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Fichamento texto: Poder nas organizações: Da dominação de poucos à ação de todos 
Aluna: Camilla da Silva Prado 
O interesse que o estudo do Poder desperta nos estudos de organizações é tão 
grande quanto a controvérsia que existe em suas várias abordagens possíveis. Muitos 
autores sequer admitem a sua existência como algo inerente às organizações, 
interpretando-o como ações informais, ilegítimas ao desenho teórico da organização. Na 
verdade, o poder é uma das categorias centrais para a análise das organizações 
(CARVALHO e VIEIRA, 2007), e as questões que geralmente o acompanham (funcional 
ou disfuncional, consciente ou desinteressado, repressivo ou produtivo etc.) são apenas 
formas diferentes de o conceber que partem de perspectivas teóricas distintas. 
O poder pode ser definido de duas formas aparentemente simples, mas que 
guardam grandes diferenças de fundo, com implicações diretas para a compreensão e ação 
no mundo. 
Outra definição de poder é de que ele corresponde à capacidade de gerar ação, ou 
capacidade de agir. Tal definição estabelece o foco da análise na relação, o que permite 
não só compreender a capacidade de um agente influenciar outro, mas também a 
capacidade de o outro reagir. A reação pode ser considerada uma ação em si, o que 
significa que o outro também tem poder. 
Faz-se oportuno, entretanto, contextualizar os estudos sobre poder no âmbito dos 
Estudos Organizacionais. As organizações têm sido tratadas como expressões concretas 
de exercício de poder. Nas análises tradicionais sobre as organizações formais, 
particularmente no que se refere às organizações do trabalho e da produção, o poder 
remonta à época do surgimento da Administração como área sistematizada do 
conhecimento. 
As formas de exercício de poder por meio das organizações do trabalho e da 
produção evoluíram de formas mais visíveis para formas menos visíveis; do exercício do 
poder diretamente sobre o trabalhador para o exercício do poder por vias impessoais e 
menos visíveis, chamadas de controle das premissas cognitivas dos indivíduos, por meio 
daquilo que se convencionou rotular de cultura organizacional. 
Ao trabalhar com uma definição de poder como a capacidade de agir, abre-se 
espaço para análises diferentes daquelas recorrentes na literatura de Estudos 
Organizacionais, que enfatizam o controle e as formas de dominação. Trata-se de um 
instrumental teórico rico para a análise de práticas de resistência nas organizações 
formais, bem como para o estudo de formas organizativas que não se estruturam a partir 
dos conhecimentos tradicionais gerados pelas teorias da Administração (e das 
organizações) estabelecidas.O objeto central se transforma. Deixa de ser o controle como 
manifestação do poder e passa a ser a liberdade. 
Entretanto, como será explicado,essa definição pressupõe uma visão particu-lar 
de poder, que pode ser caracterizado antes a partir de elementos mais gené-ricos. Segundo 
Lukes (1980, p.826), o núcleo absolutamente básico e comum a todas as concepções de 
poder é “a noção da provocação das consequências,sem nenhuma restrição ao que tais 
consequências poderiam ser ou o que as provoca".Partindo dessa definição, para dar 
significância ao conceito de poder, deve-se ad-mitir uma teoria que responda ao que torna 
as consequências provocadas como características de poder. 
Segundo essa visão, o poder seria exercido pela ação de um indivíduo ou grupo 
de indivíduos sobre outros, e existe'sempre uma diferença de probabilidade de condições 
entre o detentor do poder e os demais participantes desse espaço social. 
As diversas concepções de poder são divididas em duas grandes 
categorias,distintas entre si e abordadas a partir de diferentes perspectivas. De um lado, a 
perspectiva do poder assimétrico, bem representado pela definição de Weber, e que 
envolve sempre conflitos reais ou potenciais. Segundo essa visão, o poder seria exercido 
pela ação de um indivíduo ou grupo de indivíduos sobre outros, e existe'sempre uma 
diferença de probabilidade de condições entre o detentor do poder e os demais 
participantes desse espaço social. 
