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PUC MINAS – Campus Contagem 
DIREITO CIVIL - SUCESSÕES – 7º Período-Noite 
Profª. Simone de Lara Pinto Reissinger 
 
I INTRODUÇÃO AO DIREITO DAS SUCESSÕES 
 
1.1 Noções iniciais 
 
O direito das sucessões é o ramo do direito civil que disciplina a transmissão dos 
bens, valores, direitos e dívidas deixados pela pessoa natural falecida aos seus sucessores, 
além dos efeitos de suas disposições de última vontade. 
A herança é o patrimônio ativo e passivo deixado pelo falecido (de cujus1), também 
denominado acervo, monte hereditário ou espólio. 
A sucessão também pode ocorrer entre vivos (sucessão inter vivos), quando alguém 
vende um bem está transferindo a propriedade daquele para o comprador. Esta sucessão 
também se verifica no contrato de doação. No Direito das Sucessões a causa é a morte 
(sucessão causa mortis), mas trata-se de um direito dos vivos, que são seus titulares e 
destinatários. 
Há de se questionar o fundamento da transmissão sucessória, ou seja, a razão pela 
qual se defere a pessoas indicadas por lei ou pela manifestação de vontade do autor da 
herança, o acervo de direitos e obrigações que lhe pertencia. A resposta apresenta 
variações conforme o momento histórico e a correntes de pensamento. 
Constata-se, no entanto, que atualmente a maioria dos doutrinadores compreende 
o direito hereditário como decorrência do direito de propriedade e do direito de família, 
conforme explica Carlos Roberto Gonçalves: 
 
É indubitável o interesse da sociedade em conservar o direito hereditário como 
um corolário do direito de propriedade. Deve o Poder Público assegurar ao 
indivíduo a possibilidade de transmitir seus bens a seus sucessores, pois, assim 
fazendo, estimula-o a produzir cada vez mais, o que coincide com o interesse da 
sociedade. A Constituição Federal de 1988, por isso, no art. 5º, XXII e XXX, 
garante o direito de propriedade e o direito de herança. 
O Código Civil de 2002 elevou o cônjuge e o companheiro a sucessores em grau 
de concorrência com os descendentes e ascendentes do de cujus, em quota-parte 
dependente da verificação de certos pressupostos. Assim agindo, o legislador, 
como observa Giselda Hironaka, “parece ter-se enquadrado entre aqueles que 
veem como fundamento do direito sucessório não apenas o direito de 
propriedade em sua inteireza como também o direito de família, com o intuito 
de protegê-la, uni-la e perpetuá-la”. (GONÇALVES, 2023, p. 11). 
 
1 “A expressão latina de cujus é abreviatura da frase de cujus sucessione (ou hereditatis) agitur, que significa 
“aquele de cuja sucessão (ou herança) se trata”.” (GONÇALVES, 2023, p. 9). 
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DIREITO CIVIL - SUCESSÕES – 7º Período-Noite 
Profª. Simone de Lara Pinto Reissinger 
 
 
O objeto do direito das sucessões são os bens de natureza patrimonial disponíveis, 
integrantes de relações privadas. Os direitos, pretensões e ações também integram a 
herança, como, por exemplo, o direito do falecido à indenização por danos causados por 
terceiro e cuja ação judicial ainda não foi julgada. As dívidas (passivo) da pessoa falecida 
são quitadas até a “força da herança”, ou seja, ao montante do patrimônio efetivamente 
deixado pelo que faleceu, sem alcançar o patrimônio pessoal de seus sucessores. 
Os bens jurídicos de natureza não patrimonial extinguem-se com a morte de seu 
titular, todavia, alguns de seus efeitos continuam protegidos por lei, como ocorre com os 
direitos da personalidade (intimidade, vida privada, honra, imagem, integridade física e 
psíquica, identidade pessoal, direitos morais de autor). Neste sentido, os sucessores são 
legitimados a defender judicialmente os respectivos direitos quando ofendidos após a 
morte de seu titular. 
Há, ainda, bens patrimoniais que se extinguem com a morte do titular, como 
exemplifica Paulo Lôbo (2022, p. 18): os direitos reais de uso, usufruto e habitação (art. 
1.410, 1.413 e 1.416, CC) ou o direito de preferência (art. 520, CC). No caso de sociedade 
empresária também não se transferem os direitos do sócio falecido, pois as respectivas 
quotas devem ser liquidadas, transferindo-se o valor, mas não a titularidade (art. 1.028, 
CC), salvo se, por acordo com todos os herdeiros, regular-se a substituição do sócio falecido 
(LÔBO, 2022). 
No direito brasileiro a sucessão a causa da morte (sucessão causa mortis) pode ser 
legítima ou testamentária (arts. 1.786; 1.788). 
A sucessão testamentária consiste na vontade declarada do autor da herança 
através de testamento (disposição de última vontade), que está limitado à parte disponível 
do seu patrimônio quando tiver herdeiros necessários (descendentes, ascendentes e 
cônjuge, art. 1.845, CC). 
A sucessão legítima é considerada a vontade presumida da pessoa falecida, sendo 
o destino dos bens determinado pela lei, conforme a ordem hereditária. 
Em qualquer das formas, a sucessão pode ser universal, quando todo o patrimônio 
é transmitido aos herdeiros, que passam a ser titulares de partes ideais (frações) da 
herança, ou singular, quando os bens são destinados a determinadas pessoas, 
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principalmente os legatários. Portanto, podemos ter as seguintes situações como 
exemplos: 
- se o autor da herança não deixar testamento, a sucessão será legítima e a título 
universal; 
- se o autor da herança deixar testamento determinando que o(s) herdeiro(s) 
testamentário(s) receba(m) fração do patrimônio ou a herança toda, a sucessão será 
testamentária e a título universal. E, se este testador ainda tiver herdeiros necessários, 
quanto a estes a sucessão será legítima e universal; 
- se o autor da herança deixar testamento determinando que sua casa de praia 
(bem específico) fique para seu sobrinho (herdeiro legatário), a sucessão será 
testamentária e a título singular. Se ainda tiver outros bens no patrimônio, que não foram 
especificados no testamento, a sucessão será legítima e a título universal. 
Paulo Lôbo explica a interação do direito das sucessões com outras áreas do Direito, 
assim concluindo: 
Assim, o direito das sucessões remete aos conceitos e categorias do direito de 
família e do direito das coisas. Igualmente, em grau menor, do direito das 
obrigações e do direito tributário – especialmente quanto à qualificação das 
dívidas deixadas – e do direito de empresa, quando o autor da herança era titular 
da totalidade, ou de partes ou ações de empresas. (LÔBO, 2022, p. 29) 
 
Neste primeiro tópico foram aprendidos alguns conceitos importantes que serão 
abordados durante todo o estudo do direito das sucessões. 
 
1.2 Abertura da sucessão: princípio da saisine 
 
O art. 1.784, CC é o primeiro artigo do Livro do Direito das Sucessões no Código 
Civil (Livro V) e trata da abertura da sucessão, que é o momento em que a pessoa natural 
morre, ocorrendo a transmissão da herança. Este dispositivo legal também consagra o 
princípio ou direito de saisine (droit de saisine), segundo o qual o próprio morto transmite 
ao sucessor a propriedade e a posse da herança. 
Neste contexto é necessário identificar o momento indiscutível da morte de 
alguém, isto é, pode-se falar que abre a sucessão quando há morte encefálica? Ou somente 
a morte cardiorrespiratória? Vejamos a resposta de Carlos Roberto Gonçalves: 
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Em regra é indispensável, para que se possa considerar aberta a sucessão de 
uma pessoa, a prova de sua morte real, mediante a apresentação do atestado 
de óbito. Tal espécie de atestado, todavia, só é fornecida a partir da constatação, 
mediante o exame do cadáver, da morte biológica, uma vez que, conforme já 
observado, o direito pátrio não admite a morte civil. (GONÇALVES, 2023, p. 14) 
 
Excepcionalmente, também ocorrerá abertura da sucessão com a morte presumidado trânsito em julgado da 
sentença penal condenatória para que a ação de indignidade (art. 1.815, CC) fosse julgada 
procedente. Entretanto, em 2023, foi incluído o art. 1.815-A ao Código Civil, pelo qual a 
sentença penal condenatória transitada em julgado acarretará a imediata exclusão do 
herdeiro ou legatário indigno, independentemente da sentença no âmbito civil (art. 1.815, 
CC). 
Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 46) entende que não há exigência legal de 
sentença penal condenatória para exclusão do herdeiro ou legatário em ação civil própria, 
aplicando-se o princípio da independência entre as responsabilidades civil e penal, 
conforme o art. 935, CC. Paulo Lôbo (2022, p. 199) também considera desnecessária 
decisão judicial condenatória no âmbito penal ou seu trânsito em julgado, haja vista não 
constar referida exigência no Código Civil. Neste sentido, a prova do fato delituoso no juízo 
cível é suficiente para a exclusão do herdeiro da sucessão. 
Assim, também, se houver sentença criminal absolutória reconhecendo a 
inexistência do fato ou da autoria, legítima defesa, estado de necessidade, estrito 
cumprimento de dever legal ou exercício regular de direito, esta prevalecerá no juízo cível 
afastando a pena de indignidade (art. 935, CC), a fim de evitar o conflito de decisões 
judiciais (art. 65, CPP). Entretanto, se a decisão não for de mérito, como, por exemplo, 
absolvição do réu com fundamento de natureza formal, a pena de indignidade pode ser 
aplicada no cível, pois neste caso não foi reconhecida a inexistência material do fato. 
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A prescrição da pretensão executória da condenação penal não retira a força 
executiva da sentença no cível, uma vez que não se confunde com os efeitos decorrentes 
da pretensão punitiva. 
O inciso II do art. 1.814, CC se refere aos crimes contra a honra do autor da herança, 
do seu cônjuge ou companheiro, abrangendo duas hipóteses: a) denunciação caluniosa em 
juízo (art. 339, CP); e b) prática de crime contra a honra (calúnia, difamação e injúria – arts. 
138, 139 e 140, CP). 
Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 47) e Paulo Lôbo entendem que não é 
necessária a prévia condenação criminal para que seja aplicada a exclusão do herdeiro por 
indignidade, assim como na primeira hipótese legal (homicídio doloso): 
 
A decisão do juízo penal para qualificação do crime contra a honra não é pré-
requisito para a decisão no juízo cível da exclusão do herdeiro. O que interessa 
é que a conduta se enquadre no tipo de crime contra a honra, como critério de 
delimitação, mas não que haja condenação judicial prévia do herdeiro pelo 
cometimento do crime. (LÔBO, 2022, p. 200) 
 
