Prévia do material em texto
16 Agradeço também aos estudantes de Relações Internacio- nais da ESPM-RS, Renata de Siqueira Campielo, Karine Andressa Martini, Camila Pfeifer Frison, Costa Martins e Larissa Perin, pela organização de parte do ma- terial que fundamentou esse 1 A política externa do Governo Castelo Branco (1964-1967) Regime Militar estabelecido no Brasil em 1964 de- finiu um novo padrão de relações externas. Esse padrão rompeu com as concepções desenvolvidas pela política exterior do país desde Vargas e intensificadas com Políti- ca Externa Independente (PEI). Em 1967, entretanto, a po- lítica exterior do Brasil sofreu nova alteração. Os rumos seguidos a partir de então não se transformaram substan- cialmente até o primeiro governo civil, em 1985. Embora inicialmente tenha sofrido uma regressão, o regime militar recuperou as tendências da política externa brasileira liga- das ao projeto nacional-desenvolvimentista Em 2 de abril de 1964 o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, assumiu a presidência do Brasil enquanto era de- cretado, pelo Supremo Comando da Revolução, o Ato Ins- titucional n. 1, que conferiu poderes ao executivo para ex- purgar as principais instituições do país, visando eliminar as concepções populistas do cenário político. Em 15 de abril, o General Humberto de Alencar Castelo Branco as- sumiu a presidência. o novo presidente deu garantias de retorno à democracia e apresentou a plataforma do novo 1718 governo: ordem e paz social, evidentemente vinculada à políticos, exílio de opositores, transferência de militares eliminação do "perigo combate à corrupção e nacionalistas para a reserva e prisão de políticos, líderes à retomada do crescimento através do estímulo ao capital sindicais, intelectuais e militares. Em 1965 foi decretado o privado. Ato Institucional n. 2 que extinguiu os partidos e A base do novo regime foi constituída pelo capital in- autorizou apenas dois novos movimentos políticos, Arena ternacional (principalmente pela bur- (Aliança Renovadora Nacional) e MDB (Movimento De- guesia associada aos interesses estrangeiros, pela moder- mocrático Brasileiro). A eleição para presidência e vice na classe média urbana, pela maior parte da elite burocrá- tornou-se indireta e o presidente passou a desfrutar de am- tica civil e militar, pelo setor agroexportador e pela oligar- plos poderes para caçar direitos políticos de cidadãos. quia agrária Os militares passaram a governar Em fevereiro de 1966 foi instituído o Ato Institucional apoiados nos tecnocratas liberais, pois o liberalismo polí- n. 3 que tornou as eleições para governadores e vi- tico e econômico constituía um elemento estrutural do ces também indiretas. Em janeiro do ano seguinte foi pro- novo regime. caráter repressivo do regime dava-se pelas mulgada uma nova Constituição, que além de incorporar necessidades conjunturais e pela aliança estabelecida en- as medidas já implantadas pelo governo, centralizava as tre os pró-norte americanos e os estruturas Também foram pro- mulgadas uma Lei de Imprensa e uma Lei de Segurança Economistas liberais e pró-norte-americanos foram co- Nacional, que institucionalizaram as medidas coercitivas locados nos Ministérios da Fazenda e do Planejamento (Otá- do novo regime. Além disso, foi acordada com a Usaid a vio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos, respectiva- reforma do ensino no país. Todas as medidas citadas aci- mente) viabilizando a implantação do programa econômi- ma pretendiam preparar um novo quadro institucional de- pretendido pelos liberais. Embora o Fundo Monetário mocrático e não a manutenção do regime, já que estava Internacional (FMI) julgasse que as medidas do governo prevista a abertura econômica do país, o que, inevitavel- na área econômica fossem "gradualistas", o governo nor- mente, reflete a abertura política do Estado. te-americano (via Usaid) e as instituições sob seu controle No Ministério das Relações Exteriores (MRE) o novo apoiaram os militares brasileiros, liberando recursos blo- governo fez mudanças importantes. cargo de ministro queados durante a presidência de João das Relações Exteriores passou a ser ocupado pelo embai- Em termos políticos, comparada com os golpes milita- xador Vasco Leitão da Cunha. Em dezembro de 1965 o em- res desencadeados nos demais países do Cone Sul, a re- baixador deixou o Ministério de Relações Exteriores ce- pressão inicial no Brasil foi branda, pois a reação ao golpe dendo lugar a Juracy Magalhães. Itamaraty adequou-se não foi As medidas repressivas do novo go- ao novo regime através do afastamento de diplomatas dire- verno consistiam principalmente na cassação aos direitos tamente vinculados à Política Externa Independente. Como 1920 eixos prioritários da política externa do Governo Castelo de longo prazo e proceder à abertura do mercado nor- Branco pode-se identificar a dimensão hemisférica volta- to americano aos produtos brasileiros. Como resposta ao da para os EUA, uma abertura amplamente favorecida pelo apoio político, diplomático, ideológico e militar, a diplo- capital estrangeiro e a nas relações bilaterais. Em seu macia brasileira tinha a expectativa de um relacionamento governo, Castelo Branco desmantelou as realizações e prin- diferenciado na região, no qual fosse conferido ao Brasil cípios da PEI e da Operação Pan-Americana (OPA) e a au- um papel de subliderança. A postura brasileira, apoiada tonomia brasileira diante da divisão bipolar do mundo e da nos conceitos do ocidentalismo e do anticomunismo, su- hegemonia norte-americana na América Latina. punha atender às necessidades norte-americanas naquele O esforço em corrigir os rumos da política externa bra- estágio da Guerra Fria. Embora a ameaça nuclear estives- sileira em relação aos princípios da PEI traduziu-se na re- se afastada devido à superioridade militar ocidental, a se- definição de conceitos. Castelo Branco, ao explicitar o gurança externa era vista como ameaçada pela segurança conceito de interdependência das decisões de política in- interna, impulsionada pelas guerras de libertação nacional ternacional, argumentava que a preservação da indepen- na Ásia, África e América Latina. dência pressupõe a criação de certo grau de interdepen- Nessa direção, o Embaixador Juracy Magalhães, ao ata- dência, seja no campo militar ou no campo político. Nesse car a posição dos Estados neutralistas, declarou que a sentido, a opção correta seria a de estabelecer uma íntima ca internacional do Brasil tinha como objetivo levar o país a colaboração com o sistema Dentro dos círculos estabelecer traço de união entre as grandes potências oci- concêntricos de atuação, a noção de interdependência im- dentais e "os povos que apenas estão começando a desper- plicava a revisão do conceito de segurança nacional e da tar para a vida internacional". Em defesa dos princípios de limitação de soberania, ou seja, no contexto das relações não intervenção como complemento da autodeterminação internacionais daquele momento, defendia-se a ideia de dos povos, o embaixador enfatizou que a segurança coleti- segurança coletiva e sacrifício da noção de soberania na- va do hemisfério ocidental "não está imediatamente amea- cional. interesse brasileiro, assim, estendia-se ao hemis- çada pelo perigo de um golpe nuclear, senão pela agressão fério buscando outros espaços apenas em caráter excepcio- ideológica de características marxistas-leninistas e por mo- nal. Os círculos concêntricos tinham um caráter essencial- vimentos subversivos dirigidos de fora" mente defensivo. A reformulação dos conceitos e mecanismos de defesa alinhamento brasileiro aos EUA e sua posição como com a adoção da segurança coletiva tornou-se uma respos- polo de gravitação dos países latino-americanos deveriam ta ao novo desafio. A pretensa posição de destaque do Bra- gerar a contrapartida. Entre outras coisas, os EUA deveriam sil constituía-se em uma tentativa de reestruturação do sis- transferir para o Brasil recursos para seu desenvolvimento, dar apoio tecnológico e financeiro, conceder empréstimos 1. Diário de Notícias, 17/07/1965, p. 1. 2122 tema interamericano, cujo objetivo visava solucionar os problemas decorrentes do aumento de transferência de ca- de Paz no âmbito da Organização dos Estados Americanos pital do centro para a periferia, do estreitamento do merca- (OEA), a participação na intervenção da República Domi- do interno e da pressão sobre o balanço de pagamentos, nicana, o pedido norte-americano para que o Brasil envi- devido à remuneração do capital estrangeiro e da importa- asse tropas ao o "saneamento" econômico e ção de bens e de serviços necessários ao interno, a abertura ampla e favorecida ao capital estran- geiro e a fixação de uma diplomacia calcada na Segurança nacional antiesquerdista e nas fronteiras ideológicas do 1.1 Os EUA e a América Latina: relações conflito Leste-Oeste compunham a estratégia brasileira. prioritárias Desse modo, o Brasil esperava dos EUA apoio econômico Além de um intenso relacionamento político e econô- e diplomático no âmbito regional, assim o conduzindo a mico bilateral, a cooperação entre EUA e Brasil durante o uma posição de subliderança regional. governo de Castelo Branco se deu principalmente no âm- A diplomacia do governo de Castelo Branco esperava, bito apoio brasileiro aos EUA tam- interpretando os interesses estratégicos norte-americanos, bém foi estendido ao conflito Apesar do ali- criar um quadro econômico favorável ao capital estrangei- nhamento com os EUA, Castelo Branco destacava a dis- ro, bem como atacar a subordinação vertical, dentro de um tinção que deveria ser feita "entre os interesses básicos da cenário em que o sistema centro-periferia fosse subdividi- preservação do sistema ocidental e os interesses específi- do em polos regionais (coordenados por um aliado local), cos de uma grande potência". projeto de governo de onde a liderança dos EUA se exercesse a um menor custo. Castelo Branco induzia o Brasil a abdicar de sua aspiração Todavia, quanto mais o Brasil colaborava, menor seria a em se tornar uma potência, pois os interesses nacionais vi- preocupação com o país, desviando sua riam em segundo plano, antecedidos pelo esforço de uni- atenção para cenários mais problemáticos. dade do hemisfério ocidental. Em seguida ao golpe, os EUA reconheceram imediata- 1.2 A questão cubana, a América do Sul e a OEA mente o novo governo e dedicaram apoio diplomático e o estabelecimento do regime militar brasileiro dificul- econômico-financeiro ao novo regime. Brasil, nas rela- tou as relações do país com Cuba, pois a aliança privilegi- ções com o continente, seguiu duas linhas de ação: a pri- ada com os EUA e a força dos setores direitistas no novo meira visava eliminar conflitos com os EUA para associa- regime conduziam a uma ruptura. Setores do Itamaraty, ção de mercados, capitais e tecnologia e, a segunda, en- interessados na manutenção das relações com países so- quadrar as relações interamericanas no esquema. Nessa li- cialistas, relutaram contra a ruptura. Frente à pressão sofri- nha, atitudes como a ruptura com Cuba, o afastamento da da pelo MRE devido a essa posição, em 13 de maio foram China, o apoio à constituição de uma Força Multinacional rompidas as relações diplomáticas com Cuba. A ruptura 2324 foi justificada por questões ideológicas. Entretanto, o rom- Todavia, a associação entre a diplomacia dos EUA e do pimento pretendia influenciar a IX Reunião de Consulta Brasil foi intensa e impulsionada pela política hemisférica dos Ministros das Relações Exteriores da OEA, realizada exercida através da OEA. Além da questão cubana, a defe- em julho de 1964, em Washington. Brasil apoiou o iso- sa coletiva foi o problema mais relevante. Brasil e EUA lamento cubano e as sanções previstas no Tratado do Rio sugeriram a criação da Força Interamericana de Paz (FIP), de Janeiro, mas opôs-se a qualquer ação militar contra o que não contou com o apoio da maioria dos países latino- americanos, pois temiam que ela viesse a se tornar um po- regime de Fidel Castro, embora o emprego de força arma- deroso instrumento intervencionista anticomunista. Este da fosse o ponto principal das sanções previstas no debate adquiriu contornos mais concretos durante a X Reu- Na América do Sul, a Venezuela, que havia se rede- nião de Consulta dos Chanceleres Americanos, em 1965, mocratizado recentemente, negou-se a reconhecer o go- na cidade de Washington, que abordou situação da guerra verno de Castelo Branco. As tensões entre esse país e o civil da República Dominicana e na II Conferência Intera- Brasil permaneceram durante quase todo o governo de mericana Extraordinária, ocorrida no mesmo ano, no Rio Castelo Branco. Em 30 de dezembro de 1966, quando se de Janeiro, com vistas à reforma da Carta da OEA. Brasil aproximava a sucessão do governo brasileiro, a Venezuela decidiu participar da intervenção na República Dominicana restabeleceu as relações diplomáticas com o Brasil. Da com envio de tropas. A participação do país nessa interven- mesma forma, durante o ano de 1964 as relações com o ção e a estreita relação com os EUA criaram na América México, outro regime democrático, também foram confli- Latina prevenções contra o Brasil, cuja postura diplomática tivas, sem a nomeação de embaixadores em ambos os paí- passou a ser identificada como "subimperialista". ses, vindo a normalizarem-se em janeiro de 1965. As rela- regime brasileiro também conheceu problemas no ções com o Uruguai também foram perturbadas, devido à âmbito da OEA, pois vários países o pressionaram pelo presença de personalidades do regime anterior na Embai- adiamento ou transferência da II Conferência Interameri- xada uruguaia no Brasil e no território uruguaio. Em janei- cana Extraordinária em função de, em 1965, ter sido de- ro de 1965 o Embaixador Pio Correa formalizou o protes- cretado o AI-2, que extinguia os partidos políticos. Apesar to do Brasil contra o que considerava favorecimento dos dos apelos, a Conferência ocorreu em novembro daquele asilados, em desrespeito às convenções internacionais. As ano, fórum no qual o Brasil defendeu a reforma da OEA, a tensões se diluíram aos poucos, sem ter havido choque en- dinamização da integração econômica e a fixação de me- tre os países. didas tendentes a fortalecer o regime democrático no con- tinente, a partir de novos conceitos (adequados ao controle As relações com o Chile também foram tensas, particu- da subversão, por exemplo). larmente no tocante ao sistema interamericano. A diploma- cia criticava a política internacional independente do Chile, Nesta perspectiva, em 1966, na esteira da realização da argumentando que se assemelhava à do Governo Goulart. Conferência Tricontinental em Havana, o Brasil defendeu a 2526 competência da OEA para encaminhar à Organização das Nações Unidas (ONU) a denúncia peruana de intervenção galhães, o Brasil apoiou o golpe militar na Argentina. Na cubano-soviética no continente, opondo-se à maioria dos de- Conferência da OEA em Buenos Aires, o Brasil propôs que mais membros que consideravam que o Conselho da OEA os Estados americanos reduzissem suas compras militares e não tinha legitimidade para fazê-lo. Apesar da defesa da as despesas com a manutenção de suas instalações milita- criação de um dispositivo permanente de segurança do con- res. Já os EUA propuseram de forma enfática que os países tinente pela diplomacia brasileira, ideia que alinhava o Bra- renunciassem aos armamentos não necessários. sil às prerrogativas norte-americanas, o apoio brasileiro a A dissonância entre o discurso brasileiro e o norte- esse país não era Em reunião da comissão americano representava uma significativa e sintomática in- especial da OEA, reunida no Panamá em 1966, esboçou-se flexão na diplomacia do Governo Castelo Branco. A insa- uma controvérsia entre o Brasil e os EUA em torno de um tisfação brasileira pela insuficiente cooperação econômica aspecto da reforma da Carta do Sistema norte-americana somou-se à preocupação de Washington em relação ao enfoque adotado pelo governo do General Brasil defendia a reforma da Carta, propondo um Costa e Silva. De qualquer forma, a integração hemisférica sistema simétrico e organizado aos moldes da ONU. Os constituía um elemento importante à política externa do re- EUA, ao contrário, defendiam um projeto de reforma cuja gime militar, desde que fosse considerada a importância essência consistia na ampliação das funções do Conselho das relações prioritárias com os EUA. Em 1965, o Chile da Os desacordos entre o Brasil e os EUA em temas propôs a criação de um mercado comum latino americano sensíveis para a ambicionada posição de destaque brasilei- com base na Associação Latino-Americana de Livre Co- ra começaram a traduzir a decepção do país com a falta de mércio Brasil se opôs a essa ideia e tratou de retorno econômico ao apoio político-estratégico prestado aproximar-se da Argentina, propondo-lhe uma união adua- aos EUA. Os atritos entre os dois países foram intensifica- neira a ser concretizada em cinco anos e aberta aos demais dos no campo político-militar. programa de assistência Estados da região. Essa proposta intencionava manter os militar dos EUA à América Latina foi criticado pelo Con- grandes países da região como polos aglutinadores de paí- gresso Norte-americano, especialmente em relação à força ses menores, bem como estruturar uma base econômica de militar e repressiva dos governos do Brasil e Argentina. oposição ao Chile, Peru e Venezuela. No entanto, o projeto A reação dos políticos norte-americanos culminou na não foi efetivado. Em fevereiro de 1967 ocorreu nova reu- condenação dos regimes militares Inde- nião da OEA em Buenos Aires, cujo tema Criação de um pendente do discurso brasileiro de que "às vezes as forças Mercado Comum foi o destaque da Conferência. Na oca- armadas se veem na contingência de intervir na legalidade constitucional para assegurar a continuidade do processo democrático representativo", conforme declarou Juracy Ma- 2. Integrada por Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, realizaria sua primeira conferên- cia de chanceleres em novembro de 1965. 