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A que pés estamos, ou uma apresentação do problema 
 
Existe uma grande quantidade de explicações sobre o porquê ler literatura. Levantam-se 
inúmeras vantagens intelectuais e técnicas e depois disso já lançam catálogos e mais 
catálogos de conteúdos para formar um leitor. Para alguns isso funciona, já que a 
necessidade de conhecer sobre os vastos campos do saber humano é um elemento natural. 
Outros entram no caminho da leitura por conta dos vários exemplos que vê. E não 
podemos esquecer daqueles que apenas seguem a última moda. Todos esses caminham 
de livro a livro e seguem enumerando os lidos e não lidos, sempre tem uma perspectiva 
sobre eles e a lista de novas aquisições sempre se atualiza. 
Essas pessoas poderiam muito bem responder a seguinte pergunta: “por que você gosta 
de ler?”. As respostas colocarão em evidência a sua necessidade para a aquisição de 
conhecimento, por ser uma de suas ferramentas de trabalho, por estar estudando, porque 
disseram que a história era muito boa, por ser o livro do próximo filme que promete 
estourar nos cinemas e por aí vai (poderíamos contar também aqueles que transitam com 
livros para ficar com uma imagem de intelectual, para chamar atenção, assim como fazem 
alguns donos de escritórios que colocam estantes repletas de livros simplesmente por 
enfeite e passar uma boa impressão). A essas possibilidades poderíamos juntar outras que 
levariam nossa breve introdução à proporções indesejadas no momento, mas por hora 
vamos deixar claro que os motivos que levam até a leitura, seja de literatura, história, 
teologia ou filosofia são vários, passando pela própria atividade da vida intelectual até 
mesmo pela nova moda surgida dos confins da internet. 
Façamos ainda mais uma observação interessante. Para um país com uma baixa média de 
leitores, com um mercado editorial que não possui bons preços, de um tempo para cá 
muitos estão investindo em falar de livros, incentivar a leitura e expor ideias contidas em 
várias obras e autores. Uma boa nova, finalmente, mas que levanta outras questões. Uma 
delas é: todos que passarem a dedicar algumas horas para a leitura entrarão para uma vida 
intelectual, se preparando para integrar o campo dos intelectuais? Outra é: a leitura é 
muito importante, mas como conseguir assimilar isso à minha vida, ao meu cotidiano, 
pois parece muito distante, ademais por ser eu uma pessoa que possui atividade técnica? 
Esta questão é a mais interessante, porque cobra uma resposta ao mesmo tempo 
circunstancial e geral. Em uma referência a C.S. Lewis, Rafael Ruiz diz que “lemos para 
sabermos que não estamos sós”1, porque lembramos, como nos diz um belíssimo trecho 
de O Apanhador no Campo de Centeio, diálogo entre Holden e seu professor Antolili, 
que diz ser as questões levantadas pelas pessoas (tanto o personagem quanto nós que 
queremos saber o porquê de nos dedicarmos aos livros) são comuns a muitos homens de 
várias épocas e lugares e para nossa sorte, 
alguns deles guardaram um registro de seus problemas. Você aprenderá com eles, se 
quiser. Da mesma forma que, algum dia, se você tiver alguma coisa a oferecer, alguém 
 
1 C.f. RUIZ, Rafael. Literatura e Crise. São Paulo: Cultor de Livros, 2015. 
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irá aprender alguma coisa com você. É um belo arranjo recíproco. E não é instrução. É 
história. É poesia2. 
E será sobre a questão dos livros e da literatura que falarei nesse breve texto, tentando 
mostrar o porquê é tão importante entrar em contato com essas obras dramáticas que tem 
por objetivo algo muitos mais nobre que enfeitar bibliotecas ou criar cenários para 
aparecer bem junto às visitas. 
Já adianto que o ponto de partida de todas essas atividades do espírito humano é comum, 
e em grande parte do que estará escrito haverá o fio condutor da tríade espanhola 
Unamuno, Ortega y Gasset e Julián Marías por motivos que espero deixar claro ao mostrar 
o quão importante é a literatura para a vida humana, assim como são as demais atividades 
do espírito humano. Espírito esse que é sinal de vida que deseja sempre mais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2 C.F. SALINGER, J.D. O Apanhador no Campo de Centeio. Rio de Janeiro: Editora do Autor, s.d. 15ª 
edição. 
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O valor do supérfluo 
 