No entanto, havendo sentença penal condenatória de crime contra a honra pelo 
herdeiro, haverá automaticamente sua exclusão (art. 1.815-A, CC). 
Em relação ao crime de denunciação caluniosa, Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 
47) explica que a má redação do artigo tem ensejado o entendimento de que não abrange 
o cônjuge ou companheiro, mas somente o autor da herança, conforme afirma Paulo Lôbo 
(2022, p. 199): “a acusação caluniosa em juízo apenas leva à exclusão do ofensor da 
herança se a ofensa for dirigida ao de cujus, diferentemente da que ocorre fora do processo 
judicial, abrangente do cônjuge ou do companheiro, em virtude das circunstâncias 
distintas.” 
Para Gonçalves (2023, p. 47) “a melhor solução é interpretar que houve má redação 
do dispositivo em tela e que inexiste a apontada contradição, entendendo-se que em 
ambos os casos, de denunciação caluniosa e de crime contra a honra, a regra atinge a 
ofensa ao cônjuge e ao autor da herança.” 
Além disso, para a exclusão por indignidade, o herdeiro deve ter realizado a 
denunciação caluniosa em juízo, portanto não abrange aquela cometida por outro modo, 
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como por exemplo em palestras, jornais, livros, ou na esfera administrativa, perante a 
polícia ou outra repartição pública. 
Segundo Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 47) e Paulo Lôbo (2022, p. 200), a 
jurisprudência restringe a exclusão por indignidade somente para denunciação caluniosa 
no juízo criminal (REsp n. 1.185.122, Terceira Turma, Rel. Min. Massami Uyeda, julgado em 
17/02/2011). “A utilização da expressão “houverem acusado”, conduz ao entendimento 
de que a acusação há de ser formulada em juízo penal, seja perante o juiz, seja mediante 
representação ao Ministério Público.” (GONÇALVES, 2023, p. 47). 
A terceira hipótese legal de exclusão do herdeiro ou legatário por indignidade (art. 
1.814, III, CC) trata de violência ou fraude à vontade do autor da herança, que o inibe, limita 
ou impede de elaborar seu testamento. Consistem, então, “em condutas atentatórias à 
liberdade de testar, cometidas pelo herdeiro ou legatário com intuito de beneficiar a si 
próprio, outro herdeiro ou terceiro.” (LÔBO, 2022, p. 201). 
Flávio Tartuce (2022, p. 133) explica que a violência abrange tanto a física quanto a 
psicológica. Além disso, o termo fraude deve ser compreendido como qualquer atuação 
que burle a vontade do falecido, inclusive as praticadas em abuso de confiança. 
Os interessados na exclusão do herdeiro ou legatário deverão provar a violência ou 
os meios fraudulentos. Carlos Roberto Gonçalves cita alguns exemplos: 
 
A exclusão pode, assim, por exemplo, atingir o herdeiro legítimo que obste à 
feitura de testamento ou que suprima testamento cerrado ou particular 
anteriormente confeccionado, com o intuito de impedir que a parte disponível 
se desprenda da legítima; e também quando obrigue o testador a revogar sua 
última vontade. 
Pode, ainda, ocorrer quando determinada pessoa, que não desfruta da 
qualidade de herdeiro legítimo ou necessário, constrange o autor da herança a 
testar, ou elabora um testamento falso; ou, enfim, na hipótese de pessoa 
contemplada em testamento anterior, que impede que o testador o revogue. 
(GONÇALVES, 2023, p. 48) 
 
Explica, ainda, Gonçalves (2023, p. 48), que sendo a fraude e a violência 
considerados vícios de consentimento, podem ensejar a declaração de nulidade relativa 
do testamento, o que não impede a aplicação da pena de exclusão da sucessão ao herdeiro 
indigno. 
Além das causas previstas no art. 1.814, CC, os herdeiros necessários podem ser 
excluídos da sucessão por deserdação (art. 1.961), ou seja, vontade expressa do testador, 
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conforme as causas especificadas nos arts. 1.962 e 1.963, CC, consistindo em numerus 
clausus. Além disso, a causa legal da deserdação deve estar expressa no testamento (art. 
1.964, CC), ou seja, não é possível deserdar por outro meio. 
Paulo Lôbo (2022, p. 207) resume bem os requisitos para a deserdação: 
(1) enunciado do fato ou conduta, qualificável como causa de deserdação; 
(2) declaração expressa de deserdar o herdeiro necessário; 
(3) utilização de uma das formas legais de testamento; 
(4) prova da ocorrência da conduta e da causa, a ser feita pelos interessados, em 
juízo, após a abertura da sucessão. 
O art. 1.962, CC se refere às causas para deserdação dos descendentes pelos seus 
ascendentes; enquanto o art. 1.963, CC trata da deserdação dos ascendentes pelos 
descendentes. Cabe destacar que o cônjuge é herdeiro necessário (art. 1.845, CC), no 
entanto, o legislador omitiu eventuais causas para sua deserdação. Desta forma, não sendo 
possível a interpretação extensiva da norma restritiva de direitos, o cônjuge não pode ser 
deserdado por ausência de causa legal. Portanto, para o cônjuge são aplicáveis somente 
as causas legais de exclusão de qualquer herdeiro por indignidade (art. 1.814, CC). 
A primeira causa é a ofensa física entreeles, independentemente de condenação 
criminal. Assim, um filho pode ser deserdado por sua genitora, perdendo o direito à 
legítima, se ela realizar testamento afirmando sua exclusão motivada pela ofensa física 
(maus-tratos, por exemplo). 
A segunda hipótese é a injúria grave entre descendentes e ascendentes. Para Paulo 
Lôbo (2022, p. 209) esta causa já está contemplada entre as causas de exclusão do herdeiro 
(art. 1.814, II, CC), em qualquer grau e sem depender de manifestação em testamento. 
Para Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 174), não basta qualquer injúria, pois o 
adjetivo “grave” exige que tenha atingido seriamente a dignidade do testador e contenha 
o animus injuriandi, cabendo ao juiz apreciar a gravidade da injúria no caso concreto, 
conforme o seu prudente arbítrio. 
 
A injúria grave constitui ofensa moral à honra, dignidade e reputação da vítima, 
sendo praticada por palavras ou escritos, tais como cartas, bilhetes, telegramas, 
bem como por meio de gestos obscenos e condutas desonrosas. Muitas vezes o 
comportamento ultrajante e afrontoso de um filho pode magoar e insultar de 
forma mais profunda o pai do que palavras ofensivas. (GONÇALVES, 2023, p. 
174) 
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O terceiro motivo legal de deserdação consiste nas relações ilícitas do(a) filho(a) 
com a madrasta ou com o padrasto (art. 1.962, III, CC), bem como as relações ilícitas do(a) 
pai/mãe com a mulher ou companheira do filho ou do neto, ou com o marido ou 
companheiro da filha ou neta (art. 1.963, III, CC). 
Segundo Flávio Tartuce (2022, p. 136), a doutrina entende as relações ilícitas como 
práticas de atos sexuais e envolvimentos afetivos entre as pessoas citadas. Paulo Lôbo 
(2022, p. 209) afirma que a causa de deserdação deve compreender o ato sexual 
consumado e provado, não bastando o assédio, o galanteio, o namoro, a declaração 
amorosa. Com opinião contrária, Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 175) explica que não 
é necessário que haja relações sexuais, pois, para o citado autor, “a expressão “relações 
ilícitas” abrange, também, outros comportamentos lascivos, que envolvem namoro, 
libidinagem, intimidade, luxúria e concupiscência.” (GONÇALVES, 2023, p. 175). 
Paulo Lôbo (2022, p. 209) ressalta que se a relação sexual teve origem em ameaça, 
ou fraude, ou sedução por parte do padrasto ou da madrasta, não pode servir de 
fundamento para a deserdação do filho(a). 
A quarta causa consiste no desamparo praticado entre ascendentes e 
descendentes, havendo alienação mental ou grave enfermidade. Flávio Tartuce (2022, p. 
136) explica que o desamparo abrange tanto o aspecto material, desde que o herdeiro 
possua condições de fornecer os recursos necessários, quanto o afetivo, conforme o caso. 
A deserdação do descendente por desamparo ao ascendente em alienação mental 
(art. 1.962, IV, CC) será possível somente se o ascendente recuperar o juízo, uma vez que 
a deserdação somente pode ser determinada em testamento válido. 
As causas de deserdação devem preexistir ao testamento, ou seja, quando ainda 
era vivo o de cujus. 
Já no que se refere às causas de exclusão do herdeiro por indignidade (art. 1.814, 
CC), algumas podem ter ocorrido durante a vida do autor da herança, como tentativa de 
homicídio contra ele, ou contra seus familiares; ofensa à sua honra ou a de seu cônjuge ou 
companheiro; violência ou meios fraudulentos para obtenção de resultados no testamento 
do de cujus. Mas podem, também, ter ocorrido após sua morte: homicídio ou tentativa de 
homicídio contra seus familiares herdeiros; ofensa tipificada como calúnia, difamação ou 
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injúria contra sua memória ou contra a pessoa de seu cônjuge ou companheiro 
sobreviventes ou falecidos (LÔBO, 2022, p. 201). 
 
2.7.2 Efeitos jurídicos da indignidade sucessória e da deserdação 
 
Os efeitos jurídicos da indignidade e da deserdação são distintos. 
No caso de deserdação, um dos efeitos é quanto à prova da causa alegada pelo 
testador na ação de confirmação (art. 1.965, caput, CC), que cabe ao herdeiro instituído 
ou àquele a quem aproveite a deserdação, porque são presumivelmente interessados. 
Assim, se nenhum herdeiro se dispuser a provar a causa da deserdação alegada no 
testamento, ou não conseguir prová-la, o herdeiro necessário, que seria deserdado, 
receberá normalmente sua parte da herança. 
Se o testador houver indicado mais de uma causa, basta a prova de uma delas 
(LÔBO, 2022, p. 210). A ação judicial para confirmação da deserdação segue o 
procedimento comum e o deserdado será citado para contestar os fatos. O deserdado 
também pode tomar a iniciativa e ajuizar ação impugnatória da declaração de deserdação. 
O(s) interessado(s) na confirmação de deserdação possuem o prazo decadencial de 
4 anos, a contar da abertura do testamento, para requerer a confirmação da deserdação 
(art. 1.965, parágrafo único, CC). 
Os efeitos da deserdação são pessoais, assim como na exclusão por indignidade 
(art. 1.816, CC), por terem idêntica natureza de pena civil, não podendo ir além da pessoa 
que praticou o ato reprovável. Desta forma, os descendentes do herdeiro deserdado ou 
indigno sucedem em seu lugar. Se não tiver descendentes, sua parte da herança será 
acrescida aos demais herdeiros de idêntico grau ao seu (por exemplo, seus irmãos). Se for 
o único herdeiro e não tiver descendentes, a herança seguirá a ordem de vocação. 
Ressalte-se que o parágrafo único do art. 1.816, CC veda ao herdeiro excluído 
(deserdação ou indignidade) o direito ao usufruto ou à administração dos bens que aos 
seus sucessores couberem na herança (ex.: filhos menores), bem como o direito à sucessão 
eventual desses bens. 
A sentença que reconhece a exclusão por indignidade possui natureza declaratória. 
Assim, os bens devem ser devolvidos aos herdeiros reais, todavia, o art. 1.817, CC confirma 
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a validade das alienações onerosas realizadas a terceiros de boa-fé, bem como os atos de 
administração legalmente praticados pelo herdeiro (indigno), antes da sentença de 
exclusão, como explica Paulo Lôbo: 
 
Assim, se o herdeiro ou legatário, antes da sentença, transferiu para terceiro sua 
parte ideal na herança, mediante escritura pública de cessão de seus direitos, 
esse negócio jurídico é válido. Do mesmo modo, se tiver vendido bem que lhe 
foi destinado no inventário e partilha extrajudicial, antes da sentença judicial de 
exclusão. (LÔBO, 2022, p. 203) 
 
Por outro lado, aos herdeiros favorecidos com a sentença de indignidade é 
garantido o direito de demandar perdas e danos do herdeiro indigno, quando prejudicados 
(art. 1.817, CC). “A título de ilustração, se o bem recebido por herdeiro indigno for vendido 
para terceiro de boa-fé, não é possível reivindicá-lo deste terceiro. Entretanto, o 
prejudicado poderá pleitear do excluído todos os danos materiais e extrapatrimoniais 
suportados, diante da ideia de reparação integral dos danos.” (TARTUCE, 2022, p. 140). 
A sentença declaratória de indignidade possui efeitos ex tunc. Assim, o parágrafo 
único do art. 1.817, CC prevê que o excluído da sucessão é obrigado a restituir os frutos e 
rendimentos que dos bens da herança houver percebido, mas tem direito a ser indenizado 
das despesas com a conservação deles, como exemplifica Tartuce: 
 
