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5943 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 O desafio da gestão das políticas de ação afirmativa nas universidades públicas: sob quais diretrizes? The challenge of managing affirmative action policies in public universities: under which guidelines? DOI: 10.55905/revconv.16n.7-044 Recebimento dos originais: 05/06/2023 Aceitação para publicação: 06/07/2023 Jussete Rosane Trapp Wittkowski Mestre em Educação pela Universidade Regional de Blumenau (FURB) Instituição: Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) – Câmpus Jaraguá do Sul Endereço: Jaraguá do Sul - SC, Brasil E-mail: jussete.rosane@gmail.com Stela Maria Meneghel Doutora em Políticas Educacionais e Sistemas Educativos pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) Instituição: Universidade Regional de Blumenau (FURB) Endereço: Blumenau - SC, Brasil E-mail: stmeneg@terra.com.br RESUMO Esta pesquisa objetivou identificar como a produção bibliográfica sobre gestão educacional vêm retratando as políticas de assistência a cotistas das instituições de educação superior (IES), por considerá-las indicativas da capacidade destas instituições promoverem inclusão. Os cotistas, ingressantes por meio de políticas de ação afirmativa (PAA), compõem o que Ristoff (2013) denomina ‘novo perfil’ de estudantes: egressos de escola pública e de famílias baixa renda, pertencentes a grupos étnico-raciais (pretos, pardos e indígenas), pessoas com deficiência. Para geração e análise de dados utilizamos pesquisa bibliográfica e documental no período 2000-2019, contemplando a legislação e o mapeamento da produção científica da área na perspectiva da revisão narrativa. As buscas foram feitas nos sítios eletrônicos da: (i) Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação; (ii) Associação Nacional de Política e Administração da Educação; (iii) Revista Brasileira de Política e Administração da Educação; (iv) Revista do Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa; e (v) do Banco de Teses e Dissertações da CAPES. Os achados indicaram que nos espaços pesquisados não foram contemplados estudos sobre a gestão das IES públicas quanto à inclusão de cotistas; eles estiveram concentrados: (i) nos fundamentos e formas de utilização das PAA – abordaram o direito à educação superior e o novo perfil de estudantes; (ii) nas trajetórias dos cotistas na ES, inclusive o desempenho acadêmico – destacaram o imperativo da implantação de políticas de permanência. Sem tratar diretamente do tema, alguns trabalhos permearam a gestão da assistência aos cotistas argumentando sua necessidade, baseados em duas dimensões: a política e a administrativa. Os dados apontam que a produção referida, no período analisado, esteve voltada ao ‘diagnóstico’ dos problemas que afetam a permanência e sucesso dos recém-incluídos na educação superior, e não ao debate de políticas institucionais sobre como promovê-las. mailto:jussete.rosane@gmail.com mailto:stmeneg@terra.com.br 5944 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 Palavras-chave: educação superior, políticas de ação afirmativa, assistência estudantil, gestão da assistência estudantil, gestão da inclusão. ABSTRACT This research aimed to identify how the literature on educational management has portrayed the policies of assistance to higher education institutions (HEI) quota holders, considering them indicative of the ability of these institutions to promote inclusion. Quota-holders, who enter through affirmative action policies (PAA), make up what Ristoff (2013) calls a 'new profile' of students: students from public schools and low-income families, belonging to ethnic-racial groups (black, brown, and indigenous), and people with disabilities. For data generation and analysis we used bibliographic and documentary research in the period 2000-2019, including legislation and the mapping of the scientific production in the area from the perspective of narrative review. The searches were carried out on the websites of: (i) National Association of Graduate Studies and Research in Education; (ii) National Association of Education Policy and Administration; (iii) Brazilian Journal of Education Policy and Administration; (iv) Journal of the Forum for Higher Education Management in Portuguese-Speaking Countries and Regions; and (v) the CAPES Theses and Dissertations Bank. The findings indicated that the researched spaces did not include studies on the management of public HEIs regarding the inclusion of quota holders; they were focused on: (i) the fundamentals and ways of using the PAAs - they addressed the right to higher education and the new student profile; (ii) the trajectories of the quota holders in higher education, including academic performance - they highlighted the imperative of implementing permanence policies. Without dealing directly with the theme, some works permeated the management of assistance to quota holders arguing its necessity, based on two dimensions: political and administrative. The data indicate that the referred production, in the analyzed period, was focused on the 'diagnosis' of the problems affecting the permanence and success of the newly-included in higher education, and not on the debate of institutional policies on how to promote them. Keywords: higher education, affirmative action policies, student assistance, student assistance management, inclusion management. 