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Copyright 2006 Editora Livraria da Física 1a. Edição Editor: JOSÉ ROBERTO MARINHO Diagramação: ROBERTO MALUHY JR & MIKA MITSUI Capa: Arte Ativa Impressão: Gráfica Paym Dados Internacionais de Catalogação e Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Estudos de história e filosofia das ciências: subsídios para aplicação no ensino / Cibelle Celestino Silva, (org.). - São Paulo: Editora Livraria da Física, 2006. Vários autores. Bibliografia 1. Ciência - Filosofia. 2. Ciência - História I. Silva, Cibelle Celestino. 06-5504 CDD-501 -509 Índices para catálogo sistemático: 1. Ciência: Filosofia 501 2. Ciência: História 509 ISBN: 85-88325-57-8 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida sejam quais forem os meios empregados sem a permissão da Editora. Aos infratores aplicam-se as sanções previstas nos artigos 102, 104, 106 e 107 da Lei n° 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 Impresso no Brasil Fisica Editora Editora Livraria da Física Telefone 55 11 3816 7599 / Fax 55 11 3815 8688II BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO Antonio Augusto P. Videira Visões sobre método científico Durante muito tempo, pensou-se que a ciência seria o que é graças ao fato de que existiria uma coisa chamada método científico. A diferença entre a ciência, entendida como um tipo de conhecimento específico, especial e, para a maioria das opiniões, superior quando comparada a outros tipos de conhecimento era devida à possibilidade de ela recorrer ao chamado método científico. Inclusive, a instauração da ciência moderna somente teria ocorrido porque o físico e astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642) e os filósofos naturais ingleses Francis Bacon (1561-1626) e William Harvey (1578-1657), entre outros, criaram o método científico. Uma das idéias mais difundidas e arraigadas a respeito do método científico, quando este último é compreendido de forma tradicional, por exemplo, concretizada nas diferentes formulações do empirismo e do positivismo, aquela mesma que foi duramente criticada nas décadas de 1970 e 1980, considera-o como capaz de realizar corretamente duas funções: a) conduzir com segurança os cientistas às descobertas que almejam; e b) argumentar que aquelas descobertas são, de fato, verdadeiras e bem fundamentas. Com o surgimento da filosofia e da ciência modernas, o que ocorreu a partir do século XVI, os filósofos, ou mais precisamente, os epistemólogos, passaram a 1 Pesquisa apoiada por uma bolsa Agradeço a revisão e os comentários de Cristina de Amorim Machado, bem como o apoio institucional da CDI/CBPF (MCT).24 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO CIENTÍFICO ESTUDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS 25 se preocupar não apenas com a determinação dos modos que podem conduzir eram interrogados pelos filósofos a respeito de como era o método que empregavam a descobertas de conhecimento verdadeiro, mas também com a capacidade de e seguiam, suas respostas foram, em suas maiorias, diferentes daquelas elaboradas justificar por que esse conhecimento é verdadeiro. Em outras palavras, uma parte pelos filósofos e, desse modo, decepcionantes para eles. Os cientistas simplesmente considerável da atividade filosófica foi dirigida à questão: "como podemos saber não se reconheciam nas descrições que os filósofos ofereciam para explicar o que com certeza que o nosso conhecimento é verdadeiro?". A verdade das teorias, faziam e como faziam. que não quer dizer que os físicos não acreditem na modelos e leis científicas seriam determinadas pelo uso do método científico. É claro existência de um método científico, atuante em suas práticas científicas. Durante que, nessa última situação, o método científico passa a desempenhar um papel na muito tempo, as divergências entre filósofos e cientistas e no interior de cada investigação filosófica, na medida em que cabe indagar se a estrutura do método uma dessas duas comunidades restringiram-se a dúvidas a respeito de qual seria científico encontra-se entre as razões que explicam por que podemos ter certeza de o método efetivamente usado nas ciências, e não se existiria tal método. A dúvida que o conhecimento científico é verdadeiro. relativa à existência de um método somente surgiu após a passagem para a segunda metade do século passado. Divergências entre cientistas e filósofos a respeito do método Mesmo diante dessa atitude dos cientistas, os filósofos não desistiram de associar científico à ciência a existência de algo capaz de diferenciá-la de outras produções intelectuais É fato bem conhecido que os filósofos, os quais (aparentemente) se interessaram humanas. Assim, não apenas o sucesso da ciência, mas também o seu rigor seria devido à presença do método científico. Como se pode perceber, o método mais do que os cientistas pelo problema de justificar a verdade do conhecimento científico, caso existisse, seria capaz de explicar todas as qualidades da ciência, nunca chegaram a formular uma posição consensual sobre este assunto. aquelas que são prezadas e provocam admiração. Isso fez com que o método Como veremos adiante, através do exemplo de essa impossibilidade científico desfrutasse de uma tal importância que outras disciplinas estiveram desgastou-os perante os cientistas, que preferiram deixar de lado, como desinte- convencidas que, para serem consideradas genuinamente científicas, deveriam, elas ressantes e desnecessárias, toda e qualquer discussão relativa à necessidade de também, respeitar rigorosamente o método. A impossibilidade de alcançar um tal fundamentar o conhecimento científico. Quando pressionados a explicar por que a método, que, com era elaborado