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Tese de doutorado - Direito ao trabalho, um direito fundamental - Maria Hemília Fonseca

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que foi desen-
volvido no seio doutrinário alemão, notadamente por Rudolf Smend.108. 
De grande relevância foram os estudos desenvolvidos pelo professor 
alemão Konrad Hesse, cujas bases deram origem ao chamado “método 
interpretativo de concretização”109, também conhecido como “hermenêutico-
concretizador”110. Este método gravita ao redor de três elementos básicos: a 
norma que se vai concretizar, a compreensão prévia do intérprete e o problema 
concreto a resolver”111. 
 
108 Paulo Bonavides, “Curso de Direito Constitucional”, pgs. 435 a 438. Segundo o autor, “a concepção 
de Smend é precursoramente sistêmica e espiritualista: vê na Constituição um conjunto de distintos 
fatores integrativos com distintos graus de legitimidade”. Com este método procura-se ajustar a 
Constituição às realidades sociais, considerando, portanto, os chamados fatores “extraconstitucionais”, 
que a interpretação formalista (ou clássica) costumava denominar “metajurídicos”. 
109 Deve-se destacar que o método concretista se inspira na obra de Viehweg. No estudo deste tema, a 
doutrina faz referência ao método concretista de inspiração tópica (denominação adotada por Paulo 
Bonavides, “Curso de Direito Constitucional”, pg, 456), também conhecido por método normativo-
estruturante (denominação adotada por J. J. Gomes Canotilho, “Curso de Direito Constitucional”, pg. 
221), que tem sido problematizado, principalmente, por F. Muller. Seus postulados básicos não se 
diferenciam em muito daqueles estabelecidos por Hesse e consistem: (i) na investigação das várias formas 
de realização do Direito Constitucional (legislativa, administrativa e jurisdicional), (ii) na resolução de 
problemas concretos, (iii) na estrutura da norma e do texto normativo, voltadas à concretização das 
normas tendo em vista os problemas concretos (iv) numa teoria hermenêutica da norma jurídica que 
diferencia a norma e o texto normativo. 
110 Konrad Hesse, “A Força Normativa da Constituição”, pgs. 5 e 9. Hesse, em contraposição às reflexões 
desenvolvidas por Ferdinand Lassalle, no sentido de que as questões constitucionais não são jurídicas, e 
sim políticas, procurou demonstrar que a Constituição não deve ser considerada a parte mais fraca no 
embate entre ela e os fatores reais de Poder. Em sua célebre frase: “a Constituição não significa apenas 
um pedaço de papel”. José Joaquim Gomes Canotilho, “Curso de Direito Constitucional”, pg. 220. 
Segundo este método, o intérprete desempenha um papel criador na obtenção do sentido do texto 
constitucional, uma vez que ele é um mediador entre o texto e uma situação concreta. Mas, 
contrariamente ao método tópico (que admite o primado do problema perante a norma), dá primazia ao 
texto constitucional em face do problema. 
111 Konrad Hesse, “A Força Normativa da Constituição”, pg. 440. O intérprete deverá, portanto, incluir os 
elementos de concretização no programa normativo e no âmbito normativo fornecidos pela própria 
Constituição. O programa normativo é o texto da norma a ser concretizada; o âmbito normativo, por sua 
vez, relaciona-se com os dados do problema concreto a ser solucionado. Paulo Bonavides, “Curso de 
Direito Constitucional”, pgs. 51 e 52. Desta assertiva se depreende que a Constituição em sentido material 
não pode estar em contradição com a Constituição em sentido formal. Esta última se mostra como um 
limite infalível para a sua interpretação, sendo um pressuposto da função racional e restritiva do poder da 
Constituição. Conforme pondera Hesse, a “concretização” (e a “compreensão”) da norma somente é 
possível em face de um problema concreto. Por isso, este método gravita ao redor de três elementos 
básicos: a norma que se vai concretizar, a compreensão prévia do intérprete e o problema concreto a 
resolver”. 
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Cabe considerar, também, a importância da teoria dos princípios, nos 
moldes elaborados por Robert Alexy, e a técnica de ponderação para a solução de 
colisões de conflitos com base na máxima da proporcionalidade. Contudo, é 
procedente a advertência de Virgílio Afonso da Silva quanto à utilização da 
máxima da proporcionalidade “como se ela fosse uma espécie de varinha mágica; 
capaz de resolver problemas de colisão entre direitos, sem grandes considerações 
substanciais sobre os direitos envolvidos e, mais do que isso, sem grandes 
considerações substanciais sobre qual a concepção que o intérprete tem sobre o 
papel dos direitos fundamentais vigentes em um determinado sistema 
jurídico”112. 
A teoria da interpretação constitucional também se refere a um catálogo 
de princípios113 interpretativos, que foi desenvolvido a partir de uma postura 
metódica hermenêutico-concretizante e se tornou ponto de referência obrigatório 
para a moderna interpretação constitucional114. 
 