1 INTRODUÇÃO As profundas desigualdades sociais do Brasil têm sido, historicamente, refletidas nas suas instituições de educação superior (IES). O início da educação superior (ES) no país esteve estreitamente relacionado à necessidade de formação das elites que operacionalizavam a burocracia e o poder e, ao longo do tempo, a chamada ‘meritocracia’ acadêmica fez com que as IES se consolidassem como privilégio de ‘escolhidos’, pertencentes aos grupos sociais hegemônicos (CUNHA, 2007; RISTOFF, 2013). Nas últimas décadas, porém, no âmbito da compreensão da ES como bem público e direito social e, portanto, um dever do Estado, tornou-se evidente a necessidade de democratização das instituições acadêmicas. A ES precisa ser efetivada como um direito social 5945 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 porque, em um país onde a educação é anunciada como democrática e para todos, não pode estar acessível apenas àqueles em condições pagar mensalidades. Logo, cabe ao Estado assumir seu papel na garantia da oferta deste nível de ensino, com vistas à promoção da cidadania e democratização da sociedade (DIAS SOBRINHO, 2013). Com base nestes pressupostos, a partir da década de 1990 diversos movimentos sociais intensificaram ações de pressão sobre o Estado brasileiro, a fim de obter “políticas que afirmassem os direitos de populações discriminadas” (PINHEL, 2012, p.38). Nesse processo, somando-se a grupos internacionais em prol dos Direitos Humanos1, eles tiveram importante participação na construção de Políticas de Ação Afirmativa (PAA) para a ES, que garantissem a reserva de vagas para os sujeitos dela excluídos. Neste sentido, as PAA implantadas afirmaram os direitos e as identidades dos que dela eram alijados, buscando corrigir situações de discriminação e desigualdades historicamente impingidas, por meio “da valorização social, econômica, política e/ou cultural desses grupos, durante um período limitado” (MOEHLECKE, 2002, p.203). Assim, no início da década de 2000, diversas IES públicas adotaram diferentes configurações e modelos de políticas de reserva de vagas para acesso à ES2 por meio de cotas étnico-raciais e/ou sociais, bem como de assistência estudantil para jovens em situação de vulnerabilidade social.Simultaneamente, o Estado passou a implantar políticas de expansão e democratização da ES, impactando tanto na rede pública quanto na privada. Dentre estas, destacamos: • Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES) – programa criado em 1999 pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para financiar estudantes com renda familiar máxima de três salários-mínimos por membro, matriculados em instituições não gratuitas. Ele foi reformulado e ampliado diversas vezes na década seguinte, nos governos posteriores. 1 Dentre estes, podemos citar os reunidos na ‘Conferência Mundial de Educação para Todos’, em 1990; na ‘Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais de Jovens e Adultos’, em 1994; e a ‘Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância’, em 2001; todos geraram acordos internacionais das quais o Brasil é um dos signatários. 2 A autonomia universitária garante que IES federais e estaduais instalem formas de ingresso próprias, desde que devidamente regulamentadas por seus Conselhos Superiores. 5946 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 • Programa Universidade para todos (PROUNI)3 – criado pela Lei n. 11.096/ 2005, possibilitava o acesso de egressos do ensino médio em escola pública e famílias baixa renda a IES privadas, concedendo bolsas de estudos de 50% e de 100% das mensalidades. Quando a bolsa era de 50%, havia possibilidade de financiar o valor restante, com pagamento após a formatura. O programa também passou por diversas reformulações após sua criação. • Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) – criado via Decreto Nº 7.234/2010, promovia a permanência de estudantes em vulnerabilidade financeira das universidades e institutos federais. Suas ações de assistência, embora sem especificações, poderiam ser realizadas em dez modalidades, dentre as quais: creches, inclusão digital e apoio pedagógico. (BRASIL, 2010). • Lei n. 