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2 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 3 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 4 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 5 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 6 A que pés estamos, ou uma apresentação do problema Existe uma grande quantidade de explicações sobre o porquê ler literatura. Levantam-se inúmeras vantagens intelectuais e técnicas e depois disso já lançam catálogos e mais catálogos de conteúdos para formar um leitor. Para alguns isso funciona, já que a necessidade de conhecer sobre os vastos campos do saber humano é um elemento natural. Outros entram no caminho da leitura por conta dos vários exemplos que vê. E não podemos esquecer daqueles que apenas seguem a última moda. Todos esses caminham de livro a livro e seguem enumerando os lidos e não lidos, sempre tem uma perspectiva sobre eles e a lista de novas aquisições sempre se atualiza. Essas pessoas poderiam muito bem responder a seguinte pergunta: “por que você gosta de ler?”. As respostas colocarão em evidência a sua necessidade para a aquisição de conhecimento, por ser uma de suas ferramentas de trabalho, por estar estudando, porque disseram que a história era muito boa, por ser o livro do próximo filme que promete estourar nos cinemas e por aí vai (poderíamos contar também aqueles que transitam com livros para ficar com uma imagem de intelectual, para chamar atenção, assim como fazem alguns donos de escritórios que colocam estantes repletas de livros simplesmente por enfeite e passar uma boa impressão). A essas possibilidades poderíamos juntar outras que levariam nossa breve introdução à proporções indesejadas no momento, mas por hora vamos deixar claro que os motivos que levam até a leitura, seja de literatura, história, teologia ou filosofia são vários, passando pela própria atividade da vida intelectual até mesmo pela nova moda surgida dos confins da internet. Façamos ainda mais uma observação interessante. Para um país com uma baixa média de leitores, com um mercado editorial que não possui bons preços, de um tempo para cá muitos estão investindo em falar de livros, incentivar a leitura e expor ideias contidas em várias obras e autores. Uma boa nova, finalmente, mas que levanta outras questões. Uma delas é: todos que passarem a dedicar algumas horas para a leitura entrarão para uma vida intelectual, se preparando para integrar o campo dos intelectuais? Outra é: a leitura é muito importante, mas como conseguir assimilar isso à minha vida, ao meu cotidiano, pois parece muito distante, ademais por ser eu uma pessoa que possui atividade técnica? Esta questão é a mais interessante, porque cobra uma resposta ao mesmo tempo circunstancial e geral. Em uma referência a C.S. Lewis, Rafael Ruiz diz que “lemos para sabermos que não estamos sós”1, porque lembramos, como nos diz um belíssimo trecho de O Apanhador no Campo de Centeio, diálogo entre Holden e seu professor Antolili, que diz ser as questões levantadas pelas pessoas (tanto o personagem quanto nós que queremos saber o porquê de nos dedicarmos aos livros) são comuns a muitos homens de várias épocas e lugares e para nossa sorte, alguns deles guardaram um registro de seus problemas. Você aprenderá com eles, se quiser. Da mesma forma que, algum dia, se você tiver alguma coisa a oferecer, alguém 1 C.f. RUIZ, Rafael. Literatura e Crise. São Paulo: Cultor de Livros, 2015. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 7 irá aprender alguma coisa com você. É um belo arranjo recíproco. E não é instrução. É história. É poesia2. E será sobre a questão dos livros e da literatura que falarei nesse breve texto, tentando mostrar o porquê é tão importante entrar em contato com essas obras dramáticas que tem por objetivo algo muitos mais nobre que enfeitar bibliotecas ou criar cenários para aparecer bem junto às visitas. Já adianto que o ponto de partida de todas essas atividades do espírito humano é comum, e em grande parte do que estará escrito haverá o fio condutor da tríade espanhola Unamuno, Ortega y Gasset e Julián Marías por motivos que espero deixar claro ao mostrar o quão importante é a literatura para a vida humana, assim como são as demais atividades do espírito humano. Espírito esse que é sinal de vida que deseja sempre mais. 2 C.F. SALINGER, J.D. O Apanhador no Campo de Centeio. Rio de Janeiro: Editora do Autor, s.d. 15ª edição. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 8 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 9 O valor do supérfluo Muitos clamam, com uma parcela de razão, que no campo da cultura humana muita coisa é supérflua, não conseguem nenhum avanço objetivo e chegam a falar, claramente, que atividades como literatura, filosofia ou história são desnecessárias. Não gostam e não fazem questão de gostar. Isso porque não conseguem ver uma utilidade para elas. Uma primeira observação é a noção utilitarista das coisas. Como se tudo que fazemos fosse para uma utilidade imediata, para obtenção de lucro e para manutenção da vida. Não mesmo. E coloco melhor: muitas dessas áreas, falando de forma estritamente biológica, de fato não possuem utilidade. Ler o que quer que seja não é conditio sine qua non para a existência biológica humana (lembremo-nos que a invenção da escrita é muito posterior às atividades de nossos antepassados, datando de uns 4000 anos a.C.). Poderíamos ainda, seguindo uma observação da antropologia cultural de Ortega3, destacar que a cultura é um luxo espiritual. Mas é a própria condição muito específica do ser humano, um ser que não é apenas biológico, mas espiritual, que vemos ser a criação da cultura uma necessidade desse espírito que busca a transcendência de si, pois é preciso expressar tudo o que esse espírito transcendental pode captar. Ele se relaciona com o mundo e a partir dele encontra o outro como ele é e segue até o encontro com o Sagrado. A cultura, portanto, surge como algo que está muito além do utilitarismo, da busca por uma vida prática e que resolva tudo aquilo que é apenas biológico. Ela é claramente a expressão do mais profundo do homem, do seu distintivo entre toda a Criação, é algo que se dirige ao espírito e, por isso, deve ser sempre cultivada. Assim sendo, “a cultura não é simples erupção factícia, mas criação humana progressiva de valores intelectuais, éticos e estéticos, que não têm promessas de eternidade”4, pois vão se construindo ao longo de toda a história humana, da qual sempre somos partícipes de uma forma ou outra. Nós ao mesmo tempo que recebemos cultura, pois entramos na vida em um mundo que já estava aqui muito antes de nós, devemos trabalhar para manter a cultura viva, colaborando com ela na medida do possível. Essa necessidade de cultura, de agir sobre ela, pode ser alinhada com a definição que temos de Michel Henry nos seguintes termos: Toda a cultura é uma cultura da vida em seu duplo sentido, pois a vida constitui ao mesmo tempo o sujeito dessa cultura e seu projeto. É uma açãoque a vida exerce sobre si mesma e pela qual ela se transforma, uma vez que é a própria vida que transforma. […] “Cultura” designa autotransformação da vida, o movimento por meio do qual ela não deixa de modificar a si mesma, a fim de alcançar formas de realização mais elevadas, a fim de crescer5. Essas perspectivas revelam uma relação direta entre a cultura e a vida e desta com o mundo, pois a cultura significa o mundo, oferecendo interpretações, oferecendo meios de entendê-lo sob um conjunto de ideias que colocam a nossa experiência de vida de maneira a interagir com o outro e com o mundo mediante uma constante atividade. Estar vivo é 3 C.f PRATA, Francisco Xavier Pina. Dialética da Razão Vital: intuição originária de José Ortega y Gasset. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962. 4 Idem, p.48. 5 C.f. HENRY, Michel. A Barbárie. São Paulo: É Realizações, 2012 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 10 estar em meio a uma cultura, em suas crenças e ideias. Por isso ela é importante, porque nos chama a ação, a essa autotransformação para que valores sejam expressos e que nossa condição possa estar além do elemento biológico. Fora dessas possibilidades a pessoa que se distancia desse mínimo de perspectiva da cultura, da vida, se afasta de tudo que poderia ser, se alheia daquilo que o mundo oferece e, o principal, afasta-se de si próprio deixando para outros determinarem seus julgamentos sem a menor capacidade de ver por si o que a vida está a realizar. O que, a princípio, era meramente visto como algo inútil, mostrou-se importante para o espírito humano, ao ponto de ser distintivo da sua condição vital. Sem a cultura, sem conhecer um mínimo da atividade do homem, perdemos nós mesmos a função básica de nosso espírito: criar algo que o justifique, que dê sentido a tudo e que dificulta a interpretação da realidade em que vive. O homem que não procura se inteirar da criação humana e dela não participa distancia-se de sua condição vital, distancia-se de sua busca interior, entrega-se ao arbitrário e ao biológico. Exemplo disso é o quanto nos toca cada atividade cultural que é grande, que expressa bem essa realidade humana. Seja um romance ou uma filosofia, que nos mostra o ser humano, seu espírito e atividade. A contemplação, absorção e identificação das obras culturais com a vida em si é o que nosso espírito ganha. A relação com o mundo, com obras vivas, e com realidades que exploram justamente essa vida em meio às circunstâncias. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 11 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 12 Cultura e vida A relação da cultura com a vida nos colocou frente a um detalhe importante. Desnudou a relação direta entre uma e outra e levou nossa percepção ao fato de ser a primeira uma necessidade vital para o homem que não está nesse mundo apenas por critérios biológicos. Lançado nessa existência sem saber a priori o que deve ser feito dessa vida, é por meio desses elementos que ele vai inserindo sentido na vida. Essa precisa alimentar seu espírito, precisa nutrir esse intelecto como nutre o corpo, e a soma do conhecimento do passo ao agir presente que irá levar o homem a criar um projeto a ser alcançado6. Projeto esse vital, não biológico, que significará toda uma existência, fará com que cada um possa planejar sua vida em prol da realização de uma vocação. A cultura é produto da vida, desenvolvida como meio de fazer dela algo maior que o biológico, algo composto de matéria e espírito. Ou melhor, é o que nos revela a condição de sermos parte do mundo, desenvolvedores do potencial deste que é também o nosso. O que nos leva ao dizer de Ortega: “eu sou eu e minha circunstância, se não a salvo não me salvo eu”7. Elevemos então a nossa perspectiva para mostrar que não é a vida humana biologia, mas biografia8, algo a ser contato, algo que é narrativa. E não poderia ser isso maior identificação com as obras livrescas da nossa cultura. O que é um romance senão uma narrativa? Percepção essa que levou Miguel de Unamuno a nos mostrar que “Por acaso a vida de cada um de nós é mais do que um romance? Existe romance mais romanesco do que a autobiografia?”9. Nossa vida é um romance, uma história que está a ser contada, transcorrendo em meio ao mundo e que não possui todas as respostas para todas as perguntas. Deveríamos, para isso, passar por todas as experiências possíveis para tentar compreender todas as possibilidades. Mas como não é possível, já que viver é um “quefazer” que nos clama a escolhas constantes e que nos remove umas possibilidades em virtude de vivenciar outras, até mesmo em nossa história o enredo é intencionalmente decidido e realizado seguindo um caminho ao invés de outro. Com essa relação imediata e clara, vamos chegando ao ponto principal de nossa proposta. É agora que vemos onde toda a literatura é importante. Marías nos lembra que toda a literatura é uma forma de conhecimento, conhecimento das possibilidades da vida humana10. É por meio dessas inúmeras histórias que possibilidades de realidades que não vivemos se apresentam a nós. Através da história de um romance conhecemos vidas humanas parecidas com a nossa, com as quais podemos nos identificar ou afastar. É por meio dessa relação que fazemos, de entrar nessas outras histórias, que podemos ver situações humanas outrora impensadas. É experiência de vida que nos sãos entregues para 6 C.f. MARÍAS, Julián. Mapa del mundo personal. Madrid: Alianza Editorial, 1994. 7 C.f. ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote. Campinas, SP: Vide Editorial, 2019. 8 C.f. ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016. 9 C.f. UNAMUNO, Miguel de. Como escrever um romance. São Paulo: É Realizações, 2011. 10 C.f. MARÍAS, Julián. El existencialismo em España: presencia y ausencia. Bogota: Ediciones Universidad Nacional de Colombia, 1953. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 13 que, mediante a nosso esforço de compreensão, possamos aprender com eles sobre nossa condição. A vida humana está relacionada com essas outras vidas criadas em paralelo com ela. O esforço de um artista em ordenar uma série de experiências imaginárias em uma narrativa nos dá esse contato com a experiência possível e nos revela sobre a nossa própria vida. É esse o estado que nos leva até o ensinamento de Unamuno: Então, quando conto a eles como escrever um romance, ou seja, como estou escrevendo o romance da minha vida, a minha história, faço que eles escrevam seu próprio romance, o romance que é a vida de cada um deles. E ai daqueles que não têm um romance. Se a sua vida, leitor, não é um romance, uma ficção divina, uma fantasia da eternidade então largue estas páginas, não continue me lendo11. É por isso que deve nos interessar a literatura, por ser ela narrativa, romance, vida! Por ser análoga à nossa condição de homens vivos que estão a criar a própria história e que podem retirar dessas histórias inúmeras possibilidades de ensinamentos sobre as questões do viver. É por estarmos vivos, por estarmos a escrever nossa própria que outras histórias são importantes. Se fossemos criaturas sem intelecto, o espírito não clamaria por essas significações, interpretações, ideias e pela transcendência. Não diferenciaríamos muito dos outros animais. Isso é a vida, nossa história, nosso romance, e por ser conhecimento da vida, voltemos a Unamuno que mostra ser o leitor quem na verdade aquele que “procura os romances afim de se descobrir, a fim de viver em si, de ser ele mesmo”12. Não vamos ler para ganhar dinheiro, nem para buscarmos soberbamente o conhecimento aplicável em qualquer situação empírica imediata. Entraremos nas páginas de Memórias da Casa dos Mortos para participar da dura experiência de prisão e a metamorfose daquele personagem narrador, vigiaremos Gregor Samsa porque sua metamorfose nos mostra a fragilidade daqueles que se tornam como gigantescos insetos asquerosos da noite para o dia, embarcamos com Odisseu em seu barco porque o retorno para casa é nossa aventura cotidiana. Em cada livro, cada caso, várias possibilidades e experiências são dadas. É como nossa vida, mas a diferença que a obra literária está pronta, nossa vida está por fazer, e servirá o romance como ferramenta para que nossas surpresas sejam balanceadas com a interiorização e vivência dessas inúmeras vidas. A literatura nos leva a ler o mundo com um leque muito maior de percepções. É vida que se mostra a nós, como nós nos mostramos durante o cotidiano. 