Assim sendo, a concretizar, se o herdeiro indigno auferiu aluguéis, que são frutos 
civis do bem recebido, deverá reembolsar tais valores ao herdeiro que obteve a 
sua exclusão. Por outro lado, diante da vedação do enriquecimento sem causa, 
o indigno deverá ser indenizado pelas despesas que fez na coisa, visando a sua 
conservação, como no casodo ausente (art. 6º; 26 a 39, CC). 
A morte presumida pode ocorrer sem decretação de ausência, conforme os casos 
previstos no art. 7º, CC, em que há evidência da morte, mas o corpo da pessoa não é 
encontrado, como, por exemplo, ter desaparecido em naufrágio, inundação, incêndio, 
terremoto ou outra catástrofe, o que impossibilita a constatação do óbito e o respectivo 
registro com a emissão do atestado. Neste caso, a Lei de Registros Públicos (Lei n. 6.015/73, 
art. 88) prevê o denominado procedimento de justificação. 
Quando duas pessoas forem herdeira ou beneficiária uma da outra e morrerem, 
sendo impossível precisar quem morreu primeiro, consideram-se mortes simultâneas, 
denominada de comoriência (art. 8º, CC). Neste caso não é possível falar de transferência 
de herança de uma para outra, conforme o exemplo de Carlos Roberto Gonçalves: 
 
Não há, pois, transferência de bens e direitos entre comorientes. Por 
conseguinte, se morre em acidente casal sem descendentes e ascendentes, sem 
saber qual morreu primeiro, um não herda do outro. Assim, os colaterais da 
mulher ficarão com a meação dela; enquanto os colaterais do marido ficarão 
com a meação dele. 
Diversa seria a solução se houvesse prova de que um faleceu pouco antes do 
outro. O que viveu um pouco mais herdaria a meação do outro e, por sua morte, 
a transmitiria aos seus colaterais. (GONÇALVES, 2023, p. 15) 
 
Desta forma, a herança não pode ficar “acéfala”, ou seja, sem titular. Nesta 
perspectiva, no instante em que ocorre a morte abre-se a sucessão e transmite-se 
automaticamente a herança aos herdeiros legítimos e testamentários da pessoa falecida, 
sem interrupção, mesmo que estes ignorem a morte daquela. Esta ficção jurídica garante 
a continuidade das relações jurídicas do falecido. 
Ressalte-se, no entanto, que os herdeiros legítimos e testamentários recebem a 
propriedade e a posse da herança desde a abertura da sucessão. Já os legatários recebem 
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somente a propriedade, mas não a posse (art. 1.923, § 1º, CC), conforme explica Carlos 
Roberto Gonçalves: 
 
Quanto aos legatários, a situação é diferente: adquirem a propriedade dos bens 
infungíveis desde a abertura da sucessão; a dos fungíveis, porém, só pela 
partilha. A posse, em ambos os casos, deve ser requerida aos herdeiros, que só 
estão obrigados a entregá-la por ocasião da partilha e depois de comprovada a 
solvência do espólio (CC, art. 1.923, § 1º). (GONÇALVES, 2023, p. 15) 
 
Neste caso, o legislador garantiu que não haja qualquer contestação sobre o objeto 
deixado para o legatário, bem como todas as dívidas do espólio sejam quitadas antes de 
transmitir a posse do legado. 
Conforme o art. 1.791, CC, a herança defere-se como um todo unitário e regula-se 
pelas normas relativas ao condomínio, porque ainda não foram individualizados os 
quinhões de cada herdeiro. A herança, portanto, é um direito indivisível dos coerdeiros. 
Como decorrência do princípio da saisine, os arts. 1.206 e 1.207, CC (Direito das 
Coisas) estabelecem que o sucessor universal (herdeiro) continua a posse do antecessor 
com os mesmos caracteres. Ainda, o inventariante, responsável pela administração do 
espólio, exerce a posse direta dos bens, e os herdeiros exercem a posse indireta, conforme 
o desdobramento da posse previsto no art. 1.197, CC. 
Diante disso, desde a abertura da sucessão qualquer um deles têm legitimidade 
para propor ou continuar interditos possessórios para a defesa da posse dos bens da 
herança. 
O princípio da saisine também determina que a lei vigente ao tempo da abertura 
da sucessão é que regula a sucessão e a legitimação para suceder (art. 1.787, CC). Portanto, 
é a lei do dia da morte que rege todo o direito sucessório no que se refere à vocação 
hereditária e a extensão da quota hereditária. 
A eficácia das disposições testamentárias também é regida pelo princípio da saisine, 
ou seja, pela lei do tempo da abertura da sucessão. Quanto à elaboração do testamento, 
como requisitos formais e capacidade para testar, observa-se a lei do tempo em que o 
testamento foi realizado. “Assim, se a disposição for válida de acordo com a lei anterior, 
mas a lei vigente ao tempo da morte negar-lhe validade, dever-se-á considerar como não 
escrita a cláusula testamentária.” (GONÇALVES, 2023, p. 17). 
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O princípio da saisine impacta, ainda, no valor do imposto de transmissão causa 
mortis (ITCD). Assim, os valores do acervo hereditário devem ser verificados na data do 
óbito, ou seja, quando houve a transmissão da herança, conforme dispõe a Súmula 
112/STF: “O imposto de transmissão causa mortis é devido pela alíquota vigente ao tempo 
da abertura da sucessão” (13/12/1963). 
 
1.3 Espécies de sucessão 
 
Como visto no item 1.1 acima, a sucessão pode ser legítima ou testamentária (art. 
1.786, CC). As duas modalidades se diferenciam pela sua fonte, isto é, se por manifestação 
de última vontade da pessoa falecida, expressa em testamento ou codicilo, temos a 
sucessão testamentária. Por outro lado, morrendo sem deixar testamento a sucessão é 
legítima ou “ab intestato”, seguindo a vontade presumida do de cujus, conforme a ordem 
legal de vocação hereditária (art. 1.829, CC). 
Na prática, a sucessão legítima sempre foi a mais aplicada no Brasil, por uma razão 
de ordem cultural, conforme explica Carlos Roberto Gonçalves: 
 
A sucessão legítima sempre foi a mais difundida no Brasil. A escassez de 
testamentos entre nós é devida a razões de ordem cultural ou costumeira, bem 
como ao fato de o legislador brasileiro ter disciplinado muito bem a sucessão ab 
intestato, chamando a suceder exatamente aquelas pessoas que o de cujus 
elencaria se, na ausência de regras, tivesse de elaborar testamento. Poder-se-ia 
dizer, como o fez antes, na França, o insuperável Planiol, que a regulamentação 
brasileira a respeito da sucessão ab intestato opera assim como se fosse um 
“testamento tácito” ou um “testamento presumido”, dispondo exatamente 
como o faria o de cujus, caso houvesse testado. (GONÇALVES, 2023, p. 17) 
 
Neste contexto, a sucessão legítima tem lugar nas situações discriminadas no art. 
1.788, CC: inexistência de testamento; bens não compreendidos no testamento; 
caducidade e nulidade do testamento. 
A nulidade mencionada no art. 1.788, CC compreende a nulidade absoluta e relativa 
(anulabilidade), portanto, se refere ao julgamento da invalidade do testamento (plano da 
validade). 
A caducidade pode ser total ou parcial e relaciona-se à ineficácia do testamento 
(plano da eficácia) quanto a todos os bens ou somente alguns bens da herança. Assim, se 
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o autor da herança dispor de cinquenta por cento do seu patrimônio, mas ao tempo da 
abertura da sucessão suas dívidas forem maior que os bens deixados, a vontade do 
testador não será eficaz. Pode, ainda, tornar-se ineficaz por causa posterior, como a falta 
do beneficiário nomeado pelo testador ou pela revogação do testamento. 
Como visto, a sucessão pode ser, ao mesmo tempo, legítima e testamentária, 
quando o testamento não compreender todos os bens da herança (art. 1.788, CC), pois os 
não incluídos seguirão a vontade presumida do falecido (sucessão legítima). 
A liberdade de testar não é plena se o testador tiver herdeiros necessários 
(descendentes, ascendentes, cônjuge), pois poderá dispor somente da metade do seu 
patrimônio (art. 1.789, CC), garantindo a outra metade a legítima (art. 1.846, CC). 
Não havendo herdeiros necessários o testador possui liberdade para testar, 
afastando, então, a sucessão dos colaterais (art. 1.850, CC). 
O art. 1.845, CC não menciona o(a) companheiro(a),convivente em união estável, 
como herdeiro necessário. Assim, resta dúvida se alguém que vive nesta condição, sem 
descendentes ou ascendentes, possui liberdade plena para testar. A discussão é bastante 
acalorada, pois há juristas que defendem a diferenciação legal entre o casamento e a união 
estável, a fim de manter o Estado afastado da segunda, garantindo a liberdade de quem 
não queira se casar. No entanto, em sentido contrário, juristas defendem a igualdade dos 
dois institutos. 
Em 2017 o STF julgou o Tema 809, com repercussão geral, que declarou 
inconstitucional o art. 1.789, CC, o qual regulava a sucessão dos companheiros de forma 
diferente da sucessão dos cônjuges. Com o referido julgamento, o art. 1.829, CC passou a 
incluir o companheiro na ordem de vocação hereditária. Todavia, isso não significa que o 
companheiro é herdeiro necessário. Em Embargos de Declaração opostos pelo IBDFAM 
(Instituto Brasileiro de Direito de Família), referente ao julgamento do Tema 809, foi 
questionada a omissão do STF sobre a situação do companheiro como herdeiro necessário. 
Os embargos foram rejeitados sob o argumento que tal temática não foi objeto do recurso 
julgado. 
A maioria da doutrina entende que mesmo não afirmando que o companheiro seja 
herdeiro necessário, assim deve ser interpretado, conforme os fundamentos do voto 
condutor da decisão para o Tema 809, proferido pelo Min. Roberto Barroso. De acordo 
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com o posicionamento do Min. Barroso, a união estável e o casamento podem ser distintos 
somente nos seguintes aspectos: comprovação, formação e extinção. No mais não há 
distinção entre eles. 
 
1.4 Lugar da sucessão 
 
Conforme o art. 1.785, CC, “a sucessão abre-se no lugar do último domicílio do 
falecido.” Esta regra é importante, pois trata do foro competente para o processamento 
do inventário, mesmo que o óbito tenha ocorrido em local diverso do domicílio ou da 
situação dos bens. 
A norma civil acima também coincide com o art. 48, CPC, que indica o foro do 
domicílio do autor da herança como o competente para o inventário e outros 
procedimentos relacionados à sucessão. 
Se a pessoa falecida não tiver domicílio certo, o próprio art. 48, CPC indica o foro 
da situação dos bens imóveis como competente. Se forem imóveis em lugares diversos, 
qualquer um deles será competente. 
No caso de inventário extrajudicial não há restrição territorial, desde que todos os 
herdeiros estejam presentes ou representados por procuração. Portanto, pode ser 
realizado em qualquer Cartório de Notas, inclusive de Estado diferente do domicílio do 
falecido. Os custos e emolumentos cartorários são diferentes em cada Estado, o que pode 
ser importante nesta escolha. O mesmo não ocorre para o ITCD, que possui regra diferente, 
principalmente em se tratando de imóvel. No caso de inventário extrajudicial realizado via 
eletrônica, pela plataforma e-notariado, existem restrições de competência, conforme 
previsto no Provimento CNJ n. 149/2023. 
 
1.5 Modalidades de herdeiros no Código Civil 
 
O herdeiro ou sucessor é o beneficiado pela morte do de cujus, conforme a 
disposição manifestada em testamento ou por determinação da lei (sucessão legítima). 
Neste sentido, quanto à origem, o herdeiro pode ser testamentário, quando instituído por 
testamento, legado ou codicilo; ou legítimo, quando a sucessão decorre da lei. 
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Os sucessores legítimos podem ser de duas modalidades, considerando à 
amplitude de proteção do sistema sucessório nacional: 
a) herdeiros necessários, forçados ou reservatórios, que têm a seu favor a proteção 
da legítima, composta por metade do patrimônio do autor da herança (art. 1.846, CC), 
compreendendo os descendentes (até o infinito, sem qualquer limitação); os ascendentes 
(também sem restrição) e o cônjuge, conforme art. 1.845, CC; 
b) herdeiros facultativos ou não obrigatórios, que não têm direito à legítima e 
podem ser totalmente excluídos da sucessão por força do testamento (herdeiros colaterais 
até o quarto grau), conforme o art. 1.850, CC. Neste sentido, a norma alcança os irmãos 
(colaterais de segundo grau), sejam bilaterais ou germanos (mesmo pai e mesma mãe) ou 
unilaterais (mesmo pai ou mesma mãe); os tios e sobrinhos (colaterais de terceiro grau), 
bem como os primos, tios-avós e sobrinhos-netos (colaterais de quarto grau). 
 