2728 sião, Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai com- regiões. A postura brasileira, nessa perspectiva, foi marca- prometeram-se a desenvolver um programa de obras multi- da por um caráter reativo e complementar, tanto em suas di- nacionais, nacionais e bilaterais, justificando que a iniciati- mensões político-diplomáticas como econômicas. Com re- va não configurava um bloco regional. lação à Europa Ocidental, a aproximação brasileira deu-se Entre os países latino-americanos as relações mais im- de forma bastante modesta, pois o continente representava portantes do Brasil foram com a Argentina, especialmente um espaço alternativo aos EUA nesse momento. Mesmo a após o golpe do General Ongania. Os dois países se apoia- cooperação com a Europa como elemento de barganha ram mutuamente na implantação dos regimes de seguran- com Washington, como havia sido esboçada durante a vi- ça nacional e a diplomacia brasileira conseguiu o apoio ar- gência da Política Externa Independente, foi abandonada. gentino contra a intenção chilena de criar um organismo primeiro problema enfrentado pela diplomacia bra- supranacional para controlar a integração. As relações en- sileira, de caráter reativo no plano político, foi o atrito com tre o Brasil e o Paraguai também evoluíram no sentido da o nacionalismo gaullista Se, por um lado, a reação a essa convergência de interesses. Em junho de 1966 foi assina- concepção se deveu à influência exercida sobre a PEI, por da a Ata das Cataratas, documento no qual Paraguai e Bra- outro, havia o descontentamento francês em relação à rea- sil vislumbraram a construção de Itaipu para pôr fim às firmação da hegemonia norte-americana sobre a América pendências territoriais brasileiro-paraguaias. Criou-se, en- Latina, impulsionada pelo estabelecimento do regime mi- tão, a Comissão Técnica Mista Brasileiro-Paraguaia para litar no Brasil. Outra questão que levou o Brasil a uma ati- estudar a viabilidade do projeto. Os dois governos concor- tude reativa em relação à Europa foi gerada pelas animosi- daram em estabelecer que a energia elétrica eventualmen- dades de Bispos do nordeste referentes ao Regime Militar. te produzida fosse dividida igualmente, sendo que ambos Chanceler Juracy Magalhães foi ao Vaticano em setem- teriam a preferência para a aquisição da energia a preço bro de 1966 para esclarecer a extensão do conflito. en- justo, de qualquer quantidade que não viesse a ser utiliza- caminhamento da questão demonstrou que emergia diver- da para o suprimento das necessidades do consumo do ou- tro país. Essa era uma medida destinada a suprir as neces- gências entre a nova linha do Vaticano e o caráter do regi- me militar, problema que se agravaria ainda mais nos anos sidades energéticas brasileiras. subsequentes. 1.3 As relações com a Europa Ocidental, países Em termos econômicos, o Brasil mostrou-se igual- socialistas, África e Ásia mente reativo em relação à Europa ao buscar reverter ou atenuar medidas comerciais discriminatórias, principal- A política externa e as relações exteriores do Brasil mente da Comunidade Econômica Europeia (CEE), além fora da área hemisférica denunciaram, nesse período, cer- de obter o reescalonamento da dívida externa contraída to descompasso entre a conjuntura brasileira e a das demais com os europeus. Todavia, a Alemanha Ocidental conti- 2930 As relações com Portugal, distintamente dos demais nuou sendo um dos principais parceiros econômicos do países europeus, tinham uma dimensão complementar de Brasil. Em agosto de 1964, o Brasil chegou a um acordo caráter ideológico-estratégico, que envolvia a posição an- com esse país sobre o pagamento de suas dívidas. Esse ticomunista comum e interesses brasileiros na África. Bra- acordo compôs uma série de entendimentos multilaterais sil e Portugal assinaram um importante acordo após um pe- realizados em junho com o Clube de Haia. A Suíça tam- de estagnação marcado desde a Segunda Guerra Mun- bém procurou auxiliar o reescalonamento das dívidas bra- dial. Na ocasião, foram eliminados obstáculos técnicos, es- sileiras e manter seus vínculos econômicos. Além disso, o timulando-se transações em divisas conversíveis. con- país desejava a manutenção das relações comerciais com o vênio aplicava-se também aos territórios africanos de Por- Brasil, seu melhor cliente na América Latina. tugal, estipulando que uma comissão mista se reuniria para Já com a Espanha, o intercâmbio comercial foi intensi- estudar o estabelecimento de zonas francas. Ambos os paí- ficado através de um acordo para a exportação de matérias- ses comprometeram-se a tentar eliminar as barreiras alfan- primas para manufaturas em troca de produtos químicos, degárias em cinco anos e a formar empresas de capital mis- farmacêuticos e azeites Havia, ainda, o interes- to, especialmente na área de mineração. Além disso, acor- se espanhol de redistribuir produtos brasileiros na Europa daram no campo de cooperação técnica o intercâmbio de e até mesmo nos EUA, como base do projetado Terceiro engenheiros e especialistas agrícolas, o estabelecimento de Mercado Europeu, do qual deveriam participar Espanha, conferências, seminários e a criação de centros informati- Portugal e os países da América Latina. Da mesma forma, vos, bem como o impulso ao intercâmbio cultural. as discussões com os italianos primaram pelo fomento ao Apesar do discurso diplomático apoiado na lógica da intercâmbio comercial. Guerra Fria e nas suas fronteiras ideológicas, o Brasil Em janeiro de 1967, com Costa e Silva já indicado manteve suas relações com a URSS. Para a diplomacia como presidente, o Chanceler Juracy Magalhães fez sua brasileira não havia razão para romper com o bloco socia- segunda viagem à Europa, onde visitou Portugal, França, lista, pois as relações com os países ocidentais constituíam Dinamarca e Noruega. Na ocasião, o ministro assinou um prioridade absoluta. Tal posicionamento devia-se às ne- cessidades comerciais brasileiras e ao fato de a URSS acordo de cooperação franco-brasileira em questões cultu- rais, técnicas e educacionais, prevendo o intercâmbio de manter uma diplomacia tradicional e legalista, ao contrá- rio dos cubanos e chineses naquele momento. No entanto, professores, livros e revistas, com a intenção de qualificar é importante destacar que a dimensão política de barganha as relações entre Paris e Brasília. Na Dinamarca, além da dessas relações existentes durante a PEI foi abandonada proposta de ampliação do debate sobre política e comér- no Governo Castelo Branco. cio, os diplomatas brasileiros buscaram estimular os dina- marqueses a ampliarem suas especialmente Em novembro de 1966 ocorreu uma série de iniciati- maquinaria agrícola e gado. vas no relacionamento com o Leste Europeu. ministro do 3132 interior da URSS, em visita ao Brasil, firmou o novo pro- tocolo comercial entre o Brasil e a URSS, que estabelecia que, Angola, Gana e Costa do Marfim. A política africana normas para utilização, pelo Brasil, de um crédito de até do Brasil, apesar de promover maior aproximação com os 100 milhões de dólares para compra de máquinas e equi- países africanos, era obstruída pelo discreto apoio que pamentos soviéticos. Com a Bulgária e com a Hungria conferia ao colonialismo português e pelos vínculos de co- operação com a África do Sul do apartheid, embora pro- acertou-se a compra de 200 mil toneladas de trigo para o curasse publicamente minimizar a dimensão de tais relacio- consumo no país. Ainda nessa ocasião, o Brasil e a nia assinaram um protocolo comercial que previa o au- namentos para obter a simpatia de países libertos. mento do intercâmbio comercial. Com a e com No cenário asiático, a ausência brasileira foi quase to- a Tchecoslováquia também houve negociações no sentido tal. Apenas episódios ligados à diplomacia de Guerra Fria de ampliar as trocas comerciais. e interesses econômicos em relação ao Japão merecem No tocante à política africana do Brasil no Governo destaque. Em 1964, uma delegação de parlamentares bra- Branco, dois eixos norteadores a impulsionava: sileiros visitou o Japão e Formosa e, no ano seguinte, o Xá primeiro, o cortejo às delegações do Terceiro Mundo em do Mohamed Reza Palevi, visitou o Brasil, na expecta- órgãos multilaterais; e, segundo, a busca de ampliação dos tiva de um acercamento no campo político e comercial que mercados. Nas relações com os países africanos, o Brasil, não se cumpriu. Quanto às relações com o Japão, a ascen- são econômica japonesa e a presença do maior contingen- apesar de rejeitar os postulados africanistas da PEI, pau- te de imigrantes nipônicos no mundo criaram as bases para tou-se por certo pragmatismo, privilegiando concretamen- prosseguir a aproximação iniciada nos anos 1950. Japão te os aspectos econômicos. Porém, muito das iniciativas brasileiras foram diluídas pelo ocidentalismo e pelos com- era visto pelo Brasil como um espaço de capitalismo de- senvolvido, como os europeus, não representando, propria- promissos firmados com Portugal. Em setembro de 1964, mente, uma perspectiva de dimensão regional. Em 1967, o o Brasil assinou com o Senegal uma declaração visando o Brasil assinou com o Japão um tratado de tributação. estreitamento das relações e cultu- rais entre os países e, em novembro, o ministro das Rela- No que concerne à Diplomacia da Guerra Fria, o anta- ções Exteriores do Marrocos visitou o Brasil, em uma ten- gonismo brasileiro para com a República Popular da Chi- tativa de aproximação. na (RPC) e a possível participação do Brasil na Guerra do Vietnã foram os pontos principais. A aproximação do Bra- Em 1965, a primeira missão comercial brasileira visi- tou a África Ocidental, passando pelo Senegal, Libéria, sil com a China foi violentamente interrompida quando uma delegação de jornalistas chineses foi presa no Brasil Gana, Nigéria, Camarões e Costa do Marfim. No ano se- em função do golpe militar. Com a prisão dos nove chine- guinte, nos meses de setembro e outubro, a segunda missão ses em território brasileiro, o Brasil perdeu o acesso ao mer- comercial brasileira esteve na África do Sul, Moçambi- cado chinês, que se voltou para o México (algodão) e para 3334 Cuba (açúcar). A postura do Brasil em relação à China era autarquias, suspensão dos subsídios ao trigo e ao petróleo, a mesma que em relação a Cuba, como dito anteriormente- aumento da receita e o aumento de impostos, inclusive so- revoluções socialistas ainda em sua fase militante. bre o consumo. Contudo, a política brasileira nesse campo não foi 1.4 A Diplomacia Multilateral e de Segurança completamente subordinada, mas acatou as principais de- cisões dos organismos financeiros internacionais, resistin- A formulação e a execução da política externa do Go- do apenas pontualmente. Essa atitude valeu ao Governo verno Castelo Branco perseguiram uma trajetória predo- Castelo Branco, em 1964, o reescalonamento da dívida minantemente bilateralista e hemisférica, apresentando externa e a concessão de novos empréstimos. Na mesma forte redução do conteúdo multilateralista incrementado data, o Brasil obteve, junto do Banco Interamericano de pela PEI. A atuação brasileira em organismos multilaterais, como Unctad, Gatt, Conferência do Desarmamento, ONU, Desenvolvimento (BID), uma liberação de crédito para fi- nanciar exportações de bens de produção. Além de em- bem como no relacionamento com o FMI, o Banco Mun- dial e o BID, enfocou o afastamento do discurso terceiro- préstimos, o Brasil passou a contar com o apoio a projetos econômicos concedido por organismos, como o Banco mundista e estruturalmente contestatório da ordem mun- Interamericano de Desenvolvimento, o Banco Internacio- dial. Itamaraty atuou nesses órgãos em convergência nal de Reconstrução e Fomento e o Banco Mundial. com o Ocidente, apoiando os interesses estratégicos nor- te-americanos no plano mundial, como forma de obter dos No âmbito da ONU, o Brasil se alinhou com as gran- EUA compensações no plano regional. des potências ocidentais, em especial os EUA, enquanto, paralelamente, adotava uma posição mais discreta e mo- De qualquer forma, o Brasil buscou a melhoria das desta. Essa atuação devia-se, em parte, à nova orientação condições do comércio internacional para os países em de- diplomática do país, mas também a pouca legitimidade in- senvolvimento, embora a partir de uma posição individual ternacional do Regime Militar. Nesse sentido, pode-se ob- e de um enfoque técnico, em detrimento do político. Nas servar o retrocesso brasileiro quanto a sua atuação nas or- negociações em Genebra, a posição brasileira na confe- ganizações internacionais, principalmente em torno de rência de comércio ratificou essa proposta o Brasil vol- dois grandes temas Guerra Fria e Descolonização. tou a levantar a ideia de criação de uma Organização Inter- país manteve sua oposição ao ingresso da China na ONU e nacional de Comércio e Desenvolvimento. Entretanto, des- apoiou discreta, mas positivamente, a posição de Portugal de a implantação do regime militar, o governo brasileiro em relação às suas colônias na África. atacou a doutrina do FMI para combater a inflação, repu- diada pelos governos anteriores. O Brasil adotou a redu- Por fim, na questão do desarmamento as fricções com ção de 30% nas despesas orçamentárias dos ministérios e os EUA eram constantes. Em 1966, o Brasil assinou um acordo de cooperação nuclear com Israel, e, em março de 3536 1967, um acordo com Portugal para a cooperação na utili- zação da energia atômica para fins pacíficos. A questão do desarmamento nuclear para o Brasil estava vinculada à iniciativa do controle sobre a tecnologia atômica, ainda que, alegadamente, para fins pacíficos. Mesmo que as ini- 2 A política externa do ciativas no campo da pesquisa atômica tenham sido colo- Governo Costa e Silva cadas formalmente sob o controle internacional, e o proje- to espacial igualmente supervisionado pelo governo nor- (1967-1969) te-americano, o governo brasileiro manteve a iniciativa de capacitar tecnologicamente o país nessas áreas sensíveis. Em março de 1967, eleito pelo Congresso, o Marechal Arthur da Costa e Silva assumiu a presidência. A ascensão de Costa e Silva ao poder, que representou uma derrota para o grupo castelista, pode ser entendida como resultado dos problemas enfrentados pelo governo anterior. A política exterior do Governo Castelo Branco apoiava-se na crença de uma aproximação privilegiada com os EUA. No entanto, frustrando as expectativas do governo brasileiro, os fluxos de capitais foram modestos, a cooperação técnica desejada foi escassa e a transferência tecnológica não ocorreu. Ao contrário da pretensão brasileira, a estrutura eco- nômica mundial se manteve, o conjunto dos países latino- americanos rejeitou o processo de integração tal como fora a proposta dos EUA e do Brasil, as bases da coopera- ção com a Argentina transformaram-se em rivalidade, au- mentou a distância entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento e a política de defesa não produziu os efeitos esperados, ou seja, não aprofundou os laços de in- terdependência, mas sim os de dependência. 3738 A política externa do Governo Costa e Silva, nesse O crescimento econômico e o ingresso de capital es- sentido, representou uma profunda ruptura em relação à trangeiro não limitaram o papel do Estado. Ao contrário, do governo anterior. A Diplomacia da Prosperidade do ampliaram-no qualitativamente nos campos econômico e chanceler Magalhães Pinto assemelhava-se à PEI, embo- Estado passou a desempenhar o papel de agen- ra, evidentemente, sem fazer referência à reforma social. te econômico direto e, em termos políticos, transformou a novo discurso, no qual fazia emergir o antagonismo posição de subordinação barganhada em relação às trans- Norte-Sul, foi a tônica na II Unctad e valeu ao chanceler a nacionais para uma postura de negociação ativa. desen- indicação para liderar o recém-criado Grupo dos 77. A re- volvimento de uma burocracia pública e privada inter-re- cusa em assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear lacionada permitiu aos militares o exercício de um contro- (TNP) também vinculou a diplomacia brasileira a uma le ainda maior em todos os campos, com o avanço da li- nova postura. nha-dura patrocinando a estabilidade Na América Latina, o Itamaraty passou a criticar a Conforme Carlos Estevam Martins (1975: 34), o jogo criação de uma Força Interamericana de Paz, propondo político restringiu-se a três forças, assim definidas: uma integração regional "horizontal" e a cooperação no campo nuclear. Brasil buscou, também, ampliar o rela- a) o liberal-imperialista, projeto sustentado por cionamento com a hispanoamérica através da Comissão um segmento específico da burguesia interna- Especial de Coordenação Latino-Americana (Cecla) e não cionalizada em aliança com setores militares, do da OEA, impulsionando, dessa forma, o latino-americanis- da burocracia civil e da tecnoburocracia [...]; b) o reacionário-oportunista, partido menor sem mo. A política proposta por Costa e Silva causou um pro- chances reais de empolgar o poder, vinculado a fundo descontentamento dos EUA, fazendo com que estes ideologias meramente negativas do anticomu- estabelecessem novas alianças estratégicas. nismo e do antiprogressismo em geral, cujos No plano doméstico, o novo governo comprometeu-se membros são recrutados em órgãos periféricos do Estado ou Marinha; comandos com o desenvolvimento econômico e com a liberalização do regime, visando promover uma ampla União Nacional menos expressivos do Exército; segmentos mar- e permitir uma maior participação da "burguesia nacio- ginais do setor público da economia; órgãos do nal". grupo "liberal-imperialista" perdia espaço, assim, aparelho repressivo; ministérios de segunda gran- para a linha dura nacionalista, apoiada pelo empresariado deza como o da Justiça, cuja importância corre- nacional e por boa parte da tecnocracia estatal. A base so- laciona-se com situações de crise, e são prove- nientes das esferas secundarizadas da economia cioeconômica do regime permanecia a mesma, identifica- e da sociedade [...]; c) o nacional-autoritário, da pelo tripé empresa estatal, capital estrangeiro e burgue- que constitui a corrente ascendente desde a que- sia nacional. No entanto, o desenvolvimento desse tripé da do castelismo e, mais notadamente, desde a fez emergir algumas contradições. 