Muitos clamam, com uma parcela de razão, que no campo da cultura humana muita coisa 
é supérflua, não conseguem nenhum avanço objetivo e chegam a falar, claramente, que 
atividades como literatura, filosofia ou história são desnecessárias. Não gostam e não 
fazem questão de gostar. Isso porque não conseguem ver uma utilidade para elas. 
Uma primeira observação é a noção utilitarista das coisas. Como se tudo que fazemos 
fosse para uma utilidade imediata, para obtenção de lucro e para manutenção da vida. Não 
mesmo. E coloco melhor: muitas dessas áreas, falando de forma estritamente biológica, 
de fato não possuem utilidade. Ler o que quer que seja não é conditio sine qua non para 
a existência biológica humana (lembremo-nos que a invenção da escrita é muito posterior 
às atividades de nossos antepassados, datando de uns 4000 anos a.C.). 
Poderíamos ainda, seguindo uma observação da antropologia cultural de Ortega3, destacar 
que a cultura é um luxo espiritual. Mas é a própria condição muito específica do ser 
humano, um ser que não é apenas biológico, mas espiritual, que vemos ser a criação da 
cultura uma necessidade desse espírito que busca a transcendência de si, pois é preciso 
expressar tudo o que esse espírito transcendental pode captar. Ele se relaciona com o 
mundo e a partir dele encontra o outro como ele é e segue até o encontro com o Sagrado. 
A cultura, portanto, surge como algo que está muito além do utilitarismo, da busca por 
uma vida prática e que resolva tudo aquilo que é apenas biológico. Ela é claramente a 
expressão do mais profundo do homem, do seu distintivo entre toda a Criação, é algo que 
se dirige ao espírito e, por isso, deve ser sempre cultivada. Assim sendo, “a cultura não 
é simples erupção factícia, mas criação humana progressiva de valores intelectuais, 
éticos e estéticos, que não têm promessas de eternidade”4, pois vão se construindo ao 
longo de toda a história humana, da qual sempre somos partícipes de uma forma ou outra. 
Nós ao mesmo tempo que recebemos cultura, pois entramos na vida em um mundo que 
já estava aqui muito antes de nós, devemos trabalhar para manter a cultura viva, 
colaborando com ela na medida do possível. Essa necessidade de cultura, de agir sobre 
ela, pode ser alinhada com a definição que temos de Michel Henry nos seguintes termos: 
Toda a cultura é uma cultura da vida em seu duplo sentido, pois a vida constitui ao 
mesmo tempo o sujeito dessa cultura e seu projeto. É uma açãoque a vida exerce sobre 
si mesma e pela qual ela se transforma, uma vez que é a própria vida que transforma. 
[…] “Cultura” designa autotransformação da vida, o movimento por meio do qual ela 
não deixa de modificar a si mesma, a fim de alcançar formas de realização mais elevadas, 
a fim de crescer5. 
Essas perspectivas revelam uma relação direta entre a cultura e a vida e desta com o 
mundo, pois a cultura significa o mundo, oferecendo interpretações, oferecendo meios de 
entendê-lo sob um conjunto de ideias que colocam a nossa experiência de vida de maneira 
a interagir com o outro e com o mundo mediante uma constante atividade. Estar vivo é 
 
3 C.f PRATA, Francisco Xavier Pina. Dialética da Razão Vital: intuição originária de José Ortega y Gasset. 
Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962. 
4 Idem, p.48. 
5 C.f. HENRY, Michel. A Barbárie. São Paulo: É Realizações, 2012 
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estar em meio a uma cultura, em suas crenças e ideias. Por isso ela é importante, porque 
nos chama a ação, a essa autotransformação para que valores sejam expressos e que nossa 
condição possa estar além do elemento biológico. Fora dessas possibilidades a pessoa que 
se distancia desse mínimo de perspectiva da cultura, da vida, se afasta de tudo que poderia 
ser, se alheia daquilo que o mundo oferece e, o principal, afasta-se de si próprio deixando 
para outros determinarem seus julgamentos sem a menor capacidade de ver por si o que 
a vida está a realizar. 
O que, a princípio, era meramente visto como algo inútil, mostrou-se importante para o 
espírito humano, ao ponto de ser distintivo da sua condição vital. Sem a cultura, sem 
conhecer um mínimo da atividade do homem, perdemos nós mesmos a função básica de 
nosso espírito: criar algo que o justifique, que dê sentido a tudo e que dificulta a 
interpretação da realidade em que vive. O homem que não procura se inteirar da criação 
humana e dela não participa distancia-se de sua condição vital, distancia-se de sua busca 
interior, entrega-se ao arbitrário e ao biológico. 
Exemplo disso é o quanto nos toca cada atividade cultural que é grande, que expressa 
bem essa realidade humana. Seja um romance ou uma filosofia, que nos mostra o ser 
humano, seu espírito e atividade. A contemplação, absorção e identificação das obras 
culturais com a vida em si é o que nosso espírito ganha. A relação com o mundo, com 
obras vivas, e com realidades que exploram justamente essa vida em meio às 
circunstâncias. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Cultura e vida 
 