11 UNAMUNDO, op. cit. 12 Idem. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 14 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 15 Valores e vida na literatura Pensemos que a literatura é algo vivo, e ganha vida através do homem, portanto é parte dele, e o bom farejador de temas humanos poderá ver que essa arte está carregada de tudo que é parte da vida humana. O teólogo encontrará teologia, o historiador perceberá a história e o filósofo a filosofia. Mas o ponto aqui é: tudo isso é ação vital humana, parte do viver do homem e de suas construções espirituais que movimentam todo o sentido que encontra no mundo. Mesmo que tenhamos em nossos dias muitos veículos de comunicação, muitas formas de fazer com que a vida seja expressa, cada uma delas possui uma característica, e não seria justo excluir todas em prol de uma. O cinema e demais audiovisuais tem seu espaço, mas não podem substituir aquilo que os livros e a literatura entregam. As narrativas literárias podem oferecer uma transmissão de uma imersão muito mais pessoal em uma história, uma relação muito mais íntima pautada pela própria reconstrução de toda uma realidade narrada em sua mente, em uma relação que não entrega tanto quanto um filme, que demanda outra sensibilidade para ser aproveitado. Talvez pela falta de tempo na modernidade seja muito mais cômodo consumir apenas audiovisual ao invés de se permitir uma leitura longa e intimista sendo condição de criação de perspectivas mais profundas dentro da psique. O espaço da literatura deve ser ocupado sem ser engolido pelos filmes (e vice versa). As problemáticas da vida humana que se levantam para nós o tempo todo faz com que passemos a observar o quanto a vida humana é irredutível às meras fórmulas científicas, conceitos e elaborações técnicas analíticas duras. E as reflexões com relação à vida humana partem das construções narrativas que mostram o desenvolvimento da vida diante das situações do mundo, explorando condições psicológicas, existenciais, históricas e pessoais. Nessa ordenação a escolha das circunstâncias e a responsabilidade vital diante delas nos chama atenção para o que segue cada escolha e chama atenção pelas atitudes de responsabilidade com cada um dos caminhos percorridos. Ficamos em uma condição na qual “a literatura tira-nos das nossas coordenadas de tempo e espaço e coloca-nos dentro de outras coordenadas, ficcionais, que nos permitem cair em si, para com tudo o que estamos fazendo e refletir na nossa forma de viver”13. Esse é o processo de encontro com outras possibilidades de realidade, de outras vidas possíveis que expressam tensões e experiências humanas de grande importância para nós. É por meio de tais situações que Um leitor envolve-se com um livro, seu eu encontra-se com muitos eus de cada personagem, fica sabendo de outras experiências, com as quais compara a sua própria vida, alegra-se, ri, entristece-se, chora, sofre com a sorte de uns e outros, tem condições de percorrer e analisar a vida de muitos14. Vejamos o que pode ser dito sobre essas reflexões por Olavo de Carvalho. 13 C.f. RUIZ. op. cit. 14 Idem. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 16 Ele nos lembra o trabalho que é a criação literária de qualidade com a seguinte colocação: “A grande literatura nasce da síntese do fervor, da devoção, da sinceridade moral, com a elevação da inteligência e a amplitude da visão do mundo”15. E digo que essa é aquela que tem uma real possibilidade de realidade, não meros esquematismos, modismos e enredos feitos sob medida para vender, mas sim aquelas obras que possuem elementos estéticos e vitais grandiosos, que nos fazem ver a vida pulsando em seu interior". Prosseguindo com o mesmo autor, vejamos mais esse trecho de seus escritos: Se examinamos os grandes romances do passado, “Ilusões Perdidas”, “O Vermelho e o Negro”, “Crime e Castigo”, “Guerra e Paz”, “Grandes Esperanças”, “O Processo Maurizius”, “A Montanha Mágica”, não podemos escapar à conclusão que define o romancista, acima de tudo, como um historiador do possível, um biógrafo de vidas imaginárias. E justamente porque se trata de vidas imaginárias é que ele consegue inserir tão bem o drama das almas individuais no contexto social, histórico e cósmico que as enquadra. Ao historiador científico essa conexão íntima pode escapar, diluindo-se no oceano de detalhes, documentos e testemunhos, a não ser que ele preencha os hiatos com uma imaginação de romancista. Só a imaginação tem o poder de sintetizar em símbolos eloqüentes as totalidades que fogem