3940 posse de Médici, uma espécie de partido buro- A percepção da diplomacia brasileira agora era a de crático da emancipação nacional. que o conflito Leste-Oeste cedera lugar ao conflito Cen- A partir do Governo Costa e Silva, o grupo nacio- tro-Periferia, sendo necessário reforçar o poder e aumen- nal-autoritário passou a ter importância crescente. Esse tar a margem de ação do Sul. Com a Diplomacia da Pros- grupo tem sua matriz socioeconômica no setor público, ao peridade, a nacionalização da segurança tornou-se ele- contrário do nacional-populismo, cuja expressão estava mento estrutural da política externa brasileira, principal- diretamente ligada à burguesia nacional. objetivo do mente devido às divergências entre o Norte e o Sul. Essas grupo nacional-autoritário consistia em garantir o desen- divergências tornaram-se cada vez mais aparentes em fun- volvimento industrial por substituição de importações, va- ção de dois fatores convergentes o conjuntural congela- lorizando seu ritmo acelerado. Desse objetivo emerge a mento da bipolaridade no sistema internacional que se se- necessidade de um regime repressivo, excludente e des- guiu à crise dos mísseis em Cuba e o fracasso do diálogo mobilizador das massas. Norte-Sul, evidenciado nos impasses nos grandes fóruns internacionais. No plano econômico, o Estado conseguiu cortar gastos provenientes da burguesia nacional e dos segmentos po- Tendo em conta que o principal problema latino-america- pulares e destinar recursos para modernizar o setor públi- no é o desenvolvimento, novos conceitos serão estabeleci- co, racionalizar a administração e ampliar a sua atuação dos ou redimensionados como o de segurança e soberania empresarial. Com essa política o governo reduziu a infla- nacionais. Nessa direção, o conceito de segurança e desen- ção e criou oportunidades vantajosas para as empresas trans- volvimento passou a associar-se estreitamente. A diplo- nacionais e para o capital estrangeiro. macia brasileira procurou ampliar e diversificar mercados externos, obter preços melhores e estáveis para os produ- As relações exteriores do Brasil durante o Governo tos nacionais, além de esforçar-se para captar tecnologia e Costa e Silva acompanharam a mudança na situação polí- capital estrangeiro para manter o desenvolvimento. tica internacional, que apresentou a progressiva e crescen- te diluição dos blocos. Nessa perspectiva, a política exter- 2.1 A mudança de rumos nas relações com os na deveria consistir, conforme Magalhães Pinto, na cons- EUA e com a América Latina tante e acurada avaliação da dinâmica internacional, a fim de identificar e procurar remover os obstáculos externos Durante o Governo Costa e Silva, novas situações con- que se opõem ou podem vir a se opor ao projeto nacional. tribuíram para ampliar os atritos entre o Brasil e os EUA, A política exterior de Costa e Silva, direcionada ao inte- provocando certo desgaste no relacionamento bilateral. resse nacional, representou o abandono da doutrina de in- Novas expressões passaram a qualificar as relações Bra- terdependência e das fronteiras ideológicas, formulada pelo sil-EUA, especialmente a partir de 1967. "Rivalidade emer- Governo Castelo Branco. gente", "the missing relationship", "managed conflict", 4142 sistemas contraditórios em suas "visões de mundo, oferta apenas o descontentamento e a postura brasileira e lati- e demanda" são algumas das novas definições dessa liga- no-americana. Em junho de 1969, o Presidente Richard ção. Contudo, o acirramento das diferenças com os EUA Nixon apelou para que os norte-americanos não aceitas- não interessava ao Brasil, que tratou de desenvolver estraté- sem as manifestações dos novos isolacionistas, no sentido gias benéficas aos seus interesses. Assim, buscou preservar de abandonar a América Latina, denunciando os focos de a negociação bilateral e procurou desenvolver um maior atrito no cenário político interno dos EUA. poder de barganha, através de relações com terceiros. Nas relações com a América Latina durante o governo Outro fator que motivou a rivalidade entre Brasil e de Costa e Silva, o Brasil desenvolveu uma política hemis- EUA foi os rumores sobre a internacionalização da Ama- férica, que se processou de forma multilateral através da zônia, já iniciados no governo anterior. Brasil reafirmou OEA e da Alalc. Os temas econômicos marcaram a atua- a soberania sobre a região, por ocasião de pronunciamento ção da diplomacia brasileira, considerados mais importan- na Escola Superior de Guerra (ESG), reiterando que o de- tes que os programas de ajuda e segurança. Em janeiro de senvolvimento seria o objetivo básico do governo, condi- 1967, Costa e Silva viajou para os EUA, onde visitou a cionando toda a política nacional, seja no âmbito domésti- OEA. presidente exaltou, aos colegas latino-americanos, co, seja nas relações do país com o exterior. Em maio de a necessidade em conter a baixa nos preços dos produtos 1968, Brasil e EUA assinaram um acordo de empréstimo, básicos e de quebrar as barreiras que a Europa impunha às no qual os EUA forneceram 75 milhões de dólares no âm- exportações da América Latina, pois tal situação constitu- bito da Aliança para o Progresso, para promover o desen- um perigo para a estabilidade social e econômica do He- volvimento do programa de estabilização do Brasil. misfério. Por outro lado, os EUA reduziram a ajuda militar ao Quanto à integração latino-americana, Costa e Silva Brasil em 1968, suspendendo a venda de armas e limitan- mostrou-se favorável a um processo de integração por se- do o programa de treinamento. Em abril de 1969, o Brasil tores da economia, destacando não apoiar a ideia de um foi acusado por "concorrência desleal" em relação às ex- tratado geral que definisse objetivos e prazos para seu portações brasileiras de café solúvel para os EUA. Com cumprimento. Assim, as novas linhas da política externa isso, após o Acordo Arbitral do Café Solúvel, pelo qual se brasileira ao mesmo tempo em que fomentava novas riva- criou um imposto de 13 centavos de dólares à exportação lidades despertavam simpatias, principalmente no âmbito de café solúvel brasileiro para os EUA. Nesse mesmo con- latino-americano. texto, o Brasil organizou uma nova pressão contra os Por ocasião da Reunião de Punta del Este, a estrutura- EUA, visando à liberalização do comércio internacional. ção de um mercado comum da América Latina foi propos- Cabe destacar que o distanciamento entre a América ta como objetivo principal pelos presidentes latino-ameri- Latina, especialmente o Brasil, e os EUA não representou canos. compromisso assumido seria o de estruturar um 4344 mercado comum no prazo de 15 anos, a partir de 1970, ba- ram suas negociações com a Venezuela sobre a redução seado no aperfeiçoamento dos sistemas de integração existen- das tarifas alfandegárias, e os demais países, Colômbia, tes, a Alalc e o Mercado Comum Centro-Americano. Esse Chile, México, Peru, Paraguai e Uruguai complementa- acordo gerou divergências junto aos EUA, que desejavam ram as negociações e estavam dispostos a facilitar o livre um caráter político para o encontro, enquanto a América intercâmbio comercial na zona para a criação do Mercado Latina desejava discutir temas e soluções de caráter eco- Comum Latino-Americano. nômico. Em agosto de 1967 foi assinada a Declaração de As- Na Reunião dos Chefes de Estado da OEA, em abril de sunção, que decidiu pela criação de um mercado comum 1967, em Montevidéu, foi aprovada a criação do Mercado latino-americano em Brasil, Argentina e Peru incluí- Comum Latino-Americano, de acordo com a proposta es- ram a esta declaração uma fórmula de compromisso. Em boçada na Reunião de Punta del Este. Apesar do ceticismo Lima, na XXII Reunião do Fundo Monetário, ainda em brasileiro, no encerramento dos trabalhos foi assinado um 1967, o Brasil defendeu a não discriminação aos países documento denominado Programa de Ação, no qual os subdesenvolvidos, tanto na fórmula de composição de re- países latino-americanos se comprometiam a estabelecer servas quanto no direito à tomada de empréstimos junto ao um mercado comum, construir as bases materiais da inte- FMI. Brasil, por sua situação geoeconômica e pela faci- gração econômica latino-americana mediante projetos mul- lidade de diálogo junto aos principais países desenvolvi- tinacionais, conjugar esforços para aumentar a receita pro- dos, procurou liderar o bloco latino-americano. veniente do comércio exterior, modernizar as condições Nessa perspectiva, em fevereiro de 1969, o Brasil pro- de vida da população rural, elevar a produtividade agrope- pôs às demais nações latino-americanas que fosse estabele- cuária em geral, aumentar a produção de alimentos, impri- cida uma frente comum para negociar com o Presidente Ni- mir impulso à educação em função do desenvolvimento, xon as relações econômicas, financeiras e comerciais do colocar a ciência e tecnologia a serviço da população, me- Hemisfério. Após intensos debates e discordância por parte lhorar os programas de saúde e eliminar as despesas mili- do governo norte-americano em relação às propostas das tares desnecessárias. demais nações, prevaleceu a tendência à conciliação, em- Na verdade, a posição brasileira fundamentava-se na bora a visão de que, sem o incremento do comércio, o sim- ideia de que a disparidade nos níveis de desenvolvimento ples aumento de ajuda por parte dos EUA não teria impacto das economias nacionais, a tendência à autossuficiência para o desenvolvimento dos países latino-americanos. dos mercados internos e a falta de comunicação geográfi- Relativo às questões de segurança, a posição brasileira ca entre as diferentes regiões comportavam-se como fato- era a de não colocar esta questão acima do desenvolvi- res inibidores do processo de integração. Em agosto, na re- mento, pois entendia que o progresso econômico permiti- união da Alalc, Equador, Argentina e Brasil não concluí- ria a eliminação das causas geradoras da instabilidade so- 4546 cial e da agitação "subversiva". Como continuidade desse No ano seguinte, em maio de 1968, Brasil e Argentina debate, os chanceleres da OEA reuniram-se em Washing- acordaram sobre o projeto de tratado de integração dos ton para discutir a "subversão cubana" na América Latina, países da Bacia do Rio do Prata, englobando ainda a de acordo com a solicitação da Venezuela para que a orga- via, o Paraguai e o Uruguai. Na Bolívia, constituiu-se o nização condenasse de alguma forma as atividades do re- Comitê Internacional de Coordenação (CIC), o qual esta- gime castrista. Costa e Silva apoiou a Venezuela, pois ria encarregado de examinar e coordenar os projetos mul- considerava que Cuba estava intervindo em assuntos in- tinacionais visando a potencialidade econômica da Bacia ternos de outros países do continente. do Prata. Na esteira das discussões, em abril de 1969, os chanceleres do Brasil, da Argentina, da Bolívia, do Para- 2.2 A diplomacia brasileira junto aos países platinos, guai e do Uruguai reuniram-se em Brasília e firmaram a andinos, América Central, Caribe e México Carta da Bacia do Prata. O princípio fundamental da Carta previa o desenvolvimento da região e sua integração fisi- As relações bilaterais com a Argentina foram as mais ca. A reunião dos chanceleres assinalou a complementa- importantes para o Brasil. Em dezembro de 1967 foi cons- ção da primeira fase desse processo de desenvolvimento tituída no Itamaraty uma Comissão Executiva Brasil-Ar- internacional integrado. gentina de Coordenação (Cebac) para tratar do comércio bilateral e dos problemas relacionados com a Alalc. Além Ao longo do ano de 1969, as relações do Brasil com a do impulso às operações comerciais, os dois países, atra- Argentina foram direcionadas pelas negociações em torno vés de seus representantes, assumiram uma posição co- da utilização dos recursos hídricos da Bacia do Prata, as- mum em relação a Alalc, lutando juntos pela integração sumindo características de acentuado formalismo no pla- interamericana e pelo desenvolvimento da Bacia do Prata. no político, bilateral e multilateral. Todavia, os debates Brasil e Argentina também tomaram decisões comuns em torno dessa questão dividiram momentaneamente os contra a proliferação de armas nucleares, preservando o dois países. direito de promover a investigação para uso pacífico de Em relação ao Uruguai, após os esclarecimentos brasi- energia atômica. Em outubro do mesmo ano, assinaram leiros que negaram uma possível participação em pacto um acordo marítimo, para conseguir um melhor aprovei- que visava intervenção no país, foram encaminhadas obras tamento da capacidade de navios de ambos os países. As de integração na fronteira dos dois países. Em maio de mercadorias brasileiras e argentinas que se destinassem a 1969, foi firmada a Declaração Conjunta Brasil-Uruguai um porto que pertencesse a um dos países deveriam ser sobre Intercâmbio Comercial, a Declaração sobre Limites transportadas, obrigatoriamente, por navios nacionais, sen- de Jurisdições Marítimas e o Acordo sobre Pontes Interna- do o frete dividido em partes iguais. cionais. No que tange ao Paraguai, em 27 de março de 4748 1969, foi inaugurada a Rodovia BR-227, que integrava 2.3 O Brasil e as organizações internacionais através da Ponte da Amizade a estrada Assunção-Para- Ao contrário da diplomacia de Castelo Branco, o traço guai. As ações brasileiras, portanto, demonstravam o inte- mais marcante das relações exteriores do Governo Costa e resse do país em normalizar e aprofundar os laços de co- Silva foi a acentuada valorização da atuação nos fóruns operação com os países vizinhos. multilaterais. A linha principal da Diplomacia da Prospe- As relações do Brasil com os países andinos foram en- ridade nesses fóruns foi a de reivindicar e produzir alian- caminhadas no sentido de estabelecer fórmulas de coope- ças visando à alteração de determinadas regras internacio- ração bilateral que atendessem às necessidades comuns nais, econômicas e políticas, que tornavam ineficiente o dos países. Em 1969, o Banco Central iniciou estudos para desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo. Além o Acordo do Fundo de Desenvolvimento, que deveria ser disso, a política externa brasileira tentou integrar organi- constituído pelo pagamento brasileiro e boliviano, a partir zações compostas por países em desenvolvimento, como de 1970, referente à dívida decorrente da construção da o Grupo dos 77, que teria Azeredo da Silveira como presi- Ferrovia Corumbá-Santa Cruz. Ainda nesse ano foram re- dente do Comitê de Organização do Grupo. alizados estudos e acordos com a Colômbia, o Equador, o país valorizou imensamente o trabalho da Conferên- Peru e a Bolívia, que resultaram na assinatura da Ata de cia das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimen- Rio Branco, pela qual Brasil, Bolívia e Peru fixavam crité- to (Unctad), em 1967. Na ONU, a diplomacia brasileira do rios para uma ação coordenada dos três países, com vistas abandonou a filosofia "interdependente" do governo ante- à abertura de conexões rodoviárias entre os países. rior. Na XXII Assembleia Geral, no mesmo ano, o Brasil Na relação entre Brasil e Chile, definiu-se uma maior mostrou-se favorável à autodeterminação dos povos e ao cooperação política e o incremento das relações respeito à descolonização, bem como à pesquisa nuclear mico-comerciais, estagnadas durante o Governo Castelo para fins pacíficos. Branco. Na América Central e Caribe, as relações foram A II Unctad, realizada em 1968, caracterizou-se pela limitadas, dificultadas pelos problemas gerados em torno divergência entre EUA e Brasil no que se refere à não pro- do asilo político. Um exemplo dessa problemática ocorreu liferação de armas atômicas. Brasil defendeu, apoiado quando o Brasil, em 1967, recusou-se a entregar os asila- pelo bloco latino-americano, a reforma das estruturas vi- dos na embaixada brasileira em Porto Príncipe ao governo gentes no cenário mundial, a necessidade de normas mais haitiano. Contudo, na expectativa de ampliar o realistas para o comércio internacional, para que assim bio comercial brasileiro, em agosto de 1969 foi criada a fossem eliminadas as atuais desigualdades entre os países Comissão Mista Brasil-México. industrializados e subdesenvolvidos. governo brasileiro defendeu ainda que a Unctad fosse mais operativa e menos 4950 normativa. Magalhães Pinto, enfaticamente, acusou as su- cos. Do total, 40 milhões seriam destinados a financia- perpotências de quererem privar os países menos desen- mento de investimentos de pequenas e médias empresas volvidos dos benefícios da tecnologia nuclear. da indústria manufatureira, e até 14 milhões seriam desti- Governo Costa e Silva deu grande à questão nados ao financiamento da expansão da infraestrutura da nuclear, tema que provocou intensa participação brasileira Companhia Vale do Rio Doce. Com os alemães ocidentais nas organizações internacionais. Assim, em Brasil também foram firmados acordos na área de ciência e tec- assinou com o México o Tratado de Tlatelolco, que conde- nologia, bem como acordos culturais. nava as armas atômicas na América Latina. Entretanto, o As relações entre Brasil e França envolveram o setor fi- Brasil recusou-se a assinar o TNP, nos termos propostos nanceiro, comercial e tecnológico-cultural. Em de junho de pelos EUA e pela URSS. Mesmo defendendo o desarma- 1969, foi assinado um Protocolo Financeiro entre os dois mento atômico e a não proliferação, Costa e Silva apoiava governos para a aquisição de bens e serviços junto à indús- a pesquisa e a utilização de energia nuclear para o desen- tria francesa, no Plano Siderúrgico Nacional e do programa volvimento econômico-tecnológico. de expansão da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa). Com a Itália, as negociações envolveram assuntos co- 2.4 As relações com países capitalistas merciais, nos quais o Brasil procurou conservar sua posi- desenvolvidos: Europa Ocidental, Japão e Canadá ção naquele mercado. Em 1967 Costa e Silva visitou o As relações com os países capitalistas desenvolvidos país, momento em que procurou ampliar o debate em tor- foram visivelmente modificadas durante o Governo Costa no das relações comerciais entre o Brasil e os países euro- e Silva. A proposta brasileira tinha como objetivo buscar peus. Na mesma ocasião, o presidente brasileiro foi ao Va- alternativas aos EUA, potencializar elementos estratégi- ticano, em um esforço evidente de apresentar seu governo cos, como a questão nuclear, e responder às necessidades como predisposto a uma acomodação com a Igreja. Com o de incremento comercial no quadro do avanço da integra- Reino Unido, a expectativa brasileira era a de identificar a ção europeia. Costa e Silva afirmou que, no seu programa cooperação comercial e tecnológica como a ênfase do re- lacionamento. Em agosto de 1969 foi concedido um finan- de Diplomacia da Prosperidade, um dos objetivos princi- ciamento à Marinha de Guerra para a compra de dois sub- pais era o incremento das relações econômicas e culturais marinos de fabricação inglesa. entre o Brasil e a Alemanha Nas relações com Portugal não houve alteração signifi- Em abril de 1969, foi assinado o Protocolo sobre Co- cativa empreendida pela Diplomacia da Prosperidade. operação Financeira Brasil-Alemanha Ocidental, pelo qual Além das discussões em torno do tradicional intercâmbio o Instituto de Crédito para Reconstrução de Frankfurt con- cultural e das trocas comerciais, os encontros foram marca- cedia empréstimos até o montante de 54 milhões de mar- dos pelas conversações a respeito da conjuntura mundial, 5152 dos problemas enfrentados por Portugal no continente afri- Por fim, com o Canadá, o Brasil iniciou uma aproxi- cano, e acertou-se que Portugal forneceria urânio ao Brasil. mação mais sistemática, na qual, além da proposta de in- Nessa perspectiva, em contraste com o discurso brasileiro tercâmbio, discutiu-se sobre um possível acordo de co- nos fóruns internacionais, o governo brasileiro manteve seu operação para uso de energia atômica. Apesar de não ter apoio ao de Portugal na questão das colônias africanas. havido aceitação, por parte do governo brasileiro, à pro- Apesar de o interesse brasileiro concentrar-se nas tra- posta canadense, as relações tenderam a ampliar-se. dicionais potências europeias e da Comunidade Econômi- ca Europeia (CEE), o país manteve contato com outros 2.5 As relações com a Europa Socialista, com a países menores. Entre eles, o Brasil interagiu diplomatica- África e com a Ásia mente com a Noruega, estabeleceu acordos de comércio com a Grécia e, com a Suécia, buscou o incremento da co- Não houve alterações significativas na diplomacia de operação na área de comunicação. Com a Espanha, o acor- Costa e Silva em relação à desenvolvida no governo ante- do nuclear assinado em 1968 mostrou-se, todavia, bem rior no tocante aos países socialistas europeus. As iniciati- mais importante. vas permaneceram essencialmente econômicas. Em 1967, a URSS manifestou interesse em importar do Brasil, além Japão foi, igualmente, um polo importante para o do café, algodão, amendoim, produtos semiacabados e Brasil. A experiência de desenvolvimento japonesa (o "mi- acabados. As reuniões da Comissão Mista Brasil-URSS do lagre interessava ao Brasil. A aproximação en- tiveram como principal tema de discussão o crédito de 100 tre os dois países foi facilitada pelo fato de o Brasil possuir milhões de dólares que os soviéticos concederam anterior- a maior comunidade de japoneses do mundo. Em 1967 foi mente e que o Brasil não havia ainda utilizado. criada a Comissão Mista Bilateral