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1 ANDRÉ BUENO · CARLOS EDUARDO CAMPOS · AIRAN BORGES ENSINO DE HISTÓRIA ANTIGA 2 Reitor: Prof. Dr. Marcelo Augusto Santos Turine - UFMS Vice-Reitora: Profa. Dra. Camila Celeste Brandão Ferreira Ítavo Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Esporte: Prof. Dr. Marcelo Fernandes. Direção da Faculdade de Ciências Humanas: Profa. Dra. Vivina Dias Sol Queiroz Coordenação do Curso de História: Prof. Dr. Cleverson Rodrigues Edições Especiais Sobre Ontens Comissão Editorial & Científica Dulceli Tonet Estacheski [UFMS] Everton Crema [UNESPAR] Carla Fernanda da Silva [UFPR] Carlos Eduardo Costa Campos [UFMS] Gustavo Durão [UFPI] José Maria Neto [UPE] Leandro Hecko [UFMS] Luis Filipe Bantim [UFRJ] Maria Elizabeth Bueno de Godoy [UEAP] Maytê R. Vieira [UFPR] Nathália Junqueira [UFMS] Rodrigo Otávio dos Santos [UNINTER] Thiago Zardini [Saberes] Vanessa Cristina Chucailo [UNIRIO] Washington Santos Nascimento [UERJ] Rede: www.revistasobreontes.site Coordenador do ATRIVM / UFMS: Prof. Dr. Carlos Eduardo da Costa Campos Rede: https://www.atrivmufms.com/ Ficha Catalográfica Bueno, André; Campos, Carlos Eduardo; Borges, Airan (org.) Ensino de História Antiga. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Sobre Ontens/UFMS, 2020. ISBN: 978-65-00-02134-9 160pp. Ensino de História; História Antiga; Antiguidade Clássica. 3 Sumário POR UM ENSINO DOS ESTUDOS DA ANTIGUIDADE - REFLEXÕES ................................................. 5 O USO DA ARTE NO ENSINO DA ANTIGUIDADE TARDIA por Ana Lucia Santos Coelho e Ygor Klain Belchior ................................................................................................................................. 8 PHYSIS EN LA ANTIGUA GRECIA por Arturo S. Sanz .................................................................... 17 ENSINO DE HISTÓRIA ANTIGA E AS POTENCIALIDADES DA CULTURA MATERIAL: EXPERIÊNCIAS E REFLEXÕES por Airan dos Santos Borges e Carlos Eduardo da Costa Campos ........................ 23 REFLEXÕES SOBRE O DIÁLOGO PARA OS ESTUDOS DA ANTIGUIDADE por Cristina de Souza Agostini ........................................................................................................................................ 36 A BNCC E O ESTUDO DA ÁFRICA E DO EXTREMO ORIENTE ANTIGOS NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: RETROCEDEMOS? por Leandro Mendonça Barbosa .......................... 44 A HQ “OS 300 DE ESPARTA” E O ENSINO DE HISTÓRIA – CONSIDERAÇÕES, IDEIAS E ALTERNATIVAS por Luis Filipe Bantim de Assumpção ................................................................ 50 POR UM MUNDO ANTIGO DE CONTATOS: UMA PROPOSTA DE USO DO FILME ALEXANDRIA EM SALA DE AULA por Thiago de Almeida Lourenço Cardoso Pires ................................................. 62 O LUGAR DA ANTIGUIDADE NOS PROGRAMAS DE HISTÓRIA: DA DISSOLUÇÃO DO CURRÍCULO HUMANÍSTICO AOS DEABATES SOBRE A BNCC por Alessandro Mortaio Gregori ...................... 67 REVISTA EM QUADRINHOS COMO RECURSO DIDÁTICO À DISCIPLINA DE HISTÓRIA ANTIGA por Allef Gustavo Silva dos Santos .................................................................................................... 75 HELENISMO E AS SOCIEDADES CLÁSSICAS OCIDENTAIS: UMA BREVE REFLEXÃO por Avelino Gambim Júnior ............................................................................................................................ 81 UMA PONTE PARA A ANTIGUIDADE: O PENSAMENTO FILOSÓFICO GREGO NA LITERATURA INFANTOJUVENIL por Benigna Ingred Aurelia Bezerril e Krishna Luchetti ................................. 86 O ENSINO DAS LETRAS CLÁSSICAS PARA O ESTUDO DA ANTIGUIDADE – UMA PROPOSTA METODOLÓGICA por Carlos Eduardo Schmitt ............................................................................ 93 A HISTÓRIA ANTIGA PRESENTE NO LIVRO DIDÁTICO por Carolina Lima Costa .......................... 98 PIBID EM PRÁTICA: METODOLOGIA PARA TRABALHAR A CULTURA DO EGITO ANTIGO NO ENSINO FUNDAMENTAL por Cibeli Grochoski e Milliann Carla Strona ..................................... 