ao puro enquadramento conceptual16. É na obra literária que a ordem narrativa consegue ser clara, enquadrar tudo e mostrar todos os ângulos. A vida humana em seu transcorrer precisa, como mostrou Marías, de um momento de recapitulação, ou seja, de procurar ordenar internamente essa narrativa pessoal para que todos os pontos se encaixem17. Essa recapitulação narrativa já é dada no romance, e vê-la com frequência exemplifica a forma de fazer a nossa trajetória pessoal da mesma maneira. Pensar no passado, dar forma e saber contar é característica vital humana que temos ordenada na literatura. É um exercício que nos aproxima, mais uma vez, dessa obra da cultura e que é mais um incentivo para mantermos contato com ela sempre que possível. Na medida que conhecemos mais literatura, mais experiências humanas, conhecemos a nós mesmos e podemos perceber melhor nossa instalação biográfica. Ver as coisas sobre essa ótica nos ajuda a tomarmos nossa própria existência como objeto a ser construído cotidianamente, sabendo que os tormentos de um Coração nas Trevas podem vir a nos angustiar da mesma forma que a tristeza de uma Madame Bovary. É com essa consciência de observar o que estamos fazendo de nosso viver, qual caminho estamos trilhando, que devemos revisitar nossa história, ao ponto de poder observar o que falhou, da mesma forma como vemos o princípio da agonia de Ivan Karamázov. Isso seria um planejamento da vida, que passa pela recapitulação, movimento de iluminação da própria realidade existencial. 15 C.f. CARVALHO, Olavo de. Literatura do baixo ventre. In: https://olavodecarvalho.org/literatura-do- baixo- ventre/#:~:text=%E2%80%9CA%20intelig%C3%AAncia%20trabalha%20como%20uma,concess%C3%B5es %2C%20n%C3%A3o%20tolera%20ruindades.%E2%80%9D&text=A%20grande%20literatura%20nasce%2 0da,amplitude%20da%20vis%C3%A3o%20do%20mundo. 16 C.f. CARVALHO, Olavo de. Notapublicada em seu perfil do facebook no dia 10 de abril de 2017. Link: https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/10155138833472192 17 C.f. op. cit. 1994. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 17 É dessa leitura de nós mesmos, como a um romance que conseguimos ordenar, que podemos nos planejar. Esse “planejar a vida é imaginar com base na realidade pessoal possuída: quanto maior o continente conhecido, maior e mais íntimo o eu projetado e desejado no presente”18. Mais um ponto que nos leva até à produção da cultura humana, porque tudo que conhecemos, todo que já foi feito e pensamos em fazer, todas as experiências que adquirimos, irão compor nossos projetos, mostrar possibilidades e facilitar a nossa compreensão de nossas circunstâncias. E isso é terreno da literatura, que levou nossa percepção a ver, cada vez mais, a vida como ela é... Esse planejar precisa de uma narrativa, e é por isso que precisamos estar atentos a nós mesmos. “Narrar é voltar a si mesmo. É perscrutar a própria história e deixar que os fatos falem; em seguida, usar da inteligência e da vontade de sentido para encadeá-los, dando uma forma para a vida pessoal. Na conexão fugidia, estar cada vez mais próximo – pela posse que expande o reino conhecido – da única verdade capaz de nos libertar e que ressuma através da voz interior que suplicará autenticidade por um lugar no Paraíso”19. Entramos em um ponto crucial. Entender que a narrativa pessoal, assim como outra narrativa, nos leva a algum fim. É o delineamento que damos a nós mesmos, é o processo de formação que vai ganhando seus contornos finais. Se lemos uma história que não entrega bons personagens, que trata tudo esquematicamente como se tudo fosse uma ordem de serviço em um fast food, ou se é tudo uma repetição constante até mesmo no pensamento deles, essas vidas são vazias. Onde encaixamos a pergunta: que tipo de romance é minha vida? 18 C.f. AMORIM, Tiago. Por que não somos felizes? Santos: Editora Simonsen, 2016. 19 Idem. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 18 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 19 Vida e drama Ao compreender que literatura é uma arte da qual a vida humana está expressa, que se relaciona com ela de várias formas, não poderíamos de deixar a observação de Charles Du Bos de fora. Seu texto nos coloca que “a literatura nada mais é senão essa vida no momento em que atinge a plenitude de expressão a lama de um homem de gênio. [...] Ela parte da alma e volta para ela. E jamais a encontrará, se em primeiro lugar e acima de tudo nossa alma não lhe corresponder pela emoção”20. E a alma possui essa ligação com a narrativa literária, porque essa vida nada mais é que “o vale onde se forjam as almas”21. Nada expressa melhor isso que a concepção da vida como um drama a ser vivido. A vida humana tem um caráter dramático, expressa Marías, porque não é uma série de atos feitos, senão que acontece e formalmente acontece com alguém22. O drama constitui nosso agir, o constante ter que fazer algo, e projetar a vida a um futuro que pode não ser o que pensamos. Mesmo assim, o caminho que trilhamos e