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas – previa, por um período de dez anos, que 50% das vagas de todas as instituições federais de educação superior (IFES) fossem destinadas a egressos de escola pública, pessoas pertencentes a famílias baixa renda, pretos, pardos e indígenas. Em dezembro de 2016, as cotas passaram a contemplar as pessoas com deficiência (PCD). Após o prazo indicado, sua continuidade deveria ser revista e avaliada. Cabe destacar que, desde antes da publicação da Lei de Cotas, Ristoff (2013) apontava ter havido mudanças no perfil discente das IFES do país, devido à expansão de vagas públicas e às PAA criadas na autonomia das instituições. Mas, com a implantação da lei 12.711/2012, houve um impacto de maiores proporções neste perfil, que se estendeu às práticas institucionais. Conforme Arroyo (2014), estes “outros sujeitos” interrogam tanto a docência quanto o espaço escolar, historicamente marcado pela desigualdade, demandando que sejam reconhecidas suas especificidades a fim de que seja possível, de forma concreta, sua inclusão e participação nas atividades acadêmicas. Mas o que significou, para as IFES, receber este novo público? Estavam elas preparadas para lidar com as características e especificidades de aprendizagem dos grupos anteriormente excluídos? Tinham mecanismos suficientes para promover sua permanência? 3Tinham direito à bolsa integral os estudantes que apresentavam renda familiar bruta per capita máxima de um salário-mínimo e meio; os que comprovava renda familiar bruta per capita máxima de três salários-mínimos tinham direito à bolsa parcial, de 50% (BRASIL, 2005). 5947 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 Diversos autores brasileiros têm se dedicado ao estudo da inclusão de estudantes que demandam assistência nos diversos níveis de formação. Boneti (2004) analisa o tema da perspectiva do resgate de direitos no âmbito da ES; Sawaia (2001), por sua vez, considera a relação dialética da inclusão com seu oposto, a exclusão. Para a autora, a dialética exclusão- inclusão reflete um complexo processo sócio-histórico, que produz um sistema educacional ‘binário’ e interdependente. Esta característica promove o que Dias Sobrinho (2013) identificou como “exclusão por dentro”, na qual as percepções individuais fortalecem um imaginário coletivo de exclusão, assim como de autoexclusão. Também Boneti (2004) defende a compreensão da ‘igualdade’ e ‘desigualdade’, do estar “dentro” ou “fora” de determinada condição social, não como fenômenos postos apenas em um espaço externo aos indivíduos, mas como sua apropriação deste espaço, em uma relação de aquisição de pertencimento. Seria o que Alain Coulon (2008) nomina “afiliação universitária”, processo a partir do qual os cotistas assimilam interiormente sua posição de estudantes universitários e possibilidades de participação no mundo acadêmico. Diante do exposto, justificamos a análise da gestão da assistência de cotistas uma vez que a permanência de estudantes com o ‘novo’ perfil exige não somente políticas de Estado, mas também políticas institucionais, elaboradas pelas IES, adequadas à promoção da permanência e do sucesso acadêmico. Ou seja, que as instituições olhem para as demandas de grupos antes excluídos e, para além de ações pontuais e isoladas, contem com diretrizes e políticas efetivas de assistência. Nessa perspectiva, buscamos compreender como vêm sendo organizada a gestão das políticas de atendimento aos estudantes nas IES públicas federais, em seus princípios e propostas, a fim de identificar ações de assistência em seu potencial de ressignificarem estas instituições enquanto espaço de democratização e apoio à construção de conhecimentos de grupos vulneráveis. Com este foco, realizamos pesquisa bibliográfica em espaços de divulgação científica, voltados ao debate da gestão de políticas públicas de ES, visando identificar e caracterizar a produção acadêmica dedicada à gestão da assistência aos estudantes que compõem o ‘novo’ perfil acadêmico. Apresentamos a seguir a metodologia utilizada e, na sequência, os principais achados de pesquisa. 5948 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 2 METODOLOGIA Este estudo foi desenvolvido por meio de revisão de bibliografia e análise documental apoiada em Cellard (2008), que indica necessária uma leitura contextualizada dos materiais e documentos selecionados. Contemplou também a perspectiva da revisão narrativa (ROTHER, 2007), que visa à descrição e detalhamento de um dado tema pela reunião de dados relevantes de caráter teórico e contextual, para compreensão da sua evolução. A seleção de materiais, com foco em como as IFES vêm fazendo a gestão e a (re)organização do atendimento de estudantes cotistas, foi feita de modo a não restringir a obtenção de textos para estudo; assim, tomamos como descritores: “ação afirmativa” e seu plural, e “gestão da educação superior”. Na mesma linha, o recorte temporal abarcou o período de 2000 a 2019, na expectativa de identificar possíveis mudanças na forma de retratar o objeto. A escolha das revistas foi direcionada para espaços de divulgação acadêmica nos quais, a princípio, há interesse em debater a gestão universitária: (i) site da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), em particular a página dos Grupos de Trabalho (GT) 05 - Estado e Política Educacional e GT11 - Política da Educação Superior, em suas reuniões nacionais; (ii) anais eletrônicos dos simpósios nacionais da Associação Nacional de Política e Administração da