O primeiro aspecto é entendido como o reconhecimento de que aquele que outorga 
uma ordem o faz com pretensão reconhecida pelo comandado, que se abstém de examinar 
o conteúdo dessa ordem de forma racional para seguir a de-terminação: o questionamento 
dessa ordem já pressupõe a não aceitação da auto-ridade. Ainda que possa questionar a 
autoridade, o indivíduo pode se submeter a ela, considerando a existência de um poder 
coercivo que o incentive/obrigue a tanto. 
Já o segundo componente do conceito de autoridade conota a existência de regras 
de reconhecimento da autoridade (tácitas ou formais) que revelam mu-tuamente quem 
dispõe de autoridade e quem não dispõe. Essas regras podem estar contidas 1) sobre a 
crença; 2) por convenção ou 3) pela imposição. No caso das organizações, a autoridade 
exercida pela crença pode ser observada pelo re-conhecimento de um perito, que pode 
trazer a validade de sua autoridade no reconhecimento de seu conhecimento, 
independentemente do conteúdo de suas ordens. 
Seguindo a abordagem funcionalista, em geral as organizações frequentemen-te 
se utilizam do poder (seja de forma consciente ou desinteressada) visando obter o 
consentimento, que pode servir para se vencer ou prevenir um conflito. Esse éum dos 
principais motivos do estudo do poder por essa corrente teórica, e estáintimamente ligado 
aos interesses dos grupos (a partir da ideia básica de classe)dentro da organização. 
Esse predomínio da vontade pode ser obtido pela força ou até mesmo pela 
manipulação utilitária que induza o com-portamento desejado do controlado pelo 
controlador. Uma manifestação ativa desse modo de expressão pode ser vista nos estudos 
estruturalistas de Blau (1964),que defende que é o poder quem determina o quão eficiente 
será a troca que fundamen-ta as relações e interações humanas, seja na forma de 
recompensas ou punições. 
Essa concepção do poder de controle de um ator sobre outro é bem observada na 
hierarquia das organizações. Os subordinados devem, em geral, obedecer a seus chefes 
que têm a priori o controle sobre seus comandados. Essa forma de contro-le pode ser 
explícita (reafirmada continuamente) ou pode ser menos óbvia, por exemplo, pelo 
discurso de um funcionário, independentemente de seu nível hie-rárquico, que induza 
outro funcionário ou grupo a perseguir um objetivo qualquer em prol de seus interesses 
(que podem ou não ser os mesmos da organização).O controle pode ser observado 
também no exemplo de uma área de PMO3 estraté-gico,comum nas organizações 
modernas, quando recebe a prerrogativa de definir quais projetos serão ou não executados 
pelas fábricas, ainda que sejam projetos que pertençam a diretorias hierarquicamente 
superiores a ela. 
Weber considera o poder um conceito amorfo, e por isso define um “caso especial 
de poder” que chama de dominação: “A probabilidade que ordens especí-ficas sejam 
obedecidas por um certo grupo de pessoas" (WEBER, 2004,p.212).A dominação seria, 
portanto, o exercício de um poder legítimo - ou, mais corre-tamente,legitimado. 
Dentre os principais motivos que levam Hannah Arendt a um resgate histórico da 
política está a crítica à modernidade e ao pensamento de Karl Marx4 (AVRIT-ZER, 2006), 
para o qual apenas a transformação da natureza pode ser considerada um ato reflexivo 
gerador de consciência. Esse conceito se baseia no fato de que o homem só pode conhecer 
aquilo que ele mesmo faz/produz, enquanto o con-ceito tradicional defendia uma verdade 
apenas possível como revelação dada ao homem. A partir dessa motivação, a autora de A 
condição humana defende uma concepção diferente para naturalidade e artificialidade, e 
suas consequentes rela-ções com a política. 