vamos construindo biograficamente nossa condição humana, em meio a tensões e movimentos vários, podemos nos ordenar ao salvar as circunstâncias que estamos instalados e fazer da condição de viver uma história bem realizada. É situação similar a uma Sônia, que mesmo no inferno ainda é boa e auxilia no processo de conversão de um assassino. Sabendo por meio da literatura de todos esses elementos morais que podem nos opor, ao invés de nos sujarmos com a lama, devemos nos levantar como heróis. A construção da história é justamente por meio dessas decisões, umas mais duras que outras, e que nunca imaginamos ter que tomar, mas sabemos que cada escolha nos será cobrada entre quatro paredes. Enfrentando as condições narrativas que nossos autores nos deram, podemos ter uma mínima relação clara com perspectivas importantíssimas, que de fora é fácil julgar, mas que durante o silêncio de Deus, não saberíamos como comportar. É entender que, ao ver um Diabo retornando para nos tentar, fugir da tentação e manter-se virtuoso é caminho para vitória. Tudo isso perpassa por vários campos, e exatamente por isso que a imaginação moral concedida pelas obras literárias é o primeiro degrau para o entendimento conceitual de exposições técnicas. Entendemos o conceito porque vivenciamos a realidade expressa por ele. Sabemos o que é o bode expiatório porque o vimos no Cristo. Outra constatação importante: a literatura nos oferece essas possibilidades de realidade e acaba por nos situar também na realidade. Todos os exemplos oferecidos, todo o trabalho imaginativo que promove é meio de promover a instalação no mundo, de entender lugares e possibilidades de futuro. Tomando a narrativa dramática da vida como algo a ser feito e entendido, os modelos novelescos são formas de trabalhamos nossa inteligência e imaginação para a ilustração do mundo que não podemos abarcar todo por experiência. A construção narrativa nos leva onde não podemos ir, descreve o que não entendemos de primeira mão e dá concreção para a produção conceitual vazia. 20 C.f. DU BOS, Charles. In: MOELLER, Charles. A angústia do homem moderno. Petrópolis – RJ: Vozes, 1968. 21 Idem. 22 C.f op. cit. 1994 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 20 O que poderíamos fechar com um comentário de Olavo de Carvalho: A literatura não é compreensão das ciências, nem da sociedade, nem de nenhuma coisa em particular, mas simplesmente experiência acumulada e narrada da vida. É assim porque em nossa individualidade não podemos viver todas as experiências. Noventa e nove por cento das nossas experiências são experiências acumuladas dos outros, que nós ouvimos falar, que nós lemos… E a literatura é o núcleo, é o que tem de melhor sobre a experiência humana. São aspectos altamente significativos da experiência humana condensados em símbolos e que você toma como se fossem pílulas. A literatura de ficção é isto: a aquisição de experiências humanas e dos meios de simbolizá-las, de narrá-las, pois ter a experiência apenas não basta. Nós precisamos narrar a experiência não apenas para os outros, mas também para que a experiência torne-se pensável para nós, com o objetivo de dominá-la intelectualmente. O indivíduo que leu dez, vinte, cem, mil narrativas ficcionais como romances, peças de teatro etc. Narrará as suas experiências para os outros e para ele mesmo de um modo muito mais claro e direto. Por outro lado, uma pessoa inculta não sabe narrar precisamente as suas experiências. A pessoa inculta toma a sua história e a reduz a uma história parecida e mais simples, mas nunca a toma com a devida precisão. É por isso que quanto mais inculta é a pessoa mais letais são para ela os problemas psicológicos. Dramas que um homem culto consideraria como ridículos levam um homem inculto ao suicídio. Por que os crimes passionais são em muito maior número nas classes incultas? Porque essas pessoas não sabem lidar com o problema, não possuem meios de elaborar intelectualmente o drama. Nem elas e nem o seu meio social. Então tudo vira tragédia23. Além de trazer mais uma vez a importância do vivenciar as várias experiências humanas através do recurso literário e como isso é forte marca de nossa formação, principalmente na capacidade de ordenar e narrar a própria condição, outro fenômeno está contido nesse trecho. Falo do conceito de homem cultoe homem inculto. Vamos utilizar as mesmas noções iniciais sobre cultura para averiguar esses fenômenos. O primeiro, o culto, é o que está projetando a vida, está atuando junto com suas circunstâncias, está a observar a narrativa da sua vida e lhe dá sentido. Lê o suficiente para conseguir essa proeza e deixa isso visível aos demais. Já o inculto, é seu oposto. E fica claro que a sua limitação começa justamente por essa pobreza do espírito, faltando seu luxo, faltando permitir a que a vida cresça e que não se renda à barbárie que é ter a vida estática e guiada pelo utilitarismo. O espírito alimentado pela literatura fica claramente mais sensível para os eventos de sua vida, porque