por su- o Brasil planejava adquirir trigo da URSS, constando gestão do Brasil, a fim de contribuir para o desenvolvi- na pauta a compra de manufaturados brasileiros pelos so- mento econômico de ambos os países. As facilidades con- viéticos. Em março de 1968, Magalhães Pinto afirmou que cedidas pelo Brasil para as inversões estrangeiras, a tradi- o Brasil precisava alargar o seu campo de comércio, aca- cional ajuda japonesa à industrialização brasileira, a con- bando com o medo de negociar com países da "cortina de tribuição dos imigrantes japoneses no desenvolvimento da ferro", os quais poderiam comprar muito do Brasil, nota- agricultura e os bons resultados do programa de ajuda téc- damente o café solúvel, e também vender muitos bens ne- nica nipônico representavam elementos de revitalização cessários ao desenvolvimento brasileiro. das relações econômicas entre ambas as nações. Assim, Bra- Perseguindo essa linha, o Brasil manteve contatos com sil e Japão comprometiam-se em aumentar e diversificar as a no intuito de examinar as possibilidades de exportações e importações. uma colaboração econômica. Com a Romênia, o Brasil 5354 tratou de temas econômicos, bem como buscou analisar trapartida, tecidos, equipamentos ferroviários e maquina- conjuntamente a situação internacional. Cabe destacar que ria. Indira Gandhi, primeira-ministra da Índia, e Magalhães a manifestava importante autonomia em relação Pinto estabeleceram um acordo de não intervenção em as- à URSS. Em abril de 1969, no Rio de Janeiro, realizou-se a suntos internos dos Estados e o direito de todas as nações I Sessão da Comissão Mista Brasileiro-Romena, momen- determinarem a sua política externa e interna. to em que foram efetuadas negociações entre representan- No Oriente Médio, houve uma repercussão importante tes romenos e representantes do Ministério da Agricultu- quanto à situação brasileira face à Guerra dos Seis Dias, ra, do Ministério de Minas e Energia, da Petrobras, do entre Israel e países árabes, pois a diplomacia brasileira BNDE e do BNH. manifestou seu apoio a Israel, ainda que sob o manto da A Comissão de Comércio com a Europa Oriental (Co- "neutralidade". Entretanto, o Brasil defendeu o espaço das leste), criada em 1962, reuniu-se cinco vezes em 1969. Nações Unidas como palco para a resolução do conflito. Houve uma intensificação das visitas diplomáticas a vá- Foi a maior participação do Brasil no Conselho de Segu- rios países do Leste Europeu. Na esteira desses diálogos rança e a presença de tropas em Suez antes da Guerra dos institui-se um comércio de compensação, onde a exporta- Seis dias aproximou o país da região. ção brasileira era paga à vista, enquanto a importação era Em 1969 o Brasil criou uma embaixada em Riad, na parcelada. Em maio de 1969, entrou em vigor o Acordo Arábia Saudita, estabeleceu acordos de venda de café para Brasil-URSS, que estabelecia um novo sistema de paga- a Argélia, aproximou-se da Turquia e da Tunísia. No mes- mentos, adotando a livre conversibilidade dos meios de mo ano, o Itamaraty articulou a criação do Grupo Coorde- pagamento. Vários escritórios de países do Leste Europeu nador do Comércio com os Países Árabes (Loarabe), en- foram abertos no Rio de Janeiro. volvendo os organismos brasileiros interessados na aqui- A interação brasileira com o mundo afro-asiático man- sição do petróleo, colocação de produtos agrícolas e ma- teve-se restrita, limitada pelos laços luso-brasileiros. úni- nufaturados no Oriente Médio e a alocação de serviços desenvolvimento significativo das relações do Brasil para a região. com a região deveu-se a países asiáticos como a Índia, atra- Em relação ao conflito vietnamita, além de continuar vés de fóruns internacionais, como a Unctad e o Grupo dos negando-se a participar, o Brasil distanciou-se ainda mais. 77. Em 1968, Brasil e Índia assinaram seu primeiro acordo Em maio de 1969, o Presidente Costa e Silva autorizou o comercial. Magalhães Pinto e R.D. Dhegad, chanceler indi- fechamento da Embaixada do Brasil no Vietnã do Sul. ano, declararam que Brasil e Índia, além dos intercâmbios Com a Tailândia e com a Indonésia foram mantidos conta- comerciais, iriam ampliar sua cooperação nos domínios tos diplomáticos. técnico, científico e cultural. acordo comercial previa a Com relação à política externa para a África, Costa e aquisição, pela Índia, de arroz do Brasil, vendendo, em con- Silva manteve o apoio às pretensões coloniais europeias, 5556 evitando assim o surgimento e o desenvolvimento de na- ções ideologicamente hostis ao Ocidente. Brasil, nesse sentido, apenas acompanhou a posição das potências eu- ropeias. Em 1969 foi instalada a Embaixada do Brasil na Costa do Marfim e estabelecidas relações diplomáticas A política externa do com Uganda, Zâmbia, Tanzânia e Etiópia. Contudo, nessa direção foi inaugurada a South African 3 Governo Médici (1969-1974) Airlines para o Brasil. Ainda em 1969, foi assinado o Acordo Financeiro entre o BNDE e a Industrial Develop- ment Corporation of South Africa, abrindo uma linha de crédito de 3,5 milhões de rands. Para uma análise mais consistente das bases da política externa do Governo Médici é preciso entender a conjuntu- ra política e econômica interna. Durante dois meses esteve no poder a Junta Militar, formada pela linha-dura. Nesse contexto, baixou a nova Lei de Segurança Nacional, que introduziu a pena de morte e acabou-se com o mandato do Iniciava-se o período denominado "anos de chumbo". Essa Junta indicou o General Emílio Garras- tazu Médici para assumir a presidência do país, fato que se consumou em 30 de outubro. Poucos dias após a Junta Militar assumir o poder, o embaixador norte-americano Charles Elbrick foi seques- trado pelos movimentos MR-8 (Movimento Revolucioná- rio 8 de Outubro) e ALN (Ação Libertadora Nacional), sendo libertado em troca de 15 presos políticos de esquer- da. Até o final de 1970, também foram sequestrados os embaixadores da Suíça e da Alemanha Ocidental, e o côn- sul do Japão em São Paulo. Todos os agentes diplomáticos foram trocados pela liberdade de presos políticos, que fo- ram expulsos do país. objetivo, além da liberdade das li- 5758 deranças de esquerda, era o de chamar a atenção da opini- tou-se desta situação para endurecer a repressão, legitimar pública para o regime ditatorial. a violência e aumentar a censura. No final de 1967, por ocasião do VI Congresso do Par- Contudo, no plano econômico a situação era outra. tido Comunista Brasileiro (de linha pró-soviética), ocorre- Sob o comando do ministro da Fazenda Delfim Neto, a ram diversas cisões entre a esquerda brasileira. Enquanto economia brasileira crescia em torno de 10% ao ano entre o PCB se manteve em uma posição de não violência, ou- o ano de 1970 e 1973. Conhecido como "milagre brasilei- tros grupos acreditavam na luta armada contra o regime mi- ro", o fenômeno teve como base o famoso tripé econômi- litar, como o MR-8, a ALN, a VPR (Vanguarda Popular o capital privado nacional respondia pela produção de Revolucionária), o PCR (Partido Comunista Revolucioná- insumos e bens de consumo popular, as transnacionais pe- rio), o POC (Partido Operário Comunista), o PCBR (Parti- los bens de consumo duráveis e as empresas estatais ocu- do Comunista Brasileiro Revolucionário) e a VAR-Pal- pavam-se da infraestrutura, da energia e da produção dos mares (Vanguarda Armada Revolucionária). A esses gru- bens de capital. Longe de gerar rivalidade, o tripé estabe- pos somaram-se os quadros estudantis formados nas mani- lecia uma divisão de trabalho e, uma vez que o crescimen- festações de 1968, o MNR (Movimento Nacionalista Re- to econômico era expressivo, havia lugar para todos. volucionário), oriundo de egressos do populismo e a ju- Apesar do arrocho dos salários, surgiu uma classe mé- ventude católica da AP (Ação Popular), que em grande dia de profissionais liberais e técnicos altamente consumi- do parte aderiu ao PCdoB (Partido Comunista do dora, que fez crescer o mercado de automóveis e eletrodo- Esses grupos, com exceção do PCdoB, iniciaram uma mésticos. Além da expressiva concentração de renda, ocor- guerrilha urbana, com ações ativas em 1969 e 1970, na sua reu também forte concentração econômica, principalmen- maioria compostos por centenas de militantes, desprepa- te no setor financeiro. Assim, enquanto a maior parte da rados e isolados da população, que os reconheceu na qua- população encontrava-se em processo de pauperização, lidade de PCdoB manteve uma guerrilha crescia o mercado interno de forma estratificada. No en- rural no Araguaia (Amazônia) entre 1971 e 1975. Poucos tanto, apesar do crescimento do mercado interno, não era militantes, apoiados em camponeses locais, mantiveram a o suficiente, sendo necessária a busca por mercados ex- luta contra dez mil soldados, num episódio que deixou ternos para os produtos industriais. governo investiu marcas na região. governo militar brasileiro aprovei- pesado em projetos para obras públicas, como a Ponte Rio-Niterói; hidroelétricas, como Itaipu; rodovias, como a Transamazônica, entre outras. Essa, que nunca foi concluí- da, tinha o objetivo de ocupar a Amazônia, ampliar a fron- 3. o PCdoB originara-se da divisão do PCB, quando este aceitou as te- ses do XX Congresso do PCUS e mudou o nome para o teira agrícola e inverter o fluxo migratório de nordestinos PCdoB manteve a denominação original, rejeitando o "revisionismo" e associando-se ao para o norte. 5960 modelo de educação adotado foi baseado nas li- plano interno, via crescimento econômico. Era o projeto nhas norte-americanas, responsável pela atomização da de Brasil Potência. vida estudantil e da atividade docente. regime colo- cou em segundo plano os ensinos primário e secundário e 3.1 Os fundamentos da diplomacia do interesse investiu na educação superior, principalmente no nível de nacional elitizando e qualificando na área tecnoló- gica e acadêmica. Criou-se, também, um projeto de alfa- Durante o Governo Médici foram criados diferentes betização chamado de Mobral, sem muitos resultados prá- órgãos técnicos, militares e administrativos com poder de ticos, mas disseminado como instrumento de propaganda decisão, que minimizaram a força política exclusiva do e legitimação do governo. Outras formas de publicidade Executivo. Como consequência, os tecnocratas foram for- foram utilizadas como o slogan "Brasil: ame-o ou dei- talecidos na sua capacidade decisória, cujo Ministro Del- xe-o", bem como o desenvolvimento de novos meios de fim Neto era figura paradigmática. Da mesma forma, a comunicação de massa. Comunidade de Informações e Segurança transformou-se em um núcleo de poder quase autônomo. No início do Governo Médici a situação política ainda era marcada pela disputa do controle de decisão, o que fir- Quanto à política externa, o próprio modelo econômi- mou a presença de lideranças, conforme definição de al- e de organização burocrático-militar, paralelamente a do guns autores, da burguesia estatal. Estado, por sua vez, certa indefinição do Itamaraty no que tange a suas atribui- enfatizou um discurso que ressaltava os aspectos de coe- ções específicas, produziu um relativo esvaziamento das são, unidade, disciplina e hierarquia, como mecanismo de funções diplomáticas em favor da participação de outros ocultação das divisões internas e contradições de sua base órgãos burocráticos, essencialmente técnicos ou ligados à de sustentação social, bem como de segurança. Dessa forma, houve diversas disputas entre os ministérios da Fazenda e o das Relações Exteriores, co- nacional-autoritarismo imperava no Governo Médi- mandado por Mário Gibson Barboza, em torno da orienta- ci, socialmente conservador e com seu núcleo localizado ção internacional que cada um defendia para o Brasil. no Tesouro Nacional e nas empresas estatais. Para esse Ministro Delfim Neto acreditava em uma coopera- grupo interessava mais a acumulação e o crescimento eco- ção mais elaborada com o Primeiro Mundo, pois entendia nômico do que a procedência do capital e os custos sociais que o "milagre econômico" pela sua lógica interna e exter- decorrentes desse processo. Assim, o nacionalismo tinha na implicava uma relação privilegiada. Por outro lado, seu conteúdo e âmbito de atuação alterados, pois se fazia parte do Itamaraty, que se tornava cada vez mais influente, necessário obter um bom desempenho financeiro-comer- advogava por um retorno a alguns princípios da PEI, des- cial e diplomático no plano externo, como forma de garan- tacando a importância de uma aproximação com o Tercei- tir a estabilidade política e o conservadorismo social no ro Mundo e com os organismos internacionais. 6162 Com relação à segurança, a política externa brasileira Japão, mas também da Europa socialista, nucleada pela desenvolvia-se, ideologicamente, através da Doutrina de URSS, percebia-se o relativo da hegemonia nor- Segurança Nacional, cujo conteúdo geopolítico e estratégi- te-americana. Nesse cenário, surgiam condições para as co definia a necessidade de preservar as "fronteiras ideoló- consideradas potências médias, como a Índia e a China, gicas". Nessa direção, o Conselho de Segurança Nacional atuarem como subcentros, com poder de barganha amplia- conferia rigidez à política exterior, além das interferências do. Finalmente, essa verdadeira tendência à multipolariza- do Sistema Nacional de Informação sobre o ção das relações internacionais gerava uma maior liberda- Repressivo e fortemente pró-americano, mas por outro de de movimento aos países que fossem capazes de con- lado desenvolvimentista, o Governo Médici constitui um tornar os mecanismos de dominação intrínsecos à associa- fenômeno complexo e contraditório de dificil explicação. ção vertical com o poder hegemônico. Entretanto, a Diplomacia do Interesse Nacional difere cla- Governo Médici, percebendo as transformações em 9 ramente da Diplomacia da Prosperidade de Costa e Silva, curso no sistema internacional, escolheu uma postura de pois se estabeleceu um relacionamento mais tranquilo menor resistência, procurando brechas, buscando tirar pro- com os EUA, a solidariedade para com o Terceiro Mundo veito dos desequilíbrios nas relações Norte-Sul. Ao mes- foi esquecida, juntamente com o discurso politizado, e a mo tempo, aceitava as relações de poder já estabelecidas. atuação multilateral foi praticamente substituída pela bila- Através de uma via individual, a estratégia não era a do an- teral. O multilateralismo ficou ligado às questões de or- ti-imperialismo, mas de uma boa posição do Brasil, gradual dem política econômica, e o bilateralismo aos interesses e oportuna, dentro do imperialismo. projeto de Grande materiais do Brasil. Apesar de o governo reconhecer o fe- Potência não poderia rejeitar recursos, tampouco ter pre- nômeno imperialista, a postura do Ministro Gilson Barbo- conceitos contra qualquer colaboração exterior. Muito des- za era a de negar o terceiro-mundismo, percebendo-o como sas concepções estavam embasadas no mito do milagre ja- uma "concepção ilusória". Para ele, o Brasil não pertencia ponês, pois o Brasil procurou ampliar o poder de barganha a esse grupo. com os Estados Unidos sem questionar o sistema interna- As críticas a certas concepções das políticas externas cional, visando o desenvolvimento industrial. dos governos anteriores estavam vinculadas a determina- Apesar de contraditória, a diplomacia brasileira atra- da percepção da conjuntura mundial. cenário interna- vés do Embaixador Araújo Castro forjou novos conceitos, cional no início dos anos de 1970 se caracterizava, segun- diferenciando Política Externa Brasileira e Política In- do os estrategistas da política externa, por uma diversifi- ternacional do Brasil A primeira dizia respeito à defesa cação do núcleo do sistema mundial. Com o desenvolvi- dos princípios gerais do direito internacional, como o ideal mento de novos centros capitalistas no cenário internacio- westfaliano da igualdade entre as nações, a solução pacífica nal, devido ao boom econômico da Europa Ocidental e do das divergências internacionais, a autodeterminação e a 6364 não intervenção nos assuntos internos de outros países, bem tica, no plano externo, o país exigia uma maior politização como a conservação de boas relações com Washington. e rejeitava a constituição de comitês integrados por técni- Já as concepções desenvolvidas em torno da ideia de cos que defendiam as posições das superpotências mundi- Política Internacional do Brasil voltavam-se para as diretri- ais. Outra questão importante foi em relação ao Direito ao zes concretas e práticas em relação às questões internacio- Mar, em que as grandes potências eram contrárias à fixa- nais contemporâneas. Aqui os princípios abstratos da ção de limites para o mar territorial. Em 1970, contra a ca externa são adaptados conforme as circunstâncias, para vontade norte-americana, o Brasil ampliou de 12 para 200 dar lugar ao cálculo racional de custo-benefício e à avalia- milhas o mar territorial. ção do valor instrumental das ações e omissões diplomáti- Considerando os novos princípios acima explicitados o cas do país, com o objetivo de projetar o poder nacional. Brasil, apesar da relativa convergência com os Estados redimensionamento das relações com os EUA con- Unidos, assumiu uma postura de ataque às estruturas do vergiu com o que Araújo Castro definiu como uma "firme comércio e das finanças internacionais. Ao negar-se a as- e indisfarçada tendência no sentido do congelamento do sinar o Tratado de Não Proliferação, o país avançou no poder mundial". Depois da crise dos mísseis de 1962 em projeto de qualificação tecnológica e no desenvolvimento Cuba, e com a relativa tendência ao esfriamento da Guerra da indústria armamentista nacional. Foi possível manter Fria, com o novo equilíbrio estabelecido pelo Kremlin e uma boa relação com os EUA, apesar do projeto nacionalis- do pela Casa Branca, abria-se espaço para o antagonismo Norte- a-industrializante, em função da solidariedade entre os Sul e legitimavam-se algumas divergências com os EUA. dois países contra a guerrilha interna no Brasil e como uma Como resultado dessa avaliação, decorreram diversas pro- aliança importante frente aos governos de esquerda na Amé- postas concretas, sendo a primeira a reforma da ONU e a rica Latina. Também é importante considerar que a comple- segunda referente ao Tratado de Não Proliferação, cuja ra- mentaridade econômica entre os dois países era cada vez tificação não deveria ser efetivada, pois tornaria as super- menor, e que Nixon estava mais preocupado em desengajar potências cada vez mais fortes. seu país do e buscar novas estratégias para a recupe- Cabe destacar também a rejeição pelo Brasil das con- ração da desgastada hegemonia cepções de controle demográfico e ambiental, que já nessa Interessada em tirar o máximo de proveito nas brechas época despontavam como instrumentos de pressão do do sistema internacional, a Diplomacia do Interesse Na- Norte sobre o Sul, visando à manutenção do status quo. cional buscou uma atuação individual de inserção e procu- Outro instrumento utilizado pelas superpotências para con- rou relações bilaterais com os países mais fracos, aproxi- gelar o poder mundial era a adoção de critérios técnicos e mando-se da América do Sul e Central, dos países neoco- despolitizados para tratar a agenda internacional. Apesar loniais africanos do Golfo da Guiné. Mais corajosa