A relação da cultura com a vida nos colocou frente a um detalhe importante. Desnudou a 
relação direta entre uma e outra e levou nossa percepção ao fato de ser a primeira uma 
necessidade vital para o homem que não está nesse mundo apenas por critérios biológicos. 
Lançado nessa existência sem saber a priori o que deve ser feito dessa vida, é por meio 
desses elementos que ele vai inserindo sentido na vida. Essa precisa alimentar seu espírito, 
precisa nutrir esse intelecto como nutre o corpo, e a soma do conhecimento do passo ao 
agir presente que irá levar o homem a criar um projeto a ser alcançado6. Projeto esse vital, 
não biológico, que significará toda uma existência, fará com que cada um possa planejar 
sua vida em prol da realização de uma vocação. A cultura é produto da vida, desenvolvida 
como meio de fazer dela algo maior que o biológico, algo composto de matéria e espírito. 
Ou melhor, é o que nos revela a condição de sermos parte do mundo, desenvolvedores do 
potencial deste que é também o nosso. O que nos leva ao dizer de Ortega: “eu sou eu e 
minha circunstância, se não a salvo não me salvo eu”7. 
Elevemos então a nossa perspectiva para mostrar que não é a vida humana biologia, mas 
biografia8, algo a ser contato, algo que é narrativa. E não poderia ser isso maior 
identificação com as obras livrescas da nossa cultura. O que é um romance senão uma 
narrativa? Percepção essa que levou Miguel de Unamuno a nos mostrar que “Por acaso 
a vida de cada um de nós é mais do que um romance? Existe romance mais romanesco 
do que a autobiografia?”9. 
Nossa vida é um romance, uma história que está a ser contada, transcorrendo em meio ao 
mundo e que não possui todas as respostas para todas as perguntas. Deveríamos, para 
isso, passar por todas as experiências possíveis para tentar compreender todas as 
possibilidades. Mas como não é possível, já que viver é um “quefazer” que nos clama a 
escolhas constantes e que nos remove umas possibilidades em virtude de vivenciar outras, 
até mesmo em nossa história o enredo é intencionalmente decidido e realizado seguindo 
um caminho ao invés de outro. 
Com essa relação imediata e clara, vamos chegando ao ponto principal de nossa proposta. 
É agora que vemos onde toda a literatura é importante. Marías nos lembra que toda a 
literatura é uma forma de conhecimento, conhecimento das possibilidades da vida 
humana10. É por meio dessas inúmeras histórias que possibilidades de realidades que não 
vivemos se apresentam a nós. Através da história de um romance conhecemos vidas 
humanas parecidas com a nossa, com as quais podemos nos identificar ou afastar. É por 
meio dessa relação que fazemos, de entrar nessas outras histórias, que podemos ver 
situações humanas outrora impensadas. É experiência de vida que nos sãos entregues para 
 
6 C.f. MARÍAS, Julián. Mapa del mundo personal. Madrid: Alianza Editorial, 1994. 
7 C.f. ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote. Campinas, SP: Vide Editorial, 2019. 
8 C.f. ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016. 
9 C.f. UNAMUNO, Miguel de. Como escrever um romance. São Paulo: É Realizações, 2011. 
10 C.f. MARÍAS, Julián. El existencialismo em España: presencia y ausencia. Bogota: Ediciones Universidad 
Nacional de Colombia, 1953. 
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que, mediante a nosso esforço de compreensão, possamos aprender com eles sobre nossa 
condição. 
A vida humana está relacionada com essas outras vidas criadas em paralelo com ela. O 
esforço de um artista em ordenar uma série de experiências imaginárias em uma narrativa 
nos dá esse contato com a experiência possível e nos revela sobre a nossa própria vida. É 
esse o estado que nos leva até o ensinamento de Unamuno: 
Então, quando conto a eles como escrever um romance, ou seja, como estou escrevendo 
o romance da minha vida, a minha história, faço que eles escrevam seu próprio romance, 
o romance que é a vida de cada um deles. E ai daqueles que não têm um romance. Se a 
sua vida, leitor, não é um romance, uma ficção divina, uma fantasia da eternidade então 
largue estas páginas, não continue me lendo11. 
É por isso que deve nos interessar a literatura, por ser ela narrativa, romance, vida! Por 
ser análoga à nossa condição de homens vivos que estão a criar a própria história e que 
podem retirar dessas histórias inúmeras possibilidades de ensinamentos sobre as questões 
do viver. É por estarmos vivos, por estarmos a escrever nossa própria que outras histórias 
são importantes. Se fossemos criaturas sem intelecto, o espírito não clamaria por essas 
significações, interpretações, ideias e pela transcendência. Não diferenciaríamos muito 
dos outros animais. Isso é a vida, nossa história, nosso romance, e por ser conhecimento 
da vida, voltemos a Unamuno que mostra ser o leitor quem na verdade aquele que 
“procura os romances afim de se descobrir, a fim de viver em si, de ser ele mesmo”12. 
Não vamos ler para ganhar dinheiro, nem para buscarmos soberbamente o conhecimento 
aplicável em qualquer situação empírica imediata. Entraremos nas páginas de Memórias 
da Casa dos Mortos para participar da dura experiência de prisão e a metamorfose daquele 
personagem narrador, vigiaremos Gregor Samsa porque sua metamorfose nos mostra a 
fragilidade daqueles que se tornam como gigantescos insetos asquerosos da noite para o 
dia, embarcamos com Odisseu em seu barco porque o retorno para casa é nossa aventura 
cotidiana. Em cada livro, cada caso, várias possibilidades e experiências são dadas. É 
como nossa vida, mas a diferença que a obra literária está pronta, nossa vida está por 
fazer, e servirá o romance como ferramenta para que nossas surpresas sejam balanceadas 
com a interiorização e vivência dessas inúmeras vidas. A literatura nos leva a ler o mundo 
com um leque muito maior de percepções. É vida que se mostra a nós, como nós nos 
mostramos durante o cotidiano. 
 