Educação (Anpae), que publicam os trabalhoscompletos apresentados em eventos nacionais; (iii) publicações da Revista Brasileira de Política e Administração da Educação (Rbpae), em seu formato digital; (iv) Revista Forges – Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa, versão digital; (v) além destes, ampliando o espetro de locais de busca, utilizamos o Banco de Teses e Dissertações (BDTD-IBICT), da CAPES. No BDTD foram encontrados 1.476 títulos com os descritores indicados e, após a leitura dos títulos e verificação de palavras-chave, 384 indicaram alguma aproximação com nosso objeto de pesquisa; quanto ao conjunto de periódicos e anais, de 675 publicações inicialmente identificadas, selecionamos 25. Em seguida, realizamos a leitura do resumo destes trabalhos, excluindo os que não mostraram relação com o foco do estudo. Restaram 48 textos para uma 5949 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 leitura completa, a partir dos quais identificamos 25 textos para análise, como mostra o Quadro 1 – nenhum deles do BDTD. Quadro 1 – Publicações em Periódicos e Anais - Gestão da Assistência de PAA – 2000-2019 REVISTAS / EVENTO TRABALHOS COM OS DESCRITORES TRABALHOS ANALISADOS Rbpae 179 3 Forges 08 0 Anpae - Anais 64 1 Anped Nacional 424 21 TOTAIS GERAIS 675 25 Fonte: elaborado pelas autoras. As publicações seguem um crescente do ano 2000 até 2012, quando foi publicada a Lei de Cotas (2012) e diversas IES públicas debatiam internamente suas próprias PAA: modelo, implantação, revisão de processos. A maior parte dos textos se deteve no recorte racial destas políticas - aspecto que mais causou (e causa) polêmica quando do debate nacional sobre cotas, seja nos espaços acadêmicos, nas mídias ou no âmbito político. Outra temática bastante frequente até 2012 foi a necessidade de PAA para acesso às IFES, visando sua democratização. Após isso, 2018 (embora em menor quantidade) foi o ano de maior concentração de estudos, com trabalhos que tomavam por foco a necessidade de ações e políticas de apoio à permanência do público das PAA. 3 FOCO DOS ACHADOS: NECESSIDADE DE COTAS E TRAJETÓRIA ACADÊMICA Inicialmente, o primeiro aspecto a destacar é que não localizamos pesquisas tematizando a organização e gestão das IFES quanto às PAA -, ou ainda sobre o atendimento às demandas de estudantes cotistas nos anais de eventos e periódicos, assim como no BDTD/CAPES, no período analisado. Os trabalhos tenderam a abordar: • políticas de acesso às IFES - como Guerrini et al (2018), que debatem a forma de preenchimento das vagas; • políticas de ação afirmativa – como Silva e Borba (2018), que fazem o ‘estado da arte’ de educação e relações étnico-raciais; 5950 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 • a raça como eixo central das PAA – pode ser observado em Senkevics (2018), sobre o silenciamento racial nos dados universitários; • análise da trajetória acadêmica de diferentes tipos de estudantes cotistas – como fazem Brito (2016) e Senkevics (2018); • análise do desempenho acadêmico de cotistas - em Peixoto et al (2016), que compara com não-cotistas, ou desempenho de diferentes tipos de cotistas, como Vilela et al (2017). Identificamos, nos três primeiros casos, que o foco dos estudos esteve nos fundamentos e formas de utilização das PAA; algo em acordo com o fato de que, até a Lei de Cotas, em 2012, não havia nenhuma normativa federal quanto ao tema nas IES públicas, de modo que as IFES que as adotavam construíam sua própria estratégia de reserva de vagas. Além disso, bastante coerente com um debate muito presente quando da implantação da Lei de Cotas: o fato dela haver tirado o foco do recorte étnico-racial, vigente nas PAA das IFES, até então, e o colocado no aspecto social e econômico, uma vez que priorizou egressos de ensino médio em escola pública em primeira instância, seguida de estudantes cujas famílias tinham baixa renda. Por conta disso, a Lei de Cotas recebeu – e ainda recebe – muitas críticas4. Quanto às duas últimas tendências de estudos, tiveram por foco as trajetórias dos cotistas na ES, inclusive seu desempenho. Cabe lembrar que, desde as primeiras iniciativas de implementação de cotas em instituições públicas no Brasil, sempre houve reações negativas dos defensores da meritocracia acadêmica, desconfiados de que elas fariam chegar às IES estudantes sem condições de assimilar a formação acadêmica, e insuficientemente preparados para frequentar este nível de ensino. É neste contexto que se inserem as pesquisas que buscaram verificar a pertinência desta hipótese. Nesse sentido, cabe ressaltar que vários estudos mostraram que, apesar de apresentarem dificuldades maiores nos semestres iniciais, os cotistas aprenderam a lidar com os desafios acadêmicos, inclusive nos cursos e áreas mais concorridos (VILELA et al, 2017). E, ao final da formação, não foram observadas diferenças de desempenho significativas entre cotistas e não- cotistas. Esta situação é interpretada por Alain Coulon (2017) como a capacidade de aprender o ‘ofício de estudante’; por Faustino et al (2018) como disposição para confrontar ‘microexclusões’ 4 A crítica ao deslocamento da dimensão racial para a socioeconômica na Lei de Cotas argumenta que ele “[…] ofusca a pretensa busca de inclusão e permanência de afro-brasileiros no ensino superior” (SISS, 2012, p.29). 