Existem algumas discussões jurídicas sobre a manutenção da legítima no 
ordenamento jurídico, com defesas no sentido de sua exclusão para garantir a plena 
liberdade de testar, ou sua redução. Um dos argumentos mais fortes é que a liberdade de 
testar desenvolve a iniciativa individual nos sucessores de desenvolver atividades para o 
devido sustento. Há um efeito inconsciente coletivo pela necessidade do trabalho diário. 
(TARTUCE, 2022, p. 52). 
Flávio Tartuce (2022, p. 53) entende que a legítima deve ser mantida no Direito 
Sucessório brasileiro, mas é a favor da sua redução. Afirma o autor que a “a legítima deve 
assegurar apenas o mínimo existencial ou o patrimônio mínimo da pessoa humana, na linha 
da tese desenvolvida pelo Ministro Luiz Edson Fachin, não devendo incentivar o ócio 
exagerado dos herdeiros.” (TARTUCE, 2022, p. 53). 
A legítima (parte indisponível do patrimônio) é calculada sobre o valor dos bens 
existentes na abertura da sucessão, abatendo-se as dívidas e as despesas do funeral e 
adicionando-se, em seguida, o valor dos bens sujeitos à colação (art. 1.847, CC). 
“Em suma, não se leva em conta apenas o patrimônio puro do autor da herança, 
sendo forçoso abater os valores gastos com o caixão do falecido, as coroas de flores, a 
cremação, o enterro e os atos religiosos relativos à morte, bem como as dívidas pelas quais 
responde o espólio.” (TARTUCE, 2022, p. 53). 
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Se o valor manifestado pelo testador ultrapassar a legítima será necessária redução 
da disposição testamentária, na mesma forma do contrato de doação (art. 549, CC), 
considerando-se nula a parte que exceder. A título de ilustração, se o doador tem o 
patrimônio de R$ 100.000,00 e faz uma doação de R$ 70.000,00, o ato será válido até R$ 
50.000,00, que é a parte disponível, e nulo nos R$ 20.000,00 que excederam a proteção 
da quota dos herdeiros necessários. 
O testador pode indicar como beneficiário um herdeiro necessário, que não perde 
a legítima. Haverá, neste caso, sucessão legítima da parte indisponível e, sucessão 
testamentária da parte disponível (art. 1.849, CC). 
 
 
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II DA HERANÇA E SUA ADMINISTRAÇÃO 
 
A herança é o patrimônio deixado pelo de cujus, que consiste no conjunto de 
direitos reais e obrigacionais, ativos e passivos. 
Até a partilha o espólio é o titular desse patrimônio, isto é, um ente 
despersonalizado criado por ficção legal, ao qual a norma processual reconhece 
legitimidade ativa e passiva, devidamente representado pelo inventariante ou 
administrador provisório, se for o caso (art. 75, VII, CPC). Após a realização da partilha dos 
bens a massa patrimonial desaparece, não havendo mais legitimidade processual do 
espólio. 
 
2.1 A herança como bem imóvel e indivisível 
 
O art. 1.791, CC determina que a herança defere-se como “um todo unitário”, 
mesmo havendo vários herdeiros. A partir da abertura da sucessão a herança é indivisível, 
ocorrendo a divisão somente com a partilha, momento em que os herdeiros passarão a ter 
direitos privativos sobre os bens correspondentes a suas cotas respectivas. 
O direito dos coerdeiros quanto à propriedade eposse da herança regular-se-á 
pelas normas relativas ao condomínio (parágrafo único do art. 1.791, CC). “Forma-se, 
então, um condomínio eventual pro indiviso em relação aos bens que integram a herança, 
até o momento da partilha entre os herdeiros.” (TARTUCE, 2022, p. 68). 
O art. 80, II, CC prevê que o direito à sucessão aberta constitui bens imóveis, ainda 
que a herança seja composta somente por bens móveis. Trata-se de outra ficção da norma 
jurídica, com efeitos jurídicos importantes. 
O art. 1.793, CC permite a cessão de direitos hereditários por escritura pública. Além 
da forma pública exigida, tratando-se de bem imóvel é necessário o registro do ato sob 
pena de sua ineficácia perante terceiros (efeitos erga omnes). 
A cessão de direitos hereditários pode ser gratuita, correspondendo à doação, ou 
onerosa, correspondente à compra e venda. Sendo a herança considerada bem imóvel por 
determinação legal, é necessária a outorga do cônjuge para a cessão, salvo no regime de 
separação absoluta (convencional) de bens (art. 1.647, CC). 
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É ineficaz a cessão realizada pelo coerdeiro sobre qualquer bem da herança 
considerado singularmente, isto é, um imóvel inteiro (art. 1.793, § 2º, CC). Neste caso não 
se trata de nulidade, mas de ineficácia, ou seja, não gera efeitos, pois se trata de alienação 
a non domino. Todavia, pode tornar-se eficaz se atendidas as seguintes condições: 
concordância superveniente dos demais herdeiros, que não cederam seus direitos 
hereditários; a solvência do espólio para pagamento de dívidas ou a acomodação do bem 
no quinhão do herdeiro cedente por ocasião da partilha. 
Também é ineficaz a disposição de bem componente do acervo hereditário, por 
qualquer herdeiro, sem prévia autorização do juízo que processa o inventário, pendente a 
indivisibilidade (art. 1.793, § 3º, CC). Neste sentido, ainda que haja herdeiro único, pois a 
herança é indivisível (art. 1.791, CC). Todavia, o legislador ressalva a transmissão de bens 
com autorização judicial. Em alguns casos realmente é necessária a venda para custeio do 
inventário, para evitar perecimento do bem, para permitir a divisão quando o bem é 
indivisível e ninguém quer adjudicá-lo e ele não cabe na quota dos herdeiros. 
O art. 1.794, CC dispõe sobre o direito de preferência ou preempção legal a favor 
do herdeiro condômino. Se o coerdeiro for preterido no direito em referência, poderá 
depositar o preço e haver para si a quota cedida a estranho (art. 1.795, CC): 
 
Tal preterição está presente quando um dos herdeiros transmite os seus direitos 
a terceiros, sem notificar o condômino-coerdeiro para que se manifeste, em 
prazo razoável, sobre o interesse em adquirir o bem transmitido. Em tal 
notificação, aliás, devem constar todos os dados fundamentais a respeito da 
cessão, como o preço e as condições de pagamento, o que representa aplicação 
do princípio da boa-fé objetiva para o negócio jurídico em questão. (TARTUCE, 
2022, p. 75) 
 
A ação de adjudicação a ser proposta pelo coerdeiro preterido possui prazo 
decadencial de 180 dias, a contar da transmissão do bem. “Diante de outra valorização 
necessária da boa-fé objetiva, entendo que o prazo deve ser contado da ciência da 
realização da alienação e não da alienação em si.” (TARTUCE, 2022, p. 75). 
O parágrafo único do art. 1.795, CC estabelece que havendo vários coerdeiros 
interessados na aquisição do quinhão hereditário, entre eles será distribuído conforme a 
proporção de suas quotas hereditárias. 
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Flávio Tartuce (2022, p. 75) reconhece a preempção também no legado para duas 
ou mais pessoas, pois neste caso existirá condomínio pro indiviso. Todavia, o legado (bem 
individualizado) não faz parte do acervo hereditário (todo unitário), então não existe 
direito de preferência, pois não há condomínio. Nesta perspectiva, o legatário está livre 
para ceder seu direito sem oferecer aos herdeiros legítimos. 
 
2.2 A responsabilidade dos herdeiros até às forças da herança 
 
Após o princípio da saisine, outro importante princípio sucessório está previsto no 
art. 1.792, CC, que consagra a máxima sucessória intra vires hereditatis, pela qual o 
herdeiro não responde por encargos superiores às forças da herança (TARTUCE, 2022, p. 
76). 
Cabe ao herdeiro o ônus de provar o excesso, salvo se houver inventário que a 
escuse ou afaste, demonstrando o valor dos bens herdados. A responsabilidade, em casos 
tais, deve ser proporcional à quota de cada herdeiro, não se cogitando a solidariedade 
entre os sucessores, que não é imposta pela norma jurídica. 
Assim, por exemplo, se o falecido deixou dois herdeiros, um patrimônio de R$ 
500.000,00 e uma dívida de R$ 1.000.000,00, cada herdeiro responderá até o limite da sua 
quota na herança, que é R$ 250.000,00. 
No inventário é feito um levantamento do patrimônio do falecido, relacionando-se 
os bens, créditos e débitos que deixou. As dívidas são da herança, que responde por elas 
(art. 1.997, CC). Só serão partilhados os bens ou valores que restarem depois de pagas as 
dívidas, isto é, depois de descontado o que, de fato, pertence a outrem. 
Nestas condições, se o passivo do acervo hereditário for superior ao ativo, forma-
se o concurso de credores com a necessidade do procedimento de declaração de 
insolvência, a ser requerido pelo inventariante (art. 618, VIII; 1.052, CPC), regendo-se as 
preferências e privilégios pelas regras próprias 
 
 
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2.3 Abertura do inventário 
 
O Código Civil (art. 1.796) estabelece que a instauração do inventário do patrimônio 
hereditário deve ser realizada no prazo de 30 dias a contar da abertura da sucessão. 
O CPC/15, no entanto, prevê o prazo de 2 meses, também a contar a partir da 
abertura da sucessão (art. 611). Entende-se que este é o prazo a ser seguido, pois se trata 
de norma posterior que tratava da matéria de forma integral, ocorrendo, assim, uma 
revogação tácita do Código Civil em relação ao prazo. Todavia, a lei processual não prevê 
qualquer sanção para o descumprimento do prazo. Na verdade, em caso de inobservância 
do prazo para o início do inventário, os herdeiros pagarão multa sobre o ITCD, o que não 
impede a abertura extemporânea do inventário. 
O CPC ainda estabelece prazo para conclusão do processo, isto é, nos 12 meses 
subsequentes, podendo o juiz prorrogar esses prazos de ofício ou a requerimento de parte. 
O juiz, ao despachar a inicial, deve nomear o inventariante, que é a pessoa 
responsável por administrar os bens do espólio, sendo, também, o seu representante legal. 
Não é qualquer pessoa que pode ser inventariante (art. 617, CPC), mas somente pessoas 
capazes e que não tenham interesses contrários aos do espólio (GONÇALVES, 2023, p. 61). 
Até a assinatura do termo de compromisso pelo inventariante (parágrafo único do 
art. 617, CPC), a administração da herança caberá a um administrador provisório ou ad hoc 
(arts. 613 e 614, CC), que é quem está na posse da herança, conforme a ordem sucessiva 
prevista no art. 1.797, CC. Flávio Tartuce (2022, p. 83) entende que a ordem legal é de 
preferência entre os indicados, assim como o rol é meramente exemplificativo (numerus 
apertus) e não taxativo (numerus clausus). “Desse modo, pode ser tido como administrador 
provisório um companheiro homoafetivo do falecido ou filho socioafetivo ou de criação 
não registrado que esteja na posse dos bens do de cujus.” (TARTUCE, 2022, p. 83). 
O administrador provisório, de acordo com o art. 614, CPC, representa ativa e 
passivamente o espólio; é obrigado a trazer ao acervo os frutos que desde a abertura da 
sucessão percebeu;tem direito ao reembolso das despesas necessárias e úteis que fez e 
responde pelo dano a que, por dolo ou culpa, der causa. Pela última parte do artigo 614, 
CPC, percebe-se que o administrador provisório responde subjetivamente. 
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No art. 617, CPC está a ordem preferencial daqueles que podem ser nomeados 
inventariante, mas havendo fundadas razões o juiz pode desconsiderá-la. 
 