 
 
 
 
 
 
11 UNAMUNDO, op. cit. 
12 Idem. 
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Valores e vida na literatura 
 
Pensemos que a literatura é algo vivo, e ganha vida através do homem, portanto é parte 
dele, e o bom farejador de temas humanos poderá ver que essa arte está carregada de tudo 
que é parte da vida humana. O teólogo encontrará teologia, o historiador perceberá a 
história e o filósofo a filosofia. Mas o ponto aqui é: tudo isso é ação vital humana, parte 
do viver do homem e de suas construções espirituais que movimentam todo o sentido que 
encontra no mundo. 
Mesmo que tenhamos em nossos dias muitos veículos de comunicação, muitas formas de 
fazer com que a vida seja expressa, cada uma delas possui uma característica, e não seria 
justo excluir todas em prol de uma. O cinema e demais audiovisuais tem seu espaço, mas 
não podem substituir aquilo que os livros e a literatura entregam. As narrativas literárias 
podem oferecer uma transmissão de uma imersão muito mais pessoal em uma história, 
uma relação muito mais íntima pautada pela própria reconstrução de toda uma realidade 
narrada em sua mente, em uma relação que não entrega tanto quanto um filme, que 
demanda outra sensibilidade para ser aproveitado. 
Talvez pela falta de tempo na modernidade seja muito mais cômodo consumir apenas 
audiovisual ao invés de se permitir uma leitura longa e intimista sendo condição de 
criação de perspectivas mais profundas dentro da psique. O espaço da literatura deve ser 
ocupado sem ser engolido pelos filmes (e vice versa). 
As problemáticas da vida humana que se levantam para nós o tempo todo faz com que 
passemos a observar o quanto a vida humana é irredutível às meras fórmulas científicas, 
conceitos e elaborações técnicas analíticas duras. E as reflexões com relação à vida 
humana partem das construções narrativas que mostram o desenvolvimento da vida diante 
das situações do mundo, explorando condições psicológicas, existenciais, históricas e 
pessoais. Nessa ordenação a escolha das circunstâncias e a responsabilidade vital diante 
delas nos chama atenção para o que segue cada escolha e chama atenção pelas atitudes de 
responsabilidade com cada um dos caminhos percorridos. 
Ficamos em uma condição na qual “a literatura tira-nos das nossas coordenadas de 
tempo e espaço e coloca-nos dentro de outras coordenadas, ficcionais, que nos permitem 
cair em si, para com tudo o que estamos fazendo e refletir na nossa forma de viver”13. 
Esse é o processo de encontro com outras possibilidades de realidade, de outras vidas 
possíveis que expressam tensões e experiências humanas de grande importância para nós. 
É por meio de tais situações que 
Um leitor envolve-se com um livro, seu eu encontra-se com muitos eus de cada 
personagem, fica sabendo de outras experiências, com as quais compara a sua própria 
vida, alegra-se, ri, entristece-se, chora, sofre com a sorte de uns e outros, tem condições 
de percorrer e analisar a vida de muitos14. 
Vejamos o que pode ser dito sobre essas reflexões por Olavo de Carvalho. 
 
13 C.f. RUIZ. op. cit. 
14 Idem. 
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Ele nos lembra o trabalho que é a criação literária de qualidade com a seguinte colocação: 
“A grande literatura nasce da síntese do fervor, da devoção, da sinceridade moral, com 
a elevação da inteligência e a amplitude da visão do mundo”15. E digo que essa é aquela 
que tem uma real possibilidade de realidade, não meros esquematismos, modismos e 
enredos feitos sob medida para vender, mas sim aquelas obras que possuem elementos 
estéticos e vitais grandiosos, que nos fazem ver a vida pulsando em seu interior". 
Prosseguindo com o mesmo autor, vejamos mais esse trecho de seus escritos: 
Se examinamos os grandes romances do passado, “Ilusões Perdidas”, “O Vermelho e o 
Negro”, “Crime e Castigo”, “Guerra e Paz”, “Grandes Esperanças”, “O Processo 
Maurizius”, “A Montanha Mágica”, não podemos escapar à conclusão que define o 
romancista, acima de tudo, como um historiador do possível, um biógrafo de vidas 
imaginárias. E justamente porque se trata de vidas imaginárias é que ele consegue inserir 
tão bem o drama das almas individuais no contexto social, histórico e cósmico que as 
enquadra. Ao historiador científico essa conexão íntima pode escapar, diluindo-se no 
oceano de detalhes, documentos e testemunhos, a não ser que ele preencha os hiatos com 
uma imaginação de romancista. Só a imaginação tem o poder de sintetizar em símbolos 
eloqüentes as totalidades que fogem ao puro enquadramento conceptual16. 
É na obra literária que a ordem narrativa consegue ser clara, enquadrar tudo e mostrar 
todos os ângulos. A vida humana em seu transcorrer precisa, como mostrou Marías, de 
um momento de recapitulação, ou seja, de procurar ordenar internamente essa narrativa 
pessoal para que todos os pontos se encaixem17. Essa recapitulação narrativa já é dada no 
romance, e vê-la com frequência exemplifica a forma de fazer a nossa trajetória pessoal 
da mesma maneira. Pensar no passado, dar forma e saber contar é característica vital 
humana que temos ordenada na literatura. É um exercício que nos aproxima, mais uma 
vez, dessa obra da cultura e que é mais um incentivo para mantermos contato com ela 
sempre que possível. 
Na medida que conhecemos mais literatura, mais experiências humanas, conhecemos a 
nós mesmos e podemos perceber melhor nossa instalação biográfica. Ver as coisas sobre 
essa ótica nos ajuda a tomarmos nossa própria existência como objeto a ser construído 
cotidianamente, sabendo que os tormentos de um Coração nas Trevas podem vir a nos 
angustiar da mesma forma que a tristeza de uma Madame Bovary. É com essa consciência 
de observar o que estamos fazendo de nosso viver, qual caminho estamos trilhando, que 
devemos revisitar nossa história, ao ponto de poder observar o que falhou, da mesma 
forma como vemos o princípio da agonia de Ivan Karamázov. Isso seria um planejamento 
da vida, que passa pela recapitulação, movimento de iluminação da própria realidade 
existencial. 
 