tendo como modelo o método usado ciência é o que é, os cientistas recorrem ao sucesso preditivo das teorias científicas na física, fez com que os profissionais dessas outras disciplinas se desesperassem e mesmo aos desenvolvimentos técnicos que elas possibilitam. Este último aspecto em seus esforços. Após muitas tentativas, esses "fracassos"levaram-nos a formular é, em geral, desconsiderado pelos filósofos; voltaremos a ele mais adiante. a seguinte questão: "Será que o método da física é realmente universal a ponto de As respostas, muitas vezes ambíguas, que os cientistas oferecem para explicar poder ser indiscriminadamente usado em toda e qualquer área do conhecimento?". o sucesso da ciência são claramente insuficientes para os filósofos, já que elas não são capazes de satisfazê-los nos critérios de coerência, univocidade e solidez Esses "insucessos", por exemplo, no domínio das ciências humanas, muito estimados por estes últimos. Até recentemente, uma parcela considerável levantaram dúvidas a respeito da universalidade do método empregado pelos físicos. dos filósofos precisamente aqueles que articularam o seu pensamento a partir Caso não fosse universal, seria necessário construir um método adequado a cada das atitudes básicas defendidas pelo Positivismo Lógico acreditava que deveria ciência? Esse trabalho, que visa à elaboração de um método próprio seja para as existir algo que pudesse servir como critério de distinção entre a ciência e o restante ciências humanas, seja para as ciências da vida, ainda não foi finalizado e talvez das produções humanas, incluindo as artes, a religião e a própria filosofia. A nunca venha a ser. Mesmo assim, ou seja, ainda que nunca (temos que tomar resposta mais talvez porque a mais conhecida, consistia em apelar para a cuidado ao usarmos esta palavra) venha a ser possível encontrar um método que existência e para a eficácia de um método especial. No entanto, quando os cientistas satisfaça à maioria dos cientistas sociais ou à maioria dos biólogos, uma certeza deverá permanecer: o método da física não deveria poder ser por elas empregado, ao menos como é o caso nessa ciência. No caso específico das ciências humanas, 2 Conferir as citações de e Bridgam, transcritas à frente no corpo do artigo. uma das principais dificuldades encontra-se no fato de que o conhecimento que26 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO CIENTÍFICO ESTUDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS 27 elas desenvolvem não pode ser desvinculado de valores e Um outro principais elementos necessários para a constituição e validação do conhecimento ponto interessante é que, talvez já na sua origem, as ciências humanas traziam científico. consigo, no seu interior, a intenção de compreender o mundo para transformá-lo, Resumidamente, é inegável que as críticas acertadas ou não, exageradas ou não principalmente através das aplicações tecnológicas, esta últimas obtidas graças ao método científico quase resultaram em seu desaparecimento ou, ao menos, a resultados produzidos pelas ciências naturais e exatas. Em outras palavras, o fizeram com que ele passasse a desfrutar de uma outra posição, certamente menos conhecimento nas ciências humanas estaria inapelavelmente ligado à ação. Ou importante. Em resumo, a idéia da existência de um método científico universal ainda: o conhecimento das ciências humanas não pode alcançar o mesmo grau foi abandonada, permanecendo, contudo, espaço para concepções mais restritas de de objetividade existente nas teorias (Por último: não se pode separar método. Contudo, deve-se observar que essas críticas são mais entre os sujeito e objeto, sob pena de desfigurar por completo o objeto em investigação. filósofos. Já, entre os cientistas, a situação é diferente, uma vez que estes, mesmo Nessa situação, o mais adequado a fazer é reconhecer explicitamente quem ob- não se entendendo a respeito do que é o método científico, continuam a acreditar serva, quem é responsável pela construção do conhecimento e quem é responsável na sua existência e na sua importância para a formulação e validação da ciência. por sua confirmação ou validação. processo de objetivação parte, portanto, do reconhecimento explícito de que nunca será possível eliminar completamente a método científico se transforma subjetividade do conhecimento. A objetividade é alcançada através de mecanismos Uma maneira interessante de percebermos as transformações por que passou conceito de método científico é comparar definições existentes em dicionários e Parece ser um fato incontestável que, a partir de fins da década de 1950, com as enciclopédias de filosofia. Essas definições, ou conceituações, exprimem a posição críticas que alguns dos mais famosos representantes da chamada Nova Filosofia existente em um determinado momento (aquele em que a obra em questão foi da Ciência (Norwood Russell Hanson, Stephen Toulmin, Thomas Kuhn, Imre composta) a respeito de um certo tema. Alguns dos dicionários mais recentes Lakatos e o próprio Feyerabend) dirigiram à concepção filosófica do Positivismo incorporaram em suas apresentações o espírito e o conteúdo dessas críticas. De Lógico, quebrou-se definitivamente o encanto que a idéia de método científico acordo com o espírito dominante em nossos dias, para que se possa caracterizar exercia até então sobre cientistas, filósofos e mesmo sobre leigos. Durante 40 anos corretamente o método científico, é importante mencionar que ele sofreu trans- a posição em favor da existência de um método científico, uma formações com o passar do tempo, isto é, à medida que a ciência se modificava, das pedras fundamentais sobre a qual assentavam-se os diferentes positivismos mudou também a concepção do que vem