2.4 Herança jacente e herança vacante 
 
A herança jacente é aquela deixada pelo falecido ab intestato e sem herdeiros 
conhecidos, conforme o art. 1.819, CC. 
A jacência é uma fase anterior à vacância. Assim, a herança jaz enquanto não se 
apresentam herdeiros do de cujus para reclamá-la. Nesta fase o Estado somente arrecada 
os bens para impedir o perecimento, aguardando que herdeiros se apresentem e 
demonstrem sua condição. No caso de repúdio da herança por todos os herdeiros, 
considera-se a herança vacante desde logo, não havendo jacência (art. 1.823, CC). 
Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 139) explica que o art. 1.819, CC trata de duas 
espécies de jacência: sem testamento e com testamento. 
A jacência sem testamento pode ocorrer quando da inexistência de herdeiros 
conhecidos (cônjuge ou companheiro, ou herdeiro descendente, ascendente e colateral 
sucessível, notoriamente conhecidos) e renúncia da herança, por parte destes. 
A jacência com testamento configura-se quando o herdeiro instituído ou o 
testamenteiro não existir ou não aceitar a herança, ou a testamentaria, e o falecido não 
deixar cônjuge nem companheiro, nem herdeiro sucessíveis. 
Para ilustrar, Carlos Roberto Gonçalves (2023) apresenta outros casos que 
configuram jacência: 
 
Aponta a doutrina outros casos de jacência, que podem configurar-se por não 
se encontrar o herdeiro ainda em condições de se tornar titular do patrimônio 
que se lhe deseja transferir. Um deles, não raro, verifica-se quando se espera o 
nascimento de um herdeiro. Pode suceder, por exemplo, de o testador nomear, 
como herdeiro universal, o filho já concebido e ainda não nascido de 
determinada pessoa. Com o falecimento do testador, a herança é arrecadada 
como jacente, aguardando-se o nascimento com vida do beneficiário. Admite-
se nesse caso que seja retirado do acervo, ou de sua renda, o necessário para a 
manutenção da mãe do nascituro, se ela não tiver meios próprios de 
subsistência. (GONÇALVES, 2023, p. 139) 
 
Após as diligências legais, não aparecendo herdeiros, a herança será declarada 
vacante, incorporando-se ao patrimônio do Município ou ao Distrito Federal, se localizada 
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nas respectivas circunscrições, ou à União, quando situada em território federal. “De toda 
sorte, como não há, na atualidade, território federal no Brasil, a última previsão tornou-se 
sem subsunção na realidade nacional.” (TARTUCE, 2022, p. 84). 
A herança jacente e a herança vacante são consideradas entes despersonalizados, 
que gozam de capacidade processual, com legitimidade ativa e passiva em juízo (art. 75, 
VI, CPC). 
Carlos Roberto Gonçalves (2023) esclarece a diferença entre herança jacente e 
espólio, ainda que ambas tenham em comum a ausência da personalidade: 
 
No espólio, os herdeiros legítimos ou testamentários são conhecidos. 
Compreende os bens deixados pelo falecido, desde a abertura da sucessão até 
a partilha. Pode aumentar com os rendimentos que produza, ou diminuir em 
razão de ônus ou deteriorações. A noção de herança jacente, todavia, é a de 
uma sucessão sem dono atual. É o estado da herança que não se sabe se será 
adida ou repudiada. (GONÇALVES, 2023, p. 138) 
 
Cabe destacar, conforme explica Tartuce (2022, p. 85), que o Estado (em sentido 
genérico) não é herdeiro, mas um sucessor irregular, não estando sujeito ao direito de 
saisine. 
Conforme o art. 738, CPC, o juiz da comarca em que o falecido tinha seu domicílio 
procederá a imediata arrecadação dos bens, quando se tratar de herança jacente. 
A herança jacente ficará sob a guarda, a conservação e a administração de um 
curador até a respectiva entrega ao sucessor legalmente habilitado, ou até a declaração 
de vacância (art. 739, CPC). As atribuições do curador estão elencadas no § 1º do art. 739, 
CPC. 
Conforme o art. 740, CPC, o juiz ordenará que o oficial de justiça, acompanhado do 
escrivão ou do chefe de secretaria e do curador, arrole os bens e descreva-os em auto 
circunstanciado. Esta diligência também poderá ser executada por autoridade policial, 
requisitada pelo juiz, na presença de duas testemunhas, quando não for possível o 
comparecimento (§ 1º do art. 740). 
Não estando ainda nomeado o curador, o juiz nomeará depositário e lhe entregará 
os bens, mediante termo nos autos, depois de compromissado (§ 2º do art. 740). 
O juiz ou a autoridade policial inquirirá, durante a arrecadação, os moradores da 
casa e da vizinhança sobre a qualificação do falecido, o paradeiro de seus sucessores e a 
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existência de outros bens, lavrando-se de tudo auto de inquirição e informação (art. 740, 
§ 3º, CPC). 
Os papéis, as cartas missivas e os livros domésticos pertencentes ao falecido serão 
examinados reservadamente pelo juiz. Verificando que não apresentam interesse, 
mandará empacotá-los e lacrá-los para serem assim entregues aos sucessores do falecido, 
ou queimados quando os bens forem declarados vacantes (art. 740, § 4º, CPC). 
Se for constatada a existência de bens em outra comarca, o juiz mandará expedir 
carta precatória para arrecadá-los (art. 740, § 5º, CPC). 
A arrecadação não será realizada, ou será suspensa, se o cônjuge ou companheiro, 
o herdeiro ou o testamenteiro notoriamente reconhecido se apresentarem para reclamar 
os bens, desde que não haja oposição motivada do curador, de qualquer interessado, do 
Ministério Público ou do representante da Fazenda Pública (art. 740, § 6º, CPC). 
Na sequência serão expedidos editais na forma prevista no art. 741, CPC, para que 
os eventuais sucessores do falecido venham a habilitar-se no prazo de 6 (seis) meses 
contado da primeira publicação. “A publicação na internet constitui a principal novidade 
da regra, na linha de outros dispositivos do próprio Código de Processo Civil de 2015, que 
visam à facilitação dos procedimentos.” (TARTUCE, 2022, p. 89). 
Apresentando-se algum sucessor ou testamenteiro em lugar certo, será realizada 
sua citação, sem prejuízo dos editais publicados (art. 741, § 1º, CPC). 
A arrecadação converter-se-á em inventário quando for julgada a habilitação do 
herdeiro, reconhecida a qualidade do testamenteiro ou provada a identidade do cônjuge 
ou companheiro (art. 741, § 3º, CPC). 
Os credores da herança poderão habilitar-se no procedimento de arrecadação, tal 
como no inventário, ou propor a ação de cobrança (art. 741, § 4º, CPC). 
Após um ano (1) da primeira publicação do edital, sem que haja herdeiro habilitado 
ou pendente a habilitação, a herança será declarada vacante (art. 743, CPC; 1.820, CC), 
passando ao domínio do Poder Público e submetendo-se à sua guarda e administração. 
É assegurado aos credores o direito de pedir o pagamento das dívidas reconhecidas 
nos limites das forças da herança (art. 1.821, CC). 
Após cinco (5) anos da abertura da sucessão, os bens arrecadados passarão ao 
domínio definitivo do Município (art. 1.822, CC). 
25 
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A explicação de Flávio Tartuce (2022) ilustra bem a diferença entre os dois 
momentos que a propriedade é transferida para o Estado: 
 
Nota-se que com a declaração da vacância o Estado tem apenas a propriedaderesolúvel dos bens, aquela que depende de condição ou termo. A propriedade 
passa a ser definitiva apenas cinco anos após a abertura da sucessão, não 
havendo a habilitação de qualquer herdeiro. (TARTUCE, 2022, p. 91) 
 
Entre a declaração de vacância, que ocorre um ano após a primeira publicação do 
edital, e o domínio definitivo do Município, após cinco anos da abertura da sucessão, 
herdeiros sucessíveis podem reivindicar a herança. Há, no entanto, restrição ao parente 
colateral, que pode se habilitar somente até a declaração de vacância. Após, eles estão 
excluídos da sucessão (art. 1.822, parágrafo único, do CC). 
 
2.5 Vocação hereditária e os legitimados a suceder 
 
Trata-se agora da legitimação, ou seja, quem possui capacidade para a sucessão 
legítima e testamentária, cuja regra está no art. 1.798, CC, ou seja, as pessoas nascidas ou 
já concebidas (nascituro) no momento da abertura da sucessão. 
Explica Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 28) que o legislador referiu-se a 
“pessoas”, por isso não podem ser contemplados animais, salvo indiretamente, pela 
imposição ao herdeiro testamentário do encargo de cuidar de um especificamente. Da 
mesma forma, não podem suceder as coisas inanimadas e as entidades místicas, como os 
santos. Caso uma pessoa disponha da sua herança em testamento para determinado 
“santo”, considera-se feita às diversas igrejas existentes no lugar do domicílio do falecido 
(GONÇALVES, 2023, p. 28). 
Maria Helena Diniz explica que o nascituro possui capacidade sucessória 
excepcional, pois depende do nascimento com vida. Nesta situação, o sucessor adquire o 
domínio e a posse da herança como se já fosse nascido, mas devido à falta de 
personalidade jurídica material (relacionada a direitos materiais) nomeia-se um curador de 
ventre. Caso venha a nascer com vida terá capacidade ou legitimação para suceder; se 
nascer morto a sucessão é ineficaz (DINIZ apud TARTUCE, 2022, p. 94). 
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Flávio Tartuce (2022, p. 95) é adepto da teoria concepcionista, que reconhece 
direitos ao nascituro, devendo este ser tratado como pessoa humana. Nesta linha, propõe 
uma revisão sobre o direito sucessório do nascituro: 
 
Seguindo a nova proposta, o direito sucessório do nascituro deve levar em conta 
a sua concepção, e não o nascimento com vida. Se nascer morto, os bens já 
recebidos serão atribuídos aos herdeiros do nascituro, e não aos herdeiros 
daquele que faleceu originalmente. Se nascer com vida, haverá apenas uma 
confirmação da transmissão anterior, do que era reconhecido naquele 
momento anterior. (TARTUCE, 2022, p. 95) 
 