5951 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 ou, como apontam Monteiro e Soares (2018), para lidar com as adversidades da trajetória acadêmica, concluindo-a com sucesso. No geral, portanto, a farta produção sobre as PAA e os estudantes cotistas permite fazer um bom ‘diagnóstico’ dos problemas que afetam sua permanência e sucesso, e compreender as razões pelas quais necessitam “atenção especial” (Heringer, 2013) por parte da gestão acadêmica. Mas os trabalhos não permitem avançar na compreensão sobre se e como as demandas dos ingressantes na ES via PAA são identificadas, atendidas e manejadas pela gestão das IES, tampouco sobre se e como as instituições têm buscado rever sua estrutura organizacional em termos de espaços e equipes de assistência, assim como de mecanismos e estratégias específicas de atenção a estudantes cotistas, visando sua permanência e sucesso nos estudos. Este dado, aliado a normativas muito gerais do PNAES sobre a gestão da promoção da inclusão, fez com que as IES desenvolvessem, na sua autonomia, seus próprios programas de atendimento. Embora este fato não seja, em si, negativo, acabou por revelar duas fragilidades das PAA enquanto possibilidade de democratização da ES: (i) falta de parâmetros de funcionamento e atendimento para ações e políticas de assistência estudantil; (ii) identificação de IES sem políticas de assistência estudantil atentas à especificidade do público das PAA e, portanto, sem condições de assegurar seu direito à inclusão, dada a demanda por ações e políticas distintas e, por conseguinte, novas estruturas e gestão da assistência. Além disso, é importante observar que algumas das demandas particulares deste novo público, como as relacionadas a sofrimento psíquico, suporte pedagógico, problemas de subsistência, dentre outras, são identificadas pelos espaços de assistência estudantil de todas as instituições, como aponta Magalhães (2019). A falta de diretrizes sobre como lidar com elas, bem como de estímulo e espaço para troca de experiências e aprendizados, implica perda de oportunidades das IES para explorarem, para além de seus contextos locais, possíveis convergências de atendimento e de construção de estruturas de assistência, tendo em vista aperfeiçoar as ações de promoção à inclusãode cotistas. Diante do exposto, vamos a seguir analisar os trabalhos selecionados, os quais distribuímos em três grandes eixos de estudos: (i) que abordam fundamentos e formas de utilização das PAA – voltados ao direito à educação superior e ao novo perfil de estudantes; (ii) os que discorrem sobre as trajetórias dos cotistas na ES, inclusive o desempenho acadêmico, tendo por imperativo a implantação de políticas de permanência; e, finalmente, (iii) os que 5952 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 ‘permearam’ e problematizaram, em algum momento, a importância da gestão das PAA e da assistência estudantil, como resultado dos debates anteriores (mas sem tê-las como foco de estudo). 4 ESTUDOS SOBRE O NOVO PERFIL DE ESTUDANTES E SUA INCLUSÃO A “V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Graduandos(as) das Instituições Federais de Ensino Superior” (FONAPRACE), publicada em 2019, apontou significativa alteração no perfil socioeconômico de estudantes das IFES. Os dados apontam crescimento dos que correspondem ao público-alvo da Lei de Cotas, 50% deles, demandantes do PNAES. Os egressos de escola pública com “renda mensal familiar per capita até 1 e meio salário-mínimo” alcançaram, em 2018, o patamar inédito de 70,2% do total de matriculados, revelando efetiva democratização do acesso à ES. Estes números confirmam a importância de as IES criarem mecanismos e condições para a permanência de seus estudantes, revendo estrutura e organização do atendimento estudantil, construídos décadas atrás, quando atendiam outro público – em menor proporção numérica e, talvez, com outras demandas. Outro fato importante quanto ao novo perfil é que parte significativa destes sujeitos (entre um terço e metade dos novos ingressantes, a depender da instituição) é da primeira geração da sua família a acessar a ES, como mostra Erig (2016). Aponta, portanto, para estudantes cuja construção sociocultural é bastante distinta dos que adentravam os muros das IFES antes das PAA. As evidências quanto à mudança de perfil mostram os desafios das IES atenderem estudantes cujas características exigem não só ações de acolhimento logo no início do curso, mas durante todo o percurso acadêmico, o que envolve: mais profissionais (em quantidade e qualificação profissional adequada), diversidade de estratégias de atendimento e novas políticas para promoção de permanência e sucesso, mais recursos financeiros. Sem esta compreensão, não se faz possível promover a afiliação