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28 CAPÍTULO A filosofia surgiu quando alguns gregos, admirados 3 e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, A origem demonstrando que mundo e os seres humanos, da filosofia os acontecimentos naturais e as coisas da natureza podem ser conhecidos pela razão humana, e que a própria razão é capaz de conhecer-se a si mesma. Em suma, a filosofia surgiu quando alguns pensadores gregos se deram conta de que a verdade do mundo e dos humanos não era algo secreto e misterioso, que precisasse ser revelado por divindades a alguns escolhidos. Três musas, alto-relevo grego em mármore, do século IV a.C. Museu Arqueológico Nacional de Atenas. A tradição grega explicava a inspiração como uma dádiva dessas entidades mitológicas. Reprodução Museu Nacional, Grécia Digitalizada com CamScannerUma analogia para filósofo A filosofia se constituiu quando alguns gregos, in- aos jogos e torneios, avaliar o desempenho e julgar o satisfeitos com as explicações sobre a realidade dadas valor dos que ali se apresentavam. Esse terceiro tipo de pela tradição por meio dos mitos, começaram a fazer pessoa, afirmava Pitágoras, é como o filósofo. perguntas e buscar respostas para elas. Admirados e espantados com a realidade, demonstraram que os seres humanos e as coisas da natureza podem ser co- inhecidos pela razão humana, e que a própria razão é capaz de conhecer a si mesma. Em suma, esses pensadores gregos se deram conta Entalhe na entrada da catedral de que a verdade do mundo e dos humanos não era de Chartres (século XII), na algo secreto e misterioso, revelado por divindades a França, representa Pitágoras apenas alguns escolhidos. tocando um instrumento musical. filósofos Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos gregos dedicavam-se (c. 570 a.C.-c. 495 a.C.) a invenção da palavra filosofia. simultaneamente ao que hoje Pitágoras teria afirmado que a sabedoria plena e com- vemos como diferentes áreas do conhecimento. pleta pertence aos deuses, mas que os seres humanos Com isso, ele queria dizer que o filósofo não é mo- podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos. vido por interesses comerciais ou financeiros não filosofia: palavra composta dos termos gregos philo e coloca o saber como um bem a ser comprado e vendi- sophía. Philo quer dizer ou aquela que tem um do no mercado. filósofo também não é movido pelo sentimento pois deriva de philía, e desejo de competir não é um "atleta intelectual", não amor Sophia quer dizer e dela vem a palavra Filosofia significa, portanto, faz das ideias e dos conhecimentos uma habilidade pela e 'o que tem amizade para vencer competidores. O filósofo é, isso sim, movi- pelo do pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar Nos Jogos Olímpicos da Grécia antiga, realizavam-se as coisas, as ações, as pessoas, os acontecimentos, a não apenas competições esportivas, mas também con- vida; enfim, pelo desejo de saber. cursos artísticos. Dizia Pitágoras que três tipos de pes- A verdade não pertence a ninguém nem é um prê- soas ali compareciam: as que iam para comerciar du- mio conquistado por competição. Ela está diante de rante os jogos, sem se interessar pelos torneios; as que todos nós como algo a ser procurado, e é encontrada iam para competir e fazer brilhar suas próprias pessoas, por quem a desejar e tiver olhos para vê-la e coragem ou seja, os atletas e artistas; e as que iam para assistir para buscá-la. que perguntavam os primeiros filósofos Por que os seres nascem e morrem? Por que os semelhantes dão origem aos semelhantes, de uma árvo- re nasce outra árvore, de um nasce outro cão, de um ser humano nasce outro? Por que os diferentes também fazem surgir os diferentes: o dia faz nascer a noite, o inverno faz surgir a primavera, um objeto es- curo clareia com o passar do tempo, enquanto um objeto claro escurece? Por que tudo muda? Por que um dia luminoso e ensolarado, de céu azul e brisa suave, repentinamente se torna sombrio, coberto de nuvens, varrido por ventos furiosos, tomado pela