Todavia, reconhece o autor “que o entendimento majoritário permanece sendo no 
sentido de que o nascituro somente terá direitos sucessórios se nascer com vida, 
pendendo uma condição para tal reconhecimento.” (TARTUCE, 2022, p. 95). 
Outro aspecto importante está na existência ou não de direito sucessório ao 
embrião havido de técnicas de reprodução assistida. De acordo com o Enunciado n. 267 
da III Jornada de Direito Civil (2004), “a regra do art. 1.798 do Código Civil deve ser 
estendida aos embriões formados mediante o uso de técnicas de reprodução assistida, 
abrangendo, assim, a vocação hereditária da pessoa humana a nascer cujos efeitos 
patrimoniais se submetem às regras previstas para a petição da herança”. 
Flávio Tartuce (2022, p. 96) é favorável ao enunciado acima, mas apresenta dúvida 
quanto ao momento da concepção do embrião, ou seja, a partir de que momento pode-se 
falar em vida para a tutela sucessória: “a fecundação na clínica de reprodução assistida ou 
a implantação do embrião na mulher. A tendência, entretanto, é de seguir a posição que 
prega que a concepção ocorre no último momento.” (TARTUCE, 2022, p. 96). 
Mais uma vez, a posição de Tartuce é minoritária, pois prevalece a tese de 
inexistência de direitos sucessórios do embrião. 
Também é discutível a existência de direitos sucessórios daquele que foi concebido 
por inseminação artificial post mortem. Em princípio não existe o direito sucessório, pois a 
transmissão da herança se dá em consequência da morte (art. 1.784, CC) para as pessoas 
nascidas ou já concebidas no momento da abertura da sucessão (art. 1.798, CC). 
Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 30) explica que a doutrina brasileira se inclina 
no sentido de negar legitimação para suceder aos filhos havidos por métodos de 
reprodução assistida, tanto na hipótese de a morte do ascendente preceder à concepção, 
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quanto na de implantação de embriões depois de aberta a sucessão. No entanto, 
argumenta Gonçalves que se presumem “concebidos” na constância do casamento “os 
filhos havidos por fecundação artificial homóloga, mesmo que falecido o marido” (art. 
1.597, III, CC). Complementa com o art. 227, § 6º, CF, pelo qual se consagra a absoluta 
igualdade de direitos entre os filhos, proibindo qualquer distinção ou discriminação. 
Neste sentido, na opinião de Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 30), não se justifica 
a exclusão dos direitos sucessórios aos filhos havidos por métodos de reprodução assistida 
post mortem. “Entendimento contrário conduziria à aceitação da existência, em nosso 
direito, de filho que não tem direitos sucessórios, em situação incompatível com o 
proclamado no art. 227, § 6º, da Constituição Federal.” (GONÇALVES, 2023, p. 30). 
Quanto à legitimação para a sucessão testamentária, o art. 1.799, CC elenca os 
seguintes sujeitos: os filhos, ainda não concebidos de pessoas indicadas pelo testador, 
desde que vivas estas últimas ao abrir-se a sucessão; as pessoas jurídicas; as pessoas 
jurídicas cuja organização for determinada pelo testador sob a forma de fundação. 
No primeiro caso trata-se da prole eventual ou concepturo, que não se confunde 
com o nascituro. Para tanto, é necessário que a pessoa que teria o filho esteja viva ao 
tempo da abertura da sucessão do testador. Caso contrário a disposição testamentária é 
ineficaz. Ainda neste caso, conforme o art. 1.800, CC, os bens da herança, após liquidação 
e partilha, serão confiados a curador especial nomeado pelo juiz, que normalmente é o 
“pai ou mãe” da pessoa a ser concebida. 
A espera da prole eventual possui tempo certo, isto é, se decorridos dois anos após 
a abertura da sucessão, não for concebido o herdeiro esperado, os bens reservados 
caberão aos herdeiros legítimos, salvo disposição em contrário do testador (art. 1.800, § 
4º, CC). 
Flávio Tartuce (2022, p. 100) explica que para muitos juristas o prazo mínimo deve 
ser aplicado também para o caso de implantação no útero materno do embrião havido de 
técnicas de reprodução assistida beneficiado por testamento. Ultrapassado o prazo, não 
deixará de ser considerado filho do falecido, mas não terá direito sucessório. (GAGLIANO; 
PAMPLONA FILHO apud TARTUCE, 2022, p. 100). 
Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald admitem que a prole eventual pode 
ser adotada no prazo de dois anos, salvo estipulação expressa do testador (TARTUCE, 2022, 
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p. 100). Segundo os referidos autores, a redação legal insinua uma referência somente aos 
filhos biológicos (concebidos pelas pessoas indicadas pelo testador), todavia, aplicando-se 
“a técnica de interpretação conforme a Constituição (CF, art. 227, § 6.º), notadamente à 
luz do princípio da igualdade entre os filhos, que proíbe discriminações em relação à 
origem da prole, não se pode excluir a possibilidade de adoção da prole eventual.” (FARIAS; 
ROSENVALD apud TARTUCE, 2022). O mesmo posicionamento e argumentos são 
defendidos por Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 30). 
O testador também pode contemplar qualquerpessoa jurídica, seja simples ou 
empresária, de direito público ou de direito privado já instituída (art. 1.799, II, CC). A 
exceção é somente às pessoas jurídicas de direito público externo que não podem adquirir 
bens no Brasil, não podendo ser beneficiadas por testamento, “porque permiti-lo 
representaria um perigo para a soberania nacional, criando dificuldades ao seu pleno 
exercício, dado que nesses bens os governos estrangeiros poderiam instalar os seus 
súditos” (DINIZ apud TARTUCE, 2022, p. 101). 
O art. 1.799, III, CC prevê como herdeira a pessoa jurídica cuja organização for 
determinada pelo testador sob a forma de fundação, mediante a dotação de bens livres e 
desembaraçados, para fins religiosos, morais, culturais ou de assistência (art. 62, parágrafo 
único, CC). Neste caso, “por ainda não existir a pessoa jurídica idealizada pelo testador, 
aberta a sucessão os bens permanecerão sob a guarda provisória da pessoa encarregada 
de instituí-la, até o registro de seus estatutos, quando passará a ter existência legal.” 
(GONÇALVES, 2023, p. 31). 
O art. 1.801, CC trata daquelas pessoas que não possuem legitimação 
testamentária (herdeiros e legatários) por serem consideradas suspeitas. 
O primeiro caso (art. 1.801, I, CC) se refere à pessoa que, a rogo (a pedido), 
escreveu o testamento, seu cônjuge ou companheiro, seus ascendentes e irmãos. O 
fundamento está na proteção da idoneidade do testamento, de modo a não interferir na 
liberdade de dispor do testador. “Poderia tal pessoa, com efeito, ser tentada a abusar da 
confiança nela depositada pelo testador e modificar deliberadamente o teor de sua última 
vontade, ou, ainda, movida pela cobiça, induzi-lo a testar em seu benefício, ou de algum 
parente próximo.” (GONÇALVES, 2023, p. 32). 
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O art. 1.801, I, CC não cita os descendentes da pessoa que redigiu o testamento. 
Todavia, o parágrafo único do art. 1.802 supre a omissão, presumindo pessoas interpostas, 
dentre outros, os descendentes do não legitimado a suceder e considerando nulas as 
disposições testamentárias em seu favor. 
O art. 1.801, II, CC afasta a legitimação sucessória das testemunhas do testamento, 
que tem o mesmo fundamento da norma anterior, uma vez que não podem ter qualquer 
interesse direto no negócio jurídico em questão. 
A hipótese do art. 1.801, III, CC se refere ao concubino2 do testador casado, salvo 
se ele, sem culpa sua, estiver separado de fato do cônjuge há mais de cinco anos. “A norma 
pretende proteger o cônjuge, afastando qualquer direito do concubino ou amante de seu 
consorte.” (TARTUCE, 2022, p. 106). 
Tartuce (2022, p. 106) e Gonçalves (2023, p. 33) criticam a fixação do prazo de cinco 
anos para o afastamento da vedação, considerando-o excessivo. Segundo os referidos 
autores, o prazo conflita com o art. 1.723, CC, que não estabelece tempo para a 
configuração da união estável, bem como com o art. 1.830, CC, que não reconhece direito 
sucessório ao cônjuge sobrevivente se, ao tempo da morte do outro, estava separado de 
fato há mais de dois anos, salvo prova, neste caso, de que essa convivência se tornara 
impossível sem culpa do sobrevivente. 
Também é inconveniente a exigência de que inexista culpa na separação de fato 
por parte do testador, pois pode gerar extensas discussões. 
O art. 1.801, IV, CC estabelece que não será nomeado, como herdeiro ou legatário, 
o tabelião, civil ou militar, ou o comandante ou escrivão, perante quem se fizer, assim 
como o que fizer ou aprovar o testamento. Mais uma vez o fundamento é a proteção da 
integridade ética do testamento. 
As situações elencadas no art. 1.801, CC conferem nulidade absoluta às disposições 
testamentárias em favor das pessoas não legitimadas a suceder (art. 1.802, CC). 
O art. 1.802, CC também trata da nulidade do testamento quando houver 
simulação (art. 167, CC), que pode revestir-se de duas formas: a) o testador dissimula a 
 
2 O concubinato está presente no caso de uma relação não eventual entre pessoas impedidas de casar (art. 
1.727 do CC). 
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liberalidade sob a aparência de contrato oneroso; ou b) recorre a interposta pessoa para 
beneficiar o proibido de suceder. (GONÇALVES, 2023, p. 34). 
No primeiro caso o testador pode confessar ser devedor de obrigação inexistente 
ou simular um contrato de compra e venda com o não legitimado. Na segunda forma, o 
testador beneficia diretamente um terceiro e indiretamente o não legitimado. “Assim, por 
exemplo, pretendendo gratificar a concubina, o testador casado burla a proibição legal 
nomeando herdeiro ou legatário o pai da referida mulher, beneficiando-a indiretamente.” 
(GONÇALVES, 2023, p. 34). 
Devido à possível dificuldade em provar a simulação, o legislador presume de modo 
absoluto (presunção iure et de iure) sua existência na hipótese de serem contemplados os 
ascendentes, os descendentes, os irmãos e o cônjuge ou companheiro do não legitimado 
a suceder (art. 1.802, parágrafo único, CC). Há uma exceção a esta presunção, que se refere 
ao descendente da concubina quando também seja filho do testador. Neste caso, sendo 
filho de ambos, prevalece a intenção de beneficiar o descendente comum (art. 1.803, CC; 
Súmula 447, STF). 
Por se tratar de nulidade absoluta, a pretensão da ação declaratória de nulidade é 
imprescritível (art. 169, CC) e pode ser arguida por qualquer interessado ou pelo Ministério 
Público, cabendo, ainda, conhecimento de ofício pelo juiz, uma vez se tratar de matéria de 
ordem pública (art. 168, CC). 
 
2.6 Aceitação e renúncia da herança 
 
Como visto, por força do droit de saisine, a transmissão da herança aos sucessores 
ocorre imediatamente com a morte (art. 1.784, CC). Todavia, a transmissão torna-se 
definitiva, desde a abertura da sucessão, com a aceitação pelos herdeiros; ou pode não se 
verificar, quando o herdeiro a renuncia (art. 1.804, CC). 
Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 36) define a aceitação ou adição da herança 
como “o ato pelo qual o herdeiro anui à transmissão dos bens do de cujus, ocorrida por lei 
com a abertura da sucessão, confirmando-a.” Segundo o citado autor, trata-se de uma 
confirmação, pois a aquisição dos direitos sucessórios não depende da aceitação, todavia, 
só é herdeiro ou legatário quem deseja sê-lo. 
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Flávio Tartuce (2022, p. 108) explica, neste contexto, a definição de delação 
hereditária ou devolução sucessória, “que, segundo a doutrina, vem a ser o período que 
separa ou medeia a abertura sucessória, pela morte, e a aceitação ou a renúncia à herança 
(PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições..., 2012, v. VI; BARROS, Flávio Augusto Monteiro 
de. Manual..., 2004, v. 4, p. 186).” Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 36) chama este 
mesmo período de fase de deliberação, pois trata-se da oportunidade dada ao herdeiro de 
deliberar (refletir) se aceita ou renuncia a herança, pois ninguém é obrigado a ser 
proprietário do que não deseja. 
 