15 C.f. CARVALHO, Olavo de. Literatura do baixo ventre. In: https://olavodecarvalho.org/literatura-do-
baixo-
ventre/#:~:text=%E2%80%9CA%20intelig%C3%AAncia%20trabalha%20como%20uma,concess%C3%B5es
%2C%20n%C3%A3o%20tolera%20ruindades.%E2%80%9D&text=A%20grande%20literatura%20nasce%2
0da,amplitude%20da%20vis%C3%A3o%20do%20mundo. 
16 C.f. CARVALHO, Olavo de. Notapublicada em seu perfil do facebook no dia 10 de abril de 2017. Link: 
https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/10155138833472192 
17 C.f. op. cit. 1994. 
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É dessa leitura de nós mesmos, como a um romance que conseguimos ordenar, que 
podemos nos planejar. Esse “planejar a vida é imaginar com base na realidade pessoal 
possuída: quanto maior o continente conhecido, maior e mais íntimo o eu projetado e 
desejado no presente”18. Mais um ponto que nos leva até à produção da cultura humana, 
porque tudo que conhecemos, todo que já foi feito e pensamos em fazer, todas as 
experiências que adquirimos, irão compor nossos projetos, mostrar possibilidades e 
facilitar a nossa compreensão de nossas circunstâncias. E isso é terreno da literatura, que 
levou nossa percepção a ver, cada vez mais, a vida como ela é... 
Esse planejar precisa de uma narrativa, e é por isso que precisamos estar atentos a nós 
mesmos. “Narrar é voltar a si mesmo. É perscrutar a própria história e deixar que os 
fatos falem; em seguida, usar da inteligência e da vontade de sentido para encadeá-los, 
dando uma forma para a vida pessoal. Na conexão fugidia, estar cada vez mais próximo 
– pela posse que expande o reino conhecido – da única verdade capaz de nos libertar e 
que ressuma através da voz interior que suplicará autenticidade por um lugar no 
Paraíso”19. 
Entramos em um ponto crucial. Entender que a narrativa pessoal, assim como outra 
narrativa, nos leva a algum fim. É o delineamento que damos a nós mesmos, é o processo 
de formação que vai ganhando seus contornos finais. Se lemos uma história que não 
entrega bons personagens, que trata tudo esquematicamente como se tudo fosse uma 
ordem de serviço em um fast food, ou se é tudo uma repetição constante até mesmo no 
pensamento deles, essas vidas são vazias. Onde encaixamos a pergunta: que tipo de 
romance é minha vida? 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
18 C.f. AMORIM, Tiago. Por que não somos felizes? Santos: Editora Simonsen, 2016. 
19 Idem. 
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Vida e drama 
 