universitária (COULON, 2008). Neste contexto foram identificados vários estudos sobre evasão, discorrendo sobre índices e motivações estudantis para tanto; eles abrangem diversos recortes temporais e variáveis sociais e políticas, como mostram Cunha et al (2001) e Braga et al (2003). Estes autores mostram o equívoco da percepção de que cotistas têm maior taxa de abandono na graduação que não- cotistas, e fazem saber que a evasão não é fenômeno recente na ES brasileira, necessitando 5953 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 estudos que aprofundem suas causas, bem como ações para evitá-la. O fato de o fenômeno da evasão ser relativamente pouco explorado no âmbito das políticas acadêmicas, apesar de causar inúmeros prejuízos há décadas, permite pensar que os estudantes vêm sendo silenciados no tocante à possibilidade de manifestarem suas demandas; ou, talvez, que as IES não detêm suficientes canais de escuta; ou, ainda, que elas têm se mantido alheias às demandas postas, em mais uma expressão da universidade como ‘torre de marfim’5. A chegada de estudantes com o novo perfil, porém, tem questionado este ‘alheamento’ por meio de vozes que trazem, em sua história, a necessidade de ‘gritar’ sua existência de lutas para a conquista de direitos – até pouco tempo veementemente negados. Elas trazem uma cultura de enfrentamento de grupos hegemônicos e buscam serem ouvidas em suas diferenças e necessidades; e, ao ‘gritarem’ suas demandas e especificidades, bradam às IES que assumam sua existência - antes invisível. Nesta direção, Sampaio e Santos (2017, p.3) discorrem sobre as dificuldades de adaptação e permanência de egressos de escolas públicas, “cuja socialização e cultura são especialmente desconhecidas pelo mundo acadêmico”, favorecendo o abandono e o fracasso. 5 ESTUDOS SOBRE A NECESSIDADE DE POLÍTICAS DE PERMANÊNCIA A implantação das PAA no Brasil não foi feita sem resistências e embates no interior do ambiente universitário de um lado, parte dos servidores públicos resistiram à instalação de cotas com base na meritocracia e supostos prejuízos acadêmicos; no entanto, como indicado, estes vêm sendo desmistificados por diversas pesquisas. De outro, muitos técnicos, professores e gestores tiveram sensibilidade para com as necessidades destes estudantes, que precisam “atenção especial que facilite sua adaptação às tarefas acadêmicas dando suporte à aprendizagem das regras e códigos característicos da vida universitária” (SAMPAIO; SANTOS, 2017, p.2). A atenção a estas especificidades com vistas à inclusão acadêmica passa por caminhos que envolvem o respeito à multiculturalidade e à diversidade; nesse sentido, muitas IFES implantaram desde antes da Lei de Cotas, mas especialmente após sua publicação, diversas ações com este objetivo. No entanto, nem sempre elas se tornaram políticas institucionais, como mostram Sousa e Portes em trabalho de 2011 – período anterior à Lei de Cotas e momento em 5 Expressão cunhada por Derek Bok, professor emérito da Universidade de Harvard, para criticar o isolamento das universidades modernas em relação à sociedade. Ver: Bok, Derek. Beyond the Ivory Tower – Social Responsibilities of the Modern University. Harvard University Press, 1990. 5954 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 que a maior parte das IFES já dispunha de mecanismos de ingresso por meio de PAA. Os autores analisaram as PAA implantadas em todas as IES públicas brasileiras até aquele momento e identificaram que: apenas quatro universidades – Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) – apresentam programas efetivos de inclusão voltados para a permanência daqueles que se beneficiam das políticas de ingresso e contemplam, inclusive, diversos aspectos do contexto social dos estudantes. (SOUSA; PORTES, 2011, p.533) Além destas, conforme os autores, apenas a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tinha programas de permanência estudantil. Passados sete anos da promulgação da Lei de Cotas, os textos analisados indicaram que grande parte das IFES ainda estava em fase de elaboração de políticas institucionais e de organização de estruturas de atendimento específicas para cotistas, atentas à sua diversidade e à necessidade de estratégias de gestão específicas à sua inclusão, como mostram Bateira e Martins (2017). Este aspecto é reforçado por Heringer (2013), que define a permanência como o desafio posterior ao acesso, e por Paula (2017), que critica as políticas de assistência implantadas pelas IES públicas: A política assistencialista que tem sido implementada pelas universidades federais brasileiras baseia-se sobretudo no suporte financeiro aos estudantes carentes, ainda muito aquém da demanda, deixando em plano secundário as suas necessidades de ordem acadêmica, simbólica e existencial, relacionadas a sentimentos de não pertencimento a um ambiente ainda elitista e pouco propício à inclusão. (PAULA, 2017, p.312). Cabe assinalar, ainda, que Abreu, Lopes e Silva (2019), em revisãode literatura sobre as PAA no âmbito da ES, apontaram que as primeiras publicações sobre o tema tratavam do acesso e, em específico, da garantia de vagas; mas, segundo os autores, com o tempo elas têm se voltado à permanência. Veremos, a seguir, o que abordaram os estudos que mais se aproximaram do debate sobre a gestão dos processos de inclusão de cotistas. 