É esta durailidade que empresta às coisas do mundo sua relativa inde-pendência 
dos homens que as produziram e asutilizam, a “objetividade"que as faz resistir, “obstar” 
e suportar, pelo menos durante algum tempo,as vorazes necessidades dos seus fabricantes 
e usuários. Desse ponto de vista, as coisas do mundo têm a função de estabilizar a vida 
humana; sua objetividade reside no fato de que - contrariando Heráclito, que disse que o 
mesmo homem jamais pode cruzar o mesmo rio - os homens, a despeito de sua contínua 
mutação, podem reaver sua invariabilidade, isto é,sua identidade no contato com os 
objetos que não variam, como a mesma cadeira e a mesma mesa. (ARENDT,2009,p. 150) 
Já o trabalho é considerado a atividade que eleva ohomem de animal laborans a 
homo faber. A atividade humana permite nessa concepção a fabricação de coi-sas a partir 
do uso de suas mãos como instrumentos, em lugar do uso do corpo res-trito ao labor pela 
simples manutenção da vida. Essa mudança estabelece também uma nova relação do 
homem com o mundo. Enquanto o labor aprisiona o homem junto à natureza que se coloca 
como condição de sua existência, como provedora das coisas boas que precisam ser 
usufruídas para garantir a sua sobrevivência,o trabalho insere uma nova perspectiva nessa 
relação. A natureza agora é apenas for-necedora dos materiais que, em si, são desprovidos 
de valor, pois é o trabalho que confere o valor das coisas. Essa mudança, no entanto, ainda 
não liberta o homem de sua maior necessidade. 
As fundamentações de Hannah Arendt não rejeitam ou confrontam essa im-
previsibilidade humana. Pelo contrário, de certo modo a exalta, observando ser 
característica de nossa existência. Promove, até mesmo, um diálogo entre as teorias 
evolucionistas (para quem a seleção de algumas das inúmeras mutações ocasionais 
promove novas criações) e criacionistas (que preterem a explicação natural para enfocar 
a vida como dom de Deus) ao contemplar a constituição de nosso mundo. 
Observando que ninguém pode reificar a si mesmo, a autora busca a chama-da 
institucionalização na força do poder legislativo romano, que tinha um papel muito maior 
na vida política de Roma do que para os gregos (para quem as leis eram produto da 
fabricação e não da ação). Essa institucionalização permitiria àação sobreviver para além 
dos seus atores e da imprevisibilidade que a renovação de gerações proporciona. 
Arendt observou a forma indiscriminada como os conceitos de poder e violên-cia 
têm se confundido até mesmo no mundo político,8 e mostra que a acepção de poder 
assimétrico alimenta os teóricos políticos tanto de direita quanto de esquer-da,para quem 
"a violência nada mais é do que a flagrante manifestação do poder”(ARENDT, 
1985,p.16). 
Essas definições acompanham o nascimento do Estado Absolutista, como quem 
detém a legitimidade da aplicação da violência de homens por outros ho-mens. Foi na 
burocracia que esse Estado encontrou seu maior instrumento, per-mitindo esconder a 
responsabilidade de sua tirania por meio da justifcativa das regras e controles absolutos. 
No entanto, mais uma vez foi no resgate da tradição política da Antiguidade que a autora 
desvelou as influências dos revolucionários do século XVIII para desenho de uma 
república onde o poder do povo sustenta as regras do Direito. 
O poder simétrico, como capacidade ou realização coletiva, só pode se manifestar 
em um ambiente social de iguais, em que os indivíduos reconheçam a sua pluralidade, 
mas nunca a ascendência unilateral de um sobre outro. Essa premissa é incompatível com 
a grande maioria das organizações modernas que se estruturam hierarquicamente e 
estabelecem na orientação dos resultados a quali-ficação dos seus atores. 
O poder na concepção coletiva não é propriedade de um indivíduo, mas emana de 
um grupo e permanece apenasenquanto esse grupo permanecer unido. Surge do debate 
reflexivo e da discussão entre seus membros, que delegam a autoridade para um ou mais 
membros quando amparados por esse poder maior. Assim, toda organização que deseje 
em seu estabelecimento uma relação de igualdade entre seus membros, que fundamentem 
a autoridade para os atos individuais a partir da delegação de poder de todos os membros, 
devem excluir de suas relações as carac-terísticas conflituais do poder. Essas organizações 
não poderiam permitir o contro-le de uns membros por outros nem estabelecer 
dependência entre seus membros em função da simples relação entre eles; e não poderiam 
legitimar a distribuição desigual de vantagens e recursos entre os seus atores. Essas 
organizações são flui-das, e se manifestam por uma racionalidade orientada a valores, 
diversamente da lógica tradicional do mercado, por exemplo.

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