Ao compreender que literatura é uma arte da qual a vida humana está expressa, que se 
relaciona com ela de várias formas, não poderíamos de deixar a observação de Charles 
Du Bos de fora. Seu texto nos coloca que “a literatura nada mais é senão essa vida no 
momento em que atinge a plenitude de expressão a lama de um homem de gênio. [...] Ela 
parte da alma e volta para ela. E jamais a encontrará, se em primeiro lugar e acima de 
tudo nossa alma não lhe corresponder pela emoção”20. E a alma possui essa ligação com 
a narrativa literária, porque essa vida nada mais é que “o vale onde se forjam as almas”21. 
Nada expressa melhor isso que a concepção da vida como um drama a ser vivido. 
A vida humana tem um caráter dramático, expressa Marías, porque não é uma série de 
atos feitos, senão que acontece e formalmente acontece com alguém22. O drama constitui 
nosso agir, o constante ter que fazer algo, e projetar a vida a um futuro que pode não ser 
o que pensamos. Mesmo assim, o caminho que trilhamos e vamos construindo 
biograficamente nossa condição humana, em meio a tensões e movimentos vários, 
podemos nos ordenar ao salvar as circunstâncias que estamos instalados e fazer da 
condição de viver uma história bem realizada. 
É situação similar a uma Sônia, que mesmo no inferno ainda é boa e auxilia no processo 
de conversão de um assassino. Sabendo por meio da literatura de todos esses elementos 
morais que podem nos opor, ao invés de nos sujarmos com a lama, devemos nos levantar 
como heróis. A construção da história é justamente por meio dessas decisões, umas mais 
duras que outras, e que nunca imaginamos ter que tomar, mas sabemos que cada escolha 
nos será cobrada entre quatro paredes. Enfrentando as condições narrativas que nossos 
autores nos deram, podemos ter uma mínima relação clara com perspectivas 
importantíssimas, que de fora é fácil julgar, mas que durante o silêncio de Deus, não 
saberíamos como comportar. É entender que, ao ver um Diabo retornando para nos tentar, 
fugir da tentação e manter-se virtuoso é caminho para vitória. 
Tudo isso perpassa por vários campos, e exatamente por isso que a imaginação moral 
concedida pelas obras literárias é o primeiro degrau para o entendimento conceitual de 
exposições técnicas. Entendemos o conceito porque vivenciamos a realidade expressa por 
ele. Sabemos o que é o bode expiatório porque o vimos no Cristo. 
Outra constatação importante: a literatura nos oferece essas possibilidades de realidade e 
acaba por nos situar também na realidade. Todos os exemplos oferecidos, todo o trabalho 
imaginativo que promove é meio de promover a instalação no mundo, de entender lugares 
e possibilidades de futuro. Tomando a narrativa dramática da vida como algo a ser feito 
e entendido, os modelos novelescos são formas de trabalhamos nossa inteligência e 
imaginação para a ilustração do mundo que não podemos abarcar todo por experiência. 
A construção narrativa nos leva onde não podemos ir, descreve o que não entendemos de 
primeira mão e dá concreção para a produção conceitual vazia. 
 
20 C.f. DU BOS, Charles. In: MOELLER, Charles. A angústia do homem moderno. Petrópolis – RJ: Vozes, 
1968. 
21 Idem. 
22 C.f op. cit. 1994 
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O que poderíamos fechar com um comentário de Olavo de Carvalho: 
A literatura não é compreensão das ciências, nem da sociedade, nem de nenhuma coisa 
em particular, mas simplesmente experiência acumulada e narrada da vida. É assim 
porque em nossa individualidade não podemos viver todas as experiências. Noventa e 
nove por cento das nossas experiências são experiências acumuladas dos outros, que nós 
ouvimos falar, que nós lemos… E a literatura é o núcleo, é o que tem de melhor sobre a 
experiência humana. São aspectos altamente significativos da experiência humana 
condensados em símbolos e que você toma como se fossem pílulas. A literatura de ficção 
é isto: a aquisição de experiências humanas e dos meios de simbolizá-las, de narrá-las, 
pois ter a experiência apenas não basta. Nós precisamos narrar a experiência não apenas 
para os outros, mas também para que a experiência torne-se pensável para nós, com o 
objetivo de dominá-la intelectualmente. O indivíduo que leu dez, vinte, cem, mil 
narrativas ficcionais como romances, peças de teatro etc. Narrará as suas experiências 
para os outros e para ele mesmo de um modo muito mais claro e direto. Por outro lado, 
uma pessoa inculta não sabe narrar precisamente as suas experiências. A pessoa inculta 
toma a sua história e a reduz a uma história parecida e mais simples, mas nunca a toma 
com a devida precisão. É por isso que quanto mais inculta é a pessoa mais letais são 
para ela os problemas psicológicos. Dramas que um homem culto consideraria como 
ridículos levam um homem inculto ao suicídio. Por que os crimes passionais são em muito 
maior número nas classes incultas? Porque essas pessoas não sabem lidar com o 
problema, não possuem meios de elaborar intelectualmente o drama. Nem elas e nem o 
seu meio social. Então tudo vira tragédia23. 
Além de trazer mais uma vez a importância do vivenciar as várias experiências humanas 
através do recurso literário e como isso é forte marca de nossa formação, principalmente 
na capacidade de ordenar e narrar a própria condição, outro fenômeno está contido nesse 
trecho. Falo do conceito de homem cultoe homem inculto. Vamos utilizar as mesmas 
noções iniciais sobre cultura para averiguar esses fenômenos. O primeiro, o culto, é o que 
está projetando a vida, está atuando junto com suas circunstâncias, está a observar a 
narrativa da sua vida e lhe dá sentido. Lê o suficiente para conseguir essa proeza e deixa 
isso visível aos demais. Já o inculto, é seu oposto. E fica claro que a sua limitação começa 
justamente por essa pobreza do espírito, faltando seu luxo, faltando permitir a que a vida 
cresça e que não se renda à barbárie que é ter a vida estática e guiada pelo utilitarismo. O 
espírito alimentado pela literatura fica claramente mais sensível para os eventos de sua 
vida, porque a comparação com as vidas paralelas dos romances dera a ele material para 
saber lidar com o que surge na sua própria história. 
Ao fim, nossa própria conduta moral é atualizada pelas várias histórias que conhecemos, 
sabendo que a vida expressa claramente uma incontável variedade de situações. Mas pela 
literatura vivemos mais, e entendemos mais essa complexidade. Olavo também trata disso 
na nota abaixo24: 
A aquisição da alta cultura é o único meio que você tem para ter uma conduta moral que 
preste. Fora disso, você está no mundo da irresponsabilidade moral. Por exemplo, existe 
 