a comparação com as vidas paralelas dos romances dera a ele material para saber lidar com o que surge na sua própria história. Ao fim, nossa própria conduta moral é atualizada pelas várias histórias que conhecemos, sabendo que a vida expressa claramente uma incontável variedade de situações. Mas pela literatura vivemos mais, e entendemos mais essa complexidade. Olavo também trata disso na nota abaixo24: A aquisição da alta cultura é o único meio que você tem para ter uma conduta moral que preste. Fora disso, você está no mundo da irresponsabilidade moral. Por exemplo, existe 23 C.f. CARVALHO, Olavo de. A importância da Literatura. Notas no site: https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2019/07/25/a-importancia-da-literatura/ 24 Idem. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 21 um escritor inglês Frank Raymond Leavis, que dedicou sua vida a mostrar para as pessoas que a literatura de ficção é uma meditação sobre as possibilidades da vida moral humana. Na medida em que concebe enredos e situações possíveis, você está pesando um nível de responsabilidade moral que está presente na infinidade das situações humanas mais particulares e até indescritíveis. Ora, São Tomás de Aquino dizia que o «grande problema da moral é que a regra é a mesma, mas as situações são infinitamente variadas». Então, você não sabe como entender a regra geral em relação a cada situação. Ao mesmo tempo, você não pode viver todas as situações humanas, mas pode imaginá-las. Você pode ampliar o seu imaginário até ser capaz de compreender as situações humanas, as mais diferentes possíveis, e as mais afastadas da sua experiência imediata. Como é que nós fazemos isso? Por imaginação e pela literatura de ficção. Sem isso você simplesmente não compreende as situações. Não compreende a delicadeza e a subtileza das situações. Se você não compreende a delicadeza e a subtileza das situações, você vai julgar os seres humanos mediante uma projeção ingênua da sua própria pessoa sobre eles, sem entender exatamente o que está se passando com eles.(…) Vivenciar imaginativamente as mais variadas possibilidades de vida humanas, de situações humanas, de dramas humanos, de conflitos humanos, é o aprimoramento da sua imaginação moral, e não há outro instrumento para isso. Portanto, a grande literatura tem uma função eminentemente educativa e, pior: só ela tem essa função educativa. O simples raciocínio lógico, moral, não serve para isso. Mesmo as obras de filosofia moral e de teologia moral mais sublimes que existem, não servem para isso; por exemplo, uma grande obra-prima como a “Teologia Moral” de Santo Afonso de Ligório, são oito volumes onde ele vai estudando as mais diferentes situações. Santo Afonso de Ligório era bastante detalhado, mas em comparação com a variedade real das situações humanas, aquilo é nada. Ou seja: o pensamento lógico jamais poderia abranger a totalidade da situações, é necessário uma imaginação poderosa, porque através da imaginação você se identifica com os outros.(…) Porém, o tempo que eu vejo as pessoas perdendo, fazendo julgamentos morais sobre coisas que não entendem, é um negócio terrível. Então, por que em vez de fazer julgamentos morais, se tem tanto interesse em moralidade, você não tenta ampliar a sua percepção moral através da leitura ds grandes obras de literatura? Não há uma grande narrativa, romance, conto, novela, peça de teatro que não seja baseada num conflito moral. Pelo número de romances, contos, novelas e peças de teatro existentes, você imagina o número de conflitos morais diferentes que podem existir. Você tem a solução de todos eles na cabeça? Não. Depois disso nos resta seguir seu conselho: ler sempre literatura, para que não caiamos na bobeira de pensar ser uma ação moral algo simples. Ou melhor dizendo, acreditar que há sempre uma clareza completa na ação de todos, porque sabemos que há aqueles que não alimentam o espírito. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 22 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 23 Viver e ler, ler e viver Depois desse curto trajeto até aqui, espero que a situação proposta inicialmente esteja solucionada. Se não, vamos sintetizar: lemos, procuramos a literatura, por ser ela elemento vital, por ser parte da vida, por nos engrandecer aquilo que temos de mais importante, o nosso espírito. A literatura supre uma condição vital do ser humano e não dar espaço para ela é perder a possibilidade de permitir o real crescimento da vida humana. O paralelo de nossa condição histórica, tão intensa ao ponto de Ortega dizer que a substância da vida humana é ela, faz com que estejamos sempre próximos a essas narrativas. É salutar lembramos, mais uma vez, de Unamuno25: Viver na história e viver a história! E uma forma de viver a história é contá-la, criá-la em livros. (...) A essência de um indivíduo e de um povo é sua história, e a história é o que se chama de filosofia da história, é a reflexão que cada indivíduo e cada povo fazem sobre o que lhes