foi a de o Brasil, internamente, defender a tecnoburocra- aproximação com os países árabes, como resultado do au- 6566 mento do petróleo desde 1971, situação que se aprofundou conservadoras como o apoio ao colonialismo português e no governo seguinte em consequência da Guerra do Yom firmou acordos comerciais com países de regimes autori- Kippur, em outubro de 1973. tários. Muitos elementos foram mantidos da política externa Com um contexto internacional favorável, o governo do Governo Costa e Silva, a Diplomacia da Prosperidade. se legitimava no plano interno pelo bom desempenho do Mas, mesmo nesta parcela de continuidade, sobressaiu o modelo econômico e pela propaganda, que apresentava o redimensionamento do conteúdo da política externa. A país no caminho de se tornar potência. Entretanto, o mode- atuação diplomática bilateral na busca do desenvolvimen- lo tinha sérios problemas estruturais, como o crescimento to foi enfática, diferentemente do multilateralismo de Costa e endividamento acelerados. Na visão dos planejadores, e Silva. Governo Médici se legitimava por representar pensava-se que o país economicamente forte se tornaria uma gestão de união militar e pelos altos índices de cresci- forte no cenário internacional. Nesse sentido, o ingresso mento da economia. Essa postura seguia as seguintes dire- no mundo desenvolvido só poderia ser conquistado indivi- trizes: a Brasil era contra a cristalização de posições de dualmente. caminho do Brasil Potência deveria ser per- poder e contra a manutenção do status quo internacional; corrido solitariamente. excessivo multilateralismo po- b) quanto mais um país crescesse, maior deveria ser a sua deria significar um "fechar de portas". parcela de decisão no espectro c) não have- O Brasil esteve diante de duas escolhas de desenvolvi- do ria verdadeira paz sem desenvolvimento. A paz é um con- mento a integração com os países da região ou a tentati- ceito dinâmico, que abarca o acesso à tecnologia, mudan- va isolada no caminho do desenvolvimento e da autono- ças nas regras do comércio e na divisão do trabalho inter- mia internacional. A escolha pela segunda opção foi influ- nacionais; d) solidariedade com os países em desenvolvi- enciada fortemente por fatores externos, mas a ambigui- mento. A responsabilidade de eliminar o subdesenvolvi- dade se manteve na medida em que o Presidente Nixon re- mento deveria ser de todos os países; e) política externa conheceu o Brasil como liderança regional. Brasil pode- global, de íntima cooperação com os países desenvolvi- ria ascender isoladamente ao nível de potência ao lado do dos; f) só a correção das desigualdades entre nações alta- mundo "democrático" do Norte e, ao mesmo tempo, não mente industrializadas e nações pobres pode instaurar um precisaria rever o modelo político doméstico. novo ordenamento das relações internacionais; g) o Brasil Quanto à questão da segurança no plano da política in- rejeitava o "estranho" conceito de um Terceiro Mundo; h) ternacional, o Governo Médici subdivide o tema a partir de vinculação da segurança política à econômica. dois eixos Primeiro, a segurança política hemisférica, na Assim, o Governo Médici, ao almejar o reconheci- qual há o abandono da tese de interdependência entre as na- mento internacional como potência emergente, se afastou ções por considerá-la como fator de congelamento do poder da ideia de Terceiro Mundo. No exterior assumiu posturas mundial. E, o segundo, a segurança econômica coletiva, a 6768 qual representava a transposição do tema da justiça social a gime era necessária e a crise internacional marcava a con- análises das relações internacionais, determinando a supe- juntura externa. ração da divisão econômica entre Norte e Sul. o conceito de nacionalismo, nesse governo, também 3.2 As relações bilaterais com os EUA foi alterado, pois passou a ser pensado e propagandeado como crescimento econômico no plano interno e afirma- Nas relações brasileiras com os EUA buscou-se uma ção como potência no externo. o incremento das exporta- síntese entre a postura dos dois governos anteriores atra- ções se daria pela diminuição de custos e salários para au- vés da revisão do alinhamento automático. A diplomacia mentar a competitividade dos produtos brasileiros no pla- tentava amenizar a atmosfera de conflito, entretanto, a no internacional, apesar de debilitar o mercado interno. propaganda do "milagre" incentivava uma pretensão de Além de uma série de medidas técnicas, econômicas e ju- igualdade frente aos EUA. As mudanças qualitativas e rídicas criadas pelo governo visando implementar um pro- quantitativas que se processaram na economia brasileira ampliaram as áreas de fricção com as economias industri- grama consistente e sistemático de exportações, o Decreto 1.236 permitiu a importação de plantas industriais com- alizadas. Um dos pontos de atrito foi desencadeado pela pletas, desde que sua produção fosse canalizada essencial- declaração unilateral por parte do Brasil de ampliar o Mar mente à exportação. Territorial de 12 para 200 milhas náuticas, apesar do pro- blema não envolver diretamente o âmbito bilateral. A estratégia exportadora do Brasil implicava que os EUA aceitassem a "excessiva" projeção internacional do Outra questão importante foi a recusa do Brasil em as- país, tanto para dentro do subsistema interamericano como sinar o TNP, bem como os empecilhos criados para a ex- para o sistema mundial. Era um movimento protoimperia- portação de café solúvel para os EUA. As pressões nor- lista, projeto econômico e diplomático que antagonizava a te-americanas sobre as autoridades brasileiras quanto à massa da população e chocava-se com o grupo liberal-im- questão nuclear, à ampliação do Mar Territorial e à expor- perialista. resultado foi o desenvolvimento de um novo tação de têxteis, café solúvel e foram marcantes. relacionamento entre o Estado e as transnacionais, no qual o Na expectativa de amenizar os conflitos, o Presidente Mé- primeiro assume o papel dirigente e de maior interferência. dici visitou os EUA em 1971, ocasião em que buscou ob- ter o reconhecimento do status internacional do Brasil e Contudo, em longo prazo, o incremento das contradi- resolver as questões econômicas, priorizando o comércio ções internas ligadas ao próprio exercício do poder autori- entre os dois países. tário, sobretudo a questão da unidade militar e a crise eco- nômica decorrente em grande parte de razões externas afe- A maior consequência dessa viagem foi a declaração taram a legitimidade do governo. Governo Geisel assu- do Presidente Nixon de que "nós sabemos que para aonde miu o país em um momento no qual a liberalização do re- o Brasil for, o restante do continente latino-americano 6970 irá". A posição do presidente norte-americano gerou um Em termos econômicos, no mês de janeiro de 1972, o desconforto com os países da América Latina, pois colo- Brasil recebeu a visita de Rodman Rockfeller e um grupo cou o Brasil em uma posição subimperialista. governo de empresários norte-americanos, ocasião em que se ne- dos EUA adotou certa tolerância com a postura brasileira gociou um acordo sobre pesca com os EUA. Em 1973, o em função da formulação da Doutrina Nixon, que previa intercâmbio de visitas foi intenso. Vieram ao Brasil o se- uma divisão de tarefas em termos de segurança com po- nador republicano James Pearson, da Foreign Policy Stu- tências médias aliadas, papel que o Brasil aceitou. E ainda, dy Commission; o Deputado William Robert Poage, presi- a complacência norte-americana originava-se também da dente do Comitê de Agricultura da Câmara de Represen- própria conjuntura internacional, na qual os EUA estavam tantes dos EUA; o Deputado Thomas L. Ashley e outros mais preocupados com a situação no Vietnã e com proble- parlamentares e técnicos, a convite do Incra, visitaram o mas mais sérios em outras áreas. Nessas condições, o Bra- Projeto Altamira, na Rodovia Transamazônica; o Embai- sil tratou de renegociar os termos de sua dependência. xador Malgren, que manteve conversas com autoridades Na tentativa de iniciar um diálogo mais pragmático e brasileiras; Thomas Sanders da revista Field Staff Rep- rompendo com a lógica de um alinhamento automático, a port; e Elmer Lower, diretor da ABC News. política externa brasileira se individualizava e se renacio- Quanto às visitas brasileiras aos EUA, cabe registrar a nalizava sobre um fundo de desideologização, enquanto a do ministro do Planejamento e Coordenação Geral, João norte-americana tornava-se despersonificada e desinter- Paulo dos Reis Velloso, com vistas à realização de conta- nacionalizada. As relações bilaterais entre o Brasil e os tos com associações comerciais e financeiras norte-ame- EUA conheceram um recuo significativo em muitos dos ricanas; a do ministro da Fazenda Delfim Neto, para con- tradicionais campos de cooperação. Um relacionamento tatos com autoridades monetárias e comerciais; a do mi- mais intenso foi mantido apenas em áreas sensíveis para nistro das Minas e Energia, Antônio Dias Leite Júnior; e Washington. Em agosto de 1970, os serviços do Office of do Estado-Maior das Forças Armadas, General do Exérci- Mapping and Charting foram reduzidos em 60% em virtu- to Arthur Candal Fonseca, acompanhado por oficiais das des dos cortes em seu orçamento. Em outubro de 1971, Forças Armadas, para visitarem instalações militares nor- Brasil e EUA assinaram um Acordo de Cooperação Cien- te-americanas. tífica Bilateral, e em fevereiro de 1972 foi firmado o Acor- Em fevereiro, Brasil e EUA concluíram acordo de do de Assistência Militar. Em maio, William Jordan, as- sistente para Assuntos Americanos de Henry Kissinger, concessão de crédito para aquisição de material bélico pe- las Forças Armadas do Brasil. Em maio, ocorreu a visita visitou o Brasil e, em julho, foi concluído o Acordo de Co- do Secretário de Estado norte-americano, William Ro- operação relativo aos Usos Civis da Energia Atômica en- gers, a Brasília, momento em que manteve contato com o tre os dois países. presidente, vice-presidente, ministro das Relações Exteri- 7172 ores, os presidentes do Senado, da Câmara dos Deputados ampliar a influência do Brasil no continente através de no- e do STF. Em junho, Brasil e EUA firmam Acordo Relati- vos mecanismos. A importância dessa estratégia seria vi- vo às Atividades dos Voluntários do Corpo de Paz no Bra- sível em longo prazo. sil. Esses contatos ilustram a dinâmica do relacionamento bilateral entre o Brasil e os EUA indicavam os setores de Essas ações foram promovidas basicamente pelo Esta- do e suas empresas, o que gerou o aumento das universida- interesse específico que ligavam os dois países, em um contexto de relativo afastamento. des, centros de pesquisa e empresas como o BNH, Senai, Eletrobras e Petrobras. No plano diplomático, tratava-se de uma forma criativa de inserção internacional de low 3.3 As relações com a América Latina: entre a profile, sem a necessidade de empregar recursos dispendi- rivalidade e a cooperação osos. Da mesma forma, tornava-se possível estabelecer A política externa adotada pelo Governo Médici cau- vínculos internacionais mais duradouros, inclusive com sou grande desconforto entre os demais países da América novas áreas, como foi o caso da América Central. emer- Latina, principalmente depois da ascensão de Salvador gente capitalismo industrial brasileiro dotava-se de uma Allende no Chile. Denunciou-se que, através da Operação política externa que, cada vez com mais eficiência, explo- Trinta Horas, o Brasil teria planos para ocupar o Uruguai rava as brechas existentes no sistema mundial. em caso de vitória da Frente Ampla ou caso o país caísse As relações entre o Brasil e os EUA produziram um do nas mãos da oposição armada. Brasil também foi indi- efeito importante no espectro latino-americano. Brasil, cado como participante nos golpes de Estado na Bolívia sob influência da nova política econômica norte-ameri- em 1971, e no Chile em setembro de 1973. Emergia, as- cana, fomentou a criação de um mercado comum e procu- sim, a ação da diplomacia militar paralela, vinculada à ideia rou reforçar a Alalc. Nesse contexto, foram concluídos de Brasil Potência, que implicava a afirmação sobre deter- importantes projetos de cooperação na região, tais como: minada área geográfica, evitando a constituição de gover- a) hidroelétrica de Itaipu, com o Paraguai, através do Tra- nos hostis a seus projetos. tado 1973; b) compra de gás e complementação industrial, As relações bilaterais também foram a escolha para a com a Bolívia, através da Ata de Cooperação 1973; c) es- inserção hemisférica brasileira, visando à ampliação do tudos para uma binacional, com a Colômbia, em 1973; d) comércio através de linhas de crédito para compra de pro- projetos de desenvolvimento das Bacias da Lagoa Mirim e dutos brasileiros, programas de cooperação técnica com do Rio Jaguarão, com o Uruguai. países menores e diversos acordos culturais para vinda de Com a América Central, o chanceler Mário Gibson estudantes de graduação e pós-graduação por longos pe- Barboza estabeleceu acordos para a intensificação das tro- Esta última iniciativa visava ampliar a base para cas comerciais, acordo de cooperação técnica, criação de uma futura cooperação técnica e econômica, bem como linha marítima com o intuito de estabelecer bases políticas 7374 efetivas, segundo a diplomacia brasileira, para um relacio- bre o Rio Iguaçu; estudos para o estabelecimento de um namento com uma área do continente até então virtual- programa geral de cooperação em matéria de comunica- mente abandonada pelo Brasil. Na América do Sul, as re- ções; estudos de interconexão fronteiriça dos sistemas ro- lações desenvolveram-se país a país, conforme a estraté- doviários dos dois países; eliminação da bitributação em gia brasileira. matéria de transportes rodoviários; criação da Comissão Percebe-se, no campo do comércio, a redução da taxa Mista Brasil-Argentina para Uso e Conservação de Pontes de importação e o aumento elevado das exportações para a Internacionais; e coordenação entre autoridades dos dois Alalc. No que concerne à segurança hemisférica, supe- países para favorecer o intercâmbio turístico. rou-se a teoria de defesa multilateral, defendida por Caste- Também em relação ao Paraguai foram feitos grandes lo Branco, e a concepção de defesa unilateral vigente no esforços de aproximação por parte da diplomacia brasileira. Governo Costa e Silva, passando-se, então, a estender as No ano de 1970, foi assinado em Assunção o contrato entre relações bilaterais também a esse campo. Assim, supe- a Eletrobras e a empresa Ande para a realização de estudos rou-se tanto o pan-americanismo do primeiro governo mi- conjuntos visando o aproveitamento energético do trecho litar como o latino-americanismo do segundo, afirman- do Rio Paraná situado entre Sete Quedas e Foz do Iguaçu. do-se, consequentemente, o bilateralismo. No ano seguinte, além das discussões sobre a construção Com relação à Argentina, durante o Governo Médici, de estradas e melhoria da navegabilidade no Rio Paraná, as relações passaram da rivalidade à cooperação. rápido foram assinados acordos sobre a construção da Rodovia crescimento econômico brasileiro, entre outras coisas, de- Encarnación-Porto Presidente Stroessner e sobre a realiza- pendia do fornecimento de energia. A construção de Itaipu ção de um Programa de Cooperação Técnica. Ainda em previa uma dupla negociação, com o Paraguai e com a 1971, ocorreu a IV Reunião da Comissão Mista de Comér- Argentina, que se sentia ameaçada com o projeto, temen- cio e Investimentos Brasil-Paraguai, em Foz do Iguaçu. do que as províncias pobres do norte argentino viessem a Diante da situação econômica limitada do Uruguai, o gravitar em torno do Brasil. De qualquer forma, ainda que não em bases definitivas, Brasil e Argentina ajustaram al- acercamento brasileiro foi menos intenso. Houve alguns es- gumas diferenças quanto à Itaipu no que se convencionou forços conjuntos, como por exemplo, a construção de inter- chamar de Acordo de Nova York, em 1972. ligação rodoviária, mas no campo ideológico e de seguran- ça havia a desconfiança brasileira em relação ao país. Por ocasião da visita do presidente argentino ao Brasil, Brasil monitorou de perto a situação do Uruguai, chegando o General Lanusse, e apesar das críticas feitas ao país pelo a elaborar um plano de intervenção no caso de tomada de governo argentino, foi firmada uma Declaração Conjunta poder pela Frente Ampla. Em o Governo Médici apo- Brasil-Argentina, além de seis acordos que consideravam iou e deu suporte ao golpe militar uruguaio. estudos para a construção de uma ponte internacional so- 7576 Os países andinos, por seu turno, se apresentavam rando um projeto para a estruturação do mercado de valo- como um problema ao governo brasileiro devido aos regi- res peruano, além da concessão de crédito. No entanto, a mes de esquerda e/ou nacionalistas no Chile, na Bolívia e diplomacia brasileira desenvolveu melhor e mais intensa no Peru. Brasil, apesar de atuar com prudência, coope- performance com os países menores da região andina. rou com os EUA para neutralizar esses regimes. Nesse Equador, devido ao incremento gradativo do preço do pe- contexto, as relações Brasil-Chile foram marcadas por tróleo, passou a ser atrativo para o Brasil como um merca- inúmeros desafios, decorrentes não apenas do perfil do consumidor de produtos industrializados e fornecedor co-ideológico oposto dos dois regimes, mas, fundamental- de combustível. Brasil prestou assistência técnica ao mente, devido às atividades dos exilados brasileiros no país e ampliou a cooperação bilateral em vários projetos. Chile durante o governo de Salvador Allende. Com o gol- Com a Colômbia, as relações foram aprofundadas em pe militar em 1973, o governo brasileiro providenciou o envio de assistência (medicamentos e alimentícios termos de cooperação econômica e técnica. Em 1971 foi firmada a Declaração Conjunta sobre Intercâmbio Bilate- de primeira necessidade) e, apenas dois dias depois do golpe, o Brasil reconheceu o governo da Junta, presidida ral, Região Amazônica e Cooperação Técnica. Na sequên- pelo General Augusto Pinochet. Sob o governo do Gene- cia de vários encontros entre os representantes dos dois ral Pinochet, estreitou-se a cooperação econômico-finan- países, nos quais foram firmados acordos de cooperação, ceira entre os dois países. em 1973, foi realizada a II Reunião da Comissão Mista Brasileiro-Colombiana de Cooperação Econômica e Téc- Para não ceder espaço para a Argentina, o governo nica para o exame do intercâmbio comercial, complemen- brasileiro manteve um relacionamento satisfatório com o tação industrial e empresas binacionais, cooperação técni- governo esquerdista boliviano, ao mesmo tempo em que ca e científica, transportes, política financeira e assuntos colaborava com a sua derrubada. Quando isso ocorreu, o amazônicos. governo do General Hugo Banzer estreitou ainda mais as relações com o Brasil. Além de projetos conjuntos de co- A Venezuela, país que tinha uma política fortemente contrária à existência de regimes ditatoriais, mantinha laboração técnica e habitacional, vinculação rodoviária bi- lateral, criação de polos industriais e reescalonamento da poucos contatos com o Brasil. Essa situação modificou-se dívida boliviana, os dois países trataram do fornecimento com