23 C.f. CARVALHO, Olavo de. A importância da Literatura. Notas no site: 
https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2019/07/25/a-importancia-da-literatura/ 
24 Idem. 
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um escritor inglês Frank Raymond Leavis, que dedicou sua vida a mostrar para as 
pessoas que a literatura de ficção é uma meditação sobre as possibilidades da vida moral 
humana. Na medida em que concebe enredos e situações possíveis, você está pesando um 
nível de responsabilidade moral que está presente na infinidade das situações humanas 
mais particulares e até indescritíveis. Ora, São Tomás de Aquino dizia que o «grande 
problema da moral é que a regra é a mesma, mas as situações são infinitamente 
variadas». Então, você não sabe como entender a regra geral em relação a cada 
situação. Ao mesmo tempo, você não pode viver todas as situações humanas, mas pode 
imaginá-las. Você pode ampliar o seu imaginário até ser capaz de compreender as 
situações humanas, as mais diferentes possíveis, e as mais afastadas da sua experiência 
imediata. Como é que nós fazemos isso? Por imaginação e pela literatura de ficção. Sem 
isso você simplesmente não compreende as situações. Não compreende a delicadeza e a 
subtileza das situações. Se você não compreende a delicadeza e a subtileza das situações, 
você vai julgar os seres humanos mediante uma projeção ingênua da sua própria pessoa 
sobre eles, sem entender exatamente o que está se passando com eles.(…) 
Vivenciar imaginativamente as mais variadas possibilidades de vida humanas, de 
situações humanas, de dramas humanos, de conflitos humanos, é o aprimoramento da 
sua imaginação moral, e não há outro instrumento para isso. Portanto, a grande 
literatura tem uma função eminentemente educativa e, pior: só ela tem essa função 
educativa. O simples raciocínio lógico, moral, não serve para isso. Mesmo as obras de 
filosofia moral e de teologia moral mais sublimes que existem, não servem para isso; por 
exemplo, uma grande obra-prima como a “Teologia Moral” de Santo Afonso de Ligório, 
são oito volumes onde ele vai estudando as mais diferentes situações. Santo Afonso de 
Ligório era bastante detalhado, mas em comparação com a variedade real das situações 
humanas, aquilo é nada. Ou seja: o pensamento lógico jamais poderia abranger a 
totalidade da situações, é necessário uma imaginação poderosa, porque através da 
imaginação você se identifica com os outros.(…) 
Porém, o tempo que eu vejo as pessoas perdendo, fazendo julgamentos morais sobre 
coisas que não entendem, é um negócio terrível. Então, por que em vez de fazer 
julgamentos morais, se tem tanto interesse em moralidade, você não tenta ampliar a sua 
percepção moral através da leitura ds grandes obras de literatura? Não há uma grande 
narrativa, romance, conto, novela, peça de teatro que não seja baseada num conflito 
moral. Pelo número de romances, contos, novelas e peças de teatro existentes, você 
imagina o número de conflitos morais diferentes que podem existir. Você tem a solução 
de todos eles na cabeça? Não. 
Depois disso nos resta seguir seu conselho: ler sempre literatura, para que não caiamos 
na bobeira de pensar ser uma ação moral algo simples. Ou melhor dizendo, acreditar que 
há sempre uma clareza completa na ação de todos, porque sabemos que há aqueles que 
não alimentam o espírito. 
 
 
 
 
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Viver e ler, ler e viver 
 
Depois desse curto trajeto até aqui, espero que a situação proposta inicialmente esteja 
solucionada. Se não, vamos sintetizar: lemos, procuramos a literatura, por ser ela 
elemento vital, por ser parte da vida, por nos engrandecer aquilo que temos de mais 
importante, o nosso espírito. A literatura supre uma condição vital do ser humano e não 
dar espaço para ela é perder a possibilidade de permitir o real crescimento da vida 
humana. O paralelo de nossa condição histórica, tão intensa ao ponto de Ortega dizer que 
a substância da vida humana é ela, faz com que estejamos sempre próximos a essas 
narrativas. 
É salutar lembramos, mais uma vez, de Unamuno25: 
Viver na história e viver a história! E uma forma de viver a história é contá-la, criá-la 
em livros. (...) A essência de um indivíduo e de um povo é sua história, e a história é o 
que se chama de filosofia da história, é a reflexão que cada indivíduo e cada povo fazem 
sobre o que lhes acontece, sobre o que acontece neles. 
 