104 O ENSINO DA ANTIGUIDADE ROMANA: UMA REVISÃO HISTORIOGRÁFICA DE REPRESENTAÇÕES EM LIVROS DIDÁTICOS por Daniel Roberto Duarte Granetto ................................................... 111 A RIQUEZA DO CONTINENTE AFRICANO: UMA EXPERIÊNCIA EM SALA DE AULA por Isabele Fogaça de Almeida .................................................................................................................... 118 UM PASSEIO PELA ANTIGUIDADE CLÁSSICA: RECONSTRUINDO O PASSADO COM O ASSASSIN’S CREED ODYSSEY DISCOVERY TOUR por Isaias Luis dos Santos Junior ....................................... 126 4 RELATO DE EXPERIÊNCIIA: 0,50 CENTAVOS DE GRÉCIA ANTIGA, A APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA E OS USOS DO PASSADO por Jacquelyne Taís Farias Queiroz .......................... 133 NÓS E OS ANTIGOS: USOS DA LITERATURA CLÁSSICA EM MANUAIS DE ENSINO DE HISTÓRIA OITOCENTISTAS por José Petrúcio de Farias Júnior e Gizeli da Conceição Lima ...................... 137 POSSIBILIDADE DE DIÁLOGO ENTRE HISTORIOGRAFIA E ENSINO DE HISTÓRIA A PARTIR DO LIVRO DIDÁTICO: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O EGITO ANTIGO por Raimundo Nonato Santos de Sousa e Ruan David Santos Almeida .................................................................................... 146 ENTENDENDO E REFLETINDO: EDUCAÇÃO NA CHINA ANTIGA E SEUS POSSÍVEIS ENSINAMENTOS PARA O AMBIENTE ESCOLAR BRASILEIRO por Ruan David Santos Almeida.153 5 POR UM ENSINO DOS ESTUDOS DA ANTIGUIDADE - REFLEXÕES A coletânea, intitulada Ensino de História Antiga, demonstra a importância da cooperatividade entre pessoas e instituições. Nesse sentido, o diálogo entre a UERJ, UFMS, UNESPAR e UPE, que sediaram o evento e a publicação com participação de mais de mil comunicadores e dois mil leitores reafirmam o nosso compromisso com o conhecimento científico em tempos tão obscuros. Logo, os textos contidos nessa obra devem ser compreendidos como o resultado de um processo educativo, cultural e científico. Acreditamos que uma atividade dessa natureza viabiliza a relação ativa e transformadora entre a Universidade e a sociedade ao promover a democratização do saber, tornando-o disponível para todos. Em um período instável e nebuloso quanto ao nosso presente e futuro, notamos que muitas justificativas são utilizadas para explicar nossa atualidade. Em algumas delas, o Mundo Antigo é acessado como um lugar de autoridade, detentor de exemplos que podem inspirar o tempo presente. A presente proposta não tem como objetivo defender a canonicidade da História Antiga. Para nós os estudos sobre a Antiguidade figuram como um poderoso instrumento de reflexão para os pesquisadores e discentes contemporâneos ao possibilitar o alargamento das distintas visões de mundo que compõem a contemporaneidade. Desta feita, compreendemos que o ensino e a pesquisa desse vasto Mundo Antigo contribuem de modo ímpar para a construção de uma consciência histórica plural e diversificada. Como foi evidenciado entre os anos de 2015 e 2017 nos debates [e embates] que contextualizaram a seleção dos conteúdos históricos que integrariam a BNCC dos Ensinos Fundamental e Médio, é urgente a necessidade de se rever tanto a forma quanto o conteúdo que integram os Estudos Clássicos ensinados nas escolas contemporâneas. O primeiro passo em direção à isso consiste no rompimento com a falsa oposição entre a academia e as instituições escolares, materializada na metáfora que observa a Universidade como um “castelo de marfim”, isto é, como um lugar inacessível aos “não iniciados”. Neste evento, defendemos a necessidade de ir além das interpretações historiográficas. Acreditamos na importância de um movimento conjunto entre as pesquisas e o ensino do Mundo Antigo, com a finalidade de desenvolverações práticas e direcionadas para a comunidade escolar. Assim, esperamos que as experiências aqui compartilhadas sirvam de inspiração para a promoção de outras práticas pedagógicas entre os professores do magistério superior e da rede básica, bem como discentes em formação. Frente a isso, nas conferências e comunicações enviadas, é possível observar um Ensino de História Antiga problematizador e conectado com a nossa realidade. As experiências aqui agrupadas evidenciam abordagens dinâmicas e criativas que reafirmam a viabilidade das ações conjuntas entre os grupos de pesquisa dedicados à Antiguidade nas IES e as Instituições Escolares, destacando, assim, as contribuições dos especialistas em Antiguidade tanto para os cursos de licenciatura, como para o aperfeiçoamento de professores. 