a Diplomacia do Interesse Nacional, pois o país tam- de gás natural ao Brasil. bém passou a ser alvo da diplomacia brasileira. A valori- zação do preço do petróleo fez com que a Venezuela ad- Durante o governo militar de caráter nacionalista do quirisse maior expressividade econômico-diplomática no General Juan Vasco Alvarado, o Brasil conseguiu um en- continente. Entre os dois países, foi estabelecido um inten- volvimento mais direto com o Peru. Em 1971, o Itamaraty SO programa de discussões sobre temas relativos ao desen- iniciou a prestação de assistência técnica ao país, prepa- volvimento da região amazônica. A primeira conexão ter- 7778 restre entre os dois países foi inaugurada (Estrada El Dora- As relações do Brasil com o México, país de diploma- do-Santa Elena de Uairén-Marco BV-8-Boa Vista), e fo- cia nacionalista e economia expressiva, concentraram-se, ram assinados convênios de cooperação técnica. portanto, na defesa de determinadas posições comuns no Na América Central, Caribe e Guianas, a diplomacia plano internacional e na complementaridade econômica. brasileira também se fez presente. Na região, o único pro- Já no cenário centro-americano, caribenho e guiano, o in- blema foi o regime cubano, uma vez que o país apoiava os gresso da diplomacia brasileira foi bem diferente. Com os grupos guerrilheiros brasileiros e patrocinava uma campa- países da América Central foram assinados alguns acor- nha internacional contra o regime militar. O Itamaraty dos no campo comercial e técnico. Loyd brasileiro criou acompanhava, ao receber informações de missões diplo- uma linha regular de navegação para a Guatemala, El Sal- máticas da área, o suporte cubano aos movimentos revolu- vador, Costa Rica e Nicarágua. Em 1971, o Chanceler Má- rio Gibson Barboza visitou a Guiana e assinou vários acor- cionários na América Latina e a situação política interna de Cuba. dos em Georgetown. Esses acordos gravitavam em torno da cooperação econômica, técnica e comercial. No mesmo As relações com o México, país produtor de petróleo, ano, o ministro visitou o Suriname, ainda formalmente co- foram consolidadas, especialmente no que tange às ques- lônia holandesa, onde propôs a criação de um grupo técni- tões econômicas. Brasil e México, parceiros de mesmo misto brasileiro-surinamense. porte, trataram de analisar o fomento ao intercâmbio co- Por fim, no Caribe o Brasil acordou com Trinidad e mercial, bem como, no campo da cooperação técnica, am- Tobago a pesca em Mar Territorial brasileiro, convênio pliaram os temas discutidos. Em 1973, uma missão mexi- cultural, cooperação econômica, técnica e comercial. Com cana composta por autoridades governamentais e empre- Barbados foram estabelecidas relações diplomáticas e ao sariais visitou o Brasil. Na ocasião os seguintes temas fo- Haiti foi oferecida uma linha de crédito e ser negociada ram tratados: maior vinculação financeira e bancária, me- entre o Banco do Brasil e o Banco Nacional do Haiti. Com canismos de pagamento, transporte marítimo e aéreo, tu- praticamente todos os países da região, estabeleceram-se rismo, programa habitacional popular e abastecimento re- acordos bilaterais de parceria técnica, cultural e cíproco de material de construção e incremento do inter- bio acadêmico. câmbio comercial. E, ainda, foi abordado o acordo de complementação industrial, a criação de uma empresa 3.4 A estratégia bilateral na Europa Ocidental, mexicano-brasileira de comércio exterior, a participação do México em companhia multinacional para comerciali- nos países socialistas, na África e na Ásia zar o café, e a posição de ambos os países quanto à Confe- A dimensão econômica foi predominante nas relações rência Extraordinária das Partes Contratantes da Alalc e bilaterais com a Europa Ocidental, com os países socialis- nas negociações do Gatt. tas, com a África e com a Ásia, embora variando de inten- 7980 sidade e motivação, conforme as regiões. Brasil, em re- sil-Países Baixos relativo à pesca no Mar Territorial Brasi- lação aos países capitalistas desenvolvidos, procurou apro- leiro, em 1971. Em 1972, o Brasil recebeu uma missão veitar as possibilidades de cooperação inauguradas com a belga integrada por funcionários do governo desse país, multipolarização econômica e pelo início do nor- comerciantes, industriais e banqueiros. No encontro com As relações com a CEE continuaram representantes do governo brasileiro, a missão belga exa- Já com a Alemanha Ocidental e com o Japão foram incre- minou as possibilidades de incremento das relações eco- mentadas de forma acelerada. Com os países europeus so- nômicas bilaterais, demonstrando interesse, sobretudo, no cialistas, as trocas comerciais também foram intensifica- Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, corre- das. Quanto ao Terceiro Mundo, houve progressos signifi- dores de exportação, Plano Siderúrgico Nacional, sistema cativos a partir da inauguração de cooperação sistemática com a África Ocidental, processo similar ao ocorrido com financeiro e bancário brasileiro, sistema de correção mo- netária, industrialização de alimentos e exploração de re- os pequenos Estados latino-americanos e com a aproxima- cursos minerais. ção da crise no Oriente Médio. Todavia, a política mundial do Brasil ainda era tímida e presa ao passado, quadro que No tocante à que durante a maior parte seria revertido no governo seguinte. do Governo não integrava a CEE, as relações apre- Os contatos estabelecidos com a Europa Ocidental sentaram o mesmo perfil que com as demais nações capi- buscavam reverter os problemas existentes, limitando a talistas da Europa. Cabe ressaltar que, em 1972, por inicia- abertura de novos canais de cooperação. Diferente foi o tiva do Itamaraty, realizou-se um encontro entre represen- relacionamento bilateral com a Alemanha Ocidental, que tantes dos governos brasileiro e britânico e das companhias experimentou a ampliação da cooperação nos campos britânicas interessadas, no qual se ofereceu uma solução econômico, comercial, financeiro e de investimentos. negociada para o contencioso anglo-brasileiro, decorrente ponto alto desse relacionamento foi a fixação de uma par- da expropriação de empresas britânicas e a fixação do ceria de longo prazo relativa à questão nuclear e de trans- montante total de indenização. ferência de tecnologia. Com a França, as relações foram Com os países nórdicos, as relações foram incremen- menos intensas, mas significativas, especialmente nos cam- tadas. Apesar de alguns problemas no intercâmbio comer- pos de cooperação cultural, acadêmica, militar e econômi- cial com a Dinamarca, pois desde 1965 as exportações ca. Já com a Itália, o diálogo foi igualmente significativo, brasileiras vinham diminuindo, enquanto as importações especialmente no fomento ao comércio exterior dos dois aumentavam, o governo desse país procurou obter medi- países e no estabelecimento de parceria no campo tecnoló- das oficiais para o incremento das compras brasileiras. Em gico e no setor de energia. 1971, o maior investimento norueguês no exterior desti- Com os Países Baixos também se tratou de cooperação nou-se ao Brasil, referente à Indústria de Celulose Borre- técnica bilateral, bem como se firmou um Acordo Bra- gaard S.A. A Suécia também manteve contatos com o Bra- 8182 sil para discutir questões como transporte marítimo, tec- volume dos negócios concluídos considerável, além de nologia, comércio de manufaturados, além da vontade anun- um contrato de compra de 1.750 vagões ferroviários de di- ciada de participar da expansão dos sistemas portuários e versos tipos, no valor de 40 milhões de dólares. ferroviários e do parque industrial do Brasil. Da mesma forma, com a Bulgária e com a Polônia o As relações com Portugal sofreram alterações signifi- comércio de grãos e maquinaria alcançou números signifi- cativas. Embora aparentemente a solidariedade luso-bra- cativos. Com o Leste Europeu, em 1971, o comércio cons- sileira prosseguisse, o Brasil procurou encaminhar as rela- tituiu-se de exportação de café e outros produtos primários, ções bilaterais de forma independente dos problemas co- além de produtos da indústria química, equipamentos e loniais. Com a Espanha as relações comerciais e de coope- maquinaria pesada. Ainda em 1971, o vice-ministro de Co- ração técnica tiveram um relativo incremento. Em 1969, o mércio Exterior da URSS visitou o Brasil, ocasião em que Brasil comprou 100 locomotivas diesel-elétricas espanho- revelou o interesse de empresas soviéticas em participar las e a Espanha comprou 65 mil toneladas de café brasilei- de empreendimentos metalúrgicos, siderúrgicos e energéti- ro no período de 1969-1973. cos no Brasil. Foi discutida, também, a possibilidade de tro- A diplomacia brasileira abriu outra frente de relações cas de cereais e colocação de produtos manufaturados bra- bilaterais, desta vez com o Canadá. Em 1973 foi aberto em sileiros no mercado soviético. Várias missões comerciais São Paulo um escritório de representação comercial da foram enviadas à região, assim como outras tantas vieram do Província de Ontário, com o objetivo de promover conta- ao Brasil. tos entre empresários brasileiros e canadenses. E, ainda, Mesmo que a Diplomacia do Interesse Nacional rejei- dois fatos marcaram as relações São eles; a tasse o conceito de Terceiro Mundo, a necessidade de ga- aprovação pelo governo brasileiro do projeto de coopera- rantir a crescente importação de petróleo e a estratégia ex- ção canadense para a execução de um estudo de viabilidade portadora levou o Brasil a efetivar a sua presença na Áfri- econômica da região Suruaca (ES), e a visita ao Canadá do ca Ocidental e regularizar sua atividade diplomática no ministro das Minas e Energia, Antônio Dias Leite Júnior. Oriente Médio, na Ásia e na Oceania (Austrália). Brasil Apesar das diferenças ideológicas, as relações entre o participou em 1970, na qualidade de observador, da Con- Brasil e a Europa Socialista cresceram no campo econô- ferência dos Países Não Alinhados de Dar-es-Salaam. Em mico e se mantiveram satisfatórias no campo político, ain- 1973, o Brasil compareceu, na mesma condição, à Confe- da que mantendo o low profile nesse domínio. Parceria no rência de Chefes de Estado e de Governo dos Países Não campo tecnológico, importação de maquinaria, equipamen- Alinhados, realizada em Argel. tos e químicos e exportação de, sobretudo, café, delinearam A política externa brasileira para a África manteve a as relações comerciais entre o Brasil e a URSS. Com a Iu- mesma linha dos governos anteriores, apresentando modi- goslávia foram assinados contratos de exportação, sendo o ficação apenas nas relações com a África do Sul, que se in- 8384 tensificaram. No entanto, cada vez mais o discurso antico- países que estavam emergindo como Tigres Asiáticos. lonialista ganhava força internacional e os atritos com as Essas relações se caracterizavam, sobretudo, pelos conta- potências coloniais europeias seriam inevitáveis. Nesse tos comerciais, exceto com a Índia. Esse país, um dos líde- sentido, o desenvolvimento da diplomacia brasileira para res do Movimento dos Países Não Alinhados e potência a África causava problemas com Portugal, com os EUA e nuclear desde 1974, afora os evidentes interesses comerci- com África do Sul, mesmo que, na ONU, o Brasil tenha ais, oferecia ao Brasil a oportunidade de intercâmbio téc- votado junto a esses países na questão das chamadas pro- nico e científico, especialmente a cooperação atômica. víncias ultramarinas. Por outro lado, o Brasil absteve-se A Austrália, nesse contexto, passou a ser um parceiro nas questões gerais de condenação ao colonialismo, inte- comercial de interesse crescente, e, com o Japão, a coope- resses econômicos estrangeiros, apartheid e discrimina- ração foi fortemente intensifieada e consolidada no campo ção racial, introduzindo certo distanciamento do grupo co- comercial e técnico-científico. Foram constantes as visitas lonialista. Para muitos analistas, essa postura traduz uma mútuas entre representantes dos dois Estados, bem como mudança nas diretrizes em relação à região já durante o foi permanente o debate sobre o comércio, o desenvolvi- Governo Médici, fato que abriria caminho para uma infle- mento e as finanças internacionais. xão ainda maior no governo seguinte. Cabe ainda ressaltar que o Brasil continuou a partici- A presença brasileira no Oriente Médio se fez mais in- par expressivamente nos fóruns internacionais para de- do tensa. Diplomaticamente, o país transitava entre uma equi- nunciar as tentativas de congelamento do poder mundial e distância pró-Israel quanto ao conflito árabe-israelense, e as distorções do sistema internacional. discurso crítico o relativo apoio às proposições da Liga Arabe. Os países em relação ao TNP foi marcante, pois na visão brasileira da região se caracterizavam como atrativos mercados con- era considerado discriminatório e acabava por criar assi- sumidores bem como fornecedores de petróleo. A mudan- metria no sistema internacional. Conforme Cíntia Souto ça na postura brasileira também produziu outras possibili- (2003), apesar de o Brasil atuar intensamente nos fóruns dades em relação aos árabes, assim como uma intensifica- multilaterais, as relações e conquistas substantivas deram- ção na cooperação com Israel. Intercâmbio comercial, co- se no plano bilateral. operação técnica, negociações em torno do setor siderúr- gico e nuclear permearam as relações brasileiras com os países do Oriente Médio. As relações com a Ásia e com a Oceania se incremen- taram modestamente, devido à ruptura das relações diplo- máticas com a China. Ainda assim, se estabeleceu uma co- operação concreta com a Índia e com a Austrália, além dos 85A política externa do 4 Governo Geisel (1974-1979) 4.1 As novas diretrizes políticas e econômicas do Regime Militar General Ernesto Geisel sucedeu Médici no dia 15 de março de 1974, o que representou a volta dos castelitas ao poder, tendo como ideólogo e estrategista do grupo o Ge- neral Golbery do Couto e Silva, que passou a ocupar a che- fia da Casa Civil. Geisel foi, entre os governantes milita- res, aquele que desenvolveu uma política externa mais ou- sada através da diplomacia do chamado Pragmatismo Responsável e No âmbito doméstico, o princi- pal projeto do novo governo era o encaminhamento do processo de abertura política. As razões dessa escolha ba- seavam-se tanto em questões estratégicas quanto conjun- turais. Conforme Visentini (2004: 198): No plano estratégico, segundo as concepções do General Golbery, a história política brasilei- ra caracterizava-se por uma alternância de ci- clos de centralização e descentralização. Como considerava que o atual regime centralizante estava chegando ao seu limite, acreditava ser 8788 prudente antecipar-se aos fatos, preparando uma lo dos Reis Velloso no Ministério do Planejamento, neces- transição controlada rumo a um regime demo- sitava buscar respostas urgentes. crático, a ser estruturado antes que o desconten- tamento social aflorasse através de projetos po- II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), lan- liticamente articulados. Era preciso encerrar o çado em 1974, aprofundou o processo de industrialização ciclo militar antes que este sofresse um desgas- por substituição de importações, com a finalidade de tor- te irreparável, comprometendo as Forças Ar- ná-lo autossuficiente em insumos básicos e, se possível, madas como instituição. em energia. O governo diversificou as fontes de energia, Conjunturalmente, o país defrontava-se com profun- instituindo um arrojado programa de construção de hidro- das dificuldades econômicas decorrentes da crise do pe- elétricas, usinas nucleares, incremento da prospecção de tróleo. Desde 1973, o "milagre econômico" já mostrava petróleo e produção de álcool como combustível automo- sinais de esgotamento. Nesse sentido, o Governo Geisel bilístico, o chamado Projeto Proálcool. E, ainda, o gover- promoveu uma inversão no debate antes pautado pelas no buscou intensificar a capacitação tecnológica do país questões econômicas. Durante esse período, a temática em diversas e importantes áreas, como informática e pe- econômica cedeu lugar às discussões políticas, em especial, troquímica. Assim, "o agente desse ambicioso projeto se- a abertura. Tratava-se, evidentemente, de um processo difi- ria o Estado, que se consolidou como maior agente produ- cil, que teria de ser administrado com cautela diante das tivo, e possibilitou a reação econômica que o governo es- pressões da oposição e da linha-dura. A transição deveria tava desencadeando (VISENTINI, 2004: 199). encerrar discretamente o regime militar, mas consolidar, ao Apesar do crescimento econômico que oscilou entre 5 mesmo tempo, seus objetivos de longo prazo, que deveriam e 10% ao ano, dos 5 milhões de novos empregos e do au- permanecer como propósito em um governo civil. mento das exportações em 50%, as importações continua- No final de 1973, o aumento do preço do petróleo atin- ram altas, fato que desencadeou uma maior tributação e giu o Brasil não só em suas contas externas, mas, princi- empréstimos externos. Como havia abundante liquidez no palmente, em seu projeto de desenvolvimento. Geisel her- mercado financeiro internacional, contraíram-se emprés- dou índices satisfatórios para o desenvolvimento brasilei- timos que, devido à elevação brutal dos juros da dívida ex- ro e, também, problemas estruturais de um modelo que terna nos anos de 1980, deixariam futuramente o país em empregava energia importada barata e dependia do afluxo situação desesperadora. de investimentos de capitais estrangeiros e da utilização de tecnologia igualmente importada. Diante de tais pro- Ainda que o projeto de abertura política fosse uma rea- blemas, a nova equipe econômica, integrada por Mário lidade, as clivagens internas intensificaram-se pela manu- Henrique Simonsen no Ministério da Fazenda, e João Pau- tenção do poder paralelo e autônomo da comunidade de 8990 informações. Esses órgãos de repressão e inteligência sa- 4.2 Os fundamentos do Pragmatismo botavam o processo de abertura, trabalhando no sentido de Responsável e Ecumênico minar a legitimidade do presidente e sua autoridade diante das Forças Armadas. A reação contra o governo partiu de A reação aos problemas econômicos enfrentados pelo Brasil durante a gestão de Geisel materializou-se na alte- setores da direita opostos à abertura e, posteriormente, ocorreu manifestação de amplos setores da sociedade con- ração e/ou no aprofundamento das relações exteriores. Naquele momento, o país já alcançara níveis importantes tra o governo. de inserção internacional. A atuação externa do Brasil tor- Em meio a esse complexo processo que colocava o go- nava-se ainda mais urgente diante da conjuntura interna- verno diante de reações dentro das próprias Forças Arma- cional hostil e do fato de o regime militar ter piorado a dis- das, da direita, dos movimentos populares de uma maneira tribuição de renda, o que ocasionou a redução do mercado geral e da mídia internacional, foi necessário a alternância interno em relação às dimensões da economia. de concessões limitadas com o Em abril A primeira medida da diplomacia denominada Prag- de 1977, o governo anunciou uma série de mudanças, co- matismo Responsável e Ecumênico, sob o comando do inhecidas como Pacote de Instalou-se um clima de chanceler Antônio Azeredo da Silveira, foi aproximar-se contestação que foi habilmente controlado pelo governo. dos países árabes. Itamaraty recebeu o escritório da Como exemplo, pode-se citar o discreto apoio que fora OLP em Brasília, apoiou o voto antissionista junto à ONU dado pelo governo brasileiro à Lei do Divórcio, em 1977. e adotou uma intensa política exportadora de produtos pri- Ao mesmo tempo em que agradava à oposição, Geisel mários, industriais e serviços, em troca do fornecimento deslegitimava a Igreja, grande contestadora do regime e de petróleo. E, ainda, o Brasil estabeleceu uma coopera- ferrenha opositora do divórcio. No final de 1978, o AI 5 ção muito próxima com potências regionais, como Argé- foi extinto. Todavia, houve intervenção nos sindicatos, fo- lia, Líbia, Iraque e Arábia Saudita para a prospecção de ram baixados decretos que proibiam greves e manifesta- petróleo e para o desenvolvimento tecnológico-militar, ções de rua, e operários, estudantes e até padres foram co- traduzido em venda de armas brasileiras e projetos co- locados na prisão. muns para a fabricação de mísseis. Ocorreu um incremento comercial com países que já possuíamos vínculos no campo socialista, bem como o surpreendente restabelecimento das relações diplomáti- 4. governo fechou Congresso e todos os governadores de Estado e um terço dos senadores seria escolhido indiretamente em 1978 por co-comerciais com a China, em 1974. Cabe destacar que o colégios eleitorais estaduais; os deputados federais teriam seu número Brasil passou a cooperar com esses países também em ter- fixado à base da população e não no número total de eleitores registra- a propaganda eleitoral dar-se-ia nos termos da Lei Cf. Skid- mos estratégicos, marcando sua posição autônoma no ce- more, 1989. 