a ser método científico. Um exemplo desta (mas não apenas eles), entre os quais o Positivismo Lógico, foi dura e continu- afirmação, e que nos leva a perceber que a idéia de método científico transformou-se, amente submetida a críticas de diferentes matizes. movimento de oposição ao encontra-se na definição que Blackburn fornece para o verbete "metodologia" em método científico foi tão intenso, que defendê-lo passou a representar uma posição seu dicionário. Segundo esse autor, metodologia pode ser assim definida: conservadora e antiquada. Isso provocou uma inflexão na posição privilegiada desfrutada pelo método científico, desde o início do século XIX até a segunda "O estudo geral do método em domínios particulares de investigação: ciência, metade do século passado, e que já era muito antiga, remontando à instauração história, matemática, psicologia, filosofia, ética. Obviamente, qualquer domínio da ciência moderna. Em termos breves, o método foi sempre visto como um dos pode ser investigado com mais ou menos sucesso, ou mais ou menos inteligentemente. tentador, então, supor que existe um único modo de investigação, logicamente garantido, capaz de descobrir a verdade, caso algum método possa fazê-lo. A tarefa do filósofo de uma disciplina seria, então, revelar método correto e desmascarar as A rigor, nenhuma ciência, natural ou humana, pode ser dissociada de valores e interesses. Este é, como falsificações. Apesar de ser uma crença muito próxima da filosofia da ciência se sabe, um tema polêmico e explosivo para os cientistas e os filósofos. Até hoje não se conseguiu chegar positivista, são poucos os filósofos que, hoje em dia, a aceitariam. [Tal concepção] a uma posição majoritária sobre a relação entre ciência, valores e interesses. A respeito das idéias sobre o método nas ciências humanas, vale a pena consultar o livro de Alda confia excessivamente na possibilidade de uma filosofia primeira a priori ou num Alves-Mazzotti e Fernando Gewandsznajder, listado nas sugestões de leitura. ponto de vista que está para além dos praticantes que trabalham e a partir do qual28 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO CIENTÍFICO ESTUDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS 29 os seus melhores esforços poderiam ser avaliados como bons ou ruins. Atualmente, dessa postura são: (1) a metodologia não é independente da e (2) esta esse ponto de vista parece ser uma fantasia para muitos filósofos. A tarefa mais última não é subordinada à epistemologia7. Quanto às relações entre a metodologia e modesta da metodologia é investigar os métodos que são realmente adotados em a epistemologia, para aqueles que mantêm a tese de um método científico universal, vários estágios históricos da investigação em diferentes áreas, com objetivo não elas acabam por se identificar. A razão para a instituição dessa identificação é tanto de criticar, mas muito mais de sistematizar os pressupostos de um campo a seguinte: a epistemologia, a qual, em poucas palavras, seria a responsável pela específico num tempo particular. Resta ainda uma função para disputas explicitação do tipo de conhecimento concretizado na ciência, precisamente para metodológicas locais no interior da comunidade de investigações de alguns poder realizar tal objetivo, deveria justificar a idéia de que a ciência é que é fenômenos, com uma abordagem atacando outra como sem sentido e não científica, por que recorre ao método científico. Em outros termos, são os procedimentos mas a lógica e a filosofia não fornecerão, segundo a visão moderna, um arsenal metodológicos usados pelos cientistas em sua prática que fazem com que a ciência independente de armas para tais batalhas seja um conhecimento certo e verdadeiro. (Blackburn 1994) É, no entanto, necessário esclarecer, que nem todos os críticos por exemplo, esse é o caso de Feyerabend da idéia de método científico elaboraram substitutos para ele, e isso pela simples razão que tais analistas eram contrários a que algo fosse De acordo com esta definição, depreende-se que, além de não existir um método inventado para ser colocado em seu lugar.8 Uma segunda observação importante geral e único válido para toda e qualquer área de investigação, a filosofia não diz respeito ao fato de que as críticas ao método científico não se originaram na tem mais como justificar a sua antiga pretensão de ser capaz de encontrar o segunda metade do século XX; elas são anteriores a essa época. Além disso, não verdadeiro método para as ciências. Nem a filosofia, nem a lógica possuiriam meios foram os filósofos os primeiros a criticá-lo. Algumas das primeiras críticas feitas para determinar e de modo definitivo o que é método; não seria possível ao método científico são devidas aos próprios cientistas, sendo que algumas delas persistir na defesa da idéia de que a filosofia (especificamente, a metafísica), tal foram tornadas públicas na segunda metade do século passado. De modo resumido, como, por exemplo, o matemático e filósofo francês Descartes (1596-1650) a os cientistas criticaram, como ainda criticam, os filósofos justamente por terem apresenta em seus Princípios de filosofia, é uma ciência primeira, já que constituiria transformado regras de conduta em princípios metodológicos com as seguintes o fundamento de todas as outras. Segundo Blackburn, somente é possível falar características: universalidade, rigidez, fixidez, eternidade e infalibilidade. Ou seja, em método científico em domínios restritos e específicos da ciência. É como a crença a respeito da existência de um método científico teria sido criada, segundo se cada área, ou mesmo subárea, tivesse o seu próprio método; não mais se os cientistas. Como evidência disso, creio ser suficiente