6 A mesa Ensino de História Antiga foi organizada em local ideal, a saber, a rede de internet; garantindo, assim, o longo alcance das discussões. Ademais, foi possível integrar professores e pesquisadores de áreas como História, Arqueologia, Educação, Literatura, Filosofia, Artes, que tem como interesse comum os Estudos Clássicos. A partir deste “encontro”, foram criadas as condições para realização de discussões e debates relativos ao estado atual das pesquisas e práticas de ensino, além de permitir a difusão de seus resultados. Com esse intento, são previstas as realizações de conferências e comunicações com professores e especialistas nacionais e internacionais, atrelados a temática do simpósio. As conferências e as comunicações asseguram o compromisso com a cientificidade, com a sociedade acadêmica, bem como com os que estão fora do meio acadêmico. Abrindo a seção das conferências, destacamos o texto dos professores Ana Lucia Santos Coelho e Ygor Klain Belchior, intitulado O Uso da Arte no Ensino da Antiguidade Tardia Ressaltamos, no qual os autores fornecem instigantes análises sobre as imagens que contribuem para a contextualização e conhecimento de práticas socioculturais da Antiguidade Tardia. Airan dos Santos Borges e Carlos Eduardo da Costa Campos problematizaram as articulações entre a cultura material e o ensino da Antiguidade no texto O Ensino de História Antiga e as Potencialidades da Cultura Material: experiências e reflexões. Nele, os autores analisaram o emprego da cultura material para o Ensino de História, bem com apresentaram duas experiências desenvolvidas com as comunidades universitária e escolar de Caicó – RN e Coxim – MS. Arturo Sánchez Sanz, nosso convidado internacional, contribui com os debates através do texto Physis en la Antigua Grecia, no qual problematiza as questões de gênero e propõe outros olhares para esse tema, auxiliando no alargamento dos debates para o Ensino. O texto Reflexões sobre o Diálogo para os Estudos da Antiguidade de Cristina de Souza Agostini é um convite para pensarmos tanto o diálogo em sala de aula como a vida cotidiana, sobretudo, por realizar importantes reflexões no campo filosófico que contribuem diretamente para a compreensão do papel do diálogo, na Antiguidade e atualmente. Já Leandro Mendonça Barbosa dedicou-se à análise do texto da BNCC destacando diversos pontos sobre os estudos da África Antiga e do Extremo Oriente Antigo. Logo, o artigo A BNCC e o Estudo da África e do Extremo Oriente Antigos nos Anos Finais do Ensino Fundamental: Retrocedemos? provoca e propõe um convite para a comunidade escolar e universitária debater e produzir medidas de ação. Luis Filipe Bantim de Assumpção nos introduz ao estudo das mídias no artigo A HQ “Os 300 de Esparta” e o Ensino de História – considerações, ideias e alternativas. Neste texto o autor fornece um estudo valioso e que pode ser empregado com os alunos, especialmente por possibilitar a 7 construção do ensino com uma linguagem que é aproximada dos educandos. Além disso, o estudo de Assumpção possibilita outra perspectiva ao tradicional ensino atenocêntrico realizado nas escolas. Encerramos os textos dos conferencistas com a proposta de Thiago de Almeida Lourenço Cardoso Pires intitulada Por um Mundo Antigo de Contatos: uma proposta de uso do filme Alexandria em sala de aula. Neste estudo, Pires analisa o filme Alexandria como instrumento de Ensino de História Antiga e destaca elementos para o leitor pensar nas redes de contatos que havia na Antiguidade. Ressaltamos que a presente obra também conta com textos oriundos das comunicações da Mesa de Ensino de História Antiga, o que proporciona ao leitor conhecer algumas ações de projetos desenvolvidos no contexto do PIBID; dos Estágios Supervisionados; de