6 ESTUDOS QUE APONTAM A NECESSIDADE DE GESTÃO PARA A INCLUSÃO Ribeiro (2017), citando Cristovam Buarque, ressalta que dentre as premissas de uma universidade de vanguarda está “assumir compromisso de responsabilidade social e ética para 5955 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 com o futuro de uma humanidade sem exclusão” (2017, p.363). Esta percepção sobre o papel social das IES, no caso do Brasil, remete à contribuição destas para com a democratização da sociedade, por meio de políticas de acesso a todos os grupos sociais, e pela institucionalização de políticas de permanência, mobilizando recursos – físicos, financeiros, de pessoal, outros – para sua efetivação (LUZ et al, 2019). Em pesquisa que explorou a responsabilidade social de IES públicas por meio da análise de alguns dos principais documentos institucionais, como Estatutos e Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), foi apurado que 48,14% das instituições explicitavam “respeito às diferenças e pluralismo de ideias” (RIBEIRO, 2017, p.368), e que cerca de 51% não apresentavam concepção de ES enquanto espaço democrático de construção do conhecimento. Ou seja, em metade das analisadas a percepção sobre o papel social das IES não contemplava valores fundamentais à efetivação de processos de inclusão de cotistas, como pluralismo e democracia. No levantamento que realizamos, como resultado dos debates sobre o novo perfil e a permanência, alguns estudos problematizaram a importância da gestão das PAA e da assistência estudantil, ainda que sem tomá-las como foco. Nestes casos, eles argumentaram sobre a necessidade de uma gestão das PAA e da assistência estudantil para a efetiva inclusão dos cotistas, fundamentados em duas dimensões: • dimensão política – remete a como a política institucional transparece as “marcas de uma ideologia que exerce certa influência nas tomadas de decisão, ou seja, é a identificação de valores grupais” (RIBEIRO, 2017, p.365). Esta dimensão retrata, portanto, a visão dos atores acadêmicos, refletida nas diretrizes e documentos institucionais, quanto ao papel social das IES; • dimensão administrativa – refere-se ao “processo de planejar, organizar, liderar e controlar o trabalho dos membros das organizações de educação superior, e de usar todos os seus recursos disponíveis para atingir seus objetivos” (SCHLIKMANN et al, 2014, p.165). Esta dimensão revela como a gestão universitária operacionaliza suas políticas acadêmicas e institucionais. Importa destacar que ambas as dimensões se entrelaçam e complementam, pois, se a política revela os fundamentos a partir dos quais uma instituição toma decisões e organiza suas atividades acadêmicas (expressas em documentos e diretrizes institucionais), a dimensão administrativa define, nestes mesmos documentos, como elas devem ser viabilizadas e 5956 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 executadas. No entanto, os trabalhos também mostram que estas dimensões, por vezes, revelam que a gestão das IES se constitui em um espaço de disputa, onde há grupos que defendem um modelo de gestão voltado à dimensão social, enfatizando o compromisso da instituição acadêmica com a inclusão social, enquanto outros argumentam a favor de um modelo mais gerencialista (PAULA, 2005; RIBEIRO, 2017). Esta última perspectiva também pode ser caracterizada “por uma cultura empresarial altamente competitiva” (PEIXOTO et al, 2016, p.720). Na perspectiva da ES como bem público e direito de todos, é fundamental a atuação das universidades públicas com responsabilidade social e compromisso com a inclusão, à medida que: não restam dúvidas de que a educação formal, tanto de base quanto em nível superior, tem papel central em termos distributivos de renda e de mobilidade social, haja vista que a inserção no mercado de trabalho, as melhores colocações nesse mercado e, numa visão macro, o desenvolvimento do indivíduo enquanto sujeito histórico dependem da intervenção das instituições para serem efetivos. (LUZ et al, 2019, p.8). Mas, segundo o estudo de Ribeiro (2017), nos documentos de gestão “parece prevalecer a teoria do capital humano, ou seja, a da preparação de profissionais para o mercado de trabalho” (p.374), em detrimento de “uma educação que se identifica com a teoria da emancipação humana” (p.376). Este fato instiga à reflexão sobre como as IES, assim como as ações da gestão universitária, concebem a questão da qualidade, uma vez que esta tende a sinalizar a direção das políticas institucionais. O termo qualidade, polissêmico e carregado de subjetividade, é visto por Morosini (2001) em três grandes correntes: qualidade como sinônimo de isomorfismo, refletindo padrões estandardizados e empregabilidade; qualidade como respeito às especificidades institucionais e do entorno, e “qualidade sinônimo de equidade”. (p.89). Para a autora, embora a diferença entre estas correntes tenha se tornado mais sutil, há a tendência de que a busca por qualidade seja ligada à diversidade e equidade, e à capacidade das IES assumirem sua responsabilidade social, promovendo políticas institucionais que enfatizem esta dimensão. Neste sentido, a capacidade de as IES públicas ensejarem políticas e gestão da assistência para cotistas, acompanhadas de estruturas administrativas promotoras da inclusão acadêmica, aponta para projetos de democratização da ES (para além da mera reserva de vagas), com impactos mais amplos que, no limite, denotam sua qualidade social. 