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Augusto Grieco - Formação Jurisprudencia Administrativa do Direito Previdenciário - Os Enunciados do Conselho de Recursos da Previdência Social - Ano 2007

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atuações
convergentes para se atingir os objetivos da ordem social.
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Contudo, haveria convergência se o INSS denegasse o pedido da prestação
previdenciária? Entendemos que sim. Embora a convergência, nesse caso, não se dê em
relação ao anseio do requerente, se dá com a própria higidez do sistema de proteção social.
Melhor explicando: como uma “seguradora”, o INSS somente pode conceder a prestação
requerida pelo virtual beneficiário quando houver a perfeita adequação da hipótese fática ao
preceito primário protetivo (antecedente da norma de proteção). Toda vez que é concedido um
benefício previdenciário a quem não preenche os pressupostos legais, é a sociedade protetora
que sofre as conseqüências materiais dessa ilegalidade.
Desta forma, a origem do processo administrativo previdenciário se dá com a
entrada do requerimento administrativo no INSS; a interposição do recurso ao CRPS inaugura
a segunda fase do processo administrativo, em sua vertente contenciosa. O esquema gráfico
do processo administrativo previd cessão de benefício, por exemplo),
integrando as suas duas fases pode se guinte forma:
CCoonncceessssããoo ddoo
BBeenneeffíícciioo
SSaattiissffaaççããoo
PPlleennaa
SSaattiissff
PPaarrcc
enciário (de con
r apresentado da se
RReeqquueerriimmeennttoo
AAddmmiinniissttrraattiivvoo
aaççããoo
iiaall
DDeenneeggaaççããoo ddoo
BBeenneeffíícciioo
RREECCUURRSSOO
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No momento em que o interessado interpõe o recurso ao CRPS, tem início a
segunda fase do processo administrativo previdenciário, agora não mais gracioso e sim
contencioso. Em uma visão global, poder-se-ia considerar que o processo administrativo
contencioso, na eventualidade de interposição de recurso, seria uma continuidade do processo
administrativo gracioso; haveria, na verdade, uma subjetivação dos envolvidos, ou seja,
assumiriam a posição de partes, sujeitos da relação jurídica processual administrativa. Essa
visão unitária da fenomenologia processual administrativa é esposada por Miguel Horvath
Júnior.
(...) temos dois procedimentos administrativos: um que tramita
no âmbito do INSS (...) e outro que tramita no âmbito do CRPS,
porém, na verdade o procedimento que tramita no CRPS é uma
continuação do procedimento do INSS.176
Segundo Wagner Balera177, o direito às prestações sociais segue se expressando
por meio de um dar, de um fazer ou por meio de adequada combinação dessas duas
modalidades de atuação social dos Poderes Públicos.
Via de regra, para usufruir a proteção social, o interessado deve provocar a
Administração Pública, a qual exercerá a função administrativa previdenciária enquadrando
ou não o postulante no esquema protetivo. 
O fato jurídico previdenciário é aquele acontecimento perceptível pelos sentidos
humanos, que se realiza no tempo e no espaço, e cujo conceito corresponde ao antecedente da
norma jurídica impositiva previdenciária. O INSS, após ser provocado pelo interessado, irá
aferir os elementos postos para sua análise verificando a subsunção do fato jurídico
previdenciário ao antecedente normativo de proteção.
Mais uma vez utilizamos os ensinamentos de Wagner Balera:
O pleito do interessado se expressa, via de regra, em
formulário – o pedido de benefício – que, sob o aspecto formal, deve,
a um só tempo, descrever o estado de necessidade (caracterizando a
situação de fato definida em lei como risco social); demonstrar a
 