citar o exemplo do físico pode conceber uma discussão metodológica separada de uma discussão científica. e filósofo da ciência austríaco Philip Frank (1884-1966), que, em artigo do início As conclusões apresentadas por Blackburn são, em nossos dias, consideradas da década de 1940, tentou explicar os motivos pelos quais os filósofos e os físicos como evidentes pela maioria dos cientistas e por um número considerável de mostram-se incapazes de formularem posições consensuais, a respeito da autêntica filósofos. Uma vez mais, vale a pena recordar que já o filósofo austríaco Paul K. Feyerabend (1924-1994) defendia teses muito semelhantes às de Blackburn, na medida em que atacava frontalmente a crença na existência de um método 6 Em termos breves, ontologia significa estudo dos constituintes mais básicos do mundo (ou real), bem científico universal, ou seja, aplicável a todo e qualquer domínio de investigação. como as relações entre eles. Em geral, os argumentos em favor dessa idéia sustentam que o método tem que ser 7 A epistemologia, uma vez mais em termos breves, diz respeito às razões que fazem com que tenhamos pensado em função do problema que se quer resolver, o que implica, por exemplo, certeza que o nosso conhecimento é verdadeiro. uma análise da estrutura epistemológica nele existente. importantes 8 São inúmeras as declarações de Feyerabend capazes de corroborar essa nossa afirmação. Por exemplo: "Meu objetivo não é de substituir um conjunto de regras por outro conjunto do mesmo meu objetivo é, antes, de convencer 0 leitor de que todas as metodologias, inclusive as mais óbvias, têm limitações." (Feyerabend 1977, p. 43.) 5 A tradução é nossa.30 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO CIENTÍFICO ESTUDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS 31 natureza do método científico. Neste ponto, é possível perceber que os cientistas Nesta definição, não encontramos a natureza específica da ciência sendo de- não estão considerando a importância que pensadores como William Whewell e terminada pela existência e pelo uso do método científico. Que motivos foram, Karl Pearson, no século XIX, concederam à idéia de método e ainda são, os responsáveis pela origem do movimento de retorno à idéia de Contudo, o fato de o lugar ocupado pelo método científico ter aparentemente método científico? Para que possamos responder corretamente a essa pergunta, é ficado vago gerou uma situação preocupante, não apenas entre filósofos, mas necessário, antes de tudo, saber por que o método científico foi criticado; temos que também entre aqueles que são os responsáveis pelo ensino de ciências. A ausência delimitar aquilo que constituía um na idéia de método científico. início de um substituto à altura para o método científico tornou-se tão incômoda que da resposta foi dado quando acima foram usados os qualificativos: universal, rígido, cientistas, filósofos e educadores voltaram a defender a necessidade de se recuperar fixo, eterno e infalível. o método científico, como apontado pelo historiador da ciência Stephen Um exemplo que merece ser recordado a respeito das críticas que os cientistas Contudo, os tempos atuais são outros. Diferentemente da época em que o método fizeram à concepção universalista de método científico é o do químico alemão desfrutava de unanimidade, aqueles que se preocupam com a atual recuperação do Justus Em meados do século XIX, Liebig, acompanhado de alguns outros método científico levam em consideração as críticas formuladas contra o método colegas, começou a desconfiar que não existiria um método que, mesmo obedecido científico, incorporando-as. Isso, aparentemente, impossibilita a recuperação da estritamente, fosse capaz de conduzir inexoravelmente a descobertas, ao mesmo crença num método universal, uniforme e válido para todo e qualquer tipo de tempo, verdadeiras e fundamentais sobre a A idéia da existência de um ciência. método escrito obrigatoriamente com M maiúsculo foi criticada, sendo proposto o seu abandono em pleno século dezenove, época normalmente descrita como 'Muda-se o método muda-se a concepção de correspondendo à entronização da ciência como o ápice da razão humana. Alguns Como não é difícil perceber, as críticas feitas ao método científico acabaram por cientistas perceberam que os caminhos que levam à descoberta na ciência podem implicar modificações na própria concepção de ciência. A principal delas foi que o ser diferentes e múltiplos, o mesmo ocorrendo com os processos para justificá-la. Ao método não constitui mais o principal elemento presente nas definições de ciência. final do século XIX, dois desses cientistas foram Ernst Mach e Ludwig Boltzmann, Esta última não se resume a ser uma atividade metódica. Gilles-Gaston Granger, os quais lutaram coerentemente em favor de uma concepção mais aberta e pluralista por exemplo, define a ciência como sendo uma: da ciência. Os cientistas, a partir dessa época, tiveram mais facilidade do que os filósofos para perspectiva de uma (...) Mas poder imaginativo se exerce, então, na perceber as limitações e as dificuldades presentes na idéia de método científico, uma produção de conceitos, os quais são sempre supostamente orientados em direção à descrição ou à organização dos dados que resistem às nossas fantasias. Certo, a ciência é uma representação abstrata, mas ela se coloca, corretamente, como filósofo da ciência Larry Laudan apresenta a posição de Liebig da seguinte maneira: representação do real "O trabalho de Liebig, por outro lado, oferecia uma crítica incisiva do indutivismo baconiano, sustentando (Granger 1992, p. 45-46) convincentemente que nenhum cientista jamais havia seguido ou jamais poderia seguir os métodos descritos no Novum Organum. ataque