2.6.1 Espécies de aceitação ou adição da herança 
 
A aceitação ou ato de confirmação da posição de sucessor pode ser realizada por 
diversas formas, mas sempre com a inequívoca intenção do interessado. 
Aceita a herança, torna-se definitiva a sua transmissão ao herdeiro, desde a 
abertura da sucessão (art. 1.804, CC), ou seja, esse ato posterior retroage até o momento 
da morte do autor da herança. 
É considerado um ato jurídico unilateral e não receptício, pois produz efeitos 
independentemente da concordância de terceiros ou de comunicação. 
De acordo com os arts. 1.805 e 1.807, CC, a aceitação da herança pode ocorrer de 
forma expressa, tácita ou presumida. 
A aceitaçãoexpressa (art. 1.805, caput) é realizada por declaração escrita do 
herdeiro, através de instrumento público, particular ou manifestação clara e inequívoca no 
procedimento de inventário judicial ou extrajudicial. 
A aceitação tácita (art. 1.805, caput) consiste em atos próprios (comportamento) 
da qualidade de herdeiro, como exemplifica Flávio Tartuce: 
 
Como exemplo, cite-se a hipótese em que o herdeiro toma posse de um bem e 
começa a administrá-lo e a geri-lo como se fosse seu. Ou, ainda, da realidade 
prática, “havendo sido ajuizada a abertura de inventário, com a partilha de bens, 
e recolhimento do imposto causa mortis, evidente é a configuração da aceitação 
tácita da herança do de cujus” (TJGO, Agravo de Instrumento 0425838-
34.2012.8.09.0000, 6.ª Câmara Cível, Anápolis, Rel. Des. Norival Santome, DJGO 
19.06.2013, p. 37). 
[...] 
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Em complemento, serve a concretização a seguir: “se o herdeiro se deu por 
citado nos autos do inventário e não renunciou expressamente à herança, 
conclui-se que este a aceitou tacitamente, não sendo necessária a sua intimação 
pessoal para se manifestar sobre a herança em questão” (TJMG, Agravo de 
Instrumento 1.0024.08.062758-1/003, Rel. Des. Edilson Olímpio Fernandes, j. 
13.11.2012, DJEMG 27.11.2012). (TARTUCE, 2022, p. 109-110). 
 
O próprio Código Civil afasta determinados atos como aceitação da herança. Desta 
forma, no § 1º do art. 1.805, o legislador afasta da presunção de aceitação “os atos 
oficiosos, como o funeral do finado, os meramente conservatórios, ou os de administração 
e guarda provisória”. Atos oficiosos são desinteressados, altruísticos, por isso não se 
presume aceitação da herança por quem os realiza. 
Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 37) explica que os atos meramente 
conservatórios são atos necessários e urgentes, com a finalidade de impedir a perda ou 
deterioração dos bens da herança. Já os atos de administração e guarda provisória são os 
“praticados pelo herdeiro para atender a uma necessidade premente, sem a intenção de 
tê-los para si, mas com o ânimo de entregá-los, logo que possível, a quem deva guardá-los 
e conservá-los.” (GONÇALVES, 2023, p. 37). 
O § 2º do art. 1.805, CC também afasta a aceitação da herança no caso de cessão 
gratuita, pura e simples, da herança, aos demais coerdeiros, pois equivale a uma renúncia 
abdicativa ou translativa. 
A terceira forma de aceitação da herança é presumida, quando o herdeiro 
permanece silente, após notificado, para que declare, no prazo máximo de 30 dias, se 
aceita ou não a herança. Conforme o art. 1.807, CC, o pedido de notificação é realizado por 
algum interessado, no prazo de 20 dias após a abertura da sucessão, e pode ser o legatário, 
algum credor do espólio, ou aquele que eventualmente sucederia, em substituição, caso 
se consumasse a renúncia (art. 1.947, CC). 
De acordo com o art. 1.808, CC, a aceitação da herança é indivisível e incondicional, 
ou seja, não é possível a aceitação parcial. Todavia, se o herdeiro é também legatário 
(herdeiro de bem específico), pode aceitar a herança e renunciar ao legado, e vice-versa 
(§ 1º, art. 1.808, CC). 
É possível, ainda, que o mesmo herdeiro venha a suceder sob títulos sucessórios 
diferentes, como por exemplo, o filho que possui direito à legítima (sucessão a título 
universal), mas também foi contemplado com uma quota-parte do patrimônio indisponível 
33 
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em testamento (sucessão a título universal). Neste caso, o herdeiro também pode 
deliberar livremente se aceitará todos os quinhões ou se renunciará a algum deles (§ 2º, 
art. 1.808, CC). 
Caso o herdeiro faleça antes de declarar se aceita a herança, o poder de aceitar é 
transmitido aos seus sucessores (art. 1.809, CC). “Trata-se de sucessão hereditária do 
direito de aceitar. O herdeiro que falece antes de aceitar, morre na posse de um direito. E 
este direito, que faz parte do seu patrimônio, é, como os demais direitos, transmissível por 
sucessão hereditária.” (GONÇALVES, 2023, p. 38). 
Vejamos o exemplo de Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka: 
 
Morto um avô, A, viúvo, sucedem-no seus filhos, B e C. B, pai de D e unido 
maritalmente a F, falece posteriormente a seu pai, A, sem que tenha deliberado 
a respeito do acervo de seu pai. D, então, resolve repudiar a herança de seu pai, 
B, herança esta que é devolvida inteiramente a F, perdendo D o direito a 
deliberar quanto à herança de seu avô, A, que a lei entende pertencer ao 
patrimônio de B. F, por sua vez, aceita o patrimônio de B, podendo, então, 
deliberar a respeito da herança de A, aceitando-a ou renunciando a ela” 
(Comentários..., 2007, v. 20, p. 138-139). (TARTUCE, 2022, p. 111) 
 
Flávio Tartuce esquematizou o exemplo de Hironaka para facilitar a compreensão: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Assim, a morte do herdeiro antes da aceitação impede a transmissão aos seus 
sucessores de herança ainda não aceita, mas transfere-lhes o direito de aceitá-la. 
Segundo Gonçalves (2023, p. 38) a herança pode ser aceita pelo mandatário do 
sucessor e, ainda, pelos credores do sucessor. Neste último caso, os credores aceitam em 
nome do herdeiro renunciante, nos autos do inventário não encerrado, mediante 
F 
Recebe a herança de 
B diante da renúncia 
de D. Se aceitar a 
herança de B poderá 
deliberar sobre a 
herança de A. 
A 
B C 
D 
Renuncia à 
herança 
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autorização judicial, conforme previsão do art. 1.813, CC. Após o pagamento das dívidas 
aos credores autorizados, se houver remanescente da herança será devolvida aos outros 
herdeiros e não ao renunciante, que perdeu a condição hereditária. 
O herdeiro renunciante que prejudica os seus credores (art. 1.813, CC) comete ato 
atentatório à justiça (fraude à execução). 
 
2.6.2 Regras específicas da renúncia 
 
A renúncia é o ato formal pelo qual o sucessor declara que não aceita a herança ou 
legado. Trata-se de ato jurídico unilateral, que representa um direito potestativo. 
Deve ser realizado na forma prescrita em lei, ou seja, sempre expressa, por 
instrumento público ou termo judicial (art. 1.806, CC). Portanto, não se admite renúncia 
tácita, presumida ou verbal, nem por instrumento particular. A inobservância da forma 
importa em nulidade absoluta do ato, conforme o art. 166, IV e V, CC. 
Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 42) explica que a renúncia deve ser realizada 
por herdeiro capaz, inclusive para alienar. Por isso, para o referido autor, a renúncia 
efetivada por incapaz não terá validade, mesmo que seja manifestada por representante, 
que possui poderes de administração, mas não de alienação. Neste caso, poderá o 
representante ou assistente poderá formular pedido de autorização judicial para a referida 
renúncia, provando a necessidade ou evidente utilidade para o requerente incapaz (art. 
1.691, CC), o que dificilmente ocorrerá em se tratando de renúncia de direitos 
(GONÇALVES, 2023, p. 42). 
É importante destacar que não se admite renúncia prévia da herança, com 
fundamento no art. 426, CC, que proíbe o pacto sucessório (pacta corvina). Assim, a 
renúncia é sempre posterior à morte3, sob pena de nulidade absoluta do ato (art. 166, VII, 
segunda parte, CC). 
 
3 Há discussão na doutrina sobre a possibilidade de se renunciar à herança em pacto antenupcial. Seria o 
caso, por exemplo, das partes convencionarem, em pacto antenupcial ou em contrato de união estável, que 
nenhum deles concorrerá com os descendentes ou ascendentes do outro, afastando, assim, a regra de 
concorrência dos incisos I e II do art. 1.829, CC. A intenção, neste sentido, seria que todo o patrimônio do 
cônjuge ou companheiro falecido se reverteráexclusivamente para os respectivos descendentes ou 
ascendentes. A doutrina majoritária tem reputado inválida a cláusula de renúncia, enquadrando-a entre os 
chamados pacta corvina, cujo vício não admitiria suprimento ou confirmação. (GONÇALVES, 2023, p. 44). 
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A renúncia do herdeiro na sucessão testamentária ocasiona a caducidade da 
disposição, exceto se o testador indicou substituto (art. 1.947, CC) ou se houver direito de 
acrescer entre os herdeiros (art. 1.943, CC). 
A renúncia pode ser abdicativa ou propriamente dita e translativa, também 
denominada cessão ou desistência. 
A renúncia abdicativa ocorre quando o herdeiro afirma que não aceita a herança, 
havendo uma cessão simples a todos os coerdeiros (em benefício do monte), sem 
indicação de qualquer favorecido, o que equivale a uma renúncia pura (art. 1.810, CC). 
Neste caso não há incidência de Imposto de Transmissão Inter Vivos contra o renunciante, 
mas apenas do Imposto de Transmissão Causa Mortis por aquele(s) que recebe(m) os bens 
renunciados. 
Na renúncia translativa o herdeiro cede os seus direitos a favor de determinada 
pessoa, consistindo em negócio jurídico de transmissão gratuita, que é fato gerador do 
Imposto de Transmissão Inter Vivos, o que se impõe ao renunciante, que faz verdadeiro 
ato de doação (TARTUCE, 2022, p. 116). Neste caso, o herdeiro precisa realizar a aceitação 
da herança e, em seguida, renunciá-la. 
O principal efeito da renúncia à herança, na sucessão legítima, é o acréscimo da 
parte do renunciante aos outros herdeiros da mesma classe. Assim, se um filho renuncia à 
herança do seu pai, os seus irmãos (mesma classe) terão igual direito sobre a quota-parte 
do renunciante. Se o herdeiro renunciante for o único da sua classe, devolve-se a herança 
aos da classe subsequente (art. 1.810, CC). Por exemplo, se o único filho renuncia a herança 
de seu pai, os seus avós paternos (ascendentes) serão os herdeiros da classe subsequente 
(art. 1.845, CC). Flávio Tartuce também exemplifica alguns casos de aplicação do art. 1.810, 
CC: 
 
Como primeira concreção, A, falecido e viúvo, tem três filhos, B, C e D, que, em 
regra, recebem 1/3 da herança cada um. Se B renuncia à herança, a sua parte é 
acrescida aos herdeiros C e D, que são da mesma classe ou grau – filhos do 
falecido –, recebendo cada um deles metade da herança. 
[...] se B, renunciante, tiver dois filhos, E e F, os últimos nada receberão por 
direito de representação, tema que ainda será abordado. Isso porque, frise-se, 
a renúncia de seu pai afasta qualquer direito à herança dos filhos, pois seu pai é 
tratado como se nunca tivesse existido. 
Como outro exemplo, A, falece viúvo deixando dois filhos (B e C) e um neto (E), 
filho de D [premorto]. Caso E renuncie à herança, a sua quota será destinada 
para B e C, que serão herdeiros de classe anterior. (TARTUCE, 2022, p. 117-118) 
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O art. 1.811, CC determina que ninguém pode suceder representando o herdeiro 
renunciante, ou seja, é como se ele nunca tivesse existido. Todavia, se o renunciante for o 
único herdeiro legítimo da sua classe, ou se todos os outros da mesma classe renunciarem 
à herança, poderão os filhos vir à sucessão, por direito próprio e por cabeça, conforme 
exemplifica Tartuce (2022, p. 118): “se o falecido (A, viúvo) tiver um único filho (B) 
renunciante, os seus três filhos (C, D e E) terão direitos sucessórios por cabeça”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
É importante destacar que os atos de confirmação e renúncia da herança são 
irrevogáveis (art. 1.812, CC), ou seja, não há possibilidade de retratação (plano da eficácia), 
pois “fixam, definitivamente, a qualidade de herdeiro ou legatário, estabelecendo a 
propriedade de sua quota na herança ou nas coisas legadas, cuja transmissão não pode ser 
alterada pela retratação.” (GONÇALVES, 2023, p. 44). A única possibilidade é a renúncia 
translativa (cessão) pelo herdeiro que aceitou a herança, pois consiste em verdadeira 
doação. 
 