9192 nário mundial. Seguindo essa linha, a atuação brasileira pontuais, a exemplo do uso da energia atômica, mas tam- nos organismos internacionais foi de forte protagonismo, bém a uma postura desafiadora quanto à influência regio- agora em convergência explícita com os demais países do nal e internacional desse país. projeto de autonomização Terceiro Mundo. da indústria de base e de busca de alternativas exigia, ne- Pragmatismo Responsável e Ecumênico junto às po- cessariamente, uma estratégia de multilateralização das tências capitalistas também produziu resultados significa- relações internacionais. tivos. Frente ao problemático relacionamento com os EUA, Porém,o pragmatismo não foi somente a busca de al- a diplomacia brasileira não teve dúvidas ao conferir novo ternativas aos EUA no Primeiro Mundo. Houve avanços conteúdo ao relacionamento com a Europa Ocidental e no relacionamento com países árabes, com a África Sub- com o Japão. Tratava-se de uma cooperação estratégica, saariana e com a América Latina. Governo Geisel refor- que ultrapassou a tradicional política de barganha caracte- çou o bilateralismo e ampliou as parcerias com países com rística de períodos anteriores. Na América Latina, o Brasil o qual o Brasil possuía relações históricas. Governo Gei- procurou maximizar as oportunidades de cooperação, aban- sel, em larga medida, foi mais bilateralista que o Governo donando o discurso ufanista de "grande potência". Médici, estabelecendo mecanismos de cooperação por Para interpretar os avanços diplomáticos do Brasil du- esta via. Alguns exemplos demonstram como o Brasil uti- rante o período Geisel, deve-se levar em consideração a lizou o âmbito multilateral para obter resultados concretos tradição da continuidade das linhas gerais da diplomacia de questões levantadas na esfera multilateral. Assim, o brasileira. De maneira geral, as mudanças são identifica- pragmatismo se caracterizou pela multilateralização e pe- das pelos meios empregados e estilo de atuação. Nesse lo aprofundamento do bilateralismo. sentido, o comportamento pragmático do Governo Geisel Em 1975, o chanceler brasileiro declarou que a filoso- pode ser comparado às iniciativas de Costa e Silva, bem fia das decisões do governo em política externa poderia como os canais de atuação definidos e ampliados já no ser resumida a partir de três conceitos: pragmatismo, res- Governo Médici. Evidentemente que as mudanças no mo- ponsabilidade e ecumenismo. pragmatismo refletia a delo econômico redimensionaram as estratégias externas, eficiência material e uma perspectiva realista na avaliação produzindo um salto qualitativo nesse momento. das circunstâncias. A responsabilidade tinha a função de Assim, a grande diferença entre o Governo Geisel e os proteger o pragmatismo daquilo que poderia ser conside- demais consiste na existência de um projeto de autonomi- rado antiético. E, por fim, o ecumenismo manifestar-se-ia zação da indústria de base e nos grandes projetos de infra- na ampliação de parcerias desejadas prescindidas de afini- estrutura do país como resposta à crise econômica mundi- dades ideológicas e políticas em escala planetária. al. Essa situação levou o país a um antagonismo com o po- Foram feitas pesadas críticas ao pragmatismo no plano der norte-americano, pois tocou em questões conflitivas interno e dentro do próprio Itamaraty, demonstrando que 9394 existiam outras propostas para a inserção internacional do parte dos conflitos ocorreu em torno de questões políticas Brasil. As críticas mais fortes foram as da imprensa, que já relacionadas à tecnologia nuclear e aos direitos humanos, experimentava a abertura de espaço para a oposição ao re- bem como autonomia assumida pelo Brasil nos fóruns gime. Contudo, ao considerar as continuidades e rupturas internacionais ao rejeitar posicionamentos que afetassem na política externa brasileira, torna-se impossível não com- suas relações exteriores. parar o Pragmatismo Responsável e Ecumênico à Política A necessidade brasileira de desenvolver fontes alter- Externa Independente de Jânio Quadros e João Goulart. nativas de energia e a eleição da energia nuclear esbarrou em uma questão bastante cara aos interesses dos EUA a 4.3 As difíceis relações com os EUA e a dependência dos países de sua esfera de influência nas cooperação com a América Latina questões nucleares. Na perspectiva do governo brasileiro, Durante a administração de Geisel, a política externa seria perigoso para a economia depender de fatores exter- brasileira aparecia como vetor de um projeto de desenvol- nos para satisfazer às necessidades de insumos fundamen- vimento com vistas à autonomia em termos industriais e tais e tentou-se evitar o que ocorreu com o petróleo. Ou- energéticos. projeto brasileiro, assim, tocava em áreas tros países foram levados em conta, especialmente o Ca- conflitivas e os atritos com os EUA seriam inevitáveis. Na nadá e a França. A Alemanha já possuía acordos de coope- relação com os EUA pode-se reconhecer a tentativa brasi- ração técnica e científica firmados com o Brasil. do leira de inserir-se no cenário internacional por duas vias. Em 1975, um Acordo Nuclear foi assinado com a Ale- Brasil apresentava-se como um país industrializado e manha Ocidental. A opção do Brasil incidia sobre duas di- buscava um tratamento à altura, ao mesmo tempo em que bus- mensões básicas da estratégia norte-americana a econô- cava sua cota como país em Esse com- mica e a político-estratégica. Assim, a reação dos EUA ul- também pôde ser observado nos fóruns mul- trapassou o plano comercial. Apesar de a crítica convergir tilaterais, fato que impede qualquer "caracterização sim- para o perigo da proliferação nuclear, os EUA, na verdade, plista da política externa brasileira: nenhum alinhamento estavam perdendo um dos mais rendosos negócios e que ou concordância será irrestrito e nenhuma discordância se comportava como monopólio do país, a instalação de será (VISENTINI, 2004: 213). usinas nucleares. Por outro lado, a relação de aliado prefe- Nesse sentido, os atritos entre Brasil e EUA concentra- rencial com o Brasil estava ameaçada. ram-se nos planos econômico e político. No plano econô- Ainda assim, não interessava aos EUA, em um mo- mico, os atritos reproduziam os de outros tempos a ven- mento de crise política e moral, dificultar o relacionamen- da de manufaturados para os EUA, assim como o desinte- to com o Brasil. Por ocasião de uma visita de Kissinger ao resse norte-americano em contribuir para a reforma do sis- Brasil, em 1976, foi assinado o Memorando do Entendi- tema comercial e financeiro Ademais, boa mento, que estabelecia reuniões bilaterais de consulta so- 95bre diversas questões, o que foi interpretado como um ca- Geisel reagiu prontamente e denunciou a interferência nos nal de reconhecimento da importância do Brasil pelos assuntos internos, rejeitando qualquer ajuda que estivesse EUA. memorando não garantiu a solução da questão ligada a questões internas. nuclear, agravando-se com a eleição de Jimmy Carter nos Esse foi o momento mais sério dos desacordos entre EUA, que tentou suspender o acordo entre Brasil e Alema- Brasil e EUA. Em alguns dias, o governo brasileiro anun- nha Ocidental. governo brasileiro reagiu e evitou a sus- ciou o cancelamento do Acordo Militar com os EUA, e, pensão do acordo, e os efeitos dessa atitude gerou dividen- alguns meses depois, Geisel cancelou mais quatro acordos dos internos para o Governo Geisel, alinhando os gover- militares com os EUA. Em março de 1978, Carter veio ao nistas e a oposição. Acordo Nuclear entre o Brasil e a Brasil, e houve mudanças nas atitudes norte-americanas. Alemanha Ocidental gerou a crise mais séria entre esse Essas mudanças operaram uma espécie de retirada confu- país e os EUA desde a Segunda Guerra Mundial. sa, quando perceberam que suas estratégias estavam sen- Em 1977, Carter pressionou o Chase Manhattan Bank do contraproducentes. e o Eximbank para que suspendessem os financiamentos Em relação à América Latina, apesar da prioridade con- negociados com o Brasil, e paralisou o fornecimento de ferida à Europa Ocidental, o governo brasileiro manteve urânio enriquecido à Alemanha Ocidental. Em contrapar- uma extensa agenda. As necessidades impostas pelo proje- tida, Geisel denunciou, em setembro de 1977, o Acordo to de desenvolvimento nacional parecem ter sido a razão de do Militar com os EUA de 1952, bem como outros instru- uma aproximação maior com o norte capitalista, mas não mentos de cooperação bilateral entre os países. A coopera- interferiu no propósito de cooperação com os países latino- ção Brasil-Alemanha Ocidental vinha sendo tomada como americanos, ainda que em bases meramente comerciais. modelo de cooperação Norte-Sul. Essa situação acabou por produzir uma nova onda de acusações vinculadas à in- Na região do Prata houve a continuação dos debates disposição dos EUA em relação a essa questão. Cabe res- em torno da questão Corpus-Itaipu. As relações com a saltar que a polêmica em torno do tema direitos humanos Argentina melhoraram significativamente em virtude da foi desencadeada a partir da posse de Carter. identidade ideológica produzida após o golpe de 1976, mas a disputa entre Brasil e Argentina pela hegemonia da Em 1976, o Congresso Americano aprovou uma lei região do Prata manteve-se. As relações entre os dois que exigia do Departamento de Estado um relatório anual países no período Geisel podem ser caracterizadas por sobre os direitos humanos nos 82 países que recebiam aju- redefinição e trégua, e a questão principal a ser solucio- da militar ou de segurança, entre eles o Brasil. primeiro nada era a da conciliação de Corpus com Itaipu, já que a relatório referente ao Brasil foi entregue em 1977 e fazia decisão da construção de duas usinas não estava mais em referência às prisões ilegais, às cassações dos direitos po- questão. o ponto central da negociação era a inter-re- líticos, à censura da imprensa e às pressões sobre a Igreja. lação constante entre a cota de Corpus e a flexibilidade de 9798 operação em Itaipu. Como ambos os países não aceitavam As relações com a Venezuela interessavam muito ao interferência em suas negociações com o Paraguai5, a Brasil desde o choque do petróleo em 1973, por ser o questão era quase insolúvel. maior fornecedor do produto na América Latina. Com o Equador foi dado prosseguimento às negociações do Pe- Sendo assim, a diplomacia brasileira deu início às ne- riodo Médici. México mereceu mais atenção no Gover- gociações que resultaram no Acordo Multilateral Cor- no Geisel. Em 1974 foram assinados cinco acordos e, em pus-Itaipu, assinado em 1979, já durante o Governo Fi- 1978, foram assinados mais três. Em 1976 o Brasil firmou gueiredo. No Governo Geisel foram assinados acordos e acordos com a Guiana e o Suriname6. No tocante à Améri- convênios complementares à Itaipu e, em 1978, verifi- ca Central e ao Caribe, manteve-se a rotina de contatos di- cou-se a ampliação de acordos comerciais e de cooperação plomáticos e acordos de intercâmbio comercial e coopera- técnica. Durante o Governo Geisel, em relação à Bacia do ção técnica e científica. Prata, houve uma grande quantidade de iniciativas em re- lação ao Uruguai nas negociações, diferentemente do pe- ríodo Médici, no qual se privilegiou a Bolívia. De qual- 4.4 novo impulso às relações extra-hemisféricas quer forma, o país seguiu ocupando espaço importante na agenda brasileira. Em 1975, Geisel e Juan Maria Borda- Entre 1974 e 1979 houve uma grande participação dos berry assinaram acordos que ficaram conhecidos como países da Europa Ocidental e do Japão na agenda brasileira, "documentos de Rivera". Esses acordos mobilizaram re- com visitas mútuas e assinaturas de importantes acordos e cursos sem precedentes na história dos dois países. memorandos. As capitais europeias e Tóquio representa- Chile, apesar da identidade dos regimes, foi o país vam uma alternativa a Washington. Além dos países mais andino com menor movimentação por parte da diplomacia importantes, com os quais o Brasil já possuía sólidas rela- no Período Geisel. As relações com o Peru se fortaleceram ções, a exemplo do Reino Unido, França, Itália, Alemanha a partir de 1975, com a ascensão de Morales Bermudez, Ocidental, foram firmados acordos ou memorandos com fato que é justificado por alguns analistas como o mais um vários outros países da Europa, como os golpe no já enfraquecido Pacto Andino. Com a Colômbia, Os projetos de infraestrutura e a necessidade de obten- o Brasil assinou quatro acordos em 1976, além de, no pla- ção de tecnologia, fundamentos básicos do modelo de de- no multilateral, convergir com esse país na defesa de pre- senvolvimento adotado pelo Brasil, encontraram nas rela- e mercados de café, pois eram os dois principais pro- ções com a Europa Ocidental e também com o Japão a dutores mundiais. possibilidade de subverter a dependência em relação aos 6. Em novembro de 1975 Suriname tornou-se independente da Ho- landa. 5. Corpus também era associada ao Paraguai. 99100 EUA. Os países da Europa Ocidental encontravam-se na adotadas novas formas de cooperação com vistas à inten- esfera de atuação bilateral da diplomacia brasileira. Ja- sificação do intercâmbio bilateral. Contudo, a estratégia pão, por seu turno, passou a relacionar-se comercial e di- de joint ventures foi utilizada como meio de aumentar e plomaticamente com o Brasil de forma intensa a partir da diversificar os negócios com o Leste Europeu. década de 1970. As relações com o mundo desenvolvido Com os africanos, já no Governo Médici estruturou-se apoiaram-se na possibilidade de o país obter benefícios o que futuramente seria definido como a "política africana econômicos e, em menor medida, políticos. Para a Europa do Brasil". Entre 1972 e 1973 o chanceler brasileiro viajou e para o Japão o intercâmbio também era vantajoso, pois por onze países africanos, fato que marca o restabelecimen- se tratava de um país diferenciado no Terceiro Mundo, to das relações do Brasil com as nações africanas. No Go- com um parque industrial razoável e com um mercado verno Geisel, a aproximação com a África continuava a de- consumidor de grandes dimensões. senvolver-se em termos bilaterais, embora as estratégias fos- Pragmatismo Responsável e Ecumênico deu prosse- sem pensadas em conjunto para todos os países da região. guimento à tendência de aproximação comercial e técnica Um dado importantíssimo foi a condenação do Apartheid, com o Leste Europeu. No âmbito das relações bilaterais, que passaria a ser uma marca da diplomacia brasileira e destacam-se os contatos com a URSS. No campo das rela- abriria novos canais de cooperação com as nações africa- ções comerciais com esse país, o tema dominante foi o de- nas. A África era importante para o projeto de desenvolvi- sequilíbrio na balança comercial. Em 1977, foram discuti- mento brasileiro, pois seus países permitiam a inserção dos das fórmulas para reduzir esse desequilíbrio comercial, fa- manufaturados brasileiros, ao mesmo tempo em que asse- vorável ao Brasil. A foi outro país importante guravam ao Brasil matérias-primas e produtos primários. nas relações brasileiras com o Leste Europeu. Ainda em Em 1975, quando as tropas portuguesas retiraram-se 1977, o vice-presidente do país visitou o Brasil, declaran- de Angola, o Brasil foi o primeiro país a estabelecer rela- do que o governo iugoslavo apoiava a tese brasileira de li- ções com o novo Estado, reconhecendo o governo marxis- vre acesso à energia nuclear para fins pacíficos. Em 1978, ta do MPLA. Esse ato, que teve certo custo político, fez o presidente da Câmara de Comércio da fez um com que Angola se tornasse um dos grandes parceiros do novo alerta sobre o perigo do comércio do Brasil com o Brasil. A aceitação do governo do MPLA, por sua vez, au- Leste Europeu, pois poderia estagnar ou regredir devido xiliou nas relações brasileiras com Moçambique, que esta- ao desequilíbrio das trocas, que geravam cada vez mais vam estremecidas. Nesse contexto, o Brasil firmou acor- saldos positivos ao lado brasileiro. dos ou foram estabelecidas relações diplomáticas com vá- A também importava o café brasileiro, ser- rios países da África, como: Líbia, Gana, Senegal, Quênia, vindo de escoadouro para o produto, em troca de equipa- Marrocos, Costa do Marfim, Guiné Bissau, Lesoto, Zâm- mentos industriais. Em relação à Polônia, em 1977 foram bia, Níger, Gabão, Argélia, Libéria, Cabo Verde, Nigéria e 101102 Togo. A movimentação diplomática em relação à África trouxe inúmeros avanços nas relações com o Terceiro foi intensa durante o Governo Geisel. Mundo, os árabes em particular, mas também fortes No entanto, o Brasil teve sua penetração comercial na cas por parte dos EUA e de Israel. Nessas condições, a África obstaculizada pela Convenção de Lomé, de feverei- movimentação diplomática em relação ao Oriente Médio ro de 1975. Essa convenção, firmada entre a Comunidade foi intensa. Em razão das necessidades de petróleo, a ba- Econômica Europeia e suas ex-colônias da África, Caribe e lança comercial brasileira com o Oriente Médio sempre Pacífico, conferia vantagens para a Europa no relaciona- fora deficitária. mento comercial com esses países. Somente oito países da Dentro da proposta de assegurar o fornecimento de pe- África não assinaram a convenção. São eles: Argélia, Mar- tróleo e de fortalecer os laços diplomáticos e comerciais rocos, Tunísia, Líbia, Egito, Sudão, Angola e Moçambique. com o Oriente Próximo, o Brasil tomou várias iniciativas e Brasil tratou de aproveitar os laços culturais, linguísticos assinou acordos com países como Kuwait, Arábia