de Pont-Avesnes, alimentando o primeiro estabelecimento com o
minério extraído do último. E agora ele já não corria mais risco e estava no
domínio dos negócios. Sentia-se capaz de expandi-los ainda mais. Adorado
em toda a região, poderia muito bem concorrer nas eleições e ser eleito
deputado. Quem sabe? Tal posição certamente encantaria uma mulher. Além
do mais, a posição de industrial também representava poder neste século que
tanto valorizava o dinheiro.
Aos poucos, à medida que todas essas coisas passavam pela sua cabeça, a
esperança foi se refazendo no coração de Philippe Derblay. Ele tinha
retomado o passo novamente e já tinha alcançado o limite do bosque. À
direita, espalhavam-se os campos que cobriam o vale, enquanto, à esquerda,
erguiam-se as pedras que formavam a base da montanha. Neste ponto tinha
sido cavada a entrada da mina. Um trenzinho percorria as galerias e levava o
minério diretamente para a usina.
Despertando bruscamente das suas meditações, Philippe resolveu
verificar como estava indo o trabalho e virando-se, seguiu na direção da
mina. O encarregado cuja função era controlar o andamento das coisas ficava
em uma guarita no alto de uma pedra e era para lá que Philippe seguia. Mas à
medida que se aproximava, ele teve a impressão de ouvir gritos. Havia, de
fato, uma agitação estranha na entrada das galerias e ao perceber, ele acelerou
o passo e minutos depois estava no local, onde se inteirou do motivo de tanto
tumulto.
Um deslizamento de terra, causado por uma infiltração de água, tinha
acabado de ocorrer sobre os trilhos do trem. Vários vagões estavam tombados
e aos pés da encosta, uma pilha de areia e madeiramento tinha soterrado o
maquinista do trem em movimento, uma criança de não mais que 15 anos.
Alguns trabalhadores e várias mulheres, que vieram correndo da vila,
formavam um grupo agitado e, em meio a este, uma mulher chorava e
gesticulava descontrolada.
Philippe abriu caminho em meio à aglomeração

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