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Trabalho de filosofia – cap. Tucídides A história humana é algo oscilante, assume formas e tendências de acordo com a classe dominante de cada época. Tucídides procurou estabelecer ligações coerentes entre o seu tempo e a consciência histórica que o precedia; através de estudos e observações feitas pelos historiadores gregos que viveram anteriormente a ele. Também, por meio de suas obras, Tucídides visava deixar “livre” o caminho do conhecimento histórico para aqueles futuros pesquisadores que inevitavelmente viriam à surgir. Tucídides era um homem à frente do seu tempo. Ele foi o criador da história política, mesmo tendo passado boa parte de sua juventude privado do espírito político, vivendo na sua tranquila pátria. Somente após vivenciar e participar ativamente na guerra do Peloponeso – conflito armado entre Atenas de centro político e civilizado, contra Esparta de tradições militares – que Tucídides foi levado pela primeira vez à cidade-estado de Atenas, onde havia um célebre e influente estadista, orador e líder democrático chamado Péricles. Atenas, nesta época, tinha uma política altamente desenvolvida, era o centro cultural, educacional e financeiro de toda Grécia Antiga. Por estes motivos, Tucídides ficou apaixonado pela cidade e enraizou-se na vida de Atenas. Diferentemente de Heródoto, cuja obra possui um vasto horizonte universal de conhecimento e cultura de povos e países por onde ele passou, o campo visual de Tucídides é restrito ao império de Atenas e sua esfera de influência. Significa que ele se preocupa com uma ênfase maior, com a história vivida no seu tempo, isto é, com a guerra do Peloponeso, por estar convencido da importância daquele acontecimento. Foi a guerra que fez de Tucídides um historiador. Ele não conhecia interesse mais alto que os problemas políticos, por isso, para resolver a crise política de Atenas era necessário aprofundar nos problemas históricos. O pensamento político viu-se forçado a completar-se com o conhecimento histórico. Este fenômeno encontra a sua realização na obra de Tucídides. Para se ter uma racional compreensão do presente, em toda sua conjuntura, primeiro era preciso ter um olhar crítico voltado para o passado. Olhar este que Tucídides possuía no sentido de político moderno, estadista, ou seja, encarava o passado do ponto de vista do poder. Diante deste fato, ele deixa de lado todas as tradições antigas de alguns povos gregos do passado. Parece-lhe sem importância, pois, a vida daqueles tempos era incapaz de uma organização estatal. Eram nômades, não havia comércio nem acumulação de capitais. Desta forma, não se podia alcançar estabilidade, formar grandes cidades e nenhuma condição de civilização moderna. Se não houvesse, portanto, um poder autêntico, não era atraente aos olhos de Tucídides, porque não respondiam às suas perguntas. Na batalha de Troia, Tucídides considerava o reino de Agamemnon como o primeiro grande poderio helênico de que se tem notícia. Do mesmo modo, Homero interpreta com exagero enorme, em seus versos da Ilíada (derivado de Ilion, outro nome grego para Troia) este poder bélico de Agamemnon que é sustentado por uma grande marinha. Com a entrada das ilhas e das cidades da Ásia Menor (região da Pérsia) na liga ática, durante as guerras pérsicas, Atenas se manifesta como um fator de poder. Cria-se, então, no mundo dos Estados gregos um poder capaz de enfrentar o poderio de Esparta, até então predominante. Esparta e Atenas aspiravam ideologias distintas; o crescimento do poder ateniense e o temor que tal despertava entre os espartanos foi o “estopim” que desencadeou a guerra entre estas duas pólis. Quando uma pólis recebe o título de império, acrescenta-se à esfera do Estado um novo campo de experiências políticas: o das relações de Estado para Estado, aquilo que designamos por política externa. Um dos seus representantes mais ilustres é Temístocles, qualificado por Tucídides como o novo tipo de Homem. Entre suas características desempenham papel essencial a previsão e a clareza de juízo. Para o político isto é fundamental, pois, só é possível uma ação previsível e submetida a um plano, se na vida humana as mesmas causas produzem, em determinadas condições, os mesmos efeitos. Isto torna possível uma experiência, e com ela uma certa previsão de futuro. Diferentemente dos sofistas, da concepção religiosa de Sólon e das filosofias do Estado de Platão; Tucídides era cético quanto às tradições poéticas. Seus pensamentos sobre o Estado eram carentes de qualquer doutrina abstrata. É no próprio acontecer concreto que a necessidade política é compreendida. Se não fosse por Tucídides, o motivo da guerra entre Atenas e Esparta se limitaria aos acontecimentos diplomáticos e militares. A doutrina sobre as verdadeiras causas da guerra é o resultado de uma longa reflexão sobre o problema, e que não se podia tratar de uma simples verificação de fatos, mas, de uma interpretação política da história, pertencente à maturidade de Tucídides como pensador político que, com audácia abarcou o conjunto em todos os seus níveis, chegando à conclusão que a guerra foi motivada pelo medo das outras cidades-Estados perante o enorme e crescente poder do império ateniense. Apesar da perda da guerra da Sicília, Atenas aguentou-se ainda durante dez anos, até que, enfraquecida pelas contínuas divergências partidárias internas, acabou por não mais poder resistir. Na firme convicção de Tucídides, o resultado final da guerra dependia, sobretudo, da direção política, e só em segundo plano dos chefes militares. Também, para Tucídides o único que estava à altura para resolver este problema e teria sido capaz de conduzir Atenas à vitória, era Péricles. A politéia no sentido grego, não significa só a constituição do Estado, mas, a vida inteira da pólis. Por isso, é que a imagem que Péricles traça da politéia ateniense engloba o conteúdo total da vida pública e privada: economia, moralidade, cultura, educação. É só nesta plenitude concreta que ganha cor e forma a ideia do Estado como poder. A sua raiz está na imagem da politéia, tal como Péricles a concebeu. Este caráter que o grande chefe expõe, serve para dar aos atenienses plena consciência dos altos valores pelos quais se batem naquele momento do seu destino, e fazer deles “amantes” fervorosos da sua pátria.