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Augusto Grieco - Formação Jurisprudencia Administrativa do Direito Previdenciário - Os Enunciados do Conselho de Recursos da Previdência Social - Ano 2007

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mais próxima da
disciplina processual que da administrativa e, dessarte, muito mais
afeta a um “Direito Processual Administrativo” que a um “Direito
Administrativo Processual”.140
Assim, há uma Teoria Geral do Processo que ilumina todas as espécies
processuais. Ademais, o que se vem afirmando nas linhas acima encontra suporte no próprio
Direito Constitucional.
 
138 BUENO, Cássio Scarpinella. A Emergência do Direito Processual Público. In Direito Processual Público. A
Fazenda Pública em Juízo. 1 ed. 2 tir. Coordenadores Carlos Ari Sundfeld & Cássio Scarpinella Bueno. São
Paulo: Malheiros, 2003. pp. 31-44. p. 32.
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A Constituição da República de 1988 retira das sombras o processo administrativo
ao prescrever em seu art. 5º, inciso LV, que aos litigantes, em processo judicial ou
administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com
os meios e recursos a ela inerentes. 
Desta forma, o processo administrativo encontra dignidade constitucional, apesar
de ainda existirem aqueles que reputam uma atuação eivada de atecnia por parte do
Constituinte Originário ao redigir o citado dispositivo constitucional, entendendo esses
autores141 que o termo adequado para expressar essa realidade da atividade estatal seria
procedimento administrativo.
Além de dignidade constitucional, acrescente-se que o processo administrativo foi
alçado à categoria de direito fundamental, já que o preceito acima referenciado está inserido
no título que trata dos direitos e garantias fundamentais, mais precisamente no capítulo dos
direitos e deveres individuais e coletivos (Título II, Capítulo I, da Constituição da República
de 1988). E como direito fundamental do administrado em face da Administração Pública,
impõe-se ao Estado a contrapartida de estabelecer processos administrativos garantistas,
céleres e adequados às prestações públicas que, por intermédio deles, se pretendam verter à
sociedade.
Do exposto acima, reconhece-se a existência de processos estatais jurisdicionais e
não-jurisdicionais, conforme se trate do exercício do conjunto de atividades a que se
convenciona chamar de jurisdição, ou de outra manifestação do poder estatal.
Cada um dos processos estatais está sujeito a determinados princípios próprios,
específicos, adequados para as funções que lhes incumbe. Desta forma, o processo
administrativo não pode ser exatamente igual ao processo judicial nem ao processo
legislativo.
 
139 CRETELLA JUNIOR, José. Prática do Processo Administrativo. 4 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, 2004. p. 29.
140 MARINS, James. op. cit., p. 158.
141 Entre estes é possível identificar Carlos Ari Sundfeld, Lúcia Valle Figueiredo e Marçal Justen Filho, que pelo
peso dos autores torna-se conveniente visitar seus pensamentos nas obras que discorrem sobre o tema. Egon
Bockmann Moreira faz uma breve síntese do pensamento desses três grandes autores brasileiros em sua obra
Processo Administrativo, nas pp. 43-52.
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Apesar dessa constatação lógica, é certo que todos os tipos de processos estatais
devem obedecer a princípios comuns, como da competência, da formalidade142, da
predominância do interesse público sobre o particular, o que permite o reconhecimento de
uma teoria geral do processo. 
Concluindo esse primeiro tópico, verifica-se que no ordenamento constitucional
brasileiro há espaço para o reconhecimento da existência de processo não-judicial afeto ao
deslinde de certas questões em que se contrapõem os interesses do Poder Público e dos
administrados. Ao lado desses processos de natureza litigiosa, há os processos não-
contenciosos (também denominados de graciosos) manejados pela Administração Pública
com vistas a atender os interesses públicos primários, como instrumento para o exercício da
cidadania através de um diálogo contínuo com o Estado. 
Mais uma vez utilizando os ensinamentos de José Cretella Jr., transcreve-se trecho
em que o autor se abebera nos conhecimentos de Aurélio Guaiata, in verbis:
Por definição, o processo administrativo é uma categoria
especial do gênero processo, do que concluímos – não importa a
disparidade existente – que as conclusões a que se chegou na teoria
geral do direito processual sejam perfeitamente válidas para nós. O
processo administrativo é essencialmente idêntico às demais espécies
de processos.143
Diante da função estatal de proteção social, há um processo administrativo
previdenciário que serve de instrumento para a entrega das prestações previdenciárias aos
beneficiários atingidos pelas contingências sociais, bem como para a solução de controvérsias
no âmbito da Administração Pública Previdenciária. Ao mesmo tempo, direito fundamental
do administrado e instrumento de manejo da Administração Pública para o atendimento dos
interesses públicos.
 
142 Apesar de ser citado como princípio do processo administrativo o informalismo em favor do administrado (por
todos, vide Wellington Pacheco Barros, Curso de Processo Administrativo, pp. 64-64).
143 CRETELLA JR., Prática do Processo Administrativo, p. 42.
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3.2 Processualidade Administrativa
Considerando a crescente complexidade do Estado contemporâneo e a sua forma
de atuar no plano fenomênico, o presente assunto vem ganhando cada vez mais relevo, seja na
doutrina, na jurisprudência ou no direito positivo.
O tema da processualidade administrativa tem sido objeto de um estudo mais
atento, sobretudo no campo do Direito Administrativo. Esta assertiva pode ser aferida pela
crescente produção acadêmica e obras doutrinárias, de caráter dogmático ou eminentemente
prático144. 
O Direito posto, como não poderia deixar de ser, encontra-se apinhado de
exemplos de processos administrativos. Atualmente, o assunto não se encontra mais restrito à
seara disciplinar, licitatória, fiscal ou tributária. 
Exemplificando, encontra-se a descrição de processos administrativos na Lei nº
9.503/97 - Código de Trânsito Brasileiro (arts. 280 a 290), na Lei nº 9.507/97 – Lei do
Habeas Data (arts. 2º a 4º), processo de avaliação periódica de desempenho de servidor
público no qual se assegura o direito à ampla defesa (art. 41, § 1º, da Constituição da
República de 1988, com a redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998). 
Por derradeiro, a promulgação da Lei nº 9.784/99, que regula o processo
administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, e que vem sendo adaptada por
vários Estados da Federação, revela inexoravelmente, a intenção do Legislador Ordinário em
desenvolver um direito processual administrativo.
Assim, concordamos plenamente com Marcelo Caetano no sentido de que a
atividade da Administração Pública é efetivamente, no plano dos fatos, uma atividade
processual145.
 
144 O aumento de obras doutrinárias sobre o processo administrativo revela o interesse crescente na matéria.
Outrora se observava que as várias obras acerca da matéria encontravam-se restritas ao campo do processo
fiscal (ou tributário) ou disciplinar. Hodiernamente, há diversos trabalhos que traçam uma verdadeira teoria geral
do processo administrativo e outros se cingem a ramos específicos do Direito, como por exemplo, o Direito
Previdenciário.
145 CAETANO, op. cit., p. 722.
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A Administração Pública atua, no plano fático, por intermédio de atos
administrativos. O ato administrativo, por sua vez, pode ser conceituado como sendo a
exteriorização da vontade da Administração Pública ou de seus delegatários que, sob regime
de direito público, tenha por fim adquirir,