5957 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 Para Sampaio e Santos (2017, p.202), um “sistema de gestão acadêmica capaz de acompanhar as exigências da abertura da educação superior para novos públicos” deve estar fundamentado em: compreensão do perfil dos estudantes; acompanhamento de seu percurso universitário; e avaliação dos seus resultados. Apenas ao completar este ciclo seria possível atingir o que Coulon (2017) considera “democratização do acesso ao saber” (p.1241). Para o autor o problema não é mais entrar na universidade, mas “permanecer na universidade e ter sucesso no percurso formativo” (p.1241-1242). 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Tivemos por objetivo, com apoio na produção bibliográfica da área de gestão, compreender como as IFES organizaram a gestão das políticas de atendimento aos estudantes que ingressaram na ES por meio de PAA no período 2000-2019. Buscamos, desta forma, identificar o potencial das ações de assistência estudantil ressignificarem as instituições acadêmicas enquanto espaço de democratização. Os dados obtidos, porém, revelaram que as pesquisas da área de políticas e gestão da ES não têm abordado esta temática. Os textos tenderam a debater o novo perfil do estudante, as especificidades de atendimento e atenção deste público, a necessidade de políticas de promoção da permanência e inclusão, assim como de gestão de ações e políticas. No entanto, os textos não foram além de reafirmar as demandas a serem atendidas, mostrando-se limitados em dar indicativos de ações, políticas, processos e mecanismos pelos quais as IES vêm promovendo a inclusão dos cotistas. Com isso, observamos que a produção do período, embora afirme a responsabilidade social das IES e permita bom ‘diagnóstico’ dos problemas que afetam a permanência e o sucesso deste novo público, não avança nos possíveis ‘remédios’a serem oferecidos para que eles sejam resolvidos – como a indicação de possíveis estruturas de atendimento, equipes, estratégias de atendimento e financiamento. A falta de diretrizes e referências sobre como promover a garantia legal de direitos ao público das PAA na ES, e de canais e espaços institucionalizados de troca de experiências e debates sobre como as IES têm feito a gestão dos problemas identificados, assim como desenvolvido suas próprias soluções, aponta uma fragilidade da política de assistência e inclusão dos cotistas. Isto permite que a ênfase destas questões recaia sobre uma dimensão meramente 5958 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 administrativa das ações de inclusão, sem a perspectiva política e social dos processos nela envolvidos. E, deste modo, fazem com que os espaços de assistência se limitem à distribuição de bolsas e outros recursos, desconsiderando o necessário engajamento de toda a comunidade universitária nos processos de acolhimento e inclusão, promovendo a afiliação, como propõe Coulon (2017). A inclusão de cotistas deve compor o projeto de gestão de toda instituição que se propõe responsável pela democratização da ES. É fundamental, portanto, que todas as IES, mas especialmente as públicas, indiquem como buscam efetivar sua responsabilidade social por meio de diretrizes e políticas de permanência e sucesso destinadas aos estudantes das PAA. Nessa perspectiva, é um grande desafio para os gestores institucionalizarem as formas de operacionalizar espaços, tempos, equipes profissionais qualificadas e estrutura administrativa para o atendimento dos cotistas em suas especificidades. Sem a busca de meios para efetivar ações e políticas, que podem assegurar o direito à inclusão, a permanência e o sucesso na ES, a democratização deste nível de ensino se manterá suscetível ao casuísmo da gestão e de gestores, limitando a inclusão ao ingresso sem, contudo, conseguir promover o acesso ao conhecimento. 5959 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.16, n.7, p. 5943-5962, 2023 jan. 2021 REFERÊNCIAS ABREU, T. F.; LOPES, R. A.; SILVA, G. H. G. Um panorama sobre o tratamento da integração social e acadêmica de estudantes beneficiários de ações afirmativas em periódicos brasileiros. XIII ENENM – Encontro Nacional de Educação Matemática, Cuiabá, 2019. Disponível em: https://x.gd/tUy37. Acesso em: 15 jan. 2020. 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