tempestade, pelos raios e trovões? Por que a doença invade os corpos, rouba-lhes a cor, a força? Por que o alimento que sempre me agradou agora, que estou doente, me causa repugnância? Por que o que parecia uno se multiplica em tantos outros? De uma só árvore, quantas flores e quantos frutos nascem! De uma só gata, quantos gatinhos nascem! Por que as coisas se tornam opostas ao que eram? A brasa vermelha e quente se torna um carvão negro e frio. A água tépida pode tornar-se uma barra dura e gelada, deixando de ser líquida e transparente para tornar-se sólida e opaca. A origem da filosofia 33 Digitalizada com CamScannerPor que nada permanece idêntico a si mesmo? De onde vêm os seres? Para onde vão, quando desapare- cem? Por que se transformam? Por que se diferenciam uns dos outros? Mas, também, por que tudo parece repetir-se? Depois do dia, a noite; depois da noite, o dia. Depois do inverno, a primavera, depois da primavera, o verão, depois deste, o outono, e depois deste, nova- mente o inverno. O calor leva as águas para o céu e as traz de volta pelas chuvas. Ninguém nasce adulto ou velho, mas sempre criança, que se torna adulto e velho. Foram perguntas como essas que os primeiros fi- Chuva avança sobre 0 Parque Nacional da Chapada dos lósofos fizeram e, para elas, buscaram respostas. A (MT), em dezembro de 2010. Por que as coisas se religião, as tradições e os mitos explicavam todas essas transformam repentinamente? coisas, mas suas explicações e respostas já não satisfaziam a quem desejava conhecer as causas da mudança, da permanência, da repetição, da desaparição e do ressurgimento dos seres. nascimento da filosofia Os historiadores da filosofia dizem que ela tem da- ses e do início do mundo; humanizaram os deuses, ta e local de nascimento: fim do século VII a.C. e início divinizaram os homens; deram alguma racionalidade a do século VI a.C., na cidade de Mileto, uma colônia grega narrativas sobre as origens das coisas, das pessoas e no território da atual Turquia. E o primeiro filósofo foi das instituições humanas (como o trabalho, as leis, a Tales de Mileto (c. 624 a.C.-c. 546 a.C.), porque foi o pri- moral). meiro a afirmar que a razão pode conhecer a causa da 2. Com relação aos conhecimentos: os gregos origem, permanência e transformação de todas as coisas. transformaram em ciência (isto é, em um conjunto de Além de ter data e local de nascimento e seu pri- conhecimentos racional, abstrato e universal) aquilo meiro autor, a filosofia apresenta um conteúdo preciso que eram elementos de uma sabedoria prática. Assim, ao nascer: é uma cosmologia. transformaram em matemática o que os egípcios pra- ticavam como agrimensura para medir, contar e calcu- cosmologia: palavra composta de cosmo (kósmos), lar os terrenos após as cheias do rio Nilo; transforma- que significa 'a ordem e organização do ou 'o mundo ordenado e e logia, que vem de lógos, ram em astronomia (em estudo da origem, posição e 'pensamento racional, discurso racional, movimento dos astros) a astrologia praticada por cal- Assim, a filosofia nasce como conhecimento racional da deus e babilônios como adivinhação e previsão do fu- ordem do mundo. turo; transformaram em medicina aquilo que, nas cul- Em suas viagens, os gregos entraram em contato turas precedentes, eram práticas de grupos religiosos com os conhecimentos de povos como os per- secretos para a cura misteriosa das doenças. sas, babilônios, assírios e caldeus. Os poetas Homero e Acervo Museu Arqueológico Atenas, elaboraram a mitologia grega antiga com ele- Foto: Thanassis Stavrakis/AP/Glow Images mentos dos mitos e religiões desses povos e das cultu- Fragmento da chamada ras que existiram na Grécia em tempos anteriores. "Máquina de mecanismo de bronze Essa mitologia seria, posteriormente, transformada fabricado na Grécia antiga pelos filósofos. por volta do século a.C. Os gregos imprimiram mudanças profundas ao que Estima-se que 0 aparelho era receberam de outras culturas. Dessas mudanças, vale capaz de calcular a posição relativa do Sol, da Lua e de mencionar quatro: alguns planetas, bem como 1. Com relação aos mitos: os poetas gregos retira- prever eclipses e outros ram os aspectos apavorantes e monstruosos dos deu- ciclos temporais. 