176 HORVATH JÚNIOR, op. cit. p. 392.
177 BALERA, Processo Administrativo Previdenciário, p. 26.
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qualidade jurídica do requerente e indicar a espécie de prestação que
se postula.178 
O requerimento administrativo de benefício encontra-se amparado pelo direito de
petição garantido pela Constituição da República de 1988, nos termos de seu art. 5º, inciso
XXXIV: são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas, o direito de
petição aos poderes públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder. 
Canotilho ensina que se deve entender como direito de petição a faculdade
reconhecida a indivíduo ou grupo de indivíduos de se dirigir a quaisquer autoridades públicas
apresentando petições, representações, reclamações ou queixas “destinadas à defesa dos seus
direitos, da constituição, das leis ou do interesse geral”179. 
Como direito fundamental do indivíduo, e quanto a isso não devem pairar
dúvidas, o Estado não pode se negar a processar o feito sob qualquer argumento. Tanto isso é
verdade que há dispositivo legal expresso que veda a Autarquia Previdenciária recusar o
recebimento do requerimento do administrado, senão vejamos: a apresentação de
documentação incompleta não constitui motivo para recusa do requerimento de benefício
(art. 105 da Lei nº 8.213/91).
Entendemos que não basta a Autarquia Previdenciária receber o requerimento
administrativo do interessado; a Administração Pública deve proceder a sua regular instrução
e decidir sobre o pleiteado dentro de um prazo razoável, sob pena de tornar a via
administrativa um percalço ao direito do cidadão. A Emenda Constitucional nº 45/2004,
conhecida como Reforma do Judiciário, inseriu mais um inciso no art. 5º da CRFB/88
justamente para tratar da celeridade do processo (princípio da celeridade processual, agora
como direito fundamental do indivíduo): inciso LXXVIII – a todos, no âmbito judicial e
administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a
celeridade de sua tramitação.
Em obediência a esse preceito constitucional, recente alteração na Lei de
Benefícios180 introduziu o art. 41-A, que em seu § 3o dispõe expressamente que o primeiro
 
178 Ibid., p. 28.
179 CANOTILHO, op. cit., p. 512.
180 Artigo incluído pela Lei nº 11.430, de 26 de dezembro de 2006. Cabe destacar que disposição semelhante já
existia no Decreto nº 3.048/99, em seu art. 174. 
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pagamento de renda mensal do benefício será efetuado até quarenta e cinco dias após a data
da apresentação pelo segurado da documentação necessária a sua concessão. 
É por intermédio de um pedido (requerimento administrativo) que o interessado
leva ao conhecimento da Administração Pública Previdenciária a ocorrência no mundo
fenomênico da contingência social que lhe coloca em estado de necessidade. 
 Apresentado o pedido perante a Administração Pública, esta se movimentará
através de sua processualidade, sob o aspecto dinâmico (movimento rumo a uma finalidade) e
estático (resultado obtido em razão do movimento).
No nosso sentir, o processo administrativo é a forma pela qual o administrado
“dialoga” com a Administração Pública. Levando ao conhecimento da Administração uma
pretensão (por intermédio de um pedido), impõe que esta lhe “escute” e se manifeste sobre o
pedido (decida, segundo o ordenamento jurídico, ou seja, em obediência ao princípio da
legalidade), manifestação essa que se revela como uma obrigação. 
Desta feita, através do regular processamento administrativo, o INSS irá apurar e
decidir sobre os elementos apresentados pelo virtual beneficiário. Constatada pelo INSS a
perfeita adequação entre o acontecimento concreto e todos os critérios da norma geral e
abstrata, operar-se-á a incidência do antecedente normativo mediante a concessão do
benefício previdenciário, o que se faz por meio de um ato administrativo, que é norma jurídica
individual e concreta.
Não há concessão de benefício previdenciário instantânea. Por mais simples que
seja a análise do pedido feito perante o INSS, sempre haverá um conjunto de atos executados
pela Administração Pública que conduzirá o pleito a seu momento consumativo, formalizado
em um ato decisório positivo ou negativo. Positivo com a concessão do benefício; negativo
com a denegação.