2.7 Excluídos da sucessão: indignidade sucessória e deserdação 
 
O herdeiro universal (sucessão legítima e testamentária) ou legatário (sucessão 
testamentária a título particular) podem ser privados do direito sucessório se praticarem 
atos considerados ofensivos contra o de cujus. 
A 
Autor da herança 
B 
Renunciante 
C 
1/3 da herança 
D 
1/3 da herança 
E 
1/3 da herança 
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Nesse contexto surgem os conceitos de indignidade sucessória (arts. 1.814 a 1.818, 
CC) e deserdação (arts. 1.961 a 1965, CC), consideradas penas civis, que têm por causa a 
conduta reprovável do herdeiro para com o autor da herança. 
Os atos ofensivos considerados para exclusão do herdeiro ou legatário da sucessão 
estão no art. 1.814, CC, referindo-se ao atentado contra a vida, contra a honra e contra a 
liberdade de testar do de cujus. 
A exclusão por indignidade sucessória e a deserdação possuem a mesma finalidade, 
isto é, excluir da sucessão quem praticou atos condenáveis contra o autor da herança. 
Todavia, a diferença principal está no fundamento de cada uma: na indignidade o 
fundamento é a vontade presumida, ou seja, decorre da lei, que prevê a pena somente nos 
casos do art. 1.814, CC; a deserdação possui fundamento na vontade expressa do testador. 
As causas da deserdação são as mesmas da exclusão por indignidade (art. 1.814; 1.961 CC) 
e, ainda, as causas previstas nos arts. 1.962 e 1.963, CC. 
Considerando o campo de atuação dos dois institutos, a indignidade pode atingir 
todos os sucessores, legítimos e testamentários, inclusive legatários; a deserdação, por sua 
vez, é utilizada pelo testador para afastar de sua sucessão os herdeiros necessários 
(descendentes, ascendentes e cônjuge), privando-os, assim, do direito à legítima. 
Os dois institutos também se diferenciam pelo modo de efetivação: a exclusão por 
indignidade será declarada por sentença, em ação própria requerida por terceiros 
interessados ou pelo Ministério Público (art. 1.815, § 2º, CC), ou mediante sentença penal 
condenatória (art. 1.815-A, CC); a deserdação dá-se por testamento, com expressa 
declaração da causa (art. 1.964). 
A falta de legitimação para suceder não se confunde com a exclusão por 
indignidade e a deserdação. No primeiro caso o afastamento é de ordem objetiva – 
inaptidão de alguém para receber a herança, por motivo de ordem geral; nos outros dois 
há uma razão subjetiva, pois o herdeiro é considerado desprovido de moral para receber 
a herança, diante da atitude praticada. Concluindo, explica Carlos Roberto Gonçalves: 
“Enfim, a exclusão por indignidade somente obstaculiza a conservação da herança, 
enquanto a falta de legitimação para suceder impede que surja o direito à sucessão.” 
(GONÇALVES, 2023, p. 49). 
 
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2.7.1 Causas legais de indignidade e deserdação 
 
As causas especificadas no art. 1.814, CC são hipóteses legais de exclusão por 
indignidade e de deserdação. O rol é taxativo (numerus clausus) e não comporta 
interpretação extensiva ou por analogia. Para a deserdação existem mais duas causas 
legais previstas nos arts. 1.962 e 1.963, CC. 
A primeira circunstância (art. 1.814, I, CC) se refere aos herdeiros ou legatários que 
tiverem sido autores, coautores ou partícipes de homicídio doloso, ou tentativa deste, 
contra o autor da herança, seu cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente. A 
extensão às outras pessoas que mantém relação com o de cujus se justifica no princípio da 
afetividade familiar. 
Havia discussão doutrinária sobre a necessidadede introdução de benfeitorias necessárias. 
(TARTUCE, 2022, p. 141) 
 
Em relação à deserdação e a posse dos bens do de cujus até que se julgue por 
sentença a confirmação da deserdação, há um problema levantado por Carlos Roberto 
Gonçalves (2023, p. 177), tendo como fundamento o droit de saisine (art. 1.784, CC), pelo 
qual o herdeiro adquire a posse e a propriedade da herança desde a abertura da sucessão. 
Para Gonçalves e Tartuce (2022, p. 142) não se aplica o art. 1.817, CC no caso de 
deserdação. 
Desta forma, a fim de preservar os bens para entregá-los a quem for beneficiado 
com a deserdação ou ao próprio deserdado, se a ação de confirmação for julgada 
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improcedente, “os bens devem ser deixados com o inventariante, ou depositário judicial, 
se necessário e onde houver, minorando-se, com isso, os riscos apontados, uma vez que 
só se concretizaria, nesse caso, a pretensão do deserdado após a sentença definitiva.” 
(GONÇALVES, 2023, p. 177). 
 
2.7.3 Reabilitação ou perdão do herdeiro indigno 
 
O art. 1.818, CC admite que a exclusão da herança seja afastada, em virtude do 
perdão do ofendido ao herdeiro ou legatário ofensor. 
Paulo Lôbo (2022, p. 205) explica que o ofendido pode ser o de cujus, seu cônjuge 
ou companheiro e, na hipótese de homicídio ou tentativa de homicídio o descendente ou 
ascendente. Portanto, a reabilitação pode ocorrer durante a vida do de cujus, por ato 
próprio ou do familiar diretamente ofendido. Ou, após a morte do autor da herança, por 
ato do seu familiar, que tiver sido ofendido ou lesado pela conduta do herdeiro, cometida 
antes ou depois da abertura da sucessão. 
A reabilitação do indigno realiza-se por força de testamento ou outro ato autêntico, 
como, por exemplo, uma escritura pública (reabilitação expressa). Conforme Gonçalves 
(2023, p. 51), “não têm valor, para esse fim, escritura particular; declarações verbais ou do 
próprio punho, embora corroboradas por testemunhas; cartas, ou quaisquer outros atos 
que revelem reconciliação ou propósitos de clemência.” 
Paulo Lôbo (2022, p. 205), por outro lado, admite que o ato autêntico “não precisa 
ser instrumento público, lavrado por notário, mas que seja escrito, inclusive em 
documento particular, revelando indiscutivelmente a vontade do ofendido em perdoar ou 
reabilitar o ofensor.” 
De qualquer forma, o testamento não precisa ser exclusivo para a reabilitação do 
indigno. 
O parágrafo único do art. 1.818, CC também consagra a reabilitação tácita (perdão), 
quando o autor da herança contempla o indigno por testamento, mesmo já conhecida a 
causa da indignidade (TARTUCE, 2022, p. 142). Neste caso, o herdeiro indigno pode 
suceder apenas no limite da disposição testamentária, como, por exemplo, no testamento 
lhe caiba um legado (bem específico) ou uma quota da herança retirada da parte 
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disponível. Desta forma, mesmo sendo herdeiro necessário, não terá direito à parte que 
lhe caberia na legítima. 
De acordo com Carlos Roberto Gonçalves (2023, p. 51) o perdão é irrevogável. 
“Desse modo, mesmo revogado o testamento que contém o perdão, permanece válida a 
cláusula que reabilita o indigno.” (GONÇALVES, 2023, p. 51). 
O perdão ao indigno, concedido pelo autor da herança, é ato privativo 
(personalíssimo) e evita que os outros herdeiros o excluam da sucessão, após sua abertura. 
“Pode acontecer, por exemplo, que o ascendente, embora caluniado judicialmente por um 
dos filhos, continue a amá-lo e não deseje vê-lo excluído de sua sucessão em ação movida 
pelos outros filhos. Por isso perdoa-o da ofensa, ordenando que não se proceda à sua 
exclusão.” (GONÇALVES, 2023, p. 52) 
Se o testamento que contém o perdão for declarado nulo não produzirá qualquer 
efeito, salvo na forma pública, pois neste caso pode-se considerar a reabilitação do indigno 
por ato autêntico (perante o tabelião). 
Quanto à deserdação, Tartuce (2022, p. 143) explica que também se aplica o art. 
1.818, CC, ou seja, o deserdado pode ser reabilitado. 
Para facilitar a compreensão da indignidade e da deserdação, Flávio Tartuce 
elaborou um quadro comparativo com as quatro diferenças fundamentais entre os dois 
institutos: 
Indignidade e deserdação. Quadro comparativo. Diferenças fundamentais 
Indignidade sucessória Deserdação 
Matéria de sucessão legítima e testamentária. Matéria de sucessão testamentária. 
 
Alcança qualquer classe de herdeiro, seja ele 
necessário ou facultativo. 
Somente atinge os herdeiros necessários 
(ascendentes, descendentes e cônjuge, na 
literalidade da norma). Todavia, com o fim do 
julgamento do STF no Recurso Extraordinário 
878.694/MG, a tendência parece ser a equiparação 
sucessória total da união estável ao casamento, o 
que inclui o convivente no art. 1.845 do CC, como 
herdeiro necessário. Essa é a minha posição 
doutrinária, em interpretação ao julgado superior. 
 
As hipóteses de indignidade servem para a 
deserdação. 
Existem hipóteses de deserdação que não alcançam 
a indignidade (arts. 1.962 e 1.963). 
 
Há pedido de terceiros interessados ou do MP, com 
confirmação em sentença transitada em julgado. 
Realizada por testamento, com declaração de causa 
e posterior confirmação por sentença. 
(TARTUCE, 2022, p. 160) 
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2.7.4 Procedimento para obtenção da exclusão 
 
O pedido de exclusão de herdeiro ou legatário por indignidade (art. 1.814, CC) pode 
ser instaurado somente após aberta a sucessão e é processado em autos distintos do 
inventário judicial, seguindo o procedimento comum, pois trata-se de questão de alta 
indagação (art. 612, CPC). 
É necessária a comprovação da hipótese legal de exclusão, assegurada a defesa do 
herdeiro que cometeu o ato, com posterior decisão judicial de natureza declaratória. 
A decisão judicial de exclusão é prejudicial da partilha, portanto, deve-se aguardá-
la, mesmo que o procedimento seja amigável entre os demais herdeiros. 
Os legitimados para requerer a instauração do procedimento judicial de exclusão 
são os interessados na sucessão ou o Ministério Público (art. 1.815, § 2º, CC). O interessado 
é o herdeiro legítimo da classe chamada a suceder, ou seja, o diretamente beneficiado com 
a sucessão, além dos descendentes do herdeiro que pode ser excluído, em razão do direito 
de representação. 
Como a ofensa pode atingir pessoas próximas ao autor da herança (cônjuge, 
companheiro, descendentes e ascendentes – art. 1.814, I e II, CC), qualquer delas também 
possui legitimidade para pedir a exclusão do herdeiro indigno (LÔBO, 2022, p. 202). A 
maioria da doutrina, no entanto, entende que somente os legitimamente interessados, ou 
seja, quem se beneficiaria com a sucessão, pode propor a exclusão do indigno. 
O pedido de exclusão do herdeiro indigno deve ser exercido no prazo decadencial 
de quatro anos (art. 1.815, § 1º, CC), a contar da abertura da sucessão do autor da herança. 
 
2.8 Ação de petição de herança 
 
A petição de herança é a demanda judicial que visa incluir um herdeiro na herança, 
mesmo após sua divisão, ou seja, constitui a proteção específica da qualidade de sucessor. 
Conforme o princípio da saisine (art. 1.784, CC), a herança pertence ao herdeiro 
desde a abertura da sucessão, todavia “o verdadeiro sucessor pode ter sido preterido, por

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