Quase no Fim 
Eis que terminamos essa empreitada. Espero pouco com isso. Espero apenas que pensem 
sobre a literatura, sobre esses livros, como algo que não estão simplesmente lançados no 
campo da erudição, mas que estão no campo da vida humana, vida biográfica, vida 
histórica e dramática. Tendo percorrido essa coletânea de observações de pessoas muito 
importantes, que surja ao mesmo a curiosidade de pensar se não cabe aqui uma confissão 
de um filho do século, este sendo a era das aparências e do desempenho imediato e tente 
observar que o viver precisa dessas narrativas, precisa dos livros. Entendamos que “tudo 
para nós é livro, leitura: podemos falar do Livro da História, do Livro da Natureza, do 
Livro do Universo. Somos biblíacos. E podemos dizer que no princípio foi o livro”26. 
Que o desassossego dessas palavras nos leve ao livro mais próximo e que comecemos 
uma nova história. 
 
 
 
 
 
 
 
 
25 C.f. op. cit. 
26 Idem. 
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25 
 
Sobre a importância intelectual acerca da literatura 
 
Sempre haverá tipos que não conseguirão ver importância e tratarão com desdém, e certa 
superioridade, as notas expostas. Dirá que é possível entrar no mais alto esquema técnico-
filosófico sem nada mais ter consumido. Ou seja, uma pessoa de espírito vazio que tratará 
de conceitos abstratos, falará sobre tudo isso sem conseguir fazer uma conexão correta 
com a vida. 
Não levar a literatura como algo vital, como forma de conhecimento, fará com que se 
perda muito tempo quebrando a cabeça com dificuldades que uma peça de Aristófanesajudaria a entender melhor. 
Partindo dessa perspectiva, compartilho o trecho do escrito de Pedro G. Segato27 que 
sintetizou muito bem os devaneios de quem lança a literatura no limbo. 
A literatura, ou seja, a linguagem mito-poética, antecede a filosofia porque é ela quem 
apreende as experiências e materiais brutos da Realidade e os torna dizíveis em uma 
linguagem de domínio público, compartilhada por todos com facilidade. São esses 
materiais expressados em língua literária que serão trabalhados posteriormente pelos 
filósofos. Estudar filosofia sem ter no imaginário uma boa quantidade de experiências já 
trabalhadas literariamente é tentar raciocinar sem os materiais necessários. É como 
tentar fazer digestão de estômago vazio. “O pressuposto da atividade lógica” — dizia 
Benedetto Croce — “são as representações ou intuições. Se o homem não representasse 
coisa alguma, não pensaria. Se não fosse espírito fantástico, não seria também espírito 
lógico”. 
Todo conceito filosófico é retirado da experiência real do filósofo, de algo que ele 
vivenciou concretamente e, para compreendermos os conceitos abstratos, é necessário 
fazermos uma espécie de conversão do abstrato para o real, apreendendo 
imaginativamente a experiência humana a qual aquele conceito corresponde. Sem esse 
exercício de imaginação, as idéias do filósofo, por mais brilhante que ele seja, serão 
apenas conceitos abstratos pairando no céu das idéias puras, sem lastro na realidade 
concreta, no mundo real (...). 
Complemento, seguindo a linha de raciocínio que iniciei, atestando que, por não saber 
organizar nem mesmo a expressão da própria existência, lidar com formalismo conceitual 
puro, pairando acima do bem e do mal que desfila em uma escala cromática de cores 
dificilmente discerníveis, termos formados sob essa batuta, não pensadores, não homens 
da cultura viva, mas da cultura estática, que parou na expressão escrita pura, que vê a 
complexidade do real pela fórmula conceitual, mas que, ao se deparar com um problema 
do mundo não sabe ver onde está a peste ou a queda, só saberá dizer que A+B=C. 
Tomara que, cada vez mais, esse tipo de pessoa fique tão estática que não crie frutos secos 
dessa visão da vida. Não precisamos de papagaios de encíclicas ou de sumas, precisamos 
de pessoas que vejam na vida o seu drama e saibam lidar com eles como pessoas junto a 
 
27 SEGATO, Pedro G. A Importância da Literatura para o Estudo da Filosofia. In 
https://medium.com/@P.G.Segato/a-import%C3%A2ncia-da-literatura-para-o-estudo-da-filosofia-
dcbb4ef76167 
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outras pessoas, ou seja, em meio a incontáveis conflitos cuja luz de algum Ernesto Sabáto, 
ou um Dostoiévski ajudou a tornar mais familiar. 
Uma pessoa com tamanha limitação nunca entenderá o peso da expressão de Vilém 
Flusser28 sobre os vários livros: 
Estar em sua biblioteca e contemplar as paredes recobertas de livros, (não procurando 
determinado livro, mas contemplando), é como olhar um lago calmo e bem conhecido 
nosso, mas o qual esconde, não obstante, perigos ignorados. É sensação boa, porque 
transmite segurança à beira do perigo. É por isso que a biblioteca é, de todos os quartos 
da casa, o que mais abrigo. 
 
 
28 C.f. FLUSSER, Vilém. Livros. In: http://www.flusserbrasil.com/art157.pdf 
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