de Liebig, que foi 0 primeiro empreendido por um cientista eminente a repudiar tão radicalmente indutivismo, ajudou a liquidar uma versão da teoria indutiva Para estes dois últimos autores, a importância de se defender a existência do método científico não que prosperara por bem mais de dois séculos. Até surgimento da obra de Whewell e Liebig, 0 método se resumia apenas às qualidades epistemológicas, que ficariam asseguradas caso cientista recorresse científico era concebido fundamentalmente como um método de descoberta e não como um método de ao método científico para chegar a conclusões científicas presentes em suas teorias científicas. Tanto prova ou confirmação. Nos escritos de Bacon, Newton, Herschel e Mill (para citar apenas alguns nomes), Whewell, quanto Pearson percebiam que o método científico poderia desempenhar um papel relevante a indução é tratada como uma técnica para produzir leis e teorias ou como uma máquina para descobrir na formação dos bons cidadãos, uma vez que, entre outras particularidades, o método científico inclui o causas. Argumentando que a descoberta não se submetia a absolutamente nenhuma regra, e menos ainda papel da crítica. às do método indutivo, Liebig tornou explícito algo de que muitos cientistas já suspeitavam há muito 10 (Brush 1974). tempo, a saber: a impossibilidade de criar uma lógica da descoberta à prova de erros." (Laudan 2000, pp. 57-58. Trechos destacados no original) 11 Os trechos destacados encontram-se no original. A tradução é nossa.32 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO CIENTÍFICO ESTUDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS 33 vez que foram as suas práticas que os obrigaram a rever as suas próprias posições Essa citação de esclarece-nos a respeito de uma posição muito co- a respeito do método científico. Em nossa época, só os cientistas mais ingênuos sob mum entre os cientistas acerca da importância e da utilidade das discussões o ponto de vista epistemológico continuam a defender a idéia de que a principal epistemológicas sobre a ciência para aqueles que a praticam. Outros físicos que característica da ciência é o método. Tal posição ingênua encontra-se, por exemplo, defenderam posições como essa foram P. e Steven Weinberg. Não é bem caracterizada no livro do bioquímico Leopoldo De Meis. difícil perceber que não vê nenhuma utilidade numa discussão sobre desenvolvimento, cada vez mais acelerado da ciência, e a incapacidade de os a natureza da ciência. Ao contrário, ela pode mesmo atrapalhar. É igualmente filósofos obterem uma posição consensual a respeito do que é o método científico e interessante perceber que, segundo o prêmio Nobel de física de 1965, os filósofos, o suas implicações para a ciência produziram entre os cientistas um ceticismo enorme que é coerente com a visão que o senso comum que faz deles, são pessoas que vivem com relação à fecundidade das discussões Um exemplo polêmico dessa permanentemente em um estado de dúvida, o que os impede de realizar o que quer posição nos é fornecido pelo célebre físico norte-americano Richard que seja. Mesmo que descontemos os exageros da posição de não podemos "O que é a ciência? Vocês sabem todos o que ela é; evidentemente, pois que vocês desconsiderar completamente a sua opinião, pois, em princípio, as análises dos a ensinam. (...) Mas, se por acaso vocês a ignoram, dirijam-se ao primeiro manual filósofos são elaboradas para esclarecer e explicar o que é a ciência. Desse modo, as que encontrarem; todos eles contêm uma exposição completa da questão. opiniões filosóficas dos cientistas sobre as suas práticas deveriam necessariamente ser levadas em conta pelos filósofos. Além disso, as conclusões dessas análises A ciência não é aquilo que os filósofos dizem sobre ela e ainda menos aquilo deveriam ser aceitas pelos cientistas uma vez que estas últimas reproduziriam que é dito pelos manuais. que é ela, então? Eu realmente só me coloquei esta corretamente a sua atividade. Mas, para Feyman, não é isso que acontece. Por quê? questão após ter dado o meu acordo ao senhor De Rose sobre o título desta conferência. Um poema, então, me veio à memória: Porque os filósofos universalizam, na medida em que transformam em princípio aquilo que os cientistas consideram provisório, corrigível e substituível. Além de perceberem que a descoberta científica aconteceria por meio de ca- "Uma centopéia vivia feliz minhos diferentes, os cientistas também se deram conta de que, caso o método Até que um sapo malicioso the perguntou: 'Diga-me, você jamais se confunde de pata científico realmente existisse, ele imporia à ciência fronteiras inaceitáveis, já que quando muitas questões que despertavam a sua curiosidade não poderiam ser por eles Tomada de dúvida, a centopéia caiu num buraco, porque ela não sabia mais respondidas ou mesmo investigadas. Um célebre exemplo dessa situação encon- caminhar." tra-se na interdição que Auguste Comte levantou, na primeira metade do século XIX, contra a possibilidade de, um dia, serem conhecidas a composição química dos astros celestes e as leis físicas que determinam o comportamento daquilo que E, finalmente, conclui ocorre em seus interiores. Segundo o fundador do Positivismo, as questões relativas à estrutura e ao funcionamento dos astros celestes, à exceção das leis que descrevem "Eu fiz ciência toda a minha vida, sabendo perfeitamente que ela era. Mas quanto a dizer a vocês como colocar um pé diante do outro e para isso estou aqui, eu sou incapaz 14 A tradução é nossa. Trechos destacados no original. "Parece-me que existe muito sensacionalismo acerca do método científico. Eu me arrisco a dizer que as 1988, pp. 212-213) pessoas que mais falam sobre isso são aquelas que menos praticam. Método científico é aquilo que os cientistas praticantes e não aquilo que outras pessoas, ou mesmo os próprios cientistas, podem dizer sobre Nenhum cientista praticante, quando ele planeja um experimento em seu laboratório, se pergunta se está sendo propriamente nem está ele interessado em todo e qualquer método que ele pode usar enquanto tal." (Bridgman, p. 81.) 