Projetos de Extensão e Pedagógicos; bem como reflexões teóricas para Antiguidade. Em linhas gerais, as produções revelam inquietações e são propositivas no que diz respeito a defesa de novas práticas para o ensino da História Antiga nos diversos níveis do ensino brasileiro. Desta feita, as análises comungam de um objetivo comum, a saber: reconhecer as contribuições do Mundo Antigo para a compreensão de conceitos e produções culturais presentes nas experiências sociopolíticas atuais. Frente a isso, a presente proposta dialoga com outras experiências desse tipo e que foram desenvolvidas em diversas universidades federais e estaduais do Brasil. Para citar alguns exemplos, recordamos os projetos da UNESP – Assis, coordenados pela Profª Drª Andréa Rossi e as Oficinas Pedagógicas em História Antiga. No caso da Antiguidade Clássica e Egípcia na UFRJ, salientamos as atividades promovidas pela Profª Drª Regina Maria da Cunha Bustamante. No âmbito da USP, tivemos os projetos educativos em História Antiga coordenados pela Profª Drª Maria Beatriz Borba Florenzano e pela Profª Drª Maria Isabel Fleming junto ao Museu de Arqueologia e Etnologia. Em todas essas experiências, a História Antiga foi vista como um espaço de reflexão crítica de temas caros ao mundo contemporâneo, um locus de identificação e problematização de inúmeras Referências culturais – vistas, então, de modo mais amplo. Esta produção pretende, portanto, unir-se a elas. Profa. Dra. Airan dos Santos Borges – UFRN / Ceres Prof. Dr. Carlos Eduardo da Costa Campos – UFMS / FACH 81 HELENISMO E AS SOCIEDADES CLÁSSICAS OCIDENTAIS: UMA BREVE REFLEXÃO Avelino Gambim Júnior Já alertava Marc Bloch [2001] que o ofício do historiador não é buscar as origens, já que o historiador é fruto de seu tempo, com suas preocupações e anseios. Logo, ao estudar a história social das sociedades antigas devemos primeiro nos indagar como este tema tem sido apropriado pela historiografia ocidental e o porquê da antiguidade Grécia e Roma ter este apreço tão grande nos estudos históricos, às vezes em detrimento de outras sociedades antigas, não apenas no “velho mundo”, mas igualmente no “novo mundo”. A Antiguidade clássica, aqui entendida como uma periodização tradicional que ressalta as sociedades grega e romana liga-se de muitas maneiras à sociedade moderna ocidental [Funari 2002, 2004], fazendo parte da nossa história enquanto colonizados por europeus e sendo antepassados dos mesmos. Temos um elo de identidade enquanto cultura ocidental européia que nós latino americanos herdamos, já que os europeus elegeram a cultura greco-romana como um ideal de cultura e sociedade [Pinsky, 2010]. Primeiramente devemos explanar brevemente sobre o legado cultural, a política, o pensamento e a mitologia dos gregos e romanos da antiguidade, e em seguida explicar o que é o Helenismo e comparar com a nossa sociedade hoje globalizada, cujos elementos culturais das sociedades greco- romanas herdados são muitos, a começar pela própria língua portuguesa, por exemplo, que apesar de ter outras contribuições de outros povos na península ibérica, teve o latim como base, latim falado pelos antigos romanos, além de várias palavras de origem grega, que também fazem parte de nossa língua eé claro a ideia de democracia e república, provindos da Grécia e Roma Antiga. Apesar de a “Magna Grécia” ter sido formada por colônias em todo o Mediterrâneo ocidental, que além de incluir colônias no sul da Itália, também incluía colônias na França e na Espanha, por exemplo, é somente a partir do período que vai do século IV a.C. com as conquistas de Filipe II e seu filho Alexandre da Macedônia até a conquista romana da Grécia no século II a.C. que elementos culturais como a política, filosofia e a mitologia influenciaram vastas áreas desde o oriente do mediterrâneo, o Egito na África e extendendo-se pelo oriente, incluindo a Mesopotâmia e chegando até a Índia [Funari, 2003]. É importante frizar que durante o período helenístico, a convivência de inúmeros povos, com dezenas de línguas e culturas diferentes, era governada por elites macedônicas que se comunicavam através da língua grega [Funari, 2003], fazendo com que houvesse uma profunda e gigantesca troca cultural. O helenismo não deve ser simplesmente encarado como mais um período da história, ou mesmo dar importância somente aos gregos neste processo, já que foram fundados importantes centros culturais da época como Alexandria, no Egito e Antioquia na Síria [Silva, 2015]. 