Saudita, e a convergência climática, oferecendo aos africanos pro- e Iraque. Em contrapartida, os países do Oriente Médio dutos e tecnologias mais próximos a sua realidade. compravam crescentes quantidades de manufaturados bra- Já as relações com os países do Oriente Médio eram sileiros. Em 1978, enquanto no Iraque as explorações pe- fundamentais para o tipo de inserção internacional que o trolíferas da Braspetro prosseguiam em ritmo acelerado, Brasil buscava. A decisão do Governo Geisel de inserção no a Petrobras Internacional S/A desativou suas explo- dos países árabes nas fronteiras diplomáticas e de aproxi- rações, pois o governo daquele país aumentou a alíquota mação política foi uma tentativa de garantir o fornecimen- de imposto de renda. to de petróleo que se tornava a maior preocupação do go- A instabilidade política do resultou na suspensão por verno brasileiro, em virtude do projeto de desenvolvimen- completo das exportações de petróleo, atingindo o abasteci- to acelerado pelo qual o país passava. A crise energética mento de óleo para o Brasil. Assim, o Brasil procurou con- havia se tornado bastante séria e a garantia de fornecimen- centrar seus esforços no aumento da importação de petróleo to de petróleo era fundamental para sustentar o projeto de do Iraque, já que este foi o único grande exportador que au- autonomização industrial. mentou sua produção. Em 1978, a Construtora Mendes Jú- governo brasileiro apoiou a causa palestina em 1974, nior foi selecionada, juntamente com outras duas empresas, e foi incluído na lista de países "amigos" da Arábia Saudi- para contrato de construção de 500km da Ferrovia Bag- ta, para os quais o fluxo de abastecimento e petróleo esta- dá-Hsaibah. valor total do contrato atingiu 1 bilhão e 200 va garantido. apoio brasileiro na ONU ao chamado milhões de cruzeiros. Outros contratos importantes para o "voto antissionista" (uma Resolução da Assembleia Geral Brasil também foram assinados com o Iraque. que condenava o racismo e incluía o Apartheid e o Sionis- Uma das medidas de maior impacto do Pragmatismo mo entre suas manifestações) foi um gesto arriscado, que Responsável e Ecumênico foi o estabelecimento de rela- 1034 ções diplomáticas com a China, em 1974. Foi no momento "potência diferente", ampliando concretamente de forma da détente entre as superpotências que toma lugar a mu- imediata sua capacidade internacional de barganha. dança de rumos da política externa brasileira, sob o co- O Brasil fez-se presente também em outras áreas dis- mando do Presidente Geisel. As políticas externas do Bra- tantes, intensificando a relação com os Tigres Asiáticos. sil e da China tinham como um dos traços principais o es- Restabelecimento de relações diplomáticas e acordos fo- treitamento de relações com os países do Terceiro Mundo ram efetivados com Bangladesh e Nepal, bem como com e a diversificação de interesses e dependências com rela- as Filipinas. Em relação à Índia foram intensificadas as ção ao Primeiro Mundo. trocas comerciais e tecnológicas. Com a Indonésia, em Itamaraty fomentou e orientou o restabelecimento função da posição brasileira relativa à retirada portuguesa de relações com a China, esclarecendo e persuadindo os do Timor e a oposição à política indonésia nessa círculos mais conservadores, na tentativa de apresentar a questão, as relações sofreram um retrocesso. Na Oceania, importância e nova posição desse país no cenário interna- o Brasil estreitou os vínculos com a Austrália, expandindo cional. reatamento das relações diplomáticas com a as relações econômicas bilaterais. China foi motivo de elogios ao Governo Geisel. Os inte- Persistiu, durante a gestão Geisel, a ambiguidade da resses brasileiros dirigiam-se ao petróleo, ao carvão mine- política externa brasileira no plano multilateral, ora acei- ral e a insumos farmacêuticos, e os chineses aos manufatu- tando as teses dos centros desenvolvidos, ora ajustando-se rados. saldo da balança comercial brasileira subiu de aos interesses dos países em desenvolvimento, ou ainda cerca de 6 milhões de dólares no início de 1976, para 146 posicionando-se de forma completamente independente milhões de dólares um ano depois. Em 1978, Brasil e Chi- de os grupos. Percebe-se uma maior "agressivida- na assinaram um acordo para regular o comércio bilateral. de" e objetividade no discurso multilateral do Governo objetivo foi o aumento das trocas, com vistas a um equi- Geisel. As respostas do Governo Geisel à crise estrutural líbrio na balança comercial. Na ocasião, foi negociada do petróleo vieram sob a forma de aceleração do cresci- uma solução para o problema do transporte, considerado mento e investimentos orientados para a criação de indús- como o maior empecilho ao desenvolvimento das relações trias de capital e tecnologia. Mais importante, o Brasil comerciais entre os dois países. passou a manter relações de tipo "horizontal" com potên- Em janeiro de 1979, a Petrobras elegeu a China como cias médias do mundo em desenvolvimento, as quais não uma das alternativas para fornecimento de petróleo, diante implicavam subordinação para nenhum dos lados, o que da instabilidade política no fato de a China passar a era revolucionário em termos de política internacional, ser o único país em desenvolvimento a situar-se no centro pois afetava o equilíbrio mundial. do sistema mundial do poder propiciava ao Brasil a possi- bilidade de construir uma aliança estratégica com uma 7. Timor foi ocupado e anexado pela Indonésia em 1976. 105106 4.5 A Diplomacia Multilateral e de Segurança Embora as relações multilaterais do Brasil se caracte- Já no início do Governo Geisel era possível perceber o rizem por certa ambiguidade, o país não abandou o multi- lateralismo, como dito anteriormente O Brasil buscou apro- ceticismo da diplomacia brasileira frente à capacidade dos ximar-se tanto dos centros desenvolvidos quanto dos paí- órgãos multilaterais em responderem às demandas do país. ses em desenvolvimento. A aproximação com o segundo Sem abandonar a via multilateral, a diplomacia brasileira avançou no sentido de buscar alternativas para realizar as grupo não foi, aparentemente, um objetivo em si, mas uma metas definidas para o setor externo. No contexto de crise estratégia para a modificação da ordem internacional, con- siderada assimétrica, em nome do interesse nacional. financeira e do comércio internacional, o governo brasilei- ro apresentou uma proposta que refletiu, de certa forma, o Durante o Governo Geisel, houve um im- perfil da política externa do Brasil o Acordo Geral, entre pulso e maior objetividade no discurso multilateral. Te- países desenvolvidos e em desenvolvimento. mas sensíveis e antes tratados de forma muito genérica e tênue, a exemplo da descolonização dos países da África e Essa proposta previa a alteração das regras injustas do comércio internacional existentes no seio do Gatt. Segun- a questão palestina, foram tratados por Azeredo de forma muito direta e enfática o Brasil posicionava-se favora- do Cervo e Bueno (1992), o governo pretendia tornar ope- velmente à descolonização e à retirada de Israel dos terri- rativa a doutrina brasileira da "segurança econômica cole- tórios ocupados. Quanto aos temas tradicionais da diplo- tiva". Azeredo da Silveira expôs o projeto, em setembro de 1975, na VII Sessão Especial da Assembleia Geral da macia brasileira o apelo à segurança econômica coletiva, a reivindicação da reforma do sistema comercial interna- ONU, reiterado, posteriormente, na XXX Assembleia Ge- cional, a defesa do desarmamento, as críticas à política dos ral, bem como, em 1976, na Unctad, no Gatt e na Confe- rência sobre Cooperação Econômica Internacional. países desenvolvidos em relação ao meio ambiente, as crí- ticas ao congelamento de poder mundial pelas superpotên- A resistência dos países desenvolvidos à proposta bra- cias o país manteve sua postura na defesa de uma ordem sileira fez com que a atuação multilateral do Brasil fosse mais justa e que vislumbrasse os interesses dos países em cada vez mais realista, aproveitando as oportunidades desenvolvimento. para a obtenção de vantagens concretas ao país. Evidente- No contexto de crise econômica, o país rompeu com o mente, a reação dos países desenvolvidos foi rápida quan- ufanismo nacional dos anos anteriores, na medida em que do sentiram que seus sistemas produtivos poderiam estar seus impactos foram visíveis na balança comercial brasi- ameaçados. Diante do fracasso das negociações com o leira. A essa crise estrutural, o Governo Geisel respondeu Norte, a ação conjunta dos países do Terceiro Mundo so- sob a forma de aceleração do crescimento, apesar do au- freu um desgaste. governo brasileiro, todavia, não per- mento substancial do endividamento, do aproveitamento da maneceu inerte. oferta de fundos procedentes da Opep e de investimentos 107108 orientados para a criação de indústrias de capital e tecno- Em termos de comércio internacional, a década de logia intensivos. Segundo Camargo (1989), essas ações 1970 caracterizou-se por desequilíbrios comerciais em di- colocaram a empresa estatal no centro da industrialização versos eixos de relações nos quais o Brasil atuava. De um brasileira e garantiram mais cinco anos de crescimento e uma lado, o comércio brasileiro com o bloco socialista era mar- taxa um pouco inferior à alcançada no período anterior. cado pelo desequilíbrio em favor do Brasil, sendo cons- Alguns dados ilustram o fato de que em 1974 o Brasil tantes as negociações e as pressões para reduzi-lo. De ou- encontrava-se muito mais exposto ao jogo das forças eco- tro lado, as relações comerciais brasileiras com os países do Oriente Médio foram extremamente desfavoráveis, em nômicas internacionais do que em 1964. Em 1964, as exportações brasileiras atingiram 1,5 bilhão de dólares, função da crescente importação de petróleo dessa região. Desfavorável também era o comércio com a América do do qual mais da metade era representada pelas vendas de café. Em 1973, as exportações atingiram 6,2 bilhões Norte. Com a Ásia, à exceção da China, o Brasil tinha um de dólares e a participação do café baixou para menos de déficit de 8 milhões de dólares. Com a Associação Euro- 25%. esforço de importações fez a dívida externa subir peia de Livre Comércio esse número, um pouco menor, era de 5 milhões de dólares. de 4,4 bilhões de dólares para 12,6 bilhões de dólares. Nesse sentido, o país passou a enfrentar problemas com os Quanto às questões nuclear e de segurança cabem al- EUA e com a CEE em virtude da diversificação da pau- gumas considerações concernentes a pontos específicos ta de exportações. que incidiram sobre o posicionamento brasileiro durante o A estrutura comercial brasileira durante o "Milagre" Governo Geisel. A Doutrina de Segurança Nacional foi reformulada sob a influência de dois fatores a elimina- dos anos de 1970 alterou o padrão das exportações em fa- vor dos produtos manufaturados, e os mercados que as ab- ção do modelo bipolar como orientador da política externa sorviam diversificaram-se consideravelmente. Em 1974, e desgaste global do diálogo Norte-Sul. Essas definições foram importados 800 milhões de dólares em tecnologia foram determinadas pelas divergências crescentes com os na forma de patentes e de licenças de fabricação, EUA, bem como pelas dificuldades impostas pelos países e implícita, contidas nos produtos vendidos ao exterior, o centrais para que o país adquirisse tecnologias avançadas. que corresponde a cerca de 20% do total das exportações Agregado a essas condições, a percepção, segundo a qual brasileiras (VISENTINI, 2004: 266). Esse é um contexto o poder e a riqueza estavam congelados através dos siste- no qual é intensificado o dilema da bipolaridade e das di- mas de segurança das superpotências, fez com que o Bra- ferenças entre países ricos e países pobres. Coube ao Go- sil buscasse uma atuação mais individualizada. verno Geisel conferir prioridade ao último, o que define as Passada a primeira fase dos governos militares, a di- bases das mudanças operadas e que caracterizam a política plomacia brasileira abandonou a política de segurança co- externa do chamado "pragmatismo independente". letiva, voltando o tema à esfera de decisão direta do país. 109110 A segurança foi nacionalizada gradativamente, de acordo cial da Escola Superior de Guerra, vinculado ao bipolaris- com os meios internos e vinculada ao desenvolvimento mo e ao anticomunismo, foi superado pela nova doutrina econômico autossustentado. Dessa forma, o país buscava de segurança nacional, que também não encontrava razões compensar o suprimento negado pela ordem internacio- na rivalidade com a Argentina ou na pretensão de um he- nal. Segundo Cervo e Bueno (1992), quatro momentos fo- gemonismo regional. ram decisivos para a nacionalização definitiva da seguran- A postura autônoma do Brasil em relação aos temas da ça: definição de uma política de exportação de mate- agenda internacional, a exemplo da questão colonial africa- rial bélico a partir de 1974, porque o mercado externo tor- na e as exportações bélicas para o Oriente Médio podem ser naria viável a produção em escala de armas portáteis, mu- percebidas como desdobramentos inevitáveis da projeção de nição, aviões, tanques e carros de combate, com o que se uma potência média, que buscava dar vazão às suas poten- pretendia eliminar a dependência e ampliar a segurança; cialidades econômicas, políticas e diplomático-militares. b) o Acordo Nuclear firmado com a República Federal da Nesse contexto, cabe destacar a questão do Acordo Alemanha, em 27 de junho de 1975, porque permitia a Nuclear com a Alemanha (1975), pois afetava o ponto transferência e a absorção progressiva da tecnologia nu- central da política norte-americana para a América Latina, c) la denúncia, em 1977, do Acordo Militar com os ou seja, a manutenção de seu poder hegemônico. Outro as- EUA (1952) e dos demais acordos a ele vinculados, por- pecto a considerar diz respeito à própria estratégia interna- que marcava o fim de uma aliança que vinha da Segunda cional dos EUA que procurava manter as tecnologias de Guerra Mundial e liberava o armamento brasileiro de uma enriquecimento e de reprocessamento de urânio como mo- dependência obsoleta e prejudicial ao desenvolvimento nopólio dos países que já a possuíam, uma vez que permi- tecnológico; d) o desenvolvimento de um programa nucle- tiam a produção exclusiva de armas nucleares. ar paralelo, conjugando, a partir de 1979, projetos integra- dos de pesquisa, implementados pelo Exército, Marinha e Conforme Visentini (2004), em 1972, a Westinghouse Eletric concluiu um contrato para a construção de uma usina nuclear em Angra dos Reis, com base na garantia de Com essas ações, o Brasil desenvolveu condições para que os EUA forneceriam o abastecimento de urânio enri- alcançar a autonomia em relação aos suprimentos de mei- quecido. Em março de 1974, contudo, a Atomic Energy os convencionais e de alta tecnologia de segurança, ex- Comission colocou sob ressalva os contratos para abaste- pandindo a indústria bélica nacional em grande escala, po- cimento de 45 reatores estrangeiros, inclusive o comprado dendo até mesmo competir no mercado internacional de à Westinghouse Eletric pelo Brasil, irritando o governo armamentos. Parece lógico que o impulso à nacionaliza- brasileiro, que passou a sondar outros países. ção da segurança tenha sido originalmente econômico, Nesse quadro, as negociações com a Alemanha Oci- mas logo ganharia contornos políticos. pensamento ini- dental culminaram na assinatura do Acordo Nuclear e Pro- 111112 tocolo Complementar entre Brasil e República Federal da denação das Atividades de Processamento de Dados), atri- Alemanha que previa: a) implantação de oito centrais nu- buindo-lhe a função de definir e executar a Política Nacio- cleares; b) prospecção e tratamento do urânio; c) produção nal de Informática. Estabelecer a reserva de mercado foi o de elementos combustíveis irradiados; d) enriquecimento primeiro ato da Capre, seguido pela convocação das em- do urânio; e) produção de reatores nucleares, instalação e presas nacionais para apresentarem projetos para a produ- componentes; e f) reprocessamento de combustíveis. ção de microcomputadores. No ano seguinte, cinco em- o programa seria executado por estatal brasileira a presas foram qualificadas. Nuclebras (vinculada ao Ministério de Minas e Energia) Algumas empresas norte-americanas, com filiais no e por uma empresa privada alemã a Kraftwek Union, Brasil, solicitaram ao governo dos EUA que pressionasse subsidiária da Siemens. A Alemanha era vista pelo gover- o governo brasileiro para impedir a implantação da reser- no brasileiro como uma parceira ideal, visto que estava va de mercado. No período de 1977 a 1979, teve início o disposta a transferir uma indústria autônoma. Todavia, o desenvolvimento no Brasil de um grande número de em- compromisso do Acordo Nuclear implicava a restauração presas fabricantes de microcomputadores, impressoras, do Estado de direito. Por outro lado, em que pese as pres- unidades de disco, de fita magnética e uma variedade de norte-americanas para barrar a implementação do produtos associados. Contudo, na década seguinte, o es- programa nuclear, a controvérsia em torno do Acordo trou- forço brasileiro em garantir níveis adequados de desenvol- do xe a Geisel alguns dividendos. vimento e sua capacidade de autonomia entraram em cho- A defesa brasileira do Acordo Nuclear baseava-se no que com as novas condições impostas aos países em de- discurso que argumentava em favor da repartição da tec- senvolvimento. nologia entre os países do mundo, a fim de evitar a distân- cia entre países ricos e pobres. argumento brasileiro, no entanto, não impediu os EUA de reacenderem a polêmica em torno da recusa brasileira em assinar o TNP (1969). Brasil respondeu que havia sido assinado o Tratado para Proscrição de Armas Nucleares da América Latina (Trata- do de Tlatelolco, 1967). No cerne desse debate, em 1976, Brasil e Alemanha assinaram o Acordo de Salvaguardas para o Uso Pacífico de Energia Nuclear. Por fim, outro tema que se tornou relevante como questão de política externa foi o da informática. Em 1976, o Governo Geisel expandiu as atividades da Capre (Coor- 113A política externa do 5 Governo Figueiredo (1979-1985) governo de João Baptista Figueiredo foi o último e mais longo do Regime Militar. Sua política externa foi ba- seada na continuidade do Pragmatismo Responsável e Ecu- mênico. Foi através do Universalismo que o Chanceler Ra- miro Saraiva Guerreiro confirmou a diplomacia brasileira no mundo e um dos fatores responsáveis pela intensificação das relações brasileiras com o restante dos países latino-am- ericanos, além da perspectiva de redemocratização. Figueiredo assumiu a presidência no dia 15 de março de 1979, enfrentando logo no início de seu governo muitas manifestações sociais, reação da direita à distensão e o agravamento da crise econômica e da situação internacio- nal. Durante seu governo, ocorreu o Segundo Choque Pe- trolifero8 e com o fim da détente seria inaugurada a "Era Reagan". Nesse contexto, conforme Visentini (1998: 272) processou-se uma grande rearticulação da economia mun- dial, através da reestruturação das forças produtivas, do es- tabelecimento de uma nova divisão internacional da produ- 8. Devido à revolução no e à guerra com o Iraque. 115