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Tese de doutorado - Direito ao trabalho, um direito fundamental - Maria Hemília Fonseca

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os desempregados no Exército. No dia 15 de maio de 
1848 houve uma insurreição popular e Louis Blanc foi obrigado a se desterrar, 
então, em junho do mesmo ano uma sangrenta repressão aos levantes sociais pôs 
fim aos “ateliês nacionais” franceses404. 
O fracasso dessas ações contribuiu diretamente para o descrédito do 
direito ao trabalho no país. Neste sentido, Emile Thomas, diretor dos “Ateliês 
Nacionais”, confessou anos depois, em sua autobiografia, que o experimento 
havia cumprido uma eficaz função desacreditadora das idéias socialistas405. 
De fato, a exigência socialista de um direito ao trabalho foi duramente 
combatida pelos liberais de então. Implicitamente a este pensamento estava o 
medo da instrumentalização e planificação do Estado pelo proletariado, que, 
certamente, significava o fim da liberdade de trabalho, um dos sustentáculos do 
regime capitalista406. 
Assim, nos debates entre liberais e socialistas, as noções de direito ao 
trabalho e liberdade de trabalho aparecem metaforicamente apresentadas como 
pano de fundo para a criação de um projeto de sociedade, cuja referência jurídica 
não foi mais do que um pretexto para se professar fé políticas407. 
O direito ao trabalho chegou a ser reconhecido no projeto da Constituição 
Francesa de 19 de junho de 1848, aguçando novamente os debates entre liberais e 
 
404 Pierre Jaccard, “Historia social del trabajo”, pgs. 320 e 321. 
405 Manuel-Ramón Alarcón Caracuel, “Derecho al Trabajo, libertad profesional y deber de trabajar”, pg. 
19”. 
406 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pgs. 33. Por esta razão, o direito ao trabalho é 
considerado por alguns setores doutrinários como liberdade de trabalho e profissional, ou como um 
obstáculo ao direito de greve nos programas direitistas. Nesta ocasião, se manifesta pela primeira vez o 
desacordo entre liberais e socialistas, cujas repercussões ideológicas se estendem até hoje. Contudo, tanto 
os socialistas utópicos franceses como os liberais assinalavam a mesma “insatisfação ante as soluções que 
implicavam a atribuição aos desempregados de trabalhos não qualificados”. 
407 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 34. 
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socialistas. Mas desapareceu do projeto substitutivo de 29 de agosto daquele 
mesmo ano, que fez referência tão somente a um direito à assistência pública408. 
Este foi considerado o primeiro intento sério de materialização do direito 
ao trabalho409. Isto fez com que, historicamente, este direito se mostrasse como 
uma exigência de trabalho adequado à capacidade dos sujeitos frente ao 
Estado410. Para Rafael Sastre Ibarreche este seria, inclusive, “o núcleo essencial, 
a natureza do direito ao trabalho”411. 
De tal modo, a maioria da doutrina entende que, após este período, o 
trabalho passou a ser encarado como um direito412. Como se indica na 
Enciclopédia Universalis, “a partir de então, cada um participa na sociedade pelo 
trabalho que lhe aporta, e se considera que o trabalho é o que define 
essencialmente à sociedade”413. 
 