I.7.1. Os princípios da interpretação constitucional 
O primeiro princípio a ser considerado é o da “unidade da constituição”. 
Ele repele a análise de uma norma da constituição isoladamente de seu contexto 
 
112 Virgílio Afonso da Silva, “A Constitucionalização do Direito. Os direitos fundamentais nas relações 
entre particulares”, pg. 108. 
113 Neste ponto, a expressão “princípios” é utilizada em seu sentido mais amplo, como diretrizes que 
orientam a operação interpretativa. 
114 Paulo Bonavides, “Curso de Direito Constitucional”, pgs. 47, 48 e 232. Segundo Hesse, os princípios 
da interpretação constitucional têm a missão de “orientar”, “relacionar” e “valorar” as considerações que 
levam à solução do problema. 
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geral ou sistêmico e principiológico, evitando, assim, contradições com outras 
normas constitucionais115. 
O seguinte é o “princípio da concordância prática”. Em estreita 
correlação com o anterior, o seu principal campo de aplicação tem sido o dos 
direitos fundamentais. Nesta medida, informa que os bens jurídicos 
constitucionais devem ser protegidos e utilizados na solução do problema 
coordenadamente. Mesmo nos casos em que houver colisões entre determinados 
bens jurídicos constitucionais não será permitida a preponderância de um sobre o 
outro. Neste caso, o intérprete estabelecerá os limites de ambos os bens ou 
valores envolvidos, a fim de que ambos alcancem uma efetividade satisfatória116. 
Aqui também se insere o “princípio da eficácia integradora”, que tem 
como premissa o fato de que a Constituição se propõe à criação e manutenção da 
unidade política, razão pela qual se dará preferência às soluções que promovam e 
mantenham esta unidade, atendendo, é claro, aos limites da interpretação 
constitucional117. 
Outro de extrema relevância é o “princípio da força normativa da 
Constituição”, segundo o qual o intérprete deve sempre ter em mente que a 
Constituição almeja a sua atualização e que os condicionamentos históricos 
permanecem em constante mutação. Por esta razão, ao solucionar os problemas 
jurídico-constitucionais, o intérprete deve optar por aqueles critérios ou pontos de 
 
115 Konrad Hesse, “Escritos de Derecho Constitucional”, pg. 48. 
116 Ibid., pgs. 48 e 49. 
117 Ibid., “Escritos de Derecho Constitucional”, pg. 50. 
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vista que ajudem as normas da Constituição a obterem a máxima eficácia dentro 
das circunstâncias de cada caso concreto118. 
Cabe citar, ainda, o “princípio da máxima efetividade” (também 
designado “da eficiência” ou da “interpretação efetiva”), que concede às normas 
constitucionais o sentido de maior eficácia (jurídica e social)119. 
Apesar de ser um princípio aplicável a todas normas constitucionais, é 
invocado, preponderantemente, no âmbito dos direitos fundamentais, ou seja, 
quando o intérprete se deparar com duas ou mais hipóteses interpretativas deve 
optar por