13 A tradução é nossa.34 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO CIENTÍFICO ESTUDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS 35 as suas trajetórias no céu e que constituem o domínio da Mecânica Celeste, salidade, univocidade, rigidez, infalibilidade, entre outras), a idéia, ou melhor, a permaneceriam para sempre desconhecidas. Poucos anos depois da "promulgação" necessidade em favor da existência de algo parecido com um método científico não do embargo comteano, dois cientistas alemães, Robert Bunsen e Robert Kirchhoff, foi completamente esquecida. A necessidade de um método científico foi sentida descobriram a lei básica que conduziu ao início da análise espectral da luz emitida tão intensamente que alguns filósofos e cientistas reconsideraram a concepção de pelas estrelas e galáxias. Surgia, pois, o elemento básico para a astrofísica. método que existia. Um exemplo claro da necessidade de tentar encontrar um Um segundo exemplo famoso da posição de que nem tudo poderá ser conhecido esclarecimento, minimamente razoável, do que é a ciência, pode ser visto nas pela ciência encontra-se no médico alemão Emil Du Bois-Reymond, que afirmou, palavras do físico francês Roland Omnès: na década de 1870, que não apenas existiam questões que ainda não possuíam respostas, mas existiam outras para as quais nunca seria possível encontrá-las. Du Bois-Reymond seguia a idéia de Comte a respeito de domínios que permaneceriam, "Diante da imensa extensão e da coerência da ciência atual, só podemos ficar e para sempre, terra ignota. Para Comte, como para Du Bois-Reymond, a ciência pensando no que as torna possíveis, e até no que torna possível uma tal ciência. A não dispunha de mecanismos capazes de encontrar e testar respostas a questões própria realidade é a causa dela, com toda certeza, mas por meio de que poderoso ontológicas, i.e., aquelas questões relativas à origem e à verdadeira natureza dos método é ela interrogada para dar respostas tão generosas, mas também, às vezes, objetos naturais. tão estranhas? Quando Bacon ou Descartes falava de método, tratava-se do que As posições desses dois pensadores foram recusadas por alguns de seus contem- normalmente se entende por isso, de uma regra de comportamento que pudesse levar porâneos, na medida em que impunham limites ao conhecimento que poderia ser infalivelmente a mais conhecimentos: um método para construir ciência." formulado pela Diferentemente desses, que defendiam a existência de limites intransponíveis para a ciência, Boltzmann adotou uma atitude segundo a (Omnès, p. 271) qual a ciência sempre procurou escapar à situação na qual limites, ou fronteiras, lhe seriam impostos a partir de uma posição externa a ela. Para Boltzmann, uma posição como a de Comte ou a de Du Bois-Reymond é profundamente dogmática e, As palavras de Omnès nos mostram também que ocorreu uma incorporação, assim sendo, deve ser combatida, pois é prejudicial ao desenvolvimento científico. mesmo que parcial, das críticas feitas e já aqui referidas. Uma primeira conclusão A "moral" da história a respeito das posições de cientistas e filósofos parece ser alcançada foi que o novo método científico não teria as mesmas características do a seguinte: ainda que a maioria dos cientistas e uma parte nada desprezível dos antigo. Ele teria que ser mais flexível, mais adaptável a novas e, principalmente, filósofos acreditem em algo que chamam de 'método científico', eles não conseguem inesperadas situações. Isso porque conhecer é, acima de tudo, aventurar-se no se entender a respeito do que este último seria. A aparente impossibilidade radical desconhecido. Uma segunda afirma que o método científico evolui; de formularem uma posição consensual parece ter gerado cansaço e desânimo entre ele sofre transformações à medida que a própria ciência se transforma. Uma terceira os dois grupos, a ponto de eles deixarem de lado, durante algum tempo, essa questão. afirma que ele não é completamente independente dos valores subjacentes ao tempo e à cultura em que é formulado. Uma quarta conclusão aponta para o abandono método científico e as fronteiras da ciência de que o método pode ser empregado para construir novos conhecimentos. Nesse momento de construção, o que conta é a inspiração, a experiência, a tenacidade, a Mesmo tendo os filósofos da Nova Filosofia da Ciência argumentado capacidade crítica, os meios materiais, entre outros fatores, à disposição do cien- mente que não existe método científico com aquelas características (rigor, univer- tista. Omnès não duvida da existência do método científico, mas isso é importante para mostrar que o conhecimento é verdadeiro e racional, uma vez que a espécie 15 Pearson, 1892, p. 21.Outros aceitaram-na de bom grado, como se pode perceber na declaração do humana é capaz de construir razões explicando aquilo que fez. Omnès, aqui, matemático e epistemólogo Pearson: "O metafísico é um poeta." Em palavras breves, para este parece repetir uma conclusão defendida desde meados do século XIX, a saber: o autor, a metafísica deveria ser excluída, seja da ciência, seja da filosofia. método científico é importante para justificar certas características da ciência, mas 16 Conferir Videira 1993. não para criá-la. Ou seja, Omnès parece aceitar uma versão da clássica distinção36 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO CIENTÍFICO ESTUDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS 37 entre contexto de descoberta e contexto de Em suma, aquilo que características mais marcantes, além daquelas mencionadas acima, são: a) adoção caracteriza o método científico e é responsável pela sua existência é a postura, ou de um moderado relativismo metodológico, o que permitiria evitar o comprometi- atitude, adotada pelo cientista e não um certo conjunto de regras fixas e eternas. mento com a teoria científica em análise; b) defesa de um realismo moderado, pois cientista exige e só fica satisfeito quando certos procedimentos são realizados se aceita o construtivismo, ainda que não social; c) a biografia científica pode ajudar e quando os resultados obtidos obedecem a regras, que não são dadas e fixadas a esclarecer os processos de formação e transmissão do conhecimento científico; a priori, antes do problema em questão começar a ser investigado. Há, contudo, d) o conhecimento é produzido localmente, ou seja, em espaço e tempos específicos, uma grande diferença entre a caracterização de método científico dada por Omnès sempre através das ações de sujeitos bem conhecidos; e) em seu local de formação, e as anteriores. Para as mais antigas, o método científico seria normativo, ou seja, o conhecimento não é válido universalmente; sua universalidade é construída os cientistas obrigatoriamente deveriam segui-lo, ou obedecê-lo. Segundo o físico durante o seu processo de transmissão e recepção em outros locais; f) não existe francês, essa não é mais uma atitude correta. A questão, sob a perspectiva da método científico universal. epistemologia, é saber se faz sentido abandonar a normatividade. Uma vantagem da abordagem dos Science Studies diz respeito à sua capacidade Atualmente, existe um movimento, que recebe a denominação genérica de Sci- de formular uma imagem de ciência mais próxima à prática existente no interior ence Studies, que procurar realizar uma análise da ciência a partir das perspectivas desta última. Tal capacidade decorre da recusa, defendida pelos adeptos dos Science da filosofia, da história e da sociologia da ciência, sendo, assim, um movimento Studies, em aceitar a tese, presente na distinção entre os dois contextos acima interdisciplinar. início deste movimento remonta a meados da década de 1960, mencionados, de que o conteúdo de uma ciência é completamente independente tendo surgido a partir da necessidade, sentida em particular na Grä-Bretanha com do contexto em que foi criado e verificado. as desconfianças que a sociedade começava a alimentar com relação à ciência. objetivo dos Science Studies, em sua origem foi aproximar a sociedade da ciência. Um das influências sobre esse moviment foi Thomas Kuhn, o que os método científico e os Science Studies levou a abandonarem muitas das dicotomias presentes na filosofia e história da ciência tradicionais. Uma dessas dicotomias, aceita pelo Positivismo Lógico e pelo É compreensível que os ataques desferidos contra a idéia de um método científico Racionalismo Crítico de Karl Popper, afirmava a existência na análise da ciência universal sejam entendidos como representando um ataque à racionalidade. Ou de dois contextos diferentes: um concernindo à descoberta científica e outro à ainda contra a possibilidade de se compreender o real de forma precisa, objetiva, justificação da cientificidade de teorias e modelos científicos. Os Science Studies verdadeira e universal. Esses qualificativos, segundo a visão tradicional acerca da recusam uma tal distinção entre o contexto de descoberta, o "local" onde poderiam ciência, aquela que defende a existência e a necessidade do método científico, ser estudados e compreendidos por que e como um certo cientista descobriu algo, e deveriam estar presentes em todo e qualquer conhecimento que pretende alcançar o contexto de justificação, o "local" responsável pela verificação, a partir do recurso o estatuto de científico. Finalmente, em questão encontra-se também a tese que a critérios metodológicos e epistemológicos, da cientificidade do conhecimento. pressupõe a neutralidade do conhecimento científico. Em poucas palavras, negar a idéia relativa à existência de um método científico universal seria o mesmo Os Science Studies têm muitos adeptos, principalmente em países como França, que afirmar que a ciência é uma quimera, na medida em que não seria possível EUA e Inglaterra, Na França, um de seus representantes mais conhecido é Bruno explicá-la racionalmente. A tese da neutralidade científica dói, durante muito Latour. Nos EUA, pode-se mencionar o nome de Thimoty Lenoir. Algumas de suas tempo, considerada fundamental para a distinguir a ciência da filosofia e da A ciência seria neutra, na medida em que o real, seu objeto de estudo seria neutro, o que é uma do fato de o real ser independente dos seres humanos: Em termos breves, contexto da descoberta, que é um contexto a ser investigado por ciências não são estes últimos os seus criadores. Nem mesmo a inteligibilidade do real, empíricas como história e psicologia, preocupa-se em entender as origens do conhecimento científico, que permite que nós o conheçamos, depende de nós. Assim, o real é neutro, não sejam elas individuais ou coletivas. Já o contexto da justificação, da da filosofia da ciência, deve verificar se as teorias científicas estão bem construídas, o que é feito, por exemplo, pela sua dependendo de desejos e caprichos humanos. Tal tese tornou possível pensar que a axiomatização. ciência seria independente da política.38 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO CIENTÍFICO ESTUDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS 39 Contudo, nos últimos vinte anos aproximadamente, vem