 
408 Durante a discussão do texto definitivo uma Emenda, proposta por Mathieu de la Drôme, procura 
assegurar o direito ao trabalho, mas não foi aprovada. Há quem afirme que este fracasso colocou um fim 
nas reivindicações do direito ao trabalho na França, convertendo-o numa frase vazia. O jurista francês 
Jacques Dufour, ao comentar sobre a recusa do povo suíço à inserção de um artigo na constituição sobre o 
direito ao trabalho em 1894 disse: ‘A historia do direito ao trabalho acaba aqui’, Apud Pierre Jaccard, 
“Historia social del trabajo”, pg. 324. 
409 Pierre Jaccard, “Historia social del trabajo”, pg. 322. 
410 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pgs. 33 e 42. 
411 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 42. 
412 Segundo Francisco X. Schaller, “A propósito del derecho al trabajo”, pgs. 386-387: “a sociedade 
responsável ante o individuo do desemprego nascido da estrutura econômica que voluntariamente adotou, 
está obrigada a indenizá-lo. É também o Direito o que nos ensina que em matéria de reparações a parte 
prejudicada pode pretender, se é possível, a restituição integral do estatuto econômico de que desfrutava 
antes do dano causado. E com maior razão pode-se dizer que é mais fácil e menos gravoso para a 
sociedade remediar o desemprego dando trabalho que subsídios e auxílios de desemprego. 
413 Neste sentido, Jean Mayer, “El concepto de derecho al trabajo en las normas internacionales y en la 
legislación de los Estados Miembros de la OIT”, pgs. 282, destaca que foi o capitalismo industrial, em 
meados do Século XVIII, o que deu origem à conceituação moderna do trabalho, quando estabeleceu a 
distinção categórica entre trabalho e ‘não trabalho’ e entre valor de uso e valor de intercâmbio. 
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III.3. Segunda metade do Século XIX: esquecimento e mutação à 
assistência pública 
Como visto, a falta de trabalho foi um problema que se sentiu em todo o 
continente europeu no século XIX. Mesmo assim, a Inglaterra conseguiu evitar 
uma revolta geral, tal como ocorreu na França, através de medidas enérgicas de 
socorro aos desempregados; dentre elas, a ampliação das chamadas 
“workhouses” e da taxa do “imposto dos pobres”, que sustentava aquelas oficinas 
de trabalho414. 
Nas manifestações frente ao desemprego, certos socialistas ingleses 
também defenderam a existência de um direito natural ao trabalho, o que acabou 
inspirando a redação de um projeto de lei, o “Right to Work Bill”. Em 1907, 
Ramsey Macdonald elaborou um projeto, o “Unemployment Bill, também 
conhecido como “Right to Work Bill”, que novamente foi recusado. A partir daí, 
o debate político inglês se voltou para o problema de uma assistência pública 
obrigatória415. 
Na Alemanha, com argumentos similares aos dos revolucionários 
franceses do século XVIII, Fitche defendeu a existência de um direito ao trabalho 
e um direito à assistência e L. Gall afirmou que todos os membros da sociedade 
 
414 Pierre Jaccard, “Historia social del trabajo”, pgs. 248 e 318. Cabe destacar o significado especial que o 
Estatuto de Isabel, promulgado em 1601 sob inspiração da doutrina luterana e calvinista, adquiriu no 
contexto inglês e, de um modo geral, no europeu, pois através dele se reconheceu, pela primeira vez, “a 
todo indigente o direito ao trabalho e o direito à assistência”. Neste sentido, Stuart Mill chega a afirmar 
que o direito ao trabalho “é a lei para os pobres de Isabel e nada mais” In Paul Lambert, “El derecho al 
trabajo”, pgs. pg. 20. 
415 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 37. 
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têm direito ao trabalho e a receber os meios que lhe assegurem uma existência 
digna416. 
Por sua vez, Otto von Bismarck apontou como causa fundamental do 
descontentamento do operariado a incerteza quanto aos meios de sobrevivência. 
Em discurso proferido em 9 de maio de 1884, reconheceu o direito ao trabalho e 
prometeu defendê-lo, mas, em linhas gerais, voltou a mesclá-lo a uma política 
assistencial. Suas declarações tampouco estavam isentas de um interesse político 
direto417. 
Nota-se, portanto, que a mutação do direito ao trabalho a um direito à 
assistência pública foi uma tendência nos países europeus durante a segunda 
metade do século XIX. 
 
III.4. Século XX: internacionalização e reconhecimento dicotômico 
Em meados do século XX, dois temas ganharam destaque nas discussões 
sobre o direito ao trabalho. O primeiro diz respeito ao seu reconhecimento no 
campo normativo internacional, e o segundo a sua recepção dicotômica em 
diversas constituições nacionais, notadamente nas legislações dos antigos países