34 Capítulo 3 Digitalizada com CamScanner3. Com relação à organização social e os Pode-se dizer que os gregos inventaram a politica gregos inventaram não apenas a ciência ou a filosofia, porque: a) tomavam as decisões com base em discus- mas também a política. As demais sociedades conhe- e debates públicos e as adotavam ou revogavam ciam e praticavam a autoridade e o governo, mas não a por voto em assembleias públicas; b) estabeleceram política propriamente dita, porque não separavam o instituições públicas (tribunais, assembleias, separação poder político de duas outras formas de autoridade: o entre autoridade do chefe de família e autoridade pú- poder privado do chefe de família e poder religioso do blica, entre autoridade político-militar e autoridade sacerdote ou mago. Ou seja, nas sociedades não gregas, religiosa); c) sobretudo, criaram a ideia da lei e da jus- o poder e o governo eram exercidos como autoridade tica como expressões da vontade coletiva pública, e absoluta da vontade pessoal e arbitrária de um só ho- não como imposição da vontade de um só ou de um mem ou de um pequeno grupo de homens, que pos- grupo, em nome de divindades. suíam o poder militar, religioso e econômico e decidiam 4. Com relação ao pensamento: diante da herança sobre tudo, sem consultar ou se justificar a ninguém. recebida, os gregos inventaram a ideia de razão como palavra originada do grego pólis, que significa um pensamento sistemático que segue regras, normas 'cidade organizada por leis e e leis universais. Mito e filosofia Os historiadores da filosofia indagam se ela trans- formou gradualmente os mitos gregos ou produziu uma ruptura radical com eles. Vejamos como os mitos gregos explicavam o Universo e por que se acredita- va neles. A narrativa mítica do mundo Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Por que ele tem autoridade? Acredita-se que o poeta é um escolhido dos deuses, que lhe mostram os aconte- cimentos passados e permitem que ele veja a ori- gem de todos os seres e de todas as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra o mito é sagrada e incontestável porque vem de uma revelação. Como o mito narra a origem do mundo e de tudo o que nele existe? De três maneiras principais: 0 de Páris (1636), do pintor flamengo Peter Paul Rubens 1. Encontrando o pai e a mãe das coisas e dos (1577-1640). A partir do Renascimento, os temas da mitologia grega seres. Isto é, tudo o que existe decorre de relações serviram de inspiração frequente para obras artísticas europeias, ao mesmo tempo que a filosofia grega e as ciências dela derivadas sexuais entre forças divinas pessoais. Essas relações influenciaram pensadores de diferentes geram os titãs (filhos da primeira mãe e do primei- ro pai e seus sucessores como governantes do Uni- 2. Encontrando uma rivalidade ou uma aliança en- verso), os deuses (filhos de um dos e seus su- tre os deuses que fazem surgir alguma coisa no mundo. cessores), os heróis (filhos de um deus com uma humana ou de uma deusa com um humano), os Nesse caso, o mito narra ou uma guerra entre as forças humanos, os metais, as plantas, os animais, as qua- divinas, ou uma aliança entre elas para provocar alguma lidades (como quente e frio, claro e escuro, bom e coisa no mundo dos seres mau, belo e feio, etc.). É assim, por exemplo, que o poeta Homero expli- Trata-se de uma genealogia; isto é, narra-se como ca na por que a vitória nas batalhas da Guerra alguns seres geraram outros seres, coisas e qualidades. de Troia ora era dos troianos, ora dos gregos. A origem da filosofia 35 Digitalizada com CamScannerOs deuses estavam divididos. A cada batalha, o rei dos A filosofia não é uma cosmogonia, e sim uma deuses, Zeus, aliava-se a um grupo e fazia um dos cosmologia, pois é uma explicação racional sobre a lados vencer. origem do mundo e sobre as causas das transfor- A própria causa da guerra teria sido uma