sendo desenvolvida uma vez que o nosso tema é o método científico. Quanto a este, aquilo que descrevemos atitude, genericamente denominada de Science Studies, contra a idéia de que exista acima nos permite afirmar a seguinte conclusão: não existe método científico um método científico aplicável a todo e qualquer domínio do conhecimento. Não universal. parece um exagero afirmar que os adeptos dos Science Studies recusam praticamente Obviamente, não foi Galison o primeiro a defender tal tese. Outro autor que todas as teses da filosofia da ciência tradicional, aquela que predominou até o defendeu tese muito semelhante foi Feyerabend. Como se sabe, este filósofo da surgimento da chamada Nova Filosofia da Ciência. Isto não significa que os Science ciência propugnou publicamente, pelo menos desde o ano de 1970, que seria Studies recusem a ciência ou mesmo o método científico, ainda que, é claro, este uma quimera, e nada inocente, a crença de que existiria um método científico último deva ser definido de outro modo. universal. Deve-se observar, aliás, que sua obra mais conhecida é intitulada Contra Recentemente, em artigo publicado no ano de 2003, o historiador da ciência 0 método. Diferentemente de Feyerabend, Galison, até onde sabemos, não extrai da norte-americano Peter Galison afirmou que: inexistência de um método científico conclusões éticas e políticas como o primeiro. Neste trabalho, não discutiremos esta diferença entre eles. "No meu domínio, os Science afirmações sobre a verdadeira natureza da De acordo com os Science Studies, a concepção tradicional de método científico ciência, método científico e padrão universal de mudança científica parecem ser, corresponde, i.e., origina-se de uma idealização da ciência. Em parte, isso se explica todas elas, impressionantemente datadas, [relembrando os] artefatos das [décadas] pelo fato de que a defesa do método científico como algo universal ocorreu num de 1950, 1960 ou 1970, quando não da década vienense de 1920." período em que era necessário, como para os iluministas franceses na segunda (Glaison 2003, p. 379) metade do século XVIII, estabelecer critérios de diferenciação da ciência para com a teologia, a arte e a filosofia. As diferenciações, ou critérios de demarcação, Segundo Galison, na última década do século passado, o domínio denominado seriam relevantes para conferir um lugar próprio para a ciência. Essa concepção é de Science Studies privilegiou abordagens mais locais, mais contextuais e menos idealizada, na medida em que só pode ser elaborada caso desconsidere-se a prática do que aquelas que predominaram durante a maior parte do século científica. Esta última nos leva a considerar os processos que efetivamente estiveram XX ou mesmo desde meados do século XIX até a década de 1990. Ainda de acordo presentes na elaboração, na validação, na transmissão e na recepção do conteúdo com esse autor, os Science Studies recusam-se a tentar mensurar este ou aquele do- (em sentido amplo) da ciência. Acreditamos que a atitude defendida pelos Science mínio de ciência em relação a um conjunto de virtudes (predição, Studies é mais fidedigna à ciência e, portanto, mais fecunda como perspectiva para quantificação, objetividade, precisão e experimentação); a atitude que adotam é a o seu entendimento. Em particular, porque nos mostra que a ciência é algo que de procurar verificar de que modo esses objetivos e essas estruturas regulativas pertence a todo e qualquer indivíduo. foram criados, ordenados prioritariamente e circularam. Em poucas palavras, as teses defendidas por Galison nos levam a concluir que não é mais possível acreditar na existência de padrões epistemológicos, ontológicos e metodológicos válidos para Conclusão todo e qualquer domínio científico. Não é esta a única possível de ser extraída de suas afirmações. No entanto, é esta que enfatizamos neste artigo, uma As discussões contemporâneas relativas à existência e à natureza do método científico são feitas, como procuramos defender ao longo deste trabalho, num contexto menos ambicioso do que aquele que predominou algumas décadas Menos ambicioso, uma vez que é disseminada a tese que defende a impossibilidade 18 Na ausência de uma tradução padrão, preferimos usar termo no original. Ao referir-se à década de 1920 como tendo sido vienense, Galison está, na verdade, relembrando-nos da presença de uma das de um mesmo método ser aplicável a todo e qualquer domínio de investigação cien- mais importantes correntes filosóficas de todo século XX: Positivismo Lógico. Segundo este, o método tífica. Contudo, além de menos ambicioso, parece-nos que as discussões atuais são científico seria um das mais importantes características da ciência. igualmente menos abrangentes. Não apenas cada uma das áreas pode desenvolver 19 Neste contexto, determinado pelo trabalho de Galison, virtudes transcendentais significam valores e usar o seu próprio método, mas como também é possível que este último não seja transformados em metas para toda e qualquer teoria científica. singular, isto é, o mesmo domínio de investigação científica poderá dispor de mais40 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO MÉTODO CIENTÍFICO de um recurso metodológico: o pluralismo metodológico é uma atitude amplamente adotada nos dias de hoje, seja por filósofos, seja por cientistas. Referências bibliográficas BRIDGMAN, Peter W. Reflections of a GALISON, Peter. Specific knowledge, physicist, Philosophical Library, New York, Critical inquiry, 30: 379-383, 2003. 1955. GRANGER, La science et les BRUSH, Stephen. Should history of science sciences, PUF, Paris, 1992. be rated X?, Science: 183, pp. 1165-62, 1974. LAUDAN, Larry. 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