acontece, sobre o que acontece neles. Quase no Fim Eis que terminamos essa empreitada. Espero pouco com isso. Espero apenas que pensem sobre a literatura, sobre esses livros, como algo que não estão simplesmente lançados no campo da erudição, mas que estão no campo da vida humana, vida biográfica, vida histórica e dramática. Tendo percorrido essa coletânea de observações de pessoas muito importantes, que surja ao mesmo a curiosidade de pensar se não cabe aqui uma confissão de um filho do século, este sendo a era das aparências e do desempenho imediato e tente observar que o viver precisa dessas narrativas, precisa dos livros. Entendamos que “tudo para nós é livro, leitura: podemos falar do Livro da História, do Livro da Natureza, do Livro do Universo. Somos biblíacos. E podemos dizer que no princípio foi o livro”26. Que o desassossego dessas palavras nos leve ao livro mais próximo e que comecemos uma nova história. 25 C.f. op. cit. 26 Idem. Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 24 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 25 Sobre a importância intelectual acerca da literatura Sempre haverá tipos que não conseguirão ver importância e tratarão com desdém, e certa superioridade, as notas expostas. Dirá que é possível entrar no mais alto esquema técnico- filosófico sem nada mais ter consumido. Ou seja, uma pessoa de espírito vazio que tratará de conceitos abstratos, falará sobre tudo isso sem conseguir fazer uma conexão correta com a vida. Não levar a literatura como algo vital, como forma de conhecimento, fará com que se perda muito tempo quebrando a cabeça com dificuldades que uma peça de Aristófanesajudaria a entender melhor. Partindo dessa perspectiva, compartilho o trecho do escrito de Pedro G. Segato27 que sintetizou muito bem os devaneios de quem lança a literatura no limbo. A literatura, ou seja, a linguagem mito-poética, antecede a filosofia porque é ela quem apreende as experiências e materiais brutos da Realidade e os torna dizíveis em uma linguagem de domínio público, compartilhada por todos com facilidade. São esses materiais expressados em língua literária que serão trabalhados posteriormente pelos filósofos. Estudar filosofia sem ter no imaginário uma boa quantidade de experiências já trabalhadas literariamente é tentar raciocinar sem os materiais necessários. É como tentar fazer digestão de estômago vazio. “O pressuposto da atividade lógica” — dizia Benedetto Croce — “são as representações ou intuições. Se o homem não representasse coisa alguma, não pensaria. Se não fosse espírito fantástico, não seria também espírito lógico”. Todo conceito filosófico é retirado da experiência real do filósofo, de algo que ele vivenciou concretamente e, para compreendermos os conceitos abstratos, é necessário fazermos uma espécie de conversão do abstrato para o real, apreendendo imaginativamente a experiência humana a qual aquele conceito corresponde. Sem esse exercício de imaginação, as idéias do filósofo, por mais brilhante que ele seja, serão apenas conceitos abstratos pairando no céu das idéias puras, sem lastro na realidade concreta, no mundo real (...). Complemento, seguindo a linha de raciocínio que iniciei, atestando que, por não saber organizar nem mesmo a expressão da própria existência, lidar com formalismo conceitual puro, pairando acima do bem e do mal que desfila em uma escala cromática de cores dificilmente discerníveis, termos formados sob essa batuta, não pensadores, não homens da cultura viva, mas da cultura estática, que parou na expressão escrita pura, que vê a complexidade do real pela fórmula conceitual, mas que, ao se deparar com um problema do mundo não sabe ver onde está a peste ou a queda, só saberá dizer que A+B=C. Tomara que, cada vez mais, esse tipo de pessoa fique tão estática que não crie frutos secos dessa visão da vida. Não precisamos de papagaios de encíclicas ou de sumas, precisamos de pessoas que vejam na vida o seu drama e saibam lidar com eles como pessoas junto a 27 SEGATO, Pedro G. A Importância da Literatura para o Estudo da Filosofia. In https://medium.com/@P.G.Segato/a-import%C3%A2ncia-da-literatura-para-o-estudo-da-filosofia- dcbb4ef76167 Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com 26 outras pessoas, ou seja, em meio a incontáveis conflitos cuja luz de algum Ernesto Sabáto, ou um Dostoiévski ajudou a tornar mais familiar. Uma pessoa com tamanha limitação nunca entenderá o peso da expressão de Vilém Flusser28 sobre os vários livros: Estar em sua biblioteca e contemplar as paredes recobertas de livros, (não procurando determinado livro, mas contemplando), é como olhar um lago calmo e bem conhecido nosso, mas o qual esconde, não obstante, perigos ignorados. É sensação boa, porque transmite segurança à beira do perigo. É por isso que a biblioteca é, de todos os quartos da casa, o que mais abrigo. 28 C.f. FLUSSER, Vilém. Livros. In: http://www.flusserbrasil.com/art157.pdf Licenciado para - E rika S ilva R ibeiro - 93931948153 - P rotegido por E duzz.com