82 Essa profusão e troca cultural só irá acelerar mais e se expandir por todo o Mediterrâneo e a outros locais como a Europa Ocidental, o oriente médio, e o norte da África, a partir do século I a.C. Lembrando que o sul da Itália já havia sido colonizado pelos Gregos, e quando os romanos conquistaram a Grécia, as elites aprendiam o grego e liam e discutiam suas obras na filosofia, na política, nos códigos jurídicos, na arquitetura e o plano ortogonal das cidades e na mitologia, porém com uma reelaboração própria dos romanos que absorviam e transformavam muitas das culturas que tiveram contato [Funari, 2003], pensando neste aspecto a própria Roma imperial pode ser considerada como um centro helenístico [Silva, 2015]. Mas como a cultura greco-romana chegou até nós? Primeiramente, ao falarmos de cultura ocidental, de Europa, é comum também falarmos de tradição judaico-cristã, já que estes se conectam na antiguidade, no período helenístico grego e imperial romano [Silk, 1984], lembrando que conceitos importantes foram incluídos no judaísmo e no próprio cristianismo, além do fato de Roma ter adotado o cristianismo como religião oficial, de modo que o mundo greco romano sempre esteve presente como legado à Europa, primeiramente colonizada e posteriormente tendo adotado também o cristianismo [Funari, 2003]. Apesar de sempre presentes ao longo da Idade Média europeia, ora pensada como um passado decadente, ora lembrada como uma herança cultural, será apenas no renascimento que as formas de expressão das sociedades clássicas ocidentais, nos idos dos séculos XIV e XV, principalmente na Itália, cresceram na Europa de maneira mais explicita, como uma valorização de um passado romantizado das antigas Grécia e Roma, através da inspiração na literatura, na filosofia, das artes plásticas e da arquitetura, o que trará profunda influencia na formação do que chamamos de mundo ocidental estando ligado a importantes conceitos como Humanismo e Reforma [Silva, 2015], e ao nascimento ainda incipiente de um colecionismo, através da escavação [pagas por mecenas] e violação de tumbas dos antigos romanos [como foi imortalizado pelo pintor Caravagio] que daria origem aos gabinetes de curiosidades durante o iluminismo [Trigger, 1992] que daria origem aos primeiros museus no século XIX [Schwarcz, 1993]. Será no iluminismo no século XVIII, que os discursos de um elo de identidade e inspiração nessas sociedades, irá ganhar mais ímpeto e força, influenciando enormemente a filosofia segundo um momento que a Europa vivia, da ascensão da burguesia e questionamento do antigo regime, que culminará na Revolução Francesa [Funari, 2003; Silva, 2015]. Já na América, especificamente nos EUA, servirá de inspiração no ideal de um sistema político republicano além de inspirar na arquitetura ortogonal das cidades da América espanhola [Funari, 2003]. Até hoje a cultura Greco romana é reapropriada pela cultura ocidental, muitas vezes em detrimento de outras culturas antigas e infelizmente sendo utilizada como discurso de uma pretensa superioridade racial e cultual dos gregos e romanos, embasados nos conhecimentos científicos da época 83 como o evolucionismo social que dividia sociedades humanas em selvagens, bárbaros e civilizados [Morgan, 1877] e as teorias racistas que explicavam que além de um pretenso “milagre grego” de uma superioridade cultural, a cultura grega seria “superior” também devido uma questão de uma “superioridade racial” da raça branca, fortemente influenciados pelo darwinismo social [Schwarcz 1993], que será constantemente retomada, como o caso mais emblemático já no século XX, na Alemanha Nazista inspirada na Grécia Antiga, e novamente na América do Norte, nos Estados Unidos, dessa vez inspirados no imperialismo romano [Funari, 2003]. Em relação a este “milagre