rivalida- mações e repetições das coisas. Mas teria a cosmo- de entre as deusas. Elas apareceram em sonho para o logia nascido de uma transformação gradual dos principe troiano Páris, oferecendo-lhe seus dons, e ele mitos ou de uma ruptura radical com eles? escolheu a deusa do amor, Afrodite. As outras deusas, Os estudiosos concluíram que as contradições e enciumadas, o fizeram raptar Helena, esposa do ge- limitações dos mitos para explicar a realidade natural neral grego Menelau. Isso deu início à guerra entre e humana levaram a filosofia a retomá-los, porém os os humanos. reformulando e racionalizando. Ou seja, transforman- 3. Encontrando as recompensas ou castigos que do-os numa explicação inteiramente nova e diferente. os deuses dão a quem os obedece ou desobedece. Quais são as diferenças entre filosofia e mito? Po- Como o mito narra, por exemplo, o uso do fogo pelos demos apontar três como as mais importantes: seres humanos, essencial para diferenciá-los dos ani- mito pretendia narrar como as coisas eram no mais? Conta-se que um Prometeu, roubou uma passado imemorial, e fabuloso antes que centelha de fogo dos deuses e a trouxe de presente tudo existisse tal como no presente. A filosofia, ao para os humanos, de quem era amigo. Prometeu foi contrário, se preocupa em explicar como e por que, castigado, sendo amarrado num rochedo para que no passado, no presente e no futuro, as coisas são uma ave de rapina devorasse seu fígado eternamente. como são. E qual foi o castigo dos homens? Os deuses criaram 2. mito narrava a origem por meio de genealo- a primeira mulher humana, Pandora, uma figura en- gias e rivalidades ou alianças entre forças divinas so- cantadora a quem foi entregue uma caixa que conteria brenaturais e personificadas. A filosofia, ao contrário, coisas maravilhosas, mas que nunca deveria ser aberta. explica a produção das coisas por causas naturais e Pandora foi enviada aos humanos e, cheia de curiosi- impessoais, com base em elementos naturais primor- dade e de vontade de dar-lhes as maravilhas, abriu a diais. Assim, por exemplo, o mito falava nos deuses caixa. Dela saíram todas as desgraças, doenças, pestes, Urano (o céu), Ponto (o mar) e Gaia (a terra); a filosofia guerras e, sobretudo, a morte. Explica-se, assim, a ori- fala diretamente em céu, mar e terra. O mito narrava gem dos males no mundo. a origem dos seres celestes, terrestres e marinhos pe- los casamentos de Gaia com Urano e Ponto. A filoso- Cosmogonia e teogonia fia explica o surgimento do céu, do mar e da terra e Vemos, portanto, que o mito narra a origem das dos seres que neles vivem pelos movimentos e ações coisas por meio de lutas, alianças e relações sexuais de composição, combinação e separação de quatro entre forças sobrenaturais que governam o mundo e o elementos primordiais (úmido, seco, quente e frio). destino dos seres humanos. Como os mitos sobre a 3. mito não se importava com contradições, origem do mundo são genealogias, diz-se que são cos- com o fabuloso e o incompreensível. Não só porque mogonias e teogonias. esses eram traços próprios das narrativas religiosas, como também porque a confiança e a crença no mito vinham da autoridade religiosa do narrador. cosmogonia: gonia origina-se do verbo grego gennao 'fazer nascer e crescer') e do A filosofia, ao contrário, substantivo genos não admite contradições, fa- Gonia, portanto, quer dizer a partir da concepção sexual e do bulação e coisas incompreen- Assim, a cosmogonia é a narrativa sobre o nascimento síveis, mas exige que a expli- e a organização do mundo (cosmos) a partir de forças cação seja coerente, lógica e geradoras (pai e mãe) divinas. racional. Além disso, a auto- ridade da explicação não vem teogonia: palavra composta de gonia e theos, que, em da pessoa do filósofo, mas da grego, significa coisas 'os seres 'os deuses'. A teogonia portanto, a narrativa da origem dos razão, que é a mesma em to- deuses a partir de seus antepassados. dos os seres humanos. 36 Capítulo 3 Digitalizada com CamScanner

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