grego”, como bem coloca Funari [2003], esta é uma verdadeira falácia, já que cai no erro gravíssimo de negar que as culturas clássicas foram igualmente influenciadas por outras culturas, como os egípcios e a mesopotâmia. Na realidade estes discursos de superioridade, sempre foram utilizados politicamente para justificar ora o imperialismo e neocolonialismo, assim como regimes nazifascistas [Schwarcz, 1993; Funari, 2003]. As culturas não morrem, mas se transformam, mudam as sociedades e se tornam em outras, mas é importante se dar conta da profunda influencia destas sociedades greco romanas sobre o pensamento ocidental, ao mesmo tempo que devemos dar-nos conta que os contextos onde a filosofia, mitologia, política, arquitetura e artes plásticas estavam inseridos são imensamente diferentes da sociedade ocidental da atualidade e reapropriados e resignificados de acordo com uma lógica judaico cristã, ocidental e capitalista. O que foi exposto permite refletirmos como a cultura, a política, o pensamento filosófico e a mitologia, iniciada pela “globalização” do helenismo e império romano sempre serviram como alegorias para as diferentes ideologias e interesses modernos ocidentais, em trânsito ao longo da história, sendo ultimamente apropriado por discursos que seguem uma lógica capitalista [Doberstein, 2002], o que apenas demonstra que os discursos e a subjetividade de quem conta uma história de acordo com a época e os atores sociais envolvidos nesta construção. Fica-nos apenas uma pergunta: Se é importante estudar as sociedades Gregas e Romanas [e de fato é importante], por que não é feito o mesmo com as sociedades antigas da América Latina? As sociedades Maia, Inca e Asteca, por exemplo, foram identificadas como sociedades clássicas, inclusive com elementos que a caracterizariam com um modo de produção asiático [Marx, 1867; Cardoso, 1986; Cardoso & Bouzon, 1990]. Talvez, uma primeira resposta poderia ser para fazermos estudos comparativos, tirando toda a carga evolucionista social e darwinista social [Trigger, 2003], entre o “velho mundo” [incluindo não apenas Grécia e oma, mas a África e extremo oriente] e o “Novo Mundo”, incluindo também as sociedades indígenas da América Latina, como por exemplo, os dados trazidos pela arqueologia sobre as sociedades amazônicas [Roosevelt, 1992, 1993; Schaan, 2004; Gomes, 2017; Rostain, 2012]. 84 Uma chave para refletirmos sobre isso seria através de um pensamento decolonial, indo de encontro com o que tem se defendido como giro decolonial [Ballestrini, 2013] onde se poderia discutir uma história indígena no continente latino americano como as sociedades indígenas [Carneiro da Cunha, 1993] e também africanas e afrodescentes [Reis & Andrade, 2018], ponderadas por pensadores latinos respondendo a questõesque sejam de nosso interesse e condigam com a nossa realidade, e não apenas como um passado ibérico europeu como uma forma de superação do padrão mundial de poder capitalista, no que podemos propor uma maior interculturalidade [Reis & Andrade, 2018] na pesquisa, ensino e extensão referentes ao estudo das sociedades antigas. Sem abandonar o legado dessas culturas greco-romanas, também estudadas sob uma perspectiva pós-colonialista, crítica e interdisciplinar [Garraffoni, Funari & Pinto, 2010], devemos buscar formas de estudar a Antiguidade para além do colonialismo e euro centrismo levando em consideração, as diversas sociedades antigas do continente Africano, assim como as sociedades da Antiguidade dos Andes, do Caribe, da Amazônia, enfim do continente americano como um todo. Referências Me. Avelino Gambim Júnior é professor substituto no Curso de História Universidade Federal do Amapá [UNIFAP]. Arqueólogo colaborador no Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Amapá [CEPAP / UNIFAP]. BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista brasileira de ciência política, n. 11, p. 89-117, 2013. BLOCH, Marc. Apologia da história: ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: J. Zahar, v. 200, p. l, 2001. CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. 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